O Toque que como cuidado Francesca Bonacini Enfermeira do Hospice Casa Madonna dell’ Uliveto Albinea -Itália Annamaria Marzi Enfermeira chefe do Hospice Casa Madonna dell’Uliveto Albinea- Itália Fonte: Nurse – revista italiana www.sicp.it Tradução: Myrthes Gonzalez e Marco Guimarães Permitida reprodução do texto, desde que citadas as fontes Resumo Este artigo go nasce da experiência de uma um equipe multidisciplinar que trabalha em um hospital oncológico com pacientes em fase avançada da doença. Os pressupostos dos quais tratamos são três: 1. O contato é uma a potente forma de d comunicação, sobretudo em momentos de grande sofrimento e fragilidade como o fim da vida; 2. Cada dia, em cada ação de cuidado, tocamos as pessoas doentes muitas vezes com pouca consciência do significado dos nossos nos gestos; 3. Podemos aprender a nos comunicar melhor através do contato. Partindo da prática tica quotidiana, da revisão revis bibliográfica e de um intenso workshop work que foi oferecido para a equipe com uma especialista pecialista em haptonomia, afrontamos um tema crucial para assistência à saúde, desde sempre implementado com espontaneidade e competência,, mas ma talvez não ainda como um tema central de estudo o e reflexão na Itália. Página Summary This article is born from the experience of one multidisciplinary team that operates in the within of a hospice for oncologic sick in advanced phase of disease. 1 Palavras chaves: tato, haptonomia, aptonomia, cuidados paliativos. The supposition ones that they feed it are three: 1) The contact is a powerful shape of communication, above all in moments of great weakness and embrittlement like the end of the every life day; 2) In every action of cure we touch the sick persons, to times with a insufficient knowledge of the mean one of our gestures; 3) We can ourselves be learned to communicate better through the contact. From the practical daily, from the review of the intense and meaningful literature and a work-shop for the team with one expert in aptonomia a crucial topic for the attendance is faced, from always churns with spontaneity and competence, but perhaps not still object of study and reflection in Italy. Key words: touch, aptonomia, palliative care. INTRODUÇÃO “Existir é também ter alguém que te acaricia, que te toca.” (Annie Ernaux) A empatia na relação, mesmo permanecendo um mistério apesar das análises e das pesquisas, se manifesta através da expressão comportamental da compreensão (1). O cuidar de uma pessoa em fase avançada de doença exige do enfermeiro a capacidade de compreensão do significado único da experiência passada e presente vivida pelo doente. A filosofia de Buber e Van Kamm(2) pode nos fornecer uma base para entender a experiência empática na relação de ajuda. Com a finalidade de construir um procedimento para comunicar empatia à pessoa assistida, Van Kamm identifica as componentes perceptivas desta experiência que se realiza pelo doente: • • • • • • • Poder compartilhar com outra pessoa o significado do que se vive; Sentir-se aceito pelo outro em seus sentimentos ou experiência; Acolher alguns sinais comportamentos que assinalam a compreensão do outro; Encontrar segurança na relação graças à compreensão oferecida; Sentir-se aliviado de um peso e perceber este alívio na forma de bem estar; Sentir satisfação; Encontrar alívio da solidão. Página A maior parte dos comportamentos e das aproximações empáticas não são verbais; os gestos podem ser funcionais, buscando o conforto, com um papel fundamental. O contato físico, real, com o paciente tem o poder de comunicar sensações. 