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ARTIGO E ENSAIO CIENTÍFICOS: DOIS LADOS DA MESMA MOEDA?
Elke Beatriz Felix Pena1
Na apresentação da revista Gragoatá2, as organizadoras dizem:
A proposta deste número 10 da Revista Gragoatá consistiu em reunir artigos de
especialistas brasileiros (...). (p. 05)
Na página seguinte, apresenta os textos da revista como ensaios:
Assim, pela ordem em que aparecem na Revista, encontram-se os ensaios de:”(p. 06)
No entanto, em meio a todos os ensaios apresentados, há um texto classificado pelas próprias
organizadoras e pela autora como artigo, que aparece sem nenhuma apresentação à parte, e, logo após,
são listados outros ensaios do volume. Os dois gêneros aparecem em uma mesma listagem encabeçada
com o enunciado ‘ensaio’.
Um outro exemplo aparece na Revista Em Tese3 . Na apresentação, o editor explica:
Este volume de Em Tese traz artigos referentes às teses de dissertações produzidas
pelos mestres e doutores do Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários (...) (p.
05)
Na página 10, temos o título ‘ensaio’, abrindo caminho para os dez textos que compõem a
revista.
Em outra publicação, Estudos Feministas4, encontramos na seção de ensaios o texto “8 de
março: conquistas e controvérsias” em que sua autora, já no resumo, diz:
Neste artigo procuro recuperar a história do dia 8 de março e as distorções que têm sido
feitas sobre ele e sobre a luta feminista.” (BLAY, 2001, p. 601)
Na Revista do NAD5, entitulada “Ensaios em Análise do Discurso”, temos nas páginas 125 e
153 textos em que seus autores iniciam assim, respectivamente:
Neste artigo, concluído no ano que marca o centenário da morte de Zola, nosso
objetivo é discutir aspectos interdiscursivos e intradiscursivos de Germinal (FARIA, 2002,
p. 125)
Pretendo pontuar nesse artigo alguns aspectos da diferença entre as tipologias dos atos
de fala propostas por Searle e por Habermas. (VIEIRA, 2002, p. 153)
Neste pequeno exemplar, podemos perceber como dois gêneros tão usados no meio científico
têm uma difícil classificação pelos autores dos textos.
1
2
MESTRANDA EM Estudos Lingüísticos - UFMG
Revista Gragoatá, Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras-UFF, n.10, 1º semestre 2001, p. 1-216.
3
Em Tese – Pos-Lit-UFMG, Ano 3, vol.3, dez, 1999, p.1-104.
4
Estudo Feminista – Ciências Sociais – UFF, v. 9, n.3, 2001. p.349-648.
5
Revista do NAD – Pos-Lin – UFMG, Belo Horizonte: FALE, 2002. p.1-328.
2
Neste artigo, pretendemos pontuar algumas questões relacionadas a esses dois gêneros: suas
definições vigentes na literatura da área, a prática desta produção em periódicos científicos e a questão
da designação dos gêneros.
Segundo Rastier (1998), um gênero textual é constituído pelo seu corpus, que seria a reunião
de textos que apresentam historicamente uma normatividade em sua produção, criando, assim, uma
memória discursiva deste gênero. Todas as vezes que um texto deste gênero for produzido, esta
memória será ‘acessada’ para a formulação do mesmo.
Para este autor, um texto é reconhecido a partir de outros textos pertencentes ao mesmo
corpus.O conceito de gênero relaciona-se àuilo que a Análise do Discurso fancesa denomina de
interdiscurso.
l’unité linguistique fondamentale (tant empirique que théorique) n’est pás lês signe, ni
même la phrase, mais le texte (oral fixé ou écrit), dont l’analyse commande l’accès aux
unités de rang inférieur. Cependant, l’unité supérieure est le corpus. Comme il dépend
évidemment de point de vue qui a preside à son recueil, la déontologie de as constitution
conditionne la validité de l’analyse linguistique. Les méthodes contrastives de la linguitique
de corpus permettent l’etude des normes sémantiques particulières aux differents discours,
et complémentairement la contextualisation opérée par la sélection du corpus permet
l’iterprétation caractérisante, impossible sur le texte isolé” (RASTIER, 1998, p. 107)6
Ao observarmos o corpus dos dois gêneros do nosso interesse, artigo e ensaio científicos,
encontramos estas regularidades propostas por Rastier (1998). Mas, em relação a estes gêneros, estas
regularidades, em alguns casos, são parte dos dois corpus, ou seja, além de uma regularidade ‘vertical’
(entre os textos do mesmo corpus: corpus artigo / corpus ensaio), encontramos regularidades
‘horizontais’ (entre os textos dos dois corpus: artigo e ensaio). O que possibilita a tomada de um pelo
outro em várias publicações.
