QUADRO DA MARAVILHAS Adaptação da peça de Miguel de Cervantes & Saavedra de Calixto de Inhamuns a partir de trabalho de Jacques Prevert traduzido por Gabriela Rabelo personagens: CHANFALA QUIRINA CRIANÇA PREFEITO VICE-PREFEITO DELEGADO MENDIGO OPERÁRIO PEDREIRO MULHER DA VIDA CAMPONÊS CAIXEIRO FUNCIONÁRIO DO CORREIO POLICIAL JOANA TEREZA JOÃO VELHO VELHA l VELHA 2 2 CENA 1 - A CHEGADA CHANFALA, QUIRINA, CRIANÇA, PREFEITO, VICE-PREFEITO, DELEGADO, MENDIGO. UMA PRAÇINHA DE UMA CIDADE DO INTERIOR. ESTA DESERTA E COBERTA DE SOL. ENTRAM UM CASAL E UMA CRIANÇA. CHANFALA Enfim, chegamos a algum lugar. QUIRINA Chanfala, não era esta a cidade que a gente estava procurando? CHANFALA Ora Quirina, aonde a gente chegar, esta será a cidade que a gente procurava. CRIANÇA (BEM ALTO) Quero comer. CHANFALA Cala a boca, aborto. Quirina, não esqueça minhas recomendações. Nosso novo número tem de funcionar às mil maravilhas! QUIRINA Não se preocupe. Tenho boa memória e muita inteligência, além de uma vontade de servir você que vai além das duas. CHANFALA Essa é boa. Se você tivesse boa memória não estaria mais comigo, pois não ia se esquecer das porradas que dou em você toda vez que tenho vontade. QUIRINA Quer ver só uma coisa? A gente se conheceu numa sextafeira 13. Tá vendo? Eu tenho ótima memória pra datas, só me esqueço das porradas. A CRIANÇA TOCA UMA MÚSICA CHANFALA No fundo, você fica comigo porque, apesar de bruto, sou um artista e amo você. QUIRINA É. Os brutos também amam. 3 CRIANÇA (BERRANDO) Quero comer! CHANFALA Cala a boca, estrupício. Vai, vai, dê o fora e fique perto do Quadro... Ou melhor, não dê o fora, fique! As pessoas do lugar estão chegando. Sorriam os dois com um sorriso bem simpático e se inclinem com a maior humildade (TRÊS HOMENS SE APROXIMAM E CHANFALA FALA HUMILDEMENTE) Eu beijo a mão de Vossas Senhorias, eu me inclino, nós nos inclinamos todos os três, e vendo os senhores eu digo: aqui estão homens e não dos menores! Por seu modo de andar e de parar, adivinho que são os chefes! PREFEITO: (DISFARÇANDO O ORGULHO) Ó verdade, nós somos os chefes, e se a cidade anda, é um pouco graças a nós. Sou o prefeito... QUIRINA Õ, tivéssemos nós duas gramas de inteligência e teríamos percebido logo que esta peripatética e frondosa figura não poderia ser de outra pessoa que não o prefeito desta honrada cidade e que, tenho certeza, ainda será o governador. PREFEITO (SORRIDENTE) Este aqui é o vice-prefeito, e aqui o delegado Grampo que dirige o corpo de polícia. Nossa cidade é pequena mas povoada de gente feliz. As pessoas felizes não têm história. Comemos regularmente, e logo vou casar minha filha com o vice-prefeito. CHANFALA, QUIRINA E A CRIANÇA - OOOOhhhhhh! VICE Haverá um grande, um enorme banquete, música, baile, luzes, muitas luzes! ENTRA UM MENDIGO MENDIGO Honradas pessoas, como se diz, façam uma caridade a este pobre mendigo. Dêem trinta centavos por ontem, trinta por hoje, trinta por amanhã e ficarão livres de mim por três dias. Passando as moedas, sem perder tempo... Três vezes os 4 trinta centavos, vezes três são...são... são... três cruzeiros. pessoas, arredondando, DELEGADO Seu sujo esfarrapado, porco, entrevado, saia da minha frente, desapareça, mochiba! (PARTE PRA CIMA DELE, COBRINDO-O DE PANCADAS) MENDIGO Como?! O senhor bate num mendigo?... Que vergonha! Um mendigo, um marginal, alguém que não pede nada a ninguém... a não ser esmola, naturalmente... (GRITA) E vocês batem na cabeça, é revoltante!... (PARA SUBITAMENTE, RESIGNADO) Batam, se quiserem, mas dêem os três cruzeiros. (GRITA, ESCANDALOSAMENTE) Meus três cruzeiros! Meus três cruzeiros! PREFEITO Eu lhe peço, delegado, isso não pega bem. Dê o que ele pede. DELEGADO Hein? PREFEITO Tá bom! Tá bom! Por favor, cavalheiros, um cruzeiro cada um. (OS TRÊS DÃO O DINHEIRO AO MENDIGO) MENDIGO (CONTANDO O DINHEIRO) Obrigado pelo vosso coração bondoso, meus queridos amigos. (DE REPENTE DÁ UM SALTO E GRITA) Aqui só tem dois cruzeiros e cinqüenta centavos! PREFEITO O que? VICE Só dei a metade. Sou apenas vice-prefeito... PREFEITO (COMPLETANDO A QUANTIA) Lamento ter prometido minha filha a um avarento. (O MENDIGO SE AFASTA) VICE Não existem pequenas economias, o que existe é gente besta. PREFEITO Isto é comigo? 