Dinâmicas no espaço rural: a sucessão geracional dos negócios
de agricultores familiares
JEAN MARCOS DA SILVA
Universidade Federal de Rondônia-UNIR
[email protected]
THEÓPHILO ALVES DE SOUZA FILHO
Universidade Federal de Rondônia
[email protected]
ROSÁLIA MARIA PASSOS DA SILVA
Universidade Federal de Rondônia-UNIR
[email protected]
ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE GESTÃO EMPRESARIAL E MEIO AMBIENTE
Dinâmicas no espaço rural: a sucessão geracional dos negócios de agricultores familiares
Resumo
A sucessão geracional dos negócios dos agricultores familiares tem resultado em discussões
orientadas no sentido de avaliar qual é o futuro do espaço rural e se tem havido a pretensão da
juventude de continuar nesta atividade. Assim, esta investigação questiona: que dinâmicas
podem ser notadas entre agricultores familiares e os possíveis candidatos à sucessão de seus
negócios? Habitualmente estes sucessores são os próprios filhos, mas não necessariamente
ocorre assim, pois pode ser um neto ou irmão. A partir de uma pesquisa qualitativa e
quantitativa, utilizando-se de análise estatística descritiva e de dados secundários, verificou-se
que a sucessão é um desejo de agricultores familiares, mas estes mesmos gestores não
planejam este processo. Se pretendem que a sucessão de seus negócios ocorra, parece ser
fundamental que faça este planejamento nos anos iniciais de vida do possível sucessor,
passando a inclui-lo no processo de gestão da propriedade. Observou-se que a sucessão
geracional é um dos principais problemas relacionados à produção destes atores econômicos,
ao lado de fatores como reduzida rentabilidade, exigência da atividade produtiva, qualidade
genética das matrizes e custo elevado dos insumos de produção.
Palavras-chave: Agricultura familiar. Gestão de pessoas. Sucessão geracional.
Dynamics in rural areas: the generational succession of business of family farmers
Generational succession of business of family farmers has resulted in discussions aimed to
assess what is the future of rural areas has been no claim of youth to continue this activity.
Thus, this research asks: what dynamics can be noted between family farmers and the possible
candidates to succeed their business? Usually these successors are their own children, but not
necessarily occurs as soon as it can be a grandchild, one brother etc. From a qualitative and
quantitative research, using descriptive statistics and analysis of secondary data, it was found
that the succession is a desire for family farmers, but these same managers do not plan this
process. If you want the succession of their business occurs is crucial to start planning this in
the early years of life possible successor, and to include it in the process of property
management. It was observed that the generational succession is one of the main problems
related to the production of these economic actors, alongside factors such as reduced
profitability, demand for productive activity, genetic quality of the arrays and high cost of
inputs to production.
Key words: Family farming. People management. Generational succession.
ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE GESTÃO EMPRESARIAL E MEIO AMBIENTE
Introdução
A preocupação com a agricultura familiar e a sua sucessão aparece, sobretudo, em
decorrência da tendência cada vez mais acentuada de emigração dos jovens das propriedades
rurais. O trabalho árduo agregado à remuneração reduzida, entre outros fatores, fazem os
filhos desejarem novas oportunidades nos centros urbanos. Neste sentido, migram para as
cidades a procura de universidades e/ou trabalho e muitos deles jamais retornam. Este cenário
se repete em diversas famílias rurais.
Além disto, a falta de reconhecimento da família; falta de autonomia para inovação;
falta de renda; falta de acesso a novas terras; falta de políticas públicas no meio rural, escolas
e universidades, contribui para a desmotivação dos possíveis sucessores (SPANEVELLO,
2011). Em contrapartida, a perda do vigor físico do pai, elementar na produção rural,
ocasionado pela ação do tempo é outro fator determinante para a redução da mão-de-obra
empregada nas propriedades rurais. É o momento de chegada à terceira idade. Isto é
observável, contudo, o idoso do meio rural necessita estabelecer estratégias de sucessão mais
voltadas para o envolvimento e compartilhamento de ideias com o filho sucessor (DINIZ,
2013).
