Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 DETERMINAÇÃO DO TEOR DE ÁCIDO ASCÓRBICO EM SUCOS DE
LARANJA (Citrus sinensis) CONVENCIONAIS E ORGÂNICOS
MARINHO, Priscila S.1; BELLO, Teresa R. M.1; MASSON, Lourdes Maria
Pessoa1; AZEREDO, Denise Rosana Perdomo1
1
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro- IFRJ, Campus
Rio de Janeiro. Rua Senador Furtado, 121/125 Maracanã, 20.270-021, Rio de Janeiro –
RJ, Brasil.
E-mail: [email protected]
Resumo: O presente trabalho teve por objetivo avaliar os teores de ácido ascórbico ou
vitamina C em sucos de laranja convencional e orgânico, expostos à comercialização
durante o período de junho/julho de 2010 na cidade do Rio de Janeiro. Foram adquiridas
no comércio local 10 amostras de suco de laranja, sendo cinco amostras convencionais e
as restantes de origem orgânica. As amostras foram analisadas pelo Método de
Tillmans. Os resultados não demonstraram diferença significativa no teor de ácido
ascórbico entre os sucos de laranja avaliados.
Palavras chave: suco de laranja, suco de laranja orgânico, ácido ascórbico.
DETERMINATION OF ASCORBIC ACID CONTENT IN CONVENTIONAL
AND ORGANIC ORANGE (Citrus sinensis) JUICE
Abstract: The objective of this work was to evaluate the contents of ascorbic acid or
vitamin C in orange juices exposed to the commercialization during the period of
June/July of 2010 in the city of Rio de Janeiro. Ten samples had been acquired in the
local commerce, being five from conventional orange juice and the others from organic
source. The samples were analyzed by Tillmans method. The results demonstrated that
there was no significant difference in the amount of ascorbic acid between the analyzed
juices.
Keywords: organic orange juice; convencional orange juice; ascorbic acid.
1. INTRODUÇÃO
O Brasil é o maior exportador mundial de suco de laranja concentrado e
congelado. De acordo com a Instrução Normativa nº 1, de 7 de Janeiro de 2000 do
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, suco de laranja é a bebida não
fermentada e não diluída, obtida da parte comestível da laranja (Citrus sinensis), através
de processo tecnológico adequado.
A demanda por produtos oriundos da agricultura orgânica tem aumentado em
todo mundo, em função dos consumidores, que cada vez mais buscam adquirir produtos
saudáveis (BRASIL, 2003). O Decreto nº 6323, de 27 de Dezembro de 2007 do
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento define como sistema orgânico de
produção agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas, mediante a
otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à
integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade
econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da
dependência de energia não-renovável, empregando, sempre que possível, métodos
culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a
61 Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em
qualquer fase do processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e
comercialização, e a proteção do meio ambiente.
Devido ao substancial aumento do interesse do consumidor pelos alimentos
orgânicos, existe a necessidade de conhecer o alcance das bases científicas para as
alegações de superioridade atribuídas aos produtos orgânicos (BORGUINI & TORRES,
2006).
Há quem questione as vantagens nutricionais dos alimentos orgânicos porque,
em termos de macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras), praticamente não há
diferenças entre eles e os convencionais. No entanto, há estudos que comprovam que,
como os vegetais cultivados sem agrotóxicos desenvolvem mais defesas naturais, os
orgânicos possuem mais micronutrientes (minerais, vitaminas, fitonutrientes e
antioxidantes), sintetizados como defesa natural contra os insetos e plantas competitivas
(AFFONSO & SONATI, 2005).