5 DELEGADO Vamos, vocês não vão brigar na frente de estranhos. CHANFALA (MUITO Ò VONTADE) Oh! Nós sabemos, nós compreendemos as coisas. Ah! As coisas são sempre as mesmas por toda parte... E a miséria por toda parte é a mesma miséria! PREFEITO (INDIGNADO) A miséria?!... O que está insinuando? CHANFALA (CONFUSO) Desculpe, pensei que... PREFEITO Pois de pensar morreu o burro! Um andorinha só não faz o verão, um mendigo VICE-PREFEITO (CORRIGINDO) Mendigo! PREFEITO Pois é. Um mendigo só não faz a miséria. CHANFALA Evidentemente! QUIRINA Evidentemente! CRIANÇA (COM VOZ SINISTRA) Evidentemente! PREFEITO Evidentemente! (DEPOIS DE UM MOMENTO DE MAL-ESTAR) Voltemos à vaca fria! Que bons ventos os trazem aqui? CHANFALA Eu sou Chanfala, aquele que apresenta o verdadeiro, o único, o inconfundível, o maravilhoso Quadro das Maravilhas! PREFEITO (ESPANTADO, MAS SEM QUERER DEMONSTRAR) Ah, o... Quadro!... VICE (IDEM)...das Maravilhas! DELEGADO Sim, o Quadro das Maravilhas!... Muito interessante... CHANFALA Todas as pessoas cultas já ouviram falar do magnífico Quadro, e eu ficaria dolorosamente surpreso... PREFEITO Oh! Fique tranqüilo, nós também já ouvimos falar dele. Outro dia mesmo, numa roda de amigos, comentávamos sobre e6 le... É durante uma conversa... Justamente dizíamos, dizíamos... Dizíamos... CHANFALA (INTERROMPENDO) Não basta falar dele, é preciso vê-lo! É um espetáculo espetacular, de uma beleza tão bela, de uma emoção tão comovente, que logo a mim, cujo ofício é falar, faltam palavras para descevê-lo! É preciso ver pra crer! Mas atenção, atenção!... (BAIXANDO A VOZ E LEVANTANDO O INDICADOR, AMEAÇADORAMENTE) Atenção! QUIRINA (ALTO E FORTE) É preciso crer pra ver! PREFEITO (INQUIETO) Ahn? CHANFALA (CATEGÓRICO) Mas isto é a própria evidência, e ninguém pode negar a evidência. (COM AUTORIDADE) Não é? PREFEITO Evidentemente! CHANFALA Não precisam dizer... A evidência é a própria evidência. É por isso que as maravilhosas maravilhas do maravilhoso Quadro das Maravilhas não são visíveis a todos. OS NOTÁVEIS Como? CRIANÇA Eu explico. QUIRINA DÁ UM EMPURRÃO. QUIRINA É melhor que eu explique. É que quem não for bom cristão e filho de casamento legítimo, ó... não verá nada. Assim como o homem inculto, o ignorante, o grosseiro nada vê! Mesmo que eles paguem três vezes mais, vão ficar grudados no lugar, sem nada ver. CHANFALA Só quem tem a consciência tranqüila pode ver o quadro! QUIRINA O letrado, o homem de espírito, o homem que é verdadeiramente capaz de compreender qualquer coisa, esse pode ver o Quadro! 7 NOTÁVEIS (COM REPENTINA CONVICÇÃO) Nós o veremos! CHANFALA A esposa fiel poderá alegrar seus olhos, mas a adúltera só verá fogo! NOTÁVEIS Nossas mulheres são tão dignas a ponto de ver suas maravilhas! CHANFALA (ENTUSIASMADO) A filha do delegado vê o Quadro, a filha do guarda, não! NOTÁVEIS Nossas filhas o verão, nós juramos! CHANFALA O magistrado corrompido, o venal, nada vê. É um espetáculo para o bom cristão. O bom cristão pode vê-lo, o materialista não... (GRITA) O materialista ateu nunca verá nem a sombra da sombra do mais maravilhoso dos Quadros! PREFEITO Só tem um materialista ateu na região, e evidentemente está na cadeia. TODOS Evidentemente. PREFEITO De qualquer forma, não veria nada. Tanto melhor. Obrigado, nobre estrangeiro, por trazer à nossa cidade suas visões de arte e de beleza. Os homens do povo ficarão encantados, e mesmo que eles não compreendam, mesmo que eles não vejam tudo, pelo menos poderão se esquentar uns aos outros. O salão da prefeitura é espaçoso, vou mandar preparálo. CHANFALA Obrigado, senhor prefeito, mas podemos representar ao ar livre. Não precisa se incomodar. Quando todo mundo tiver sua entrada, o espetáculo poderá começar. VICE Como? É pago? CHANFALA Os artistas não vivem só de brisa. 