aula 04
Os números reais
4.1 A incompletude da recta racional
Os números racionais constituem um sistema numérico mais completo que o dos números naturais. Uma variedade mais geral de situações pode ser descrita com recurso
a estes números. Ainda assim, os racionais são muito incompletos. Consideremos, por
exemplo, o processo de aritmetização da geometria. Os objectos geométricos podem
ser descritos através de equações, essencialmente porque é possível descrever os pontos
da recta, do plano ou do espaço, através de números. À primeira vista, os racionais
são suο¬cientes para este processo de «codiο¬cação». Marcando dois pontos π e π΄ (ver
Fig. ο΄.ο± (A)) numa recta determinamos um segmento de recta que, convencionalmente
consideramos unitário. Considerando múltiplos inteiros deste segmento, é fácil descrever pontos da recta que, diremos, possuem coordenadas inteiras. Mas, podemos ir
mais longe. Como é claro muitos pontos da recta não ο¬cam associados a coordenadas
pelo procedimento anterior. Mas dado um segmento de recta, é possível dividi-lo em
π partes iguais, usando um procedimento geométrico simples (ver Fig. ο΄.ο± (B)). Não é
(A)
(B)
O
A
O
C
A
B1
B2
B3
B4
B
Figura ο΄.ο±: A recta racional
difícil perceber que combinando estes dois factos é possível associar a cada número racional um ponto da recta. (Os pontos da recta que ο¬cam, por este processo, associados a
ο±
0
1
a
Figura ο΄.ο²: Um ponto da recta que não é um ponto da recta racional
números racionais, constituem aquilo que se designa de recta racional.) A questão importante é: haverá uma coincidência entre a recta e a recta racional?, i.e., serão os racionais
suο¬cientes para que possamos associar a cada ponto da recta uma «coordenada»?
À primeira vista a resposta parece ser positiva, aο¬nal de contas os pontos de uma
recta e os números racionais partilham uma mesma propriedade, que parece essencialβa
densidade. Com efeito, do mesmo modo que entre dois pontos de uma recta existe
sempre um terceiro, o mesmo sucede com os racionais: entre dois racionais π e π existe
sempre um terceiro, por exemplo (π + π)/τΊΎ.
A resposta é negativa. O facto era já essencialmente conhecido por Pitágoras (c.
ο΅ο·ο° a.C.βc. ο΄οΉο΅ a.C.). A diagonal de um quadrado unitário tem comprimento βτΊΎ. Se
marcarmos na recta o ponto correspondente a este comprimento (ver Fig. ο΄.ο²) este não
pode estar associado a uma coordenada racional porque, devido a um resultado obtido,
se não pelo próprio Pitágoras, por um membro da escola pitagórica, βτΊΎ β β.
Lema 4.1 (Pitágoras).β A diagonal e o lado de um quadrado não são comensuráveis, i.e.
(em linguagem numérica) βτΊΎ β β.
Dem.β Suponhamos que βτΊΎ = π/π onde π, π β β. Sem perda de generalidade podemos supor que π, π são primos relativos ou seja, ο± é o único divisor comum entre π e
π (isto é equivalente a dizer que a fracção π/π é irredutível). Suponhamos então, tendo
em vista obter um absurdo que βτΊΎ = π/π. Tem-se então,
τΊΎ = πτΊΎ /πτΊΎ β‘ τΊΎπτΊΎ = πτΊΎ .
(ο΄.ο±)
Daqui resulta que πτΊΎ é par e, como o quadrado de um número é par sse o número for
par, resulta também que π é par, ou seja, existe π β β tal que π = τΊΎπ. Substituindo em
(ο΄.ο±), obtem-se:
τΊΎπτΊΎ = τ»πτΊΎ β‘ πτΊΎ = τΊΎπτΊΎ ,
(ο΄.ο²)
e como anteriormente concluímos que π é par. Nestas condições, tanto π como π são
divisíveis por τΊΎ, contradizendo o facto de serem primos relativos.
ο²
Concluímos então, usando o método de redução ao absurdo, que βτΊΎ não pode ser
um racional. βΌ
Foi apenas cerca de ο±οΈο·ο° que Richard Dedekind (1831β1916) conseguiu isolar a característica essencial que caracteriza o continuum dos pontos de uma recta: sempre que
cortamos uma recta em duas semi-rectas, existe um ponto da recta que determina esse
corte. Essa característica não é veriο¬cada nos números racionais. Em primeiro lugar
importa considerar a noção correspondente a este conceito de corte da recta.