É certo que é preciso pensar no vazio social que se cria no indivíduo quando o mesmo é
desligado de sua função laboral. O trabalho é toda e qualquer fonte de riqueza, sendo um dos
principais responsáveis em agregar valor à produção, consistindo em um dos elementos
produtivos (MARX, 1982). O deslocamento para esta nova posição de menor importância
reduz o seu reconhecimento na sociedade, bem como o faz perder a sua função social
enquanto pertencente ao sistema capitalista. Como consequência as suas opiniões perdem
peso e a centralização das decisões deixa de ser destinada ao idoso. Neste sentido, é preciso
considerar esta nova posição de quem deixa o seu posto de trabalho para seus filhos. Talvez a
solução para a materialização da sucessão seja alterar o modelo produtivo contemporâneo
destes empreendimentos a fim de envolver os filhos no planejamento estratégico da unidade
de produção.
Diante disto, a presente investigação discute as dinâmicas e processos presentes na
temática da sucessão no espaço rural. Em outras palavras: que dinâmicas podem ser notadas
na sucessão geracional dos negócios de agricultores familiares?
2. Referencial teórico
2.1 Sucessão familiar: características e estudos empíricos
A sucessão na agricultura familiar exerce um relevante papel na continuidade dos
agricultores familiares e preservação do espaço social e econômico destes agentes. O modelo
de uma agricultura multifuncional, ou seja, um modelo onde os agricultores envolvidos teriam
outras atividades de geração de renda tem sido entendido no âmbito da região europeia, como
uma possível estratégia para propiciar a permanência dos filhos na propriedade rural. Além
disto, esta pluriatividade tem contribuído para uma agricultura competitiva, sustentável e
orientada para a qualidade (GIDARAKOU, 2004).
Ainda persiste uma questão complexa sobre este processo da pluriatividade, qual seja:
esta multifuncionalidade dos agricultores é sustentada devido à sua importância como
estratégia de sobrevivência e continuidade ou esta ocorre devido à própria diminuição gradual
da população agrícola. Neste sentido, há duas possibilidades. No primeiro caso, as pessoas
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pretendem continuar com suas atividades da propriedade rural e praticam outras formas de
economia como meio de aumentar sua renda; no segundo caso, os agricultores não desejam
permanecer no meio rural, e terminam por exercer outras atividades externas a fim de
migrarem para a cidade (GASSON, 1986 apud GIDARAKOU, 2004).
A relação entre diversificação de atividades e sucessão familiar é apontada por
Gidarakou (2004) como objeto de pesquisa pela comunidade acadêmica, pois os resultados de
suas pesquisas indicam que em ambientes onde houve sucessão, o exercício de variadas
atividades é mais comum. Percebeu-se também que em alguns casos as atividades da
propriedade rural ficam para serem executadas em tempo parcial e o emprego urbano se torna
a função principal destes indivíduos sucessores.
O desenvolvimento econômico constitui-se pela articulação entre a agricultura e os
demais setores econômicos. Uma das possibilidades é apoiar-se em uma mão-de-obra
assalariada abundante ou então em uma agricultura familiar. Esta segunda opção, tem-se
mostrado mais eficiente por propiciar alimentação em condições mais vantajosas para o
sistema social em seu conjunto, além de apresentar condições mais flexíveis quanto aos
recursos produtivos e disponibilidade de mão-de-obra (GONZALEZ, 1990). Entretanto, nas
últimas décadas a principal mão-de-obra deste setor, os filhos dos gestores familiares
agrícolas, não desejam atuar como sucessores destas unidades de produção.
A discussão sobre a sucessão não é simples como parece à primeira vista por envolver
questões relativas à morte e à mudança de posição de projetos entre pai e filho
(ABRAMOVAY, 1992). Surge assim, a dificuldade do sucessor em falar sobre o tema com o
sucedido, pois ambos acreditam ser assunto passível de discussão apenas após a morte. O
resultado deste comportamento é a ocorrência de sucessão sem qualquer planejamento.
Na visão do pai, renunciar a gestão da propriedade familiar em favor do filho pode
sugerir dois caminhos diferentes: (i) o início de um novo projeto, ou (ii) compartilhar projetos
com o filho.
Há duas teorias principais na gerontologia que explicam a atitude do idoso no
momento de assumir novos papeis: a teoria de desengajamento e a teoria da
atividade. Na primeira o indivíduo diminui progressivamente seus papeis e suas
relações sociais com o mundo. Este processo resulta em uma dedicação maior ao
círculo afetivo mais próximo e um distanciamento das atividades funcionais e
produtivas. Na segunda teoria o idoso possui uma atitude ativa, assumindo novas
atividades, novos laços sociais de forma a compensar a perda de habilidades e de
antigos papéis sociais. (ALVES, 2004 apud DINIZ, 2013, p. 46).
