UM ESTUDO SOBRE A PRODUÇÃO CIBERCULTURAL DO BLOG DA
INTERA A PARTIR DOS PROGRAMAS DA CIBERCULTURA PROPOSTOS
POR PIERRE LÉVY
Caroline de Assis Campos Pinagé 1
RESUMO
Este artigo analisa a produção cibercultural do blog da INTERA, espaço virtual
de discussão e divulgação de música autoral na cena independente da cidade
de Manaus-AM. Para a realização do estudo, teve-se como base os princípios
de interconexão, comunidades virtuais e inteligência coletiva, além de seus
elementos, contidos na obra Cibercultura, do sociólogo Pierre Lévy. A partir
dessa delimitação, são reveladas falhas e avanços dessa nova comunicação
multilinear compartilhada pelos “web atores” (PISANI, 2010) a nível global.
Palavras-chave: Inteligência Coletiva. Comunidades Virtuais. Interconexão.
Comunicação.
ABSTRACT
This article analyze the cultural production in the INTERA blog, virtual
space to discuss and disclose about copyright music in independent scene in
Manaus city, in Amazonas state. This study was based on the principles of
interconnection, virtual communities and collective intelligence, beyond its
elements, contained in the work Cyberculture, sociologist Pierre Lévy. From this
delimitation, were revealled failures and achievements of this new multilinear
communication shared by the "web players" worldwide.
1
Graduada em Comunicação Social – habitação em Jornalismo - pelo Centro Universitário do
Norte - Uninorte; graduando em Letras, Língua e Literatura Portuguesa pela Universidade
Federal do Amazonas – UFAM; e aluna finalista do curso de Pós-Graduação em Jornalismo
Digital pela Faculdade Internacional de Curitiba – Facinter. Manaus – Amazonas – Brasil.
Contato: [email protected]
2
Keywords: Collective Intelligence. Virtual Communities. Interconnection.
Communication.
INTRODUÇÃO
Na obra Cibercultura, do sociólogo francês Pierre Lévy (1999), a cultura
contemporânea presencia a quebra da universalidade totalizante e abre espaço
para uma informação, no campo da comunicação, que não objetiva o
fechamento semântico de sua mensagem, a qual se encontra em constante
alteração dentro do ciberespaço.
De acordo com Pierre Lévy (1999, p. 129), três princípios básicos
orientaram
o
crescimento
do
ciberespaço
e,
consequentemente,
da
cibercultura, são estes: interconexão, comunidades virtuais e inteligência
coletiva.
O termo ciberespaço é definido pelo pensador como “o espaço de
comunicação aberta pela interconexão mundial de computadores e das
memórias dos computadores” (LÉVY, 1999, p. 94). Ou seja, um universo digital
que conecta pessoas do mundo todo, em uma navegação multilinear, e que
possibilita uma comunicação interativa e instantânea, essencial para que a
cibercultura se consolidasse.
Para Pierre Lévy, os três programas (interconexão, comunidades virtuais
e inteligência coletiva) dessa cultura “talvez sejam secretamente movidos por
dois „valores‟ essenciais: a autonomia e a abertura para a alteridade” (LÉVY,
1999, p. 134).
Desta forma, as estudiosas em Tecnologias da Informação e
Comunicação (TICs), Francis Pisani e Dominique Piotet detectam na sociedade
contemporânea o surgimento de uma nova classe de atores, chamada “web
atores” (2010, p. 115), na qual os primeiros usuários da web, conhecidos como
“internautas”, sofrem uma transformação e deixam de receber a informação
passivamente, passando a produzir conteúdo e disponibilizá-lo no ciberespaço.
Pisani e Piotet sintetizam essa mudança de comportamento da seguinte
maneira: “os internautas utilizavam a internet. Os web atores a trabalham com
3
o conteúdo que geram e com a capacidade de organizá-lo” (PISANI, 2010, p.
120).
Neste novo cenário, a informação não possui mais centro, nem direção.
A hegemonia das grandes mídias de massa perde espaço na rede de
interconexão.
