História e Escatologia1
Introdução:
Uma das questões que mais cedo ou mais tarde todos nós tendemos a enfrentar
diz respeito ao sentido da vida, de nossa existência e da história.
Qual o significado da vida?
A história faz sentido?
A história caminha ao acaso ou tem um propósito?
Analisemos estas questões pela perspectiva bíblica.
1. A Visão Cristã da História:
A História é a execução do Plano de Deus, conduzindo todos os acontecimentos
para a Sua Glória. A História caminha rumo à eternidade – não de forma necessária,
deteriorante ou aperfeiçoante –, mas progressiva e realizante. Com isto queremos
dizer que o homem não está necessariamente pior nem melhor, mas que, o hoje, independentemente disto, está mais próximo do fim, do que ontem (Rm 13.11). Observe que nesta afirmação Deus esta essencialmente pressuposto. Sem a compreensão de um Deus infinito – Todo-Poderoso que transcende a história – e pessoal –
que se relaciona conosco de forma amorosa e inteligente –, a história nunca fará
sentido, exceto dentro de um quadro de referência moldado estoicamente pela aceitação das contradições ou, simplesmente, pela total aceitação da falta de sentido. A
história, para nós cristãos, encontra o seu sentido nas Escrituras. Ali temos uma amostragem clara e objetiva que nos permite analisar os fatos, certos da direção de
2
Deus e do triunfo de Seu propósito.
Muitas vezes a Igreja se angustia por não entender a História como o Reinado de
Cristo; nesta falta de perspectiva, a Igreja se apavora diante das mudanças que ocorrem cada vez mais intensamente em todos os setores da vida.
A verdade sustentada pela igreja tem o seu lugar na história; ela aponta de forma
definida para o post-histórico; quando a veracidade de seus ensinamentos poderá,
finalmente, ser verificada à luz do eterno.
1
Aula ministrada para as Classes de Homens, Senhoras e Jovens da Igreja Presbiteriana em São
Bernardo do Campo, São Paulo, em 27/04/08.
2
“Tente explicar a história deste mundo excluindo Deus! Você não conseguirá. A Bíblia é o
melhor livro de História que existe. É nas suas páginas que você realmente começa a entender a História” [David Martyn Lloyd-Jones, Uma Nação sob a Ira de Deus: estudos em Isaías 5, 2ª
ed. Rio de Janeiro: Textus, 2004, p. 71].
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“Deus está – diz Hoekema – desenvolvendo seu plano na história. Indivíduos
podem rebelar-se contra Deus e tentar frustrar seu plano. Outros tentarão realizar sua vontade e viver para o progresso do seu reinado. Em ambos os ca3
sos, Deus permanece no controle”.
Jesus é o sinal definitivo da dimensão do eterno na História; nEle – na encarnação – a História encontrou o seu sentido e nEle – no Seu regresso triunfante –, ela
terá a sua consumação.
Como sinal do eterno no tempo, Deus estabelece a Sua Igreja, planejada na eternidade e formada no tempo, a qual revela a “multiforme sabedoria de Deus” (Ef 3.813): A Igreja é o sinal do eterno no tempo; é Deus se agenciando no mundo por
meio dela. A Igreja luta agora no mundo contra os poderes demoníacos, todavia, em
essência ela pertence à era por vir, visto ser filha da eternidade e não do tempo. Ela
é na presente era a manifestação do Reino: “A igreja é o centro vivo e ardente
do reino, uma testemunha de sua presença e poder, e um precursor de sua
4
vinda final”.
Devemos ressaltar que quando falamos da Igreja que é alvo do estudo histórico,
5
referimo-nos não à “Igreja Invisível”, o Corpo de Cristo, mas à “Igreja Visível”, histórica, com suas assimilações culturais, sendo agente de transformação e também
de acomodação cultural.
A interpretação cristã da História tem algumas características que devem ser des6
tacadas.
A. A HISTÓRIA E A QUEDA:
Se não compreendermos o fato bíblico da Criação e da Queda, do pecado do
homem como um distúrbio de alcance cósmico, que afetou drasticamente todas as
relações, a começar entre a criatura e o Criador, jamais poderemos ter condições de
entender o significado da História; teremos um grande quebra-cabeça diante de nós
faltando algumas peças que não podem ser deduzidas intuitivamente; a História da
humanidade sem a Revelação Bíblica carece de total sentido.
