1 VIOLÊNCIA URBANA: CRIME ORGANIZADO E EXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO DE ADOLESCENTES Andréa Pires Rocha1. 1. INFORMAÇÕES INTRODUTÓRIAS Em tempos de agravamento das contradições sociais, a humanidade esta a cada dia mais desumanizada e, esta desumanização, não é um fenômeno natural, mas sim histórico, decorrente de múltiplas determinações presentes na ordem capitalista. Além da miséria material, o capitalismo constrói a miséria humana, pois o homem alienado e fragmentado é impedido de perceber-se em totalidade, muito menos, como sujeito histórico e social. Problematizamos no presente artigo a violência urbana e a exploração da força de trabalho de adolescentes utilizada pelo crime organizado, que se movimenta, essencialmente, a partir do tráfico de entorpecentes, de armas e outras frentes, à exemplo de crimes contra a propriedade privada (roubos, assaltos, furtos) e a vida (homicídios, seqüestros). As reflexões resultam da experiência de atuação com adolescentes infratores e de estudos desenvolvidos em dois projetos de pesquisa vinculados ao Departamento de Serviço Social da UEL, os quais entendem a violência urbana como um fenômeno complexo, decorrente das contradições próprias do modo de produção capitalista. A abordagem teórico-metodológica tem o materialismo histórico e dialético como teoria fundamental, tendo em vista que este método dá conta de analisar a realidade considerando as mediações e os movimentos que os fenômenos sociais estão inseridos. Defendemos que as discussões sobre violência urbana materializada no crime organizado e na criminalidade juvenil, devem perpassar a aparência. É preciso compreendermos que o crime organizado esta inserido nas relações capitalistas, 1 Docente do Departamento de Serviço Social da UEL – Universidade Estadual de Londrina. Mestre em Educação pela UEM – Universidade Estadual de Maringá, graduada em Serviço Social pela UNESP – Universidade Estadual Paulista, campus Franca – mail: [email protected] 2 desenvolve exploração da força de trabalho e extração de mais valia, tendo em vista que as drogas são mercadorias de grande circulação na sociedade contemporânea. Utilizamos a centralidade da categoria trabalho para a análise da movimentação do crime organizado, por isso, cabe-nos esclarecer que não queremos naturalizar ações criminosas, mas sim buscamos apontar que o fenômeno do envolvimento de jovens com a criminalidade não pode continuar sendo entendido na perspectiva de criminalização da pobreza e na defesa ideologizada do aumento de instrumentos repressivos, ao inverso disso, é preciso que observemos as relações de trabalho presentes no crime organizado e como essas exploram a força de trabalho de uma parcela da juventude. 2. CONTRADIÇÕES CAPITALISTAS, VIOLÊNCIA URBANA E CRIME ORGANIZADO As características destrutivas do modo de produção capitalista são históricas e como Mészáros (2002, p. 606) afirma, “a completa subordinação das necessidades humanas à reprodução de valor de troca – no interesse da auto-realização ampliada do capital – tem sido o traço marcante do sistema do capital desde o seu início.” O mesmo autor nos ensina que no capitalismo, a reprodução social ocorre através de duas determinações originais: produção e propriedade. Ressalta que Sob o comando do capital, o sujeito que trabalha não mais pode considerar as condições de sua produção e reprodução como sua própria propriedade. Elas não mais são os pressupostos autoevidentes e socialmente salvaguardados do seu ser, nem os pressupostos naturais do seu eu como constitutivos da “extensão externa de seu corpo”. Ao contrário, elas agora pertencem a um “ser estranho” reificado que confronta os produtores com suas próprias demandas e os subjuga aos imperativos materiais de sua própria constituição. Assim, a relação original entre o sujeito e o objeto da atividade produtiva é completamente subvertida, reduzindo o ser humano ao status desumanizado de uma mera “condição material de produção”. O “ter” domina o “ser” em todas as esferas da vida. (MÉSZÁROS, 2002, p. 611) Os valores com base no pensamento capitalista destroem o ser, ou seja, o