Definição 4.1.β Um corte nos números racionais é um conjunto não vazio de racionais,
digamos πΌ β β veriο¬cando as seguintes condições:
(ο±) se π β πΌ e π β β é menor que π então, π β πΌ;
(ο²) se π β πΌ então existe π β πΌ tal que π > π.
(ο³) πΌ β β
Um corte πΌ diz-se determinado por um racional π se πΌ = {π β β β£ π < π}. (Por
exemplo o corte {π β β β£ π < τΊΌ} é determinado pelo racional τΊΌ.) No entanto, existem
outros cortes πΌ que não são determinados por racionais. Basta considerar o corte πΌ onde
πΌ = {π β β β£ πτΊΎ < τΊΎ} (estamos perante um corte porque a possibilidade πτΊΎ β τΊΎ, para
π β β.
Tem-se agora que nem π΄ tem máximo nem π΅ tem mínimo, pelo que este corte não
é determinado por um racional.
+
Lema 4.2.β Consideremos o conjunto πΌ = {π β β β£ (βπ β β )[πτΊΎ < τΊΎ β§ π < π]}. Tem-se
que πΌ é um corte e não é determinado por nenhum racional.
Dem.β Comecemos por veriο¬car que πΌ é um corte. Tem-se que πΌ não é vazio, poi
por exemplo τΊ½ β πΌ. Por outro lado também se tem πΌ β β pois, por exemplo τΊΎ β β.
Também é fácil mostrar que se π β πΌ e π β€ π então π β πΌ. Finalmente se π β πΌ temos
que demonstrar que existe π β πΌ tal que π > π. Basta fazer esta veriο¬cação para π > τΊΌ.
Consideremos então π > τΊΌ. Associemos-lhe o número,
π=
τΊΎπ + τΊΎ
.
π+τΊΎ
(ο΄.ο³)
É fácil verο¬car que π > π. Por outro lado
πτΊΎ β τΊΎ =
τΊΎ(πτΊΎ β τΊΎ)
(π + τΊΎ)
τΊΎ
< τΊΌ,
ou seja πτΊΎ < τΊΎ e π > π.
O corte πΌ não é determinado por nenhum racional. Supondo o contrário, ou seja
que existe um racional π tal que πΌ = {π β β β£ π < π} ter-se-ia πτΊΎ > τΊΎ (já que πτΊΎ = τΊΎ é
impossível). Considerando π dado pela equação (ο΄.ο³), tem-se nestas circunstâncias que
π < π e πτΊΎ > τΊΎ, contradizendo o facto de πΌ ser determinado por π. βΌ
ο³
Usando este conceito de «corte de racionais» Dedekind foi bem sucedido descrevendo
um conjunto de númerosβos números reais que possuem um maior «grau de completude» que os números racionais. Basicamente Dedekind demonstrou a existência de
um corpo ordenado completo. Como iremos ver, a estrutura de um corpo ordenado completo é única, i.e., dois corpos ordenados completos são estruturalmente equivalentes.
Deste modo o que faremos de seguida é ο¬xar uma destas estruturas e designar os seus
elementos por números reais. O conjunto dos números reais (que é uma extensão de β)
denota-se por β.
Consideremos algumas deο¬nições.
Definição 4.2.β Um corpo é uma estrutura do tipo π = (πΎ, +, β
, π, π) onde π, π β πΎ e +, β
são operações binárias em πΎ, denominadas de adição e produto. A estrutura π deve satisfazer
o seguinte:
ο±. (βπ₯, π¦)[π₯ + π¦ = π¦ + π₯ β§ π₯ β
π¦ = π¦ β
π₯] (comutatividade);
ο². (βπ₯, π¦, π§)[(π₯ + π¦) + π§ = π₯ + (π¦ + π§) β§ (π₯ β
π¦) β
π§ = π₯ β
(π¦ β
π§)] (associatividade);
ο³. (βπ₯)π₯ + π = π₯; (elemento neutro de +);
ο΄. (βπ₯)(βπ¦)π₯ + π¦ = π (existência de simétrico);
ο΅. (βπ₯ β π)π₯ β
π = π₯ (elemento neutro de β
);
οΆ. (βπ₯ β π)(βπ¦)π₯ β
π¦ = π (existência de inverso);
ο·. (βπ₯, π¦, π§)π₯ β
(π¦ + π§) = (π₯ β
π¦) + (π₯ β
π§) (distributividade de β
relativamente a +).
Algumas observações.
Observação 1.β O simétrico de qualquer elemento π₯ de um corpo π é único. Assim
sendo, denotamo-lo por βπ₯.
