Como citar este capítulo: BRITO, M.A.V.P., COSTA, F.F., SOUZA, G.N., BRITO, J.R.F., OLIVEIRA, R.D. Influência de sais solúveis de cálcio e citrato na estabilidade do leite ao etanol. In: DURR, J.W., CARVALHO, M.P., SANTOS, M.V. O Compromisso com a Qualidade do Leite. Passo Fundo: Editora UPF, 2004, v.1, p. 284-289. INFLUÊNCIA DE SAIS SOLÚVEIS DE CÁLCIO E CITRATO NA ESTABILIDADE DO LEITE AO ETANOL M.A.V.P. Brito1, F.F. Costa2,3, G.N. Souza2, J.R.F. Brito2, R.D. Oliveira3 1 Pesquisador, Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 36038-330, Juiz de Fora, MG; 2Departamento de Química, ICE, Universidade Federal de Juiz de Fora, MG; 3 Bolsa EMBRAPA. E-mail: [email protected]. Introdução As primeiras informações sobre o teste do álcool para avaliação do leite foram publicadas na Alemanha, em 1890. O teste do álcool foi empregado para avaliar a qualidade da conservação do leite entregue na indústria, principalmente, para determinar se este apresentava acidez resultante do crescimento bacteriano (1). A partir de 1900, diversos trabalhos foram publicados, principalmente na Europa e Estados Unidos em que se avaliou o teste do álcool. Diversas evidências foram apresentadas que o leite fresco, de boa qualidade e com baixas contagens bacterianas coagulavam no teste, e que outros fatores diferentes da acidez causavam um resultado positivo. O colostro é sempre positivo. O leite do final da lactação ou de rebanhos com altas taxas de mastite subclínica também podem dar reação positiva no teste (2). O papel dos componentes do soro na coagulação do leite pelo etanol foi destacado por Sommer & Binney (3). Eles mostraram que a adição de pequenas quantidades de sais de cálcio e magnésio tornavam o leite instável, enquanto o citrato tinha o efeito oposto. Posteriormente Davies & White (4) mostraram que a concentração de etanol necessária para coagular o complexo de caseinato em um volume igual de leite foi inversamente relacionada à concentração de cálcio ionizado no leite. Aproximadamente 60% da variação da estabilidade encontrada foi devida à variação na concentração de cálcio (Ca2+) iônico. Em 1981, Horne & Parker (5) retomaram os estudos da coagulação do leite pelo etanol, como parte de um trabalho mais amplo, para compreensão das forças e fatores que controlam a estabilidade do sistema de micelas da caseína (6). Eles mostraram (5) que ajustando-se o pH do leite na faixa de 5,9 a 7,5 era possível descrever um perfil da estabilidade do leite ao etanol, característico de cada leite. O perfil tem a forma de uma curva sigmóide, sendo caracterizado por quatro variáveis mensuráveis: estabilidade mínima e máxima, inclinação e ponto de inflexão. Os estudos realizados ofereceram evidências definitivas de que a estabilidade do leite ao etanol é governada por componentes difusíveis do soro do leite, sendo a concentração de Ca2+ o principal componente envolvido. Íons de fosfato e magnésio também podem afetar a coagulação (5, 6). A partir de estudos realizados em diversos rebanhos leiteiros (7) os fatores que mais contribuíram para a variação da estabilidade ao etanol foram o alto balanço de sais solúveis no final da lactação e o baixo pH natural do leite no início. O balanço salino foi expresso como os valores de (Ca + Mg) – (Pi + Cit) ou como a razão entre (Ca + Mg) : (Pi + Cit). As variações naturais desses parâmetros podem ser atribuídas a variações nas concentrações dos cátions divalentes e seus quelantes. Foi possível demonstrar algebricamente que a concentração de cálcio solúvel livre era governada pelo balanço de sais solúveis. Leites com alta concentração de cálcio livre são menos estáveis do que aqueles com baixa atividade de Ca2+ (5). Disponível em: http://www.cbql.com.br/biblioteca.php 1 Como citar este capítulo: BRITO, M.A.V.P., COSTA, F.F., SOUZA, G.N., BRITO, J.R.F., OLIVEIRA, R.D. Influência de sais solúveis de cálcio e citrato na estabilidade do leite ao etanol. In: DURR, J.W., CARVALHO, M.P., SANTOS, M.V. O Compromisso com a Qualidade do Leite. Passo Fundo: Editora UPF, 2004, v.1, p. 284-289. O objetivo deste trabalho foi avaliar a ação de sais de cálcio, fosfato e citrato no ponto de coagulação do leite, no seu pH natural. Foi também avaliada a adição desses sais no perfil de estabilidade do leite em relação ao pH. Material e Métodos Amostras de leite de cinco vacas foram coletadas com cuidados de assepsia e colocadas em frascos estéreis. Foram transportadas imediatamente até o laboratório em caixas isotérmicas com gelo. Foi determinado o ponto de coagulação para o etanol antes e depois da adição de quantidades milimolares de cloreto de cálcio, citrato de sódio e fosfato de sódio. Para a determinação do ponto de coagulação foram empregadas soluções de etanol variando de 66% a 95% (v/v), tomando-se 1,0 ml de etanol e 1,0 ml de leite. Em cada uma das cinco amostras o pH foi ajustado na faixa de 6,0; 6,5; 7,0; 7,5 e 8,0 com solução NaOH ou