UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO Factores Estratégicos de Desenvolvimento da Indústria de Componentes para Automóvel em Portugal - Os Determinantes da Qualidade das Empresas Luis Carlos Pereira Batista Reis (licenciado) Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia Orientador: Doutor Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor Co-orientadores: Doutor Rui Miguel Loureiro Nobre Baptista Doutor Francisco Miguel Rogado Pinheiro Veloso Júri Presidente: Doutor Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor Vogais: Doutor José Manuel Amado da Silva Doutor Rui Miguel Loureiro Nobre Baptista Doutor Pedro Filipe Teixeira da Conceição Julho de 2001 UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO Factores Estratégicos de Desenvolvimento da Indústria de Componentes para Automóvel em Portugal - Os Determinantes da Qualidade das Empresas Luis Carlos Pereira Batista Reis (licenciado) Dissertação para a obtenção do Grau de Mestre em Engenharia e Gestão de Tecnologia Orientador: Doutor Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor Co-orientadores: Doutor Rui Miguel Loureiro Nobre Baptista Doutor Francisco Miguel Rogado Pinheiro Veloso Júri Presidente: Doutor Manuel Frederico Tojal de Valsassina Heitor Vogais: Doutor José Manuel Amado da Silva Doutor Rui Miguel Loureiro Nobre Baptista Doutor Pedro Filipe Teixeira da Conceição Julho de 2001 À Ana À memória da minha querida Bi Índice ÍNDICE ABSTRACT ........................................................................................................................ 1 R ESUMO ........................................................................................................................... 2 1. ENQUADRAMENTO G ERAL DO ESTUDO ......................................................................... 3 1.1 Introdução............................................................................................................. 3 1.2 Emergência da Qualidade Enquanto Factor Chave da Organização Industrial: O Caso da Indústria Automóvel ...................................................................................... 4 1.2.1 Manufactura - O Fabrico Artesanal do Automóvel ................................................. 4 1.2.2 Produção em Massa de Automóveis.................................................................... 5 1.2.3 Produção Lean: O Paradigma Japonês da Organização Industrial ......................... 6 1.3 A Indústria Automóvel no Mundo.......................................................................... 7 1.3.1 Pressões Globais sobre a Indústria Automóvel ..................................................... 7 1.3.2 A Globalização da Indústria Automóvel e as Estratégias dos OEM ........................ 7 1.3.3 A Evolução da Cadeia de Fornecimentos ............................................................. 9 a) A Importância do Papel dos Fornecedores ........................................................... 9 b) Reorganização da Cadeia de Valor ..................................................................... 9 c) Factores Críticos de Desenvolvimento da Estrutura de Fornecedores ...................11 1.4 A Indústria Automóvel em Portugal .....................................................................12 1.4.1 Perspectiva Histórica da Indústria Automóvel em Portugal ...................................12 1.4.2 Caracterização Actual da Indústria Automóvel em Portugal ..................................15 a) Montagem de Veículos ......................................................................................15 b) Sector de Componentes ....................................................................................15 1.4.3 A Importância do Sector Automóvel na Economia Portuguesa..............................17 1.4.4 As Estratégias dos OEM e suas Implicações na Indústria Automóvel em Portugal .18 1.4.5 A Qualidade como Factor de Competitividade na Indústria de Componentes para Automóvel em Portugal ..............................................................................................18 1.5 Enquadramento Teórico e Empírico.....................................................................22 1.5.1 Qualidade: Perspectiva Histórica, Conceito e Dimensões Críticas ........................22 a) Perspectiva Histórica .........................................................................................22 b) Conceito ...........................................................................................................26 c) Dimensões Críticas ...........................................................................................26 1.5.2 Estudos Teóricos e Empíricos ............................................................................29 1.6 As Questões de Investigação...............................................................................31 1.7 Contribuição da Dissertação................................................................................33 2. ABORDAGEM METODOLÓGICA ....................................................................................34 2.1 Dados...................................................................................................................34 2.2 Modelo Conceptual de Análise .............................................................................35 2.2.1 Análise ao Nível Externo: A Qualidade e a Competitividade das Empresas ...........38 2.2.2 Análise ao Nível Interno: Os Determinantes da Qualidade das Empresas .............39 iii Índice 2.2.3 Dimensões Críticas de Análise e Indicadores ......................................................40 a) Características Gerais da Empresa ....................................................................40 b) Relacionamento com a Clientes e Fornecedores .................................................40 c) Gestão / Afectação de Recursos ........................................................................40 d) Instrumentos e Métodos .....................................................................................41 e) Desempenho na Qualidade ................................................................................42 f) Desempenho no Fabrico....................................................................................42 g) Capacidade de Desenvolvimento .......................................................................43 h) Flexibilidade / Capacidade de Resposta..............................................................43 i) Desempenho Financeiro ....................................................................................43 2.3 Metodologia de Tratamento e Análise de Dados ..................................................45 3. ANÁLISE EMPÍRICA ...................................................................................................46 3.1 Caracterização dos Dados Disponíveis................................................................46 3.1.1 Caracterização da Amostra de Empresas ...........................................................46 3.1.2 Perfil de Qualidade ............................................................................................48 3.2 Análise de Dados .................................................................................................51 3.2.1 Definição dos Clusters de Empresas ..................................................................51 a) Segmentação da Amostra ..................................................................................51 b) Caracterização Geral dos Clusters .....................................................................53 3.2.2 Análise ao Nível Externo: A Qualidade e a Competitivi dade da Empresa ..............55 a) Qualidade e Flexibilidade/Capacidade de Resposta.............................................55 b) Qualidade e Capacidade de Desenvolvimento.....................................................57 c) Qualidade e Desempenho no Fabrico.................................................................57 d) Qualidade e Desempenho Financeiro .................................................................58 3.2.3 Análise ao Nível Interno: Determinantes da Qualidade da Empresa......................59 a) Relacionamento com Clientes e Fornecedores e Qualidade .................................59 b) Gestão / Afectação de Recursos e Qualidade .....................................................61 c) Instrumentos e Métodos e Qualidade..................................................................64 4. CONCLUSÕES ..........................................................................................................66 4.1 Modelo de Análise ................................................................................................66 4.2 Resultados...........................................................................................................67 4.2.1 Nível Externo: A Qualidade e a Competitividade das Empresas............................67 4.2.2 Nível Interno: Os Determinantes da Qualidade das Empresas ..............................69 4.3 Discussão ............................................................................................................72 4.4 Implicações..........................................................................................................76 4.5 Sugestões para Trabalho Futuro..........................................................................80 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...........................................................................................81 ANEXO I - M ETODOLOGIA E I NSTRUMENTOS DE R ECOLHA DE DADOS iv Índice de Quadros ÍNDICE DE Q UADROS Quadro 1: Exemplos recentes de investimento em Portugal...........................................................................14 Quadro 2: Evolução da Montagem de Veículos em Portugal..........................................................................14 Quadro 3: Montagem de veículos em Portugal em 1999.................................................................................15 Quadro 4: Evolução do Sector de Componentes (1 000 000 c.)....................................................................15 Quadro 5: Facturação por grupo de actividade (1 000 000 c.)........................................................................16 Quadro 6: A Importância da Indústria Automóvel na Economia Portuguesa................................................17 Quadro 7: Síntese de Contribuições para as Dimensões Críticas do Modelo Conceptual de Análise.....35 Quadro 8: Distribuição da Amostra por Área de Actividade.............................................................................46 Quadro 9: Resumo da Análise dos Indicadores no Nível Externo..................................................................67 Quadro 10: Resumo da Análise dos Indicadores no Nível Interno.................................................................69 v Índice de Figuras ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1: Pressões Globais sobre a Indústria Automóvel ..................................................................................7 Figura 2: As Responsabilidades e Competências dos Fornecedores............................................................11 Figura 3: Montagem de veículos em Portugal por Unidade de Montagem em 1999...................................15 Figura 4: Principais Destinos de Exportação em 1998.....................................................................................16 Figura 5: Estrutura da Cadeia de Fornecimento (Veloso et. al,2000)............................................................17 Figura 6: Factores de Posicionamento Estratégico das Empresas ................................................................20 Figura 7: Pontos Fortes e Fracos das Empresas ..............................................................................................20 Figura 8: Evolução dos Processos de Certificação...........................................................................................21 Figura 9: Perfil de Certificação das Empresas ...................................................................................................22 Figura 10: Os Percursores da Qualidade............................................................................................................24 Figura 11: A Roda de Deming...............................................................................................................................25 Figura 12: O Ciclo de Deming...............................................................................................................................25 Figura 13: Dimensões do Valor do Produto........................................................................................................27 Figura 14: Contribuições para as Dimensões Críticas do Modelo Conceptual de Análise.........................36 Figura 15: Modelo Conceptual de Análise..........................................................................................................38 Figura 16: Indicadores da Análise de Nível Externo .........................................................................................44 Figura 17: Indicadores da Análise de Nível Interno...........................................................................................44 Figura 18: Distribuição da Amostra por Área de Actividade ............................................................................47 Figura 19: Distribuição da Amostra por Origem do Capital..............................................................................47 Figura 20: Dis tribuição da Amostra por Dimensão (Volume de Facturação em 1998 - c.)........................47 Figura 21: Distribuição da Amostra por Dimensão (Número de Trabalhadores em 1998)........................48 Figura 22: Distribuição da Amostra por Dimensão (N. de Trab. em 1998) e Nacionalidade.....................48 Figura 23: Perfil de Qualidade da Amostra - Taxa de Defeitos Internos ......................................................49 Figura 24: Perfil de Qualidade da Amostra - Taxa de Defeitos Externos ......................................................49 Figura 25: Perfil de Qualidade da Amostra - Sucata.........................................................................................50 Figura 26: Perfil de Qualidade da Amostra - Rework........................................................................................50 Figura 27: Evolução dos Indicadores de Qualidade..........................................................................................51 Figura 28: Correlações Entre os Indicadores do Desempenho na Qualidade..............................................52 Figura 29: Segmentação da Amostra de Empresas..........................................................................................52 Figura 30: Segmentação da Amostra Taxa de Defeitos Externos (ppm)......................................................53 Figura 31: Segmentação da Amostra Taxa de Defeitos Internos (ppm)........................................................53 Figura 32: Segmentação da Amostra Taxa de Sucata (ppm)..........................................................................53 Figura 33: Segmentação da Amostra Taxa de Rework (% h produção)........................................................53 Figura 34: Dimensão das Empresas (Volume de facturação - 1997)............................................................54 Figura 35: Dimensão das Empresas (Número de Trabalhadores - 1997)....................................................54 Figura 36: Nacionalidade das Empresas ............................................................................................................54 Figura 37: Perfil de Certificação por Grupo de Empresas................................................................................54 Figura 38: Número Total de Referências por 1 000 000 c. de Facturação..................................................55 Figura 39: Número Total de Referências em Produção Simultânea por 1 000 000 c. de Facturação ....55 Figura 40: Número de Referências Novas por 1 000 000 c. de Facturação................................................56 vi Índice de Figuras Figura 41: Dimensão Típica de Ordem de Produção por 1 000 000 c. de Facturação..............................56 Figura 42: Order Lead Time..................................................................................................................................56 Figura 43: Tempo entre Entregas Sequenciais..................................................................................................56 Figura 44: Encomendas em Atraso......................................................................................................................56 Figura 45: Entregas em Just-In-Time...................................................................................................................56 Figura 46: Lead Time de Produto.........................................................................................................................57 Figura 47: Lead Time de Processo......................................................................................................................57 Figura 48: Stock de Matéria Prima.......................................................................................................................58 Figura 49: Stock de Produto Acabado.................................................................................................................58 Figura 50: Work In Progress..................................................................................................................................58 Figura 51: Crescimento da Produtividade no Trabalho 1994-1997 ................................................................59 Figura 52: Crescimento da Facturação 1994-1997...........................................................................................59 Figura 53: Actividades Desenvolvidas com Clientes (% empresas)...............................................................60 Figura 54: Actividades Desenvolvidas com Fornecedores ..............................................................................60 Figura 55: % de Fornecedores Certificados .......................................................................................................61 Figura 56: Qualificações dos Recursos Humanos.............................................................................................61 Figura 57: Flexibilidade dos Recursos Humanos ..............................................................................................62 Figura 58: Sugestões Formalizadas e Implementadas.....................................................................................62 Figura 59: Níveis Salariais .....................................................................................................................................63 Figura 60: Trabalhadores Afectos à Qualidade..................................................................................................63 Figura 61: Tempo Despendido na Resolução de Problemas .........................................................................63 Figura 62: Custos da Qualidade...........................................................................................................................64 Figura 63: Instrumentos e Métodos - Foco no Desenvolvimento....................................................................65 Figura 64: Instrumentos e Métodos - Foco no Fabrico.....................................................................................65 vii Agradecimentos AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, os meus agradecimentos ao orientador e aos co-orientadores da dissertação, pelo seu apoio e estímulo. Ao Professor Manuel Heitor e ao Professor Rui Baptista, pela enriquecedora discussão de ideias, pela orientação do trabalho e pela forte contribuição para a sua realização. Ao Doutor Francisco Veloso, pela oportunidade de participação no estudo “Global Auto Parts”, que se expande nesta dissertação, pelo interesse que sempre demonstrou e pela forte contribuição que deu para a realização deste trabalho. À Inteli, nomeadamente à equipa que desenvolveu o questionário em parceria com o MIT, procedeu ao acompanhamento às empresas e desenvolveu a base de dados, sem os quais não seria possível o desenvolvimento deste trabalho. A José Rui Felizardo, pela sua amizade e pelo apoio à minha participação no Mestrado em Engenharia e Gestão de Tecnologia. A meus colegas, nomeadamente a António Monteiro, Alexandre Videira, Teresa Rolo, Artur Costa e Nuno Martins, pelo seu incentivo, pela sua amizade e pela riqueza das experiências de trabalho que temos desenvolvido em conjunto, que em muito valorizou esta dissertação. À Ana, pelo seu grande apoio, pela sua grande amizade e carinho, que se traduziram no conforto que me proporcionou em todas as horas. À minha querida Bi, pela memória da sua tenacidade e força de viver, que lembro com saudade e à qual recorro nos momentos de desânimo. À minha família. Ao meu irmão João, grande amigo, à riqueza do seu carácter e à sua grande amizade e apoio. A meu avô, Manuel Francisco, possuidor de um sólido quadro de valores, e à sempre amiga tia Idalina, pelo grande carinho e suporte que me ofereceram e pela sempre isenta contribuição para a construção do meu percurso de vida. À minha Avó Docelina, que me ajudava nos trabalhos de casa aos cinco anos de idade, pelo grande impulso que deu à minha formação moral. A nobreza da sua pessoa é uma referência. A meus tios, Rita e Eusébio, Fernando, Carlos, pelo interesse e apoio manifestados no decorrer deste trabalho. A meus pais, Vítor e Cremilde, pelo forte apoio desde sempre prestado ao desenvolvimento da minha formação académica. viii Abstract ABSTRACT This dissertation addresses the issue of quality performance and its determinants, with application to the Portuguese automotive components industry. It explores a theoretical framework for addressing the problem, showing how quality is a critical positioning factor within the automotive components industry and proposes a specific conceptual model and an analytical approach for the study, consisting of a cluster analysis of a sample of 22 firms, with statistical support. A first analysis of the subject of quality within the sector shows that, although quality performance is a critical positioning factor for firms, their engagement in quality is somewhat recent, being their quality performance well above reference values for quality-related indicators, namely 240 ppm (parts per million) of external defects, and 1.2% of parts reworked in the line. Further analysis based on a cluster approach in terms of client defect rates shows that quality is a factor of strategic importance for firms’ competitiveness, having a positive impact in factors such as development capabilities and responsiveness. For this analysis, firms’ competitiveness was quantified in terms of indicators related to financial performance, development capabilities, responsiveness and manufacturing capabilities. The main conclusion of this thesis is that, for Portuguese automotive components firms, human resources’ qualifications profile and the implementation of management practices that enhance their flexibility are the key determinants of quality performance, defined in terms of client defect rates, rather than the allocation of further resources to quality. In addition, the analysis shows that neither quality certification, nor the use of specific methods and tools related to development (such as failure mode and effects analysis, design for assembly or value analysis, among others) or production (such as MRP or MRPII, among others), are determinants of quality performance for the sample of firms analysed. The analysis suggests that, for firms in an intermediate level of development in terms of quality, the capabilities of human resources are the key determinants of quality performance. Building on this argument, it is speculated that the success of the engagement in quality requires a minimum level of qualifications that provides the basis for the necessary individual learning capability, which per se is a critical determinant for the firm’s absorptive capacity. Key-words: Quality, Quality Determinants, Portuguese Automotive Components Industry, Competitiveness, Human Skills and Competences, Learning Capability, Absorptive Capacity 1 Resumo R ESUMO A presente dissertação aborda a questão da qualidade e dos determinantes do desempenho na qualidade no sector nacional de componentes para automóvel em Portugal. Com base na exploração de um enquadramento teórico para o estudo da questão, mostra-se que a qualidade é um factor estratégico de posicionamento no sector de componentes para automóvel e propõe-se um modelo conceptual específico e uma abordagem metodológica para a realização do estudo, consistindo numa análise de cluster de uma amostra de 22 empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal, com suporte estatístico. Uma primeira análise da qualidade no sector mostra que, embora o desempenho na qualidade seja um factor crítico de posicionamento competitivo para as empresas, a sua aposta na qualidade é relativamente recente, estando o seu desempenho na qualidade afastado dos valores de referência para os principais indicadores, nomeadamente - 240 ppm (partes por milhão de peças produzidas) para a taxa externa de defeitos e 1.2% para a taxa de peças reconvertidas na linha. A análise empírica mostra que a qualidade, tendo um impacto positivo em factores como a capacidade de desenvolvimento ou a flexibilidade e capacidade de resposta, é um factor com importância estratégica para a competitividade das empresas. Neste contexto, a competitividade empresarial foi quantificada em função de indicadores associados ao desempenho financeiro, à capacidade de desenvolvimento de produto, à flexibilidade e capacidade de resposta e ao desempenho no fabrico. A principal conclusão do trabalho é que, para as empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal, a qualificação dos recursos humanos e o uso de prácticas de gestão que promovam a sua flexibilidade são os determinantes do desempenho na qualidade, definido em termos da sua taxa externa de defeitos, mais do que a afectação de mais recursos à qualidade. Adicionalmente, a análise mostra que a certificação de qualidade ou o uso de instrumentos e métodos ao nível do desenvolvimento (como, entre outros, failure mode and effects analysis, design for assembly ou análise de valor) ou do fabrico (MRP, MRPII, entre outros) não são determinantes do desempenho na qualidade. A análise sugere que, para empresas num estado intermédio de desenvolvimento da qualidade, as competências dos recursos são os determinantes chave do desempenho na qualidade. Neste âmbito, especula-se que o sucesso da aposta na qualidade requer um nível mínimo de qualificações essenciais para o processo de aprendizagem dos indivíduos, sendo critico para o desenvolvimento da capacidade de absorção das empresas. Palavras Chave: Qualidade, Determinantes da Qualidade, Indústria de Componentes para Automóvel Portuguesa, Competências dos Recursos Humanos, Aprendizagem , Capacidade de Absorção 2 Enquadramento Geral do Estudo 1. ENQUADRAMENTO G ERAL DO ESTUDO 1.1 Introdução A investigação realizada nesta dissertação tem como objectivo analisar quais os factores que influenciam e determinam o desempenho na qualidade – medido em função da taxa de defeitos externos - por parte das empresas de componentes para automóvel em Portugal, factor crítico de sucesso face ao enquadramento geral da indústria automóvel. Apesar de este ser um dos sectores mais dinâmicos da economia, entre os principais exportadores e 1 motivadores de investimento directo estrangeiro nos anos mais recentes , e um dos líderes na modernização tecnológica do tecido industrial, não tem sido alvo de estudos de fundo que permitam inferir conclusões sobre a sua dinâmica de desenvolvimento. A presente dissertação surge integrada num trabalho de fundo realizado no âmbito da aplicação do estudo "Global Auto Parts - Estratégias Globais de Desenvolvimento do Sector de Componentes para a Indústria Automóvel" a Portugal, em parceria com o International Motor Vehicle Program do Massachussets Institute of Technology. Pretende-se, neste trabalho, compreender quais os factores que estão por detrás no desempenho das empresas em termos da qualidade, medido em função da sua taxa externa de defeitos, e, por outro lado, suportar o argumento de que este é um factor crítico de competitividade no seio da indústria de componentes para automóvel em Portugal. Em particular, pretende-se responder às seguintes questões de investigação: ?? "Em que medida é a qualidade um factor estratégico de competitividade no sector de componentes para automóvel em Portugal, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas?" ?? "Quais são, no sector de componentes para automóvel em Portugal, caracterizado por uma aposta recente na qualidade, os factores internos às empresas que determinam o seu desempenho ao nível da qualidade, os quais se designarão de «determinantes da qualidade»?" Para tal, desenvolve-se uma abordagem metodológica suportada por uma análise a dois níveis. Num primeiro nível, procura-se estabelecer uma relação entre o desempenho das empresas em termos da qualidade e o desempenho global da empresa, em termos do seu desempenho financeiro, da sua capacidade de fabrico ou da sua capacidade de resposta às solicitações do mercado, seja pela capacidade de desenvolvimento de produtos ou processos, seja pela capacidade de responder às encomendas dentro dos prazos exigidos. Este nível de análise está associado à primeira questão. Num segundo nível, alvo de maior foco no desenvolvimento da análise, estuda-se o impacto de factores como o relacionamento com clientes e fornecedores, a gestão e afectação de recursos e o uso de instrumentos e 1 Ver, a propósito, o ponto 1.4.3. 