aula 04
Os números reais
4.1 A incompletude da recta racional
Os números racionais constituem um sistema numérico mais completo que o dos números naturais. Uma variedade mais geral de situações pode ser descrita com recurso
a estes números. Ainda assim, os racionais são muito incompletos. Consideremos, por
exemplo, o processo de aritmetização da geometria. Os objectos geométricos podem
ser descritos através de equações, essencialmente porque é possível descrever os pontos
da recta, do plano ou do espaço, através de números. À primeira vista, os racionais
são suficientes para este processo de «codificação». Marcando dois pontos 𝑂 e 𝐴 (ver
Fig. . (A)) numa recta determinamos um segmento de recta que, convencionalmente
consideramos unitário. Considerando múltiplos inteiros deste segmento, é fácil descrever pontos da recta que, diremos, possuem coordenadas inteiras. Mas, podemos ir
mais longe. Como é claro muitos pontos da recta não ficam associados a coordenadas
pelo procedimento anterior. Mas dado um segmento de recta, é possível dividi-lo em
𝑛 partes iguais, usando um procedimento geométrico simples (ver Fig. . (B)). Não é
(A)
(B)
O
A
O
C
A
B1
B2
B3
B4
B
Figura .: A recta racional
difícil perceber que combinando estes dois factos é possível associar a cada número racional um ponto da recta. (Os pontos da recta que ficam, por este processo, associados a

0
1
a
Figura .: Um ponto da recta que não é um ponto da recta racional
números racionais, constituem aquilo que se designa de recta racional.) A questão importante é: haverá uma coincidência entre a recta e a recta racional?, i.e., serão os racionais
suficientes para que possamos associar a cada ponto da recta uma «coordenada»?
À primeira vista a resposta parece ser positiva, afinal de contas os pontos de uma
recta e os números racionais partilham uma mesma propriedade, que parece essencialβ€”a
densidade. Com efeito, do mesmo modo que entre dois pontos de uma recta existe
sempre um terceiro, o mesmo sucede com os racionais: entre dois racionais 𝑝 e π‘ž existe
sempre um terceiro, por exemplo (𝑝 + π‘ž)/τΊΎ.
A resposta é negativa. O facto era já essencialmente conhecido por Pitágoras (c.
 a.C.–c.  a.C.). A diagonal de um quadrado unitário tem comprimento √τΊΎ. Se
marcarmos na recta o ponto correspondente a este comprimento (ver Fig. .) este não
pode estar associado a uma coordenada racional porque, devido a um resultado obtido,
se não pelo próprio Pitágoras, por um membro da escola pitagórica, √τΊΎ βˆ‰ β„š.
Lema 4.1 (Pitágoras).β€” A diagonal e o lado de um quadrado não são comensuráveis, i.e.
(em linguagem numérica) √τΊΎ βˆ‰ β„š.
Dem.β€” Suponhamos que √τΊΎ = π‘š/𝑛 onde π‘š, 𝑛 ∈ β„•. Sem perda de generalidade podemos supor que π‘š, 𝑛 são primos relativos ou seja,  é o único divisor comum entre π‘š e
𝑛 (isto é equivalente a dizer que a fracção π‘š/𝑛 é irredutível). Suponhamos então, tendo
em vista obter um absurdo que √τΊΎ = π‘š/𝑛. Tem-se então,
τΊΎ = π‘šτΊΎ /𝑛τΊΎ ≑ τΊΎπ‘›τΊΎ = π‘šτΊΎ .
(.)
Daqui resulta que π‘šτΊΎ é par e, como o quadrado de um número é par sse o número for
par, resulta também que π‘š é par, ou seja, existe π‘Ÿ ∈ β„• tal que π‘š = τΊΎπ‘Ÿ. Substituindo em
(.), obtem-se:
τΊΎπ‘›τΊΎ = τ»€π‘ŸτΊΎ ≑ 𝑛τΊΎ = τΊΎπ‘ŸτΊΎ ,
(.)
e como anteriormente concluímos que 𝑛 é par. Nestas condições, tanto π‘š como 𝑛 são
divisíveis por τΊΎ, contradizendo o facto de serem primos relativos.

Concluímos então, usando o método de redução ao absurdo, que √τΊΎ não pode ser
um racional. β—Ό
Foi apenas cerca de  que Richard Dedekind (1831–1916) conseguiu isolar a característica essencial que caracteriza o continuum dos pontos de uma recta: sempre que
cortamos uma recta em duas semi-rectas, existe um ponto da recta que determina esse
corte. Essa característica não é verificada nos números racionais. Em primeiro lugar
importa considerar a noção correspondente a este conceito de corte da recta.
Definição 4.1.β€” Um corte nos números racionais é um conjunto não vazio de racionais,
digamos 𝛼 βŠ‚ β„š verificando as seguintes condições:
() se 𝑝 ∈ 𝛼 e π‘ž ∈ β„š é menor que 𝑝 então, π‘ž ∈ 𝛼;
() se 𝑝 ∈ 𝛼 então existe π‘ž ∈ 𝛼 tal que π‘ž > 𝑝.
() 𝛼 β‰  β„š
Um corte 𝛼 diz-se determinado por um racional 𝑝 se 𝛼 = {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝑝}. (Por
exemplo o corte {𝑝 ∈ β„š ∣ 𝑝 < τΊΌ} é determinado pelo racional τΊΌ.) No entanto, existem
outros cortes 𝛼 que não são determinados por racionais. Basta considerar o corte 𝛼 onde
𝛼 = {𝑝 ∈ β„š ∣ 𝑝τΊΎ < τΊΎ} (estamos perante um corte porque a possibilidade 𝑝τΊΎ β‰  τΊΎ, para
𝑝 ∈ β„š.
Tem-se agora que nem 𝐴 tem máximo nem 𝐡 tem mínimo, pelo que este corte não
é determinado por um racional.