8 PREFEITO Evidentemente. Mas, neste caso, os homens do povo não poderão vir, infelizmente. CHANFALA Por que? PREFEITO (EMBARAÇADO) Boa pergunta! Não poderão vir porque... porque... Enfim, porque terão outra coisa pra fazer. A cada um o seu trabalho. O lavrador lavra, o escritor escreve, o delegado delega, o músico faz música... CRIANÇA Música é comigo. Pra frente a música! (CANTA) Trago guardado em mim Duas cabeças de alho Uma diz seja explorado Outra fuja do trabalho OS NOTÁVEIS TAPAM OS OUVIDOS E RANGEM OS DENTES PREFEITO Que barulho! Mais parece música de cemitério... VICE Parece que estão arranhando panela com uma faca sem ponta. DELEGADO Isso não é música, é um concerto de peidos. CRIANÇA Os senhores me desculpem, mas esta é a música da minha infância. Só conheço essa... Minha família está escondida nela, é o grito da lembrança. Não é minha culpa ela ter voz de rebeldia. Além disso, pelo preço que vocês vão pagar, não dá pra ficar tocando música de igreja e tudo ficar cheio de anjinho babando de alegria. PREFEITO (AO DELEGADO) Vamos, leve esta criança, leve imediatamente delegado! (DELEGADO PEGA A CRIANÇA E SE AFASTA DANDO-LHE UNS TRANCOS) DELEGADO Vamos tirando o time de campo, seu porcaria! 9 PREFEITO (PARA CHANFALA) Música, querido senhor, como queira, mas faça música conveniente, música de câmara, por exemplo. Mas esta música de fundo de quintal, nunca! (GRITANDO) Nunca! Nunca! Nunca! CHANFALA Calma, calma! O menino não vai cantar durante o espetáculo. VICE Felizmente! Minha noiva tem os ouvidos delicados e gostaria muito de poupá-la desse som horrível. QUIRINA (PRA CHANFALA) Ah! Bem que eu avisei! Essa música é horrível, a gente não devia ter adotado esse menino. CHANFALA Os artistas sempre adotam crianças, é o costume... PREFEITO Bonito costume! (FAZ SINAL PRA QUIRINA PASSAR ADIANTE) Tenha a bondade, senhora, vamos dar instruções para o bom andamento do espetáculo. QUIRINA Quanta amabilidade, senhor prefeito, quanta amabilidade! VOLTA O DELEGADO ARRASTANDO A PERNA. DELEGADO O que essa música me encheu! SAEM TODOS. A CENA FICA VAZIA. LOGO VOLTA O MENINO, QUE SACODE OS OMBROS E RECOMEÇA A CANTAR. CENA 2 - O DESPERTAR CRIANÇA, MENDIGO, OPERÁRIO, CAMPONÊS, PEDREIRO, MULHER DA VIDA, CAIXEIRO, FUNCIONÁRIO DO CORREIO, DELEGADO, E POLICIAL 10 MENINO (CANTA) Roda o tempo, roda a vida roda que roda e esmaga sem pensar que nesta lida, a fome e o que mais me estraga. Das dores da minha infância, nasceu a música assim os espinhos da lembrança, tiram meu sangue de mim. Se um príncipe fosse eu Nas mãos teria um cavalo mas como sou camponês nelas eu só tenho calo ENTRA O MENDIGO, UM CAMPONÊS COM UMA FOICE E O OPERÁRIO. MENDIGO Ah, essa música, a verdadeira música que sangra, música dos meus tempos de criança! OPERÁRIO Continue, meu pequeno, isso me rejuvenesce, continue com a musica! É a música do cachorro pobre que está morrendo no abandono, é o ranger de dentes cariados na grande boca da miséria... É o esterco, os carrapatos, a bituca do condenado! MENDIGO Me lembra a uma música que ouvi outro dia: a sirene de uma ambulância. Ela... vooorouummmm..... apareceu - imagine! pra levar um colega que estava desmaiado, pra levar ele pro hospital. Mas como ele não tem hábito de andar de carro, ele se recuperou, se levantou e seguiu a ambulância a pé até o hospital. CAMPONÊS Parem! Deixem que ele cante! Continue, companheiro, continue! Sempre gostei muito de instrumentos de corda de enforcado! Continue! CRIANÇA (CANTA) Minha viola é bem velha mas nunca ela engasgou 11 canta a musica deste povo povo bom, trabalhador. Minha viola é bem velha Mais velha que meu sapato Quando chove é minha telha, No verão, meu desabafo. ENTRA UM PEDREIRO E UMA MULHER DA VIDA. TODOS SE APROXIMAM DA CRIANÇA. PEDREIRO (ESTALANDO A lÍNGUA COMO GRANDE CONHECEDOR) Bonito! Estava quebrando pedras e aí, quando escutei a música, parei. Muito bonito! MULHER DA VIDA (PARA O PEDREIRO) Depois é diferente da música dos sinos, essa porcaria que toca lá nas nuvens. (PARA CRIANÇA) A gente quase não tem música por aqui, a não ser quando as crianças gritam de fome ou os cachorros uivam porque as crianças morreram. (ENTRA UM CAIXEIRO E UM FUNCIONÁRIO DO CORREIO) MULHER DA VIDA Que todos calem a boca! Deixei um homem que babava no meu peito para ouvir este anjo cantar. CAMPONÊS Estava revolvendo a terra... De repente, foi agorinha mesmo, meu cavalo pára, abana o rabo duas vezes, balança a cabeça três vezes e cai estourado de fome... Ploc! MULHER DA VIDA Coitado! CAMPONÊS Pesando tudo, embrulhando bem, fazendo as contas, isso tinha que acabar acontecendo! OPERÁRIO E daí? o que você fez? CAMPONÊS Sentei em cima dele pra esquentar um pouco a bunda e chorar um pouco a besta. Daí a música começou, esqueci tudo e vim. Toque mais, meu pequeno, não pare não. 12 CAIXEIRO Eu estava pesando