HCl e o ponto de coagulação de cada valor de pH foi determinado. A cada valor de pH ajustado das cinco amostras adicionou-se concentrações milimolares dos sais de cálcio, citrato e fosfato. O ponto de coagulação de cada amostra foi novamente determinado, empregando-se concentrações de etanol como acima. A contagem total de bactérias das amostras de leite foi determinada segundo Marshall (9), empregando-se petrifilms. Resultados e Discussão Os resultados da determinação do ponto de coagulação no pH natural do leite e após adição de concentrações milimolares de sais de cálcio, fosfato e citrato são apresentados na Tabela 1. Como pode ser observado, quando se adicionou cálcio ao leite, o ponto de coagulação de todas amostras abaixou. A adição de citrato e fosfato causou aumento do ponto de coagulação em quatro das cinco amostras. Em algumas dessas amostras, para se conseguir o ponto de coagulação a 95% (maior concentração de etanol testada), foi necessário adicionar 1,5 volumes de etanol. A contagem total de bactérias para as amostras variou de 6 x 104 a 10 x 105 para as cinco amostras. A determinação do ponto de coagulação de acordo com o pH é apresentada na Figura 1. Os resultados mostram um perfil de estabilidade semelhante ao descrito por Horne & Parker (5). Este se apresenta na forma de uma curva sigmóide, com a estabilidade diminuída em valores de pH baixo e aumentada até o máximo em valores de pH alto. Quando concentrações milimolares de cálcio e citrato foram adicionadas, verificou-se o deslocamento da curva sigmóide para pH ácido e pH alcalino, respectivamente. A adição de fosfato causou efeito semelhante ao observado com o citrato (resultados não mostrados na Figura 1). O papel do cálcio iônico e do equilíbrio salino do leite devem ser considerados quando da aplicação do teste do álcool para avaliação de amostras de leite. Esse fato deve ser especialmente considerado se o teste do álcool é um fator de rejeição do leite pela indústria. Disponível em: http://www.cbql.com.br/biblioteca.php 2 Como citar este capítulo: BRITO, M.A.V.P., COSTA, F.F., SOUZA, G.N., BRITO, J.R.F., OLIVEIRA, R.D. Influência de sais solúveis de cálcio e citrato na estabilidade do leite ao etanol. In: DURR, J.W., CARVALHO, M.P., SANTOS, M.V. O Compromisso com a Qualidade do Leite. Passo Fundo: Editora UPF, 2004, v.1, p. 284-289. Tabela 1. Determinação do ponto de coagulação de amostras de leite de vacas individuais no pH natural do leite e após adição de concentrações milimolares de sais de cálcio, fosfato e citrato. Amostras pH 1 2 3 4 5 6,88 6,9 6,82 6,86 6,75 Leite normal 95 82 76 95 76 Cit-Na 95 92 88 95* 78 Ponto de coagulação obtido com 1,5 volume de etanol a 95% (v/v) em relação ao leite. Estabilidade ao etanol (V/V%) • Ponto de coagulação frente ao etanol CaCl2 Na3PO4 66 78 95 68 82 78 95* 70 95* 350 300 250 200 150 100 50 0 6,0 6,5 6,8 7,0 7,5 8,0 pH Polinômio (Leite normal) Polinômio (Leite com citrato) Polinômio (Leite com cálcio) Figura 1. Variação da estabilidade do leite frente ao etanol (%v/v) de acordo com o pH antes e após a adição de sais de cálcio e citrato. Apoio financeiro: Embrapa Gado de Leite. Referências 1. Ayers, S.H.; Johnson Jr., W.T. The alcohol test in relation to milk. Bulletin of the U.S. Department of Agriculture. Washington: Government Printing Office, no. 202, p.1-35, 1915. 2. Rogers, L.A. Fundamentals of Dairy Science. New York: Reinhold Publishing Corporation. 1935, 616p. 3. Sommer, H.H.; Binney, T.H. A study of the factors that influence the coagulation of milk in the alcohol test. J. Dairy Science, v. 6, p. 176-197, 1923. 4. Davies, D.T.; White, J.C.D. The relation between the chemical composition of milk and the stability of the caseinate complex. II Coagulation by ethanol. Journal of Dairy Research, v.25, p. 256-267, 1958. Disponível em: http://www.cbql.com.br/biblioteca.php 3 Como citar este capítulo: BRITO, M.A.V.P., COSTA, F.F., SOUZA, G.N., BRITO, J.R.F., OLIVEIRA, R.D. Influência de sais solúveis de cálcio e citrato na estabilidade do leite ao etanol. In: DURR, J.W., CARVALHO, M.P., SANTOS, M.V. O Compromisso com a Qualidade do Leite. Passo Fundo: Editora UPF, 2004, v.1, p. 284-289. 5. Horne, D.S.; Parker, T.G. factors affecting the ethanol stability of bovine milk. I. Effect of serum phase componentes. Journal of Dairy Research, v.48, p. 273-84, 1981. 6. Horne, D.S. Ethanol stability. In Fox, P.F.; McSweeney, P.L.H. ed., Advanced Dairy Chemistry. Volume I: Proteins, 3rd ed. New York: Kluwer Academic / Plenum Publishers, p.975-999. 2003. 7. Donnelly, W.J.; Horne, D.S. Relationship between ethanol stability of bovine milk and natural variations in milk composition. Journal of Dairy Research, v.53, p. 23-33, 1986. 8. Marshall, R.T. Standard methods for the examination of dairy products. 16 ed., Washington D.C.: American Public Health Association, 1992, 546p. Disponível em: http://www.cbql.com.br/biblioteca.php 4