homem como sujeito em totalidade. O ter é que determina as relações inseridas no movimento dialético entre objetividade e subjetividade. A produção da mercadoria tem 3 sua razão no acumulo de riquezas2, perpassa o valor-de-uso, estimula o consumo, diante disso, a construção das relações está pautada na mercantilização. A dominação permeia dois âmbitos essenciais os quais se relacionam dialeticamente. Por um lado acontece através da propriedade dos meios de produção, que se mantém e desenvolve-se a partir da exploração do trabalho e, por outro, através da propriedade da construção intelectual, ideológica. O cotidiano humano é construído por valores concretos, Marx e Engels (2002, p. 48-49), nos mostram como a força do pensamento da classe detentora dos meios de produção é o pensamento dominante, ou seja, [...] os pensamentos dominantes, nada mais são que a expressão ideal das relações materiais dominantes; eles são essas relações materiais dominantes consideradas sob forma de idéias, portanto a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; em outras palavras, são as idéias de sua dominação. Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também uma consciência, e conseqüentemente pensam; na medida em que dominam como classe e determinam uma época histórica em toda a sua extensão, é evidente que esses indivíduos dominam em todos os sentidos e que têm uma posição dominante, entre outras coisas também como seres pensantes, como produtores de idéias que regulamentam a produção e a distribuição dos pensamentos da sua época; suas idéias, são, portanto, as idéias dominantes de sua época. Reiteramos, portanto, que os sujeitos sofrem influencias do âmbito estrutural, político e econômico e, ainda, de questões que se mostram no campo ideológico, por isso, não é possível desligar as relações sociais da construção ideológica que sustenta as forças produtivas. Muitas vezes utiliza-se o equívoco de fragmentar o ideológico do econômico para camuflar a realidade concreta, tendo em vista que a lógica capitalista é extremamente cruel, pois é na abundância que a disparidade aumenta, ou seja, quanto mais há acumulo de riquezas para alguns (proprietários dos meios de produção), mais cresce a pobreza para outros (trabalhadores) 2 Alerta Mészáros (2002, p. 612) que “[...] já que o sistema produtivo estabelecido, sob a regência do capital, não pode reproduzir a si próprio, a menos que possa fazê-lo em uma escala sempre crescente, a produção deve não apenas ser considerada a finalidade de humanidade, mas – enquanto um modo de produção ao qual não pode haver alternativa – deve ser tomada como premissa que a finalidade da produção é a multiplicação sem fim da riqueza.” 4 Os primeiros acumularam riquezas e os últimos, finalmente, nada tinham para vender senão sua própria pele. E desse pecado original data a pobreza da grande massa que até agora, apesar de todo o seu trabalho, nada possui para vender senão a si mesmo, e a riqueza dos poucos, que cresce continuamente, embora há muito tenham parado de trabalhar. [...] na história real, como se sabe, a conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, em suma, a violência, desempenha principal papel (MARX, 1988, p. 251). A violência desempenha papel histórico nas relações capitalistas, assim, é possível que a violência seja vista mais amplamente, considerando-se, inclusive, as questões estruturais que as envolvem. Como sintetiza Vázquez (2007, p. 377 – 378), há a violência que não é ruidosa, mas totalmente agressiva, Na sociedade baseada na exploração do homem pelo homem, como é a sociedade capitalista atual, a violência não só se mostra nas formas diretas e organizadas de uma violência real ou possível, como também se manifesta de um modo indireto, e aparentemente espontâneo, como violência vinculada como caráter alienante e explorador das relações humanas. Tal é a violência da miséria, da fome, da prostituição ou da doença que já não é a resposta a outra violência potencial ou em ato, mas sim da própria violência como modo de vida porque assim o exige a própria essência do regime social. Essa violência surda causa muito mais