XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 25 CONTRIBUIÇÕES DO SOFTWARE GEOGEBRA PARA A AQUISIÇÃO DE CONCEITOS GEOMÉTRICOS Silvana Holanda Da Silva Larissa Elfísia Santana Marcilia Chagas Barreto RESUMO Este trabalho objetivou investigar se o uso do software Geogebra pode auxiliar docentes dos anos iniciais do Ensino Fundamental na compreensão de conceitos da geometria, uma vez que esse recurso representa um suporte à visualização dinâmica de figuras, permitindo a realização de sobreposições, redimensionamento e deslocamentos que podem favorecer à melhor compreensão de conceitos geométricos envolvidos. Neste sentido, requisitou-se a um grupo de professoras dos anos iniciais do Ensino Fundamental de uma escola pública da rede municipal de Fortaleza que resolvesse problemas envolvendo conceitos geométricos utilizando o software Geogebra como suporte. A abordagem metodológica adotada é de natureza qualitativa e foi composta por três momentos distintos: 1) Identificação dos conhecimentos prévios das professoras acerca do uso de softwares; 2) Realização da Oficina “Conhecendo o Geogebra”. 3) Resolução de problemas geométricos no ambiente gráfico do Geogebra. Os dados foram coletados por meio de observação, relatos das docentes e realização de atividades com o uso do Geogebra. Para fundamentar este estudo, utilizaram-se os construtos teóricos de Raymond Duval, cuja teoria sobre os registros de representação semiótica vem elucidar a construção de conceitos geométricos. Esse aporte teórico foi escolhido com a finalidade de evidenciar a importância da diversificação e conversão de representações na compreensão do objeto matemático. Após a análise dos resultados , constatou-se a dificuldade das professoras em manipular o computador, dificultando a execução das atividades mais complexas que poderiam, de fato, provocar avanço na concepção figural das docentes. Apesar dessa situação, percebeu-se que nas atividades finalizadas, o suporte intuitivo e dinâmico do software, possibilitou a melhora das percepções das professoras em relação à apreensão figural. Nesse sentido, recomenda-se a necessidade de mais formação para a apropriação de recursos digitais por parte desse grupo de docentes. Palavras chaves: Geometria. Geogebra. Registro Figural. Professoras. INTRODUÇÃO A geometria tem se configurado como um campo da Matemática que tem ocupado pouco espaço nas práticas de ensino dos professores da Educação Básica, principalmente aqueles que lecionam nos anos iniciais do Ensino Fundamental – AIEF. Esse cenário já foi sobejamente denunciado por autores como Pavanello (1989), Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006109 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 26 Nacarato; Passos (2003) e Lorenzato (2006). Essa discussão é corroborada por Bittar e Freitas (2005, p. 97), quando afirmam: “a Geometria está praticamente ausente das salas de aula das escolas de Ensino Fundamental e Médio”. É provável que essa ausência esteja relacionada às lacunas conceituais que os docentes trazem de sua formação inicial (BARRETO, 2007). No cenário atual da Educação Matemática, verifica-se que o uso do computador como ferramenta para o ensino desta disciplina tem surgido como uma forte tendência em estudos realizados. Essas tecnologias permitem perspectivar o ensino da matemática de modo inovador, reforçando o papel da linguagem gráfica e de novas formas de representação (PONTES, 2009). Abrir esta perspectiva implica em investir na formação dos professores, inclusive os dos anos iniciais, que serão responsáveis por despertar nos alunos a curiosidade pelo uso de softwares na exploração matemática. No entanto, apesar de hoje, para o conjunto dos professores, a informática ser considerada uma ferramenta fundamental para melhorar suas aulas, não significa, entretanto, que eles a dominem ou dela façam uso em suas práticas docentes. Segundo Pais (2002, p. 15): “É possível perceber no cotidiano pedagógico certa expectativa, por parte dos professores, quanto à vontade de usar os novos recursos da informática na educação”. Para proceder à utilização dos computadores e softwares fazse necessária a efetivação de ações que promovam a aproximação dos docentes com essa tecnologia. Nesse sentido, Silva se posiciona: Atualmente, um novo desafio se apresenta aos professores: a utilização do computador no cotidiano escolar