REVISTA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA Nº 76 2008 ISSN 0103-8486 EDITORIAL / EDITORIAL ........................................................................ ARTIGOS ORIGINAIS / ORIGINAL ARTICLES _ A moral como obstáculo para a aprendizagem sistemática Morality as an obstacle to systematic learning ...................................................... _ As hipóteses diagnósticas nos casos de dificuldades escolares: experiência em equipe multiprofissional The diagnostic hypotheses in the cases of school difficulties: experience in multiprofissional team .................................................................. " _ El cuerpo un eclipse a develar en el proceso de enseñanza aprendizaje The body an eclipse in the education process learning .................................... # ARTIGOS ESPECIAIS / SPECIAL ARTICLES _ O imaginário e a adolescência do jovem especial The imaginary and the adolescence of the young special ................................. !! _ A emergência da Psicopedagogia como ciência The emergency of Psychopedagogy as science .................................................. "! RELATO DE PESQUISA / RESEARCH REPORT _ O espectro autista no contexto institucional: aspectos constitutivos do desenvolvimento The autistic spectre in the institutional context: constitutive aspects of development ....................................................................................... "' RELATO DE EXPERIÊNCIA / EXPERIENCE REPORT _ Acentuação gráfica: criação e aplicação de um jogo de regras Accents on words: invention and application of games and their rules ........... $ PONTOS DE VISTA / POINTS OF VIEW _ Reflexões sobre as nossas disfuncionalidades, seu manejo e suas repercussões na convivência Reflections about our dysfunctionalities, their approach and repercussions in the coexistence ........................................................................ %# _ Ser para reconhecer-se ensinante To be an educator means to be a human being ................................................. %& RELATÓRIO DE GESTÃO REFERENTE AO ANO DE 2007 ..................... &! INGULARIDADE ESD ITORIAL Apresentamos com muita satisfação a 76ª edição da revista Psicopedagogia, uma coletânea de artigos relevantes e de incontestável qualidade, resultantes da abrangência e amadurecimento que esta publicação alcançou em seu percurso. Começamos abordando um tema da contemporaneidade, A Emergência da Psicopedagogia Como Ciência, de Nádia Bossa, atual diretora cultural e científica da ABPp Nacional. Esse trabalho traduz a preocupação com o fazer psicopedagógico, apresenta considerações acerca do que constitui as chamadas práticas psicopedagógicas para, em seguida, expor considerações de natureza epistemológica a respeito da formação e, principalmente, da investigação psicopedagógica, que fundamenta tal prática. Dando prosseguimento a esta edição, Ser Para Reconhecer-se Ensinante é o artigo escrito por Evelise Maria Labatut Portilho e Isabel Cristina Hierro Parolin, que ressaltam a questão do aprender e do ensinar no assim chamado professor-ensinante. Acentuação Gráfica: Criação e Aplicação de um Jogo de Regras, de Kelly Priscilla Lóddo Cezar, Nayra Carolina Bueno de Morais, Geiva Carolina Calsa e Edson Carlos Romualdo, objetiva apresentar os resultados da criação e aplicação de um jogo de regras, elaborado pelos pesquisadores, sobre o conteúdo de acentuação gráfica, a fim de evidenciar a sua capacidade de promover melhorias acerca do tema proposto, juntamente com o processo de intervenção psicopedagógica. Em seguida, apresentamos O Espectro Autista no Contexto Institucional: Aspectos Constitutivos do Desenvolvimento, relato de pesquisa de Ana Beatriz Machado de Freitas, no qual a pesquisadora, posicionando-se como observadora participante, procurou compreender como a dinâmica da instituição constituía a subjetividade de uma aluna com deficiência mental e comportamentos autistas, em uma instituição filantrópica de ensino especial e reabilitação que atende a crianças com diagnóstico de deficiência mental. Dando continuidade, temos o artigo de Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini e Neusa Gomes, Imaginário e a Adolescência do Jovem Especial, que nos vem apresentar, entre outras, a necessidade de que os jovens especiais têm de colocar seus conflitos, suas angústias em relação à sua adolescência, frente à sua família e à sociedade em que vivem. Reflexões Sobre as Nossas Disfuncionalidades, seu Manejo e suas Repercussões na Convivência, de Tania Almeida, é um excepcional artigo escrito sobre o tema apresentado por essa autora no Iº Simpósio Internacional de Psicopedagogia da ABPp, realizado em 2007, em São Paulo. Da Argentina recebemos com muito prazer El Cuerpo... Un Eclipse a Develar en el Proceso de Enseñanza Aprendizaje, de Marta Busani e Sandra Yamzon, um artigo de pesquisa que examina a interação entre o corpo e a subjetividade no processo de ensino-aprendizagem. A Moral como Obstáculo para a Aprendizagem Sistemática versa sobre uma recente pesquisa realizada em escolas públicas de Lyon, França, por Johnny Guedes de Lima Favre e Jacqueline Andréa Glaser, cujo objetivo foi investigar o valor obediência (estádio de heteronomia) na criança como possível causador do fracasso escolar. Encerramos esta edição com o artigo As Hipóteses Diagnósticas nos Casos de Dificuldade Escolares: Experiência e Equipe Multiprofissional, de Stella Maris Cortez Bacha, Ana Lúcia Ferra Finocchio e Mônica Sharth Féo Ribeiro, uma pesquisa que objetivou verificar a eficiência no uso das terminologias: Distúrbio de Aprendizagem, Dificuldade de Aprendizagem Escolar e Distúrbio Específico de LeituraEscrita, para as hipóteses diagnósticas levantadas nas avaliações de aprendizagem realizadas. Aproveitamos a oportunidade que se apresenta para, em nome do Conselho Editorial da revista Psicopedagogia, cumprimentar a nova Diretoria da ABPp Nacional, na pessoa de sua presidente, Quézia Bombonatto, assim como a todas as Diretorias de Seções e Coordenadorias de Núcleos, e desejar-lhes uma gestão plena de realizações. Boa leitura! Maria Irene Maluf Editora Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 1 GLASER JA ET AL. ARTIGO ORIGINAL A MORAL COMO OBSTÁCULO PARA A APRENDIZAGEM SISTEMÁTICA Jacqueline Andréa Glaser; Johnny Guedes de Lima Favre RESUMO - Há um obstáculo que impede ou torna difícil a apropriação do saber em algumas crianças, que se traduz pela reprovação, e conseqüentemente, pelo fracasso escolar. Esse obstáculo não é necessariamente de ordem cognitiva, funcional, emocional ou social, mas provavelmente de origem moral. O objetivo dessa pesquisa é investigar o valor obediência (estádio de heteronomia) na criança como possível causa do fracasso escolar, pela relação existente entre a obediência, a autoridade e as regras. Essa pesquisa foi realizada com 13 crianças, de 8 a 11 anos, alunos de escolas públicas de Lyon França. Fazem parte do protocolo a aplicação das histórias morais, a verificação da consciência de regras, a análise do nível de estrutura cognitiva e o teste projetivo Família Educativa. Os resultados nos mostraram que a maioria de nossos sujeitos está ainda no estádio de heteronomia moral. A maior parte deles ainda não adquiriu a consciência de regras, por isso eles vivem numa dinâmica na qual o respeito unilateral predomina, apresentam dificuldade para se descentrar e se colocar no ponto de vista do outro, condição necessária para haver aprendizagem. UNITERMOS: Desenvolvimento moral. Criança. Transtornos de aprendizagem. Johnny Guedes de Lima Favre - Professora-pesquisadora do Laboratório Santé, Individu et Societé, Unid. de Pesquisa, PSYEF, Universidade Lyon 2, responsável do pólo de pesquisa « Construction des valeurs, développement moral, troubles du comportement et arts », doutora em Psicologia do Desenvolvimento, Lyon 2, psicóloga clínica (UNIPÊ-PB) em Villefranche Sur Saône, França, ex-Consultora ad hoc do CNPq Brasil. Jacqueline Andréa Glaser é sócia fundadora e titular da ABPp Paraná, tendo sido membro de quase todas as diretorias. Doutoranda em Psicologia Cognitiva no Départemento de Psychologie de la santé, de lEducation et du développement da Université Lumière Lyon 2. Pedagoga (PUC-Pr), psicopedagoga (CEP-Curitiba) e educadora especial (PUC-Pr). Correspondência Johnny Guedes de Lima Favre Cabinet de Psychologie 166, Rue de Thizy 69400- Villefranche Sur Saône - France Tel. (0033) 4 74 65 24 81 E-mail: [email protected] [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR necessário mencionar que abordamos a obediência como um valor moral, como uma regra moral interiorizada, um respeito a uma lei, a um pacto, nem sempre conhecido ou discutido, mas que está presente em estado latente, escondido. Desde que se formam, os valores penetram todas as nossas ações por toda a vida, pois são meios de organização das atividades do sujeito (Favre7). Mencionando os valores nos remetemos à moral. Piaget se dedicou ao estudo do desenvolvimento moral da criança dando ênfase ao seu julgamento moral. Seu trabalho envolve o respeito à regra. Segundo ele, esse desenvolvimento se constrói lentamente e é nutrido pela ação, onde as trocas e as interações sociais possuem uma função importante. A criança respeita as regras prioritariamente por duas razões: pelo sentimento de amor por seus pais e pela autoridade que vem deles. Trappeniers & Boyer9 constatam sobre esse assunto que: Essa maneira estranha de obedecer ao que aparentemente ninguém lhe manda, não obedecendo ao que lhe é explicitamente ou oficialmente mandado por todo mundo, isso se chama fidelidade às lealdades invisíveis. Encontramos na obra de Jean Piaget uma estreita relação entre o cognitivo e o moral, devido ao fato dessas duas dimensões do desenvolvimento se construírem em paralelo. Neste sentido, levantamos a hipótese da existência de um obstáculo de origem moral que impede ou torna difícil a apropriação do saber na criança. Nos interessamos por uma população de 13 crianças consideradas em situação de fracasso escolar de idades entre 8 a 11 anos, do sexo masculino, repartidas entre as classes de CE2 ao CM2 (2ª à 5ª séries no Brasil) de escolas públicas de Lyon, França. Os trabalhos realizados por Piaget colocam em evidência o papel essencial da ação para o desenvolvimento da criança. Dolle 10 complementa: Nós compreenderemos desde então que o conhecimento não reside na contemplação do real, mas provém da sua transformação pela atividade do sujeito. A vida da criança acontece junto à família e na escola, INTRODUÇÃO Léchec scolaire est la première cause dangoisse des enfants vis-à-vis de lécole (Siad-Facchin1). Esta constatação nos toca, pois a escola está no centro da vida da criança e influenciará no seu futuro. Levando em consideração a importância e o lugar que a escola ocupa na nossa sociedade, na vida das crianças e dos pais, o fracasso escolar é um motivo de sofrimento para todos. A finalidade do nosso trabalho é contribuir para o diagnóstico das dificuldades de aprendizagem, estudando o desenvolvimento moral e o fracasso escolar como linhas mestras. Muitos autores (Best 2, Calin 3, Boimare 4) já mencionaram as conseqüências do fracasso escolar para a auto-estima, que podem até mesmo levar à delinqüência. Mas, Dolto5 nos alerta sobre o fato de que ... a delinqüência mais freqüente, a mais perigosa para uma sociedade, a mais custosa para o estado, é a delinqüência vinda da conquista escolar de quem não alcançou a estrutura moral. Existe um obstáculo que impede ou torna difícil a apropriação do saber de um certo número de crianças, que se traduz pela reprovação e pelo conseqüente fracasso escolar. Pensamos que esse obstáculo não é necessariamente de ordem cognitiva, funcional, emocional ou social6. A experiência clínica com crianças em dificuldade de aprendizagem nos conduz a propor a existência de um 5° obstáculo de origem moral. A originalidade dessa pesquisa está na visão genético-construtivista com que abordaremos o tema. Nosso trabalho é fundamentado na teoria construtivista de Jean Piaget, que concebe o ser humano como uma unidade orgânica/biológica, social/cultural, afetiva e cognitiva. Todas essas dimensões humanas estão em interação em qualquer que seja o ato humano e durante toda a vida. O objetivo dessa pesquisa foi investigar o valor moral obediência descrito por Favre 7 característico do estádio de heteronomia (Piaget8) nas crianças, como uma possível causa do fracasso escolar, em virtude da relação existente entre a obediência, a autoridade e as regras. Faz-se Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 ! GLASER JA ET onde ela vai construir suas primeiras aprendizagens e seus primeiros valores. A qualidade de relação que a criança construirá com o objeto, o meio e com as pessoas que lhe rodeia será a gênese de seu processo de aprendizagem. O fato de encontrar um meio que favoreça suas explorações, sua curiosidade, dará origem ao conhecimento, e mais que isso, ao amor pelo conhecimento, que lhe permitirá compreender as coisas e explicá-las. Escolhemos como instrumento de coleta de dados a avaliação dos níveis de estrutura cognitiva, a avaliação dos níveis de desenvolvimento moral e do vínculo de aprendizagem dentro da família (Visca11). Acreditamos que, desenvolvendo esse estudo, possamos contribuir para que a aprendizagem se torne um valor e fonte de prazer para a criança, para que ela não deixe de ser autora de seu próprio processo de aprendizagem e, conseqüentemente, possa desfrutar da autonomia intelectual que o conhecimento lhe proporciona. AL. padronizados. Neste sentido, nossa finalidade foi a de conhecer o nivel de desenvolvimento cognitivo dessas crianças quanto e o processo de racicínio de que se utilizam em suas respostas. Seguem-se abaixo as provas escolhidas para cada grupo segundo as idades: Grupo 8/9 anos: provas infralógicas: conservação de substância e de comprimento; provas lógico-matemáticas: seriação e dicotomia. Grupo 10/11 anos: provas infralógicas: conservação de substância e de volume; provas lógico-matemáticas: dicotomia e inclusão de classes. Os níveis das provas do diagnóstico operatório encontrados no nosso protocolo são os seguintes: Nível 1: não conservação; Nível 2: intermediário entre a não conservação e as oscilações cognitivas; Nível 3: oscilações cognitivas (o sujeito pode ter julgamentos tanto por aspectos operativos como por figurativos); Nível 4: intermediário entre as oscilações cognitivas e a conservação operatória; Nível 5: conservação operatória. Fizemos a avaliação dos níveis de desenvolvimento moral em duas partes. Primeiramente pedindo a opinião das crianças sobre as histórias morais escolhidas e segundo, interrogando sobre quatro questões referentes ao respeito às regras. Quanto às histórias morais, nos baseamos em quatro histórias do livro O Juízo Moral na Criança de Jean Piaget8, situadas no capítulo Igualdade e Autoridade. Escolhemos essas histórias, porque colocam em evidência a relação entre a obediência e a autoridade, caracterizado pelo respeito unileteral. A partir das respostas dadas por nossos sujeitos, esperamos verificar se eles se encontravam no estádio de heteronomia, caracterizado pela obediência cega a uma autoridade. As questões dirigidas às crianças sobre o respeito às regras são as seguintes: 1 - De onde vem as regras? 2 - Podemos mudar as regras? 3 - Para que servem as regras? 4 - Quem criou as regras? MÉTODO Nossa amostra foi composta de 13 crianças do sexo masculino, de 8 a 11 anos, consideradas em situação de fracasso escolar, alunos de escolas públicas de Lyon, França. São crianças oriundas de todas as classes sociais. De acordo com o desenvolvimento moral, elas deveriam estar atingindo o estádio de autonomia. Por razões metodológicas, as dividiremos em dois grupos (5 crianças no grupo 8/9 anos e 8 crianças no grupo 10/11 anos), nosso objetivo foi verificar a evolução do valor obediência com relação à idade. Segundo Favre7, o valor obediência aparece em 90% das crianças de 5-6 a 8 anos com uma tendência progressiva a diminuir em razão da aparição do respeito mútuo, e é uma passagem necessária à construção do mesmo. Coleta de dados Para avaliar os níveis de estrutura cognitiva de nossos sujeitos, utilizamos as provas do diagnóstico operatório de Piaget, que nos permitem verificar o potencial das crianças e não somente seu funcionamento, como fazem os testes Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 " DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR Em seguida, apresentamos os níveis de desenvolvimento moral propostos no nosso protocolo experimental: Nível 1: transição entre anomia (caracterizada pela ausência de regras) e heteronomia; Nível 2: heteronomia (caracterizada pela obediência e pelo respeito unilateral); Nível 3: oscilação entre heteronomia e autonomia; Nível 4: transição entre heteronomia e autonomia; Nível 5: autonomia (caracterizada pelo respeito mútuo). Para avaliar os vínculos de aprendizagem dentro da família, utilizamos o teste projetivo Família Educativa descrito por Visca11. Seu objetivo principal é estudar os vínculos de aprendizagem da criança com sua família, verificando as relações entre os membros da família com relação à aprendizagem. O vínculo que a criança tem com a aprendizagem sistemática também é analisado, pois é sinal importante a ser levado em consideração quando se trata de crianças em fracasso escolar. Nesta perspectiva, analisamos se os vínculos com a aprendizagem sistemática e entre os membros da família são positivos ou negativos. RESULTADOS A análise dos nossos resultados é de caráter qualitativo, uma vez que a formulação das nossas expectativas e a nossa amostra não permitem uma análise quantitativa. Propomos a seguir uma tabela para cada grupo de idades, com o conjunto dos resultados obtidos pela nossa pesquisa, seguidos de uma análise dos resultados por hipótese teórica (Tabelas 1 e 2). Partindo da nossa hipótese geral, a existência de um obstáculo de origem moral impede ou torna difícil a apropriação do saber de crianças em fracasso escolar, levantamos três hipóteses teóricas para responder à nossa problemática: Tabela 1 - Conjunto dos resultados do grupo 8/9 anos. 1 - Cho 2 - Mou 3 - Hug 4 - Enz 5 - Cha Cons. subst. Cons. long. Seriação Dicotomia Nivel desenv. cog. Hist. moral 3 4 3 1 4 3 3 3 1 3 3 3 4 3 3 3 4 2 3 3 3 4 3 2 3 2 2 2 2 4 Cons. da regra 2 2 2 2 2 Nível desenv. moral 2 2 2 2 3 Vínculo fam./ aprend. positivo negativo negativo positivo negativo Tabela 2 - Conjunto dos resultados do grupo 10/11 anos. 1 - Idr 2 - Nad 3 - Lou 4 - Log 5 - Han 6 - Yas 7 - Ahm 8 - Cla Cons. subst. Cons. long. Seriação Dicotomia Nivel desenv. cog. Hist. moral 1 1 4 3 1 3 3 4 1 1 2 2 1 2 2 4 3 3 2 3 3 2 2 4 3 3 3 3 3 3 3 4 2 2 3 3 2 3 3 4 2 3 2 3 2 3 2 4 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 # Cons. da regra 2 2 2 3 2 2 3 3 Nível desenv. moral 2 3 2 3 2 3 3 4 Vínculo fam./ aprend. negativo negativo negativo negativo positivo negativo negativo negativo GLASER JA ET AL. (transição entre a anomia e a heteronomia). Também nenhuma criança havia atingido a autonomia. Pudemos observar que 50% das crianças do grupo 10/11 anos estão ainda no estádio de heteronomia pelas respostas seguintes: Ahm (Hist.2): Isso não é justo, precisa que os dois trabalhem para obedecer à mãe; Han (Hist.3): A mãe tem razão é justo, porque engraxar as botas não é uma coisa que a gente faz por muito tempo. Com referência às crianças que se encontram nas oscilações entre heteronomia e autonomia (38%), observamos por suas respostas que se apresentam entre uma obediência cega, porque se trata de um pedido de alguém que representa a autoridade, como o chefe, a mãe, etc., e o sentimento de justiça e de igualdade, fruto do respeito mútuo. Mostramos o exemplo de Log (Hist.1): Não é justo, porque não é justo que um trabalhe mais e o outro não trabalhe. O chefe que manda, mas tem que ir conversar com ele. Com relação à consciência da regra, esperávamos encontrar nossos sujeitos no 2° estádio (respeito unilateral), correspondendo aos níveis 2 e 3 do protocolo experimental. Como pudemos observar, ao que diz respeito ao grupo 8/9 anos, todas as crianças (100%) se situam no nível 2, estádio de heteronomia. Essas crianças consideram as regras invioláveis, porque partem do adulto que é considerado autoridade. Elas não acreditam que seja possível para elas mesmas criar regras, pois isso só é permitido aos grandes. Eles apresentaram dificuldades para explicar a utilidade das regras (para que elas servem). Veremos alguns exemplos: Mou (Questão 2): Não, tem que ficar sempre igual; (Questão 3): Para compreender e obedecer. Hug (Questão 1): As pessoas importantes que inventam; (Questão 4): As pessoas importantes. Com relação ao grupo 10/11 anos, encontramos 5 (63%) crianças no nível 2, heteronomia, e o restante (37%) no nível 3, oscilação entre heteronomia e autonomia. Não vimos crianças nos níveis 1, 4 e 5, respectivamente, transição entre HT1: As crianças se encontram no estádio de heteronomia, não podendo ainda se descentrar, visto que não possuem uma autonomia de pensamento, fato que terá uma repercussão negativa em suas aprendizagens. Supomos que as crianças da nossa amostra não atingiram ainda o estádio de autonomia moral. Cremos que elas se encontram no estádio de heteronomia (níveis II e III nas histórias morais), num estado de egocentrismo que as impede de se descentrar para atingir a autonomia intelectual e moral. Entretanto, pensamos que esse obstáculo de origem moral pode aparecer de forma isolada na criança, como a única causa da dificuldade de aprendizagem ou associada a outros obstáculos. De acordo com nossos resultados, pudemos constatar que 80% das crianças do grupo 8/9 anos se encontram no nível 2, estádio de heteronomia e somente uma criança (20%) se encontra no nível 4, isto é, em transição entre as oscilações e a autonomia. Não encontramos crianças nos níveis 1 (transição entre anomia e heteronomia), 3 (oscilações heteronomia e autonomia) e 5 (autonomia). Quanto à realização das histórias morais, encontramos respostas que indicam que essas crianças se encontram paralisadas no estádio de heteronomia, como por exemplo: Mou (Hist. 1): É justo, porque um é bom e o outro mau; Enz (Hist. 2): Eu não concordo, não é certo sair sem fazer seu trabalho. Ela fez, porque a gente deve fazer o que a mãe manda.... Como podemos verificar, essas crianças colocam a autoridade em primeiro plano, sendo o respeito unilateral o único mediator, deixando de lado a igualdade. Unicamente uma criança (Cha) nos deu uma resposta num nível de transição entre a heteronomia e a autonomia. Quanto ao grupo 10/11 anos, os resultados nos mostram que 50% das crianças estão ainda no nível 2 (heteronomia), 38% se situam no nível 3 (oscilação entre heteronomia e autonomia) e 12% estão no nível 4 (transição entre a heteronomia e a autonomia). Como no grupo anterior, não encontramos nenhuma criança no nível 1 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 $ DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR cognitivas e a conservação operatória. Não encontramos crianças nos níveis 1, 2 e 5 (respectivamente: não conservação, intermediário entre a não conservação e as oscilações cognitivas e conservação). Percebemos que todas as crianças do grupo 8/ 9 anos se situam num nível de raciocínio cognitivo de dominância figurativa. Podemos observar que elas utilizaram argumentos figurativos, porque ficam centradas no que vêem (estado) e não levam em consideração as transformações causadas ao objeto. Foi com freqüência que elas aceitaram as contra-sugestões, mas que podemos supor porque vinham unicamente do adulto. Evocamos o caso de Hug, que não consegue fazer mais do que duas dicotomias, com tateio, assim como não nomeia os agrupamentos. Enz, na prova de seriação, teve dificuldade para compreender a consigna e para começar a ordenar os bastonetes, levando em conta somente uma das duas extremidades, isto é, sem conservar a base. Com relação ao grupo 10/11 anos, constatamos que 63% dos sujeitos estão no nível 3 (oscilações cognitivas), 25% no nível 2 (intermediário entre a não conservação e as oscilações) e os 12% restantes (1 criança) no nível 4 (intermediário entre as oscilações e a conservação operatória). Nossos sujeitos dão a maior parte dos julgamentos de conservação pela manipulação do material, sem todavia poder justificar por argumentos operativos. A maioria deles não se descentra ainda da configuração, se baseando na anomia e heteronomia, transição entre heteronomia e autonomia e autonomia. Vejamos questões que ilustram: Idr (Questão 1): Foi um senhor que as fez; (Questão 2): Não, porque já tem o suficiente. Nad (Questão 2): Não porque elas foram feitas assim e são boas como estão; (Questão 4): E a lei, as pessoas que viveram antes, na idade média. Imaginávamos que nossos sujeitos teriam um modo de raciocínio figurativo, que pode se apresentar em todos os níveis, mesmo entre as crianças que já atingiram a conservação operatória, como enfatizam Dolle e Bellano12: Há, então na percepção do estado atual, qualquer coisa do seu estado anterior ou inicial e das transições que se intercalam entre eles, que os duplicam na representação e que pode ser suficiente para afirmar uma conservação, mas que não permite pensar nas transformações enquanto tais, ou melhor, efetuá-las. Pensar as transformações é, (...), produzi-las mentalmente com controle móvel dos estados sucessivos por retroações e antecipações. Isto posto, nossa análise será em função do potencial demonstrado pelas crianças na aplicação das provas do diagnóstico operatório. Apresentamos a seguir os níveis cognitivos das crianças obtidos à partir dos resultados das provas lógico-matemáticas (Tabelas 3 e 4). Observamos que 80% dos sujeitos de 8/9 anos se situam no nível 3, que corresponde às oscilações cognitivas, e 20% deles (1 criança), no nível 4, intermediário entre as oscilações Crianças Nível cognitivo Crianças Nível cognitivo Tabela 3 - Nível cognitivo geral grupo 8/9 anos Cho Mou Hug 3 4 3 Idr 3 Tabela 4 - Nível cognitivo grupo 10/11 anos Nad Lou Log Han Ya s 3 2 3 3 2 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 % Enz 3 Cha 3 Ahm 3 Cla 4 GLASER JA ET AL. De acordo com nossos resultados, não encontramos crianças no nível 1, nem do desenvolvimento cognitivo, nem do moral. Com referência ao grupo 8/9 anos, somente Enz (20%) se encontra no nível 2 do desenvolvimento cognitivo. Com referência ao desenvolvimento moral, todas as crianças do grupo 8/9 anos (80%) se situam no nível 2, com exceção de Cha (20%) que se situa no nível 3 (oscilações), tanto no desenvolvimento cognitivo como no moral. No entanto, Cho e Hug estão no nível 3 do desenvolvimento cognitivo. Somente Mou (20%) se mostra no nível 4 do desenvolvimento cognitivo (intermediário entre as oscilações e a conservação). Nenhum outro sujeito se encontra no nível 4 com relação ao desenvolvimento moral. Quanto ao grupo 10/11 anos, encontramos Idr, Nad e Han (38%) no nível 2 do desenvolvimento cognitivo. Idr e Han estão também no nível 2 do desenvolvimento moral junto com Lou. Por outro lado, Log, Yas e Ahm estão no nível 3, tanto no desenvolvimento cognitivo como no moral. Lou se encontra no nível 3 do desenvolvimento cognitivo e Nad, nas oscilações em seu desenvolvimento moral. Cla (12%) se encontra no nível 4 nos dois domínios (cognitivo e moral). Não encontramos crianças no nível 5. HT3: Supomos que as crianças farão uma representação dos conteúdos do saber apropriado pelos membros da família e do modelo de aprendizagem que os mesmos transmitem, em relação à obediência à autoridade e às regras. Analisaremos esta hipótese considerando a família como um sistema organizado em torno de suas próprias leis, mesmo as implícitas, e seus possíveis efeitos sobre o desenvolvimento, e mais precisamente sobre a aprendizagem das crianças. Segundo Sargo13, se faz necessária a análise da articulação do processo de aprendizagem com a dinâmica das relações pais/filhos para entender melhor a questão do fracasso escolar. Pain14 julga que o não aprender é um sintoma que tem uma função no sistema familiar. A família é um lugar favorável às transmissões que se fazem em função da apropriação ativa por parte da criança. Segundo os conteúdos que percepção. Constatamos que eles têm necessidade de voltar ao estado inicial para julgar ou justificar, o que significa que raciocinam ainda figurativamente (Dolle e Bellano12). Isso nos envia à prova de inclusão de Lou, que a princípio demonstrou ter compreendido a classe inclusiva animais. Todavia, segundo ele, a pessoa que terá o maior grupo será aquela que terá as vacas. A mesma criança, na prova de dicotomia, não conseguiu fazer mais do que uma classificação, pelo critério forma. Ele se mostrou incapaz de colocar junto às figuras geométricas que se pareciam. HT2: Sabendo que Piaget descreveu uma relação entre os desenvolvimentos cognitivo e moral, acreditamos existir um paralelo entre esses dois aspectos do desenvolvimento da criança. Averiguamos que nossas crianças estão numa dinâmica de construção operatória. Somente uma criança (Mou), 20% entre eles, está no nível 4, isto é, em fase de aquisição do nível operatório concreto. Enz se encontra ainda no nível 2, ele encontrou mais dificuldades do que os demais a começar pelas consignas. Cho, Hug e Cha (60%) situam-se nas oscilações cognitivas. Ao que concerne ao grupo 10/11 anos, como o grupo anterior, unicamente uma criança Cla (12%) se situa no nível 4. Idr, Nad e Han (38%) se encontram ainda no nível 2, intermediário entre a não conservação e as oscilações cognitivas, o que nos chama a atenção é a decalagem que eles possuem com relação às suas idades cronológicas. Finalmente, 50% dos sujeitos se situam no nível 3, oscilações cognitivas. Sobre o desenvolvimento moral das crianças, destacamos a dificuldade encontrada de levar em consideração os diferentes pontos de vista e de descentração observada nos nossos sujeitos. Com efeito, constatamos que 80% (grupo 8/9 anos) e 38% (grupo 10/11 anos) de nossos sujeitos se mostram no nível 2 (heteronomia), o que significa que suas relações se dão num nível de respeito unilateral. Tínhamos a expectativa de que os sujeitos se encontrassem num mesmo nível, tanto nas provas do diagnóstico operatório como nas histórias morais. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 & DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR circulam no seio familiar, problemas de aprendizagem, tanto assistemática como sistemática, podem ser gerados. Verificando os vínculos de aprendizagem na família, constatamos que é ela que oferece às crianças a maior parte dos modelos de identificação, e que eles têm uma influência na maneira como as mesmas se apropriam dos objetos de conhecimento. Tínhamos a expectativa de que os sujeitos representariam uma relação negativa com a aprendizagem sistemática, a partir do desenho Família Educativa de Visca11. No grupo 8/9 anos, verificamos que dois de nossos sujeitos (40%) demonstram uma relação positiva com a aprendizagem sistemática, apesar do fracasso escolar. Nos perguntamos se não há neles fatores que favorecem a ação da resiliência (Cyrulnik15). Contudo, 60% dos sujeitos possuem uma relação negativa com a aprendizagem sistemática. Com relação ao grupo 10/11 anos, constatamos que somente um dos sujeitos (12%) tem uma relação positiva com a aprendizagem sistemática, os outros 7 sujeitos (88%) possuem uma relação negativa com a aprendizagem sistemática. Para explicar nossos resultados vamos nos referir aos comentários das próprias crianças durante a produção do desenho: Cho (8/9) é uma das crianças que demonstrou uma relação positiva com a aprendizagem sistemática. Para justificar sua reprovação, ele comentou: ... eu não trabalhava bem na escola, agora eu trabalho. Eu sei ler! e complementa: A gente aprende as coisas na escola.... Cremos que as crianças do grupo 10/11 anos vivenciaram mais situações frustrantes na vida escolar do que as menores, e que o fracasso, assim como o sentimento de fracasso, acarretam um vínculo negativo com a aprendizagem sistemática e um rebaixamento na auto-estima. Alguns exemplos do grupo 10/11 anos: Lou considera que tudo que evoca a situação escolar é fatigante: duro!. Ele desenha seus pais dizendo que dois irmãos também reprovaram e que Eu não consigo ler. Ahm parece só ter um vínculo positivo com o futebol, que é sua única fonte de prazer. Ele não vê relação entre a escola e o trabalho. Desenha sua família e, em seguida, fala dos membros da mesma: ele não faz nada, ele não trabalha; eu não sei onde ele trabalha, não sei o que ele faz. Esperávamos que pelo desenho Família Educativa as crianças representariam um vínculo negativo entre os membros da família com relação à aprendizagem. É visível a influência do meio familiar na aprendizagem das crianças. Embora se saiba que a escola tem um papel importante no desenvolvimento de habilidades metacognitivas, reconhece-se que crianças expostas a ambientes familiares com certas características vão desenvolver estratégias metacognitivas que favorecem o sucesso escolar (Martini, 1995 citado por Maturano16). Pudemos observar que 80% das crianças do grupo 8/9 anos demonstraram ter um vínculo de aprendizagem negativo entre os membros da família, situação que pode agravar as condições de fracasso escolar. No grupo 10/11 anos, todas as crianças (100%) demonstraram ter um vínculo de aprendizagem negativo entre os membros da família. Examinando os comentários das crianças, compreendemos melhor os vínculos dos membros da família com a aprendizagem: Mou foi a única criança que apresentou um bom vínculo familiar com a aprendizagem. Para explicar seu desenho, ele nos contou: Minha mãe ajuda meu pai, e eu ajudo minha irmã, referindo-se ao que cada um sabe fazer e ensina ao outro na família. Por outro lado, Idr desenhou toda a família em situação de lazer, dizendo: Ninguém ensina nada para ninguém. Ele comentou que seu problema na escola é a leitura, que foi por isso que ele foi reprovado, para ele ninguém na família se interessa por coisas mais sérias. Assim sendo, o fato de aprender ou de não aprender obtém uma significação própria em cada família e para cada membro da família. Kamlot17 menciona que a participação dos membros da família na construção do desejo de aprender da Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 ' GLASER JA ET criança é essencial. A história de aprendizagem de cada criança se forma a partir da história comum da família, pois é dentro do seio familiar que as primeiras aprendizagens acontecem e servirão de base para a aprendizagem sistemática. AL. surpreendeu, uma vez que a literatura nos havia informado da presença de um grande número de crianças em fracasso escolar. Todavia, na França, os pais podem recusar a decisão de reprovar seus filhos, o que supomos ser o motivo do número reduzido de crianças reprovadas nas escolas consultadas. Havíamos previsto uma entrevista individual com os pais de cada criança com a finalidade de aprofundar os dados referentes ao meio familiar, assim como o vínculo pais/filhos em relação ao desenvolvimento moral. No entanto, essa entrevista não aconteceu pela impossibilidade de encontrá-los e de contar com sua disponibilidade. Estimamos que os aportes do desenho Família Educativa (Visca11) nos trariam respostas para nossas hipóteses. Podemos afirmar que o teste projetivo nos proporcionou inúmeras informações diversas sobre o vínculo de aprendizagem entre as crianças e suas famílias, porém a entrevista poderia nos confirmar e ampliar as informações coletadas. Nossa primeira hipótese geral foi de verificar a existência de um obstáculo de origem moral que impede ou dificulta a apropriação do saber de crianças em fracasso escolar. A análise dos nossos resultados parece confirmar nossa hipótese. Observando a performance e as respostas das crianças, constatamos que elas se encontram ainda no estádio de heteronomia (80% do grupo 8/9 anos e 50% do grupo 10/11 anos). Percebemos que as mesmas possuem um raciocínio moral egocêntrico, pois obedecem a uma autoridade quase sagrada, intangível e imutável. Além do mais O egocentrismo intelectual leva a criança a afirmar continuamente, sem verificação, a acreditar em tudo que pensa, sem experimentar a necessidade que nasce da discussão (Piaget19). A maioria dos nossos sujeitos ainda não adquiriu a consciência da regra (100% do grupo 8/9 anos e 63% do grupo 10/11 anos). O que significa que essas crianças se mostram numa condição de heteronomia caracterizada pelo respeito unilateral, sendo a obediência cega predominante em suas relações com a autoridade. DISCUSSÃO A finalidade principal do nosso estudo foi verificar a possível existência de um obstáculo de origem moral que pode impedir ou dificultar a apropriação do saber das crianças. O professor Jorge Visca nos deixou uma grande contribuição, a descrição dos obstáculos de aprendizagem: cognitivo, funcional, social e afetivo. O que nos leva a considerar a convergência entre esses obstáculos e os quatro fatores descritos por Piaget e Inhelder18: maturação biológica/ orgânica, experiência física, interações e transmissões sociais e equilibração. Para Piaget, se esses fatores não estão em harmonia a criança vai tender a ter dificuldades em seu desenvolvimento cognitivo. Daí a criação da teoria de equilibração e do