vítimas que a violência ruidosa dos organismos coercitivos do Estado. Como vemos na citação acima, o conceito de violência não pode ser banalizado e entendido apenas como agressões físicas ou expressões da criminalidade, pois em uma sociedade dividida em classes, a violência se materializa em diversos âmbitos3, inclusive por meio do próprio Estado e, muitas vezes, as ações desenvolvidas para a intervenções sob a violência urbana, são pautadas simplesmente em discursos culpabilizadores e investimentos em segurança. É importante ainda lembramos que a sociedade contemporânea é ordenada pela política econômica neoliberal, que promove desmontes do social em prol do fortalecimento econômico capaz de aumentar o acumulo de capital, a conjuntura, os direitos sociais são cada vez mais suprimidos, fazendo com que um número maior de sujeitos vivam em condições de vulnerabilidades extremas. Conforme Wacquant (2001, p. 7), sob a égide da hegemonia política econômica neoliberal, há a priorização em 3 No início de nossa fundamentação teórica ressaltamos a força da ideologia da classe detentora dos meios de produção, como ideologia dominante. 5 políticas policialescas e penitenciárias, ao invés do investimento em direitos sociais, para ele A penalidade neoliberal apresenta o seguinte paradoxo: pretende remediar com um “mais Estado” policial e penitenciário o “menos Estado” econômico e social que é a própria causa da escalada generalizada da insegurança objetiva e subjetiva em todos os países, tanto do Primeiro como do Segundo Mundo Continua o autor: [...] Desenvolver o Estado penal para responder às desordens suscitadas pela desregulamentação da economia, pela dessocialização do trabalho assalariado e pela pauperização relativa e absoluta de amplos contingentes do proletariado urbano, aumentando os meios, a amplitude e a intensidade da intervenção do aparelho policial e judiciário, equivale a (r)estabelecer uma verdadeira ditadura sobre os pobres [...] Em tempos do agravamento de situações de miserabilidade e do crescimento do lupemproletariado urbano, a criminalização da pobreza faz com que as políticas de segurança se imponham como “ditadura sobre os pobres”, voltando-se repressivamente contra as classes mais pauperizadas. Percebemos que é no “espaço” deixado pelo Estado que as facções criminosas tornam-se empregadoras de uma parcela de jovens e adolescentes, em especial, aqueles pertencentes aos grupos sociais mais atingidos pela violência estrutural. Falamos de adolescentes, sujeitos em meio de uma sociedade construída sob a égide de contradições e violências. Adolescentes que produzem e, ao mesmo tempo, sofrem em seu cotidiano a interferência de diferentes aspectos da violência. Hobsbawn (1995, p. 22), ao desenvolver um olhar panorâmico sobre o século XX coloca que “[...] este século nos ensinou e continua a ensinar que os seres humanos podem aprender a viver nas condições mais brutalizadas e teoricamente intoleráveis, não é fácil apreender a extensão do regresso, por desgraça cada vez mais rápido, ao que nossos ancestrais do século XIX teriam chamado padrões de barbarismo”. 6 Observamos que os “padrões de barbarismo” continuam a se agravar, tendo em vista que essa é a tendência do modo de produção capitalista, situação essa que poderá ser revertida apenas após a superação desta ordem societária. Em meio das gritantes contradições sociais, há o crescimento exacerbado da violência urbana, que é fenômeno presente e recorrente nas relações contemporâneas. Almeida (2000, p. 102), nos mostra que, a condição de classe determina de forma diferenciada as visões que se tem da violência urbana e os possíveis encaminhamentos ao fenômeno, A violência urbana tem gradações diferencias e é assimilada de formas distintas de acordo com as frações de classe as categorias sociais contra as quais é dirigida. Quando esta modalidade de violência é impingida aos setores mais privilegiados da população, as reprovações social e legal são inequívocas. No entanto, ao atingir os setores historicamente excluídos – exclusão esta que já encerra, em sua própria lógica, boa dose de violência -, as reações são