mercadorias na balança do meu patrão, roubando de um velho meio cego, quando ouvi esta música. Ela muda as coisas. Quem é ele? F.CORREIO Não sei. Mas como canta bem!... Cante mais, guri, não pare de cantar. TODOS Vamos! Cante mais! Cante! Por favor, cante! CRIANÇA (CANTA) Todo homem que trabalha tem o seu corpo explorado tem a tristeza nos olhos pois todo dia é roubado. O trabalho e o amor são as fontes da minha vida. Por que então tanta dor essa tristeza infinita ao olhar pras minhas mãos e ver tudo cheio de calo? Por que em vez de carinho mordo quem se aproxima do meu caminho? Que vida é essa que levo que caminha só pra morte, sem ter um sorriso nela? Por que essa sorte? PEDREIRO Ele tem razão. Só quebrar pedras, quebrar o jejum nunca... Sempre fazer estradas que não se sabe pra onde vão, fazer filhos que não irão a lugar nenhum, e que quebrarão pedras... F.CORREIO E carimbar cartas e não ganhar dinheiro que dê pra mandar uma... CAIXEIRO E vender roupa e comida e andar nu e com fome... 13 MULHER DA VIDA E quando ganhar dinheiro, dividir com a polícia. Cuspo nesses miseráveis! CRIANÇA Por que estão reclamando? As autoridades da cidade dizem que as pessoas são felizes aqui. MENDIGO As autoridades, as autoridades! Elas me dão vontade de vomitar, e estou sendo educado... Aqui, como nas outras cidades, as pessoas felizes são felizes, mas as outras, as infelizes, são infelizes, como em todo lugar. MULHER DA VIDA As pessoas felizes não têm história, mas se os infelizes vão lhe contar as suas, então os felizes vêm com suas histórias sujas. Em frente! Fogo! A prisão, a corda no pescoço e isso e aquilo e o resto por cima. Se pelo menos eles fossem felizes, realmente felizes... Mas conheço a cara que fazem e o jeito como vivem seus dias felizes... Pobres infelizes! CAMPONÊS Logo isso acaba. Quem não tem nada a perder, talvez tenha alguma coisa a ganhar. OPERÁRIO É preciso mexer com as pessoas e as coisas, mudar os objetos de lugar! CAMPONÊS (MOSTRANDO SUA FOICE PRA CRIANÇA) Olhe essa foice, já está mexendo! CRIANÇA A gente podia dizer que está viva! ENTRAM O DELEGADO E UM POLICIAL, UM COM UMA CORNETA E OUTRO COM UM TAMBOR. MENDIGO Bico calado! A autoridade! DELEGADO Sentido e silêncio! Tocar corneta! Rolar tambor! POLICIAL Que corneta, delegado? Aqui não tem corneta nenhuma?. DELEGADO Não tem importância. Toque o tambor, então! Mas pra valer! 14 POLICIAL (ROLANDO A VOZ E O TAMBOR) Nós, os dirigentes da cidade, avisamos à população, que a partir de hoje nada mudará, e que daqui pra frente, tudo passará como sempre se passou! DELEGADO E aqueles que não estiverem contentes... (O CAIXEIRO TOMA O TAMBOR DO POLICIAL ) O que é isso? (O CAIXEIRO TOCA O TAMBOR) E aqueles que não estiverem contentes... (O POVO AVANÇA E ELE FICA SURPRESO) CAMPONÊS O que acontece? F.CORREIO Os que não estiverem contentes?... O que você quer dizer? Acabe a frase. MULHER DA VIDA Você fica vomitando besteiras só pra meter medo. CAMPONÊS Cuidado, farsante, vai furar a língua com seus grampos! DELEGADO Vocês estão esquecendo com quem estão falando?! OPERÁRIO É isso aí, delegado, estamos esquecendo!... PEDREIRO De tanto quebrar pedra a cabeça ficou dura como pedra. A gente esquece os pequenos detalhes, a gente esquece... DELEGADO Guarda! Prenda eles! (O POLICIAL SE MEXE E LEVA UNS CASCUDOS) POLICIAL Socorro, delegado! Me ajude! DELEGADO Parem em nome da lei! Não esqueçam que posso fuzilar vocês! TODOS A gente esqueceu! Quem é ele? Nós esquecemos quem é você! CAMPONÊS (GRITA) Parem! Pelo amor de Deus, parem! (TODOS PARAM) Digam, quem é esse estranho que usa bigodes igual volei, seis pra cada lado? 15 CAIXEIRO Tem o olhar parado... OPERÁRIO A cabeça parece frágil, do tamanho de um ovo mal botado. TODOS ANDAM EM VOLTA COMO SE O POLICIAL FOSSE BICHO RARO EXAMINANDO CUIDADOSAMENTE, TOCANDO) MULHER DA VIDA Coisinha esquisita! CRIANÇA Será que é bom de comer? FUNC.CORREIO E se a gente queimasse? DELEGADO (SUANDO FRIO) Mas, sou Grampo, o delegado! POLICIAL (IDEM) Sou Raimundo, filho da Mundinha! FUNC. CORREIO Que língua esquisita! Que palavras estranhas... Gramundo, Raigrampo... DELEGADO (FURIOSO) Vocês são um bando de animais, um bando de animais imundos. Estou dizendo que sou o dele... CAIXEIRO (DÁ UM SOCO NA CABEÇA) Seja educado com os homens vivos, coisinha