XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. FLUXOS DE CAIXA NEGATIVOS: IDENTIFICANDO OS MOTIVOS DA QUEBRA DE CAIXA Carlos Eduardo Silva Merlin (UDESC) [email protected] Fabiano Maury Raupp (UDESC) [email protected] O artigo apresenta os resultados de um estudo que teve por objetivo identificar os motivos da quebra de caixa decorrente de fluxos de caixa negativos em uma pequena empresa de móveis e decorações. A pesquisa caracteriza-se como descritiva, realizada por meio de um estudo de caso, com abordagem predominantemente qualitativa. A coleta de dados foi possibilitada por meio de entrevistas em profundidade que foram realizadas no ambiente de trabalho dos colaboradores, além de dados secundários. Os dados foram analisados por meio da técnica de análise descritiva. A metodologia de análise por conta iniciou-se pelos índices bases e finalizandose com as proporções e análises. Foram executadas as análises dos três anos por meio de números índices, ou seja, médias de cada conta, como entradas e saídas, anualmente. Desta forma, conseguiu-se expor as proporções mensais por conta, calculando a divisão entre o valor real da conta no determinado mês e da média de determinada conta no ano. Os dados apresentados evidenciaram que este tipo de análise facilita a compreensão dos motivos para o acontecimento do resultado negativo por meio das porcentagens de cada mês. A metodologia exige que o gestor já saiba em quais meses ocorreram o resultado negativo para então partir para a análise dos motivos, uma vez que a simples averiguação das proporções pode atrapalhar o julgamento, sabendo que as médias de entradas e saídas possam estar muito distantes entre si. Palavras-chave: Fluxo de caixa negativo, quebra de caixa, pequena empresa XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. 1. Introdução Não é de hoje que a representatividade de estabelecimentos das MPE (Micro e Pequenas Empresas) é grande no Brasil. Há 10 anos, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) (2004) já apontava que 98% do total de organizações no país, no setor privado, eram micro e pequenas empresas, enquanto que apenas 2% eram representados por médias e grandes. De acordo com MTE (2012), esta representatividade cresce ao longo dos anos, ficando com 99% da parcela de empresas em 2012. Os dados denotam que as MPE são responsáveis por uma parte significativa de empregos e faturamento, movimentando a economia de diversos setores e regiões. Sabe-se que os gestores destas empresas nem sempre são dotados de características imprescindíveis para a gestão e por isto acabam por não levar em consideração fatores importantes que interferem nos resultados das organizações. Segundo o SEBRAE (2007), 68% dos empresários de empresas extintas apontaram que a principal razão para o fechamento de seus negócios estava concentrada nas falhas gerenciais. Sabe-se que é comum na classe empreendedora a abertura de negócios sem o embasamento técnico apoiado em estudos, como plano de negócios. Alinhado a isto, os empresários muitas vezes não possuem conhecimento em áreas da gestão, como o controle financeiro, tão importante para a sobrevivência dos negócios. Dornelas (2005), nesta mesma linha, aponta duas das principais causas para o fracasso de pequenas empresas: falta de planejamento e deficiência na gestão. Este contexto suscita estudos para o desenvolvimento de proposições de instrumentos financeiros a fim de embasar o processo decisório dos gestores de MPE. Dentre os instrumentos, o “fluxo de caixa (cash flow) é considerado por muitos analistas um dos principais instrumentos de análise, propiciando-lhes identificar o processo de circulação do dinheiro, através da variação de caixa (e equivalentes)” (SILVA, 2008, p.446). Para tanto, o artigo apresenta os resultados de um estudo que teve por objetivo identificar os motivos da quebra de caixa decorrente de fluxos de caixa negativos em uma pequena empresa de móveis e decorações. A estrutura do artigo compreende cinco seções, iniciando por esta introdução. A próxima seção apresenta o referencial teórico. Os procedimentos metodológicos adotados são 2 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. explicitados na terceira seção. Na quarta e quinta seções, respectivamente, discutem-se os resultados obtidos e as conclusões decorrentes do estudo. 