ambíguas, dada a associação exclusão-marginalidade-violência, e sua conseqüente banalização. Incluir esta forma de violência na agenda nacional de direitos humanos exige embates e negociações. Ou seja, além das classes populares, já serem vitimadas, como discutimos acima, pelas contradições sociais inerentes ao capitalismo, sofrem ainda com a banalização das expressões da violência urbana que estão vulneráveis na condição de vítimas e, algumas vezes, na posição de agentes. São diversos os elementos objetivos e subjetivos que interferem no cotidiano dos grupos sociais e levam os sujeitos, individuais ou coletivos, à prática de ações violentas, que num primeiro olhar, parecem apenas atitudes singulares. No desenvolvimento de um balanço sobre a violência urbana, Adorno (2002, p. 88) coloca que desde o recente egresso do regime autoritário, o Brasil experimenta quatro novas tendências a) o crescimento da delinqüência urbana, em especial dos crimes contra o patrimônio (roubo, extorsão mediante seqüestro) e de homicídios dolosos (voluntários); b) a emergência da criminalidade organizada, em particular em torno do tráfico internacional de drogas, que modifica os modelos e perfis convencionais da delinqüência urbana e propõe problemas novos para o direito penal e para o funcionamento da justiça criminal; c) graves violações de direitos humanos que comprometem a consolidação da ordem política democrática; d) a explosão de conflitos nas relações intersubjetivas, mais propriamente conflitos de vizinhança que tendem a convergir para desfechos fatais. Trata-se de tendências que, conquanto 7 relacionadas entre si, radicam em causas não necessariamente idênticas. O autor traz estatísticas que comprovam tais tendências, mostrando o grande aumento no índice de homicídios no país, o crescente número de adolescentes envolvidos na prática de atos infracionais, a constante violação dos direitos humanos através da violência policial, linchamentos e chacinas, entre outros. Vemos portanto, que dentre as diferentes formas de expressão da violência urbana, há uma efetiva estruturação do crime organizado. São inúmeros os elementos estruturais e superesetruturais, que levam uma parcela da juventude, pertencente ao lupemproletariado urbano, ter o crime organizado como “empregador” em potencial. Na monografia de Conclusão de Curso de Angélica Gonçalves Bezerra, a qual orientamos, foram realizadas entrevistas com jovens envolvidos com a criminalidade, ficando evidente como as organizações criminais são vistas como possibilitadoras de “trabalho” Então eu acho que é a maneira mais fácil de estar conseguindo as coisas mesmo, é onde as portas estão abertas, por que a sociedade, ou que seja, ai fora o mercado não oferece emprego, principalmente quando descobre que você é uma pessoa periférica, você já teve um passado que te condena ai é difícil alguém abrir as portas pra você e no crime não tem essa, a porta é aberta pra todo mundo, basta você ter coragem e disposição (sujeito B). (apud BEZERRA, 2006) Jovens são “habilitados” para atuação nas facções criminosas, desta forma, faz-se necessário que identifiquemos algumas características do crime organizado, materializado no tráfico de drogas, como um possível empregador. Em leituras sobre este fenômeno social, obtivemos informações de que a movimentação de capital é extrema, havendo exploração de mais-valia, divisão do trabalho, entre outros elementos característicos dos processos de trabalho desenvolvidos no capitalismo. Souza (2006, p. 103) demonstra trechos de uma denúncia apresentada à 3ª. Vara Criminal da Capital por um grupo de seis promotores, no qual eles apontam que O ‘Primeiro Comando da Capital’ teve sua origem em 1993 [...] Formada a quadrilha, os membros da congregação desenvolveram sofisticada divisão de trabalho, cada qual exercendo uma função, mas sempre conscientes da finalidade global e do papel que cada um 8 cumpriria no esquema criminoso. Fora dos presídios, dividiam tarefas e passaram a exercer agressiva atuação criminosa, hoje voltada quase completamente ao tráfico ilícito de entorpecentes. [...]