Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Parecer Técnico nº 03/2012 – COLIC/CGGAM/DPDS/FUNAI À: Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Assunto: AHE Água Limpa 1. Introdução Este documento tem como objetivo apresentar a análise técnica da FUNAI acerca dos “Estudos Etnoecológicos dos Impactos Socioambientais do AHE Água Limpa e Sistema de Transmissão de Uso Exclusivo”, encaminhados pela Empresa Furnas Centrais Elétricas à Fundação Nacional do Índio, com vistas a subsidiar a manifestação do órgão licenciador na tomada de decisão a respeito da Licença Prévia da Usina Hidrelétrica de Água Limpa. As considerações técnicas reveladas nesse documento pautar-se-ão pela análise crítica das informações disponibilizadas pelo, aqui chamado, Estudo do Componente Indígena - ECI, pelo Estudo de Impacto Ambiental - EIA da UHE Água Limpa, pela utilização de bibliografia especializada, bem como pelo acompanhamento das reuniões ocorridas junto às populações indígenas Bororo e Xavante pela FUNAI. Procurou-se sempre que possível obter informações com especialistas e demais servidores desta Fundação para melhor qualificar as análises. O parecer aqui apresentado é produto da análise reflexiva de três servidores que atuam na Coordenação de Licenciamento – COLIC com formação profissional nas áreas sociais e ambientais. As Coordenações Regionais de Barra do Garças/MT e Cuiabá/MT contribuíram de maneira valiosa para o acompanhamento desse processo de licenciamento ambiental desde seu início. De acordo com o EIA, o local previsto para a implantação do eixo do Aproveitamento Hidrelétrico Água Limpa, no rio das Mortes, é coincidente com o local previsto nos Estudos de Inventário Hidrelétrico do rio das Mortes, realizados entre os anos de 2000 e 2001 pela PCE Engenharia em conjunto com as empresas LG Engenharia, Energética-Tech e Enercamp, e localizase na latitude 15º 22’ 16’’ S e longitude 53º 22’ 07’’ O. O empreendimento abrange áreas dos municípios de General Carneiro (margem direita) e Novo São Joaquim (margem esquerda), no estado do Mato Grosso. Localizado acerca de 17 km dos limites orientais da Terra Indígena (TI) Sangradouro, situa-se num importante corredor ecológico, sendo considerado um “rio-marco” para os Xavante. 1 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Mapa de localização do empreendimento e as Terras Indígenas Sangradouro, Merure e São Marcos Fonte: Furnas-Soma, 2008 apud CTI-Wara 2011:203. As consequências desse empreendimento postas em análise pela equipe técnica que elaborou o estudo serão evidenciadas de forma a levantar comentários, reflexões e pertinência dos dados disponibilizados. Considera-se aqui, especificamente, a análise da viabilidade dessa hidrelétrica em relação às populações indígenas e seus territórios tradicionais, analisando o tratamento dado ao tema na versão do Componente Indígena. O texto está divido em 10 itens. O primeiro trata-se dessa introdução. No item 2 apresentase o histórico do processo de licenciamento ambiental a partir de documentos protocolados junto à FUNAI ou por ela emitidos. Já o tópico 3, apresenta as prerrogativas legais que regulamentam os processos de licenciamento ambiental em terras indígenas e demais instrumentos jurídicos que transversalizam o tema. O tópico 4 realiza uma breve caracterização do empreendimento a partir da leitura do Estudo de Impacto Ambiental do AHE Água Limpa. Apresenta-se no item 5 uma breve caracterização dos povos indígenas Xavante e Bororo, a partir das informações disponibilizadas no Estudo do Componente Indígena – ECI. A mesma estrutura segue para a caracterização das terras 2 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM indígenas foco desse estudo no Item 6. Já para o item 7 é realizado a análise do ECI, realizando sempre que possível comentários e análises críticas, destacando os aspectos socioculturais e ecológicos, bem como os impactos identificados e os motivos pelos quais o estudo não apresentou medidas e programas. O Item 8 revela o posicionamento das lideranças indígenas em reuniões promovidas pela Funai e/ou empreendedores e a Associação Xavante Warã, ao longo do processo de licenciamento ambiental. O item 9 tece os comentários finais esclarecendo a posição da Funai ao órgão licenciador, a Secretaria de Meio Ambiente do estado do Meto Grasso, SEMA/MT. E, por fim, o item 10 apresenta a bibliografia utilizada para a elaboração desse Parecer. 2. Histórico do Processo Funai Nº 08620 001254/2005-DV Esse tópico trata do histórico do processo de licenciamento ambiental do AHE Água Limpa, a partir dos documentos encaminhados no âmbito do processo acima referenciado, tendo por lógica a data de entrada do documento na CGGAM e não a data de emissão dos mesmos. Ressaltamos ainda, que os documentos abaixo relacionados são aqueles de relevante importância para compreensão do processo, não estando aqui registrados, despachos e encaminhamentos internos etc. O processo de licenciamento ambiental do Aproveitamento Hidrelétrico de Água Limpa teve início no dia 07.01.05 a partir do OFÍCIO – GA.I.E. Nº 328-2004, de 28.12.04, quando FURNAS Centrais Elétricas, solicita orientação dessa Fundação quanto ao escopo dos estudos a ser desenvolvido sobre a questão indígena, visando sua inserção no estudo de impacto ambiental junto à extinta FEMA/MT. Em resposta a Funai no dia 17.02.05 encaminha o OFÍCIO Nº 67/CMAM/CGPIMA/05 solicitando as coordenadas geográficas e informando que a viabilidade da implantação do empreendimento só poderá ser avaliada após a elaboração do EIA e do Estudo Etnoecológico das áreas e comunidades indígenas atingidas diretamente e indiretamente pelo empreendimento. Em 05.04.05 a Funai é informada sobre a localização do Empreendimento, por meio do OFÍCIO – GA.I.E. Nº 072-05, de 15.03.05, em que ressalta que o empreendimento não interfere diretamente em áreas indígenas e que a FEMA/MT já oficiou FURNAS de que o licenciamento ambiental do empreendimento se dará no âmbito estadual. 3 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Em 25.04.05 a Funai inicia o procedimento interno para análise técnico cartográfica do empreendimento. No dia 14.09.05, Furnas através do OFÍCIO – GA.I.E. Nº 305-05 de 30.08.05, enviado a presidência, reitera a solicitação de orientação da Funai quanto ao escopo dos estudos a serem desenvolvidos sobre a questão indígena, visando a sua inserção no EIA (previsto para entrega em maio/2006). Em 18.10.05 OFÍCIO Nº 424/CMAM/CGPIMA/05 encaminha em anexo, Termo de Referência do AHE Água Limpa. Em 06.01.06 é obtido o resultado da análise técnico-cartográfica, mas as coordenadas plotadas recaem em outra região do Mato Grosso, próximo 40 km da Terra Indígena Sararé. No dia 16.05.06, Furnas através do OFÍCIO DEA.E.E. Nº 049.2006, de 3.04.06, informa que está enviando um mapa confirmando as coordenadas geográficas do AHE Água Limpa, contendo ainda o contorno do futuro reservatório e local da barragem. Informa ainda que o local a ser implantada a “casa de força” ainda não foi definido pelo Departamento de Engenharia Civil de Furnas. Em 19.06.06, o OFÍCIO Nº 253/CMAM/CGPIMA solicita que seja encaminhado um mapa em via impressa e digital, com as coordenadas geográficas do AHE Água Limpa, para que se possa realizar a consulta sobre a localização do empreendimento em relação às TI's. Em atendimento a solicitação da Funai, no dia 02.10.06, o OFÍCIO DEA.E.E. Nº 117.2006 de 25.09.06, encaminha cópias do mapa referente ao AHE Água Limpa, em meio digital e impresso, contendo informações solicitadas pela CGPIMA, atual CGGAM. Em 09.08.07, a CARTA S/Nº da Associação Xavante Warã, informa que as lideranças Xavante de Sangradouro, São Marcos, Areões e Pimentel Barbosa e lideranças Bororo de Merure e Sangradouro ratifica a indicação da Associação Xavante Warã para que o Centro de Trabalho Indigenista – CTI realize o estudo de impacto relativo à instalação da hidrelétrica Água Limpa na Bacia do Rio das Mortes. É anexado ao processo no dia 11.12.07, a CARTA ALA.E.E. Nº 020.2007, de 28.11.07, onde FURNAS encaminha em anexo, Registro da Reunião, aprovado por essa Fundação por meio de correio eletrônico de 13.11.07, realizada em 27.10.07, que teve por finalidade apresentar alteração do projeto do AHE Água Limpa: apresenta a alteração do projeto; solicita a anuência da 4 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Funai para utilizar o TR emitido em 18/10/05; Funai acata a solicitação; informa que o CTI declinou do convite e que não foi efetivada a contratação da equipe; Funai solicita que sejam apresentadas coordenadas exatas do empreendimento. Em 07.04.08 a ELETRONORTE, através da CARTA CE-EEM Nº 056.2008, de 12.03.08, solicita a emissão de Termo de Referência para Toricoejo de forma integrada ao de Água Limpa, visto que caberá a Eletronorte a condução dos estudos etnoecológicos. Solicitação reiterada em 24.06.08 na CARTA CE-EEM Nº 102.2008 de 13.06.08, sob a justificativa que os AHE’s estão no mesmo rio e solicita o agendamento de reunião técnica, se possível com a minuta de termo delineada para que seja discutida e emitida versão final com brevidade. O OFÍCIO Nº 311/CGPIMA/DAS/08 de 30.06.08 encaminha o Termo de Referência para Eletronorte para à realização dos estudos socioambientais integrados levando em consideração a Bacia do Rio das Mortes. Em 29.08.08, a CARTA CE-EEM – Nº 149.2008, de 21.08.08, encaminha para apreciação técnica dois Planos de Trabalho (Água Limpa e Toricoejo) e anexos os currículos e temas de compromisso dos profissionais indicados por lideranças indígenas, informa ainda que está prevista uma reunião geral de apresentação do projeto aos líderes indígenas, em Nova Xavantina no período de 10 a 15 de setembro. Anexa-se no dia 02.06.09, a CARTA ALA.E.E. Nº 152.2009 de 21.05.09, onde FURNAS informa que a partir do entendimento de que a reunião agendada para os dias 12 e 13 de setembro não atingiu o seu objetivo de esclarecimento dos projetos para as lideranças indígenas e fazendo referencia ao Ofício Nº 717/CGPIMA/DAS/08, de 24/11/08, que recomenda naquele momento a não continuidade dos trabalhos referentes aos estudos do componente indígena até o restabelecimento de diálogo com as comunidades indígenas, solicita agendar o mais breve possível nova reunião de consulta às lideranças indígenas Xavante e Bororo para dar continuidade aos estudos decorrentes do licenciamento ambiental, referente o AHE Água Limpa. O OFÍCIO Nº 419/CGPIMA/DAS/09 de 18.08.09 Encaminha custos relativos para reuniões nas TI's Pimentel Areões, São Marcos, Sangradouro e Merure a ser realizada entre os dias 24/08 a 03/09. Informa que a realização das reuniões tem caráter informativo para as comunidades indígenas, fundamentais para a realização dos estudos etnoecológicos. 5 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Em 29.12.09, FURNAS por meio da CARTA ALA.E.E. Nº 470.2009, de 17.12.09, solicita informação se o ingresso nas TI's envolvidas nos AHE's Água Limpa e Toricoejo já foi normalizado, pois o ingresso nas TI's estavam suspenso devido o risco de contágio do vírus H1N1, tendo em vista a urgente necessidade de conclusão dos estudos do componente indígena. O OFÍCIO Nº 09/CGGAM/DPDS de 25.01.10 encaminha orçamento de Reunião para tratar do Estudo do componente indígena dos AHE Água Limpa e Toricoejo, que acontecerá no Hotel Águas Claras – Primavera do Leste/MT nos dias 26 à 28 de janeiro de 2010 para despesas de alimentação hospedagem e deslocamento das comunidades indígenas, a serem custeadas pelo empreendedor O OFÍCIO Nº 053/2010/DPDS-FUNAI-MJ de 22.02.10 informa sobre a mobilização da Funai para realizar a reunião de retomada da apresentação dos projetos dos AHE Água Limpa e Toricoejo e avaliar com os índios a proposta de Plano de Trabalho para realização dos estudos do componente indígena. Em 04.05.10, recebe-se a carta da Eletronorte, CE-EEM 163/2010 de 30.04.10, encaminhando para apreciação e aprovação os planos de trabalho que nortearão o documento ambiental a ser elaborado para fins de licenciamento ambiental dos aproveitamentos hidrelétricos anteriormente referidos. No dia 07.05.10, a CARTA S/Nº Líder Xavante/TI São Marcos de 10.03.10 anexa carta de Repúdio da construção das barragens de Água Limpa e Toricoejo no Rio das Mortes por haver impacto ambiental e social indígena irreversível. Solicita apoio na luta em defesa do Rio das Mortes e seus afluentes. O Ofício Nº 353/2010/DPDS-FUNAI-MJ sugere que os PTs sofram ajustes para atualização das atividades e solicita o envio do Termo de compromisso assinado dos novos profissionais da equipe técnica Em 19.07.10 - CARTA CE-EEM Nº 264/2010 de 14.07.10 - é informado que a equipe constituída sob a coordenação do antropólogo Gilberto Azanha iniciará a campanha de campo em 1º de agosto, com saída prevista de Primavera do Leste. Em 25.11.10 - OF. 04/RM/CTI de 23.11.10 – solicita-se o acompanhamento de técnico da CGGAM e dois novos servidores da CR de Barra do Garças a partir do dia 29 de novembro. 6 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Em 28 de março o expediente EEM 118/2011 informa que a equipe técnica promoverá debates nas comunidades indígenas Xavante e Bororo entre os dias 30 de março e 10 de abril e solicita a participação da Funai. Em 25 de janeiro é inserido nos autos o Oficio 001/Warã/2011, de 10.01.11, em que solicita que a CGGAM se posicione acerca de medidas e programas e se responsabilize pela viabilidade do empreendimento. O Memo 184/COLIC/CGGAM/11, de 28.02.11, esclarece a associação Warã os procedimento adotados pela Funai e da legislação especifica que disciplina a matéria. Em virtude da programação de apresentação dos estudos nas aldeias o Oficio Nº 256/2011/DPDS-FUNAI-MJ, de 17 de março de 2011, solicita que seja enviado o relatório preliminar a Funai para que haja uma leitura prévia as reuniões nas terras indígenas, por isso sugerem que as reuniões sejam adias e remarcadas para o mês de abril. O Ofício nº 434/2011/DPDS-FUNAI-MJ, de 10 de maio, em resposta ao CE EEM 165/2011, em que ratifica a correspondência CE EEM 118/2011, informa a Eletronorte que as reuniões serão acompanhadas conforme cronograma atualizado via correspondência eletrônica para o período compreendido entre os dias 21 e 29 de maio e solicita que os relatórios sejam enviados também em formato digital. Em 20 de maio a correspondência CE EMM 183/2011, encaminha os estudos solicitados para as reuniões entre os dias 21 e 29 de maio. Em 29 de agosto, o expediente EEM-313-2011, remete os anexos que em virtude de falha de protocolo não foram enviados pela correspondência conjunta enviada por Furnas e Eletronorte, ALA.E.E. 373.2011, CE-EEM-295-2011, de 15 de agosto, encaminhando o estudo final do AHE Água Limpa e o Documento Complementar Proposição de Medidas Mitigadoras, Compensatórias e Programas de Controle e Monitoramento, sob a justificativa de atender a metodologia de avaliação de impacto ambiental adotada pelos órgãos de meio ambiente, bem como ao termo de referencia emitido pela Funai. O Ofício 009/Warã /2011, da Associação Xavante Wará, reitera o pedido quanto a possibilidade de reunião para tratar dos AHE’s localizados no Rio das Mortes. O Oficio Nº 1222/2011/DPDS-FUNAI-MJ, de 06 de dezembro de 2011, se remete à reunião realizada na sala da Coordenação Geral de Gestão Ambiental com Furnas e Eletronorte, e 7 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM ressalta a necessidade de apresentação do “Documento Complementar Proposição de Medidas Mitigadoras, Compensatórias e Programas de Controle e Monitoramento”, elaborado por essas empresas, sem a participação da equipe técnica contratada para elaborar o estudo do componente indígena. Em 29 de dezembro é anexado ao processo a CARTA ALA.E.E.606.2011, datada de 20 de dezembro, que responde ao Ofício Nº 1222, informando que se colocam a disposição, no sentido de promover a apresentação do citado documento. O Oficio Nº 127/2012/DPDS-FUNAI-MJ, de 02 de fevereiro, acusa o recebimento do Ofício 016/Warã /2012 que solicita a realização da reunião na cidade de Primavera do Leste nos dias 07 e 08 de março. Em resposta a esse documento é enviado via fax a CGGAM a carta DI.A.E.023.2012, de 17.02.2012, informando não haver tempo hábil para providencias de logística, bem como ações necessárias para preparação da estrutura do local e segurança do evento. O Oficio Nº 162/2012/DPDS-FUNAI-MJ, de 02 de março, detalha o numero de participantes do evento e encaminha os contatos necessários para a efetivação da reunião, remarcada para o dia 15 de março. 3. Base Legal Destacamos aqui alguns dos principais dispositivos legais que podem e devem ser aplicáveis no acompanhamento de processos de Licenciamento Ambiental que afetem Terras Indígenas. Lei 6.001/1973 - Dispõe sobre o Estatuto do Índio. Lei 6938/1981 - Institui a Política Nacional de Meio Ambiente e o licenciamento ambiental como um de seus instrumentos. Constituição Federal 1988, art.23, 225, 231 e 232. Lei 9.394/1996 - Fixa as diretrizes e bases para a educação nacional, e estabelece regras especiais para a educação escolar indígena. Decreto 26/1991 - Dispõe sobre a educação indígena no Brasil. 8 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Decreto 1.775/1996 - Dispõe sobre procedimento administrativo de demarcação de Terras Indígenas e dá outras providências. Instrução Normativa 01/1995 da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) – Norma que disciplina o ingresso em Terras Indígenas com a finalidade de desenvolver pesquisa. Instrução Normativa 01/2012 da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) – Norma que disciplina a participação da Funai no processo de licenciamento ambiental de empreendimentos ou atividades potencial e efetivamente causadoras de impactos ambientais e socioculturais que afetem terras e povos indígenas. Decreto 143/2002 - Aprova o texto da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre os Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes. Notar mais especificamente o artigo 6; artigo 7 e artigo 15. Decreto 1.141/1994 - Dispõe sobre proteção ambiental, saúde e apoio às atividades produtivas para as comunidades indígenas. Decreto 3.799/2001 - Altera dispositivos do Decreto 1.141/1994, que dispõe sobre proteção ambiental, saúde e apoio às comunidades indígenas. Lei 9.836/1999 – Lei que institui, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), o subsistema de atenção à saúde indígena, que cria regras de atendimento diferenciado e adaptado às peculiaridades sociais e geográficas de cada região. Decreto 7.336/2010 – Art 5 transfere, da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA para o Ministério da Saúde, os bens permanentes ativos compreendendo móveis, imóveis, intangíveis e semoventes, acervo documental e equipamentos destinados à promoção, proteção e recuperação da saúde dos povos indígenas, incluindo os relacionados às ações de saneamento ambiental em terras indígenas. Resolução CONAMA 001/86 - Institui a obrigatoriedade de elaboração do Estudo de Impacto Ambiental para atividades potencialmente causadoras de impacto ambiental. Resolução CONAMA 006/87 - Define regras gerais para o licenciamento de obras de grande porte de interesse da União, como hidrelétricas. Resolução CONAMA 009/87 - Regulamenta as Audiências Públicas, que têm como objetivo expor aos interessados o conteúdo do Relatório de Impacto Ambiental - RIMA, dirimindo dúvidas e recolhendo críticas e sugestões que devem constar em atas e que deverão, por sua vez, servir de base - juntamente com o RIMA, para a análise e parecer final do licenciador quanto à aprovação ou não do empreendimento. 9 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Resolução CONAMA 001/88 - Dispõe sobre a criação de Cadastro Técnico Federal de atividades e instrumentos de defesa ambiental. Resolução CONAMA 006/88 - Dispõe, em seu artigo 1º, sobre o licenciamento de obras ou atividades que geram resíduos industriais perigosos. Resolução CONAMA 008/88 - Dispõe sobre o licenciamento de atividades minerais, do uso de mercúrio metálico e do cianeto em atividades de extração de ouro. Resolução CONAMA 009/90 - Dispõe sobre normas e critérios para licenciamento ambiental de extração de minerais. Resolução CONAMA 013/90 - Determina que nas áreas circundantes das Unidades de Conservação, num raio de dez quilômetros, qualquer atividade que possa afetar a biota deverá, obrigatoriamente, ser licenciada. Decreto 99.274/90 - Em seu capítulo IV trata do licenciamento ambiental de atividades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras. Resolução CONAMA 237/97 - Regulamenta aspectos do licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional de Meio Ambiente e revisa procedimentos e critérios visando sua utilização como instrumento de gestão ambiental. Resolução CONAMA 286/01 - Dispõe sobre os licenciamentos de atividades em regiões endêmicas de malária. Lei 9.605/98 - A chamada Lei de Crimes Ambientais. Define, em seu artigo 60, como crime ambiental passível de detenção, multa ou ambos, cumulativamente, a prática de atividades potencialmente poluidoras sem o devido licenciamento ambiental. Na mesma Lei, o Artigo 66 trata da punição prevista para o funcionário público que fizer "...afirmação falsa ou enganosa, omitir a verdade, sonegar informações ou dados técnico-científicos em procedimentos de autorização ou licenciamento ambiental". Decreto 4.339/2002 - Institui princípios e diretrizes para a implementação da Política Nacional da Biodiversidade. Decreto 4.703/2003 - Dispõe sobre o Programa Nacional da Diversidade Biológica PRONABIO e a Comissão Nacional da Biodiversidade, e dá outras providências. Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas - artigo 29, inciso 1 - “Os povos indígenas têm direito à conservação e à proteção do meio ambiente e da capacidade produtiva de suas terras ou territórios e recursos. Os Estados deverão estabelecer e executar programas de assistência aos povos indígenas para assegurar essa conservação e proteção, sem 10 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM qualquer discriminação”; artigo 32, inciso 1. “Os povos indígenas têm o direito de determinar e de elaborar as prioridades e estratégias para o desenvolvimento ou a utilização de suas terras ou territórios e outros recursos”; inciso 2. “Os Estados celebrarão consultas e cooperarão de boa fé com os povos indígenas interessados, por meio de suas próprias instituições representativas, a fim de obter seu consentimento livre e informado antes de aprovar qualquer projeto que afete suas terras ou territórios e outros recursos, particularmente em relação ao desenvolvimento, à utilização ou à exploração de recursos minerais, hídricos ou de outro tipo”; inciso 3. “Os Estados estabelecerão mecanismos eficazes para a reparação justa e eqüitativa dessas atividades, e serão adotadas medidas apropriadas para mitigar suas conseqüências nocivas nos planos ambiental, econômico, social, cultural ou espiritual”. Lei Complementar Nº 140, de 8 de dezembro de 2011- Fixa normas, nos termos dos incisos III, VI e VII do caput e do parágrafo único do art. 23 da Constituição Federal, para a cooperação entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nas ações administrativas decorrentes do exercício da competência comum relativas à proteção das paisagens naturais notáveis, à proteção do meio ambiente, ao combate à poluição em qualquer de suas formas e à preservação das florestas, da fauna e da flora; e altera a Lei no 6.938, de 31 de agosto de 1981. 