Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” História Intelectual, Cultura e Política: um estudo dos Primeiros Tempos de “Punto de Vista” (1978 – 1985) Raphael Nunes Nicoletti Sebrian Docente da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO) A história intelectual ou das idéias – a distinção ainda não é consensual – readquiriu, nos últimos vinte anos (inclusive no Brasil1), um espaço significativo nos estudos históricos, a partir de esforços de pesquisadores de diversas tendências teóricas. Pode-se dizer que, em virtude de tal pluralidade, se apresentam algumas “correntes interpretativas” nem sempre facilmente identificáveis e que, naturalmente, possibilitam resultados diferenciados àquele que pretende desenvolver uma pesquisa direta ou tangencialmente vinculada a este campo. Apesar das “dificuldades” de definição do campo de estudos, sobretudo no que se refere à distinção entre “História das Idéias” e “História Intelectual”, alguns autores propuseram certos parâmetros importantes. Jean-François Sirinelli, em seu estudo publicado na conhecida antologia organizada por René Rémond, 2 debruça-se sobre a constituição da história intelectual como campo autônomo de estudo nas últimas décadas.3 Sirinelli aborda algumas noções comumente utilizadas para o estudo dos intelectuais, como itinerário, geração e sociabilidade. Ressalvas feitas a cada uma delas, o autor nos mostra que são importantes para o estudo de um grupo de intelectuais como, por exemplo, aquele que se constitui a partir de uma revista, “pequeno mundo estreito” no qual são atados os laços humanos, as sociabilidades intelectuais. Em torno da redação de uma revista ou do conselho editorial de uma editora, segundo ele, constituem-se estruturas por vezes difíceis de perceber: Entre as estruturas mais elementares, duas, de natureza diferente, parecem essenciais. As revistas conferem uma estrutura ao campo intelectual por meio de forças antagônicas de adesão – pelas amizades que as subtendem, as fidelidades que arrebanham e a influência que exercem – e de exclusão – pelas posições tomadas, os debates suscitados, e as cisões advindas. Ao mesmo tempo que um observador de primeiro plano da sociabilidade de microcosmos intelectuais, elas são aliás um lugar precioso para a análise do movimento das idéias. Em suma, uma revista é antes de tudo um lugar de fermentação intelectual e de relação afetiva, ao mesmo tempo viveiro e espaço de sociabilidade, e pode ser, entre outras abordagens, estudada nesta dupla dimensão.4 1 Lembre-se, por exemplo – entre outros –, do debate a respeito do “lugar das idéias no Brasil”, capitaneado por Roberto Schwarz e Maria Sylvia de Carvalho Franco. 2 SIRINELLI (2003). 3 Neste estudo, concordamos com a indicação de Sirinelli de que a “História Intelectual” (ou dos Intelectuais) é um campo autônomo sem, contudo, perder de vista as possibilidades de diálogo da mesma com a “História das Idéias”, principalmente aquela proposta por autores como Michel Winock, Quentin Skinner e J.G.A. Pocock. 4 SIRINELLI, 2003, p. 249. 1 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” Para o mesmo autor,5 a história política dos intelectuais necessariamente está vinculada à pesquisa e à exegese dos textos, sobretudo textos impressos, “primeiro suporte dos fatos de opinião”, “em cuja gênese, circulação e transmissão os intelectuais desempenham um papel decisivo”.6 E, por sua vez, a história social dos intelectuais exige a análise sistemática de elementos diversos e dispersos, principalmente com finalidade prosopográfica.7 Assim, uma proposta de história dos intelectuais, para Sirinelli, deveria ser elaborada a partir da observação baseada na circulação e no dégradé entre três níveis: ideologias, cultura política e “mentalidades coletivas”. Partir, portanto, do papel político e cultural dos intelectuais para alcançar “uma história política transformada em história global [...]”