Antes de apresentarmos alguns resultados desta investigação, gostaríamos de deixar claro que
esta pesquisa foi feita utilizando 20 textos que traziam explicitamente, no resumo ou no texto
expandido, a classificação do gênero a que pertenciam. A classificação feita pelos autores dos textos
foi respeitada, uma vez que era do nosso interesse analisar essas designações de acordo com suas
ocorrências reais.
Além das publicações, trabalhamos com definições dos dois gêneros retiradas de manuais de
redação e pesquisa e de trabalhos científicos sobre o tema. Também fizeram parte da nossa análise as
normas de publicações dos periódicos de onde retiramos os textos do nosso corpus de pesquisa.
Comparamos, então, as definições, as normas e os textos e detectamos novamente a dificuldade de
caracterizarmos e, principalmente, diferenciarmos tais gêneros na sua produção.
Aqui, faremos comentários a respeito de algumas definições encontradas dos seguintes autores:
Severino (1986), Silveira (1992), Medeiros (1996) e França (1998).
Apesar de Medeiros classificar a extensão do artigo como “relativamente pequena”,
encontramos artigos de vários tamanhos. Por exemplo, o artigo de Faraco (2001) possui dezessete
páginas, o que consideramos, em se tratando de publicações do gênero, um texto relativamente grande.
Apesar de algumas revistas determinarem que o ensaio é um texto de tamanho menor7, foram
6
“a unidade lingüística fundamental (tanto empírica quanto teórica) não é o signo, nem mesmo a frase, mas o texto Oral estável ou
escrito), a partir do qual a análise determina o acesso às unidades de nível inferior. No entanto, a unidade superior é o corpus. Como ele
depende evidentemente do ponto de vista que presidiu a sua constituição, a deontologia de sua constituição condiciona a validade dos
resultados da análise lingüística. Os métodos contrastivos da lingüística de corpus permitem o estudo das normas semânticas específicas
dos diferentes discursos, e complementarmente a contextualização operada pela seleção do corpus permite a interpretação caracterizadora,
procedimento impossível se aplicado ao texto isolado.” ( Tradução nossa)
7
O estudo de normas de publicação dos periódicos pesquisados não será abordado com detalhes neste trabalho em razão do recorte feito
em detrimento do espaço para publicação.
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encontrados ensaios grandes, como o de Süssekind (2002) com vinte e quatro páginas e artigos curtos
como o de Carvalho (1999) com um total de nove páginas.
Ainda segundo Medeiros, há a definição dos assuntos tratados em cada um dos gêneros.
Observando o gênero artigo, o autor diz que o mesmo “apresenta resultados de estudos e pesquisa”.
Concordamos, mas os ensaios científicos, publicados em revistas científicas, também. E o próprio
autor confirma isto quando fala do ensaio. A já citada revista Em Tese publica somente trabalhos
referentes às teses e dissertações de alunos dos cursos de mestrado e doutorado da UFMG. Isto é
resultado de pesquisa e a maioria dos autores da revista classifica seus textos como ensaios.
Medeiros, Silveira e França apresentam estruturas para o artigo científico que muito se
assemelham. Tanto em um gênero quanto no outro, foram identificadas algumas variações em relação
a essa estrutura (ou categorias textuais, segundo Silveira), principalmente seqüenciais e de abordagem
de cada tópico, o que é comum, pois temos vários sujeitos produtores dos textos. Essa estrutura
(introdução, desenvolvimento e conclusão) é própria dos textos dissertativos e/ou argumentativo,
portanto serve para os dois gêneros, já que pertencem à mesma tipologia textual.8
Apesar de Silveira dizer que em ensaios não há bibliografias, somente “notas e referências”,
verificamos que os artigos atuais também apresentam somente a referência bibliográfica.
Medeiros aponta a questão do uso da primeira pessoa em ensaios. Também identificamos o uso
tanto da primeira pessoa do singular, quanto do plural em ambos os gêneros. No artigo de Matos e
Silva (2001) há o emprego da primeira pessoa do singular em todo o texto.