modelo do sujeito epistêmico (modelo ideal de desenvolvimento) em oposição ao sujeito psicológico: cada indivíduo sendo um ser particular, todos diferentes uns dos outros. Ora, se um desses fatores não se encontra em harmonia com os outros, o sujeito se verá face a um obstáculo. Por trabalhar o tema da obediência como valor moral, bem como o fracasso escolar, decidimos investigar mais precisamente os desenvolvimentos cognitivo e moral dos nossos sujeitos, sabendo que todas as dimensões humanas estão sempre implicadas. Os valores são de natureza afetiva, mas intelectualizados (Favre7) e eles são construídos pelo sujeito no seu meio social, no qual o objeto cultural é encontrado em interação constante. Nossos resultados atenderam nossos questionamentos, no âmbito permitido por uma pesquisa dessa proporção. Será necessário ampliar a amostra para que esse estudo seja verificado numa escala maior. Gostaríamos que nossa amostra tivesse sido constituída de no mínimo 15 sujeitos. Entretanto, foi difícil chegar a esse número em função de nossos critérios de seleção. Essa dificuldade nos Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR Elas apresentam dificuldade para se descentrarem e se colocarem no ponto de vista do outro, o que bloqueia a autonomia intelectual, condição necessária na aprendizagem. Pudemos verificar que grande parte dos nossos sujeitos possui um raciocínio figurativo, seus julgamentos se fundam na percepção, no estado das coisas, não levando em conta as transformações. Esse funcionamento de natureza figurativa as mantém numa relação com o outro baseada na heteronomia e no respeito unilateral. Com relação às competências que essas crianças demonstram na escola, segundo RamozziChiarottino20 elas realizam um conhecimentocópia: confundem o significado, a realidade e sua representação, pois organizaram o real de forma inadequada. Gostaríamos de salientar que a falta de solicitações do meio pode ocasionar a predominância figurativa no raciocínio das crianças. Nossa segunda hipótese diz respeito à existência de um paralelo entre os desenvolvimentos cognitivo e moral, de acordo com a descrição de Piaget. Reconhecemos que o sujeito epistêmico de Piaget faz referência a um sujeito ideal, diferente do sujeito psicológico que somos cada um de nós, por isso podemos explicar nossos resultados que não colocam em evidência esse paralelo. Com relação ao desenvolvimento cognitivo, nossos resultados mostram uma defasagem entre os potenciais das crianças e suas idades cronológicas. A maioria delas ainda não ultrapassou o nível 3 (oscilações cognitivas). Constatamos que nossos sujeitos se encontram num meio ambiente, cujas solicitações são escassas, que a maior parte deles esteve impedida de agir sobre o mundo dos objetos, pois não lhe foram propostas situações de construção do real: eles se utilizam de abstrações empíricas, quer dizer, só conseguem refletir na presença do que podem ver ou tocar, diferentemente do que pede um pensamento ponderado. Nossa amostra foi composta de crianças oriundas de todas as classes sociais. Temos a evocar entre elas, as de zonas urbanas sensíveis. Essas crianças freqüentam uma associação de futebol vinculada a um centro de pesquisa e são freqüentemente solicitadas a submeterem-se às provas piagetianas. Fato esse que nos fez supor que algumas delas já conheciam algumas das provas. Inclusive chegamos a cogitar a possibilidade de as retirar da amostra, mas não o fizemos, pois seus resultados nos convenceram que não houve interferências. Por outro lado, nossa reflexão é de que a condição social, dimensão não explorada em nossa pesquisa, pode ter implicações consideráveis no desenvolvimento das crianças. Repensando as provas operatórias escolhidas, lastimamos a não inclusão da prova das 3 montanhas no nosso protocolo. Cremos que poderia ter sido útil na comparação do nível de descentração das crianças. Gostaríamos de justificar nossa escolha pela prova de conservação de volume para o grupo 10/11 anos. Na verdade, consideramos que a prova de conservação de peso, que é alcançada antes dessa idade, teria sido a melhor opção. Contudo, apesar da nossa procura, não nos foi possível lançar mão de uma balança apropriada para a realização dessa prova. Com referência ao desenvolvimento moral, a maioria dos nossos sujeitos se situa no estádio de heteronomia: suas relações envolvem o respeito unilateral, como conseqüência, eles não se utilizam da reciprocidade, condição necessária à construção da cooperação que representa para Piaget, o equivalente da lógica para a inteligência (Favre7). Em se tratando da consciência de regras, verificamos que nossos sujeitos se situam no segundo estádio (Piaget8): para eles as regras verdadeiras não podem vir das crianças e toda modificação é considerada por eles uma infração. No que tange à terceira hipótese, pensamos que as crianças fariam no desenho Família Educativa uma representação dos conteúdos dos saberes cujos membros da família se apropriaram e do modelo de aprendizagem que eles transmitem. Com referência ao ambiente onde evoluem as crianças, os vínculos de aprendizagem mantidos Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 GLASER JA ET com suas famílias nos mostraram que são nutridos essencialmente de respeito unilateral. Dessa forma, as crianças não podem se descentrar suficientemente, pois ficam fechadas na heteronomia numa relação de obediência cega. Para essas crianças, o adulto é a fonte da moral, elas não questionam sua palavra. Evidentemente, elas não possuem uma autonomia intelectual que possa lhes fazer escapar desse tipo de raciocínio. De acordo com nossos resultados, se a família favorecesse a autonomia e mantivesse as regras vindas do respeito mútuo, ela poderia participar ativamente no progresso do processo escolar de suas crianças. Os resultados do nosso estudo nos encorajam a continuar nossas investigações. No mais, podemos salientar a falta de autonomia vivenciada por nossos sujeitos em dificuldade escolar, tendo em vista as relações verticais de obediência vividas em casa e na escola. Essas relações contribuem para que eles fiquem fechados em si mesmos, que não tenham uma boa auto-estima, levando-o à uma grande insegurança e continuam a crer que só o adulto (pais, professor) detém o saber. Isto posto, cremos necessária a moral como base de toda formação do indivíduo. AL. Através desse trabalho confirmamos mais uma vez que o desenvolvimento cognitivo é condição fundamental ao desenvolvimento moral e viceversa: Compreender o desenvolvimento moral da criança é então compreender seu desenvolvimento lógico (Piaget, 1928, citado por Xypas21). O que nos leva a novas questões e abre um novo horizonte para um estudo mais aprofundado sobre o tema, em direção à proposição de grupos de remediação cognitiva com crianças em fracasso escolar cuja causa possa ser de origem moral, pois: ... sem a atividade do sujeito, não haverá pedagogia que o transforme (Moro22). A realização desses grupos de remediação cognitiva poderá permitir às crianças se descentrarem e poderem considerar o ponto de vista do outro, fato que provavelmente influenciará no progresso do sujeito no plano cognitivo. Cremos que essa remediação poderá igualmente contribuir no desenvolvimento moral: será enriquecedor levar em consideração o contexto das interações entre pares, que nos permitirá observar e compreender a formação do julgamento moral nas crianças e como são os processos que as conduz a respeitar as regras. Segundo Piaget e Inhelder18, As trocas sociais (...) dão lugar a um processo de estruturação gradual ou socialização, passando de um estado de incoordenação ou de indiferenciação relativa entre o ponto de vista próprio e dos outros a um estado de coordenação dos pontos de vista e de cooperação nas ações e nas informações. Estimamos que as práticas cooperativas podem favorecer a emergência de novos conhecimentos e que as trocas conduzem à descentração (Cf. Favre23, 2007) que autoriza a criança a progredir no seu pensamento. Uma vez que a cooperação é fonte de crítica e de respeito mútuo, nos propomos a investir nesse propósito, pois o futuro precisa de indivíduos moralmente autônomos para progredir: o estudo da moral infantil é de grande importância para a compreensão da moral do homem (Piaget, 1928, citado por Favre7). Podemos igualmente refletir sobre a posição do adulto na educação moral da criança: ele a favorece? CONCLUSÃO E PERSPECTIVAS Nosso interesse por essa pesquisa foi motivado pelo acompanhamento de crianças em fracasso escolar, bem como pela constatação da pouca autonomia das mesmas na prática clínicaeducacional. Por esse estudo gostaríamos de demonstrar a relação entre o valor obediência e a reprovação, sob a ótica piagetiana. Além das respostas encontradas, essa problemática nos suscitou muitas outras questões, o que já nos lança a novas pesquisas nesse sentido. Almejamos que o nosso estudo possa também abrir percursos a outros profissionais interessados na relação entre o fracasso escolar e o desenvolvimento moral. Pois, é somente pelo estudo, pela pesquisa e pelas descobertas sobre o desenvolvimento da criança que poderemos lhes proporcionar novas perspectivas. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 DESENVOLVIMENTO MORAL E FRACASSO ESCOLAR SUMMARY Morality as an obstacle to systematic learning There is an obstacle preventing the appropriation of knowledge among some children which translates into a repetition to school, so consequently, a failure at school. That obstacle, has not necessarily cognitive, functional, emotional or social, but apparently moral origin. The objective of this research is to investigate about the value obedience (state of heteronomy) among children as a possible cause of school failure, due to the link between obedience, authority and rules. This research was set up with 13 children from 8 to 11 years old, namely, learning of elementary schools in Lyon - France. Our protocol is consisting of using moral stories, checking the rules consciousness among children and analysis the level of cognitive structure, as well as giving the projective test of Family Educational drawing that allows us to assess what the relationship is learning between parents and children in school failure and the possible link with their moral development. Our results have shown us that most of our subjects were still in the stage of moral heteronomy. The majority of them have not yet acquired consciousness of the rules, so they live in a state in which respect is predominantly unilateral, and they are facing difficulties to throw off their point of view and to move to the point of view of other, as prerequisite to learn. KEY WORDS: Moral development. Child. Learning disorders. REFERÊNCIAS 1. Siaud-Facchin J. Aider lenfant en difficulté scolaire. 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Manuel de passation de la Technique de Coopération Non-Verbale (TCNV), 2007 (em vistas de publicação, Lyon 2). Trabalho realizado no Département de Psychologie de la Santé, de lEducation et du Développement (PSED), Université Lumiére Lyon 2, Bron, França. Artigo recebido: 02/02/2008 Aprovado: 01/04/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 2-13 ! BACHA SMC ET AL. ARTIGO ORIGINAL AS HIPÓTESES DIAGNÓSTICAS NOS CASOS DE DIFICULDADES ESCOLARES: EXPERIÊNCIA EM EQUIPE MULTIPROFISSIONAL Stella Maris Cortez Bacha; Ana Lúcia Ferra Finocchio; Mônica Scharth Féo Ribeiro RESUMO - No atendimento às crianças e adolescentes oriundos de escolas públicas para avaliação e/ou intervenção, no Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP, utiliza-se as terminologias Distúrbio de Aprendizagem (DA), Dificuldade na Aprendizagem Escolar (DAE) e Distúrbio Específico de Leitura-Escrita (DLE), a partir de definições e delimitações propostas na literatura. O objetivo do presente trabalho foi verificar a eficiência no uso destas terminologias para as hipóteses diagnósticas levantadas nas avaliações de aprendizagem realizadas. Foram consultados todos os protocolos dos casos atendidos e analisadas as hipóteses diagnósticas levantadas junto aos casos atendidos no ano de 2006. Dos 40 casos com a queixa de dificuldade escolar confirmada, a maioria, 15 (37,5%), teve a hipótese diagnóstica inicial de DAE, 35%, DLE e 27,5%, DA. Destacaram-se os componentes emocionais e/ ou comportamentais. O atendimento no Laboratório é clínico, mas com perspectiva também educacional. As terminologias utilizadas (DA, DAE e DLE), de uma forma geral, representaram o conjunto de dados levantados em cada caso estudado e puderam orientar as intervenções. UNITERMOS: Transtornos de aprendizagem. Dislexia; Terminologia. Psicologia educacional. Stella Maris Cortez Bacha Fonoaudióloga; Mestre em Educação; Docente da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal UNIDERP. Ana Lúcia Ferra Finocchio Psicóloga; Mestre em Educação; Docente da UNIDERP. Mônica Scharth Féo Ribeiro - Pedagoga; Mestre em Educação; Docente da UNIDERP. Correspondência Stella Maris Cortez Bacha Rua Ceará, 333 B. Miguel Couto - Campo Grande MS - CEP 79003-010 - Tel (67) 3348-8000 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 " DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES hipótese diagnóstica é levantada e os encaminhamentos conduzidos (avaliações complementares e/ou intervenção). A avaliação, denominada psicoeducacional, foi elaborada pelos profissionais da equipe e envolve aspectos psicológicos, fonoaudiológicos e pedagógicos relacionados às dificuldades de aprendizagem escolar. Este Laboratório, que teve início em 2004, tem a proposta de intervenção com o aluno (individualmente na avaliação e em grupo operativo na intervenção), com a família (em grupo de orientação) e orientações aos profissionais das escolas. O atendimento ocorre semanalmente e é realizado por grupo de acadêmicos. Cada grupo de seis acadêmicos compõe um Grupo de Atendimento a, aproximadamente, cinco sujeitos/ alunos, sendo assim distribuídos: dois acadêmicos atendem o grupo de sujeitos/alunos durante uma hora e meia; paralelamente, dois acadêmicos atendem o grupo das famílias durante uma hora e dois orientam os profissionais das escolas destes sujeitos/alunos, indo a cada escola pelo menos uma vez ao mês, realizando ainda contatos por telefone de acordo com a necessidade, e também ocorrem, na UNIDERP, algumas reuniões por ano com os profissionais de todas as escolas envolvidas (pelo menos um profissional responsável pela escola). Estes atendimentos acontecem durante todo o ano letivo, são realizados sob a supervisão simultânea de uma psicóloga, uma fonoaudióloga e uma pedagoga a cada Grupo de Atendimento. Varia de seis a oito grupos por ano, distribuídos em supervisões individuais (por grupo) de uma hora cada, uma vez por semana. A princípio pode parecer que o sujeito é fragmentado, mas não o é. A supervisão com a equipe multiprofissional, semanalmente, permite que os acadêmicos tenham a visão do todo, sujeito/ aluno-família-escola, para que no atendimento haja a mesma uniformidade. Outra conduta tomada é a apresentação de toda a equipe aos sujeitos/alunos e famílias, do mesmo grupo, na primeira sessão de atendimento, bem como a explicação da dinâmica. INTRODUÇÃO Quando se atua em equipe multiprofissional, mesmo que seus integrantes tenham objetivos comuns, nem sempre é tarefa simples o uso das terminologias nos diagnósticos porque podem se caracterizar como rótulos. Porém tem-se a compreensão de que estas visam a guiar os encaminhamentos e as intervenções para a superação do problema, quando existir. Vivencia-se, na prática, que há maior dificuldade quando a questão envolve saúde e educação, pois atuando com Dificuldades Escolares há divergências entre vários profissionais, da mesma área de formação ou não, quanto à terminologia utilizada para o conjunto de dados levantados no sujeito/aluno avaliado, mesmo se considerando somente o diagnóstico quanto à aprendizagem. O presente trabalho tem como objetivo verificar a eficiência no uso de algumas terminologias para as hipóteses diagnósticas levantadas nas avaliações de aprendizagem realizadas no Laboratório Psicoeducacional do Curso de Psicologia da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal UNIDERP - que conta com o atendimento realizado pelos acadêmicos do quarto ano, sob supervisão semanal de uma equipe multiprofissional composta por psicólogo, fonoaudiólogo e pedagogo. A política de extensão da UNIDERP mantém compromisso com diversos setores da sociedade e por meio deste atendimento promove saúde e a melhoria da qualidade de vida da região na qual está inserida, bem como possibilita aos acadêmicos o aprimoramento das habilidades e competências para a sua formação profissional. Neste Laboratório são atendidos, predominantemente, alunos encaminhados pelas escolas públicas municipais e estaduais urbanas de Campo Grande/MS, com queixa de dificuldade para aprender na escola. Os procedimentos realizados envolvem a entrevista com os pais ou responsáveis, levantamento de dados junto aos profissionais da escola e avaliação específica do sujeito/aluno. Após a coleta de todos os dados, a Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 # BACHA SMC ET AL. A opção por esta forma de intervenção também está ajustada às possibilidades de horários da clínica de Psicologia da Instituição e à carga horária do Laboratório em questão. Esta dinâmica exige atuação de todos os acadêmicos do grupo, individualmente e também em equipe, sem fragmentar o paciente. Porém, a cada ano se analisa os prós e os contras, tanto em relação ao paciente quanto em relação à formação do acadêmico de Psicologia e, até o momento, os benefícios são predominantes. No contexto descrito acima é que surgiu a necessidade de se discutir sobre as terminologias. Acredita-se na importância do presente trabalho tanto para facilitar a compreensão entre os vários profissionais da equipe, quanto para melhor orientar o acadêmico e seu paciente/aluno. Os termos sugeridos no CID-10, DSM-IV e CIF são algumas das possibilidades para os casos atendidos no Laboratório Psicoeducacional. O CID-10, Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, em sua décima revisão1 é a última de uma série que se iniciou em 1893 como a Classificação de Bertillon ou Lista Internacional de Causas de Morte. Basicamente às questões escolares refere o grupo dos Transtornos Específicos do Desenvolvimento das Habilidades Escolares, sendo definido como: Transtornos nos quais as modalidades habituais de aprendizado estão alteradas desde as primeiras etapas do desenvolvimento. O comprometimento não é somente a conseqüência da falta de oportunidade de aprendizagem ou de um retardo mental, e ele não é devido a um traumatismo ou doenças cerebrais1. Neste grupo, há nove subgrupos relacionados: Transtorno específico de leitura, Transtorno específico da soletração, Transtorno específico da habilidade em aritmética, Transtorno misto de habilidades escolares, Outros transtornos do desenvolvimento das habilidades escolares (Transtorno de desenvolvimento da expressão escrita), Transtorno não especificado do desenvolvimento das habilidades escolares. Cada um deles inclui várias possibilidades de nomes e ocorrências, e também excluem outras1. O DSM-IV, Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, é uma publicação da American Psychiatric Association, e encontra-se na sua 4ª edição. Este manual fornece critérios de diagnóstico para a generalidade das perturbações mentais, incluindo componentes descritivos, de diagnóstico e de tratamento, constituindo um instrumento de trabalho de referência para os profissionais da saúde mental2. A seção sobre Transtornos da Aprendizagem inclui Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática, Transtorno da Expressão Escrita e Transtorno da Aprendizagem sem outra Especificação2. Há bastante detalhamento de cada um dos tópicos apresentados nos Transtornos Específicos do Desenvolvimento das Habilidades Escolares do CID-10, bem como na seção sobre Transtornos da Aprendizagem do DSM-IV. Há, ainda, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde - CIF, uma classificação da saúde e dos estados relacionados com a saúde3. A CIF transformou-se de uma classificação de conseqüência da doença numa classificação de componentes da saúde. Alguns termos utilizados na CIF são: bem-estar, estados de saúde e domínios de saúde, condição de saúde, funcionalidade, incapacidade, funções do corpo, estruturas do corpo, deficiência, atividade, limitações da atividade, participação, restrições na participação, fatores contextuais, fatores ambientais, fatores pessoais, facilitadores, barreiras, capacidade e desempenho3. Porém, o grupo de profissionais do Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP, mesmo com vários anos de experiência clínica, escolar e docente na área, não utilizava as terminologias acima citadas tanto por ainda conhecer pouco o CIF, tanto por nunca ter tido na rotina o hábito de utilizar as propostas que constam do CID-10 e DSM-IV. Um argumento para esta conduta é o fato destes termos serem da área da saúde, não sendo usados Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 $ DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES pelos profissionais da Educação que compunham a equipe de trabalho, mesmo antes da atuação neste Laboratório. Buscou-se, desta forma, alguns termos de uso habitual, mesmo tendo a informação de que nos Descritores em Ciências da Saúde DeCS 4 constavam somente alguns relacionados, como: transtornos de aprendizagem e baixo rendimento escolar. Estes descritores orientam a escolha das palavras-chaves exigidas nas publicações científicas. Após vários levantamentos na literatura, os termos selecionados para utilização foram: Distúrbio de Aprendizagem, Dificuldade na Aprendizagem Escolar e Distúrbio Específico de Leitura-Escrita, a partir de alguns autores. O primeiro termo refere-se a um problema mais amplo no desenvolvimento, o segundo, às dificuldades relacionadas ao ambiente escolar e educacional e, o terceiro, às dificuldades específicas para ler e escrever, como se segue: de falta de motivação, imaturidade e problemas comportamentais6. Têm-se como características na fase préescolar: começa a falar mais tarde do que a maioria das crianças, tem dificuldades para encontrar as palavras apropriadas em situação de conversação, dificuldades para nomear rapidamente palavras de uma determinada categoria, dificuldades com rimas, dificuldades para aprender o alfabeto, dias da semana, cores, forma e números6. Características na fase escolar séries iniciais: demora a aprender as relações entre letras e sons, tem dificuldades para sintetizar os sons e formar palavras, para relembrar seqüências e para dizer as horas. Apresenta erros consistentes de leitura e de ortografia, lentidão para aprender novas habilidades, dificuldades em termos de planejamento6. Características na fase escolar séries mais avançadas: lentidão para aprender prefixos, sufixos, rota lexical e outras estratégias de leitura. Evita leitura em voz alta, tem dificuldades com os enunciados de problemas em matemática, soletra a mesma palavra de modos diferentes, evita tarefas envolvendo leitura e escrita, tem dificuldades para lembrar ou compreender o que foi lido, trabalha lentamente (dificuldades para compreender e/ou generalizar conceitos, confusões em termos de endereços e informações)6. Muitas vezes, não é possível diferenciar os distúrbios de linguagem oral e escrita dos distúrbios de aprendizagem7. 1. Distúrbio de Aprendizagem (DA) Com componentes físicos, vários aspectos da aprendizagem alterados, como a linguagem oral, leitura, escrita, matemática e a combinação entre estes. É uma disfunção do Sistema Nervoso Central relacionada a uma falha no processo de aquisição ou no desenvolvimento, tendo, portanto, além das questões socioculturais, o caráter funcional5. Nesses casos, o desenvolvimento da aprendizagem está comprometido desde os primeiros anos de vida, manifestando-se, principalmente, na linguagem. Este distúrbio antecede a alfabetização e, provavelmente, afetará diretamente o aprendizado da leitura, da escrita e do raciocínio lógico-matemático, podendo comprometer o desempenho acadêmico como um todo6. Um Distúrbio de Aprendizagem não é déficit de atenção como no Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade - TDAH, deficiência ou retardo mental, autismo, deficiência auditiva ou visual, deficiência física, distúrbio emocional ou o processo normal de aquisição de uma segunda língua, mas muitas vezes estão acompanhados 2. Dificuldade na Aprendizagem Escolar (DAE) Está relacionada especificamente a um problema de ordem e origem pedagógica. Ou seja, as dificuldades do aluno aprender estão relacionadas ao professor e à escola, envolvidos num processo sociocultural mal-estruturado, com problemas que vão desde a inadequação pedagógica à falta de recurso material e humano5. 3. Distúrbio Específico de Leitura-Escrita (DLE) ou Dislexia Refere-se aos distúrbios específicos das habilidades de leitura e escrita, sem envolver, Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 % BACHA SMC ET AL. necessariamente, o conteúdo da aprendizagem escolar7. O aluno apresenta desenvolvimento inicial sem alterações. Os problemas começam a surgir no aprendizado da leitura-escrita, desde o início do processo de alfabetização, como dificuldades na correspondência som-letra, gerando prejuízos para a escrita e para a leitura, e o nível de leitura encontra-se abaixo do esperado para a escolaridade6. Nesses quadros, há ausência de problemas neurológicos, cognitivos, sensoriais, emocionais e educacionais primários. As habilidades sintáticas, semânticas e pragmáticas da linguagem oral estão preservadas, ou seja, o problema está centrado na linguagem escrita6. Mas há autores que afirmam que as habilidades fonológicas, elaboração de narrativas, função expressiva e o processamento de informações podem apresentar comprometimentos como os observados nos distúrbios de aprendizagem8,9. Os DLE podem causar vários problemas na criança como: falhas no desenvolvimento escolar, danos afetivos e sociais. As causas são variadas: déficits visuais ou auditivos, domínio pouco desenvolvido de fala e linguagem, problemas gerais de saúde, imaturidade, fatores emocionais/ familiares e sociais, inadequação dos métodos escolares e também postura pouco estimulante da professora. Porém é observado que algumas crianças apresentam dificuldade de leitura-escrita sem estar relacionada a estas prováveis causas7. Crianças disléxicas (com diferença individual e não sociocultural) têm o processo da aprendizagem da leitura pior que o esperado, a partir de seu nível intelectual. A diferença entre elas e as que não apresentam dificuldades tão grandes, é quantitativa. Por outro lado, se apresentarem dificuldades diferentes, a diferença será qualitativa. Dependendo da diferença, quantitativa ou qualitativa, haverá necessidade de enfoques também diferentes quanto ao método de ensino10. O uso do termo Dislexia é controverso e concorda-se com sugestão6 de se utilizar o termo Distúrbio Específico de Leitura-Escrita, mas Dislexia pode ser usado como sinônimo. Dessa forma, esta categoria de distúrbio caracteriza-se como um distúrbio de desenvolvimento da linguagem, com déficit no processamento fonológico, responsável pelas dificuldades na decodificação e correspondência entre letras e sons. As dificuldades de compreensão de textos derivam das limitações na decodificação. Se apresentados oralmente esses mesmos textos, podem ser bem compreendidos, revelando que os aspectos semânticos estão preservados6. Na prática, é difícil diferenciar DA, DAE e DLE. Particularmente sobre DA e DLE pode-se falar em um contínuo de dificuldades, que parte do particular (DLE) para o mais amplo (DA)6. A partir do exposto acima, tem-se como objetivo no presente trabalho, verificar a eficiência no uso das terminologias DA, DAE e DLE para as hipóteses diagnósticas levantadas nas avaliações de aprendizagem realizadas, analisar cada um dos grupos e fazer comparações entre eles. MÉTODO Foram consultados para o presente trabalho todos os protocolos dos casos atendidos no Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP. Particularmente, foram analisadas as hipóteses diagnósticas levantadas junto aos casos atendidos no referido Laboratório no ano de 2006, sendo, portanto, um estudo retrospectivo. Os dados levantados foram analisados quantitativa e qualitativamente, mas sem tratamento estatístico específico. RESULTADOS E DISCUSSÃO De março de 2004 a abril de 2007, foram atendidos 91 casos novos: 26 em 2004, 26 em 2005, 34 em 2006 e cinco em 2007 (até o mês de abril). Não foram considerados os casos que desistiram do atendimento antes do término da avaliação. Deve-se ainda considerar que alguns casos retomam o atendimento no ano seguinte, somando 129 até abril de 2007. Em abril de 2007, havia cinco casos novos e 25 de outros anos anteriores (um de 2004, um de 2005 e 23 de 2006). Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 & DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES componentes emocionais e/ou comportamentais representaram, pelo menos, a metade dos avaliados, em cada grupo das hipóteses diagnósticas levantadas, mas que ao se considerar o todo, representou um pouco mais da metade. O uso de cada hipótese diagnóstica baseouse nas descrições e delimitações propostas pelos autores já citados 5-7 . Porém, para melhor compreensão houve a necessidade de se ressaltar os componentes emocionais e/ou comportamentais nos casos existentes. Segundo a literatura consultada7, estes fatores podem ou não ocorrer junto às dificuldades de leitura-escrita. No presente trabalho, a ocorrência de muitos casos com componentes emocionais e/ ou comportamentais, e necessidade de ressaltálos, pode estar evidenciando também a concepção que os envolvidos no Laboratório Psicoeducacional (equipe multiprofissional e acadêmicos) têm sobre o desenvolvimento humano, ou seja, os aspectos emocionais e socioculturais são também valorizados na anamnese e avaliação, além do cognitivolingüístico, perceptual, psicomotor, sensorial e motor, além do aspecto pedagógico e outros biológicos. A equipe acredita que os indivíduos se constituem enquanto sujeitos por meio das e nas relações sociais que vão estabelecendo com os outros. E é nessas relações estabelecidas pelo sujeito com outras pessoas e objetos que se dá o processo de vinculação11. Porém, apesar de se ter encontrado e se destacado os componentes emocionais e/ou comportamentais, nem todos os casos foram encaminhados para avaliação e/ou atendimento psicoterápico individual, pois se acreditava que alguns poderiam ser abordados na intervenção proposta no Laboratório Psicoeducacional. Outra consideração sobre o mesmo tópico é que não se pode dizer, a partir dos procedimentos de avaliação utilizados, se os componentes emocionais eram ou não primários, pois o conflito estava evidenciado na dificuldade de aprendizagem apresentada. Por isso, não se pode concordar nem discordar da literatura levantada6 Dos 91 casos novos, 25 (27,5%) são do sexo feminino e 66 (72,5%) do sexo masculino, com idade média de 9,8 anos, cursando o Ensino Fundamental, principalmente do 2º ao 5º ano, de escolas públicas urbanas municipais e estaduais da cidade. São envolvidas, aproximadamente, 19 escolas por ano. Como é objetivo do presente trabalho, analisaram-se, especificamente, os casos atendidos durante todo o ano de 2006. Em 2006, foram atendidos 34 casos novos e 8 que se mantiveram de anos anteriores (um de 2004 e sete de 2005). Destes 34, dois não tiveram a hipótese de dificuldade de aprendizagem escolar confirmada. Dessa forma, computou-se, ao todo, 40 casos atendidos em intervenções no ano de 2006. Obtiveram-se os seguintes resultados: dos 40 casos, 39 cursavam o Ensino Fundamental (EF), sendo sete (17,5%) do segundo ano, com idade média de 7,7 anos; nove (22,5%) do terceiro ano, com idade média de 8,5 anos; doze (30%) do quarto ano, com idade média de 9,6 anos; oito (20%) do quinto ano, com idade média de 11,6 anos; três (7,5%) do sexto ano, com idade média de 12 anos. Apenas um (2,5%) sujeito cursava o 1° ano do EM. Do total, 28 (70%) eram do sexo masculino e 12 (30%) do feminino. Destes 40 casos, 15 (37,5%) tiveram a hipótese diagnóstica inicial de DAE, sendo oito (53,3%) dos 15 com componentes emocionais e/ou comportamentais significativos; 14 (35%) casos tiveram a hipótese diagnóstica inicial de DLE e destes, sete (50%) com componentes emocionais e/ou comportamentais significativos; 11 (27,5%) tiveram a hipótese diagnóstica inicial de DA, sendo seis (54,5%) com componentes emocionais e/ou comportamentais significativos. Do total, 52,5% tiveram associados à hipótese diagnóstica de aprendizagem, o componente emocional e/ou comportamental significativo. Os números levantados permitem afirmar que a maioria dos atendidos era do sexo masculino e cursava o quarto ano do EF; que houve proximidade na quantidade dos casos diagnosticados com DAE e DLE, mas houve menos casos com DA, porém os casos com Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 ' BACHA SMC ET AL. que refere que nos casos de DLE há ausência de problemas emocionais primários. Após a avaliação e o levantamento das hipóteses diagnósticas iniciais, foram dadas as devolutivas aos pais, situações em que se optou por descrever o quadro e a proposta de intervenção, sem utilizar as terminologias propostas, procurando evitar a cultura dos rótulos, ainda bastante observada, relacionada à produção do fracasso escolar12, pois o objetivo é vencer a dificuldade. As intervenções ocorreram semanalmente, com o grupo de sujeito/alunos e, paralelamente, com grupo de pais, bem como acompanhamento junto aos profissionais das escolas. Junto aos profissionais das escolas se procedeu da mesma maneira que com os pais quanto ao uso das terminologias. Não foi fácil utilizar a terminologia proposta, mas ao se acompanhar os casos, até o final de 2006, pode-se dizer que, de uma forma geral, representou os achados dos sujeitos/alunos avaliados e orientou as intervenções. Com alguns casos houve encaminhamento para psicoterapia individual do sujeito/aluno e/ou mãe, além de alguns encaminhamentos para avaliação complementar. A equipe acredita ser necessário levantar uma hipótese diagnóstica visando à orientação para o processo de intervenção, pois não se intervém da mesma forma em todos os casos, concordando com alguns autores5,6,13,14. Nos casos de DA, a intervenção é mais ampla; nos DLE, é mais direcionada à leitura, à escrita e à matemática e, nos DAE, na relação alunoprofessor/escola. Desta forma, nomear os quadros de dificuldade para aprender na escola é uma maneira de tentar esclarecê-lo e não significa rotular o sujeito/aluno ou paciente. Na equipe multiprofissional do Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP, tem-se o hábito de discutir sobre os termos dificuldade, distúrbio, transtorno, desordem, alteração, disfunção e outros, de forma a não ter preconceitos sobre os casos e seus prognósticos. Acredita-se que não há, só pelos nomes, formas mais, ou menos, suave ou grave, e que é preciso compreender o que cada um engloba, baseando-se em referencial teórico. Porém, mesmo se optando por alguns termos e alguns referenciais teóricos, deve-se ter cuidado para não perpetuar a idéia de doença como se esta fosse de responsabilidade somente do sujeito, tema este já bastante discutido na literatura12,15,16. Ressalta-se, mais uma vez, que o grupo acredita ser necessário trabalhar com a hipótese diagnóstica inicial, e isto implica na possibilidade desta sofrer mudanças com o andamento das intervenções (junto aos alunos/pacientes, seus pais e suas escolas) e que, seu uso tem o objetivo principal de orientá-las nos encaminhamentos e intervenções. Os casos de DAE estão merecendo maior atenção da equipe, pois há dificuldade em se distinguir as questões individuais e as relacionadas especificamente a problema de ordem e origem pedagógica, como sugerido na literatura consultada5. Sobre este aspecto houve necessidade de mais discussão, como se segue. Para os profissionais que trabalham com os distúrbios da linguagem escrita, sempre se configurou como de grande desafio definir, avaliar, diagnosticar e tratá-los, pois diferentemente da linguagem oral, a linguagem escrita é de natureza cultural e não biológica. Sendo assim, como é aprendida, está sujeita a inúmeros fatores facilitadores ou não facilitadores. A ocorrência de comorbidades mostra-se alta no caso dos distúrbios específicos de leitura-escrita que caracterizam as Dislexias, pois estes distúrbios não vêm isolados, podem estar associados a dificuldades de relacionamento familiar e social mais geral, dificuldades emocionais e de comportamento, desadaptação escolar, problemas de atenção e hiperatividade, bem como falta de interesse17. No Brasil, estima-se que 40% dos jovens estudantes tenham alguma dificuldade para aprender (nos Estados Unidos esses números ficam entre 20 e 30%), porém os outros 60% de estudantes da escola pública também apresentam baixo rendimento escolar6. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES Esta dificuldade generalizada, pode-se assim dizer, causa muita dificuldade quanto às medidas a serem tomadas em serviços como do Laboratório referido no presente trabalho. Este é o desafio: compreender cada caso e orientar as intervenções da forma mais adequada possível. Discutindo também sobre a imensa quantidade de problemas na aprendizagem escolar em estudantes brasileiros, há necessidade de se ter atenção, pois a maioria dos estudantes pode ter um pseudodistúrbio de aprendizagem ou dificuldades acadêmicas. Apontaram-se as categorias em que os educandos poderiam ser encaixados, procurando diferenciar os verdadeiros e os falsos distúrbios de aprendizagem: 1. Crianças que tiveram a oportunidade e estímulo à leitura e escrita desde muito cedo e assim puderam construir noções significativas a este aspecto. Neste caso, têm chances de sucesso na escola e cabe a esta dar continuidade a este processo; 2. Crianças que tiveram oportunidade e estímulo relacionado à leitura e à escrita, mas não construíram noções significativas devido a questões ligadas ao interesse. O desafio da escola diante destes casos será também motivacional; 3. Crianças sem ou com pouca oportunidade e estímulo relacionado à leitura e à escrita, devido a condições sociais e econômicas pouco favoráveis (incluindo o analfabetismo). Assim, a leitura-escrita não faz parte da sua vida. E neste item se encaixa a maioria das crianças brasileiras que não aprende. Este grupo é um desafio para a Educação e compõe os pseudodistúrbios, pois para podermos afirmar que alguém tem dificuldade de aprendizagem precisamos garantir a existência de condições e oportunidades efetivas para que a aprendizagem pudesse ocorrer6; 4. Crianças com necessidades educativas especiais que corresponde a, aproximadamente, 8% dos alunos, além dos que participam do processo de inclusão; 5. Crianças com distúrbios ou transtornos de aprendizagem que chegam a 10% da população escolar. Nas categorias 4 e 5, encontram-se os verdadeiros distúrbios de aprendizagem com dificuldades relacionadas ao desenvolvimento da linguagem (leitura e escrita) e, muitas vezes, à fala. Para contribuir com este quadro amplo sugere-se aos fonoaudiólogos uma atuação além da clínica, para uma perspectiva educacional desenvolvimentista6. A presente pesquisa baseou-se também nestas reflexões acima descritas18, mas há algumas discussões a partir da prática no Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP: 1. Com a clientela atendida, de nível socioeconômico e cultural pouco favorecido, a coleta de dados na anamnese nem sempre permite interpretação clara quanto à estimulação dada ao filho, pois se observa pouca exigência para a vida como um todo e não somente em relação ao ler e escrever; 2. Por também concordar com os pseudodistúrbios, mas compreendendo estes como tendo necessidade de auxílio também fora da escola, é que se utiliza no Laboratório a terminologia Dificuldade na Aprendizagem Escolar, caracterizando-o como um problema mais de ordem acadêmica e, como na proposta de intervenção há ação com o sujeito/aluno, sua família e com os profissionais de sua escola, acredita-se na possibilidade de superação deste, apesar das dificuldades decorrentes da atual conjuntura educacional e socioeconômica brasileira; 3. Observou-se, também, na clientela atendida que, assim como nos casos de DA e DLE, pode haver outras dificuldades associadas nos casos de DAE, como os componentes emocionais e/ou comportamentais, como também destacou o estudo levantado6. 4. Concorda-se que diante dos casos de dificuldades para aprender na escola, particularmente com os DAE há necessidade da perspectiva educacional, mas esta necessidade é também na clínica, pois não há como negar que o atendimento no Laboratório é clínico, mas com perspectiva também educacional, como já propôs também outros autores18,19. Por outro lado, o termo clínico, na área das Ciências Humanas, encontra-se ampliado, indo além de seu conceito médico original (ação do Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 BACHA SMC ET AL. médico sobre o doente). O clínico é visto como ação-reflexão a partir da observação, e a esta última dá-se também importância ao não-dito (olhar e escutar). O olhar clínico é aquele que considera um campo de pesquisa ou de intervenção estruturado por um jogo de relações e de interações dinâmicas e complexas20. Tem-se atingido resultados satisfatórios tanto em relação ao sujeito/aluno quanto em relação à aprendizagem dos acadêmicos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os profissionais da equipe multiprofissional do Laboratório Psicoeducacional da UNIDERP realizam atendimento clínico com perspectiva educacional, envolvendo o sujeito/aluno, sua família e sua escola. Utilizam, para os casos com dificuldade escolar, terminologia diferente da proposta no CID-10, DSM-IV e CIF, por acharem que traduz melhor as questões psicológicas, fonoaudiológicas e pedagógicas em conjunto. As terminologias utilizadas (DA, DAE e DLE), de uma forma geral, representaram o conjunto de dados levantados em cada caso no ano de 2006, mas foi uma prática difícil, tendo sido necessário destacar a presença de componentes emocionais e/ou comportamentais significativos de forma a melhor orientar os encaminhamentos e/ou intervenções. Estes componentes estiveram presentes em mais da metade dos avaliados. Os casos de DAE mereceram maior atenção por apresentarem também outras dificuldades associadas. E, mesmo sendo considerado pseudodistúrbio, os casos foram incluídos na intervenção clínica envolvendo sujeito/família/ escola numa perspectiva educacional. Dessa forma, nomear os quadros de dificuldade para aprender na escola é uma maneira de tentar esclarecê-lo e não significa rotular o sujeito/aluno ou paciente. Por este motivo, nos casos atendidos em 2006, não foram verbalizadas as terminologias nas devolutivas junto à família e aos profissionais da escola, mas somente na rotina clínica. Nas devolutivas, os casos eram explicados. Ressalta-se a importância de sempre se reverem as hipóteses diagnósticas levantadas, pois o principal objetivo destas é guiar a intervenção junto ao grupo de sujeitos/alunos, seus pais e suas escolas, buscando superar o problema. A maneira de abordar os casos de dificuldades escolares (clínica e educacional, envolvendo o sujeito/aluno, família e profissionais da escola), a avaliação e o uso das terminologias para esclarecê-los, foi adequada para a clientela atendida em 2006, bem como pôde guiar a prática docente no curso de Psicologia, proporcionando aos acadêmicos, a oportunidade de vivenciar um enfoque de intervenção global junto a esta clientela, com supervisão de equipe multiprofissional. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 DIAGNÓSTICO DAS DIFICULDADES ESCOLARES SUMMARY The diagnostic hypotheses in the cases of school difficulties: experience in multiprofissional team In the teaching, educational and clinic practice is not easy the use of terminologies, mainly with school difficulties. In the attendance to children/ adolescent of public schools for evaluation and/or intervention in the Psycho Educational Laboratory of the UNIDERP is used the terminologies Learning Disorders (LD), Difficulty in the School Learning (DSL) and Specific Disorder of Reading and Writing (DRW), from definitions and delimitations proposals in the literature. The objective of the present work was to verify the efficiency in the use of these terminologies for the diagnostic hypotheses raised through evaluations of learning. Consult of all the protocols of the cases taken care and was analyzed the diagnostic hypotheses from the cases of 2006. Among the 40 cases with the complaint of school difficulty confirmed, the majority, 15 (37.5%), had the initial diagnostic hypothesis of DSL, 35% DRW and 27.5%, LD. Were distinguished the emotional and/or behavioral components. The attendance in the Laboratory is clinic, but with also educational perspective. The used terminologies had represented the data set raised in each studied case and had been able to guide the interventions. KEY WORDS: Learning disorders. Dyslexia. Terminology. Psychology, educational. 5. Ciasca SM. Distúrbios e dificuldades de aprendizagem: questão de nomenclatura. In: Ciasca SM, org. Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. São Paulo:Casa do Psicólogo;2003. p.19-31. 6. Zorzi JL. Os distúrbios de aprendizagem e os distúrbios específicos de leitura e da escrita. In: Brito ATBO, org. Livro de fonoaudiologia. São José dos Campos:Pulso;2005. p.217-31. 7. Zorzi JL. Dislexia, distúrbios da leituraescrita...De que estamos falando?. In: Marchesan IQ, Zorzi JL, Gomes ID, orgs. Tópicos em fonoaudiologia 1996. São Paulo:Lovise;1996. p.181-94. 8. Giachetti CM. Diagnóstico e intervenção multiprofissional das crianças com dificuldades de aprendizagem. Livro do 6º Simpósio Nacional sobre Distúrbios da Aprendizagem. São Paulo; 2002. p.37-44. 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Artigo recebido: 12/11/2007 Aprovado: 21/03/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 14-24 " CUERPO VSARTIGO . PROCESO DE ENSEÑANZA APRENDIZAJE ORIGINAL EL CUERPO UN ECLIPSE A DEVELAR EN EL PROCESO DE ENSEÑANZA APRENDIZAJE Marta Busani; Sandra Yamzon RESUMEN El presente artículo surge de la producción de conocimientos realizado por un equipo de investigación, perteneciente al Dpto. de Psicopedagogía de la Universidad Nacional del Comahue, -Viedma, Río Negro, Argentina-, donde se indagaron aspectos del proceso de enseñanza aprendizaje en el aula que involucran la comprensión -o no- del cuerpo de los alumnos y de los docentes en dicho proceso. La presencia del cuerpo de los alumnos en su aprendizaje, se encuadró en la construcción teórica de la singularidad psíquica del educando (Benbenaste, 1995-1996) que sostiene una concepción de sujeto del aprendizaje que además de ser inteligente, es sujeto simbólico; es decir que su potencial para aprender dependerá de la significación de su propio cuerpo. Para indagar la presencia del cuerpo de los docentes en el proceso de enseñanza aprendizaje se han trabajado los desarrollos de la pedagogía crítica, especialmente lo referido al concepto de cuerpo/sujeto (Mac Laren, 1994; 1997); que da cuenta de la profunda imbricación e interacción entre cuerpo y subjetividad. La metodología cualitativa con que se han abordado las indagaciones nos ha permitido utilizar técnicas distintas para trabajar con los/as alumnos/as y con las docentes. Hemos realizado, entrevistas clínicas con alumnos/as, talleres de implicación corporal e interrogación crítica con docentes y observaciones de clase, que han puesto de relieve la interacción del cuerpo/sujeto de alumnos y docentes. En el desarrollo de este trabajo intentamos dar cuenta de las cuestiones relevantes en relación a la presencia del cuerpo o la no conciencia del mismo- como un eclipse a develar en el proceso de enseñanza aprendizaje. PALABRAS CLAVE: Cuerpo humano. Docentes. Educación. Aprendizaje. Estudiantes. Marta Busani - Profesora Titular Regular de Psicología del Aprendizaje. Magister en Educación. Directora de Investigación. Depto de Psicopedagogía. UNCo. Sandra Yamzon - Licenciada en Psicopedagogía. Integrante de equipo de Investigación. Depto de Psicopedagogía. UNCo. Correspondência Las Heras 672 - Viedma - Río Negro - R.Argentina E. Mail: [email protected] T.E: 02920-424643 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 # BUSANI M ET AL. partir de la conceptualización del término encarnamiento. Para pensar en cambio la reconstitución del significado, la teoría utiliza el concepto de reencarnamiento. INTRODUCCIÓN Una mujer me duele en todo el cuerpo J. L. Borges Las indagaciones que venimos realizando en torno a las situaciones de enseñanza aprendizaje en el aula, nos han situado ante un objeto de estudio poco investigado en nuestro país. Este objeto involucra la comprensión - o no - de la significación del cuerpo de alumnos y docentes en ese complejo proceso didáctico de enseñar y aprender y, las consecuencias que se derivan de este problema en la promoción de aprendizajes significativos, así como en la estimulación del pensamiento creativo y autónomo de los estudiantes. El objetivo es identificar y esclarecer en la interacción áulica ciertos vestigios de la naturalización de la evasión del cuerpo en la escena central que opera como obstáculo para suscitar aprendizajes con sentido. La comprensión de la significación del cuerpo de los alumnos en su aprendizaje, se encuadró en la construcción teórica de la singularidad psíquica del educando 1,2 que sostiene una concepción de sujeto del aprendizaje que además de ser inteligente, es sujeto simbólico. La forma en que está simbolizando su propio cuerpo ejerce una influencia decisiva en el potencial de razonamiento del alumno y en la significación que otorga a los conocimientos escolares. Esta categoría sostiene que un sujeto aprende, es decir, objetiva la realidad y produce conocimiento en la medida en que puede distribuir el placer en diversas representaciones sin quedar atrapado en una representación en particular. Para indagar la comprensión de la presencia del cuerpo de los docentes en el proceso de enseñanza aprendizaje se han trabajado los desarrollos de la pedagogía crítica, especialmente lo referido al concepto de cuerpo/sujeto3,4; que da cuenta de la profunda imbricación e interacción entre cuerpo y subjetividad. Este autor define el cuerpo/sujeto como el terreno de la carne en el que se inscribe, se construye y se reconstituye el significado . La inscripción y construcción de los significados instituidos en el terreno de la carne, son analizadas desde esta teoría a MÉTODO La metodología cualitativa con que se ha abordado la indagación nos ha permitido utilizar técnicas distintas para trabajar con los/as alumnos/ as y con las docentes*. Hemos realizado entrevistas clínicas con alumnos/as, talleres de implicación corporal e interrogación crítica con docentes y observaciones de clase, que han puesto de relieve la interacción del cuerpo/sujeto - de alumnos y docentes. Las entrevistas clínicas semiestructuradas realizadas a los alumnos nos han facilitado la exploración de respuestas por parte de cada sujeto sobre sus ideas acerca del proceso realizado en sus propios aprendizajes. Una vez instalado el tema, con cada alumno/a y a partir de las repuestas que se fueron obteniendo, se les fue planteando nuevas situaciones o situaciones alternativas, para explorar las argumentaciones elaboradas por los sujetos en cada caso. De este modo, se trabajaron los niveles de razonamiento y simbolización en los alumnos, inferidos a partir del análisis de los datos recogidos en esta instancia, como así también y en relación a lo anterior, la posición otorgada a los alumnos como cuerpo/sujeto en el proceso de aprendizaje. La utilización de los talleres de docencia crítica como procedimiento metodológico fue empleado para facilitar la implicación corporal y discursiva de las docentes, para una mayor comprensión de los significados hegemónicos encarnados y reproducidos en sus prácticas escolares y, para que no sea una mera selección y enlace de datos sin participación activa de quienes son los actores principales del proceso de enseñanza aprendizaje. Los talleres, tanto en los momentos de implicación corporal, como en los de reflexión espontánea o de reflexión crítica, se constituyeron en una práctica no habitual de sentir y pensar el propio cuerpo, a la par de tener la oportunidad de pensar las conexiones que operan en la enseñanza y el * Decimos las docentes debido a que a lo largo de toda la investigación se trabajó únicamente con docentes de género femenino, no participaron docentes de género masculino a pesar de haber sido invitados. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 $ CUERPO VS. PROCESO DE ENSEÑANZA APRENDIZAJE aprendizaje. La novedad de la técnica Taller de Docencia Crítica-, trascendió la comprensión empírica y el uso de la misma, para instalarse a modo de experiencia reflexiva en el cuerpo/sujeto de las docentes que participaron de los talleres. La observación de clase se utilizó como complemento de las técnicas explicitadas anteriormente y con ella se puso el énfasis en la interacción entre docentes y alumnos, tomando los hechos de la realidad para cotejar lo explicitado discursivamente con los datos de la experiencia en el aula mientras se desarrollan las acciones escolares entre sujetos, especialmente una minuciosa observación del acontecer áulico que no siempre coincide con el discurso y aporta otros significados en relación al objeto investigado. Esta singularidad se puede explicar además, desde la psicología genética, por las estructuras cognitivas que en sucesivas equilibraciones designan la capacidad de autorregulación, operando con abstracciones empírico-reflexivas que le posibilitan al sujeto las representaciones operatorias de las transformaciones del objeto. Cuando hablamos de sujeto de conocimiento, mantenemos vigente el entrecruzamiento del deseo y las representaciones del objeto, es decir, el conocimiento es efecto de la inteligencia mientras que el saber es el efecto del deseo inconsciente, ya que ambos lo producen simultáneamente a su manera6. Desde el punto de vista del sujeto del conocimiento, cuando éste se pone a pensar, no puede hacerlo si no se nombran los conceptos. Los conceptos no pueden ser aprehendidos si no son nombrados y al nombrarlos, se traducen en significantes que tendrán una resonancia particular respecto de la historia de cada cuerpo singular, según la forma en que fue erotizado el cuerpo, que está pronunciando o escuchando un concepto. El efecto de resonancia de significación se traduce en formas distintas de pensamiento e inclusive puede debilitar la concentración, el razonamiento, y se puede observar en el aula como desatención, distracción, hiperactividad, etc. Benbenaste2 dice: Cuando uno está produciendo y pensando, aún en el plano científico, no escapa a que cada vez que pronuncia o escucha un concepto, tiene una resonancia en su propio cuerpo. Uno no piensa en cualquier lado, piensa en el cuerpo. Las representaciones del mundo objetivo que el alumno construye, en tanto conceptos aprehendidos, devienen de una intersubjetividad que se constituye en gradiente tensional para la singularidad psíquica con la que cada uno otorga sentido a los objetos de conocimiento, es decir, una cadena de razonamientos lógicos referidos a determinadas representaciones objetivas, sólo es posible de realizar en tanto haya un sostenimiento basado en la lógica inconsciente, así como la fluidez subjetiva objetiva que le permite al alumno aprender y ser creativo-, está ligada a la tolerancia del sujeto para organizar lo desorganizado, sin sentir angustia, en términos de articulación entre los esquemas operatorios de que dispone y los sentidos que resuenan en su RESULTADOS Y DISCUSIÓN Se intenta poner en discusión algunos hallazgos que resultaron significativos a lo largo del recorrido de nuestro trabajo focalizando en la conceptualización del cuerpo/sujeto y su repercusión en los protagonistas del aula que sostienen el proceso de enseñanza aprendizaje. La singularidad psíquica del educando se puede explicar desde dos posicionamientos teóricos diferentes e irreductibles entre sí, pero queremos permitirnos una discriminación, para dar claridad a nuestra explicación sobre los efectos que provoca su simultaneidad en la producción del pensamiento. El psicoanálisis da cuenta de la constitución de la estructura subjetiva como soporte que sostiene al sujeto constituido en el campo del Otro y que gracias a la transformación de la libido, que ha escapado a la represión en pulsión epistemofílica, determina el investimiento libidinal de los conocimientos y posibilita el desarrollo evolutivo de la actividad intelectual. [ ] al nacer hay un organismo, ni siquiera un cuerpo, menos aún, un sujeto. Para asistir al advenimiento de un cuerpo y de un sujeto, hay que recorrer un camino en el que aparece el Otro que lo sujete a un deseo conectado con la vida, la sexualidad, la autonomía [ ]5. El psicoanálisis habla de un cuerpo erógeno, es el cuerpo del lenguaje, libidinizado por Otro quien deja sus marcas y, a partir de allí, se comunicará con el entorno y podrá otorgar sentido al conocimiento en la medida que pueda experimentar placer aprendiendo. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 % BUSANI M ET AL. cuerpo, desde los significantes lingüísticos. Es el sentido lo que sostiene las secuencias del pensamiento y la producción del alumno en su aprendizaje, ya sea ésta escrita u oral. El concepto de singularidad psíquica del educando se operacionaliza con la noción de estrategia de pensamiento. Esta noción otorga un lugar significativo al cuerpo que deviene tal por un complejo proceso de subjetivación por el cual el cachorro humano se constituye en sujeto. De Lajonquière6 afirma refiriéndose a Freud: [ ] nos abrió los ojos para que donde creíamos ver un organismo, pudiéramos escuchar el murmurar de un cuerpo. La estrategia de pensamiento pone de relieve las expresiones del cuerpo en cada sujeto singular más allá del rendimiento intelectual de cada alumno, ya que las posibilidades de otorgar sentido a los objetos de conocimiento y a las interacciones que suceden de manera simultánea con el pensamiento, están íntimamente relacionadas con la historia que le aconteció y con lo que el sujeto está transitando en la vida. En el espacio del aula interactúan distintas vinculaciones a las que llamamos configuración áulica7, puesto que se configura una serie de representaciones, tanto en los alumnos como en los docentes, que contribuyen a facilitar o dificultar en el alumno, el camino para acceder creativamente a los conocimientos propuestos por la escuela. La producción singular es la expresión de la relación que establece cada educando con determinado objeto de conocimiento. En el aula se puede escuchar el murmullo del cuerpo evidenciado en sus formas de responder a las consignas, su atención o desatención, su concentración, su hiperactividad o su inmovilidad, sus tiempos lógicos, en fin, lo que sucede en la intersubjetividad áulica expresa la comunicación del sujeto con su entorno, pues el aprendizaje se dramatiza en el cuerpo, entra en escena y se vuelve actor principal del acto de enseñaraprender8. En la medida que los alumnos tengan la oportunidad de realizar conexiones significativas, irán superando la ansiedad que genera el encuentro con lo desconocido y su resonancia en el cuerpo -, particularmente en los momentos pautados como temas nuevos o evaluación que resultan detonantes simbólicos y cognitivos, con diversos significados para las posibles articu- laciones entre la estrategia de pensamiento y la productividad de los alumnos. Por el tipo y calidad de las respuestas registradas en el trabajo de campo, se pudo inferir que los alumnos se ven obligados a recurrir a reglas o fórmulas mnemotécnicas descontextualizadas, sin poder realizar conexiones significativas entre conceptos, aunque cuenten con las estructuras operatorias y la capacidad simbólica desde donde organizar los conocimientos y otorgar sentido a sus aprendizajes. Por otro lado, el excesivo verbalismo de los docentes, aparece ante los alumnos como certezas que no pueden cuestionar, pues no se da espacio a la duda, a la formulación de hipótesis, a la confrontación de ideas, ni se guían los razonamientos de los educandos. El exceso de verbalismo docente se revela como un fuerte obstáculo epistemológico, a partir de la fuerza significante con la que los niños invisten la palabra del docente. La palabra no es inocua, el docente debería sostener una ética de la palabra, que incluya el bien decir y el saber callar, ser responsables de las palabras con las que interviene pues marcan y producen un posicionamiento diferente en cada caso. [ ] la palabra del adulto educa en la proporción en que liga y moldea la impetuosidad pulsional. Las palabras marcan pues cargan el peso de la sabiduría de las culturas 9. El inmoderado verbalismo docente está direccionado por la cultura escolar hegemónica que sólo atiende al aprendizaje cognitivo y homogeiniza el proceso de enseñanza aprendizaje de forma ritualizada, fortaleciendo la reproducción memorística de contenidos desgarrados del texto y del contexto. Esa fuerza significante del lenguaje en el proceso de enseñanza aprendizaje, se pudo inferir también al trabajar con docentes la categoría cuerpo/sujeto3,4, en la segunda parte de nuestra investigación. El docente es un sujeto sujetado a un orden social, que lleva adelante una práctica educativa justificada desde un discurso pedagógico que enuncia desde un lugar ideológico y teórico. Este lugar es el efecto del entrecruzamiento de diferentes discursos, de su práctica cotidiana y de su deseo en juego10. Para hablar de cuerpo/sujeto hacemos referencia a las inscripciones que la cultura imprime en el terreno de la carne como manifestación del devenir histórico social y que se reconoce Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 & CUERPO VS. PROCESO DE ENSEÑANZA APRENDIZAJE disciplinares permitidos. Esto implica que el cuerpo/sujeto del docente -y del alumno- no estaría presente en la trama intersubjetiva que se conforma en la configuración áulica como expresión de la subjetividad ni de las construcciones sociales encarnadas. Así la labor docente está centralizada en lograr que los alumnos adquieran conocimiento científico acerca del cuerpo, siendo valorizado como fuente de información y conocimiento. No hay cabida para la consideración de que el proceso de aprendizaje es también un proceso corporal/subjetivo, o como expresa Mac Laren4 [...] el aprendizaje no sólo es un proceso cognitivo, sino también somático. El borramiento ritualizado del cuerpo se significa como la no conciencia de la comprensión del cuerpo en las prácticas cotidianas, que conlleva rituales corporales tendientes a mantener un orden y un disciplinamiento preestablecido por el poder hegemónico, a la vez que silenciar toda expresión emocional que lo implique como sujeto. Esto llevado al ámbito del proceso de enseñanzaaprendizaje, remite a que los docentes estarían familiarizados con la significación de que el cuerpo no participa de sus acciones educativas. La comprensión de un cuerpo borrado de la conciencia incide en las prácticas docentes y es reproducido en los alumnos. El modelo encarnado en el docente es transmitido a sus alumnos, ya que es necesario disponer de cuerpos disciplinados y dóciles, como condición para reproducir cuerpos homogéneos, ordenados y eficaces. En tanto el encarnamiento refiere a los significados y prácticas hegemónicas constituyentes de la subjetividad y del orden social, el reencarnamiento se vincula con la tarea de reconstitución del contacto y vínculo conciente con el propio cuerpo. Reencarnar implica por un lado, reflexionar críticamente acerca de lo encarnado sobre la comprensión del cuerpo y su lugar en las prácticas de enseñanza-aprendizaje; por otro, avanzar en la construcción de nuevas significaciones y propuestas de acción de reconstitución de tal comprensión. El proceso de reencarnamiento en tanto es guiado por un interés emancipatorio y contrahegemónico, es potencialmente posibilitante de una valiosa actividad de autopercepción, autocuidado y reflexión, condición para desencarnar lo impuesto acerca de la en las subcategorías de encarnamiento y reencarnamiento. El encarnamiento remite a la relación mutuamente constitutiva de la estructura social y la subjetividad, a partir de un complejo proceso de inscripción en el cuerpo de los sujetos, de significados instituidos hegemónicamente al interior de las prácticas y relaciones sociales. Este proceso refiere también a la individuación como pasaje de una realidad en la que el individuo deja de ser miembro inseparable de la comunidad, del cuerpo social y de la naturaleza, para volverse cuerpo para él solo, es decir para cada individuo, separado de la naturaleza y la cultura. El encarnamiento de significados hegemónicos se manifiesta en el proceso de enseñanza aprendizaje, en las tareas que hacen al enseñar y evaluar los contenidos programáticos, apareciendo como un instrumento válido al servicio de la homogenización. La igualdad en los puntos de llegada, definidos por los lineamientos de acreditación, no se cuestiona, es más, se justifica desde la práctica en el aula, al enseñar y evaluar lo mismo a todos los alumnos, asignando el mismo tiempo cronológico a cada uno individualmentey ocupando cada alumno, el mismo lugar. Al respecto, Giroux11 señala que la aplicación rigurosa de estándares, nunca es inocente o neutral. Esa forma de trabajar -homogeneizando-, aunque sea más cómoda para algunos docentes y conlleve ciertos beneficios ante los imprevistos que se pueden suscitar en el aula, tanto de orden pedagógico, como institucional y social, en realidad es realizada según los estándares ideológicos impuestos desde lo hegemónico y sólo tienden a reproducir en los alumnos los significados encarnados en el cuerpo/sujeto de los docentes. En las prácticas educativas, no hay conciencia crítica del cuerpo ó éstas -las prácticas-, han construido en los docentes, una cierta opacidad de conciencia respecto de la comprensión de su cuerpo y su subjetividad. El cuerpo pasa a ser una máquina perfecta, un envase, un conocimiento a enseñar y un recurso didáctico (docente). Expresiones como ésta, remiten a la significación residual de la concepción cartesiana que separa en el sujeto la dimensión corporal de la dimensión intelectual siendo el cuerpo sólo un cuerpo/objeto, que se estudia como contenido programático y se reprime si rebasa los estándares Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 ' BUSANI M ET AL. comprensión del cuerpo y poder reencarnar significaciones críticamente elegidas. El proceso de reencarnamiento de la significación del cuerpo como cuerpo/sujeto y de su integración a las prácticas educativas, y en particular al proceso de enseñanza aprendizaje, implica abandonar, des-inscribir la comprensión instituida, hegemónica, que interpreta el cuerpo humano como cuerpo/objeto, en tanto cuerpo meramente biológico que opera de soporte respecto a las actividades mentales o racionales. Y reencarnar en su lugar, una comprensión del cuerpo humano como cuerpo/sujeto, es decir como un cuerpo significado en la cultura y modificado en su funcionamiento por tal significación. Comprender que somos sujetos encarnados, que el cuerpo y sus experiencias son constituyentes sustantivos de nuestra subjetividad, nos remite a entender que hay cuerpo integrado a la subjetividad y subjetividad integrada al cuerpo. Esto, en el ámbito de las prácticas educativas, nos ubica en la consideración de que cada alumno es un cuerpo/sujeto singular frente al aprender y a lo que aprende, y también que no hay individuos separados unos de otros, sino que la subjetividad se construye y se desenvuelve, en una trama intersubjetiva. Si bien las docentes -de la muestra-, consideran en general que las nuevas significaciones acerca del cuerpo debieran plantearse en todos los niveles y en cada etapa de la escolaridad, se observa que está muy vigente en ellas, la comprensión acerca de la inclusión del cuerpo y de las emociones, a la manera instituida por el área de enseñanza estético-expresiva, no pudiendo distinguir críticamente la significación del cuerpo como cuerpo/sujeto, categoría conceptual que implica la revisión crítica de la inclusión del cuerpo en el proceso de enseñanza-aprendizaje en todas las áreas de conocimiento. Una reflexión crítica que no se refiera sólo a poner el cuerpo, sino reflexionar críticamente de qué se habla cuando se habla del cuerpo, para qué y para quién se lo incluye. Una tendencia en las docentes -de la muestra, es no darse el tiempo a sí mismas ni dárselo a otros para la comprensión crítica acerca de las significaciones instituidas; en el otro extremo, otras docentes adoptan una especie de actitud obediente, y por ende, poco crítica frente a las nuevas propuestas que pueden surgir en educación. Esto se relaciona con la fuerte presencia del saber hacer docente - como posición hegemónica-, en detrimento de las fundamentaciones teóricas y los beneficios para sus prácticas, acerca de tal saber hacer. Así, la posibilidad de los docentes de llegar a darse cuenta de la forma en que viven su cuerpo y el lugar a él asignado en el proceso de enseñanza-aprendizaje, sólo podrá ser producto de un largo y sostenido proceso de reflexión crítica sobre la forma enseñada y por lo tanto hegemónica de ser cuerpo (cuerpo/objeto), de ver críticamente cómo se construyó histórica y culturalmente esta significación y cuáles son sus consecuencias sociales y políticas, en los contextos educativos actuales. Si bien las docentes alegan que en sus prácticas no pueden escapar de aquello impuesto hegemónicamente, y al menos en lo inmediato parece no percibirse la necesidad de construir una comprensión de cuerpo/sujeto que posibilitaría nuevas significaciones -reencarnamiento de nuevos sentidos-, para construir una nueva visión de su práctica y una reconstrucción de su rol, manifiestan preocupación respecto al papel que desempeñan en la reproducción de la significación hegemónica de cuerpo/objeto en sus alumnos. Y es esta preocupación la que puede operar como base actitudinal para la realización y sostenimiento del mencionado proceso de reflexión crítica, en tanto la comprensión de cuerpo/ sujeto sea registrado concientemente, sea sentido, y desde ese lugar, conectado al contexto de enseñanza aprendizaje y al despliegue de la estrategia de pensamiento de sus alumnos, tanto en lo discursivo, como en sus prácticas cotidianas. CONSIDERACIONES FINALES El encarnamiento de significados hegemónicos que atraviesan a los docentes, operan a modo de eclipse ante las posibilidades de pensarse como un ser Sujeto/Subjetivo, como un cuerpo/sujeto, posicionándose bajo un velo propicio a la reproducción en sus aulas, de los estándares dominantes. Sólo la toma de conciencia de tal posicionamiento, vía la reflexión crítica, con fundamentos teórico-prácticos, rescatará al docente y lo reposicionará como sujeto, con posibilidades únicas de redescubrir su quehacer Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 ! CUERPO VS. PROCESO DE ENSEÑANZA APRENDIZAJE docente. Algunos de ellos son: ¿Durante la formación docente, se implementan teorías y metodologías conducentes a la reflexión crítica sobre el origen de ciertas construcciones históricas? ¿Qué es lo que genera, en los/las docentes, una escisión tal entre la dimensión corporal y la dimensión intelectual que eclipsa la significación del cuerpo en el aula? ¿La formación profesional y/o un largo proceso de constitución de la conciencia del colectivo docente en el devenir educativo? ¿Sería posible programar y llevar adelante un proceso de desconstrucción de los significados encarnados hegemónicamente por los/las docentes -durante la formación profesional-, tendiente a instalar la posibilidad de la reconstrucción de nuevos significados, contrahegemónicos? ¿Se podría develar el eclipse que fragmenta al cuerpo/sujeto y lo empobrece en su capacidad significante?... día a día, reencarnando nuevas significaciones, reescribiendo una partitura singular desde su lugar de encuentro con los sujetos/alumnos en las prácticas educativas. Tal vez si se hace un renovado haz de luz como pensamiento potencial sobre sí mismo y sus prácticas, esto se reflejaría en sus educandos, generando paralelamente una nueva lectura a la tan mentada igualdad de oportunidades, a la diversidad, donde no sólo se integre lo diferente, sino que se reconozca a cada uno como sujeto singular. Este trayecto de investigación que hemos recorrido, identificando e interpretando las dificultades que operan como resistencia a la hora de proponer alternativas para transformar el proceso de enseñanza aprendizaje, nos plantea nuevos interrogantes, que serán indagados en la etapa que estamos iniciando durante este año lectivo con alumnos/as de la carrera de formación SUMMARY The body an eclipse in the education process learning The present article arises from the production of knowledge made by an equipment of investigation, pertaining to the Department of Psychopedagogy of the National University of the Comahue, - Viedma, Río Negro, Argentina -, where aspects of the education process were investigated learning in the classroom which they involve the understanding - or not of the body of the students and the educational ones in this process. The presence of the body of the students in its learning, was fitted in the theoretical construction of the psychic singularity of educating (Benbenaste, 1995-1996) that maintains a conception of subject of the learning that in addition to being intelligent, is subject symbolic; it is to say that its potential to learn will depend on the meaning of its own body. In order to investigate the presence of the body of educational in the education process the learning the developments of pedagogy have worked critical, specially the referred thing to the concept of body/subject (Mac Laren, 1994; 1997); that it reports imbrications deep and interaction between body and subjectivity. The qualitative methodology whereupon the investigations are had boarded has allowed us to use different techniques to work with the pupils and the educational ones. We have made, clinical interviews with the pupils, factories of educational corporal implication and critical interrogation with and observations of class, that have put of relief the interaction of the body/subject of educational students. In the development of this work we tried to give to account of the excellent questions in relation to the presence of the body - or the conscience of the same one like an eclipse not to reveal in the education process learning. KEY WORDS: Human body. Faculty. Education. Learning. Students. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 ! BUSANI M ET AL. 7. Busani M, Rodriguez L, Marron F. Evaluar sí... ¿Pero qué? Revista Aprendizaje Hoy. 2002;53;Año XXII. 8. Gurman ES. Algunas reflexiones en torno a la cuestión del cuerpo, ¿el cuerpo de quién? Revista Virtual FORT-DA. Buenos Aires; 2002. 9. De Lajonquière L. Infancia e ilusión (Psico) Pedagógica. Buenos Aires:Nueva Visión;1999. 10. Ageno R. La significación en la escuela de las propuestas estatales de participación y democratización. Argentina:Universidad Nacional de Rosario. Cuaderno 1988;9. 11. Giroux H. La pedagogía radical como política cultural: más allá del discurso de la crítica y el antiutopismo. In: Pedagogía crítica y cultura depredadora. Barcelona: Paidós;2001. REFERÊNCIAS 1. Benbenaste N. Sujeto =política x tecnología/ mercado. Buenos Aires:CBC. UBA;1995. 2. Benbenaste N. Singularidad psíquica y sus formas operativas. Mimeo. UNLZ; 1996. 3. Mac Laren P. Pedagogía crítica, resistencia cultural y la producción del deseo. Buenos Aires:Aique-Ideas;1994. 4. Mac Laren P. Pedagogía crítica y cultura depredadora. Políticas de oposición en la era posmoderna. Barcelona:Paidós;1997. 5. González L. ¿Discapacidad? Una mirada psicopedagógica a lo especial en la escena familiar y educativa. Córdoba:Ediciones del Boulevard;1999. 6. De Lajonquière L. De Piaget a Freíd: para re-pensar los aprendizajes. La psicología entre el conocimiento y el saber. Buenos Aires:Nueva Visión;1996. Trabalho realizado Dpto. de Psicopedagogía de la Universidad Nacional del Comahue, Viedma, Río Negro, Argentina. Artigo recebido: 30/06/2007 Aprovado: 30/03/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 25-32 ! O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL ARTIGO ESPECIAL O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini; Neusa Gomes RESUMO - O objetivo desse trabalho é apresentar a necessidade de que os jovens especiais têm de colocar seus conflitos, suas angústias em relação à sua adolescência, frente à sua família e à sociedade em que vivem, bem como apresentar o sujeito que habita esses jovens, seu imaginário em relação à sociedade, dentro de uma abordagem psicopedagógica e sociointeracionista, em que mediar atitudes, relações familiares e sociais possa ampliar os espaços desse sujeito para buscar entender e reconstruir condições psíquicas que lhe permitam conviver bem em sociedade. A mediação para esses conflitos torna-se fundamental, condição que possibilitará o desenvolvimento de suas funções superiores e a compreensão das relações de aprendizagem que podem estabelecer na sociedade. Partimos da intermediação e da observação de um grupo de jovens que é atendido na clínica psicopedagógica. Dessa forma, discute-se, também, o imaginário dos pais em relação ao filho ideal e ao filho especial, e a estruturação psicoafetiva e social do filho real. UNITERMOS: Educação especial. Psicopedagogia. Imaginação. Relações interpessoais. Relações pais-filho. Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini-Mestre em Educação, Administração e Comunicação pela Universidade São Marcos, Psicopedagoga Clínica pela Universidade São Marcos; docente adjunta I do curso de Pedagogia da Universidade Paulista, UNIP, SP; docente do curso de pós-graduação em Psicopedagogia da Universidade São Marcos, UNIMARCO, SP. Neusa Gomes - Psicopedagoga Clínica. Coordenadora e Psicopedagoga na escola Trilha Unidade de Integração do Desenvolvimento. Correspondência Rossana Aparecida Vieira Maia Angelini Alameda dos Maracatins, 1435, conj. 105 São Paulo SP CEP 04089-004 Tel: (11)9960-7229 E-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !! ANGELINI RAVM ET AL. Ritual totalidade, na comunidade humana. Todo e qualquer ser tem um sujeito que o habita e o sujeito especial é antes de tudo um Quem que está na relação com o mundo, e que pode desenvolver suas funções psíquicas superiores desde cedo (início do imaginário dos pais) se considerado no direito de viver os seus desejos, ser autor desses desejos e pensar a história de sua própria vida, a partir dos desejos dos pais e dos seus. Pensamos, então, num trabalho em grupo para ajudar esses adolescentes a elaborarem as informações para a construção de suas histórias, de si mesmos e num espaço para refletirem, exercitarem suas funções superiores antes não exercidas, para buscarem condições de viver suas emoções, discutirem as dificuldades e insatisfações que enfrentam em não encontrarem um lugar pleno na família, na sociedade e na vida. Um espaço em que pudessem descobrir e revelar do que são capazes de fazer e/ ou compreenderem quando não o são. Esses jovens que a nós se apresentam críticos e cheios de interrogações, sentem-se incompreendidos frente aos seus desejos e às relações que estabelecem com a sociedade. A família e a sociedade protegem-nos por meio de uma condição que subestimam suas potencialidades pessoais, impedindo-os de desenvolverem suas funções superiores, aprisionando-os e inserindoos numa angústia constante. Essa proteção a que eles se vêem submetidos é o rompimento com o imaginário dos pais, que não fizeram a mediação necessária para a passagem ao mundo da realidade, ou seja, fica a ruptura entre o filho idealizado e o filho real, não sonhado, contudo, cuidados como se fossem desejados. Como aponta Mannoni3: Ora é muito difícil ao débil, falar; ele é falado. É-lhe difícil desejar, pois que é um objeto manobrado, reeducado desde a mais tenra idade. A dimensão que nós lhe damos lança-o na angústia: tratando-o como sujeito, fazemo-lo perder de repente todas as referências de identificação. Já não sabe quem é, nem aonde vai. E, muitas vezes, a tentação será grande para ele de ficar antes numa quietude débil do que se aventurar sozinho no desconhecido3. Este corpo que agora me veste ainda é casca e casulo de um outro bicho que cresce. Esta capa que me acompanha, desde os tempos de criança, desce inútil aos meus pés. Sou a ponte que me liga. Sou o gesto que me une. Sol e Lua Noite e dia. Sou o fui e o serei. Este tempo que me guarda para um outro amanhecer. É lembrança e é promessa, esperança e recordação, morte e vida enoveladas na meada das mudanças. (Carlos Queiroz Telles, 2003)1 No contato com adolescentes especiais, observamos a necessidade de uma mediação entre eles e a relação que estabelecem com a família e a sociedade, já que apresentam conflitos e sofrimento, por não terem autoria e autonomia para decidirem suas vidas e construírem a sua história, como os outros jovens fazem. O conceito de mediação aqui empregado é usado como propriedade elementar característica da consciência, conforme Luria (2002)2. Quem é o sujeito especial que, ao nascer, deixou de ser sujeito para ser só especial, perante a família e a sociedade, e que hoje se coloca diante de nós, cobrando o exercício de uma vida plena; cobrando que os considere com direitos de viverem como um jovem como todos os outros? Essa pergunta tem sido o eixo de nosso trabalho, enquanto psicopedagogas, pois pensamos o ser em sua Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !" O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL um processo histórico, em que tanto o ambiente social como não-social da criança induz ao desenvolvimento de processos de mediação de várias funções mentais superiores. A linguagem, nesse sentido, é de fundamental importância para fornecer à criança os resultados destilados da história de sua sociedade, como aponta Lúria2. Ao falarmos em funções superiores ou em atividades cognitivas superiores, não podemos deixar de olhar para as contribuições de Vygotsky e Luria2, visto que são processos cognitivos que, pela linguagem, pela mediação, mudam ao longo do desenvolvimento histórico. O modo pelo qual as formas da atividade mental humana historicamente estabelecidas se correlacionam com a realidade passou a depender cada vez mais de práticas sociais complexas. Os instrumentos usados pelos homens em sociedade para manipular o ambiente, além de produtos de gerações anteriores que ajudam a formar a mente da criança em desenvolvimento, também afetam essas formas mentais. Na criança em desenvolvimento, as primeiras relações sociais e as primeiras exposições a um sistema lingüístico de significado especial determinam as formas de sua atividade mental. Todos esses fatores ambientais são decisivos para o desenvolvimento sociohistórico da consciência. Novos motivos para a ação aparecem sob a forma de padrões extremamente complexos de práticas sociais. Assim são criados novos problemas, novos modos de comportamento, novos métodos de captar informação e novos sistemas de refletir a realidade2. Nesse sentido, são as formas sociais da vida humana que estabelecemos no decorrer de nossa história, desde a infância, que irão determinar nosso desenvolvimento mental. Dessa forma, algumas reflexões vêm à tona: Que história deixou de ser construída, que lhes falta? A história do imaginário de si mesmo? Eles não foram autores de si mesmos? Por quê? Hoje, tomam conhecimento dos acontecimentos da sociedade e não podem vivê-los, porque não lhes serve a história construída nem mesmo a que não foi No grupo, mediamos aspectos existenciais e da realidade, como acontecimentos que norteiam relações de amizade, namoro, baladas, mídia, sexualidade, cultura, violência, drogas, política, racismo, trabalho (vocação), etc, com o objetivo de desenvolverem atitudes seguras e de autonomia para solucionar, compreender ou dissipar conflitos, a fim de que possam se ajustar ao meio sociohistórico em que vivem. Nesse espaço, eles derramam suas inquietações e passam a discuti-las, dialogando, analisando e argumentando as suas condições e priorizando a solução dos problemas. Dessa forma, buscamos, por meio de uma mediação dialógica, construir recursos simbólicos, para que possam perceber e lidar com as relações que estabelecem, numa tentativa de ressignificar o imaginário que os pais não sustentaram na infância, diante da doença. A partir de um olhar mais detido a esses jovens, por meio de um processo de mediação dialógico-reflexivo, observamos que têm capacidade de compreensão de suas dificuldades frente ao mundo e que são críticos em relação a como os pais e a sociedade os tratam, revelando uma consciência que representa uma metade da laranja: Eu quero namorar, eles proíbem e tomam conta da minha vida. Já não demonstram a mesma consciência da outra metade: Por que não posso namorar?, o que quer dizer: O que lhes falta?! ou O que me falta?! Esses jovens parecem ter compreensão de suas doenças e dificuldades, contudo, as ignoram, colocando-se na condição de sujeitos desejosos e que, portanto, querem ser aceitos como são. É possível pensar que o que os prejudica na relação com as pessoas é justamente a falta que há, no desenvolvimento de suas funções superiores ao longo de suas histórias construídas e adaptadas ao que suas estruturas inteligentes podem funcionar. Há uma falta e eles têm uma percepção dela. Podemos apontar, segundo Vygotsky, que lhes faltou uma propriedade elementar característica da consciência humana, a mediação dos pais, em primeiro lugar, aspecto que enfatiza que o desenvolvimento mental deve ser visto como Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !# ANGELINI RAVM ET AL. construída e nem a que querem construir. Qual mediação foi estabelecida com esses jovens? Podemos pensar que a primeira mediação estabelecida foi a do cuidado técnico, da busca do reparo, como se não fossem sujeitos. Qual olhar cabe, então, ao jovem especial frente à sociedade? Acreditamos que cabe um olhar ao ser humano que emerge daquele sujeito: um sujeito que tem desejos, que tem aspirações, que tem Eros, que tem vida e o direito à felicidade; um sujeito que vive e se desenvolve como outros, contudo, num tempo cronológico e psicológico especiais, diferente daquele que consideramos para outros seres compreendidos como normais. Tudo isso poderia não fazer sentido algum, se não fossem as reivindicações e as queixas que eles mesmos fazem sobre a família e a sociedade em suas argumentações no grupo. As crianças especiais desenvolvem-se, crescem, passam pela infância, pela préadolescência, pela adolescência. São pessoas que, se respeitadas e compreendidas como seres humanos capazes, têm possibilidades de construírem um desenvolvimento afetivo, cognitivo, existencial. Buscamos, por meio da mediação, que se reconheçam como pessoas, com desejos próprios, não alienados no outro. Qualquer que seja a questão ou conflito discutido no grupo, notamos que estão reivindicando a liberdade de exercerem o mesmo status na sociedade e de estabelecerem a mesma função relacional com as pessoas de quem se aproximam. Na verdade, querem se incluir nos espaços e nas relações humanas com as mesmas funções que os outros têm: de namorar, casar, ter filhos, trabalhar, enfim, de construir a vida adulta, exercendo o direito de ir e vir. Eles querem interagir e habitar no planeta. De acordo com Lerner4: (....) além disso, a sociedade coloca o impasse de que é reconhecido no jovem seu potencial sexual, sem que tal potencial se exerça de maneira infantil. Ora sujeitos que tenham vivido graves problemas de estruturação psíquica têm muita dificuldade de viverem sua sexualidade de uma maneira que não seja infantil. E o que acabamos por observar é um arroubo de sexualidade que acomete o sujeito sem que ele tenha recursos psíquicos para dar conta e organizar sua sexualidade em direção da construção da sua identidade adulta4. Nosso olhar, enquanto psicopedagogas, é para um ser que tem de ser respeitado (assim como todos seres humanos), que precisa e pode crescer dentro de suas possibilidades, desde que haja uma mediação para o desenvolvimento de suas funções cognitivas superiores. Esse crescimento demanda confiança e respeito, que possibilitam o desenvolvimento do sujeito como um todo. Após um ano mediando os conflitos e as angústias desses jovens, refletimos nesse momento sobre seu destino, já que nos deparamos com várias questões que os impedem ou lhes dificultam a ocupar o seu lugar no planeta. Que caminho tomar para se chegar à Terra que avistam e que não foi prometida? Têm um caminho a tomar?... Qual é o mundo imaginário desses jovens nessa terra? Dessa sociedade que se lhes apresenta?... A vida é um grande filme que se exibe diante deles e do qual eles querem ser protagonistas. Em que porto eles estão que não podem partir? Porto sem realidade?... Porto do imaginário?... Imaginário, porque eles não podem ser no real do corpo adolescente? E os pais, em que lugar se colocam nessas relações? Que lugar ocuparam e ocupam na vida deles? São para essas questões que refletimos respostas, não para esvaziar emoções, mas para buscarmos condições, a fim de que possam vivê-las, com menos sofrimento. É muito freqüente pais de jovens diagnosticados como deficientes mentais preocuparem-se com o risco de assédio sexual que seus filhos correm; essa questão é acompanhada de outra igualmente freqüente: a tendência que os pais têm de negar a própria sexualidade do filho, devido aos conflitos que representa para eles. Parece residir aqui um mito recorrente acerca da sexualidade de indivíduos ditos portadores de deficiência mental: a de que o problema central reside apenas na deficiência mental do sujeito, que o incapacitaria a conhecer Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !$ O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL e usar métodos contraceptivos. Quando se associa ao quadro, o que ocorre com freqüência, um distúrbio de comunicação, diz-se que o jovem nem saberia relatar o assédio de que pode ser vítima. Isso representa uma grave restrição da complexidade da questão ora abordada. Todo esse fechamento do discurso pedagógico em torno da idéia de deficiência mental como insuficiência a ser compensada não contempla a necessidade do sujeito de um atendimento que leve em conta sua relação com o outro, sua estruturação psíquica, enfim. Nessa medida, o discurso que interpela o sujeito pelo vértice da sua deficiência mental a ser compensada encerra este sujeito no lugar de objeto deficiente, de testemunho da potência fálica daquele que supostamente compensaria essa deficiência. Projeto que o jovem portador de distúrbio global do desenvolvimento encarrega-se de frustrar, muitas vezes com o custo do próprio psiquismo4. Nesse sentido, refletiremos caminhos para a possibilidade de construirmos uma relação mais humanizadora frente à vida especial. Nosso trabalho é o de ajudar esses jovens na construção de seu desejo, de sua identidade, bem como na capacidade da família, da escola, da sociedade compreenderem essas questões e possibilitarem o adolescer saudável de jovens especiais. Precisamos encarar tais questões e, num primeiro plano, admitir a sexualidade do jovem especial com coragem e seriedade. Para Lerner4: Se quisermos traçar alguma distinção provisória e operativa entre puberdade e adolescência, podemos fazer a asserção de que a puberdade é conjunto das mudanças qualitativas que acometem o organismo do indivíduo, reservando o termo adolescência para os efeitos psíquicos que o sujeito sofre no transcurso desse período, sendo que neste campo não podemos furtar-nos de investigar no caso a caso as condições que cada sujeito e seus pais têm para dar conta disso. O nosso ponto de vista, note-se que desde já, é o de que tanto o fenômeno da puberdade quanto o fenômeno da adolescência têm que ser levados em consideração nos casos de transtornos psíquicos ou distúrbios de desenvolvimento, dado que os sujeitos que vivem tais quadros têm uma especial dificuldade em colocar a puberdade a serviço da adolescência, ou seja, construir recursos simbólicos para dar contorno ao real do corpo introduzido pela puberdade4. Percebemos que há submundos para esses jovens e que estão em desequilíbrio, em desarmonia, provocando a falta: a família protege, cuida, deseja por eles: eles negam a atitude da família, querendo participar do que a sociedade lhes oferece e com a qual não sabem lidar. Dessa forma, realizamos a mediação com grupos de pais para refletirem aspectos da vida relacional dos filhos, funções em família e da realidade que os cerca, intermediados por uma escuta e intervenção psicopedagógica. Buscamos abrir espaço para autoria de pensamento desses jovens e seus familiares, por meio da ética, da cidadania, como possibilitadores de um pensar sobre as questões internas, ligadas à subjetividade e às relações que estabelecem com a cultura, com a sociedade, com o mundo. Os significados que esses jovens vão tecendo a partir de situações de intersubjetividade remetem-nos à mediação simbólica e à importância da linguagem no desenvolvimento psicológico do homem. Os significados propiciam a mediação simbólica entre o sujeito e o mundo real, o que se constitui num filtro, através do qual o sujeito pode compreender o mundo e atuar sobre ele. Conforme Oliveira5: Ao tomar posse do material cultural, o indivíduo o torna seu, passando a utilizá-lo como instrumento pessoal de pensamento e ação no mundo. Neste sentido, o processo de internalização, que corresponde, como vimos, à formação da própria consciência, é também um processo de constituição da subjetividade a partir de situações de intersubjetividade. A passagem do nível interpsicológico para o nível intrapsicológico envolve, assim, relações interpessoais densas, mediadas simbolicamente, e não trocas mecânicas limitadas a um patamar meramente intelectual. Envolve também a construção de sujeitos absolutamente únicos, com Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !% ANGELINI RAVM ET AL. trajetórias pessoais singulares e experiências particulares em sua relação com o mundo e, fundamentalmente, com outras pessoas5. Nesse sentido, cabe-nos um olhar ao humano, ao sujeito e sua capacidade, ao sujeito e suas possibilidades, um sujeito de relações, um sujeito de comunidade sem, contudo, o infantilizarmos por meio de um pensamento preconceituoso que possa impedir seu crescimento, ou mesmo, um pensamento que possa inibir ou conformar as relações que pode estabelecer com o mundo. um cuidado técnico. O sonho sonhado pelos pais teve que ser guardado, esquecido, adormecido nas profundezas do inconsciente (ou mais simplesmente, deixado de lado), e em lugar do sonho, a brusca realidade do filho não sonhado, do filho não pensado. Sem a terra imaginária, prometida pelos pais, de quando estes ainda sonhavam, idealizavam o filho que viria, eles deixam de ser, para serem especiais, com impossibilidades diante da família e da sociedade. E isso precisa ser socorrido com urgência, com correria, sem tempo para sonhar, de brincar, brincar de ser, para ser. Entre o mundo imaginário dos pais e a realidade do filho, abre-se a lacuna (um buraco), marco da desistência, da ruptura, da desconexão (ou desligamento) do lugar sagrado do filho nos sonhos dos pais (para a construção do sujeito) e o lugar do filho que chega. Os filhos não carregarão nas entranhas da alma a marca do sonho, do imaginário. Não viverão o sonho. Os filhos deixaram de ser sujeitos que eram nos sonhos dos pais, para serem especiais e viverem as impossibilidades dos próprios desejos e as impossibilidades dos desejos dos pais, o que os tornam não autores de si mesmos na fase infantil, e que, portanto, hoje, na adolescência, deparamse com as ofertas da sociedade e, diante delas, se tornam tão indefesos. As funções psicológicas não herdaram os sonhos dos pais e não se processaram na infância, já que os pais estabeleceram relações de cuidado e proteção, e agora funcionam de maneira não reflexiva. E o que imaginam, hoje, estes adolescentes? Imaginam um poder que não lhes foi conferido. Um poder que os pais não lhes deram, que residia no imaginário dos pais e lhes foi negado e que, portanto, não pode ser experimentado na sociedade. Eles têm um poder de eu quero e é nesse aspecto que, no grupo, eles buscam as respostas para Por que não posso? Por que não deixam?... E não são respostas que eles obtêm do grupo, mas possibilidades de desenvolver condições de não imaginar este poder, mas de obtê-lo ou desfazê-lo. No grupo, lutam para ser protagonistas do filme da vida e bombardeiam com as falas: Eu O IMAGINÁRIO DO ADOLESCENTE ESPECIAL Que universo imaginário é esse que lhes falta, que nele não aterrissaram, fazendo um pouso forçado na realidade? Isso nos leva a refletir sobre que lugar lhes faltou para aterrissarem na vida infantil e adolescente: o mundo dos sonhos? O mundo imaginário dos pais? Todos os sonhos que os pais sonhariam para seus filhos, mas tiveram que desistir diante da impossibilidade e passaram a ver somente um filho especial, com distúrbio em seu desenvolvimento, que inspiraria cuidado, proteção, técnica e que o caminho a seguir seria um só: o de ir à luta. Por exemplo, reconhecer um dos fenômenos que encontramos com maior freqüência na atualidade nessa área é aquela em que o bebê encontra uma mãe que lhe oferece um cuidado técnico, pouco orientado pela capacidade de compreender as necessidades do bebê a partir de sua subjetividade. Revela-se, nesses casos, a importância da corporeidade do bebê que lhe dá a possibilidade de, ou não, o que de alguma forma está aparentado a sua corporeidade, lugar de suas primeiras experiências de si. O cuidado técnico tem organizações rítmicas, estéticas, que nada têm a ver com a corporeidade humana. O bebê despertado dessa maneira encontra-se em uma situação enigmática decorrente do estilhaçamento do Ethos humano6. Assim, os pais passaram a ser os pais de um bebê com uma doença, um filho especial e a necessidade de ser cuidado em vista do distúrbio, Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !& O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL quero trabalhar; eu quero andar sozinho; eu quero namorar, beijar, casar, ter filhos; eu quero morar sozinho; eu não quero que minha mãe tome conta de mim! Eu não agüento as pessoas falarem mal de mim; as pessoas me tratam mal e etc... A idealização dos filhos pelos pais tece uma estrutura imaginariamente sagrada, significativa, servindo como importante mediação à passagem dos filhos para o mundo real. Acreditamos ser o movimento de idealização que estrutura o início das funções simbólicas, psíquicas do filho. Esse mundo imaginário, de ficção da vida dos pais, é a primeira condição psíquica para o ser humano e que, aos adolescentes especiais, é abandonada. Para Safra6: A criança nasce afetada pela história dos ancestrais, pelo encontro com os contemporâneos, impulsionada em direção àqueles que virão. O bebê, a fim de que possa iniciar a constituição de si mesmo, necessita que alguém no mundo seja seu anfitrião e acolha seu gesto que constitui o início de si mesmo. Esse gesto cria o que lá está para ser criado, questão paradoxal fundamental da origem de si mesmo6. Contudo, partindo no que supõe ser outra a realidade do filho, os pais criam outros mecanismos psíquicos para lidarem com ele, despojados dos desejos que sonharam. Essa primeira condição psíquica seria a autorização (carimbo), visto de passagem dado pelos pais, ainda na barriga da mãe, ou mais remotamente, na fecundação, ou ainda, na concepção de idéia de desejar um filho. A imaginação dos pais é necessária na constituição do filho, como ser de direito, em poder viver e aprender relações, para socializar-se desde a infância. O imaginário dos pais sobre o filho é o futuro imaginário do filho, o que o estruturará psiquicamente e se, ao chegar à adolescência, foi um jovem que não passou pelo imaginário dos pais e vice-versa, ele não compreenderá as relações que são estabelecidas nem terá uma convivência plena com a sociedade, somente por meio da mediação poderá construir suas possibilidades e estabelecer relações mais adequadas. Esse é o porto de onde o pai e o filho não aplacaram, fazendo um pouso forçado na realidade! Não só eles, os filhos, fazem um pouso forçado na realidade, como os pais também, pois esses, como os filhos, tiveram que desistir dos sonhos para os protegerem, cuidarem, alimentando a dependência e a impossibilidade de viverem um futuro adulto. Dessa forma, a criança vai crescendo sem ser o sujeito de sua história, tornando-se falada por outros, deixando de sentir seus desejos e expressá-los. Perde sua subjetividade, entra na adolescência como um estrangeiro que não compreende a língua do outro, a cultura do novo país. Faz-se preciso apresentar a esse sujeito a terra onde se encontra sua cultura, seus valores, seu modus operanti. Vemos, assim, a necessidade de introduzirmos uma história subjetiva, um itinerário para que esses jovens possam ressignificar-se na sua história de uma maneira singular, por meio de uma mediação que desenvolva a revisão das situações que vão sendo colocadas e discutidas na relação com o grupo. Como Levin7 aponta: As diferentes etapas evolutivas, cognitivas, verbais e motoras se estruturam se a criança pode apropriar-se delas com seu estilo singular. Não que a criança se adapte ao mundo (como propõe um amplo segmento da psicologia cognitiva), é que ela vai criando o mundo tanto como suas representações, ao mesmo tempo em que é criada por elas. A criança vai criando ou construindo suas próprias versões de seu corpo, da sua motricidade, do seu desenvolvimento, de seus pais, da sua história, quando começa a brincar, perguntar e bisbilhotar pelo mundo que ativamente a circunda, e ao qual ela, por sua vez, circunda. É fundamental ressaltar que a criança não tem suas representações e versões já elaboradas e constituídas; mas, exatamente por serem representações, ela vai construindoas no próprio devir das cenas de suas brincadeiras e relações7. OS SUJEITOS QUE HABITAM-SE O CONCEITO DE SOBÓRNOST (....) cada ser humano é único e diferente e, dessa forma, generalizar um grupo de pessoas Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 !' ANGELINI RAVM ET AL. como sendo especial é falso e, portanto, indefensável. (Mantoan, 2000)8 O que move o atendimento psicopedagógico é o respeito ao outro, respeito a seus limites, seja esse sujeito especial, diferente, normal. Só assim estaremos desenvolvendo um olhar ao humano, antes de olharmos para o problema seja ele qual for. Esse movimento leva-nos a crer na possibilidade de distanciarmos a barra entre o que é normal e não-normal. De acordo com Mannoni3: Não há muito tempo, o psicótico estava condenado ao asilo. Hoje o débil tem ainda por destino ser o objeto de alguém ou de qualquer coisa (passa da reeducação materna a todos os modos de reeducação). Amanhã talvez encontremos com mais segurança a via que levará o débil a reconhecer-se como humano, com desejos não alienados no outro. Só, então, as noções de debilidade poderão ser postas em causa3. Buscamos uma conexão interior com outros seres humanos: a nossa consciência. A palavra consciência deriva das palavras scire (conhecer) e cum (com), ou seja, conhecer com. Assim, conhecer com alguém implica em compartilhar. Esse é o movimento que nos humaniza e nos coloca na relação com os outros no atendimento psicopedagógico. Não somos únicos, seres individuais, somos seres de relações e de aprendizagens que estabelecemos num tempo-espaço descontínuo. Estamos em rede, onde a vida de um depende da do outro nesse sistema em que vivemos. Hoje vivemos a grande metáfora da vida: vivemos sobremundos, onde o mundo tecnológico nos liga e nos coloca em rede - virtual, num processo de globalização. Esse movimento enfatiza vivermos individualmente e a nos distanciarmos cada vez mais das relações com o humano, com os outros do mundo real. Vivemos a metáfora do mundo virtual: Lá estamos com os outros, sem a relação com, de uma forma paradoxal. Na realidade, não estamos na relação e não estamos com, estamos sós. O humano sem se deparar com a face do outro, com o olhar do outro, desumaniza-se e se perde em sua essência, em sua ética: ser humanizador. Partindo desse pressuposto, nós estamos e somos o mundo e precisamos assumir nossas responsabilidades sobre ele, sobre nossas relações. Há uma unidade subjacente. Essas idéias trazem implicações fundamentais ao atendimento psicopedagógico, já que estamos no plano da mediação e das relações de aprendizagem. Como Safra 6 , estamos em Sobórnost, permeamos uma mudança de paradigma: Sobórnost é, em russo, um substantivo; nost é terminação de substantivo e sobor é raiz que indica associação, comunidade. (....) Sobórnost assinala que cada ser humano é a singularização da vida de muitos implica em dizer que cada ser humano é a singularização da vida de seus ancestrais e é o pressentimento daqueles que virão. (...) A verdade de si mesmo acontece e se revela somente pelo reflexo do rosto do outro6. Frente a essas questões fica-nos a pergunta: Quem é o jovem especial? Como olhar para esse jovem que está na sociedade e quer vivê-la em sua plenitude? A Terra está mudando, precisamos trabalhar com a diversidade, com o que é diferente, por meio da flexibilidade e da tolerância, para a compreensão da vida seja ela como for; pois juntos compartilhamos as questões do destino humano, o que nos inscreve em uma comunidade. Nesse sentido, uma pessoa seja ela especial ou não, é um ser humano que pode se reposicionar a cada momento de sua existência, a partir das relações que pode estabelecer em sociedade. Em nosso grupo, temos trabalhado diferentes estratégias que nos levam à reflexão dialógica frente aos fatos da vida. Para esse momento, recortamos uma das situações que vivenciamos para apresentar o seu processo, o percurso de elaboração tecido pelos jovens. Esse trabalho gera um espaço transicional, segundo Winnicott, que tem possibilitado um brincar, o que abre um canal de comunicação com o mundo psíquico do ser8.. Nomeamos uma das atividades que realizamos com o grupo como O diálogo das cores. Nossa proposta foi a de que os jovens Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 " O IMAGINÁRIO E A ADOLESCÊNCIA DO JOVEM ESPECIAL dialogassem por meio da tela, realizando seus traçados e cores a tela foi a mediadora. Momento que envolveu um diálogo interno que podia ser externalizado por meio de metáforas. A metáfora nasceu do grupo, o que permitiu o brincar e a elaboração de questões tão subjetivas. Enquanto um brincava com seu traçado e sua cor na tela, os demais aguardavam aquela fala numa atitude de respeito, compreensão e, acima de tudo, de possibilidade de expressar seus sentimentos e comungá-los com o grupo. Assim, cada um foi descortinando sua verdade por meio de uma troca dialógica, o que possibilita a construção de suas funções superiores e que leva cada um a suportar a impossibilidade, o não poder, o limite, ou a criar condições para viver uma experiência. Houve momentos de amparo, de ternura, de continuidade, de caminhos... Tal como um dos colegas falou: É preciso respeitar o caminho do outro. Estamos, sim, buscando entre tantos descaminhos os caminhos, os mais humanizadores nas relações que estabelecemos e prosseguimos até o olhar brincar pela tela e trazer subjetivamente sua história: um encontro dialógico-reflexivo em toda sua extensão, como apontou um dos jovens: Esse é o nosso primeiro caminho construído. Conforme Moraes9: A palavra vida para Toynbee (Toynbee e Ikeda 1976) não se restringe aos seres vivos independentes ou semi-independentes, mas a tudo que tem vida, ao universo inteiro, lembrando que tudo o que tem vida, tem dignidade. Dignidade como valor absoluto, impossível de ser trocado, barganhado. Dignidade compreendida como honra, cuja evolução aumenta conforme o indivíduo é desinteressado, altruísta, compassivo, generoso, dedicado aos demais seres e ao próprio universo. Dignidade humana que, segundo Toynbee (ibid., p.346), não pode ser obtida no campo da tecnologia, onde os homens são tão hábeis, mas, sim, conquistada no campo da ética, e o progresso ético é medido pelo grau em que nossos atos são pautados pela compaixão e pelo amor e não pela cobiça e pela agressividade9. Nesse espaço, a mediação se deu por meio de um brincar, o que favoreceu a ocorrência de um espaço potencial, possibilitando os fenômenos transicionais, essenciais para que o jovem pudesse lidar de forma criativa com sua realidade e estabelecer relações saudáveis com seu mundo interno e com o mundo externo, para poder encontrar sua identidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Essas são reflexões que trazemos para pensarmos a vida de nossos jovens frente a essa sociedade que se apresenta ainda tão inflexível ao que lhe parece diferente. Precisamos abrir espaços para essas discussões para que os jovens possam falar e refletir sobre suas histórias em relação ao mundo em que vivem, pôr em questão seus sonhos, seus desejos, suas possibilidades em alcançá-los, somente assim poderão ressignificar sua história e construir sua identidade. Os jovens especiais são pessoas que apresentam necessidades humanas e, portanto, desejam ser respeitados, bem como terem oportunidades de escolher, decidir, optar de acordo com suas necessidades e interesses. Fica-nos uma questão fundamental: Qual possibilidade real há para que esses jovens possam habitar o mundo em que vivem e que se sintam incluídos? Refletir sobre esta possibilidade dos jovens especiais terem uma convivência, uma participação efetiva na sociedade, usufruindo do direito de ser plenamente, nos faz crer na necessidade de um acompanhamento, uma mediação não só com estes jovens, mas também com os pais, para que façam o elo do imaginário com seus filhos, e não rompam com o compromisso de darem aos filhos com distúrbios a mesma herança do filho ideal. Esta herança imaginária dos pais é que permitirá ao filho imaginar, brincar de ser para ser no futuro e, assim, aterrissar na terra prometida e usufruir e se relacionar com mais autenticidade e autonomia daquilo que é diverso na sociedade. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 " ANGELINI RAVM ET AL. SUMMARY The imaginary and the adolescence of the young special The objective of this work is to present the need that the special youths have to put their conflicts, their anguishes in relation to his/her adolescence, front to his/her family and the society in that they live. The proposal of that study is to present the subject that inhabits those young ones, his/her imaginary in relation to the society, inside of a psychopedagogical and social interactive approach, in that to mediate attitudes and family and social relationships can enlarge that subjects spaces to look for to understand and to rebuild psychic conditions that allow them to live together well in society. The mediation for those conflicts becomes fundamental, condition that will make possible the development of their superior functions and the understanding of the learning relationships that can establish in the society. We left of the intermediation and of the observation of a group of youths that is assisted in the psychopedagogical clinic. In that way it is discussed also the imaginary of the parents in relation to the ideal son and to the special son, as well as the social and psychoaffective structuring of the real son. KEY WORDS: Special education. Psychopedagogy. Imagination. Interpersonal relations. Parent-child relations. REFERÊNCIAS 1. Telles CQ. Sementes de sol. São Paulo:Editora Moderna;2003. 