II – Pesquisas em Andamento - Lingüística O MANIFESTO, DISCURSO FUNDADOR DO PARTIDO DOS TRABALHADORES (PT), E A CARTA DE PRINCÍPIOS, QUE O ANTECEDEU: UMA ABORDAGEM DIALÓGICA Miguel Espar-Argerich (Doutorando) Resumo: O discurso político, como nenhum outro, vem marcado pelo seu caráter dialógico e polifônico, com seus ecos, vozes e interesses envolvidos, expressão do engajamento social e da interação entre indivíduos e grupos. O texto trata das convergências e divergências entre o Manifesto, discurso fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), e a Carta de Princípios, discurso que o antecedeu. Procura detectar fios dialógicos que induzam a identificar acentuações, deslocamentos ou exclusões, ditos e não ditos, a respeito de temas como socialismo, democracia, luta de classes, organização dos trabalhadores, partido de massas, exploração e opressão, exclusão e inclusão social. Palavras-chave: discurso; político; partido. REFLEXÕES INICIAIS Provavelmente um pesquisador que se reivindique analista do discurso tenderá, inicialmente, a apresentar indagações ou perguntas como as que são enunciadas a seguir: o que é que pretendem dizer mesmo esses textos? Com quem interagem? A que questões pretendem responder? A quem interessam os discursos e por quê? Ou, ainda, podem surgir questões menos óbvias como estas outras: o que esse texto ou discurso diz sem o dizer? ou o que não diz ao dizer? Ou, também, para que serve? Que efeitos produz? Age em que sentido? As respostas a algumas dessas questões serão a colheita resultante do trabalho de análise realizado. A princípio, parece-nos fora de questionamento que considerar o texto como algo independente dos sujeitos - como um construto estável de idéias e conceitos, gravados em pedra sagrada - eliminaria qualquer hipótese de interação que não fosse a de agir para a mera decodificação face os textos. A análise textual sobraria, não haveria espaço para ela. Por isso, assumimos que o texto sempre será lido de uma forma nova, pessoal, única. Assim, introduzimos a perspectiva do discurso como imbricado na existência do texto como sendo ‘texto-para-alguém-num-tempoe-lugar-determinados’. Algo que lembra a postura aberta e visão ‘escatológica’ de Bakthin (1997:392-393), em seus últimos apontamentos, do ano 1974, ao tratar de uma metodologia das ciências humanas: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 202 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística “Não existe nem primeira nem última palavra, e não existem fronteiras para um contexto dialógico (ascende a um passado infinito e tende igualmente a um futuro igualmente infinito.) Não existe nada morto de uma maneira absoluta: cada sentido terá sua festa de ressurreição. Problema do grande tempo”.1 A sabedoria popular, para relativizar a verdade de pretensas verdades, costuma dizer que “há discurso para tudo”. François ao falar na interpretação como “relação em tanto que” reconhece estas realidades ao considerar que cada um de nós é, de alguma forma, intérprete, leitor genérico e intérprete, leitor específico, sem poder especificar de forma unívoca o quanto é de um ou de outro. (1998:13-15) Procuramos inspiração nos trabalhos que realizaram Bakhtin e seu Círculo2 com textos literários. Ao definirem a palavra como "o fenômeno ideológico por excelência" ou ao advertir que a “palavra acompanha e comenta todo ato ideológico” (1997:36,37) estão entronizando-a na história, na sociedade e no coração dos homens, pois a palavra passará a ser veículo ou instrumento para expressar interesses, desejos, sonhos, elogios e reconhecimentos, juízos de valor e estéticos, rejeições, ataques, insultos, etc. A partir da constatação do valor social do signo, avaliado como sombra, reflexo e refração, portanto, como fragmento material das estruturas sociais envolventes, podemos assumir o dialogismo3 e a polifonia4, como identificáveis nos demais tipos de textos. Na linha do engajamento social, Bakhtin / Volochinov tratam a palavra como "o modo mais puro e sensível de relação social” (1997:36). A adjetivação precedente dedicada à palavra a coloca como privilegiada expressão e materialização das relações humanas. Em conseqüência, os estudos científicos das relações sociais representarão caminhos para o estudo científico da palavra e vice-versa, por ser ela própria, também, expressão da relação social. Assim, a palavra vem a ser “o material privilegiado da comunicação na vida quotidiana” (1997:37), até porque toda 1 “No existe ni primera ni última palabra, y no existen fronteras para um contexto dialógico (asciende a um pasado infinito y tiende igualmente a um futuro igualmente infinito) No existe nada muerto de uma manera absoluta: cada sentido tendrá su fiesta de resurrección. Problema del gran tiempo”. 