“Chamo de mídias de massa os dispositivos de comunicação que
difundem uma informação organizada e programada a partir de um
centro, em direção a um grande número de receptores anônimos,
passivos e isolados uns dos outros. Imprensa, cinema, rádio e
televisão clássicos são os representantes típicos dessas mídias”
(LÉVY, 1999, p. 247).
A cibercultura tem como prioridade que a mensagem seja sempre
compartilhada e alterada por novas visões de indivíduos interessados em
dividir seus conhecimentos.
A análise do objeto em estudo, a comunidade virtual “blog da INTERA”*,
partiu do ponto de vista da inteligência coletiva como um bem público, no
sentido de ser direito de todos poderem conjugar suas respectivas inteligências
e imaginações.
A inteligência coletiva e os dispositivos técnicos que a propagam não
podem ser decretados nem impostos por nenhum de poder central,
tampouco por administradores ou especialistas em separado. Os
beneficiários devem ser também os responsáveis. Seu funcionamento
só pode ser progressivo, integrador, includente e participativo. Não há
consumidor ou sujeito submetido na inteligência coletiva, do contrário,
não se trata de inteligência coletiva (LÉVY, 1999, p. 215).
Desta forma, cada usuário da internet se torna profundo mantenedor
dessa informação aberta e em fluxo, característica primordial da comunicação
“todos-todos” (alteridade) (LÉVY, 1999).
4
Pierre Lévy afirma que o termo cibercultura, além de representar a
universalidade sem totalização, ou seja, o universal por contato, ainda poderia
ser definido como “o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, práticas,
atitudes, modos de pensamento e de valores, que acontecem dentro do
ciberespaço” (LÉVY, 1999, p. 17).
Esse novo modo de agir da cultura contemporânea apresenta-se por
meio
de
uma
linguagem
multilinear,
que
utiliza
hiperdocumentos
compartilhados, além da mixagem de recursos audiovisuais e textuais.
Em síntese, a mensagem poderá sempre ter uma nova direção, a partir
de um novo nó que a rede receba. O que se quer dizer que “o hipertexto é
constituído por nós (os elementos de informação, parágrafos, páginas,
imagens, sequências musicais, etc.) e por links entre esses nós, referências,
notas, ponteiros, „botões‟ indicando a passagem de um nó a outro” (LÉVY,
1999, p. 58).
Ao invés da leitura linear e vertical das mídias de massa que tendem a
um entendimento limitado da mensagem, a cibercultura oferece ao internauta a
possibilidade de uma leitura multilinear, com múltiplas direções informacionais.
A mensagem pensada pelo primeiro “web ator” não será a mesma lida
pelo segundo, e assim sucessivamente. Isso se deve à hipertextualidade e ao
dilúvio informacional disponível no ciberespaço.
Todas essas mudanças que foram apresentadas caracterizam a
chamada “Web 2.0”. A definição do termo elaborada por Tim O‟Reilly é citada
no artigo Jornalismo na Web 2.0 (2005, apud MACHADO M.M. et al, 2009: 3),
como sendo
a mudança para uma internet como plataforma em que a regra mais
importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de
rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas
pessoas, atribuindo poder ao público e aproveitando a inteligência
coletiva.
5
Vale ressaltar, que este trabalho não analisa o conteúdo do blog pelo
viés da moral social e distanciamento ou pela substituição de encontros físicos
de seus membros dentro da comunidade virtual.
Mesmo esses elementos tendo sido destacados no estudo de Pierre
Lévy, esta pesquisa não se ateve ao conceito dos mesmos. Este artigo tem
como foco a aplicação da tríade da cibercultura na produção informacional da
comunidade INTERA.
A PRODUÇÃO CIBERCULTURAL DO BLOG DA INTERA
Com base nos três princípios básicos da cibercultura (interconexão,
comunidades virtuais e inteligência coletiva), destacados por Pierre Lévy,
busca-se o embasamento teórico necessário para analisar o blog INTERA.
Para isso, serão levados em consideração alguns elementos que
compõem a comunicação digital como plataforma e assinatura de matérias (no
programa
das
comunidades
virtuais);
hipertextualidade,
hipermídia
e
participação coletiva (no programa da inteligência coletiva).