4. Breve Caracterização do Empreendimento Esse item é apresentado com dados retirados integralmente do Estudo de Impacto Ambiental do AHE Água Limpa. Descreve-se que os Estudos de Inventário que serviram como base inicial para a escolha da alternativa locacional do empreendimento foram elaborados durante os anos de 2000 e 2001 pelas empresas Enercamp Engenharia e Comércio Ltda., Energética-Tech Consultoria Ltda., LG Engenharia e PCE - Projetos e Consultorias de engenharia Ltda. para serem aprovados pela SPH/ANEEL através do Despacho nº. 967, de 29 de novembro de 2001 (SOMA, 2009, Vol.I, Cap III-16-17). O registro para elaboração dos Estudos de Viabilidade do AHE Água Limpa foi efetivado como ativo através do Ofício nº. 112/2002 do SPH/ANEEL, de 15 de fevereiro de 2002, inicialmente para as mesmas empresas responsáveis pela elaboração dos Estudos de Inventário (ibidem). Posteriormente, conforme Ofícios nº. 028/2004, de 3 de janeiro de 2004, e nº. 265/2004, de 5 de abril de 2004, a SPH/ANEEL concordou com as mudanças de titularidade solicitadas com a 11 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM saída da LG Engenharia e a assinatura do Acordo de Cooperação entre FURNAS Centrais Elétricas S.A. e as demais empresas. FURNAS Centrais Elétricas S.A. contratou, por meio de licitação, a empresa SOMA – Soluções em Meio Ambiente para elaborar o Estudo de Impacto Ambiental em 2005 (ibidem). Finalmente, em 1º de agosto de 2007, a SGH/ANEEL emitiu o Ofício nº. 1456/2007, concordando com a inclusão das empresas Centrais Elétricas do Norte do Brasil S.A. – ELETRONORTE, Construtora Andrade Gutierrez S.A. e ALSTOM Hydro Energia Brasil Ltda., que passaram a integrar o Acordo de Cooperação para realização dos presentes estudos (ibid:17). Como informa o EIA se faz Importante esclarecer que pelas regras vigentes do setor elétrico, assim como qualquer aproveitamento hidrelétrico com mais de 30 MW, a definição do empreendedor do AHE Água Limpa ocorrerá por meio de leilão realizado pela ANEEL após a obtenção da Licença Prévia. (III-16-17, vol 1) O AHE Água Limpa pretende se instalar no médio curso do rio das Mortes, leste do Mato Grosso e suas principais características estão descritas abaixo: 12 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Fonte: Soma, 2009 5. Breve caracterização dos povos indígenas Xavante e Bororo A’uwe - Xavante Os Xavante somam cerca de 13.000 pessoas (Funasa, 2007) abrigadas nas nove terras indígenas que constituem parte do seu antigo território de ocupação tradicional há pelo menos 180 anos, na região compreendida pela Serra do Roncador e pelos vales dos rios das Mortes, Kuluene, Couto de Magalhães, Batovi e Garças, no leste matogrossense. Afora as terras indígenas Chão Preto e Ubawawe que são contíguas a TI Parabubure e expansões desta, as demais seis terras Xavantes Marechal Rondon, Maraiwatsede, São Marcos, Pimentel Barbosa, Areões e Sangradouro/Volta 13 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Grande - são geograficamente descontínuas. Localizadas em meio a um conjunto de bacias hidrográficas responsáveis pela rica biodiversidade regional e, portanto, base do modo de vida tradicional indígena, essa região vem sofrendo impactos ambientais desde a década de 1960 devido à sua incorporação pela agropecuária extensiva, processo intensificado a partir da década de 1980 pelo incremento da produção de grãos para exportação, em especial, a soja. Atualmente são cerca de 165 aldeias Xavante espalhadas de maneira bastante desigual por cada uma das nove terras Xavante: Parabubure, por exemplo, tinha no ano de 2003 cerca de 60 aldeias e uma população de 4.502 pessoas, enquanto Pimentel Barbosa tinha 6 aldeias e 1.570 pessoas. Boe-Bororo Os Bororo perderam grande parte de seu território tradicional. Calcula-se que ocupavam cerca de 350.000 km2, hoje reduzidos a cerca de 132.500 ha, distribuídos em cinco áreas não contíguas, nem todas juridicamente demarcadas. Nesses quase 300 anos de contato os Bororo puderam demonstrar que, apesar das enormes perdas sofridas, eles resistem e procuram se afirmar como um povo diferenciado, mantendo viva a sua cultura e sua complexa organização social (CTI/WARÃ, 2011b:29). Atualmente, os Bororo detêm seis Terras Indígenas (TIs) demarcadas no estado de Mato Grosso, num território descontínuo e descaracterizado, que corresponde a uma área 300 vezes menor do que o território tradicional (ibidem). TIs Bororo no estado de Mato Grosso Denominação Extensão (ha) Jarudore 4.706 Merure 82.301 Perigara 10.740 Tadarimana 9.785 Teresa Cristina 34.149 Situação fundiária Reservada pelo SPI; invadida; sub judice Homologada (Dec. 94.014) Homologada (Dec. 385) Homologada (Dec. 300) Declarada/invadida; em revisão Município(s) Poxoréu Barra do Garças e General Carneiro Barão de Melgaço Pedra Preta e Rondonópolis Sto. Antonio do Leverger As informações históricas disponíveis indicam que nas últimas décadas do século XIX havia um contingente de aproximadamente dez mil indivíduos Bororo. Contudo, ao cabo de poucos 14 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM anos, grande parte sucumbiu aos efeitos deletérios do contato, que incluíram guerras, epidemias e fome. O quadro era tão desalentador que o antropólogo Darcy Ribeiro (1970:293), ao analisar o censo de 1932, afirmou que o alto grau de vulnerabilidade dos Bororo indicava as últimas etapas do processo de extinção. Entretanto, a partir da década de 1970, tem-se observado um crescimento populacional, de modo que, de 626 indivíduos registrados pelo Padre Uchoa em 1979, a população passou em 1997 para 1.024 e, em 2004, somavam 1.306 pessoas. Os dados demográficos atuais registram a seguinte situação da distribuição da população bororo por área e por bacia hidrográfica (IBID:22-23). População Bororo TERRA INDÍGENA POPULAÇÃO (2004) MERURE 524 SANGRADOURO 83 (Morada Bororo) JARUDORI TADARIMANA 245 TERESA CRISTINA 358 PERIGARA 96 POPULAÇÃO TOTAL 1306 Fonte : Missão Salesiana e FUNAI-AER Rondonópolis, 2004, apud CTI/WARÃ, 2011. 6. Breve caracterização das Terras Indígenas 6.1 As Terras Indígenas Xavante As terras Xavante se localizam na área core do Domínio dos Cerrados, formação de diferentes fitofisionomias, altamente antropizados a partir da década de 1970, muito fragmentados, com poucas áreas contínuas de tamanho significativo. Entre estas Terras Indígenas Xavante, o ECI menciona, em especial as TIs Pimentel Barbosa, Areões e Parabubure, por possuírem as maiores extensões contínuas de cerrados preservados no estado de Mato Grosso. Atualmente as quatro terras indígenas Xavante, consideradas no ECI – Sangradouro, São Marcos, Areões e Pimentel Barbosa – representam na bacia as únicas áreas preservadas de cerrados, porém certamente sofrendo impactos negativos devido ao entorno encontrar-se intensamente degradado pela expansão agropecuária. 15 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Neste contexto adverso para o bioma Cerrado, o estudo cita que apenas 5% do estado de Mato Grosso estão protegidos sob a forma de Unidades de Conservação – localizadas, entretanto, em diferentes domínios fitogeográficos e não apenas nos cerrados. Concluindo, o ECI aponta que as terras Xavante assumem maior importância como guardiãs da biodiversidade dos cerrados. Tabela 1 - Terras Indígenas Xavante Denominação Extensão Areões 218.515 Areões I 24.450 Areões II 16.650 Chão Preto 12.740 Maraiwatsede 165.241 Situação Fundiária Homologada Reestudos Reestudos Homologada Homologada/ intrusada Mal. Rondon Parabubure 98.500 224.447 Homologada Homologada Pimentel Barbosa 328.966 Homologada Sangradouro/Volta Grande 100.280 Homologada São Marcos Ubawawe 188.478 52.234 Reservada - SPU Homologada Municípo(s) Nova Nazaré Nova Nazaré Nova Nazaré Campinápolis Alto Boa Vista, Bom Jesus do Araguaia e S.Felix do Araguaia Paranatinga Canarana, Campinápolis e N. Xavantina Canarana e Ribeirão Cascalheira Gal. Carneiro, Novo S. Joaquim e Poxoréu Barra do Garças Sto Antonio do Leste Fonte: CTI/WARÃ, 2011 6.1 As Terras Indígenas Bororo Os Bororo perderam grande parte de seu território tradicional. Calcula-se que ocupavam cerca de 350.000 km2, hoje reduzidos a cerca de 132.500 ha, em quase 300 anos de contato, divididos em seis Terras Indígenas (TIs) demarcadas no estado de Mato Grosso. As TIs Merure, Perigara, Sangradouro/Volta Grande e Tadarimana estão registradas e homologadas; a TI Jarudori foi reservada aos Bororo pelos SPI (Serviço de Proteção aos Índios), mas foi sendo continuamente invadida, a ponto de hoje estar totalmente ocupada por uma cidade; já a TI Teresa Cristina está sub judice, uma vez que sua delimitação foi derrubada por um decreto presidencial (ECI Bororo, pág. 29). O resultado do processo de contato com a sociedade nacional representou não só a perda da maior parte do território tradicional, como também uma drástica redução populacional 16 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM (CTI/WARÃ, 2001b:22). As informações históricas disponíveis indicam que nas últimas décadas do século XIX havia um contingente de aproximadamente dez mil indivíduos Bororo. Contudo, ao cabo de poucos anos, grande parte sucumbiu aos efeitos deletérios do contato, que incluíram guerras, epidemias e fome (ibidem). Os dados demográficos de 2004 registram 524 indivíduos na TI Merure (ibid:23). Os Bororo Ocidentais sofreram tamanha agressão do contato com os colonizadores, a ponto de serem considerados exterminados em meados do século XX. Os Bororo Orientais permaneceram isolados até a metade do século XIX, quando passaram a protagonizar os episódios mais violentos da história de ocupação de Mato Grosso (CTI/WARÃ, 2001b:22). A abertura de uma estrada que cruzava o vale do Rio São Lourenço, ligando aquele estado a São Paulo e Minas Gerais, fez eclodir uma guerra que durou mais de 50 anos e culminou com a rendição total dos Bororo orientais (op.cit:22). Na década de 1970, o elevado grau de insatisfação dos Bororo fez surgir um movimento reivindicatório pela recuperação de suas terras tradicionais e pela melhoria dos serviços de saúde e educação (ibid:29), que se prolonga até os dias de hoje. A reação dos Bororo contra a perda de seus traços culturais, mantida ao longo do processo de contato, chama a atenção pela sua especificidade e originalidade (ibid:30). 6.2 Terra Indígena Sangradouro / Volta Grande A TI Sangradouro de 120.000 hectares encontra-se na região do alto rio das Mortes e seu entorno está totalmente desmatado, ilhada pelos cultivos de soja. Os grandes problemas verificados pelo ECI foram desmatamentos, erosão e assoreamento do rio. Ainda, devido à grande área com cultivos de soja, é intenso o uso de agroquímicos (que são pulverizados por avião), atingindo diretamente a TI (CTI/WARÃ, 2001a, pág. 175-176). Essa TI está inserida, em sua totalidade, na bacia do rio das Mortes, cujo rio de mesmo nome corta o seu perímetro ao Norte. Vários dos córregos e ribeirões afluentes do rio das Mortes que drenam essa Terra Indígena têm suas nascentes fora dos limites demarcados da TI e/ou são referenciados como limite do território demarcado. (ibid:184-185). 6.3 Terra Indígena São Marcos 17 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM A TI São Marcos está localizada no médio rio das Mortes, onde a situação do entorno se repete a da TI Sangradouro, pois está degradado e desmatado com extensas plantações de soja. Em relação à área propriamente dita da Terra Indígena, verifica-se que as formações fisionômicas típicas do cerrados apresentam-se bem conservadas. Em destaque, apresentam-se também em bom estado de conservação as matas de galeria e ciliares que, como se sabe, acompanham os rios e córregos que drenam a Terra Indígena. Quando se atenta às características do entorno, verificam-se além de plantações de soja, as pastagens e, na porção oeste, algumas carvoarias (CTI/WARÃ, 2001b:178-179). 6.4 Terra Indígena Areões A Terra Indígena Areões também está situada no médio curso do rio das Mortes, a jusante das outras duas TIs mencionadas acima, demarcada com cerca de 260.000 hectares. Verificou-se que o entorno da TI Areões é o que tem maior representatividade espacial referente à agricultura e pastagens (CTI/WARÃ, 2001a:179). Esta TI possui uma característica peculiar que são duas importantes manchas de Floresta Estacional Semidecidual, conhecidas como florestas de Brosimum, onde se destaca a espécie Brosimum, também conhecida como falso pau-Brasil. Ricas também, em espécies como as pindaíbas (Xylopia sp), que apresentam grande altura e diâmetros finos. Na região estas formações florestais já foram degradadas, ficando preservadas apenas no interior da Terra Indígena (ibid:179-180). 6.5 Terra Indígena Pimentel Barbosa A TI Pimentel Barbosa localiza-se na área do baixo rio das Mortes com uma área de 328.000 hectares. O Estudo verificou o predomínio de cobertura de cerrados no interior da TI, que na verdade corresponde a uma mata paludosa, cuja influência em relação ao regime de inundações é promovida pelas cheias sazonais do rio das Mortes. Justamente por isso essa região é conhecida como Pantanal do Rio das Mortes (CTI/WARÃ, 2001a:181). Essa região de mata paludosa que se encontra na porção oriental da TI está sob influência das cheias do rio das Mortes, mas é uma área do domínio da planície do Bananal. Talvez pelas dificuldades demonstradas por esses terrenos, essa mancha representativa do entorno ainda se 18 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM encontre bem preservada, uma vez que é imprópria para práticas agrícolas, restando-lhe esporadicamente como uso a criação de gado. Na porção oeste do entorno da TI, já predominam plantações de soja em sua maior parte. 7. Estudos do Componente Indígena A realização dos Estudos do Componente Indígena, no âmbito do processo de licenciamento ambiental, se inicia mediante a emissão pela FUNAI de Termo de Referência (TR) para o AHE Água Limpa. Esse termo foi enviado a Empresa FURNAS Centrais Elétricas S.A em 18.10.05, conforme mostrado na memória do processo, a partir da avaliação do órgão indigenista de que o empreendimento poderia causar impactos as terras e populações indígenas que habitam a bacia do rio das Mortes. É importante salientar que a alegação contida no Estudo de Impacto Ambiental de Água Limpa de que o tempo despendido para a emissão do Termo de Referência (TR) pela FUNAI, não permitiu que os estudos antropológicos da UHE Água Limpa acompanhassem o cronograma original de realização dos estudos relativos aos demais programas ambientais (2005 e 2006) (SOMA, 2009: VII-49) não procede. A questão é de outra ordem e situa-se no simples fato de que estudo sobre pessoas e suas interações com o meio ambiente requer outros modus operandi, sensibilidade, tempo e compromisso legal. Em virtude de uma solicitação da Eletronorte, responsável pelo licenciamento ambiental do AHE Toricoejo, a jusante do AHE Água Limpa, por meio das correspondências CE-EEM Nº 056.2008 de 12.03.08 e CARTA CE-EEM Nº 102.2008 de 13.06.08, em que solicitam a emissão de Termo de Referência único para os dois empreendimentos, sob a justificativa que estão no mesmo rio e que caberá a Eletronorte a condução dos estudos etnoecológicos, foi emitido então um único TR para os AHEs de Água Limpa e Toricoejo. Cabe ressaltar, como se verá adiante, que esse posicionamento não foi seguido na última reunião de apresentação dos estudos e documento complementar, onde não compareceu nenhum dos dois empreendedores. De modo geral, o TR da Funai tem como objetivo orientar os estudos, apontando os tópicos necessários a serem pesquisados sob a coordenação de um antropólogo, de modo que propicie a constituição do cenário local, configurado historicamente, e que se examine as implicações da instalação dos empreendimentos junto aos povos indígenas e seus territórios 19 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM tradicionais. O TR que serviu de base para o estudo ora em apreço foi elaborado pela antiga Coordenação Geral de Patrimônio Indígena e Meio Ambiente – CGPIMA, atual Coordenação Geral de Gestão Ambiental – CGGAM. Esse TR, embora não siga mais o padrão que hoje a Funai adota, e, que, recentemente foi disciplinado pela Portaria Interministerial Nº 419, de 26.10.11, foi discutido com as lideranças Xavante e Bororo quando da retomada do diálogo com a Funai no início de 2010, sendo acatado pelos presentes para que pesquisadores de confiança deles (CTI e a Associação Warã) pudessem respondê-lo. Nesse sentido, a realização dos estudos do componente indígena visou seguir os objetivos do TR em apreender as especificidades dos aspectos socioambientais, econômicos, socioculturais e políticos dos povos indígenas Xavante e Bororo, e a partir do diagnóstico, ou seja, a partir do registro do conhecimento indígena sobre o meio ambiente e as práticas a ele relacionados identificar e analisar os impactos decorrentes do empreendimento. Por fim, se faz importante mencionar que o Termo de Referência emitido pela FUNAI não diferencia área de influência direta e indireta, delimitando os estudos para as Terras Indígenas que se situam na bacia do rio das Mortes. Assim, além das TIs Sangradouro/Volta Grande (Xavante e Bororo), São Marcos (Xavante) e Merure (Bororo), consideradas pela SEMA-MT na área de influência indireta do empreendimento, foram consideradas ainda as TIs Areões e Pimentel Barbosa, ambas de usufruto exclusivo do povo Xavante. Análise do Estudo do Componente Indígena Foram apresentados dois estudos na Funai: um específico aos Xavante e outro específico aos Boe (Bororo). O conjunto de dados e interpretações disponibilizados por esses estudos tiveram grande diferença entre os distintos povos indígenas, principalmente em relação aos dados primários e as estratégias de pesquisa adotadas. Para a Terra Indígena Merure pertencente aos Bororo, os estudos sobre os impactos fundamentou-se sobretudo em dados secundários e num breve levantamento de campo. Segundo o ECI Bororo essa opção metodológica é justificada pelo fato que a bacia do rio das Mortes envolve apenas pequenos córregos formadores/contribuintes do rio São Marcos e apenas um pequeno núcleo residencial bororo nesta região – e, mesmo assim, seus integrantes utilizam muito pouco os recursos ali disponíveis (CTI/WARÃ, 2001b:9). 20 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Os efeitos e conseqüências do empreendimento para os índios Bororo são considerados no Estudo do Componente Indígena - ECI, Xavante, conforme solicitado no Termo de Referencia, contudo, os dados mais valorizados e enfatizados dizem respeito aos impactos em terras Xavante, que são destacadas por três razões principais: i) A relação cosmológica-cultural e ecológica com o rio das Mortes é mais fundamental para os Xavante; ii) A intervenção no processo de licenciamento por parte dos indígenas foi liderada pelos Xavante; e iii) A distância geográfica dos empreendimentos no rio das Mortes para os Bororo marca também, para estes, uma distância sociológica em relação aos Xavante. Em que pese à situação sempre delicada entre bororo e Xavante e, pelo fato, do estudo ter sido capitaneado pelos segundos com oficinas preparatórias dentro de aldeia Xavante, também deve ser considerado no porquê de 95% do tempo dos pesquisadores se voltasse para a questão Xavante. Assim, os estudos realizados nas terras indígenas Xavante foram baseados em extensas pesquisas de campo, com foco na observação do cotidiano indígena, levantamentos bibliográficos, dados secundários e metodologias pertencentes à Etnobiologia, Etnoecologia e disciplinas correlatas; em especial as metodologias específicas que apresentam observações participativas como DRP – Diagnóstico Rápido Participativo. Destaca-se no ECI a participação de integrantes de diversas aldeias Xavante como pesquisadores indígenas, em torno de 20, para o levantamento de dados, principalmente da ictiofauna, a partir de entrevistas semiestruturadas e de uma técnica que se convencionou chamar de “metodologia bola de neve”, como efeito multiplicador para as informações desejadas. Segundo os realizadores do estudo isto permitiu que os indígenas representassem como veem o ecossistema onde estão inseridos como um todo, apresentando os recursos de fauna e flora disponíveis, por eles conhecidos e utilizados, assim como as localidades que são suas referências de pesca ou de outros tipos de extrativismo (CTI-WARÃ, 2011a:8). O Estudo do Componente Indígena - ECI se apresenta de maneira bem marcada como sendo um “Relatório Antropológico na estrita acepção do termo”. Isso tem implicações bastante relevantes nesse documento e, consequentemente, nesta análise. A principio, tal posição reflete a intenção de empreender um exercício de alteridade sobre o olhar de como a questão ambiental, ou o 21 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM que vem a ser meio ambiente, é comumente tratada nos estudos de impacto ambiental e, por outro lado, como esse termo é pensado, sentido, usado, representado e significado pelos povos indígenas Xavante e Bororo (muito mais para os primeiros, do que para os segundos, como já demonstrado e contextualizado no item “Condições do trabalho de campo” (CTI/WARÃ, 2011)). Assim os realizadores desse estudo procuram conceber a relação entre espaço e sociedade (Xavante). Por esse caminho o ECI, embora não faça uma crítica aberta aos conceitos herméticos de área de influência direta e indireta, que estabelecem uma gradação de objetividade na determinação de cada área estudada nos estudos de impacto, é muito contundente em tratar da imbricação dos conceitos natureza, território e territorialidade para os povos indígenas objetos (sujeitos) desse estudo de modo a destacar a potencialização das interferências dos AHEs na vida social indígena. Em última análise pretende-se demonstrar que embora o(s) empreendimento(s) esteja fora dos limites do território demarcado pelo Estado brasileiro sua influência não é cartesianamente indireta, pelo contrario, faz parte, diretamente, de uma visão muito mais integradora de território, expresso no estudo por um conceito de territorialidade chamado de Marãnã Bödödi. É essa visão integradora captada a partir do olhar geográfico da integrante da equipe de pesquisadores, Maria Lucia Cereda Gomide, através de sua tese de doutorado, que permite a equipe agregar fenômenos sociais a todos os sucintos pontos solicitados pelo Termo de Referência (TR) da Funai para as terras indígenas Xavante. Busca-se apresentar o estudo tal qual a territorialidade Xavante, tomando o cuidado para não desfragmentar as partes (meio físico, biótico, socioeconômico) de um todo que precisa ser compreendido na multidimensionalidade dos significados socioculturais indígenas dentro de um processo histórico específico. É como se o estudo quisesse marcar uma posição que não será mais uma peça, ou produto, responsável pelas fragmentações impostas aos Xavante – volta-se a acepção do termo laudo. Com esse objetivo o estudo apresenta o conceito/projeto Marãnã Bödödi e suas várias dimensões simbólicas constitutivas da vida social Xavante, ressaltando as categorias Ró, Dzomori, os rituais, a cosmologia, os grupos clãnicos e suas associações com as fitofisionomias do cerrado, os laços de parentesco e a desestruturação social causado pela fragmentação desse espaço, o Ró, os mitos de origem e a importância das matas ciliares, a fauna terrestre e aquática – hábitos alimentares e interações tróficas, a relação fauna - pessoa - espíritos, tudo e a partir do Owawe (rio 22 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM das Mortes) como o ultimo fio condutor responsável por agregar os domínios social, cultural, espiritual, econômico e político para os Xavante. Tomemos alguns trechos do estudo: Marã é a “mata”, marãnã é “na mata” e bödödi é “caminho”: “caminho na mata”. Caminho através das matas do Ró (cerrado, ou território A‟uwẽ). Ao se determinar o desenho deste “caminho através das matas do Ró”, estes Estudos utilizam-se do conceito marãnã bödödi para definir a territorialidade Xavante, isto é, o espaço histórico-geográfico construído culturalmente e onde se manifestam as categorias indígenas definidas no Termo de Referência da FUNAI (território, recursos, uso dos recursos, rios, bacia hidrográfica, etc.). Como salienta Gomide (2008): “na intersecção entre os conceitos de territorialidade e de natureza, afirma-se que o conhecimento indígena de Marãnã bödödi define significado e apropriação de um território contínuo que foi fragmentado pela sociedade abrangente. Portanto, o sentido do conceito de território contínuo para os Xavante está relacionado com a territorialidade exercida nos cerrados, Ró” (CTI/WARA, 2011:16). O termo designado como Ró – Cerrado é compreendido por um conjunto de definições e visões que engloba o mundo espiritual, mítico, social e territorial do povo A´uwê Xavante, contemplando seus rituais, atividades de subsistência e cosmologia. “O cerrado não é apenas um tipo de ambiente ou biótopo em si. Ele é também um Cerrado Xavante, apropriado material e simbolicamente pelos Xavante que, através dessa interação, sobrevivem física e culturalmente. Há uma cultura Xavante sobre o Cerrado consolidada, recriada e transmitida através do conhecimento dos animais, seus nomes e classificações, observações detalhadas sobre seus rastros e comportamentos, seus usos e concepções rituais ...” ( Carrara 1997:85, grifo nosso) (ibid:24). A denominação marãnã é mais complexa do que mata ciliar ou beira-rio - este termo, que pode ser traduzido por “matas-de-beira-rio”, tem significado de interligação pelos cerrados e implica uma dimensão da cosmologia Xavante. Nesta concepção estão incluídas as relações entre os diversos seres da natureza e da sobrenatureza que habitam os cerrados Xavante. É no marãnã que acontecem as relações entre diferentes sujeitos, que podem ser confundidos, pois podem ocorrer metamorfoses - pode ser um animal ou vegetal, ou espírito. Relembrando as teorias do animismo e perspectivismo, na concepção indígena, "o modo como os seres humanos vêem os animais e outras subjetividades que povoam o universo-deuses, espíritos, mortos, habitantes de outros níveis cósmicos, plantas, fenômenos metereológicos, acidentes geográficos, objetos e artefatos - é profundamente diferente do modo como esses seres vêem os humanos e se vêem a si mesmos" (Viveiros de Castro, 1996:350-1). Desta forma, tanto os animais como os espíritos se vêem enquanto humanos; e quando estão em suas casas e aldeias, seus hábitos culturais são aqueles iguais 23 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM aos humanos. São nestas matas que se realiza o mais importante ritual Xavante, o Wai'a (Ibid:23). Como o Ró significa o Cerrado e o próprio mundo, é evidente que a preservação do cerrado é vital para o Xavante viver segundo sua cosmologia. Ró, é o conceito fundamental para entendermos a noção de território identitário Xavante, pois abrange a aldeia, a roça, o cerrado, o território, o mundo, os espíritos (GOMIDE & KAWAKUBO, 2006). O cerrado não é apenas um tipo de ambiente ou biótopo em si. Ele é também um Cerrado Xavante, apropriado material e simbolicamente pelos Xavante que, através dessa interação, sobrevivem física e culturalmente. Há uma cultura Xavante sobre o Cerrado consolidada, recriada e transmitida através do conhecimento dos animais, seus nomes e classificações, observações detalhadas sobre seus rastros e comportamentos, seus usos e concepções rituais, além de concepções míticas e cosmológicas associadas aos animais e vegetais. É a partir destes conhecimentos e significados simbólicos atribuídos aos animais e plantas que os Xavante transformam a natureza do cerrado pela caça, coleta e prática agrícola que jamais deveria ter sido colocada como imposição ao modo de vida Xavante, mas pautada pela ação Xavante de transformação da natureza como já frisamos (CARRARA, 1997) (Ibid:224). Um dos pontos que deve ser salientado nesse estudo e que reflete nele as diversas noções de território Xavante é que ele não está circunscrito em etapas de campo limitadas e exclusivas a elaboração do ECI, que interfere negativamente nas condições de realização do trabalho antropológico, na verdade ele pode ser compreendido como o resultado de uma sistematização de pesquisas iniciadas em 2005, ou mesmo um pouco antes disso, com a Associação Warã e alguns pesquisadores Xavante1 e, que, para tanto, possibilitou apreender e sistematizar o conhecimento sobre a forma com que os Xavante ostentam ao se estabelecerem no cerrado, a maneira como estes se distribuem através de sua práticas culturais e um conjunto de relações que servem de base a vida coletiva. O estudo é construído a partir de interações, de interesses e valores que os Xavante perseguem e de suas estratégias. Existe uma harmonia entre modelo analítico e fatos empíricos. Isso problematizado por diferentes sujeitos políticos em complexas relações de dependência e poder com esse território onde a apropriação territorial, ou a falta dele, mostra-se constituinte de um ‘estar-nomundo’. Dessa perspectiva, os pressupostos culturais, as categorias socialmente dadas de pessoas e de coisas, a dimensão cosmológica, as relações entre os diversos seres da natureza, homem-animal1 É importante destacar que usualmente o lugar reservado ao índio na atuação prática dos estudos é o de acompanhamento, sem ter qualquer espaço de decisão ou intervenção política. Nesse processo, pode-se afirmar que foram os Xavante os responsáveis pelas tomadas de decisão do estudo e de toda articulação necessária para a pesquisa. 24 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM espírito, as memórias sociais – símbolos da identidade, são evocadas de modo a salientar a existência de uma cartografia (vivida e sentida) sociocultural Xavante que vem sendo sobreposta paulatinamente com o avanço das frentes econômicas na bacia do rio das mortes. “O Xavante depende do cerrado e o cerrado depende do Xavante. Os animais dependem do cerrado e o cerrado depende dos animais. Os animais dependem do Xavante e o Xavante depende dos animais. Isso é o Ró. Ró significa tudo para os caçadores Xavante: o cerrado, os animais, os frutos, as flores, as ervas, o rio e tudo mais. Nós queremos preservar o Ró. Através do Ró garantiremos o futuro das novas gerações: a comida, os casamentos, os rituais e a força de ser Xavante. Se estiver tudo bem com Ró continuaremos a ser Xavantes. O caçador anda no Ró e aprende a amá-lo. As mulheres aprendem a amá-lo porque o casamento depende do Ró e porque também andam lá para pegar as frutas. Antigamente o Ró era assim: havia a aldeia, envolta a roça, envolta as frutas, envolta a caça junto com os espíritos, envolta mais caça e mais caça sempre junto com os espíritos. Os espíritos ajudavam a descobrir os segredos que o Ró escondia: onde estava a força do caçador, onde estava a caça, onde tinha cobra e outros segredos. Os caçadores iam pegar a caça mais longe da aldeia, assim os animais fugiam em direção à aldeia. Depois os caçadores iam em outro lugar longe da aldeia. Assim os filhotes iam crescendo sempre e esqueciam a tragédia da caçada. Mais longe que isto só estavam o céu e a outra aldeia onde moram os mortos. Mas hoje os rapazes não estão aprendendo a amar o Ró, nunca andaram, caçaram, nem sabem cuidar dele, querem plantar arroz e soja. Hoje as novas gerações querem comprar comida de fora, esqueceram que a comida vem do Ró, não da cidade. As mulheres Xavantes continuam a amar o Ró, sabem que só se ele existir poderão se casar e casar seus filhos e filhas (Adão Top‟tiro e Thiago Tseretsu- tradução Hiparidi Top‟tiro, 2000) (ECI, 2011:223-224). Os relatos indígenas que integram esse estudo recuperam e apresentam essa territorialidade no Ró, relacionado à especificidade da cultura com a heterogeneidade do meio ambiente, com isso contrasta com a territorialidade atribuída pelo processo de demarcação em ilhas. Processo segundo o qual estabelece uma relação conflituosa entre fragmentação e sedentarização. Para além dessa fixação aos moldes positivistas e adentrando no histórico de uso e ocupação do território o estudo apresenta a complexa interação entre o Ró e a visão de mundo Xavante, culturalmente diferenciada, levando a problematização da categoria Dzomori, reproduzidas algumas abaixo: "o termo dzomori, quer dizer caçada longa, acontece em época certa, por exemplo, os homens, a comunidade que fizeram a roça. Enquanto a roça está parada, eles fazem, já combina para fazer caçada longa chamada dzomori, antigamente, levava dois ou três meses, assim mesmo embora a distância de 100 a 150 quilômetros; eles mantinham contato com a aldeia. Então antigamente o dzomori começava em fevereiro e voltava em maio, quando o feijão fava vinha amadurecer, também quando plantavam o milho, por exemplo, novembro, para colher em dezembro, janeiro, então nesse intervalo, é que eles faziam, para 25 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM quê? para caçar, descansar, porque fazer roça é desgaste, muito grande, força de vontade" (Ruri'õ, 2003, cf Gomide 2008). "É um critério que foi criado há muito tempo onde os meninos adolescentes, padrinhos aprendiam de tudo, era momento propício para se aprender tudo, como se caça, como se cozinha uma caça grande, caçar, assar, por exemplo, assar tatu é diferente de assar carne de veado, é outro jeito, como preparar o jirau para colocar as caças em cima para cozinhar. Então tudo isso as crianças, adolescentes, padrinhos aprendem de tudo, homens e mulheres que vão juntos. Nesse dzomori as mulheres podem (ir) todo mundo vai quem quiser, tem sempre um líder que vai puxar, que vai comandar essa caçada longa, e também, nesse dzomori se for mais de 10 a 15 adolescentes, tem ritual, próprio dos adolescentes. Também na caçada, quando retorna, eles que desperta a comunidade, eles desperta a comunidade com um pedacinho de carne, amarra com embiras, e vai correr para encontro do pátio da aldeia ... para dar um pouco do que eles conseguiram da caça. As mulheres ficam atento, são comunicadas ficam na expectativa elas já correm para tirar, tem que correr, e tirar de qualquer um, é só tirar e comer. Agora os demais, eles vêm por fim, porque é uma carga grande, cesto grande com peso, carregam (...) Mas é fundamental a presença dos velhos: é eles que vão parando os acampamento, eles que fazem orientação, escolhem o local onde eles discutem, como passou, onde passou, o que encontrou, se tinha pegadas de queixada. Toda noite tem reunião na beira do fogo, discute o cotidiano, chegando esses adolescentes, vão na casa dos solteiros, aí que fazem a dança como encerramento" (idem) (CTI/WARA:2011a:20). "Antigamente o povo A'uwe (...) vivia em dzomori, andando sempre, percorrendo todo o território. Naquele tempo ainda não existiam muitas coisas e os dois wapté criadores foram povoando a terra, criando alimentos e animais ... O povo estava em dzomori. O grupo de wapté seguia junto com as famílias. (...) Pela manhã as mulheres saíram com seus cestos. Voltaram carregadas de norõ! Depois de todos se alimentarem, seguiram em dzomori (...)" (Sereburã, 1999: 39,40,43,44) (IBID:21). O dzomori é introduzido no estudo como base da morfologia social Xavante (cf. Mauss, 2003), explicitando não somente os ritmos de concentração e dispersão a que se submete a organização morfológica durante as expedições de caça e coleta e suas relações de gênero, mas, principalmente, chama a atenção para o movimento que anima a sociedade Xavante é sincrônico aos da vida animal, das matas e do rio. A ideia de ritmo poderia até ter sido mais bem trabalhada para dar conta da importância socioecológica desses caminhos pelo ró, bem como do próprio território, marcando esses períodos de socialidade mais intensa e outros mais brandos que acompanham a própria alternância dos rios. Outro aspecto ressaltado é que os mitos são enquadrados dentro de uma instância reveladora da cosmologia e da sociedade Xavante. Embora não se faça uma análise detida dos mitos 26 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Xavante (e não seria aqui, infelizmente, o espaço para isso), explorando suas narrativas, termos e conceitos, seu caráter etnográfico, pretende-se evocar que o universo mitológico não é criado somente por princípios e pensamentos abstratos, enquanto contemplação que estabelece uma ordem estável no mundo. As relações sociais, os acontecimentos, as coisas materiais, os seres que povoam o universo são a base e aquilo que constitui a mitologia. Dessa forma, se a mitologia é produto de um ‘estar no mundo’ (Gonçalves, 2001:132), ela fornece elementos importantes para explicar a vida social. "Quando o Xavante fala, não esta falando só dele mas de todo o conjunto... a visão o sonho, a força que nos temos é do cerrado, do Ró, ... Marãnã bödödi, tem que definir e mapear o conjunto. Deve ter marã, tsaidi, amhu ... a distribuição do espaço como é feito mesmo ... Estamos brigando não só pelos Xavante mas pelos outros seres. É no marã que o Xavante se alimenta da força espiritual. Os espíritos onde caminham? Animal sai para comer e volta porque lá é a sua casa. Espírito também sai e volta porque tem água e alimentos - se Marãnã acaba todos os animais serão extintos” (Hiparidi, apud Gomide 2008). “No Marãnã bödödi estão todas as formas (fitofisionomias) do cerrado, não pode deixar nenhuma (fitofisionomia) faltando porque está excluindo algum e por isto pode ser tornar uma guerra. Pois Tsimhopari, Dahimite, Pi‟u, Tsarewa e outros seres estão pedindo para nós - senão é nosso fim enquanto A'uwe. (...) As frutas, os pássaros comem ficam forte, mesmo seja um pouquinho os Xavante comerem as frutas do cerrado, carne, Marãnã importante, o fato dos Xavante casarem com carne de caça, é importante - os rituais, os espíritos ficam felizes ....casamento, rituais, furação de orelha, envolve carne, isso é Marãnã - o conjunto todo que pode levar a gente ... Espiritualidade para os Xavante é muito importante" (Jorge Xavante, tradução Hiparidi, apud Gomide 2008). "A mata de galeria tem o lado espiritual. A mata de galeria é onde tem anta, queixada, os animais de valor. A mata fechada tem sua vida própria, é uma casa, como é isso para nós. Os animais que estão lá, não são os animais comum, não são apenas bicho. Anta é alguém que se incorporou que a gente fala, uma palavra seria Wadzapariwa, essa palavra é um ser que cuida dos caçadores durante a caçada, onde a gente pede a força, proteção para poder caçar, conseguir achar. Só que a diferença é muito grande. Por exemplo, se a gente entra nessa mata galeria sempre nós temos que pedir a proteção, tem que pedir licença para você entrar ali. Para isso, antes de você dormir tem que pedir. Tem uma vida própria a mata galeria, tem os protetores, o Wadzapariwa seria tsarewa. Essas são pessoas além da força Xavante, eles podem se transformar em arvores, animal "(Jorge Xavante, idem) (IBID:28). "Anta, queixada, ... eles só ficam nesta região aí. Quando eles querem comer fora eles saem fora e voltam. Essa é a casa deles, eles se escondem mais, que é difícil caçar porque é muito fechado a mata. (...) É o limite que se tem. Quando se faz a caçada de fogo eles param aqui, porque a umidade não permite, os caçadores caçam ... Aqui a espiritualidade Xavante, a crença A'uwê , além de nós tem mais gente, não dá para a gente falar alto, temos 27 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM que ter uma comunicação diferente e porque à noite não dá para caçar, porque tem mais gente, outro ser além de nós, que vive aqui. Por isso o caçador não caça à noite: porque se caça e acerta um animal, pode ser esse animal que é um outro ser e se ele se transformou como caça e se a gente matar pode complicar muito, pode virar guerra para nós" (Jorge, Pimente1 Barbosa). "Quando fala tsarewa, é uma espiritualidade diferente da nossa. São seres protetores dos caçadores dos A'uwê , mas ele pode também criar um problema pra você. Eles podem se transformar em animais por isso os caçadores não caçam a noite (...) é isso, é muito simbólico, é muito respeitoso, não dá para fazer aqui o que você quer fazer, porque tem gente nos assistindo o que a gente ta fazendo. Tem que pedir, solicitar para que você não invada a casa deles..." (idem) (IBID;.29). O ECI procura chamar a atenção do leitor para as formas rotineiras de comprometimento ecológico que os Xavante estabelecem com o ambiente circundante do rio das Mortes, para além dos limites definidos pelo contorno das terras indígenas atuais. Na realidade, esses limites se fundam em comportamentos relacionais estabelecidos na história oral, nos lugares sagrados (caminhados, imaginados e sonhados), rotas percorridas por personagens mitológicos ou antigos habitantes, que constituem “sua região” a partir de linhas de afetividade que se cruzam e se fundam em experiências ecológicas íntimas com esses lugares (cf. Oliveira, 2010). São dados diversos exemplos, alguns citados acima, para uma cadeia de ações e relações entre pessoa e cosmos que está intrinsecamente ligada à organização territorial nos caminhos pelo Ró, indo além de uma questão meramente ambiental. O sistema cosmológico Xavante estabelece uma infinidade de seres não apenas humanos, mas que vivem de maneira muito parecida como humanos. Assim os caminhos pelo ró e o relacionamento com esse ambiente propriamente dito é o que estabelece a força da ligação com esse espaço. Atualizar seus principais valores através de narrativas míticas serve como importante recurso mnemônico que auxilia os Xavante a não apenas se lembrar de seu passado, mas de manterem viva até hoje sua relação com o Owawe (rio das mortes), interligando suas práticas atuais com aquelas contadas e vividas pelos seus antepassados e seus demiurgos. Nesse sentido, o estudo procura marcar uma diferenciação dos estudos de impacto, particularmente para os atores do licenciamento ambiental, fugindo de uma mimesis de impactos pensados sempre como valor, avaliável e quantificável. Segundo o estudo informa existe uma grande distinção entre os Xavante e os brancos quanto ao conceito e uso das matas ciliares, pois 28 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM para os povos indígenas, as matas, os cerrados, têm uma outra dimensão - "a floresta está então investida de atos de seu povo e ela contém a memória. Ela testemunha os fatos passados da história ou dos mitos" (Birraux-Ziegler, 1995), enquanto para a sociedade waradzu (brancos) são apenas as qualidades ecológicas destacadas para a defesa e preservação das matas – ou para a sua predação(CTI-WARÃ, 2011:29), que sob um viés de economia ambiental podem ser compensadas. Entretanto, a importância das matas ciliares, do cerrado e dos rios para os A'uwẽ Xavante vai além dos aspectos ambientais. Corroborando ao fato, o estudo reflete sobre as transformações radicais, pensadas pelos seus agentes como negativa, tendo como efeito das frentes econômicas um desastre cultural. A fragmentação e o uso totalmente distinto do território pelos waradzu tiveram consequências nefastas para o que vem a ser a noção de mudança para os Xavante. Essa questão é refletida mostrando que essa fragmentação interfere na organização social, no “mundo” Xavante. Ao retirar uma mata (fragmentar), ao se diminuir as espécies animais, ao restringir e alterar o ambiente está se mexendo com os espíritos, com o corpo, com o ethos, com a prática, com o modo de vida Xavante. Corpo e espaço são vistos como objeto de ação cultural, receptáculo de símbolos culturais e também produtor de sentido. Não se trata de um dado unicamente natural, mas principalmente de uma construção sociocultural. Mostra-se que as políticas do waradzu de ocupação do território é um constante processo de ocultar a história Xavante. Cada espécie vegetal que se extrai, cada bichoespírito que se mata é uma memória que se perde. É um espaço vivido, no termo utilizado por Gallois (1977), que se perde um conjunto de habitus, de interações, de dádivas e confecções que constituem os corpos que se desvaloriza sociologicamente. Como menciona Valeria Macedo, “um mundo sem conhecedores é um mundo sem tradutores, dificultando a política cósmica entre agentes providos de diferentes corpos, linguagens, interesses e efeitos. È um mundo em que as pessoas estão cada vez mais sujeitas as transformações e cada vez menos sujeitos das transformações” (Macedo, 2012:18). Imbuído dessas questões o estudo enfatiza: Marãnã bödödi é um conceito de interligação entre as fisionomias do cerrado - e neste sentido forma caminhos nas matas que interligam os diversos grupos Xavante (Nõrõtsurã, Ape, Marãiwatsede e Ohiudú) que definem a territorialidade deste povo. Cada um dos termos citados refere-se à biogeografia local: Nõrõtsurã - babaçual, Ape - campo cerrado, 29 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM nhi udu - vegetação que fica dentro do vale do rio (área de transição); Marãiwatsede - mata mais alta, fechada (CTIWarã, 2011:29-30). O marãnã bödödi é a territorialidade, o território contínuo Xavante, um "território à medida de suas necessidades vitais e espirituais" (Viveiros de Castro, 2008). A fragmentação deste território, no pós-contato com os waradzú, intermediando-o com fazendas e a presença já consolidada nelas, e posteriormente nas vilas, dos waradzú, teve como consequências a ruptura dos laços de parentesco, das relações sociais e com os espíritos que conformam o mundo (“ambiente”) Xavante. Porque justamente fragmentou a paisagem do Ró, colocou obstáculos ao dzamori e a vivência dos cerrados das gerações futuras que a experiência do dzamori lhes possibilitava; afugentou os espíritos benfazejos que os protegiam nas suas caçadas, dificultando sua comunicação com eles (ibidem). A ‘antropomorfização do espaço’ citado acima reflete as categorias e circuito de interação dos Xavante com o cerrado, o corpo deles. Por isso, se menciona no estudo que “para os Xavante, as “costas” são como as matas ciliares, no sentido de que dão proteção aos animais – como exemplo dado pelo Xavante: quando está com bebê no colo e sente algum perigo, a pessoa vira de costas a fim de protegê-lo, este seria o sentido da relação entre mata e as costas; o “nariz” são os locais onde a caça se esconde, porque o caçador não é capaz de sentir o cheiro do animal; os braços também são utilizados para designar os afluentes dos rios, desta forma os termos utilizados pelos caçadores Xavante se dão nos espaços do Ró” (CTI-WARÃ, 2011a: 54). Os Xavante, assim como os Bororo, como demonstrado no ECI, tradicionalmente possuíam (e ainda possuem) uma mobilidade territorial que ia muito além do espaço destinado a aldeia. Essa mobilidade estava vinculada às estações seca e chuvosa. No período em que permaneciam na aldeia, os índios se dedicavam a realizar suas interações familiares e a plantar roças tradicionais. Quando se anunciava o verão, a partir da observação de determinadas espécies animais ou vegetais, grandes expedições de caça, coleta (dzomori) e de guerra eram empreendidas por esses grupos. Muitas dessas expedições serviam realizar os grandes rituais, como para definir o local de uma futura aldeia2. Uma vez que a transformação mais radical do ambiente regional ocorreu a partir dos últimos 30 anos, como visualizado na oportuna sequência temporal dos mapas (anexo 6) sobre o processo de fragmentação, é possível que diversos animais ainda persistam na TI de maneira meramente relictual, ou seja, alguns indivíduos ainda estariam presentes, mas a população da 2 Para semelhante entendimento da pratica do dzomori (ou Zõomo’ri) na perspectiva feminina ver: Povos Indígenas no Brasil 2006/2010, p. 36-39. 