+
Lema 4.2.β€” Consideremos o conjunto 𝛼 = {𝑝 ∈ β„š ∣ (βˆƒπ‘ž ∈ β„š )[π‘žτΊΎ < τΊΎ ∧ 𝑝 < π‘ž]}. Tem-se
que 𝛼 é um corte e não é determinado por nenhum racional.
Dem.β€” Comecemos por verificar que 𝛼 é um corte. Tem-se que 𝛼 não é vazio, poi
por exemplo τΊ½ ∈ 𝛼. Por outro lado também se tem 𝛼 β‰  β„š pois, por exemplo τΊΎ βˆ‰ β„š.
Também é fácil mostrar que se 𝑝 ∈ 𝛼 e π‘ž ≀ 𝑝 então π‘ž ∈ 𝛼. Finalmente se 𝑝 ∈ 𝛼 temos
que demonstrar que existe π‘ž ∈ 𝛼 tal que π‘ž > 𝑝. Basta fazer esta verificação para 𝑝 > τΊΌ.
Consideremos então 𝑝 > τΊΌ. Associemos-lhe o número,
π‘ž=
􏺾𝑝 + 􏺾
.
𝑝+τΊΎ
(.)
É fácil verficar que π‘ž > 𝑝. Por outro lado
π‘žτΊΎ βˆ’ τΊΎ =
τΊΎ(𝑝τΊΎ βˆ’ τΊΎ)
(𝑝 + τΊΎ)
􏺾
< 􏺼,
ou seja π‘žτΊΎ < τΊΎ e π‘ž > 𝑝.
O corte 𝛼 não é determinado por nenhum racional. Supondo o contrário, ou seja
que existe um racional 𝑝 tal que 𝛼 = {π‘Ÿ ∈ β„š ∣ π‘Ÿ < 𝑝} ter-se-ia 𝑝τΊΎ > τΊΎ (já que 𝑝τΊΎ = τΊΎ é
impossível). Considerando π‘ž dado pela equação (.), tem-se nestas circunstâncias que
π‘ž < 𝑝 e π‘žτΊΎ > τΊΎ, contradizendo o facto de 𝛼 ser determinado por 𝑝. β—Ό

Usando este conceito de «corte de racionais» Dedekind foi bem sucedido descrevendo
um conjunto de númerosβ€”os números reais que possuem um maior «grau de completude» que os números racionais. Basicamente Dedekind demonstrou a existência de
um corpo ordenado completo. Como iremos ver, a estrutura de um corpo ordenado completo é única, i.e., dois corpos ordenados completos são estruturalmente equivalentes.
Deste modo o que faremos de seguida é fixar uma destas estruturas e designar os seus
elementos por números reais. O conjunto dos números reais (que é uma extensão de β„š)
denota-se por ℝ.
Consideremos algumas definições.
Definição 4.2.β€” Um corpo é uma estrutura do tipo 𝕂 = (𝐾, +, β‹…, 𝟘, πŸ™) onde 𝟘, πŸ™ ∈ 𝐾 e +, β‹…
são operações binárias em 𝐾, denominadas de adição e produto. A estrutura 𝕂 deve satisfazer
o seguinte:
. (βˆ€π‘₯, 𝑦)[π‘₯ + 𝑦 = 𝑦 + π‘₯ ∧ π‘₯ β‹… 𝑦 = 𝑦 β‹… π‘₯] (comutatividade);
. (βˆ€π‘₯, 𝑦, 𝑧)[(π‘₯ + 𝑦) + 𝑧 = π‘₯ + (𝑦 + 𝑧) ∧ (π‘₯ β‹… 𝑦) β‹… 𝑧 = π‘₯ β‹… (𝑦 β‹… 𝑧)] (associatividade);
. (βˆ€π‘₯)π‘₯ + 𝟘 = π‘₯; (elemento neutro de +);
. (βˆ€π‘₯)(βˆƒπ‘¦)π‘₯ + 𝑦 = 𝟘 (existência de simétrico);
. (βˆ€π‘₯ β‰  𝟘)π‘₯ β‹… πŸ™ = π‘₯ (elemento neutro de β‹…);
. (βˆ€π‘₯ β‰  𝟘)(βˆƒπ‘¦)π‘₯ β‹… 𝑦 = πŸ™ (existência de inverso);
. (βˆ€π‘₯, 𝑦, 𝑧)π‘₯ β‹… (𝑦 + 𝑧) = (π‘₯ β‹… 𝑦) + (π‘₯ β‹… 𝑧) (distributividade de β‹… relativamente a +).
Algumas observações.
Observação 1.β€” O simétrico de qualquer elemento π‘₯ de um corpo 𝕂 é único. Assim
sendo, denotamo-lo por βˆ’π‘₯.
Observação 2.β€” O inverso de qualquer π‘₯ β‰  τΊΌ é único. Por isso denotamo-lo por τΊ½/π‘₯
ou por π‘₯βˆ’τΊ½ .
Estaremos interessados nos denominados corpos de característica  (zero). Tratam-se dos
corpos onde a sequência:
πŸ™,
πŸ™ + πŸ™,
πŸ™ + πŸ™ + πŸ™,
πŸ™ + πŸ™ + πŸ™ + πŸ™,
… ad infinitum,
não contém nenhum zero. Pode mostrar-se que os elementos da sequência acima são
do ponto de vista estrutural uma cópia dos naturais positivos. Denotando πŸ™ + πŸ™ por 𝟚,
πŸ™ + πŸ™ + πŸ™ por πŸ›, etc. podemos identificar o racional π‘š/𝑛 com o elemento π•ž β‹… π•Ÿβˆ’τΊ½ ∈ 𝕂.