D.M. Lloyd-Jones (1899-1981), conclui:
"O importante princípio que devemos manter sempre vívido na mente é
que a única maneira de entender a longa história da raça humana é darse conta de que ela é resultado da Queda. Essa é a única chave da história, de qualquer espécie de história, tanto da história secular como desta
3
A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, p. 38.
4
Enrique Stob, Reflexiones Éticas: Ensayos sobre temas morales, Grand Rapids, Michigan: T.E.L.L.,
1982, p. 68.
5
6
Quanto à distinção Vd. Confissão de Westminster, Cap. 25.
Sigo aqui em boa parte o esquema de Hoekema (Cf. A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 38ss.).
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história mais puramente espiritual que temos na Bíblia. Não se pode entender a história da humanidade se não se leva em conta este grande
princípio. A história é o registro do conflito entre Deus e Suas forças, de um
lado, e o diabo e suas forças, de outro; e o grande princípio determinante
é de imensa importância, não só para entender-se a história passada,
como também para entender-se o que está acontecendo no mundo hoje. É, igualmente, a única chave para compreender-se o futuro. Ao mesmo
tempo, é a única maneira pela qual podemos compreender as nossas experiências pessoais”7
B. A HISTÓRIA É UM DESENVOLVIMENTO DOS PROPÓSITOS DE DEUS:
Philip Schaff (1819-1893) falando sobre a natureza da história da Igreja acentua que “o primeiro Adão é um tipo do segundo Adão; a criação olha para a
8
A história da Igreja é guiada
redenção como a solução de seus problemas”.
de forma direta ou indireta pela compreensão do plano de Deus na História. John A.
Mackay (1889-1983) declarou que “o conceito da história e do progresso históri9
co é uma criação do cristianismo”.
A Bíblia é em grande parte o registro interpretativo e inspirado dos atos salvadores de Deus na História.
A História revela Deus e Seus propósitos. “As coisas não acontecem por acaso. Os acontecimentos não são simplesmente acidentais, porque há um plano definido na história e tudo foi pré-organizado desde o começo. Deus que
‘vê o fim desde o princípio’ tem um propósito em tudo, e conhece ‘tempos
10
ou épocas’”. (Rm 8.28-30; 13.12; At 1.6,7). Do mesmo modo, descrevendo o
sentido da história, diz Ramm: “A história tem um começo teológico na criação, e um fim teológico na escatologia. E entre os tempos primeiro e último,
se cumprem os propósitos de Deus na redenção, a revelação e a formação
11
de uma comunidade redimida”.
7
D.M. Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p.
72.
8
Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers,
1996, Vol. I, p. 3.
9
Juan A. Mackay, Introducción A La Teología Cristiana, México/Buenos Aires: Casa Unida de Publicaciones/La Aurora, 1946, p. 88.
10
11
D.M. Lloyd-Jones, Do Temor à Fé, Miami: Editora Vida, 1985, p. 21-22.
Bernard Ramm, La Revelacion Especial y la Palabra de Dios, Buenos Aires: Editorial La Aurora,
1967, p. 100.
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C. DEUS É O SENHOR DA HISTÓRIA:
“Deus — diz D’Aubigné – deve ser reconhecido e proclamado na história.
A história do mundo deve ser assinalada como os anais do governo do Rei
12
Soberano”.
Os atos livres dos homens concorrem de uma forma ou de outra, para a execução
do Plano de Deus. A Bíblia relata que apesar dos irmãos de José intentarem o mal
contra ele, Deus realizou a Sua obra por intermédio deste ato invejoso (Gn 45.5-8;
50.19,20; Sl 105.17). No Novo Testamento, vemos que os homens mataram a Jesus
Cristo, entretanto, eles cumpriram livremente a vontade de Deus (At 4.27-28/2.23/Jo
13
10.17-18).
Mesmo que não possamos discernir o propósito de Deus em todos os atos da história, não podemos duvidar dele. Deus controla o Seu povo e os seus inimigos; não
14
há força neste mundo que não esteja sob o domínio de Deus. O fato de não entendermos perfeitamente os propósitos de Deus, é inteiramente natural, afinal, Deus
é o Senhor Eterno e Onisciente; os caminhos de Deus não são os nossos caminhos;
15
a Sua mente é inescrutável (Is 55.8,9; Rm 11.33).