30 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM espécie seria pequena e não conseguiria reproduzir adequadamente para se manter na área no longo prazo, tendendo à extinção. Pode-se afirmar, pelo conhecimento já acumulado a respeito da fragmentação de ecossistemas, ecologia de populações e biologia das espécies, que a área das terras indígenas em apreço são relativamente pequenas para manter populações estáveis de uma série de animais, tais como, anta, veado, arara, mutum, etc. Além disso, mamíferos grandes e médios e aves predadoras e frugívoras de grande porte estão submetidos a condições críticas de isolamento e pressão de caça na TI, e sua permanência futura não está assegurada. Segundo relato de alguns xavante nas reuniões, o número de certos animais caçados vem baixando consistentemente ao longo dos anos. A caça é uma atividade por excelência praticada por muitos povos indígenas e os Xavante não fogem a regra. Está imbricada tradicionalmente ao respeito aos resguardos sexuais e alimentares que eram seguidos em diversas fases da vida de um indivíduo. Desde novos, fase onde sofriam seguidos rituais de iniciação, passando pelo matrimônio e primeiro filho, em determinados ciclos cerimoniais, em preparativos para fazer uma boa caçada, para correr tora, plantar, ser tede’wa3, até em respeito a entes doentes, os resguardos eram a essência de uma vida social vigorosa, saudável e, se bem respeitada, de prestígio. Além de ser uma das principais fontes de proteínas da sua dieta a atividade propicia a obtenção de matéria prima para adornos corporais, objetos do dia a dia e itens cerimoniais. Nesse sentido o ECI enfoca que o valor do ato de caçar está relacionado tanto a identidade espiritual e portanto cultural, quanto a territorialidade, pois enquanto se caça se mapeia o território e identifica-se o lugar. É interessante observar como a pesca ao longo do processo de ocupação da região pelos waradzu se tornou muito importante para sobrevivência do povo xavante e para a manutenção de práticas culturais de andança pelo cerrado. Ou seja, a fragmentação reduziu a capacidade de caça 3 "Os tede'wa são 'donos' que conhecem determinados fenômenos da natureza, espécies animais e vegetais e ornamentos, sobre os quais exercem um controle simbólico e ritual (Carrara,1997:123). Outro tede'wa é (de acordo com Giaccardia & Heide -1972) o dono do wamari -wamaritede'wa - ou o dono dos sonhos. Esta função era hereditária (porém era necessário que o pai desejasse ao filho este encargo) e pertencia ao clã Poredza‟õnõ, mas atualmente também outro clã pode exercê-la. Esta transmissão é feita quando o pai prepara um pedaço de uma madeira especial, wamari, que tem a propriedade de fazer sonhar e a amarra no cesto-berço do filho recém-nascido; o wamari deve acompanhá-lo por toda a vida. Aquele que é wamaritede'wa deve sonhar e prever o futuro, além disto, também deve pacificar eventuais conflitos da comunidade e dirigir certos rituais. (Giaccaria & Heide, 1972: 108-9) (CTI/WARÃ, 2011:212). 31 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM dos Xavante (motivo de conflito entre Xavante e Bororo) e agora as hidrelétricas tendem a minorar também o recurso pesqueiro, corroborando ainda mais com a sedentarização de seus indivíduos. “Segundo Maybury-Lewis, a pesca provavelmente não era tão importante para os Xavante antes do seu encontro com os brancos. Sua preferência pelas viagens por terra e pelo campo aberto, para aquele antropólogo, significaria que não passavam muito do seu tempo nos rios (1960). No entanto, hoje, pode-se claramente afirmar que a maior fonte de proteína animal consumida nas comunidades é oriunda desta prática tradicional. Nos trabalhos de campo realizados nas aldeias, tanto na região do médio quanto na região do baixo rio das Mortes, ficou evidente a dependência sobre os recursos pesqueiros por parte das famílias indígenas. Nas entrevistas, os comentários dos mais velhos é que a pesca se tornou frequente tão logo surgiu os empreendimentos agropecuários e ocupação de nãoíndios em torno das terras demarcadas, a insuficiência de recursos, somada a diminuição de espaço físico para as longas viagens e caçadas coletivas, obrigou as comunidades a aumentar a pressão sobre os recursos pesqueiros, para suprir suas necessidades de proteína animal e oportunamente manter a fiscalização do seu território” (CTI/WARÃ, 2011:58). No contexto das fragmentações, as matas ciliares (warã) são componentes fundamentais para o bom funcionamento dos ecossistemas aquáticos e indígenas. Assim como o equilíbrio ecológico de um habitat depende da manutenção de outros, como lagos, matas, brejos, rios, praias, etc.(cf. Barella e outros, 2009:191), as condições de reprodução físico cultural dos Xavante depende da manutenção e conservação dos rios e do cerrado, particularmente as matas ciliares em função da estreita relação deste grupo ao ambiente aquático e seu entorno. Caracterização dos recursos naturais Baseado nas colocações apresentadas sobre a estreita relação do modo de vida Xavante e o espaço onde este se realiza, as matas ciliares assumem importância fundamental na sobrevivência física e cultural deste grupo, principalmente se considerado que estas já se apresentam extremamente modificadas e, principalmente, ausentes em vários trechos do rio das Mortes, restando poucos fragmentos preservados. Apesar da importância fundamental das matas ciliares para a vida social Xavante, amplamente discutida no item anterior, as relações de equilíbrio no ecossistema em questão também serão consideradas dentro da própria relação ecológica. Mata Ciliar ou de Galeria 32 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM A mata ciliar ou de galeria é tratada no ECI dentro do item 3.1. “Os usos dos recursos hídricos e sua importância para a manutenção física e cultural dos Xavantes”, que por sua vez foca nos estudos da avifauna e sua relação com a mata. Apesar da sua importância, não há um item próprio no estudo caracterizando de forma detalhada esta parte importante das terras indígenas e do próprio rio das Mortes, em virtude desse ecossistema estar sendo considerado como integrante do mundo (ambiente) Xavante (ver citação pág. 24). A mata ciliar é tratada com mais detalhes, como fator de proteção das margens dos corpos d’água na caracterização das terras indígenas e seus entornos, ou como constituinte do Cerrado na caracterização do uso dos recursos naturais (item 2.2) quando se discute “a caça e coleta: andar no Ró”. Mesmo com a ausência de um item específico para tratar da caracterização da mata ciliar e de galeria no entorno dos ambientes aquáticos, o seu valor como recurso natural é descrito e considerado em várias partes do ECI. “A mata de galeria é a vegetação florestal que acompanha os riachos de pequeno porte e córregos dos planaltos do Brasil Central, formando corredores fechados sobre o curso de água. Essas matas geralmente encontram-se encravadas no fundo de vales ou nas cabeceiras de drenagem onde os cursos de água ainda não escavaram o canal definitivo [...] é possível identificar certa individualidade florística da fitofisionomia Mata de Galeria como sendo característica e única da região do Brasil Central. Por essa razão seria pertinente aceitá-la como típica do bioma Cerrado” (Ribeiro & Walter, 2001:42; citado em CTI/WARÃ, 2011:183). O ECI salienta que mesmo reconhecida sua importância ambiental, e embora protegidas por legislação específica, as matas ciliares foram e continuam a ser destruídas, restando em muitos casos poucos fragmentos florestais nos entornos das terras indígenas demarcadas oficialmente. O desmatamento das margens dos rios, já é um fato experimentado pelos índios que mencionam a “água suja” das nascentes, córregos e rios da região. Entre as qualidades ecológicas da mata ciliar ou de galeria estão conter as águas das enxurradas, evitar o assoreamento do leito dos rios, manter a qualidade da água dos rios porque absorve e filtra a água das chuvas que carregam defensivos e fertilizantes; e ainda é inegável sua importância para a conservação da biodiversidade tanto florística como faunística (Ibidem). Considerando a importância da mata ciliar, o ECI cita o Código Florestal4 que destaca por meio da sua dimensão, os valores definidos em lei: a faixa de mata ciliar para cursos de água que 4 Caso a reforma do Código Florestal seja aprovada os problemas aqui apresentados se agravarão sobremaneira. 33 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM possuam entre 100 (cem) e 200 (duzentos) metros de largura deve ser de 150 metros, e igual à distância entre as margens para os cursos d'água com largura superior a 200 (duzentos) metros. Portanto, no caso do rio das Mortes, o mínimo a ser preservado seria de 150 metros em alguns trechos e de 250 a 300 metros nos trechos mais largos do rio (ibidem). No caso da vegetação ciliar o estudo se amplia para o papel fundamental exercido por esses ecossistemas à integridade física e ecológica de todos os sistemas aquáticos e terrestres, incluído o homem Xavante, dentre os habitantes destas matas e suas relações tróficas. O ECI afirma que a vegetação marginal dos sistemas aquáticos são elos importantes de transferência de energia entre o ambiente terrestre e o aquático e desempenham, no caso estudado, o principal papel de fornecedor de alimentos para o ambiente aquático, confirmado pelo predomínio de águas claras pobres em nutrientes nos corpos d’água estudados, indicando que a fauna aquática são mais dependentes de fontes de origem alóctones, como por exemplo: flores, frutos, insetos e detritos provenientes das florestas inundadas ou marginais aos corpos d’água (CTI/WARÃ. 2011:149). A equipe ressalta o conhecimento tradicional que identifica a forte relação entre a fauna aquática e terrestre e a mata ciliar da região, citando alguns exemplos, entre eles a cadeia trófica que mostra o fruto (öpinire) como produtor primário e os seus respectivos consumidores nos ambientes aquáticos e terrestres, segue abaixo: 34 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Áreas de macrófitas Os bancos de macrófitas flutuantes e/ou emergentes podem ser considerados habitats sazonalmente disponíveis, mesmo que a maior parte deles desapareça na estação seca. Há, contudo aqueles que se mostram perenes, servindo talvez como habitat permanente para muitas espécies de peixes, como é o caso da lagoa dos Patos (TI Areões), relatado pelos Xavante. O ECI indica diversos estudos que sugerem que a ocupação desse tipo de ambiente possa servir como abrigo contra a predação e de disponibilidade de alimentos. Embora não haja estudos 35 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM sobre o assunto nessa região, é provável que muitas das espécies de pequeno porte completem seu ciclo de vida nesses ambientes, principalmente na parte das planícies inundadas do rio das Mortes. Além disso o estudo evidencia que o desmatamento nas áreas marginais de rios e lagos podem levar a um aumento na área ocupada pelas macrófitas aquáticas, alterando a estrutura dos ambientes aquáticos e provavelmente causando reflexos na estrutura das comunidades de peixes dessas áreas (CTI/WARÃ, 2011a:71). As margens – Pauzadas e galhadas As margens das nascentes, córregos, rios e lagos são importantes locais de alimentação para a maioria das espécies de peixes, e que estes são dependentes da manutenção da vegetação marginal, pois esta contribui com seus frutos e sementes para a dieta dos peixes, além de serem substrato para invertebrados, principalmente insetos de origem aquática como terrestre, possivelmente, um dos itens mais importantes para a cadeia trófica nestas áreas. “Nessa interface há grande quantidade de habitats, como troncos, galhos, folhas e macrofitas que servem como locais de abrigo, desova e alimentação de peixes” (Pieczynska, 1995; citado em CTI/WARÃ, 2011a:73). Segundo o ECI, as “Pauzadas” e “galhadas” submersas nas margens dos rios são utilizadas como refúgio por muitas espécies de peixes durante a vazante/seca e início da enchente, quando muitos lagos ainda não tiveram a conexão reestabelecida com o rio, e as inundações das matas de galeria ainda não estão disponíveis. Conforme os relatos dos índios, durante a vazante e seca, muitas espécies de peixes deixam as “áreas inundadas” e permanecem na “beira” dos rios, e outras continuam nas áreas de lagoas por suportarem as condições ambientais existentes nesses ambientes. Entre essas, destacam-se a ocorrência da traíra, piranha, tucunaré, lambari, piau e cará que ocupam as “lagoas” e áreas marginais do médio e baixo rio das Mortes, e nas pescarias exploratórias na seca foram pescados com linha e anzol nos locais de pesca da aldeia Novo Mundo (TIS) e Inkas (TISM) (ibid:74). Ainda como habitante típico das margens em todos os períodos, o ECI cita a piranha (Serrasalmus rhombeus) e o piau (Leporinus friderici), pescados com frequência na lagoa “Encantada” e médio rio das Mortes (TIS) (ibidem). Ictiofauna Apesar do TR da Funai não solicitar expressamente o estudo da ictiofauna, sendo solicitado posteriormente ao empreendedor a pedido dos indígenas e da própria CGGAM, por considerar esse 36 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM aspecto fundamental para o levantamento dos impactos, a metodologia utilizada nesse trabalho foi levado muito a sério e produziu resultados importantes para o conhecimento dos peixes e da relação sociocultural com os Xavante. Trata-se de um tema amplamente explorado no ECI e relacionado a várias características socioambientais, configurando-se como um estudo minucioso da ictiofauna e sua ecologia e detendo-se na relação xavante e os peixes. Demonstrou-se que a ictiofauna é uma das principais referências das populações indígenas como base proteica e de subsistência, além da importância sócio-cosmológica que estabelecem com esse recurso natural. Para o levantamento dos dados primários, além de entrevistas com os pesquisadores indígenas, outros membros da comunidade foram entrevistados sobre a diversidade local dos peixes e sua dinâmica ao longo do tempo (ambientes aquáticos, época de pesca, estratégias de captura, modalidades de pesca, tamanho, variedade de espécies e preferência alimentar, interações tróficas, comparações ictiofaunística, entre outros). Somado a entrevista, a equipe técnica optou pela participação em conjunto com os índios pescadores em suas atividades cotidianas relacionadas aos locais de uso (coleta, caça e pesca) e períodos de ocorrência de algumas das espécies da fauna e flora. O levantamento contou com equipamentos e utensílios de campo da equipe etnoambiental, associação Warã e da comunidade indígena. Destaca-se ainda os mergulhos realizados nas campanhas de campo para observar a atividade de cardumes, sua migrações e desovas. As campanhas de campo foram realizadas em três etapas:1ª (29 de agosto a 04 de setembro de 2010), 2ª (29 de novembro a 18 de dezembro de 2010) e 3ª (28 de janeiro a 10 de fevereiro de 2010) nas Terras Indígenas Xavante (Sangradouro, São Marcos, Areões e Pimentel Barbosa). Notase que todas as fases do ciclo hidrológico foram contempladas nas etapas realizadas. A partir da metodologia descrita pelo estudo foram encontradas um total de 182 espécies de peixes, sendo que as maiores riquezas de espécies ocorreram nas seguintes regiões do rio das Mortes: i) baixo - Terras Indígenas Pimentel Barbosa (140 espécies) e Areões (130 espécies) e ii) médio – Terras Indígenas Sangradouro (118 espécies) e São Marcos (107 espécies). Cabe destacar que foi levantando um número expressivo de espécies, considerando que pra toda a bacia hidrográfica Araguaia-Tocantins, dentro do bioma Cerrado, o número é de 350 espécies de peixes (MMA, 2007). A caracterização da pesca pode comprovar a grande diversidade de ambientes aquáticos, e, 37 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM sobretudo, de que esses locais se tornam a cada dia, áreas de extrema relevância para a conservação das comunidades de peixes. Sobre isso informa: “As margens das nascentes, córregos, rios e lagos na região das TIs são importantes locais de alimentação para a maioria das espécies de peixes, e que estes estão dependentes da manutenção da vegetação marginal, pois esta contribui com seus frutos e sementes para a dieta dos peixes, além de serem substrato para invertebrados, principalmente insetos de origem aquática como terrestre possivelmente, um dos itens mais importantes para a cadeia trófica nestas áreas” (CTI/WARÃ, 2001a:78). Os resultados apresentados além de servirem como modelo para outros processos de licenciamento de hidrelétricas pode principalmente servir para uso nas escolas indígenas por ter agregado de forma muito positiva conhecimento técnico e terminologias cientificas com o conhecimento xavante e suas nominações e usos próprios. Foram apresentadas diversas tabelas respeitando essa interação e portanto será de muito utilidade para atividades escolares. Avifauna Uma observação relevante do ECI foi a estreita ligação entre o ambiente marginal do rio e as aves destacando a importância da vegetação para a alimentação das espécies frugívoras. O EIA aponta a importância das matas ciliares e de galeria do rio das Mortes e afluentes como áreas de nidificação e reprodução da avifauna e conclui que “uma grande diversidade de aves utiliza tanto o leito como a vegetação ciliar e ambientes associados ao Rio das Mortes, sendo este afluente do Rio Araguaia um importante corredor de fauna, com influência amazônica bastante nítida.” (CTI/WARÃ, 2011a:109). O ECI ressalta que o número encontrado de espécies de aves nas terras indígenas Xavante é extremamente elevado e comprova a riqueza avifaunística da região pesquisada, a qual resulta da diversidade das fitofisionomias de cerrados existentes na terra indígena (CTI/WARÃ, 2011a:107), corroborado pelo levantamento feito no EIA de Água Limpa que identificou 291 espécies de aves, das quais algumas se encontram ameaçadas de extinção; jacu-de-barriga-castanha (Penelope ochrogaster), a águia cinzenta (Harpyhaliaetus coronatus) e a maria-corruíra (Euscarthmus rufomarginatus) (CTI/WARÃ, 2011a:109). O EIA de Água Limpa ainda ressalta a presença de algumas espécies importantes com raros registros na região (Pato-do-mato, Jacutinga, Mutum-de-penacho, Cabeça-seca, Araracanindé e Andorinha-do-rio). Algumas dessas espécies foram observadas em apenas um local, 38 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM evidenciado a territorialidade e a estreita relação entre os diversos habitats formados pela vegetação marginal, o ecossistema fluvial e a avifauna. (CTI/WARÃ, 2011a:109). De acordo com a classificação Xavante de aves registrada por Carrara (1997) foram levantados 237 etnoespécies de aves. As penas de 128 destas etnoespécies são utilizadas nas flechas e em outros ornamentos e objetos cerimoniais; para as flechas das crianças são úteis outras 97 penas de aves diversas (CTI/WARÃ, 2011a:107). Para os Xavante as aves são mais importantes pelo seu significado simbólico. A arte plumária transmite informações simbólicas no uso de acordo com: a categoria de idade e sistema de classes de idade, as metades cerimoniais, os ‘donos’ (tedewa) de animais. Observa-se que a ‘gravata’ ou colar tsõrebdzu, adorno característico dos Xavante, é feito de algodão, em que se prende uma pena na parte posterior (ibidem). Ainda sobre as penas, estas possuem diferentes sentidos de acordo com o usuário, que tem o dever e o privilégio de executar determinada função ritual. Outras qualidades das penas referem-se a sua adequação nas flechas (ariwede) de pescaria, onde as penas das aves (jaburu, cabeça-seca, garças, guará, socós, colhereiro, biguatinga) são usadas, pois estas aves são pescadoras, o que confere aos Xavante a capacidade de pescar maior quantidade de peixes. (ibidem). As aves ainda possuem outros significados simbólicos, não restritos aos diversos usos das penas. O ECI destaca as afirmações do EIA quanto às aves com poder de transformação, como o jaó e o cabeça–seca, que não são apenas aves, mas a transformação dos Tsare’wa. Apenas os velhos que pertencem ao clã Poredza’õno têm a possibilidade de conversar com eles, quando o sol está se pondo (Ibid: 107 - 108). Quanto ao papel significativo das aves no ritual de nominação das mulheres, tem-se o Dza’u’e (jaburu) e Tsinhotse’ére (quero-quero), outra ave também relacionada às mulheres, representada na pintura corporal. “(...) as aves estão ligadas com seres sobrehumanos, com a cura de doenças ou mesmo sua origem e a morte (...) Sua presença é inquestionável e imprescindível nos rituais, não só pela sua transformação em ornamentos e enfeites corporais, utilizados na expressão ritual, que representam simbolicamente estes animais (...) mas ao mesmo tempo como veículos de informações sobre noções cosmológicas e a organização social” (Carrara, 1997: 287; citado em CTI/WARÃ, 2011a:108). 