A visão de inutilidade do idoso frente às atividades habituais também influencia na
renúncia de pensamentos direcionados à sucessão. O pai custa a aceitar uma posição de
incapacidade financeira diante dos filhos, acostumado sempre a ser o provedor, evita
quaisquer cogitações que o faz retirar-se desta posição, desta inversão de papeis (DINIZ,
2013).
Percebe-se que o planejamento da sucessão familiar pode ocasionar em determinados
casos alguns conflitos entre os agentes envolvidos. Fetsch (1999) sugere algumas
recomendações para a negociação de tais conflitos: (i) planejar o processo com antecedência
(ii) compartilhar com a família a visão sobre a propriedade (iii) não presumir o que as pessoas
estão pensando, sentindo ou planejando (iv) respeitar a opinião de todos, elevando a
autoestima dos envolvidos (v) diminuir o trabalho da gestão, que normalmente é o pai,
realizado na propriedade, para, assim, aumentar o envolvimento do potencial sucessor nas
atividades práticas e administrativas da propriedade.
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2.2 Estratégias para a continuidade das atividades na agricultura familiar
De acordo com Krug (2013), em 1976, o Sistema Cooperativo do Rio Grande do Sul,
preocupado com a Agricultura Familiar e a sucessão familiar, criou a Cooperativa Central
Gaúcha de Leite-CCGL. A CCGL desenvolveu-se a partir de suas 13 cooperativas
fundadoras, criando um grande Departamento Técnico que oferecia um programa integrado
de Assistência Técnica, Extensão Rural e Amplo Plano de Ação para desenvolver os
produtores que já produziam leite e incorporou milhares de novos produtores na produção de
leite.
Incorporou-se um excelente planejamento estratégico, implantou-se um parque
industrial moderno e uma gestão estratégica altamente competitiva agregada ao marketing da
empresa. Todos estes programas foram desenvolvidos com uma estrutura institucional e
organizacional focada em agroindústrias. A despeito destes programas implantados pela
CCGL, Abramovay (1992) cita algumas dezenas de comissões municipais que tem sido
promissoras na elaboração de planos de desenvolvimento e projetos de investimento que
abrangem a educação no meio rural com vistas à implantação de pequenas agroindústrias e
melhores condições de infraestrutura.
Inclusive o estado de Rondônia vem implantando recentemente um número elevado de
agroindústrias incentivadas e apoiadas pelo governo estadual. Apesar de a tentativa ser
reconhecida como plausível e a intenção ser condizente, é indispensável avaliar os modelos de
implantação destas indústrias sob o aspecto gerencial. A própria CCGL desenvolveu
programas como o Programa Custo de Produção, uma das estratégias competitivas genéricas
de Porter (1989). Implantar, apenas, não se torna suficiente; uma estratégia de implantação de
agroindústrias não deve vir isolada de gestão.
Diniz (2013) argumenta que a sucessão não é o mesmo que herança. O sucessor assume
outras funções dentro da unidade de produção. O herdeiro apenas recebe os valores
patrimoniais (terra, rebanho, equipamentos, casa). Muitas vezes o sucessor é também o
herdeiro, mas o herdeiro apenas não pode exercer os dois papeis.
2.3 Experiências internacionais de sucessão geracional
A transferência da propriedade rural para a próxima geração ocupa um lugar de
importância central na determinação da estrutura das famílias rurais. O setor da agricultura
familiar depende muito da sucessão intergeracional. O processo sucessório e o evento da
aposentadoria estão intimamente ligados e interferem no negócio agrícola (MISHRA et al.,
2010). Em pesquisa realizada por Mishra et al. (2010), tais pesquisadores concluíram sobre as
variáveis que mais influenciam nas decisões de sucessão em propriedades rurais de
agricultores familiares nos Estados Unidos. Os resultados indicam a riqueza gerada a nível
endógeno e o tamanho da propriedade, agregadas à idade do agricultor, o nível de
escolaridade, a presença de trabalho não agrícola, a localização da propriedade rural, como
principais influenciadores para a existência de um plano de sucessão geracional.
A pluriatividade é estuda em uma pesquisa realizada na Grécia por Gidarakou et al.