3 Enquadramento Geral do Estudo métodos com o desempenho das empresas na qualidade, sendo identificados aqueles que motivam um melhor desempenho da empresa ao nível da qualidade. Este nível de análise está associado à segunda questão de investigação. De modo a desenvolver a resposta às questões enunciadas, o ponto 1 apresenta um enquadramento geral do estudo, contribuindo para o dimensionamento do problema. Está assim estruturado segundo uma breve descrição da importância da qualidade na indústria automóvel desde o seu início até aos dias de hoje, a descrição das principais linhas que caracterizam a indústria automóvel no mundo e uma descrição do sector automóvel em Portugal. Apresenta-se, em seguida, um enquadramento teórico e empírico, em que se discutem os principais conceitos associados à qualidade O ponto 2 compreende a descrição da abordagem metodológica, incluindo a descrição da recolha de dados, o desenvolvimento de um modelo conceptual específico para análise da globalidade do problema (desenvolvido de acordo com as contribuições de diversos autores, descritas no enquadramento teórico e empírico, no ponto 1) e a descrição da metodologia de tratamento de dados. O ponto 3 compreende a componente de análise empírica, desde a caracterização dos dados até à sua análise, esta estruturada de acordo com os dois níveis de análise. O ponto 4 apresenta as conclusões estudo, incluindo algumas implicações em termos de política industrial e de qualidade, assim como algumas sugestões para trabalhos futuros. 1.2 Emergência da Qualidade Enquanto Factor Chave da Organização Industrial: O Caso da Indústria Automóvel Apresenta-se, neste ponto, uma breve perspectiva da evolução do enquadramento industrial, com foco na indústria automóvel. O objectivo é o de perceber a emergência da qualidade enquanto factor chave no sector automóvel, o que é feito através de uma sucinta revisão histórica da indústria automóvel através de fases tão importantes quanto a manufactura, a produção em massa e a produção lean. A organização industrial tem sofrido evidentes evoluções ao longo da história, determinando e sendo determinada pelo enquadramento socio-económico. Factores como os sistemas de transporte, as comunicações, o sistema financeiro ou as tecnologias de produção (Besanko et al., 1999) têm vindo a ditar o enquadramento base à organização das empresas na indústria e têm reflexos ao nível da sua organização interna. A indústria automóvel é um exemplo emblemático da evolução da organização industrial. 1.2.1 Manufactura - O Fabrico Artesanal do Automóvel A produção de automóveis no final do Séc. XIX era tipicamente desempenhada por artesãos e pouco mecanizada, com parte significativa das tarefas realizadas com ferramentas 4 Enquadramento Geral do Estudo manuais (Encyclopædia Britannica, 2001). As diferentes peças dos veículos eram produzidas de forma isolada por trabalhadores do fabricante ou por subcontratação de fornecedores. Em 2 qualquer dos casos, não se registava a existência de referências comuns que permitissem um controlo dimensional rigoroso e o posterior encaixe de todas as peças. O fabrico de cada peça incluía o seu projecto e cada fornecedor de peças tinha as suas especificações particulares, base do controlo dimensional das peças. A montagem do veículo envolvia assim um significativo trabalho de ajuste das peças pelo que, como resultado, seria de esperar que um novo veículo apresentasse diferenças dimensionais significativas em relação ao anterior. A qualidade dos produtos era assim de baixo nível, e a fiabilidade era diminuta. No entanto, tal não era uma preocupação para o mercado de então, caracterizado por clientes de elevado poder de compra. 1.2.2 Produção em Massa de Automóveis A experiência de Ford fica para a história como aquela que levou à adopção à escala mundial do conceito de produção em massa, que rapidamente floresceu nos Estados Unidos e na Europa. Como consequência, assistia-se assim a uma democratização do automóvel, proporcionada pela radical descida do seu preço. Seria, ademais, Henry Ford a promover a denominação do conceito como "Produção em Massa" 3 (Encyclopædia Britannica, 2001), que ficaria ainda conhecido como "Fordismo" ou como Sistema Americano de Fabrico American System of Manufacturing -, em virtude do pioneirismo das empresas americanas na sua adopção. Neste novo conceito, o planeamento e a gestão das actividades produtivas emergiram como fundamentais, sendo agora o volume de produção um factor determinante na produção em massa. Em paralelo com a redução de custo, a aplicação dos princípios da produção em massa conduziu a grandes evoluções em termos de uniformidade e qualidade. O grande volume de peças conduziu a uma maior facilidade na inspecção e controlo de peças e processos e, consequentemente, a um melhor desempenho em termos de planeamento e controlo da produção e da qualidade. A qualidade deixava de ser palavra vã e, como primeira medida, Ford realizou esforços no sentido de que todos os fabricantes de componentes utilizassem idênticos instrumentos de controlo dimensional - gauges (Womack et al., 1991). Os custos associados à não-qualidade depressa se tornaram evidentes para Ford, cuja insistência na "estandardização" dos instrumentos de medida provou ter elevados resultados ao nível da melhoria dos custos associados à montagem - como se viu, a montagem de automóveis na era da manufactura era dominada pelas operações de ajuste de peças, de que resultavam produtos finais de baixa qualidade e, consequentemente, de baixa fiabilidade. Ford foi pioneiro na introdução deste sistema de controlo da qualidade das peças, numa indústria até então pouco sensível à importância deste esforço. Por outro lado, Ford depressa se apercebeu da importância de um design simples das peças. Promovendo o 2 O uso de ferramentas como gauges - instrumento de referência para controlo dimensional - comuns só viria a ser implementado mais tarde (Womack et al., 1991). 3 O termo foi proposto por Ford em 1926, num artigo dedicado à Encyclopædia Britannica. 5 Enquadramento Geral do Estudo desenvolvimento de designs inovadores, reduzindo significativamente o número de peças componentes de peças mais agregadas, obteve resultados ao nível da fiabilidade e da facilidade de montagem, que se tornava um processo cada vez mais eficiente. A qualidade foi assumida como uma preocupação, dada a democratização do automóvel para clientes de menor poder de compra, susceptíveis a problemas de fiabilidade (Womack et al., 1991 e Encyclopædia Britannica, 2001). 1.2.3 Produção Lean: O Paradigma Japonês da Organização Industrial Toda a "estandardização" e interdependência de materiais, processos e tarefas associada à produção em massa teve como revés uma inflexibilidade evidente nas linhas de produção e uma deficiente capacidade de resposta a novas solicitações. Como consequência, a competitividade dos construtores norte-americanos e europeus, fieis a este conceito, decresceu rapidamente na década de 50. Durante este período, um novo sistema de 4 produção, denominado Lean Production , emergia no Japão. A origem do conceito lean é devida aos desenvolvimentos registados na Toyota, e assentou fundamentalmente na optimização de processos, como o desenvolvimento de sistemas de encaixe de ferramentas que permitissem a redução substancial do tempo de setup das máquinas ou a implementação da organização da produção em lotes mais pequenos (Womack et al., 1996). Assim, não só o inventário era muito mais reduzido face à produção em massa como também se permitia um mais rigoroso controlo de qualidade, sendo que os defeitos eram detectados de forma quase imediata e não se repercutiam em lotes imensos, o que reduzia drasticamente o desperdício. A organização do trabalho foi outro ponto chave considerado a fim de promover uma nova organização das operações da Toyota: esta implementou a organização do trabalho em equipas auto-geridas, com um responsável e não um capataz, que desempenhava um conjunto de tarefas e trabalhava lado a lado com os restantes. Realizavam, em conjunto, pequenas reparações e o controlo de qualidade. Mais tarde, foi implementada a realização de reuniões para o discussão de sugestões de melhoria - os chamados "Círculos de Qualidade" -, num processo de melhoria contínuo que ficaria conhecido como kaizen. 5 Surge a filosofia de Gestão pela Qualidade Total , fruto do cruzamento da experiência da Toyota com os ensinamentos de americanos como W. Deming, em que a qualidade assume uma dimensão horizontal a toda a actividade da empresa, e é função do envolvimento de todos os trabalhadores no seu melhoramento contínuo. O sistema de produção da Toyota permitiria, mais tarde, manter elevados níveis de competitividade no custo e, simultaneamente, responder a desejos diferenciados por parte do cliente, conjugando o domínio dos custos e da diferenciação, garantindo o respeito de rigorosos critérios de qualidade. Com algumas evoluções, este tem sido até hoje um modelo de sucesso na produção industrial. 4 5 Assim denominada pelo International Motor Vehicle Program do M.I.T. (Womack et al., 1991). A Gestão pela Qualidade Total será desenvolvida no ponto 1.5. 6 Enquadramento Geral do Estudo 1.3 A Indústria Automóvel no Mundo 1.3.1 Pressões Globais sobre a Indústria Automóvel A Indústria Automóvel global entrou num ponto de profunda mudança, motivado pela existência de fortes pressões internas e externas, a montante e a jusante, que têm não só vindo a determinar uma nova orgânica para a indústria como uma alteração das linhas base do conceito do produto. O consumidor é hoje um actor mais activo e consciente da importância do seu papel, apresentando um superior nível de expectativas, assim como novas e maiores exigências. Por outro lado, o enquadramento legal a que o automóvel é hoje sujeito é fortemente restritivo, nomeadamente no que respeita a atributos como a segurança (passiva e activa) ou o impacto ambiental do ciclo de vida do produto. Outros desafios se levantam, com, por um lado, a abertura de novos mercados à importação e ao investimento estrangeiro e, por outro, a extrema importância das questões associadas à produtividade, motivada palas cada vez mais reduzidas margens impostas pelos fabricantes "best-in-class" face a um mercado de exigência crescente em termos da qualidade percebida do produto. Figura 1: Pressões Globais sobre a Indústria Automóvel 1. CONSUMIDOR ?? Superiores expectativas ?? Maiores e novas exigências · Ambiente · Segurança · Conforto 2. SOBRE-CAPACIDADE 3. GLOBALIZAÇÃO 4. NOVOS ACTORES GLOBAIS ?? Europa de Leste ?? Coreia ?? China ?? América do Sul 5. PRESSÃO LEGAL ?? Segurança ?? Impacto Ambiental ?? Redução do consumo ?? Redução de peso ?? Combustíveis alternativos 6. O DESAFIO DA PRODUTIVIDADE Pressões Externas OEM Fornecedores de 1ª Linha Fornecedores de 2ª Linha Crescente capacidade negocial dos fornecedores. Capacidade de redução de custo; Responsabilização ao nível do desenvolvimento de sistemas e módulos; Redução do número de fornecedores, exigência do fornecimento global; Importância da gestão da cadeia de fornecimentos a montante. ? Capacidade para reduzir custos; Flexibilidade/capacidade de resposta; Responsabilização ao nível do desenvolvimento de componentes agregados; Redução do número de fornecedores, exigência do fornecimento global a fornecedores de 1ª linha. Pressões Internas Todas estas movimentações têm como pano de fundo o fenómeno de globalização da indústria. 1.3.2 A Globalização da Indústria Automóvel e as Estratégias dos OEM A globalização da indústria automóvel, não sendo uma característica recente, é uma tendência efectiva que tem vindo a levar a mudanças estratégicas de fundo nas empresas 7 Enquadramento Geral do Estudo 6 fabricantes – OEM – e na estrutura de fornecedores de componentes. Alguns aspectos chave das tendências actuais devem ser realçados (Veloso et al., 2000): ? ? A emergência do investimento na Europa de Leste, Índia e China. Estas regiões, outrora fechadas ao mercado externo, têm vindo a abrir as suas fronteiras à entrada de automóveis estrangeiros e, em particular, ao investimento.; ? ? O estabelecimento de bases de fornecimento local, motivadas pelo estabelecimento de taxas de incorporação local, que funcionam com restrições à importação de veículos e/ou de componentes; ? ? O fortalecimento de acordos de comércio regionais: UE, NAFTA, MERCOSUR, ASEAN. ? ? A produtividade. ? ? A sobre-capacidade. Os analistas estimam o excesso de capacidade em cerca de 40% da produção mundial. Na Europa, a capacidade instalada é de 22 milhões de veículos, mas a produção atingiu apenas os 16 milhões em 1998 (Mendonça, 1999 e Cooke, 1999b). ? ? A evolução de um mercado “manufacturer push” para um mercado “consumer pull”, em que o nível de exigências do cliente e a forte competição ente marcas e veículos ao seu dispor dita o seu protagonismo como actor principal do desenvolvimento do mercado. A organização das actividades dos OEM, fruto destas tendências, segue os seguintes vectores chave (Veloso et al., 2000): ? ? "Estandardização", através do desenvolvimento de plataformas comuns e da implementação de processos comuns; ? ? "Modularização". A atribuição de responsabilidades aos fornecedores no fornecimento de peças mais agregadas tem um duplo objectivo: reduzir os tempos de montagem, aumentando a produtividade e reduzindo os custos a ela associados e proporcionando aos fornecedores maior margem para exploração de inovações associadas ao fornecimento de componentes agregados; ? ? O foco dos OEM no topo da cadeia de valor da indústria. A par com o desafio da produtividade, os OEM têm vindo a concentrar os seus esforços nas fases de design e montagem das viaturas. Como consequência, os fornecedores têm vindo a acumular responsabilidades, o que tem levado ao crescimento da indústria de fornecedores, em particular pelo estabelecimento de grandes fornecedores de escala mundial. A indústria automóvel assume características oligopolistas, sendo dominada por um pequeno número de grandes empresas, numa tendência para a concentração que tem vindo a aumentar nos últimos anos. Segundo estatísticas da Organização Internacional de 6 A designação usualmente aceite para fabricante de automóveis é a de Original Equipment Manufacturer, fabricante de equipamento original. O termo será aplicado ao longo da dissertação. 8 Enquadramento Geral do Estudo Construtores de Automóveis - OICA -, em 1999 os vinte primeiros fabricantes da indústria aumentaram a sua quota e representaram perto de 95% da produção mundial (OICA, 2000). A PricewaterhouseCoopers estima que, num prazo de 5 a 10 anos, sete fabricantes dominarão a indústria (PWC, 2000). Em 1999, os dez maiores fabricantes concentraram, no seu conjunto, cerca de 80% da produção mundial (Automotive News Data Center, 2000). Considerando alianças estratégicas entretanto formadas, como os casos da DaimlerChrysler / Mitsubishi e da GM / FIAT, este número vê-se reduzido a oito grandes grupos. 1.3.3 A Evolução da Cadeia de Fornecimentos a) A Importância do Papel dos Fornecedores A análise dos factores acima apresentados permite traçar as linhas gerais da estrutura de fornecimentos do sector automóvel, de acordo com as suas tendências evolutivas. São analisados os aspectos relacionados com o crescimento da importância dos fornecedores, a reconfiguração da estrutura da cadeia de fornecimentos e as estratégias em desenvolvimento para responder aos cenários futuros. Em primeiro lugar, é importante destacar a crescente importância dos fornecedores na indústria (Veloso et al., 2000): ? ? Transferência de responsabilidades para os fornecedores por parte dos fabricantes, nomeadamente ao nível do design e engenharia, com a consequente emergência de autênticos fornecedores globais; ? ? Os fornecedores têm vindo a gerar a maior parte da criação de emprego em regiões como os EUA, o que tem vindo a gerar uma atenção particular por parte dos Estados; ? ? Os fornecedores são responsáveis pela maioria do investimento do sector, dada a sua crescente participação no processo de fabrico. b) Reorganização da Cadeia de Valor A estrutura da cadeia de fornecedores tem vindo a mostrar alguma evolução face à estrutura tradicional de fornecimentos de 1ª, 2ª e 3ª linhas. Actualmente, os fornecedores são cada vez mais caracterizados e distinguidos pelas suas funções e capacidades do que pela sua localização no fluxo de fornecimentos às empresas de montagem. Com base nos trabalhos do IMVP - International Motor Vehicle Program (Veloso et al., 2000) e do Automotive Consulting Group (2001): ? ? Integrador de Sistemas. Fornecedor capaz de integrar componentes e sistemas em módulos a fornecer directamente à linha de montagem; ? ? Fabricante de Sistemas. Fornecedor capaz de desempenhar tarefas de projecto, desenvolvimento e fabrico de sistemas complexos. Podem fornecer directamente os OEM ou de forma indirecta, através dos Integradores de Sistemas; 9 Enquadramento Geral do Estudo ? ? Fabricante Montador, especializado num determinado processo e com capacidade de montagem complementares. É usualmente responsável pelo projecto e teste do componente fabricado, mas não pelo projecto do pequeno módulo ou pelos restantes componentes que nele são integrados. Tipicamente, é um fornecedor indirecto; ? ? Fabricante de Componentes, usualmente especializado em determinado processo, como a estampagem ou a injecção de plásticos. Os seus clientes directos são outros fornecedores acima na hierarquia. ? ? Fornecedores de Matéria Prima e Fornecedores Especializados de Equipamentos e Ferramentas. Toda esta nova configuração tem levado a uma movimentação e reorganização na indústria, sendo que a PricewaterhoseCoopers (2000) estima que, num futuro próximo, não existirão mais de 30 mega-fornecedores à escala mundial, seguidos de perto de 800 fornecedores de 2ª linha. A delegação de responsabilidades nos fornecedores, acompanhada da forte pressão para a redução do seu número - motivada pela procura de uma maior eficiência nos fornecimentos e na gestão integrada da base de fornecedores -, é evidente e, como consequência, algumas das empresas fornecedoras tenderão a abandonar este sector, enquanto outras procurarão uma estratégia de evolução, baseada no melhoramento contínuo imposto pelo elevado nível de exigências inerentes à permanência no sector. Como resposta a este conjunto de pressões para a reorganização da estrutura de fornecimentos, os fornecedores existentes procuram um novo e mais seguro posicionamento, de acordo com três cenários possíveis (Veloso et al., 2000): ? ? Venda do negócio. A atractividade de um grande número de pequenos e médios fornecedores leva à procura da sua aquisição por parte das grandes empresas, como forma de consolidação da sua posição. Outra possibilidade é a integração de empresas com competências e capacidades complementares, trabalhando conjuntamente em alguns componentes. ? ? Subida na hierarquia. Das possibilidades de subida na hierarquia, as mais evidentes são a passagem do fabrico de componentes para o fabrico e montagem e deste último estado para o fabrico de sistemas. ? ? Consolidação da posição. Envolve uma procura constante do desenvolvimento dos produtos em termos de materiais, da capacidade de projecto e fabrico nas áreas de especialização da empresa. Envolve igualmente o desenvolvimento e implementação de uma estratégia competitiva baseada em decisões centradas nas dimensões críticas tempo, qualidade, flexibilidade e custo. Em particular, o posicionamento dos fornecedores parece hoje intimamente dependente do envolvimento nas actividades tendencialmente abandonadas pelos OEM, sendo que a capacidade de desenvolvimento e integração de componentes é um factor crítico de sucesso no médio prazo. O facto de que os OEM têm vindo a evoluir o desenvolvimento do produto final numa lógica de orientação para sistemas tem criado pressões na cadeia de fornecimentos, no sentido de um maior esforço de coordenação entre o relativamente 10 Enquadramento Geral do Estudo reduzido número de fabricantes ou integradores de sistemas e as suas bases de fornecimentos, nomeadamente em termos das actividades de desenvolvimento de produto. c) Factores Críticos de Desenvolvimento da Estrutura de Fornecedores A hierarquia de fornecimento apresentada é fruto da reordenação motivada por uma evolução de entre um posicionamento com base em atributos como a dimensão e um novo posicionamento baseado em competências chave ao nível do desenvolvimento, fabrico e montagem e em particular na capacidade de gestão da própria base de fornecimentos Figura 2. Figura 2: As Responsabilidades e Competências dos Fornecedores Responsabilidades "Build to Print" "Grey-Box" "Black -box" Posicionamento "Design-In" Integrador de Sistemas Fabricante de Sistemas Fabricante de Componentes Engenharia de fabrico Controlo de processos Controlo financeiro Análises e testes Desenv. de Protótipos Design Engenharia avançada Análises e testes Desenv. de Protótipos Design Gestão integrada da base de fornecimentos Engenharia de sistemas I&D Análises e testes Desenv. de Protótipos Design Engenharia de fabrico Controlo de processos Controlo financeiro Engenharia de fabrico Controlo de processos Controlo financeiro Engenharia de fabrico Controlo de processos Controlo financeiro Competências Fabricante Montador Valor Acrescentado da Actividade Adaptado de The Automotive Consulting Group O desenvolvimento de produto é um dos principais factores críticos de sucesso para o fornecedor, associado à gestão da cadeia de valor a montante. A capacidade de desenvolvimento de esforços conjuntos com outras empresas é igualmente de importância crucial: a engenharia simultânea é uma ferramenta crítica para a prossecução de objectivos em termos de custo, qualidade e timings. A redução do tempo associado ao desenvolvimento de um novo veículo é uma fonte de pressão para os fornecedores, sendo que, de um modo geral, todos os OEM trabalham no sentido de reduzir este tempo para um período de 24 meses até 2007 (Automotive World, 2001). Factores como a qualidade, o custo ou a capacidade de resposta a encomendas são, por outro lado, pressupostos de base para a realização de negócios. Com base num estudo empírico, o Automotive Consulting Group (2001) indica como prácticas de excelência dos fornecedores: 1. Gestão integrada da base de fornecimentos, com base na antecipação do envolvimento das partes; 2. Implementação de ferramentas de desenvolvimento conjunto com clientes e fornecedores; 11 Enquadramento Geral do Estudo 3. Implementação de prácticas associadas à Gestão pela Qualidade Total, nomeadamente a organização do trabalho em equipas multidisciplinares com participação de todas as partes e o empenho no melhoramento contínuo de processos e produtos; 4. Implementação de ferramentas e métodos de avaliação de projectos, assim como de avaliação do desempenho das equipas e dos indivíduos, atribuindo prémios de desempenho; 5. Desenvolvimento de produto numa lógica de “estandardização” e de desenvolvimento para plataformas. 