“Nem sempre – escreve Hoekema – podemos ser capazes de discernir o
propósito de Deus na história, mas que esse propósito existe é um aspecto
16
primordial de nossa fé”.
Da mesma forma, pregando no Salmo 73, Lloyd-Jones, interpreta:
“Creio que muitos de nós entramos em dificuldade porque esquecemos
que o de que estamos tratando é a mente de Deus, e que a mente de
Deus não é como a nossa. Desejamos que tudo esteja pronto, enxuto e
fácil, e achamos que nunca deveriam existir quaisquer problemas ou dificuldades. Mas, se há uma coisa ensinada com mais clareza do que qualquer outra na Bíblia, é que nunca ocorre deste modo em nossas relações
com Deus. Os caminhos de Deus são inescrutáveis; Sua mente é infinita e
eterna, e Seus propósitos são tão grandes que as nossas mentes pecami12
J.H. Merle D’Aubigné, História da Reforma no Décimo-Sexto Século, São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, (s.d.), Vol. I, p. 9.
13
“Os ladrões e os homicidas, e os demais malfeitores, são instrumentos da divina providência, dos quais o próprio Senhor Se utiliza para executar os juízos que em Si determinou” (João
Calvino, As Institutas, I.17.5). Comentando a investida de Satanás contra Jó, arremata: “Concluímos
que desta provação de que Satanás e os perversos salteadores foram os ministros, Deus foi o
autor” (Calvino, As Institutas, I.18.1). Vd. também: Calvino, As Institutas, I.18.2.
14
Lloyd-Jones, comentando o Livro de Habacuque, afirmou: “Deus controla não somente a Israel, mas também seus próprios inimigos, os caldeus. Toda nação da terra está sob a mão divina, porque não há poder neste mundo que, em última instância, não seja por Ele controlado” (D.M. Lloyd-Jones, Do Temor à Fé, p. 31).
15
16
Vd. João Calvino, As Institutas, I.17.2.
A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 41.
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nosas não os podem entender. Portanto, quando um Ser assim está tratando conosco, não nos deve causar surpresa se, às vezes, acontecem
17
coisas que nos deixam perplexos”.
D. DEUS É O CENTRO DA HISTÓRIA:
Sem a Pessoa de Cristo a História permanece como um enigma para todos
nós. Jesus Cristo é o centro não apenas do calendário; Ele é de fato o centro significativo da História (Gl 4.4), assinalando que o grande evento, o evento central da História aconteceu: o tempo se cumpriu (Plh/rwma tou= xro/nou). “Jesus Cristo é o
centro para onde tudo converge. Quem O conhece, conhece a razão de
18
todas as coisas”.
O evento de Cristo como fato inconteste dá significado histórico ao nosso hoje existencial; à esperança dos que O antecederam em sua peregrinação histórica (Hb
11) e, à nossa esperança, que se fundamenta na vida, morte e ressurreição de Cristo, conforme o registro inspirado do Evangelho (1Co 15.1-19). A expectativa do futuro está fundamentada nos eventos do passado que, hoje, fazem uma diferença qualitativa na nossa perspectiva de vida. Por isso Paulo diz: “Se Cristo não ressuscitou,
é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que
dormiram em Cristo, pereceram (...). Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos que amanhã morreremos” (1Co 15.17,18,32). Todavia, Paulo não trabalha
com esta hipótese, porque ele crê no fato da ressurreição de Cristo, que foi o coroamento do Seu ministério terreno: “Antes de tudo vos entreguei o que também recebi; que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, que foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras (...). Mas de fato Cristo
ressuscitou dentre os mortos, sendo Ele as primícias dos que dormem” (1Co
15.3,4,20).
Sem Cristo não há futuro para nenhum de nós: O nosso futuro ampara-se nos feitos de Cristo.
G.C. Berkouwer (1903-1996) comenta:
“A promessa do futuro está inextricavelmente conectada com eventos
do passado. A expectação cristã é algo muito diferente de uma generalização tal como: ‘as sementes do futuro estão no presente’. É algo completamente determinado pela relação única entre o que está por vir e o
que já aconteceu no passado. Toda a certeza da nossa expectação está
fundamentada nesta relação peculiar....
