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VIOLÊNCIA URBANA: CRIME ORGANIZADO E EXPLORAÇÃO DA FORÇA
DE TRABALHO DE ADOLESCENTES
Andréa Pires Rocha1.
1. INFORMAÇÕES INTRODUTÓRIAS
Em tempos de agravamento das contradições sociais, a humanidade esta
a cada dia mais desumanizada e, esta desumanização, não é um fenômeno natural, mas
sim histórico, decorrente de múltiplas determinações presentes na ordem capitalista.
Além da miséria material, o capitalismo constrói a miséria humana, pois o homem
alienado e fragmentado é impedido de perceber-se em totalidade, muito menos, como
sujeito histórico e social.
Problematizamos no presente artigo a violência urbana e a exploração da
força de trabalho de adolescentes utilizada pelo crime organizado, que se movimenta,
essencialmente, a partir do tráfico de entorpecentes, de armas e outras frentes, à
exemplo de crimes contra a propriedade privada (roubos, assaltos, furtos) e a vida
(homicídios, seqüestros).
As reflexões resultam da experiência de atuação com adolescentes
infratores e de estudos desenvolvidos em dois projetos de pesquisa vinculados ao
Departamento de Serviço Social da UEL, os quais entendem a violência urbana como
um fenômeno complexo, decorrente das contradições próprias do modo de produção
capitalista. A abordagem teórico-metodológica tem o materialismo histórico e dialético
como teoria fundamental, tendo em vista que este método dá conta de analisar a
realidade considerando as mediações e os movimentos que os fenômenos sociais estão
inseridos.
Defendemos que as discussões sobre violência urbana materializada no
crime organizado e na criminalidade juvenil, devem perpassar a aparência. É preciso
compreendermos que o crime organizado esta inserido nas relações capitalistas,
1
Docente do Departamento de Serviço Social da UEL – Universidade Estadual de Londrina. Mestre em
Educação pela UEM – Universidade Estadual de Maringá, graduada em Serviço Social pela UNESP –
Universidade Estadual Paulista, campus Franca – mail: [email protected]
2
desenvolve exploração da força de trabalho e extração de mais valia, tendo em vista que
as drogas são mercadorias de grande circulação na sociedade contemporânea.
Utilizamos a centralidade da categoria trabalho para a análise da
movimentação do crime organizado, por isso, cabe-nos esclarecer que não queremos
naturalizar ações criminosas, mas sim buscamos apontar que o fenômeno do
envolvimento de jovens com a criminalidade não pode continuar sendo entendido na
perspectiva de criminalização da pobreza e na defesa ideologizada do aumento de
instrumentos repressivos, ao inverso disso, é preciso que observemos as relações de
trabalho presentes no crime organizado e como essas exploram a força de trabalho de
uma parcela da juventude.
2.
CONTRADIÇÕES CAPITALISTAS, VIOLÊNCIA URBANA E CRIME
ORGANIZADO
As características destrutivas do modo de produção capitalista são
históricas e como Mészáros (2002, p. 606) afirma, “a completa subordinação das
necessidades humanas à reprodução de valor de troca – no interesse da auto-realização
ampliada do capital – tem sido o traço marcante do sistema do capital desde o seu
início.” O mesmo autor nos ensina que no capitalismo, a reprodução social ocorre
através de duas determinações originais: produção e propriedade. Ressalta que
Sob o comando do capital, o sujeito que trabalha não mais pode
considerar as condições de sua produção e reprodução como sua
própria propriedade. Elas não mais são os pressupostos autoevidentes e socialmente salvaguardados do seu ser, nem os
pressupostos naturais do seu eu como constitutivos da “extensão
externa de seu corpo”. Ao contrário, elas agora pertencem a um “ser
estranho” reificado que confronta os produtores com suas próprias
demandas e os subjuga aos imperativos materiais de sua própria
constituição. Assim, a relação original entre o sujeito e o objeto da
atividade produtiva é completamente subvertida, reduzindo o ser
humano ao status desumanizado de uma mera “condição material de
produção”. O “ter” domina o “ser” em todas as esferas da vida.