.8 Por ser o debate acerca do conceito/categoria analítica “intelectual” fundamental neste trabalho, discutiremos brevemente outro autor que poderá contribuir para a compreensão da inserção de tal “categoria” nas sociedades contemporâneas. Trata-se de Edward W. Said, pensador palestino que elaborou textos importantes sobre o tema. Said, em sua obra Representações do intelectual: as Conferências Reith de 1993, fruto de um ciclo de conferências – as célebres “Conferências Reith” – proferidas pelo autor na BBC, em Londres, em 1993, propôs-se a problematizar o “papel” do intelectual nas sociedades contemporâneas. O autor, logo no início da primeira conferência (e primeiro capítulo do livro), intitulada “Representações do intelectual”, contrapõe duas respostas à seguinte questão: “os intelectuais formam um grupo de pessoas muito grande ou extremamente pequeno e altamente selecionado?”.9 Com o intuito de responder tal questionamento, Said apresenta duas descrições dos intelectuais produzidas no século XX: a de Antonio Gramsci e a de Julien Benda. O pensador palestino, depois de apresentar as duas interpretações acima mencionadas, conclui que “a análise social que Gramsci faz do intelectual como uma pessoa que preenche um conjunto particular de funções na sociedade está muito mais próxima da realidade do que tudo o que Benda escreveu [...]”.10 Said, então, aproximando-se de Gramsci, afirma que 5 Além de Jean-François Sirinelli, dialogaremos também neste trabalho, de maneira privilegiada, com Edward W. Said. Tal escolha se deve à compreensão de que aproximar Sirinelli e Said de autores como Pierre Bourdieu implica em se afastar de uma história dos intelectuais para se aproximar forçosamente de uma sociologia dos intelectuais. 6 SIRINELLI, 2003, p. 245. 7 Cf. SIRINELLI, 2003, p. 245. 8 SIRINELLI, 2003, p. 262. 9 SAID, 2005, p. 19. 10 SAID, 2005, p. 23. 2 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” profissões “novas”11 – como locutores de rádio e apresentadores de programas de TV, profissionais acadêmicos, analistas de informática, advogados de áreas como esporte e meios de comunicação, consultores de administração, especialistas em política, conselheiros do governo, autores de análises especializadas de mercado e mesmo o jornalismo moderno de massa – sustentam a visão do filósofo italiano. Receoso de um possível desaparecimento da figura ou imagem do intelectual num amontoado de detalhes, o que o tornaria apenas mais um profissional ou figura numa tendência social, Said afirma que, a partir dessas realidades originariamente sugeridas por Gramsci, e tendo em vista as características conjunturais do final do século XX (poderíamos estender tais questões, sem receio, para o início do século XXI), deve-se: [...] insistir no fato de o intelectual ser um indivíduo com um papel público na sociedade, que não pode ser reduzido simplesmente a um profissional sem rosto, um membro competente de uma classe, que só quer cuidar de suas coisas e de seus interesses. A questão central [...] é o fato de o intelectual ser um indivíduo dotado de uma vocação para representar, dar corpo e articular uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, uma filosofia ou opinião para (e também por) um público. E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de se ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzilos); isto é, alguém que não pode ser facilmente cooptado por governos ou corporações, e cuja raison d’être é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete. Assim, o intelectual age com base em princípios universais: que todos os seres humanos têm direito de contar com padrões de comportamento decentes quanto à liberdade e à justiça da parte dos poderes ou nações do mundo, e que as violações deliberadas ou inadvertidas desses padrões têm de ser corajosamente denunciadas ou combatidas.12 Assim, para Edward W. Said, interessa compreender o intelectual “[...] enquanto figura representativa – alguém que visivelmente representa certo ponto de vista, e alguém que articula representações a um público, apesar de todo tipo de barreiras”.13 O intelectual é o indivíduo que possui capacidade de pensamento e discernimento suficientemente adequada para representar a cultura – “o melhor pensamento” – e, por que não dizer, a política, fazendoos prevalecer.14 Portanto, a compreensão do intelectual proposta por Said, como um indivíduo caracterizado por uma atitude crítica permanente, refletida na produção e divulgação de suas 11 Cf. SAID, 2005, p. 24. SAID, 2005, p. 25-26. 13 SAID, 2005, p. 27. 14 Cf. SAID, 2005, p. 41. 