Embora não o façamos pode demonstrar-se que:
Lema 4.3.β€” Sendo β„šπ•‚ = ({π•žβ‹…π•Ÿβˆ’τΊ½ ∣ π‘š, 𝑛 ∈ β„š}, +, β‹…, 𝟘, πŸ™) tem-se que β„šπ•‚ βŠ† 𝕂 e a estrutura
β„šπ•‚ é equivalente à estrutura dos números racionais.
Em virtude do lema anterior, qualquer corpo de característica zero contém os números
racionais. De facto β„š = (β„š, +, β‹…, τΊΌ, τΊ½) é o menor corpo de característica zero.

Definição 4.3.β€” Uma ordem total num conjunto 𝐴 é uma relação binária β‰Ί em 𝐴 que
satisfaz:
. (βˆ€π‘₯, 𝑦)[π‘₯ β‰Ί 𝑦 β‡’ ¬π‘¦ β‰Ί π‘₯]
. (βˆ€π‘₯, 𝑦, 𝑧)[π‘₯ β‰Ί 𝑦 ∧ 𝑦 β‰Ί 𝑧 β‡’ π‘₯ β‰Ί 𝑧];
. (βˆ€π‘₯, 𝑦)[π‘₯ β‰Ί 𝑦 ∨ 𝑦 β‰Ί π‘₯ ∨ π‘₯ = 𝑦]
Uma ordem total é um par (𝐴, β‰Ί) onde 𝐴 é um conjunto não vazio e β‰Ί é uma ordem total em
𝐴.
Se (𝐴 β‰Ί) é uma ordem total também escrevemos π‘₯ βͺ― 𝑦 para abreviar π‘₯ β‰Ί 𝑦 ∨ π‘₯ = 𝑦.
Definição 4.4.β€” Suponhamos que (𝐴, β‰Ί) é uma ordem total e 𝑋 βŠ† 𝐴. Um majorante
de 𝑋 é um elemento π‘š ∈ 𝐴 tal que (βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋)π‘₯ βͺ― π‘š. O conjunto dos majorantes de 𝑋
denota-se por Maj(𝑋). De modo análogo, um minorante de 𝑋 é um elemento π‘Ž ∈ 𝐴 tal
que (βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋)π‘Ž βͺ― π‘₯. O conjunto dos minorantes de 𝑋 denota-se por Min(𝑋). Se existir
o menor elemento de Maj(𝑋) ele designa-se de supremo de 𝑋 e denota-se por sup(𝑋). Se
existir o maior elemento de Min(𝑋) ele designa-se de ínfimo de 𝑋 e denota-se por inf(𝑋). Se
sup(𝑋) ∈ 𝑋 diz-se que é o máximo de 𝑋, que se denota por max(𝑋). De modo análogo, se
inf(𝑋) ∈ 𝑋 diz-se o mínimo de 𝑋 e denota-se por min(𝑋).
Definição 4.5 (Axioma do supremo).β€” Suponhamos que (𝐴, β‰Ί) é uma ordem total. Dizemos que (𝐴, β‰Ί) satisfaz o axioma do supremo se, dado um qualquer 𝑋 βŠ† 𝐴 tal que 𝑋 β‰  βˆ…,
se Maj(𝑋) β‰  βˆ… então existe o sup(𝑋), i.e.,
(βˆ€π‘‹ βŠ† 𝐴)[𝑋 β‰  βˆ… ∧ Maj(𝑋) β‰  βˆ… β‡’ (βˆƒπ‘Ž ∈ 𝐴)π‘Ž = sup(𝑋)].
Definição 4.6 (Corpo ordenado).β€” Por corpo ordenado entende-se uma estrutura do
tipo 𝕂 = (𝐾, +, β‹…, 𝟘, πŸ™, β‰Ί) onde (𝐾, +, β‹…, 𝟘, πŸ™) é um corpo de característica zero e (𝐾, β‰Ί) é uma
ordem total satisfazendo:
. (βˆ€π‘₯, 𝑦, 𝑧)[π‘₯ β‰Ί 𝑦 β‡’ π‘₯ + 𝑧 β‰Ί 𝑦 + 𝑧];
. (βˆ€π‘₯, 𝑦, 𝑧)[π‘₯ β‰Ί 𝑦 ∧ 𝟘 β‰Ί 𝑧 β‡’ π‘₯ β‹… 𝑧 β‰Ί 𝑦 β‹… 𝑧].
Num corpo ordenado, os elementos π‘₯ ∈ 𝐾 tais que 𝟘 β‰Ί π‘₯ dizem-se positivos. Os elemen+
tos que não são positivos nem nulos dizem-se negativos. Denotamos por 𝕂 o conjunto
βˆ’
dos elementos positivos em 𝕂 e por 𝕂 o conjunto dos elementos negativos.
Definição 4.7 (Corpo ordenado completo).β€” Um corpo ordenado completo é um corpo
ordenado 𝕂 que satisfaz o axioma do supremo.
Teorema 4.1.β€” Os números racionais constituem, juntamente com as operações e a relação de
ordem usuais, um corpo ordenado β„š = (β„š, +, β‹…, τΊΌ, τΊ½, <). Este corpo ordenado não é completo.
Dem.β€” A verificação de que se trata de um corpo ordenado é deixada como exercício.
Este corpo não satisfaz o axioma do supremo na medida em que considerando o conjunto não vazio 𝑋 βŠ† β„š definido por 𝑋 = {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘žτΊΎ < τΊΎ} este conjunto não é vazio
e é majorado, de facto, como nenhum racional satisfaz a condição π‘žτΊΎ = τΊΎ, tem-se que
Maj(𝑋) = {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘žτΊΎ > τΊΎ}. Mas este conjunto não tem elemento mínimo, logo não
existe supremo. β—Ό

Os racionais possuem uma propriedade adicional, constituem o que se denomina um
corpo arquimediano.
