MICROCRÉDITO: OS DOIS LADOS DA MOEDA*
Maisa Oliveira Melo Ferraz (UESB)**
Almiralva Ferraz Gomes (UESB)***
RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar se as políticas de microcrédito, em nível federal e municipal,
contribuem para a mudança da realidade socioeconômica de tomadores de empréstimo. Para alcançar
tal objetivo foi realizada uma pesquisa de natureza teórico-empírica e do tipo descritivo-exploratória.
Os dados empíricos da pesquisa, nas duas unidades de análise, o Banco do Povo e o Crediamigo do
Banco do Nordeste do Brasil (BNB), localizados no município de Vitória da Conquista, Região
Sudoeste da Bahia, foram coletados através de questionários, aplicados a uma amostra de clientes de
ambas as organizações, e entrevistas estruturadas, dirigidas aos gestores dos Programas de
Microcrédito. Os dados coletados receberam, por sua vez, tratamento quanti-qualitativo. Por meio
desta pesquisa, notou-se a relevância de se aprofundar os estudos sobre o microcrédito, pois há
questões intrínsecas a ele que por si só não se resolvem, tais como: falta de estrutura familiar,
deficiências no gerenciamento do recurso, baixo nível de escolaridade dos tomadores, dentre outros.
Palavras Chave: Desenvolvimento Econômico e Social; Microcrédito; Políticas Públicas.
ABSTRACT
This article aims to analyze if the microcredit policies in both federal and municipal level
contribute to transform the economic and social borrowers’ realities. In order to achieve this
goal a theoretical-empiricalanddescriptive-explanatory research was conducted. The empirical
data of the research,in both analyzed institutions, the “Banco do Povo” and the “Crediamigo”
of “Banco do Nordeste do Brasil (BNB)”, both located in Vitória da Conquista, Southwestern
area of Bahia,were collected through questionnaires, appliedto a sample ofcustomers from
both institutions, and structured interviews, geared to the mentors of Microcredit Programs.
The collected data received quantitative and qualitative attention. Through thisresearch, it was
*
Artigo elaborado como parte complementar da defesa da Especialização em Gestão Pública Municipal
Especialista em Gestão Pública Municipal pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2012), graduada
em Administração pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (2005). Analista Universitária da
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
***
Doutora em Administração pela Universidade Federal de Lavras (2010), Mestre em Administração pela
Universidade Federal da Bahia (2003), Graduada em Administração pela Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia (1996). Professora Adjunta da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
**
1
noted the relevance of further studies on microcredit, for there are intrinsic issues that, on
their own, are not resolved, such as lack of family structure, poor management resource,
borrowers’ low level of education, among others.
Keywords: Economic and Social Development; Microcredit; Public Policies.
1. INTRODUÇÃO
Desde a experiência do Grameen Bank, de Bangladesh, como Instituição de
Microfinanças (IMFs), o microcrédito vem se tornando um dos principais paradigmas de
programa com forte impacto social. Em outras palavras, um modelo reproduzível de combate
à pobreza, não-assistencial e sustentável, nos mais diversos contextos nacionais.
Além
da
pobreza,
ao
se
estudar
microcrédito,
várias
“nuances”
estão
entrelaçadas,dentre elas a questão do desenvolvimento. O desenvolvimento, em qualquer
concepção, deve resultar do crescimento econômico acompanhado de melhoria na qualidade
de vida. Ou seja, como referenciado por Vasconcellos e Garcia (1998, p. 205), “as alterações
da composição do produto e a alocação de recursos pelos diferentes setores da economia, de
forma a melhorar os indicadores de bem-estar econômico e social (pobreza, desemprego,
desigualdade, condições de saúde...”.
Diante disso, observa-se que o desenvolvimento econômico promove a melhoria dos
padrões de vida, mas não resolve todos os problemas de uma sociedade. Por isso, como diz
Bresser-Pereira (2006), ele é apenas um dos cinco grandes objetivos políticos a que se
propõem as sociedades nacionais modernas, ao lado da segurança, da liberdade, da justiça
social e da proteção do ambiente. Dentre as esferas do desenvolvimento, o local é, antes de
tudo, um ato de vontade coletiva, do desejo do Governo e de todas as forças sociais,
empenhadas em construir “um outro País”.
Discutir então microcrédito torna-se necessário, pois destaca-se como um
instrumento, entre outros, de fomento ao desenvolvimento socioeconômico, desde que esteja
associado a outras políticas públicas. Dentre os benefícios do microcrédito estão: a
democratização do crédito, desenvolvimento com qualidade de vida, fortalecimento da
economia interna, fortalecimento da economia popular, fortalecimento das iniciativas
solidárias e, claro, dentre os principais destaques, a geração de trabalho, emprego e
oportunidades de negócios solidários. Enfim, maior capacidade de inclusão socioeconômica.
Observa-se então, por um lado, que o microcrédito, através da análise
socioeconômica realizada pelos agentes de crédito, desponta como uma política diferenciada
do sistema financeiro tradicional e que requer garantias reais. Por outro lado, o microcrédito
2
enfrenta dificuldades muito além do que se pode “imaginar”, pois questões intrínsecas e
extrínsecas estão envolvidas, tais como: falta de estrutura familiar, falta de gerenciamento, ou
melhor, distinção, entre o negócio e os recursos familiares, baixo nível de escolaridade, enfim,
“nuances” que vão além do que o microcrédito propriamente dito.
Neste contexto, levantou-se a seguinte questão de pesquisa: de que forma políticas de
microcrédito, em nível federal e municipal, contribuem para a mudança da realidade
socioeconômica de tomadores de empréstimo? Com isso, estabeleceu-se o seguinte objetivo
para o presente artigo: analisar se as políticas de microcrédito, em nível federal e municipal,
contribuem para a mudança da realidade socioeconômica de tomadores de empréstimo.Para
alcançar o objetivo proposto, inicialmente, será realizada uma breve discussão a respeito de
microcrédito, abordando as suas definições e características,e sobre Política Pública e
Desenvolvimento Sustentável. Após apresentação dos procedimentos metodológicos da
pesquisa, os dados coletados em campo serão analisados à luz do referencial teórico para
posterior considerações finais a respeito do estudo.
2. MICROCRÉDITO: DEFINIÇÕES E CARACTERÍSTICAS
A palavra crédito é originária do latim creditu e significa, em sentido lato, segurança
de que alguma coisa é verdadeira, confiança/crença, boa fama/reputação (FERREIRA, 1995).