12 3 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” idéias, não se afasta substancialmente daquela apresentada por Sirinelli, que concebe a noção de intelectual desde uma “geometria variável”, mas baseada em invariantes, noção que poderia desembocar em duas acepções do termo intelectual: uma ampla e sociocultural, na qual estariam compreendidos os criadores e os “mediadores” culturais; e outra, mais estreita, baseada na idéia de engajamento. No primeiro caso, estão abrangidos tanto o jornalista como o escritor, o professor secundário como o erudito. Nos degraus que levam a esse primeiro conjunto postam-se uma parte dos estudantes, criadores ou “mediadores” em potencial, e ainda outras categorias de “receptores” da cultura. É evidente que todo estudo exaustivo do meio intelectual deveria basear-se numa definição como esta.15 Diálogo importante também deve ser travado com a história das idéias políticas, na medida em que, apesar de não se confundir com a história intelectual (ou dos intelectuais),16 há inúmeros pontos de contato entre as áreas. Seguindo os caminhos propostos por Michel Winock,17 trata-se de estudar as idéias políticas (poderíamos ampliar esta afirmação para as idéias culturais) não no intuito de sedimentar de forma estática “culturas políticas”, mas com o objetivo de compreender melhor os “sistemas de representações” das sociedades, estudo que é inviável sem um estudo equivalente dos “aparelhos de produção e de mediação”. Ou seja, as idéias agem na sociedade, mas o fazem por meio de intelectuais que as produzem, debatem e problematizam a partir de certos “lugares”, sociais e intelectuais, como, por exemplo, as revistas culturais. Analisar o “universo” das idéias políticas em uma revista cultural significa compreender, como assinalou Capelato, o universo das idéias não como um contexto no qual se situa o trabalho intelectual, mas relacionado ao mundo social e político no qual ele se insere. As idéias não são entendidas, portanto, como algo exterior a esse mundo, mas como substância mesma da tarefa dos intelectuais que se expressam, através das idéias – suas matérias-primas – sobre a realidade vivida, que eles procuram, ao mesmo tempo, traduzir e modificar.18 Nesse sentido, inspirando-se na proposta de Capelato, é necessário compreender as revistas culturais e, de forma mais específica (neste estudo), a revista Punto de Vista, como um veículo de comunicação de idéias sobre aspectos culturais, debates intelectuais, políticos, 15 SIRINELLI, 2003, p. 242. A distinção entre “História Intelectual” (ou dos Intelectuais) e “História das Idéias” é enfaticamente ressaltada por Jean-François Sirinelli (2003), com quem concordamos. 17 WINOCK (2003). 18 CAPELATO, 2005, p. 349. 4 16 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” ideológicos. Como enfatizam Schwartz e Patiño, as revistas culturais configuram um conjunto ou espaço de discursos múltiplos, polifônicos, inclusive contraditórios, que “só se deixam ler a partir da relação texto-contexto”,19 discursos intimamente vinculados ao momento de aparecimento da revista, no caso específico de Punto de Vista, a ditadura militar na Argentina. Os intelectuais, atores, autores e intérpretes da política e da cultura, críticos permanentes do status quo, inúmeras vezes utilizam a imprensa para difundir suas idéias e pensamentos, tornando-se os periódicos espaços privilegiados de debate intelectual em diferentes épocas. No que se refere ao trabalho do historiador com os periódicos, Maria Helena Rolim Capelato, em trabalhos precursores no Brasil,20 demonstrou como, por meio do estudo dos periódicos, é possível perscrutar aspectos fundamentais de ideologias e propostas políticas de determinados grupos de intelectuais. Lembrou Miskulin, ao comentar os trabalhos de Capelato (e também seu estudo em conjunto com Maria Ligia Coelho Prado), que tais análises elucidam de que forma a imprensa pode ser compreendida como “um espaço no qual o escritor e o intelectual realizam intervenções exigidas pela realidade, fazem política, analisam a história, propõem políticas culturais e intervêem (sic) no debate ideológico e estético”.21 Trabalhos de importância significativa foram realizados, no Brasil, por diversos pesquisadores. Tania Regina de Luca, em balanço teórico-metodológico e historiográfico acerca da história “dos, nos e por meio dos periódicos”,22 ressaltou que, depois de superado o preconceito persistente até fins da década de 1970 no país em relação aos estudos