2 Falarei no texto em Círculo de Bakhtin para identificar um âmbito de produção textual que nos chega de grupos de pensadores e lingüistas russos como Bakhtin, Volochinov e Mevedev que têm em comum a perspectiva coletiva e construtivista do conhecimento e que sofreram os rigores da censura stalinista obstruindo a possibilidade de pensar com liberdade.Clark e Holquist (1998), biógrafos e críticos de Bakhtin, observam vários períodos na sua participação em grupos de intelectuais. Em Nevel, de 1918 a 1924, com Pumpianski, Maria Iudina, Kagan e Gurvitch, partilha o entusiasmo pela Revolução Soviética assumindo a tarefa de ilustrar às massas. Em Leningrado o Círculo se amplia com Volochinov, Solertinski, Miedviediev, Kanaiev, Tubianski, Zalieski entre outros; Bakhtin é exilado, em represália a seus ideais cristãos e não adesão à ortodoxia marxista. Na década de 1930, expurgados e doentes, morrem a maioria dos membros do Círculo, sobrevivem, além de Bakhtin, doente, Kanaviev, Iudina e Zalieski. 3 Oposto ao monologismo que reflete uma única consciência: a do autor. Segundo o dialogismo, a palavra sempre possui um horizonte social, acontece nos processos de interação 4 Barros (2001:21-22) observa como os termos texto, discurso, enunciado tomaram “direções diversas, com princípios e métodos diferentes, assentados em quadros teóricos diversificados”. De fato, Bakhtin acaba sendo o precursor ou antecipador das principais perspectivas teóricas, bastante diferenciadas, desenvolvidas nos últimos trinta anos. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 203 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística palavra é determinada, como que contaminada (Bakhtin, 2000:311), tanto pelo fato de que procede de alguém como pelo fato de se dirigir para alguém. E Maingueneau chegará a afirmar que o interdiscurso, como heterogeneidade constitutiva, prevalece no discurso, considerado como prática discursiva, por esta ser fruto da interação social e estar sujeita a um sistema de restrições semânticas globais5 (2005:21-35). Ao acolher estas perspectivas teóricas como instrumentos adequados para desvelar o caráter das afirmações presentes nos discursos políticos, reconhecemos estes como sendo o fruto de complexos processos interativos, recheados de estratégias discursivas, de afirmações, argumentações e contra-argumentações, o fruto de confrontos de interesses em que se manifestam mais claramente as contradições. Moirand (2000,145-159) percebe a conveniência de trabalhar a contextualização em termos de relações sociais que extrapolam a situação, sugerindo para isso encarar todos os indícios do contexto como categorias de análise capazes de ajudar-nos a pôr em ordem a complexidade das heterogeneidades detectadas no texto. Alerta para o fato de que a própria recorrência de semas, palavras e construções funciona como indícios de contextualização para a memória discursiva. No âmbito da análise do discurso, a percepção da palavra como expressão da interação entre consciências e ideologias e do discurso como enunciação e como signo, vêm sinalizar na direção da apreensão da linguagem como evento fruto da interação social. Justamente é nesse horizonte epistemológico que se dá toda enunciação, e, mais particularmente, a enunciação do discurso político. Pois consideramos que é dentro de um processo sempre inacabado e permanentemente renovado de interação social onde se processam as linguagens e se geram as palavras, os textos e discursos. Isso representa um apelo ou sinaliza para a conveniência de abordar a palavra como realidade social concreta reveladora da interação humana; implica reconhecer a enunciação como a situação, como o evento em que se constituem os sentidos ao fazer uso das linguagens. Representa abrir a via da interação social na exploração do coração das práticas discursivas. Predispõe a efetivar a análise da palavra no discurso como sendo a resultante de uma construção inevitavelmente heterogênea, por ser coletiva. Assim, identificar teias de redes relacionais entre interação social e enunciação do discurso político escolhido, entre sociedade e discurso, constituem os eixos delimitadores do trabalho a realizar. Nele tratamos a palavra como expressão da 5 Segundo ele, o discurso é algo plenamente ideológico, construído em função de uma finalidade e submetido a regras; ele é interativo e forma de ação; é assumido por um sujeito, acontece contextualizado e deve ser considerado no bojo do interdiscurso. É preciso procurar o interdiscurso dentro do intradiscurso. A análise do discurso precisa de hipóteses que a tornem operacional. São elas: o primado do interdiscurso (a unidade de análise é a relação interdiscursiva como espaço de trocas); entre os discursos ocorre um processo de inter-incompreensão regrada a partir de simulacros; existe um sistema de restrições semânticas globais, que não é de palavras, frases, argumentos; a competência interdiscursiva se dá dentro da própria formação discursiva; o discurso é uma pratica discursiva mensurável que integra produções de outros domínios e interage com outros momentos dentro de um esquema de correspondência entre campos heterônimos; Explicita que o sentido não se encontra essencialmente ‘no’ enunciado mas na situação de enunciação. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 204 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística interação entre consciências e ideologias, o discurso como enunciação e como signo, a enunciação como interação social para chegar à interação na enunciação do discurso político. Tentar-se-á detectar fios dialógicos que induzam a identificar acentuações, deslocamentos ou exclusões a respeito de temas como socialismo, democracia, luta de classes, organização dos trabalhadores, partido de massas, exploração e opressão, exclusão e inclusão social. A partir dos dados obtidos, tratados como sendo instruções e restrições semânticas e semântico-pragmáticas orientadoras e geradoras de efeitos de sentido, tentaremos inferir conclusões. Ao tentar responder a elementares perguntas como o que quer dizer isso? Qual o verdadeiro sentido disso? Sente-se, sim, a vertigem da própria limitação, porque o “verdadeiro” não passará de uma verdade parcial, limitada temporal e espacialmente e o sentido está em permanente e diversificada construção. Cremos que, de fato, em ciências humanas, as proclamadas conclusões concluem pouca coisa ou, melhor, nada que possa ser verdadeiramente conclusivo. As conclusões não passam de tentativas de ‘dialogar’ com a realidade para desvendar algo da sua complexidade. Os achados considerados ‘científicos’ não passarão, em verdade de ‘verdades’ marcadas pela instabilidade, provisórias. Mas, nem por isso, deixarão de poder desfrutar de importância, de relevância. Quando obtidos por metodologias mais idôneas representarão avanços rumo à explicitação do inatingível ser das coisas, mas serão avanços. Significarão uma etapa mais vencida da interminável caminhada da busca do saber. Não acreditamos em ciência de valor absoluto: entendemos que os conhecimentos científicos portam em si a característica inevitável de pretensos saberes: amanhã serão, provavelmente, superados. Ao correlacionar textos, poderemos comprovar que é ilusão o isomorfismo das unidades léxicas: mesmo aceitando que pode haver gradação “sempre há subjetividade” sustentará Kerbrat-Orecchioni (1980:71-72); conclusão sintonizada com as idéias de Authier-Revuz (2004:37): “o lugar ‘do outro discurso’ não é ao lado mas no discurso”. A situação extra-verbal está longe de ser meramente a causa externa de um enunciado: ela não age sobre o enunciado como se fosse uma força mecânica; a situação se integra ao enunciado como uma parte constitutiva essencial da estrutura de sua significação. Conseqüentemente, um enunciado concreto como um todo significativo compreende duas partes: a primeira parte, percebida ou realizada em palavras, e a segunda parte, presumida, ou seja, o que constitui o não dito. O enunciado realizado em palavras, surgido de maneira significativa num determinado momento social e histórico, não pode deixar de tocar os milhares de fios dialógicos existentes, tecidos pela consciência ideológica em torno de um dado objeto de enunciação, não pode deixar de ser participante ativo do diálogo social. O enunciado surge desse diálogo como um prolongamento, como uma réplica. Marcellesi (1980:92) define o discurso político de uma forma, no mínimo, curiosa, mas bem expressiva: “discurso de um intelectual coletivo em busca da sua hegemonia”6. Este locutor coletivo existirá na medida em que exista um discurso 6 “discurso de un intelectual colectivo en busca de su hegemonia”. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 205 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística coletivo; e sua identidade será definida pelo lugar que ocupar nas relações de produção e como se posicionar perante elas. E, em não distante linha de pensamento, Monteforte (1980:12) acha fundamental interpretar as práticas discursivas sob a ótica da dinâmica do conflito. Ao refletir sobre o discurso político, transparece até com maior luminosidade a propriedade dessas considerações porque refletem a influência da consciência e das ideologias e refratam os interesses diversos, os sonhos e anseios históricos enfrentados de coletividades e indivíduos. O discurso político encarna, como nenhum outro, a realidade de estar marcado pelo seu caráter polifônico, conflitivo, dissonante, com seus ecos, vozes, discursos, histórias, situações e interesses envolvidos. Porque seus instrumentos, no processo de geração do discurso, são outros mais complexos e determinantes para os destinos não coincidentes da humanidade. Neste trabalho procuramos descobrir convergências e divergências entre grupos e indivíduos que se associam para comporem uma unidade de ação. Valernos-emos para tanto de contrastar dois documentos gerados em seu âmbito discursivo: o Manifesto, discurso fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), e a Carta de Princípios, discurso que o antecedeu. Estaremos à procura da interação discursiva existente entre essas manifestações fundadoras da identidade do Partido dos Trabalhadores, Pensamos que, de fato, o Manifesto interage com “A Carta de Princípios”, um documento assumido por dirigentes sindicais do ABC paulista que também apontava na direção de fundar um partido dos trabalhadores. Adotamos o critério de reconhecer temáticas que suscitam debates ardorosos dentro do Partido dos Trabalhadores. Este é o sentido de selecionar temas como socialismo, democracia, luta de classes, organização dos trabalhadores, partido de massas e organização partidária, exploração