Em um sentido econômico restrito, crédito consiste na entrega de valor (mercadoria, serviço
ou importância em dinheiro) para pagamento futuro mediante promessa estabelecida
(SILVA,1998). Esta definição então estabelece uma relação entre duas ou mais partes numa
determinada operação e define um instrumento de política de negócios a ser utilizado por uma
empresa comercial ou industrial na venda de seus produtos ou por banco comercial, por
exemplo, na concessão de empréstimos, financiamentos ou fianças (SILVA, 1998).
O crédito, deste modo, carrega um significado profundo, que emerge da confiança,
por parte de quem concede, no potencial daquele que o recebe de multiplicar esse valor e
assim possibilitar a solvabilidade do montante emprestado. Conceder crédito a uma pessoa é,
em essência, acreditar nela (VENTURA, 2000).
Entendido como fenômeno econômico, pode-se considerar o crédito como resultado
da poupança feita por alguns, que transferem a outros, permitindo-lhes alcançar poder de
compra atual e satisfazer suas necessidades de consumo. Caracterizando o sacrifício de
alguém em não consumir no presente para que outros o façam. Torna-se então evidente que os
recursos disponibilizados, nessas condições, podem ser considerados por algum tempo. Por
conseguinte, terão um custo representado pelos juros requeridos (SECURATO, 2002).
De acordo com Gomes et al. (2007), a palavra microcrédito deriva da junção de duas
3
outras palavras: Crédito significa crer, acreditar, confiar. Na linguagem coloquial atual, tem
seu significado mais associado a algum tipo de empréstimo. O prefixo grego Micro significa
pequeno. O termo microcrédito encontra diferentes definições. Para Gulli (1998) apud Gomes
et al. (2007), microcrédito consiste em serviços financeiros de pequena escala, que envolvam
valores baixos. Já para Schreiner (2001) apud Gomes et al. (2007), o termo refere-se a crédito
concedido a pessoas de baixa renda.
De acordo com Yunus (2000), o acesso ao crédito é uma estratégia, uma maneira de
se alcançar o desenvolvimento local. Segundo o autor, é necessário construir e criar
instituições para ajudar os empreendedores, porque são eles, segundo Yunus, aqueles que
fazem as coisas acontecerem, ou seja, o desenvolvimento regional se deve aos
empreendedores locais. Neste sentido, muito bem abordado por Franco (2000), o
desenvolvimento local está relacionado com a possibilita do surgimento de comunidades mais
sustentáveis, capazes de suprir suas necessidades imediatas, descobrir vocações locais e
despertar suas potencialidades específicas e fomentar o intercâmbio externo aproveitando-se
de suas vantagens locais.
Sucintamente, microcrédito pode ser definido como crédito para pobres, dado sem
garantias reais e de forma sustentável para geração de autoemprego. Nesta definição, cabe
destacar os seguintes pontos: sustentabilidade, focalização nos pobres e alcance. Carvalho et
al. (2009) afirmam que o debate em torno dos temas sustentabilidade versus alcance/foco nos
mais pobres é polêmico e, em seu cerne, reside um questionamento fundamental: se e em que
medida as pessoas muito pobres podem de fato se beneficiar dos programas de microcrédito e
em quanto o microcrédito concretiza sua promessa e seus objetivos. Tal debate, de acordo
com Dichter (2006) apud Carvalho et al. (2009), deve ser entendido e situado no âmbito do
questionamento do microcrédito como promotor do empoderamento econômico e social das
classes populares, ou seja, como um instrumento de emancipação de tais classes. Nesse
sentido, Yunus (2002) considera o crédito como um direito humano, assim como os demais
direitos constitucionais, que propicia a igualdade ao possibilitar que pessoas menos
favorecidas de recursos também participem da economia. Assim, a questão que deve ser
analisada e avaliada é se o microcrédito pode contribuir para remover as restrições que
limitam as liberdades individuais e a igualdade, e assim promover o desenvolvimento e
emancipação econômica e social do público ao qual se destina.
De acordo com Moraes e Souza Junior (2011), o mercado de micro finanças no Brasil
possui suas próprias características. Apesar de todo o histórico desde 1973, o mercado de
micro finanças do Brasil não atingiu o grau de crescimento como em alguns países latinos
americanos, conforme Brusky e Fortuna (2002). Apesar das instituições de microcrédito
4
apresentarem-se como um possível instrumento eficaz de redução da pobreza, como abordado
por Mazzutti (2005), o Brasil ainda não atingiu a essência do microcrédito proposto por
Yunus (2000). Pode-se confirmar essa percepção, ao se pesquisar Berger (2006 apud
YOKOMIZO, DINIZ e CHRISTOPOULOS, 2009, p. 2), que afirma que “o cenário ainda está
longe do ideal. Identificar quais são as reais dificuldades enfrentadas para ao acesso dessa
população a serviços financeiros é uma questão a ser respondida”. Para caracterizar o
contexto brasileiro, Sela et al. (2009) apud Moraes e Souza Junior (2011, p. 5) explicam que
“no Brasil, a importância do financiamento (...) justifica-se pela (...) quantidade de
estabelecimentos de pequeno porte; crescimento do setor informal da economia; crescimento
do desemprego e dificuldade de acesso ao crédito”. Nesse contexto, Carvalho e Abramovay
(2004) e Pereira (2007), apud Freitas et al. (2009), ressaltam que:
[...] o acesso dos empreendedores informais ao sistema bancário é bastante difícil. A
precariedade de seus negócios e a situação de pobreza na qual estão inseridos os
distancia de atender aos requisitos impostos pelo sistema financeiro tradicional para
acessar fontes de financiamento. Para os empreendedores do setor informal muitas
vezes ativos familiares e do negócio se confundem sendo difícil precisar a dimensão
da atividade empreendedora, que é explorada com o objetivo principal de dar
sustentação ao núcleo familiar. (FREITAS et al., 2009, p. 6).
As considerações de Freitas (2009) explicitam o fato de o sistema financeiro
tradicional requer garantias reais que no microcrédito não se exige, e sim a análise
socioeconômica realizada pelos agentes de créditos. Também, destaca-se que o microcrédito
enfrenta dificuldades muito além do que se pode “imaginar”, pois questões intrínsecas estão
envolvidas, tais como: falta de estrutura familiar, falta de gerenciamento, ou melhor,
distinção, entre o negócio e os recursos familiares, enfim, “nuances” que vão além do que o
microcrédito pode oferecer. Segundo Yokomizo, Diniz e Christopoulos (2009), identificar tais
questões e solucioná-las é o desafio do microcrédito.