1.4 A Indústria Automóvel em Portugal 1.4.1 Perspectiva Histórica da Indústria Automóvel em Portugal O desenvolvimento do sector automóvel em Portugal nas décadas recentes tem sido fortemente condicionado pela evolução das políticas industrial e comercial nacionais e pela instalação de unidades de montagem local. A dinamização desta indústria tem como marco o 7 ano de 1962, com a criação de um quadro legislativo (a Lei da Montagem ) que proibia a importação de unidades acabadas CBU (Completely Built Up) para além de uma quantidade mínima (75 unidades) estabelecida por marca e exigia que o valor acrescentado nacional fosse de pelo menos 25% nos automóveis montados localmente. Assim, impunha-se que a procura doméstica nacional fosse satisfeita com veículos montados localmente, não havendo restrições à importação de veículos CKD (Completely Knocked Down, i.e., veículos em kit para montar). Como resposta, em 1973, mais de duas dezenas de linhas de montagem produziam automóveis (ligeiros e comerciais) para um mercado nacional inferior a 100 000 novos veículos por ano (Féria, 1999). Os efeitos imediatos deste aumento foram uma procura fragmentada e direccionada para peças de reduzida complexidade tecnológica. Por outro 8 lado, a reduzida escala das unidades de montagem tornou-as pouco eficientes , uma 9 situação que também se estendia aos seus fornecedores . As pequenas quantidades produzidas 10 e as frequentes alterações nos modelos impediam as empresas fornecedoras de manterem uma operação rentável, produzindo apenas para as empresas que procedem à montagem. Como resultado, e com a excepção de poucas empresas que tinham por objectivo o mercado externo, os fornecedores limitavam-se a proceder a operações de montagem. Em 1980 surgiu nova regulamentação destinada ao sector automóvel, acompanhando os acordos comerciais da EFTA e CE assinados por Portugal, que requeriam a remoção das 7 Decreto-Lei nº 44778 de 17/12/1962, que obrigava à montagem de veículos de passageiros a partir de 30/06/1963 e comerciais após 31/12/1964. O Decreto-Lei nº 44104 de 20/12/1961, regulamentado pelo Decreto nº 45453 de 18/12/1963 estabelecia as condições para a importação de veículos. 8 Estima-se em 200 000 veículos por ano como alvo para um nível de produção que possibilite a pratica de economias de escala que permitam a competitividade de custos num âmbito mundial (Veloso et. al , 2000). 9 É importante compreender que as escalas de produção eficientes para a estampagem rondam as 500 000 unidades por ano, 250 000 para a maquinagem e 200 000 para a fundição (Veloso et. al , 2000). 10 Mesmo considerando as peças de substituição. 12 Enquadramento Geral do Estudo barreiras quase inultrapassáveis à importação de unidades acabadas. A nova política incluía restrições quantitativas à importação de unidades acabadas, assim como a possibilidade de exceder a quota de unidades acabadas através da exportação de peças e componentes produzidos em Portugal. Era complementada com incentivos ao Investimento Directo Estrangeiro. O projecto de investimento da Renault foi, sem dúvida, um dos mais importantes que se seguiram. Este incluía três linhas de produção, uma para automóveis ligeiros de passageiros, uma para motores, caixas de velocidades e bombas de água e uma fundição. O projecto Renault, apesar de se encontrar agora em fase terminal - a unidade de montagem foi desactivada em 1998, estando ainda activa a fábrica de caixas de velocidades -, é considerado uma etapa fundamental para o desenvolvimento da indústria nacional de componentes. Por um lado, permitiu o desenvolvimento de empresas que, pela primeira vez, forneceram componentes em condições de competitividade internacional e, por outro, permitiu a formação de inúmeros operários, quadros especializados e gestores que vieram a desempenhar importantes papéis no desenvolvimento da indústria de componentes ao passar da Renault para os fornecedores. O inicio do primeiro programa específico para o desenvolvimento da indústria portuguesa (PEDIP), em 1988, foi outro marco importante. Com o objectivo de fundo de acelerar processo de recuperação que Portugal estava a encetar na tentativa de se juntar aos seus parceiros europeus mais desenvolvidos, o programa incluía uma série de medidas que abrangiam áreas tais como a I&D, ajudas à exportação e apoio financeiro destinado às empresas já existentes, bem como fortes incentivos com vista ao estabelecimento de novas empresas estrangeiras. Embora não existissem sectores prioritários, o Governo Português considerou o estabelecimento de um importante OEM de montagem como uma oportunidade única para o desenvolvimento da indústria automóvel e para a globalidade da indústria nacional. Neste sentido, a “joint-venture” entre a Ford e a Volkswagen (AutoEuropa), é considerada como sendo um marco importante no processo português de industrialização. Este investimento atraiu 22 novas unidades estrangeiras, das quais onze se estabeleceram num parque nas imediações da fábrica de modo a permitir que as entregas sejam efectuadas num sistema Just-In-Time. Para além do impacto imediato, foram estabelecidos objectivos para resultados indirectos significativos, assentes na incorporação nacional. O tímido crescimento do sector registado até início da década de 1990 deu lugar a uma ampla e rápida expansão, estimulada pela instalação do projecto AutoEuropa. O investimento estrangeiro foi o principal motor deste desenvolvimento, com os investidores estrangeiros a tomarem uma posição dominante no sector. Os factores apontados como determinantes para a da atractividade do investimento foram o nível de crescimento da economia, aliados a uma mão-de-obra qualificada e eficiente em termos de custos, uma rede de infra-estruturas em desenvolvimento e a estabilidade política de que goza o país, aliada a todo um conjunto de condições financeiras e fiscais que tornam seguro o investimento em Portugal (ICEP, 2000). Em acréscimo, o aumento assinalável do mercado interno. 13 Enquadramento Geral do Estudo Dos projectos recentes de investimento estrangeiro no sector em Portugal destaca-se o projecto AutoEuropa, joint -venture entre a Ford Motor Co. e a Volkswagen AG. - entretanto abandonado pela Ford - para a produção de um veículo monovolume, representando 2.54 mil milhões de dólares. O Quadro 1 resume os principais investimentos estrangeiros no sector automóvel em Portugal entre 1988 e 1998. Quadro 1: Exemplos recentes de investimento em Portugal Empresa Data de investimento Actividade / Produtos AutoEuropa (Ford / VW) 1993 Unidade de Montagem Bertand Faure 1993 Assentos Bomoro (Bosch) 1994 Fechaduras Cablinal Setembro 1993 Cablagens Citroën n.d. Modernização Unidade de Montagem Cofap Europa Julho 1990 Segmentos Continental Mabor Junho 1990 Pneus e câmaras de ar Covina Janeiro 1990 Vidros Dalphi Metal Fevereiro 1993 Componentes para direcção Delphi n.d. Sistemas de Ignição Fico Cables Dezembro 1993 Cablagens Ford Electronic II Outubro 1995 Compressores de ar Ford/VW Julho 1991 Montagem veículos Hoheica Maio 1994 Espelhos retrovisores HUF Novembro 1992 Fechaduras Indelma Julho 1991 Cablagens Indelma Fevereiro 1994 Cablagens Iralusa Março 1994 Componentes para tecto Johnson Controls Dezembro 1992 Capas de assentos Jonhson Controls Dezembro 1994 Espumas para assentos Karmann Ghia Maio 1994 Capas de assentos Kupper e Schmidt Junho 1993 Peças em liga forjada Lear Corporation Março 1998 Interior / assentos Leonische 1991 Cablagens Opel Portugal Fevereiro 1996 Modernização Unidade de Montagem RSL Julho 1994 Peças plásticas Sommer Allibert Dezembro 1993 Peças plásticas UT Automotive Abril 1998 Cablagens Fonte: ICEP (2000) e Inteli (2000) Das doze unidades de montagem existentes no início da década, na sua maioria unidades de pequena dimensão Portugal conta actualmente com cinco unidades, após o encerramento da fábrica da Renault em Setúbal em 1998 (após redução drástica da produção em 1993), e da Ford Lusitana, em 2000 - Quadro 2. A produção de veículos em Portugal na década de 1990 fica marcada pelo impulso da produção da AutoEuropa, que, não obstante o encerramento de outras unidades, elevou o número veículos produzidos de cerca 140 000 em 1990 para mais de 250 000 em 1999 - Quadro 2. Quadro 2: Evolução da Montagem de Veículos em Portugal Ano 1991 1995 1997 1999 Número de unidades de montagem 12 9 7 6 Número de veículos produzidos 141 377 159 415 271 737 252 290 Número de veículos exportados 71 979 122 927 227 998 225 675 Número de veículos vendidos 298 139 271 701 322 035 407 577 2000 5 246 724 224 554 418 870 Fontes: AIMA (2001), ACAP (2001) 14 Enquadramento Geral do Estudo 1.4.2 Caracterização Actual da Indústria Automóvel em Portugal a) Montagem de Veículos O panorama de montagem de veículos em termos de unidades de montagem seguia, em 1999, a distribuição descrita no Quadro 3 e na Figura 3. Quadro 3: Montagem de veículos em Portugal em 1999 Ligeiros de Comerciais Comerciais Unidade de Montagem Passageiros Ligeiros Pesados VW (AutoEuropa) 137 225 GM (Opel Portugal) 13 813 40 193 234 PSA (Citroën Lusitânia) 35 958 Mitsubishi Trucks 7 152 3 584 Ford Lusitana 8 111 Salvador Caetano 5 370 650 Total 186 996 60 826 4 468 Total 137 225 54 240 35 958 10 736 8 111 6 020 252 290 Fonte: AIMA (2001) A produção da AutoEuropa foi de 137 225 unidades em 1998, revelando um decréscimo de 1.3% face a 1998 e uma taxa de ocupação de 77% da capacidade instalada, 180 000 veículos por ano. Representou, em 1999, 55% do total da produção de veículos em Portugal. Figura 3: Montagem de veículos em Portugal por Unidade de Montagem em 1999 22% AutoEuropa Opel Portugal 14% Citroën Lusitana Mitsubishi Trucks Ford Lusitana 55% 4% 3% 2% Salvador Caetano Fonte: AIMA (2001) b) Sector de Componentes O aumento do número de veículos produzidos e, em particular, a instalação da unidade de montagem AutoEuropa, teve impacto directo na expansão do sector de componentes, que viu a sua dimensão triplicar ao longo da década de 90 (Quadro 4), em conjunto com um também significativo aumento das exportações. No geral, é a seguinte a evolução registado no sector de componentes automóvel nacional nos anos mais recentes. Facturação Mercado Interno Exportação Quadro 4: Evolução do Sector de Componentes (1 000 000 c.) 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 226 284 350 410 445 484 629 66 68 75 85 87 100 215 160 216 275 325 358 384 414 1997 710 250 460 1998 736 271 465 1999 766 285 481 Fonte: AFIA (2000) Em termos globais, os principais mercados de exportação são os mercados da União Europeia, com a Alemanha, França, Espanha e Reino Unido a revelarem considerável importância. Em termos do fabrico de componentes, era a seguinte a distribuição da 15 Enquadramento Geral do Estudo importância dos principais mercados de exportação no ano de 1998, situação que se mantém aproximadamente actual. Figura 4: Principais Destinos de Exportação em 1998 Alemanha 28% França 6% 1% Suécia Holanda Itália Reino Unido Benelux 22% 24% Espanha EUA 2% 9% 3%1%4% Outros Fonte: AFIA (2000) O sector de fabrico de componentes para automóvel é composto de cerca de 180 11 empresas , com áreas de actividade desde a produção de motores ou peças para motores até ao fabrico de moldes e ferramentas. Na sua maioria, os fornecedores nacionais assumem um posicionamento nos níveis inferiores da cadeia de valor do fornecimento de componentes, sendo, tipicamente, “Fabricantes de Componentes” ou “Fabricantes Montadores” (Veloso et al., 2000 e Inteli, 2000). A análise da estrutura do mercado demonstra que o sector era, até 1998, dominado pela produção de peças para motores, transmissão e travões, produção de elementos para interiores e fabrico de componentes eléctricos. Quadro 5: Facturação por grupo de actividade (1 000 000 c.) Grupo de actividade 1992 1993 1994 1995 1996 Motores, Transmissões e Travões 84 108 117 127 151 Comp. Carroçaria, Suspensão, Chassis 23 34 37 40 70 Interiores 60 80 86 102 168 Componentes Eléctricos 88 101 110 114 148 Pneus 23 9 10 19 24 Autocarros, Basculantes, Carroçarias 61 63 68 68 53 Outros (Molde, Ferramentas, ...) 11 15 17 14 15 Total 350 410 445 484 629 1997 168 77 190 175 27 57 16 710 1998 174 80 197 181 28 59 17 736 Fonte: AFIA (2000) A importância da produção de motores provém da actividade da Renault, encetada na década de 80 que representava, até 1997, cerca de um terço deste grupo de actividade. É o grupo de actividade com maior importância, seguido dos componentes eléctricos que, por sua vez, representam a maior fatia de exportações. Em termos globais, o sector de componentes tem mostrado um crescimento instável, devendo ser realçado o facto de que o crescimento em 1998 face a 1997 foi o mais baixo desde 1993, situando-se nos 3.7%, após um pico de crescimento em 1996, atingindo o valor de 30%. As actividades que têm demonstrado maior crescimento são o fabrico de interiores e de componentes para carroçaria, suspensão e chassis. 11 De acordo com dados da AFIA. 16 Enquadramento Geral do Estudo Assumindo a amostra de empresas analisada no âmbito do estudo de Veloso et al. (2000) como representativa da realidade nacional, verifica-se que a maioria das empresas fornece equipamento ao nível da primeira linha, embora uma parte substancial forneça em segunda e terceira linhas. Por outro lado, a grande parte da produção é orientada para primeiro 12 13 equipamento , em detrimento do equipamento de substituição . Figura 5: Estrutura da Cadeia de Fornecimento (Veloso et. al ,2000) 70% 100% 90% 60% 80% 50% 70% 40% 60% 50% 30% 40% 20% 30% 20% 10% 10% 0% 0% 1ª Linha A indústria de 2ª Linha componentes 1º Equip 3ª Linha nacional encontra-se concentrada Reposição na orla costeira, essencialmente entre Setúbal e a zona de Braga, sendo as principais zonas de concentração as zonas do Porto, de Lisboa e a Península de Setúbal. 1.4.3 A Importância do Sector Automóvel na Economia Portuguesa O sector automóvel tem vindo a assumir uma importância crescente na economia portuguesa. Tomando como referência o ano de 1999, a indústria automóvel constituía-se como o sector o líder nas exportações tendo representado, em conjunto, cerca de 25% do total de exportações no mesmo ano, 10% dos quais devidos à exportação de componentes (AFIA, INE). Segundo dados da AFIA, o emprego associado a este sector representava, em 1997, cerca de 4% da população activa, sendo que, de acordo com dados do Ministério do Trabalho, representa actualmente cerca de 4.2% do emprego na indústria. Os fluxos de investimento estrangeiro associados à indústria automóvel estiveram, em 1996 (um ano após o arranque da AutoEuropa), entre os maiores de toda a indústria transformadora, segundo dados do Banco de Portugal (1998). Quadro 6: A Importância da Indústria Automóvel na Economia Portuguesa Categoria Valor Proporção do Total Emprego - Componentes (1999) 37 000 pessoas 4.2 % * Investimento Directo Estrangeiro (1996) 178 158 milhões c. 18 % * Exportação (1999) Componentes 481 milhões c. 10 % Veículos 681 milhões c. 15 % Total 1 162 milhões c. 25 % Peso no PIB - Componentes e Montagem (1999) 6.8 % Fontes: Inteli (2000); * face a total da indústria transformadora 12 Equipamento a integrar em viaturas novas na linha de montagem. Usualmente designado de equipamento de after-market, destinado a substituição aquando da manutenção ou reparação do veículo. 13 17 Enquadramento Geral do Estudo 1.4.4 As Estratégias dos OEM e suas Implicações na Indústria Automóvel em Portugal O desenvolvimento da Indústria Automóvel em Portugal é largamente influenciada pelas estratégias dos OEM. No decurso do estudo "Estratégias Globais para o Desenvolvimento do Sector de Componentes para Automóvel em Portugal", foram estudadas as suas perspectivas no que respeita aos seus cenários de evolução. Como critérios de escolha de fornecedores para fornecimento directo foram apontados os seguintes factores (Veloso et al., 2000): ?? Desempenho em termos de qualidade e custo; ?? Capacidade em termos de I&D; 14 ?? Posição geográfica, face ao centro de desenvolvimento do sector na Europa (Paris , 15 Wolfsburg ,...); ?? Posição geográfica, face a custos de logística, para determinados produtos. 1.4.5 A Qualidade como Factor de Competitividade na Indústria de Componentes para Automóvel em Portugal A Qualidade e a Competitividade das Empresas Historicamente, as fontes de competitividade de uma nação ou de um sector industrial assentavam nas capacidades ao nível da mão-de-obra e no acesso a matérias primas e a capital. Portugal não foi excepção, e a história relativamente recente revela que foi no comparativamente reduzido custo de mão-de-obra ou nos recursos naturais (de que é exemplo o caso da indústria da cortiça) que assentou o sucesso das indústrias exportadoras nacionais (GEP/MIE, 1995). A prosperidade do pós-guerra veio abrir espaço a um novo paradigma da economia: as segunda metade do Séc. XX fica marcada pela reorganização do espaço mundo em termos económicos, com a economia a assumir uma dimensão tendencialmente global, derrubando barreiras culturais e geográficas. Porter (GEP/MIE, 1995), no âmbito do Projecto Porter, patrocinado pelo Ministério da Economia no início da década de 90, revelava a importância de novas forças na economia internacional, a saber: ? ? A globalização, como fenómeno de abertura e aproximação das economias dos países e regiões. O facto é que, hoje em dia, o impacto desta evolução na facilidade ao nível das trocas comerciais e financeiras, é cada vez mais difícil a afirmação nos mercados pela disponibilidade de mão-de-obra barata ou de recursos naturais: é, por outro lado, fácil o acesso a novas regiões caracterizadas por salários ainda mais baixos e/ou matérias primas baratas; 14 15 O caso da Renault. O caso da Volkswagen. 18 Enquadramento Geral do Estudo ? ? O domínio tecnológico de produtos e processos. Ao nível da empresa, Porter (1985) refere que a inovação e a valorização contínua da empresa, como forma de, com base na gestão das tecnologias, responder com eficiência e eficácia às solicitações e oportunidades de uma envolvente global, são pois a base do seu êxito competitivo. No caso da indústria portuguesa, poderão mesmo ser a única forma de acompanhar a tendência de convergência de salários com a média europeia. No mesmo sentido, a OCDE (1992) refere que o sucesso da posição competitiva requer a qualidade dos produtos, melhores processos tecnológicos e superior organização da produção e capacidade de realizar entregas rápidas, garantindo a qualidade no após-venda. No enquadramento de uma economia globalizada, "a competitividade das empresas industriais evoluiu de uma base centrada nos preços para a capacidade de gerir recursos estratégicos, com ênfase no intangível, de modo a gerar inovações de produto, capacidades produtivas flexíveis e de elevada qualidade e novos meios de marketing dos produtos" (OCDE, 1998). Juran e Gryna (1991) descrevem a importância estratégica da qualidade, considerando-a como "[…] um elemento crucial para o comércio internacional, para a capacidade de defesa, para a segurança e saúde humanas e para a protecção do meio ambiente". Em resumo, pode assim assumir-se que a competitividade da empresa emerge da capacidade de gerir as tecnologias, competências e know-hows existentes, no sentido de promover a produção, de forma eficaz e eficiente, de produtos de qualidade que correspondam às necessidades do mercado. De um modo geral, as empresas portuguesas assumem este facto. Simões (1997), num estudo sobre inovação em PME 16 industriais nacionais, verificava, a propósito da qualidade, que "a existência de uma filosofia de qualidade partilhada no seio da empresa é considerada como um factor relevante de vantagem competitiva". A Importância Estratégica da Qualidade na Indústria de Componentes para Automóvel em Portugal No âmbito da indústria de componentes para automóvel em Portugal, as empresas demonstram consciência dos desafios colocados pelo seu posicionamento, assumindo como factores estratégicos mais importantes preço, qualidade e prazos, o que corrobora a argumentação desenvolvida em 1.5.1c). Analisando a média da opinião das empresas em relação aos seus factores estratégicos de desenvolvimento, a qualidade e a fiabilidade das entregas surgem como os mais importantes. É evidente o crescimento da importância da qualidade e da capacidade de resposta em detrimento do preço nos últimos três anos para as empresas das amostra. Saliente-se ainda a relativamente reduzida importância atribuída a factores associados à capacidade de desenvolvimento, traduzidos nos items "amplitude da gama de produtos", "especificações únicas do produto" e "introdução rápida de produtos". 16 São designadas como PME - Pequenas e Médias Empresas - as empresas até 500 trabalhadores. 19 Enquadramento Geral do Estudo Figura 6: Factores de Posicionamento Estratégico das Empresas Qualidade Fiabilidade das entregas Rapidez de entrega Preço mais baixo Qualidade da matéria prima Garantir, com rapidez, a quantidade desejada Proximidade geográfica Especificações únicas do produto Introdução rápida de produtos Há 3 anos Actual Amplitude da gama de produtos 1 2 3 4 5 1 (nada importante) - 5 (muito importante) Na opinião das empresas, a qualidade é um dos seus pontos fortes, sendo mesmo destacado em relação aos restantes pontos enunciados na Figura 7. Uma análise conjunta destes dados com os evidenciados na figura anterior poderia levar a crer que as empresas têm registado um esforço de melhoria do seu desempenho em termos de qualidade, do qual fazem uma avaliação positiva. Analisando estes factos à luz da evolução registada nos indicadores de desempenho na qualidade nos últimos anos - ver Figura 27, no ponto 3.1.2 -, verifica-se que, de algum modo, esta avaliação poderá ser fundamentada. No entanto, estão ainda substancialemnte acima dos valores de referência. Figura 7: Pontos Fortes e Fracos das Empresas Flexibilidade nas encomendas Qualidade Custos de fabrico Qualificação dos recursos humanos Domínio tecnológico Capacidade de desenvolvimento 1 2 3 4 5 1-muito fraco 5-muito forte O recurso a processos de certificação espelha o esforço das empresas em melhorar o seu desempenho ao nível da qualidade, com um crescimento expressivo nos últimos anos. Como referência, note-se que, entre as empresas da amostra, registaram-se 28 certificações em 17 1998 . 17 Note-se que é comum que as empresas acumulem certificações de diferentes organismos ou segundo diferentes normas. Como exemplo, refira-se que a certificação QS 9000 pressupõe uma certificação prévia segundo as normas ISO 9000. 20 Enquadramento Geral do Estudo Figura 8: Evolução dos Processos de Certificação 30 25 20 15 10 5 0 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 Este indicador evidencia, no entanto, o facto de que a certificação é um processo relativamente recente na maioria das empresas, sendo evidente o crescimento do número de certificações registado após o ano de 1994. Uma explicação para este aumento algo repentino do número de certificações poderá estar associado à presença da AutoEuropa que se pode apontará apontar como um factor motivador da sensibilização das empresas para a qualidade nos anos mais recentes. A importância da qualidade é bem evidenciada pelo desenvolvimento do processo de escolha de fornecedores para a AutoEuropa, registado no início da 1990. A qualidade foi um dos factores críticos considerados pelos dois envolvidos na joint -venture, a Ford e a VW, para a escolha dos seus fornecedores, sendo que o trabalho de levantamento da oferta nacional em termos de fabrico de componentes foi iniciado pela distribuição pelos potenciais fornecedores do questionário Q 101 da Ford, igualmente adoptado para o efeito pela VW (Féria, 1999), o que permitiu realizar a primeira triagem de empresas. Este facto alertou as empresas para a importância da qualidade: em Julho de 1991, apenas 4 empresas detinham a qualificação Q1 e nenhuma detinha a certificação da VW; dois anos depois, mais de vinte empresas detinham a certificação Q1, número que se alargaria a cerca de 50 empresas – representando cerca de um terço do total de empresas - aquando do arranque da unidade de montagem, em 1995 (Féria, 1999). Uma observação do perfil actual de certificações da amostra mostra uma importância não muito evidente da certificação Q1, o que se poderá dever à não renovação desta certificação por parte das empresas, decorrente do abandono por parte da Ford do consórcio AutoEuropa e da unidade de montagem da Azambuja. Ainda assim, é significativa a proporção de empresas com esta certificação, denotando-se adicionalmente uma preocupação com a certificação da fase de desenvolvimento de produto - incluída pelas normas ISO9001, Q1 e QS 9000 (Pearch e McRoberts, 2000, Bramorski et al., 2000 e Ford Motor Co., 2001) -, o que indica que apenas uma parte das empresas - cerca de 25%, a avaliar pela norma ISO 9001 tem procedimentos integrados de qualidade que abrangem toda a actividade da empresa. 21 Enquadramento Geral do Estudo Figura 9: Perfil de Certificação das Empresas ISO 9001 ISO 9002 ISO 9003 QS 9000 Q1 Outras 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% % Empresas Torna-se assim evidente a importância estratégica da qualidade na empresa. Este dado é reforçado pelo facto de que o cenário actual da indústria automóvel tem vindo a exigir aos fornecedores uma resposta à crescente pressão para o envolvimento em actividades ao nível do desenvolvimento de produto, exigindo a certificação desta função em integração com a actividade global da empresa. O número de certificações específicas de clientes, Q1 e QS 9000, para além de outras (é comum a certificação da Renault e do Grupo PSA), é prova deste facto. Os sucessivos estudos do MIT (Womack et al., 1991, Womack et al., 1996, Veloso et al., 2000) sugerem o facto de que a qualidade é um factor crítico de competitividade na indústria automóvel, percursora que foi esta indústria nos movimentos evolução da filosofia de organização da actividade produtiva, conforme argumentado no Ponto 1.2. De acordo como Veloso et al. (2000) e Féria (1999), a qualidade é um dos critérios de escolha de fornecedores por parte dos OEM. 1.5 Enquadramento Teórico e Empírico Pretende-se, neste ponto, desenvolver um enquadramento teórico e empírico para a questão da qualidade na empresa. Para tal, são em primeiro lugar definidos um conjunto de aspectos de carácter teórico que permitem compreender a evolução do movimento da qualidade, através da sua perspectiva histórica, assim como o conceito teórico de qualidade e as suas dimensões críticas. Em segundo lugar, é apresentada uma revisão bibliográfica de estudos sobre a qualidade na empresa. 