17
D. M. Lloyd-Jones, Por Que Prosperam os Ímpios?, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1983, p. 14-15.
18
Blaise Pascal, Pensamentos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, XVI), 1973, VIII, 556. p.
178.
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“Escatologia verdadeira, portanto, ocupa-se sempre com a expectação do Cristo que já foi revelado e que ‘aparecerá segunda vez.... aos
19
que o aguardam para a salvação’. (Hb 9.28)”.
Jesus veio conforme as Escrituras (1Co 15.3,4), foi visto ressurreto em ocasiões
diferentes por diversas pessoas e, de uma só vez por mais de quinhentas pessoas
(1Co 15.5-8). Isto dá fundamento à história da esperança do povo de Deus (1Co
15.14,17,19,20). A história registra a vitória de Cristo sobre a morte (1Co 15.21,22),
Satanás (Jo 12.31), e sobre todos os poderes que lhe são hostis (Cf. Cl 2.15).
“Sem o conhecimento de Cristo pela fé a esperança se torna uma utopia
20
que paira em pleno ar”. Todavia, nós que conhecemos a Cristo pela graça de
21
Deus (Mt 16.17/Mt 11.27), temos a nossa esperança bem fundamentada. “Se a
nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de
todos os homens” (1Co 15.19).
E. A NOVA ERA FOI INSTAURADA:
Isto significa que em Cristo teve início uma nova era da qual participam ativamente todos os que crêem nEle. A nossa velha condição apontava para o domínio
que o pecado tinha sobre nós (Jo 8.34; Rm 6.19-23). A nossa nova condição indica
a realidade da nossa existência atual; sob o domínio de Cristo (Rm 6.22; 1Co 7.2123; Gl 1.4; Ef 2.5-6; Cl 1.13). “‘Novo homem’ – interpreta Hoekema – significa,
22
necessariamente, a pessoa, como um todo, guardada pelo Espírito Santo”.
À frente continua: “O crente deve ver-se como alguém que não é mais es23
cravo da carne, e sim uma pessoa livre no Espírito”.
A nova era que foi instaurada, caracterizada pela ação libertadora do Espírito,
conclama a todos aqueles que foram alcançados pela graça, a transformarem a história por intermédio da sua vida e testemunho; daí a palavra de Paulo, falando de
24
25
transformação (metamorfo/omai), não de acomodação (susxhmati/zomai) aos
valores deste mundo (Rm 12.2). A Igreja – sendo constituída de pecadores regenerados –, é intimada a agir no mundo, com os valores eternos do Reino, numa nova
era que foi instaurada. Jesus Cristo orando pelos Seus discípulos, diz: “Eles não são
do mundo como também eu não sou (...). Assim como tu me enviaste ao mundo,
19
20
G.C. Berkouwer, The Return of Christ, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1975, p. 12-13.
J. Moltmann, Teologia da Esperança, São Paulo: Herder, 1971, p. 7.
21
“Não nos é possível servir nem adorar a um Deus desconhecido, nem depositar nEle a
nossa confiança” (A.W. Pink, Os Atributos de Deus, São Paulo: PES. 1985, p. 5).
22
A.A. Hoekema, O Cristão Toma Consciência do Seu Valor, Campinas, SP.: Luz para o Caminho,
1987, p. 46.
23
24
25
Ibidem., p. 51.
* Mt 17.2; Mc 9.2; 2Co 3.18.
O imperativo precedido de uma negativa, indica que a ação costumeira deve ser interrompida ou
descontinuada, se moldando a um novo método. (Além daqui aparece apenas em 1Pe 1.14).
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também eu os enviei ao mundo” (Jo 17.16,18). O apóstolo João exorta: “Não ameis
o mundo nem as cousas que há no mundo (...) o mundo passa, bem como a sua
concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1Jo 2.15,17).
2. O Propósito de Deus em Seu Governo:
Qual o propósito de Seu governo? Para respondermos esta questão, temos que
nos lembrar de que Deus não revelou tudo a respeito de Si mesmo em Sua Palavra;
por isso, nós só podemos falar dos objetivos expressos na Revelação Bíblica, sabendo, também, que a Verdade revelada, não é menos verdade que a Verdade encoberta: Toda verdade procede de Deus que é o Seu Autor! Assim, estabelecidos os
parâmetros do nosso estudo, podemos enumerar alguns objetivos revelados na Palavra de Deus:
A. A FELICIDADE E REALIZAÇÃO DO SEU POVO:
“O mundo foi originalmente criado
para este propósito, que todas as partes
dele se destinem à felicidade do homem como seu grande objeto” – João
Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 8.6),
p. 172.