2 Se a pessoa assistida experimenta ao menos algumas destas sensações, o enfermeiro conseguiu se relacionar de forma empática. O comportamento comunicativo realizado através do toque, que procura dar alívio e apoio, é considerado essencial nos cuidados do doente de câncer. O toque, de fato, parece ter um papel importante que vai ao encontro as necessidades cognitivas e afetivas dos pacientes(3). O CORPO DOENTE E A RELAÇÃO DE CUIDADO Quais são as características de uma relação mediada pela corporeidade? Quais aspectos envolvidos? assistenciais específicos estão O corpo representa o nosso primeiro contato como o mundo. É, antes de tudo, através do corpo que iniciamos e desenvolvemos as nossas relações: para corpo que se comunica é necessário outro que saiba dar sinais de que recebe, que saiba ser “ponte” também quando o outro parece ser dificilmente atingível e compreensível. Quando o corpo torna-se um corpo doente, a relação inicialmente natural se confunde e se altera, se complica. Em uma condição de doença, de sofrimento, de mutilação, o corpo se transforma, a receptividade relacional se estabelece sobre outros canais, caem as defesas. Com diferentes graus, são admitidos e tolerados uma série de “invasões externas” com respeito ao próprio corpo (se pensarmos nos exames diagnósticos e nas manobras terapêuticas) e nas relações que este fato estabelece. Algumas destas relações são fruto de uma obrigação, não foram desejadas, ou não foram pedidas. Por estas razões, o trabalho de quem dá assistência pede um uso consciente dos sentidos, em particular do contato corpóreo. A mão de quem ajuda pode tornar-se assim um “ouvido-psico-tátil”, uma escuta da necessidade do outro (4). Os principais gestos desta mão, que abarcam os movimentos funcionais, expressivos ou de conforto e produzem na pessoa um aumento das respostas positivas, apoiando a sua vulnerabilidade física e emotiva. Uma mão prudente e respeitosa, que sabe tocar comunicando e sabe modular, através do toque, diversos graus de empatia de acordo com a necessidade da pessoa, confirmando a ela que existem pessoas que a cuidam. A linguagem do corpo é o ponto chave na assistência ao paciente terminal. A natureza e a sabedoria afetiva expressa por quem cuida transformam-se em um veículo de uma linguagem que, através do amor, pode acolher o corpo ferido e restituindo-lhe a sua identidade, a sua dimensão humana (5). HAPTONOMIA COMO “CARING TOUCH” A comunicação através do contato é a forma de comunicação mais antiga, ancestral, vivida e experimentada da por todos quando éramos crianças: perguntas silenciosas e necessidades dirigidas a mondo circundante recebiam como resposta sensações de satisfação ou frustração, de alegria ou dor. Infelizmente ao nos tornamos adultos esta competência comunicativa e perceptiva nem sempre permanece (4). A haptonomia é principalmente aplicada à relação entre pais e filhos, no nascimento e período pósnatal, mas, da mesma forma, pode ser utilizada no final da vida. Página (do grego hapsis, “toque” e nomos, “regra”) que iniciou com Frans Veldman, médico holandês. 3 A ciência da afetividade expressa através do contato, definida por Marie de Hennezel, em um seminário sobre “Aproximação psico-tátil ao moribundo” é a haptonomia Quem se aproxima da morte tem necessidade de comunicar-se de sentir-se amado, respeitado e ajudado com ternura. As percepções sensoriais estão no centro da afetividade e esta se amplifica nos momentos da vida nos quais somos mais vulneráveis (início e fim) e temos mais necessidade de contato. A haptonomia, enquanto ciência da afetividade nos ensina como um contato definido como psicotátil é capaz de restituir à pessoa, mesmo moribunda, aquilo que necessita: a percepção da própria integridade, a reconfirmação de seu valor, de sua dignidade, de sua singularidade, através do contato reconfortante e seguro confirma a presença do outro. Por que tocar é acolher e receber intencionalmente, significa reconhecer e encontrar não um corpo, mas uma subjetividade. Neste sentido, o encontro haptonômico não é centrado sobre o “tato”, mas sobre a presença de quem cuida (4). GESTOS COTIDIANOS COMO GESTOS DE CUIDADO O enfermeiro é um entre os poucos profissionais