Definição 4.8.β€” Um copo ordenado 𝕂 = (𝐾, +, β‹…, 𝟘, πŸ™, β‰Ί) diz-se arquimediano se satisfaz
+
a seguinte propriedade: dados π‘₯, 𝑦 ∈ 𝕂 com π‘₯ β‰Ί 𝑦 então existe 𝑛 ∈ β„• tal que 𝑦 β‰Ί π•Ÿ β‹… π‘₯.
(Oberve-se que π•Ÿ β‹… π‘₯ = (πŸ™ + πŸ™ + β‹― + πŸ™) β‹… π‘₯ (com 𝑛 πŸ™'s) e este último é π‘₯ + π‘₯ + β‹― + π‘₯ (com 𝑛
π‘₯'s).) Um elemento de 𝐾 da forma π•Ÿ β‹… π‘₯ também se diz um múltiplo de π‘₯.
Lema 4.4.β€” O corpo β„š = (β„š, +, β‹…, τΊΌ, τΊ½, <) é arquimediano.
Dem.β€” Considerando τΊΌ < π‘š/𝑛 < π‘Ÿ/𝑠 é fácil verificar que (π‘›π‘Ÿ)(π‘š/𝑛) = π‘Ÿπ‘š > π‘Ÿ/𝑠.β—Ό
Teorema 4.2 (Dedekind).β€” Existe um corpo ordenado completo. Dois corpos ordenados
completos têm estruturas equivalente pelo que, existe essencialmente um único corpo ordenado completo, corpo esse que se denota por ℝ = (ℝ, +, β‹…, τΊΌ, τΊ½, <) e cujos elementos se
designam de números reais.
A demonstração deste resultado é relegada para a secção final que não se considera,
apesar de tudo essencial.
Lema 4.5.β€” O corpo ℝ é arquimediano.
Dem.β€” Consideremos dois reais positivos π‘₯ < 𝑦. Se nenhum número da forma 𝑛π‘₯ com
𝑛 ∈ β„• excede 𝑦 então o conjunto 𝑋 = {𝑛π‘₯ ∣ 𝑛 ∈ β„•} é majorado e, como ℝ satisfaz o
axioma do supremo tem-se que existe 𝛼 ∈ ℝ tal que 𝛼 = sup(𝑋). Neste caso 𝛼 βˆ’ π‘₯ não
é um majorante de 𝑋, pelo que existe um 𝑛 ∈ β„• tal que 𝑛π‘₯ > 𝛼 βˆ’ π‘₯. Neste caso tem-se
𝑛π‘₯ + π‘₯ = (𝑛 + τΊ½)π‘₯ > 𝛼, contradizendo o facto de 𝛼 ser o supremo de 𝑋. β—Ό
Teorema 4.3.β€” Os números racionais são densos em ℝ, i.e., dados quaisquer dois números
reais π‘₯ < 𝑦 existe um racional 𝑝 tal que π‘₯ < 𝑝 < 𝑦.
Dem.β€” Consideremos dois números reais π‘₯ < 𝑦.
Seja 𝑛 o maior natural que não excede π‘₯. Se 𝑦 βˆ’ π‘₯ > τΊ½ então, π‘₯ < 𝑛 + τΊ½ < 𝑦. Se
𝑦 = π‘₯+τΊ½ e 𝑛 < π‘₯ o argumento anterior aplica-se, caso contrário tem-se π‘₯ = 𝑛 e 𝑦 = 𝑛+τΊ½
pelo que neste caso se tem 𝑛 < (𝑛 + 𝑛 + τΊ½)/τΊΎ < 𝑛 + τΊ½.
Considerando agora que τΊΌ < 𝑦 βˆ’ π‘₯ < τΊ½ podemos, usando o facto de ℝ ser arquimediano, encontrar um natural π‘˜ tal que π‘˜(𝑦 < π‘₯) > τΊ½ ou seja π‘˜π‘¦ βˆ’ π‘˜π‘₯ > τΊ½. Aplicando o
argumento da primeira parte a π‘˜π‘₯, π‘˜π‘¦ podemos concluir que existe um natural π‘Ÿ tal que
π‘˜π‘₯ < π‘Ÿ < π‘˜π‘¦. Dividindo por π‘˜ obtemos: π‘₯ < π‘Ÿ/π‘˜ < 𝑦. Concluindo assim a demonstração.
β—Ό
Corolário 4.3.1.β€” Se π‘₯ ∈ ℝ então π‘₯ = sup{𝑝 ∈ β„š ∣ 𝑝 < π‘₯}.
Existem elementos de ℝ que não são racionais (de facto a maior parte dos elementos
de ℝ não é racional). Os elementos do conjunto 𝕀 = ℝ β§΅ β„š designam-se de números
irracionais.

Teorema 4.4.β€” Os irracionais são densos em ℝ, i.e., dados π‘₯, 𝑦 ∈ ℝ com π‘₯ < 𝑦, existe π‘Ž ∈ 𝕀
tal que π‘₯ < π‘Ž < 𝑦.
Já vimos atrás que equações da forma π‘₯τΊΎ = π‘˜ podem não ser resolúveis em β„š, por
exemplo, nenhum racional pode satisfazer a equação π‘₯τΊΎ = τΊΎ, como vimos antes. Isto
não acontece nos reais.
Teorema 4.5.β€” Consideremos um número real π‘˜ β‰₯ τΊΌ. A equação π‘₯𝑛 = π‘˜ tem uma única
𝑛
τΊ½/𝑛
solução positiva em ℝ, para qualquer 𝑛 ∈ β„• β§΅ {τΊΌ}. Essa solução denota-se por βˆšπ‘˜ ou π‘˜ .