historiográficos que se valiam de periódicos como fontes – superação para a qual contribuíram, sob perspectivas diferenciadas, Ana Maria de Almeida Camargo, Arnaldo Contier, Maria Helena Rolim Capelato, Maria Ligia Coelho Prado, Vavy Pacheco Borges, entre outros –, os estudos brasileiros de periódicos de diversos tipos se ampliaram significativamente, congregando múltiplas possibilidades analíticas e temáticas.23 Esses “novos estudos” propunham levar em consideração o maior número de elementos possíveis dos periódicos, desde o conteúdo (temáticas discutidas e mesmo a organização interna do conteúdo no periódico) até os aspectos de ordem material (periodicidade, impressão, papel, uso/ausência de iconografia e publicidade, caracterização 19 CAPELATO, 2005, p. 348. Ver, entre outros, CAPELATO (1986, 1989) e CAPELATO; PRADO (1980). 21 MISKULIN, 2003, p. 20. 22 LUCA (2005) 23 LUCA, 2005, p. 118. 5 20 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” estética e funcional do material estético). Não obstante, permaneciam preocupações mais comuns em relação aos periódicos, como a configuração do grupo responsável pela publicação, identificação dos principais colaboradores, identificação do público a que se destinava, bem como das fontes de receita, entre outros aspectos.24 Em meio a essa ampliação de estudos, as revistas também passaram a ser vistas como documentos importantes. Há, no caso das revistas, dois tipos básicos de estudo: o primeiro analisa periódicos conhecidos como “revistas ilustradas ou de variedades”; o segundo analisa periódicos caracterizados como revistas de debate de questões intelectuais, políticas e culturais (com destaque para a literatura).25 Nesse segundo grupo se inserem estudos que foram construídos, em diversos momentos, em diálogo com a sociologia, a antropologia, a teoria e crítica literária e, com grande presença, em diálogo com os aportes da história política “renovada” e a história cultural. Tais possibilidades de análise de revistas culturais enquanto espaços ou campos de estruturação intelectual foram experimentadas, entre outros, por autores como Maria Helena Rolim Capelato (2005), Silvia Cezar Miskulin (2003), Tania Regina de Luca (1999), que estudaram periódicos brasileiros, latino-americanos ou europeus de períodos e características bastante diversos, propícios à problematização de questões políticas, culturais e sociais. Portanto, partindo das indicações conceituais da “História Intelectual” propugnada por Jean-François Sirinelli (2003), das contribuições de Edward W. Said acerca do “papel” do intelectual nas sociedades contemporâneas (2005), das aproximações possíveis com a “História das Idéias Políticas” defendida por Michel Winock (2003), das discussões teóricometodológicas sobre a análise de revistas culturais apresentadas por Schwartz e Patiño (2004), por Capelato (2005) e por Miskulin (2003) e das considerações mais amplas referentes à utilização de periódicos como fonte para o trabalho do historiador encontradas em Luca (2005) e Capelato (1986, 1989), nos aproximaremos de Punto de Vista, com o objetivo de inserir o estudo das idéias e de seus produtores, os intelectuais, no contexto de sua produção, difusão e recepção. O primeiro número de Punto de Vista foi publicado em Buenos Aires, em março de 1978. A revista surgiu em uma “circunstância sombria”, numa conjuntura de enfrentamento de um regime ditatorial que impunha inúmeras restrições aos intelectuais. O periódico representava uma tendência de resistência cultural e política em uma época de desmandos e 24 25 LUCA, 2005, passim. LUCA, 2005, passim. 6 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” horror, capaz de mostrar que a produção intelectual argentina não havia sido extinta pelo regime.26 O grupo fundador de Punto de Vista foi composto por intelectuais diversos, alguns deles egressos da revista Los Libros, que circulou entre 1969 e 1976. Carlos Altamirano, Ricardo Piglia e Beatriz Sarlo, que tinham feito parte da direção do referido periódico, compartilhavam da visão de alguns dirigentes da esquerda revolucionária de que era necessário reaproximar os restos dispersos do campo intelectual. Tais indivíduos deram início à elaboração de Punto de Vista de forma semi-clandestina, cuidando principalmente para manter em segredo a vinculação política do