Observação 2.β O inverso de qualquer π₯ β τΊΌ é único. Por isso denotamo-lo por τΊ½/π₯
ou por π₯βτΊ½ .
Estaremos interessados nos denominados corpos de característica ο° (zero). Tratam-se dos
corpos onde a sequência:
π,
π + π,
π + π + π,
π + π + π + π,
β¦ ad inο¬nitum,
não contém nenhum zero. Pode mostrar-se que os elementos da sequência acima são
do ponto de vista estrutural uma cópia dos naturais positivos. Denotando π + π por π,
π + π + π por π, etc. podemos identiο¬car o racional π/π com o elemento π β
πβτΊ½ β π.
Embora não o façamos pode demonstrar-se que:
Lema 4.3.β Sendo βπ = ({πβ
πβτΊ½ β£ π, π β β}, +, β
, π, π) tem-se que βπ β π e a estrutura
βπ é equivalente à estrutura dos números racionais.
Em virtude do lema anterior, qualquer corpo de característica zero contém os números
racionais. De facto β = (β, +, β
, τΊΌ, τΊ½) é o menor corpo de característica zero.
ο΄
Definição 4.3.β Uma ordem total num conjunto π΄ é uma relação binária βΊ em π΄ que
satisfaz:
ο±. (βπ₯, π¦)[π₯ βΊ π¦ β ¬π¦ βΊ π₯]
ο². (βπ₯, π¦, π§)[π₯ βΊ π¦ β§ π¦ βΊ π§ β π₯ βΊ π§];
ο³. (βπ₯, π¦)[π₯ βΊ π¦ β¨ π¦ βΊ π₯ β¨ π₯ = π¦]
Uma ordem total é um par (π΄, βΊ) onde π΄ é um conjunto não vazio e βΊ é uma ordem total em
π΄.
Se (π΄ βΊ) é uma ordem total também escrevemos π₯ βͺ― π¦ para abreviar π₯ βΊ π¦ β¨ π₯ = π¦.
Definição 4.4.β Suponhamos que (π΄, βΊ) é uma ordem total e π β π΄. Um majorante
de π é um elemento π β π΄ tal que (βπ₯ β π)π₯ βͺ― π. O conjunto dos majorantes de π
denota-se por Maj(π). De modo análogo, um minorante de π é um elemento π β π΄ tal
que (βπ₯ β π)π βͺ― π₯. O conjunto dos minorantes de π denota-se por Min(π). Se existir
o menor elemento de Maj(π) ele designa-se de supremo de π e denota-se por sup(π). Se
existir o maior elemento de Min(π) ele designa-se de ínο¬mo de π e denota-se por inf(π). Se
sup(π) β π diz-se que é o máximo de π, que se denota por max(π). De modo análogo, se
inf(π) β π diz-se o mínimo de π e denota-se por min(π).
Definição 4.5 (Axioma do supremo).β Suponhamos que (π΄, βΊ) é uma ordem total. Dizemos que (π΄, βΊ) satisfaz o axioma do supremo se, dado um qualquer π β π΄ tal que π β β
,
se Maj(π) β β
então existe o sup(π), i.e.,
(βπ β π΄)[π β β
β§ Maj(π) β β
β (βπ β π΄)π = sup(π)].
Definição 4.6 (Corpo ordenado).β Por corpo ordenado entende-se uma estrutura do
tipo π = (πΎ, +, β
, π, π, βΊ) onde (πΎ, +, β
, π, π) é um corpo de característica zero e (πΎ, βΊ) é uma
ordem total satisfazendo:
ο±. (βπ₯, π¦, π§)[π₯ βΊ π¦ β π₯ + π§ βΊ π¦ + π§];
ο². (βπ₯, π¦, π§)[π₯ βΊ π¦ β§ π βΊ π§ β π₯ β
π§ βΊ π¦ β
π§].
Num corpo ordenado, os elementos π₯ β πΎ tais que π βΊ π₯ dizem-se positivos. Os elemen+
tos que não são positivos nem nulos dizem-se negativos. Denotamos por π o conjunto
β
dos elementos positivos em π e por π o conjunto dos elementos negativos.
Definição 4.7 (Corpo ordenado completo).β Um corpo ordenado completo é um corpo
ordenado π que satisfaz o axioma do supremo.
Teorema 4.1.β Os números racionais constituem, juntamente com as operações e a relação de
ordem usuais, um corpo ordenado β = (β, +, β
, τΊΌ, τΊ½, <). Este corpo ordenado não é completo.
Dem.β A veriο¬cação de que se trata de um corpo ordenado é deixada como exercício.