Dem.β€” É claro que só pode haver uma única solução positiva possível pois se τΊΌ < π‘Ž < 𝑏
𝑛
então π‘Žπ‘› < 𝑏 . Mostremos então que existe uma solução. Consideremos o conjunto
𝐴 = {𝛼 ∈ ℝ ∣ 𝛼𝑛 < π‘˜}. Em primeiro lugar 𝐴 β‰  βˆ… pois, considerando 𝛼 = π‘˜/(τΊ½ + π‘˜),
tem-se τΊΌ < 𝛼 < τΊ½ e, consequentemente, 𝛼𝑛 < 𝛼 < π‘˜. Além disso 𝐴 é majorado porque
se τΊ½ + π‘˜ é majorante de 𝐴 (verifique!). Nestas condições 𝐴 é não vazio e majora e, pelo
axioma do supremo, conclui-se que existe 𝛽 ∈ ℝ tal que 𝛽 = sup 𝐴.
𝑛
𝑛
Vamos agora mostrar que 𝛽 > π‘˜ e 𝛽 < π‘˜ são hipóteses que conduzem a contradi𝑛
ções, pelo que só se pode ter 𝛽 = π‘˜, permitindo concluir a demonstração.
𝑛
π‘›βˆ’τΊ½
π‘›βˆ’τΊΎ
Tem-se que 𝑏 βˆ’π‘Žπ‘› = (π‘βˆ’π‘Ž)(𝑏 +π‘Žπ‘ +β‹―+π‘Žπ‘›βˆ’τΊΎ 𝑏+π‘Žπ‘›βˆ’τΊ½ ) (o leitor pode estabelecer
esta relação por indução). Asim, se τΊΌ < π‘Ž < 𝑏 tem-se que
𝑛
π‘›βˆ’τΊ½
𝑏 βˆ’ π‘Žπ‘› < (𝑏 βˆ’ π‘Ž)𝑛𝑏
(.)
.
𝑛
Consideremos então a possibilidade 𝛽 < π‘˜. Consideremos τΊΌ < πœ– < τΊ½ tal que
π‘˜βˆ’π›½
τΊΌ<πœ–<
𝑛
𝑛(𝛽 + τΊ½)
(.)
𝑛.
Usando (.) obtemos,
𝑛
π‘›βˆ’τΊ½
𝑛
(𝛽 + πœ–) βˆ’ 𝛽 < πœ–π‘›(𝛽 + πœ–)
< πœ–π‘›(𝛽 + τΊ½)
π‘›βˆ’τΊ½
<π‘˜βˆ’π›½
𝑛
obtendo-se a última desigualdade, usando (.).
𝑛
𝑛
𝑛
𝑛
Podemos então concluir de (𝛽 + πœ–) βˆ’ 𝛽 < π‘˜ βˆ’ 𝛽 que (𝛽 + πœ–) < π‘˜, mas isto contradiz
o facto de 𝛽 ser o supremo do conjunto {𝛼 ∈ ℝ ∣ 𝛼𝑛 < π‘˜}.
𝑛
Consideremos agora uma segunda possibilidade: 𝛽 > π‘˜. Neste caso, seja
𝑛
πœ–=
𝛽 βˆ’π‘˜
π‘›βˆ’τΊ½ .
𝑛𝛽
(.)
Cálculos simples mostrarão que τΊΌ < πœ– < 𝛽. Considerando agora 𝑑 > 𝛽 βˆ’ πœ–, tem-se:
𝑛
𝑛
𝑛
𝛽 βˆ’ 𝑑𝑛 < 𝛽 βˆ’ (𝛽 βˆ’ πœ–) < π‘›πœ–π›½
π‘›βˆ’τΊ½
𝑛
=𝛽 βˆ’π‘˜
(.)
obtendo-se a última igualdade usando (.). De (.) resulta que βˆ’π‘‘π‘› < βˆ’π‘˜ ou seja que
𝑑𝑛 > π‘˜. Assim nenhum 𝑑 > 𝛽 βˆ’ πœ– é membro de 𝐴. Dito isto por outras palavras, π›½πœ– é um
majorante de 𝐴, originando uma contradição pois, como 𝛽 βˆ’ πœ– < 𝛽 seria um majorante
menor que o supremo.
𝑛
𝑛
As hipóteses 𝛽 > π‘˜ e 𝛽 < π‘˜ conduzem a contradições e assim, somos forçados a
𝑛
concluir que 𝛽 = π‘˜. β—Ό

Apresenta-se a seguir uma enumeração de propriedades básicas dos reais (de facto, de
qualquer corpo ordenado).
. Se π‘₯ + 𝑦 = π‘₯ + 𝑧 então 𝑦 = 𝑧.
. Se π‘₯ + 𝑦 = π‘₯ então 𝑦 = τΊΌ.
. Se π‘₯ + 𝑦 = τΊΌ então 𝑦 = βˆ’π‘₯.
. Tem-se βˆ’(βˆ’π‘₯) = π‘₯.
. Se π‘₯ β‰  τΊΌ e π‘₯𝑦 = π‘₯𝑧 então 𝑦 = 𝑧.
. Se π‘₯ β‰  τΊΌ e π‘₯𝑦 = π‘₯ então 𝑦 = τΊ½.
. Se π‘₯𝑦 = τΊ½ então 𝑦 = π‘₯βˆ’τΊ½ .
βˆ’τΊ½
. Se π‘₯ β‰  τΊΌ então (π‘₯βˆ’τΊ½ )
= π‘₯.
. Tem-se τΊΌ β‹… π‘₯ = τΊΌ.
. Se π‘₯, 𝑦 β‰  τΊΌ então π‘₯𝑦 β‰  τΊΌ.
. Tem-se (βˆ’π‘₯)𝑦 = βˆ’(π‘₯𝑦) = π‘₯(βˆ’π‘¦).
. Tem-se (βˆ’π‘₯)(βˆ’π‘¦) = π‘₯𝑦.
. Se 𝑦 < 𝑧 então π‘₯ + 𝑦 < π‘₯ + 𝑧.