(MÉSZÁROS, 2002, p. 611)
Os valores com base no pensamento capitalista destroem o ser, ou seja, o
homem como sujeito em totalidade. O ter é que determina as relações inseridas no
movimento dialético entre objetividade e subjetividade. A produção da mercadoria tem
3
sua razão no acumulo de riquezas2, perpassa o valor-de-uso, estimula o consumo, diante
disso, a construção das relações está pautada na mercantilização.
A dominação permeia dois âmbitos essenciais os quais se relacionam
dialeticamente. Por um lado acontece através da propriedade dos meios de produção,
que se mantém e desenvolve-se a partir da exploração do trabalho e, por outro, através
da propriedade da construção intelectual, ideológica. O cotidiano humano é construído
por valores concretos, Marx e Engels (2002, p. 48-49), nos mostram como a força do
pensamento da classe detentora dos meios de produção é o pensamento dominante, ou
seja,
[...] os pensamentos dominantes, nada mais são que a expressão ideal
das relações materiais dominantes; eles são essas relações materiais
dominantes consideradas sob forma de idéias, portanto a expressão
das relações que fazem de uma classe a classe dominante; em outras
palavras, são as idéias de sua dominação. Os indivíduos que
constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também
uma consciência, e conseqüentemente pensam; na medida em que
dominam como classe e determinam uma época histórica em toda a
sua extensão, é evidente que esses indivíduos dominam em todos os
sentidos e que têm uma posição dominante, entre outras coisas
também como seres pensantes, como produtores de idéias que
regulamentam a produção e a distribuição dos pensamentos da sua
época; suas idéias, são, portanto, as idéias dominantes de sua época.
Reiteramos, portanto, que os sujeitos sofrem influencias do âmbito
estrutural, político e econômico e, ainda, de questões que se mostram no campo
ideológico, por isso, não é possível desligar as relações sociais da construção ideológica
que sustenta as forças produtivas. Muitas vezes utiliza-se o equívoco de fragmentar o
ideológico do econômico para camuflar a realidade concreta, tendo em vista que a
lógica capitalista é extremamente cruel, pois é na abundância que a disparidade
aumenta, ou seja, quanto mais há acumulo de riquezas para alguns (proprietários dos
meios de produção), mais cresce a pobreza para outros (trabalhadores)
2
Alerta Mészáros (2002, p. 612) que “[...] já que o sistema produtivo estabelecido, sob a regência do
capital, não pode reproduzir a si próprio, a menos que possa fazê-lo em uma escala sempre crescente, a
produção deve não apenas ser considerada a finalidade de humanidade, mas – enquanto um modo de
produção ao qual não pode haver alternativa – deve ser tomada como premissa que a finalidade da
produção é a multiplicação sem fim da riqueza.”
4
Os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada
tinham para vender senão sua própria pele. E desse pecado original
data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo o seu
trabalho, nada possui para vender senão a si mesmo, e a riqueza dos
poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de
trabalhar. [...] na história real, como se sabe, a conquista, a
subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência,
desempenha principal papel (MARX, 1988, p. 251).
A violência desempenha papel histórico nas relações capitalistas, assim, é
possível que a violência seja vista mais amplamente, considerando-se, inclusive, as
questões estruturais que as envolvem. Como sintetiza Vázquez (2007, p. 377 – 378), há
a violência que não é ruidosa, mas totalmente agressiva,
Na sociedade baseada na exploração do homem pelo homem, como é
a sociedade capitalista atual, a violência não só se mostra nas formas
diretas e organizadas de uma violência real ou possível, como também
se manifesta de um modo indireto, e aparentemente espontâneo, como
violência vinculada como caráter alienante e explorador das relações
humanas. Tal é a violência da miséria, da fome, da prostituição ou da
doença que já não é a resposta a outra violência potencial ou em ato,
mas sim da própria violência como modo de vida porque assim o
exige a própria essência do regime social. Essa violência surda causa
muito mais vítimas que a violência ruidosa dos organismos coercitivos
do Estado.