(2004). A pesquisa deste autores possuía como objetivo analisar o papel da pluriatividade para
a continuidade intergeracional da agricultura familiar. Como metodologia utilizou-se um
questionário que visava identificar as tendências e diferenças entre agricultores pluriativos e
com dedicação exclusiva às atividades agrícolas. Gidarakou et al. (2004) concluíram que a
maioria das propriedades rurais da próxima geração das unidades de produção pesquisadas
estarão envolvidas na agricultura de uma forma pluriativa, enquanto que parte destas estão
executando atividade rurais, mas escolhendo sua residência permanente nos centros urbanos
próximos.
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A correlação entre a sucessão geracional e aposentadoria é estuda por Lobley et al.
(2010) a partir de comparações internacionais. Os autores constatam que o aumento da idade
dos agricultores e a da relutância em transferir a gestão da propriedade para a geração
sucessora tem sido bastante documentada em variados estudos. Baseando-se em dados do
projeto FarmTransfers internacional, os autores exploraram as atitudes em relação à
aposentadoria e também as taxas de sucessão em vários países cadastrados no banco de dados
do projeto. A seguir, tem-se uma tabela contendo todos os países com os respectivos anos que
iniciaram a composição do banco de dados FarmTransfers.
Tabela 1. Composição do banco de dados do FarmTransfers
Fonte: Lobley et al. (2010)
Os autores mencionados argumentam que estes dados possuem um valor inestimável
para embasar estudos que pretendam propor políticas públicas no sentido de propiciar a
sucessão intergeracional. Lobley et al. (2010) identificaram que as decisões financeiras são
mais propensas a serem tomadas pelo gestor diretor (o pai), sem quaisquer ajudas do sucessor
e que se os sucessores serão os responsáveis por alguma decisão, esta provavelmente
envolveria a gestão técnica da pecuária. Com algumas exceções tais tipos de decisões mais
comumente delegadas aos sucessores e aquelas não delegadas são semelhantes em todos os
países. A identificação de um sucessor pode demonstrar a existência de um plano de sucessão.
A depender da faixa etária em que os agricultores familiares identificam um sucessor, pode-se
verificar que existe variações entre os países analisados.
Gráfico 1. A associação entre a identificação de um sucessor e faixa etária do agricultor
Fonte: Lobley et al. (2010)
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Conclui-se com a pesquisa que a sucessão ocorrerá com mais intensidade à medida
que: i) exista um sucessor motivado para assumir as ‘rédeas’ do negócio; ii) identificação
precoce do sucessor e promoção de discussão sobre o tema com o sucessor para incluir a
elaboração de planos para entregar as rédeas do negócio; iii) redução das aparentes barreiras
de aposentadoria. Neste contexto, vislumbrar a agricultura como uma carreira é fundamental
para a promoção da motivação nos potenciais sucessores. Lobley et al. (2010) verificaram que
o ingresso em escolas e universidades agrícolas tem diminuído drasticamente nas últimas
décadas no Reino Unido. Na intenção de reverter esta situação, pode-se empregar esforços
para transmitir a mensagem de que a agricultura sustentável tem um papel fundamental a
desempenhar para o crescimento da população global, por meio da segurança alimentar
devido às pressões para redução das emissões de carbono e mudanças climáticas. Como
consequência destas necessidades, muitas oportunidades de carreira nesta área continuarão a
surgir. São mensagens a serem transmitidas por parte do governo, instituições de ensino e
organizações agrícolas.
Finalmente, Lobley et al. (2010), confirmam que as barreiras à aposentadoria pode
afetar a sucessão na agricultura familiar. Ao analisar o modo como a aposentadoria ocorre nos
diversos países nota-se esta relação. A falta de motivação para aposentar é produto de um
série de questões reais que podem estar associadas à visualização da agricultura como um
modo de vida, e que, portanto, não pede aposentadoria. Assim, se não há planejamento para a
aposentadoria, pode-se incorrer em regimes de pensões inadequados o que causa a
necessidade de uma contínua dependência do negócio agrícola. Então, orientações por meio
de cursos, palestras ou aconselhamento relativos à aposentadoria seria apropriado para
resolver estas questões.
3. PROCESSO METODOLÓGICO
Com o objetivo de estudar a sucessão familiar das propriedades leiteiras, Diniz et al.