imprecisa e destinada a desaparecer! DELEGADO Vocês querem briga? Querem briga? (RECEBE OUTRO SOCO NA CABEÇA) Batem na minha cabeça como se eu fosse um mendigo?! (OUTRO SOCO NA CABEÇA) Não batam! Não batam na cabeça! Guarda! (O GUARDA LEVA TAMBÉM BORDOADAS) Não estraguem meus galões! Socorro! (FOGEM PERSEGUIDOS PELO POVO. A CRIANÇA RI.) OPERÁRIO (PARA A CRIANÇA) É justo que os gatos sejam sempre perseguidos pelos cachorros? MULHER DA VIDA Se o padre aparecer, diga a ele que a caçada começou, mas que ele não precisa se incomodar em vir benzer a matilha. (SAI) 16 CRIANÇA (CANTA) Cada qual com sua música! Um dia as coisas mudam: quem está por cima abaixa, quem pisa sempre no pobre seu castigo um dia acha. Tem um dia que é da caça e outro que é do caçador. A data, o destino traça, mas é preciso deixar bem preparado o seu golpe. ENTRAM CHANFALA E QUIRINA. CENA 3 - A REVOLTA CHANFALA, QUIRINA, CRIANÇA, JOANA, TERESA, JOÃO, VELHO, VELHA 1, VELHA 2, MENDIGO E POVO DA CENA ANTERIOR. QUIRINA, CHANFALA E A CRIANÇA PREPARAM A CENA. ESTENDEM UM LENÇOL BRANCO ENTRE DUAS ESTACAS DE MADEIRA TOSCA E ENFEITADAS DE UMA FORMA BEM CAFONA. COLOCAM TAMBÉM CADEIRAS E BANCOS PARA OS ESPECTADORES. CHANFALA Vamos lá, mandrião! CRIANÇA E aí? Eles deram bastante dinheiro? QUIRINA Um tanto bom. CRIANÇA Quanto? QUIRINA (AGRESSIVAMENTE) Um tanto que não é da sua conta. CHANFALA (SUAVE) Quirina! 17 CRIANÇA Mas vai dar pra gente comer depois do espetáculo? CHANFALA Mas esse aí só pensa em comer!... QUIRINA Ele não tem uma solitária na barriga, tem é um acompanhante. CRIANÇA Também, pudera. Vocês nunca me dão comida! QUIRINA Cale a boca agora que eles já estão chegando! CHANFALA Senhores, bem vindos à diversão e ao prazer! VICE-PREFEITO ENTRA DE BRAÇOS COM JOANA, SUA NOIVA, FILHA DO PREFEITO. VICE Este é o melhor lugar, minha vida. Fiz questão de guardar pra você. JOANA Ah, sento em qualquer lugar, estou tão cansada. Exausta... VICE É verdade! Essa palidez, essas mãos quentes, essas olheiras... JOANA Esta noite talvez tenha pensado demais em você, meu amor. VICE Você é a mais frágil e a mais diferente das noivas. ENTRA O RESTO DO PÚBLICO E SE INSTALA: VELHO ENFEITADO E VELHA EM TRAJE DE NOITE. VELHO (PARA A VELHA) E esse magnífico espetáculo só um bom cristão pode ver! VELHA Prefiro sentar o mais perto possível, minha vista está fraca. (SENTAM) ENTRAM JOÃO E TERESA QUE SE BEIJAM. O VICE OLHA PARA TRÊS E VÊ OS DOIS QUANDO ESTÃO ACABANDO DE SE BEIJAR. 18 VICE (PRA JOANA) Olhe lá sua prima Teresa e esse vigarista do João. Detesto esse cara e quando o vejo rodeando você, fico danado... Tenho ódio dele! É uma pessoa que não tem posição, nem futuro, nem vergonha, nem saúde... JOANA Nem usa barba. VICE Hein? JOANA Mas você, sim. Você usa barba. VICE Não gosta de minha barba? JOANA (PUXANDO-A) Adoro! VICE (CONSTRANGIDO) Sua malandrinha!! Vou procurar o prefeito. (SAI) TERESA (INDO ATÉ JOANA) Você já sabe das condições pra ver o espetáculo? JOANA Ai, ai, ai! Meu pai me contou e estou muito preocupada. TERESA Eu também. JOANA Escute. Esta noite, no calor do meu quarto, estava nua... João entrou, fechou a porta, fechei os olhos e gritei... Mas ninguém ouviu o grito, nem ele... Sua boca abafou meu grito. (NO PALCO, CHANFALA E QUIRINA, INDIFERENTES E IMÓVEIS, OLHAM OS ESPECTADORES. É O SEU JEITO DE PREPARAR O ESPETÁCULO.) TERESA E o João não foi embora? JOANA Não, ele ficou. TERESA Até que horas? JOANA Até às duas. 19 TERESA Ah, bandido! Só chegou em meu quarto às 3,30. Deve ter percorrido a cidade. JOANA É. (DE REPENTE, CHANFALA LEVANTA A VOZ E AGITA OS BRAÇOS.) CHANFALA Atenção, senhoritas, ao Quadro das Maravilhas! Diante dele, diante de sua beleza, as moças que erraram ficarão cegas. TERESA Ai eu estou com medo... JOANA Ela está com medo... AS DUAS Nós estamos com medo! JOÃO (APROXIMA-SE DAS MOÇAS) Fiquem tranqüilas, com esses grandes olhos que vocês têm, podem ver todas as maravilhas do mundo, mesmo as mais escondidas... Eu as vi esta noite e ainda estou maravilhado! JOANA Cale a boca, você é um monstro. TERESA Sim, um monstro. JOÃO Estava mais delicada esta noite, Margarida. TERESA Não me chamo Margarida. JOANA Nem eu. AS DUAS Nós não nos chamamos Margarida! JOÃO Diabo. Quem é a Margarida? Consultemos a caderneta... Vejamos... M. Marcelina, Mariana, Maria.. TERESA