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C O R R E I O B R A Z I L I E N S E Brasília, domingo, U de setembro de 1988
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Governo prevê retomada dos investimentos
A conclusão dos trabalhos da Constituinte acaba com o período de incertezas
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CÉSAR FONSECA
Da Edltorla de Economia
O encerramento dos trabalhos da Assembleia Nacional
Constituinte trouxe grande
alívio para a equipe do Ministério da Fazenda por entender
que eles estavam se constituindo em importante fator de incerteza económica. Eliminada
essa incerteza, a previsão do secretário para Assuntos Económicos, João Batista de Camargo, é a de que haverá nos próximos meses uma retomada dos
investimentos. Isso permitirá o
aumento da arrecadação, ressalta, e, consequentemente, representará mais um passo para
conter o déficit na casa dos 4
por cento do Produto Interno
Bruto, este ano.
Os sinais de que essa retomada — ainda pequena — tende a
se consumar e expandir, diz João Batista de Camargo, podem
ser medidos pela incremento
das importações. A partir da segunda semana de agosto, a Caçex registrou um aumento de 40
por cento nos pedidos de importação que deverão refletir nos
resultados da balança comercial de setembro. Trata-se, destacou o secretário, de aumento
das importações de bens de capital e de matérias-primas que,
certamente, contribuirão para
aumentar a demanda do setor
industrial.
A análise sobre o comportamento da economia feita por
João Batista de Camargo procura mostrar que lentamente e
de maneira racionalmente calculada o Governo está imprimindo um ritmo firme à política
do "feijão-com-arroz" que começa dar resultdos positivos. O
ano, diz o secretário, começou
com uma série de incertezas
que turvavam bastante o horizonte, mas deverá se encerrar
com um panorama mais tranquilo e çom perspectivas mais
otimistaspara 1989.1989.
Duas incertezas logo se destacaram no início de 1988, segundo Camargo: o déficit público e
os reflexos negativos acumulados pela moratória. O Governo
constatou que tinha pela frente
um déficit do setor público de 8
por cento do Produto Interno
Bruto. Resolveu, de forma firme, atacá-lo de frente. A meta
de reduzi-lo para 4 por cento do
PIB não é suficiente para manter equilibrada as contas públicas, mas foi o politicamente
possível em face das dificuldades enfrentadas pelo Governo
neste momento de transição democrática.
Alguns empecilhos ainda estão por aí a impedir a consecução da meta de 4 por cento do
PIB para o déficit, este ano, por
exemplo, a decisão da Constituinte de anistiar a dívida dos
microempresários e pequenos
agricultores contraídas durante
o Plano Cruzado. Camargo disse que o Banco do Brasil e os
bancos particulares estão fazendo um levantamento completo sobre o assunto.
Inicialmente o Governo previu um prejuízo total de Cz$ 700
bilhões, englobando bancos privados, bancos oficiais e Tesouro
Nacional. Desse total, Cz$ 300
bilhões, aproximadamente, representam créditos de responsabilidade do Tesouro. Esse
sim, poderá, destacou, representar pressão sobre o déficit,
enquanto os Cz$ 400 bilhões divi-
didos entre Banco do Brasil, rigos da estiagem é torcer para
principalmente, e bancos priva- que São Pedro socorra a tempo
dos, não significarão déficit tanto os agricultores quanto o
porque poderão ser absorvidos Governo. Ou seja, os perigos
nos seus balanços. O Tesouro continuam e a inflação pode suNacional não sofrerá maiores bir caso as pressões dos funcioimpactos porque não desembol- nários do BB e das estatais resará novos recursos correspon- sultem em aumentos reais de
dentes ao total da anistia como salários e os preços dos produtos agrícolas aumentem por
forma de compensação.
causa da estiagem.
DIVIDA EXTERNA
O Governo conta, no entanto,
Contornada a incerteza do dé- com a indexação generalizada
ficit em 1988, Camargo lembra da economia para evitar maioque o Governo cuidou de elimi- res desequilíbrios. Segundo
nar uma segunda e séria incer- João Batista de Camargo não
teza: a negociação da dívida ex- há dúvida de que tem sido
terna. Apesar das pressões dos possível manter a economia em
opositores, destaca, foi possível equilíbrio mesmo com uma inconcluir uma negociação satis- flação superior a 20 por cento ao
fatória, porém, não definitiva, mês, graças à indexação que
mas que abriu possibilidades evita perdas salariais expressipara novos avanços de forma vas e explosão da inflação rumo
permanente. A conclusão das à hiperinflação.