(2013), Krug et al. (2013), Fetsch (1999), Durhan (1978), Spanevello (2011), Fennell (1981)
e Gidarakou et al. (1999) procedem a observações da dimensão idade e perda da força física
para executar os trabalhos da propriedade rural, bem como a dimensão falta de incentivo e
desestímulo dos filhos para prosseguirem na agricultura familiar. Os autores elencam uma
série de variáveis que levam os jovens a migrarem para os centros urbanos. Nesta perspectiva,
estes autores compuseram os aspectos teóricos-base deste estudo.
Analisando os objetivos propostos nesta pesquisa e rememorando que não se trata de
replicação de trabalhos desenvolvidos por Diniz et al. (2013), Krug et al. (2013), Fetsch
(1999), Durhan (1978), Spanevello (2011), Fennell (1981) e Gidarakou et al. (1999) a
dimensão sucessão rural foi incluída como sendo uma estratégia de gestão de pessoas na
agricultura familiar. Além de visualizar a possibilidade de implantação de projetos em
agroindústrias descrita por Mior (2005) como possíveis estratégias para garantir a
permanência dos filhos na propriedade rural. De Abramovay (1992), extraiu-se o conceito de
‘agricultura familiar’, a fim de gerar uma padronização da nomenclatura utilizada.
Considerando o objetivo geral estabelecido para a presente investigação, qual seja,
discutir as dinâmicas presentes na temática da sucessão no espaço rural, utiliza-se também de
dados secundários do banco de dados do Centro de Estudos Interdisciplinar para o
Desenvolvimento Sustentável da Amazônia-CEDSA. Os dados secundários mencionados são
relativos à produção e sucessão na agricultura familiar. A figura 1 é um esquema da proposta
do estudo.
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O enfoque do estudo que conecta as teorias abordadas aos dados da pesquisa é, em um
primeiro momento, essencialmente qualitativo e quantitativo, tendo em vista o aspecto
conceitual e o tratamento estatístico dos dados ao buscar a compreensão dos significados e
situações inerentes à sucessão geracional na agricultura familiar.
Os dados secundários utilizados referem-se ao ano produtivo de 2008, coletados em
2009, inseridos por meio do software Sphinx. Tais dados foram coletados a partir de um
resultado parcial do projeto de assessoria em propriedades rurais para a SUFRAMASuperintendência da Zona Franca de Manaus que apoia o arranjo produtivo local do leite no
estado de Rondônia. O resultado deste projeto foi a composição de um banco de dados no
grupo de pesquisas CEDSA.
3.1 Descrição dos dados
Determinadas ações governamentais no estado de Rondônia, como o programa Balde
Cheio, entre outros, tem como objetivos a melhoria da qualificação e da produtividade de leite
no Estado. Em uma destas ações, viabilizada pela Superintendência da Zona Franca de
Manaus-SUFRAMA, o governo financiou centenas de tanques de resfriamento de leite para
23 municípios. A distribuição foi destinada para associações de agricultores familiares em
condições financeiras insuficientes para se adaptarem às normas da Instrução Normativa 51
no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento-MAPA. Neste contexto, cada tanque
passou a ser utilizado por um número que variava entre 4 e 9 associados.
A consequência foi o posicionamento do Estado de Rondônia como um importante
produtor de leite, sendo o maior produtor da região norte brasileira. Assim, em 2008, o grupo
de pesquisas CEDSA firma contrato com a SUFRAMA no intuito de realizar um
acompanhamento nestas propriedades que receberam os tanques. As unidades de produção
entrevistadas totalizaram, então, 485 agricultores familiares que compuseram os dados
armazenados na base de dados do CEDSA. A presente investigação utilizou este universo de
pesquisa, ou seja, as análises deste estudo são baseadas em 485 agricultores familiares. O
gráfico 2 contém informações referentes à idade destes produtores.
Gráfico 2. Idade dos gestores rurais entrevistados
Fonte: elaboração dos autores
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Das variáveis em análise, três são de importância fundamental para a comprovação das
hipóteses deste estudo: sucessão geracional, gestão da fazenda e principais problemas da
produção. A variável ‘Sucessão geracional’ está estruturada em valores numéricos com o
intuito de denominação com a finalidade de facilitar as análises. Neste caso 0 corresponde a
‘não especificado’, 1 ‘Filhos Continuarão com o gado de leite’, 2 ‘Filhos deixarão o meio
rural’, 3 ‘Filhos trocarão de atividade rural’, 4 ‘Não tem filhos’ e 5 ‘Vender a propriedade’.