e opressão, exclusão e inclusão social. Trata-se de uma dinâmica de trabalho que responde a uma perspectiva que classificaria, enunciativa, sócio-histórica, sócio-interacionista e sócio-construtivista7: os diferentes discursos se constroem interagindo. Este tipo de trabalho entranha dificuldades particulares, como as lembradas por François ao referir que o intérprete do discurso e sua maneira de perceber os objetos, a distancia que se estabelece entre as características gerais do objeto e a sua especificidade acabam gerando uma certa tensão: “Facile à dire, difficile à dire” (1998:7-8). Em nossas análises, consideraremos como de relevância, por exemplo, a verificação de associações, apagamentos, ocultações, omissões, reiterações ou repetições, incorporações ou ênfases. Pesquisaremos centrados no propósito de detectar redes ou articulações de significação em enunciados e enunciações e na procura de pistas ou sinais lingüísticos, que permitam relacionar o dito e o não dito em discursos gerados num lugar chamado PT, um hábitat onde se dá uma forte confluência de interesses. Nesse lugar tentaremos identificar convergências e 7 A consciência e o conhecimento como construção em processo permanente de interação social. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 206 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística divergências interdiscursivas, verificar como nos objetos dos discursos ou na própria especificidade das entoações, e envolvendo a pretensa ou real racionalidade dos discursos políticos, existe uma amarração e penetração, por idéias gerais, por pontos de vista e por apreciações de outros discursos (Bakhtin, 1998:86). No fim, esperamos confirmar que comparar o discurso de ambos os documentos virá a tornar-se uma primeira amostra pública dos conflitos ideológicos existentes no PT e expressão das possibilidades aglutinadoras da unidade na luta. O PARTIDO DOS TRABALHADORES E SEU DISCURSAR Avaliamos ser relevante para a cidadania, para a sociedade brasileira, a apresentação crítica e dentro de uma perspectiva abrangente, dos embates discursivos que acontecem no Partido dos Trabalhadores; é significativo, parecenos, relacionar discursos que se confrontam abertamente ou descobrir discursos que estão por trás ou detectar aqueles que são enfatizados, introduzidos, apagados ou silenciados, etc.; em outras palavras, identificar a interação discursiva presente no espaço-tempo histórico em que nos coube viver. O Partido dos Trabalhadores ou PT existe como uma instituição política, que se reivindica atenta às exigências da sociedade brasileira. Diversas narrativas coincidem em que para tornar possível um Partido dos Trabalhadores, juntaram-se pessoas e grupos politicamente diferenciados e que vivenciavam opções que chegavam a ser díspares entre si: comunistas revolucionários, leninistas, stalinistas, trotskistas; socialistas cristãos e socialistas utópicos; e os simpatizantes ou círculos de influência de todos eles; também, cidadãos libertários pertencentes a diversos setores das várias classes sociais; segmentos de população organizados (dos movimentos popular, estudantil, das donas de casa, etc.) e movimentos eclesiais de base: uma mistura de homens e mulheres adultos e jovens de diversas raças e credos, que se declaravam idealistas e movidos por sonhos que convergiam na meta de alcançar um mundo mais humano. Para os grupos de opções revolucionárias, a possibilidade da existência legal de um partido novo, de orientação teórica socialista acabava sendo o guarda-chuva protetor, um amparo legal para a sua futura ação revolucionária específica e uma saída para o isolamento padecido historicamente no Brasil. O Partido dos Trabalhadores (PT) se constitui numa proposta de organização política genuína, na história política brasileira, ao incorporar a maioria das ideologias de esquerda numa proposta básica assimilável por todas elas; essa proposta expressa a opção pela via democrática como caminho a ser trilhado para a conquista do poder e, graças a isto, poder conquistar a inclusão social e a plena participação política dos trabalhadores e do povo. Ao focalizar discursos políticos assumidos como expressão partidária pelo Partido dos Trabalhadores, parece-nos que será factível tentar observar e mostrar como as deliberações iniciais do PT tentam incorporar a consciência de que na Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 207 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística complexa sociedade brasileira se enfrentam posições contrárias e interesses conflitantes, alguns contraditórios e irreconciliáveis entre si, portanto, difíceis de administrar e articular; como também, expressar a necessidade de mudar a realidade social, dado que a maioria da população, especialmente a que gera as riquezas, encontra-se excluída de poder desfrutá-las. A proposta básica do discurso que caracteriza o PT encontra seu espaço ideológico dentro de uma visão que diagnostica e combate às relações de poder instauradas na sociedade brasileira por considerá-las excludentes da maioria dos trabalhadores, concentradoras de renda e poder nas mãos de minorias privilegiadas