1.5.1 Qualidade: Perspectiva Histórica, Conceito e Dimensões Críticas a) Perspectiva Histórica A qualidade foi desde sempre uma preocupação da indústria. Era esta uma das principais preocupações de Ford quando derivou a Produção em Massa do Taylorismo, numa óptica de produzir um veículo acessível e fiável, com uma relação qualidade/preço extraordinariamente favorável para o mercado de então. No entanto, como se viu no Ponto 1.2, o Taylorismo ou o 22 Enquadramento Geral do Estudo consequente Fordismo punham a tónica na performance da máquina - o homem era uma extensão da máquina - e na produtividade da mão-de-obra, reduzindo o homem a um papel passivo. O movimento pela qualidade total é um feito do Século XX, datando os primeiros desenvolvimentos no que respeita à qualidade total na empresa dos anos 1920. Nos Estados Unidos da América, a Bell Telephone desenvolveu, através dos esforços de Sheward, métodos estatísticos de controlo por amostragem - controlo estatístico da qualidade -, associados ao domínio estatístico dos processos de fabrico - controlo estatístico de processo. Em 1924, Sheward desenvolvia a primeira carta de controlo e, alguns anos mais tarde, em 1931, publicava o primeiro livro no mundo sobre controlo de qualidade (Morrison, 1994). A utilização destes conceitos pelos americanos na 2ª Grande Guerra conduziu à sua expansão na indústria ocidental e em particular no Japão. Sheward, Deming, Juran, ou Feigenbaum estão entre os nomes que desenvolveram a aplicação do conceito nos Estados Unidos da América - onde se criou, em 1946 a Sociedade Americana para o controlo de Qualidade (American Society for Quality Control - ASQC) - e o levaram mais tarde ao Japão (Morrison, 1994). A partir dos seus ensinamentos - são particularmente importantes os passos de Deming e Juran -, a União Japonesa de Cientistas e Engenheiros - JUSE 18 - tomou e desenvolveu os conceitos na indústria japonesa, com o apoio de percursores como Ishikawa ou Taguchi. A Toyota, com a sua capacidade de gestão de operações consubstanciada na Produção Lean, foi a primeira empresa a adoptar o conceito de qualidade total (Womack e Jones, 1996), arrastando toda a indústria japonesa para um patamar de eficácia que originou o posicionamento que detém actualmente à escala mundial. O florescimento espontâneo da indústria japonesa a partir dos anos 1950 captou a atenção do mundo ocidental, que 19 20 descobriu, de forma algo confusa, o Just-In-Time, os sistemas Kanban e Poka-Yoke e vários outros instrumentos associados à Gestão pela Qualidade Total. De um modo geral, a transposição transcontinental destes métodos teve um relativo sucesso. No entanto, numerosos casos foram decepcionantes, tendo um determinante comum: o deficiente cruzamento entre a técnica e a cultura da empresa (Jocou. e Lucas, 1992). A globalização dos métodos da Toyota, arrastando as prácticas da produção lean à indústria em geral, foi o elemento mobilizador da assunção da qualidade como elemento integrador da estratégia da empresa (Womack e Jones, 1996). A Gestão pela Qualidade Total implica a aplicação de todos os princípios de gestão pela qualidade a todos os elementos da actividade das organizações, incluindo clientes e fornecedores. A qualidade alarga assim o seu conceito do plano operacional ao plano estratégico: a Gestão pela Qualidade Total é uma forma de gerir e promover a eficácia, flexibilidade e competitividade do negócio como um todo; é, igualmente, um método para a 18 Japonese Union of Scientists and Engineers. A palavra japonesa "kanban " significa "etiqueta" e deu o nome a um sistema de gestão da produção em que as ordens de fabrico são dadas de jusante para montante através de etiquetas recicláveis. Cada uma contém todas as informações que permitem definir um produto num determinado estádio de transformação. 20 "Poka-Yoke" deriva da palavra "corrimão" e designa um conjunto de instrumentos simples concebidos para a eliminação de erros. 19 23 Enquadramento Geral do Estudo redução de desperdício, envolvendo todos na melhoria da forma como a actividade é desempenhada (Ho e Fung, 1994). Por outro lado, como referem Goh e Ridgway (1994), "a Gestão pela Qualidade Total ensina o facto de que o cliente é o factor mais importante numa organização. Sugere, por outro lado, que a chave para a sobrevivência nos mercados altamente competitivos de hoje é o conhecimento das reais necessidades dos clientes, que devem ser asseguradas ao menor custo possível". Os estudos de Crosby, Deming, Feigenbaum e Juran são a referência para a definição da filosofia da Gestão pela Qualidade Total, mas o conceito, assim como as prácticas a ele associadas ficam marcados pelo trabalho de numerosos investigadores. A figura seguinte ilustra a evolução dos percursores da qualidade no Século XX, que a conduziram aos dias de hoje. Figura 10: Os Percursores da Qualidade Antes da 1ª Guerra Mundial Frederic Taylor 1920 1930 2ª Guerra Mundial 1950 1960 1970 Yoichi Ueno Toyota Motors Bell Telephone Yoichi Ueno Walter Sheward Joseph M. Juran Japanese Union of Scientists & Engineers Kaoru Ishikawa W. Edwards Deming ASQC General Electric A. V. Feigenbaum Larry Miles Movimento Japonês da qualidade 1980 Genichi Taguchi Ichiro Ueno Philip B. Crosby Renascimento da qualidade ocidental Fonte: Wood, Robert C., "The prophets of Quality", The Quality Review, Fall 1998, The American Society for Quality Control, in Jocou, P. e Lucas, F. (1992) Philip Crosby dedicou especial ênfase à qualidade como elemento de redução de custos e aumento de lucros. Com o seu "Programa de Melhoria da Qualidade em 14 Passos" (Crosby, 1979), defi nia os pontos chave de evolução da empresas a caminho da Qualidade Total. Dada o ênfase na redução de custos e no aumento de lucros, Crosby é reconhecido como um dos principais motivadores dos gestores para a Gestão pela Qualidade Total. A tese de W. Edwards Deming é que a qualidade melhora a produtividade e a posição competitiva. A abordagem de Deming à qualidade é essencialmente estatística (Dale, 1994), ao ponto de relevar a importância da formação de todos os trabalhadores em métodos estatísticos de qualidade. A sua filosofia está patente nos seus "14 Pontos" de gestão pela qualidade, onde enfatiza o facto de que a gestão pela qualidade e o melhoramento contínuo são responsabilidade de todos os trabalhadores, devendo a gestão de topo envolver-se no processo a todos os níveis. Deming representa o progresso contínuo por uma roda (Deming, 1986). Nela, pode observar-se a evolução perpétua, ciclo após ciclo, dos procedimentos subjacentes à qualidade total segundo o autor: planear a acção (plan), realizá-la (do), avaliar os resultados (check) e agir em conformidade (action). 24 Enquadramento Geral do Estudo Figura 11: A Roda de Deming A P C D A qualidade é um processo pensado e repensado segundo uma sucessão de ciclos que se iniciam na pesquisa de mercado, passando pela concepção, pela produção e terminando nas vendas, após o que se inicia novo ciclo. O ciclo de Deming (1986), apresentado na Figura 12, sugere que a empresa deve estar sempre atenta às necessidades dos consumidores, antecipando as suas necessidades e, se possível, agindo de forma pró-activa, induzindo novos atributos que se mais tarde se constituam como necessidades do mercado. Figura 12: O Ciclo de Deming design (redesign) pesquisa de mercado produção venda Para Armand Feigenbaum (1983), a qualidade é uma forma de gerir uma organização, sendo que melhorias significativas ao nível da qualidade só podem emergir do envolvimento de todos os trabalhadores. O corpo de gestão desempenha um papel importante na liderança do processo, que deve assentar em medidas claras de gestão da actividade orientadas para o cliente. Feigenbaum (1983), cujos estudos são reconhecidos pela introdução da consideração isolada dos custos de qualidade, deixa as seguintes orientações para a gestão: o processo de melhoria da qualidade deve ser continuamente reforçado; deve assegurar-se que a melhoria da qualidade se torne num hábito; qualidade e custos devem ser geridos como dois objectivos complementares. A Juran devem-se os maiores contributos para a literatura sobre Gestão pela Qualidade Total. A tese de Juran, ao contrário de Deming, e alinhando com Crosby e Feigenbaum, assenta na importância da redução dos custos de qualidade nas empresas. O seu método fica claro nos seus "10 Pontos" (Juran, 1992). De modo geral, as teses destes quatro autores de referência podem ser consideradas como complementares, diferindo fundamentalmente no foco de análise. Enquanto Crosby foca a motivação de toda a empresa, o foco de Deming é no controlo estatístico dos processos, o de Feigenbaum na gestão dos sistemas associados à actividade e a tese de Juran assume um foco mais apertado, ao nível da gestão dos projectos (Dale et al., 1994). Uma análise abrangente das teorias subjacentes à qualidade deve considerar as filosofias de gestão japonesas, desenvolvidas com base nos ensinamentos dos autores supra citados, em particular de Deming e Juran. De entre os autores japoneses, são particularmente importantes os trabalhos de Ishikawa e Taguchi, sendo que os deste último são os mais conhecido no mundo ocidental (Dale et al., 25 Enquadramento Geral do Estudo 1994). As prácticas associadas à qualidade total na indústria japonesa são usualmente designadas por "Controlo Total da Qualidade" e apresentam alguns conceitos de base em comum com a Gestão pela Qualidade Total, como o envolvimento e empenho de todos os colaboradores no melhoramento total e contínuo da empresa. O uso de prácticas associadas à prevenção e ao controlo, a filosofia do Just-In-Time, os círculos de qualidade, os esquemas de sugestões e o envolvimento estreito com fornecedores são exemplos dos contributos japoneses para a gestão da qualidade e são hoje ferramentas de adopção corrente no mundo ocidental. b) Conceito Segundo as normas ISO, pode definir-se qualidade como "a totalidade de características de um produto que lhe conferem aptidão para satisfazer necessidades implícitas ou explícitas". (BS.4778: Part 1, 1987; ISO 8402, 1986). A definição deriva dos trabalhos de Juran, que define qualidade como "aptidão para o uso", acentuando a confiança que um produto ou serviço devem merecer dos seus utilizadores (Juran, 1991). O resultado dos trabalhos de Crosby é igualmente evidente na definição adoptada internacionalmente: para Crosby, qualidade significa "conformidade com os padrões estabelecidos" (Dale, 1994). É esta a abordagem que se privilegia na definição da dimensão chave de análise, desempenho na qualidade, associada à importância do valor atribuído pelo cliente aos produtos, que, de um modo geral, assenta na forma como estes correspondem às suas necessidades e desejos, e que se traduz em indicadores qualitativos como as taxas de defeitos (interna e externa), a taxa de sucata ou o rework (McKinsey, 1994 e Veloso et. al, 2000). Por outro lado, a qualidade adopta uma definição mais lata, enquanto associada à Gestão pela Qualidade Total (Womack e Jones, 1996, Dale, 1994, Deming, 1986, Ho e Fung, 1994), assumindo um posicionamento horizontal na organização. Interessa pois definir dois conceitos fundamentais, conforme usados na dissertação: ?? “Qualidade”, enquanto elemento agregador da activi dade da empresa, de acordo com a filosofia da “Gestão pela Qualidade Total”; ?? “Desempenho na qualidade”, enquanto perspectiva externa da qualidade, medido em função de indicadores como as taxas de defeitos (interna e externa), a taxa de sucata ou o rework . c) Dimensões Críticas Sendo evidente a relação entre o conceito de qualidade e o valor atribuído ao produto, interessa compreender este último: o valor do produto é função de um conjunto de atributos chave. Tipicamente, podem são consideradas três dimensões de atributos do produto (Anupindi et al., 1998; Jocou e Lucas 1992): 26 Enquadramento Geral do Estudo 1. Custo, sendo o custo em que o cliente incorre pelo uso do produto. Inclui o seu preço e os custos de utilização durante o seu ciclo de vida; 2. Prazos de Entrega e de Correspondência às Necessidades, traduzindo, por um lado, o tempo que o cliente espera pelo seu produto e, por outro, o tempo durante o qual o produto corresponde satisfatoriamente às suas necessidades; 3. Qualidade. Em geral, as empresas concorrem segundo estes três atributos - custo, qualidade e prazos -, o que é verdade para todo o tipo de empresas (Ho e Fung, 1994). O valor do produto - e, portanto, do resultado da actividade da empresa - resulta da ponderação destes atributos, de acordo com o peso relativo atribuído a cada um por parte do cliente. A importância da qualidade é hoje determinante, tendo vindo a crescer ao longo da evolução do enquadramento industrial: a Figura 13 ilustra a evolução da gestão do triângulo qualidadecusto-prazo na indústria nos anos recentes. Figura 13: Dimensões do Valor do Produto Qualidade Custo Qualidade Prazo Custo A Qualidade Prazo B Custo Prazo C Adaptado de Joucou e Lucas (1992) Em A pode observar-se a situação típica das empresas vigente durante anos, em que a pressão do mercado incide principalmente no custo e no cumprimento de prazos. O cliente procura a melhor relação qualidade/preço, o que leva a empresa a efectuar esforços na qualidade em função do ajuste desta relação à solicitação por parte do mercado. Numa segunda fase B, mais recente, o mercado evoluiu para a colocação de maior pressão sobre a qualidade. A qualidade tornou-se uma exigência, um pré-requisito para a permanência no mercado, a que a empresa respondia usando o custo e os prazos como variáveis de ajustamento, numa altura em que a relação entre os três factores era ainda algo difusa. Actualmente (C), as empresas trabalham no sentido de dominar em conjunto os três vértices do triângulo. Conscientes da interacção e interdependência entre qualidade, custo e prazo, levam a qualidade a todas as actividades e processos da empresa, segundo uma abordagem global. Existem assim duas perspectivas de qualidade (Anupindi et al., 1998; Jocou e Lucas, 1992): ? ? Na perspectiva do cliente, a qualidade depende de critérios de cariz essencialmente objectivo como as funções do produto (o que faz), o seu desempenho (quão bem o faz), da fiabilidade (a consistência como o faz ao longo do tempo), e critérios mais subjectivos como a estética ou a correspondência às suas expectativas específicas; ? ? Na perspectiva da empresa, a qualidade assume uma dimensão global à actividade, constituindo como uma filosofia de rendibilização, eliminando o desperdício, optimizando recursos e originando satisfação no cliente. 27 Enquadramento Geral do Estudo Ambas as perspectivas estão associadas e integradas numa mobilização da organização para o melhoramento de produtos e processos, garantindo o seu crescimento de forma sustentada. Esta mobilização é a Gestão pela Qualidade Total que, como argumenta Tan (1997), assegura a integração destas abordagens e vertentes (cliente-fornecedor e produtoprocesso), ao promover o foco da organização no seu "produto" - usando, neste caso, uma definição lata de "produto", correspondente ao ponto focal da visão da organização, de acordo com os requisitos chave da gestão, dos colaboradores e, fundamentalmente, dos clientes (Tan, 1997). Nesta perspectiva alargada da qualidade, facilmente se aceita que esta é um factor determinante da competitividade das empresas. "A Gestão pela Qualidade Total actua nas empresas como um elemento que induz a motivação, a liderança e a criatividade, factores vitais para a produtividade, a eficiência, o lucro e a qualidade do trabalho nas organizações", refere Tan (1997). Dale et al. (1994), com base num conjunto de trabalhos de trabalhos de referência subjacentes a diferentes filosofias com conceitos e prácticas em comum, indicam como elementos chave da Gestão pela Qualidade Total: ?? Empenho e liderança da direcção geral, sem os quais nada acontecerá; ?? Organização e planeamento, a todos os níveis da empresa, com base numa estratégia de longo de prazo de Gestão pela Qualidade Total; ?? Uso de ferramentas e técnicas de suporte ao processo de melhoria contínua; ?? Formação e qualificação dos recursos de forma a que possam assimilar os conceitos de gestão pela qualidade e possam ajustar as suas capacidades e competências ao processo de melhoramento contínuo da organização; ?? Envolvimento de todas as pessoas, encorajando a participação na gestão e melhoria dos processos contidos dentro da sua esfera de competências; ?? Trabalho de equipa; ?? Monitorização e feed-back . A medição do resultado da actividade - nos planos interno e externo à empresa - deve assumir um carácter contínuo e resultar em acções de melhoria; ?? Mudança de cultura, criando um clima organizacional favorável ao melhoramento contínuo, em que todos possam participar. Esta é uma das facetas mais difíceis da Gestão pela Qualidade Total ?? Relação com clientes e fornecedores. Grandzol e Gershon (1998), sistematizando um vasto conjunto de estudos relacionados com a Gestão pela Qualidade Total, assim como diferentes abordagens à questão, identificam como principais elementos da GQT: liderança; gestão dos processos; melhoramento contínuo; realização dos empregados; foco no consumidor; aprendizagem; cooperação interna e externa. Como indicadores de output, sistematizam os resultados dos diversos 28 Enquadramento Geral do Estudo trabalhos em: qualidade do produto/serviço; resultados financeiros; resultados operacionais; satisfação do cliente; satisfação dos empregados. O Balridge National Quality Award (2001) organiza os valores e conceitos chave para a excelência no desempenho global da empresa em sete níveis: ilderança; planeamento estratégico; foco no cliente e no mercado; informação e análise; foco nos recursos humanos; gestão de processos; resultados financeiros. Love et al. (1998) alertam para a importância de assegurar que os indicadores de medida de desempenho devem reflectir directamente os factores que conduzem à satisfação do cliente e ao desempenho operacional. Por outro lado, devem constituir-se como uma base de orientação da sua estratégia e objectivos, no enquadramento da sua actividade. 1.5.2 Estudos Teóricos e Empíricos Neste ponto sistematizam-se os principais estudos usados na revisão bibliográfica, com foco nas suas contribuições para o modelo conceptual desenvolvido e para as conclusões do estudo. Um estudo do US General Accounts Office (GAO) em 1990, citado por Zairi et al. (1994) representou um dos primeiros esforços para a ligação entre as prácticas associadas à GQT aos resultados globais das empresas. O estudo, focado nas 20 melhores empresas da escala do Malcom Balridge National Quality Award 21 em 1988-89, fazia uso de indicadores segundo as seguintes dimensões: ?? Indicadores relacionados com os trabalhadores, incluindo indicadores como o uso de sugestões, a assiduidade, etc.; ?? Indicadores operacionais, incluindo o tempo de entrega, o tempo de processamento de 22 ordem de fabrico, os erros ou defeitos, o lead-time de produto , o inventário ou os custos da qualidade; ?? Indicadores de satisfação do cliente; ?? Indicadores de desempenho financeiro, como sejam a quota de mercado ou as vendas por empregado. Semelhante estudo foi realizado na Europa, o "Bradford Study", com o objectivo de estudar a emergência de padrões de comportamento nas empresas europeias (Zairi et al., 1994).Com base na conjugação dos resultados destes estudos, Zairi et al. (1994) sugerem existir uma associação positiva entre a práctica de GQT e a existência de benefícios tangíveis para as 21 O "Malcom Balridge National Quality Award Program" é promovido anualmente pelo National Institut of Standards and Technoloogy, sob a égide do U.S. Department of Commerce e co-gerido pela American Society for Quality. Genericamente, tem como objectivos a contribuição para a competitividade da economia dos E.U.A., promovendo a busca da excelência no desempenho das empresas. 22 O lead time de produto traduz o tempo necessário para a completa especificação de um novo produto (Veloso et al., 2000) 29 Enquadramento Geral do Estudo empresas. Segundo os mesmos, são de registar "fortes indícios que a GQT tem um impacto positivo e directo nos resultados financeiros das empresas, desde que a sua implementação seja correctamente dirigida e planeada [...]". Brown (1997) estudou os factores por detrás do desempenho na qualidade em empresas industriais, tendo como resultado que a existência de ferramentas e métodos associados à qualidade não são, per se, suficientes para a explicação do desempenho das empresas. Em lugar destas, a existência de uma visão estratégica revelou-se o elemento central do desempenho na qualidade. O seu estudo consistiu na segmentação de uma amostra de 29 empresas em dois grupos, que designou de "tradicionais" e "esclarecidas". Madu (1998) discute alguns dos problemas associados com a investigação empírica na área da gestão da qualidade, alertando para a importância da quantificação dos dados de base à análise e para a importância do suporte estatístico da análise. Carpinetti, Santos e Gonçalves (1998) estudaram o relação entre a qualidade e o uso de prácticas de gestão de recursos humanos em empresas industriais brasileiras de pequena e média dimensão. Os seus resultados apontam para o papel fundamental da gestão das pessoas como elemento chave do desempenho global da empresa ao nível da qualidade total, com foco na qualificação e na formação, no uso de programas de comunicação e de atribuição de responsabilidades, no incentivo ao trabalho em equipa e na gestão da cultura organizacional. Em linha com esta abordagem, Sun et al. (2000) promoveram o estudo do impacto no envolvimento dos colaboradores no desempenho das empresas ao nível da gestão pela qualidade total, tendo concluído empiricamente que este factor tem uma correlação positiva com o desempenho do negócio. Para tal, os colaboradores devem ser providos com, entre outros, informação adequada, formação e qualificação (Sun et al., 2000). Bannister e McAdam (2001) discutem, com base num caso de estudo empírico, a questão da medição do desempenho global das empresas, em função do impacto da qualidade total nesse mesmo desempenho. A sua análise centra-se em indicadores ao nível da qualidade (como a taxa de sucata), da flexibilidade (como a variação dos produtos em produção, o tamanho dos lotes de encomenda), da capacidade de resposta (como a taxa de encomendas entregues em tempo, o tempo de ciclo de fabrico ou o tempo de resposta da engenharia) ou da relação com os clientes (através da análise das reclamações). Enfatizam a necessidade de promover medidas do desempenho que permitam traduzir o foco no cliente, nomeadamente a capacidade de resposta em termos de tempo e flexibilidade. Por outro lado, o enquadramento do negócio é importante, sendo que as especificidades do sector em que a empresa se posiciona não são alheios à orientação dos esforços globais da empresa na qualidade: como refere Peters (1994), " a Qualidade é conduzida pelos factores chave de sucesso do negócio". No âmbito do sector de componentes para automóvel, Liker et al. (1998) realizaram um estudo empírico - através de uma análise de regressão - em que relacionam o relacionamento cliente-fornecedor com o desempenho na qualidade. Ainda no enquadramento da indústria automóvel, uma referência fundamental do presente estudo é o trabalho conduzido pela McKinsey (1994), baseado num estudo empírico de 141 30 Enquadramento Geral do Estudo fornecedores de componentes para automóvel na Europa e no Japão (121 empresas europeias e 20 japonesas). O estudo consiste numa análise de clusters, definidos de acordo com o desempenho da empresa na qualidade, que se define pela avaliação de indicadores como a taxa de defeitos externa (medida no cliente), a taxa de sucata e a taxa de "retrabalho" (rework). Com base nos níveis de desempenho definidos, são traçados os perfis dos respectivos conjuntos de empresas, com o objectivo de determinar a relação entre o desempenho na qualidade e o desempenho global, através da análise das médias de indicadores segundo dimensões como: I&D e engenharia; relação com clientes; relação com fornecedores; uso de ferramentas e métodos; desempenho financeiro; desempenho na qualidade; prácticas de gestão de recursos humanos; afectação de recursos humanos; afectação de recursos financeiros; flexibilidade; desempenho no fabrico; existência de objectivos. Num plano mais alargado, Veloso et al. (2000) analisam o desempenho das empresas de componentes para automóvel em Portugal de acordo com as seguintes dimensões: desempenho na qualidade, desempenho na logística, desempenho no fabrico e capacidades de engenharia e desenvolvimento. 