como ferramenta de trabalho pedagógico. Para tanto, faz-se imperioso cuidar da formação docente, posto que o uso do computador em qualquer área de ensino requer a utilização do recurso tecnológico atrelada a uma compreensão sobre a natureza e as possibilidades do trabalho pedagógico. (SILVA, 2009. p. 57) Considera-se que esta dificuldade pode estar relacionada ao fato de que é possível encontrar professores com grande experiência na docência que tiveram sua formação pautada em uma cultura em que o computador aparecia como uma figura distante do seu cotidiano. Deste modo, com o surgimento de novas demandas quanto ao uso do computador, esses professores vêem seus padrões usuais de ensino sendo questionados. São mudanças nas suas concepções de ensino, aprendizagem e relações pessoais. Esses docentes podem ser considerados imigrantes digitais. Essa expressão vem sendo usada frequentemente para contrapor-se aos nativos digitais - “são pessoas Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006110 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 27 que não nasceram digitais e que vivem uma vida digital de maneira substancial, mas não estão encontrando seu caminho no mundo digital”. (PALFREY, GASSER, 2011, P. 47). Nessa perspectiva, esta investigação objetivou analisar as contribuições do software Geogebra para a elaboração de conceitos geométricos por professores polivalentes. Trata-se de um software de geometria dinâmica, que pode ser usado como suporte à visualização dinâmica de figuras, permitindo a realização de sobreposições, redimensionamento e deslocamentos que podem favorecer melhor compreensão dos conceitos ali envolvidos. Para fundamentar este estudo, utilizaram-se os construtos teóricos de Raymond Duval, cuja teoria dos registros de representação semiótica traz elementos que podem colaborar na construção de conceitos geométricos. Esse aporte teórico foi escolhido com a finalidade de evidenciar a importância da diversificação e conversão de representações na compreensão do objeto matemático. No tópico seguinte serão explicitados os conceitos elencados por Duval na referida teoria. A TEORIA DOS REGISTROS DE REPRESENTAÇÃO SEMIÓTICA E A GEOMETRIA Para Duval (1995), a atividade cognitiva solicitada em geometria envolve dois tipos de registros: o figural e o discursivo. O primeiro serve para desenhar figuras ressaltando suas propriedades; o segundo para anunciar as definições, os teoremas e as hipóteses. Embora o tratamento possa ser efetuado em apenas um desses registros, essa ação não garante o êxito da ação, sendo necessário que esses dois registros sejam trabalhados simultaneamente e de forma interativa, para que seja possível facilitar a compreensão do objeto geométrico. As informações presentes em um desenho geométrico conduzem ao papel heurístico das figuras, isto é, identificar as propriedades figurais que podem levar à conduta de abdução e guiar à dedução. Nesse caso, abdução seria a capacidade de perceber as figuras em partes separadas, o que é um dos elementos fundamentais na compreensão de uma situação geométrica. Para Duval, o problema é saber que tratamentos repousam sobre essa conduta de abdução. O autor assevera que: Esses tratamentos devem ser específicos ao registro das figuras e não podem ser assimilados puramente ou simplesmente a tratamentos matemáticos. Esses tratamentos levarão a considerar que a conduta de abdução depende essencialmente dos conhecimentos matemáticos e Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006111 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 28 que as figuras seriam em realidade heuristicamente acessórios (DUVAL,1995, p. 180). No entanto, nem sempre é fácil perceber na figura todas as propriedades dadas. Por vezes ela impõe dificuldades que não são assimiladas pelos tratamentos figurais e matemáticos. Para compreender como as figuras podem permitir a conduta de abdução, Duval (1995) distingue dois níveis de apreensão das figuras geométricas, a saber: Primeiro nível – onde se opera o reconhecimento das diferentes unidades figurais que são distintas dentro de uma figura dada; Segundo nível – onde se efetuam as modificações mereológicas, óticas ou posicionais, possíveis das unidades figurais reconhecidas e da figura dada. O primeiro nível corresponde àquele descrito classicamente como a percepção. Esse nível é composto por três formas