2. Luria AR. Desenvolvimento cognitivo. São Paulo:Ícone Editora;2002. p.23. 3. Mannoni M. A criança atrasada e a mãe. 3ª ed. Lisboa:Moraes Editora;1981. p.191-3. 4. Lerner R. Psicanálise, sexualidade e os impasses na educação de jovens diagnosticados como portadores de retardo mental. In. Anais do I Colóquio do Lugar de Vida / LEPSI: a psicanálise e os impasses da educação. São Paulo:USP;1999. p.261-4. 5. Taille Y, Oliveira MK, Dantas H. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em 6. 7. 8. 9. Trabalho realizado na Trilha Unidade de Integração S/S LTDA, São Paulo, SP. discussão. 10ª ed. São Paulo:Summus;1992. p.80. Safra G. A po-ética na clínica contemporânea. Aparecida, SP:Idéias & Letras;2004. Levin E. A função do filho espelhos e labirintos da infância. Petrópolis:Editora Vozes;2001. p.196-7. Mantoan MTE. Ser ou estar: eis a questão: explicando o déficit intelectual. 2ª ed. Rio de Janeiro:WVA Editora;2000. Moraes MC. O paradigma educacional emergente. 3ª ed. Campinas, SP: Papirus Editora;1997. p.228. Artigo recebido: 20/01/2008 Aprovado: 13/03/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 33-42 " A EMERGÊNCIA DA PSICOPEDAGOGIA COMO CIÊNCIA ARTIGO ESPECIAL A EMERGÊNCIA DA PSICOPEDAGOGIA COMO CIÊNCIA Nadia Aparecida Bossa RESUMO - Este artigo discute o fazer psicopedagógico na atualidade. Inicialmente, apresenta algumas considerações acerca do que se constitui nas chamadas práticas psicopedagógicas para, em seguida, expor considerações de natureza epistemológica a respeito da formação e, principalmente, da investigação psicopedagógica, que fundamenta essa prática. Finaliza discutindo a necessidade e a pertinência da pós-graduação strito sensu com área de concentração em Psicopedagogia. UNITERMOS: Psicopedagogia. Conhecimento. Especialidade. Nadia Aparecida Bossa - Pedagoga, Psicóloga, Psicopedagoga, Mestre em Psicologia da Educação PUC/SP, Doutora em Psicologia e Educação pela USP. Professora do curso de Psicopedagogia PUC/MINAS. Professora Titular do Mestrado em Psicopedagogia UNIFIEO. Diretora Cultural e Científica da ABPp. Correspondência Rua Celso de Azevedo Marques, 395- sala 13, Mooca São Paulo - SP - CEP 03122 010 - Fone 11 2268 4545 email [email protected] home page www.psicopedagogianet.com.br Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "! BOSSA NA do sistema educacional brasileiro. Essa realidade é também observada em outros países. O campo da investigação psicoeducativa, segundo Coll1, constituye, históricamente, un espacio común de intervención de diversas profesiones especialistas en educación con orientación psicosociológica y de psicólogos con especialidad educacional por lo que la denominación de psicopedagogía surge como necesidad de unificar la formación del conjunto de profesionales que interviene en el campo psicoeducativo, focalizando el estudio de los procesos de enseñanza y aprendizaje. Segundo Coll, a literatura acerca das demandas da Psicopedagogia traz a questão da intervenção psicopedagógica em diferentes perspectivas 2-10. Alguns autores descrevem práticas psicopedagógicas que se centram no processo de ensino-aprendizagem, outros, na intervenção dos aspectos prejudicados e preservados do processo de aprendizagem, com modelos de intervenção dirigidos tanto ao sujeito individual como ao grupo. Ainda de acordo com Coll1, os âmbitos da intervenção são múltiplos e diversos; temos modelos de intervenção no sistema educativo (desde a aula até a instituição), em clínicas, hospitais, centros de saúde, organizações empresariais, centros comunitários. Quanto às estratégias de intervenção, nas práticas psicopedagógicas verifica-se amplo espectro de técnicas: entrevistas, trabalho interdisciplinar, grupos terapêuticos, técnicas de recolocação de informação diagnóstica, estratégias terapêuticas, assessoramento e coordenação de projetos educativos institucionais e projetos pedagógicos inovadores, entre outras. Na definição dos marcos conceituais subjacentes às intervenções psicopedagógicas, procura-se articular conhecimentos procedentes de várias disciplinas e desenvolvimentos teóricos, às vezes complementares, às vezes contraditórios. Em uma enumeração certamente incompleta, podemos dizer que atualmente as disciplinas que fundamentam a prática psicopedagógica são: a Psicologia do Desenvolvimento, as teorias da aprendizagem, as teorias da Educação, a teoria INTRODUÇÃO O conjunto de considerações aqui apresentadas não constitui elaboração pessoal ou privada, mas é resultado do intercâmbio entre colegas que compartilham há quase 20 anos o desejo de construir um campo teórico específico da Psicopedagogia brasileira. São colegas professores de várias universidades do Brasil, psicopedagogos comprometidos com o processo de ensino-aprendizagem de crianças, adolescentes e adultos de diversas instituições do Brasil, e alunos dos cursos de especialização com os quais reconstruo permanentemente aspectos inerentes ao fazer psicopedagógico. Neste momento, nosso objetivo é contribuir para a constituição teórica do campo epistemológico da Psicopedagogia, definindo estratégias e procedimentos pertinentes ao objeto central da Psicopedagogia. Coll1, ao destacar a necessidade de pesquisas na área, enfatiza a dificuldade teórica imposta pela natureza do objeto de estudo da Psicopedagogia, que demanda conhecimentos de diversas disciplinas e a difícil arte de articular tais conhecimentos numa perspectiva interdisciplinar, mas sem perder de vista o objeto central da Psicopedagogia: Un consenso relativo se manifiesta al pretender caracterizar el campo de intervención psicopedagógico; los especialistas coinciden en señalar que la acumulación de funciones y la diversidad de referentes y marcos teóricos constituyen las premisas generales que configuran un complejo ámbito profesional y de investigación. (Coll, 19891) A reflexão acerca do fazer psicopedagógico remete aos fatores sociais que determinam a necessidade de produzir conhecimento no campo da intervenção psicopedagógica. No Brasil, esse campo tem-se configurado como um espaço multie interdisciplinar. Há mais de três décadas, profissionais de várias áreas de formação, envolvidos no âmbito da educação e saúde, têmse ocupado da questão das dificuldades de aprendizagem, motivados por uma questão que insiste em não se calar: o incontestável fracasso Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "" A EMERGÊNCIA DA PSICOPEDAGOGIA COMO CIÊNCIA psicanalítica, a Psicologia Psicodinâmica, a Psicologia Social e Organizacional, a Sociologia, as neurociências, a Didática, as disciplinas que tratam do currículo, a Epistemologia. Muito embora o fazer psicopedagógico venha se constituindo num crescendo, ampliando seu âmbito de ação e modelos de intervenção, muito ainda há a se fazer no que se refere ao campo da investigação científica para que se possa verdadeiramente fazer frente à demanda que a originou. Somente pesquisas realizadas no contexto acadêmico poderão resultar numa produção de conhecimento capaz de transformar tal realidade. Não se trata apenas de pensar sobre o fenômeno empírico que nos ocupa, mas também de pensar sobre o pensamento que o pensa. A MULTIDIMENSIONALIDADE OBJETO PSICOPEDAGÓGICO ...intervienen cuestiones pre-subjetivas: lo social, el lenguaje, la conformación neurobiológica; cuestiones subjetivas: el proceso de construcción del conocimiento, procesos de desarrollo y cambio conceptual, procesos de constitución de la subjetividad y la dinámica afectiva; cuestiones, ambas, contextualizadas en un sistema de relaciones ínter subjetivas y por la confluencia de aspectos intra subjetivos y situacionales. La contextualización del aprendizaje supone las restricciones, las limitaciones y posibilidades cognitivas y subjetivas, educacionales, económicas, culturales y socio-ambientale. A natureza do objeto da intervenção psicopedagógica, em sua complexidade real, demanda um acúmulo progressivo de ações e uma heterogeneidade de disciplinas na formação teórico-estratégica do profissional de psicopedagogia. A pluridimensionalidade dos processos psicoeducativos escolares e extra-escolares excede em vários sentidos os aportes de uma disciplina única, hegemônica, da qual derivam marcos conceituais interpretativos e técnicas adequadas para a intervenção psicopedagógica. O conceito de convergência disciplinar (a interdisciplinaridade em sentido estrito) não implica simplesmente importar teorias de referência para o campo psicopedagógico, num sentido unidirecional. Como diz Castorina12, la psicopedagogía debe partir de la originalidad de su campo de trabajo, de la índole de sus problemas, para seleccionar los aspectos significativos de las teorías de referencia, recrear sus hipótesis y reformular sus instrumentos para adecuarlos a las cuestiones estrictamente psicopedagógicas, e incluso, plantear cuestiones que representen auténticos desafíos para el desarrollo de aquellas teorías procurando, entonces, una relación bidireccional entre las teorías de referencia y las prácticas psicopedagógicas. DO As tentativas de definição do campo psicopedagógico consideram que a Psicopedagogia constitui um conjunto de práticas institucionalizadas de intervenção no campo da aprendizagem, seja no âmbito da prevenção, seja como diagnóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem, seja, ainda, como intervenção específica no processo de aprendizagem escolar; portanto, uma área que estuda e trabalha com o processo de aprendizagem e os fatores que a favorecem, bem como com aqueles que comprometem esse processo, gerando as dificuldades de aprendizagem. Seus domínios específicos são: o sujeito do conhecimento, o agente de transmissão e suas dimensões constitutivas; logo, o sujeito-objeto da Psicopedagogia é o ser humano contextualizado em situação de aprendizagem. Assim, o campo da Psicopedagogia resulta numa convergência conceitual ao caracterizar a aprendizagem, o sujeito contextualizado em situação de aprendizagem e os processos psicoeducativos como objetos da intervenção e da reflexão psicopedagógica. Segundo Muller11, tais aspectos constituem uma problemática multidimensional que envolve uma complexa série de fatores. Para a autora, no âmbito da Psicopedagogia, A PESQUISA PSICOPEDAGÓGICA As circunstâncias especiais do fazer psicopedagógico levaram à adoção de uma Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "# BOSSA NA metodologia de pesquisa inspirada nas idéias de Boaventura Souza Santos13. Segundo Santos13, o conhecimento pós-moderno é um conhecimento sobre as condições de possibilidade da ação humana projetada no mundo a partir de um espaço-tempo local. É, portanto, não-metódico, constitui-se com base em uma pluralidade metodológica. Para o autor, cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica. A transgressão metodológica repercute nos estilos e gêneros literários que presidem a escrita científica. A ciência pós-moderna não segue um estilo; é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista. A tolerância discursiva é o outro lado da pluralidade metodológica. É justamente essa inspiração pós-moderna que se faz presente e no modo de a Psicopedagogia fazer pesquisa hoje. Em síntese, podemos dizer que o objetivo das pesquisas nessa área emergente é a articulação e a convergência do repertório conceitual e instrumental das diversas disciplinas que norteiam a prática psicopedagógica, construindo modelos explicativos mais integradores, realísticos e contextualizados dos processos de ensino-aprendizagem, de forma a permitir desenhar procedimentos gerais e específicos de intervenção psicopedagógica e articular tais conhecimentos (modelos explicativos e procedimentais) para a resolução de problemas concretos e singulares, elaborando estratégias de intervenção psicopedagógica nas dificuldades de aprendizagem, bem como desenvolvendo ações preventivas que sejam pertinentes e relevantes no atual contexto da realidade brasileira. A aprendizagem humana em sua complexidade exige postura investigativa integradora dos vários saberes que tratam da vida humana. As dimensões biopsicossocial e cultural de nossa espécie concorrem integralmente no processo de aprendizagem, determinando suas vicissitudes. A Psicopedagogia constituiu-se e diferenciou-se de outras áreas de conhecimento justamente por esse princípio fundamental. A ação psicopedagógica foi se estruturando na integração dos conhecimentos de Psicologia, Psicanálise, Pedagogia, Biologia, Filosofia, Lingüística, Antropologia, Neurologia e tantos outros quantos se fizerem necessários para a apreensão do fenômeno que nos ocupa: o processo de aprendizagem na sua singularidade, no contexto cultural e no âmbito dos fins e meios a que se destina. A Psicopedagogia caracteriza-se por um raciocínio diagnóstico e uma metodologia de intervenção que busca olhar o sujeito na relação com o objeto de conhecimento em situação de aprendizagem; busca considerar sujeito e objeto como entidades indissociáveis; conceber o sujeito em seu contexto sociohistórico; admitir a possibilidade de um conhecimento transdisciplinar, embora ele se tenha construído na perspectiva interdisciplinar; e ter a clínica das dificuldades de aprendizagem como espaço privilegiado para o desenvolvimento da teoria psicopedagógica. A BUSCA DE LEGITIMAÇÃO DA ÁREA A legitimidade da produção teórica do campo da Psicopedagogia tem sido buscada pelos psicopedagogos e vários esforços têm sido feitos para ascender os degraus para a constituição de um campo de conhecimento científico que possibilite à Psicopedagogia estar na academia, desfrutando dos assentamentos necessários para a produção do saber, ou seja, para que possamos ter os subsídios e o apoio destinados à pesquisa em nosso país. Durante quase três décadas, temos trabalhado com obstinação, superando obstáculos de toda ordem, na crença inabalável de que esse conhecimento representa enorme avanço no desenvolvimento do ser humano. Uma verdadeira compreensão acerca da aprendizagem representa a construção de uma nova concepção de ser humano. Revoluciona conceitos fundamentais de áreas como Educação, Saúde e outras. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "$ A EMERGÊNCIA DA PSICOPEDAGOGIA COMO CIÊNCIA Tratar a questão dos entraves no processo de aprendizagem escolar da perspectiva psicopedagógica exige um meticuloso exercício para postar a questão de forma a não fazer do sujeito da Psicopedagogia uma mera abstração teórica. O aporte teórico do diagnóstico e do tratamento dos problemas escolares tem como objeto o sujeito da aprendizagem em sua dimensão biopsicocultural, o professor enquanto mediador na construção do conhecimento, a escola enquanto instituição sujeita às leis e à tradição da educação em nosso país, a família como instância responsável pela constituição e pelo desenvolvimento do sujeito. Todos esses aspectos são contemplados numa análise histórica. Por outro lado, o caráter da singularidade do processo individual deve estar no centro da cena. Estudar com profundidade esse complexo sistema e, ao mesmo tempo, atender aos paradigmas científicos sem sucumbir ao aprisionamento conceitual, construindo uma concepção psicótica da realidade, resulta num extraordinário amadurecimento teórico. A exemplo de outras disciplinas, é preciso seguir em frente, como bem sugeriu Hermann (apud Minerbo14), ao referir-se ao compromisso da Psicanálise: Entrando em seu segundo século de existência, [...] a psicanálise já não pode ignorar o vácuo interrogativo do tempo futuro. Este lhe questiona o projeto: ficará prisioneira do círculo traçado pela inegável eficácia de sua terapia na cura do indivíduo ou seguirá até a linha do seu horizonte de vocação, convertendo-se em ciência geral da psique? Na primeira hipótese, [...] uma teoria regional a que falta a correspondente teoria geral. [...] Na segunda, terá de se inventar como ciência, fora dos modelos atuais, e, de passagem, inovar o sentido de ser ciência. Ao gosto deste fim de século, dir-se-ia talvez dessa psicanálise a ser criada: pós-ciência. Ou, acorde à sua posição de matriz de um novo conhecimento: ciência futura. Em todo caso, optando por ir em frente, nossa disciplina não se pode furtar ao compromisso com a investigação. Há alguns anos vem crescendo a demanda por cursos de mestrado e doutorado em Psicopedagogia. Os alunos que concluem os cursos de especialização e desejam dar prosseguimento ao trabalho monográfico dos cursos lato sensu raramente encontram espaços acadêmicos em que possam viabilizar o aprofundamento da pesquisa sem descaracterizar o objeto de estudo. Por outro lado, aqueles que concluem suas dissertações e teses o fazem ajustando seu trabalho às linhas de pesquisa dos programas stricto sensu aos quais se vincularam, o que muitas vezes exige profundas mudanças no tratamento dado à questão, de forma que esses trabalhos, que originalmente seriam produção científica do âmbito da Psicopedagogia, acabam por perder sua especificidade. Ainda que os obstáculos sejam muitos, a Psicopedagogia se constrói incessantemente, como que voltando para si aquilo a que se propõe: auxiliar o ser humano a superar-se nas adversidades por meio da aprendizagem. Assim, aprende a Psicopedagogia que argumentar sobre seu direito de existir já é prova de sua existência. Sabe-se existindo; consciente de sua responsabilidade, reivindica tenazmente espaço para sua autoria. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "% BOSSA NA REFERÊNCIAS 1. Coll C. Conocimiento psicologico y practica educativa: introducción a las relaciones entre psicología y educación. 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Psicopedagogia 2008; 25(76): 43-8 "& ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL RELATO DE PESQUISA O ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL: ASPECTOS CONSTITUTIVOS DO DESENVOLVIMENTO Ana Beatriz Machado de Freitas RESUMO - O presente artigo refere-se a um estudo de caso que subsidiou uma pesquisa qualitativa de Mestrado em Psicologia. Procurou-se compreender como a dinâmica de uma instituição constituía a subjetividade de uma aluna. A escola-campo é uma instituição filantrópica de ensino especial e reabilitação que atende a crianças com diagnóstico de deficiência mental. A criança-participante é uma aluna diagnosticada deficiente mental com comportamentos autistas. A aluna foi acompanhada por um semestre letivo nos espaços clínico e pedagógico. A pesquisadora posicionou-se como observadora participante e, assim, acompanhou a criança em diversos momentos e espaços da instituição, buscou interação com a aluna em alguns momentos e conversou com familiares e profissionais envolvidos. Constatouse que a instituição é fortemente norteada pelo enfoque clínico e pelo diagnóstico e características gerais da deficiência. Discutiu-se o quanto esta visão, predominante na subjetividade social, dificulta o olhar para o sujeito em sua singularidade e processo de comunicação e desenvolvimento que ocorrem em um universo social e cultural. Tal obstáculo constitui-se empecilho para que necessidades educacionais importantes possam ser atendidas. A orientação e construção metodológica fundamentou-se na Epistemologia Qualitativa, de González Rey, e a construção-interpretação alicerçada na perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano, cujo principal expoente é L.S.Vygotsky. UNITERMOS: Autismo. Subjetividade. Desenvolvimento humano. Deficiência. Educação especial. Ana Beatriz Machado de Freitas - Pedagoga pela Universidade Federal de Goiás (UFG), especialista em Psicopedagogia pela Universidade Católica de Goiás (UCG) e Mestre em Psicologia - área Desenvolvimento Humano - pela UCG. Correspondência Av. Tocantins n° 251, apto 303 - Ed. Tocantins - Setor Central Goiânia - GO - CEP 74015-010 Tel: (62) 3224-2812 E-mails: [email protected] [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 "' FREITAS ABM aluno de uma escola regular de ensino fundamental por um semestre letivo, identificamos diversas situações, formais e informais, em que este educando era desqualificado no contexto escolar. Assim, minguavam-se o interesse por livros, as iniciativas de escrita e a alegria no semblante. Por outro lado, quando era encorajado e encontrava interlocutores, o aluno revelava comportamento, sociabilidade e aprendizado dito normal. Esses momentos eram, contudo, pouco freqüentes e privilegiados. Na visão da escola, considerada inclusiva, o aluno deveria ter algum problema comportamental e/ou cognitivo que exigia intervenção clínica. Trabalhamos em uma instituição filantrópica de educação especial e reabilitação voltada ao atendimento de crianças com deficiência mental, onde é freqüente o encaminhamento de alunos da rede regular de ensino cuja condição se assemelha à do educando de nosso estudo. Esses alunos, ainda que avaliados pela equipe clínica multiprofissional da instituição composta por assistente social, pediatra, neuropediatra, psicólogo e psicopedagogo , não são aceitos como alunos desta. A prioridade é o atendimento a crianças com deficiência mental acentuada que, em geral, também requerem auxílio fisioterápico e fonoaudiológico, serviços ali oferecidos. Nesses casos, a equipe multiprofissional considera que a criança e a família se beneficiariam mais ali, pela possibilidade de conciliar o pedagógico aos atendimentos clínicos, em relação à rede regular de ensino. Dissemos a equipe considera por duas razões: primeiro, porque nem todas as crianças vêm de experiência prévia no ensino regular; a própria família crê que a escola especial seria o lugar da criança e logo a procura como primeira opção. Segundo, visa conhecer o perfil do possível aluno e de sua família a fim de avaliar se seriam beneficiados o suficiente na instituição. Não são realizados exames, tampouco são utilizados testes neuropsicológicos para um diagnóstico preciso. São priorizados o histórico de saúde e familiar (anamnese), a condição socioeconômica, o histórico de desenvolvimento neuropsicomotor e de escolaridade e avaliações lúdico-pedagógicas. INTRODUÇÃO Observamos em nossa atuação profissional, como psicopedagoga de uma instituição educativa para crianças especiais, crescente tendência ao encaminhamento de alunos a serviços de saúde ou a instituições de ensino especial devido a queixas relacionadas ao comportamento ou à aprendizagem. O levantamento bibliográfico coincide com o que notamos na prática. O fracasso escolar tem sido medicalizado sem que se considere o aluno em seu contexto social, sua relação com a vida escolar e o cunho das exigências da escola (que, não raro, apresentam-se desvinculadas ou ignoram a realidade histórica e social do educando). Decorrem, daí, equívocos no diagnóstico ou diagnósticos corretos, em conformidade aos critérios médicos, porém a-históricos, desvinculados das relações e do contexto em que os sintomas são produzidos. Ao mesmo tempo, são desconsideradas oportunidades e condições de mediação1. Nas décadas de 70 e 80, difundiram-se ações pedagógicas ditas reeducadoras que visavam a correção de supostas defasagens lingüísticas e culturais de alunos cujo padrão lingüístico e conhecimento acadêmico diferenciava-se do exigido pela escola. A esse respeito, vários autores tecem críticas, visto que tal correção avaliza um padrão de normalidade, ou nível considerado culto, legitimado historicamente por uma classe social dominante2-4. Assim, não é por acaso que os maiores índices de evasão e repetência ocorrem nas classes sociais economicamente mais desfavorecidas e nem é por acaso que muitas diferenças ganham cunho deficiência. Vários autores3-5 chamam atenção para o papel da escola, em especial a atitude dos professores na produção do fracasso escolar. Os docentes raramente se avaliam no processo ensinoaprendizagem; assim, nem sempre se concretizam momentos potenciais de sucesso escolar, demonstrando que o fracasso muitas vezes (talvez seja mais correto dizer freqüentemente) é conseqüência de uma possibilidade de sucesso não percebida como tal5. Durante o mestrado, constatamos a pertinência dessas críticas e observações. Acompanhando um Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 # ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL Há casos, entretanto, em que o diagnóstico médico parece determinar mais objetivamente a matrícula da criança na instituição. Frente a uma criança com síndrome de Down, por exemplo, questiona-se a necessidade de uma escola especial. Conforme a sociabilidade, comunicação, aprendizagem, desenvolvimento motor, situação social e saúde geral, recomenda-se a escolarização na rede regular de ensino. Já nos casos cuja avaliação médica atesta autismo ou comportamentos autistas, por exemplo, parece haver um consenso: matrícula na instituição especial. Seria como se este diagnóstico predeterminasse grandes dificuldades ou impossibilidade de inserção no ensino regular. Era o caso de Luciana (nome fictício), aluna que elegeríamos para participante de nosso estudo. Começamos a questionar se não estaria ocorrendo o mito da generalização indevida, ou seja, a definição do sujeito exclusivamente por seu distúrbio ou condição de deficiência6. Pesquisáramos o processo de constituição subjetiva de alunos na rede regular de ensino. Em outras palavras, víramos como concepções, normas, atitudes, pressupostos, formas de avaliação e de interatividade circulantes no espaço escolar (espaço de subjetividade social) produziam emoções, as quais norteavam comportamentos, sentimentos, produções acadêmicas, ações e relações; constituíam, também, suposições e rótulos de normalidade /deficiência. Indagamos, agora, como o processo aconteceria em uma instituição de ensino especial, sobretudo quando a principal referência de necessidade a ser atendida vinha do parecer médico neurológico. González Rey, pesquisador do tema subjetividade, conceito por ele compreendido na perspectiva da psicologia histórico-cultural de desenvolvimento humano, orienta pesquisas qualitativas cujo enfoque é constituição subjetiva. Desenvolveu, para tal, uma epistemologia orientada a esta temática sob a qual fundamentamos nossa trajetória de pesquisa: a epistemologia qualitativa. A EPISTEMOLOGIA QUALITATIVA Na epistemologia qualitativa, o tema da subjetividade é adotado a partir de uma perspectiva dialógica, dialética e complexa em que a subjetividade não aparece coisificada em nenhum tipo de entidade nem de invariante universal da natureza humana, mas que se expressa como sistema complexo em constante avanço, que constitui o sujeito concreto e, por sua vez, é constituída por aquele de forma permanente, por meio de sua constante produção de sentidos e significados dentro dos diferentes sistemas da subjetividade social em que desenvolve suas ações7. O ser humano humaniza-se nas relações interpessoais, nos espaços sociais; portanto, esses espaços, onde subjetividades individuais se entrelaçam, constituem-se locus de complexidade, de produção de emocionalidades, significados e sentidos, daí a denominação subjetividade social7,8. Da dialética subjetividade individualsubjetividade social compreende-se o movimento de produção subjetiva, ou seja, como a interatividade produz emoções, constitui comportamentos, momentos e processos de desenvolvimento humano e produção de sentidos. Cada caso envolve uma história singular de produção de relações, sentidos subjetivos e desenvolvimento; por isso os estudos de caso são privilegiados. O qualitativo, nessa perspectiva, não se define pelos instrumentos adotados. O instrumento essencial, por assim dizer, é o próprio pesquisador, melhor dizendo, a qualidade da interação e comunicação estabelecida com os participantes e com o cenário e pesquisa. À medida que o pesquisador interage com o contexto, identifica informações de sentido ou, na terminologia de González Rey, indicadores7. Sendo dinâmica e processual, a subjetividade não pode ser apreendida; o que o pesquisador apreende são indicadores de sua produção, presentes, por exemplo, nas palavras, diálogos, escritos, ações, decisões, atitudes, gestos, inclusive (e, por vezes, principalmente) em momentos informais e imprevistos. A produção teórica e fidedigna depende da qualidade da comunicação estabelecida e é Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 # FREITAS ABM também processual. Afinal, a subjetividade não é um dado fixo, tangível, concreto, a ser colhido, tampouco uma manifestação metafísica ou de introjeção, mas sim um processo plurideterminado de produção de significados e sentidos em permanente constituição dialética: indivíduomeio social. Não há, por isso, um roteiro rígido a priori; instrumentos e procedimentos são passíveis de redefinição durante a pesquisa. A trajetória expressa a práxis, o processo construtivointerpretativo7 do pesquisador. Confrontações, indagações, hipóteses e elaborações teóricas acontecem no decorrer da pesquisa, a partir do que os indicadores suscitam. Não há pretensão de se confirmar dados ou referências preestabelecidas. O que mais importa é compreender o diferencial, o percurso histórico, as singularidades no estudo do desenvolvimento humano em cada processo e contexto. Por isso, a pesquisa qualitativa, apoiada na epistemologia qualitativa, não se orienta pela produção de resultados finais que possam ser tomados por referenciais universais sobre o estudado, mas à produção de novos momentos teóricos que se interagem organicamente ao processo geral de construção de conhecimentos. As categorias universais como esquizofrenia, déficit de atenção e neurose, devem representar só um marco relativo para a definição do problema a estudar e dar lugar a um processo diferenciado de produção de conhecimentos que, por nos informar sobre a natureza diferenciada desses processos nos sujeitos concretos, que não podem ser usadas para definir sua condição; portanto, a pesquisa psicológica tem de entrar nos processos qualitativos de subjetivação das entidades gerais com as quais se identificam certos fenômenos na psicologia7. Em nossa escola-campo a referida instituição de ensino especial e reabilitação , categorias universais como os diagnósticos clínicos assumiam considerável relevância. À nossa pesquisa isso já se apresentava como indicador: o diagnóstico servia à generalização em detrimento da singularidade? Predeterminaria expectativas e/ou formas de atendimento? Que implicações traria para relações assumidas com a criança no espaço institucional? ESTUDO DE CASO A criança participante Luciana (nome fictício) tem cinco anos de idade e foi diagnosticada deficiente mental com comportamentos autistas. Não fala, pouco estabelece contato visual com as pessoas, apresenta deficiência na marcha, não brinca com outras crianças e pouco interage. Nunca freqüentara escola; a família julga que a deficiência requereria uma escola especial. A maior expectativa familiar é de desenvolvimento da sociabilidade entre crianças. Apresentando o cenário e o percurso A pesquisa de campo desenvolveu-se durante um semestre letivo em uma instituição filantrópica de ensino especial e reabilitação de Goiânia que atende à faixa etária de zero a seis anos, prioritariamente de baixa renda, com o diagnóstico de deficiência mental ou atraso significativo no desenvolvimento. Na escola da instituição não há programas pedagógicos específicos às deficiências ou grau de comprometimento. Os alunos são agrupados nas salas de aula por idade, atendendo a critérios da Secretaria Municipal de Educação (os professores da escola são funcionários dessa Secretaria). Duas vezes por semana são atendidos na área clínica pelos setores de fisioterapia e fonoaudiologia. Quando necessário, consultas médicas e odontológicas são agendadas. Nosso acesso foi mais viabilizado no espaço clínico da instituição por ali exercermos atuação profissional. Começamos a observar Luciana, aluna recém-matriculada, no setor de fisioterapia. (a criança fazia acompanhamento fonoaudiológico em outra instituição). As sessões tinham duração de quarenta minutos e eram conduzidas por uma estagiária, sempre sobre supervisão da profissional fisioterapeuta. Várias crianças eram atendidas simultaneamente, cada uma por um estagiário que cursava os últimos períodos do curso de fisioterapia, em um recinto amplo, quase todo forrado por colchonetes e decorado com motivos infantis. As observações tiveram caráter participante, ou seja, a pesquisadora não assumiu uma postura de expectadora, mas sim de aproximação e busca Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 # ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL estagiária de fisioterapia). As imagens não foram divulgadas. Seu uso foi exclusivo para a reorientação dos passos da pesquisa, junto à nossa orientadora do mestrado. Assistindo às filmagens, pudemos notar detalhes e sutilezas da comunicação não-verbal, essenciais ao levantamento dos indicadores, à construçãointerpretação e à nossa própria ação no processo. O projeto desta pesquisa foi aprovado no Comitê de Ética da Sociedade Goiana de Cultura/ Universidade Católica de Goiás em 19 de abril de 2005. de interatividade com a participante e com as pessoas envolvidas. Com o tempo, houve necessidade de estreitarmos a comunicação com Luciana e, por isso, reservamos alguns encontros a sós com a criança, inferiores a meia hora de duração, pouco antes ou consecutivamente às sessões fisioterápicas. Na fisioterapia percebíamos que Luciana evidenciava potencial comunicativo e de interatividade pela via lúdica, mas era dirigida de modo a atender às necessidades clínicas de habilitação/reabilitação, conforme é proposto e esperado dessa área profissional. Não seria ético de nossa parte a interferência no trabalho, tampouco no vínculo estabelecido entre a estagiária e a criança. À nossa pesquisa, porém, interessava justamente a continuidade da conversa que Luciana iniciava a partir de algum brinquedo ou objeto. Assim, estivemos com a criança em nosso consultório de psicopedagogia, porém, não com finalidade terapêutica, e sim no intuito de estreitar a comunicação que se evidenciava e de perceber potenciais nesse âmbito. Nos outros dias da semana, observamos e, ocasionalmente, entramos em contato com Luciana na escola, no parquinho do pátio, nas festas, na recepção, em meio às mães de alunos e junto a seu pai. Conversamos com a professora, com a fisioterapeuta e com o pai de Luciana que a levava diariamente à instituição (sua esposa, mãe da criança, trabalhava no período letivo). Apesar de estarmos menos presente no espaço escolar propriamente dito, julgamos que não houve prejuízo significativo para a pesquisa, visto que o período de permanência dos alunos em sala de aula era inferior a duas horas. Alguns encontros foram registrados em diário de campo. Outros, com a devida autorização da instituição e dos pais da aluna, mediante termo de consentimento livre e esclarecido, foram filmados. A filmadora, de propriedade da instituição, era colocada em um tripé no consultório de psicopedagogia e na sala de fisioterapia. Assumimos o compromisso perante os participantes e perante o Comitê de Ética em Pesquisa, de preservar o anonimato da instituição, da criança e dos demais participantes entrevistados (professora, fisioterapeuta, pai, O percurso: questionando a partir de encontros e indicadores Devido à impossibilidade de descrevermos aqui todos os encontros, destacamos alguns (por data) cujos indicadores conferem mais relevância para o presente artigo. Realçamos os indicadores em itálico e acrescentamos nossos comentários observações ou indagações pertinentes. 23 de setembro Luciana está no colo do pai, na recepção, segurando um copo de plástico. Quando a estagiária de fisioterapia vem buscá-la, Luciana lhe dá a mão, calmamente, e leva consigo o copo. Na sala de fisioterapia, a pesquisadora e a estagiária pedem à criança o objeto. Utilizando um fantoche, brincam com a criança, mas ela recua a cada aproximação, protegendo o copo. Após um tempo, permite que a pesquisadora bata no fundo do copo, produzindo sons. A estagiária faz o mesmo. Tentam levar a mão da criança para tamborilar, mas ela recua, segurando o objeto. Por um momento, a estagiária consegue fazer com que Luciana deixe o copo e firme as duas mãos nas cordas do balanço. Segundos depois, Luciana pega de novo o objeto de estima. Enquanto a criança novamente se balança, a pesquisadora pega o copo e o esconde atrás de si, visando a provocar alguma comunicação. Luciana olha para a pesquisadora interrogativamente e começa a balbuciar. Virase em seguida para a estagiária, como se estivesse a lhe perguntar ou pedir ajuda e a espia por dentro de seu jaleco. Volta-se para a pesquisadora estendendo as mãos. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #! FREITAS ABM A criança com comportamentos autistas mostra momentos de conexão com a realidade e comunicação. O cuidado em proteger o copo (e proteger-se) denota muito mais que um ato reflexo. É como se antecipasse ou se protegesse da ação de outrem; portanto, percebe que há um outro (ou uma outra ação, um não-eu). Ao se ver sem o copo, olha interrogativa e balbucia, ao invés de gritar, chorar, movimentar-se aleatoriamente ou simplesmente ignorar o fato. Se a criança se dirige às pessoas, é porque de alguma forma aprendeu, ao longo de sua história de vida, que o outro pode lhe compreender, atender aos seus anseios. ritmos). Acrescentamos ao pensamento da autora que tal construção só é possível em uma interatividade humana, em contextos determinados que apresentam significações e instituem sentidos, sentidos de possibilidade de desenvolvimento de um corpo. Luciana estaria sendo apresentada a situações suficientemente possíveis para o desenvolvimento e expressão de sua corporeidade? 