Tenho como objetivo aqui traçar de maneira sintética algumas reconfigurações
socioculturais e lingüísticas que se implementam no Portugal de quinhentos, ou seja, o
século XVI,” (MATOS E SILVA, 2001, p. 33)
Um último ponto que iremos abordar aqui, é em relação ao caráter não finalizador do ensaio
em que Silveira afirma que este gênero “propicia novas discussões, debates a partir de outra
perspectiva”. Esta não é uma característica do discurso científico como um todo? Qual “saber” é
finalizador?
Como exemplos, vejamos o artigo de Faraco (2001) em que conclui da seguinte forma:
Como se pôde observar, o tema dos empréstimos não é simples e tampouco pode ser
discutido apenas numa perspectiva lingüística. Trata-se de um fenômeno em que se
entrecruzam, de forma bastante intricada, questões de língua e questões políticas e de
valores bastante complexas. Se as análises dos lingüistas já alcançaram destrinçar com
clareza esse fenômeno como fato de língua, permanece o desafio de enfrentar criticamente
suas dimensões políticas e de valores, para o que é indispensável uma interlocução de
pesquisadores de várias áreas, entre as quais a antropologia, a sociologia e a psicologia
social (FARACO, 2001, p. 146)
e a conclusão do ensaio de Marques (1999):
poeta que se autodenomina ‘poeta da morte’: ele extrai de seu tinteiro
com a ‘A cabeça de corvo’(título de um dos seus poemas) a negra tinta, com
a qual tenta, mas não consegue, dominar a thanatos.” (MARQUES, 1999, p.
65) Na obra do poeta Alphonsus de Guimaraes, o ‘termo conhecido’ é constituídos pelos
poemas, e o outro, o ‘termo oculto’, é sempre o mesmo: a morte. Como fio condutor, ela
percorre a maioria de seus versos, feitos de uma tessitura coerente, unificada, repetitiva e
urgida ao longo de trinta e dois anos. A morte, portanto, é fator estruturante fundamental na
obra deste
8
Adotamos tipo textual de acordo com Marcuschi (2002)
4
Em qual das duas finalizações há uma avaliação com uma abertura maior para discussões
acerca do tema? Parece-nos que no primeiro caso, em que o autor apenas propõe uma nova frente de
trabalho em relação às suas reflexões. No ensaio a autora conclui de forma muito mais assertiva sem
levantar questões a respeito. Logicamente que todo estudo está aberto a uma nova perspectiva, como já
dissemos.
Desta forma, podemos dizer que a diferença entre os gêneros não se encontra somente em sua
estrutura, ou em relação ao tema abordado, pois há casos em que as características ocorrem nos dois
gêneros. Também, como podemos perceber, as definições são muito diversas, indo desde tamanho do
texto até a posição do autor perante o tema tratado.
Podemos, então, pensar que são um só gênero? O que, então, justificaria a diferenciação entre
os dois?
Para responder a estas questões é necessário que pensemos num âmbito maior do estudo de
textos. Para isto, vejamos o que Guimarães propõe em relação ao estudo de texto dentro de uma
perspectiva enunciativa
Ao trabalharmos com Guimarães (1995), a primeira atitude que devemos ter é explicitar como
este autor trata a enunciação.
Para ele, enunciação deve ser vista como um acontecimento histórico, ou seja, um “um
acontecimento de linguagem” afetado pelo “interdiscurso” que se manifesta como “um espaço de
memória do acontecimento”.
a língua funciona na medida em que um indivíduo ocupa uma posição de sujeito no
discurso, e isso, por si só, põe a língua em funcionamento, por afetá-la pelo interdiscurso. A
enunciação, deste modo, não diz respeito à situação. E, por ser assim afetada pelo
interdiscurso, a enunciação não é homogênea, é uma dispersão que a relação com o
interdiscurso produz. (GUIMARÃES, 1995, p. 65)
Nesta perspectiva, Guimarães não considera o texto como uma entidade empírica, e sim, uma
categoria que, como tal, requer uma determinação conceitual específica para sua configuração.
O interdiscurso, relações filiadas historicamente, se apresenta no texto como o recorte de uma
“posição enunciativa”. Para Guimarães, “o interdiscurso aparece como finitude no acontecimento
enunciativo em virtude das posições enunciativas aí configuradas.” (idem, p. 65). Tudo isto se dá no
acontecimento, onde o interdiscurso representaria o começo e o fim.
Desta forma, a textualidade não estaria relacionada ao sujeito falante físico, mas à posiçãofalante (Orlandi & Guimarães, 1984), que assume palavras pertencentes ao interdiscurso, a fim de
estabelecer uma unidade, ou melhor, um efeito de unidade necessário para a constituição do texto.