e, conseqüentemente, alimentadoras da instabilidade, da violência e da marginalização. Com objetivos e discursos diversificados e, até, contrapostos, e, a partir de um Manifesto que, a princípio, não respondia plenamente às aspirações e propostas de qualquer um dos grupos engajados, mas que não excluía nenhum, muitos se engajaram na tarefa de satisfazer exigências legais para poder fundar e construir o PT. Tratava-se de uma proposta política oficialmente assumida por uma constelação de grupos, polarizada por uma liderança operária, um sindicalista nordestino retirante, dirigente metalúrgico, não vinculado a nenhum grupo de esquerda, que respondia pelo nome de Lula. O seu carisma ajuda a firmar o discursar petista na sociedade brasileira. O MANIFESTO E A CARTA DE PRINCÍPIOS, FRENTE A FRENTE: UMA PRIMEIRA AMOSTRA PÚBLICA DOS CONFLITOS IDEOLÓGICOS E DA CAPACIDADE AGLUTINADORA DO PT Dez meses separam, no tempo, a Carta de Princípios do posterior Manifesto do PT. Mas, talvez, sejam anos luz as diferenças de estilo e de visão ideológica que os separam. Daí que pode ser considerada uma primeira amostra excelente, por um lado, dos conflitos ideológicos existentes entre os fundadores do PT e dos que continuarão a acontecer ao longo da história do Partido, e, por outro lado, do poder coesivo desta proposta de partido. Para mostrar isso, não será necessário realizar uma comparação exaustiva do discurso de ambos os textos. Até, em razão do caráter prévio do primeiro documento e de sua menor representatividade: a Carta de Princípios é fruto de uma “Comissão Nacional Provisória” composta por dirigentes de sindicatos da região do ABC paulista que expressam a consciência de serem eles os “lançadores do PT”; já, o Manifesto traz o aval de 1.200 presentes num ato de promulgação e foi oficializado como texto fundador. A princípio, parece justo pensar que o texto do Manifesto, por tratar-se de um texto fundador, representa o consenso máximo a que puderam chegar as diversas forças políticas e sociais que se articularam. Neste sentido, os enunciados presentes no texto servirão de primeira porta de entrada ao processo de articulação discursiva Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 208 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística dessas forças; sem esquecer da importância de outras portas, como as representadas pelos não ditos, as ausências e as supressões efetuadas nos textos. A interlocução dentro do PT, desde os primeiros momentos, pode ser estimada como complexa em razão da coexistência de algumas posições que além de se considerarem adversárias entre si, acreditam serem donas e depositárias da verdade. Isso trará como conseqüência, quando da necessidade de adotar deliberações partidárias, que se instalem acirrados campos de batalha ideológicos, sem ter a expectativa de como alcançar um ponto final. Adotamos a perspectiva de considerar que o Manifesto escuta, interage com as vozes que suscita a Carta de Princípios e, de alguma forma, é resposta a elas aceitando-as, mudando-as ou negando-as. Negando-as, inclusive, ignorando-as. Em razão de uma maior objetividade, deixaremos de centrar a atenção nas coincidências, sem dúvida, importantes, para priorizar algumas das nãocoincidências. Isso com a finalidade de começar a explicitar a tensa relação ideológica que permeia a existência do PT desde antes da sua constituição ou existência legal, oficial. Como detalhe inicial, podemos observar que o texto da Carta de Princípios começa universalizando historicamente a idéia de formação de um partido só de trabalhadores ao afirmar que “é tão antiga quanto a própria classe trabalhadora”8, o que contraria, em parte, as pretensões de ação inicial, de novidade crítica e de expressão da maturação processual dos trabalhadores brasileiros proclamadas no Manifesto: “Mas, tendo de enfrentar um regime organizado para afastar o trabalhador do centro de decisão política, começou a tornar-se cada vez mais claro para os movimentos populares que as suas lutas imediatas e específicas não bastam para garantir a conquista dos direitos e dos interesses do povo trabalhador. Por isso, surgiu a proposta do Partido dos Trabalhadores” . A mudança existente entre um e outro discurso é flagrante. A proposta do Partido, segundo o Manifesto, surge naquele momento como fruto de um processo lento que finalmente é assumido. Enquanto que caberia indagar à Carta: onde situa, onde se remonta, em antiguidade, a classe trabalhadora? à primeira rebelião popular da história? As dúvidas que suscita a possibilidade de respostas objetivas, parecem denunciar que estamos perante enunciados de caráter retórico. Ao examinar e contrastar os conteúdos de ambos os textos, ficaremos restritos a comentar alguns aspectos enunciados de forma genérica. Como fruto da pluralidade de visões existentes entre as formações e indivíduos que se engajaram na construção do PT desde a primeira hora as propostas que ganham força são aquelas que podem significar democracia e inclusão social e política para a maioria do povo. 8 As referências ao Manifesto e à Carta de Princípios têm sua origem no endereço da Internet que consta nas Referências Bibliográficas. Sugerimos que seja visitado para conferir os textos citados. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 209 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística Possivelmente a mais radical das coincidências entre os documentos seja a visão de uma sociedade utópica, igualitária, sem exploração. No caso da formulação da Carta de Princípios encontramos: “O Partido dos Trabalhadores define-se, programaticamente, como um partido que tem como objetivo acabar com a relação de exploração do homem pelo homem”. Na formulação do Manifesto pode-se ler: “O PT buscará conquistar a liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores”. Em relação a como outras vozes da Carta de Princípios ressoam no Manifesto é visível como ambos os documentos mantêm explícito o enfrentamento de dois mundos: o mundo dos exploradores, com privilégios e poder, de um lado, formado pelas classes dominantes, por grupos que controlam o aparelho de Estado e que têm sede de opressão e de privilégios; e o outro mundo, o dos explorados, sem privilégios e sem poder, o mundo em que o “povo brasileiro está pobre, doente e nunca chegou a ter acesso às decisões sobre os rumos do país”, porque são ignorados os interesses das amplas massas exploradas, desde sempre, marginalizadas material e politicamente. Em relação a outros conteúdos dos documentos, o assunto para nós mais surpreendente é o do apagamento, o da não explicitação formal da aposta pelo socialismo no Manifesto, quando constou na Carta de Princípios com a formulação a seguir: “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas massas, pois não há socialismo sem democracia nem democracia sem socialismo”. O certo é que ao longo dos 26 anos de existência do PT correram rios de tinta para definir e expor o socialismo petista enquanto no Manifesto não consta esta palavra. Constam, sim, como referido antes, propostas para construir uma sociedade igualitária, o qual muitos chamariam de sociedade socialista. A Carta surpreende por apresentar afirmações hiperbólicas, pois não parecem comprováveis nem acordes - batem de frente - com a memória e o legado históricos da humanidade. Mesmo que a história oficial seja escrita pelos vencedores - que tentam deturpar ou apagar os aspectos positivos dos vencidos – torna-se difícil acatar como algo acontecido o contido em afirmações como a seguinte: “Mas sempre que as lideranças dos trabalhadores e oprimidos se lançam à tarefa de construir essa organização independente de sua classe, toda sorte de obstáculos se contrapõe a seus esforços. Essa situação vivida milhares de vezes em todos os países do mundo vem acontecendo agora no Brasil”. Observemos que não dá para acreditar na ocorrência da obstrução de milhares de tentativas de formação de partidos políticos como o dos trabalhadores que está sendo proposto; e menos ainda, que isso tenha ocorrido milhares de vezes em todos os países do mundo e só agora no Brasil. Por sua parte, o Manifesto demonstra exagero ao quantificar em milhões o sentimento de necessidade em relação à existência do PT (ainda hoje o PT não atingiu um milhão de filiados) e ao dotar de vontade de emancipação aquelas que qualifica como “massas populares”: Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 210 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística “O Partido dos Trabalhadores surge da necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida social e política do país para transformá-la”. “O Partido dos Trabalhadores nasce da vontade de independência política dos trabalhadores “. “Nasce, portanto, da vontade de emancipação das massas populares”. Essa suposta vontade de universos tão extensos de brasileiros ou de trabalhadores, pouco tem a ver com a difícil experiência da consolidação do Partido ao longo dos anos. Cremos que a participação ativa, constante e continuada na vida partidária e na política em geral não parece ser um dos elementos identificadores da cidadania do país. A Carta perde objetividade ao afirmar que a idéia de um partido dos trabalhadores ganha, hoje, - transcorria o ano 1979 - “uma irresistível popularidade”. Esta afirmação não se ajusta a uma avaliação que esteja amparada em dados, quando consta, por exemplo, que conseguir o registro do PT foi muito difícil, supôs esforços e dedicação quase heróicos e representou uma autêntica façanha. Acreditamos que o alardeado nível de popularidade é devido à vontade de que a realidade seja tal qual o próprio desejo. Na Carta, transparece o apego e a super-estimação do valor das greves localizadas como instrumento gerador de transformações ou de mudanças significativas para os trabalhadores dentro de um regime capitalista; consideramos apriorística esta visão especialmente quando gerada na avaliação de uma greve numa determinada fábrica de automóveis, no ano anterior; um fato desta índole, cremos, não autoriza a inferir que se trata do início da luta emancipadora dos trabalhadores: “Começando a sacudir o pesado jugo a que sempre estiveram submetidos, os trabalhadores de nosso país deram início, em 12 de maio do ano passado (greve da Scania), a sua luta emancipadora. Desde