39 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Ainda em relação aos atributos das aves o ECI faz referência a seus cantos, que contêm diversos significados, de boa ou má sorte. Determinadas aves têm seu canto relacionado a algum acontecimento, seja como aviso de perigo ou morte, ou de ajuda aos animais de caça. As aves estão ligadas a seres sobrenaturais. Para os Bororo as aves não são menos importantes, sendo um dos povos de maior riqueza em arte plumária do mundo. Estes detêm um conhecimento da natureza altamente sofisticado – registrado em vários trabalhos acadêmicos, dos quais se destaca a monumental Enciclopédia Bororo dos salesianos Venturelli e Albisetti (1962 e 1969) – sendo o da avifauna refinado, pois as aves ocupam um papel fundamental na cosmologia deste povo e na confecção da indumentária e objetos rituais (CTI/WARÃ, 2011b:46). A importância para a cosmologia Boe pode ser ilustrada nos dizeres do etnólogo alemão Karl von den Steinen que, no século XIX, esteve entre os Bororo: “as araras vermelhas são, sim, e os Bororo vão mais longe, como já o referi, e dizem: „nós somos arara‟ (apud Gordon 2007: 4). Ou por outra, os Bororo se vêem como aves: enfatizam que somente – ou ontologicamente – são Boe (“gente verdadeira”) quando se transformam em aves, isto é, quando estão empenados e paramentados como aves nos ritos funerários (ibidem) Apesar da ausência de um trabalho específico sobre os Bororo e as aves, Dorta (1981:28-32 apud CTI/WARÃ, 2011b:46) anotou as espécies da avifauna somente para a confecção dos pariko, diademas utilizados por vários personagens aroe nos ritos funerários Bororo. Este artefato, de suma importância para os Bororo, somente os homens os confeccionam, e não em qualquer casa, mas somente no baito, a casa central onde se realizam os ritos funerários (ibidem). Reforçando a importância das aves no modo de vida deste grupo indígena, o ECI afirma que cada um dos oito clãs em que está dividida (ou composta) a sociedade Bororo tem seu próprio pariko, identificável pelas penas das aves e modo/distribuição/arranjo com que são confeccionados (CTI/WARÃ, 2011b:48). 8. O rio das Mortes e seu significado para os índios Este item é bastante revelador do ECI, pois mostra que o Rio das Mortes é hoje o principal referencial espacial para o povo indígena Xavante. Mas não se trata somente da situação atual das 40 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM fragmentações. O rio das Mortes é o rio-marco para o povo Xavante, como demonstra o estudo, não só por constituir no principal elo de ligação territorial, mas por seu significado histórico e cosmológico. O rio Öwawe, que se traduz por “rio grande” ou “água grande”, faz parte do complexo mundo espiritual Xavante, onde se realizam diversos rituais como: Oi,ó, furação de orelha e o Wai’a. Ritual do Oi,ó, Terra Indígena Sangradouro, janeiro de 2011. O ritual do Oi,ó, ilustrado nas fotos acima, serve bem à metáfora para o rio das mortes como local da “raiz” do povo Xavante. Como explica o estudo: “O Oi’o é a denominação de uma Heliconia, planta da mata ciliar, da qual se utiliza a raiz como uma borduna durante a luta realizada no ritual de mesmo nome. De acordo com os Xavante a explicação da luta : “Antes dos meninos entrarem no hö acontece o Oi’ó. Quando o milho está crescendo é tempo do Oi‟ó. Da luta com raiz do Oi’ó. Os maiores, os airepudu, batem, mesmo! Não ficam com dó, os pequenos choram. É assim. Antes da entrada no hö acontece a ultima luta de oi’ó. Aí os meninos todos batem mesmo, sem dó. Porque é a última luta. Assim vamos conhecendo cada menino. Sua coragem, seus medos, suas fraquezas, na luta eles vão se revelando. O pai orienta. Essa é a antiga tradição. Transmitida de geração a geração (cf. site da TIPimentel Barbosa). Durante os rituais, como Oi’ó, Danhohui’wa, furação de orelha, Wai’a, as matas ciliares e os próprios rios e córregos são de extrema importância para sua execução. Desde a preparação dos ornamentos cerimoniais até o próprio local de realização desses rituais, tudo está relacionado à água aos rios e matas ciliares” (CTI/WARÂ, 2011a:106). O proprio rio Öwawe, está associado ao mito Parinai’a, onde este herói “criou a água em grande quantidade. Tão grande que cobriu a Terra e que permitiu que seus companheiros matassem 41 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM a sede” (Lopes da Silva, 1986:227, apud, ibid:105). A associação do Öwawe com os clãs amplia o significado desse rio para os Xavante, definindo seus limites e interações que em nada remetem ao rio como possibilidade de aproveitamento hidrelétrico. 9. Descrição e avaliação dos impactos Partindo do contexto em que a análise ambiental foi justificada no EIA, em seu Prognóstico do Volume X, descrita abaixo, o estudo do componente indígena Xavante definiu como questão central a ser discutida com seus representantes: qual seria o benefício que este empreendimento traria para eles? De que modo o desenvolvimento regional propagado pelo EIA seria extensivo ao povo Xavante? Todos esses empreendimentos, juntamente com alguns outros não citados, formam a estrutura de sustentação do desenvolvimento nacional e são a base indispensável para a implementação de todas as atividades econômicas e tecnológico-científicas, além das ações sociais de abrangência macro-regional que revertem em benefício e manutenção da sociedade brasileira como um todo. Evidentemente que é do interesse estratégico nacional, também, a utilização racional de nossos recursos naturais, fato explícito na Constituição Federal de 1988, assim como em diversas disposições normativas anteriores e posteriores a ela. Partindo desses pressupostos, pode-se afirmar que a análise ambiental de projetos desta natureza, para fins de licenciamento, deve buscar equilíbrio entre o contexto global em que estão inseridos, isto é, o interesse estratégico nacional por um lado, e a preservação ambiental e a melhoria da qualidade de vida por outro lado. A execução de estudos que avaliam a implantação de empreendimentos potencialmente causadores de impactos ambientais é a conduta legal ideal para garantir o equacionamento desses interesses. O EIA do AHE Água Limpa foi concebido de acordo com essa filosofia, abordando a implementação do aproveitamento em estudo como ferramenta relevante para o desenvolvimento da Nação, do estado de Mato Grosso, e principalmente da região onde vai estar inserida no caso de sua construção, buscando garantir a utilização racional dos recursos naturais que lhe servem de base e insumo (SOMA, 2009:X-1, apud CTI/WARA, 2011:204) Esse capítulo apresentado no EIA, intitulado Prognóstico, é o momento do estudo que se apresenta uma justificativa sobre a necessidade de geração de energia do AHE Água Limpa. Atribui-se o empreendimento como de “utilidade pública”, sem qualquer discussão mais aprofundada sobre sua necessidade. Em nota de rodapé explicam que a informação foi obtida na versão para a imprensa do Programa de Aceleração do Crescimento, obtida no endereço eletrônico 42 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM http://www.brasil.gov.br/pac/ em 15 de outubro de 2008. Ver caderno. O ECI não entra no mérito dos pressupostos do AHE Água Limpa preferindo marcar sua posição de que está tratando de outra ciência que não aquela consagrada pela ciência ocidental: a ciência A’uwe. Para tanto, a teoria subjacente à análise parte dos conceitos que conformam o mundo Xavante, ou seja, “como ele é entendido e posto para e por esta teoria indígena” (CTI, 2011a:247). E esse “mundo”, segundo o estudo se pauta, possui explicações diferentes do mundo que é explicado pela ciência. E “a ciência ocidental – por cujos parâmetros e protocolos supõem-se o EIA seja regido – tem a pretensão da universalidade porque supõe que o mundo objetivo (que ela mesma define) é igual...para todos da “comunidade científica” que utilizam os mesmos protocolos”(ibid:210). Dentro desse quadro de pontos de vista distintos o estudo Xavante itemiza cinco macro impactos para sua avaliação: • Temores e preocupações dos Xavante frente ao empreendimento • Impactos e interferências no sistema de cheia-vazante do rio das Mortes e afluentes • Supressão de vegetação ciliar-galeria (marã) e seus impactos para as TIs Xavante e sua população • Efeitos cumulativos da fragmentação na paisagem e no rio das Mortes sobre o modo de vida Xavante • Impactos na Ictiofauna E de modo a tentar construir uma ponte entre os distintos campos de conhecimento a equipe elabora uma matriz de impactos e sua avaliação, contendo 22 impactos, dos quais 20 são considerados adversos, 15 de alta magnitude e 6 irreversíveis. Esses impactos foram sistematizados a partir da construção de uma rede de impactos (diretos, indiretos e cumulativos) associados às diferentes fases do empreendimento (1ª Etapa: expectativa/planejamento; 2ª Etapa: construção e operação; 3ª Etapa: enchimento/operação), sumarizando o diagnóstico apresentado. De certo que se poderia ter feito um esforço maior para que essa ponte se alicerçasse em bases mais próximas ao do campo ambiental, do ponto de vista da estrutura, não do conteúdo. No entanto, em última análise, essa estrutura é objeto da crítica realizada pelo estudo, atendendo minimamente a normatização dos manuais do licenciamento. 43 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Poderia-se assim inferir que o ECI capta muito bem “o ponto de vista do outro”, exercício clássico do etnógrafo, mas se esforça pouco em traduzi-lo (no sentido da relação impacto-medidasprogramas) para, se não sua comunidade de origem, ao menos, para os demais waradzú (não índios) que participam do processo de licenciamento. O conhecimento produzido que decorre para a defesa das relações sociais das populações estudadas com o meio ambiente encontra na razão argumentativa, no sentido de mediação cultural, o grande mote de discussão para os atores do licenciamento e outro profissionais desconhecedores da disciplina e da prática antropológica nos estudos de impacto ambiental. A despeito do fato de interpretações casuísticas, em que pese os distintos interesses pelo uso dos recursos naturais em jogo, evidenciar impactos de ordem sociocultural e defender argumentações que se baseiam em situações etnográficas torna-se sempre um grande desafio para todos os atores sociais envolvidos no licenciamento, principalmente, para quem os interpreta e analisa. Do ponto de vista da análise técnica da Funai, será dado ênfase em alguns temas centrais discutidos nos impactos identificados e avaliados, bem como os apresentados ao longo do relatório e do EIA do AHE Água Limpa. A fragmentação é sem dúvida alguma o tema central que discorre para toda a prática cultural e os efeitos sociambientais negativos em se barrar o último elo de ligação histórico-cultural-cosmológico Xavante. Contrário à posição do EIA que afirma que o processo de fragmentação vem de longa data e é independente do AHE Água Limpa - que o empreendimento pouco ou nada acrescentará a este processo de fragmentação e fragilização do modo de vida Xavante - o ECI defende que este empreendimento, se vier a se realizar, representará uma interferência direta sobre o último elemento da paisagem/mundo Xavante ainda relativamente intocado pelos waradzú: o rio das Mortes, ou o Öwawe, como chamam (CTI/WARÃ, 2011a:208). O processo de fragmentação será maximizado com o barramento do principal conector das TIs do povo indígena Xavante, o próprio rio das Mortes, e com a supressão de suas matas ciliares, já escassas na paisagem do Cerrado, fortemente modificada pela monocultura da soja. Perda de paisagem cultural seria um impacto a mais a ser considerado na matriz, pois embora apareça no estudo não é nela identificado. Esta constatação é a preocupação da maioria dos Xavante das quatro terras indígenas em relação às “barragens no rio das Mortes”. Eles entendem que os empreendimentos previstos para barrar o rio das Mortes se inserem no contexto de alteração do seu ambiente que lhes trará apenas 44 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM e tão somente mais transtornos e dificuldades para o exercício do seu modo de vida (CTI/WARÃ, 2011a:204-205; grifo nosso). Como ressalta o ECI, os Xavantes dizem: um evento a mais no processo de fragmentação do seu mundo e do seu modo de vida e que vêm ocorrer desde o contato com os waradzu nos anos 1940 e 1950 (CTI/WARÃ, 2011a:208). O ECI destaca que a maioria dos Xavante adultos já possuem referências sobre quais são os efeitos do barramento porque em algumas de suas terras existem pequenos barramentos (miniusinas construídas pelos salesianos): onde elas existem os peixes ou desaparecem ou são de outro tipo ou estão doentes (“gosto ruim”). Como também vivenciaram e vivenciam as alterações no seu mundo e ambiente causadas pelos desmatamentos dos cerrados e das matas ciliares nos rios e córregos que frequentavam ou frequentam – e avaliam seus efeitos para a “cultura” xavante (para o seu modo de vida e seus costumes e tradições): diminuição da caça terrestre e de alguns dos remédios do mato, acarretando mais doenças e dependência dos hospitais e médicos waradzu; desaparecimento de espécies de aves importantes para a boa (isto é, correta) performance de seus personagens cerimoniais; dificuldade /atraso /demora em arrumar a quantidade de carne de caça necessária para presentear o sogro e os parentes da noiva na cerimônia de casamento causando conflitos internos; liberação (e revolta) dos espíritos que habitam o marã etc. As barragens podem não ter nada a ver com estes impactos, mas para estes xavante elas potencializarão os seus efeitos negativos – aliás, como os próprios EIAs dos empreendimentos apontam. (CTI/WARÃ, 2011a:211212 – grifo nosso). Grande parte desses impactos também não aparece na matriz. O agravante é que o local a ser instalado o eixo de barramento do AHE Água Limpa, segundo o ECI, é um dos trechos da região que ainda se encontra em bom estado de conservação, demonstrando a afirmação com informações contidas no próprio EIA, Quanto à vegetação marginal: Os remanescentes existentes nas margens do rio das Mortes, no trecho em questão, apresentam-se, de maneira geral, em bom estado de conservação e abrangem uma área bastante contínua ao longo do rio, sendo importantes refúgios e corredores para o fluxo de biodiversidade (SOMA, 2009, Vol IV, X:3), e Quanto à qualidade da água: As águas do rio das Mortes, no local estudado, apresentam qualidade satisfatória. Os parâmetros analisados indicam que as águas enquadram-se na Classe 1 da resolução do CONAMA n°357/05. As variações de qualidade entre os períodos seco e chuvoso são pequenas devido à dinâmica do rio das Mortes na área de 45 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM influência do AHE Água Limpa, que favorece a homogeneização e a autodepuração, contribuindo com a estabilização físico-química das águas (SOMA, 2009, Vol IV, X:3-4). Efeitos da supressão da mata ciliar e galeria O AHE Água Limpa estima suprimir 327,22 ha – apenas para a formação do lago, aos quais se somarão aos efeitos negativos da fragmentação em curso, entre eles a quebra de conectividade em trechos importantes da região, e que afetará diretamente o fluxo gênico para as TIs Sangradouro, São Marcos e Merure (CTI/WARÃ, 2011a:215-216). Na descrição dos impactos no EIA, há a afirmação categórica de que “Os trechos destinados à instalação da barragem, casa de força e demais estruturas associadas, assim como para o canteiro de obra, apresentam-se atualmente cobertos por comunidades vegetais nativas de Cerrado, Floresta Ciliar Aluvial e Floresta Ciliar de Encosta. [...] A redução na cobertura de comunidades vegetais nativas nesses trechos, ainda que bastante localizada e não muito ampla, contribui para a fragmentação dos remanescentes e implica em mais um recuo da vegetação natural frente ao avanço antrópico” (SOMA, 2009, volume IV, pág. VIII-36). Quanto aos impactos decorrentes da supressão da vegetação na área de influência direta do reservatório da AHE Água Limpa, o EIA afirma que se caracteriza por possuir elevados índices de cobertura vegetal nativa, sendo a vegetação autóctone predominantemente constituída por comunidades de Cerrado e Floresta Ciliar Aluvial, que se distribuem pelas encostas suaves e depósitos aluviais relativos ao vale do rio das Mortes (SOMA, 2009, volume IV, pág. VIII-38). Contudo, a vegetação no entorno do futuro reservatório não poderá ser reconstituída com as espécies e a estrutura típicas dessas formações ribeirinhas, já que suas características florísticas e estruturais estão profundamente relacionadas às condições pedológicas e hidrológicas existentes somente às margens do curso natural do rio (SOMA, 2009, volume IV, pág. VIII-38). A explicação desta condição que resultará na mudança da estrutura original da comunidade vegetal é apresentada no EIA: “Com a elevação do nível da água até locais de características essencialmente não hidromórficas e conseqüente elevação do nível do lençol freático, ocorrerão mudanças das condições físicas e biológicas desses ambientes. A alteração mais perceptível, em longo prazo, será a modificação estrutural das comunidades vegetais ocorrente nas áreas de entorno do futuro reservatório” (SOMA, 2009, volume IV, pág. VIII-41). 46 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Para além da supressão da vegetação das margens do rio das Mortes e inviabilidade de recompô-la no entorno do futuro reservatório, poderá haver uma alteração nas comunidades vegetais a jusante da barragem devido a alterações no regime hidrológico do rio das Mortes, especificamente no trecho entre a barragem e a casa de força, devido ao efeito de regularização das vazões pela captação e derivação da água para geração de energia (SOMA, 2009 volume IV, pág. VIII-42). Completa o EIA que as comunidades vegetais mais afetadas pelas mudanças de vazão serão aquelas presentes imediatamente às margens e nas ilhas deste rio (SOMA, 2009, volume IV, pág. VIII-42). Interrupção do Fluxo de Espécies da Fauna e da Flora Além de todos os efeitos, descritos anteriormente, referentes à supressão da vegetação na área do reservatório, a formação do AHE Água Limpa também tem notável importância por transformar radicalmente um ecossistema terrestre anteriormente utilizado por espécies da flora e da fauna como habitat e corredor de dispersão, em um ecossistema aquático (SOMA, 2009:VIII39). O ECI cita trechos importantes do EIA sobre os efeitos negativos da redução da cobertura vegetal nativa sobre a flora e fauna pela redução de habitats, redução do banco de germoplasma e, principalmente, pela interrupção do fluxo de espécies que utilizavam os ecossistemas marginais ao rio das Mortes para sua sobrevivência e locomoção (SOMA, 2009:VIII-39-40). É sobretudo importante a interrupção das comunidades de Floresta Ciliar Aluvial, Floresta de Galeria e Campos Úmidos, que ocorrem muito próximas das margens do rio das Mortes e que serão integralmente suprimidas em alguns trechos consideráveis. Estas comunidades, que formavam extenso corredor ao longo da calha do rio das Mortes, sofrem interrupção brusca com a formação do reservatório dificultando, ou mesmo impossibilitando, o fluxo de espécies, em especial daquelas que dependem destes ecossistemas para sua sobrevivência (SOMA, 2009:VIII40). Somado ao efeito da supressão da vegetação em função da formação do reservatório, o EIA aponta outro fator de interrupção do fluxo da fauna aumentando a possibilidade de redução de 47 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM populações: a construção do canal de adução com 6,3 km de comprimento na margem esquerda do rio das Mortes [que] irá isolar uma área de aproximadamente 267,40 ha (SOMA, 2009:VIII-40). Continuando, o EIA conclui que em médio e longo prazo a interrupção tanto pela formação do reservatório, como pela implantação do canal de adução podem causar desequilíbrios nas populações de fauna e flora diretamente relacionadas aos ecossistemas afetados, através da redução de trocas genéticas (SOMA, 2009:VIII-40, grifo nosso). O forte impacto no fluxo da fauna e consequentemente aos Xavante, resultante da supressão da vegetação marginal, não poderá ser mitigado, uma vez que, como é revelado no próprio EIA, as comunidades de Floresta Ciliar Aluvial, Floresta de Galeria e Campos Úmidos não poderão ter sua estrutura repetida em cotas mais elevadas e condições distintas daquelas encontradas nas margens do curso original do rio, a interrupção destas comunidades praticamente não pode ser mitigada (SOMA, 2009:VIII-40 – grifo nosso). Assim, inevitavelmente, a fauna terrestre irá sofrer alteração na sua composição e distribuição devido ao alagamento parcial de seus habitats, principalmente se for considerada que a região da área de influência do empreendimento apresenta uma grande biodiversidade, limitada pela estreita faixa de vegetação ciliar do rio das Mortes, que atua como um corredor contínuo de fluxo de populações (SOMA, 2009:X-5, grifo nosso). Esta concepção de corredor contínuo de fluxos de populações é justificada pela condição do entorno ser uma matriz de culturas, principalmente de soja, algodão e milho (SOMA, 2009:X5). E portanto, a construção de barragens para geração de energia constitui-se numa segmentação física, de origem antrópica (SOMA, 2009:X-6) que provocará o aumento da fragmentação da paisagem e uma barreira para a manutenção do fluxo gênico. Alterações hidrológicas, limnológicas e qualidade da água (impactos 4,5 e 8) As principais conclusões a que se chega o EIA (SOMA, 2009:X-6), no que se refere à qualidade da água, em conseqüência a supressão de corredeiras e a modificação de um ambiente lótico para lêntico, são as possibilidades de : • Ocorrer redução dos níveis de oxigênio dissolvido nas águas e, conseqüentemente, a redução da capacidade de autodepuração do rio das Mortes; 48 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM • Ocorrer alterações no nível trófico do ambiente, levando à eutrofização das águas, caso o aporte de nutrientes provenientes das atividades do entorno não seja controlado; • Ser verificadas alterações na composição físico-química das águas na região do reservatório, com conseqüências também sobre a água num trecho imediatamente a jusante do empreendimento. Apesar disto, o EIA afirma que provavelmente [o impacto decorrente da construção do empreendimento] não modificará a classificação da água, nem no corpo do reservatório nem a jusante da barragem. Já as águas subterrâneas podem sofrer impactos decorrentes da implantação do empreendimento caso as águas superficiais do reservatório sejam afetadas qualitativamente (SOMA, 2009:X-6). O ECI faz um resgate dos resultados obtidos nas análises da água apresentadas no