Deus dirige todas as coisas objetivando a realização do Seu povo. A questão
é: que realização é essa? Paulo escreve: “Aos que de antemão conheceu, também
os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja
o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29). É o Espírito Quem nos conduz à conformidade da imagem de Cristo, que é o nosso modelo por excelência; a meta definitiva de todo povo de Deus. Portanto, a felicidade e realização do povo de Deus consistem em ser conforme a imagem de Cristo. Neste sentido, todas as coisas coope26
ram para o bem dos que amam a Deus, até mesmo as aflições (Sl 84.11; Jr 29.11;
31.3; Jo 14.27; Rm 2.4; 5.1; 8.28).
26
“Os sofrimentos desta vida longe estão de obstruir nossa salvação; antes, ao contrário,
são seus assistentes. (...) Embora os eleitos e os réprobos se vejam expostos, sem distinção,
aos mesmos males, todavia existe uma enorme diferença entre eles, pois Deus instrui os crentes pela instrumentalidade das aflições e consolida sua salvação. (...) As aflições, portanto,
não devem ser um motivo para nos sentirmos entristecidos, amargurados ou sobrecarregados, a menos que também reprovemos a eleição do Senhor, pela qual fomos predestinados
para a vida, e vivamos relutantes em levar em nosso ser a imagem do Filho de Deus, por
meio da qual somos preparados para a glória celestial” [João Calvino, Exposição de Romanos,
São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.28,29), p. 293,295]. Ver também: J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.28), p. 295.
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B. O ESTABELECIMENTO DE NOVOS CÉUS E NOVA TERRA:
O futuro não está nas mãos dos homens (isto geraria confusão); nem nas mãos
de Satanás (isto acarretaria destruição); nem depende de nenhum determinismo histórico que nos conduziria cegamente à frente. O que a Palavra nos ensina é que o
nosso passado, presente e futuro estão nas mãos de Deus, Aquele que nos guia em
27
sabedoria, justiça e amor.
Como já observamos, a história aponta para a consumação; não de forma evolutiva ou aprimorada, mas progressiva e realizante. Com isso quero dizer, que a história não é o registro da evolução humana para um ideal; pois de fato não é; contudo a
história está em franco progresso rumo à execução do propósito de Deus. “É totalmente estranho à fé cristã a idéia de que o reino de Deus se efetiva por
28
meio de um processo cósmico evolucionista e interior”. A história caminha
para uma redenção cósmica: todo o universo – que foi afetado pelo pecado – será
redimido (Gn 3.17,18; Rm 8.19-23/Ef 1.9,10; Cl 1.19,20). “Toda a história deve ser
29
vista como o desenvolvimento do propósito eterno de Deus”. Por outro lado,
como bem acentuou Hoekema, pelo fato de termos esta perspectiva correta, “não
significa que nós podemos ver sempre, exatamente, como cada evento histórico está relacionado com o alvo da história, uma vez que isso, muitas vezes, é extremamente difícil. Mas significa entretanto, que ao lermos as manchetes, ouvirmos o noticiário e lermos as revistas informativas, devemos crer
que o Deus da história está sempre no controle, e que a história está se mo30
vendo firmemente para seu alvo”.
De fato, a História é o registro dos atos soberanos de Deus direcionados para o
fim que Deus lhe propôs (1Co 2.9; Ef 3.20,21).
Este “fim” está associado ao regresso triunfante de Cristo. Jesus ensinou de forma definitiva a respeito da Sua Segunda Vinda. Ele se valeu de afirmações diretas e
de parábolas para transmitir esta verdade aos Seus discípulos, confortando-os e os
alertando quanto à necessidade de estarem sempre vigilantes para receberem o
Seu Senhor (Vd. Mt 19.28; 24.32-44; 45-51; 25.1-13; Lc 17.24; Jo 14.1-3, etc.).