autorizados a tocar, mas o contato físico, como parte da prática assistencial, começou a desaparecer nos hospitais quando a gestão do tempo e a tecnologia assumiram prioridade em relação ao “contato” individual com o doente (6). O enfermeiro, junto com o técnico de enfermagem e ao médico, torna-se a pessoa que, mais do que ninguém, toca no doente: cada ação de assistência, cada gesto de cuidado instaura um contato íntimo com o corpo. Tocamos, de fato, o corpo e a psique do doente, nos expondo a uma relação íntima e intensa. No auscultar um tórax, no medicar uma lesão, no examinar o abdome do doente, no cuidar da higiene, no massagear… podemos enviar mensagens de aproximação ou distanciamento, de disponibilidade ou fechamento, de confiança ou insegurança, podemos remeter a uma sensação de apoio e acolhimento ou de abuso e violência. Tocar pressupõe confiança, e esta se constrói juntos, pacientemente, amorosamente, é o contrário do medo (4). “Tocar é descobrir-se confiante no que diz respeito à intimidade: não é possível tocar sem ser tocado”. Página 4 A CONSCIÊNCIA DE SI MESMO NO CONTATO Como descobrimos em nossa experiência profissional em hospitais, formar-se para a relação e para o contato com os outros requer também conhecer melhor a si mesmo; reconhecer o próprio mundo emotivo, os próprios medos, projeções, repulsas, resistências, para entrar em relação com o corpo doente mais consciente, dando um verdadeiro cuidado materno e de aceitação que predispõe à confiança e consente contatar a pessoa em sua inteireza e subjetividade. “Na violência do meu gesto ou em sua delicadeza, em sua tonalidade decidida ou incerta existe toda a minha biografia, a qualidade de minha relação com o mundo, o meu modo de oferecer-me. Atravessando toda existência e a carne, a gestualidade cria aquela intimidade que chamamos corpo que dispõe de gestos, mas são os gestos que fazem nascer um corpo da imobilidade da carne” (7). EXPERIÊNCIA ASSISTENCIAL Permanecem impressas na memória numerosas historias e pessoas com as quais o contato teve um papel particularmente significativo: • situações onde da vida cotidiana, onde houve um cuidado atento e delicado do corpo, o contato tornando-se mediador indispensável das relações; • uma confiança mais natural que lenta e insistentemente, com paciência e atenção, se soma à aceitação dos gestos de cuidado, que ajuda a superar as fortes resistências iniciais; • muitos se abstiveram o mais possível do contato por pudor, deixando-o para o espaço reservado da cumplicidade conjugal; • momentos em que, em condições de grande sofrimento físico ou psicológico, o contato e o olhar transformam-se em mensageiros de uma comunicação profunda, de uma troca mão a mão, pele a pele e, por que não, de coração a coração. Os resultados do caring touch documentados na literatura e são: estão • Melhora do conforto • Segurança • Aumento da autoestima (8) • Desenvolvimento de sintonia com o paciente (9,10) • Tratamento do paciente como pessoa única (9,11) Página É importante no acompanhamento dos familiares, se não encontramos estas condições, fazer uma espécie de “reeducação” ao contato, à aproximação, para ajudar as pessoas queridas a estarem presentes, se o quiserem, na ternura e na doçura; dar a eles a “permissão” de tocar, ajudá-los a compreender e aceitar de novo um corpo diferente, que se apresenta cansado, prostrado, desconhecido; envolve-los nos gestos de cuidado, de auxilio, conscientizá-los de que aquele corpo está vivo, presente, palpitante, sedento de amor, com desejos e emoções; legitimando carícias, sussurros e lágrimas. 