Como vemos na citação acima, o conceito de violência não pode ser
banalizado e entendido apenas como agressões físicas ou expressões da criminalidade,
pois em uma sociedade dividida em classes, a violência se materializa em diversos
âmbitos3, inclusive por meio do próprio Estado e, muitas vezes, as ações desenvolvidas
para a intervenções sob a violência urbana, são pautadas simplesmente em discursos
culpabilizadores e investimentos em segurança.
É importante ainda lembramos que a sociedade contemporânea é
ordenada pela política econômica neoliberal, que promove desmontes do social em prol
do fortalecimento econômico capaz de aumentar o acumulo de capital, a conjuntura, os
direitos sociais são cada vez mais suprimidos, fazendo com que um número maior de
sujeitos vivam em condições de vulnerabilidades extremas. Conforme Wacquant (2001,
p. 7), sob a égide da hegemonia política econômica neoliberal, há a priorização em
3
No início de nossa fundamentação teórica ressaltamos a força da ideologia da classe detentora dos meios
de produção, como ideologia dominante.
5
políticas policialescas e penitenciárias, ao invés do investimento em direitos sociais,
para ele
A penalidade neoliberal apresenta o seguinte paradoxo: pretende
remediar com um “mais Estado” policial e penitenciário o “menos
Estado” econômico e social que é a própria causa da escalada
generalizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países,
tanto do Primeiro como do Segundo Mundo
Continua o autor:
[...] Desenvolver o Estado penal para responder às desordens
suscitadas pela desregulamentação da economia, pela dessocialização
do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de
amplos contingentes do proletariado urbano, aumentando os meios, a
amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e
judiciário, equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os
pobres [...]
Em tempos do agravamento de situações de miserabilidade e do
crescimento do lupemproletariado urbano, a criminalização da pobreza faz com que as
políticas de segurança se imponham como “ditadura sobre os pobres”, voltando-se
repressivamente contra as classes mais pauperizadas. Percebemos que é no “espaço”
deixado pelo Estado que as facções criminosas tornam-se empregadoras de uma parcela
de jovens e adolescentes, em especial, aqueles pertencentes aos grupos sociais mais
atingidos pela violência estrutural. Falamos de adolescentes, sujeitos em meio de uma
sociedade construída sob a égide de contradições e violências. Adolescentes que
produzem e, ao mesmo tempo, sofrem em seu cotidiano a interferência de diferentes
aspectos da violência.
Hobsbawn (1995, p. 22), ao desenvolver um olhar panorâmico sobre o
século XX coloca que “[...] este século nos ensinou e continua a ensinar que os seres
humanos podem aprender a viver nas condições mais brutalizadas e teoricamente
intoleráveis, não é fácil apreender a extensão do regresso, por desgraça cada vez mais
rápido, ao que nossos ancestrais do século XIX teriam chamado padrões de
barbarismo”.
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Observamos que os “padrões de barbarismo” continuam a se agravar,
tendo em vista que essa é a tendência do modo de produção capitalista, situação essa
que poderá ser revertida apenas após a superação desta ordem societária. Em meio das
gritantes contradições sociais, há o crescimento exacerbado da violência urbana, que é
fenômeno presente e recorrente nas relações contemporâneas. Almeida (2000, p. 102),
nos mostra que, a condição de classe determina de forma diferenciada as visões que se
tem da violência urbana e os possíveis encaminhamentos ao fenômeno,
A violência urbana tem gradações diferencias e é assimilada de formas
distintas de acordo com as frações de classe as categorias sociais
contra as quais é dirigida. Quando esta modalidade de violência é
impingida aos setores mais privilegiados da população, as reprovações
social e legal são inequívocas. No entanto, ao atingir os setores
historicamente excluídos – exclusão esta que já encerra, em sua
própria lógica, boa dose de violência -, as reações são ambíguas, dada
a associação exclusão-marginalidade-violência, e sua conseqüente
banalização. Incluir esta forma de violência na agenda nacional de
direitos humanos exige embates e negociações.