Esta certeza está expressa em todas as partes do Novo Testamento: Os apóstolos ensinaram esta doutrina – fazendo parte essencial de sua pregação – como fruto
de suas convicções, e a Igreja vivia na expectação da bendita esperança do regresso glorioso de Cristo (Vd. At 1.11; Fp 1.6,10; 3.20; 1Ts 1.9,10; 4.13-18; 2Ts 1.7,10;
Tt 2.13; Tg 5.7-9; Hb 9.28; 10.37; 1Pe 1.7,13; 2Pe 1.16; 3.1-10,12; 1Jo 2.28). Ali27
Vd. João Calvino, As Institutas, I.17.11. “O sentido da história é incompleto à parte da vontade e do objetivo de Deus. A história está nas mãos de Deus, como ocorre com o significado mais profundo de toda a vida humana. O nexo natural-histórico todo funciona segundo
as ‘leis’ de Deus” (Benjamin Wirt Farley, A Providência de Deus na Perspectiva Reformada: In: Donald K. Mckim, ed. Grandes Temas da Tradição Reformada, São Paulo: Pendão Real, 1999, p. 74).
28
29
30
Gustaf Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 147.
A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 74
A.A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro, p. 47.
História e Escatologia – Rev. Hermisten – 3/5/2008 – 9
mentada por esta fé, fundamentada na palavra de Cristo, a Igreja nunca duvidou da
Sua vinda; esta é a porção dos incrédulos escarnecedores (2Pe 3.3-9).
Os escritos do Novo Testamento quando olham para o futuro, para o regresso do
Messias (= Cristo), falam da vinda daquele que já veio; “não é uma pessoa desconhecida, àqueles que o aguardam. Ele é tão bem conhecido por eles
31
como eles são para Ele (cf. Jo 10.14)”.
C. A SUA PRÓPRIA GLÓRIA:
O Plano de Deus tem como fim primordial a Sua própria glória. Na Providência
encontramos a eterna eficácia e perfeição dos Seus santos propósitos: a Sua retidão
de caráter; o Seu conhecimento e Sabedoria; a Sua bondade, amor e justiça. Deus
objetiva a Sua glória, porque não há nada maior do que ela. Não procurar a Sua gló32
ria, significa negar que Ele seja o Senhor da glória.
A História caminha de forma misteriosa; porém efetiva para o momento do reco33
nhecimento público e universal da glória de Deus! (Rm 14.11,12; Fp 2.5-11).
No Catecismo de Genebra, nas primeiras duas perguntas, lemos:
“Mestre: Qual é o fim principal da vida humana?
Discípulo: Conhecer os homens a Deus Seu Criador.”
“Mestre: Por que razão chamais este o principal fim?
Discípulo: Porque nos criou Deus e pôs neste mundo para ser glorificado
em nós. E é coisa justa que nossa vida, da qual Ele é o começo, seja dedi34
cada à Sua glória”.
Em outro lugar: “Sabemos que somos postos sobre a terra para louvar a
Deus com uma só mente e uma só boca, e que esse é o propósito de nossa
35
vida”.
31
K.H. Rengstorf, Jesus Cristo: In: Colin Brown, ed. ger. Novo Dicionário Internacional de Teologia
do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, Vol. II, p. 491.
32
Vejam-se: J.I. Packer, O Plano de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, (s.d.),
p. 16; John F. MacArtur Jr. Chaves para o Crescimento Espiritual, 2ª ed. São Paulo: Fiel, 1986, p. 1550.
33
Outros Textos: Sl 96.1-3; 111.3; Is 42.8; 43.7; 48.11; 60.21; 61.1-3; Jo 11.4; Ef 1.6,11,12; Fp 1.11.
34
John Calvin, Catechism of the Church of Geneva, perguntas 1 e 2. In: John Calvin, Tracts and Treatises on the Doctrine and Worship of the Church, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1958, Vol. II, p.
37.
35
João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 1, (Sl 6.5), p. 129.
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Considerações Finais: A Fé no Deus Providente:
Ao concluir este estudo, queremos destacar alguns pontos decorrentes do ensinamento bíblico:
36
1) A doutrina da Providência propicia ao crente “o melhor e mais doce fruto”,
resultante da compreensão de que tudo está nas mãos de Deus. Nada acontece por
acaso: para o cristão não há lugar para o “azar”, “sorte” ou “acaso”. Deus dirige todas as coisas de forma pessoal, sábia e amorosa! “A providência de Deus, qual
é ensinada na Escritura, é o oposto da sorte e dos acontecimentos atribuídos
ao acaso. (...) Todos e quaisquer eventos são governados pelo conselho se37
creto de Deus.” Para os crentes, permanece o princípio: “O que nos parece
38
contingente, a fé reconhecerá haver sido secreta injunção de Deus”.