3. POLÍTICA PÚBLICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Ao se fazer um estudo sobre políticas públicas de microcrédito, primeiramente,
necessita-se entender o conceito de política pública e desenvolvimento sustentável. Políticas
Públicas são diretrizes, princípios norteadores de ação do poder público; regras e
procedimentos para as relações entre poder público e sociedade, mediações entre atores da
sociedade e do Estado. São então políticas explicitadas, sistematizadas ou formuladas, em
documentos (leis, programas, linhas de financiamento), que orientam ações que,
normalmente, envolvem aplicações de recursos públicos. Enfim, pode-se dizer que Políticas
Públicas correspondem a um conjunto de ações coletivas voltadas para a garantia dos direitos
5
sociais, configurando-se em um compromisso público que visa dar conta de determinada
demanda em diversas áreas (GUARESCHI et al., 2004).
Elaborar uma Política Pública significa definir quem decide o que, quando, com que
consequências e para quem. Nesse sentido, vale ressaltar que há distinção entre Políticas
Públicas e Políticas Governamentais. Nem sempre “políticas governamentais” são públicas,
embora sejam estatais. Para serem “públicas”, é preciso considerar a quem se destinam os
resultados ou benefícios e se seu processo de elaboração é submetido ao debate público. Daí a
importância do debate político, da transparência, da sua elaboração em espaços públicos e não
nos gabinetes governamentais.
As políticas públicas visam responder às demandas, principalmente dos setores
marginalizados da sociedade, considerados vulneráveis. Além disso, buscam ampliar e
efetivar direitos de cidadania, regular conflitos entre diversos atores sociais que, mesmo
hegemônicos, têm contradições de interesse que não se resolvem por si mesmas ou pelo
mercado e necessitam de mediação. Outras políticas objetivam promover o desenvolvimento,
criando alternativas de geração de emprego e renda.
Para Sachs (1993), são quatro as dimensões da sustentabilidade: social, econômica,
ecológica e cultural. A primeira diz respeito à equidade da distribuição de renda e bens. A
segunda pressupõe a alocação e o gerenciamento eficiente dos recursos públicos e privados,
numa visão macrossocial, e não meramente econômica financeira. A terceira refere-se às
ações para evitar danos ao meio ambiente, causados pelos processos de desenvolvimento. Por
fim, a sustentabilidade cultural refere-se ao respeito que deve ser dado às diferentes culturas e
às suas contribuições para a construção de modelos de desenvolvimento apropriados às
especificidades de cada cultura e cada local.
Uma política de desenvolvimento sustentável local requer a participação do Estado,
dos agentes privados, empresas, consumidores e entidades da sociedade civil organizada.
Como afirma Offe (1998, p.11), “a diminuição do Estado pela diminuição do Estado é um
dogma assim como a defesa cega do estatismo”. Para Offe (1998), a nova ordem social será
formada pelo Estado, pelo mercado e pelas Organizações Não Governamentais – ONG’s.
O desenvolvimento local não pode ser analisado sem que se coloque o problema da
necessidade da geração de emprego e renda. Assim, para Dowbor (1996), a atuação do
governo local em promover o desenvolvimento envolve a intervenção sobre as condições do
ambiente social ou econômico, articulando medidas que propiciem o desenvolvimento do
município. Segundo Dowbor (1996), nem sempre o controle é diretamente da prefeitura, mas
em várias ocasiões é possível produzir soluções que contornem um determinado fator.
É importante destacar que a prefeitura deve funcionar como articuladora das ações
de desenvolvimento, sendo mais do que um agente realizador do desenvolvimento. De acordo
6
com Dowbor (1996), essas ações não podem ocorrer como monopólio do poder público. Sua
eficácia será maior justamente quando “o poder público for apenas um dos agentes envolvidos
no projeto de desenvolvimento local incorporado pela sociedade” (DOWBOR, 1996, p. 35).
Gerar emprego e renda permanentes e dignos em coerência com um projeto de
desenvolvimento local baseado na consolidação da cidadania exige compromisso social com a
geração de trabalho e renda.
4. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Tendo em vista que o objetivo central desta pesquisa é analisar se as políticas de
microcrédito, em nível federal (o Crediamigo, do Banco do Nordeste do Brasil – BNB) e
municipal (a Instituição Comunitária de Crédito Conquista Solidária – popularmente
conhecida como Banco do Povo), de Vitória da Conquista, contribuem para a mudança da
realidade socioeconômica dos tomadores de empréstimo, este tópico irá demonstrar os
procedimentos metodológicos adotados para a realização da presente pesquisa.
Quanto aos objetivos, a presente pesquisa caracteriza-se por ser descritivoexploratória. Para Gil (1991), a pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade
com o problema com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses. Envolve
levantamento bibliográfico; entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com o
problema pesquisado; análise de exemplos que estimulem a compreensão. Já a pesquisa
descritiva visa descrever as características de determinada população ou fenômeno ou o
estabelecimento de relações entre variáveis. Envolve o uso de técnicas padronizadas de coleta
de dados: questionário e observação sistemática.
Para Demo (1994 e 2000), é possível se identificar, pelo menos, quatro gêneros de
pesquisa: teórica, metodológica, empírica e prática. Contudo, nenhuma delas é autosuficiente, pois “na prática, mesclamos todos acentuando mais este ou aquele tipo de
pesquisa” (2000, p. 22). Neste sentido, pode-se caracterizar a presente pesquisa como teóricoempírico, pois dois casos empíricos foram analisados à luz de um referencial teórico que trata
do assunto em questão.
Em função da necessidade de conhecer as peculiaridades do microcrédito
disponibilizado pelo Crediamigo/BNB e pelo Banco do Povo, adotou-se o método do estudo
de caso. O estudo de caso “se fundamenta na ideia de que a análise de uma unidade de
determinado universo possibilita a compreensão da generalidade do mesmo ou, pelo menos, o
estabelecimento de bases para uma investigação posterior, mais sistemática e precisa”. (GIL,
1994, p. 79). Com o objetivo de complementar a análise, documentos das instituições
pesquisadas foram consultados e analisados.