Ou seja, além das classes populares, já serem vitimadas, como discutimos
acima, pelas contradições sociais inerentes ao capitalismo, sofrem ainda com a
banalização das expressões da violência urbana que estão vulneráveis na condição de
vítimas e, algumas vezes, na posição de agentes. São diversos os elementos objetivos e
subjetivos que interferem no cotidiano dos grupos sociais e levam os sujeitos,
individuais ou coletivos, à prática de ações violentas, que num primeiro olhar, parecem
apenas atitudes singulares.
No desenvolvimento de um balanço sobre a violência urbana, Adorno
(2002, p. 88) coloca que desde o recente egresso do regime autoritário, o Brasil
experimenta quatro novas tendências
a) o crescimento da delinqüência urbana, em especial dos crimes
contra o patrimônio (roubo, extorsão mediante seqüestro) e de
homicídios dolosos (voluntários); b) a emergência da criminalidade
organizada, em particular em torno do tráfico internacional de drogas,
que modifica os modelos e perfis convencionais da delinqüência
urbana e propõe problemas novos para o direito penal e para o
funcionamento da justiça criminal; c) graves violações de direitos
humanos que comprometem a consolidação da ordem política
democrática; d) a explosão de conflitos nas relações intersubjetivas,
mais propriamente conflitos de vizinhança que tendem a convergir
para desfechos fatais. Trata-se de tendências que, conquanto
7
relacionadas entre si, radicam em causas não necessariamente
idênticas.
O autor traz estatísticas que comprovam tais tendências, mostrando o
grande aumento no índice de homicídios no país, o crescente número de adolescentes
envolvidos na prática de atos infracionais, a constante violação dos direitos humanos
através da violência policial, linchamentos e chacinas, entre outros. Vemos portanto,
que dentre as diferentes formas de expressão da violência urbana, há uma efetiva
estruturação do crime organizado.
São inúmeros os elementos estruturais e superesetruturais, que levam
uma parcela da juventude, pertencente ao lupemproletariado urbano, ter o crime
organizado como “empregador” em potencial. Na monografia de Conclusão de Curso de
Angélica Gonçalves Bezerra, a qual orientamos, foram realizadas entrevistas com
jovens envolvidos com a criminalidade, ficando evidente como as organizações
criminais são vistas como possibilitadoras de “trabalho”
Então eu acho que é a maneira mais fácil de estar conseguindo as
coisas mesmo, é onde as portas estão abertas, por que a sociedade, ou
que seja, ai fora o mercado não oferece emprego, principalmente
quando descobre que você é uma pessoa periférica, você já teve um
passado que te condena ai é difícil alguém abrir as portas pra você e
no crime não tem essa, a porta é aberta pra todo mundo, basta você
ter coragem e disposição (sujeito B). (apud BEZERRA, 2006)
Jovens são “habilitados” para atuação nas facções criminosas, desta
forma, faz-se necessário que identifiquemos algumas características do crime
organizado, materializado no tráfico de drogas, como um possível empregador. Em
leituras sobre este fenômeno social, obtivemos informações de que a movimentação de
capital é extrema, havendo exploração de mais-valia, divisão do trabalho, entre outros
elementos característicos dos processos de trabalho desenvolvidos no capitalismo.
Souza (2006, p. 103) demonstra trechos de uma denúncia apresentada à 3ª. Vara
Criminal da Capital por um grupo de seis promotores, no qual eles apontam que
O ‘Primeiro Comando da Capital’ teve sua origem em 1993 [...]
Formada a quadrilha, os membros da congregação desenvolveram
sofisticada divisão de trabalho, cada qual exercendo uma função, mas
sempre conscientes da finalidade global e do papel que cada um
8
cumpriria no esquema criminoso. Fora dos presídios, dividiam tarefas
e passaram a exercer agressiva atuação criminosa, hoje voltada quase
completamente ao tráfico ilícito de entorpecentes. [...].