2. Fundamentos teóricos “Durante o século XX, a maioria das empresas desenvolveu e usou métodos de controle financeiros para monitorar, avaliar e melhorar operações” (ATKINSON et. al, 2000, p. 613). Particularmente em relação às MPE brasileiras, Cezarino e Campomar (2006) apontam que a gestão informal auxilia na mistura de patrimônios pessoal e empresarial dificultando a análise financeira. No Brasil, outro problema vem à tona: as formas de financiamento são dificultadas quando comparado a países desenvolvidos. Isto destaca ainda mais a importância de uma gestão aguçada, com planejamentos, análises e controles para tornar o negócio independente da injeção de capital financiado. Vale citar que existem mecanismos que facilitam a tomada de decisão do gestor do negócio. Alguns destes instrumentos são os demonstrativos, a partir dos quais podem ser calculados diversos indicadores ou índices financeiros. “Demonstrações Contábeis (ou Financeiras) equivalem a um conjunto de informações apuradas e divulgadas pelas empresas, revelando os vários resultados de seu desempenho em um exercício social” (NETO e LIMA, 2009, p. 188). Dentre estes demonstrativos, destaca-se o fluxo de caixa, considerado como parte do objeto de investigação do estudo. Zdanowicz (2004, p. 24) informa que o fluxo de caixa possui objetivos tais como: levantar recursos para a execução das operações da empresa; empregar os recursos disponíveis da melhor maneira possível; planejar e controlar ingressos e desembolsos e buscar o equilíbrio entre estas duas contas. O alcance destes objetivos faz parte da gestão da empresa e contribui para o desenvolvimento dela. Exemplifica-se a relevância destes objetivos, argumentando a respeito do último objetivo citado. Sabe-se, por exemplo, que caso perceba-se, ao invés do equilíbrio, um fluxo negativo, a organização não está com capacidade de pagamento de suas dívidas em curto prazo o que pode comprometer a sobrevivência do negócio em pouco tempo, dependendo da disponibilidade de investimento dos sócios. Caso ocorra de o fluxo estar demasiadamente positivo, a companhia pode estar deixando de 3 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. investir seu capital em fontes que trariam retornos maiores do que a segurança de mantê-lo no caixa. Conforme Zdanowicz (2004, p.145), “o fluxo de caixa é o conjunto de ingressos e desembolsos financeiros projetados pelo gestor para um determinado período”. Conforme Cunha, Martins e Assaf Neto (2014), a empresa deve ter a noção de financiamento pelo seu próprio patrimônio, ou seja, medindo o fluxo de caixa sobre as decisões de entrada e investimento operacionais. Um controle deste fluxo de maneira específica facilita esta análise. Na Tabela 1 apresenta-se um modelo de fluxo de caixa modificado deste autor. Tabela 1 – Modelo de fluxo de caixa 4 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Adaptado de Zdanowicz (2004) Para o preenchimento deste fluxo, o gestor geralmente realiza mapas auxiliares, como por exemplo, de vendas e despesas. Findar um período com as contas de número 3 e 5, apontadas na Tabela 1, de maneira positiva é o principal objetivo da gestão destes recursos. Caso isto não ocorra, o empreendedor terá de lançar mão de alguns artifícios como, resgates de aplicações financeiras ou captação de empréstimos. 