Em relação à variável ‘gestão da fazenda’ os valores também estão organizados
numericamente, podendo assumir os seguintes valores: 0 ‘Não especificado’; 1
‘Administrador contratado’; 2 ‘Administrador e proprietário’; 3 ‘Apenas o proprietário’; e 4
‘O proprietário e a família’.
E enfim, a variável ‘principais problemas na produção’ diz respeito a citações dos
próprios entrevistados, tratando-se, então, de questões abertas.
Na tabela 2 tem-se a localização geográfica dos entrevistados.
Tabela 2. Espaço geográfico dos entrevistados
Fonte: elaboração dos autores.
O gráfico 1 denota a localização geográfica dos municípios em que a presente
investigação baseou-se para realizar as análises. Então, os dados analisados pertencem a tais
cidades do estado de Rondônia. Uma característica desta localização é a alta dispersão das
localidades analisadas, pois as informações, ao analisar-se a nível macro, estão disseminadas
no território rondoniense não se concentrando em região alguma.
Gráfico 1. Localização geográfica no estado de Rondônia
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Fonte: Laboratório Cartográfico de Geografia da Universidade Federal de Rondônia
Ao analisar-se a tabela 2 nota-se que o município de Rolim de Moura é o que
apresenta o maior número de agricultores familiares entrevistados. Neste sentido, Rodrigues
et al. (2011) realiza uma pesquisa com produtores rurais desta localidade na intenção de
avaliar a eficiência de tais produtores de leite utilizando a Análise Envoltória de Dados. A
pesquisa demonstra que a participação familiar na administração da propriedade influencia
positivamente no nível de eficiência das unidades de produção.
3.2 Método
Na intenção de atingir ao objetivo de pesquisa foi utilizada a técnica de estatística
descritiva e análise qualitativa da variável referente aos principais problemas de produção na
visão dos gestores rurais envolvidos no processo produtivo, por meio dos softwares
IBM/Statistical Package for The Social Sciences-SPSS versão 20 e o ATLAS.ti 6,
respectivamente. O ATLAS.ti 6 auxiliou na análise qualitativa de tais problemas sobretudo
devido à complexidade de análise em decorrência do volume de itens citados como
dificuldades para produzir.
Para tornar a leitura das citações dos gestores rurais entrevistados possível as diversas
falas dos produtores foram agrupadas em conceitos, ou seja, inseriu-se em agrupamentos de
termos as falas que tivessem o mesmo sentido. Basicamente, esta foi a utilidade do software
ATLAS.ti 6 para esta pesquisa.
A técnica da estatística descritiva foi adotada para: i) identificar a correlação entre as
variáveis “Sucessão geracional” e “Gestão da fazenda”; ii) facilitar a leitura das variáveis de
estudo; iii) confirmar ou negar as hipóteses de estudo:
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H1: a centralização da administração da propriedade na figura do gestor agricultor
familiar influencia na sucessão geracional.
H2: os gestores agrícolas familiares adiam o planejamento da sucessão.
3.4 Estratégia de análise
Para a análise e construção dos resultados, adotou-se os seguinte procedimentos:

Tabela de referência cruzada da estatística descritiva;

Análise qualitativa da variável ‘principais problemas de produção’;

Disposição dos dados em gráficos e tabelas.
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
Na dinâmica da sucessão familiar há o problema da fragmentação do patrimônio
familiar quando se processa a divisão do mesmo entre os descendentes. As terras, um
elemento do ativo do patrimônio familiar, ao serem divididas entre os filhos se tornam, em
algumas vezes, reduzidas e incapazes de garantir o sustento dos descendentes que quiserem
permanecer nelas. Torna-se, então, viável discutir tecnologias que ofereçam a sobrevivência e
a qualidade de vida destas pessoas em terras menores em termos de extensão.
Outro desafio a ser superado pelo setor é o da capacitação no âmbito gerencial destes
atores econômicos. Nesta perspectiva, poderão procurar alternativas de implantação de
práticas observadas e aprendidas com os produtores benchmarking. Com isto, os agricultores
familiares estarão repensando a sua posição dentro da cadeia produtiva e adquirindo
instrumentos para auxiliá-los na elaboração de políticas de gestão.
Com as alterações percebidas no contexto urbano agregadas à diversidade dos meios de
comunicação cujas consequências foram a propagação rápida da informação, os jovens
sentem cada vez mais necessidade de aproveitarem os benefícios que estas alterações
ocasionaram. Assim, permanecer no meio rural, onde usufruir destes benefícios torna-se
difícil, senão impossível, não é atrativo para os jovens.