Desenvolvemos as presentes reflexões, considerando as drogas (lícitas ou
ilícitas) como mercadorias, tendo em vista que, de alguma maneira, satisfazem as
necessidades de alguns sujeitos. Como nos explica Marx (1980, p. 42), “a mercadoria é,
antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz
necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago
ou da fantasia. [...]”. E, como qualquer mercadoria, os entorpecentes passam por
processos de trabalho, os quais, no caso das drogas ilícitas, acontecem de forma
clandestina, sem retirar-lhe as condições de exploração de mais-valia. A produção de
mercadoria depende da força de trabalho humana, como explica Marx (1988, p. 142),
A utilização da força de trabalho é o próprio trabalho. O comprador
da força de trabalho a consome ao fazer trabalhar o vendedor dela. O
ultimo torna-se, desse modo, “actu” (de fato), força de trabalho
realmente ativa, o que antes era apenas potentia (em potencial). Para
representar seu trabalho em mercadorias, ele tem de representá-lo,
sobretudo, em valores de uso, em coisas que sirvam para satisfazer a
necessidade de alguma espécie. É, portanto, um valor de uso
particular, um artigo determinado, que o capitalista faz o trabalhador
produzir. A produção de valores de uso ou bens não muda sua
natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle, Por
isso, processo de trabalho deve ser considerado de início
independentemente de qualquer forma social determinada
Certamente há, no tráfico de drogas os proprietários dos meios de
produção, todavia, as relações capitalistas presentes no crime organizado ficam ainda
mais camufladas, tendo em vista que o produto produzido é ilícito, fazendo com que o
real comprador da força de trabalho utilize uma rede exterior para preservar-se, a qual é
mantida através de propinas, subornos e ameaças. Amorim (2003, p. 423) desenvolve
um interessante estudo sobre o funcionamento do tráfico de entorpecentes, explica o
processo de trabalho4 utilizado na produção da cocaína, o qual se inicia nas plantações
de coca na Colômbia e de lá se expande internacionalmente,
9
[...] Mais de mil cocaleros, em geral índios pobres, trabalham para
ele [Negro Acácio5], debaixo da proteção (ou ameaça) de 150
homens armados com o que há de melhor na indústria bélica mundial.
A Colômbia produz 60% de toda a droga consumida no mundo, cerca
de 1,5 milhão de quilos de cocaína pura a cada ano. Na ponta do
consumo, a droga estará multiplicada por cinco, batizada com outras
substâncias [...]. Assim, o número sobe para 7,5 milhões de quilos
por ano. Os demais produtores, concentrados na Ásia Central e no
Extremo Oriente, produzem mais um milhão de quilos anuais de
substâncias entorpecentes.[...]
Também sobre a organização do tráfico de drogas, a autora Alba Zaluar
(2004, p. 309), aponta que
Pelo que já se conhece hoje, no caso da cocaína, que é o que mais nos
afeta no Brasil, a indústria é concentrada e não está baseada em
pequenos estabelecimentos. Os camponeses produtores recebem uma
ínfima parcela da renda produzida com o negócio. O comércio, por
sua vez, tornou-se organizado em cartéis e máfias nos seus mais altos
níveis, porém ramificado e descentralizado no varejo. Sua
lucratividade, embora não exista consenso a respeito das taxas por
causa da dificuldade de obter os dados, favorece principalmente os
grandes atacadistas e maiores intermediários na rede hierárquica de
conexões (Fonseca, 1992; Salama, 1993; Bettancourt e Garcia, 1994;
Tullis, 1995; Labrousse e Koutousis, 1996; UNDCP, 1997)
As relações que envolvem o tráfico de entorpecentes são mediadas por
grupos com poder internacional, estudos de Zaluar (2004), Amorim (2003), Souza
(2006) e Arbex Júnior (1993) apontam a existência de agências econômicas
internacionais envolvidas com o tráfico de armas e drogas. É através da lógica dos
monopólios que o mercado de drogas se organiza e, como exigência do tráfico
internacional, há no Brasil, a busca de uma maior estruturação do crime organizado.