5 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Zdanowicz (2004, p.170) aponta que ingressos e desembolsos podem ser divididos da seguinte forma. Os primeiros podem vir de fonte interna, como por exemplo: vendas à vista, lucros reinvestidos e vendas de itens do ativo permanente. Ou de fonte externa: empréstimos bancários, acionistas e desconto de títulos. As saídas por sua vez, podem ser divididas entre regulares, como pagamento de salários; razoavelmente regulares, como retirada de sócios; e irregulares, como ampliações da empresa e novas instalações. Uma empresa que possui o fluxo negativo não está conseguindo pagar suas contas em curto prazo, o que denota que suas saídas estão maiores que suas entradas. Denomina-se esta constatação de quebra de caixa. Seguindo o modelo apresentado na Tabela 1, demonstra-se na Tabela 2 uma situação de quebra de caixa, por meio de um modelo prático. Para facilitar a leitura e compreensão, apenas serão expostos valores dos meses de janeiro e fevereiro. Tabela 2 – Quebra de caixa 6 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Adaptado de Zdanowicz (2004) Nota-se, por meio da Tabela 2 que no período de janeiro, as operações de entrada superaram as de saída. Somadas com o saldo inicial de caixa, o período terminou com 1.200 unidades monetárias. No período posterior, aconteceu o contrário. Além de as saídas superarem as entradas, o saldo inicial de caixa não foi suficiente para saldar com as dívidas. Esta situação se denomina quebra de caixa. Acontecendo isto, a empresa obrigou-se a recorrer a um empréstimo de 2.845 unidades, como apontado pela conta de número 7. Para resolver/amenizar a quebra de caixa, recorre-se, muitas vezes, a diversos eventos indesejados, como o endividamento por meio de empréstimos em instituições financeiras. “Geralmente, a empresa é forçada a tomar providências que não utilizaria se tivesse fluxo de 7 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. caixa suficiente” (ROSS, WESTERFIELD e JAFFE, 2011, p. 283). A gestão financeira prudente pode evitar que estas quebras ocorram. Ainda assim, muitos gestores, além de não evitarem os fluxos negativos, não conseguem entender as origens de tal situação. A falta de controle, em especial, pode esconder uma possível necessidade de capital de giro, ou seja, daqueles ativos que estão em constante circulação por causa das atividades operacionais da empresa e de seus ciclos operacional e financeiro. Segundo o SEBRAE (2007, p. 39), a quinta razão mais citada entre empresas extintas e ativas, para o fechamento e/ou para a dificuldade no gerenciamento dos negócios, respectivamente, é a falta de capital de giro. Gitman (1987, p.279) coloca que o objetivo da gestão do capital de giro é gerir as contas de ativo e passivo circulantes de modo que se tenha um nível aceitável e desejável de liquidez. Marion (2009) indica que “entre as três principais razões de falências ou insucessos de empresas, uma delas é a falta de planejamento financeiro ou a ausência total de fluxo de caixa e previsão de fluxo de caixa (projetar as receitas e despesas da empresa)”. Toledo Filho, Oliveira, Spessatto (2010) coloca que a análise estratégica do fluxo de caixa não ocorre em empresas de pequeno porte, tendo em vista que a implantação e manutenção do fluxo de caixa projetado é onerosa e difícil, principalmente para estes que muitas vezes são leigos em contabilidade e finanças. Assim, entende-se que o conhecimento das razões que deram origem à quebra de caixa é relevante para que os gestores busquem possíveis soluções para reverter este quadro, bem como evitar que tal situação venha a ocorrer novamente no futuro. 3. Procedimentos metodológicos A pesquisa é do tipo descritiva, realizada por meio de um estudo de caso. Conforme Malhotra (2006), a pesquisa de caráter descritivo tem como uma de suas propriedades, descrever características de organizações. Dentre as características que Mattar (2005) aponta sobre o estudo de caso, deve-se destacar que os dados podem ser obtidos a um grande nível de profundidade permitindo caracterizar detalhadamente os aspectos perante o objeto de estudo. Quanto à abordagem do problema, o estudo tem abordagem predominantemente qualitativa. Segundo Kirk e Miller (1986 apud MATTAR, 1996), a