Esta é a operação enunciativa fundamental para a textualidade: construir como unidade
o que é disperso; produzir a ilusão de um presente sem memória. E por isso o texto está
inapelavelmente aberto à interpretação, que percorre as linhas da dispersão, da memória.
(...) E o texto, tal como a enunciação, não diz respeito à situação, A situação como entidade
empírica não organiza nada no texto.” (idem, p. 65)
O autor considera, então, as operações de textualidade e seus procedimentos “processos da
construção da ilusão de unidade”. Como exemplo, ele trabalha com o que chama de “dois fundamentos
próprios da textualidade”: coesão e consistência.
A coesão seriam as relações da ordem do intradiscurso, a seqüência textual. Já a consistência
pertence à ordem do interdiscurso. É a pertinência do discurso em relação à sua memória discursiva.
O autor descarta a noção de coerência, pois a considera, do modo como vem sendo tratada, uma
relação cognitiva independente de sua historicidade.
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A coesão e a consistência são procedimentos do presente do acontecimento. São
procedimentos postos em funcionamento como marca da presença de uma posição de autor.
São, então, processos que suturam as distâncias, as diferentes posições próprias dos recortes
interdiscursivos de um texto. E nesta medida, a textualidade é um contraponto ao
interdiscurso.” (idem, p. 67)
Podemos dizer que a textualidade em Guimarães, constituída pela coesão e pela consistência,
seria a eficácia do texto ao seu gênero, isto é, a ‘sintonia’ dos seus elementos ao seu corpus, buscando,
aqui, o estudo de Rastier, mesmo sabendo que o primeiro autor não trabalha com a noção de corpus.
Apesar deste ponto de interseção entre os dois autores, há uma questão importante em
Guimarães que, para nós, completaria as reflexões sobre corpus de Rastier: a heterogeneidade do
corpus de um gênero, uma vez que pertence a uma memória discursiva que engloba um efeito de ilusão
da unidade, mas é constituída de lacunas.
A coesão e a consistência são o lugar do presente como tempo da ilusão de unidade. A
memória é o tempo da dispersão, do heterogêneo, do múltiplo. Mas não há presente sem
memória. A memória é o ancoradouro do presente. O heterogêneo, o disperso, o múltiplo
habitam a unidade, o homogêneo, e a unidade do corpo que fala se divide. (idem, p. 67)
Desta maneira, podemos dizer que as normatividades do corpus de um gênero são atualizadas a
cada acontecimento, o que permite que o corpus seja heterogêneo e permita uma regularidade e não
uma padronização totalmente fixa.
Nesta direção, deve-se considerar o trabalho de Dias (2004), em que faz reflexões a respeito
dos gêneros textuais e os modos de enunciação. Quanto à relação entre o texto e seu corpus, como
proposto por Rastier, Dias (2004, p. 4) afirma:
a questão da pertinência de um dado texto ao gênero, e portanto ao corpus, passa por um
efeito de identificação no acontecimento. Temos, portanto, no intervalo entre o
acontecimento em que nasce o texto e sua filiação ao corpus, a possibilidade do equívoco,
isto é, a possibilidade de um ponto de fuga do texto ao corpus, produzindo espaços de
indistinção com outro gênero, ou mesmo produzindo o espaço para o surgimento de novos
gêneros.
Logicamente, alguns gêneros são mais propensos a estes equívocos que outros, ou seja, gêneros
como o requerimento se mostram mais estruturalmente fechados para a atualização enunciativa. Já
gêneros marcados por uma subjetividade maior estão abertos a uma diversidade do uso destas
regularidades. Considero tanto o gênero artigo científico quanto o ensaio científico pertencentes a este
segundo grupo.
No acontecimento enunciativo, em que um texto ganha existência como objeto empírico,
não há portanto produção de sentidos, mas um trabalho sobre sentidos experimentados, já
dominados, ordenados em outros acontecimentos. Isso não significa negar os processos de
subjetivação que dão lugar no processo de textualização. Com efeito, a tomada de posição
do autor se dá tanto sob o efeito do assentamento, da complementação, da sobreposição,
como também da ruptura, da rebeldia, sobre aquilo que aparece ao sujeito como já assente e
definido na filiação à memória de ordem histórica. Assim, a relação entre o texto e o seu
corpus não é apenas de reforço, mas também de resistência e deslocamento. Isso explica
porque os gêneros se modificam, se ‘renovam’ com o tempo. Uns mais, outros menos,
lógico.” (idem, p. 3)
Analisando, nas perspectiva de Guimarães e Dias, o que ocorre com os gêneros aqui
investigados é essa “fuga” ao seu corpus, o que causa muitas vezes a impressão de que os textos
6
pertencem a um mesmo gênero. O autor dos textos, o sujeito que ocupa a “posição-falante” na
enunciação, produz de acordo com esta memória histórica dos gêneros a sua atualização.