Além disto, segundo estudos teóricos, os seguintes fatores são responsáveis pelo êxodo
juvenil do meio rural: falta de reconhecimento da família; falta de autonomia para inovação;
falta de renda; falta de acesso a novas terras; falta de políticas públicas no meio rural, escolas
e universidades. Diante desta problemática, algumas instituições começam a criar/desenvolver
políticas de gestão visando ao menos amenizar os desafios enfrentados pelo ambiente rural. A
título de exemplificação, nota-se no gráfico 3 a intenção dos agricultores familiares do
município de Colorado d’Oeste, Estado de Rondônia, quanto à continuidade da atividade
leiteira, ou seja, a sucessão da propriedade rural.
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Gráfico 3 Percepção do agricultor familiar quanto à sucessão de suas atividades, Colorado
d’Oeste.
Fonte: Centro de Estudos Interdisciplinar para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia-CEDSA.
A intensão dos pais agricultores, na maioria dos casos, é entregar a propriedade rural
para os filhos darem continuidade. Entretanto, a realidade denota que os jovens não possuem
a mesma proposição dos pais. No município de Cacoal, em Rondônia, a percepção do gestor
rural é bastante semelhante à destes gestores representados no gráfico 3. Observe no gráfico 4
que a maior parte destes produtores ou não possuem filhos ou, aqueles que possuem, desejam
ver a sucessão de seus negócios acontecerem
Gráfico 4. Percepção do agricultor familiar quanto à sucessão de suas atividades, Cacoal.
Fonte: Centro de Estudos Interdisciplinar para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia-CEDSA.
É possível notar certa tendência à continuidade das atividades, pois apenas 4,6% dos
produtores desejam vender a propriedade. Observa-se ainda que 6,2% pretendem que os filhos
mudem de atividade rural, mas permaneçam na propriedade. Neste caso, percebe-se que o
gestor permitiria que os filhos praticassem a pluriatividade, ainda que envolvessem atividades
no ambiente urbano. É possível notar a partir da tabela 3 a pretensão de tais gestores
correlacionando-a com a centralização das decisões.
Tabela 3. Centralização das decisões e a sucessão geracional
Fonte: elaboração própria a partir do banco de dados do CEDSA.
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A gestão da unidade familiar centralizada na figura do pai pode influenciar a sucessão
geracional. Se não houver o envolvimento dos candidatos à sucessão na administração da
propriedade raramente tais filhos assumirão o comando da propriedade. Dos agricultores
familiares entrevistados, 197 se encarregam de realizar a gestão sem a participação da família.
A falta deste envolvimento afasta os filhos do ambiente de negócios da família e este é um
dos motivos pelos quais a juventude tem preferido seguir caminho diverso, buscando meios
alternativos de satisfação de suas necessidades. Em contrapartida, 107 agricultores
mencionam o seu desejo de ver os filhos darem prosseguimento aos seus negócios. Esta
dicotomia entre pretender a sucessão e a simultânea centralização das decisões evidencia a
falta de preparo do gestor para lidar com o tema. Se o proprietário deseja experimentar a
sucessão geracional, o envolvimento do candidato à sucessão na administração da propriedade
rural torna-se primordial.
A sucessão geracional tem sido apontada como um limitante da produção dos gestores
agrícolas familiares. Na figura 1 é possível observar que tais gestores apontam o problema da
mão-de-obra como um limitador da continuidade das atividades ao citar a sucessão geracional
como sendo uma dificuldade da produção.
Ao lado do problema da sucessão há uma série de outras dificuldades apontadas, como a
qualidade do rebanho bovino, os custos da produção, a infraestrutura, a exigência da atividade
e a baixa produtividade, entre outras. Ao mencionar a baixa produtividade a pretensão dos
gestores entrevistados é citar os lucros reduzidos. Verifica-se que além desta reduzida
rentabilidade há ainda a exigência da atividade rural. Este contexto aponta um paradoxo entre
tais problemas, pois mesmo a produção apresentando exigências, não é rentável. A
observação de um ambiente com tais características leva a inferir que os filhos, possíveis
candidatos à sucessão, não pretendem atuar nesta área.
Figura 1. Dificuldades na produção de agricultores familiares da Amazônia Ocidental
Fonte: elaboração dos autores.