EIA, afirmando que a classificação das águas no local do futuro reservatório foi determinada como classe 1, de acordo com a resolução CONAMA (357/2005); ou seja, águas que podem servir ao abastecimento humano após tratamento simplificado, à recreação de contato primário e à proteção das comunidades aquáticas. O ECI ressalta que de acordo com a própria resolução as águas destinadas à proteção das comunidades aquáticas em terras indígenas devem estar enquadradas na classe 1(CTI/WARÃ, 2011a:236). Contudo o ECI chama a atenção para a ausência no EIA de considerações necessárias sobre a implicação de cada parâmetro para a manutenção do ecossistema aquático, e consequentemente sobre os possíveis impactos decorrentes da transformação de um ambiente lótico em lêntico (CTI/WARÃ, 2011a:236-237). O ECI critica as considerações feitas no EIA sobre as alterações na qualidade da água e nas outras mudanças no corpo d’água que poderão advir do barramento do rio das Mortes. Uma delas refere-se à ausência do cálculo do IQA (índice de qualidade da água; parâmetro que busca caracterizar os efeitos da poluição de núcleos urbanos, áreas rurais e processos erosivos de degradação do solo); outra delas refere-se à presença de macrófitas aquáticas, importante indicador das condições ambientais de uma região. [...] e que constam na lista de possíveis impactos; ainda, não há qualquer consideração sobre o trecho do rio que terá sua vazão reduzida, 49 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM nem sobre as águas que seguirão pelo canal de desvio e o tempo de residência da água no canal e no reservatório (parâmetro importante para se prever o grau de eutrofização); o ECI afirma que apesar do EIA considerar os diversos parâmetros necessários para a caracterização da qualidade da água, não foram feitas as considerações pertinentes para cada resultado e o significado de cada um deles para o equilíbrio e manutenção do ecossistema em questão (CTI/WARÃ, 2011a: 237); e por fim, destaca que não há qualquer consideração sobre o trecho do rio que terá sua vazão reduzida, nem sobre as águas que seguirão pelo canal de desvio e o tempo de residência da água no canal e no reservatório (parâmetro importante para se prever o grau de eutrofização (ibidem) Rio “gordo” e rio ”seco” Essa categoria atribuída ao rio é muito interessante uma vez que estabelece o ciclo de vida para os xavante. Dentro dessa percepção os índios se recusam a acreditar nas explicações de que as usinas construídas no regime de fio d’água não irão causar problemas no fluxo anual de cheia e vazante do rio. E tal imposição não é absorvida uma vez que é esse equilíbrio entre cheia e vazante o elemento ambiental que orienta toda a dinâmica ecológica e social da vida no rio öwawe. A alteração do calendário sazonal no tocante a estação seca (rio seco) e estação chuvosa (rio gordo) interferem em suas práticas culturais ao passo que descaracteriza a territorialidade xavante. “O equilíbrio vazante/cheia dos rios, e particularmente do rio das Mortes (Öwawe), reflete o equilíbrio (existência) da própria sociedade Xavante, na troca equilibrada entre öwawe (água viva=corrente=vida na cheia) e poredza‟onõ (poça=água parada=girino=vida na seca). Neste sentido a cheia permanente que os barramentos induzirão no rio das Mortes é uma ameaça real e concreta para a reprodução da sociedade Xavante tal como a concebem e vivenciam” (CTI/WARÃ, 2011a:213). Outro ponto importante descrita nessa relação dos Xavante com o rio é que “o rio das Mortes na geografia Xavante “corre” da foz para a cabeceira, seu começo é no Araguaia, onde se alimenta, e seu fim nas suas “nascentes”, onde acaba; isto significa que barrar o rio das Mortes próximo do seu fim significa para os Xavante deixá-lo próximo de algo parecido com a inanição, porque as águas do Araguaia não poderão mais alimentá-lo direito. E enfatizamos: não se trata de considerar tal argumento como uma diferença de ponto de vista apenas ou de concepção, mas como uma diferença de objeto, de mundo, como acima ressaltamos” (Ibid:214). 50 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Barrar o rio significa ainda para os sábios xavante desqualificar os tede’wa (benzedores) perante a sua sociedade, além de acarretar a libertação dos espíritos de corpos e placentas de bebes enterradas as margens do rio. O que colocaria os xavante em risco, trazendo-lhes doenças. Impactos sobre a avifauna Em relação à importância das aves para os Xavantes, o ECI destaca que “várias espécies vegetais e aves só ocorrem no marã (ou que precisam das matas ciliares/galeria para se reproduzirem) e são fundamentais para a vida cerimonial xavante e para seus procedimentos de cura: a supressão ou apodrecimento (inutilização) de partes importantes do marã do rio das Mortes e dos seus afluentes é mais uma ocorrência que ameaça o equilíbrio necessário à continuidade do modo de vida xavante “(CTI/WARÃ, 2011a:215). Para os Bororo, o ECI destaca que o conhecimento desse povo em relação à avifauna é altamente refinado, uma vez que as aves ocupam um papel fundamental na cosmologia, na confecção da indumentária e objetos rituais. Ressalta-se que as principais aves utilizadas, a maioria está na lista dos animais em extinção. O ECI traz um trecho que resume bem esta relação Bororo com as aves: “Nos últimos 100 anos os missionários salesianos vêm recolhendo diversas peças do cotidiano Bororo e compondo a coleção etnológica do Museu Dom Bosco, em Campo Grande-MS. Das 1.502 peças numeradas e descritas, mais de 400 utilizam animais em sua confecção (...). Até o momento foram relacionados os seguintes artefatos confeccionados usando animais: diademas, brincos, braceletes, colares, arcos, flechas, bonecas, colheres e anzóis. Esses objetos são ou eram usados em rituais, enfeites corporais, indumentária, utensílios para caça e pesca, alimentação, preparo de comida e ingestão de líquidos. Os Bororo utilizaram principalmente aves (Ara chloroptera, Ara ararauna, Anodorhynchus hyacinthinus, Cairina moschata, Amazona aestiva, Harpia harpyja, Cathartes urubu, Sarcorhampus papa) (...). A maioria das espécies citadas está na lista dos animais em extinção. Conhecer a relação entre os Bororo e a fauna tem fornecido indicadores do impacto de sua cultura no ambiente e das alterações ambientais em sua identidade cultural http://nerua.inpa.gov.br/NERUA/43.htm.” (CTI/WARÃ, 2011b:53, grifo nosso) Corredor ecológico e ictiofauna Assim como solicitado no Termo de Referência – análise ecológica da paisagem, com base nos padrões formados pelo arranjo espacial das referidas tipologias fazendo correlação dos possíveis impactos na paisagem decorrente da implementação dos empreendimento e Identificação, caracterização das áreas degradadas e de preservação permanente, o estudo traz informações 51 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM acerca da fragmentação do território Xavante; as imagens anexas ao caderno de mapas indicam a predominância de cobertura vegetal nativa nas terras indígenas, que representam grandes fragmentos de Cerrado ligados pelo Rio das Mortes, localizados em uma matriz composta por plantações de soja e pecuária extensiva. Nesse contexto, o Rio das Mortes transforma-se em um corredor ecológico responsável pelo fluxo gênico de espécies da fauna e da flora, que integram a cosmologia dos índios Xavantes. Segundo Menges (1991), os elos em metapopulações, atuam em favor da viabilidade populacional ao longo do tempo, revertendo à baixa variabilidade genética em pequenas populações, pois pequenas populações conectadas têm maior probabilidade de sobreviver que as isoladas. De acordo com a Teoria de Biogeografia de Ilhas, MacArthur & Wilson (1963 e 1967), existe uma relação entre o tamanho dos fragmentos e a riqueza em espécies; fragmentos maiores com características semelhantes a fragmentos pequenos tendem a apresentar maior diversidade de espécies e maior abundancia. Diante disso, fragmentos muito reduzidos, e inseridos em uma matriz que caracterize uma barreira que dificulte as trocas gênicas, estão mais suscetíveis a eventos de extinção local de espécies. No que tange a capacidade de dispersão das espécies vegetais, citamos Cubiña e Aide (2001), que encontrou uma forte relação entre a distância dos fragmentos e a intensidade da chuva de sementes, onde: quanto maior a distância menor a intensidade de propágulos, principalmente devido a grande maioria das espécies florestais apresentarem dispersão zoocórica. Por posto, o ECI corrobora com a literatura anteriormente citada quando defende que haverá “alteração na dinâmica dos deslocamentos da avifauna associada ao ambiente aquático do Rio das Mortes por supressão/alagamento das matas ciliares a montante e alterações das fitofisionomias vegetais a jusante”. É indicado, ainda, que, durante a construção e operação, poderá ocorrer alteração da biota e ricos de alteração de circulação da fauna em função da modificação do seu habitat. Em atenção ao item do TR “b) Caracterização do modo de vida dos grupos indígenas com ênfase na importância dos recursos hídricos e vegetação/fauna relacionados”, o estudo retrata de forma cuidadosa sobre a territorialidade do povo Xavante, indicando a importância da bacia do Rio das Mortes no território Xavante: 52 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM “A bacia do rio das Mortes é parte fundamental do território xavante, assim como de toda sua história no Mato Grosso. A cisão Xavante-Xerente relatada na história oral conta que durante a travessia do rio Araguaia e do rio das Mortes, o surgimento de um boto causou a separação do grupo, a partir de então formaram-se dois povos (CTI/WARÃ: 2011:94)”. “Para os Xavantes o rio das Mortes é o local da “raiz” do povo A’uwe Xavante, importante na construção de sua história territorial e cultural. O rio e suas matas ciliares fazem parte do complexo mundo espiritual Xavante, parte de sua cosmologia, locais onde se realizam os importantes rituais como: Oi”ó, furação de orelha e o Waia’a” (ibid:103) . Ainda em referência ao item supracitado, o estudo demonstra a importância da pesca para o povo Xavante; intimamente ligados à bacia do rio das Mortes. A maior parte da proteína consumida por aquele povo é proveniente de espécies da ictiofauna, existindo preferência por alguns peixes: Matrinchã, Pacu, Tucunaré, Piranha, Piau e Traíra – peixes de hábitos alimentares distintos; destacase que algumas dessas espécies apresentam ciclos migratórios entre sítios de alimentação e de desova. Buscando uma análise de cenário, o estudo considera que o barramento do rio das Mortes reduzirá a diversidade e a abundância de peixes naquela bacia. Isso porque parte das espécies de peixes encontradas não conseguiram completar o seu ciclo migratório. O estudo salienta, ainda, que a alteração do regime hidrológico, a remoção da mata de galeria e do solo do fundo do rio, reduzirá o habitat e os recursos essenciais disponíveis para a biota aquática ali existente. Agostinho et al. (2007) apontou que um dos primeiros impactos a ser observado na construção de barragens é a alteração de um ambiente lótico em lêntico. Isso implica em mudanças nas condições químicas e físicas da água, na formação de novos habitat e na perda de outros. Dentre os habitat perdidos o autor destaca as lagoas marginais, canais, remansos, poções e corredeiras; habitats necessários em algum momento do ciclo de vida da biota aquática. No estudo, item 3.1.5 A ictiofauna, os autores descrevem características da ictiofauna na bacia do rio das Mortes; indicam que o ambiente estudado apresenta diferentes habitat: “O médio e baixo rio das Mortes abriga uma grande diversidade de ambientes aquáticos, que vão desde pequenos córregos sinuosos, água fria e coberta pela mata de galeria, passando por áreas de palmeiras (buritis), até rios com propriedades físicas, químicas e biológicas distintas. Essa diversidade de habitats do Cerrado (Ró) para a fauna aquática inclui também Öre (lagos), Irãpó (“vargem” ou várzeas - áreas de alagadiços), Sedarã (áreas de buritizais) entre outras. Alguns macrohabitats, como os rios apresentam outros compartimentos internos muito característicos e que condicionam a presença de certos conjuntos de espécies adaptadas a condições ambientais muito especificas, como as “corredeiras”, “cachoeira”, “canais” e “poções”. Outros ambientes são fortemente sazonais, ou seja, “lagoas” próprias para uso de timbó e as “praias” disponìveis 53 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM durante certo perìodo de Tãpini‟rãtsudu/Robré (vazante/seca), e as áreas da “mata de galeria alagada” e “campos alagadiços” durante Aẽta/Utsu (enchente/cheia).” Os habitat descritos no estudo são utilizados pela biota aquática em função de diferentes motivações. Assim, as matas de galerias, quando inundadas, são importantes para a desova, proteção contra potenciais predadores e alimentação. As corredeiras e pedrais, colonizadas por algas e invertebrados bentônicos são nichos importantes para as pequenas espécies de peixes. A instalação dos empreendimentos modificará o sistema, excluindo parte destes nichos essenciais para a ictiofauna ali presente. Como o próprio EIA afirma as alterações impostas pelos represamentos tendem a causar a redução ou extinção de habitats, de locais de desova e criadouros naturais, além de proporcionar a perda da heterogeneidade genética. Esses fatores, geradores de impactos sobre as comunidades ícticas, em especial as espécies migradoras e as tipicamente reofílicas, possuem implicações na diminuição ou mesmo na extinção local de algumas populações (SOMA, 2009:X-6). A literatura relacionada aponta, corroborando com o ECI, que diversos tipos de rotas migratórias podem ser interrompidas a partir da construção de barragens (Agostinho et al., 2007). Embora os deslocamentos mais relevantes da ictiofauna sejam reprodutivos, Goulding et al. (1996) aponta outras motivações - migrações de caráter térmico ou sazonal, trófico ou nutricional, e ontogenético ou de crescimento, quase todas as formas associadas ao regime hidrológico. Assim, as grandes barragens levam, se nenhum dispositivo para a transposição de peixes é instalado, ao bloqueio do acesso de espécies migradoras às suas áreas de reprodução e/ou alimentação. A instalação das barragens poderá ser responsável, ainda, pela mortandade de peixes nas turbinas e vertedouro. Ao passar do ambiente represado para os trechos a jusante da barragem, os peixes podem ser injuriados ou mortos; o espécime injuriado fica vulnerável a predação. Assim como aponta o estudo em análise, a efetividade na construção de mecanismos de transposição de peixes tem sido questionada por diversos autores. Pelicice e Agostinho (2008) aponta que, quando a descida de peixes não é possível, incluindo ovos e larvas, e quando não são encontrados remanescentes lóticos a montante, a transposição pode funcionar como um fator de impacto adicional sobre a ictiofauna. 54 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM O ECI sugere, ainda, que “a concentração de produtos químicos resultantes das atividades de lavouras e fazendas, assim como o acúmulo de sedimentos nos fundos dos reservatórios Água Limpa e Toricoejo poderão potencializar o aumento (das) concentrações de (insumos agrícolas – corretivos fertilizantes e agrotóxicos) nas áreas dos Rios das Mortes e seus efluentes”. As matas ciliares funcionam como “filtros” de efluentes provenientes do escoamento de águas superficiais das lavouras próximas ao rio das Mortes e seus afluentes. As espécies vegetais que compõe aquelas matas impedem que insumos agrícolas lixiviados das plantações escoem diretamente para os corpos hídricos. Assim, a instalação das usinas e consequente supressão daquela vegetação levarão ao aumento da quantidade de agrotóxicos a serem despejados na bacia do rio das Mortes. Quando da mudança no regime hídrico do rio da Mortes, os insumos agrícolas lixiviados para o ambiente lêntico formado pelo reservatório, após decantação, ficarão acumulados no sedimento. Processos de circulação da água, abertura do vertedouro, o revolvimento do sedimento por representantes da fauna aquática, poderão incrementar a concentração de material tóxico na coluna d`água. Salienta-se, ainda, conforme descrito no ECI, que agrotóxicos são compostos de substâncias bioacumuláveis. Assim, a ingestão e/ou absorção pela biota aquática das referidas substancias levará a acumulação de insumos tóxicos ao longo da cadeia trófica. Diante o exposto, concluímos que os impactos descritos na matriz são relevantes e condizentes com as especificidades do ambiente estudado. A modificação de habitat, a supressão do corredor ecológico (mata de galeria) - fonte de alimento para a fauna aquática, a alteração do regime hidrológico e o aumento na concentração de substância tóxicas bioacumuláveis, impactarão de forma substancial as espécies da ictiofauna, principal fonte de proteína para a população Xavante. Perspectivas sobre a fragmentação A fragmentação na região analisada pelo ECI foi muito intensa e relacionada ao processo de mudança de uso do solo, principalmente na incorporação de áreas de vegetação natural ao agronegócio. A dinâmica de transformação desta paisagem vem na contra-mão dos processos descritos anteriormente relacionadas à territorialidade Xavante, onde atualmente se busca a conectividade de seus territórios através do projeto Marãnã bödödi. O cenário com a construção 55 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM dos reservatórios contribuirá ainda mais com o isolamento das áreas e se contrapõe aos objetivos do Marãnã bödödi. (grifo nosso) (CTI/WARÃ, 2011a:230-231). Segundo o ECI, a partir da interpretação de valores obtidos através do programa Fragstasts para análise de métricas de paisagem, as métricas analisadas apontam que os remanescentes de vegetação natural encontram-se sob forte ameaça e necessitam de medidas que busquem diminuir o grau de isolamento e o efeito de borda, melhorar a forma dos fragmentos, aumentar o seu tamanho e, consequentemente, a diversidade biológica e eliminar os agentes de degradação presentes na região (IBID:232). O ECI ressalta que um projeto alternativo e possível para as terras indígenas e tendo o rio das mortes como objeto seria: implementar o processo de desfragmentação da paisagem e promover a formação de corredores de biodiversidade conectando as três Terras Indígenas da área de estudo (Sangradouro/Volta Grande, São Marcos e Merure), promovendo assim a possibilidade de trocas gênicas entre espécies de modo a garantir que futuramente esses recursos naturais coexistirão com as populações indígenas Xavante e Bororo de forma suficiente para a sua reprodução física e cultural (CTI/WARÃ, 2011a:231). Na teoria Xavante, como ressalta o ECI, a interação entre o que chamamos de “espécies” constitui o cosmos, o mundo xavante, e todo o esforço dos A’úwẽ Uptabe (dos verdadeiramente humanos), consiste em preservar, por meio de intervenções suas (dos xamãs, das dietas e restrições alimentares dos caçadores e dos conjugês pós-parto, do conhecimento sobre as trocas entre os diversos níveis dos cerrados e das águas etc.), o equilíbrio entre estas espécies (as quais incluem os espíritos protetores destas espécies: tsimhopari, dahimite, pi’u, tsarewa...). A “interrupção do fluxo entre as espécies” nada mais é do que o processo que aqui estamos nomeando de “fragmentação” do mundo ou ambiente Xavante. Este processo é avaliado na teoria Xavante como um desequilíbrio que afeta diretamente o modo de vida dos A’uwẽ (grifo nosso) (CTI/WARÃ, 2011a:218-219). Sobre o modo de vida Bororo Os impactos do AHE Água Limpa sobre a TI Merure e o modo de vida Bororo, segundo o ECI, só serão significativos se interagirem com aqueles de Toricoejo, posto que, além da distância física do barramento em relação à TI Merure, acrescenta-se a distância cultural imposta pelos Xavante da TI São Marcos - que, conforme indicado, formam há três décadas uma “barreira 56 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM cultural” ao acesso e uso do rio das Mortes pelos Bororo. O que não quer dizer que alguns impactos do AHE Água Limpa não possam afetar a TI Merure e os Bororo de alguma maneira (CTI/WARÃ, 2011b:70). Os impactos, segundo o ECI, teriam um efeito sobre as Terras Indígenas Merure que poderiam servir de “área de refúgio” para determinadas espécies da fauna que lhes interessa (mamíferos e aves). Contudo, para os mamíferos de grande porte e as aves maiores (que podem atravessar e se locomover por grandes distâncias), o efeito poderia ser [negativo], já que aumentaria a competição inter e intraespecífica nas Terras Indígenas, pondo em risco os equilíbrios ecológicos ali existentes (CTI/WARÃ, 2011b:73). A equipe avaliou que os barramentos só afetariam os Bororo na medida em que esses afetem os Xavante. Isso porque foi identificado que os xavante tem adentrado a TI Merure para caçar motivados pela pressão da fragmentação e descaracterização do cerrado no entorno e que a construção dessa hidrelétrica potencializaria a escassez de recursos para os xavante e consequentemente maior invasão a Terra Indígena Merure. 6.1 Medidas de mitigação e/ou compensação e programas socioambientais O ECI do AHE Água Limpa não apresenta medidas e programas socioambientais para mitigar e/ou compensar os impactos identificados. A justificativa resulta no fato de que a equipe identificou impactos de diferentes ordens e magnitudes que provocarão efeitos socioambientais de médio e longo prazo irreversíveis para o modo de vida Xavante, tanto pela intervenção direta do empreendimento, como por potencializar os efeitos negativos numa paisagem já profundamente modificada (cf. CTI-WARÃ, 2011a:265). Por esse caminho avaliam que nenhuma medida vai conseguir compensar os estragos causados no rio das Mortes para as gerações futuras (ver comentários sobre as reuniões de apresentação do estudo abaixo). A dificuldade em manter essa posição frente ao empreendedor levou a Associação Xavante Warã a cobrar da Funai um posicionamento acerca de medidas e programas solicitadas pelo TR. Em resposta à Associação Warã foi enviado o Memo 184/COLIC/CGGAM/11, de 28.02.11, conforme já descrito na memória do processo, que esclarece os procedimento adotados pela Funai e da legislação especifica que disciplina a matéria. Ver documento. 