pesquisa qualitativa identifica a 8 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. presença de algo, enquanto que a pesquisa quantitativa procura medir determinada variável. A coleta de dados foi possibilitada por meio de entrevistas em profundidade. McDaniel e Gates (2005) entendem que entrevistas em profundidade são pessoais e relativamente não estruturadas, sendo direcionada e orientada pelas respostas do entrevistado. As entrevistas se deram nos dias 29 e 30 de agosto de 2013 e 2, 3 e 4 de setembro do mesmo ano. Os entrevistados foram um funcionário da área financeira que tinha como função a coleta e controle de dados financeiros da loja, além de dois sócios, de modo a coletar experiências e dados relevantes aos procedimentos financeiros realizados no empreendimento. Além da entrevista em profundidade foram utilizados dados secundários. Tais dados foram coletados por meio de duas fontes: colaboradores, um da área financeira responsável pela coleta e controle de dados financeiros e outro da área comercial que efetuava a passagem de dados para o sistema da empresa. Malhotra (2005) indica que a pesquisa por dados secundários deve obedecer a seis critérios: especificações, precisão, atualidade, objetivo, natureza e confiabilidade. Estes seis pontos foram obedecidos à medida que a coleta foi realizada no sistema de controle de contas na qual a loja administrava seu caixa. A análise dos dados foi realizada em duas etapas. Na primeira, os dados foram analisados por meio das anotações e gravações realizadas nas entrevistas. Na segunda, o sistema acessado para a obtenção de dados permitia uma transferência dos arquivos para uma planilha eletrônica, que foi utilizada para tabelar e analisar os dados de receita e gastos. 4. Resultados A loja de decorações a qual foi objeto de estudo está localizada no Estado de Santa Catarina. A mesma tem gestão familiar e possui apenas três funcionários trabalhando na empresa, além dos sócios da mesma família. Dedica-se como um varejo, ou seja, um revendedor de produtos de decoração voltados à casa, como por exemplo: taças, quadros e móveis. A empresa tem a presença da sazonalidade em seus recebimentos e, portanto, passa alguns meses com quebra de caixa e outros com fluxo positivo. Por ser considerada uma pequena empresa, tendo em vista seu faturamento e quantidade de funcionários, sua gestão é simples e consiste em procedimentos de compras, vendas e controle das finanças no que diz respeito a 9 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. contas a pagar e a receber. Para construção do fluxo de caixa projetado utilizou-se o método ARIMA Sazonal. Conforme Gujarati (2006), este processo auto regressivo integrado e de médias móveis é utilizado tendo em vista que há muitas séries temporais econômicas não estacionárias, ou seja, integradas. Esse método considera não apenas o crescimento devido à tendência da série, mas também leva em conta a sazonalidade mensal presente em cada mês. De acordo com Pindyck e Rubinfeld (2004), o modelo ARIMA pode levar em consideração qualquer série temporal não-estacionária homogênea. Para a projeção foi utilizada a série histórica disponibilizada pela empresa que compreende o período entre Janeiro de 2011 e Outubro de 2013. O Gráfico1 apresenta o resultado do Fluxo de Caixa com os adiantamentos do cartão por mês, durante os três anos analisados. Gráfico 1 – Resultado de caixa por mês no período de 2011 até 2013 Fonte: Dados da pesquisa (2013) Observa-se, por meio do Gráfico 1, que o resultado do fluxo é negativo nos meses de Março, Abril, Junho, Outubro e Dezembro de 2011; Fevereiro, Maio, Junho, Julho, Agosto, 10 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Novembro e Dezembro de 2012; além de Abril, Maio, Junho e Julho, Setembro e Outubro de 2013. O Gráfico 2 apresenta as médias dos resultados do fluxo de caixa entre os três anos analisados. Gráfico 2 – Média do resultado de caixa de 2011 até 2013 Fonte: Dados da pesquisa (2013) O Gráfico 2 diz respeito as médias do resultado do período, que consistem nas médias das entradas menos as saídas de cada mês dos anos 2011, 2012 e 2013. Pode-se perceber os meses de habituais de quebra de caixa em Fevereiro, Maio, Junho, Julho, além de Dezembro. Notam-se também bons resultados nos períodos de Janeiro, Fevereiro, Setembro e Novembro, com destaque para Agosto. Os resultados positivos, por exemplo nos meses de Agosto de 2011, Abril de 2012 e Agosto de 2013, são em termos absolutos muito mais representativos do que os resultados negativos em outros períodos. Cabe analisar os meses de alta para realocar este resultado positivo para os meses em que o resultado não for, reduzindo a necessidade de alguns tipos de financiamento, como o adiantamento do cartão. Neste sentido, foi realizada uma análise relacionando cada conta desde as entradas até todas 11 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. as saídas de cada ano, junto a suas médias. Buscou-se criar números índices ou bases, que foram as médias para cada conta anualmente. Assim, pode-se comparar os valores de cada mês com as médias de cada conta, bem como, perceber a cada mês qual o possível motivo da quebra. É importante ressaltar que como os índices bases são médias eles não apontam claramente a “quebra de caixa”, mas os motivos para a mesma. A análise parte do princípio que o analisador já conhece os períodos de quebra. A Tabela 3 demonstra a média mensal de cada conta do fluxo de caixa junto a sua classificação em números que será utilizada nas análises posteriores. Tabela 3 – Médias mensais da análise por conta no ano 2011 Fonte: Dados da pesquisa (2013) Na média mensal do ano de 2011 a empresa teve um resultado positivo comparando-se entradas e saídas. Analisando o resultado real mês a mês, cinco deles apresentaram uma quebra de caixa. A Tabela 4 detalha as proporções para cada conta no ano de 2011. Tabela 4 – Proporções para cada no ano de 2011 12 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Dados da pesquisa (2013) A Tabela 4 é resultado da divisão do resultado real apresentado no mês do respectivo ano com o índice base da conta, ou seja, sua média. Como exemplo, pode-se utilizar o primeiro mês de 2011 que teve entradas de R$ 44.780,36, sendo que a média desta conta neste exercício foi de R$ 60.631,07. Aplicando-se a divisão, percebe-se que as entradas tiveram um resultado abaixo da média (74%). Utiliza-se este mesmo exemplo para explicar que mesmo que as saídas tenham uma porcentagem maior que a de entradas, isto não justifica uma quebra de caixa, uma vez que as médias ou índices bases de saídas possam estar muito abaixo que as de entrada neste ano. Em Janeiro, por exemplo, as entradas de R$ 44.780,36 que representaram 74% da média eram maiores que as saídas de R$ 42.177,75 representando 78% da média. Como a análise por conta já pressupõe o conhecimento do resultado negativo e não os motivos para o acontecimento deste, repete-se que os meses Março, Abril, Junho, Outubro e Dezembro, são aqueles em que ocorreu quebra de caixa. A partir disso, mês a mês, coloca-se a análise das contas, iniciando por Março. Neste mês, o principal ponto relacionado com a quebra foi a tão baixa entrada que foi cerca de 50% menor que a média deste ano. Em Abril, as entradas pequenas, alinhada principalmente com um Pagamento do Simples muito grande, fizeram com que o caixa fosse negativo. Percebe-se que neste mês o pagamento do Simples foi de mais de um mês, devido a prováveis atrasos. Para Junho, há como observar um aumento geral em quase todas as saídas, em detrimento do montante de entradas estar na média. Em Outubro, com altas despesas variáveis e principalmente com um alto pagamento devido ao adiantamento dos cartões, o caixa foi negativo. Já em Dezembro, nota-se o grande aumento no Pagamento do Simples e das despesas não operacionais com o adiantamento do cartão. Informa-se o ano de 2012, por meio da Tabela 5 a respeito das