Este corpo não satisfaz o axioma do supremo na medida em que considerando o conjunto não vazio π β β deο¬nido por π = {π β β β£ πτΊΎ < τΊΎ} este conjunto não é vazio
e é majorado, de facto, como nenhum racional satisfaz a condição πτΊΎ = τΊΎ, tem-se que
Maj(π) = {π β β β£ πτΊΎ > τΊΎ}. Mas este conjunto não tem elemento mínimo, logo não
existe supremo. βΌ
ο΅
Os racionais possuem uma propriedade adicional, constituem o que se denomina um
corpo arquimediano.
Definição 4.8.β Um copo ordenado π = (πΎ, +, β
, π, π, βΊ) diz-se arquimediano se satisfaz
+
a seguinte propriedade: dados π₯, π¦ β π com π₯ βΊ π¦ então existe π β β tal que π¦ βΊ π β
π₯.
(Oberve-se que π β
π₯ = (π + π + β― + π) β
π₯ (com π π's) e este último é π₯ + π₯ + β― + π₯ (com π
π₯'s).) Um elemento de πΎ da forma π β
π₯ também se diz um múltiplo de π₯.
Lema 4.4.β O corpo β = (β, +, β
, τΊΌ, τΊ½, <) é arquimediano.
Dem.β Considerando τΊΌ < π/π < π/π é fácil veriο¬car que (ππ)(π/π) = ππ > π/π .βΌ
Teorema 4.2 (Dedekind).β Existe um corpo ordenado completo. Dois corpos ordenados
completos têm estruturas equivalente pelo que, existe essencialmente um único corpo ordenado completo, corpo esse que se denota por β = (β, +, β
, τΊΌ, τΊ½, <) e cujos elementos se
designam de números reais.
A demonstração deste resultado é relegada para a secção ο¬nal que não se considera,
apesar de tudo essencial.
Lema 4.5.β O corpo β é arquimediano.
Dem.β Consideremos dois reais positivos π₯ < π¦. Se nenhum número da forma ππ₯ com
π β β excede π¦ então o conjunto π = {ππ₯ β£ π β β} é majorado e, como β satisfaz o
axioma do supremo tem-se que existe πΌ β β tal que πΌ = sup(π). Neste caso πΌ β π₯ não
é um majorante de π, pelo que existe um π β β tal que ππ₯ > πΌ β π₯. Neste caso tem-se
ππ₯ + π₯ = (π + τΊ½)π₯ > πΌ, contradizendo o facto de πΌ ser o supremo de π. βΌ
Teorema 4.3.β Os números racionais são densos em β, i.e., dados quaisquer dois números
reais π₯ < π¦ existe um racional π tal que π₯ < π < π¦.
Dem.β Consideremos dois números reais π₯ < π¦.
Seja π o maior natural que não excede π₯. Se π¦ β π₯ > τΊ½ então, π₯ < π + τΊ½ < π¦. Se
π¦ = π₯+τΊ½ e π < π₯ o argumento anterior aplica-se, caso contrário tem-se π₯ = π e π¦ = π+τΊ½
pelo que neste caso se tem π < (π + π + τΊ½)/τΊΎ < π + τΊ½.
Considerando agora que τΊΌ < π¦ β π₯ < τΊ½ podemos, usando o facto de β ser arquimediano, encontrar um natural π tal que π(π¦ < π₯) > τΊ½ ou seja ππ¦ β ππ₯ > τΊ½. Aplicando o
argumento da primeira parte a ππ₯, ππ¦ podemos concluir que existe um natural π tal que
ππ₯ < π < ππ¦. Dividindo por π obtemos: π₯ < π/π < π¦. Concluindo assim a demonstração.
βΌ
Corolário 4.3.1.β Se π₯ β β então π₯ = sup{π β β β£ π < π₯}.
Existem elementos de β que não são racionais (de facto a maior parte dos elementos
de β não é racional). Os elementos do conjunto π = β β§΅ β designam-se de números
irracionais.
οΆ
Teorema 4.4.β Os irracionais são densos em β, i.e., dados π₯, π¦ β β com π₯ < π¦, existe π β π
tal que π₯ < π < π¦.
Já vimos atrás que equações da forma π₯τΊΎ = π podem não ser resolúveis em β, por
exemplo, nenhum racional pode satisfazer a equação π₯τΊΎ = τΊΎ, como vimos antes. Isto
não acontece nos reais.
Teorema 4.5.β Consideremos um número real π β₯ τΊΌ. A equação π₯π = π tem uma única
π
τΊ½/π
solução positiva em β, para qualquer π β β β§΅ {τΊΌ}. Essa solução denota-se por βπ ou π .