30 de setembro - Sessão de fisioterapia Luciana manuseia uma pequena raquete de plástico que lhe fora ofertada; às vezes, morde o objeto ou o enfia no nariz. Durante a sessão, a estagiária pede o brinquedo e tenta aproximações. A atitude da estagiária de aproximar-se com o cuidado de não se apresentar como ameaça ao brinquedo leva a criança a permitir o contato. Abre-se, um vínculo de confiabilidade. Quando a estagiária, mesmo por brincadeira, tenta tomarlhe o objeto, sobrevinha a desconfiança. A seguir, a criança é levada a caminhar no percurso escada - superfície plana - rampa (um dos aparelhos fisioterápicos da sala). Mostra dificuldade. A estagiária a ajuda e lhe oferece apoio. A criança corresponde. (Poderia ter recorrido ao corrimão, mas não o fez; aceitou a mão e o braço oferecidos). 28 de setembro - Sessão de fisioterapia A fisioterapeuta sugere que seja trabalhada a função manual. Fora sugerido à estagiária o uso de canetinhas hidrocor no intuito que a criança rabiscasse no espelho (a estagiária seguraria a mão da criança). A tentativa é iniciada, mas Luciana recusa. A estagiária não insiste. Leva Luciana ao balanço e lhe oferece um teclado colorido. Começa a tocálo pegando em sua mão. Luciana olha para outra direção, mas às vezes se volta para o brinquedo e bate nele. Logo depois, levanta-se do balanço. De volta ao colchonete, pede uma canetinha (balbucia e estende-se em direção). Sendo atendida, morde o objeto. A estagiária, sentada com a criança no colchonete, em frente ao espelho, tenta fazer com que ela rabisque a superfície, segurando-lhe a mão. A criança recua, bate com a canetinha no espelho e na mão da estagiária. A preocupação centrada na reabilitação física interrompeu um processo em que a criança começava a estabelecer o vínculo na terapia, a experiência de interlocução com os materiais ofertados e com as pessoas. Pode-se incorrer no risco de divorciar o corpo de uma emocionalidade histórica, social e afetiva que o constitui. Alicia Fernández9 observa que nascemos com um organismo, mas o corpo é construído, é fruto da articulação inteligência-emoção que se expressa em movimentos pessoais, em um jeito de ser, de comunicar (voz, entonações, gestos, posturas, 5 de outubro - Com a professora A professora de Luciana é uma das educadoras mais antigas da escola. É uma senhora calma, sempre sorridente e afetiva com colegas de trabalho e com seus alunos. A coordenadora, às vezes, lhe encaminha crianças que costumam chorar muito ou ter problemas de adaptação, confiando em sua experiência. Sua história docente transcorreu, em grande maioria, no Ensino Especial. Fizera, como nos ressaltou, vários cursos sobre autismo. Luciana foi referida como aluna tranqüila, fácil de trabalhar, em relação aos três colegas de sala. A professora se desdobra em atenção a um ou dois que requerem maiores cuidados quanto ao risco de quedas, tendência a auto-agressão ou agressão aos colegas, choro excessivo e descontrole esfincteriano e risco de crises convulsivas. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #" ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL Onde estaria o papel educacional para além do trabalho de cuidadora? Várias vezes a educadora comentou que não tem problemas com Luciana, mas sim com um aluno que falta demais e que, ao retornar, estranha a mudança de rotina e o ambiente, chora, fica agitado e tira a roupa. Precisaria, segundo ela, atendimento no clínico para melhorar o comportamento. (Se a readaptação devia-se ao afastamento da escola, por que remeter o caso à intervenção clínica?). pessoas, mostra receio quando tem algo nas mãos, o que a afasta justamente do principal objetivo almejado pela família: desenvolver a socialização. 7 de outubro Luciana está sonolenta; dorme no sofá da recepção após a aula de natação. O pai a acorda para a fisioterapia. A estagiária procura andar com a criança, movimentar-lhe o corpo. Na maior parte do tempo a criança responde a tudo apaticamente. A estagiária comentaria conosco que está preocupada com a sonolência de Luciana nos últimos dias. Como a instituição é campo de estágio e o período deste é semestral, há uma preocupação quanto à percepção de resultados clínicos. A política institucional gera um problema quanto à constituição de vínculo: no semestre seguinte leva-se um certo tempo, novamente, para consolidar a relação criança-terapeuta. Limita-se, assim, a possibilidade de constituição de um outro sentido de reabilitação, para além da correção e habitação de funcionalidades. Na recepção Luciana está chorando enquanto aguarda ser chamada para a fisioterapia. O pai esclarece que a filha queria um brinquedo da sala de aula e fora preciso intervir para que não levasse o objeto. Minutos mais tarde, quando a pesquisadora volta à recepção, encontra Luciana sentada no sofá com uma caneca de plástico na mão. O objeto fora oferecido por uma das mães e isso a acalmara. Todavia, a diversão das pessoas presentes (mães que estavam na recepção) era tentar tirar o objeto da criança. Luciana recua, às vezes sorri, mantendo a caneca quase atrás de si. A pesquisadora senta-se ao seu lado e comenta: - Bonita caneca. É sua? Luciana se agita, não mantém contato visual, olha rapidamente para uma senhora e estende a caneca na direção da pesquisadora, sem, contudo, olhar para a interlocutora. A seguir, parece que subitamente se dá conta de que lhe entregara a caneca e se inclina para pegá-la de volta; balbucia. A insistência em tirar os objetos de estima da criança é uma constante. Winnicott10 salienta o quanto é fundamental ao desenvolvimento psicológico, principalmente da criança, o objeto transicional, isto é, aquele que representa o seio materno; metaforicamente, o vínculo com uma situação de afeto e segurança. Consiste em um elo, um recurso que o sujeito encontra para se sentir ligado, não-só (ou seja, não autista). Luciana, sendo constantemente invadida, ainda que aparentemente não estranhasse as 19 de outubro - Conversa informal com a professora na hora do intervalo - Eu acho que ela melhorou muito. Ela chegou muito avoada. Agora ela está mais atenta, já fica ouvindo história, senta. Antes ela não sentava. Brinca com vários objetos agora, não fica mais num só. Sabe onde é a sala dela, já vem, empurra a porta, gosta muito de mim. É carinhosa, não é difícil de trabalhar, não. É boa, boa mesmo. O autismo dela é pequeno, acho que só 6%, o neurologista falou. Agora, já vai no brinquedo, no escorregador . A professora, ao se referir à porcentagem de autismo, parece atribuir a esta o bom desenvolvimento da aluna. Nisso, desconsidera seu próprio papel de educadora, até mesmo na questão do vínculo (afinal, se a garota se mostra afetiva é porque percebe afetuoso o ambiente físico e humano constituidor). O sucesso da aluna aparece vinculado estritamente à sintomatologia que, em si mesma, acarretaria maiores ou menores dificuldades. Qual o lugar, então, da mediação humana? Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 ## FREITAS ABM copo que trouxera consigo; leva-o à boca, convencionalmente, como se bebesse algo. A pesquisadora murmura também, como que compartilhando o sabor da bebida. Depois, insiste na brincadeira com o tambor, cantando. Luciana parece não se importar. Quando a pesquisadora manuseia o pandeiro, a criança pára e a observa. A pesquisadora bate com o dedo indicador na superfície do brinquedo e, a seguir, no copo. A criança pega o tambor do chão. A pesquisadora bate na superfície deste brinquedo e Luciana repete o gesto. As duas alternam batidas por alguns momentos. Minutos depois, Luciana agarra o pandeiro. A pesquisadora pega o copo que a criança soltara e começa a brincar com ele sem que Luciana se importe. Sob interatividade e a via lúdica sob mediação abre-se, diria Vygotsky11, uma zona proximal de desenvolvimento, ou seja, um espaço favorecedor de potencial. No caso, tanto abria à criança oportunidade de expressão e extensão de manifestações comunicativas e de exploração do meio, quanto, para a pesquisadora, a percepção das sutilezas que evidenciam comunicação (balbucios, olhares, ações/relações com os objetos, permissão de contato) e caminhos para o desenvolver da sociabilidade e confiança. 26 de outubro - Com a pesquisadora, no consultório de psicopedagogia Luciana pega o estojo de canetinhas sobre a cômoda. A pesquisadora mostra-lhe uma canetinha e a coloca no estojo. A criança fica atenta. A pesquisadora pede para Luciana pegar uma das canetinhas (e aponta ao solicitar). Luciana o faz. Depois, arrastando a mão sobre a cômoda, derruba a maioria delas. A pesquisadora pega uma que caíra no chão e procura tampá-la. -Tampou diz à criança. Luciana olha, atenta. A seguir, olha para o rumo da porta e dá três batidas sobre a mesa. A pesquisadora repete a ação. Luciana volta-se para a interlocutora enquanto esta guarda as canetinhas no estojo (olhar que a pesquisadora só perceberia ao ver a filmagem, posteriormente). A criança estende a mão e agarra uma canetinha. Uma pessoa abre a porta, vê a câmera e volta a fechar o recinto. Luciana pareceu ter percebido a aproximação externa e avisara à pesquisadora, sem que ela se desse conta!!! Quando se aproxima o horário da fisioterapia, a pesquisadora avisa a criança e propõe que arrumem a sala (a criança vasculhara uma caixa de brinquedos e os espalhara). Luciana segura uma boneca enquanto a pesquisadora guarda outros objetos na caixa. Depois, entrega-lhe a boneca, balbuciando. A pesquisadora embala o brinquedo oferecido, cantarolando. A criança observa a boneca, batendo-lhe com o indicador. Segura-a, mas logo volta à atenção para a caixa. Quando a pesquisadora pega o pandeiro para guardar, Luciana estende a mão para pegá-lo; fica com ele até o momento em que a estagiária vem buscá-la. 9 de dezembro - Encerramento e entrevista com o pai O pai comenta com a estagiária de fisioterapia e com a pesquisadora que Luciana fugira de casa no dia anterior e fora a pé para a casa da babá, na mesma rua. O fato de percorrer a rua sem medo e segura quanto ao destino provavelmente, supõe uma história, um conhecimento social (da rua) construído e sentido como seguro (senão, dificilmente o percorreria). Essa zona de segurança, por se figurar segura, convidava ao risco seguro de tentar o percurso sozinha tendo como destino um lugar de sentido, de afetividade: a casa da babá. O pai destaca a melhora da filha na independência e atenção: Ontem, andou sozinha em casa segurando no corrimão. 11 de novembro - Com a pesquisadora, no consultório de psicopedagogia Luciana vasculha a caixa de brinquedos, atenta. Balbucia. A pesquisadora pega o tambor vermelho e recorda: - Você ficou com esse da outra vez, lembra? A pesquisadora bate na superfície do tambor. A criança repete o gesto no brinquedo com o dedo indicador. A interlocutora responde batendo da mesma forma. Luciana desvia a atenção para o Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #$ ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL Essa conquista não teria a ver com a história das sessões de fisioterapia e do vínculo constituído com a estagiária, sobretudo nos momentos de caminhada nos aparelhos? A estagiária nota que a criança reduzira o movimento de levar o dedo ao nariz. Diante desse comentário, o pai pensa um pouco e balança a cabeça. - É... Depende... Nesse momento, Luciana, que está próximo, no colchonete, enfia com força o dedo no nariz. (Acaso ou expressão de entendimento?) As aulas de natação foram referidas pelo pai: Luciana aprendia a assoprar na água, fazendo bolhinhas. Posteriormente, ao tomar água no copo, começava, também, a brincar assim. Pensamos, então, no porquê de a criança se apegar ao copo: provavelmente a lembrança dessas aulas, não só dos exercícios em si, mas da satisfação do momento de estar na água, a animação da professora, o ambiente (físico e interpessoal), a presença de seu pai nadando junto e dialogando; enfim, a afetividade constituinte. intervalo de tempo: a estagiária que brinca constantemente de tomar o objeto da criança é a mesma que a conforta, apóia e lhe oferece outros brinquedos, procurando vínculo afetivo. A criança que desconfia das aproximações das pessoas, principalmente quando próximas ao seu objeto de estima, é a mesma que dialoga com a pesquisadora imitando ações no brinquedo e que aceita a mão da estagiária. A fisioterapeuta que orienta o trabalho focado em funções específicas do corpo para habilitação e reabilitação motora é a mesma que, durante o processo, vê a necessidade de, primeiramente, firmar o vínculo estagiária-criança. A professora, educadora experiente, tanto valoriza o bom comportamento de Luciana e o credita ao grau de deficiência quanto pouco se valoriza como educadora na constituição da aluna. A própria pesquisadora, que tencionava constatar caminhos de comunicabilidade, pedia, no início, o objeto da criança junto com a estagiária e esteve desatenta a uma sutil percepção da criança, talvez até um modo de comunicação (o momento em que ela percebeu antecipadamente que alguém se aproximara no corredor e bateria à porta do consultório). Ações, contradições, pressupostos, formas de comunicação e de interação: complexidade de um espaço de subjetividade social que constituía a subjetividade da aluna. Mas esta constituição estaria correspondendo ao atendimento às necessidades especiais de Luciana? Se o diagnóstico médico era referência maior para o início dos atendimentos clínicos e da escolarização, estaria a instituição atenta à superação da deficiência atestada? No prontuário de Luciana o parecer neuropediátrico informa deficiência mental com comportamentos autistas, mas não estão descritos quais comportamentos seriam estes nem o grau/ nível de deficiência ou comprometimento intelectual, mesmo porque, como referido, não são realizados testes padrões para tal objetividade clínica. A expressão comportamento autista possivelmente foi empregada por cautela diante de um quadro ainda bastante obscuro para a própria ciência. O DSM IV12 assinala que o transtorno autista (dito transtorno por situar-se entre os transtornos DISCUSSÃO Julgamos importante expor os comentários decorrentes dos encontros, pois assim explicita ao leitor nosso processo construtivo-interpretativo a partir dos indicadores. Os indicadores expressam uma construção, visto que são elementos selecionados como significativos por suscitarem interrogações, hipóteses, inferências e leituras decorrentes das situações observadas e vivenciadas. Apesar de estar sempre associado a um momento interpretativo, o indicador não representa uma conclusão, e sim um momento hipotético7. À medida que os indicadores se interrelacionam, facilitam a construção teórica acerca da complexidade em questão e, em conjunto, ganham valor heurístico. O estudo da constituição subjetiva compreendido nesta perspectiva epistemológica revela descontinuidades, contradições, bem como recorrências. Assim, estão presentes, por exemplo, na mesma relação interpessoal, tensão e afetividade, aproximação e desconfiança. Há, inclusive, alternância desses momentos em curto Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #% FREITAS ABM invasivos do desenvolvimento) caracteriza-se por atraso ou funcionamento anormal, iniciado antes dos três anos de idade, em pelo menos uma das seguintes áreas: interação social, linguagem para fins de comunicação social, jogos imaginativos ou simbólicos. Lorna Wing, pesquisadora referida pelo neurologista Oliver Sacks13, também faz referência a estes aspectos gerais fundamentais, observando sua interdependência. Este neurologista faz uso da expressão espectro autista, assim como Schwartzman 14 , considerando que os comportamentos característicos são numerosos a ponto de dificilmente estarem todos presentes em um indivíduo. Sacks13 pontua que, em mais de trinta anos de vida profissional, nunca encontrou autistas que fossem iguais. Entendemos, assim, que critérios clínicos objetivos e cientificamente abalizados certamente legitimaram o diagnóstico médico. Não o questionamos quanto à aplicabilidade à Luciana. Nosso foco, porém, não se dirigiu à confirmação ou não das invariantes universais, mas sim à discussão da singularidade dos processos subjetivos numa perspectiva histórica. Assim, nosso enfoque dirigiu-se a outra gênese do desenvolvimento: a gênese social que se entrelaça à primeira (a biológica), do que derivam as singularidades. Vygotsky11,15 defende a premissa de que as condições biológicas, ainda que comprometidas, reconstróem-se conforme o favorecimento da cultura, de um meio humano. Funções como a memória, a percepção, a atenção e a linguagem são potencializadas sob mediação, ou seja, em situações de interação e aprendizagem com outra pessoa (adulto ou criança) que domina certa habilidade. Maturana16 problematiza, também, o aspecto qualitativo das interações; analisa que nem todas as relações humanas são, de fato, sociais, dependendo da emoção que as fundamenta e que constitui as ações. Se não há aceitação mútua e se não há aceitação do outro, e se não há abertura para que o outro exista junto de si, só há fenômeno social. À medida que Luciana é convidada a interagir, começa a aprender significações e modos de comunicação. Nesse movimento, o organismo é potencializado a se reestruturar, diria Vygotsky 15 , de modo a compensar o comprometimento e a limitação social decorrente do defeito biológico ou deficiência. Nesse processo, é importante uma comunicação afetiva com o interlocutor. Exemplificando: de modo geral, Luciana não estranha a proximidade das pessoas, exceto quando segura um objeto. Se alguém aproxima o braço ou a mão em sua direção, recua. O movimento é instintivo, porém reflete uma história de relações sociais e uma produção de sentidos acerca destas. O movimento aproximativo do outro, perto de seu objeto, figurava-se a Luciana como gesto (comunicação) significativo de ameaça; contudo, no decorrer dos encontros, começou a aceitar aproximações. A permissão era breve, por segundos, mas suficiente para que se abrisse possibilidade de uma ressignificação: o movimento do outro próximo a seu objeto de estima nem sempre significa Vamos tirá-lo de você. Simbolizar, socializar, comunicar os aspectos em defasagem no autismo - são instâncias de constituição socioafetiva. Chamamos a atenção, portanto, para a qualidade das relações estabelecidas no espaço institucional. Presenciamos (e vivenciamos) o quanto a visão clínica se impõe nas práticas e discursos, mesmo na área escolar. As melhoras são vistas como conquistas mais ou menos naturais, como desenvolvimento espontâneo, questão de costume ao ambiente (adaptação ao meio, à rotina) e de um funcionamento neurológico estável e pouco comprometido (o suposto baixo grau de autismo). A esse respeito, lembramos uma pesquisa de Rego 17 sobre concepções de professores acerca da razão das diferenças entre alunos; a autora constatou alto índice de justificativas inatistas/ aprioristas. Subjaz a crença de que o processo maturacional, marcado biológico, alcançado pela criança é que define as possibilidades de ação educativa, posicionamento que acaba por gerar imobilismo e resignação. Essa constante da subjetividade social da instituição perpassa também no discurso e atitudes de mães e estagiários de formação clínica. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #& ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL O choro excessivo de Luciana seria, conforme aludiu uma das mães de aluno, um problema de falta de medicamento. As hipóteses mais prováveis para a agitação da criança na fisioterapia, por exemplo, ou em relação ao sono excessivo, seriam, segundo conversas informais: necessidade de alterações na medicação ou labilidade emocional, característica dos autistas. Não questionamos a validade das hipóteses, e sim o seu uso simplista para explicar uma complexidade. Nisso contribuem, por certo, conceitos predominantes de uma subjetividade social mais ampla, de um contexto histórico e sociocultural que supervaloriza o conhecimento médico, principalmente tratando-se de um contexto institucional dito especial. É histórica a influência do paradigma clínico nas escolas especiais 18 . Esses estabelecimentos foram fundados sob o conceito de ortopedia, ou seja, de operação, conserto das funções deficitárias visando a uma normalização. Importa assinalar, também, quanto à instituição de Luciana, o pouco tempo destinado ao pedagógico propriamente dito inferior a duas horas nos dias de atendimento. Além disso, a avaliação clínica triagem multiprofissional é a porta de entrada para a matrícula escolar. Assim, é comum presenciarmos os pais se referirem à escola como um lugar de tratamento para os filhos. Do tratamento é esperado, basicamente, desenvolvimento motor e da fala e possível início de alfabetização. Aspectos relacionais como o brincar e a socialização dificilmente são apontados como necessidades primordiais a serem tratadas. A dinâmica da instituição também pouco favorece a interação clínica-escola, e mesmo entre os diversos setores clínicos. O atravessamento do paradigma da produtividade concorre para a manutenção do movimento da subjetividade social da instituição: os estagiários e profissionais de reabilitação (como supervisores) precisam apresentar resultados; os horários entre os profissionais dos diversos setores clínicos e da escola não costumam coincidir. Nisso, cada setor acaba se voltando para si, (des)norteado pelo calendário e cumprimento de atribuições técnicas, havendo pouca compatibilidade para avaliações, colaboração, estudos e comunicação interprofissional. Nesse contexto, ironicamente, a instituição também se constitui sob espectro autista. CONSIDERAÇÕES FINAIS A subjetividade social da instituição está entrelaçada a uma subjetividade social mais ampla, a valores, expectativas, ações efetivadas ao longo da história e que assumiram e assumem significados importantes na cultura. O que se pensa e se espera de uma escola/instituição de especial? Acredita-se que seja esse o espaço dos especialistas, das pessoas tecnicamente preparadas para atender necessidades educacionais diferenciadas, especiais. Entretanto, tais necessidades costumam ser entendidas prioritariamente sob uma perspectiva técnica, de maior ou menor aquisição de comportamentos ou funcionalidades com vistas à adaptação. Nesse sentido, a deficiência em si aparece como um a priori que priva ou exclui. A esse respeito, Vygotsky15 chama atenção para as conseqüências sociais decorrentes da condição de deficiência: o defeito em si mesmo não traria tantos prejuízos quanto a exclusão social justificada por esse defeito. Luciana foi, a priori (em razão do defeito), privada de ser educada em uma escola regular, espaço social comum à maioria das crianças de sua idade, as quais, ao contrário dos colegas da sua classe especial, falam, brincam, conversam e interagem. O obstáculo ao desenvolvimento não vem, portanto, exclusivamente de um orgânico comprometido, mas em muito de um social que limita ou pouco oportuniza, mesmo no seio de uma instituição especial, condições para que o sujeito se relacione e aprenda na cultura e assim produza sentidos e se reestruture cognitiva, social e afetivamente. Uma instituição voltada ao atendimento das chamadas necessidades educacionais especiais não teria, também, necessidades especiais a serem atendidas para além da técnica? Vale lembrar a observação de Zaoual 19 a respeito das especializações da Ciência: à medida que elas se multiplicam, ampliam-se, contraditoriamente, zonas de ignorância a respeito do próprio Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 #' FREITAS ABM homem, visto que ocorre tendência à fragmentação. Enquanto a deficiência, em si mesma, for considerada uma patologia que mais ou menos uniformiza e serve à determinação de um encaminhamento específico (e também uniforme) a uma terapêutica e educação ortopédica, o sujeito, em sua singularidade, desenvolvimento, potenciais, linguagem e complexidade na relação com um social, é eclipsado e são cerceadas as reais necessidades e oportunidades de inclusão. SUMMARY The autistic spectre in the institutional context: constitutive aspects of development The present article mentions a case study that subsidized a qualitative research to obtain the academical degree of Master in Psychology. The objective was to try understand how the educative institute was constituting the subjectivity of a pupil. The elected school is a filantropical institution of special education and rehabilitation that attends children with mental disabilities. The pupil is a child diagnosised mental deficient with autistic behaviors. She was followed by a period of learning semester in the clinical and pedagogical spaces of the institution. The researcher acted as observer participant and, thus, followed the child at various moments and spaces of the institution, approached to get interaction with pupil and, at some moments, talked with relatives and professionals involved. The research evidenced that the institution is enphatically guided by clinical conceptions and by diagnosis and general characteristics of the deficiency. It discuss how much this conception, predominant in the social subjectivity, raise difficulties for it can be possible to look to human subject respecting his singularity and process of communication and development that occur in a social and cultural universe. This fact consists an obstruction for the attendance important educational needs. The orientation and methodological construction were based on Qualitative Epistemology, by González Rey, and the constructioninterpretation was explained by the historical-cultural perspective of the human development, whose main exponent is L.S.Vygotsky. KEY WORDS: Autism. Subjectivity. Human development. Disability. Special education. AGRADECIMENTO À professora Dra. Mercedes Villa Cupolillo, que, como minha orientadora de mestrado, contribuiu significativamente para a construção desta pesquisa. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 $ ESPECTRO AUTISTA NO CONTEXTO INSTITUCIONAL REFERÊNCIAS 1. Wer ner J. Saúde e educação. Rio de Janeiro:Gryphus;2001. 2. Soares M. Linguagem e escola: uma perspectiva social. São Paulo:Ática;1987. 3. Ceccon C, Oliveira MD, Oliveira RD. A vida na escola e a escola da vida. Petrópolis:Vozes / IDAC;1984. 4. Garcia RL, org. Alfabetização dos alunos das classes populares: ainda um desafio. São Paulo:Cortez;1993. 5. Esteban MT. O que sabe quem erra? Reflexões sobre avaliação e fracasso escolar. Rio de Janeiro:DP&A;2001. 6. Amaral LA. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. In: Aquino, JG, orgs. Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo:Summus;1998. 7. González Rey FL. Pesquisa qualitativa: caminhos e desafios. São Paulo:Thomsom Pioneira;2002. 8. González Rey FL. Epistemologia cualitativa y subjetividad. São Paulo:EDUC;2003. 9. Fernandez A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre:Artes Médicas;1991. 10. Winnicott D. Brincar e a realidade. Rio de Janeiro:Imago;1975. 11. Vygotsky LS. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo:Martins Fontes;1989. 12. Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-IV. Porto Alegre:Artmed;1995. 13. Sacks O. Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais. São Paulo:Companhia das Letras;1995. 14. Schwartzman JS. Neurodesenvolvimento e aprendizagem. Curso promovido pela Associação Brasileira de Psicopedagogia seção Goiás. Goiânia;2007. 15. Vygotsky LS. The fundamentals of defectology. In: The collected works of L.S. Vygotsky. New York:Plenum Press;1993. 16. Maturana H. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte:Editora UFMG;2001. 17. Rego TCR. Educação, cultura e desenvolvimento: o que pensam os professores. In: Aquino JG, orgs. Diferenças e preconceito na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo:Summus;1998. 18. Kassar MCM. Deficiência múltipla e educação no Brasil: discurso e silêncio na história de sujeitos. Campinas:Autores Associados;1999. 19. Zaoual H. Globalização e diversidade cultural. São Paulo:Cortez;2003. O presente artigo refere-se a um estudo de caso que subsidiou uma pesquisa qualitativa de Mestrado em Psicologia da autora, a qual foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Sociedade Goiana de Cultura/Universidade Católica de Goiás de Goiânia, Goiânia, GO. Artigo recebido: 05/01/2008 Aprovado: 11/03/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 49-61 $ ET AL. RELATOCEZAR DEKPL EXPERIÊNCIA ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS Kelly Priscilla Lóddo Cezar; Nayra Carolina Bueno de Morais; Geiva Carolina Calsa; Edson Carlos Romualdo RESUMO - O presente artigo teve por objetivo apresentar os resultados de uma criação e aplicação de um jogo de regras, elaborado pelos pesquisadores, sobre o conteúdo de acentuação gráfica, a fim de evidenciar a capacidade de promover melhorias acerca do tema proposto juntamente com o processo de intervenção psicopedagógica. O ponto de partida foram os resultados divulgados por pesquisas e dados oficiais, que revelam um baixo desempenho na aprendizagem de diversos conteúdos escolares. Reflexões acerca das metodologias de ensino são de grande relevância, uma vez que estudos vêm demonstrando que o uso de jogos como recurso didático pode melhorar o desempenho dos alunos em diferentes áreas do conhecimento. Para aplicação do jogo no testes piloto, a pesquisa contou com três alunos que estudavam em redes públicas do município de Maringá/ PR. A escolha foi relacionada à série escolar a qual freqüentavam, ou seja, entre 4ª e 5ª série. Os resultados preliminares evidenciaram que a intervenção psicopedagógica com o uso de jogos de regras facilita o processo de tomada de consciência acerca das regras de acentuação, bem como contribui para o aperfeiçoamento de esquemas cognitivos essenciais para a construção do conhecimento, revelando a importância dessa metodologia para o processo de ensino e aprendizagem dentro e fora da escola. UNITERMOS: Educação. Jogos e brinquedos. Escrita manual. Kelly Priscilla Lóddo Cezar - Mestranda do curso de pós-graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá, Maringá /PR. Nayra Carolina Bueno de Morais - Graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá/ PR (PIBIC/CNPq). Geiva Carolina Calsa - Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação e do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá. Doutora em Educação/UNICAMP. Edson Carlos Romualdo - Professor do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual de Maringá. Doutor em Letras/UNESP. Correspondência Kelly Priscilla Lóddo Cezar Rua Aristides Lobo, 97 apto 501 - Maringá PR - CEP 87030-240 e-mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $ ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS dos indivíduos. Baseando-se na Epistemologia Genética de Jean Piaget, os autores destacam a ocorrência da formação de possíveis* e da tomada de consciência**, mecanismos essenciais para a construção do pensamento, e que ocorrem durante o desenvolvimento dos jogos de regras. Pesquisas realizadas anteriormente 12,13 mostram que o ensino da sílaba tônica e das regras de acentuação gráfica apresenta equívocos em sua abordagem didático-pedagógica. Nesses estudos, realizados em uma escola pública central do município de Maringá/PR, os autores observaram que o conjunto de livros didáticos adotados pela escola apresentava confusão conceitual entre estes dois conteúdos. Além disso, perceberam que os professores, ao utilizarem esses manuais, reproduziam a confusão conceitual aí contida. A mesma confusão foi confirmada pelas observações das aulas de língua portuguesa desses professores. A partir desses dados, os pesquisadores propuseram-se a realizar uma intervenção pedagógica com os alunos dos professores entrevistados e observados. A intervenção teve como foco central investigar a possibilidade de modificação dos conceitos e procedimentos de resolução de tarefas de tonicidade e acentuação gráfica por meio da tomada de consciência da diferença entre linguagem oral e escrita com alunos de 4ª e 5ª séries. Nas duas séries foram identificados os alunos que apresentavam as médias mais baixas no Teste de Dificuldade de Aprendizagem em Escrita14. Os alunos foram divididos em dois quintetos homogêneos quanto ao desempenho no teste de escrita: um grupo experimental e dois grupos de controle. A coleta de dados foi realizada por meio de três testes (pré-teste, pós-teste e pós-teste postergado) e entrevistas individuais sobre tonicidade e acentuação gráfica. Os resultados dos testes e das entrevistas confirmaram a hipótese inicial da pesquisa sobre a possibilidade de melhoria do desempenho dos alunos com rendimento insatisfatório submetidos ao processo de intervenção psicopedagógica nas duas séries investigadas. Os grupos INTRODUÇÃO O presente artigo tem por objetivo apresentar os resultados da criação e aplicação de um jogo de regras sobre acentuação gráfica com alunos de 4ª e 5ª séries do ensino fundamental e suas possibilidades de uso no atendimento psicopedagógico. Considera-se oportuna a criação de recursos didáticos que facilitem a aprendizagem da linguagem escrita no ensino fundamental, em especial, de alunos com dificuldade de aprendizagem. Os dados do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB)1 e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA)2 revelam o rebaixamento crescente do desempenho dos alunos ao final da primeira etapa do ensino fundamental. Segundo essas informações, em relação às avaliações anteriores que demonstravam quedas consecutivas na média de desempenho, houve uma melhora, mas ainda assim relativamente baixa. Conforme esses documentos, os alunos continuam apresentando defasagem escolar de duas séries, ou seja, os alunos de 6 a série apresentam desempenho que corresponde ao esperado dos alunos de 4ª série e os de 4ª, de 2ª série. O desempenho insatisfatório dos alunos é explicado em vários estudos, entre outros aspectos, pela ineficiência das metodologias de ensino de língua portuguesa que vêm sendo utilizadas pelas escolas3-5. Por outro lado, vários estudos, entre eles o de Póvoa6, vêm mostrando que os jogos de regras ao serem utilizados como recursos didático-pedagógicos podem melhorar o rendimento dos alunos na área de Português, além da Matemática. Bertoni7, em outro estudo, verificou que os jogos promovem a aquisição e o fortalecimento de habilidades e estratégias cognitivas, ampliando as possibilidades de aprendizagens escolares e não-escolares. De acordo com Macedo, Petty e Passos (2000)8 e Brenelli (1996)9, levando em consideração que são vários os processos cognitivos que ocorrem no contexto do jogo de regras, uma intervenção de caráter psicopedagógico com sua utilização é capaz de favorecer a melhoria da aprendizagem ∗ Piaget10 define Formação de Possíveis como sendo criações lógicas, dependentes da interação e da interpretação de cada sujeito, que busca diferentes soluções para vencer um mesmo desafio, diferentes possibilidades de como agir diante de uma situação problema. ** Na Epistemologia Genética, o termo Tomada de Consciência refere-se a um processo gradativo de construção do conhecimento. Dessa forma, o conhecimento não se encontra no indivíduo e nem no objeto de conhecimento, mas na interação entre eles (Piaget, 1978)11. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $! CEZAR KPL ET AL. teórico-metodológica a Epistemologia Genética e o método clínico de Jean Piaget. A expectativa dos autores é de que esse jogo possa ser utilizado como um recurso didático em pequenos e grandes grupos de alunos, nas aulas de língua portuguesa, sob a supervisão e orientação dos professores, assim como um instrumento psicopedagógico auxiliar no atendimento clínico. experimentais, além de terem aumentado a quantidade de acertos na acentuação de vocábulos, evidenciaram modificações qualitativas para maior no que se refere à diferença entre tonicidade e acentuação gráfica, essencial para a compreensão do sentido da acentuação na língua portuguesa. Ao final da pesquisa apresentada, os resultados do grupo experimental aproximaramse dos manifestados pelos alunos do grupo controle (com desempenho satisfatório em escrita) desde o início da pesquisa. Em contrapartida, o grupo controle composto pelos alunos com desempenho insatisfatório em escrita, mas que não foram submetidos ao processo de intervenção manifestou redução do número de acertos e baixa qualidade de sua argumentação em relação ao tema em foco. Os dados quantitativos e qualitativos obtidos pelo grupo experimental sugeriram que a modificação conceitual ocorrida com os alunos deveu-se à influência positiva da intervenção pedagógica realizada. Segundo esses dados, experiências dessa natureza mostram que é possível ensinar gramática de forma não algorítmica, sem abrir mão das normas da linguagem escrita, por meio de um método de ensino que permita a tomada de consciência dos alunos sobre os conceitos e procedimentos envolvidos na realização das tarefas gramaticais13. Durante o experimento descrito, ao privilegiarem paralelamente a diferenciação da linguagem escrita e oral, os pesquisadores asseguraram a aprendizagem da escrita em sua forma padrão e a variação dialetal da fala. Cezar, Calsa e Romualdo13 assinalam que o ensino dessas duas formas de linguagem inseridas em uma perspectiva crítica resgata a instituição escolar como um espaço de emancipação intelectual e social dos indivíduos com dificuldades de aprendizagem, bem como de prevenção de dificuldades futuras. Essas constatações serviram de estímulo à organização de um novo conjunto de intervenções, agora com o uso de um jogo de regras sobre acentuação gráfica. No presente artigo, será descrito o funcionamento do jogo criado pelos pesquisadores, bem como sua aplicação-piloto com um pequeno grupo de alunos de 4ª e 5ª séries. O jogo de regras foi criado a partir de um olhar psicopedagógico sobre a aprendizagem e teve como sustentação JOGO DE REGRAS E TOMADA DE CONSCIÊNCIA Para vários autores8,9,15, o jogo constitui-se uma das formas mais promissoras para a aprendizagem escolar. Trata-se de uma atividade que interfere diretamente no desenvolvimento da imaginação, da representação simbólica, dos sentimentos, do prazer, das relações, do movimento, da autoimagem e do desenvolvimento cognitivo dos indivíduos. Segundo Piaget10, o jogo segue uma evolução que se inicia com os exercícios funcionais, continua no desenvolvimento dos jogos simbólicos, evolui no sentido dos jogos de construção para se aproximar, gradativamente, dos jogos de regras. Para Macedo15, os jogos de regras podem ser considerados o coroamento das transformações que a criança chega quando atinge a reversibilidade do pensamento. O autor salienta que, no jogo de regras, jogar e compreender o jogar implica assimilação recíproca de esquemas de pensamento e de ação, e a coordenação de diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. Essa coordenação permite o descentramento do sujeito e a possibilidade de reciprocidade interpessoal com seus parceiros de atividade. Devido ao seu caráter eminentemente social, o jogo de regras favorece a cooperação entre os indivíduos ao submeter suas ações às normas do grupo. Além disso, ao tentar resolver os problemas originados no desenvolvimento do jogo, o sujeito cria estratégias e as avalia em função dos resultados obtidos e das metas a alcançar na atividade. Brenelli9 destaca que, ao se deparar com um objeto desconhecido, o sujeito passa por perturbações cognitivas que podem ou não gerar desequilíbrio. Se o sujeito fracassa diante dessa nova situação e a encara como uma situação-problema, estas ações originam conflitos e contradições por parte do indivíduo e desencadeiam mecanismos de equilibração cognitiva. Nesse momento, os mecanismos de regulação atuam buscando a Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $" ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS compreenda todas as suas ações no plano do fazer , interiorizando-as e chegando à conceituação. O conhecimento dos meios utilizados para alcançar o objetivo do jogo, bem como da razão da escolha ou modificação dos procedimentos, ocorre no plano da representação. Por essa razão, a tomada de consciência pode ser considerada a passagem da ação prática para o pensamento ou, em outras palavras, a transformação dos esquemas de ação em conceitos. Ação e compreensão da ação, de acordo com a Epistemologia Genética, são processos autônomos e, ao mesmo tempo, interdependentes. O conhecimento pode ser classificado em três níveis: ação; ação e compreensão; e compreensão. O primeiro nível, da própria ação, não depende da compreensão dessa ação, constituindo-se em um fazer autônomo. O segundo nível, da ação e compreensão, consiste em ações que se realizam com a intencionalidade do êxito. O terceiro nível, da compreensão, consiste em reflexão sobre o fazer e o pensar que leva à conceituação. Nesse contexto, fazer significa realizar uma ação atingindo um fim proposto, construir procedimentos que não dependem necessariamente de sua compreensão; compreender, por sua vez, significa representar as ações por meio do pensamento, sendo capaz de explicá-los e justificá-los. Os jogos abordam esses dois aspectos, pois, ao mesmo tempo, é necessária a construção de procedimentos e a compreensão do porque se ganhou ou perdeu para ser capaz de construir procedimentos adequados visando ao êxito. Os procedimentos possíveis elaborados durante o jogo de regras têm a intenção de preencher uma lacuna, sanar um desafio, buscando diferentes meios para alcançar o êxito. O procedimento considerado o mais adequado para a resolução de um determinado problema constitui-se o necessário, ainda que provisório, para o sucesso desta tarefa. Tomando como referência a Epistemologia Genética, a coordenação entre os procedimentos possíveis e o necessário favorece a realização de uma ação mais adequada às limitações e necessidades da atividade do jogo. Os possíveis e o necessário constituem os esquemas procedurais, um dos três tipos de esquemas que fazem parte do sistema cognitivo. Os esquemas presentativos estão re-equilibração do sistema cognitivo, compensando as perturbações resultantes da interação do sujeito com o objeto de conhecimento e promovendo sua adaptação à realidade. Esse processo apresenta um caráter construtivo, devido à construção de novos conceitos, procedimentos e estruturas mentais mais complexas, ou seja, o aprimoramento das estruturas mentais já existentes. Dessa forma, o desequilíbrio cognitivo permite ao sujeito ultrapassar o estado atual de conhecimento, realizando construções e reconstruções conceituais. Baseando-se na Epistemologia Genética, Brenelli9 e Macedo et al.8 comentam que, além do processo de equilibração, no jogo pode ser promovida a tomada de consciência, entre outros mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento do pensamento. Na medida em que desencadeiam conflitos cognitivos, os jogos permitem aos indivíduos descobrir, inventar, compreender, antecipar, construir possibilidades de ação e de raciocínio, bem como tomar decisões sobre a alternativa de ação necessária para o sucesso do indivíduo em cada jogada. Brenelli 9 assinala que conhecer os meios empregados para alcançar o objetivo de um jogo e as razões desta escolha ou de sua modificação significa uma reconstrução no plano da representação do que era dominado pelo sujeito como ação. O processo de tomada de consciência pode ser favorecido, dessa maneira, pela verbalização dos procedimentos de jogo. Sob a ótica da Epistemologia Genética, a verbalização envolve explicações sobre o que, como e porque os sujeitos executaram seus procedimentos. A utilização da fala organizada é capaz de favorecer a compreensão dos conceitos e procedimentos utilizados na resolução das situações-problema enfrentadas pelos sujeitos. Para a autora, uma intervenção com uso de jogos de regras precisa levar em consideração todo esse processo de aquisição do conhecimento para favorecer o desenvolvimento do pensamento e a aprendizagem de conceitos. Para obter êxito nos jogos é preciso compensar os desafios ou perturbações que as situações-problema oferecem por meio da verificação de erros ou lacunas para, finalmente, chegar à tomada de consciência necessária para a construção de novas estratégias de jogo. A tomada de consciência acontece por meio de regulações ativas que implicam em reconstruções sucessivas e conscientes, fazendo com que o sujeito Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $# CEZAR KPL relacionados aos atributos permanentes e simultâneos dos objetos; enquanto os esquemas operatórios resultam da coordenação dos esquemas procedurais e presentativos. Os esquemas são complementares: a assimilação recíproca dos esquemas presentativos e operatórios permite ao indivíduo compreender a realidade física; enquanto a assimilação recíproca dos esquemas procedurais e operatórios favorece o êxito das ações, desde as elementares até a resolução de problemas abstratos. Segundo Macedo 8 , o Laboratório de Psicopedagogia (LaPp) do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo realiza intervenções psicopedagógicas com uso de jogos de regras com o objetivo de promover o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem escolar de alunos de 1a a 4a série (7 a 12 anos). Nesses ateliês, crianças com dificuldades de aprendizagem são colocadas frente a situaçõesproblema, nas quais os jogadores são levados a agir de forma consciente e intencional. Os pesquisadores constataram que, na situação de jogo, os participantes passam por quatro etapas: exploração dos materiais e aprendizagem das regras, prática do jogo e construção de estratégias, resolução de situações-problema e, por último, análise das implicações das jogadas. O caráter progressivo dessas ações no decorrer do jogo evidencia a ação construtiva do sujeito que toma o jogo como objeto de seu conhecimento. Cabe ao educador observar esse processo, estimulando o sujeito a pensar em voz alta sobre suas jogadas com a finalidade de explicá-las, analisá-las e justificá-las. Esse tipo de intervenção permite que o aluno adquira constantemente a possibilidade de generalizar suas conquistas para outros âmbitos (familiar, social e escolar)8. A forma de pensar e agir nos jogos de regras pode vir a ser aplicada em outras situações escolares ou da vida cotidiana. O autor lembra que o uso do jogo de regras como recurso escolar exige conhecimento de sua estrutura e clareza de seus objetivos por parte do educador. A partir dessa necessidade, indica alguns aspectos que acredita devam ser estabelecidos previamente à utilização escolar do jogo: objetivo (o quê?) - definir antecipadamente o objetivo ou a finalidade do jogo para direcionar o trabalho e dar significado às atividades; público (para quem?) - determinar ET AL. os sujeitos (faixa etária e número de participantes); materiais (com o quê?) organizar, separar e produzir antecipadamente o material a ser utilizado (quantidade necessária e material excedente para possíveis estragos); adaptações (de que modo?) - programar algumas adaptações e modificações para simplificar ou tornar mais desafiante (propor situações); tempo (quando e quanto? - calcular o tempo necessário e disponível (geralmente jogar ocupa um tempo maior do que o previsto); espaço (onde?) - definir o local para o bom andamento do jogo; organização espacial; dinâmica (como?) planejar estratégias desde as instruções até a finalidade do jogo, tendo flexibilidade para fazer alterações caso deparar-se com situações imprevistas; papel do adulto (qual a função?) apresentar o jogo, atuar como jogador, assistir uma partida, ser o juiz, realizar a intervenção psicopedagógica; proximidade dos conteúdos (qual o recorte?) - pensar nos aspectos que se relacionam os conteúdos ou temas discutidos, que o profissional quer valorizar com as crianças; avaliação da proposta (qual o impacto produzido? - análise crítica dos resultados obtidos, com o intuito de melhorar alguns aspectos necessários; continuidade (como conceituar e o que fazer depois?) - estabelecer uma periodicidade que garanta a permanência da proposta e a elaboração de possíveis seqüências para as atividades, estabelecendo objetivos futuros a serem atingidos. Segundo Macedo8, a atividade escolar com jogos pode exercer uma função preventiva em relação a dificuldades de aprendizagem ou de seu atendimento depois de instaladas. O jogo constituise importante fonte de informação acerca do pensamento dos sujeitos, observados nos gestos, nas palavras, nas hipóteses formuladas e na maneira como enfrentam os obstáculos e dificuldades. ACENTOLÂNDIA- A CRIAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS O jogo de regras denominado Acentolândia foi criado pelos autores com o objetivo de promover a aprendizagem e a compreensão do processo de acentuação gráfica, área mais afetada pelas novas regras ortográficas - Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa a serem implementadas nos países de língua portuguesa Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $$ ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS a partir do ano de 2009 (Academia Brasileira de Letras, Decreto 43/91). Tendo em vista a abordagem psicopedagógica e construtivista que se pretendeu imprimir ao jogo, optou-se pela investigação dos conceitos e procedimentos envolvidos na tarefa de acentuação gráfica a partir do estudo do processo de tomada de consciência, um dos processos envolvidos na aprendizagem dos indivíduos, segundo a Epistemologia Genética. Esta teoria também serviu como referência para a revisão da literatura sobre o uso de jogos de regras na instituição escolar e adaptação do método clínico durante a aplicaçãopiloto do jogo Acentolândia. Os princípios da Fonética e da Fonologia (prosódia e ortografia) foram utilizados para fundamentar a discussão sobre as normas de acentuação gráfica da língua portuguesa. A estrutura do jogo foi direcionada a alunos com idade entre 10 e 12 anos, uma vez que o conteúdo de acentuação gráfica é normalmente ensinado pelas instituições escolares públicas entre a 4ª e a 5ª série do ensino fundamental. As regras de acentuação e as palavras presentes no jogo foram selecionadas de acordo com as dificuldades de aprendizagem encontradas em alunos dessas séries a partir dos dados de pesquisa anterior13. Este estudo concluiu que a existência de confusão conceitual entre a língua oral e escrita é a causa principal das dificuldades dos alunos nas tarefas de acentuação gráfica. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais3, é nessas séries que a diferenciação entre a oralidade e as normas ortográficas deve ser concluída. Para Romualdo16, a escrita não pode ser compreendida como tendo o mesmo funcionamento da fala porque a escrita não funciona como um espelho da fala, ou seja, ambos são aspectos complementares, mas não idênticos. Segundo Borba 17, o ato da fala é diferente do ato da escrita, pois não se fala da mesma forma como se escreve e vice-versa. A fala apresenta variantes lingüísticas e, diferentemente da escrita, um caráter coletivo e espontâneo. Esta peculiaridade acaba caracterizando-a como menos formal e dependente das situações concretas em que se realiza. A linguagem escrita, ao contrário, apresenta um caráter individual e abstrato, bem como a predominância de elementos lógicogramaticais. O jogo foi organizado de maneira a favorecer o reconhecimento de que a ortografia busca neutralizar as variantes lingüísticas e evitar que os indivíduos escrevam da forma como falam e viceversa, pois são as normas ortográficas que garantem a escrita universal, embora não a leitura padrão. Ao universalizar e padronizar a escrita, a ortografia evita o preconceito lingüístico e abre caminho para a leitura em qualquer variedade dialetal18. RELATO DA EXPERIÊNCIA Para atingir os objetivos propostos, organizouse o jogo com os seguintes componentes: um tabuleiro, 80 cartões com palavras, 80 cartas de dicas, seis peões, um dado, cartões de ajuda, um quadro de regras, fichas e fichas de dicas (numeradas de 1 a 5). O tabuleiro é composto por 39 casas (Figura 1), e durante o desenvolvimento do jogo, dependendo da casa onde o jogador estacionar o seu peão, encontrará obstáculos ou ajudas, como: volte para saída - faz retornar à saída do jogo; ganhe uma dica - o jogador retira do envelope de dicas uma que pode ser utilizada no momento em que o jogador considere necessário (quanto menos dicas o jogador utilizar, melhor seu desempenho no jogo, pois, de acordo com a quantidade de dicas que precisou utilizar menor será a quantidade de casas que o jogador poderá andar); volte uma casa; volte duas casas ou volte três casas e não jogue uma rodada criam uma maior expectativa do jogador em relação às próximas jogadas; avance uma casa - leva o peão uma casa à frente; troque de lugar com o peão da frente - leva o peão que está atrás para a frente de outro; jogue mais uma vez solicita outra carta e joga novamente; vale uma ajuda retira um cartão do envelope ajuda e utiliza quando considerar necessário; perde uma dica perde uma dica na rodada seguinte; se acertou a regra, avance mais uma casa leva o peão a uma casa à frente. Se o jogador não acertar a regra, sofrerá as punições previstas no jogo, como: andar para trás uma vez (se errar a regra) e permanecer no lugar em que está (se não responder a regra). As regras do jogo foram organizadas de modo a levar os alunos a analisar as dicas fornecidas pelas cartas e passarem a usá-las para cair em casas que apresentem ajudas e não obstáculos. Podem participar do jogo entre dois e quatro jogadores e começa quem obtém o maior número Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $% CEZAR KPL jogado no dado. Para dar início ao jogo, as fichas e os envelopes devem ser colocados em cima da mesa; o quadro de regras estará virado para baixo; as cartas de dicas devem ser organizadas em ordem numérica; os cartões de palavras são embaralhados, e cada jogador deverá escolher um peão colorido para iniciar a jogada no círculo do tabuleiro denominado saída. Cada jogador, em sua vez, entre as cartas embaralhadas escolhe uma palavra. A carta de dicas correspondente a esta palavra ficará com outro jogador que nesse momento cumprirá o papel de instrutor do jogo. Estas cartas contêm cinco dicas e a regra de acentuação da palavra selecionada. A quantidade de dicas que é fornecida ao jogador pelo instrutor do jogo depende do numeral sorteado ET AL. entre cinco fichas que indicam os algarismos 1, 2, 3, 4 e 5 (assim se no sorteio obtiver o algarismo 5, o jogador receberá a quantidade correspondente de dicas). As fichas recebidas devem ser colocadas sobre o local apropriado do tabuleiro, indicando quantas e quais dicas deverão ser lidas. Antes de escolher a quantidade de dicas, o jogador pode arriscar dizer a regra de acentuação da palavra selecionada valendo tudo (o retorno de seis casas, se errar, ou o avanço de seis casas, se acertar). Nesse caso, dependendo da quantidade de dicas que o jogador fizer uso, poderá avançar casas do tabuleiro: se não utilizar dicas, poderá avançar seis casas, uma dica, avançará cinco casas, duas dicas, avançará quatro casas, e assim por diante. Figura 1 - Tabuleiro do jogo Acentolândia. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $& ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS As dicas podem dificultar ou facilitar a identificação da regra de acentuação das palavras, pois apresentam afirmações como: identificação da sílaba tônica da palavra (na palavra MÁGICO, o jogador pode se beneficiar da dica de que a palavra tem como sílaba tônica a partícula má); classificação das palavras como oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas; indicação da quantidade de sílabas que a palavra selecionada possui; indicação da quantidade de letras, de vogais e consoantes que a palavra contém; informação de que a palavra selecionada apresenta a mesma regra de acentuação de outra palavra como: CASTELO E CABELO. Nessa situação, as duas palavras são paroxítonas terminadas em O e, por isso, não levam acento gráfico. Certas dicas oferecem a escolha de uma ajuda ao jogador (o quadro de regras, o colega responde ou a troca da palavra). Para a organização do jogo Acentolândia, as palavras selecionadas se limitaram ao leque vocabular dos alunos de 4ª e 5ª série, identificado nos livros didáticos e de literatura usados por essas séries em escolas públicas. Essas palavras contemplaram apenas os substantivos, uma vez que a acentuação de verbos e adjetivos não faz parte do conteúdo escolar dessas séries investigadas. Por essa razão, o jogo contempla apenas as regras de acentuação gráfica referentes a monossílabos tônicos, palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. As palavras oxítonas acentuadas terminadas em e (s) escolhidas foram CAMPONÊS e CAFÉ, cuidando para não utilizar a palavra JAPONÊS, por exemplo, que no caso poderia favorecer a elaboração de uma falsa regra: oxítonas terminadas em PONÊS são acentuadas. Conforme as dicas são reveladas, os sujeitos levantam hipóteses acerca da regra de acentuação gráfica da palavra em foco. Algumas dicas têm o intuito de apenas fixar alguns conceitos como é o caso do til e do cedilha, que não são acentos, ou de que determinada palavra possui tantas vogais ou consoantes. Outras dicas revelam a própria classificação da palavra (oxítona, paroxítona e proparoxítona), restando ao sujeito apenas a identificação da terminação da palavra para a construção da regra de acentuação gráfica. As cartas de ajuda do jogo são de três tipos: quadro de regras utilizado para que os jogadores consigam observar as regras gerais, auxiliando-os para as próximas jogadas - a função do quadro de regras é que os jogadores percebam que essa ajuda garante a acentuação de acordo com as regras ortográficas; o colega responde esta modalidade não pode ser recorrida pelo colega indicado, ou seja, o colega não pode se negar a responder. Se o colega indicado errar a regra, volta uma casa com o próprio peão e, se ocorrer acerto, o jogador da vez é que anda o número de casas conforme as dicas utilizadas; a troca da palavra o jogador pode escolher outra palavra para descobrir a regra de acentuação gráfica, porém não poderá utilizar mais dicas, utilizando apenas as que restaram. Na ajuda o colega responde, o jogador da vez e o colega indicado devem chegar a um acordo quanto à resposta a ser dada, porém, em caso de discórdia, prevalece a resposta do colega indicado para responder. De qualquer maneira, essa ajuda é muito válida, pois permite a discussão de diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. De acordo com Macedo15, o contexto de jogos permite a coordenação de pontos de vista variados, o descentramento do sujeito, bem como a possibilidade de reciprocidade interpessoal com seus parceiros de atividade. O fornecimento de dicas foi adaptado do jogo Perfil Júnior, pois estas permitem a criação de possibilidades, bem como sua eliminação para o fechamento em uma regra de acentuação gráfica. A apresentação do tabuleiro, as posições das casas e as cartas de AJUDA foram adaptadas do Jogo da Vida (a AJUDA é equivalente à bonificação apresentada no dia do pagamento). O Show do Milhão inspirou a carta de auxílio ao colega equivalente à ajuda aos universitários. As jogadas são mais rápidas e divertidas se os jogadores tomarem consciência das particularidades da oralidade e da escrita. Para alcançar a última casa do tabuleiro, o jogo prevê a coordenação de três variáveis relacionadas à oralidade e às convenções ortográficas. Segundo Cezar, Calsa e Romualdo12, para que o aluno compreenda o processo de acentuação gráfica deve ultrapassar pelo menos três etapas. A primeira refere-se ao saber separar as sílabas sem vinculá-las à sua tonicidade, e não separar indevidamente os ditongos e hiatos. Esses equívocos são típicos de alunos que confundem Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 $' CEZAR KPL ET AL. e IS mantiveram a mesma quantidade de erros da atividade do círculo - quatro e dois, respectivamente; AC apresentou somente um erro. Os resultados do processo de aplicação-piloto do jogo de regras foram analisados sob dois pontos de vista: epistemológico e lingüístico. Sob o ponto de vista epistemológico, foram analisados os níveis de tomada de consciência relativos à resolução da tarefa de acentuação gráfica, adaptados de Piaget 11 e Cezar, Calsa e Romualdo13. Da perspectiva lingüística, os dados foram analisados a partir dos estudos que abordam as similaridades e as diferenças da língua falada e a língua escrita19,20. Quanto à tomada de consciência das regras de acentuação gráfica, MA iniciou a aplicaçãopiloto no nível IB: não dominava a separação silábica, às vezes, identificava a sílaba tônica dos vocábulos e classificava as palavras em oxítona, paroxítona e proparoxítona, não dominava as regras de acentuação gráfica, e não se mostrava capaz de explicar e justificar cada um desses conceitos e procedimentos. Pode-se afirmar que nesse nível o aluno realizava as tarefas de acentuação como um algoritmo. O aluno IS foi classificado no nível IIA: dominava a separação silábica, identificava a sílaba tônica, às vezes, confundia os termos sílabas e palavras e não mostrava domínio das regras de acentuação. Esse nível caracteriza-se pela solução de compromisso estabelecida entre sua ação que ainda é predominantemente algorítmica e o início de descentralização da acentuação gráfica em relação à fala do sujeito. O aluno AC também se localizava no II nível, porém no subnível IIB, pois justificava a acentuação gráfica com maior êxito em relação à escrita, desvinculando-a gradualmente da fala. Do ponto de vista lingüístico, os alunos apresentavam contradição em seu desempenho nas duas atividades de acentuação. Embora abordassem as mesmas palavras, cada uma dessas atividades exigia diferentes habilidades: no círculo visual ou domínio de regras, enquanto no ditado pronúncia. O aluno AC manifestou conduta contraditória ao acentuar as palavras súditos e camponês no ditado e deixando-as sem acento na atividade do círculo. Vale ressaltar que AC saiu-se melhor justamente na tarefa em que teve apoio da fala do professor acentuando tonicamente as sílabas de cada palavra. Seu a oralidade e a escrita. A segunda etapa diz respeito à classificação da sílaba tônica de vocábulos isolados (oxítona, paroxítona e proparoxítona), pois com a separação silábica as palavras tendem a perder o ápice silábico. Na terceira etapa, a oralidade deve ser desvinculada da escrita, fato que gera a dependência exclusiva da acentuação gráfica em relação às convenções ortográficas (terminações das palavras para os monossílabos tônicos, oxítonas e paroxítonas). Além desses aspectos, o jogo não permite que os jogadores elaborem pseudo-regras de acentuação gráfica a partir da terminação das palavras. Por essa razão, a seleção dos vocábulos dos cartões de palavras atentou para a não repetição de palavras com a mesma terminação e que pertencessem a uma mesma classificação como: GRAMÁTICA, MATEMÁTICA. Desse modo, fica claro que a acentuação dessas palavras se deve ao fato de serem classificadas como proparoxítonas e não porque terminam em TICA. Para a compreensão das regras de palavras oxítonas acentuadas, por exemplo, foram selecionadas 10 palavras, sendo duas de cada terminação (A, E, O, EM e ENS). Entre as oxítonas acentuadas terminadas em A(s), E(s) e O(s), tomou-se o cuidado para que suas penúltimas letras (a, e, o) não se repetissem para evitar a construção de uma pseudo-regra, como são acentuadas oxítonas terminadas em a(s), e(s) e o(s). APLICAÇÃO-PILOTO DO JOGO DE REGRAS ACENTOLÂNDIA Fizeram parte da aplicação-piloto do jogo de regras Acentolândia três estudantes (IS; AC; MA) da rede pública do município de Maringá/ PR, pertencentes à 4ª e 5ª séries. Antes do início desse processo, os alunos foram submetidos a um teste de escrita - ADAPE14 e de acentuação gráfica organizado pelos pesquisadores. Na avaliação da aprendizagem, IS, pertencente à 5ª série, em razão da reduzida quantidade de erros cometidos oito erros foi considerado sem dificuldades de aprendizagem em escrita. O aluno AC manifestou dificuldade de aprendizagem leve com 13 erros; e MA 29 erros, manifestando um grau médio de dificuldade de aprendizagem. No teste de acentuação gráfica - exercício do círculo MA apresentou quatro erros, enquanto IS e AC, dois erros. No exercício do ditado de palavras, MA Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 % ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS desempenho foi inferior na tarefa na qual dependeu apenas de sua rememoração visual ou domínio das regras de acentuação gráfica. MA não acentuou suditos e palacio, mas acentuou camponés na sílaba adequada utilizando o acento agudo, e deu-se conta do acento da palavra magicá, embora na sílaba incorreta cá. No ditado de palavras, manteve os equívocos em suditos e palacio, e nos vocábulos camponês e mágica observou-se comportamento contraditório nas duas tarefas: no círculo de palavras acentuou camponés, mesmo que de forma equivocada, enquanto no ditado não a acentuou. O mesmo ocorreu na palavra mágica, acentuada somente no exercício do círculo. O aluno IS não acentuou as palavras campones e suditos, tanto na atividade do círculo como no ditado de palavras, não apresentando assim contradição na realização das duas atividades. Os dados iniciais dos alunos confirmam as conclusões de estudos anteriores dos pesquisadores (Cezar, Calsa e Romualdo13) sobre a predominância da influência da fala sobre as decisões dos alunos em relação à acentuação gráfica. Na primeira sessão da aplicação-piloto do jogo, os alunos demonstraram não lembrar a classificação das palavras em oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Esse fato os fez perceber a inutilidade das dicas para o seu êxito no jogo. Rapidamente os alunos perceberam que a possibilidade de acerto em suas jogadas dependeria de maneira mais significativa do quadro de regras de acentuação. A partir daí, as jogadas direcionaram-se ao uso intensivo desse apoio, confirmando conclusões anteriores de Macedo8 sobre a importância do enfrentamento de situaçõesproblema nos jogos. Tais situações obrigam os jogadores a organizar novas estratégias de ação para alcançar um resultado favorável. No decorrer da partida, aos poucos, AC lembrou-se do conceito de oxítona, paroxítona e proparoxítona, o que levou seu peão a ultrapassar e distanciar-se de seus adversários no jogo. Ao ser indagado pelos colegas sobre a razão de seu inesperado e repentino êxito no jogo, AC passou a explicar ao grupo seus procedimentos. Sua explicação pautou-se na identificação e na classificação da sílaba tônica das palavras, classificando-as em oxítona, paroxítona ou proparoxítona. Ao explicar seu procedimento de resolução da tarefa, AC afirmou que a dificuldade de seus adversários poderia estar relacionada à não coordenação dessas duas variáveis (sílaba tônica e terminação das palavras). Ao se dar conta disso, IS tentou aplicar essa estratégia de resolução, porém ainda sem êxito em algumas palavras paroxítonas, e com sucesso nas palavras proparoxítonas, todas acentuadas independente da terminação. MA tentou aplicar o que foi explicado por AC, porém parece não ter compreendido os conceitos ensinados, pois continuou utilizando as estratégias de ação anteriores. Após o término da primeira sessão, observou-se que os alunos estavam entusiasmados com o jogo, ao observar as regras como garantia de acentuar as palavras. Na segunda sessão, os sujeitos relembraram as regras do jogo e não apresentaram nenhuma dúvida quanto ao funcionamento do mesmo, o que fez a tarefa desenvolver-se de forma mais rápida. Durante as jogadas, ficou claro que os alunos não lembravam das regras de acentuação das palavras proparoxítonas (toda proparoxítona é acentuada) e, em razão disso, elaboravam pseudo-regras para as palavras cuja sílaba tônica era a antepenúltima. Uma dessas pseudo-regras consistia em fixar uma terminação para as proparoxítonas, uma vez que nas palavras oxítonas e paroxítonas essa é uma das variáveis a serem coordenadas juntamente com a posição da sílaba tônica. Nessa sessão, AC apresentou alteração de seu nível de tomada de consciência das regras de acentuação gráfica, realizando as atividades com maior agilidade e rapidez na coordenação das variáveis. Além disso, sempre chegava ao final do jogo como ganhador e apresentando uma clareza e coerência de suas respostas. IS aumentou a quantidade de acertos no decorrer do jogo, mas manteve desvios relacionados as palavras paroxítonas terminadas em ditongos. Manifestou ainda alguns pequenos equívocos quanto à terminação de algumas palavras paroxítonas, em especial, quando a terminação das palavras estava relacionada a ditongo. Ainda assim, IS do mesmo modo que AC passou do nível II de tomada de consciência das regras de acentuação gráfica para o nível III. Passaram a apresentar articulação lingüística da tonicidade com as regras (fala e escrita). Nesse sentido, a Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 % CEZAR KPL tonicidade deixou de ser a garantia da necessidade de acentuação gráfica, observando que a forma mais segura de acerto é o quadro de regras. MA apresentou melhoria de desempenho no que diz respeito à compreensão dos conceitos de oxítona, paroxítona e proparoxítona. Ao contrário da primeira sessão, na qual MA não identificava a sílaba tônica mesmo em palavras acentuadas, nessa segunda sessão foi capaz de identificá-las, com exceção das palavras que não apresentam acento. Esse movimento conceitual e cognitivo marca a passagem de MA do nível IB para o nível IIA. Embora tenha alterado seu nível de tomada de consciência, ainda não coordenava a variável das regras de acentuação gráfica com a tonicidade. Por isso, ao efetivar as partidas utilizava o máximo de dicas possíveis. ET AL. de uma hora e meia cada, os alunos apresentaram melhoria de seu desempenho no conteúdo em foco. O movimento cognitivo apresentado pelos três sujeitos durante a aplicação-piloto sugere que alunos com dificuldades de aprendizagem sejam capazes de progredir na reorganização de conceitos e procedimentos ortográficos por meio do uso de jogo de regras construído e aplicado com base na Epistemologia Genética. Esses dados reforçam conclusões de estudos anteriores12,13 realizados com grupos de alunos submetidos a um processo de intervenção pedagógica com tomada de consciência. Em termos quantitativos e qualitativos, esses estudos evidenciaram modificações para maior em relação à diferença entre fala (sílaba tônica) e escrita (acentuação gráfica), diferenças essas fundamentais para a compreensão do sentido da acentuação gráfica na língua portuguesa. A aplicação-piloto do jogo Acentolândia faz supor que as mudanças conceituais e de procedimentos ocorridos com os alunos decorreram em parte do desequilíbrio cognitivo promovido pela estrutura do jogo e pela intervenção do pesquisador que, com base no método clínico piagetiano, favoreceu a tomada de consciência do pensamento e das ações dos alunos. Tomando como referência a Epistemologia Genética, Brenelli9 assinala que o desequilíbrio cognitivo desencadeado por jogos de regras exige do sujeito a ultrapassagem do estado atual de conhecimento e sua reconstrução para chegar a uma conclusão necessária que exclui todas as demais possibilidades, admitindo dessa forma um único possível neste caso, as regras de acentuação gráfica. Não obstante o caráter restrito dos dados, a aplicação-piloto do jogo de regras indica a possibilidade de aproximar o desempenho de alunos com dificuldade de aprendizagem ao daqueles com desempenho satisfatório em relação a conceitos e procedimentos ortográficos em um curto período de tempo. O reconhecimento dos meios utilizados para alcançar seu objetivo, bem como da razão de sua escolha ou modificação, é produto da tomada de consciência exercitada durante o jogo a partir da intervenção do pesquisador. Em uma intervenção de caráter construtivista como a realizada nesta aplicaçãopiloto, o educador deve equilibrar uma atuação CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo objetivou apresentar o jogo de regras Acentolândia elaborado pelos pesquisadores e testado em uma aplicação-piloto com alunos de 4ª e 5ª séries do ensino fundamental. Cabe salientar que o jogo proposto não se constitui uma receita para a aprendizagem de regras ortográficas e, sim, um novo recurso pedagógico e psicopedagógico. Como qualquer outro instrumento, seu sucesso depende, em primeiro lugar, da compreensão do educador sobre o conteúdo gramatical que o envolve, bem como das habilidades cognitivas que o sustentam. Do ponto de vista gramatical, aos educadores deve ficar clara a distinção entre fala e escrita e vinculação da acentuação gráfica às convenções sociais. Do ponto vista cognitivo, em razão de sua base construtivista e interacionista, o jogo exige o desenvolvimento de hipóteses e de tomada de consciência por parte dos alunos. Isso torna fundamental a intervenção do professor no sentido de estimular os alunos a levantar todas as respostas possíveis a cada tarefa em nível conceitual e procedimental. Sem essa compreensão e atuação por parte dos educadores o jogo pode vir a se tornar apenas mais uma atividade de memorização de regras ortográficas. Os resultados apresentados pela aplicaçãopiloto do jogo de regras Acentolândia mostraram que em um curto período de tempo, duas sessões Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 % ACENTUAÇÃO GRÁFICA: CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DE UM JOGO DE REGRAS de diretividade maior ou menor, conforme o tipo de tarefa a ser realizada pelos sujeitos. Nas tarefas verbais sua atuação pode ser mais diretiva, pois tem como objetivo organizar a situação de aprendizagem e solicitar a reinterpretação das ações e das falas dos indivíduos; nas tarefas práticas pode ser menos diretiva, uma vez que seu objetivo é o de apenas orientar a ação a ser efetivamente realizada pelo grupo em atividade. Segundo Macedo8, a intervenção com jogos pode apresentar um caráter preventivo ou curativo. A ação preventiva consiste em estimular o sujeito a agir, elaborando previamente estratégias para a solução de problemas; enquanto que a ação curativa é direcionada para aquelas crianças que apresentam algum tipo de dificuldade, nesse caso, é preciso identificar essa dificuldade e criar condições de auto-superação. As oportunidades e exigências conceituais e procedimentais presentes no jogo de regras Acentolândia possibilitam a realização dos dois tipos de intervenção, tanto em grande grupo como em pequenos grupos. Em ambos os casos, este novo recurso favorece o professor a um ensino crítico e reflexivo das regras ortográficas na fase intermediária do ensino fundamental. De outro lado, ao psicopedagogo o jogo Acentolândia constitui-se um instrumento auxiliar na intervenção com sujeitos com dificuldades de escrita. Entre as inúmeras variáveis que interferem na qualidade do ensino escolar, os instrumentos didáticos podem fazer a diferença desde que apoiados em um referencial teórico-metodológico do qual deve necessariamente compartilhar o professor, principal responsável pelo seu uso apropriado ou não nessa instituição. Em relação ao jogo Acentolândia, outros estudos precisam ser realizados para confirmar o seu potencial didático e generalizar as possibilidades de seu uso no ensino de língua portuguesa. SUMMARY Accents on words: invention and application of games and their rules Results on invention and application of a game with rules, prepared by researchers, involving accents on words in Portuguese are provided. Current essay aims at showing the capacity of improvement on the theme, coupled to the process of pedagogical intervention. Starting point consisted of results in researchers and official data on poor learning performance in several school subject matters. Reflections on teaching methodologies are actually of paramount importance. Several studies have shown that games as didactic resources may improve the students performance in different areas of knowledge. Pilot test involved three students studying in public schools in Maringá PR Brazil and experiment dealt with the 4th and 5th grade students they were in. Preliminary results demonstrated that pedagogical intervention with game and rules is an asset in the process of conscience-raising on the placing of accents on words and contributes towards the betterment of essential cognitive schemes for knowledge construction. The importance of such methodology for the teaching and learning process within and outside the school is emphasized. KEY WORDS: Education. Play and playthings. Handwriting. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 %! CEZAR KPL REFERÊNCIAS 1. Educação Básica/SAEB. Disponível em <http://www.inep.gov.br/download/saeb/ 2005/SAEB1995_2005.pdf > Acesso em 13 abr. 2007. 2. Programa Internacional de Avaliação de Alunos PISA. Disponível em < http:// www.inep.gov.br/internacional/pisa/ > Acesso em 13 abr. 2007. 3. Brasil. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília, DF:MEC/SEF;1998. 4. Batista AAG. Aula de Português: discurso e saberes escolares. São Paulo:Martins Fontes;1997. 5. Travaglia LC. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo:Cortez;1996. 6. Póvoa MLS. Importância do jogo de regras na aprendizagem e no desenvolvimento da autonomia: estudo comparativo em temas de alfabetização, 1997. Disponível em http:// s e r v i c o s . c a p e s . g o v. b r / c a p e s d w / resumo.html?idtese=19971453003012001P9 > Acesso em 10 out. 2006. 7. Bertoni C. Jogo e mediação social: um estudo sobre o desenvolvimento e aprendizagem em alunos do ensino fundamental, 2002. Disponível em < http:// s e r v i c o s . c a p e s . g o v. b r / c a p e s d w / resumo.html?idtese=19971453003012001P9 > Acesso em 10 out. 2006. 8. Macedo L, Petty ALS, Passos NC. Aprender com jogos e situações-problema. Porto Alegre:Artes Médicas Sul;2000. 9. Brenelli RP. O jogo como espaço para se pensar: a construção de noções lógicas e aritméticas. Campinas:Papirus;1996. ET AL. 10. Piaget J. O possível e o necessário. Porto Alegre:Artes Médicas;1985. Volume 1. 11. Piaget J. Tomada de consciência. São Paulo:Melhoramentos;1978. 12. Cezar KPL, Calsa GC, Romualdo EC. Estudo exploratório sobre a prática de gramática no ensino fundamental. Relatório final de iniciação científica. Maringá;2005. 13. Cezar KPL, Calsa GC, Romualdo EC. Intervenção pedagógica sobre acentuação gráfica no ensino fundamental. Relatório semestral de iniciação científica. Maringá; 2006. 14. Sisto F. Dificuldade de aprendizagem em escrita: um instrumento de avaliação (ADAPE). In: Sisto F, Boruchovitch E, Fini L, Brenelli R, Martinelli S, orgs. Dificuldades de aprendizagem no contexto psicopedagógico. 2ª ed. São Paulo:Vozes;2002. 15. Macedo L. Ensaios construtivistas. São Paulo:Casa do Psicólogo;1994. 16. Romualdo EC. Elementos de fonologia, fonética e algumas questões relacionadas à alfabetização. In: Santos AR, Ritter LCB, orgs. Alfabetização e linguagem. Maringá:Eduem;2005. p.101-29. 17. Borba FS. Introdução aos estudos lingüísticos. 4ª ed. São Paulo:Editora Nacional;1975. 18. Cagliari LC. Alfabetização & lingüística. 10ª ed. São Paulo:Scipione;2002. 19. Cagliari LC. Ortografia na escola e na vida. In: Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Isso se aprende com o ciclo básico. São Paulo:CENP;1986. 20. Morais AG. Ortografia: ensinar e aprender. 4ª ed. São Paulo:Ática;2002. Trabalho realizado na Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR. Artigo recebido: 05/11/2007 Aprovado: 02/02/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 62-74 %" REFLEXÕES PONTO SOBRE AS NOSSAS DE DISFUNCIONALIDADES VISTA REFLEXÕES SOBRE AS NOSSAS DISFUNCIONALIDADES, SEU MANEJO E SUAS REPERCUSSÕES NA CONVIVÊNCIA Tania Almeida EM QUE MOMENTO ENTENDEMOS QUE UM COMPORTAMENTO É DISFUNCIONAL? É disfuncional o comportamento que foge ao entendido como padrão ou ao esperado. Disfuncionais estamos todos, em algum momento de nossas vidas, em relação a algum tema vigente. Ou seja, nossas disfunções aparecem à medida que uma demonstração de habilidade é exigida em um dado momento. Algumas inabilidades são permanentemente visíveis e outras somente quando precisamos demonstrar determinada capacidade. Algumas são transitórias e outras, permanentes. Em algumas estamos acompanhados por outros membros da família e/ou da comunidade em geral. Em outras estamos, aparentemente, desacompanhados. para além dos que ele pode, naquele momento, dispor. Eles fazem parte do sistema de alarme da saúde, porque possibilitam que o mundo externo tome conhecimento de alguma sobrexigência e busque providências. Crescimento sem sintoma é sintomático. Se prestarmos atenção nas incomensuráveis diferenças entre um bebê com um dia de vida e uma criança de 10 anos, nos daremos conta das exigências que o crescimento faz a um ser humano na sua primeira década de existência. Acredito que nenhuma outra década exigirá tanto de nós quanto a primeira. São muitas as mudanças e inúmeras as negociações internas que auxiliam o permanente câmbio de identidade. Costumo comparar essa etapa de vida com a corrida com obstáculos do atletismo. Enfatizo, no entanto, e aí está a riqueza desta metáfora, as diferenças entre a corrida do desenvolvimento e a corrida do atletismo: na corrida do desenvolvimento, os obstáculos não estão colocados a intervalos regulares e o tamanho de cada um deles não é universal. Nela, cada atleta é que estipula o tamanho de determinado obstáculo para ele, o que exige uma leitura particular sobre EXISTEM DISFUNCIONALIDADES QUE SÃO EVOLUTIVAS Este tem sido um tema de reflexão na prática clínica, especialmente na que envolve crianças e adolescentes. Sabemos que crianças não se desenvolvem sem sintomas. Os sintomas são um sinal positivo de alerta ao demonstrarem que alguma coisa demandou do seu portador recursos Tania Almeida Pós-graduada em Neuropsiquiatria e Sociologia. Terapeuta de crianças, adolescentes, casal e família. Coordena o Núcleo de Atendimento a Famílias em Situação de Litígio, no Multiversa do Rio de Janeiro e preside o MEDIARE Diálogos e Processos Decisórios. Correspondência Rua General Venâncio Flores, 305/911 Leblon - Rio de Janeiro - RJ - 22441-090 e.mail: [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 75-7 %# ALMEIDA T o peso de cada evento na vida de cada indivíduo. Na corrida do desenvolvimento, seriam obstáculos todos os momentos curriculares de passagem permuta do peito pela mamadeira/colher/ garfo, troca dos dentes, perda do berço, começo da deambulação, controle dos esfíncteres, início da escolaridade, um certo grau de inabilidade em algum tema, etc. e, também, os extracurriculares nascimento do irmão(ã), troca de escola, morte da vovó(ô), desemprego do papai, perda da babá querida, entre outros. padrão para alcançar o que a cultura demanda, de acordo com os parâmetros exigidos por essa mesma cultura. Tenho ainda na memória uma terapia realizada com um menino que adorava bichos de toda natureza e possuía enorme habilidade para diferenciá-los, categorizá-los, seguindo os critérios de semelhança e de diferença, mas que tinha encantamento zero e inabilidade dez com as letras e os números. Ele sabia o que ninguém sabia e não sabia o que todos, supostamente, sabiam. Lembro-me de conversar com seus pais a respeito de como seria se ele não pertencesse à cultura Rio de Janeiro, zona sul. Quando seria que suas habilidades poderiam ser mais valorizadas do que suas inabilidades? E quando esse dia chegasse, que qualidade de auto-estima ele teria para acreditar que era excepcionalmente hábil em alguma coisa? EXISTEM DISFUNCIONALIDADES QUE FICAM SOBREVALORIZADAS PELO MOMENTO DE VIDA DE SEU PORTADOR E POR SEU CONTEXTO Enquanto as crianças transitam pela corrida do desenvolvimento, nossa cultura exige que elas ingressem na vida acadêmica para aprenderem, todas, as mesmas disciplinas e para produzirem, todas, um resultado semelhante, traduzido em notas. Requer essa cultura que indivíduos de uma mesma faixa etária tenham as mesmas habilidades para aprender e produzir o que lhes é proposto. Essa cultura categoriza como inábeis todos aqueles que, por qualquer motivo, não alcancem os resultados esperados. Esse período da vida de todos nós (ensinos fundamental e médio), que precede a época em que poderemos eleger os temas aos quais nos dedicaremos a estudar (ensino universitário), propõe uma homogeneidade de possibilidades para todos os indivíduos. Essa proposta contraria o mosaico constituído pelos caracteres biopsicossociais que nos compõem e que desenham, em cada um de nós, distintas possibilidades. Abordado dessa maneira, é assustador e doloroso o que culturalmente propomos para as nossas crianças. Para algumas delas são esses os sentimentos que as acompanham durante esse percurso o temor e o sofrimento. A grande maioria das disfuncionalidades é diagnosticada na infância, pelo fato de implicarem em inabilidades denunciadas pelas demandas desta etapa de vida. Ou melhor, algumas inabilidades só são assim caracterizadas por serem instrumentos- EXISTEM INABILIDADES QUE FICAM SOBREVALORIZADAS PELA MANEIRA COMO LIDAMOS COM ELAS A necessidade de homogeneizar os grupos, em algum ou em muitos níveis, para com eles lidar, deixa-nos pouca permissão para tratar as diferenças como diferenças e não como disfunção/ menor habilidade. Criamos para as crianças, para os educadores, para os pais e a família a obrigação de tentar ser, ou ajudar a ser, mais um elemento dentro do padrão. Outras vezes, são as disfunções/inabilidades dos adultos que os fazem lidar de maneira disfuncional com as disfunções da criança. Nessa retroalimentação positiva chegamos a um ponto em que não é mais possível separar o joio do trigo. É difícil decidir que intervenções priorizar e é fácil identificar a presença de elementos quase que comuns a todos os integrantes dessa dança, que busca seguir o ritmo da maioria: a frustração, a baixa auto-estima, o cansaço. E já que estamos falando em retroalimentação positiva, vale afirmar que a frustração, a baixa auto-estima e o cansaço são ingredientes que não só ampliam como ajudam a construir inabilidades/ disfuncionalidades. Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 75-7 %$ REFLEXÕES SOBRE AS NOSSAS DISFUNCIONALIDADES QUE REPERCUSSÕES TRAZEM PARA A FAMÍLIA AS INABILIDADES DE TODOS NÓS? QUE ATITUDES PODEM SER MAIS FAVORECEDORAS NO TRATO COM SUJEITOS DISFUNCIONAIS E COM SUAS INABILIDADES? Não é simples ser um inábil adulto ou criança. Não é simples sentir-se responsável, objetiva ou subjetivamente, pela(s) inabilidade(s) do outro. Algumas inabilidades trazem a necessidade de um redesenho da organização familiar. Outras impõem formas de funcionamento que fogem ao padrão, exigindo de todos que integram o contexto maior flexibilidade e tolerância. As repercussões de uma inabilidade sobre os contextos dos quais seus portadores participam, em especial o contexto familiar, podem ser positivas e negativas, na direta medida de sua aceitação ou não-aceitação, e na direta medida da presença de um manejo mais ou menos adequado da sua existência. Gosto de diferenciar aceitação de concordância; podemos discordar que um evento tenha que existir em nossas vidas mas, se ele não puder ser removido, teremos que aceitá-lo e, para o nosso próprio conforto, bem manejá-lo. Também gosto de convidar as famílias a exercitarem o manejo de diferenças e a capacidade de flexibilização a partir dos próprios eventos/ disfunções que integrem as suas histórias. O que podemos aprender (e conseqüentemente nos enriquecer) com o manejo de diferenças pode superar em muito a frustração, a baixa auto-estima e o cansaço que costumam acompanhar as disfunções, a peregrinação por distintos profissionais e os tratamentos multidisciplinares por meses ou por anos a fio. É reconhecimento universal que uma das mais prestigiadas habilidades do homem deste início de século é a capacidade de bem lidar com a diferença. Esta é uma habilidade que integra o escopo do que entendemos por competência social, neste início de milênio. Auxiliar as nossas crianças a bem lidarem com aquilo que as faz diferentes é tarefa nossa, mas que só pode ser bem exercida por quem pratica o bem lidar. Na linha do bem lidar, gosto de distinguir as situações para as quais usamos o verbo ser e para as quais usamos o verbo estar. Aquilo que é transitório precisa ser assim caracterizado. Vale o cuidado de, ao adjetivar as disfunções das nossas crianças, privilegiar o verbo estar. Nossa voz, a voz dos cuidadores, está revestida de muito poder para a percepção infantil. O nosso olhar e a nossa fala fazem parte do conjunto de elementos que ajudam a formar a identidade daqueles que cuidamos e com quem interagimos. Devemos aceitar a possibilidade de intervir positivamente em nosso relacionamento com o portador de disfunção, assim como no relacionamento do portador com a própria disfunção. Todos aqueles que lidam com o portador devem entender o que é a disfunção e podem tornar-se parte de sua administração. A postura com relação à disfunção e a forma de lidar dos cuidadores é a intervenção mais eficaz que podemos oferecer ao seu portador. Trabalho realizado no MEDIARE Centro de Administração de Conflitos, Rio de Janeiro, RJ. Artigo recebido: 06/09/2007 Aprovado: 11/11/2007 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 75-7 %% PORTILHO DE EML VISTA ET AL. PONTO SER PARA RECONHECER-SE ENSINANTE Evelise Maria Labatut Portilho; Isabel Cristina Hierro Parolin RESUMO - Em meio a inúmeras maneiras de viver e conviver que nos proporciona a sociedade atual, é fundamental a recriação de diferentes formas de aprender e de ensinar para ser professor-ensinante. A construção desse sujeito ensinante acontece quando ele se predispõe a autoconhecer-se e a conhecer o outro como partícipe de uma determinada jornada. Esse texto se propõe a refletir e a responder à pergunta: Que sujeito emerge do trabalho metacognitivo? A experiência tem mostrado que é um Ser que se reconhece e se reencanta a cada novo desafio, e dessa trajetória e das conexões que advêm dela que nasce o Ser Conhecedor. Focamos o Ser professor como um sujeito que, além de ensinante, é provocador de aprendizagens que vão além das portas das salas de aula. Este estudo tem relevância quando diferencia autoconhecimento de alto conhecimento e quando avança no sentido de demonstrar que o autoconhecimento é o caminho para a construção deste ensinante conhecedor. UNITERMOS: Aprendizagem. Cognição. Estado de consciência. Docentes. Evelise Maria Labatut Portilho - Pedagoga, especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Grupos Operativos. Mestre em Educação, Doutora em Educação. Professora Titular da Área de Educação da PUCPR. Coordenadora do Curso de Especialização em Psicopedagogia da PUCPR, Professora convidada em cursos de pós-graduação. Conselheira Nata da ABPpParaná Sul, Conselheira da ABPp Nacional. Isabel Cristina Hierro Parolin - Pedagoga, especialista em Psicopedagogia e Psicodrama Pedagógico. Mestre em Psicologia da Educação. Psicopedagoga Clínica e Consultora de escolas públicas e particulares. Professora convidada em cursos de pós-graduação. Palestrante para pais. Conselheira Nata da ABPp-Paraná Sul. Autora da vários livros da área, dentre eles Professores Formadores. Correspondência E-mail:[email protected] [email protected] Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 78-82 %& SER PARA RECONHECER-SE ENSINANTE algo que, não podemos realmente explicar, vamos chamar de complexo. Por isso é que, se existe um pensamento complexo, este não será um pensamento capaz de abrir todas as portas (como essas chaves que abrem caixas forte ou automóveis), mas um pensamento onde estará sempre a dificuldade. A dificuldade de vivermos o momento histórico contemporâneo e a dificuldade que nos traz Morin reside em não se considerar os fenômenos e suas conseqüências de forma simplória ou simplificada, mas sim de analisar e avaliar o máximo dos diferentes elementos que compõem uma determinada situação. É por isso que, mais uma vez, propusemo-nos ao desafio de, juntas, darmos um passo adiante na trajetória da formação de professores vinculada à nossa própria formação, como sujeitos do mundo e para o mundo. Como psicopedagogas e formadoras de professores, agregando os conceitos do entorno da complexidade e pensando na construção de trajetórias possíveis e competentes, consideramos que o movimento de conhecer-se para conhecer é uma maneira de atender às demandas viáveis desse momento. Nessa perspectiva, retomamos a afirmação colocada em artigo anterior e que serve de disparador para essa nova reflexão: Acreditamos que para ser psicopedagogo, ou mais ainda, um ensinante que cumpre a sua tarefa social de provocar aprendizagens, necessita reconhecer a trajetória de suas aprendizagens, identificar-se nesse reconhecimento e autorizarse a efetivamente ensinar3. Após três anos pensando sobre metacognição e agindo nessa direção, nasceu a necessidade de explicitar, inicialmente para nós mesmas, e finalmente nesse documento, o quão viável é essa proposta e o quanto ela nos reconstrói como aprendentes e ensinantes. Como toda reconstrução, as mudanças vão acontecendo e se instalando, convidando-nos a novas práticas, mais elaboradas e em linguagem contemporânea, mais complexa e articulada. Quando nos propomos a trabalhar com professores e educadores, provocando-os a se conhecerem para poderem conhecer, deparamonos com o Ser. REENCANTANDO O CONTEXTO Em meio a inúmeras maneiras de viver e conviver que nos proporciona a sociedade atual, temos tido de recriar as formas de aprender e de ensinar. Sair do papel de professor que professa um ensinamento para o ensinante, que provoca e medeia aprendizagens de diferentes matizes. No entanto, acreditamos que esse recriar deva acontecer com o olhar do encantamento. Por isso entendemos o espaço da aprendizagem e do ensino como um contexto de reencantamento, como sugere, também, Assmann1, em seu livro Reencantar a educação: O reencantamento da educação requer a união entre a sensibilidade social e eficiência pedagógica. Portanto, o compromisso éticopolítico do/a educador/a deve manifestar-se primordialmente na excelência pedagógica e na colaboração para um clima esperançador no próprio contexto escolar. Ter esperança quer dizer que necessitamos perceber a realidade com sensibilidade social e com a competência pedagógica necessária para alicerçar essa virtude. Vivemos um momento histórico difícil de ser vivido. A complexidade das relações, das experiências, das ciências e das informações leva-nos à percepção da vulnerabilidade dos nossos novos tempos. Se pensarmos que o ser humano sempre foi um complexo a ser desvendado, se pensarmos que a sociedade sempre acolheu e reproduziu essa forma de entender e de viver, poder-se-ia perguntar: o que mudou? Mudou a forma de entender esse sujeito e a forma de viver nessa sociedade. Sujeito e sociedade são entendidos de forma complexa, cuja parte e o todo são considerados únicos e, ao mesmo tempo, submetidos a lógica temporal, histórica, cultural, ética, planetária, que nos remete a um sujeito singular e plural. Edgar Morin2 facilita o entendimento de complexidade quando afirma: (...) com a palavra complexo não estamos dando uma explicação, mas sim assinalando uma dificuldade para explicar. Designamos Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 78-82 %' PORTILHO EML ET AL. Nasce a pergunta: Que Ser é esse que emerge da metacognição? A experiência nos tem mostrado que é um Ser que se reconhece e se reencanta. Em nosso trabalho inicial, a preocupação girava em torno do sujeito que aprende sobre o conhecer do seu próprio conhecimento, mas hoje nos propomos a refletir sobre o Ser que emerge a partir do sujeito conhecedor. perguntou à palestrante do que era feita a gola do seu belo casaco. De peles de coelhos, respondeu sorridente a palestrante. Com ar reflexivo, a professora retornou ao seu lugar. Após o encontro, ela deixou uma carta, pontuando para a palestrante o paradoxo entre falar de consciência planetária, responsabilidade social, atos educativos que deflagram outras aprendizagens e sua belíssima gola de peles de coelhos. Quantos coelhos foram necessários para a confecção dessa gola? Perguntou a professora em sua carta. Esse episódio é real, foi vivido por uma das autoras e propiciou o refletir da coerência entre o dizer e o fazer. Resultou, ainda, em reflexões do quanto é difícil viver a partir do pensamento complexo, sistêmico, conectado com o outro e de estar na busca de equilíbrio teórico-prático. Dentre as diferentes avaliações retiradas do ocorrido, está a constatação de que apesar de um caminho percorrido, ainda há muito a percorrer. Somos, ainda, muito do que vivemos e aprendemos anteriormente. Desfazer-se do homem velho que reside em nós, requer, além de vontade, conhecimento e boas parcerias. A atitude de encontro com o outro é possível, desde que tenhamos condições maturacionais para isso. Essas condições são possíveis no difícil exercício de encontrar-se a partir do encontro com o outro, que foi, exatamente, o que a corajosa professora do relato promoveu. O aprendizado da auto-observação faz parte do aprendizado da lucidez. A aptidão reflexiva do espírito humano, que o torna capaz de considerar-se a si mesmo, ao se desdobrar... , deveria ser encorajada e estimulada em todos... Trata-se de exemplificar constantemente como o egocentrismo autojustificador e a transformação do outro em bode expiatório levam a essa ilusão, e como concorrem para isso as seleções da memória que eliminam o que nos incomoda e embelezam o que nos favorece... A aprendizagem da compreensão e da lucidez, além de nunca ser concluída, deve ser continuamente recomeçada (regenerada)4. Para Ser Conhecedor, em um contexto de complexidade, necessitaremos, como já dito, do O SER CONHECEDOR Inicialmente, é importante diferenciar autoconhecimento e alto conhecimento com o objetivo de deixar clara a nossa compreensão sobre os conceitos que alicerçam as crenças que fundamentam essa reflexão. Por autoconhecimento entendemos o movimento de tomar consciência de si mesmo, das dificuldades e das possibilidades desse estar sendo, sem com isso sentir-se, nem mais e nem menos, como pessoas. É reconhecer-se como um sujeito complexo, sempre diferente, porém o mesmo em sua humanidade. O alto conhecimento nos remete à centralização do sujeito em si mesmo. A dimensão do outro fica subjugada ao seu próprio olhar. O outro é a representação das nossas subjetivações. O conhecimento passa a ser um instrumento de manipulação e não como material de construção de pontes que aproximam, libertam e conectam pessoas - gente que é. O pensar já sei o que você vai me dizer, ou ainda, eu sei como é, pois eu já passei por isso, passa, ao nosso entender, pelo viés da arrogância, do conhecimento acumulado e já estabelecido. O exercício do autoconhecer-se nos remete ao ser incompleto, inacabado, inquieto, incerto, infinito, inconstante e contraditório. Em uma situação de evento, a palestrante estava dissertando sobre a necessidade de se ter coerência entre o fazer e o pensar, exemplificando a partir de situações em que se poderia pensar no sujeito de sala de aula como um ser planetário. Após a convincente explanação, exemplificada com riquíssimos exemplos, deu-se o intervalo. Uma professora que participava do encontro, Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 78-82 & SER PARA RECONHECER-SE ENSINANTE outro como parceiro, ora como nosso parceiro de caminhada no mesmo sentido e ora como o companheiro que vem na contramão do nosso percurso. Melhor dizendo, estando junto, compartilhando ou em forma de quem contrapõe. No exercício de se autoconhecer não se admite as habilidades de autoproteção, autovalorização e até mesmo, autoflagelo, o que resultaria no alto conhecimento. As diferenças e os diferentes nos impactam como pessoas. Se provocarem a boa mobilização, propiciam a construção do Ser a que nos referimos nesse trabalho o Ser Conhecedor. manifesta, se expressa, se percebe em movimentos e em pensamentos e que tem a oportunidade de compartilhar suas percepções, fantasias, análises, medos, conquistas, crenças e descrenças. Conscientes do papel de educadoras e com o desejo de fazer a diferença, podemos provocar situações de construção de pontes entre o professor que ensina e aprende e o aluno que aprende e ensina, mediados pela competência relacional e pelo conhecimento que motiva o encontro. Diante dessa situação, não temos um Como preestabelecido, mas os caminhos já percorridos por nós e por nossos pares. Reconhecemos-nos ensinantes do Ser Conhecedor quando... Favorecemos, na formação inicial e continuada do professor, a redescoberta da sua identidade como um sujeito importante e necessário na sociedade da aprendizagem; Propiciamos, em seus espaços de trabalho, momentos de reflexão que passam pela análise da ação do professor e suas repercussões; Criamos e desenvolvemos seminários, encontros que tenham por objetivo contemplar o Ser sensível. COMO SE RECONHECER ENSINANTE? Num contexto tão amplo e diverso, em que as informações, muitas vezes, nos incomodam e nos desestabilizam, pois nos provocam a pensar por um outro lado, temos de nos posicionar. Esse posicionamento nos indica o olhar e o lado em que nos situamos hoje. Essa consciência nos dará os aportes necessários para percebermos quando devemos entrar com os processos autoregulatórios. Entendemos como processo autoregulatório os procedimentos que o professor adota diante das situações não planejadas ou não pensadas, mas que não podem deixar de serem contempladas. No entanto, quando se pensa em Ser ensinante, imediatamente lembramos de metodologias, técnicas, informações e conhecimentos. Contudo, o que vai determinar esse Ser como um ensinante, verdadeiramente, é a possibilidade dele Ser ele mesmo, um Ser em constante atitude dialógica, consigo e com o outro. Não há como objetivar o ensinar uma pessoa a Ser. Esse ensinamento acontece em meio a outras aprendizagens, em circunstâncias diversas e, até mesmo, de forma subjetiva. Temos visto que a sociedade educacional prioriza encontros, seminários e cursos que valorizam conteúdos sem uma ação direta, consciente e auto-reguladora de das partes envolvidas nessa ação. Para desenvolver o Ser ensinante, conhecedor de si, necessitar-se-á de investimentos no percurso do Ser sensível aquele que se SER PARA RECONHECER-SE ENSINANTE Quando nos formamos professores, aprendemos que o outro tinha um comportamento previamente estabelecido. O sujeito era conhecido e se agrupava em algumas modalidades já conhecidas pelos mais experientes. Hoje, sabemos que as pessoas são tão múltiplas quanto diferentes são as formas de expressão no mundo. Para bem conviver a partir dessas premissas, e sem perder o foco que nos é peculiar a aprendizagem -, aprendemos a aceitar o outro a partir do que ele é e não mais de como gostaríamos que ele fosse. Nosso aluno e nosso professor não devem ser mais idealizados, mas conhecidos e conhecedores. O cantor e compositor Lenine5 canta e encanta com a música Vivo (CD in Cite), fazendo-nos desejar consciência e sensibilidade como na letra a seguir: Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 78-82 & PORTILHO EML ET AL. Precário, provisório, perecível; Falível, transitório, transitivo; Efêmero, fugaz e passageiro Eis aqui um vivo, eis aqui um vivo! Da mente o mal doente coletivo; Do sangue o mal do soro positivo; E apesar dessas e outras... O vivo afirma firme afirmativo O que mais vale a pena é estar vivo! Impuro, imperfeito, impermanente; Incerto, incompleto, inconstante; Instável, variável, defectivo Eis aqui um vivo, eis aqui... É estar vivo Vivo É estar vivo E apesar... Do tráfico, do tráfego equívoco; Do tóxico, do trânsito nocivo; Da droga, do indigesto digestivo; Do câncer vil, do servo e do servil; Não feito, não perfeito, não completo; Não satisfeito nunca, não contente; Não acabado, não definitivo Eis aqui um vivo, eis-me aqui. SUMMARY To be an educator means to be a human being Our society provides many ways of living and it is important to recreate different kinds of learning and teaching in order to be an educator. This educator becomes fully prepared when he/she is milling to know him/herself and the order as a participant in a certain journey. This text suggests a reflection and an answer to a question: who emerges from this metacognitive work? Experience has shown us that a person who recognizes him/herself and is delighted at facing new challenges, and learns from this trajectory and its connections becomes comes a knowledgeable person. We emphasize that being a teacher is to face challenges that go beyond the classes. This study becomes essential as it differentiates self-knowledge from and it demonstrates that self- knowledge is the path to build this knowledgeable teacher. KEY WORDS: Learning. Cognition. Consciousness. Faculty. REFERÊNCIAS 1. Assmann H. Reencantar a educação - rumo à sociedade aprendente. Petrópolis: Vozes;1998. p.34. 2. Morin E. Epistemologia da complexidade. In: Schnitman DF, org. Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre:Artmed;1996. p.274. 3. Parolin I, Portilho E. Conhecer-se para conhecer. In: Scoz BJL, org. Psicopedagogia. Um portal para a inserção social. Petrópolis:Vozes;2004. p.128. 4. Morin E. A cabeça bem feita: repensar a reforma e reformar o pensamento. 11ª ed. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil;2005. p.53. 5. Lenine. Vivo. CD Lenine in Cité. São Paulo:MTV;2004. 1 CD, faixa 2. Trabalho realizado em consultório particular, Curitiba, PR. Artigo recebido: 07/11/2007 Aprovado: 03/03/2008 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 78-82 & RELATÓRIO DE GESTÃO REFERENTE AO ANO DE 2007 A Revista Psicopedagogia agradece aos membros do Conselho Editorial e aos consultores ad hoc abaixo listados, que compartilharam sua expertise e conhecimento científico, possibilitando a publicação de artigos de alto nível científico, dentro do mais absoluto rigor ético: Membros do Conselho Editorial Ana Lisete Rodrigues Anete Busin Fernandes Beatriz Scoz UNIP Universidade Paulista, São Paulo, SP PUCSP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP Centro Universitário FIEO/UNIFIEO e Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, SP; e Faculdades Pio Décimo, Aracajú, SE Débora Silva de Castro Pereira Universidade Católica de Salvador, Salvador, BA Denise da Cruz Gouveia Clínica Psicopedagógica, São Paulo, SP Edith Rubinstein Universidade São Marcos, São Paulo, SP Elcie Salzano Masini Universidade Presbiteriana Mackenzie e Universidade de São Paulo, São Paulo, SP Eloísa Quadros Fagali PUCSP Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP Evelise Maria L. Portilho Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR Gláucia Maria de Menezes Ferreira Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, CE Heloisa Beatriz Alice Rubman Universidade Federal do Rio de Janeiro, RJ Leda M. Codeço Barone Centro Universitário Fieo - UNIFIEO, São Paulo, SP Margarida Azevedo Dupas Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo, SP Maria Auxiliadora de Azevedo Rabello Universidade Federal da Bahia, Universidade Católica de Salvador e Universidade do Estado da Bahia, Salvador, BA Maria Cecília Castro Gasparian PUCSP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP Maria Célia Malta Campos Centro Universitário Salesiano de São Paulo, UNISAL, São Paulo, SP Maria Cristina Natel Universidade São Judas Tadeu, Universidade Cidade de São Paulo, Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP Maria Lúcia de Almeida Melo PUCSP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP Maria Silvia Bacila Winkeler PUCPR Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, PR Marisa Irene Siqueira Castanho Centro Universitário do UNIFIEO, São Paulo, SP Mônica H. Mendes Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP Nádia Bossa PUC/MINAS, Centro Universitário FIEO/UNIFIEO, São Paulo, SP Neide de Aquino Noffs PUCSP - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP Nívea M.de Carvalho Fabrício Colégio Graphein e Colégio Brasil Canadá, São Paulo, SP Regina Rosa dos Santos Leal Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Belo Horizonte, MG Rosa M. Junqueira Scicchitano Universidade Estadual de Londrina, Londrina, PR Sônia Maria Colli de Souza UNIP Universidade Paulista, São Paulo, SP Vânia Carvalho Bueno de Souza Colégio Graphein e Colégio Brasil Canadá, São Paulo, SP Consultores ad hoc Ana Maria Maaz Acosta Alvarez Jaime Zorzi Lino de Macedo Lívia Elkis Luiza Helena Ribeiro do Valle Pedro Primo Bombonato Saul Cypel Sylvia Maria Ciasca Universidade de São Paulo, Instituto de Psiquiatria, São Paulo, SP CEFAC Pós-Graduação em Saúde e Educação, São Paulo, SP Universidade de São Paulo, São Paulo, SP Universidade de São Paulo, São Paulo, SP PUC Minas - campus Poços de Caldas, MG Universidade de São Paulo, São Paulo, SP Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Porto Alegre, RS Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 83-4 &! Revista Psicopedagogia são submetidos à avaliação pelos pares (peer review) por pelo menos dois revisores selecionados dentre os membros do conselho editorial. Os revisores respondem a um questionário no qual fazem uma apreciação rigorosa de todos os itens que compõem o trabalho, respondendo a cada um dos itens do questionário. Ao final, são feitos comentários gerais sobre o trabalho e o revisor opina quanto à publicação ou não do mesmo, bem como a necessidade de revisão. De posse destes dados, o editor toma a decisão final. Em caso de discrepâncias entre os avaliadores, pode ser solicitada uma nova opinião para melhor julgamento. Quando são sugeridas modificações pelos revisores, as mesmas são encaminhadas ao autor principal e, em seguida, aos revisores para verificação da nova versão. Todo o processo é realizado por e.mail e em cada fase são exigidos prazos rigorosos de execução. Em caso de atraso um novo avaliador é escolhido, o mesmo ocorrendo na eventual recusa de análise de um trabalho. Quando o assunto do manuscrito assim o exigir, o editor solicita a colaboração de um assessor ad hoc, que não faça parte do Conselho Editorial, para avaliação. LINHA EDITORIAL A Revista Psicopedagogia adota o Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals, organizada pelo International Committee of Medical Journal Editors (ICMJE) Vancouver Group. Tem por objetivo publicar artigos inéditos na área de psicopedagogia, em especial trabalhos que reportem resultados de pesquisa, revisões críticas da literatura de pesquisa educacional - temática ou metodológica - e reflexões críticas sobre experiências pedagógicas que ampliem e aprofundem o conhecimento na área. Além disso, busca divulgar artigos que reflitam o amplo espectro das preocupações atuais no campo da psicopedagogia e incentivar o interesse pelas linhas de pesquisa acadêmica. DESCRIÇÃO DOS PROCEDIMENTOS SELEÇÃO DE TRABALHOS (PEER REVIEW) DE Previamente à publicação, todos os artigos que nos são enviados passam por um rigoroso processo de revisão e arbitragem, como forma de garantir seu padrão de qualidade e a isenção na escolha dos trabalhos publicados. Todos os trabalhos enviados à FLUXO DE PUBLICAÇÃO Intervalo médio entre o recebimento e a aprovação 79 ± 44,2 dias entre a aprovação e a publicação 2,1 ± 1,1 mês Quantidade de artigos submetidos 48 rejeitados 16 aceitos 32 DISTRIBUIÇÃO Distribuição do periódico associados 2321 assinantes 463 permutas 6 doação para bibliotecas 45 outros 37 Rev. Psicopedagogia 2008; 25(76): 83-4 &"