7
Ainda quanto aos procedimentos técnicos, a pesquisa envolveu, também,
levantamento junto a clientes que contraíram pelo menos 25 ciclos de empréstimos no Banco
do Povo. No Banco do Nordeste, por não existir um sistema que filtrasse os clientes com esse
critério de ciclos de empréstimos, foi realizado, pelo próprio banco, um levantamento
aleatório de clientes.Após a configuração dos critérios de análise da seleção dos clientes,
obteve-se um total de 27 (vinte e sete) clientes do Banco do Povo, sendo que 1 (um) aparecia
no sistema como ativo, porém, já se encontrava inativo, totalizando, dessa forma, 26 clientes
para análise. Destes clientes, 6 (seis) não se encontravam em Vitória da Conquista, 1 (um) não
quis participar e 1(um) não foi localizado. Dessa forma, foi realizada a pesquisa com 18
(dezoito) clientes do Banco do Povo.Com relação ao Crediamigo/BNB, o banco selecionou
aleatoriamente 27 (vinte e sete) clientes para análise. Destes clientes, 2 (dois) não quiseram
participar, 9 (nove) não foram localizados e 4 (quatro) não se encontravam na cidade. Diante
disso, foi realizada a pesquisa com 12 (doze) clientes do Crediamigo/BNB.
Do ponto de vista da forma de abordagem do problema, uma pesquisa pode ser: (1)
quantitativa, ao considerar que tudo pode ser quantificável, o que significa traduzir em
números opiniões e informações para classificá-las e analisá-las. Neste caso, requer o uso de
recursos e de técnicas estatísticas; (2) qualitativa, ao considerar que há uma relação dinâmica
entre o mundo real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a
subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A interpretação dos
fenômenos e a atribuição de significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. A
pesquisa qualitativa não requer o uso de métodos e técnicas estatísticas. O ambiente natural é
a fonte direta para coleta de dados e o pesquisador é o instrumento-chave. Os pesquisadores
tendem a analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos
principais de abordagem. Com base nisso, o presente artigo dará tratamento quantitativa e
qualitativo aos dados coletados, portanto, pode-se classificá-lo como de natureza quantiqualitativa.
Para a realização da pesquisa, foram aplicados questionários estruturados aos clientes
de forma diferenciada, por se tratar de 2 (duas) instituições particularmente distintas. Os
clientes do BNB foram selecionados aleatoriamente pelo próprio banco. Quanto ao Banco do
Povo, foram selecionados os clientes com acima de 25 (vinte e cinco) ciclos, ou seja, número
de empréstimos realizados.Os dados coletados através da aplicação dos questionários
receberam tratamento quantitativo. Também foram realizadas entrevistas com os responsáveis
das duas instituições dos programas de microcrédito. Estes dados, por sua vez, receberam
tratamento qualitativo.
8
5. RESULTADOS DA PESQUISA
O Programa Crediamigo é o programa de microcrédito do BNB, em funcionamento
desde 1998, estando presente em 2 (dois) mil municípios em sua área de atuação, que
contempla todos os Estados do Nordeste, e os nortes de Minas Gerais e do Espírito Santo,
além de estar presente no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. O BNB é responsável
pelo maior programa de microcrédito da América do Sul e o segundo da América Latina, o
CrediAmigo, por meio do qual o Banco já emprestou mais de R$ 3,5 bilhões a micro
empreendedores, sendo que em 2011 teve um acumulado até novembro de R$ 10.743.700,00.
O Crediamigo é o programa de microcrédito produtivo orientado do Banco do Nordeste
voltado a empreendedores urbanos, em sua maioria informais, que desenvolvem atividades
relacionadas à produção,à comercialização de bens e à prestação de serviços. A característica
básica do Programa Crediamigo é a garantia de aval solidário para empréstimos com valores
variando de R$100,00 a R$ 15.000,00, de acordo com o negócio (BNB, 2012). O BNB conta,
atualmente, com 1.007.209 clientes ativos no Programa do Crediamigo, sendo que, em Vitória
da Conquista, corresponde a 4.090 clientes, com uma carteira ativa de R$ 4.450.000,00
(quatro milhões, quatrocentos e cinquenta mil reais).
Com relação ao Banco do Povo, constituído em 1999, trata-se da primeira
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) de microcrédito produtivo do
interior da Bahia. O Banco do Povo, com sede em Vitória da Conquista, atua, também, nos
municípios de Poções, Barra do Choça e Cândido Sales. Em breve, estará atuando em Anagé,
Itambé, Itapetinga e Planalto. Atualmente, possui 1.541 clientes ativos, correspondendo a uma
carteira ativa de R$ 2.148.193,21 (dois milhões, cento e quarenta e oito mil, cento e noventa e
três reais e vinte e um centavos). No ano de 2011, emprestou um total de R$ 5.502.360,00. O
microcrédito produtivo orientado oferecido pelo Banco do Povo de Vitória da Conquista é
destinado aos empreendedores de baixa renda.
5.1 PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE MICROCRÉDITO
A pesquisa de campo revelou que, muito embora cada uma das instituições tivesse
suas especificidades, ambas possuem os agentes de crédito. Os agentes de crédito, como
abordado por Rhyne (1994), apud Gomes et al. (2007), são uma das principais características
dos programa bem sucedidos de microcrédito, pois através o contato direto, realizado pelos
agentes de crédito, proporciona ao banco o diagnóstico da realidade e do ambiente do
empreendedor, em um sistema pouco dependente de agências físicas, mas com muitos agentes
representativos. Segundo o Diretor Executivo do Banco do Povo, uma das vantagens do
microcrédito, com relação a outras políticas públicas, é o atendimento personalizado. Além
9
disso, como salientado pelo Coordenador de Microcrédito do BNB, outra vantagem do
microcrédito está na facilidade. Segundo este Coordenador:
O Crediamigo ele não é de assistencialismo por que ele cobre os juros pelo produto,
mas por se tratar de ser um produto acessível e ter uma taxa de juros, também, muito
reduzida, ele faz com que o produto vá para a pessoa certa e que através do
acompanhamento, esse investimento tenha retorno, não só para o cliente mas
também para o governo federal.