Dem.β É claro que só pode haver uma única solução positiva possível pois se τΊΌ < π < π
π
então ππ < π . Mostremos então que existe uma solução. Consideremos o conjunto
π΄ = {πΌ β β β£ πΌπ < π}. Em primeiro lugar π΄ β β
pois, considerando πΌ = π/(τΊ½ + π),
tem-se τΊΌ < πΌ < τΊ½ e, consequentemente, πΌπ < πΌ < π. Além disso π΄ é majorado porque
se τΊ½ + π é majorante de π΄ (veriο¬que!). Nestas condições π΄ é não vazio e majora e, pelo
axioma do supremo, conclui-se que existe π½ β β tal que π½ = sup π΄.
π
π
Vamos agora mostrar que π½ > π e π½ < π são hipóteses que conduzem a contradiπ
ções, pelo que só se pode ter π½ = π, permitindo concluir a demonstração.
π
πβτΊ½
πβτΊΎ
Tem-se que π βππ = (πβπ)(π +ππ +β―+ππβτΊΎ π+ππβτΊ½ ) (o leitor pode estabelecer
esta relação por indução). Asim, se τΊΌ < π < π tem-se que
π
πβτΊ½
π β ππ < (π β π)ππ
(ο΄.ο΄)
.
π
Consideremos então a possibilidade π½ < π. Consideremos τΊΌ < π < τΊ½ tal que
πβπ½
τΊΌ<π<
π
π(π½ + τΊ½)
(ο΄.ο΅)
π.
Usando (ο΄.ο³) obtemos,
π
πβτΊ½
π
(π½ + π) β π½ < ππ(π½ + π)
< ππ(π½ + τΊ½)
πβτΊ½
<πβπ½
π
obtendo-se a última desigualdade, usando (ο΄.ο΄).
π
π
π
π
Podemos então concluir de (π½ + π) β π½ < π β π½ que (π½ + π) < π, mas isto contradiz
o facto de π½ ser o supremo do conjunto {πΌ β β β£ πΌπ < π}.
π
Consideremos agora uma segunda possibilidade: π½ > π. Neste caso, seja
π
π=
π½ βπ
πβτΊ½ .
ππ½
(ο΄.οΆ)
Cálculos simples mostrarão que τΊΌ < π < π½. Considerando agora π‘ > π½ β π, tem-se:
π
π
π
π½ β π‘π < π½ β (π½ β π) < πππ½
πβτΊ½
π
=π½ βπ
(ο΄.ο·)
obtendo-se a última igualdade usando (ο΄.ο΅). De (ο΄.οΆ) resulta que βπ‘π < βπ ou seja que
π‘π > π. Assim nenhum π‘ > π½ β π é membro de π΄. Dito isto por outras palavras, π½π é um
majorante de π΄, originando uma contradição pois, como π½ β π < π½ seria um majorante
menor que o supremo.
π
π
As hipóteses π½ > π e π½ < π conduzem a contradições e assim, somos forçados a
π
concluir que π½ = π. βΌ
ο·
Apresenta-se a seguir uma enumeração de propriedades básicas dos reais (de facto, de
qualquer corpo ordenado).
ο±. Se π₯ + π¦ = π₯ + π§ então π¦ = π§.
ο². Se π₯ + π¦ = π₯ então π¦ = τΊΌ.
ο³. Se π₯ + π¦ = τΊΌ então π¦ = βπ₯.
ο΄. Tem-se β(βπ₯) = π₯.
ο΅. Se π₯ β τΊΌ e π₯π¦ = π₯π§ então π¦ = π§.
οΆ. Se π₯ β τΊΌ e π₯π¦ = π₯ então π¦ = τΊ½.
ο·. Se π₯π¦ = τΊ½ então π¦ = π₯βτΊ½ .
βτΊ½
οΈ. Se π₯ β τΊΌ então (π₯βτΊ½ )
= π₯.
οΉ. Tem-se τΊΌ β
π₯ = τΊΌ.
ο±ο°. Se π₯, π¦ β τΊΌ então π₯π¦ β τΊΌ.
ο±ο±. Tem-se (βπ₯)π¦ = β(π₯π¦) = π₯(βπ¦).
ο±ο². Tem-se (βπ₯)(βπ¦) = π₯π¦.
ο±ο³. Se π¦ < π§ então π₯ + π¦ < π₯ + π§.
ο±ο΄. Se π₯, π¦ > τΊΌ então π₯π¦ > τΊΌ.
ο±ο΅. Se π₯ > τΊΌ então βπ₯ < τΊΌ e vice-versa.