1.6 As Questões de Investigação O desenvolvimento do ponto 0 permite realçar a importância da qualidade no seio de um sector industrial (o automóvel) que se desenvolve de acordo com um significativo ritmo de mudança das estratégias dos principais actores, da organização da sua cadeia de valor e da sua organização no espaço global, conforme descrito em 1.3. Verificou-se a importância da qualidade no seio do sector, embora como "condição necessária" mas não "suficiente", isto é, outros factores, como a capacidade de desenvolvimento de produto, assumem igualmente uma importância crítica, nomeadamente para os fornecedores. Foi possível perceber, no âmbito do enquadramento teórico e empírico, apresentado no ponto 1.5, que a qualidade assume um posicionamento horizontal ao nível da empresa, de acordo com a filosofia da Gestão pela Qualidade Total (Womack e Jones, 1996, Tan, 1997, Dale et al., 1994), actuando "[...] como um elemento que induz a motivação, a liderança e a criatividade, factores vitais para a produtividade, a eficiência, o lucro e a qualidade do trabalho nas organizações" (Tan, 1997). No obstante a emergência de outros factores críticos de competitividade para os fornecedores, a qualidade é ainda, no grupo de empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal, representado pela amostra em estudo, uma das principais apostas para o seu desenvolvimento, sendo o principal factor de orientação estratégica das empresas - Figura 6 -, o que poderá ser em parte motivado pelo carácter relativamente recente desta aposta. De facto, a aposta das empresas do sector na qualidade foi fortemente marcada pela resposta ao desafio decorrente da instalação da AutoEuropa em Portugal no início da década de 1990 (Féria, 1999), conforme apresentado em 1.4.5. Como resultado, tem vindo a motivar uma melhoria do desempenho das empresas em termos dos principais indicadores de 31 Enquadramento Geral do Estudo medida quantitativa da qualidade, taxa de defeitos externa, taxa de defeitos interna e taxa de sucata, conforme apresentado na Figura 27. No entanto, as empresas nacionais estão ainda longe dos valores de referência, definidos como de "classe mundial" pela McKinsey (1994), nomeadamente no que respeita à taxa de defeitos externa, indicador que assume uma importância superior aos restantes indicadores de qualidade, ao traduzir para o cliente o desempenho da empresa (McKinsey, 1994), sendo mesmo o principal critério de análise da qualidade dos fornecedores por parte dos OEM (McKinsey, 1994 e Veloso et al., 2000). Assim, o problema de fundo que se pretende estudar tem implicações a dois níveis. Em primeiro lugar, perceber a forma como a qualidade influencia a competitividade das empresas de componentes para automóvel em Portugal. Isto é, sendo a qualidade um factor crítico de competitividade no seio do sector, e assumindo a sua importância enquanto elemento estruturante da actividade da empresa, importa perceber a forma como se relaciona o desempenho na qualidade com outras dimensões críticas de competitividade para a empresa. Em particular, a relação entre o desempenho na qualidade e factores como a capacidade de desenvolvimento, o desempenho no fabrico, a flexibilidade e capacidade de resposta ou o desempenho financeiro. Em segundo lugar, procurar compreender quais os factores internos, como sejam o relacionamento com clientes e fornecedores, a gestão e afectação de recursos ou o uso de instrumentos e métodos, que determinam o desempenho destas empresas na qualidade os quais se designarão de "determinantes da qualidade". Assim, resultam as seguintes questões de investigação: ?? "Em que medida é a qualidade um factor estratégico de competitividade no sector de componentes para automóvel em Portugal, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas?" ?? "Quais são, no sector de componentes para automóvel em Portugal, caracterizado por uma aposta recente na qualidade, os factores internos às empresas que determinam o seu desempenho ao nível da qualidade, os quais se designarão de "determinantes da qualidade?" A resposta a estas questões contribuirá para a compreensão da qualidade e do desempenho na qualidade em empresas num estado intermédio de desenvolvimento da aposta nesta área. Pretende-se com este trabalho compreender em que medida se verifica que, em empresas do sector automóvel com uma aposta recente na qualidade, esta é um factor estratégico com impacto noutras dimensões críticas da competitividade. Neste contexto, a hipótese que interessa testar nesta dissertação é que o desempenho na qualidade é determinado por factores internos às empresas, nomeadamente a qualificação dos recursos humanos, enquanto a certificação de qualidade não é por si só um determinante desse desempenho. 32 Enquadramento Geral do Estudo 1.7 Contribuição da Dissertação De acordo com as questões de investigação atrás definidas, a dissertação pretende determinar, em primeiro lugar, qual a relação da qualidade com a competitividade das empresas, de acordo com um conjunto de dimensões críticas do posicionamento competitivo dos fornecedores de componentes para automóvel. A análise demonstra a relação biunívoca entre a capacidade de desenvolvimento - um dos principais factores que desafiam o desenvolvimento do sector - e o desempenho na qualidade – definida em termos da sua taxa de defeitos externa. Em segundo lugar, pretende-se determinar quais os factores que estão por detrás do desempenho das empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal na qualidade, tida como um factor crítico de competitividade, induzindo assim uma clarificação dos factores críticos de desenvolvimento do sector. Com base nas conclusão de que os principais factores críticos são o uso de ferramentas e métodos de gestão dos recursos humanos que promovam a sua flexibilidade e a participação no esforço de melhoria contínua da empresa e, fundamentalmente, o nível de qualificação dos recursos humanos, não tendo factores como a atribuição de mais recursos à qualidade ou a existência da certificação um impacto claramente definido, são apresentadas no ponto 4 algumas reflexões com implicações para a política industrial e de qualidade, à luz do estado de evolução do sector. Para tal, desenvolve-se um modelo conceptual específico – apresentado no ponto 2.2 - e, recorrendo a um conjunto de dados recolhidos no âmbito do estudo de Veloso et. al (2000) ver 2.1 -, realiza-se uma análise de clusters com suporte estatístico – apresentada no ponto 3.2. 33 Abordagem Metodológica 2. ABORDAGEM METODOLÓGICA A presente dissertação surge integrada num trabalho de fundo realizado no âmbito da aplicação do estudo "Global Auto Parts - Estratégias Globais de Desenvolvimento do Sector de Componentes para a Indústria Automóvel" a Portugal, em parceria com o "International Motor Vehicle Program" - IMVP - do Massachussets Institute of Technology - MIT, conforme documentado em Veloso et. al (2000). Em particular, a análise apresentada desenvolve e expande o trabalho subjacente ao Work Package 2, que visava proceder a uma avaliação dos factores críticos da indústria de componentes para automóvel em Portugal. A oportunidade de realização do presente estudo decorre da integração da equipa responsável pelo Work Package 2, com responsabilidades desde o desenvolvimento do modelo conceptual e operacional e do questionário de recolha de informação - ver Anexo I até à participação nas visitas às empresas do estudo de Veloso et. al (2000), passando pelo tratamento e sistematização dos dados e sua análise. A abordagem realizada no âmbito da dissertação tem por base um modelo conceptual específico, que se apresenta em 2.2, e uma metodologia de tratamento e análise de dados, apresentada em 2.3. Os dados utilizados foram recolhidos no âmbito do estudo de Veloso et al. (2000), conforme se passa a apresentar. 2.1 Dados O desenvolvimento da presente dissertação decorre da participação no desenvolvimento do estudo "Global Auto Parts - Estratégias Globais de Desenvolvimento do Sector de Componentes para a Indústria Automóvel" em Portugal, nomeadamente aos níveis da definição dos instrumentos de recolha de dados e da sua recolha, sistematização e análise. No âmbito do referido estudo foi assim possível, com recurso ao questionário que se apresenta no Anexo I e de acordo com a metodologia aí apresentada, recolher um conjunto de dados relacionados com a globalidade das empresas. Sendo um questionário com uma incidência alargada às diversas áreas da organização (a saber: Gestão de Topo - Características da Empresa e Estratégia; Organização e Recursos Humanos; Financeira; Marketing e Comercial e Relacionamento com a Envolvente; Logística; Qualidade; Produção), o conjunto de dados permite dar resposta às solicitações do modelo conceptual desenvolvido em 2.2. 34 Abordagem Metodológica 2.2 Modelo Conceptual de Análise A análise realizada tem como suporte o uso de um modelo conceptual específico, desenvolvido de acordo com as contribuições de diversos autores, que se passa a explicitar. De modo a estabelecer uma base de trabalho para o desenvolvimento do modelo conceptual, interessa recordar os diversos contributos analisados em 1.5.1 e 1.5.2. O Quadro 7 sintetiza esses contributos. Quadro 7: Síntese de Contribuições para as Dimensões Críticas do Modelo Conceptual de Análise Dale et al. (1994) ??Empenho e liderança da direcção geral Grandzol e Gershon (1998) Balridge National Quality Award (2001) ??Liderança ??Liderança ??Gestão dos processos ??Planeamento Estratégico US General Accounts Office (GAO) em 1990* Bannister e McAdam (2001) ??Indicadores ??Qualidade relacionados com ??Flexibilidade os trabalhadores ??Capacidade de ??Organização e ??Melhoramento ??Foco no cliente e ??Indicadores Resposta planeamento operacionais contínuo no mercado ??Relação com ??Uso de ??Indicadores de ??Realização dos ??Informação e Clientes ferramentas e satisfação do empregados análise técnicas cliente ??Foco no ??Foco nos ??Formação e ??Indicadores de consumidor recursos qualificação dos desempenho humanos ??Aprendizagem recursos financeiro ??Gestão de ??Envolvimento de ??Cooperação Processos todas as pessoas interna e externa ?? Resultados Output ??Trabalho de Financeiros equipa ??Qualidade do produto/serviço ??Monitorização e feed-back ??Resultados financeiros ??Mudança de cultura ??Resultados operacionais ??Relação com clientes e ??Satisfação do fornecedores cliente; ??Satisfação dos empregados. McKinsey (1994) Veloso et al.(2000) ??I&D e Engenharia Desempenho Global da Empresa ??Relação com ??Desempenho Clientes na Qualidade ??Relação com ??Desempenho Fornecedores na Logística ??Uso de ??Desempenho Ferramentas e Métodos no Fabrico ??Desempenho Financeiro ??Desempenho na Qualidade ??Capacidades Engenharia e Desenvolvime nto ??Prácticas de Gestão de RH ??Afectação de RH ??Afectação de Recursos Financeiros ??Flexibilidade ??Desempenho no Fabrico ??Existência de Objectivos * - Citado por Zairi et. al (1998) Os resultados dos trabalhos assim apresentados reflectem as diferentes interpretações das dimensões da qualidade na empresa. O desenvolvimento do modelo conceptual adoptado é fruto da agregação dos diversos contributos segundo um conjunto de oito dimensões fundamentais de análise, a saber: ?? Relacionamento com Clientes e Fornecedores; ?? Gestão Afectação de Recursos; ?? Instrumentos e Métodos; ?? Desempenho na Qualidade; ?? Desempenho no Fabrico; ?? Desenvolvimento de Produto; ?? Flexibilidade / Capacidade de Resposta; ?? Desempenho Financeiro. 35 Abordagem Metodológica A forma como os diversos contributos informam o modelo conceptual adoptado pode ser graficamente visualizada na Figura 14. Embora seja evidente no contributo dos diversos autores a importância de factores associados à cultura e estratégia da empresa, optou-se por não considerar esta dimensão na análise efectuada. Figura 14: Contribuições para as Dimensões Críticas do Modelo Conceptual de Análise Grandzol e Gershon (1998) Dale et al. (1994) Liderança Relação com clientes e fornecedores Gestão dos processos Envolvimento de todas as pessoas Melhoramento contínuo Trabalho de equipa Realização dos empregados Formação e qualificação dos recursos Foco no consumidor Organização e planeamento Aprendizagem Uso de ferramentas e técnicas Cooperação interna e externa Qualidade do produto/serviço Resultados financeiros Monitorização e feed-back Modelo Conceptual Dimensões Chave Empenho e liderança da direcção geral Resultados operacionais Satisfação do cliente Relacionamento com Clientes e Fornecedores Satisfação dos empregados Gestão Afectação de Recursos Bannister e McAdam (2001) Instrumentos e Métodos Capacidades de Engenharia e Desenvolvimento Desempenho na Qualidade Qualidade Capacidade de Resposta Desempenho no Fabrico Desenvolvimento de Produto Relaç ão com Fornecedores Uso de Ferramentas e Métodos I&D e Engenharia Desempenho no Fabrico Desempenho na Qualidade Desempenho na Logística Balridge National Quality Award (2001) Liderança Foco no cliente e no mercado McKinsey (1994) Relação com Clientes Veloso et al.(2000) Desempenho na Qualidade Desempenho no Fab rico Relação com Clientes Flexibilidade Mudança de cultura Flexibilidade / Capacidade de Resposta Desempenho Financeiro Foco nos recursos humanos Planeamento Estratégico Informação e análise Gestão de Processos Resultados Financeiros Zairi et al. (1994) Prácticas de Gestão de RH Indicadores de satisfação do cliente Afectação de RH Indicadores relacionados com os trabalhadores Afectação de Recursos Financeiros Indicadores operacionais Flexibilidade Indicadores de desempenho financeiro Desempenho Financeiro Existência de Objectivos Grandzol e Gershon (1998) apresentam uma abordagem mais alargada do que as restantes, ao definirem a sua interpretação da questão da Gestão pela Qualidade Total em dois níveis de dimensões: um nível de análise da qualidade que a decompõe nas suas dimensões fundamentais - analisando os factores que estão por detrás da qualidade - e um nível que designam por output, no qual que reflectem os indicadores de medida do desempenho da empresa na qualidade e de impacto da qualidade no desempenho global da empresa. 36 Abordagem Metodológica Por seu lado, Bannister e McAdam (2001) analisam o impacto da qualidade total no desempenho global das empresas, centrando o seu trabalho na vertente de impacto da qualidade. Em linha com estas abordagens, a McKinsey (1994) centra-se na análise da relação da qualidade com factores de desempenho considerados de importância estratégica na indústria automóvel, ou seja, relaciona o desempenho da empresa em termos de qualidade com indicadores chave do desempenho global da empresa. O mesmo raciocínio é adoptado por Veloso et al. (2000), cujo trabalho se expande nesta dissertação. Outros, como Dale et al. (1994), centram-se na análise das dimensões chave da qualidade total, ou seja, nos factores que estão por detrás do desempenho das empresas na qualidade. Estas diferentes contribuições sugerem a existência de dois níveis de análise da qualidade na empresa: um primeiro, em que se estuda a relação entre o desempenho da empresa ao nível da qualidade e o seu desempenho global, de acordo com o enquadramento do sector automóvel; um segundo, em que se procura compreender a os factores que influem no desempenho da empresa na qualidade. Esta interpretação está em consonância com as questões de investigação - ver ponto 1.6 -, igualmente definidas segundo dois níveis. O modelo adoptado associa a estas duas questões de investigação dois níveis de análise, que se passam a descrever: ? ? Num primeiro nível, denominado de externo, o objectivo é o de estabelecer uma relação dinâmica entre o desempenho da empresa na qualidade e a sua competitividade, segundo três dimensões consideradas como chave para o sector, a saber: "Desempenho no Fabrico", "Capacidade de Desenvolvimento", "Flexibilidade / Capacidade de Resposta" e "Desempenho Financeiro"; ? ? Num segundo nível, denominado de interno, realiza-se uma análise dos factores que determinam e influenciam de forma positiva o desempenho na qualidade da indústria de componentes para automóvel em Portugal, segundo as dimensões "Relacionamento com Clientes e Fornecedores", "Gestão / Afectação de Recursos" e "Instrumentos e Métodos". O modelo completa-se pela existência de duas outras dimensões, o "Desempenho na Qualidade", ponto de confluência dos dois níveis de análise, e uma dimensão de suporte, "Características Gerais da Empresa". 37 Abordagem Metodológica As dimensões de análise articulam-se de acordo com o seguinte modelo conceptual: Figura 15: Modelo Conceptual de Análise Desempenho no Fabrico Gestão / Afectação de Recursos Desempenho na Qualidade Instrumentos e Métodos Desenvolvimento de Produto Nível Externo Nível Interno Relacionamento com Clientes e Fornecedores Desempenho Financeiro Flexibilidade / Capacidade de Resposta Características Gerais da Empresa 2.2.1 Análise ao Nível Externo: A Qualidade e a Competitividade das Empresas Pretende-se, na análise de nível externo, estudar a relação entre o desempenho da empresa ao nível da qualidade e ao nível dos factores chave de competitividade no sector. Tomando como referência os atributos da produto considerados pelo cliente e que, consequentemente, motivam o posicionamento da empresa no mercado - ver Ponto 1.5.1 -, e associando as diversas contribuições listadas em 1.5.2, consideram-se as dimensões "Desempenho no Fabrico" e "Flexibilidade / Prazo de Entrega", associadas à capacidade de deter um preço competitivo e de responder em tempo e em quantidade às encomendas, a que acresce considerar de forma isolada a capacidade de desenvolvimento de produto, tomada como uma actividade crítica para a competitividade na indústria de componentes para automóvel, à luz das tendências de evolução descritas. A dimensão "Desempenho na Qualidade", comum aos dois níveis de análise, é aqui uma dimensão de input. A competitividade da empresa é assim analisada segundo as três dimensões seguintes, integradas entre si pela dimensão "Desempenho na Qualidade": ?? Desempenho no Fabrico; ?? Capacidade de Desenvolvimento; ?? Flexibilidade / Capacidade de Resposta; ?? Desempenho Financeiro. 38 Abordagem Metodológica O objectivo subjacente a este nível de análise é testar a hipótese de que o desempenho na qualidade das empresas de fabrico de componentes para automóvel em Portugal tem um impacto positivo na sua competitividade, corroborando as conclusões de Zairi et al. (1994), Sun et al. (2000), Bannister e McAdam (2001), McKinsey (1994) e Veloso et al. (2000). 2.2.2 Análise ao Nível Interno: Os Determinantes da Qualidade das Empresas Pretende-se, a este nível, através da decomposição da qualidade da empresa em dimensões fundamentais, estabelecer uma relação entre factores a elas associados e o desempenho na qualidade, retirando algumas conclusões no que respeita aos determinantes da qualidade nas empresas de componentes para automóvel em Portugal. De acordo com as abordagens referidas em 1.5.1 e 1.5.2 e sistematizadas em 2.2, a abordagem à qualidade na empresa ser considerada através de uma aproximação em que esta surge como um elemento agregador do desenvolvimento da actividade da empresa, assente em vectores chave de suporte como sejam o relacionamento com os seus clientes, fornecedores e outros actores externos, a gestão dos seus recursos e o recurso a métodos estruturados de melhoria do desempenho global. Considera-se, pois, que o desempenho na qualidade da empresa assenta em três dimensões fundamentais: ? ? Relacionamento com Clientes e Fornecedores; ? ? Gestão / Afectação de Recursos; ? ? Instrumentos e Métodos. O objectivo subjacente a este nível de análise é o de perceber quais os factores que são determinantes para o bom desempenho ao nível da qualidade das empresas de componentes para automóvel em Portugal, sendo os resultados analisados à luz dos trabalhos de Zairi et al. (1994), Brown (1997), Carpinetti, Santos e Gonçalves (1998), Sun et al. (2000), Liker et al. (1998), McKinsey (1994) e Veloso et al. (2000). Todas as dimensões de análise são explicitadas em seguida. 39 Abordagem Metodológica 2.2.3 Dimensões Críticas de Análise e Indicadores a) Características Gerais da Empresa Nesta dimensão procura-se estabelecer uma caracterização geral da empresa face a um número de atributos base como sejam o sub-sector de actividade, os produtos e mercados, a dimensão (em termos de volume de vendas e de número de trabalhadores), a certificação de qualidade e a nacionalidade. b) Relacionamento com a Clientes e Fornecedores A qualidade está intimamente associada à capacidade de resposta às solicitações do cliente. As prácticas associadas à Gestão pela Qualidade Total e à Produção Lean incluem como fundamental o desenvolvimento conjunto de actividades com clientes e fornecedores (Womack et al., 1991) que permitam uma partilha de conhecimento, estabelecendo dinâmicas de aprendizagem que se traduzam no melhoramento contínuo e conjunto de produtos, processos e prácticas de organização e gestão das actividades. Liker et al. (1998) demonstraram a importância desta dimensão ao estabelecerem uma relação empírica entre o envolvimento de clientes e fornecedores em actividades conjuntas e a redução de custos e o desempenho da qualidade nas empresas de componentes para automóvel. A análise do relacionamento com fornecedores procura estabelecer o perfil de fornecedores das empresas, nomeadamente com base na existência de certificação de qualidade, e o tipo de actividades desenvolvidas em conjunto, corroborando o tipo de análise promovida por Love et al. (1998), pela McKinsey (1994) e por Veloso et al. (2000). A análise do relacionamento com clientes resume-se ao tipo de actividades desenvolvidas em conjunto (Veloso et al., 2000), sendo analisado em particular o caso da relação com OEM, através da medida do número de horas de assistência por parte deste tipo de clientes (McKinsey, 1994). c) Gestão / Afectação de Recursos A sub-dimensão de análise "Gestão / Afectação de Recursos" propõe-se a realizar uma análise a dois níveis: ? ? Gestão de Recursos; ? ? Afectação de Recursos. No primeiro, o foco é nos recursos humanos da empresa e permite traçar o seu perfil em termos de qualificações (Peters, 1996 e Veloso et al., 2000), assim como analisar o uso de prácticas de gestão de recursos humanos que potenciem a sua flexibilidade. No que respeita 40 Abordagem Metodológica a este ponto, são analisados aspectos como a organização das equipas, e polivalência no trabalho, a rotação de tarefas ou a autonomia para a resolução de problemas simples, entre outros. Ao nível da afectação de recursos, procura-se analisar a afectação de recursos financeiros e humanos à qualidade na empresa (McKinsey, 1994). Os indicadores estão de acordo com as contribuições de Juran (1989 e 1991), Peters (1994 e 1996), Sun et al. (2000), Carpinetti et al. (1998), McKinsey (1994) e Veloso et al. (2000), entre outros. d) Instrumentos e Métodos A existência de um processo de gestão pela qualidade pressupõe a existência de métodos estruturados, desenvolvidos na práctica ao longo dos anos por nomes como os que têm sido até aqui referidos. Mc Quarter et al. (1995) sugerem, entre outras, a utilização de métodos como o controlo estatístico de processos, o benchmarking, o quality function deployment ou o failure mode and effects analysis. Não se observa, no entanto, um padrão comum de prácticas adoptadas pela generalidade das empresas, alguns métodos "fizeram escola" e são de uso corrente no sector de componentes para a indústria automóvel em Portugal (Veloso et al., 2000). Juran organiza os procedimentos de um programa de qualidade em três níveis, os quais designa de "Trilogia de Juran" (Juran, 1992): ? ? Planeamento, a actividade de desenvolvimento de produtos e processos de acordo com as necessidades dos clientes, numa lógica de rendibilização dos recursos da empresa. Assume o estabelecimento de objectivos para a qualidade; ? ? Controlo, assente na avaliação contínua do desempenho na qualidade e na comparação com os objectivos; ? ? Melhoria contínua, o processo de levar o desempenho na qualidade para níveis sem precedentes na organização. Outra abordagem possível é a de segmentar os métodos associados à qualidade na empresa de acordo com o seu foco na cadeia de valor. Em particular, julga-se relevante a distinção entre métodos mais intimamente associados à fase de desenvolvimento de produto ou à fase de produção em série: com base nos seus estudos empíricos, a McKinsey (1994) estima que apenas 30% dos defeitos sejam originados na fase de fabrico, enquanto cerca de 70% são atribuídos ao produto na fase de desenvolvimento. A dimensão "Instrumentos e Métodos" é assim organizada segundo os níveis "Desenvolvimento de Produto" e "Fabrico", este último organizado segundo os sub-níveis "Planeamento", "Controlo" e "Melhoramento Contínuo". Os indicadores correspondem aos contributos definidos pelas abordagens da McKinsey (1994) e de Veloso et al. (2000): 41 Abordagem Metodológica 23 ? ? Desenvolvimento: Failure Mode and Effects Analysis (FMEA) , Quality Function 24 Deployment (QFD) , Design for Manufacturing (DFM), Design for Assembly (DFA), Análise de Valor, Engenharia Simultânea; ? ? Fabrico 25 26 ?? Planeamento - kanban, MRP , MRP II , Just In Time; ?? Controlo - Statistical Process Control (SPC); ?? Melhoramento Contínuo - Kaizen, Equipas Multidisciplinares. e) Desempenho na Qualidade O desempenho na qualidade é avaliado através da análise de aspectos como as taxas 27 defeitos internos e externos e as taxas de sucata e de rework , o que corrobora a análise realizada pela McKinsey (1994). Esta dimensão é a base de segmentação da amostra para a análise de dados. Como se verá no ponto 3.2.1, a conjugação de algumas restrições na definição dos clusters, levou a que se adoptasse a taxa de defeitos externa como a variável chave desta dimensão, tendo sido adoptada como variável de segmentação. Este procedimento é considerado correcto visto que, em primeiro lugar, esta assume uma importância superior aos restantes indicadores de qualidade, pois traduz para o cliente o desempenho da empresa (McKinsey, 1994), sendo o principal critério de análise da qualidade dos fornecedores por parte dos OEM (McKinsey, 1994 e Veloso et al., 2000). Em segundo lugar, este indicador está fortemente correlacionada com os restantes - Figura 28 -, pelo que se considera como representativa do desempenho da empresa na qualidade. f) Desempenho no Fabrico A análise do desempenho ao nível da capacidade e fabrico das empresas é realizada com base em factores directamente associados ao inventário, como sejam o stock de matérias primas, o work -in-progress ou o stock de produtos acabados. A relação entre estes indicadores e o desempenho da empresa na qualidade foi evidenciada por Davidson et al. (2001) e é analisada por McKinsey (1994) e por Veloso et al. (2000). 23 Failure Mode and Effect Analysis é uma ferramenta sistemática e analítica de planeamento cujo objectivo é de prever, na fase de desenvolvimento, eventuais falhas na fase de fabrico ou no uso pelo cliente (Alridge e Dale, 1994). 24 O conceito de Quality Function Deployment foi introduzido no Japão em 1966 por Yoji Akao. De acordo com este autor, QFD é "um método para o desenvolvimento de um design que satisfaça o cliente e que, traduzindo as necessidades do cliente em objectivos e elementos da garantia da qualidade, seja usado em toda a fase de produção. … [QFD] é uma forma de assegurar a qualidade do design na fase de desenvolvimento." (Akao, 1990). A metodologia QFD consiste na identificação de objectivos do ponto de vista do utilizador final e na sua difusão para montante (Kathawala e Motwani, 1994). 25 Material Requirements Planning. 26 Manufacturing Resource Planning. 27 Define-se rework como o tempo gasto na recuperação e correcção de produtos não conformes. Para efeitos do estudo, considera-se a medida de rework em função do número de horas de produção disponíveis. 