. Desenvolvemos as presentes reflexões, considerando as drogas (lícitas ou ilícitas) como mercadorias, tendo em vista que, de alguma maneira, satisfazem as necessidades de alguns sujeitos. Como nos explica Marx (1980, p. 42), “a mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. [...]”. E, como qualquer mercadoria, os entorpecentes passam por processos de trabalho, os quais, no caso das drogas ilícitas, acontecem de forma clandestina, sem retirar-lhe as condições de exploração de mais-valia. A produção de mercadoria depende da força de trabalho humana, como explica Marx (1988, p. 142), A utilização da força de trabalho é o próprio trabalho. O comprador da força de trabalho a consome ao fazer trabalhar o vendedor dela. O ultimo torna-se, desse modo, “actu” (de fato), força de trabalho realmente ativa, o que antes era apenas potentia (em potencial). Para representar seu trabalho em mercadorias, ele tem de representá-lo, sobretudo, em valores de uso, em coisas que sirvam para satisfazer a necessidade de alguma espécie. É, portanto, um valor de uso particular, um artigo determinado, que o capitalista faz o trabalhador produzir. A produção de valores de uso ou bens não muda sua natureza geral por se realizar para o capitalista e sob seu controle, Por isso, processo de trabalho deve ser considerado de início independentemente de qualquer forma social determinada Certamente há, no tráfico de drogas os proprietários dos meios de produção, todavia, as relações capitalistas presentes no crime organizado ficam ainda mais camufladas, tendo em vista que o produto produzido é ilícito, fazendo com que o real comprador da força de trabalho utilize uma rede exterior para preservar-se, a qual é mantida através de propinas, subornos e ameaças. Amorim (2003, p. 423) desenvolve um interessante estudo sobre o funcionamento do tráfico de entorpecentes, explica o processo de trabalho4 utilizado na produção da cocaína, o qual se inicia nas plantações de coca na Colômbia e de lá se expande internacionalmente, 9 [...] Mais de mil cocaleros, em geral índios pobres, trabalham para ele [Negro Acácio5], debaixo da proteção (ou ameaça) de 150 homens armados com o que há de melhor na indústria bélica mundial. A Colômbia produz 60% de toda a droga consumida no mundo, cerca de 1,5 milhão de quilos de cocaína pura a cada ano. Na ponta do consumo, a droga estará multiplicada por cinco, batizada com outras substâncias [...]. Assim, o número sobe para 7,5 milhões de quilos por ano. Os demais produtores, concentrados na Ásia Central e no Extremo Oriente, produzem mais um milhão de quilos anuais de substâncias entorpecentes.[...] Também sobre a organização do tráfico de drogas, a autora Alba Zaluar (2004, p. 309), aponta que Pelo que já se conhece hoje, no caso da cocaína, que é o que mais nos afeta no Brasil, a indústria é concentrada e não está baseada em pequenos estabelecimentos. Os camponeses produtores recebem uma ínfima parcela da renda produzida com o negócio. O comércio, por sua vez, tornou-se organizado em cartéis e máfias nos seus mais altos níveis, porém ramificado e descentralizado no varejo. Sua lucratividade, embora não exista consenso a respeito das taxas por causa da dificuldade de obter os dados, favorece principalmente os grandes atacadistas e maiores intermediários na rede hierárquica de conexões (Fonseca, 1992; Salama, 1993; Bettancourt e Garcia, 1994; Tullis, 1995; Labrousse e Koutousis, 1996; UNDCP, 1997) As relações que envolvem o tráfico de entorpecentes são mediadas por grupos com poder internacional, estudos de Zaluar (2004), Amorim (2003), Souza (2006) e Arbex Júnior (1993) apontam a existência de agências econômicas internacionais envolvidas com o tráfico de armas e drogas. É através da lógica dos monopólios que o mercado de drogas se organiza e, como exigência do tráfico internacional, há no Brasil, a busca de uma maior estruturação do crime organizado. Este fenômeno tem se mostrado na unificação dos grupos CV (Comando Vermelho)6 e PCC (Primeiro Comando da Capital)7, que acontece segundo Amorim (2003) de forma lenta8. 