Os fatores químicos e físicos que influenciam na qualidade do suco de laranja,
normalmente são as reações de oxidação, responsáveis por perdas de vitamina C e dos
compostos de aroma e sabor do suco, alterando sensivelmente as características
sensoriais e nutricionais do produto. Essas reações oxidativas dependem das condições
do processamento utilizadas, tratamento térmico, presença de oxigênio, embalagem
utilizada e relação do tempo e temperatura de estocagem (LIMA et al., 2007)
Em sucos não processados pode ocorrer degradação do ácido ascórbico pela
oxidação enzimática. Em condições aeróbicas, o ácido ascórbico é transformado em
ácido deidroascórbico que passa a ácido 2,3-dicetogulônico produzindo, finalmente,
hidroxifurfural. O hidroximetilfufural (HMF) também é produzido, e pode ser originado
da reação de degradação do ácido ascórbico e/ou de açúcares com aminoácidos, levando
à formação de compostos escuros que são responsáveis pelo escurecimento do suco,
também denominado browning (TEIXEIRA & MONTEIRO, 2006).
Em condições anaeróbicas, o ácido ascórbico decompõe-se em ácido 2,5dihidro-2-furanóico que passa a dióxido de carbono e furfural. O furfural sofre
polimerização como um aldeído ativo e pode se combinar com aminoácidos,
contribuindo, também, para o escurecimento do suco (TEIXEIRA & MONTEIRO,
2006).
Em sucos estocados em embalagens hermeticamente fechadas, a perda de
vitamina C ao longo da vida de prateleira ocorre, principalmente, por via anaeróbica
(TEIXEIRA & MONTEIRO, 2006).
Com base no exposto, o objetivo do presente estudo foi comparar o teor de ácido
ascórbico em sucos de laranja oriundos de cultivo convencional e orgânico.
2. MATERIAL E MÉTODOS
As análises foram realizadas no laboratório de química de alimentos do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro.
O total de dez amostras foi adquirido em supermercados na cidade do Rio de
Janeiro, no período de Junho a Julho de 2010, cinco eram oriundas da agricultura
orgânica, sendo que uma foi obtida em laboratório através da extração do suco da
laranja orgânica e cinco eram provenientes de cultivo convencional, compostas por
marcas tradicionais. Para melhor caracterizar o grupo de amostras, cabe acrescentar que
estavam entre os dias 16 de agosto de 2010 e 12 de dezembro de 2010, do prazo de
validade. As embalagens das amostras de suco convencionais eram cartonadas
assépticas, já as de procedência orgânica, três eram de vidro e somente uma em
embalagem cartonada asséptica.
62 Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 No recebimento das amostras no laboratório, as mesmas foram codificadas como
A, B, C, D, E, F, G, H, I, e J. Onde A, B, C, D, E são amostras de sucos convencionais e
F, G, H, I e J amostras de sucos orgânicos. As embalagens das amostras dos sucos
convencionais A, D e E traziam no rótulo o percentual de vitamina C, o mesmo ocorreu
com as embalagens dos sucos orgânicos F e H.
A determinação do teor de vitamina C nas amostras foi realizada de acordo com
a metodologia preconizada por Tillmans. Este método baseia-se na redução do corante
sal sódico de 2,6 diclorofenol indofenol por uma solução ácida de vitamina C (IAL,
2010). A metodologia foi adaptada, havendo a substituição do ácido metafosfórico pelo
ácido oxálico. Todos os reagentes utilizados foram de grau analítico.
2.1 Determinação do teor de vitamina C
As amostras foram homogeneizadas e filtradas com o auxílio de papel de filtro.
O filtrado foi recolhido em balão volumétrico de 25mL, que foi posteriormente
transferido para um balão volumétrico de 100mL e o volume completado com solução
de ácido oxálico a 1%. Posteriormente, quatro alíquotas de 10mL foram dispensadas em
erlenmeyers, acrescentando-se 50mL de água destilada em cada um, para diluição e
melhor visualização do ponto de viragem. Titulou-se com solução ácida de Tillmans até
a observação do ponto de viragem caracterizado pela permanência da cor rósea por pelo
menos 30 segundos. As amostras foram realizadas em quadruplicata. Os resultados
foram expressos em mg de vitamina C por 100mL de amostra.