médias mensais por 13 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. conta. Tabela 5 – Médias mensais da análise por conta no ano 2012 Fonte: Dados da pesquisa (2013) Neste ano, as médias de entradas não foram maiores que as saídas. Seguindo a mesma linha, detalha-se, na Tabela 6, as possíveis razões de quebra de caixa nos meses de Fevereiro, Maio, Junho, Julho, Agosto, Novembro e Dezembro do ano de 2012. Tabela 6 - Proporções para cada no ano de 2012 Fonte: Dados da pesquisa (2013) No primeiro mês analisado, Fevereiro, percebe-se um nível de entradas pequeno em relação à média alinhado com uma série de aumentos nas contas das saídas, como em funcionários, despesas fixas e variáveis além do adiantamento do cartão. No segundo mês, em Maio, notase uma pequena entrada, junto a um nível grande, principalmente de Custos Indiretos e 14 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Despesas Variáveis. Já em Junho, o saldo negativo de caixa se deu principalmente com um alto nível do pagamento no Simples, além das pequenas entradas. Julho foi um mês atípico para fornecedores e custos indiretos, com uma grande elevação da média. Em Agosto, ocorreram-se entradas acima da média, mas em contrapartida o também aumento no pagamento de fornecedores e do Simples elevou o nível das saídas. Novembro e Dezembro também tiveram entradas maiores que o normal, embora no primeiro mês o aumento de parte das saídas, em especial para pagamento do Simples e do adiantamento do cartão; e no segundo, nas Despesas variáveis, fornecedores e adiantamento do cartão; fizeram com que o caixa fechasse negativo. O último ano a ser analisado é 2013, como demonstram as Tabelas 7 e 8. Tabela 7 – Médias mensais da análise por conta no ano 2013 Fonte: Dados da pesquisa (2013) Partindo para a análise por conta, apresenta-se na Tabela 8 as proporções relacionadas às médias já apontadas. Tabela 8 - Proporções para cada no ano de 2013 15 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. Fonte: Dados da pesquisa (2013) No ano de 2013, os meses que finalizaram com caixa negativo foram Abril, Maio, Junho, Julho, Setembro e Outubro. Os dois primeiros meses tiveram baixos níveis de entrada, alinhado com o alto nível de custos diretos no mês de Maio, de despesas variáveis no mês de Abril e de custos indiretos em ambos. Em Junho e Julho os principais pontos de aumento foram no pagamento de adiantamento no cartão e nas despesas fixas, juntos com níveis acima da média de fornecedores em Junho e do pagamento do Simples em Julho. Por fim, Setembro teve aumentos proporcionalmente maiores em saídas como fornecedores, pagamento do Simples e do adiantamento do cartão; e em Outubro decorreu um aumento num número também grande de saídas, como em fornecedores, funcionários e custo indiretos. 5. Conclusões O artigo apresentou os resultados de um estudo que teve por objetivo identificar os motivos da quebra de caixa decorrente de fluxos de caixa negativos em uma pequena empresa de móveis e decorações. Para isto, foram analisados os modelos de fluxo de caixa recorrente nas empresas, seguindo os padrões apontados por Zdanowicz (2004). A partir disto, esclareceu-se o conceito de quebra de caixa, ou seja, o resultado negativo de fluxo de caixa para então prosseguir-se com a análise dos dados da empresa. Estes últimos foram coletados por meio de uma pesquisa descritiva realizada por meio de um estudo de caso único, possibilitada por meio de entrevistas de profundidades aplicadas com os funcionários da empresa. Também foi utilizado um sistema que continha as transações efetuadas pela empresa nos períodos de 2011, 2012 e parte de 2013. Para completar o ano de 2013, foi realizada uma projeção com base no modelo ARIMA, auto regressivo integrado e de médias móveis, utilizando a base histórica 16 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. de 2011 até Outubro de 2013. Foi demonstrada a metodologia de análise por conta iniciando-se pelos índices bases e