ο±οΆ. Se π₯ > τΊΌ e π¦ < π§ então π₯π¦ < π₯π§.
ο±ο·. Se π₯ < τΊΌ e π¦ < π§ então π₯π¦ > π₯π§.
ο±οΈ. Se π₯ β τΊΌ então π₯τΊΎ > τΊΌ.
ο±οΉ. Se τΊΌ < π₯ < π¦ então τΊΌ < τΊ½/π¦ < τΊ½/π₯.
4.1.1 Existência e unicidade de um corpo ordenado completo*
Esta secção é uma extensão da aula no sentido em que o seu conteúdo não será abordado
na aula. Não sendo essenciais, os resultados desta secção são disponibilizados para que
o leitor mais interessado possa familiarizar-se com alguns factos que anteriormente foi
convidado a aceitar. Apesar disso não se encontrará aqui uma demonstração plena desses
mesmos resultados. Apenas daqueles pontos mais importantes. Como regra geral, veriο¬cações mais ou menos mecânicas serão deixadas de lado. Seremos ο¬eis ao pensamento
de Riemmann: «as demonstrações fazem-se através de ideias e não através de cálculos
fastidiosos».
Comecemos pela questão da existência.
O corpo ordenado completo que vamos descrever resulta dos esforços de Richard
Dedekind para obter uma analogia aritmética dos pontos de uma recta. O Cálculo
οΈ
desenvolveu-se à custa de fortes intuições geométricas. Quando chegamos a Newton
e Leibniz, a dependência dessa intuição atinge o seu auge, chegando-se a um ponto
em que já ninguém duvidava que todo o Cálculo necessitava de fundações mais sólidas.
Inicia-se um período designado de aritmetização da Análise.ο±
Vária tentativas precederam aquela levada a cabo por Dedekind. Todas elas (exepto
provavelmente uma da autoria de Bolzano que pretendia ampliar os racionais através da
consideração de operações inο¬nitárias) tentaram explorar a noção de densidade dos pontos de uma recta. Ou seja a característica de continuidade dos pontos de uma recta, parecia
residir no facto de entre dois pontos existir sempre um terceiro. A ideia é tentadora mas
inútil em si mesma, pois os números racionais já são densos, i.e., entre quaisquer dois
deles existe sempre um terceiro e, como vimos atrás, não podem representar os pontos
de uma recta.
Dedekind teve uma ideia absolutamente decisiva que haveria de o conduzir à solução do problema de representar os pontos da recta aritmeticamente. De acordo com
Dedekind aquilo que caracteriza o continuum da recta é o facto de, sempre que se divide
a recta em duas semi-rectas, essa divisão ser sempre determinada por um ponto. Transpondo a noção de semi-recta para os números racionais chegamos à noção de corte nos
racionais.
O que é aο¬nal um corte nos racionais?
Trata-se de um conjunto de racionais πΌ β β, possuindo as seguintes propriedades:
ο±. πΌ β β
;
ο². (βπ β π΄πΌ)(βπ β β)[π < π β π β πΌ];
ο³. (βπ β πΌ)(βπ β πΌ)π > π.
(Seguiremos aqui a convenção de denotar por letras como π, π, π, π , β¦ os números racionais e por letras gregas minúsculas πΌ, π½, πΎ, β¦ os cortes de racionais.)
Um corte πΌ é determinado por um racional π se πΌ = {π β β β£ π < π}. Assim sendo
qualquer racional determina um corte, mais precisamente, o corte πΌπ = {π β β β£ π < π}.
O ponto crucial é que nem todos os cortes são determinados por racionais. Já vimos
um exemplo: πΌ = {π β β β£ πτΊΎ < τΊΎ}.ο² Designemos por β o conjunto de todos os cortes
de racionais. É fácil deο¬nir uma ordenação em β, através de
πΌ <β π½
sse
πΌ β π½.
Lema 4.6.β A relação β€β acima deο¬nida é uma relação de ordem total.
Dem.β Exercício.βΌ
Lema 4.7.β A estrutura (β, <β ) satisfaz o axioma do supremo.
ο±. O Cálculo também é designado de Análise.
ο². De facto a maioria dos cortes racionais não é determinada por um racional, mas a demonstração deste
facto transcende o âmbito destas notas.