Quando os gestores foram questionados, tanto no BNB quanto no Banco do Povo,
sobre a capacidade de o microcrédito ser considerado um instrumento de inclusão social,
ambos destacaram que o microcrédito é uma ferramenta poderosa de inclusão social. O diretor
executivo do Banco do Povo salientou, inclusive, que “não é um instrumento assistencialista
(...) permite que as pessoas, mesmo os mais pobres dentre os pobres, antes alijados do sistema
financeiro tradicional, tenham oportunidade e o direito de realizar os seus sonhos”. O
Coordenador do Crediamigo destacou, também, que pesquisas são realizadas, a exemplo das
realizadas pela Faculdade Getúlio Vargas – FGV – e pelo jornalista Marcelo Neri, para avaliar
o Programa e revelam que a clientela sai da linha de pobreza. O Coordenador destacou que
“isso faz com que a gente perceba que é sim uma oportunidade de incluir socialmente os
clientes, e também mostrar a eles que através do trabalho podem gerar um meio de vida
sustentável, sem necessidade de programas sociais que são de subsistência”.
Diante das informações coletadas pela pesquisa, observa-se que, apesar de os
responsáveis pelas políticas de microcrédito, de ambas as Instituições, salientarem que o
microcrédito é uma política de inclusão social, os dados coletados junto aos tomadores de
crédito não confirmam as considerações feitas pelos gestores das Instituições, pois não se
constatou uma mudança de realidade significativa desses sujeitos. Esta constatação nos
remete as considerações de Lopes (2007) quando afirma que “essa forma de concessão de
crédito à população das camadas populares (desprovidas de garantias exigidas pelo sistema de
crédito tradicional) só poderá funcionar com coerência quando for associado às demais
políticas de emprego (LOPES, 2007, p. 20).
Para Santos e Nitsch (2001), o microcrédito é um instrumento de fomento ao
desenvolvimento econômico e social. Assim, o microcrédito pode ser visto comouma política
de inserção bancária e monetária, pois, potencialmente, pode retirar as pessoas de situações de
situação de extrema pobreza. De acordo com o Coordenador do Crediamigo,
A gente tem uma preocupação muito grande de oferecer as pessoas de baixa renda
um crédito condizente com a capacidade de pagar, até por que muito dinheiro na
mão de quem não pode pagar, que as vezes se parece com uma coisa positiva, pode
se tornar negativa, você pode aí negativar o nome, você pode fazer com que a pessoa
perca as oportunidades. Então, eu vejo que o crédito ele serve sim para essas
pessoas, a gente trabalha dessa forma, também, agente tem créditos que variam de
R$ 100,00 a R$ 15.000,00, então você pode oferecer crédito de R$ 100,00, R$
10
200,00, que para muitos é pouco, mas para as pessoas que estão ali na extrema
pobreza, esse valor já pode ser uma grande ferramenta de investimento.
No que diz respeito à informalidade, o diretor executivo do Banco do Povo considera
que “de forma alguma e muito pelo contrário” o microcrédito incentiva a informalidade. O
microcrédito, segundo ele, permite que os pequenos empreendedores tenham condições de
desenvolverem os seus empreendimentos a tal ponto que, de alguma forma, torna urgente e
necessária a formalização. Da mesma forma, o Coordenador de Microcrédito do BNB
também destaca que o microcrédito não incentiva a informalidade. Para este Coordenador,
A ideia do microcrédito é exatamente o contrário, é você fazer que o informal se
formalize, quando você dar oportunidade para que ele cresça, ele mesmo sente a
necessidade de se formalizar até para ter novas oportunidades de vendas, os clientes
que exigem muitas vezes nota fiscal, vão exigir dele isso também, e ele vai
necessariamente precisar de se formalizar.
Através do microcrédito, segundo o Coordenador de Microcrédito do BNB,
consegue-se resolver problemas tal como o endividamento do cliente. Devido à
impossibilidade da compra a vista, a maioria dos clientes informais ou dos pequenos
empreendedores não detém capital de giro ou dinheiro para investimento. Isso faz com que ele
busque alternativas que, muitas vezes, são inviáveis – crédito com taxa de juros elevadas,
créditos pessoais, cartão de crédito (que tem uma taxa elevada quando se atrasa), cheque
especial (que também tem uma taxa elevada). Esses problemas fazem com que muitos
comerciantes, que tem um sonho até muito promissor, acabem, depois de certo tempo, tendo
que fechar portas e, algumas vezes, com dívidas contraídas, pois o dinheiro necessário para
investir, capital de giro com taxa reduzida, não foi encontrado e o empresário perdeu a
oportunidade de transformar uma boa ideia em um grande sucesso. Neste sentido, parece
haver uma contradição entre as informações coletadas com Coordenador do Microcrédito do
BNB e os clientes investigados pois, metade das despesas familiares, segundo os tomadores
entrevistados, em ambas as Instituições, são para pagar o empréstimo do Banco.
5.2 ANÁLISE SOCIOECONÔMICAADVINDA DOS RECURSOS ORIUNDOS DO
MICROCRÉDITO: A EXPERIÊNCIA DO BANCO DO POVO E DO
CREDIAMIGO/BNB
Por meio da pesquisa de campo, realizada nas duas unidades de análise, Instituição
Comunitária Conquista Solidária, popularmente conhecida como Banco do Povo, e
Crediamigo do Banco do Nordeste do Brasil, da cidade de Vitória da Conquista, foram
11
coletados dados que permitiram uma breve análise da realidade das condições de vida dos
clientes. Esta seção se propõe então a apresentar os resultados desta fase da pesquisa.
O nível de escolaridade dos clientes, tanto do Banco do Povo quanto do Crediamigo,
de acordo com os dados obtidos na pesquisa, apresenta-se da seguinte forma: Banco do Povo
– 38,89% possuem tanto o nível de escolaridade fundamental incompleto quanto o
fundamental completo, 16,67% o nível médio e 5,56% são apenas alfabetizados (Gráfico 1);
Crediamigo – 50% possuem o nível médio completo, 33,33% o fundamental incompleto e
8,33% possuem tanto o nível médio incompleto quanto a alfabetização (Gráfico 2). A
pesquisa revelou que o nível de escolaridade dos entrevistados não se alterou depois que
ingressaram no Programa de microcrédito. Todos os entrevistados, em ambas as Instituições,
informaram ter estudado em escola pública.