A análise inicia, pois, com a primeira característica do universal por
contato: a interconexão (LÉVY, 1999, p. 129), que conecta pessoas,
informações e máquinas, a nível global e em tempo real. Essa característica
pode ser percebida claramente no objeto de análise, pois o blog da INTERA
tem 22 seguidores que possuem acesso instantâneo à informação da
comunidade virtual.
Essa conexão global disponibiliza conteúdos publicados na rede a
qualquer pessoa conectada no ciberespaço. Por meio desse programa da
cibercultura não há nivelamento de informação ou restrições de conteúdo. Todo
e qualquer indivíduo se encontra, a partir de agora, mergulhado no mesmo
banho informacional.
Com o universal por contato, além dos internautas, os grandes veículos
de comunicação de massa inseridos no ciberespaço passam a sentir essa
mudança na forma de transmitir e receber a mensagem. Eles perdem a postura
clássica de formadores hegemônicos de opinião, e passam a integrar o
6
conjunto de “redes da rede”, que disponibiliza conteúdo aberto à alteridade e
sem um fechamento semântico.
Desta maneira, constata-se que o blog da INTERA se insere nesse
universal por contato. Por meio da coleta de dados, foi possível o acesso às
estatísticas do blog e aos dados oferecidos pelo Google Analytics, os quais
permitiram averiguar informações sobre o fluxo de visitação no blog da
INTERA.
Com base nesse levantamento, foi constatada a presença de internautas
de diversos países: 244 dos Estados Unidos, 25 de Portugal, 17 da Alemanha,
15 da França e do Reino Unido, seis da Rússia, assim como da Itália, do
México e de Samoa foram registradas quatro visitações. De todo modo, o maior
tráfego de usuários acontece no Brasil, com um número de 3.400
visualizações. Esse levantamento de dados foi registrado no período de 16 de
maio a 01 de agosto de 2011.
Desta forma, o alcance internacional e nacional que o blog já obteve vai
de encontro com o objetivo de levar a informação ao máximo de usuários
espalhados em todo o mundo.
Com esta possibilidade de interação instantânea de qualquer indivíduo
que utiliza o ciberespaço, por meio da World Wild Web (WWW), reafirma-se o
propósito ou máxima da cibercultura por meio da interconexão, de que “a
conexão é sempre preferível ao isolamento” (LÉVY, 1999, p. 129).
OS ESPAÇOS DE DISCUSSÃO
A partir deste momento, o foco da pesquisa se volta para o segundo
princípio da cibercultura, as comunidades virtuais, que é exatamente o objeto
estudado: o blog da INTERA. Como foi observado anteriormente, a agremiação
propõe-se a integrar pessoas interessadas em um tema em comum, no caso
desta comunidade, a música autoral da cena independente do Amazonas.
É baseado nesse interesse em comum, que Pierre Lévy define o termo
“comunidade virtual” como sendo um espaço construído “sobre afinidades de
interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em um processo de
7
cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades
geográficas e das filiações institucionais” (LÉVY, 1999, p. 127).
A partir do conceito acima, pode-se afirmar que a delimitação do tema
ao Estado do Amazonas não impede que as problemáticas do cenário musical
amazonense sejam compartilhadas por internautas nas demais regiões do
país. Ao contrário, percebe-se que as mesmas motivações e dificuldades
enfrentadas pelos artistas da música autoral regional são comuns aos das
diversas partes do globo. Além disso, a abrangência do blog, obtida por meio
da rede mundial de computadores, vem a ampliar o debate a respeito da
informação proposta.
A interação global é um campo aberto ao debate de novas soluções ou
alternativas aos impasses levantados, por meio da troca e intercâmbio de
experiências.
Reafirma-se, mais uma vez, a ideia central da cibercultura, de uma
universalidade mediada pelo contato, onde se desfragmentam as limitações
físicas. Ou seja, “o apetite para as comunidades virtuais encontra um ideal de
relação humana desterritorializada, transversal, livre. As comunidades virtuais
são os motores, os atores, a vida diversa e surpreendente do universal por
contato”. (LÉVY, 1999, p. 133)
Apesar das estatísticas registrarem a visitação de indivíduos do exterior
e de outras regiões do Brasil, a participação ativa dos mesmos, por meio de
comentários, não foi constatada na pesquisa.