οΉ
Dem.β Consideremos π β β tal que π β β
e Maj(π) β β
. Pode demonstrar-se que
πΎ = βͺ{πΌ β£ πΌ β π} é um corte. Por outro lado se para cada πΌ β π se tem πΌ β€β π½, ou seja,
se π½ é majorante de π então tem-se que πΌ β π½ para qualquer πΌ β π. Daqui decorre que
πΎ = βͺ{πΌ β£ πΌ β π} β π½, ou seja, πΎ β€β π½, conο¬rmando que πΎ = sup π. βΌ
Resta-nos deο¬nir uma estrutura de corpo nos cortes racionais, deο¬nindo +β , β
β , τΊΌβ e τΊ½β
de modo que (β, +β , β
β , τΊΌβ , τΊ½β , <β ) seja um corpo ordenado completo.
Começamos por deο¬nir as constantes τΊ½β e τΊΌπ
é o corte determinado pelo racional τΊΌ
e τΊ½β , o corte determinado pelo racional τΊ½. Quanto às operações considera-se a seguinte
deο¬nição para +β :
πΌ +β π½ βΆ= {π + π β£ π β πΌ β§ π β π½}.
Lema 4.8.β A estrutura (β, +β , τΊΌβ ) satisfaz os axiomas de corpo ordenado que envolvem
apenas a operação + e a constante τΊΌ.
Dem.β Deixa-se ao cuidado do leitor completar os detalhes aqui omitidos. É fácil
veriο¬car as propriedades de associatividade e comutatividade. Igualmente fácil é a constatação de que τΊΌβ é o elemento neutro para +β . Resta-nos a veriο¬cação de que todo o
corte possui um «simétrico».
Dado πΌ β β consideremos
βπΌ βΆ= {π β β β£ (βπ > τΊΌ) β π β π β πΌ}.
É possível mostrar que βπΌ é um corte. Vamos agora veriο¬car que πΌ +β (βπΌ) = τΊΌβ . Em
primeiro lugar qualquer elemento de πΌ +β (βπΌ) é da forma π + π com π β πΌ e π β βπΌ. Por
deο¬nição, existe π‘ > τΊΌ tal que βπ βπ‘ β πΌ. Assim, tem-se π β€ βπ βπ‘, ou seja π+π +π‘ β€ τΊΌ, pelo
que π+π < τΊΌ concluindo-se assim que πΌ+β (βπΌ) β τΊΌβ . Para veriο¬car que τΊΌβ β πΌ+β (βπΌ)
considere-se π β τΊΌβ . Tem-se que π < τΊΌ
βΌ
Quando a β
β a deο¬nição é um pouco mais delicada. Consideramos primeiro o «produto»
de dois cortes positivos. Assim se πΌ e π½ são ambos positivos, deο¬ne-se:
πΌ β
β π½ = {π β β β£ (βπ β πΌ)(βπ β π½)π < ππ }
A deο¬nição pode agora estender-se aos restantes casos:
β§(βπΌ) β
(βπ½) (se πΌ, π½ < τΊΌ )
β
β β
βͺ
βͺ
πΌ β
β π½ = β¨β((βπΌ) β
β π½) (se πΌ <β τΊΌβ β§ τΊΌβ <β π½)
βͺ
βͺβ(πΌ β
(βπ½)) (se τΊΌ < πΌ β§ π½ < τΊΌ )
β
β β
β β
β©
Pode ο¬nalmente demonstrar-se o seguinte,
Teorema 4.6.β A estrutura (β, +β , β
β , τΊΌβ , τΊ½β , <β ) é um corpo ordenado completo.
Não demonstraremos o resultado. Já ilustrámos a técnica de demonstração nos resultados precedentes. Neste caso trata-se de repetir argumentos do mesmo tipo e, além
ο±ο°
do mais, o nosso propósito não é o de estabelecer rigorosamente o resultado mas, tão
somente o de indicar a forma como um corpo ordenado completo se pode obter.
Consideremos agora a a questão da unicidade.
Suponhamos que βτΊ½ = (βτΊ½ , +τΊ½ , β
τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e βτΊ½ = (βτΊΎ , +τΊΎ , β
τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ ) são corpos
ordenados completos. Como já foi referido, ambos contém os racionais, i.e., β β βτΊ½
e β β βτΊΎ . Quando falamos de unicidade, falamos evidentemente de unicidade estrtutural que pode ser testemunhada recorrendo de novo à noção de isomorο¬smo que já
considerámos quando estabelecemos a unicidade estrutural determinada pelos axiomas
de Dedekind -Peano.