periódico, representada então por militantes que desapareceriam em agosto de 1978, Elias Sermán, Rubén Kristkausky e Abraham Hochman. Naquele momento de “invisibilidade quase total”, Carlos Boccardo se encarregou de desenhar o logotipo da revista, que se mantém até hoje. Hugo Vezzetti e Maria Teresa Gramuglio também participaram desde as primeiras reuniões, e Jorge Sevilla emprestou seu nome como diretor, para que a publicação não circulasse anonimamente, o que levantaria suspeitas. Tratava-se, por meio dos riscos corridos por esses e outros intelectuais, de assegurar um espaço precário de publicação para alguns críticos, escritores e artistas que estavam desarticulados, por conta da repressão, tanto no meio acadêmico quanto no campo cultural. De acordo com Ana Cecilia Arias Olmos, Punto de Vista apareceu em Buenos Aires: en el contexto de una sociedad totalmente controlada por un Estado autoritario lo que la lleva a omitir cualquier declaración de intenciones y a apelar a estrategias de enmascaramiento discursivo durante los primeros números. Recién en el número 12 de la publicación, de julio-octubre de 1981, se presenta el primer editorial y el Consejo de Dirección comprendido por Beatriz Sarlo como Directora y el grupo de intelectuales que dio inicio a la revista: María Teresa Gramuglio, Carlos Altamirano, Hugo Vezzetti y Ricardo Piglia.27 Conforme assinala Terán, se observarmos os dezoito números de Punto de Vista editados entre março de 1978 e dezembro de 1983, poderemos notar como uma publicação inicialmente centrada na literatura progressivamente explicita sua mensagem político-cultural, mais evidentemente a partir do número de julho-outubro de 1981.28 O editorial da edição de julho-outubro de 1981 não deixa dúvidas de uma tendência que se construía na revista, vinculada a uma tradição de contestação nacional, protesto contra o autoritarismo e a censura: 26 Cf. TERÁN, 2004, p. 88. Oscar Terán foi, inclusive, um dos primeiros colaboradores de Punto de Vista. OLMOS, 2004, p. 939. 28 Cf. TERÁN, 2004, p. 90. 7 27 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” En marzo de 1978, apareció el primer número de Punto de Vista. Su publicación venía, de algún modo a ejercer un derecho: abrir un ámbito de debate de ideas y elaboración cultural. El derecho a disentir nos parecía, entonces y ahora, una condición básica de la cultura, amenazada material y políticamente. Reflexionar sobre la historia cultural argentina o latinoamericana, sobre los métodos críticos o las teorías sociales supone un punto de partida: la defensa de la libre discusión y la creación de un lugar – la revista – que permitiera generalizarla. Comprobamos que no existen condiciones aceptables de producción intelectual donde no puedan circular las ideas, que la censura ejercida sobre la producción cultural, la represión de la diversidad, la intimidación del antagonista, son instrumentos del conformismo correlativo a un estado autoritario. [...] Esta revista es parte de un espacio cultural que se construye a pesar de la censura y el castigo a las ideas, pero que se construye también positivamente. […] Se trata de nuestra responsabilidad en la defensa de la libertad de expresión y de pensamiento: que no haya en la Argentina culturas reprimidas o negadas. Y su consecuencia práctica, la creación de un ámbito donde algo de esto sea posible. Encerrada en los limites de la amenazada producción material, la ciega torpeza del censor, el oscurantismo ultramontano de la universidad estatal, la cultura argentina, para construirse, debe hacerlo en la superación de estos obstáculos: contra la censura, por la diferencia de opiniones y la controversia. Frente a la crisis económica que afecta a las instituciones culturales y las editoriales, y frente a la clausura política, los intelectuales hemos imaginado, en estos años, formas y espacios nuevos para la discusión y circulación de ideas, posiciones, perspectivas. Punto de Vista entiende que su actividad hasta ahora, y en el periodo que sigue, pertenece a este horizonte. Ha constituido un Consejo de Dirección para que la fuerza de una práctica diversa y colectiva le permita responder mejor a los requerimientos de esta etapa […].29 Como se pode notar, desde seu surgimento a revista procurou se apresentar como um espaço de debate das questões argentinas e, de