Outro elemento destacado por Pierre Lévy em sua análise acerca das
comunidades virtuais é quanto à “assinatura de matérias”. O pesquisador diz
que “a maioria das comunidades virtuais estrutura a expressão assinada de
seus membros frente a leitores atentos e capazes de responder a outros
leitores atentos” (LÉVY, 1999, p. 129).
Conforme a análise desse item no blog da INTERA, é verificada que a
comunidade virtual em questão segue esse padrão. No geral, tanto os autores
dos posts quanto os participantes identificam seus nomes ao postarem os
conteúdos dentro do espaço coletivo.
8
As duas matérias analisadas pela pesquisa, intituladas A verdadeira cara
da Música Popular Brasileira... do Amazonas e Festival de Rock da SEC:
Verdade ou promessa?2, constam de assinatura dos repórteres, dos membros
da comunidade virtual.
No caso da participação dos demais “web atores”, neste exemplo, os
participantes ativos, por meio de comentários, verifica-se que não há a
possibilidade do anonimato, visto o sistema de publicação da ferramenta
escolhida para a armazenar o conteúdo só permitir a inscrição de usuários
mediante identificação.
Apesar de Lévy afirmar que “longe de encorajar a irresponsabilidade
ligada ao anonimato, as comunidades virtuais exploram novas formas de
opinião pública” (LÉVY, 1999, p. 131), foi constatado que o blog da INTERA
conserva a identificação dos membros e do público como regra a ser seguida.
Destarte, revela-se que o armazenamento das informações e o ponto de
encontro entre os colaboradores da comunidade virtual acontecem na
plataforma weblog.
Francis Pisani e Dominique Piotet definem blog de forma sucinta e clara:
trata-se de uma página em que o conteúdo é produzido pelos
usuários - autores e leitores que participam com comentários. Ele
adota, em geral, o estilo de um jornal, cujos dados mais recentes são
apresentados no começo. Inicialmente com textos e imagens, os blog
se enriqueceram com sons (podcast) e vídeos (videoblog) (PISANI e
PIOTET, 2010, P.89).
Segundo o exposto acima, tanto o autor quanto o leitor passam a ser
atores na web. Essa atitude não pode ser vista nas mídias de massa, nas quais
o autor se encontra separado do leitor. As ferramentas que apresentam
hiperdocumentos com essa linguagem multilinear vieram para atender a
2
http://revistaintera.blogspot.com/2011/05/verdadeira-cara-da-musica-popular.html
9
necessidade de chamar a atenção de um público heterogêneo de forma
homogênea.
O blog da INTERA se enquadra, dentre os conceitos para o termo weblog,
como funcional (AMARAL, et al., 2009). Isso porque a comunidade se
apresenta com a função primária de meio de comunicação com teor
jornalístico-cultural de uma localidade ou grupo humano.
A COLETIVIDADE
A inteligência coletiva, terceiro e mais elaborado programa da
cibercultura, é primordialmente a ramificação que define a nova forma de agir
na Web 2.0. Vale ressaltar que, voltada não apenas para a troca de informação
entre seus usuários, essa nova comunicação da cultura contemporânea revela
a responsabilidade de cada “web ator” pelo conteúdo aberto à alteridade.
Pierre Lévy diz que a “inteligência coletiva, enfim, seria o modo de
realização da humanidade que a rede digital felizmente favorece, sem que
saibamos a priori em direção a quais resultados tendem as organizações que
colocam em sinergia seus recursos intelectuais” (LÉVY, 1999, p. 135).
Na terceira parte da obra em questão, Pierre Lévy ressalta que esta
cultura contemporânea é aplicada a favor da inteligência coletiva, e trabalha
com três proposições acerca deste programa: da inteligência coletiva sendo um
produto de “todos para todos”, sem um poder central; sendo um problema em
aberto, uma cultura a ser inventada e não um programa a ser aplicado; e de um
futuro em aberto, sem projetos concluídos.