Oh! Cale-se, chega! Vá embora! JOANA Vá embora! ENTRAM O PREFEITO E O VICE. 20 JOÃO Chegou o prefeito,. Vou inclinar-me diante dele, saudá-lo e rir um pouco nas barbas do vice-prefeito. Mas não esqueça, Margarida, amanhã, terça-feira, como dois e dois são quatro, estarei no seu quarto, à meia-noite... (AFASTA-SE E DIRIGE-SE AO PREFEITO.) JOANA Ele marcou encontro comigo. TERESA Não, foi comigo. JOANA Mas você não se chama Margarida! TERESA Por que não? JOANA Nesse caso, então, também me chamo Margarida. AS DUAS Então, nós nos chamamos Margarida. PREFEITO E VICE-PREFEITO SE INSTALAM. JOÃO, NÃO MUITO LONGE, SENTA NO MEIO DAS VELHAS. PREFEITO Já que cheguei, penso que o espetáculo deve começar. CHANFALA Que seja feito segundo a vossa vontade, senhor prefeito. A nossa diretora está lá nos bastidores, atrás de nossa bela cortina. E aqui, na frente, para vossa alegria, o nosso músico. O PÚBLICO COMEÇA A APLAUDIR. PREFEITO (GRITA) O quê? É este o músico? (O PÚBLICO PARA) Pois trate de colocá-lo atrás das cortinas também. E de mãos amarradas. Não vê-lo compensará, de sobra, não escutá-lo... CRIANÇA (PARA CHANFALA) Tá vendo o que dá a gente ficar tocando sem ganhar nem um prato de comida? (PARA O PREFEITO) Senhor prefeito, não embirre comigo que eu toco como Deus me ensinou. 21 PREFEITO Foi Deus quem te ensinou, safado? Já pra trás do pano que senão te atiro o banco. CRIANÇA Foi o Diabo que me trouxe a esta cidade. VICE-PREFEITO E é ainda atrevido, o biltre! CRIANÇA Biltre é a... CHANFALA (TAPANDO A BOCA DA CRIANÇA) Não se preocupe, excelência. Não haverá música no espetáculo. (EMPURRA A CRIANÇA PRA DENTRO DO LENÇOL. OUVE-SE DO LADO DE FORA, QUIRINA A GRITAR E A BATER NO GAROTO QUE TAMBÉM GRITA E CHORA) Um momento, um momento só, meus senhores, que o maravilhoso Quadro das Maravilhas já vai começar. (ENTRA PRA DENTRO DA CORTINA. OUVE-SE UM SOCO GIGANTESCO SEGUIDO DE UM GRITO) Pronto, senhoras e senhores, o espetáculo vai começar. (CHAMA) Quirina! (ENTRA QUIRINA DE OLHO ROXO E BOCA INCHADA. CHANFALA APRESENTA QUIRINA) Senhoras e senhores! Aqui a diretora deste maravilhoso espetáculo. (SURGE A CRIANÇA) E aqui, o nosso músico, que não tocará. PREFEITO Esse aí não toca nem que a vaca tussa. CHANFALA Claro, já que é esse o vosso desejo. (CHANFALA MOSTRA O LENÇOL BRANCO, REPENTINAMENTE)) É aqui que as maravilhas vão começar... Vejam, o vento já vem representar seu papel na história! Atenção! (GRITANDO) O espetáculo vai começar, o espetáculo está começando, o espetáculo começou! Vejam este homem que avança no vento, uma mandíbula de burro na mão. É o prodigioso Sansão. Ele escala os degraus do Templo gritando como um insensato. Olhem pra Sansão, vejam como furiosamente agarra as colunas do Templo!... O templo vai desabar!... Pare! Pela graça de Deus! Pare! Não machuque ou faça em pedaços a nobre assembléia aqui presente... (GRITOS DE ESPANTO DOS 22 ESPECTADORES, MENOS DE JOÃO QUE CONSULTA SUA CADERNETA) PREFEITO (LEVANTANDO-SE) Alto lá! Seria lamentável que tendo vindo pra nos divertir nós "íamos"... VICE (EM VOZ BAIXA) "Nós fôssemos"... PREFEITO Obrigado. (CONTINUANDO) Nós fôssemos estropiados! VELHO Pare, corajoso Sansão! Pare! VELHA 1 Você está vendo alguma coisa? VELHA 2 Claro! Você pensa que sou filha de mãe solteira? VELHA 1 (À PARTE) Pois eu não estou vendo nada. Ah, e eu que sempre pensei que era filha legítima e de boa cepa. VICE Era preciso ser três vezes materialista ateu e seis vezes perjuro pra não o ver. VELHA 1 Ahn? VICE-PREFEITO Ele está vestido de árabe e seus cabelos são compridos e negros. JOANA (PARA TERESA) Está vendo alguma coisa, Margarida? TERESA Não, Margarida, e você? JOANA Também, não, Margarida. (LEVANTAM-SE E GRITAM) AS DUAS Pare, Sansão! Pare de sacudir o templo, nós te pedimos! QUIRINA Calma, senhoras e senhores! Sansão já se afasta, com a mandíbula de burro na mão! Está tudo calmo, extremamente calmo... (GRITA) Cuidado! Meu Deus!, um touro em fúria! CHANFALA São Onofre, é o mesmo que matou um infeliz na cidade vizinha! 