forma mais ampla, das questões da América Latina. Se inicialmente o periódico centrava sua produção na discussão literária, desde o início as preocupações políticas podiam ser notadas. O período compreendido entre 1978 e 1981 marca, para a revista, um momento de “silêncios” que confirmavam o óbvio: no período mais crítico e duro do regime militar não havia espaço para um debate aberto acerca de uma democratização da sociedade. Diante dessa impossibilidade, como assinalou Olmos, “la preocupación por definir ese espacio de disidencia y de democratización atraviesa de forma subyacente la publicación a través del repertorio de artículos, reseñas y entrevistas que organizan sus páginas”.30 29 Conselho de Direção, “Punto de vista” (editorial por ocasião da constituição do Conselho de Direção da revista). Punto de Vista, Buenos Aires, ano IV, n. 12, jul./out. 1981, p. 2. 30 OLMOS, 2000, p. 35. 8 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” Dessa forma, Punto de Vista elaborou e praticou uma abertura e difusão do campo cultural ao resenhar publicações argentinas e estrangeiras, discutir exposições de arte ou filmes de outros países, entrevistar intelectuais que residiam em outros países, publicar textos inéditos de escritores argentinos e inclusive dialogar com revistas importantes de outros países, como Vuelta, dirigida no México por Octavio Paz – há um diálogo no número 01 de Punto de Vista com um texto de Carlos Fuentes publicado no número 14 do periódico mexicano. Além disso, e esse é um fato muito significativo, a revista apresentou e incorporou perspectivas teóricas e temáticas até aquele momento pouco conhecidas na Argentina que se constituíram em linhas de atualização e reformulação do campo cultural do país.31 Manifestações de repúdio à situação política vivenciada naquele momento pela Argentina apareceram repetidamente. Uma outra ocasião de efervescência crítica foi a derrota na Guerra das Malvinas: nessa conjuntura, foi publicado um artigo em Punto de Vista, intitulado ¿Donde anida la democracia?, no qual os autores apresentaram uma reflexão acerca dos rumos políticos do país.32 Depois da Guerra das Malvinas, Hilda Sabato, escritora que compartilhava com os diretores do periódico o repúdio a essa “aventura final da ditadura” (a guerra), passou a integrar o conselho de direção da revista. A partir de 1983, houve uma ampliação da revista, que incorporou intelectuais que retornavam do exílio e, entre esses, passaram a integrar o conselho de direção José Aricó e Juan Carlos Portantiero. Desde esse ano, Punto de Vista abandonou o estado de “marginalidade extrema” e se aproximou de jovens intelectuais, definindo um novo lugar no marco de transição democrática. Nesse processo houve também uma “reavaliação” das idéias propostas e defendidas pelos primeiros membros diretores da revista, bem como das ações motivadas na primeira metade dos anos 1970 por tais idéias. Enfim, apesar de importante periódico cultural e político na Argentina desde o fim dos anos de 1970, a fortuna crítica acerca de nosso objeto de estudo é, ainda, muito pequena. No estudo que estamos desenvolvendo, analisamos, numa perspectiva histórica, a revista argentina Punto de Vista, compreendida como espaço de intercâmbio de idéias bem como de produção cultural, política e, sobretudo, intelectual. O objetivo principal desta pesquisa é elaborar um estudo detalhado sobre a revista, procurando perceber os contextos de produção, difusão e recepção das idéias nela veiculadas, bem como, eventualmente, alguns percursos intelectuais individuais mais significativos. 31 Cf. OLMOS, 2000, p. 36. As linhas teóricas são configuradas, fundamentalmente, a partir das obras de Raymond Williams, Richard Hoggart, Pierre Bourdieu e Hans Robert Jauss. 32 Cf. TERÁN, op. cit., p. 90. 9 Anais eletrônicos da XXIV Semana de História: "Pensando o Brasil no Centenário de Caio Prado Júnior” Referências Bibliográficas BEIRED, José Luis Bendicho. Breve história da Argentina. São Paulo: Ática, 1996. BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean-Pierre; SIRINELLI, Jean-François (dir.). Para uma história cultural. Lisboa: Editorial Estampa, 1998, p. 349-363. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2003. _________________. O poder simbólico. 4. ed. 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