Ao se compartilhar o mesmo entendimento destacado pelo sociólogo
francês, percebe-se que foi esse campo aberto para pesquisas práticas que
possibilitou monitorar o comportamento dos atores do blog da INTERA, para
verificar se a informação está sendo construída coletivamente.
A partir da virtualização do texto para os meios digitais, Lévy faz uma
reflexão acerca da hipertextualização do ponto de vista do leitor:
10
Se definirmos um hipertexto como um espaço de percurso para
leituras possíveis, um texto aparece como uma leitura particular de
um hipertexto. O navegador participa, portanto, da redação do texto
que lê. [...] O navegador pode tornar-se autor de maneira mais
profunda do que ao percorrer uma rede preestabelecida: ao participar
da estruturação de um texto. Não apenas irá escolher quais links
preexistentes serão usados, mas irá criar novos links, que terão um
sentido para ele que não terão sido pensados pelo criador do
hiperdocumento. (LÉVY, 1999: 59).
Entende-se com isso, que cada indivíduo que acessa à internet possui
uma leitura própria e constrói, a cada novo nó do hipertexto, uma leitura
completamente original, que dificilmente será pensada por um outro usuário da
rede.
Para esta terceira fase da análise, foram delimitados três corpus
básicos: duas matérias jornalísticas e o editorial do blog da INTERA. A
delimitação foi realizada com o intuito de garantir que a problemática da
pesquisa fosse respondida de forma clara e objetiva. A inserção do editorial
deu-se pelas informações que o mesmo traz a respeito do objeto em estudo. A
seleção das duas matérias, que são as primeiras postagens do blog da
INTERA, foi feita aleatoriamente.
Primeiramente, além da participação dos “web atores”, sejam membros
ou participantes do blog, foi checado também se os mesmos utilizam recursos
audiovisuais - imagens, sons, vídeos - e a hipertextualidade – textos lincados a
outros textos que discorrem sobre o mesmo assunto, características
primordiais na comunicação digital.
O primeiro item a ser estudado foi o editorial da comunidade virtual. A
partir deste corpus, constata-se que o blog da INTERA se apresenta ao público
por meio de dois elementos informacionais: um vídeo institucional e um texto.
O vídeo, que possui 43 segundos, introduz os internautas, por meio de
uma comunicação dinâmica e criativa, sobre quem são os produtores do
conteúdo do blog. O audiovisual também faz menção ao projeto inicial da
revista impressa. Foram registradas 76 visualizações de acesso ao vídeo.
11
Apesar de ter sido verificada nesta página a utilização do recurso
audiovisual, a hipertextualidade é nula no editorial do blog.
O primeiro parágrafo discorre sobre a periodicidade da revista impressa
e seus propósitos, explicando que “a proposta de promover o cenário musical
do estado por meio de matérias jornalísticas e propor uma reflexão sobre a
música produzida na região, vai bem mais além, pois entende-se esta
ferramenta como uma multiplicadora da cena e produto cultural do Amazonas”
(Editorial do blog da INTERA).3
Já o segundo parágrafo afirma que “o blog acompanha o mesmo
pensamento e amplia os objetivos do projeto (revista impressa), tendo em vista
a enorme visibilidade que a Internet hoje permite em todo o Mundo. A Intera,
revista e blog, é alimentada por colaboradores de diversas áreas de trabalho”
(Editorial do blog da INTERA).
Diante das informações descritas, nota-se que há redundância ao que
compete o conteúdo trabalhado no vídeo. Apesar de um dado não anular o
outro, o pleonasmo rompe com a temática das mídias digitais de que os
elementos informacionais devem se complementar.
O último parágrafo explica a quem pertencem os dois produtos culturais
em questão (revista e blog). Apesar de não fornecer um conteúdo informacional
mais aprofundado, conclui-se que a proposta geral do meio de comunicação é
transmitida ao público interessado.
Constata-se ainda a notória intenção dos coordenadores do blog da
INTERA de explicar que o meio digital é uma extensão da revista, e que ambos
trabalham em conjunto.