2.2 Análise estatística
Calculou-se o coeficiente de correlação, realizou-se o teste de médias (Teste T
de student) com nível de significância de 5% para avaliar diferenças significativas entre
as amostras, utilizando-se o programa Bioestat 5.0.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Ao apresentar um resultado, não usar citação. Fazer isto só na discussão do
mesmo. Deixar claro no texto o que é resultado obtido e aquele que pertence à literatura,
que está sendo usado na discussão.
Citar tabelas, gráficos e figuras nos resultados. Todos devem ser inseridos no
corpo do texto, posicionada imediatamente após a primeira citação, seguida de seu
número de ordem de ocorrência no texto, em algarismos arábicos (Figura 1; Tabela 1,
etc). Títulos de imagens (fotos), tabelas e quadros são na parte superior dos mesmos
enquanto títulos de figuras e gráficos são na parte inferior. Devem ser autoexplicativos
contendo as informações essenciais. As Figuras sem bordas, as legendas (notas
explicativas) devem ser inseridas na parte inferior, alinhadas à esquerda. Se for o caso,
deve ter as abreviações usadas, em ordem alfabética, cada uma seguida de traço, espaço
e o significado (vide exemplo Figura 1, Tabela 1). Escolher uma só forma de
apresentação para os resultados.
Das 10 amostras analisadas, somente 9 foram consideradas na avaliação
estatística. Os resultados obtidos por ANOVA, mediante o teste do modelo da soma dos
quadrados devido à variação total (RODRIGUES & IEMMA, 2005) dos valores de
regressão linear simples (R) e ajustado (R2) para os teores de ácido ascórbico das
amostras analisadas pelo método de Tillmans foram, respectivamente, iguais a 0,99381
e 0,98395, considerando-se, assim, confiáveis os resultados experimentais obtidos. Os
valores das médias e desvio padrão das amostras avaliadas encontram-se na tabela 1.
63 Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 Tabela 1 - Média e desvio padrão dos teores de ácido ascórbico em mg/100mL
referentes as amostras de suco de laranja convencional e orgânico.
Marca do suco de laranja
Média e desvio padrão dos teores de
ácido ascórbico em mg/100mL
Convencional
A
31,18 (0,67)
B
23,58 (0,88)
C
30,74 (0,67)
D
20,44 (0,21)
E
24,53 (0,41)
Orgânico
F
H
I
J
30,88 (0,57)
33,80 (1,91)
32,12 (0,21)
21,61 (1,03)
Na avaliação estatística, o teste T de student foi aplicado para verificar a
diferença estatística entre as médias obtidas. De acordo com o teste T, ao nível de
significância de 5%, as amostras não diferem significativamente entre si.
Os resultados obtidos corroboram os obtidos nas pesquisas conduzidas na
América do Norte pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Segundo o
USDA, não foi encontrada nenhuma evidência clara de que plantas cultivadas
organicamente são superiores nutricionalmente às cultivadas no sistema convencional
(DAROLT, 2006).
Estudos que compararam alimentos produzidos por meio do sistema de cultivo
orgânico e convencional foram avaliados por Bourn & Prescott (2002) sob três
diferentes aspectos: valor nutricional, qualidade sensorial e segurança do alimento. Os
autores afirmaram que existe reduzido número de estudos bem controlados, que sejam
capazes de viabilizar uma comparação válida. Com possível exceção ao conteúdo de
nitratos, os autores não verificaram fortes evidências de que alimentos orgânicos e
convencionais diferissem quanto ao teor de nutrientes (BORGUINI & TORRES, 2006).
Outros autores compararam o conteúdo de ácido ascórbico de tomates cultivados
com substrato orgânico aos tomates cultivados hidroponicamente e registraram um
conteúdo maior de ácido ascórbico para os frutos produzidos mediante utilização de
composto orgânico (BORGUINI & TORRES, 2006).
Do ponto de vista de adequação à legislação, três amostras de origem
convencional e uma de origem orgânica se encontram abaixo do valor preconizado pelo
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para vitamina C em sucos de
laranja que é de 25mg/100mL, como mostra a Figura 1 (BRASIL, 2000).