Este fenômeno tem se mostrado na unificação dos grupos CV (Comando Vermelho)6 e
PCC (Primeiro Comando da Capital)7, que acontece segundo Amorim (2003) de forma
lenta8.
5
O maior produtor de cocaína da Colômbia e um dos maiores produtores do mundo
6
O Comando Vermelho é uma organização criminosa que floresce na década de 1980, no Rio de Janeiro.
E, segundo Amorim (2003), tem a influência da convivência entre traficantes e presos políticos no
presídio de Ilha Grande. O autor aponta que o “criador” do CV, Willian da Silva Lima, conhecido como
“Professor”, teve influências de militantes de esquerda, o que lhe fez conhecer os princípios organizativos
da tradição Leninista-Trotskista.
7
Já o PCC, nasce no início da década de 1990, nos presídios de São Paulo Capital. Segundo os estudos de
Amorim (2003), o PCC é construído a partir de influencias do Comando Vermelho expandido no Estado
10
Para o “funcionamento” e aquisição de lucros, aos moldes do acumulação
capitalista, há a necessidade de bons quadros, portanto, as facções criminosas buscam
em adultos, jovens e adolescentes o potencial laborativo e a disposição necessária para o
desenvolvimento de ações criminosas, as quais serão remuneradas de acordo com lógica
do capital.
3. EXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO DE ADOLESCENTES:
CONSIDERAÇÕES FINAIS, QUE PODEM SER INICIAIS
O envolvimento de jovens e adolescentes com o crime organizado
materializa uma relação dual, pois de um lado expressa as contradições sociais,
decorrentes da questão social, resultante do conflito entre capital e trabalho e, de outro,
demonstra o grau extremo de desumanização que os sujeitos são submetidos e, além
disso, podem reproduzir. Podemos ver no trecho de uma letra de rap, o exemplo
concreto desta dualidade
Cadê o meu presente o meu abraço? A bicicleta que eu sonhei não
vem com o laço. Não tem bolo nem alegria. É dia das crianças mas
não pra periferia. Queria fugir daqui, é impossível. Eu não queria ver
lagrimas, é difícil. Meus exemplos de vitória estão todos na esquina.
De Tempra de Golf, vendendo cocaína. Bem melhores que minha
mãe
no
pé
da
cruz
Pedindo comida um milagre pra Jesus. Antes dos doze [anos de
idade] vou estar com o oitão [revólver calibre 38]. Matando alguém
sem compaixão. (Facção Central)
A música demonstra a situação limite, ausência de condições materiais
objetivas e subjetivas, justificando de forma mecânica a criminalidade por meio da
pobreza. Adorno (2002), levanta estudiosos que contrariam a idéia do vínculo direto
de São Paulo. Segundo Souza (2006, p. 24) “as raízes do PCC criaram metástase, crescendo e
multiplicando-se de São Paulo para outros Estados, e destes para outros países, como Paraguai, Bolívia e
Colômbia, tornando-se internacional”. Os estudos do autor apontam que o PCC chega a movimentar R$
750 mil reais por mês.
8
Explica o autor que os traficantes colombianos exigem a unificação por não quererem “atuar como
donos de supermercados de entorpecentes. Eles não querem estar vendendo pó a varejo. O exportador
entrega armas e drogas por atacado, em partidas que chegam a várias toneladas. (A unidade da fonte
produtora conduz, pela lógica, à unificação da operação e distribuição)” (AMORIM, 2003, p. 435).
11
entre violência – pobreza, entretanto, refere que este debate ainda não está concluído,
pois são inúmeros os elementos que direta e/ou indiretamente, fazem com que, pessoas
pertencentes as classes populares estejam mais vulneráveis as situações decorrentes da
violência urbana, como vítimas ou agentes. Ousamos dizer que o trecho da música
citada, pode ser caracterizado como um “recado” do segmento mais pauperizado da
superpopulação relativa9, ou ainda, do próprio lupemproletariado urbano, que conforme
Marx (1988, p. 199) explica,
Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa
habita a esfera do pauperismo. Abstraindo vagabundos,
delinqüentes, prostitutas, em suma, o lumpemproletariado
propriamente dito, essa camada social consiste em três categorias.