Outra observação feita mediante o número de visualizações do vídeo de
apresentação em contrapartida ao registro nulo de comentários no editorial do
blog da INTERA, revelou que há visitação de usuários na página, mas o
conteúdo não é compartilhado.
3
http://revistaintera.blogspot.com/p/intera.html
12
Destarte, nota-se que os recursos interativos não são utilizados de forma
plena pelos leitores da comunidade. Os fatores para essa ausência de
interatividade podem ser diversos: qualidade do texto, credibilidade da revista,
liberdade de expressão.
Após a análise do editorial, a primeira matéria escolhida para a
realização da pesquisa tem como manchete A verdadeira cara da Música
Popular Brasileira... do Amazonas.4 Essa foi a postagem inaugural do blog da
INTERA, datada em 23 de maio de 2011.
Foi constatado que assim como as publicações do conteúdo em blogs
são feitas na ordem cronológica inversa, a reportagem estudada também
seguiu essa disposição. Ou seja, a matéria foi dividida em três partes e postada
durante três dias consecutivos, com a data permanente da primeira publicação.
Este objeto possui apenas dois recursos que compõem a informação:
um textual e outro visual. Este último elemento é formado por fotografias
reproduzidas da internet. Esse dado revela que não houve uma produção
prévia pelos membros da comunidade para compor o conteúdo. Não foi
verificada a utilização de hiperlinks ou recurso audiovisual na primeira
reportagem analisada.
A participação dos demais “web atores” por meio de comentários foi
conferida nesse objeto em estudo, apesar do resultado ter sido inexpressivo, já
que apenas duas pessoas interagiram e acresceram valor à informação, ao
opinaram acerca do tema abordado. Uma delas foi o próprio repórter que
assinou a matéria em resposta a um comentário.
A segunda reportagem, intitulada Festival de Rock da SEC: Verdade ou
promessa?, 5datada em 31 de maio de 2011, seguiu a mesma subdivisão de
títulos aferida na primeira matéria estudada.
Neste terceiro corpus, a presença de recursos dinâmicos e interativos
foi ainda menor em comparação à primeira reportagem. Só foi verificada a
4
http://revistaintera.blogspot.com/2011/05/verdadeira-cara-da-musica-popular.html
5
http://revistaintera.blogspot.com/2011/05/festival-de-rock-da-sec-verdade-ou.html
13
utilização de recurso visual - uma fotografia de arquivo - na primeira subdivisão
do texto. As duas partes seguintes da reportagem discorreram de forma seca e
direta, com um texto corrido, sem hipertextualidade, ou recursos midiáticos,
caracterizando, desta maneira, que a linguagem usada ainda segue os padrões
da mídia clássica. Aqui, não houve colaboração ou alteridade da informação
aberta, por meio de comentários, pelos “web atores”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar o blog em questão a partir dos princípios da cibercultura com
seus
elementos,
verifica-se
que
os
principais
valores
da
cultura
contemporânea, a autonomia e a abertura à alteridade por parte dos “atores da
web”, estão presentes no objeto em estudo. No entanto, a interatividade entre
os autores dos posts e os leitores ainda está aquém dos ideais do ciberespaço.
Pois, esse universo de redes digitais prima pela troca de conhecimento mútuo
entre seus parceiros.
Se for levada em consideração que a inteligência coletiva, construção da
informação por todos que dela compartilham, é o principal produto que esta
nova cultura objetiva, o resultado ainda não é positivo, tomando como exemplo
o caso analisado.
Apesar de a informação permanecer aberta, enquanto disponível na
web, ao compartilhamento e a interação, a comunidade virtual estudada não
chega a atingir um nível expressivo de feedback por parte dos internautas.
Pode-se destacar como um dos motivos que pode ter causado esse
dado negativo o fato da comunidade exigir em regra que seus leitores se
identifiquem ao inscreverem comentários no blog.
Essa exigência de uma participação identificada pode ter gerado a
intimidação e o receio dos participantes expressarem suas opiniões e
compartilharem do conhecimento.