Gráfico 1 – Escolaridade dos Participantes
Fonte: Pesquisa Direta no Banco do Povo. Vitória
da Conquista, Fevereiro/2012
Gráfico 2 – Escolaridade dos Participantes
Fonte: Pesquisa Direta no Crediamigo. Vitória da
Conquista, Fevereiro/2012
Com relação ao acesso a outras modalidades de curso ou especificamente a algum
curso profissionalizante, 100% dos entrevistados, tanto do Banco do Povo quanto do
Crediamigo, não estão realizando nenhum curso profissionalizante atualmente. Antes de
ingressarem no Programa, alguns entrevistados realizaram algum curso, dentre eles: no Banco
do Povo, 27,78% realizaram o curso de corte e costura, 5,56% os cursos de culinária, torneiro
mecânico e datilografia. No Crediamigo, apenas 8,33% havia realizado o curso de
empreendedorismo. A análise dos dados demonstra que faltam políticas de incentivo a
educação e a qualificação profissional voltadas para esses sujeitos ou mesmo interesse dos
tomadores em participar de cursos de qualificação. Como abordado por Dowbor (2010), o
país continua a ostentar uma desigualdade dramática sendo necessário políticas de apoio
radicalmente mais amplas.
12
1
Quanto ao controle administrativo do negócio, tanto os clientes do Banco do Povo
quanto do Crediamigo, não realizavam nenhum tipo de controle do negócio. Contudo, 16,67%
dos clientes do Crediamigo passaram a efetuar um controle administrativo, simples e manual,
depois que ingressou no Programa de Microcrédito.
De acordo com a pesquisa, a principal fonte de recursos atual das atividades laborais
corresponde a recursos do Banco do Povo e/ou do Crediamigo, equivalendo a 88,89% e 80%,
respectivamente. Foi constatado por meio da pesquisa que alguns entrevistados, tanto do
Banco do Povo quanto do Crediamigo/BNB, são clientes de ambas as instituições. Também
foi constatado que a maioria dos entrevistados, tanto do Banco do Povo quanto do
Crediamigo, 66,67% e 84,62%, respectivamente, tinha como principal fonte de recursos, antes
de ingressarem contraírem empréstimos nessas instituições, os recursos próprios. Além disso,
observa-se que, anteriormente, em ambas as Instituições, os entrevistados não buscavam
outros bancos para financiar as suas atividades (conforme tabelas 1 e 2). Isso nos remete a
Alves e Soares (2004) que salientam que a população de baixa renda está tradicionalmente
excluída do sistema financeiro tradicional, pois este exige garantias reais, ao contrário do
microcrédito.
Tabela 1 – Principal Fonte de Recursos
Tabela 2 – Principal Fonte de Recursos
Entrevistados
Entrevistados
Atualmente
Fonte
Banco do
Povo
Frequência
Crediamigo
Recursos
Próprios
%
Atualmente
Antes
Frequência
%
16 88,89
0
0,00
2 11,11
5
27,78
12
66,67
0
0,00
Agiota
0 0,00
1
5,56
Outros
Bancos
0 0,00
0
0,00
Fonte: Pesquisa Direta no Banco do Povo. Vitória
da Conquista, Fevereiro/2012.
Fonte
Banco do
Povo
Crediamigo
Recursos
Próprios
Frequência
%
Antes
Frequência
%
1
6,67
1
7,69
12
80,00
0
0,00
2
13,33
11 84,62
Agiota
0
0,00
1 7,69
Outros
Bancos
0
0,00
0 0,00
Fonte: Pesquisa Direta no Crediamigo. Vitória da
Conquista, Fevereiro/2012.
Em relação à situação no mercado de trabalho, no Banco do Povo, 94,44% dos
entrevistados são autônomos, desenvolvendo suas atividades por conta própria ou
empequenos estabelecimentos não legalizados (55,55%), confirmando, dessa forma, dados de
pesquisas anteriores já realizadas pela Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista (PMVC,
2011), que constataram que parte dos empréstimos é constituída por mulheres e
empreendedores do setor informal.Com relação a presente pesquisa, ao ingressarem no Banco
do Povo, esse índice, como pode ser verificado no Gráfico 3, correspondia a 88,89%, tendo
uma informalidade de 77,77%. No Crediamigo, atualmente, 100% dos entrevistados são
13
autônomos, desenvolvendo suas atividades, na maioria das vezes, em estabelecimentos
legalizados (58,33%). Ao ingressarem no programa, conforme pode ser observado no Gráfico
4, esse índice correspondia a 83,33% e havia uma informalidade em 66,66% dos casos.
Gráfico 3 – Entrevistados distribuídos por Situação no Mercado de Trabalho.
Fonte: Pesquisa Direta no Banco do Povo. Vitória da Conquista, Fevereiro/2012
Gráfico4 – Entrevistados distribuídos pro Situação no Mercado de Trabalho.
Fonte: Pesquisa Direta no Crediamigo. Vitória da Conquista, Fevereiro/2012.
Em relação ao local atual onde é desenvolvido as atividades, 44,44% dos
entrevistados do Banco do Povo realizam suas atividades em barraca (Tabela 3), enquanto no
Crediamigo 66,67% dos entrevistados realizam suas atividades em ponto comercial (Tabela
14
4). Essa realidade permanece praticamente a mesma desde o ingresso nos Programa (33,33%
no Banco do Povo e 58,33% no Crediamigo).
Tabela 3 – Local de Trabalho
Entrevistados
Atualmente
Antes
Local
Frequência %
Frequência %
Barraca/
Banca
8 44,44
6 33,33
Unidade
Móvel
1
5,56
2 11,11
Ponto
Comercial
3 16,67
1
5,56
Serviço
em
Domicílio
2 11,11
2 11,11
Atividade
na própria
casa
4 22,22
4 22,22
Outro
0
0,00
3 16,67
Total
18 100,0
18 100,00
Fonte: Pesquisa Direta no Banco do Povo. Vitória da
Conquista, Fevereiro/2012
Tabela 4 – Local de Trabalho
Entrevistados
Atualmente
Antes
Local
Frequência %
Frequência %
Barraca/
Banca
4
33,33
4 33,33
Unidade
Móvel
0
0,00
0
0,00
Ponto
Comercial
8
66,67
7 58,33
Serviço
em
Domicílio
0
0,00
0
0,00
Atividade
na própria
casa
0
0,00
0
0,00
Outro
0
0,00
1
8,33
Total
12 100,00
12 100,00
Fonte: Pesquisa Direta no Crediamigo. Vitória da
Conquista,Fevereiro/2012.