Em
39
resumo: “Deus não faz nada sem razão”.
O hino de Sarah Poulton Kalley (1825-1907) – “Direção Divina”
40
– diz:
“As tuas mãos dirigem meu destino,
Acasos para mim não haverá!
O grande Pai vigia o meu caminho,
E sem motivo não me afligirá!
Encontro em Seu poder constante apoio,
Forte é Seu braço, insone o Seu amor;
Por fim, entrando na cidade eterna,
Eu louvarei meu Guia e Salvador”.
2) O Deus da Bíblia não é matéria nem tampouco está distante de nós. Ele está
em toda parte exercendo o Seu governo e, de forma especialíssima, dirigindo todas
as coisas para o bem do Seu povo (Rm 8.28). “Deus está próximo, mesmo quan41
do mais longe pareça estar”.
3) Devemos ser pacientes nas adversidades, sabendo que Deus transforma a
maldade dos nossos inimigos em bem (Gn 45.5-8; 50.19,20); todavia, os homens
são responsáveis pelos seus atos (Jó 4.8; Gl 6.7-10). Eles não escaparão do reto juízo de Deus. Isto implica dizer, que não estamos livres do sofrimento, da perplexidade e da perseguição (2Co 4.8,9; Sl 27.3,10); todavia, em momento algum somos de-
36
37
38
João Calvino, As Institutas, I.17.6.
João Calvino, As Institutas, I.16.2.
João Calvino, As Institutas, I.16.9.
39
Juan Calvino, El Señor dio y El Señor quito: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L.,
1988, (Sermon nº 2), p. 42.
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41
Hinário “Novo Cântico”, hino nº 163, 3ª estrofe.
Gustaf Aulén, A Fé Cristã, p. 172-173.
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samparados por nosso Deus (Gn 28.15; Sl 23.1-6; 37.25; 40.13-17; Tg 4.7-11; 1Pe
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5.7).
4) O plano de Deus engloba todas as coisas, pequenas e grandes e, neste plano,
todos os eventos, aparentes acasos, circunstâncias e “coincidências”... nada escapa;
nem um pardal, nem o fio de cabelo, nem o destino das nações, nem os sistemas interplanetários... nada! Tudo é planejado e governado por Deus.
5) Satanás está sob o domínio de Deus e, não pode frustrar o plano de Deus (Jó
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1.12; Sl 61.3-6).
6) Devemos nos humilhar diante de Deus, tendo consciência da nossa absoluta
dependência dEle. Sem Deus, nada podemos fazer (Jo 15.5) e, paralelamente, também sabemos, que nEle, tudo podemos (Fp 4.13).
7) Devemos ser conduzidos, por meio deste estudo, à meditação na Palavra de
Deus, para que possamos, assim, conhecer mais do Senhor da Providência (2Pe
3.18; Os 6.3). A meditação a respeito das grandes doutrinas da Bíblia sempre é um
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motivo de consolo, alegria e estímulo.
8) Cautela na interpretação da história. Somos tentados a ver em cada fato uma
ligação com o que julgamos ser o seu antecedente causal. Neste afã, podemos nos
precipitar em nossos julgamentos, estabelecendo nexos causais onde só existem
sucessões temporais ou, em outros casos, entender de modo precipitado determinados eventos como “bênção de Deus” ou a “boa vontade de Deus para a Sua Igreja”. Esses equívocos podem gerar muita frustração e embaraço. Aplicando isso à
História, devemos estar atentos ao fato de que a História da Igreja tem, conforme a
perspectiva de nossa fé, um lado divino: Deus dirige a História e, um lado humano:
os fatos compartilhados por todos nós que a vivemos. Os atos de Deus na História
não são objeto de análise do homem; não somos Lucas, inspirados infalivelmente
por Deus, apresentando uma interpretação inspirada. Somos homens comuns, que
procuramos estabelecer métodos, examinar documentos e interpretá-los a bem da
melhor compreensão possível do que aconteceu.