5 O maior produtor de cocaína da Colômbia e um dos maiores produtores do mundo 6 O Comando Vermelho é uma organização criminosa que floresce na década de 1980, no Rio de Janeiro. E, segundo Amorim (2003), tem a influência da convivência entre traficantes e presos políticos no presídio de Ilha Grande. O autor aponta que o “criador” do CV, Willian da Silva Lima, conhecido como “Professor”, teve influências de militantes de esquerda, o que lhe fez conhecer os princípios organizativos da tradição Leninista-Trotskista. 7 Já o PCC, nasce no início da década de 1990, nos presídios de São Paulo Capital. Segundo os estudos de Amorim (2003), o PCC é construído a partir de influencias do Comando Vermelho expandido no Estado 10 Para o “funcionamento” e aquisição de lucros, aos moldes do acumulação capitalista, há a necessidade de bons quadros, portanto, as facções criminosas buscam em adultos, jovens e adolescentes o potencial laborativo e a disposição necessária para o desenvolvimento de ações criminosas, as quais serão remuneradas de acordo com lógica do capital. 3. EXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO DE ADOLESCENTES: CONSIDERAÇÕES FINAIS, QUE PODEM SER INICIAIS O envolvimento de jovens e adolescentes com o crime organizado materializa uma relação dual, pois de um lado expressa as contradições sociais, decorrentes da questão social, resultante do conflito entre capital e trabalho e, de outro, demonstra o grau extremo de desumanização que os sujeitos são submetidos e, além disso, podem reproduzir. Podemos ver no trecho de uma letra de rap, o exemplo concreto desta dualidade Cadê o meu presente o meu abraço? A bicicleta que eu sonhei não vem com o laço. Não tem bolo nem alegria. É dia das crianças mas não pra periferia. Queria fugir daqui, é impossível. Eu não queria ver lagrimas, é difícil. Meus exemplos de vitória estão todos na esquina. De Tempra de Golf, vendendo cocaína. Bem melhores que minha mãe no pé da cruz Pedindo comida um milagre pra Jesus. Antes dos doze [anos de idade] vou estar com o oitão [revólver calibre 38]. Matando alguém sem compaixão. (Facção Central) A música demonstra a situação limite, ausência de condições materiais objetivas e subjetivas, justificando de forma mecânica a criminalidade por meio da pobreza. Adorno (2002), levanta estudiosos que contrariam a idéia do vínculo direto de São Paulo. Segundo Souza (2006, p. 24) “as raízes do PCC criaram metástase, crescendo e multiplicando-se de São Paulo para outros Estados, e destes para outros países, como Paraguai, Bolívia e Colômbia, tornando-se internacional”. Os estudos do autor apontam que o PCC chega a movimentar R$ 750 mil reais por mês. 8 Explica o autor que os traficantes colombianos exigem a unificação por não quererem “atuar como donos de supermercados de entorpecentes. Eles não querem estar vendendo pó a varejo. O exportador entrega armas e drogas por atacado, em partidas que chegam a várias toneladas. (A unidade da fonte produtora conduz, pela lógica, à unificação da operação e distribuição)” (AMORIM, 2003, p. 435). 11 entre violência – pobreza, entretanto, refere que este debate ainda não está concluído, pois são inúmeros os elementos que direta e/ou indiretamente, fazem com que, pessoas pertencentes as classes populares estejam mais vulneráveis as situações decorrentes da violência urbana, como vítimas ou agentes. Ousamos dizer que o trecho da música citada, pode ser caracterizado como um “recado” do segmento mais pauperizado da superpopulação relativa9, ou ainda, do próprio lupemproletariado urbano, que conforme Marx (1988, p. 199) explica, Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa habita a esfera do pauperismo. Abstraindo vagabundos, delinqüentes, prostitutas, em suma, o lumpemproletariado propriamente dito, essa camada social consiste em três categorias. Primeiro, os aptos para o trabalho. [...] Segundo, órfãos e crianças indigentes. Eles são candidatos ao exército industrial de reserva [...]. Terceiro, degradados, maltrapilhos, incapacitados para o trabalho.