No caso de dois corpos ordenados, um isomorο¬smo é uma bijecção que preserva as
operações e a relação de ordem. Ou seja,
Definição 4.9.β Consideremos dois corpos ordenados πτΊ½ = (πτΊ½ , +τΊ½ , β
τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e πτΊΎ =
(πτΊΎ , +τΊΎ , β
τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ ). Um isomorο¬smo entre πτΊ½ e πτΊΎ é uma bijecção π βΆ πτΊ½ β πτΊΎ que
satisfaz:
(ο±) (βπ₯, π¦ β πτΊ½ )[π(π₯ +τΊ½ π¦) = π(π₯) +τΊΎ π(π¦)];
(ο²) (βπ₯, π¦ β πτΊ½ )[π(π₯ β
τΊ½ π¦) = π(π₯) β
τΊΎ π(π¦)];
(ο³) π(τΊΌτΊ½ ) = τΊΌτΊΎ
(ο΄) π(τΊ½τΊ½ ) = τΊ½τΊΎ
(ο΅) (βπ₯, π¦ β πτΊ½ )[π₯ <τΊ½ π¦ β‘ π(π₯) <τΊΎ π(π¦)];
O facto de um isomorο¬smo capturar o conceito de equivalência estrutural é espelhado
no resultado seguinte que não demonstraremos.
Lema 4.9.β Suponhamos que πτΊ½ = (πτΊ½ , +τΊ½ , β
τΊ½ , τΊΌτΊ½ , τΊ½τΊ½ , <τΊ½ ) e πτΊΎ = (πτΊΎ , +τΊΎ , β
τΊΎ , τΊΌτΊΎ , τΊ½τΊΎ , <τΊΎ )
são dois corpos ordenados e π βΆ πτΊ½ β πτΊΎ é um isomorο¬smo. Nestas condições se π é uma
sentença da linguagem πΏ = {+, β
, τΊΌ, τΊ½, <} tem-se,
πτΊ½ β§ π
sse
πτΊΎ β§ π.
Vamos então mostrar que qualquer corpo ordenado completo π é isomorfo a β.
Teorema 4.7.β Se π = (π, +π , β
π , τΊΌπ , τΊ½π , <π ) é um corpo ordenado completo então, é
isomorfo a β = (β, +β , β
β , τΊΌβ , τΊ½β , <β ).
Dem.β Já observámos que tanto π como β contém uma «cópia» dos números racionais.
Como os números racionais são densos tanto em π como em β utilizaremos esse facto
para construir o isomorο¬smo. O nosso isomorο¬smo irá satisfazer a seguinte condição
π(π) = π se π β β.
Em qualquer corpo ordenado completo π tem-se π₯ = supπ {π β β β£ π β€ π₯}, para
qualquer π₯ β π. Assim podemos deο¬nir:
π(supπ {π β β β£ π β€ π₯}) = supβ {π β β β£ π β€ π₯}.
A função π preserva claramente a ordem. Além disso é bijectiva. Por um lado é injectiva
pois se π₯ β π¦ então podemos supor sem perda de generalidade que π₯ < π¦ e, neste caso
ο±ο±
existe um racional π tal que π₯ < π < π¦ então, também se tem π(π₯) < π < π(π¦) pelo que
π(π₯) β π(π¦). Por outro lado é sobrejectiva, pois se πΌ β β tem-se πΌ = sup{π β β β£ π < πΌ}
então considerando π₯ = supπ {π β β β£ π < πΌ} tem-se, por deο¬nição que π(π₯) = πΌ.
Sendo imediato veriο¬car que π preserva as constantes resta mostrar que preserva
igualmente as operações. A título de exemplo consideramos apenas o caso da soma.
Suponhamos então que π₯, π¦ β π. Veriο¬ca-se que
π₯ +π π¦ = sup{π + π β£ π < π₯ β§ π < π¦ β§ π, π β β}.
π
Como π₯ +π π¦ é claramente um majorante do conjunto daquelas somas, se não fosse o
seu supremo, então existiria um π§ β π nas seguintes condições:
(βπ < π₯)(βπ < π¦)π + π <π π§ <π π₯ + π¦.
Como π₯ = supπ {π β β β£ π < π₯} e π¦ = supπ {π β β β£ π < π¦} podemos considerar
racionais π e π tais que π₯ β π < (π₯ + π¦ β π§)/τ» e π¦ β π < (π₯ + π¦ β π§)/τ» mas nestas circunstâncias
π₯ + π¦ β (π + π ) é menor que (π₯ + π¦ β π§)/τΊΎ donde se conclui que π + π >π π§ o que constitui
uma contradição.
Tem-se então que
π(π₯+π π¦) = sup{π+π β£ π < π₯β§π < π¦} = {π β β β£ π < π₯}+β {π β β β£ π < π¦} = π(π₯)+β π(π¦).
β
No caso do produto usam-se argumentos do mesmo tipo. βΌ
ο±ο²