42 Abordagem Metodológica g) Capacidade de Desenvolvimento É analisada a capacidade de desenvolvimento da empresa, através da análise dos lead times 28 de desenvolvimento de produto e de processo. Esta dimensão de análise assume importância crucial não só no âmbito da indústria automóvel - em que, como se demonstrou em 1.4.5 e 1.5.1c), a capacidade de desenvolvimento de produto é um factor crítico de sucesso - como no âmbito de outros sectores (Juran, 1992). Como concluem Kessler e Chakrabarti (1998), a capacidade de desenvolver sistematicamente produtos de elevada qualidade é função da capacidade de organização da função de desenvolvimento de produto na empresa. A McKinsey (1994) faz uso da função de investigação e desenvolvimento como dimensão chave do desempenho da empresa, de acordo com o seu investimento em R&D. Do ponto de vista da capacidade de resposta às oportunidades e solicitações específicas da envolvente, os lead times são apontados por Bannister e McAdam (2001) e por Veloso et al. (2000) como indicadores chave. h) Flexibilidade / Capacidade de Resposta Interessa analisar a relação entre o desempenho da empresa ao nível da qualidade e o desempenho ao nível da flexibilidade e capacidade de resposta. Para tal, esta dimensão é analisada através da avaliação, entre outros, de factores como a capacidade de trabalhar em Just In Time (traduzida na proporção de produtos entregues em Just In Time), o tempo entre entregas, os lead times das encomendas (Veloso et al., 2000) ou o nível de entregas em tempo (Bannister e McAdam, 2001) - considera-se, na análise subsequente, o nível de entregas em atraso. Bannister e McAdam (2001) relevam, por outro lado, a importância da capacidade de lidar com variações na produção, medida através de indicadores como o número de referências ou a dimensão dos lotes. i) Desempenho Financeiro O desempenho no fabrico é analisado segundo a análise da evolução da facturação e da evolução da produtividade no trabalho, factores citados por Zairi et al. (1994). Ao nível do estudo do impacto do desempenho da empresa na qualidade na sua competitividade global, as dimensões de análise atrás enunciadas são estruturadas segundo a bateria de indicadores que se apresenta na Figura 16: 28 O lead time de produto traduz o tempo necessário para a completa especificação de um novo produto. O lead time de processo traduz o tempo necessário para a adaptação do processo produtivo à produção de um novo produto, incluindo o desenvolvimento de ferramentas. 43 Abordagem Metodológica Figura 16: Indicadores da Análise de Nível Externo Relacionamento com Clientes e Fornecedores Gestão/Afectação de Recursos Stock de Matérias Primas Work In Progress Stock de Produto Acabado Desempenho no Fabrico Desempenho na Qualidade Desempenho Financeiro Desenvolvimento de Produto Evolução da Produtividade Evolução da Facturação Instrumentos e Métodos Flexibilidade / Capacidade de Resposta Lead Time de Produto Lead Time de Processo Investimento em I&D Características Gerais da Empresa Taxa de Defeitos Internos Taxa de Defeitos Externos Taxa de Sucata Rework Nº Referências Nº Refs em Produção Simultânea Nº de Novas Referências Dimensão Típica do Lote Actividade Produtos/mercados Dimensão Certificação Qualidade Nacionalidade % Produtos Entregues em JIT Tempo entre entregas % Encomendas em Atraso Lead Time de Encomendas As dimensões da análise ao nível interno - estudo dos determinantes da qualidade nas empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal - consubstanciam-se no conjunto de indicadores que se descreve na figura seguinte. Figura 17: Indicadores da Análise de Nível Interno Clientes Actividades desenvolvidas Horas Assistência de OEM Fornecedores Actividades dese nvolvidas Certificação Gestão de Recursos Qualificações Salários Tempo em resolução problemas Sugestões formalizadas Sugestões implementadas Equipas auto-geridas Rotação de tarefas Afectação de Recursos Despesas em Qualidade Nº Recursos H na Qualidade Desenvolvimento FMEA, QFD, DFM, DFA, Análise de Valor, Engenharia Simultânea Fabrico Kanban, MRP, MRP II, JIT SPC Kaizen, Equip. Multid. Desempenho no Fabrico Relacionamento com Clientes e Fornecedores Gestão/Afectação de Recursos Instrumentos e Métodos Desempenho na Qualidade Desenvolvimento de Produto Desempenho Financeiro Flexibilidade / Capacidade de Resposta Características Gerais da Empresa Taxa de Defeitos Internos Taxa de Defeitos Externos Taxa de Sucata Rework Actividade Produtos/mercados Dimensão Certificação Qualidade Nacionalidade 44 Abordagem Metodológica 2.3 Metodologia de Tratamento e Análise de Dados Tendo em conta a discussão anterior, o objectivo da análise é o de perceber se diferenças significativas ao nível do desempenho na qualidade 1. 29 estão relacionadas: Com diferentes desempenhos globais das empresas (reflectindo o nível de análise designado por "externo"); 2. Com práticas diferentes ao nível da organização das empresas (o que reflecte o nível de análise designado por "interno"). Para tal, é necessário encontrar uma forma de agrupar as empresas em grupos coerentes com diferentes níveis de desempenho na qualidade e analisar as variações ao nível dos indicadores relevantes - que compõem as diferentes dimensões de análise - para cada um dos grupos. Existem diversas formas de o fazer. Uma delas é consiste na utilização de técnicas de clustering (K -means ou hierarchical clustering). Outra forma consiste na separação das empresas de acordo com a sua performance em determinados indicadores, considerados mais relevantes (McKinsey, 1994). Uma vez estabelecidos os clusters, a análise do comportamento das restantes variáveis é realizada com observação das médias de cada variável para cada cluster. A análise estatística é realizada através do método de T de Student de análise da significância estatística da igualdade das médias, que traduz a probabilidade de os clusters representarem dois grupos de empresas com comportamentos semelhantes em termos dos indicadores analisados. Para maior percepção da análise, são apresentados os valores inversos, isto é, as significâncias estatísticas das diferenças das médias, representando o grau de probabilidade de os clusters de empresas representarem grupos com comportamentos diferenciados determinando, para cada variável, uma relação positiva 30 ou negativa com a taxa de defeitos externa. Este tipo de análise está em conformidade com o estudo da McKinsey (1994). Os testes de significância da diferença das médias são realizados segundo o método de T de Student, conforme sugerido por Bryman e Cramer (1997). 29 Definido em função da taxa de defeitos externa, conforme apresentado em 3.2.1. No sentido da análise, entende-se por relação positiva (negativa) o caso em que a aumento (decréscimo) de determinada variável corresponde a um melhor (pior) desempenho na qualidade. 30 45 Análise Empírica 3. ANÁLISE EMPÍRICA 3.1 Caracterização dos Dados Disponíveis 3.1.1 Caracterização da Amostra de Empresas A escolha de empresas a envolver no estudo teve como base os seguintes critérios de segmentação: ?? Representação dos sub-sectores mais significativos na indústria de componentes para automóvel em Portugal, de acordo com a sua importância relativa - apresentada em 0; ?? Importância do sector automóvel para a actividade da empresa, medida através do volume de facturação da empresa (em % do total) para o sector automóvel. De acordo com a taxa de sucesso de resposta ao questionário, a base de trabalho resulta num conjunto de 37 empresas. De entre estas, apenas 22 apresentam dados adequados ao nível das variáveis chave da qualidade. Tomando a segmentação destas empresas por área de actividade, tem-se a seguinte distribuição: Quadro 8: Distribuição da Amostra por Área de Actividade Área de Actividade Nº Empresas Baterias 1 Componentes Eléctricos 4 Injecção de Plásticos 2 Interiores/Bancos 1 Metalúrgica/Metalomecânica 9 Pneus 1 Outros 4 Total 22 Atente-se ao facto de que a distribuição acima é efectuada de acordo com a actividade e tipo de produtos declarados pela empresa, e não pelas CAE - Classificação de Actividade Económica -, de modo a objectivar a análise. Tal deve-se, nomeadamente, à importância da CAE 25240 - Fabricação de Componentes e Acessórios para Veículos Automóveis e seus Motores - na amostra. 46 Análise Empírica A Figura 18 ilustra a distribuição relativa dos sub-sectores de actividade, onde se pode verificar que, considerando em conjunto os sectores de metalúrgica e metalomecânica, é este o conjunto de empresas com maior representação na amostra, com cerca de dois quintos do total. Seguem-se o o fabrico de componentes eléctricos e a injecção de plásticos. Figura 18: Distribuição da Amostra por Área de Actividade Baterias 40% 5% Comp. Eléctricos 9% Inj. Plásticos Interiores/Bancos Metalúrgica/Metalomec. 18% 5% Pneus 5% 18% Outros Uma análise aos dados disponíveis sobre a origem do capital das empresas em estudo permite verificar um equilíbrio, sendo que se consideraram 12 empresas de capital maioritariamente estrangeiro e 10 empresas de capital maioritariamente nacional. Figura 19: Distribuição da Amostra por Origem do Capital 12 10 12 8 10 6 4 2 0 Maioritariamente nacional Maioritariamente estrangeiro Em termos de dimensão, e analisando o volume de facturação, verifica-se a predominância de empresas acima de meio milhão de contos de facturação em 1998, sendo que 5 empresas - 23% do total - facturaram mais de 10 milhões de contos nesse mesmo ano. Figura 20: Distribuição da Amostra por Dimensão (Volume de Facturação em 1998 - c.) > 10 000 000 14% 5 000 000 a 10 000 000 0% > 10 000 000 23% 5 000 000 a 10 000 000 2 000 000 a 5 000 000 1 000 000 a 2 000 000 14% 2 000 000 a 5 000 000 500 000 a 1 000 000 1 000 000 a 2 000 000 100 000 a 500 000 18% < 100 000 0 2 4 6 8 31% 500 000 a 1 000 000 100 000 a 500 000 Nº Empresas Analisando as empresas em termos do número total de trabalhadores, verifica-se que o segmento mais importante é o das empresas entre 200 a 500 trabalhadores, com cerca de 47 Análise Empírica um terço do total - 36% -, seguido do grupo de empresas com entre 100 a 200 pessoas ao serviço. 18% do total de empresas têm entre 50 e 100 trabalhadores, enquanto 3 empresas têm mais de 2000 trabalhadores. Figura 21: Distribuição da Amostra por Dimensão (Número de Trabalhadores em 1998) > 5 000 36% 2 000 a 5 000 1 000 a 2 000 18% 500 a 1 000 200 a 500 14% 100 a 200 18% 0% 5% 9% 50 a 100 0% < 50 Analisando a distribuição das empresas por nacionalidade e dimensão (em termos de volume de facturação), verifica-se que as empresas estrangeiras se concentram nos escalões de maior dimensão. Figura 22: Distribuição da Amostra por Dimensão (N. de Trab. em 1998) e Nacionalidade > 10 000 000 5 000 000 a 10 000 000 2 000 000 a 5 000 000 1 000 000 a 2 000 000 500 000 a 1 000 000 Nacional 100 000 a 500 000 Estrangeiro < 100 000 0 1 2 3 4 5 Nº de Empresas 3.1.2 Perfil de Qualidade Tomando os indicadores de qualidade como referência, é possível traçar um perfil geral do comportamento do grupo de empresas em análise em termos dos indicadores seleccionados para a dimensão " Desempenho na Qualidade", taxa de defeitos no cliente (externa), taxa de defeitos interna, taxa de sucata e taxa de rework . Defeitos Internos A taxa de defeitos internos oscila entre valores substancialmente baixos e valores próximos dos 100 000 ppm, ou seja, quase 10% da produção. 48 Análise Empírica Figura 23: Perfil de Qualidade da Amostra - Taxa de Defeitos Internos 100000 90000 Taxa de Defeitos Internos (ppm) 80000 70000 60000 50000 40000 30000 20000 10000 0 Defeitos no Cliente A taxa de defeitos no cliente varia entre os 30 ppm e valores acima dos 38 000 ppm, para as 22 empresas que forneceram dados para esta questão. Tomando a referência do estudo da McKinsey & Co. (1994), podem considerar-se como de "classe mundial", i.e., entre os melhores do mundo em termos de desempenho neste indicador, valores abaixo de 240 ppm para a taxa de defeitos externa. Encontram-se abaixo deste valor 5 empresas, i.e., cerca de um quarto do total. Figura 24: Perfil de Qualidade da Amostra - Taxa de Defeitos Externos 40000 Taxa de Defeitos Externa (ppm) 35000 30000 25000 20000 15000 10000 5000 0 Classe Mundial Taxa de Sucata Os valores de taxa de sucata variam entre 150 ppm e valores pouco acima dos 70 000 ppm. Das 15 empresas que forneceram dados de taxa de sucata, 9 (cerca de dois terços) estão dentro dos limites considerados como de "classe mundial" pelo estudo da McKinsey & Co (1994), 1.1%. 49 Análise Empírica Figura 25: Perfil de Qualidade da Amostra - Sucata 80000 70000 Taxa de Sucata (ppm) 60000 50000 40000 30000 20000 Classe Mundial 10000 0 Taxa de Rework A taxa de rework , medida na percentagem de horas de produção dedicadas à reparação e recuperação de artigos defeituosos, foi alvo de alguma dificuldade na resposta por parte das empresas, sendo que apenas 7 forneceram este valor. Comparando os valores obtidos com o valor de referência apontado pelo estudo da McKinsey & Co. (1994), 1.2%, e tendo em atenção o reduzido número de respostas, verifica-se que 2 em 5 empresas apresentam um desempenho ao nível dos melhores mundiais no que respeita à taxa de rework . Figura 26: Perfil de Qualidade da Amostra - Rework 16.00% Taxa de Rework (% h produção) 14.00% 12.00% 10.00% 8.00% 6.00% 4.00% 2.00% Classe Mundial 0.00% Evolução Global dos Indicadores de Qualidade Os indicadores de qualidade têm mostrado uma evolução positiva, nomeadamente em termos das taxas de defeitos medidos no cliente e de sucata. Tomando as medianas da amostra, verifica-se que as taxas de sucata apresentam tipicamente valores abaixo dos melhores ao nível mundial (McKinsey, 1994), enquanto as taxas de defeitos externos se aproximam dos mesmos valores de referência. 50 Análise Empírica Figura 27: Evolução dos Indicadores de Qualidade 12 000 Classe Mundial Sucata 10 000 8 000 Mediana Defeitos Internos (ppm) 6 000 Mediana Defeitos Externos (ppm) 4 000 Mediana Sucata (ppm) 2 000 Classe Mundial 0 Defeitos Cliente 1993 1994 1995 1996 1997 3.2 Análise de Dados 3.2.1 Definição dos Clusters de Empresas a) Segmentação da Amostra A análise do impacto da qualidade no desempenho da empresa será realizada, como se descreveu no ponto 2.3, com base numa análise de clusters, traduzida numa segmentação das empresas pelos indicadores de desempenho na qualidade. São vários os métodos possíveis para a definição dos clusters. Usando o método “K-Means Cluster”, e estabelecendo dois clusters com base nas três variáveis chave do desempenho na qualidade, taxa de defeitos externos, taxa de defeitos internos e taxa de sucata, obtém-se uma segmentação que resulta em 17 empresas de qualidade superior e 5 empresas de qualidade inferior. Dada a diferença nos números de empresas associadas aos diferentes clusters, verifica-se a existência de importantes lacunas num conjunto significativo de indicadores, nomeadamente no grupo de pior desempenho na qualidade – ver Figura 29 -, o que reduziria significativamente o valor estatístico da análise. Assim, dadas estas limitações, opta-se por segmentar o grupo de empresas de acordo com a mediana do indicador de medida de defeitos no cliente, embora correndo o risco de enfrentar alguns problemas com os dados e sua análise. Este procedimento de segmentação é semelhante ao que tem sido adoptado nos estudos efectuados pela McKinsey (1994) e por Veloso et al. (2000). Se fosse possível contar com uma amostra mais alargada, julga-se que o uso de métodos como o “KMeans Cluster” não estaria sujeito ao mesmo problema. A escolha da taxa de defeitos externa como variável de segmentação é motivada por duas razões. Em primeiro lugar, considera-se, no enquadramento da indústria automóvel, que a taxa de defeitos externa assume uma importância superior às restantes duas variáveis de segmentação enunciadas, pois traduz para o cliente o desempenho da empresa (McKinsey, 51 Análise Empírica 1994), sendo o principal critério de análise da qualidade dos fornecedores por parte dos OEM (McKinsey, 1994 e Veloso et al., 2000). Em segundo lugar, esta variável está fortemente correlacionada com as duas outras variáveis consideradas na análise de clusters referida no parágrafo anterior, com significância estatística - ver Figura 28 -, pelo que se considera como representativa do desempenho da empresa na qualidade. Figura 28: Correlações Entre os Indicadores do Desempenho na Qualidade Correlations Taxa_Def_Interna Taxa_Def_InternaTaxa_Sucata Taxa_Def_Interna Pearson Correlation1.000 .519* .311 Sig. (2-tailed) . .023 .302 N 19 19 13 Taxa_Def_Externa Pearson Correlation.519* 1.000 .758** Sig. (2-tailed) .023 . .002 N 19 22 14 Taxa_Sucata Pearson Correlation.311 .758** 1.000 Sig. (2-tailed) .302 .002 . N 13 14 14 * Correlation is significant at the 0.05 level (2-tailed). ** Correlation is significant at the 0.01 level (2-tailed). O método de Pearson é adequado, uma vez que se procuram estabelecer correlações lineares (Bryman e Cramer, 1997). Realiza-se assim uma segmentação da amostra em dois níveis de desempenho na qualidade: ? ? Um nível de "Qualidade Superior", composto por 11 empresas com taxas de defeitos externos inferior à mediana 31 da amostra; ? ? Um nível de "Qualidade Inferior", caracterizado por 11 empresas com uma taxa de defeitos externos superior à mediana da amostra. A Figura 29 ilustra a segmentação da amostra nos dois grupos de empresas. Figura 29: Segmentação da Amostra de Empresas 40000 Qualidade Superior Qualidade Inferior Taxa de Defeitos Externa (ppm) 35000 30000 25000 20000 15000 10000 5000 0 Mediana - 900 ppm 31 Usa-se para este fim a mediana e não a média, de forma a reduzir o eventual enviesamento devido à dispersão de valores registada neste indicador, sem um valor máximo definido. Esta práctica será repetida em situações semelhantes na restante análise. 52 Análise Empírica Como seria de esperar, os dois grupos assim constituídos apresentam níveis de desempenho na qualidade substancialmente diferentes em todas as variáveis relevantes, como prova a análise dos indicadores desta dimensão. Figura 30: Segmentação da Amostra Taxa de Defeitos Externos (ppm) Figura 31: Segmentação da Amostra Taxa de Defeitos Internos (ppm) 6000 14000 5000 12000 10000 4000 8000 3000 6000 2000 4000 1000 2000 Classe Mundial 0 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 98% Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 97% Figura 32: Segmentação da Amostra Taxa de Sucata (ppm) Figura 33: Segmentação da Amostra Taxa de Rework (% h produção) 16000 12.00% 14000 10.00% 12000 Classe Mundial 10000 8000 8.00% 6.00% 6000 4.00% 4000 2.00% 2000 Classe Mundial 0.00% 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 87% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 79% Os valores apresentados mostram que o primeiro grupo apresenta uma performance que o aproxima dos melhores a todos os níveis (e com significâncias elevadas), nomeadamente no caso das taxas de defeitos interna e externa. A análise do comportamento dos restantes indicadores para os dois grupos de empresas permitirá realizar algumas assunções e apontar algumas conclusões em relação às hipótese em estudo. b) Caracterização Geral dos Clusters O grupo de empresas de melhor desempenho ao nível da qualidade é caracterizado por empresas maiores - Figura 34 e Figura 35 - e, na sua maioria, de capital maioritariamente estrangeiro - Figura 36. 53 Análise Empírica Figura 34: Dimensão das Empresas (Volume de facturação - 1997) Figura 35: Dimensão das Empresas (Número de Trabalhadores - 1997) 350 9 000 000 300 8 000 000 7 000 000 250 6 000 000 5 000 000 200 4 000 000 150 3 000 000 100 2 000 000 1 000 000 50 0 Qualidade Superior 0 Qualidade Inferior Qualidade Superior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 97% Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 90% Figura 36: Nacionalidade das Empresas 100% 80% 60% Estrangeira Portuguesa 40% 20% 0% Qualidade Superior Qualidade Inferior O grupo de empresas de "Qualidade Superior" é caracterizado por uma maior incidência da certificação ao nível da ISO9001, Q1 32 33 ou QS 9000 , face ao grupo de empresas de "Qualidade Inferior". No entanto, a diferença não pode ser considerada como significativa, visto que, no nível de "Qualidade Superior", 73% das empresas analisadas têm certificação ao nível da ISO9001, Q1 ou QS 9000, contra 64% no grupo de empresas de "Qualidade Inferior". Embora se aceite a certificação como um passo importante para o desempenho da empresa na qualidade mas não é possível concluir que seja uma garantia desse mesmo desempenho nos fornecedores de componentes para automóvel em Portugal. Figura 37: Perfil de Certificação por Grupo de Empresas 80% 70% 60% 50% ISO9001, Q1, QS9000 ou equivalentes 40% Outras 30% 20% 10% 0% Qualidade Superior Qualidade Inferior 32 Norma de certificação desenvolvida pela Ford e aplicada aos seus fornecedores (Ford Motor Co., 2001). A norma QS 9000 derivou da harmonização e adaptação às norma de referência ISO9000 das normas de garantia de qualidade dos "três grandes" construtores norte-americanos Ford, Chrysler e GM, assim como dos construtores americanos de camiões (Bramorski et al., 2000). 33 54 Análise Empírica 3.2.2 Análise ao Nível Externo: A Qualidade e a Competitividade da Empresa O objectivo da análise que se desenvolve neste ponto é o de estabelecer uma relação dinâmica entre o desempenho da empresa na qualidade e a sua competitividade, isto é, perceber o nível em que a qualidade influencia o desempenho global das empresas de componentes para automóvel em Portugal, permitindo responder à primeira questão de investigação, "Em que medida é a qualidade um factor estratégico de competitividade no sector de componentes para automóvel em Portugal, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas?". a) Qualidade e Flexibilidade/Capacidade de Resposta A análise das figuras abaixo - em que os indicadores se encontram normalizados à dimensão da empresa - indicia o facto de que as empresas com um melhor desempenho na qualidade agregadas no grupo "Qualidade Superior" - apresentam uma maior flexibilidade, que lhes permite responder com maior eficiência às oscilações das solicitações do mercado. Como se observa, ainda que tendo em conta as reduzidas significâncias associadas à análise, os dados sugerem que as empresas de "Qualidade Superior" são capazes de lidar com um maior número de referências em produção simultânea. Este facto é tanto mais importante quanto estas empresas demonstram ainda a capacidade de trabalhar com dimensões menores de ordens de fabrico - suportada por uma significância superior. No entanto, apresentam um menor portfolio de referências de base, o que poderá indicar que uma racionalização das gamas de produtos tem efeitos positivos ao nível da qualidade e da flexibilidade da empresa. A capacidade de manter uma produção flexível permite-lhes lançar um maior número de referências novas, o que sugere um melhor desempenho ao nível da capacidade de desenvolvimento por parte destas empresas - a significância associada a este argumento é bastante superior às restantes. Figura 38: Número Total de Referências por 1 000 000 c. de Facturação Figura 39: Número Total de Referências em Produção Simultânea por 1 000 000 c. de Facturação 0.8 3.95 0.7 3.9 0.6 3.85 0.5 3.8 0.4 0.3 3.75 0.2 3.7 0.1 3.65 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 10% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 3% 55 Análise Empírica Figura 40: Número de Referências Novas por 1 000 000 c. de Facturação 0.4 Figura 41: Dimensão Típica de Ordem de Produção por 1 000 000 c. de Facturação 300 0.35 250 0.3 200 0.25 0.2 150 0.15 100 0.1 50 0.05 0 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 82% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 86% Para além da flexibilidade, pode analisar-se o impacto do desempenho na qualidade na capacidade de resposta dentro dos prazos exigidos pelo mercado. Efectivamente, as empresas de "Qualidade Superior" apresentam uma maior capacidade de resposta, traduzida 34 em menores order lead times , menores tempos entre entregas sequenciais e uma capacidade de entregar uma proporção muito significativa das suas vendas em just-in-time. Em acréscimo, a capacidade de cumprir menores prazos de entrega é ainda evidenciada pela reduzida taxa de encomendas em atraso. Figura 42: Order Lead Time Figura 43: Tempo entre Entregas Sequenciais 160 35 140 30 120 25 100 20 80 15 60 10 40 5 20 0 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 85% Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 93% Figura 44: Encomendas em Atraso Figura 45: Entregas em Just-In-Time 3.5% 160 3.0% 140 120 2.5% 100 2.0% 80 1.5% 60 1.0% 40 0.5% 20 0.0% 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 79% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 79% 34 Tempo que medeia entre o pedido da encomenda e a entrega, sendo que, no sector automóvel, o fornecedor é, em regra, responsável pela entrega. 56 Análise Empírica O significado estatístico é mais elevado no caso do tempo entre entregas sequenciais – 93% -, sendo ainda relativamente importante no caso dos restantes indicadores. b) Qualidade e Capacidade de Desenvolvimento As empresas de superior desempenho em termos de qualidade apresentam uma superior capacidade para responder a novas solicitações do mercado, seja desenvolvendo novos produtos - a significância da análise associada ao desenvolvimento de produto é particularmente elevada -, seja desenvolvendo os processos produtivos para o fabrico de produtos substancialmente diferentes. Tal traduz-se em tempos mais favoráveis de desenvolvimento de novos produtos - lead time de produto, na Figura 46 - ou de introdução ou adaptação de processos - lead time de processo, na Figura 47. Destas associações, só a relação entre desenvolvimento de produto e desempenho na qualidade tem suporte estatístico, conforme se pode observar nos dados de significância da diferença das médias. Em qualquer dos casos, a diferença das médias é elevada. O facto poderá estar associado à importância da qualidade como elemento agregador da actividade da empresa, numa lógica de qualidade total e, em particular, ao uso de métodos de planeamento associados às fases de design e de fabrico, como se terá oportunidade de analisar no ponto 0. Figura 46: Lead Time de Produto 35 Figura 47: Lead Time de Processo 20 18 30 16 25 14 12 20 10 15 8 10 6 4 5 2 0 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 95% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 8% Analisando estes dados em conjunto com o perfil de qualidade apresentado no ponto 3.1.2, em que se verificava que no grupo de empresas de "Qualidade Superior" se pode encontrar um peso maior de empresas com certificação ao nível da ISO 9001, Q1 e QS 9000, normas que incluem a fase de desenvolvimento de produto, pode assumir-se que o desempenho na qualidade e a capacidade de desenvolvimento de produto têm uma associação positiva ao nível das empresas de fabrico de componentes para automóvel em Portugal. Não foram recolhidos dados suficientes ao nível do investimento em I&D de modo a proceder à análise deste indicador. c) Qualidade e Desempenho no Fabrico Consideram-se os indicadores associados ao inventário, stock de matérias primas, work in progress e stock de produto acabado. Como se pode verificar pela análise das Figuras 53 a 57 Análise Empírica 55, as empresas de melhor desempenho ao nível da qualidade apresentam tendencialmente menor inventário a todos os níveis, o que se traduz numa gestão da produção mais eficiente e, consequentemente, num melhor desempenho ao nível do fabrico: o facto de deter menor inventário possibilita uma mais eficiente resposta às encomendas (Anupindi et al., 1998). Embora estas conclusões corroborem as de Davidson et al. (2001), os dados não são, no entanto, estatisticamente significativos. Figura 48: Stock de Matéria Prima Figura 49: Stock de Produto Acabado 4.0% 7.0% 3.5% 6.0% 3.0% 5.0% 2.5% 4.0% 2.0% 3.0% 1.5% 2.0% 1.0% 0.5% 1.0% 0.0% 0.0% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 21% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 67 % Figura 50: Work In Progress 3.0% 2.5% 2.0% 1.5% 1.0% 0.5% 0.0% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 47% d) Qualidade e Desempenho Financeiro Analisando a produtividade das empresas na Figura 51, verifica-se que as empresas com pior desempenho na qualidade apresentam uma maior taxa de crescimento anual da produtividade do trabalho 35 entre os anos de 1994 e 1997. 