5 ENVOLVER OS FAMILIARES? CONCLUSÃO “O tempo do cuidado é precioso e lento, uma dedicação atenta às pequenas coisas, aos movimentos imperceptíveis do coração. A capacidade de cuidado nas relações terapêuticas é antes de tudo uma forma de ser, antes de dizer ou fazer. Um modo de ser que comunica com tal profundidade, que ilumina o ser e o fazer” (12). No acompanhamento dos doentes terminais o toque-massagem consente a comunicação através daquele que é o último sentido a desaparecer. O cuidado de um doente, transformado, ferido, que se realiza através de um tato doce, quente, seguro, pode restituir a dignidade e a identidade, libertar ao invés de aprisionar, reestruturar, reconstruir, unificar a imagem do próprio corpo, reconhecendo as partes vivas, presentes e aquelas que estão tensas, amedrontadas, modificadas (13). Quantas vezes gestos feitos com pressa, velozes, fugidios, se não, humilhantes, frios, ameaçadores, podem ofender ou produzir mais sofrimento? A pergunta continua: quantos dos que trabalham com cuidado são conscientes de que o corpo doente tem necessidade de acolhimento, percepção, cuidado, que o pedido a quem cuida pode ser também de uma mão que pare, pouse a mão sobre o corpo, espere de forma respeitosa, que existe um acompanhamento que se modula também através o contato psico-tátil? O quanto pessoas que dão assistência percebem a necessidade de modificar sua forma de tocar, não um corpo, mas uma pessoa com a qual vai entrar em relação? Página Gostaríamos de citar o editorial de Cristina Coppi, no Geriatric Nursing-Notizie, que cita Archibold Cochrane, fundador do movimento que resultou no EBM, e o primeiro a sustentar a necessidade do contato físico com o paciente. “É surpreendente pensar que, o próprio fundador da medicina baseada sobre provas de eficácia e não sobre opiniões, nos recorde de como é indispensável usar toda a nossa experiência de vida para dar assistência, sem esquecer nunca que no leito existe uma pessoa que sofre física e animicamente.” Na biografia de Cochrane está descrito um significativo episódio sobre a importância de abraçar os que sofrem: 6 É necessário tempo para entender esta necessidade, para entrar delicadamente na relação com o outro em “um contexto de consenso e respeito à dignidade e vontade da pessoa. Ela deve sentir-se bem também para rejeitar o contato sem o medo de desiludir o outro” (14). …Um prisioneiro soviético moribundo foi levado por Cochrane no campo de prisioneiros de Wittemberg, na Alemanha. A enfermaria estava cheia e o moribundo urrava. Cochrane o coloca em sua sala para não perturbar os outros prisioneiros e o examinou diagnosticando uma grave tuberculose nos dois pulmões e pleurite. Concluindo que a pleurite era a causa da dor lhe deu aspirina, não obtendo melhora. Não sabia o que fazer. Instintivamente abraçou o prisioneiro que imediatamente parou de chorar e morreu pacificamente horas depois. “Não era a pleurite que causava os gritos, mas o abandono”. Quem trabalha com cuidados, redescobre em si a paixão de ir ao encontro do outro e deveria acreditar nas palavras de Proust quando afirma que “uma hora não é somente uma hora, é um vaso cheio de perfumes, de sons, de projetos, de climas”. Pensando no corpo como ainda capaz de ter prazer, de emocionar-se, de apreciar sensações e como testemunha ainda viva de uma historia única e interessante, podemos verdadeiramente dedicarmo-nos para tornar o tempo do cuidado um tempo intenso e significativo, dedicando-nos a nutrir aquele corpo, feito de carne, ideias, emoções, tensões entre finito e o infinito “(12). Na relação haptonômica muitas vezes os gestos são simples, o que conta é a motivação, a intencionalidade, a vontade de ir em direção do outro: uma mão que oferece um toque delicado, mas seguro; um olhar empático, um sorriso quente, uma massagem lenta, um banho relaxante, uma coberta mais macia, a luz de uma vela, uma música agradável, um creme, um óleo, um perfume delicado, um abraço… Vão comunicar a nossa memória afetiva que viemos ao mundo com a ajuda de mãos qualificadas que nos guiaram no encontro com a vida. Permitida reprodução do texto, desde que citadas as fontes. Página 1. Tyner R. 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