A ausência de elementos como hipertextualidade, recursos hipermídia,
multimídia - essenciais para a comunicação na web - em grande parte dos
corpus estudados, também pode ser apontada como outra causa determinante
14
para a escassez de interatividade no blog. Pois, o público que navega na web,
necessariamente, não está em busca de uma leitura massiva, a qual pode ser
encontrada facilmente nas mídias offline.
Deste modo, a comunicação mediada por todos, característica da mídia
digital, deve apresentar recursos que motivem a participação dos internautas.
O tempo de existência do blog, lançado em 16 de maio de 2011, pode
ser apontado como outro fator negativo para a inteligência coletiva da
comunidade. Por ser um meio de comunicação recente e que ainda está se
consolidando no ciberespaço, avalia-se que o público pode estar na fase de
adaptação ao novo meio de comunicação interativa.
Apesar das deficiências constatadas, não se pode negar que o
“universal sem totalidade”, elemento chave defendido na tese de Pierre Lévy,
em sua obra Cibercultura, está presente no objeto em estudo, já que a
informação não une os usuários pelo sentido, mas sim pelo contato. O
conteúdo gerido na comunidade INTERA é aberto ao compartilhamento, e
sempre poderá ser acrescido de novos valores. Com isso, entende-se que o
blog segue a regra geral motivada pela cibercultura, “universal por contato”.
Por outro lado, foi verificado que o intuito primordial da inteligência
coletiva, de não apenas compartilhar o conhecimento, mas de manter uma
comunicação multilinear, ainda não atingiu o objetivo máximo na interação.
A partir dos resultados obtidos, pergunta-se se o blog da INTERA
permanece com o mesmo método dos meios de comunicação hegemônicos,
formador de opinião?
A resposta é imediata: não. Pois, de acordo com o estudo de Pierre
Lévy, “a mensagem das mídias de massa como imprensa, rádio, cinema,
televisão, são apenas lidas, ouvidas e vistas por milhares ou milhões de
pessoas dispersas, com o objetivo de encontrar o „denominador comum‟ mental
de seus destinatários” (LÉVY, 1999: 118).
Essa objetividade totalizante no sentido da mensagem não é a mesma
da comunicação transversal existente na cibercultura, e por conseqüente, no
15
blog da INTERA, visto a interação, mesmo que ainda inexpressiva, ter se
concretizado em parte do objeto em estudo.
Seguindo esse perfil de ruptura da totalização da mensagem, a
agremiação em questão permanece com o objetivo de somar novos
conhecimentos acerca do interesse em comum.
Ficou evidente, que a proposta de expandir a discussão sobre o tema
comum, a música autoral no cenário amazonense, tem atingido seu propósito
por meio da interconexão, como revelaram os dados quanto ao fluxo de
visitações nacionais e internacionais.
A pesquisa também mostrou que a essência do termo comunidade
virtual, que integra por afinidades e interesses em comum, é o fator
determinante para a existência do blog.
E por fim, ratifica-se a afirmação de Pierre Lévy, quando o mesmo diz
que “a inteligência coletiva constitui mais um campo de problemas do que uma
solução” (LÉVY, 1999, p. 133). Pois chega-se à conclusão de que as falhas
detectadas no corpus em questão levam a outro campo, o das soluções dos
problemas encontrados, que ainda poderá render futuras pesquisas.
REFERÊNCIAS
AMARAL, Adriana. RECUERO, Raquel. MONTARDO, Sandra (orgs.).
Blogs.Com: estudos sobre blogs e comunicação. São Paulo: Momento
Editorial, 2009.
BLOG DA REVISTA INTERA. Disponível em: <
http://revistaintera.blogspot.com/>. Acesso em: 30 jun. 2011.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo:
Editora 34, 1999.
MACHADO, M.M. et al. O Jornalismo na Web 2.0. Revista Educa Online. Rio
de Janeiro, v.3, n.1, página 1 a 21, janeiro/abril. 2009.
PISANI, Francis. et al. Como a web transforma o mundo: a alquimia das
multidões. Tradução de Gian Bruno Grosso. São Paulo: Editora Senac, 2010.
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