23 QUIRINA Deitem-se! Deitem-se! (A MAIORIA DEITA-SE) VELHA 1 (SACUDINDO JOÃO, SENTADO PERTO DELA) João, me ajude a deitar, estou tão velha, tão cansada e tenho tanto medo. (GRITA) Tanto medo desse animal! JOÃO Que seja feito segundo a vossa vontade, coisa velha! (JOGA A VELHA NO CHÃO, BRUTALMENTE) PREFEITO Puxa, todos vêem e eu não enxergo bulhufas. Mas pra manter a honra, tenho que ficar firme na mentira. VELHA 1 (GRITANDO) Ai, está me pisoteando, o touro está me pisoteando! Ai, me pisoteie mais, me esmague, me chifre, touro! TERESA O touro também está me olhando e garanto que ele gosta de moças. JOANA Fechem bem as portas de nossos quartos, porque esse touro virá nos ver à noite, todas as noites. PREFEITO O que ela está dizendo? Ela está louca? VICE Você acha que ela está vendo? PREFEITO O que? VICE O touro. PREFEITO É claro que está vendo. (COMO SE O TOURO O AMEAÇASSE) Eeeiiia! O tourinho tem o diabo no corpo. Se não desvio a tempo, me mandava pelos ares. VICE-PREFEITO O prefeito se desviou do touro, segurou o danado pelos chifres e pumba!... derrubou o touro. TERESA Viva o prefeito! TODOS Viva! (PALMAS, CRITOS) 24 PREFEITO (TODO CHEIO DE SI) Senhor diretor, não deixe mais saírem essas figuras que nos amedrontam. Não digo isso por mim, mas pelas moças...Olhe só como elas estão pálidas. AS DUAS É de medo!... JOANA Já estava me vendo espetada pelas guampas desse touro malvado. CHANFALA Desculpe, mas não sou o dono das maravilhas que apresento. Vejam agora esse bando de ratos . Eles descendem em linha reta dos que se criaram na Arca de Noé. VICE Verdade? QUIRINA Uns são brancos, outros pardos, outros malhados... mas todos são ratos!... PREFEITO Não! Tenho pavor de ratos! VELHA 1 (GRITANDO) Os ratos, os ratos! Aí estão eles! PREFEITO (SUBINDO NA CADEIRA) Ratos! Ratos! VELHAS (TAMBÉM SUBINDO NAS CADEIRAS, APAVORADAS) Ratos! Ratos! VELHA 1 (PARA JOÃO) Por favor, me ajude a subir na cadeira. Eles vão me devorar! JOÃO A senhora está muito bem onde está. TERESA Socorro! Eles vão desfiar minhas meias! JOANA Apertem a saia, eles vão subir! Um rato negro agarrou meu joelho! Acudam! JOÃO (VAI ATÉ JOANA E PASSA A MÃO DEBAIXO DA SAIA DELA) Pronto! Pronto! Não tenha medo, peguei! (A VELHA 2 QUE ESTA NO CHÃO, DE REPENTE, AGARRA JOÃO 25 PELOS PÉS. ELE CAI E ELA SE JOGA POR CIMA DELE. A OUTRA VELHA FAZEM O MESMO, GRITANDO.) VELHA 1 Ah, João! Por que você só pega ratos embaixo das saias das moças? VELHA 2 Os ratos estão nos mordendo, nós também somos mordidas! VELHA 1 Joãozinho, nos livre dos ratos! VELHA 2 Ai! Ai! Esses ratos coçam! VELHA 1 Ai, João, estão mordendo! VICE-PREFEITO (À PARTE) Mas que diabo é isso? Será que entre tantos filhos legítimos eu sou o único filho bastardo? (GRITA) Socorro! CHANFALA (GRITANDO) Calma, senhoras e senhores, calma! O bando de ratos está indo embora! Calma! (TODO MUNDO VAI SE ACALMANDO) PREFEITO O senhor garante que esses bichos vão e não voltam mais? O senhor se compromete a só mostrar as maravilhas edificantes, outra cena da Bíblia, por exemplo? Senão terminando o espetáculo, mando expulsá-lo da cidade a pontapés. CHANFALA Prometo, senhor prefeito, prometo. Música! PREFEITO Música não! Música não! (DESCE DA CADEIRA GRITANDO) Música não, música de jeito nenhum! (DE REPENTE, AS VELHAS QUE ESTÃO SOBRE JOÃO LEVANTAMSE GRITANDO) VELHA 2 Um infeliz espectador foi sufocado! VELHA 1 Socorro!! VELHA 3 (REZANDO) Que Deus guarde sua alma! 26 PREFEITO Levem o corpo, pois o espetáculo continua.(LEVAM O CORPO) VICE Bem que eu dizia, esse rapaz nunca teve saúde. JOANA (PARA TERESA) É o corpo de João! As velhas o sufocaram! TERESA Cala a boca, Margarida, não dê escândalo! JOANA Mas ele era o mais educado! E meu noivo usa barba. TERESA Case-se o mais depressa possível, Margarida, e corte a barba e o pescoço de seu noivo junto. Depois você diz que ele se matou enquanto se barbeava, põe luto e será livre como o vento! JOANA Tem razão, Margarida, vou matá-lo e serei livre como o vento. (CHORA) VICE (PARA JOANA) Coitadinha! Não pode ver violência. JOANA (APALPANDO O PESCOÇO DO VICE) Você sabe que não, querido. CHANFALA Senhor prefeito, senhor vice-prefeito, senhoras e senhores, o espetáculo continua. Basta vocês olharem. Ah! Ah! Eis que aparece Salomé, a dançarina que com sua dança foi premiada com a cabeça de um homem muito estimado em seu tempo. Olhem como ela dança. Se ajudarem ela a dançar... ah! verão maravilhas. PREFEITO Ai, que figura brilhante. E como se remexe a danadinha! VICE Com efeito, é a mais bela dançarina que já