então, o operariado e os setores proletarizados de nossa população vêm desenvolvendo uma verdadeira avalanche pela melhoria de suas condições de vida e de trabalho”. Além do mais, que o início da luta emancipadora dos trabalhadores brasileiros aconteça em 1979, nessa greve, parece desmerecer a história do povo brasileiro. E no tocante à “verdadeira avalanche” não consta que tenha existido a não ser no discurso ou na vontade dos dirigentes sindicais que assinam o documento. Ocorreram, sim, algumas greves que passaram sem que fossem mudadas sensivelmente as condições de vida e trabalho dos trabalhadores brasileiros. E, justamente, a insuficiência ou a menor e transitória capacidade emancipatória das greves será uma das razões que o Manifesto colocará como fundamental para se decidir a fundar um partido político de trabalhadores, no caso, o PT. O Manifesto tem a afirmação, que entendemos a-histórica, de que “agora as vozes do povo começam a se fazer ouvir por meio de suas lutas”. Para nós, não só agora mas ao longo da história brasileira diversas vozes populares se ouviram clamando por liberdade. Porém, não reduz somente às greves o âmbito do que seria o campo de batalha, o lugar das lutas dos trabalhadores. Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 211 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística Um outro aspecto é que a Carta vem marcada pela limitação que estabelece para poder realizar alianças. Por exemplo, em referência às greves, a Carta menospreza o apoio de setores médios da sociedade, numa espécie de “obreirismo”, ao analisar que: “as lideranças da greve são obrigadas a se escorar no apoio, muitas vezes duvidoso, de aliados ocasionais, saídos do campo das classes médias e da própria burguesia”. Como se um apoio saído do campo das classes trabalhadores não pudesse ser duvidoso ou traiçoeiro... Esse nível de limitação será eliminado no Manifesto ao definir a construção de “um partido amplo e aberto a todos aqueles comprometidos com a causa dos trabalhadores e com o seu programa”. Ainda, a Carta critica e exclui, em termos classistas, explicitamente, qualquer aliança com o MDB: “por sua origem, por sua ineficácia histórica, pelo caráter de sua direção, por seu programa pró-capitalista, mas sobretudo por sua composição social essencialmente contraditória, em que se congregam industriais e operários, fazendeiros e peões, comerciantes e comerciários, enfim, classes sociais cujos interesses são incompatíveis”. Este tipo de posição não é encontrada no Manifesto. Que não reproduzirá a contundente e eufórica frase “o PT, um partido sem patrões!”. Como tampouco a de que a “massa trabalhadora, único e verdadeiro sujeito e agente de uma democracia efetiva.”. Ao contrário, sem reparar em origens partidárias, lança um princípio identificador que qualifica de amplo e aberto: “Queremos, por isso mesmo, um partido amplo e aberto a todos aqueles comprometidos com a causa dos trabalhadores e com o seu programa. Em conseqüência, queremos construir uma estrutura interna democrática, apoiada em decisões coletivas e cuja direção e programa sejam decididos em suas bases”. Correlato ao precedente, a Carta sinaliza para uma auto-suficiência que não transparece no Manifesto e que os fatos se encarregarão de desmoralizar. Pode ser isto comprovado, por exemplo, quando, após lembrar a problemática do golpismo no Brasil, afirma que “o PT proclama que a única força capaz de ser fiadora de uma democracia efetivamente estável é a das massas exploradas do campo e das cidades”. A este respeito, no Manifesto há uma certa dose de prudência ao não auto-qualificar-se como a única força capaz de dotar o Estado brasileiro de democracia e transferir a responsabilidade a toda a sociedade: “é preciso que as decisões sobre a economia se submetam aos interesses populares. Mas esses interesses não prevalecerão enquanto o poder político não expressar uma real representação popular, fundada nas organizações de base, para que se efetive o poder de decisão dos trabalhadores sobre a economia e os demais níveis da sociedade”. Outra questão interessante é observar o embate entre diversas concepções de democracia: De um lado, nas petistas, temos a democracia como participação ordenada e consciente e a democracia direta e plena exercida diretamente pelas massas; do outro lado, aparece a democracia formal, acordo das elites, ou a formal e parlamentar. A preconizada no texto da Carta, que antes já mencionamos como sendo um “compromisso com a democracia plena, exercida diretamente pelas Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 212 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística massas”, desliza para uma espécie de processo assembleístico exclusivista, bem ao gosto das tendências políticas trotskistas e anarquistas: “apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores, baseado nos órgãos de representação criados pelas próprias massas trabalhadoras com vista a uma primordial democracia direta”. E o conceito de democracia do Manifesto - “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena e exercida diretamente pelas massas” – não traz idêntica