Mas, se no campo de realização desta pesquisa9 há esta ‘confusão’ entre os dois gêneros a ponto
de ser difícil a definição de cada um deles, o que motiva o produtor destes textos a classifica-los como
artigo ou como ensaio, mesmo quando sua classificação vai de encontro às características dos mesmos
definidas pelas publicações?
Se a resposta a esta questão não se encontra na estrutura ou tema ou função dos textos ou no
suporte dos mesmos, já que são aspectos comuns aos dois gêneros, é necessário um deslocamento do
olhar que agora se volta não só para o texto como objeto empírico, mas ao texto como pensado por
Guimarães (1995) afetado pela historicidade do gênero a ser produzido.
Como o sujeito acessa elementos desta memória ao produzir o ‘seu’ texto? Que aspectos desta
memória são buscados? Quais os elementos da memória dos gêneros artigo e ensaio científicos
realizam no acontecimento o efeito pretendido pelo autor e que o faz optar por um deles?
Consideramos o acontecimento um “espaço de temporalização” (p.15), de acordo com
Guimarães (2002, p. 12):
A temporalidade do acontecimento constitui o seu presente e um depois que abre o
lugar dos sentidos, e um passado que não é lembrança ou recordação pessoal de fatos
anteriores. O passado é, no acontecimento, rememorações de enunciações, ou seja, se dá
como parte de uma nova temporalização, tal como a latência de futuro. É nesta medida que
o acontecimento é diferença na sua própria ordem: o acontecimento é sempre uma nova
temporalização, um novo espaço de conviviabilidade de tempos, sem a qual não há sentido,
não há acontecimento de linguagem, não há enunciação.
Desta forma, a “escolha” do autor por um dos gêneros no momento da nomeação de seu texto
será afetada pela historicidade de cada um dos gêneros. Esta nomeação é um fator importante na
constituição de um gênero se a tomarmos tal qual propõe Guimarães (2002), em que a designação é a
significação de um nome. Ao se nomear algo, há o processo de designação que significa a partir de
relações históricas. Assim, ao nomear o texto dentro de um ou outro corpus, há a construção de
sentidos que envolvem a memória discursiva de tal nome tanto para o autor do texto quanto para os
efeitos de sentido que pretende com o seu texto.
Considerações finais
Os estudos sobre gêneros e tipos textuais muito se desenvolveram nos últimos anos, desde o
início da Lingüística Textual em que o foco de estudo deixou de ser a frase e passou a ser o texto. Com
isto, a partir de necessidades de ampliação do olhar do lingüista e do objeto pesquisado, o texto,
surgiram os estudos dos gêneros que caminharam para o que temos hoje: uma Lingüística dos Gêneros
e Tipos Textuais.
Assim, o texto passa a receber o estatuto de unidade máxima da linguagem. Cada texto
produzido em uma situação específica pertence a um determinado gênero, que tem como sua
constituinte, uma função social (Marcuschi, 2002). Mas, como demonstrado neste estudo, nem sempre
esta questão é suficiente para definir os gêneros em relação à sua circulação. Por isto se torna tão
relevante o estudo de Rastier que passa o estatuto de unidade do texto para o corpus. E tão importante
quanto este estudo são os estudos de Guimarães e Dias, que aqui abordamos, pois tratam da
historicidade da linguagem e observam o texto numa perspectiva do acontecimento.
9
Talvez em outros campos, como o da filosofia, o ensaio tenha marcas mais fortes que o diferencie do artigo, mas no campo das Letras e
das Ciências Sociais, em que realizei a pesquisa, isto não ocorre sempre com tanta clareza, como demonstrado.
7
Nesta (pequena) amostra da pesquisa que desenvolvemos a respeito dos gêneros artigo e ensaio
científico, procuramos demonstrar a importância deste deslocamento dos estudos de gênero e a relação
que podemos estabelecer entre gêneros textuais e designação, que também é elemento constituinte dos
gêneros.
Logicamente que há a necessidade do desenvolvimento e aprofundamento desta investigação,
pois é um fator novo nos estudos dos gêneros textuais, mas acreditamos que os resultados poderão
contribuir muito para as reflexões sobre gêneros na perspectiva enunciativa.
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