15
Com relação à renda líquida mensal, no Banco do Povo, 77,77% ganham até 4
salários, sendo que desses 11,11% ganham menos de 1 salário, 22,22% ganham entre 1 e 2
salários, 44,44% ganham de 3 a 4 salários. Os demais entrevistados do Banco do Povo,
ganham de 5 a 7 salários (16,67%) e de 8 a 9 salários (5,56%), conforme pode ser observado
no Gráfico 5. Anteriormente, a maior renda que recebiam era de até 7 salários (11,11%) e
menos de 1 salário havia 5,56% dos respondentes. Tais dados revelam que após o empréstimo
houve um aumento de renda dos tomadores.
Gráfico 5 – Renda Líquida (em salários mínimos)
Fonte: Pesquisa Direta no Banco do Povo. Vitória da Conquista, Fevereiro/2012
16
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
Gráfico 6 – Renda Líquida (em salários mínimos)
Fonte: Pesquisa Direta no Crediamigo. Vitória da Conquista, Fevereiro/2012
No Crediamigo, 83,33% dos entrevistados ganham até 4 salários e 16,67% até 9
salários. Anteriormente, a maior renda declarada pelos entrevistados era acima de 10 salários
(16,67%) e 50% com renda de até 4 salários (Gráfico 6).
Foram coletados também dados sobre a posse de bens de consumo duráveis e
imobilizados. Verificou-se que alguns bens os entrevistados já possuíam desde o ingresso no
Programa, tais como: Banco do Povo – carro (16,67%), ferro de passar (94,44%), fogão a gás
(100%), aparelho de som (55,56%) e TV (100%); Crediamigo – máquina de costura
(16,67%), ferro de passar (100%), fogão a gás (100%), micro-ondas (66,67%), batedeira
(91,67%), liquidificador (100%), geladeira (100%), aparelho de som (75%), rádio (100%) e
TV (100%). Alguns bens se destacam pela desproporção da média de antes com relação a
atual, exemplo: Banco do Povo – máquina de lavar (de 16,67% passou para 72,22%), microondas (de 5,56% passou para 66,67%), DVD (de 38,89% passou para 83,33%) e celular (de
22,22% passou para 94,44%); Crediamigo – moto (de 8,33% passou para 33,33%),
computador (de 33,33% passou para 66,67%).
Ainda pode-se constatar que alguns entrevistados não possuíam determinados bens
antes de ingressarem no Programa e, atualmente, possuem, tais: Banco do Povo – moto
(5,56%), notebook (11,11%) e computador (83,33%); Crediamigo – notebook (8,33%).Tais
dados apontam, portanto, para um aumento da aquisição de bens de consumo duráveis e
imobilizado, após o ingresso nos Programas.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao se analisar os dados obtidos pela pesquisa, constatou-se que o microcrédito não
contribui de fato para a mudança da realidade socioeconômica dos pequenos empreendedores
conquistenses que atuam na indústria, no comércio e no setor de serviço de as ambas
investigadas assim como queparcela significativa dos microempreendedores formais e
informais está excluída do sistema financeiro nacional. Pode-se assim considerar, de certa
forma, que os empréstimos do Banco do Povo e do Banco do Nordeste, em particular o
Crediamigo, apresentaram impacto na renda dos clientes, favorecendo a ampliação de limites
17
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
de crédito disponíveis bem como ampliação de suas atividades e geração de renda. No
entanto, não se evidenciaram maiores alterações nas condições de vida desses clientes à
exceção da aquisição de bens de consumo doméstico. No mínimo, essas condições
mantiveram-se estáveis, podendo-se dizer que, para esses beneficiários, os impactos na renda
não necessariamente resultaram em impactos de mudança socioeconômica dostomadores de
empréstimo.
O Estado desempenha papel fundamental como indutor do desenvolvimento. Diante
disso, sinalizamos para a necessidade de integração do Crediamigo e o do Banco do Povo,
que trabalham com o microcrédito, com outros programas, a fim de identificar novas formas
de atuação nas áreas de geração de renda e trabalho, infraestrutura, moradia, educação, lazer,
cultura e saúde. Consideramos ainda que o microcrédito não pode ser considerado como a
“mola propulsora” ou a base fundamental de transformação do desenvolvimento. Ele deve ser
uma ferramenta auxiliar para a promoção do desenvolvimento dos tomadores. O microcrédito,
ao lado de outras políticas públicas, tais como, promoção de programas de alfabetização e
capacitação profissional, apoio à cultura empreendedora e ao primeiro negócio, identificação
das necessidades de geração do emprego local e em consonância com a participação efetiva
da comunidade e dos governos locais, potencialmente, possui mais condições de mudar a
realidade dos cidadãos.
Alguns estudiosos consideram que os programas de microcrédito necessitam
desenvolver outras ações complementares ao crédito. Segundo Barbosa (2007), trata-se de
ampliar o universo de práticas econômicas e possibilitar ações de reconstrução de relações e
laços sociais: “[...] mas não basta facilitar o crédito, é preciso desenvolver ações que
fortaleçam a manutenção dos empreendimentos financiados, consolidem parcerias e cadeias
produtivas que coloquem em relação produtores e consumidores” (BARBOSA, 2007, p. 102).
Além disso, a política de microcrédito não pode ser visualizada sem se ter uma visão
sistêmica de todo o processo, pois tudo está interligado. O microcrédito, por si só, é um
instrumento ineficiente e inadequado, porém, ao lado de outros aparatos e ações necessárias
para o bom desenvolvimento de uma sociedade, pode ser um instrumento de fomento ao
desenvolvimento econômico e social, como bem referenciado por Santos e Nitsch (2001).
Embora o objetivoda presente pesquisa tenha sido alcançado, ela teve como
limitações algumas questões que influenciam direta e indiretamente nos resultados, tais como,
dificuldade
dos
clientes
identificarem
e
separarem,
por
exemplo,
as
despesas
18
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
pessoais/familiares e as do negócio. Esta confusão, por parte dos entrevistados, pode, de certa
forma, comprometer o resultado, não obstante, revelar suas deficiências para gerirem o
empreendimento. Por não ter havido um contato prévio do BNB com os clientes que seriam
entrevistados, houve uma relutância e/ou até recusa de alguns clientes em responder ao
questionário.
Por meio desta pesquisa, nota-se a relevância de se aprofundar o estudo sobre o
microcrédito, pois ficam questões em aberto sobre o microcrédito que tem relação com a falta
de estrutura familiar, falta de conhecimento e/ou competências necessárias para o
gerenciamento efetivo, enfim, “nuances” que vão além do que o microcrédito pode oferecer.