vi! (APROVAÇÃO DE TODOS) PREFEITO É a dança em pessoa! Ei, vice-prefeito, meu futuro genro, você que tem pernas finas e tão ágeis, vá dançar com ela. 27 VICE Eu, dançar com essa moça? Senhor prefeito... O senhor não está pensando?... O que diria minha noiva? JOANA (INOCENTE) Ela não diria nada. Como ela ainda não é casada, não tem o direito de ter ciúmes. Obedeça meu pai, levante e vá dançar com a bela Salomé. (O VICE, APAVORADO, COMEÇA A DANÇAR DE UMA FORMA RÍDICULA. TODOS ACOMPANHAM BATENDO PALMAS E BATENDO OS PÉS. NESTE MOMENTO APARECE O DELEGADO, EM FRENTE DO LENÇOL, COM OS BRAÇOS ABERTOS.) DELEGADO Alerta! Alerta! O país está em chamas! VICE (ALIVIADO) Santo Salvador! DELEGADO Eles estão chegando. Batem, gritam, cantam, riem e o seu riso é terrível. Em cinco minutos estarão aqui. Alerta! Alerta! (INQUIETAÇÃO GERAL) PREFEITO Que é isso, delegado? Fazendo escândalo? Perdeu a cabeça? Está bêbado? DELEGADO Não tá na hora de brincar! PREFEITO É hora sim, e não deixo pra depois, delegado! Nós estamos assistindo a um espetáculo de alto nível, e você ousa interromper, para representar sei lá o quê! Saia de cena, já. Amanhã conversaremos seriamente. DELEGADO Senhor prefeito... PREFEITO Silêncio! Continue, senhor diretor. CHANFALA Vocês verão agora um nobre e pobre velho, o mais nobre e o mais piedoso entre os mais nobres velhos. Olhem, vejam, como brilha o seu velho corpo resplandecente! Vejam Jó em sua palha! Ele coça as feridas com um velho pedaço de telha, mas agradece ao senhor porque sua palha é dourada. Olhem, olhem como a palha brilha! 28 DELEGADO Eles estão chegando! Pelo amor de Deus, escutem! PREFEITO Olhe Jó, delegado, se ainda tem olhos nos buracos. VICE É verdade, como ele brilha! Que belo velho! DELEGADO Todo mundo está louco! Não estou vendo nada, absolutamente nada! PREFEITO Não vê nada porque está bêbado, porque é um mau cristão, um adúltero, um filho da puta... DELEGADO O quê? Seu canalha! Repita isso que não deixo um osso inteiro no seu corpo! PREFEITO Bêbado! Canalha! Ateu! POLÍCIA (PARA O DELEGADO) Bato nele, delegado? VELHA 1 O prefeito tem razão! Safado! Canalha! JOANA Delegado de meia tigela! DELEGADO Meia tigela é a machona que os pariu! VELHO Pecador! (PREFEITO E DELEGADO SE ATRACAM ENQUANTO VAI CHEGANDO O POVO AMEAÇADOR.) VELHO (LEVANTANDO-SE) Insensatos, vejam o espetáculo em vez de brigar! Admirem as maravilhas da pobreza, o esplendor da miséria e suas belezas escondidas! Jó agradece a Deus por não lhe dar o que comer. Em verdade, em verdade eu vos digo: o pobre é bom como um cão. (UM TRABALHADOR BATE EM SUA CABEÇA E ELE CAI). DELEGADO Aí estão eles! Eu avisei! Vão bater nas suas cabeças como bateram na minha! Vão acabar com vocês! Bem feito! (LEVA UMA BORDOADA E CAI) 29 PREFEITO Retire essa visão, diretor, retire esse quadro desagradável! Não pagamos para ver semelhante coisa! (RECEBE UM GOLPE E CAI) VICE Socorro! Socorro! (É ATINGIDO E ANTES DE CAIR FALA) Pô! Até o vice-prefeito! JOANA (PARA TERESA) Como são másculos e bonitos quando são vistos de perto! TERESA Eles me davam medo... JOANA A mim também. Mas na verdade, poderiam me dar prazer... TERESA É, eles são mais vivos que João, quando ele era vivo. MENDIGO (PARA A CRIANÇA) Toque e cante sua música, garoto, nós também viemos dançar. CRIANÇA Minha música será mais alegre! (CANTA) O povo entrou em cena. Trouxe junto a alegria. É festa durante a noite, É festa durante o dia. MENDIGO (AOS ESPECTADORES QUE NÃO APANHARAM E AO POVO) Todo mundo dançando! Os velhos dancem com as velhas, as moças com os moços! Cantando e dançando! (TODOS CANTAM E DANÇAM) TODOS (CANTAM) Que todos entrem na roda vamos todos festejar com alegria viver, com alegria dançar. Pois bem feliz é o povo que vive sempre a cantar. Nesta peça houve disputa entre o que é bom e o que é mau, 30 entre o que é filho da puta e o que é filho de tal. Mas coisa mais esquisita, o doutor todo bacana, cheio de prosa e de pinta, acabou de entrar em cana e nós entramos na dança e partimos pra festança. Se quiser entrar na roda não se faça de rogado, dê a mão direita e a esquerda pra quem está do teu lado e venha dançar conosco que a vida vale a pena quando é vivida com gosto. São Paulo, 09 de março de 1991. Calixto de Inhamuns Telefone (011) 288-7370 E-mail: [email protected] 31