57 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Em maio de 2011 ocorreram então as reuniões de apresentação dos estudos preliminares nas terras indígenas. Na ocasião, a Funai esclareceu os procedimentos da legislação ambiental e a competência da Funai nos processos de licenciamento. Esclareceu aos presentes que se os estudos estivessem bem qualificados a Funai poderia se manifestar favoravelmente ao estudo, mas caberia ao órgão licenciador, ou seja, a SEMA, responsável por emitir as licenças ambientais, a manifestação final sobre o(s) empreendimento(s). Na ocasião dessas reuniões os índios registraram Atas, que são reproduzidas nos anexos do ECI, desautorizando a equipe CTI-WARA a propor medidas e programas a partir do entendimento de que não existem medidas que possam reverter, mitigar ou compensar os impactos do barramento do Owawe (Rio das Mortes). Esse posicionamento foi consolidado no documento final e enviado para o empreendedor. Este, por sua vez, após dois meses com o documento em mãos, protocolou na Funai, em 29.08.11 os estudos e um “Documento Complementar: Proposição de Medidas Mitigadoras, Compensatórias e Programas de Controle e Monitoramento”, de responsabilidade da empresa Furnas e Eletronorte. A justificativa apresentada foi que “o presente documento busca complementar o requisito não atendido visando o cumprimento integral dos itens elencados no Termo de Referencia emitido pela Funai” (Furnas & Eletronorte, 2011: 3). Devido à entrega desse documento e de alguns meses de entendimento entre as partes a Associação Warã solicitou uma reunião para apresentação do mesmo. A Funai, a pedido do empreendedor, realizou uma reunião com Furnas e Eletronorte no dia 01 de dezembro de 2011, onde foi solicitada a apresentação do documento complementar pelo empreendedor (sendo oficializado essa intenção por meio do Oficio nº 1222/2011/DPDS-FUNAI-MJ), ressaltando a própria finalidade expressa pelo documento: realizar o diálogo com os povos indígenas Xavante e Bororo, vislumbrando gerar pontos de equilíbrio entre as partes e conduzir o processo a benefícios mútuos. Sendo assim, a reunião foi marcada para o dia 08 de março e depois remarcada, a pedido de Furnas por questões de inviabilidade de realizar a logística necessária, para o dia 15 de março. No entanto, no último momento Furnas não compareceu a reunião por entender que se tratava de um procedimento interno a Funai e que ela não precisaria participar. Justificativa até hoje não oficializada e explicada via telefone. Durante a reunião, as lideranças presentes, contestaram a não participação do empreendedor que elaborou um documento sem o conhecimento deles e assim não permitiram que a 58 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Funai apresentasse as medidas nele contidas. Argumentaram que já haviam deixado claro o posicionamento acerca das medidas e que não discutiriam ali qualquer assunto relativo ao tema novamente com a Funai. Na verdade esse documento possui uma falha marcante, uma vez que não são apresentadas medidas, mas sim, programas sem qualquer escopo mínimo que pudesse ser visualizado suas ações. As medidas pensadas para minimizar e/ou compensar os impactos identificados devem ser agrupadas de modo a se propor programas específicos. É um exercício anterior à própria proposição de programas. No intuito apenas de atender a uma exigência do TR, sem se preocupar com seu conteúdo, foi feito uma correspondência para com os programas propostos no EIA cujos impactos identificados tivessem algum estreitamento técnico com aqueles identificados no ECI. O que não foi possível fazer para os impactos de “cunho simbólico e cultural”. Possivelmente os Xavante perguntariam para que, então, ele serviria. Percebe-se que é dentro dessa lógica que rege os estudos de impacto ambiental (poderia ser Xavante, Guarani, Tapeba, quilombola ou qualquer outra população tradicional) que foram realizadas as críticas à ciência orientadora dessas práticas pelo ECI e comentadas ao longo desse texto. Talvez não se trate unicamente de ciência, mas de práticas associadas ao campo ambiental. De todo modo, está também revestida de manipulação simbólica, utilizada estrategicamente em função dos interesses políticos e também simbólicos de seu portador. Entende-se, entretanto, que o empreendedor esteja querendo minimamente tranquilizar a Funai, órgão indigenista oficial, que os índios não ficarão eximidos de direitos em relação aos impactos identificados. Essa é uma leitura interessante e que suscita questionamentos, justamente, por seu caráter ambíguo. Afinal, que direito a Funai deve defender? Que as medidas sejam garantidas e pensadas para minimizar impactos para sua inevitável execução, ou, que, mediante os diversos impactos irreversíveis e de grande magnitude, comprovado pelos estudos, se procure defender a integridade dos povos indígenas? Cabe mencionar que a Funai é um órgão público e segue a legislação. A proposição de medidas e programas é uma exigência legal e o empreendedor o fez, ao seu modo, e está sendo objeto de análise nesse parecer. A Funai defende os direitos dos povos indígenas e a Lei. No tocante à sua observação e acompanhamento nos processos de licenciamento ambiental e devido as suas prerrogativas em favor da proteção e promoção do desenvolvimento sustentável 59 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM das populações indígenas, espera-se que os ECI proponham programas pensados de modo a perpetuar o uso dos recursos naturais nas terras indígenas, visando à melhoria nos modos de uso dos referidos recursos, a manutenção da sustentabilidade sociocultural e econômica, diante o quadro das pressões de adensamento populacional, como também, programas que promovam a proteção desses territórios das diversas ameaças identificadas no ambiente externo. No entanto, esse ideal não deve ser a tônica aqui, uma vez que o ECI prova a partir de uma série de argumentos bem embasados etnograficamente que o aproveitamento hidrelétrico no Rio das Mortes é inviável. Existem argumentações no estudo onde evidenciam a posição técnica e a posição dos índios de não existir medidas capazes de atenuar ou compensar os impactos. Por esse motivo, o ECI não propõe medidas para reverter impactos que são considerados irreversíveis para o modo de vida Xavante e seu patrimônio cultural. Sem entrar diretamente na discussão sobre o conceito de desenvolvimento o (pano de fundo do) ECI pressupõe uma crítica à “retórica que acompanha e que funda os pressupostos e o etnocentrismo das sociedades modernas, bem como as crenças em matéria de desenvolvimento” (Perrot 2001, apud Gallois, 2008:216). Como informa a antropóloga Dominique Gallois, em artigo intitulado “Quem atrapalha o Desenvolvimento?” (2008), uma vasta literatura clássica – produzida na primeira metade do século XX e dedicada ao encontro dos povos nativos com o nosso desenvolvimento - tratou dessa problemática pelo viés das modalidades do processo de mudança social e cultural” (op.cit). Percebe-se nesse estudo que essas questões são consideradas, só que diferentemente, ele não pretende “contribuir para a formulação de melhores práticas, capazes de aperfeiçoar a qualidade das intervenções” (ibidem) – critica, aliás, feita pelo empreendedor em reunião com a Funai (ver item seguinte) -, pelo contrário, pretende negá-la frente às diversas experiências indígenas ao longo do processo histórico de intervenções do estado sob a égide do desenvolvimento e suas falsas promessas (ver última nota de rodapé desse parecer). Nesse sentido, o estudo esclarece que é o próprio processo histórico de ações pautadas pelo desenvolvimento que faz com que hoje haja somente um único corredor ecológico, simbolicamente imprescindível, que liga os fragmentos de uma território tradicional indígena. Como bem informa o professor Gilbert Rist, nesse mesmo artigo, “a noção do desenvolvimento, que pretende generalizar a felicidade universal, reduz-se, finalmente, à transformação da natureza e das relações sociais em bens (...) ou, 60 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM se preferirmos, à omni-mercantilização do mundo em nome do crescimento econômico”. (Rist, 2007, p.146, apud Gallois, 2008:215). Esse estudo inaugura a quebra (mudança de paradigma) do desenrolar normal dos processos de licenciamento e seus “produtos” não propondo medidas e programas a partir da constatação da inviabilidade do empreendimento, ao passo que suscita aos gestores públicos questionar os rumos das intervenções junto aos povos indígenas. 8. Posicionamento das Populações Indígenas Neste tópico será retratada a participação das comunidades indígenas Xavante e Bororo durante as etapas que constituíram o processo de licenciamento ambiental do AHE Água Limpa junto a Funai e o posicionamento delas frente à possibilidade de instalação dos empreendimentos. Durante as etapas do licenciamento ambiental dos empreendimentos, a participação das comunidades indígenas ocorreu conforme quadro apresentado a seguir: Data 12 e 13 de setembro de 2008 19 a 25 de janeiro de 2010 26 a 28 de janeiro de 2010 21 a 27 de maio de 2011 15 de março de 2012 Local Nova Xavantina Terras Indígenas Sangradouro, São Marcos, Areões, Pimentel e Merure Primavera do Leste Terra indígena Sangradouro, São Marcos, Areões, Pimentel e Merure Primavera do Leste Objetivo das reuniões Apresentação dos empreendimentos hidrelétricos Preliminar nas aldeias para reunião com a Funai para discutir a necessidade de realização dos estudos do componente indígena. Apresentação geral do licenciamento ambiental e do TR da Funai para elaboração dos estudos do componente indígena Apresentação preliminar dos estudos Reunião final de apresentação dos estudos e do documento complementar 61 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Desde o começo desse processo as lideranças indígenas Xavante já deixaram claro seu posicionamento acerca da possibilidade de se iniciar uma série de barramentos no Rio das Mortes. Rio este que é considerado pertencente a sua própria organização social. Para além da questão meramente política face às pressões externas, o início do processo de licenciamento gerou também uma série de boatos e brigas internas em relação a posições teoricamente pró-empreendimento, donde pessoas pudessem estar sendo beneficiadas financeiramente para aceitação da hidrelétrica. Impacto inclusive que foi identificado pelo estudo (Conflitos internos, elevando a desunião dos Xavante). Foi dentro desse clima que a reunião de apresentação do empreendimento para o povo Xavante foi marcada para ocorrer nos dias 12 e 13 de outubro de 2008, em Nova Xavantina, após toda a formalização do empreendimento junto a Funai, a elaboração do TR, a contratação da equipe responsável pela elaboração do estudo e a entrada do processo de licenciamento do AHE Toricoejo. Entretanto, como o próprio estudo relata, “no meio desta apresentação, lideranças Xavante presentes no encontro se manifestaram pela interrupção da reunião e dos Estudos, sendo seguidos pelos demais indígenas Xavante presente. O argumento era que os estudos etnoecológicos já seriam, em alguma medida, um aval ou autorização ao empreendimento. As lideranças Xavante contrárias aos Estudos apontaram, com ênfase guerreira ritual típica, os impactos dos empreendimentos já naquela ocasião: poluição das águas do rio das Mortes; a alteração nas comunidades das espécies da fauna aquática; aumento da presença de população marginal nas imediações de suas aldeias, entre outros. E deixaram claro sua oposição aos projetos de barramento do rio das Mortes para os representantes da ELN, FURNAS e FUNAI então presentes” (CTI-WARA, 2011a:12). Em virtude desse tensionamento e de questões que precisariam ser melhor discutidas internamente aos xavante, em relação a participação de alguns de seus membros nesse processo, a segunda reunião de retomada do ECI ocorreu somente em janeiro de 2011, exclusivamente com a FUNAI. Nessa reunião a Funai ressaltou a importância da elaboração do estudo para que nele contivesse todos os impactos identificados e entendimentos dos Xavante sobre as barragens. Esclareceu-se a legislação pertinente, discutiu-se o modelo do TR que continha as exigências da Funai para ser contemplado nos estudos e o Plano de Trabalho pensado para sua realização. As manifestações durante a reunião explicitaram as inseguranças e preocupações dessas comunidades 62 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM com os desdobramentos que empreendimentos dessa monta poderiam trazer para suas comunidades. Ao final dessa reunião as lideranças indígenas Xavante e Bororo deram a anuência para a realização do ECI, apontando os pesquisadores indígenas de cada terra para participar dos levantamentos de campo. Após as etapas de campo e consolidação do relatório preliminar foram marcadas as reuniões de apresentação do estudo. Etapa exigida pela Funai e que já havia sido prevista no Plano de Trabalho apresentado pela equipe CTI/Warã à Funai, no intuito de consolidar com os índios o relatório final. O estudo foi apresentado em cada uma das cinco terras indígenas, sendo chamado pela equipe de “terra-terra”. Cabe ressaltar que a reunião com os Bororo na aldeia Merure, na TI Merure, não seguiu até o final, tendo em vista o falecimento de uma jovem, sendo respeitado o luto Bororo. Como já foi descrito no item acima, essas apresentações serviram não só para a apresentação dos resultados do estudo, quanto para legitimar o posicionamento técnico da equipe consultora em não apresentar medidas e programas para impactos irreversíveis. A Funai acompanhou esse processo, tendo também apresentado mais uma vez a estrutura do licenciamento, suas fases, as licenças ambientais e os estudos necessários para cada uma das licenças, atentando para o porquê de constar no TR a proposição de medidas e programas. Muitos questionamentos foram realizados pelas lideranças e destacamos abaixo alguns trechos para elucidar um panorama mínimo das discussões realizadas: “A minha pergunta é assim: antes de acontecer projeto das TIs [quis dizer das barragens] em primeiro lugar a Funai foi consultada? Ou se depois de acontecer projeto dos empreendedores? Depois disso a segunda pergunta: a Funai tá sabendo...antes de consultar a Funai ou o indígena o empreendedor já tem projeto, os empresários. Por que antes de acontecer projeto não vai primeiro na Funai, IBAMA, SEMA e indígena? Por quê? Depois de fazer tudo isso...o Ibama já sabe, o governo já sabe, já tá esperando o projeto acontecer, então?! Tudo isso pra nós, o governo, apesar que nós somos inferior da sociedade branca, vou me expressar desse jeito, porque isso não para não. É contínuo, não para. Somos inferior e é por isso que os grandes empresários fazem projeto de qualquer jeito. Como tá ai (aponta para o quadro de apresentação da Funai). Fizeram todo esse instrumento para acontecer. Fizeram todo esse instrumento de propósito para fazer uma encrenca, fazer uma guerra, fazer uma briga. (...)Então nesse ponto a Funai tem que ficar alerta. Antes de acontecer tudo temos que se expressar pra não acontecer essas coisas. Claro que isso vai acontecer. Antigamente, 63 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM ninguém sabia de nada. Antes da demarcação, próprio indígena foram enganado pelos agrimensores aqui nessa área de São Marcos. E muitos falam que são bonzinhos e que vai para ajudar os indígena, na realidade, mais tarde os índios vão sabendo de muitas coisas. Então é nesse ponto que a gente vai falando: temos que ficar alerta. Em primeiro lugar a Funai. Sabemos muito bem também que com os novos projetos, novos demandas do governo, do nosso ver nós sabemos que também a Funai muitas vezes não é ouvida. É desse jeito. É por isso que essa briga não vai parar. Não é por que o índio vai fazer relatório, vai fazer aquele estudo, é perguntado...por quê não veio antes? Por quê? Não é o Gilberto, não é a pessoa aqui da Funai, eu não falo esses, a pessoa que está por dentro desse projeto era pra conversar diretamente. A Funai juntamente com ele e os indígenas, não os outros. Ai sim acabaria negócio, briga. Por quê? Todo lugar tem guerra por causa da terra, por causa da destruição. Por que quer mais? Pra quê quer mais? Se já tem uma usina bem grande de Itaipu, que eu já vi a usina bem grande de perto, por que não vem aquela energia de lá e de tantas outras que já tem. Por que quer mais, pra que? Só pra massacrar os pobres, os mais fracos, os bichos, os indígenas. Pra fazendeiro não tem nada, eles vão sair de lá e fazer compra de terras. E os indígenas? Ficamos ai. É por isso que nós indígenas não vamos entender tudo, eu não quero me expressar muita coisa, eu falo isso pra gente alertar um pouco os outros né, por que cada um de nós pensamos muito diferente, vemos as coisas muito diferentes, então eu falo do que eu tô vendo, do que eu to escutando né pela cabeça do que tá chegando pra atingir a lei indígena” (Roberto, cacique São Marcos, 23.05.11). Esse relato é muito revelador da situação de processos de licenciamento ambiental que envolve as populações indígenas no país. Está claro que as discussões sobre os projetos de infraestrutura do país não podem e não devem mais ficar a cargo exclusivamente da fase de licenciamento. Os povos indígenas e suas lideranças estão plenamente cientes de seus direitos e tem exigido cada vez mais do Estado serem ouvidos sobre os empreendimentos que os afeta desde seu planejamento. A Constituição de 1988 elegeu a jurisdiversidade (Estado plural) ao estabelecer que os índios tenham direito a autodeterminação, aos direitos coletivos. Independentemente da necessidade de regulamentação da Convenção 169 no tocante a consulta prévia, livre e informada, está cada vez mais claro que ela não deve estar subsumida a etapa de licenciamento. A Funai nos últimos anos tem desenvolvido mecanismos de consulta nos processos de licenciamento, em respeito à Carta Magna, bem como a Convenção 169. Esses procedimentos precisam ser entendidos pelos demais atores do licenciamento para que possa ser melhorado. O governo também precisa melhorar os mecanismos de consulta com a própria Funai, como foi percebido pelo cacique, antes do lançamento dos planos de governo. A própria SEMA-MT também precisa incorporar em seus métodos e saberes administrativos a consulta aos povos indígenas. São vários exemplos de que os 64 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM índios e a Funai só vão saber de um empreendimento quando este já está com a licença de instalação emitida ou a emitir. Diversas interpretações sobre as leis aparecerem durante essas reuniões e da necessidade de se criar procedimentos ditados pelos critérios de cada povo indígena. O posicionamento crítico das lideranças indígenas acerca dos dispositivos legais tem se mostrado muito construtivos e reveladores da diversidade cultural e política. Nesse sentido foi muito interessante perceber como que a disposição de figuras geométricas adotadas na apresentação de power point pela Funai nas reuniões de esclarecimento sobre processos de licenciamento ganharam significações próprias. Num quadro que se pretendia apresentar os atores do licenciamento, o empreendimento aparecia ao centro e seus interlocutores no entorno. Esse quadro gerou descontentamento em Sangradouro, pois segundo alguns índios o centro do poder estava representado pelo empreendimento, sendo ele quem mandava em todos os órgãos que ali apareciam. Outros símbolos também tiveram uma representatividade muito grande, sobretudo em Pimentel Barbosa. Os pezinhos que apareciam no quadro ganharam vida e diversas manifestações performáticas se sucederam de modo a frear os passos daquele corpo que estava sendo representado pelas licenças ambientais. Bordunas se sucederam para não deixar o passo seguir adiante emitindo as licenças. 65 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Chamamos atenção para o fato no intuito de darmos exemplos das evidências simbólicas comentadas ao longo da análise desse Parecer, bem como para ler as narrativas indígenas percebendo o olhar, o mundo Xavante e como esse empreendimento é percebido, não como visões sem conhecimento técnico, ou mesmo como lamúrias de emoção e/ou interesse. “Isso não vai garantir pra nós um futuro melhor. A gente ainda se sente que estamos ainda despreparados para recepcionar a cultura do mundo envolvente, enquanto isso nós estamos falando do neto, do bisneto, tataraneto, quais são as consequências que eles vão estar convivendo. Se a gente errar agora pode se estender ao longo dos anos. Seremos odiados pelas nossas gerações. Que nem aconteceu em outros países, principalmente os índios americanos, apesar de que eles são índios povoados, resistiram na luta e infelizmente perderam a sua identidade. Mas enquanto a gente ainda tenta preservar nossa identidade através do ambiente, através do meio ambiente, da água, de todas as natureza que nos envolve, queremos nos identificar dessa maneira. Mas enquanto isso somos descriminados como índios que não desenvolvem, que não trabalha, que é preguiçoso. Mas ao contrario a gente sabe se relacionar com a natureza. A gente tem essa reciprocidade com a natureza. A gente usa pequenas áreas para roça de toco com o intuito de a gente ter uma subsistência dentro da casa. Até agora não se vê nos índios a ganância dominar o seu povo. Os índios são simplesmente que nem uma sociedade, que nem o ex-presidente Fidel Castro, comunista. Quer dizer tem que ser de igual pra igual. Então essa igualdade a gente quer manter ainda. (...) Por isso a nossa visão sobre a energia hidrelétrica não visa em nada, só visa pra nós um grande prejuízo. Quem sairá favorecido são os fazendeiros, são os latifundiários, são pequenos empreendedores, são grandes empresários que vão estar se dando bem com essa troca. E os índios? Que nem os mais velhos falam, desde 1500 nossas terras foram roubadas. Desde o contato o próprio português já começou a explorar o Brasil. (...) então é vergonhoso quando o Brasil nosso que tem as suas riquezas imensas e não se sabe aproveitar, só se sabe estragar as coisas, então é muito sentido isso pra mim sabe” (Sergio). 