Primeiro, os aptos para o trabalho. [...] Segundo, órfãos e crianças
indigentes. Eles são candidatos ao exército industrial de reserva [...].
Terceiro, degradados, maltrapilhos, incapacitados para o trabalho.[...]
(grifos nossos)
Certamente, o número de pessoas que vivem em condições de
miserabilidade extrema, é muito diferente da conjuntura do século XIX e, essa realidade
tende a crescer. Assim problematizamos a situação de uma parcela da juventude
brasileira, que não possuí condições concretas para a construção de identidades com o
trabalho (que podemos, correndo risco de errar, chamar de formal), mas, insere-se no
crime organizado, submetendo-se a exploração de sua força de trabalho, sem considerála como tal, pois junto da remuneração obtida com ações criminosas, os adolescentes
sentem-se satisfeitos através do poder e respeito que o crime, supostamente, os
proporciona. Vemos na pesquisa de Conclusão de Curso de Sara Elaine de Oliveira, o
qual também esteve sob nossa orientação, um exemplo do reconhecimento alcançado
através do envolvimento com a criminalidade:
Ah, quando se começa assim, você tá entrando assim é muitas coisas
que aparece, é droga, é a balada, é muita, se vai conhecendo muitas
pessoas né?!, e pra você ali tudo é diferente, tudo está sendo legal, o
maior barato.
[O que é legal?]
Ah, é fumar um baseado10, acho a maior pira, tipo se conhece os caras
mais das antigas, você conhece revólver, vai conhecendo, vai vendo
9
Ao discutir a superpopulação relativa, Marx (1988, p. 197) vai apontar que “todo trabalhador faz parte
dela durante o tempo em que está desocupado parcial ou inteiramente”
10
Gíria utilizada para se referir ao uso da cannabis sativa, entorpecente conhecido como maconha
12
de tudo um pouco, [...] sabe das coisa que acontece, se vai se
envolvendo ali (Sujeito E). (apud OLIVEIRA, 2006)
É neste “palco” contraditório que muitos adolescentes de camadas
pauperizadas estão inseridos11, ou seja, sentem-se reconhecidos por pertencer a um
grupo criminoso, que via de regra determina influências nas comunidades12. Assim,
muitos jovens são protagonistas de ações violentas que o tráfico de drogas e suas frentes
de atuação proporciona e, ao mesmo tempo, são vitimizados, pela exploração do
trabalho e através dos riscos que sofrem constantemente. Observamos que os jovens
envolvidos com a criminalidade não conseguem identificar-se com o trabalho
convencional, mas acabam submetendo sua força de trabalho à exploração, sem
considerar que são explorados, pois, como já apontamos, além da remuneração obtida,
os mesmos sentem-se satisfeitos através do poder e respeito que o crime os proporciona.
Desta forma, problematizamos as contradições vivenciadas por uma
parcela de adolescentes das classes populares, que sofre nos âmbitos da vida material e
espiritual, as opressões da ordem societária vigente. Jovens que enxergam nas relações
objetivas e subjetivas presentes na criminalidade, a “oportunidade” de reconhecimento
como sujeitos, mesmo que esta culmine na morte ou no encarceramento. Eis um
fenômeno social complexo, que deve ser refletido para além da aparência, pois, como
nos ensina Marx, o concreto é síntese de múltiplas determinações.
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2000. p. 97 – 112
11
Há ainda o fenômeno de jovens de classe média envolvidos com o crime organizado, entretanto,
enfocaremos a situação dos adolescentes em situação de pobreza.
12
Além disso, Amorim (2003, p. 416), ressalta que a organização criminal é mais respeitada que o
próprio Estado. Reflete que a naturalização das comunidades diante das ações dos criminosos, se dá pela
premissa de que “pobres e bandidos estão no mesmo barco – e o denominador comum se chama
sobrevivência. As quadrilhas [...] São a polícia, a justiça, o prefeito e o principal gerador de empregos na
comunidade”.
13
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