formulação? Certamente, mas pode ser considerado que atenua, em parte, o caráter exclusivista presente na Carta: “Por isso, o PT pretende chegar ao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social”. Em relação a certas expressões utilizadas, constata-se que, no Manifesto, os termos massa e massas apareceram ou sós ou, uma única vez para cada combinação, formando os sintagmas massas populares, massas exploradas, massas oprimidas do mundo. Já, na Carta, após o texto introdutório, em diversas ocasiões o termo vem só, além de, repetidamente em formulações como: massas trabalhadoras, amplas massas exploradas, marginalizadas; massas exploradas; massas populares. Os termos classe e classes que são freqüentes na Carta (trabalhadora, explorada, exploradas, médias, produtoras, dominantes, exploradoras) não aparecem no Manifesto. E, um aspecto significativo, em nenhum do dois textos está presente a expressão, tão cara aos marxismos, luta de classes. Avaliamos algumas das afirmações da Carta de Princípios como a expressão de um discurso com maior déficit de objetividade. Por isso, parece interessante insistir na identificação de apagamentos, inclusões, rupturas e acentuações, aliás, insistir nas diferenças discursivas detectáveis para melhor compreender o significado político de um documento como o do Manifesto. Entre as rupturas, está a omissão de posições que significam assumir um maior isolamento partidário. Desaparece, por exemplo, no Manifesto a proposição “um partido só dos trabalhadores” ou a de que “os explorados e oprimidos têm permanente necessidade de se manter organizados à parte”. Também são omitidas as declarações, constantes na Carta, que falam do governo como repressor - “O governo desencadeia sua repressão” - e como aliado exclusivo dos patrões e das elites ”partidos e governos criados e dirigidos pelos patrões e pelas elites políticas”, “os patrões e o governo precisaram dar-se as mãos”. Entre os apagamentos observados no Manifesto consideramos significativa a eliminação do tom de confrontação de classes presente na Carta de Princípios: “Os patrões usam de todos os meios a seu alcance para quebrar a unidade dos trabalhadores” ou o PT “buscará apoderar-se do poder político e implantar o governo dos trabalhadores, baseado nos órgãos de representação criados pelas próprias massas trabalhadoras com vista a uma primordial democracia direta”. A formulação do Manifesto não parece insistir na confrontação: “O PT buscará conquistar a Anais do Evento PG Letras 30 Anos Vol. I (1): 201-217 213 II – Pesquisas em Andamento - Lingüística liberdade para que o povo possa construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores”. As propostas que serão acentuadas no Manifesto dizem respeito à organização dos trabalhadores e à construção da democracia representativa. Quanto ao estilo, o da Carta de Princípios, mesmo que alguns de seus conteúdos possam ser caracterizados como princípios, adota um formato que parece se assemelhar mais com o que seria um manifesto com análise de conjuntura. E assume um tom que identificamos como um tanto panfletário, apresenta uma escrita um tanto descuidada, não apenas pela reiteração léxica mas por demonstrar pouca precisão na abrangência de suas afirmações. O tom das críticas à conjuntura presentes na Carta parecem sugerir que se trata de grupos que, no fundo, não acreditam muito no sucesso real das suas proclamas. O Manifesto apresenta um tom mais medido e de manifesto mesmo; e transparece a preocupação pela organização e participação dos trabalhadores na construção da democracia. A Carta surpreende-nos, também, pelo seu caráter de gênero textual com vocação de estável, porque diz pretender estabelecer princípios e seria de supor que estes tratassem de elementos considerados relativamente imutáveis, quando a leitura revela que boa parte dos enunciados são destinados a avaliar questões conjunturais. Em relação aos assinantes, o Manifesto não faz qualquer referência ao documento anterior. Na Carta, os autores escritores, em momentos pontuais, assumem em primeira pessoa a autoria: “Nós, dirigentes sindicais, não pretendemos ser donos do PT”. Dada a diversidade ideológica dos textos em questão, surge a indagação: o que foi que aconteceu ao costurar o documento consensual do Manifesto? Tomando por base os deslocamentos, inclusões, atenuações e exclusões observados ao comparar os textos, a princípio, parece válido interpretar que os dirigentes sindicais que protagonizaram a Carta de Princípios não constituíam a força hegemônica do Partido ao ser elaborado o Manifesto. No entanto, é digno de nota que, mesmo que parte do seu discurso é ignorado ou desmentido no documento fundador, a Carta permanece hoje no leque dos documentos partidários considerados fundamentais. Talvez como símbolo e explicitação, apesar das divergências, da força das convergências, da unidade na luta, para os trabalhadores, o povo conquistarem a democracia, a plena cidadania. Em qualquer caso, é testemunha da primeira amostra pública dos conflitos ideológicos e políticos que teimarão em acompanhar o PT até hoje. 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