de apreensão, assim distintas: Apreensão sequencial: reprodução de uma figura geométrica que depende das propriedades figurais ou do instrumento utilizado; Apreensão perceptiva: interpretação das formas de uma figura geométrica numa situação representada; Apreensão discursiva: corresponde à explicitação de outras propriedades matemáticas da figura, articulando desenho e os elementos discursivos. O segundo nível corresponde a uma apreensão operatória das figuras, onde ocorrem as modificações e/ou transformações possíveis da figura de sua configuração inicial pela reorganização perceptiva que essas modificações sugerem. As modificações possíveis de se realizar em uma figura são classificadas de três diferentes formas, quais sejam: mereológicas (separação da figura em partes); ótica (transformação de uma figura em outra) e posicional (deslocamento em relação a um referencial). Essas modificações dizem respeito à transformação de uma figura em outra num processo denominado de reconfiguração. Este é um tratamento que consiste na partilha de uma figura em subfiguras, em comparação a sua eventual remontagem em uma figura de um contorno diferente global. Duval (1995) verificou que muitos estudantes, mesmo os que já se encontram no Ensino Médio, não conseguem resolver atividades de geometria, por não conseguirem chegar ao segundo nível de apreensão das figuras. Essa dificuldade reside principalmente na impossibilidade de realizar a reconfiguração. Destaque-se que, nesta teoria, a conceitualização de um objeto matemático implica numa coordenação entre registros de representação. Para realizar Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006112 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 29 esta coordenação faz-se necessária a realização de conversões e tratamentos. A conversão se constitui em uma mudança do objeto matemático de um registro de representação para outro. O tratamento consiste na transformação de uma representação ficando no interior de um mesmo registro. Um aspecto essencial no fenômeno de conversão é a congruência entre uma representação a ser convertida e sua representação correspondente em um registro escolhido. Sousa (2009, p.40) explica que “os níveis de congruência entre dois registros de representação diferentes dizem respeito à proximidade ou distanciamento entre o registro de partida e o de chegada”. Temos como exemplo uma situação em que o enunciado de uma questão traz diversos elementos que não são úteis para a resolução da questão. Neste caso, pode-se afirmar que a questão apresenta baixa congruência, pois nem todos os elementos presentes no enunciado serão aproveitados para a sua resolução. Já uma situação de alta congruência seria o caso oposto em que todos os elementos do enunciado seriam facilmente utilizados para a resolução. Ante a sistematização teórica apresentada, destaca-se que serão esses os elementos que fundamentarão a análise das soluções dos problemas resolvidas pelas professoras dos anos iniciais do Ensino Fundamental quanto à apreensão conceitual de geometria. A seguir será apresentada a metodologia adotada para a realização deste estudo. METODOLOGIA O estudo foi desenvolvido em uma escola pública municipal de Fortaleza e teve como sujeitos seis professoras polivalentes do Ensino Fundamental, as quais estão aqui denominadas P1, P2, P3, P4, P5 e P6. O espaço utilizado foi o Laboratório de Informática Educativa (LIE) da escola. Nesse ambiente, utilizou-se o software GeoGebra, tendo em vista trabalhar a compreensão de conceitos geométricos por parte das professoras investigadas, utilizando um ambiente gráfico e dinâmico. A abordagem metodológica adotada é de natureza qualitativa e foi composta por três momentos distintos: 1) Identificação dos conhecimentos prévios das professoras acerca do uso de softwares; 2) Realização da Oficina “Conhecendo o Geogebra”. 3) Resolução de problemas geométricos no ambiente gráfico do Geogebra. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006113 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 30 Convém salientar que a oficina foi realiza na própria escola e teve duração de 6h/a, na qual foi apresentado o Geogebra e os recursos nele disponíveis. Os dados foram coletados por meio de observação, relatos das docentes e realização de atividades com o uso do Geogebra. A análise dos dados desse estudo farse-á no tópico seguinte. RESULTADOS E DISCUSSÃO Inicialmente, no que diz respeito ao primeiro contato das professoras com o software, foi possível perceber resistência das docentes quanto ao uso do computador. Das seis professoras presentes, quatro disseram que usavam o computador apenas para troca de e-mails e fazer alguma pesquisa na internet (P1, P3, P4 e P6) e duas (P2 e P5) revelaram que nunca usaram o computador e não possuíam conhecimentos informáticos. Por essa razão, mostraram-se resistentes, chegando a pedir para não participar da sondagem. Quanto à familiaridade com softwares de Matemática, todas as professoras afirmaram nunca ter utilizado nenhum software do tipo e desconheciam, portanto, o software Geogebra. Apesar da relutância inicial em utilizar o computador, durante a realização da sondagem, as docentes aceitaram utilizá-lo. A falta de habilidades básicas dessas profissionais com esse instrumento fez com que a pesquisadora e auxiliares ajudassem-nas a manipular o mouse e o teclado em suas funções elementares. Em virtude dessas dificuldades, optou-se por usar parte do tempo destinado à realização das atividades, para a apropriação das ferramentas de manuseio do computador. Nesse sentido, o software foi apresentado, juntamente com suas funções e recursos disponíveis. Embora evidenciada a não-apropriação das professoras com o computador, estas afirmaram considerar a informática útil para facilitar o ensino de alguns conteúdos. As docentes também demonstraram a necessidade de apropriar-se de mais elementos de informática para que fosse possível fazer uso do computador com seus alunos. Após essa primeira etapa de apresentação e apropriação do software, foram propostas atividades de utilização do GeoGebra. Este trabalho traz a análise da resolução da professoras de duas das atividades propostas. A primeira objetivou avaliar a apreensão perceptiva, verificando se as docentes realizavam a interpretação das Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006114 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 31 formas de uma figura geométrica, permitindo identificar ou reconhecer de forma direta o objeto, e a segunda discutiu a conversão do registro discursivo para o registro figural, em um problema relativo ao cálculo de áreas. Dessa maneira, na atividade 1 (fig. 01), utilizando o ambiente do software, as professoras visualizaram várias figuras geométricas e foram solicitadas para organizar em grupos três grupos distintos de acordo com a semelhanças das formas encontradas. Em seguida, deveriam nomeá-los com as formas geométricas identificada. Na análise dessa atividade, constatou-se que todas as professoras conseguiram agrupar as figuras, identificando-as por semelhança. A dificuldade inicial em controlar os movimentos do mouse não foi impedimento para a conclusão do exercício pelas professoras P1, P3, P4 e P6. Por outro lado, P2 e P5 não conseguiram realizar, sozinhas, o movimento de arrastar as figuras com o mouse e organizá-las, sendo necessária a ajuda da formadora. Essa dificuldade pode estar associada ao que Prensky (2001) denomina de “imigrantes digitais”, conceito anteriormente tratado. As professoras demonstraram não ter problemas de apreensão perceptiva, distinguindo com rapidez triângulos, quadrados e retângulos de diferentes tamanhos. Os elementos discursivos presentes na questão fizeram com que houvesse forte congruência com a organização das figuras. Além disto, o fato das figuras serem apresentadas separadamente não impôs dificuldade para a percepção, conforme afirma Duval (1995). A dificuldade surgida foi em relação à posição das figuras. Nesse sentido, as professoras P2 e P5 tiveram dúvidas em agrupar figuras de mesma forma, mas dispostas em posições deferentes. Nesse caso, a identificação das figuras iguais exigia É provável que pudesse surgir outras dificuldades a partir da integração em uma configuração de formas mais complexa. Na atividade 2, utilizando uma malha quadriculada presente no software, foi pedido que as professoras respondessem as seguintes questões: Sabendo que cada quadradinho mede 1cm de lado, faça o que se pede: a) Construa um retângulo com 12 quadradinhos. Qual a área desse retângulo? b). (Divida esse retângulo em duas partes iguais (de dois modos diferentes); c). Qual a área de cada figura dividida? Nessa situação, todas as professoras conseguiram representar