. Se π‘₯, 𝑦 > τΊΌ então π‘₯𝑦 > τΊΌ.
. Se π‘₯ > τΊΌ então βˆ’π‘₯ < τΊΌ e vice-versa.
. Se π‘₯ > τΊΌ e 𝑦 < 𝑧 então π‘₯𝑦 < π‘₯𝑧.
. Se π‘₯ < τΊΌ e 𝑦 < 𝑧 então π‘₯𝑦 > π‘₯𝑧.
. Se π‘₯ β‰  τΊΌ então π‘₯τΊΎ > τΊΌ.
. Se τΊΌ < π‘₯ < 𝑦 então τΊΌ < τΊ½/𝑦 < τΊ½/π‘₯.
4.1.1 Existência e unicidade de um corpo ordenado completo*
Esta secção é uma extensão da aula no sentido em que o seu conteúdo não será abordado
na aula. Não sendo essenciais, os resultados desta secção são disponibilizados para que
o leitor mais interessado possa familiarizar-se com alguns factos que anteriormente foi
convidado a aceitar. Apesar disso não se encontrará aqui uma demonstração plena desses
mesmos resultados. Apenas daqueles pontos mais importantes. Como regra geral, verificações mais ou menos mecânicas serão deixadas de lado. Seremos fieis ao pensamento
de Riemmann: «as demonstrações fazem-se através de ideias e não através de cálculos
fastidiosos».
Comecemos pela questão da existência.
O corpo ordenado completo que vamos descrever resulta dos esforços de Richard
Dedekind para obter uma analogia aritmética dos pontos de uma recta. O Cálculo

desenvolveu-se à custa de fortes intuições geométricas. Quando chegamos a Newton
e Leibniz, a dependência dessa intuição atinge o seu auge, chegando-se a um ponto
em que já ninguém duvidava que todo o Cálculo necessitava de fundações mais sólidas.
Inicia-se um período designado de aritmetização da Análise.
Vária tentativas precederam aquela levada a cabo por Dedekind. Todas elas (exepto
provavelmente uma da autoria de Bolzano que pretendia ampliar os racionais através da
consideração de operações infinitárias) tentaram explorar a noção de densidade dos pontos de uma recta. Ou seja a característica de continuidade dos pontos de uma recta, parecia
residir no facto de entre dois pontos existir sempre um terceiro. A ideia é tentadora mas
inútil em si mesma, pois os números racionais já são densos, i.e., entre quaisquer dois
deles existe sempre um terceiro e, como vimos atrás, não podem representar os pontos
de uma recta.
Dedekind teve uma ideia absolutamente decisiva que haveria de o conduzir à solução do problema de representar os pontos da recta aritmeticamente. De acordo com
Dedekind aquilo que caracteriza o continuum da recta é o facto de, sempre que se divide
a recta em duas semi-rectas, essa divisão ser sempre determinada por um ponto. Transpondo a noção de semi-recta para os números racionais chegamos à noção de corte nos
racionais.
O que é afinal um corte nos racionais?
Trata-se de um conjunto de racionais 𝛼 βŠ† β„š, possuindo as seguintes propriedades:
. 𝛼 β‰  βˆ…;
. (βˆ€π‘ ∈ 𝐴𝛼)(βˆ€π‘ž ∈ β„š)[π‘ž < 𝑝 β‡’ π‘ž ∈ 𝛼];
. (βˆ€π‘ ∈ 𝛼)(βˆƒπ‘ž ∈ 𝛼)π‘ž > 𝑝.
(Seguiremos aqui a convenção de denotar por letras como 𝑝, π‘ž, π‘Ÿ, 𝑠, … os números racionais e por letras gregas minúsculas 𝛼, 𝛽, 𝛾, … os cortes de racionais.)
Um corte 𝛼 é determinado por um racional 𝑝 se 𝛼 = {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝑝}. Assim sendo
qualquer racional determina um corte, mais precisamente, o corte 𝛼𝑝 = {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝑝}.
O ponto crucial é que nem todos os cortes são determinados por racionais. Já vimos
um exemplo: 𝛼 = {𝑝 ∈ β„š ∣ 𝑝τΊΎ < τΊΎ}. Designemos por ℝ o conjunto de todos os cortes
de racionais. É fácil definir uma ordenação em ℝ, através de
𝛼 <ℝ 𝛽
sse
𝛼 ⊊ 𝛽.
Lema 4.6.β€” A relação ≀ℝ acima definida é uma relação de ordem total.
Dem.β€” Exercício.β—Ό
Lema 4.7.β€” A estrutura (ℝ, <ℝ ) satisfaz o axioma do supremo.
. O Cálculo também é designado de Análise.
. De facto a maioria dos cortes racionais não é determinada por um racional, mas a demonstração deste
facto transcende o âmbito destas notas.

Dem.β€” Consideremos 𝑋 βŠ† ℝ tal que 𝑋 β‰  βˆ… e Maj(𝑋) β‰  βˆ…. Pode demonstrar-se que
𝛾 = βˆͺ{𝛼 ∣ 𝛼 ∈ 𝑋} é um corte. Por outro lado se para cada 𝛼 ∈ 𝑋 se tem 𝛼 ≀ℝ 𝛽, ou seja,
se 𝛽 é majorante de 𝑋 então tem-se que 𝛼 βŠ† 𝛽 para qualquer 𝛼 ∈ 𝑋. Daqui decorre que
𝛾 = βˆͺ{𝛼 ∣ 𝛼 ∈ 𝑋} βŠ† 𝛽, ou seja, 𝛾 ≀ℝ 𝛽, confirmando que 𝛾 = sup 𝑋. β—Ό
Resta-nos definir uma estrutura de corpo nos cortes racionais, definindo +ℝ , ⋅ℝ , τΊΌβ„ e τΊ½β„
de modo que (ℝ, +ℝ , ⋅ℝ , τΊΌβ„ , τΊ½β„ , <ℝ ) seja um corpo ordenado completo.