finalizando-se com as proporções e análises. Foram executadas as análises dos três anos por meio de números índices, ou seja, médias de cada conta, como entradas e saídas, anualmente. Foi possível expor as proporções mensais por conta, calculando a divisão entre o valor real da conta no determinado mês e da média de determinada conta no ano. Os dados apresentados evidenciaram que este tipo de análise facilita a compreensão dos motivos para o acontecimento do resultado negativo por meio das porcentagens de cada mês. Ainda assim, a metodologia exige que o gestor já saiba em quais meses ocorreram o resultado negativo para então partir para a análise dos motivos, uma vez que a simples averiguação das proporções pode atrapalhar o julgamento, sabendo que as médias de entradas e saídas possam estar muito distantes entre si. Coloca-se que a análise por conta não exclui qualquer outra forma de planejamento e controle financeiro, pelo contrário, a mesma deve ser utilizada para complementá-las. Esta metodologia exige um bom controle de dados financeiros para que os as proporções e, portanto, os motivos para as quebras de caixa sejam encontrados com mais propriedade e o empreendedor possa tomar as providências necessárias para sanar qualquer que seja o problema mais rapidamente. Referências ATKINSON, A. et al. Contabilidade gerencial. São Paulo: Atlas, 2000. BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO (MTE). Relação anual de informações sociais (RAIS). Brasília, DF, 2004. BRASIL. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO (MTE). Relação anual de informações sociais (RAIS). Brasília, DF, 2012. CEZARINO, L. O.; CAMPOMAR, M. C. Micro e pequenas empresas: características estruturais e gerenciais. Revista Fafibe on line, v. 2, n. 2, maio/2006. CUNHA, M. F. da; MARTINS, E.; ASSAF NETO, A. Avaliação de empresas no Brasil pelo fluxo de caixa descontado: evidências empíricas sob o ponto de vista dos direcionadores de valor nas ofertas públicas de aquisição de ações. Revista de Administração da USP, v. 49, n. 2, p. 251-266, abr./juh. 2014. DORNELAS, J. C. A Empreendedorismo: transformando ideias em negócios. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005. 17 XXXV ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Perspectivas Globais para a Engenharia de Produção Fortaleza, CE, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2015. GITMAN, L. J. Princípios de administração financeira. São Paulo: Harbra, 1987. GUJARATI, D. N. Econometria básica. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. MALHOTRA, N. K. Pesquisa de marketing: uma orientação aplicada. Porto Alegre: Bookman, 2006. MALHOTRA, N. et al. Introdução à pesquisa de marketing. São Paulo: Prentice Hall, 2005. MARION, J. C. Contabilidade básica. São Paulo: Atlas, 2009. MATTAR, F. N. Pesquisa de marketing: metodologia, planejamento. São Paulo: Atlas, 2005. McDANIEL, C. D.; GATES, R. Fundamentos de pesquisa de marketing. Rio de Janeiro: LTC, 2005. NETO, A.; LIMA, F. Curso de administração financeira. São Paulo: Atlas, 2009. PINDYCK, R. S.; RUBINFELD, D. L. Econometria. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. ROSS, S.; WESTERFIELD, R.; JAFFE, J. Administração financeira. São Paulo: Atlas, 2011. SERVIÇO BRASILEIRO DE APOIO ÀS MICROS E PEQUENAS EMPRESAS (SEBRAE). Fatores condicionantes e taxa de sobrevivência e mortalidades das micro e pequenas empresas no Brasil: 20032005. 2007. Disponível em: <http://www.sebrae.com.br > Acesso em: 29 jul. 14. SILVA, J. P. da. Análise financeira das empresas. São Paulo: Atlas, 2008. TOLEDO FILHO, J. R.; OLIVEIRA, E. L.; SPESSATTO, G. Fluxo de caixa como instrumento de controle gerencial para tomada de decisão: um estudo realizado em microempresas. Revista de Contabilidade do Mestrado em Ciências Contábeis da UERJ, v. 15, n. 2, art. 6, p. 75-88, 2010. ZDANOWICZ, J. Fluxo de caixa: uma decisão de planejamento e controle financeiros. 10. Ed. Porto Alegre: Sagra: D.C. Luzzatto, 2004. 18