um retângulo com 12 quadradinhos de área, embora P2 e P5 tenham demonstrado dificuldades em distinguir um quadrado de um retângulo. P1, P3, P4 e P6 compreenderam que a quantidade de quadradinhos era a medida de sua área. P2 e P5 voltaram a recorrer à Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006115 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 32 fórmula do cálculo da área do retângulo para descobrir, a partir de quais medidas dos lados elas obteriam a área 12. As representações gráficas realizadas apresentaram diferentes composições que resultaram em distintas visualizações do retângulo com as dimensões: 6x2 (P1 e P3); 4x3 (P2 e P4); 12 x1 (P5 e P6). Nessa situação, o objeto matemático representado (retângulo de área 12cm²) sofre uma conversão do registro discursivo para o registro geométrico. Duval (1995, p. 189) afirma que: Em geometria não existe desenho que represente por ele mesmo, isto é, não existe desenho sem legenda. É necessária uma indicação verbal para ancorar a figura como representação de tal ou qual objeto matemático. Isso quer dizer que a entrada de uma figura geométrica é necessariamente discursiva (tradução livre). É possível conjecturar que o recurso da malha quadriculada presente no software constituiu-se como elemento de auxílio na representação do desenho, exercendo uma forte congruência do recurso gráfico com o discurso presente no enunciado da questão. Esse mesmo pensamento auxiliou na continuidade da resolução dessa atividade quando foi solicitado que as professoras dividissem o retângulo em partes iguais, mas de duas maneiras diferentes. Exceto P2, as demais professoras tiveram êxito na atividade. Constatou-se nas resoluções das professoras, que para deduzir a medida da área representada no retângulo, as docentes apoiaram-se no uso da fórmula do cálculo de área do retângulo. Nenhuma das participantes usou apenas as informações presentes no desenho. Essa ação reflete o uso habitual dos cálculos aritméticos para encontrar as soluções de problemas de geometria. O suporte intuitivo da figura não foi suficiente para que as docentes encontrassem a solução. Nesse caso, o apoio no registro numérico foi mais recorrente. Necessário observar que as professoras não expressaram a unidade em que estava sendo medida a área. P4 quando tentou expressá-la, mas o fez em cm e não em quadradinhos, medida na qual havia sido proposta a área. Na resolução de P5 (fig. 2), embora tenha feita a representação do desenho correta, ela não consegue perceber que os quadradinhos são as unidades de medida do primeiro retângulo desenhado por ela, e afirma que a área é 24. Nessa situação, P5 confunde a orientação de representar duas figuras com áreas iguais a 12 quadradinhos, multiplicando por 2 para obter a área . As informações contidas no registro de chegada, Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006116 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 33 no caso a língua materna, embora convertidos para a representação figural corretamente, confunde-a na hora de executar o tratamento numérico. No entanto, no item seguinte, contrapondo-se ao item a, P5 forma dois retângulos menores, informando que a área dessa figura corresponde à divisão de 12 por 2, ou seja, utiliza a representação numérica correta da área da figura maior. No entanto, apesar da modificação mereológica e tratamento aritmético corretos, não consegue compreender que os seis quadradinhos podem ser agrupados numa configuração nova para formar outra figura com a mesma área representada. Na análise da resposta de P2, verificou-se que ela informa corretamente a área dos retângulos, tanto a inicial quanto o que se origina depois da divisão. As áreas são sempre calculadas a partir da fórmula. Neste trabalho, ela confunde os termos da expressão aritmética usada para calcular o valor da área (“4 elevado a 3 é 12”). Quando realiza a divisão do retângulo em dois triângulos, P2 demonstra não utilizar a apreensão gestaltista e também desconhecer a propriedade da diagonal, pois afirma que esta área não é mais a metade da original, mas agora mede 8. Talvez por não contar com o apoio da fórmula do cálculo da área do triângulo, a professora não tenha conseguido avançar. Embora muitos dos tratamentos tenham sido realizados corretamente, percebe-se o apoio do registro numérico para a resolução do problema. Tal situação