Começamos por definir as constantes τΊ½β„ e τΊΌπ‘… é o corte determinado pelo racional τΊΌ
e τΊ½β„ , o corte determinado pelo racional τΊ½. Quanto às operações considera-se a seguinte
definição para +ℝ :
𝛼 +ℝ 𝛽 ∢= {𝑝 + π‘ž ∣ 𝑝 ∈ 𝛼 ∧ π‘ž ∈ 𝛽}.
Lema 4.8.β€” A estrutura (ℝ, +ℝ , τΊΌβ„ ) satisfaz os axiomas de corpo ordenado que envolvem
apenas a operação + e a constante τΊΌ.
Dem.β€” Deixa-se ao cuidado do leitor completar os detalhes aqui omitidos. É fácil
verificar as propriedades de associatividade e comutatividade. Igualmente fácil é a constatação de que τΊΌβ„ é o elemento neutro para +ℝ . Resta-nos a verificação de que todo o
corte possui um «simétrico».
Dado 𝛼 ∈ ℝ consideremos
βˆ’π›Ό ∢= {𝑝 ∈ β„š ∣ (βˆƒπ‘Ÿ > τΊΌ) βˆ’ 𝑝 βˆ’ π‘Ÿ βˆ‰ 𝛼}.
É possível mostrar que βˆ’π›Ό é um corte. Vamos agora verificar que 𝛼 +ℝ (βˆ’π›Ό) = τΊΌβ„ . Em
primeiro lugar qualquer elemento de 𝛼 +ℝ (βˆ’π›Ό) é da forma π‘Ÿ + 𝑠 com π‘Ÿ ∈ 𝛼 e 𝑠 ∈ βˆ’π›Ό. Por
definição, existe 𝑑 > τΊΌ tal que βˆ’π‘ βˆ’π‘‘ βˆ‰ 𝛼. Assim, tem-se π‘Ÿ ≀ βˆ’π‘ βˆ’π‘‘, ou seja π‘Ÿ+𝑠+𝑑 ≀ τΊΌ, pelo
que π‘Ÿ+𝑠 < τΊΌ concluindo-se assim que 𝛼+ℝ (βˆ’π›Ό) βŠ† τΊΌβ„ . Para verificar que τΊΌβ„ βŠ† 𝛼+ℝ (βˆ’π›Ό)
considere-se π‘Ÿ ∈ τΊΌβ„ . Tem-se que π‘Ÿ < τΊΌ
β—Ό
Quando a ⋅ℝ a definição é um pouco mais delicada. Consideramos primeiro o «produto»
de dois cortes positivos. Assim se 𝛼 e 𝛽 são ambos positivos, define-se:
𝛼 ⋅ℝ 𝛽 = {𝑝 ∈ β„š ∣ (βˆƒπ‘Ÿ ∈ 𝛼)(βˆƒπ‘  ∈ 𝛽)π‘ž < π‘Ÿπ‘ }
A definição pode agora estender-se aos restantes casos:
⎧(βˆ’π›Ό) β‹… (βˆ’π›½) (se 𝛼, 𝛽 < τΊΌ )
ℝ
ℝ ℝ
βŽͺ
βŽͺ
𝛼 ⋅ℝ 𝛽 = βŽ¨βˆ’((βˆ’π›Ό) ⋅ℝ 𝛽) (se 𝛼 <ℝ τΊΌβ„ ∧ τΊΌβ„ <ℝ 𝛽)
βŽͺ
βŽͺβˆ’(𝛼 β‹… (βˆ’π›½)) (se τΊΌ < 𝛼 ∧ 𝛽 < τΊΌ )
ℝ
ℝ ℝ
ℝ ℝ
⎩
Pode finalmente demonstrar-se o seguinte,
Teorema 4.6.β€” A estrutura (ℝ, +ℝ , ⋅ℝ , τΊΌβ„ , τΊ½β„ , <ℝ ) é um corpo ordenado completo.
Não demonstraremos o resultado. Já ilustrámos a técnica de demonstração nos resultados precedentes. Neste caso trata-se de repetir argumentos do mesmo tipo e, além

do mais, o nosso propósito não é o de estabelecer rigorosamente o resultado mas, tão
somente o de indicar a forma como um corpo ordenado completo se pode obter.
Consideremos agora a a questão da unicidade.
Suponhamos que ℝτΊ½ = (ℝτΊ½ , +τΊ½ , β‹…τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e ℝτΊ½ = (ℝτΊΎ , +τΊΎ , β‹…τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ ) são corpos
ordenados completos. Como já foi referido, ambos contém os racionais, i.e., β„š βŠ† ℝτΊ½
e β„š βŠ† ℝτΊΎ . Quando falamos de unicidade, falamos evidentemente de unicidade estrtutural que pode ser testemunhada recorrendo de novo à noção de isomorfismo que já
considerámos quando estabelecemos a unicidade estrutural determinada pelos axiomas
de Dedekind -Peano.