9) Este estudo deve nos levar à oração, visto que sabemos que o Senhor da Providência, envolve, sem depender delas, as nossas orações em Seu plano. “A crença na providência inspira todas as orações pedindo auxílio, e todo louvor pe45
las coisas boas desfrutadas”.
10) A Providência de Deus inspira-nos ao trabalho, conscientes de que somos os
instrumentos de Deus para a execução do Seu sábio e eterno propósito. Esta doutri-
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45
Ver: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 2002, Vol. 3 (Sl 91.9), p. 450-451.
Vd. J. Calvino, As Institutas, I.17.7,11; I.18.1.
Vd. João Calvino, As Institutas, I.17.11.
J.I. Packer, Providência: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta
Editorial Cristã, 1966, Vol. III, p. 1338.
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na tem, portanto, uma “urgência pragmática” para todo o povo de Deus. (1Co
15.57-58). O tempo é um recurso preciso que Deus nos concede: “Verdadeiramente sábio é aquele que sabe quão longe se acha do perfeito conhecimento. Mas devemos progredir em nossa cultura, a fim de não ficarmos
sempre no conhecimento rudimentar. (...) É mister que nos esforcemos para
que nosso progresso corresponda ao tempo que nos é concedido. (...) No
entanto, poucos são aqueles que se disciplinam a fazer um balanço do
tempo passado, ou que se preocupam com o tempo por vir. Portanto, somos
justamente castigados por nossa negligência, visto que a maioria de nós dis47
sipa sua vida nos estágios elementares, como crianças”.
11) Viva Esperança: Paulo ora pelos crentes romanos: “E o Deus da esperança
vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança
no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13/Gl 5.5). Fomos regenerados pelo Espírito para uma viva esperança, a qual se fundamenta num fato histórico: a ressurreição de
Jesus Cristo (1Pe 1.3/1Co 15.12-20).
12) Gratidão: (Ef 5.20). De fato nós não podemos devolver a Deus tudo o que
Ele nos têm dado – aliás, nem Ele requer isso de nós –, todavia, podemos e devemos ser-Lhe grato. O reconhecimento do cuidado preservador de Deus e das Suas
bênçãos cotidianas, deve se revelar num ato de gratidão a Deus, se manifestando
inclusive em meio às adversidades, como um sinal evidente de que temos a vitória
por Cristo (1Ts 5.18/At 16.25; Rm 8.37; 1Co 15.57; 2Co 2.14).
À jovem Igreja de Tessalônica, Paulo orienta: “Em tudo dai graças, porque esta é
a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.18).
***
No Catecismo de Heidelberg (1563), na pergunta 28, lemos:
“Que vantagem resulta do reconhecimento da Criação e Providência de
Deus?”
Resposta: “Aprendemos que precisamos ser pacientes na adversidade,
gratos no meio das bênçãos e confiantes em nosso fiel Deus e Pai quanto ao
futuro, seguros de que nenhuma criatura nos separará de Seu amor, visto
que todas as criaturas se encontram tão completamente em Suas mãos que,
sem Sua vontade, nem sequer podem mover-se.”
Na 1ª estrofe do Hino n° 31 do Hinário Presbiteriano, lemos:
“Ó Deus, ó Providência!
Sem Ti, não há viver!
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Expressão de Farley (Vd. Benjamin Wirt Farley, A Providência de Deus na Perspectiva Reformada:
In: Donald K. Mckim, ed. Grandes Temas da Tradição Reformada, p. 74).
47
João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1998, (Hb 5.12), p. 140.
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Vem dar-nos a assistência
Do Teu real poder!
Tão só em Ti confiamos
E em Tua proteção.
Pois só em Ti achamos
Conforto e redenção”.
Comentando o Salmo 36, no início, após chamar Davi de “valente guerreiro e
um invencível campeão aos olhos de Deus”, Calvino continua:
“Sabemos quão rara e singular é a virtude, quando a impiedade prevalece sem restrição, e quando a sombra de sua obscuridade turva nossa visão espiritual, de olharmos, não obstante, com os olhos da fé para a providência de Deus, o qual, ao predispormos nossa mente à paciência, nos
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conserva continuamente no temor de Deus”.
São Paulo, 26 de abril de 2008.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
48
João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, Vol. 2, (Sl 36), p. 120.
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