2440 X Salão de Iniciação Científica PUCRS Análise da capacidade decisória dos pacientes sujeitos das consultorias ao Comitê de Bioética do Hospital São Lucas e Faculdade de Medicina da PUCRS entre junho de 1997 e dezembro de 2008 Muriel Tumelero Lorenzi1, Jussara de Azambuja Loch2 (orientador) 1 Faculdade de Direito, PUCRS, 2 Faculdade de Medicina, PUCRS Resumo Introdução Os avanços tecnológicos na área das biociências, além de proporcionarem evidentes benefícios para a saúde humana, permitindo o aumento da expectativa de vida e a prevenção, tratamento e erradicação de várias doenças, motivam, também, questionamentos econômicos, éticos, morais e legais resultantes do emprego exagerado ou inadequado de tais medidas. A revolução terapêutica e as manipulações sobre a vida levaram ainda à produção de normas jurídicas de proteção ao ser humano em seus aspectos psíquico e físico, gerando mudanças e novas interpretações nas legislações nacional e internacional, nos códigos profissionais, na jurisprudência e doutrina. Desta forma, Bioética e Direito estabelecem estreita relação, pois ambos se ocupam do estudo do comportamento humano, procurando reconhecer e encontrar estratégias de mediação para os conflitos morais, utilizando princípios de tolerância e humanismo e descartando a utopia de se atingir uma verdade absoluta e válida para todos (DINIZ; GUILHEM, 2005). Para a análise destas complexas questões no cotidiano da assistência à saúde das pessoas, os Comitês de Bioética (CB) têm sido uma valiosa instância de auxílio às equipes de saúde, pacientes e seus familiares, mediante a realização de consultorias e emissão de recomendações sobre os cursos de ação considerados eticamente adequados nestas situações. A experiência do Comitê de Bioética do Hospital São Lucas e Faculdade de Medicina da PUCRS (CB HSL-FAMED/PUCRS), um dos pioneiros no País, já havia sido analisada até o ano de 2006 (LOCH, GAUER, BORGES, 2008). O presente trabalho visa complementar esta casuística, acrescentando a análise das novas consultas realizadas em 2007 e 2008 e investigando vários aspectos presentes na totalidade dos casos. Especificamente estão sendo X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 2441 estudadas: a) A relação entre idade, sexo, e capacidade decisória dos pacientes; b) A questão da capacidade decisória dos pacientes quanto a seus tratamentos e sua relação com os critérios de capacidade civil; c) Comparação dos achados com os da literatura brasileira e estrangeira. Metodologia Estudo descritivo transversal dos registros em arquivo das consultorias realizadas ao CB HSL-FAMED/PUCRS nos anos de 2007 e 2008. Na análise estatística dos dados quantitativos estão sendo utilizados o sotfware SPSS 10.0 e testes paramétricos e não paramétricos. A análise qualitativa segue a sistemática de estudo de casos, com ênfase na capacidade decisória do paciente, através da leitura e codificação das informações médicas, demográficas e constitucionais registradas nos pareceres. Projeto aprovado pelo parecer CEP/PUCRS 375-05 e no Edital BPA/PUCRS 13/2009- Recém-Doutor. Resultados parciais e Discussão No período entre junho de 1997 e dezembro de 2008, o CB do HSL-FAMED/PUCRS recebeu 93 consultorias provenientes de vários setores e serviços do Hospital São Lucas. Deste total, 18 consultas (19,3%) questionavam sobre a melhor forma da instituição se posicionar frente a diversas situações que envolvem aspectos morais e as restantes 75 consultorias (80,6%) referiam-se a casos clínicos envolvendo pacientes. A idade dos pacientes nestas solicitações variou de três meses a 84 anos de idade, sendo divididas em faixas etárias e classificadas de acordo com a legislação civil em vigor. O maior percentual dos pacientes (50,7%) está situado na faixa dos 18 a 65 anos, quando, desde uma perspectiva jurídica, são considerados plenamente capazes em razão da idade, aos quais poder-se-iam somar os pacientes maiores de 65 anos (12%), conforme a Tabela 1. Tabela 1. Freqüência (f) e percentual (%) dos pacientes, por faixa etária (n= 72) Faixas de idade Absolutamente incapaz para atos da vida civil (0 a 15 anos) Relativamente capaz (16 a 18 anos) Plenamente capaz (18 a 65 anos) Vulnerabilidade em razão da idade (65 anos em diante) Sem registro Total X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 f 17 1 38 9 10 75 % 22,7 1,3 50,7 12,0 13,3 100 2442 Estes resultados permitem inferir que, ao menos na amostra estudada, a situação de adoecimento independe da idade e da capacidade civil dos pacientes para que ocasione dúvidas a respeito da assistência adequada a ser prestada a estas pessoas. No entanto, quando estes pacientes (n=75) foram analisados do ponto de vista de sua capacidade para tomar decisões sobre sua saúde, somente 26 (34,7%) foram considerados capazes; 11(14,6%) doentes tiveram sua capacidade questionada pela equipe ou não se encontrou menção a ela nos registros. Os motivos para que as equipes de saúde considerassem a incapacidade decisória dos restantes 38 pacientes (50,7%) estão demonstrados na Tabela 2. Tabela 2. Motivos para a incapacidade decisória dos pacientes (n= 38) Incapacidade decisória devido a Idade Transtorno neurológico Transtorno psiquiátrico Transtorno metabólico Total f 16 15 5 2 38 % 42,2 39,5 13,1 5,2 100 Conclusão Os resultados até agora analisados sugerem que as equipes assistenciais buscam o auxílio do Comitê de Bioética também para elucidar questões relacionadas à melhor representação dos interesses dos doentes, já que cerca de metade (50,7%) dos pacientes sujeitos das consultorias, apesar de juridicamente capazes (62,7%), apresentavam condições clínicas que os impedia de manifestar autonomamente sua vontade sobre os procedimentos e tratamentos ofertados, justificando a necessidade de consulta ao CB. Evidencia-se, portanto, que no contexto da prática clínica a avaliação da capacidade decisória do paciente torna-se muito mais complexa do que a definição de capacidade de fato encontrada no Código Civil. Referências BRASIL.Código civil brasileiro (Lei n° 10.406, de 10.01.2002). Porto Alegre: Síntese, 2003. DINIZ D, GUILHEM D. O que é bioética. São Paulo: Brasiliense, 2005. LOCH JA; GAUER GJC; BORGES GS. Consultorias solicitadas ao Comitê de Bioética da Faculdade de Medicina e do Hospital São Lucas da PUCRS no período de 1997 a 2006. In: LOCH JA; GAUER GJC; CASADO M. Bioética, Interdisciplinaridade e Prática Clínica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008; p 263-72. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009