No caso de dois corpos ordenados, um isomorfismo é uma bijecção que preserva as
operações e a relação de ordem. Ou seja,
Definição 4.9.β€” Consideremos dois corpos ordenados 𝕂τΊ½ = (𝕂τΊ½ , +τΊ½ , β‹…τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e 𝕂τΊΎ =
(𝕂τΊΎ , +τΊΎ , β‹…τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ ). Um isomorfismo entre 𝕂τΊ½ e 𝕂τΊΎ é uma bijecção 𝑓 ∢ 𝕂τΊ½ β†’ 𝕂τΊΎ que
satisfaz:
() (βˆ€π‘₯, 𝑦 ∈ 𝕂τΊ½ )[𝑓(π‘₯ +τΊ½ 𝑦) = 𝑓(π‘₯) +τΊΎ 𝑓(𝑦)];
() (βˆ€π‘₯, 𝑦 ∈ 𝕂τΊ½ )[𝑓(π‘₯ β‹…τΊ½ 𝑦) = 𝑓(π‘₯) β‹…τΊΎ 𝑓(𝑦)];
() 𝑓(τΊΌτΊ½ ) = τΊΌτΊΎ
() 𝑓(τΊ½τΊ½ ) = τΊ½τΊΎ
() (βˆ€π‘₯, 𝑦 ∈ 𝕂τΊ½ )[π‘₯ <τΊ½ 𝑦 ≑ 𝑓(π‘₯) <τΊΎ 𝑓(𝑦)];
O facto de um isomorfismo capturar o conceito de equivalência estrutural é espelhado
no resultado seguinte que não demonstraremos.
Lema 4.9.β€” Suponhamos que 𝕂τΊ½ = (𝕂τΊ½ , +τΊ½ , β‹…τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e 𝕂τΊΎ = (𝕂τΊΎ , +τΊΎ , β‹…τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ )
são dois corpos ordenados e 𝑓 ∢ 𝕂τΊ½ β†’ 𝕂τΊΎ é um isomorfismo. Nestas condições se 𝜎 é uma
sentença da linguagem 𝐿 = {+, β‹…, τΊΌ, τΊ½, <} tem-se,
𝕂τΊ½ ⊧ 𝜎
sse
𝕂τΊΎ ⊧ 𝜎.
Vamos então mostrar que qualquer corpo ordenado completo 𝕂 é isomorfo a ℝ.
Teorema 4.7.β€” Se 𝕂 = (𝕂, +𝕂 , ⋅𝕂 , τΊΌπ•‚ , τΊ½π•‚ , <𝕂 ) é um corpo ordenado completo então, é
isomorfo a ℝ = (ℝ, +ℝ , ⋅ℝ , τΊΌβ„ , τΊ½β„ , <ℝ ).
Dem.β€” Já observámos que tanto 𝕂 como ℝ contém uma «cópia» dos números racionais.
Como os números racionais são densos tanto em 𝕂 como em ℝ utilizaremos esse facto
para construir o isomorfismo. O nosso isomorfismo irá satisfazer a seguinte condição
𝑓(π‘ž) = π‘ž se π‘ž ∈ β„š.
Em qualquer corpo ordenado completo 𝕂 tem-se π‘₯ = sup𝕂 {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž ≀ π‘₯}, para
qualquer π‘₯ ∈ 𝕂. Assim podemos definir:
𝑓(sup𝕂 {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž ≀ π‘₯}) = supℝ {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž ≀ π‘₯}.
A função 𝑓 preserva claramente a ordem. Além disso é bijectiva. Por um lado é injectiva
pois se π‘₯ β‰  𝑦 então podemos supor sem perda de generalidade que π‘₯ < 𝑦 e, neste caso

existe um racional π‘Ÿ tal que π‘₯ < π‘Ÿ < 𝑦 então, também se tem 𝑓(π‘₯) < π‘Ÿ < 𝑓(𝑦) pelo que
𝑓(π‘₯) β‰  𝑓(𝑦). Por outro lado é sobrejectiva, pois se 𝛼 ∈ ℝ tem-se 𝛼 = sup{π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝛼}
então considerando π‘₯ = sup𝕂 {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝛼} tem-se, por definição que 𝑓(π‘₯) = 𝛼.
Sendo imediato verificar que 𝑓 preserva as constantes resta mostrar que preserva
igualmente as operações. A título de exemplo consideramos apenas o caso da soma.
Suponhamos então que π‘₯, 𝑦 ∈ 𝕂. Verifica-se que
π‘₯ +𝕂 𝑦 = sup{π‘Ÿ + 𝑠 ∣ π‘Ÿ < π‘₯ ∧ 𝑠 < 𝑦 ∧ π‘Ÿ, 𝑠 ∈ β„š}.
𝕂
Como π‘₯ +𝕂 𝑦 é claramente um majorante do conjunto daquelas somas, se não fosse o
seu supremo, então existiria um 𝑧 ∈ 𝕂 nas seguintes condições:
(βˆ€π‘Ÿ < π‘₯)(βˆ€π‘  < 𝑦)π‘Ÿ + 𝑠 <𝕂 𝑧 <𝕂 π‘₯ + 𝑦.
Como π‘₯ = sup𝕂 {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < π‘₯} e 𝑦 = sup𝕂 {π‘ž ∈ β„š ∣ π‘ž < 𝑦} podemos considerar
racionais π‘Ÿ e 𝑠 tais que π‘₯ βˆ’ π‘Ÿ < (π‘₯ + 𝑦 βˆ’ 𝑧)/τ»€ e 𝑦 βˆ’ 𝑠 < (π‘₯ + 𝑦 βˆ’ 𝑧)/τ»€ mas nestas circunstâncias
π‘₯ + 𝑦 βˆ’ (π‘Ÿ + 𝑠) é menor que (π‘₯ + 𝑦 βˆ’ 𝑧)/τΊΎ donde se conclui que π‘Ÿ + 𝑠 >𝕂 𝑧 o que constitui
uma contradição.
Tem-se então que
𝑓(π‘₯+𝕂 𝑦) = sup{π‘Ÿ+𝑠 ∣ π‘Ÿ < π‘₯βˆ§π‘  < 𝑦} = {π‘Ÿ ∈ β„š ∣ π‘Ÿ < π‘₯}+ℝ {𝑠 ∈ β„š ∣ 𝑠 < 𝑦} = 𝑓(π‘₯)+ℝ 𝑓(𝑦).
ℝ
No caso do produto usam-se argumentos do mesmo tipo. β—Ό

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