Do ponto de vista nutricional, os resultados obtidos, nos indicam que as
amostras testadas suprem, em média, mais de 100% a ingestão diária de vitamina C.
Segundo o DRI (Dietary Reference Intakes) 2002, a necessidade diária desta vitamina é
de 90mg indivíduos do sexo masculino com faixa etária entre 19 a 70 anos. Para o sexo
feminino, na mesma faixa etária, a necessidade diária de vitamina C é de 75 mg
(USDA, 2010), o que corresponde a 250mL de suco de laranja para homens
(aproximadamente 2 copos) e 200mL para mulheres (1 copo).
64 Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 Teor de Vitamina C (mg/100mL)
40
35
30
25
20
15
10
5
0
A
B
C
Amostras
D
E
F
H
I
J
Teor determinado pela Legislação
Figura 1 - Comparação entre o percentual de Vitamina C das amostras analisadas com
o percentual determinado pela legislação em vigor.
4. CONCLUSÕES
Comparando-se os resultados obtidos dos teores de ácido ascórbico nas diversas
amostras de suco de laranja observou-se que não houve diferença significativa entre as
marcas de sucos orgânicos e convencionais avaliadas.
O método de Tillmans mostrou-se adequado para avaliação do teor de ácido
ascórbico em sucos, entretanto sugere-se o uso de outras metodologias, como a
cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) para uma melhor avaliação.
Três amostras de origem convencional e uma amostra de origem orgânica
apresentaram teores abaixo do preconizado pela legislação para vitamina C.
Do ponto de vista nutricional, as amostras suprem o percentual recomendado
para vitamina C.
Sugere-se que outras pesquisas sejam conduzidas utilizando-se um número
maior de amostras. Entretanto, ressalta-se que um fator limitante é o pequeno número de
produtos de origem orgânica à disposição nos pontos de venda.
6. REFERÊNCIAS
AFFONSO, C.V.; SONATI, J.G. Alimentos do futuro: orgânicos, funcionais e
transgênicos. Disponível em: http://www.lifecompany.com.br/artigos/4.pdf. Acesso
em: 18 de ago.2010.
BORGUINI, R.G.; TORRES, E.A.F.S. Alimentos orgânicos: qualidade nutritiva e
segurança do alimento. Segurança alimentar e nutricional, Campinas, 13(2): 64-75,
2006.
BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO.
Decreto Nº 6.323, de 27 de dezembro de 2007. Regulamenta a Lei nº 10.831, de 23 de
dezembro de 2003, que dispõe sobre a agricultura orgânica, e dá outras providências.
Brasília:
Disponível
em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20072010/2007/Decreto/D6323.htm Acesso em: 29 de out.2010.
65 Journal of Fruits and Vegetables, v. 1, n. 1, p. 61-­‐66, 2015 _________________________________. Instrução Normativa nº 1 de 7 de janeiro de
2000. Aprova regulamento técnico geral para a fixação dos padrões de identidade e
qualidade para polpa de frutas. Diário Oficial da República Federativa do Brasil,
Brasília, 10 de janeiro de 2000.
_________________________________.. Lei n. 10.831 de 23 de dezembro de 2003.
Dispõe sobre a agricultura orgânica e dá outras providências. Diário Oficial da
República Federativa do Brasil, Brasília, 23 de dezembro de 2003.
DAROLT, M. R. A qualidade nutricional do alimento orgânico é superior ao
convencional? 2006. Disponível em: http://www.planetaorganico.com.br/trabdarnut1.
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INSTITUTO ADOLFO LUTZ. Métodos físico-químicos para análise de alimentos.
Disponível em: http://www.ial.sp.gov.br/index.php. Acesso em: 29 de out.2010.
LIMA, E.S.; SILVA, E.G.; NETO, J.M.M.; MOITA, G. C. Redução de vitamina c em
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RODRIGUES, M. I.; IEMMA, A. F., 2005. Planejamento de experimentos e
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