66 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM “Aprendemos a falar o português, mas não importa isso né, a vida do povo da nova geração é muito perigo, tá chegando...a Amazônia estão desmatando, no Mato Grosso estão todos desmatando, só fica como é que fala, o capim. Não tão voando mais as aves, não tão cantando mais as aves. É assim que vai dar tristeza para o povo indígena a respeito das hidrelétricas, da barragem do Toricoejo e Água Limpa. Chega o que nós perdemos de nossa terra, chega de nós perdemos o rio, que, corre limpo, não tem poluição, o adubo ainda vai...nós temos só um rio, ainda vai nos envenenar o rio das Mortes. E o peixe, nova geração vai pescar não vai tomar com muito gosto ...e quando vai fazer hidrelétricas vai envenenar tudo, vai dar problema pra saúde do povo indígena. Pra não acontecer isso, enquanto nós estamos vivendo, nós não temos permissão pra dar. Por que a Funai, Fundação Nacional dos Índios, o nome é bonito, pesado, mas onde que tem a situação pesada grave a Funai manda a polícia pra resolver esse assunto. E também problema da floresta manda pra proteger a terra indígena, não como assim nós tamos vivendo não. Libertação, viver em paz, a floresta cantando, vivendo do ar puro, não tem ar estragado pra respirar não. E hoje nós não estamos aceitando esse fim do mundo pra os índios. O mesmo que existe a Fundação Nacional dos Índios, Marcela, eu quero que vc fortalece a nossa voz, nossas reclamações. Como vc é coordenadora geral dentro da Funai, como vc (Gilberto) é também dentro da Funai, CTI, e não pode prejudicar, queremos que vocês levar nosso peso, nossa reclamação, nossa reivindicação pra não fazer essa barragem. Água Limpa não é terra do branco, hoje é terra do fazendeiro, não é terra do branco não. Toda essa região, nossos avôs, nossos antepassados, defenderam toda essa área pra não entrar ninguém aqui. E agora a doença que chegou e morreu muitos e muitos anciões, jovens, moças, meninos e meninas, morreu muito; e agora que está aqui modificou. Por que que o índio está morrendo? Tinha sarampo, tinha varíola, tinha catapora, nariz entupido e dor nos olhos e mais o tórax, pneumonia, disenterias e vômito. Esses não é doença dos índios não. É de vocês que estão trazendo pra nós. É assim que vai fazer também com reação da barragem na saúde do povo indígena? Nós não aceitamos” (Aniceto). “Para disso. Vamos fechar o cadeado. Não gosto de estudo pra fazer medidas pra fazer represa” (Alexandre, Cacique Sangradouro). A reunião final dos estudos se deu em virtude do “Documento Complementar: Proposição de Medidas Mitigadoras, Compensatórias e Programas de Controle e Monitoramento”. A CGGAM entendeu que esse documento precisava ser apresentado aos índios, uma vez que se configurava como um documento novo no processo e que não era de conhecimento das lideranças indígenas. A associação Warã quando soube da existência desse documento solicitou que o empreendedor fosse apresentar para as lideranças indígenas. Iniciou-se com o empreendedor as conversas para que a reunião de apresentação final do ECI e do citado documento fosse apresentado aos índios. 67 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM A pauta da reunião era a apresentação desses documentos e dos encaminhamentos e procedimentos a seguir, como audiências públicas e Parecer. Como o empreendedor não compareceu, já mencionado no item anterior, a Funai ficou com a difícil tarefa de apresentar um produto que foi elaborado à revelia da equipe contratada para tal fim e, principalmente, à revelia dos índios. Os motivos pelos quais a equipe não apresentou medidas e programas já foram comentadas. Passemos aqui a um apanhado das discussões realizadas na citada reunião e do posicionamento dos Xavante e bororo. Cabe mencionar que a Superintendente de Assuntos Indígenas do Mato Grosso e titular do CONSEMA, Sr.ª Janaina, foi convidada pelos índios a participar da reunião. O fato do empreendedor não ter comparecido desagradou as lideranças presentes a reunião. Foram diversos relatos sobre o não comparecimento do empreendedor, sendo destacado os seguintes: “Isso é uma farsa. O empreendedor não vem negociar conosco, não vem nos ouvir. O empreendedor era pra tá aqui, é obrigação dele tá aqui e não vieram. Então nós temos que ter nossa postura firme como nós estamos tendo e mostrar para o empreendedor que nós temos a nossa força política também” (Zé Mario, cacique Bororo, aldeia Merure). “Pessoalmente ele tem que vem aqui e falar na minha cara. Eu gostaria de falar na cara dele, tem que gravar tudo que eu tenho pra falar pra ele. Fica com medo, não adianta. Eu preciso ver se ele tem coragem pra mim contar aqui, pra nós dois corrigi, eu quero corrigir ele, ela não vai me corrigir não. Eu gostaria de esclarecer cada lugar que vai estragar todas as coisas da natureza, importante que deus deixou pra nós. Tem que respeitar” (Alexandre cacique Sangradouro). “Se vcs querem, se nós queremos que o Rodrigo apresente ele apresenta, se a gente não quer que ele apresenta, porque os interessados não estão aqui, essa que é a realidade. Essa é a minha proposta, a minha posição, muito obrigado” (Félix – aldeia Guadalupe). Interessante notar que as lideranças se queixavam de não ter havido o diálogo, da falta de disponibilidade do empreendedor em discutir o assunto diretamente com eles. E uma das justificativas do documento complementar revelado pelos empreendedores na reunião com a Funai era de se tratar de uma mensagem: “sabemos que vocês não querem, mas nós queremos discutir”. Outro ponto comentado pelos empreendedores foi de que a equipe que elaborou o ECI não realizou o exercício para encontrar soluções. Infelizmente esse parece ter sido o mesmo problema do empreendedor. 68 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Como não haveria possibilidade de discutir com o empreendedor e tendo o entendimento de que o ECI já estava consolidado, a preocupação das lideranças se voltou para o Parecer da Funai. Além de apresentar a estrutura desse Parecer foi comentado que o Parecer é comumente entregue ao órgão licenciador após as audiências públicas a ocorrer nos municípios pertencentes a área de influência do empreendimento. Diversas lideranças se mostraram receosas com o fato e pediram que esse Parecer fosse entregue o mais rápido possível, pois eles não pretendem nem que tenham audiências públicas. Segue abaixo, um dos motivos alegados: “Primeiro nós não temos dinheiro pra acompanhar audiência pública. Ter audiência pública vai criar e vai provar para os municípios dizendo que nós os povos indígenas é um problema para o desenvolvimento do país. Querem afirmar, querem criar um problema pra nós, então não vai ser feito agora”. (Hiparidi, aldeia Abelinha). “A audiência pública não deve ser feito nas cidades, deve ser feito aonde que os indígenas estão sendo afetados. A audiência tem que ser ouvida ali. Um povo que sente na terra, que pisa e que bebe e usa a água. Nós Xavante usamos para ser homem, para furação da orelha a água. Então é por isso que eu quero que vc ouça e grava e que sonha com essa reunião aqui e que o espírito sua esteja confiante conosco e nós também confiante com você como representante do governo do Estado do nosso Mato Grosso (se dirigindo a Janaina). Eu queria que vc visse isso e trabalhasse junto com a Funai, pois as vezes a Funai faz um trabalho, apresenta um trabalho e depois deixa e esquece. Então tudo isso já vinha acontecendo, quando era os nossos pais não tinham o conhecimento das leis, não tinham o conhecimento do impacto, o que é impacto, o que é essa palavra impacto, e hoje como professor nós entendemos que é muito periculosidade e isso acaba com qualquer povo. Por que nós somos também seres animas, estão acabando com os seres animais, e seres vegetais” (Paulo Domingos, aldeia Tse’ropré). “Viu meus irmãos, minha fala é pouca eu não tenho obrigação de ir lá. Olha, eu pra me representar lá na audiência pública eu não preciso não, não preciso. Eu cuido de minha região por aqui. Só que não quero...olha....tá ai...tem fé pra prender o índio, pra proibir o índio, esses órgão é tudo pra atrapalhar o índio a trabalhar, viver nas suas terras como eles querem viver. Que cada etnia tem seu tipo de convivência, de tradição, e isso que eles quer acabar. E não vai acabar não, só acaba se nós for mole. Se nós for mole vai acabar, porque eles tão atacando de qualquer maneira. Olha ai a saúde não tá funcionando bem, é só mentira, é só enrolando o povo. A Funai e a saúde é o cabide de vocês viver, do branco viver das costas dos índios do Brasil. Então nós tem que ser forte e nossos irmão Xavante são forte, eles chegaram ontem mas são forte. E nós que a muito tempo estamos aqui temos que ser forte também (...) eu falava meu idioma, falava, cantava, agora não sei nem falar meu idioma mais. Por causa de que? Destruíram. E em troca dessa destruição o que é que eles vão me dar? (pausa) Ai que tá. Eu tenho razão em falar. Branco quer destruir mais ainda, o que é isso? Não tão dando conta. Deixa nós cuidar da natureza, cuidar dos bichinhos, cuidar do rio, cuidar dos peixes. É a nossa natureza de conviver. Se fosse assim, 69 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM os índios tinha morrido tudo. Diz que os índios são preguiçosos, é não sei o que. Vai lá nas áreas. Eu não falo pela minha etnia não eu falo por todas as etnias do Brasil”. (Frederico, liderança Bororo de Merure). Foi ainda colocado a própria necessidade de que o Parecer da Funai fosse levado a consulta dos Xavante. “Se é final do assunto, então tem que mostrar, tem que ler. Vocês estão falando de final, tem que mostrar o que você escreveu, se não é mesmo que mostrar cheque em branco” (Jurandir, TI Areões). Ao final da reunião se compactuou o seguinte, a Funai encaminharia o Parecer à SEMA até a primeira quinzena de Abril e a Superintendência de Assuntos Indígenas do Mato Grosso agendaria reunião com o Secretário do Meio Ambiente e com o Governador na segunda quinzena de abril para tratar da posição indígena frente ao empreendimento. 9. Considerações finais Os “Estudos etnoecológicos dos impactos socioambientais do AHE Água Limpa e sistema de transmissão de uso exclusivo”, chamado por nós de Estudo do Componente Indígena – ECI, procurou chamar atenção para a importância da dimensão simbólica da ação e da cultura de forma a abarcar os fatos sociais relevantes possíveis de serem impactados frente à execução do empreendimento, partindo da caracterização bem detalhada do modo de vida Xavante e Bororo, passando por suas relações socioculturais e políticas, as atividades indígenas que envolvem o uso dos recursos naturais e sua importância para a existência dos próprios ecossistemas estudados e, consequentemente, para a manutenção física e cultural dos Xavante e Bororo. É importante salientar que os estudos foram realizados, principalmente sob a ótica dos efeitos e consequências do empreendimento para os Xavante e seu modo de vida e não exclusivamente sobre o “meio ambiente”, considerou-se a concepção Xavante para o termo, ou seja, interno as relações sociais. Apesar de o empreendimento envolver também a Terra Indígena Merure, de usufruto dos Bororo, estas foram menos enfatizadas no ECI, devido as razões já apresentadas. Retomando o início do item 7 desse Parecer, o estudo procurou deixar bem claro que se trata de um relatório/laudo antropológico. Como observa o antropólogo João Pacheco de Oliveira, a 70 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM expressão “laudo antropológico” começou a ser utilizado de modo sistemático na segunda metade da década de 1980, indicando um novo gênero de saber administrativo, centrado na articulação entre um solicitante – uma autoridade judiciária – e um perito – um especialista independente e altamente qualificado (Santos & Oliveira, 2003:142). Parafraseando essa análise, pode-se dizer que a intenção desse estudo é de posicionar o lugar de quem realiza e escreve esse trabalho, onde aqui o solicitante é o órgão ambiental (e a Funai como interveniente) e o perito, o CTI e os Xavante. Dentro de uma instância legal-administrativa-política pode-se dizer que esse estudo inaugura um novo olhar, ou um novo gênero sobre a natureza de estudos de impacto ambiental, à medida que representa uma quebra da operacionalização de uma ordem já estabelecida, tentando subsidiar a Funai e o órgão ambiental na tomada de decisão quanto ao reconhecimento ou não da inviabilidade dos empreendimentos no Rio das Mortes. A diretiva seguida nesse estudo conduz a uma crítica da naturalização de premissas de impactos mitigáveis e/ou compensáveis. Sabe-se que a implantação dos aproveitamentos hidrelétricos na bacia do rio das Mortes está inserida no contexto da atual política econômica instituída no Brasil que delega à produção de energia um caráter estratégico para o desenvolvimento do país. Esse é um debate que vem ganhado cada dia mais repercussão na sociedade nacional, principalmente, via Belo Monte. O caráter hídrico da matriz energética no Brasil acaba defrontando-se, a partir do próprio instrumento do licenciamento ambiental, com diferentes percepções sobre impactos socioambientais, que deflagram também distintos interesses econômicos e, em virtude de seu debate, ou falta de, amplia-se os conflitos de interesse de uso junto às populações indígenas que habitam e sofrem com empreendimentos inseridos em seus territórios tradicionais, em prol do almejado crescimento econômico. O grau que uma extensão particular de um rio pode ser considerado um “recurso produtivo” – se é que ele pode ser assim considerado – depende da ordem cultural em questão, ou como o estudo reflete, do mundo social. A questão proposta diz respeito aos critérios pelos quais se poderá decidir se um empreendimento é ou não viável. Nesse sentido, as relações socioculturais e ecológicas apresentadas aqui para como os Xavante se relacionam com esse território e o sentimento de pertencimento a ele descrito – buscando desnaturalizar o que é visto como dado e mostrar as 71 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM dimensões sociais e simbólicas de uso do espaço daquilo que seria a cosmografia 5 Xavante em contraposição as cosmografias que regem o empreendimento - são diametralmente opostos a como o governo (setor elétrico) se relaciona com esse mesmo espaço. Esse segue um padrão de relacionamento com a natureza onde as bacias hidrográficas, os rios e demais cursos d’água têm seu valor mensurado na capacidade de gerar energia elétrica (potência) para abastecer as grandes cidades e parques industriais de outras regiões do Brasil. Daí resulta que temos pontos de vista distintos sobre o uso e ocupação do rio das Mortes: um rio pensado como um dado natural em si e como reduto econômico e, por outro, que o estudo chama a atenção, um rio como reduto cultural e simbólico, produto e produtor de regras e valores culturais. E que, para tanto, possuem projetos diferentes para o mesmo espaço: aproveitamentos hidrelétricos (interesse estratégico nacional) e Marãnã bödödi (interesse estratégico xavante). O que emerge da análise do ECI é que a “riqueza” desse rio não compreende apenas suas repartições de queda e aproveitamentos hidrelétricos, mas também sua biodiversidade e os conhecimentos que se dispõe acerca dele. Ademais, “as “culturas” constituem para a humanidade um patrimônio de diversidade, no sentido de apresentarem soluções de organização do pensamento e de exploração de um meio que é, ao mesmo tempo, social e natural. Como fez notar Lévi-Strauss em uma conferência feita no Japão há alguns anos, nesse sentido a sócio-diversidade é tão preciosa quanto à biodiversidade. Creio, com efeito, que ela constitui essa reserva de achados na qual as futuras gerações poderão encontrar exemplos — e quem sabe novos pontos de partida — de processos e sínteses sociais já postos à prova. Este ponto de vista, por mais natural que nos possa parecer hoje, não é auto-evidente. Supõe ter caducado o modelo ingenuamente evolucionista que dominou nossa civilização durante mais de um século e que impregnou o senso comum. O “progresso” erigiu uma história particular, a nossa, em ponto de chegada da humanidade. (...)Se quisermos continuar a usar a evolução como paradigma, teremos de 5 Dentre os diversos usos e conceitos de território nas ciências sociais, destaca-se aqui um interessante conceito para lidar com o sentido de pertencimento de território elaborado pelo antropólogo Paul Little. Para ele, cosmografia seria “definido como os saberes ambientais, ideologias e identidades − coletivamente criados e historicamente situados − que um grupo social utiliza para estabelecer e manter seu território. A cosmografia de um grupo inclui seu regime de propriedade, os vínculos afetivos que mantém com seu território específico, a história da sua ocupação guardada na memória coletiva, o uso social que dá ao território e as formas de defesa dele” (Little, 2002:3). 72 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM avaliar também as nossas perdas sociais: processos desaparecidos e línguas mortas são, como as variedades botânicas extintas ou as cadeias evolutivas que abortaram, possibilidades aniquiladas. Não se pense que há contradição entre esta perspectiva e a de que as culturas são entidades vivas, em fluxo. Quando se fala do valor da sóciodiversidade, não se está falando de traços e sim de processos. Para mantê-los em andamento, o que se tem de garantir é a sobrevivência das sociedades que os produzem” (Carneiro da Cunha, 2000:140). Nesse sentido, o estudo se apresenta como traço diacrítico aos resultados consolidados dos estudos de impacto não se apoiando num consenso universal de ciência. Igualmente, percebe-se que os Xavante se apropriaram do ECI e o fizeram como signo6 do Marãnã bödödi. O que se pode empreender sobre o conflito de uso de recursos naturais, especificamente o barramento do rio das Mortes é que se existem divergências quanto ao significado do AHE Água Limpa para a cidadania, ou seja, se estamos diante de um direito de “utilidade pública” ou de um privilégio de determinados setores da sociedade, se privatiza ou não uma parcela de um rio, ou mesmo, se desrespeita ou não os direitos indígenas, o fato é que ninguém duvida de sua capacidade de delimitar um território de caráter econômico-político. Trata-se para além de uma evidência simbólica (cf. Cardoso de Oliveira, 2007) um conflito simbólico, onde as evidências constituem determinados sistemas simbólicos e de poder (cf. Bourdieu, 1989). Poderia esse processo de licenciamento ser enquadrado como mais um capítulo na tentativa ao longo dos anos de ocupação e dominação da bacia do rio da Mortes? Esperar-se-ia da equipe consultora, grosso modo, ser o novo Padre Chovelon, descrito nos estudos, para continuar a “marcha para o oeste”, a fim de atender ao crescimento do país? O certo é que essa equipe não seguiu os caminhos de pacificação, uma vez que o que está sendo apresentado é justamente o contrário, não estão sendo ostentados aqui medidas7 (presentes) para convencer os Xavante e dar 6 “Aqui os signos estão dispostos em relações variadas e contingentes de acordo com os propósitos instrumentais das pessoas – propósitos que com certeza são socialmente constituídos, mesmo que possam ser individualmente variáveis. Os signos, portanto, assumem valores funcionais e implicativos de um estado sincrônico. Eles estão sujeitos a análise e recombinação, das quais emergem formas e significados sem precedentes (metáforas, por exemplo) Acima de tudo, na fala as pessoas colocam os signos em relações indexicais com os objetos de seus projetos, pois esses objetos formam o contexto percebido, para a fala como atividade social. Tal contexto é de fato um contexto significado: os significados de seus objetos podem até ser pressupostos pelo ato de discurso. Por outro lado, o mundo pode não se conformar aos pressupostos segundo os quais algumas pessoas falam dele” (Sahlins, 2008:23-24). 7 Como buscamos demonstrar nestes Estudos, a fragmentação do território Xavante (e a sedentarização das suas aldeias) afetou irreversivelmente o modo de vida desse povo – e tal fragmentação foi a consequência de um processo também dito aos Xavante, à época, de “progresso e benefícios” (a colonização do leste do MT, estimulada pelos Governos federal e estadual nos anos 1950) e conquistado (primeiro pelo SPI e depois pela FUNAI) em troca de bens 73 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM andamento ao processo de ocupação do território, vindo desde o Plano de Colonização. Não se espera tampouco que ressurjamos o ato do antigo servidor do SPI, Pimentel Barbosa, que pediu a anulação do decreto do padre Chovelon de criar uma área agrícola incidente ao território Xavante, pedindo a anulação do processo de licenciamento de Água Limpa, visto que não é competência da Funai anuir sobre o licenciamento ambiental como um todo. No entanto, cabe à FUNAI realizar a avaliação dos impactos provocados pela atividade ou empreendimento em terras indígenas e seu entorno. Diante o exposto e considerando que a Constituição Brasileira de 1988, artigo 225, definiu o meio ambiente como “bem comum”; considerando que a Convenção da Biodiversidade, menciona direitos coletivos de populações tradicionais sobre a biodiversidade; considerando que a Convenção sobre Mudanças de Clima, ao chamar as partes à responsabilidade “para com o sistema climático em benefício das gerações presentes e futuras da humanidade” (artigo 3. 1) reconhecem, cada uma a sua maneira, que o direito ao meio ambiente é um direito difuso, comum a todos e todas, ou seja, um direito coletivo; considerando, principalmente, todos os impactos estudados e apresentados pelo ECI, e analisados ao longo desse parecer, com a sua detalhada e precisa descrição, juntamente com o posicionamento indígena, a Funai conclui que o empreendimento seja considerado inviável do ponto de vista do componente indígena do licenciamento ambiental, sob pena de causar impactos irreversíveis ao povo indígena Xavante. Recomendamos ainda ao órgão licenciador: Instaurar um comitê de bacia do rio das Mortes e garantir a participação indígena de forma a promover o debate das questões relacionadas ao uso dos recursos hídricos. Fazer gestão junto ao Estado e municípios para garantir a destinação do ICMS ecológico às terras indígenas Xavante e Bororo. Garantir a fiscalização dos desmatamentos das matas ciliares e demais transtornos e ao rio das mortes e a fauna e flora associados, como o uso indiscriminado de agrotóxicos nas culturas de soja, algodão e milho no entorno das terras indígenas. da chamada “civilização” (panelas, machados, facas, espelhos e os vírus da gripe , da varíola...). A maioria dos Xavante das 04 Terras Indígenas onde foram realizados os trabalhos de campo para estes Estudos entende que os empreendimentos previstos para barrar o rio das Mortes se inserem no contexto de alteração do seu ambiente que lhes trará apenas e tão somente mais transtornos e dificuldades para o exercício do seu modo de vida (vide abaixo cap. 5.2) (CTI:WARA, 2011:204) . 74 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM 10. Bibliografia Consultada AGOSTINHO, A. A. ; MARQUES, Elineide Eugênio ; AGOSTINHO, Carlos Sérgio ; Almeida, D.A. ; Oliveira, R. J. ; Melo, J. R. B. . Fish ladder of Lajeado Dam: migrations on one-way routes?. Neotropical Ichthyology, v. 5, p. 121-130, 2007. AGOSTINHO, A. A.; GOMES, L. C.; PELICICE, F. M. 2007. Ecologia e Manejo de recursos pesqueiros em reservatórios do Brasil. 1ª ed. Maringá: EDUEM, 2007. 501 p. BARELLA. Walter ET alli. 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Estudo de Impacto Ambiental do AHE Água Limpa, Rio das Mortes – Mato Grosso. SOMA 76 Fundação Nacional do Índio - FUNAI Diretoria de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável - DPDS Coordenação Geral de Gestão Ambiental - CGGAM Soluções Ambientais, 2009. Este é o parecer. Em, 18/04/12. Martha de Almeida Prado Montenegro Bióloga – Indigenista especializada - CGGAM Tatiana Fajardo Bióloga – Profissional de Nível Superior III – Proteção e Gestão Ambiental – CGGAM Rodrigo Theophilo Folhes Antropólogo – Assessor – CGGAM Ciente, de acordo Júlia de Paiva Pereira Leão Coordenadora – COLIC Mariza Braga Goulart da Silva Coordenadora Substituta - COLIC Ciente, de acordo Marcela Nunes de Menezes Coordenadora Geral - COLIC 77