[...] (grifos nossos) Certamente, o número de pessoas que vivem em condições de miserabilidade extrema, é muito diferente da conjuntura do século XIX e, essa realidade tende a crescer. Assim problematizamos a situação de uma parcela da juventude brasileira, que não possuí condições concretas para a construção de identidades com o trabalho (que podemos, correndo risco de errar, chamar de formal), mas, insere-se no crime organizado, submetendo-se a exploração de sua força de trabalho, sem considerála como tal, pois junto da remuneração obtida com ações criminosas, os adolescentes sentem-se satisfeitos através do poder e respeito que o crime, supostamente, os proporciona. Vemos na pesquisa de Conclusão de Curso de Sara Elaine de Oliveira, o qual também esteve sob nossa orientação, um exemplo do reconhecimento alcançado através do envolvimento com a criminalidade: Ah, quando se começa assim, você tá entrando assim é muitas coisas que aparece, é droga, é a balada, é muita, se vai conhecendo muitas pessoas né?!, e pra você ali tudo é diferente, tudo está sendo legal, o maior barato. [O que é legal?] Ah, é fumar um baseado10, acho a maior pira, tipo se conhece os caras mais das antigas, você conhece revólver, vai conhecendo, vai vendo 9 Ao discutir a superpopulação relativa, Marx (1988, p. 197) vai apontar que “todo trabalhador faz parte dela durante o tempo em que está desocupado parcial ou inteiramente” 10 Gíria utilizada para se referir ao uso da cannabis sativa, entorpecente conhecido como maconha 12 de tudo um pouco, [...] sabe das coisa que acontece, se vai se envolvendo ali (Sujeito E). (apud OLIVEIRA, 2006) É neste “palco” contraditório que muitos adolescentes de camadas pauperizadas estão inseridos11, ou seja, sentem-se reconhecidos por pertencer a um grupo criminoso, que via de regra determina influências nas comunidades12. Assim, muitos jovens são protagonistas de ações violentas que o tráfico de drogas e suas frentes de atuação proporciona e, ao mesmo tempo, são vitimizados, pela exploração do trabalho e através dos riscos que sofrem constantemente. Observamos que os jovens envolvidos com a criminalidade não conseguem identificar-se com o trabalho convencional, mas acabam submetendo sua força de trabalho à exploração, sem considerar que são explorados, pois, como já apontamos, além da remuneração obtida, os mesmos sentem-se satisfeitos através do poder e respeito que o crime os proporciona. Desta forma, problematizamos as contradições vivenciadas por uma parcela de adolescentes das classes populares, que sofre nos âmbitos da vida material e espiritual, as opressões da ordem societária vigente. Jovens que enxergam nas relações objetivas e subjetivas presentes na criminalidade, a “oportunidade” de reconhecimento como sujeitos, mesmo que esta culmine na morte ou no encarceramento. Eis um fenômeno social complexo, que deve ser refletido para além da aparência, pois, como nos ensina Marx, o concreto é síntese de múltiplas determinações. BIBLIOGRAFIA ADORNO, Sergio. Exclusão Socioeconômica e violência Urbana. Sociologias, Porto Alegre, ano 4, n. 8, Jul/Dez 2002, p. 84 - 135. ALMEIDA, Suely Souza de. Violência Urbana e Constituição de Sujeitos Políticos. In: PEREIRA, Carlos Alberto (et al.). Linguagens da Violência. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. p. 97 – 112 11 Há ainda o fenômeno de jovens de classe média envolvidos com o crime organizado, entretanto, enfocaremos a situação dos adolescentes em situação de pobreza. 12 Além disso, Amorim (2003, p. 416), ressalta que a organização criminal é mais respeitada que o próprio Estado. Reflete que a naturalização das comunidades diante das ações dos criminosos, se dá pela premissa de que “pobres e bandidos estão no mesmo barco – e o denominador comum se chama sobrevivência. As quadrilhas [...] São a polícia, a justiça, o prefeito e o principal gerador de empregos na comunidade”. 13 AMORIM, Carlos. CV – PCC: a irmandade do crime. Rio de Janeiro: Record, 2003. ARBEX JÚNIOR, José. Narcotráfico: um jogo de poder nas Américas. São Paulo: Moderna, 1993. BEZERRA, Angélica Gonçalves. Quem cria a criminalidade é o criminoso?. Trabalho de conclusão de curso (Serviço Social) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina. 2006. BRASIL. 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