35 Para efeito da análise, e dada a escassez de dados, define-se produtividade do trabalho como o rácio entre o volume de facturação e o volume de vendas, o que está em conformidade com o contributo de Zairi et al. (1994). O facto de se analisar o seu crescimento médio minimiza as discrepâncias que poderiam resultar do facto de a amostra ser composta de empresas de sub-sectores diferentes de actividade. Tipicamente, a definição usada para o cálculo da produtividade ao nível da empresa é o rácio entre o valor acrescentado bruto, VAB - calculado como a soma da massa salarial, amortizações, juros, impostos e lucros -, e o número de trabalhadores. 58 Análise Empírica Figura 51: Crescimento da Produtividade no Trabalho 1994-1997 25.0% 20.0% 15.0% 10.0% 5.0% 0.0% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 63% Este facto poderá ser parcialmente devido ao facto de que, devido à sua inferior performance geral, as empresas do grupo de menor desempenho na qualidade são as que apresentam maior evolução na produtividade, fruto do aumento dos seus investimentos na qualidade - ver Figura 62, no ponto 3.2.3. A Figura 52 sugere, no entanto, que as empresas de maior qualidade as que viram um maior aumento médio da sua facturação nos mesmos anos, apesar de o valor não ser estatisticamente significativo. Figura 52: Crescimento da Facturação 1994-1997 20.0% 18.0% 16.0% 14.0% 12.0% 10.0% 8.0% 6.0% 4.0% 2.0% 0.0% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 25% 3.2.3 Análise ao Nível Interno: Determinantes da Qualidade da Empresa O objectivo da análise a este nível é o de realizar o estudo dos factores que determinam e influenciam de forma positiva o desempenho na qualidade da indústria de componentes para automóvel em Portugal. a) Relacionamento com Clientes e Fornecedores e Qualidade Como se concluiu nos pontos 1.5.1 e 1.5.2, o relacionamento com clientes e fornecedores é um componente essencial da gestão pela qualidade total na empresa, conforme indicado por diversos autores. 59 Análise Empírica Analisando o desenvolvimento de actividades com clientes para ambos os grupos de empresas (ver Figura 53) verifica-se, de um modo geral, uma maior tendência para a cooperação com clientes por parte das empresas de superior desempenho na qualidade. A partilha de informação sobre encomendas - por comunicação electrónica via EDI 36 - eo planeamento conjunto com clientes, assim como o uso conjunto de equipamentos logísticos, claramente mais frequentes no grupo de empresas de "Qualidade Superior", são elementos importantes para a organização de operações na empresa e para a coordenação das entregas com as necessidades dos clientes. Ao nível das actividades que podem contribuir para desenvolvimento da capacidade tecnológica, não é possível extrair conclusões evidentes, dado que, a um maior recurso a assistência técnica por parte dos seus clientes, as empresas de maior qualidade contrapõem uma menor tendência para o desenvolvimento de actividades de engenharia em conjunto com os seus clientes. Figura 53: Actividades Desenvolvidas com Clientes (% empresas) Uso conjunto de serviços logísticos de terceiros Uso conjunto de equipamentos logísticos (contentores, embalagens) Capacidade de produção dedicada Comunicação via EDI Conhecimento de stocks Acesso a sistemas de planeamento Assistência e apoio técnico Localização conjunta de instalações Qualidade Inferior Operações conjuntas de produção Qualidade Superior Engenharia (concepção de produtos e/ou processos) 0% 20% 40% 60% 80% Já no que respeita ao desenvolvimento de actividades com fornecedores, as empresas de maior qualidade são claramente mais activas aos mais diversos níveis. Figura 54: Actividades Desenvolvidas com Fornecedores Uso conjunto de serviços logísticos de terceiros Uso conjunto de equipamentos logísticos (contentores, embalagens) Capacidade de produção dedicada Qualidade Inferior Qualidade Superior Comunicação via EDI Conhecimento de stocks Acesso a sistemas de planeamento Assistência e apoio técnico Localização conjunta de instalações Operações conjuntas de produção Engenharia (concepção de produtos e/ou processos) 0% 10% 20% 30% 40% 50% Em acréscimo, são as empresas de maior qualidade que apresentam uma maior proporção de fornecedores certificados, o que sugere a importância da qualidade a montante e induz algum cuidado na selecção de fornecedores. A significância estatística é bastante elevada. 36 Electronic Data Interchange. 60 Análise Empírica Figura 55: % de Fornecedores Certificados 90.00% 80.00% 70.00% 60.00% 50.00% 40.00% 30.00% 20.00% 10.00% 0.00% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 99% O facto de serem estas empresas as mais dinâmicas no relacionamento com os seus fornecedores, caracterizados por um perfil de certificação de qualidade mais favorável, poderá dever-se ao facto de que as empresas deste grupo possam ter em maior medida um relacionamento mais próximo com os fabricantes de automóveis - os dados disponíveis não permitem tirar conclusões a este respeito -, assumindo maiores responsabilidades ao nível do fornecimento de produtos, o que lhes igualmente atribui maiores responsabilidades na gestão da sua própria cadeia de fornecimentos. b) Gestão / Afectação de Recursos e Qualidade De um modo geral, as empresas de melhor desempenho ao nível da qualidade têm um quadro de recursos mais qualificado, com uma proporção acima de 40% do total de trabalhadores com formação para além da escolaridade obrigatória, contra cerca de 26% no caso das empresas de pior desempenho na qualidade. Os graus de significância atribuídos a estas afirmações são particularmente elevados. Figura 56: Qualificações dos Recursos Humanos 80.00% 70.00% 60.00% 50.00% Qualidade Superior 40.00% Qualidade Inferior 30.00% 20.00% 10.00% 0.00% 9º ano ou inferior 12º ano ou inferior Licenciados Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 9º ano ou inferior - 90%; 12º ano ou inferior - 92%; Licenciados - 4%. De acordo com as dimensões críticas da gestão pela qualidade total, é de esperar que a implementação de prácticas de gestão dos recursos humanos que proporcionem maior flexibilidade ao potencial humano da empresa, seja fundamental para o seu desempenho na qualidade. De facto, as empresas de "Qualidade Superior" apresentam uma tendência claramente superior para o uso de prácticas de gestão como a organização do trabalho em 61 Análise Empírica equipas multi-disciplinares auto-geridas, a rotação de tarefas ou a polivalência de funções, embora a significância estatística associada a este argumento seja baixa. Figura 57: Flexibilidade dos Recursos Humanos 50% 45% 40% 35% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% % trabalhadores em equipas multidisciplinares auto-geridas % trabalhadores em % trabalhadores com rotação tarefas polivalência Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): trab. eq. - 77%; trab. rot. tarefas - 43%; trab. poliv. - 68%. Do mesmo modo, a implementação de métodos de recolha e implementação de sugestões de melhoria, motivando o envolvimento da força de trabalho no melhoramento contínuo da actividade, pode ser encarada, no seio das empresas de fabrico componentes para automóvel em Portugal, como um factor que potencia o seu desempenho na qualidade. Como se pode verificar pela análise da figura seguinte, a motivação da força de trabalho para a participação no processo de melhoramento é superior, sendo que os trabalhadores deste grupo de empresas contribuem em média com três vezes mais sugestões que os trabalhadores das empresas de menor qualidade. Figura 58: Sugestões Formalizadas e Implementadas 25 55% 20 54% 15 53% 10 52% 5 51% 0 50% Qualidade Superior Sugestões Formalizadas por 100 Trabalhadores Sugestões Implementadas por 100 Trabalhadores Sugestões Implementadas / Sugestões Formalizadas Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): sug. formalizadas - 15%; sug. implementadas - 37%; sug. implementadas/formalizadas - 26%. Regista-se um equilíbrio nos níveis salariais entre as empresas dos dois grupos, sendo que os dados revelam uma tendência para as empresas de menor qualidade fornecerem salários ligeiramente mais elevados aos seus trabalhadores. Assim, os salários não são um factor determinante do desempenho na qualidade das empresas de componentes para automóvel em Portugal. Analisando este facto em conjunto com as observações anteriores, pode observar-se que a implementação de prácticas de gestão de recursos humanos que propiciem o seu envolvimento no melhoramento contínuo da empresa poderá ser tomada como um elemento tendencialmente mais motivador de um desempenho mais favorável ao nível da qualidade que a práctica de níveis salariais superiores. 62 Análise Empírica Figura 59: Níveis Salariais 400 350 300 250 Qualidade Superior 200 Qualidade Inferior 150 100 50 0 Operário Encarregado / Chefe de Equipa Técnico (quadro intermédio) Engenheiro (quadro superior) Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): operário - 84%; enc. - 43%; técnico - 24%; eng. - 13%. A menor responsabilização e envolvimento dos trabalhadores no grupo de empresas de "Qualidade Inferior" motiva a necessidade de uma maior afectação de recursos à qualidade, o que não impede, mesmo assim, um desempenho menos favorável a este nível. As empresas de "Qualidade Inferior" afectam uma proporção significativamente superior (em cerca de 50%) dos seus recursos humanos à qualidade face às empresas de "Qualidade Superior", algo que poderia ser parcialmente explicado pelo facto de que estas últimas são de maior dimensão. Por outro lado, os trabalhadores dedicam no geral mais tempo à resolução de problemas, o que poderá ser devido a duas razões: em primeiro lugar, a necessidade de corrigir um maior número de problemas, conforme indicado pelas taxas de defeitos e rework ; em segundo, uma menor capacidade dos recursos humanos para a resolução rápida de problemas, motivada por factores como a menor familiarização com a generalidade das operações - as empresas de menor qualidade têm menor tendência para o flexibilização dos seus recursos humanos, conforme observado na Figura 57 -, um menor entrosamento entre as pessoas, dada e menor tendência para o envolvimento em equipas de trabalho, e um perfil de qualificação académica menos favorável - Figura 56. Figura 60: Trabalhadores Afectos à Qualidade Figura 61: Tempo Despendido na Resolução de Problemas 25 6.0% 5.0% 20 4.0% 15 3.0% 10 2.0% 5 1.0% 0.0% 0 Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 83% Qualidade Superior Qualidade Inferior Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 50% A afectação de recursos à qualidade por parte dos dois grupos de empresas pode ser complementada pela observação da evolução dos custos de qualidade. Após um salto na afectação de recursos financeiros à qualidade em 1995, os custos de qualidade das empresas de "Qualidade Superior" tem vindo a decrescer. Por outro lado, a afectação de 63 Análise Empírica recursos financeiros à qualidade nas empresas de menor desempenho na qualidade tem vindo a crescer gradualmente desde início da década de 1990. Figura 62: Custos da Qualidade 2.5% 2.0% 1.5% Qualidade Superior 1.0% Qualidade Inferior 0.5% 0.0% 1993 1994 1995 1996 1997 Significância da diferença das médias (t Student 2 tailed): 1993 - 54%; 1994 - 52%; 1995 - 50%; 1996 - 40%; 1997 - 27%. Analisando esta figura em conjunto com a Figura 27, pode assumir-se a importância do consórcio AutoEuropa na indústria de componentes para automóvel em Portugal. As empresas de ambos os clusters apresentam um ponto de crescimento em 1995, ano de entrada em produção do consórcio. Recordando a Figura 27, verifica-se que o ano de 1995 representa igualmente um acréscimo nas taxas de defeitos e de sucata para a generalidade das empresas. Podem assim realizar-se algumas assunções: o envolvimento das empresas no negócio com a AutoEuropa acarretou investimentos em termos de qualidade para fazer face às novas solicitações em termos de volume e de variedade; numa primeira fase, a introdução de novos produtos e respectivos volumes de produção resultaram num pior desempenho em termos de qualidade; os investimentos em qualidade realizados, assim como a familiaridade crescente com os novos produtos, tiveram resultados ao nível da melhoria do desempenho das empreas na qualidade. Note-se, ainda, que o grupo de empresas e pior desempenho na qualidade, caracterizado por empresas de menor dimensão e maioritariamente de nacionalidade portuguesa, não apresenta um esforço similar ao cluster de mlehor qualidade, o que poderá indiciar um menor envovlimento no negócio com o consórcio germano-americano nas primeiras fases de laboração. A confirmar-se este argumento, poder-se-ia reforçar a importância estratégica do desempenho na qualidade para a empresa. c) Instrumentos e Métodos e Qualidade A observação do comportamento das empresas segundo esta dimensão de análise não permite retirar conclusões acerca da importância de métodos estruturados de suporte à gestão pela qualidade total. 64 Análise Empírica Figura 63: Instrumentos e Métodos - Foco no Desenvolvimento 100% 90% Qualidade Superior 80% 70% Qualidade Inferior 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% FMEA QFD DFA DFM AV / Reeng Produto Eng Sim No que respeita a métodos mais intimamente associados à fase de desenvolvimento de produto, não existe uma tendência clara que permita assumir uma relação positiva entre o uso de métodos e o desempenho da empresa na qualidade. Figura 64: Instrumentos e Métodos - Foco no Fabrico 90% 80% 70% 60% 50% Qualidade Superior 40% 30% Qualidade Inferior 20% 10% 0% MRP MRP II JIT Kanban SPC Kaizen Eq Interd No que respeita a métodos associados à fase de fabrico, pode ser realçado o facto de que o planeamento e o controlo de processos não implicam melhor desempenho na qualidade, não sendo clara a relação no que respeita a métodos de melhoria do desempenho. Embora se esperasse verificar que o uso de instrumentos e métodos na empresa tivesse um impacto positivo no seu desempenho na qualidade, estudos como o de Brown (1997) sugerem que, de facto, o uso de ferramentas e técnicas não é, por si só, suficiente para explicar o melhor desempenho das empresas na qualidade. 65 Conclusões e Discussão 4. CONCLUSÕES Pretende-se no ponto 4 apresentar de forma sistemática as relações verificadas entre os diversos indicadores e o desempenho das empresas na qualidade, assim como discutir as principais conclusões da dissertação e as suas implicações em termos de política, deixando ainda algumas sugestões para trabalho futuro. Para tal, de acordo com o desenvolvimento da abordagem metodológica e da análise, define-se o "desempenho na qualidade" em função da taxa de defeitos externa das empresas, de acordo com a argumentação apresentada em 3.2.1a). O trabalho foi desenvolvido de modo a estudar o perfil de desempenho na qualidade das empresas de fabrico de componentes para automóvel em Portugal, tendo sido orientado segundo duas questões de investigação, "Em que medida é a qualidade um factor estratégico de competitividade no sector de componentes para automóvel em Portugal, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas?" e "Quais são, no sector de componentes para automóvel em Portugal, caracterizado por uma aposta recente na qualidade, os factores internos às empresas que determinam o seu desempenho ao nível da qualidade, os quais se designarão de "determinantes da qualidade?", cujo estudo foi suportado pela hipótese de que “Em empresas do sector automóvel com uma aposta recente na qualidade, esta é um factor estratégico, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas, sendo o desempenho na qualidade determinado por factores internos às empresas, enquanto a certificação não é por si só um determinante deste desempenho.” As conclusões que resultaram do estudo destas questões não só traduzem uma resposta às mesmas como permitem induzir alguns pontos de reflexão no que ao desenvolvimento do sector diz respeito, com implicações para as políticas públicas e para a estratégia de desenvolvimento das empresas e outras entidades que se posicionam no sector automóvel. 4.1 Modelo de Análise O modelo conceptual usado, desenvolvido com base nas contribuições de diversos autores, permitiu, através do uso de um conjunto de dados recolhido no âmbito da aplicação do estudo "Global Auto Parts" a Portugal, responder às questões de investigação, tendo-se revelado adequado como suporte a uma abordagem abrangente e estruturada à qualidade nas empresas de componentes para automóvel em Portugal. Para tal, o modelo conceptual foi estruturado em dois níveis fundamentais, um primeiro, designado de "externo", em que se relaciona o desempenho na qualidade com outras dimensões da competitividade da empresa, e um segundo, designado de "interno", em que se relacionam um conjunto de factores associados à organização da actividade da empresa segundo a gestão pela qualidade total ao desempenho na qualidade. 66 Conclusões e Discussão Com base no modelo conceptual, foi desenvolvida uma análise de clusters de empresas, realizada através da observação dos indicadores considerados no modelo conceptual em cada cluster. A definição dos clusters foi realizada em função da taxa de defeitos medidos no cliente, conforme descrito em 3.2.1a), e revelou-se adequada à análise, tendo-lhe atribuído consistência. O método de análise adoptado foi o de comparação das médias dos valores dos indicadores para os dois conjuntos de empresas, suportado pelo método de T de Student de análise do significado estatístico da diferença das médias. 4.2 Resultados 4.2.1 Nível Externo: A Qualidade e a Competitividade das Empresas Apresentam-se neste ponto de forma sistemática as relações verificadas entre os diversos indicadores das dimensões da análise de "nível externo" e o desempenho das empresas na qualidade, de forma a responder à questão de investigação: "Em que medida é a qualidade um factor estratégico de competitividade no sector de componentes para automóvel em Portugal, com impacto noutras dimensões críticas da competitividade das empresas?". O Quadro 9 resume estas relações, estabelecendo o paralelo com as relações esperadas. Quadro 9: Resumo da Análise dos Indicadores no Nível Externo Dimensões de Anál ise e Indicadores Relação Esperada com Desempenho na Qualidade Relação Verificada com Desempenho na Qualidade Significância Estatística da Diferença das Médias Flexibilidade/Capacidade de Resposta Número Total de Referências Número Total de Referências em Produção Simultânea Número de Referências Novas Dimensão Típica de Ordem de Produção Order Lead Time Tempo entre Entregas Simultâneas Encomendas em Atraso Entregas em Just-In-Time ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? 10 % ?? ?? ?? ?? ?? - 95 % ?? ?? ?? ?? ?? ?? 21 % ?? ?? ?? ?? 63 % 3% 82 % 86 % 85 % 93 % 79 % 79 % Capacidade de Desenvolvimento Lead Time de Produto Lead Time de Processo Investimento em I&D 8% - Desempenho no Fabrico Stock de Matéria Prima Stock de Produto Acabado Work In Progress 67 % 47 % Desempenho Financeiro Crescimento da Produtividade no Trabalho Crescimento da Facturação 25 % ? ? - indica que um melhor desempenho na qualidade, medido em função média da taxa de defeitos externa, implica u m valor menor da média do indicador em análise; ? ? - indica que um melhor desempenho na qualidade, medido em função média da taxa de defeitos externa, implica um valor maior da média do indicador em análise Com base na análise desenvolvida em 3.2.2 e sistematizada no quadro acima, pode concluirse que a qualidade é, efectivamente, um factor estratégico de competitividade para as empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal. 67 Conclusões e Discussão Sendo a qualidade um elemento agregador e orientador de toda a actividade da empresa, tem reflexos ao nível do seu desempenho global. Consequentemente, permite sustentar o seu crescimento e a assunção de um posicionamento competitivo mais favorável, assente em capacidades reforçadas aos níveis do desempenho no fabrico e da capacidade de resposta às solicitações do mercado, o que se traduz no domínio das variáveis custo, qualidade e capacidade de resposta. Esta conclusão tem por base a análise das relações entre o desempenho na qualidade e as restantes dimensões críticas do desempenho global da empresa, que sugerem que: ? ? As empresas com melhor desempenho na qualidade têm maior flexibilidade. São capazes de lidar com um maior número de referências em produção simultânea (embora apresentem um menor portfolio de referências de base), demonstrando a capacidade de trabalhar com dimensões menores de ordens de fabrico e sendo capazes de lançar um maior número de referências novas. Têm, por outro lado, maior capacidade de resposta, traduzida em menores order lead times e menores tempos entre entregas simultâneas, garantindo uma proporção muito significativa das suas vendas em just-in-time com menores taxa de encomendas em atraso; ? ? As empresas com melhor desempenho na qualidade têm maior capacidade de desenvolvimento ao nível do produto e do processo, o que é evidenciado pelos menores tempos associados ao desenvolvimento - lead times; ? ? As empresas com melhor desempenho na qualidade têm melhor desempenho ao nível do fabrico, apresentando tendencialmente menor inventário, com menores valores de stock de matérias primas, work in progress e stock de produto acabado, o que possibilita uma mais eficiente resposta às encomendas; ? ? As empresas com melhor desempenho na qualidade demonstram um maior crescimento da facturação nos anos em análise, mas apresentam uma menor taxa de crescimento anual da produtividade do trabalho. Analisando a significância estatística das relações, a relação positiva entre o desempenho na qualidade e a capacidade de desenvolvimento de produto, até aqui apresentada como um factor crítico para o desenvolvimento da estrutura de fornecedores, encontra-se suportada pela análise de T de Student de diferença das médias: a relação entre tempo de desenvolvimento de produto e desempenho na qualidade apresenta um valor de significância de 95%, enquanto a relação positiva entre desempenho na qualidade e o número de referências novas - indicador que pode ser associado à capacidade de desenvolvimento tem uma significância de 86%. A relação entre o desempenho na qualidade e a flexibilidade tem um suporte estatístico não muito elevado, embora as diferenças das médias do número de referências novas e da dimensão do lote apresentem significâncias de, respectivamente, 82% e 86%. A relação entre o desempenho na qualidade e a capacidade de resposta apresenta igualmente um suporte estatístico razoável: as relações entre order lead time, tempo entre entregas, encomendas em atraso e proporção de entregas em just in time e desempenho na qualidade apresentam, respectivamente, significâncias de 85%, 93%, 75% e 79%. 68 Conclusões e Discussão As relações estabelecidas entre os indicadores das dimensões de desempenho no fabrico e desempenho financeiro e o desempenho na qualidade não têm suporte estatístico. No entanto, há que realçar o facto de que, dada a reduzida dimensão da amostra poderá, níveis médios de significância podem eventualmente ser estatisticamente significativos. Por último, deve referir-se o facto de que, contrariamente ao esperado, as empresas do grupo com pior desempenho na qualidade apresentam uma maior taxa média de crescimento anual da produtividade do trabalho. O facto poderá ser parcialmente devido ao aumento dos investimentos das empresas deste grupo, mais significativo nos anos em análise do que no caso das empresas do grupo de melhor desempenho na qualidade, conforme evidenciado pela Figura 62, no ponto 3.2.3. 4.2.2 Nível Interno: Os Determinantes da Qualidade das Empresas O Quadro 10 resume de forma sistemática as relações verificadas entre os diversos indicadores das dimensões da análise de "nível interno" e o desempenho das empresas na qualidade, fazendo o paralelo com os resultados esperados. As conclusões daí decorrentes permitem responder à segunda questão de investigação: "Quais são, no sector de componentes para automóvel em Portugal, caracterizado por uma aposta recente na qualidade, os factores internos às empresas que determinam o seu desempenho ao nível da qualidade, os quais se designarão de "determinantes da qualidade". Quadro 10: Resumo da Análise dos Indicadores no Nível Interno Relação Esperada com Desempenho na Qualidade Dimensões de Análise e Indicadores Relação Verificada com Desempenho na Qualidade Significância Estatística da Diferença das Médias Relacionamento com Clientes e Fornecedores Actividades Desenvolvidas com Clientes Actividades Desenvolvidas com Fornecedores % de Fornecedores Certificados ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ?? ? ?? ? 