negociações com os credores
João Batista de Camargo
privados, com o Fundo Monetá- acredita
o perigo da hiperio Internacional e com o Clube rinflação que
está afastado porque o
de Paris permitiu o retorno do Governo está
com
País à comunidade financeira muito esforço,conseguindo,
o déficit
internacional e poderá permitir público na casa conter
dos 4 por cento
acesso a novos créditos de difePIB este ano. Mas, as presrentes modalidades — em co- do
continuam. Preocupa basfinane iamento com o Banco sões
tante o Governo, ressalta o seMundial, lançamento de bónus cretário,
que
da dívida, abertura de crédito adotarão ooscomportamento
membros da Codas agências oficiais dos países missão do Orçamento
do Condesenvolvidos e, possivelmente, gresso Nacional que disporão
novos créditos junto aos bancos de ampla liberdade para reviprivados paralelamente ao rar de cabeça para baixo o orprosseguimento da conversão çamento que foi enviado ao Parda dívida em investimentos no lamento, prevendo a contenção
País.
do déficit em 2 por cento do PIB
Mas, superar as duas incerte- para o próximo ano.
zas — a explosão do déficit púAs declarações do presidente
blico e a negociação da dívida
externa — não foi suficiente da Comissão, deputado Cid Carporque uma terceira incerteza valho (PMDB-PA), de que não
contribuia para deixar a econo- tem nenhum compromisso com
mia em permanente suspense: a promessa feita pelo Governo
a elaboração da nova Constitui- ao Fundo Monetário Internacioção. Os empresários, diz João nal de conter o déficit em 2 por
Batista Camargo, estavam in- cento do PIB, inquietaram a
quietos e esperavam uma solu- equipe da Fazenda, mas Cação, qualquer que fosse, mas margo destaca que qualquer alque lhes permitissem traçar os teração a ser promovida pela
rumos e seguir, independente- comissão no orçamento que immente se os termos da nova plique em aumento de gastos teConstituição favoreceriam ou rá que necessariamente vir
não os projetos que tinham em acompanhada de alternativa
em relação ao aumento da remente.
ceita como forma de compensaO preço a pagar pelo controle ção.
do déficit, no entanto, criou ouPara evitar a hiperinflação a
tra fonte preocupante de incerteza, mas que João Batista de saída, segundo Camargo, é conCamargo prevê ser temporária: tinuar cortando o déficit. O prea inflação. Ao reduzir subsídios, ço a ser pago, no entanto, deve
cortar gastos e buscar afastar- ser mais inflação. E é nesse
se progressivamente da econo- ponto que poderão surgir divermia, o Governo, admite Camar- gências entre o Governo e a Cogo, contribuiu para aumentar a missão de Orçamento.
inflação de forma acelerada ao
JUROS DE 12%
longo deste ano. Ele lembra, porém, que a explosão inflacionáCamargo preferiu não aproria ocorreu de uma s'o vez e de fundar em comentários quanto
forma definitiva. O quadro que à previsão dos banqueiros prise apresenta, agora, diz, é de vados de que a efetivação dos
acomodação e obstáculo maior juros de 12 por cento levará a
tentar se equilibrar em face de economia à hiperinflação.
uma inflação mensal de 21 a 22 Trata-se, na sua opinião, de oupor cento ao mês.
tra fonte de incertezas, mas
Qualquer desvio pode ser fa- lembrou que prefere esperar
tal, admite Camargo. Os peri- pela definição sobre o que realgos que se apresentam ao Go- mente é juro real. Ele não desverno, no momento, são as rei- cartou a hipótese de que pode
vindicações salariais dos fun- acontecer uma retomada dos
cionários das empresas estatais investimentos — "há gente fae do Banco do Brasil e a estia- lando nisso" —, na medida em
gem nos estados do Sul que po- que os bancos terão que emderá prejudicar o comporta- prestar dinheiro a um custo
mento dos preços nas próximas mais barato, ao mesmo tempo
semanas. E m relação aos fun- que o Governo terá o custo da
cionários das estatais e do BB, dívida interna reduzido já que o
Camargo destaca que a ordem é custo de rolagem dessa cairá.
segurar as reivindicações e per- Teoricamente isso pode acontemitir reajustes somente com cer, mas a realidade poderá ser
base na variação do IPC ex- outra, com os bancos burlando
cluída a URP e permitindo de a lei por diversos meios que a
apenas 1 por cento a título de prática permite. Só a prática diprodutividade. E quanto aos pe- rá o que acontecerá.
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