O elevado custo para produzir (gastos com insumos, manutenção da propriedade,
aquisição de ativos) é outro limitante. A reduzida rentabilidade pode estar associada aos
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elevados custos de produção. Nota-se que esta dificuldade é citada 103 vezes pelos gestores
entrevistados. O confronto entre estas duas dificuldades apontadas leva a um questionamento:
qual a vantagem competitiva destes atores econômicos em um contexto de diversos problemas
produtivos? Seria o fato de não saberem praticar outra atividade, de acordo com respostas dos
próprios entrevistados? A dúvida intensifica-se ao considerar a baixa produtividade e todas as
demais dificuldades como determinantes deste reduzido lucro.
Conforme apontado na tabela 3, exatamente 149 gestores rurais não desejam ver seus
filhos desenvolvendo esta atividade produtiva. A causa deste desejo pode estar relacionada ao
ambiente de dificuldades citado por estes produtores. Ressalta-se a impossibilidade de
afirmação desta relação, contudo, acredita-se que estejam correlacionadas em virtude da
afinidade de sentimento presente na produção de leite estudada, em decorrência do fato de ser
um ambiente familiar e simultaneamente econômico em que ambos os desejos e
possibilidades se misturam para compor um todo socioeconômicos.
De modo geral, a sucessão, tão necessária para garantir a continuidade da propriedade
rural e diminuir os problemas ocasionados pelo êxodo rural nas grandes cidades precisa ser
observada a partir de algumas estratégias associadas à melhoria da eficiência das
propriedades, fazendo-as mais atrativas para os jovens, por meio de melhoria de resultados
econômicos e da redução de trabalho. As estratégias de caráter político também são viáveis,
como por exemplo, as políticas públicas de acesso ao crédito e a consolidação de uma política
de educação gerencial para a gestão destes recursos. Portanto, a sucessão geracional constitui
um processo de ganhos e perdas. Cabe aos membros familiares aprenderem a lidar com estes
conflitos.
5. Considerações finais
As atividades exercidas pelos gestores rurais estudados nesta pesquisa serão sucedidas
pelos filhos, caso o desejo destes seja considerado. Isto porque a continuidade de seus
negócios foi apontada como desejável por estes atores. Contudo, por outro lado, ao estudar a
literatura do assunto, nota-se que os filhos, por algum motivo, não desejam permanecer em
tais atividades. Neste caso, a continuidade das atividades destes agentes econômicos fica
comprometida, visto que os filhos são a principal mão-de-obra dos gestores rurais.
Neste sentido, a sucessão familiar pode ser encarada como uma eficiente estratégia
para a geração de mão-de-obra para a agricultura familiar. Entretanto, alguns ajustes
necessitam ser feitos neste contexto, uma vez que nas condições atuais torna-se menos
provável a adesão dos filhos. Em um primeiro momento, o pai precisa ser visto como um
dirigente aberto ao novo, pois a falta de espaço para inovar se constitui em um dos
impedimentos cruciais para os filhos não desejarem permanecer no meio rural.
Simultaneamente, o modo como a produção é atualmente praticada nas propriedades
leiteiras torna o trabalho muito árduo para os filhos. O investimento em tecnologia, a
praticidade de controle de custo mais eficientes pode contribuir para a redução deste impasse.
Paralelamente a estas estratégias, a prática de programas como os desenvolvidos pela
Cooperativa Central Gaúcha de Leite, no Estado do Rio Grande do Sul, evidencia o
planejamento estratégico das propriedades tão necessário para a aferição de resultados
econômicos mais satisfatórios. Como consequência, a sucessão geracional se torna mais
viável com atitudes desta natureza.
O estudo explicitou ainda algumas dúvidas, entre as quais, o nível sucessório em que
as unidades de produção em estudo se encontram. Ao analisar o contexto histórico do estado
ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE GESTÃO EMPRESARIAL E MEIO AMBIENTE
de Rondônia, deduz-se que determinadas propriedades ainda permanecem na primeira
geração, pois a colonização do Estado inicia-se com forte ênfase na agricultura a partir da
década de 70, ou seja, aproximadamente 40 anos. Nota-se ainda, que determinados gestores
são nascidos em Rondônia, fato que faz acreditar que pertencem à segunda geração. E que
sucessores da terceira geração ainda não surgiram. Contudo, pesquisas posteriores poderão ser
realizadas neste sentido.
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ENCONTRO INTERNACIONAL SOBRE GESTÃO EMPRESARIAL E MEIO AMBIENTE
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