Para finalizar, como bem salientaram Yokomizo, Diniz e Christopoulos (2009), identificar
tais questões e solucioná-las é o desafio do microcrédito. Cabe aos acadêmicos e estudiosos
debruçarem-se sobre esse assunto para que as políticas de microcrédito tenham o real alcance,
foco e efeitos necessários para o desenvolvimento econômico e social.
REFERÊNCIAS
ALVES, Sérgio Darcy da S.; SOARES, Marden M. Democratização do Crédito no Brasil:
atuação do Banco Central. Brasília: Banco Central do Brasil, 2004.
BANCO DO NORDESTE DO BRASIL – BNB. Relatório Anual de 2010. Fortaleza: BNB,
2010. http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/o_banco/relacao_acionistas/docs/BNB_Relat
Anual2010.pdf.> Data de acesso: 31 jan 2012.
BARBOSA, R.N.C. A Economia Solidária como Política Pública: uma tendência de
geração de renda e ressignificação do trabalho no Brasil. São Paulo: Cortez, 2007.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. O Conceito Histórico de Desenvolvimento Econômico.
São Paulo: FGV-EESP, 2006.
BRUSKY, B.; FORTUNA, J. P. Entendendo a demanda para as microfinanças no Brasil:
um estudo qualitativo em duas cidades. Relatório Técnico. 2002. 65 p.
CARVALHO, Daniela M.; ARAÚJO, Elaine A.; SALAZAR, German T.; FERREIRA,
Roberto N. Ênfase dos Programas de Microcrédito em Sustentabilidade e Viabilidade
Financeira: distanciamento do objetivo social e combate à pobreza?Porta Alegre: Sociedade
Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural, 2009.
19
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no
caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
______.Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000.
DOWBOR, Ladislau. A Intervenção dos Governos Locais no Processo de Desenvolvimento.
In: CACCIA-BAVA, Silvio (Org). Desenvolvimento Local: Geração de Emprego e
Renda.São Paulo: Publicações POLIS, 1996.
FERREIRA, A. B. de H. Dicionário Aurélio Básico da Linguá Portuguesa. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1995.
FREITAS, A. A. F.; RIBEIRO, R. C. L.; BARBOSA, R. T.; PATRÍCIO, E. A. O Potencial
Empreendedor de Empreendedores Informais Clientes de Programas de Microcrédito: uma
avaliação sob as perspectivas de capital humano e gênero. In: ENCONTRO DA
ASSOCIAÇÃO
NACIONAL
DE
PÓS-GRADUAÇÃO
E
PESQUISA
EM
ADMINISTRAÇÃO, 33, 2009. São Paulo. Anais... São Paulo: ANPAD, 2009.
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 1991.
______. Como elaborar projetos de pesquisas. São Paulo: Atlas, 1994.
GOMES, Verônica de S. et al. A Influência do Microcrédito no Desenvolvimento da
Pequena Empresa. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2007.
GUARESCHI, Neuza; COMUNUELLO, LucieleNardi ; NARDINI, Milena; HOENISCH,
Júlio César. Problematizando as práticas psicológicas no modo de entender a violência.In:
STREY, M. N.; AZAMBUJA, M. P. R. de; JAEGER, F. P. Violência, Gênero e Políticas
Públicas.Porto Alegre: Edipucrs, 2004.
GULLI, H. Microfinanzas y Pobreza.¿Son válidas lasideas preconcebidas?. New York:
Banco Interamericano de Desarrolo, 1999.
LOPES, L.S. O Microcrédito como política pública de emprego e renda e o trabalho para
mulheres no mercado de trabalho informal em Fortaleza. 2007. Dissertação (Mestrado em
Políticas Públicas e Sociedade) – Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza: Universidade
Estadual do Ceará.
MAZZUTTI, C. C. de T. P. da C. Microfinanças no Brasil: afinal, existe um trade-offentre o
foco na pobreza e a sustentabilidade financeira?2005. 191f. Dissertação (Mestrado) –
Faculdade de Ciências Econômicas. Programa de Pós-Graduação em Economia. UFRGS,
Porto Alegre.
20
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
MORAES, Ana F. de M.; SOUZA JUNIOR, Armando A. de. As práticas de microcrédito
produtivo em uma empresa de Reciclagem de papel do Pólo Industrial de Manaus. In:
ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM
ADMINISTRAÇÃO, 35, 2011, Rio de Janeiro. Anais... Rio de Janeiro: ANPAD, 2011.
OFFE, Claus. O Novo Poder. Veja, São Paulo, 08 abr. 1998. Carta ao Leitor, n. 1541.
SACHS, Ignacy. Estratégias de Transição para o Século XXI: desenvolvimento e meio
ambiente. São Paulo: Studio Nobel/Fundação de Desenvolvimento, 1993.
SANTOS, C.A.; NITSCH, M. Da repressão financeira ao microcrédito. Revista de Economia
Política, v. 21, n. 4, p. 172-183, out/dez 2001.
SECURATO, J.R. Crédito: Análise e Avaliação do Risco - pessoas físicas e jurídicas. São
Paulo: Saint Paul, 2002.
SILVA, J.P. Gestão e Análise do Risco de Crédito. São Paulo: Atlas, 1998.
VASCONCELLOS, M. A.; GARCIA, M. E. Fundamentos de economia. São Paulo: Saraiva,
1998.
VENTURA, E.C. A Evolução do Crédito da Antiguidade aos Dias Atuais. Curitiba: Juruá,
2000.
YOKOMIZO, C. A.; DINIZ, E. H.; CHRISTOPOULOS, T. P. Tecnologias de Informação e
Comunicação na Oferta de Serviços Financeiros para a População de Baixa Renda: os
correspondentes bancários do Banco Lemon. In: ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO
NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM ADMINISTRAÇÃO, 33, 2009, São
Paulo. Anais... São Paulo: ANPAD, 2009.
YUNUS, Muhammad. O Banqueiro dos Pobres. 1ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2000.
_____. O Banqueiro dos Pobres. São Paulo: Editora Ática, 2002.
21
Educação, Gestão e Sociedade: revista da Faculdade Eça de Queiros, ISSN 2179-9636, Ano 2, numero 7,
setembro de 2012. www.faceq.edu.br/regs
Download

Microcrédito os dois lados da moeda maisa ferraz e