demonstra que o registro figural não é considerado suficiente para as professoras chegarem às respostas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após a análise das atividades propostas às docentes, foi possível realizar algumas constatações. Verificou-se que a representação figural dinâmica, propiciada pelo software não foi totalmente explorada devido à dificuldade das professoras em utilizar o computador. Essa dificuldade limitou as possibilidades de exploração das ferramentas dinâmicas previstas para serem realizadas. A pouca familiaridade com os recursos informáticos pelas docentes revelou a fragilidade na formação continuada das professoras, na qual a preparação para incorporar essa ferramenta em sua prática pedagógica, não acompanhou o mesmo ritmo de evolução das tecnologias presente atualmente nas escolas da rede municipal de Fortaleza. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006117 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 34 Embora as professoras tenham admitido que a informática atraia a atenção dos alunos, a apropriação desse recurso ainda está distante da rotina pedagógica dessas docentes, sendo necessária uma intervenção que contemple a formação dessas docentes para o uso do computador como recurso pedagógico auxiliar em suas práticas pedagógicas. Esperava-se que esse ambiente figural dinâmico favorecesse a visualização de propriedades da figura, antes não apreendidas no desenho estático ou ainda nas representações com material concreto. O recurso da malha quadriculada foi a ferramenta mais utilizada pelas docentes durante a orientação para a construção de figuras geométricas. Não foi possível explorar com mais afinco as funções de “mover” e “deslocar figuras”. Essas funções permitiriam realizar a sobreposição de uma figura sobre outra possibilitando que as docentes visualizassem situações geométricas de forma mais ampla do que a posta no desenho representado no papel. As participantes puderam realizar atividades utilizando diferentes representações para uma mesma situação-problema. Essa ação permitiu que elas pudessem ter novas percepções para o trato com o desenho geométrico, para além da identificação de formas e contagem de figuras, constituindo o início de uma reflexão da prática docente relacionada ao ensino da Geometria nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Esse estudo, embora tenha utilizado uma pequena amostra diante do universo de docentes que atuam nos anos iniciais do EF na rede municipal de ensino de Fortaleza, considerou que as professoras necessitam vivenciar mais situações, em seus processos de formação, que lhes possibilite apreender os conteúdos geométricos com o uso de diferentes representações, possibilitando, dessa maneira, um amadurecimento da apreensão perceptiva para a apreensão operatória. Reafirma-se a necessidade de ampliar o acesso à formação das docentes para a incorporação das novas tecnologias, tanto como ferramenta de ensino como no apoio à sua aprendizagem. Espera-se, dessa maneira, que este estudo tenha contribuído para repensar os processos de formação das docentes dos anos iniciais do EF, concernente à área de Geometria, campo da Matemática frequentemente negligenciado nas práticas de ensino desse nível de escolaridade. REFERÊNCIAS Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006118 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 35 BARRETO, M. C. Desafios aos pedagogos no ensino da matemática. In: SALES, José Álbio Moreira (Org.) Formação e práticas docentes. Fortaleza: EDUECE, 2007, v.01 p. 223-234. BITTAR, M.; FREITAS, J. L. M. Fundamentos e Metodologia de Matemática para os ciclos iniciais do ensino fundamental. Campo Grande. MS: Ed. UFMS, 2005. DUVAL, R. Sémiosis et pensée humaine – registres sémiotiques et apprentissages intellectuels. Peter Lang. SA. Neuchâtel, Suisse: 1995. NACARATO, A. M., MENGALI, B. L. da S., PASSOS, C. L. 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ANEXOS Figura 1 - Atividade 1 proposta às professoras Fonte: elaboração da autora Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006119 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 36 Figura 2: Resposta de P5 à atividade 2 – área é representada pela divisão em duas partes iguais Figura 3 - Ausência de percepção gestaltista (P2, atividade 2) Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.006120