90 % ?? ?? ? ? - 99 % Gestão / Afectação de Recursos Qualificações % Até 9ª ano % 9º a 12º ano % Licenciatura Trabalho em Equipas Autogeridas Trabalhadores em Rot. de Tarefas Trablhadores em Polivalência Sugestões Formalizadas Sugestões Implementadas Sugestões Formalizadas e Implementadas Tempo Despendido na Resolução de Problemas Níveis Salariais Trabalhadores Afectos à Qualidade Custos da Qualidade (1993 a 1997) 92 % 4% 77 % 43 % 68 % 15 % 37 % 26 % 50 % 83 % - Instrumentos e Métodos Instrumentos e Métodos - Desenvolvimento Instrumentos e Métodos - Fabrico - ? ? - indica que um maior valor da média do indicador em análise implica um pi or desempenho na qualidade, medido em função da média da taxa de defeitos externa; ? ? - indica que um maior valor da média do indicador em análise implica um melhor desempenho na qualidade, medido em função da média da taxa de defeitos externa; ? - sem relação claramente definida 69 Conclusões e Discussão Com base na análise exposta acima, pode concluir-se que existem factores internos às empresas que determinam o seu desempenho ao nível da qualidade. A conclusão tem por base a análise das relações entre o desempenho na qualidade, definido em função da taxa de defeitos externa, e as restantes dimensões críticas do desempenho global da empresa, que sugere que: ? ? Uma maior intensidade de desenvolvimento de actividades em conjunto com clientes e fornecedores está associada a um melhor desempenho na qualidade. No caso do relacionamento com clientes, a partilha de informação sobre encomendas, o planeamento conjunto, assim como o uso conjunto de equipamentos logísticos, são mais evidentes no conjunto de empresas de "Qualidade Superior"; no entanto, não é possível extrair conclusões evidentes ao nível das actividades que podem contribuir para desenvolvimento da capacidade tecnológica, dado que, a um maior recurso a assistência técnica por parte dos seus clientes, as empresas de maior qualidade contrapõem uma menor tendência para o desenvolvimento de actividades de engenharia em conjunto com os seus clientes. No que respeita ao desenvolvimento de actividades com fornecedores, as empresas de qualidade superior são claramente mais activas. A certificação dos fornecedores, por seu lado, tem igualmente uma relação positiva com o desempenho na qualidade; ? ? Um quadro de recursos humanos mais qualificados, mais flexíveis e mais participativos está associado a um melhor desempenho na qualidade. As empresas de melhor desempenho ao nível da qualidade têm um quadro de recursos mais qualificado, com uma proporção acima de 40% do total de trabalhadores com formação para além da escolaridade obrigatória, contra cerca de 26% no caso das empresas de pior desempenho na qualidade. As empresas de "Qualidade Superior" apresentam uma tendência superior para a gestão dos seus colaboradores de acordo com prácticas como como a organização do trabalho em equipas multi-disciplinares auto-geridas, a rotação de tarefas ou a polivalência de funções. Por outro lado, a implementação de métodos de recolha e implementação de sugestões de melhoria é igualmente mais importante no caso das empresas de desempenho superior; ? ? A afectação de recursos à qualidade não garante o superior desempenho na qualidade. De facto, as empresas de "Qualidade Inferior" apresentam um nível de afectação de recursos à qualidade superior ao das empresas de "Qualidade Inferior". No que respeita ao investimento em qualidade, as empresas de "Qualidade Inferior" têm vindo a aumentar este valor nos últimos anos, ao contrário das empresas de "Qualidade Superior"; ? ? O uso de instrumentos e métodos não tem implicações no desempenho na qualidade. Por outro lado, a existência de certificação não parece ter uma relação definida com o desempenho na qualidade. Analisando a significância estatística das relações, e tomando o caso da relação com clientes e fornecedores como um dos determinantes da qualidade das empresas, em que se 70 Conclusões e Discussão analisam as ocorrências dos diversos tipos de relação, o contributo poderá assumir-se como significativo, pois registam-se ocorrência para a totalidade das empresas. Reforçando este argumento, a análise do perfil dos fornecedores indica, com elevada confiança - uma significância de 99% para uma diferença das médias de cerca de 20% -, que a qualidade a montante da actividade produtiva deverá ser alvo de cuidado por parte das empresas. Ao nível da gestão e afectação de recursos, deve ser evidenciada a importância da qualificação das pessoas: o cluster de empresas de melhor desempenho ao nível da qualidade tem um quadro de recursos mais qualificado, com uma proporção acima de 40% do total de trabalhadores com formação além da escolaridade obrigatória, contra cerca de 26% no caso das empresas de pior desempenho na qualidade, com graus de significância particularmente elevados - 90% no caso de escolaridade até ao 9º ano e 92% no caso da escolaridade entre o 9º e o 12º anos. As significâncias associadas ao uso de prácticas de gestão dos recursos humanos não reduzidas, sendo as estatisticamente mais importantes o caso de trabalho em equipas autogeridas, com 77% e a polivalência de funções, com 68%. No que respeita à afectação de recursos à qualidade, verifica-se uma significância relativamente pouco elevada no caso da diferença das médias da proporção de trabalhadores afectos à qualidade - 83% -, enquanto as diferenças nas médias dos salários só encontram significâncias desta ordem no caso dos operários - 84%. As diferenças nas médias dos custos da qualidade não tem significado estatístico. Realce-se, ainda, o facto de que não é possível concluir que a certificação seja uma garantia do desempenho na qualidade nos fornecedores de componentes para automóvel em Portugal, como foi possível observar aquando da análise da Figura 37, no ponto 3.2.1b). Como se argumentou em 1.6, a certificação é um requisito de acesso ao mercado, não reflectindo por si o desempenho da empresa. Por outro lado, pode argumentar-se que o nível de qualificação dos recursos pode estar relacionado com a capacidade de apropriação dos métodos e instrumentos associados à certificação, como se discute em 4.3. Pode assim concluir-se que o desempenho na qualidade é função da capacidade intrínseca dos recursos - de que é exemplo evidente o caso da qualificação académica - e da gestão dos recursos, mais do que da afectação de mais recursos. A existência de certificação, assim como o recurso a instrumentos e métodos não parecem ter uma relação definida com o desempenho na qualidade. 71 Conclusões e Discussão 4.3 Discussão De um modo geral foi possível verificar, através da análise, que as empresas de fabrico de componentes para automóvel em Portugal podem ser classificadas em dois grupos com características distintas. Um primeiro, que se designou de "Qualidade Superior", é sucintamente caracterizado por empresas com superior desempenho em termos dos principais indicadores de qualidade - abaixo ou próximo dos níveis de referência considerados de "classe mundial" 37 -, onde se agrupam a maioria das empresas de capital maioritariamente estrangeiro presentes na amostra, apresentando superior desempenho ao nível da produção, da capacidade de desenvolvimento de produto e da flexibilidade. Um segundo, composto na sua maioria por empresas de capital maioritariamente nacional, é caracterizado por indicadores de qualidade menos favoráveis e longe dos valores considerados de referência para o sector pelo estudo da McKinsey (1994). Em segundo lugar, de modo a melhor se compreender o problema em estudo, é importante verificar o carácter relativamente recente da aposta na qualidade das empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal. Não obstante o facto de que, actualmente, a qualidade assume uma importância estratégica em termos do posicionamento na indústria automóvel (ver 1.3) mas como "condição necessária" e não "suficiente", enquanto outros factores, como a capacidade de desenvolvimento de produto, assumem uma importância diferenciadora, a qualidade é ainda, no grupo de empresas do sector de componentes para automóvel em Portugal, uma das principais apostas para o seu desenvolvimento, sendo o principal factor de orientação estratégica das empresas - Figura 6. Tal poderá ser em parte motivado pelo carácter relativamente recente da aposta da maioria das empresas na qualidade, fortemente marcada pela resposta ao desafio da instalação da AutoEuropa em Portugal no início da década de 1990 (Féria, 1999), conforme apresentado em 1.4.5. Como se viu, esta aposta tem vindo a motivar uma melhoria do desempenho das empresas em termos dos principais indicadores de medida da qualidade, taxa de defeitos externa, taxa de defeitos interna e taxa de sucata (Figura 27), mas, de um modo geral, posiciona as empresas longe dos valores de referência, definidos como de "classe mundial" pela McKinsey (1994), nomeadamente no que respeita à taxa de defeitos externa. Este indicador assume uma importância superior aos restantes indicadores de qualidade, ao traduzir para o cliente o desempenho da empresa (McKinsey, 1994), sendo o principal critério de análise da qualidade dos fornecedores por parte dos OEM (McKinsey, 1994 e Veloso et al., 2000). 37 Definem-se como valores de referência de “classe mundial” para a taxa de defeitos externa, taxa de sucata e rework, respectivamente, 240 ppm, 1.1% e 1.2% (McKinsey, 1994). 72 Conclusões e Discussão Tendo-se argumentado em 1.5 que a qualidade assume um posicionamento horizontal ao nível da empresa, de acordo com a filosofia da Gestão pela Qualidade Total (Womack e Jones, 1996, Tan, 1997, Dale et al., 1994), actuando "[...] como um elemento que induz a motivação, a liderança e a criatividade, factores vitais para a produtividade, a eficiência, o lucro e a qualidade do trabalho nas organizações" (Tan, 1997), importa estudar até que ponto a qualidade tem um impacto positivo noutros factores de posicionamento estratégico, assim como compreender quais os factores que estão por detrás do desempenho de empresas em estado intermédio de desenvolvimento na qualidade. Analisando o estudo das questões de investigação no enquadramento destas primeiras reflexões, foi possível inferir, com base na análise efectuada, que a qualidade está efectivamente associada à competitividade das empresas de componentes para automóvel em Portugal. Não só é um factor de competitividade por si só, como tem igualmente uma relação directa com outras dimensões chave da competitividade das empresas consideradas no modelo conceptual. Com suporte na análise estatística, é possível realçar a relação entre a qualidade e a capacidade de desenvolvimento de produto e entre a qualidade e a capacidade de resposta nas empresas de componentes para automóvel em Portugal. Verificou-se, com significado estatístico, que as empresas de melhor qualidade têm um desempenho mais favorável em termos de desenvolvimento de produto, respondendo dentro de prazos mais curtos às solicitações dos seus clientes. Verificou-se ainda que as empresas de melhor qualidade têm maior capacidade de responder aos prazos de encomendas solicitados pelos seus clientes, apresentando tempos de entrega mais curtos e com menores atrasos. Estas inferências corroboram o resultado do estudo da McKinsey (1994), assim como alguns dos resultados apresentados por Veloso et. al (2000). Com base na análise da relação entre diversos factores internos e o desempenho na qualidade, verificou-se que o envolvimento da empresa em actividades conjuntas com os seus fornecedores tem um efeito positivo, sendo, em acréscimo, a qualidade dos fornecedores um elemento importante para o desempenho das empresas na qualidade. O principal resultado deste trabalho é, no entanto, que o desempenho na qualidade das empresas de componentes para automóvel em Portugal se afigura essencialmente como sendo fruto da capacidade intrínseca dos recursos da empresa e da sua gestão mais do que da quantidade de recursos atribuídos à qualidade. Em particular, o trabalho sugere que as capacidades e competências dos recursos humanos e a sua correcta gestão são consideradas o ponto chave da qualidade nas empresas de componentes para automóvel em Portugal: o nível de qualificações, nomeadamente a proporção de pessoas acima da escolaridade mínima obrigatória (9º ano de escolaridade) é determinante; a implementação de prácticas de gestão dos recursos, potenciando o seu envolvimento na actividade e a sua flexibilidade, mais do que a afectação de mais recursos à qualidade, é fundamental. A existência de certificação ou o uso de ferramentas e métodos não são, por outro lado, determinantes do desempenho das empresas da amostra na qualidade. 73 Conclusões e Discussão De entre os autores citados na revisão bibliográfica, são vários (Carpinetti, Santos e Gonçalves, 1998, Sun et al., 2000, Peters, 1996) os que apresentam resultados que sugerem a importância da qualificação e do uso de prácticas de gestão dos recursos humanos enquanto elementos chave do desempenho das empresas ao nível da qualidade. No âmbito alargado do sector industrial, o trabalho de Carpinetti, Santos e Gonçalves (1998) aponta para o papel fundamental da gestão das pessoas enquanto elemento chave. Aponta, entre outros, a qualificação (conhecimentos técnicos e competências) e formação (com foco na aprendizagem e na capacidade de resolução de problemas) como elementos chave desse mesmo desempenho que, como se concluiu, tem um impacto positivo no desempenho global da empresa. Sun et al. (2000), ao concluírem sobre a importância do envolvimento dos colaboradores no desempenho das empresas ao nível da qualidade e ao nível global do negócio, referem a importância do suporte em informação adequada, formação e qualificação. Peters (1996) regista a relação entre qualidade, formação e aprendizagem. Segundo os seus trabalhos, o melhoramento contínuo exige o empenho na aprendizagem, sendo fundamentais para o sucesso do desempenho da empresa na qualidade a existência de uma cultura de aprendizagem, baseada no desenvolvimento de competências focado nas suas áreas chave, seja ao nível do staff operacional ou de gestão. No entanto, é importante realçar o facto de que, no presente estudo, em que se considerou a análise da relação de diversos factores com a qualidade, não só se registam relações positivas entre qualificação e gestão dos recursos e o desempenho na qualidade, corroborando diversos estudos teóricos e resultados empíricos como os citados acima, como estas emergem com particular destaque face às relações associadas aos restantes indicadores. Recorde-se ainda que amostra é composta por empresas cujo empenho na qualidade é relativamente recente, sendo, por outro lado, empresas que procuram o desenvolvimento do seu posicionamento na cadeia de valor, fazendo parte de um sector num estado intermédio de desenvolvimento, que enfrenta um conjunto de factores críticos para além da qualidade (Inteli, 2000). Pode assim sugerir-se que, para empresas cujo envolvimento na qualidade é um processo recente e em desenvolvimento, os factores que determinam o seu desempenho na qualidade – e, conforme demonstrado em 3.2.2, a sua competitividade – são a qualificação e a gestão dos recursos humanos e não a atribuição de mais recursos à qualidade. O uso de ferramentas e métodos de planeamento e controlo ou a existência de certificação de qualidade, que encerra em si um largo conjunto de regras e procedimentos, não demonstraram uma relação clara com a dimensão chave da análise, não sendo, por si só, determinantes do desempenho na qualidade. À partida, seria de considerar que a existência de certificação ou o uso ferramentas e métodos demonstrassem de forma expressiva uma relação positiva com o desempenho na qualidade. Como refere North (1993), os indivíduos interpretam o mundo em redor de acordo com modelos mentais ditados em parte pelo seu meio cultural, pelo que a existência de 74 Conclusões e Discussão regras e procedimentos – “instituições” 38 - que unifiquem as acções dos indivíduos no seio das organizações é fundamental. Blind e Hipp (2001) argumentam a importância de normas associadas à certificação (baseada na série ISO 9000, no caso) como elemento que promove uma gestão flexível das empresas, com impacto na sua capacidade de responder às solicitações dos clientes e no cumprimento de prazos. No entanto, a capacidade de interiorizar um conjunto significativo de “instituições” poderá estar associada ao nível de qualificação das empresas: McQuater et. al (1995), ao abordarem a importância e sucesso de ferramentas e métodos de gestão da qualidade, apontam a qualificação dos colaboradores como um problema para a implementação desses mesmos métodos. A qualificação dos recursos não reflecte, nos termos da análise – em que se foca a formação académica -, uma relação directa com a qualificação para as tarefas específicas desempenhadas no seio da empresa. No entanto, a qualificação assume uma importância fundamental para o desempenho dos colaboradores, ao dotá-los com formação de base, motivadora da capacidade de aprendizagem e da capacidade de raciocínio e de equação de problemas de forma cognitiva, o que se define como "capacidade de absorção" por Kinder e Lancaster (2001). Como Sohal e Morrison (1995) sugerem, regista-se uma ligação entre a gestão pela qualidade total e a aprendizagem: a gestão pela qualidade total cria o ambiente necessário para a aprendizagem organizacional; esta, por sua vez, gera vantagens competitivas pela capacidade de adaptação a uma envolvente em mudança, de melhoramento contínuo e de absorção de novos conceitos e inovações. Sendo a qualificação académica dos recursos um ponto chave, acresce, porém, que a componente de formação das empresas, embora sujeita a sucessivos quadros de incentivos, nomeadamente no âmbito do PEDIP I e PEDIP II e do actual POE, tem até hoje sido algo desintegrada e não correctamente orientada para o reforço de capacidades e competências. Como afirma Simões (1997), "a regra tem sido a formação avulsa, um pouco ao sabor das oportunidades de obtenção de apoio financeiro...". A aposta em formação específica para o reforço ou desenvolvimento de novas áreas de competências é pouco expressiva, sendo o usual a formação on the job. A indústria automóvel é uma indústria caracterizada por uma forte dinâmica de evolução, seja ao nível dos mercados, dos produtos ou das tecnologias, o que acarreta implicações não só para a forma como as empresas se posicionam no mercado mas igualmente para a forma como gerem os seus recursos e o conhecimento afectos a processos e produtos. A capacidade de aprendizagem das empresas que nela se posicionam, acompanhando uma envolvente que evolui rapidamente, assume uma importância vital. Por outro lado, a vontade de ascensão na cadeia de valor do fornecimento de componentes para automóvel, o caminho mais desejado para o desenvolvimento estratégico das empresas, exige, pela maior 38 Definem-se "instituições" como o conjunto de regras formais (leis, regulamentação) e informais (convenções, normas de comportamento códigos de conduta auto-impostos), assim como o carácter coercivo de ambas (North 1993). 75 Conclusões e Discussão complexidade associada a produtos de maior valor acrescentado, o domínio de um conjunto mais alargado de competências e capacidades, o que reforça a importância da formação e qualificação dos recursos humanos para responder a esse desafio. Como referem Kinder e Lancaster (2001), ao nível "macro", a capacidade de desenvolver tecnologicamente uma região ou um sector requer uma capacidade de absorção capaz de acompanhar de forma criativa as evoluções dos mercados, reutilizando e recombinando o conhecimento de forma inovadora, gerando mais conhecimento. As principais conclusões da dissertação vão de encontro às preocupações das empresas do sector: no âmbito do estudo de Veloso et. al (2000), que se expande neste trabalho, uma análise da opinião das empresas sobre os factores inibidores do seu desenvolvimento revelava que a maior dificuldade encontrada pelas empresas de fabrico de componentes para automóvel é a formação dos recursos humanos. Em particular, a desadequação das entidades de formação face à necessidade das empresas foi apontada como um problema de fundo no que respeita ao quadro de recursos humanos para o sector. Por outro lado, as conclusões são tanto mais relevantes quanto o baixo custo dos recursos humanos tem sido a base da vantagem competitiva do sector de componentes para automóvel português, assim como um dos factores motivadores do investimento directo associado ao sector. O reforço da implementação de prácticas de gestão dos recursos humanos que visem a sua flexibilização e, fundamentalmente, o reforço das suas qualificações, assim como a consciencialização das empresas para a necessidade de integrarem nos seus quadros recursos mais qualificados deverá contribuir para um balanço positivo entre o custo da mão-de-obra e o seu desempenho no seio do sector, garantindo a competitividade da mão-de-obra dentro de um cenário de abertura das economias a Leste e de procura da paridade do poder de compra entre as economias da União Europeia. 4.4 Implicações O primeiro elemento de reflexão com implicações em termos de política está relacionado com a oportunidade de geração de uma orientação política para o sector. O sector automóvel 39 assume características de cluster , com uma cadeia de valor relativamente bem definida em Portugal, de acordo com a tipologia definida em 1.3.3b). Sendo um sector potencialmente estruturante da economia portuguesa dado, por um lado, o seu peso nos principais indicadores económicos e, por outro, o seu carácter multisectorial (o sector de fabrico de componentes para automóvel é composto de um conjunto de sub-sectores que se 39 Uma definição de cluster é a de rede de empresas fortemente interdependentes (incluindo fornecedores especializados), agentes geradores de conhecimento (universidades, institutos de investigação, empresas de engenharia e desenvolvimento), instituições facilitadoras (brokers, consultoras) e clientes, ligados entre si por uma cadeia de valor acrescentado (Boekholt e Thuriaux, 1999). 76 Conclusões e Discussão posicionam em torno da cadeia de valor do produto, o automóvel), que proporciona potencialmente um efeito de arrastamento para os diferentes sub-sectores que o compõem, o sector de componentes para automóvel em Portugal surge como um sector com importância estratégica no seio da economia. Por estas razões, evidencia-se a importância de uma estratégia, uma "visão" do sector, que reuna o conjunto de intervenientes na indústria automóvel em Portugal, e que permita aos agentes de política o desenvolvimento de uma abordagem estruturada ao sector, assente em acções de política orientadas para o mesmo. Dadas as características de interactividade entre organizações que definem os clusters, a OCDE (1999) tem vindo a discutir a sua importância enquanto “sistemas nacionais de inovação à escala reduzida”, com uma dinâmica própria mas com características que os aproximam dos modelos dos sistemas nacionais de inovação. Um dos grandes desafios que se colocam às entidades políticas é o de criar condições de base favoráveis ao desenvolvimento dos clusters, sistemas de aprendizagem cooperativa, englobando empresas, entidades de suporte ao desenvolvimento tecnológico e à inovação e entidades públicas, incentivando em simultâneo a cooperação entre as empresas e entre estas e outras organizações. A promoção de linhas de acção aos níveis da educação, do sistema financeiro, da competição e da regulação da cooperação são apontadas como as principais para a definição de abordagens estruturadas aos clusters. Como vectores de orientação destas linhas de acção, a OCDE realça os esquemas de estímulo à partilha de conhecimento, a cobertura de lacunas de informação (promovendo informação estratégica), incentivo à cooperação, incentivo ao desenvolvimento de I&D focado no cluster, incentivos ao investimento ou a criação de centros de excelência. Esta abordagem, cuja discussão foi aberta em Portugal pelo trabalho de Porter 40 (GEP/MIE, 1995), tem vindo a ser adoptada por diversos países, em detrimento de uma abordagem horizontal ao nível sectorial. Uma política orientada para clusters contribui para a minimização de imperfeições nos sistemas de inovação (OCDE, 1999) e, embora seja referida a aposta nos clusters enquanto factores de desenvolvimento regional, pode argumentar-se que a abrangência internacional de clusters como o automóvel (a indústria automóvel é iminentemente global, conforme referido em 1.3.2) tem um impacto positivo na dinâmica de inovação do cluster. No que respeita à análise, esta permitiu, em primeiro lugar, reforçar o facto de que a qualidade é um factor crítico de competitividade das empresas de fabrico de componentes para automóvel em Portugal, não só pelo forte argumento de competitividade que assume per se, mas também pelo seu carácter estruturante de toda a actividade da empresa e do seu bom desempenho. Ainda assim, a aposta na qualidade é relativamente recente e registase a existência de um grupo de empresas com um nível de desempenho na qualidade francamente abaixo dos níveis de referência. 40 O sentido de cluster assume, para Porter, uma definição como “concentrações geográficas de empresas e outras organizações ligadas entre si, no âmbito de um campo particular de actividade (Porter, 1998). 77 Conclusões e Discussão Em segundo lugar, o resultado do estudo com maior relevância para a política pública é o facto de que existe uma associação directa entre o nível de qualificação do quadro de recursos humanos das empresas e o seu desempenho na qualidade que, como se argumentou, tem impacto ao nível da competitividade global das empresas. Em analogia, a flexibilidade e a participação dos recursos são importantes para o desempenho na qualidade, mas a existência de certificação não. Assim, os resultados da presente dissertação realçam a importância de dois vectores de desenvolvimento da estrutura empresarial: a qualidade e a formação/qualificação dos recursos humanos das empresas. O estudo centrou-se na análise de um conjunto de empresas de fabrico de componentes para automóvel, pelo que as principais reflexões em termos de política serão direccionadas para esse mesmo sector. Todavia, considera-se que parte significativa das reflexões que se apresentam em seguida têm implicações no âmbito da globalidade do sector industrial em Portugal. Tomando a qualidade e o quadro de recursos humanos como referência, discute-se a implementação de acções de política que promovam o desenvolvimento das empresas segundo estes dois vectores, com impacto a diversos níveis. A montante da actividade, emerge a importância de dotar a estrutura empresarial de condições de natureza pré-competitiva: ao nível dos recursos, um quadro de recursos humanos com um perfil de competências que corresponda às necessidades da procura, assente numa coordenação entre as entidades de formação (numa lógica de complementaridade e não de sobreposição) e entre estas e as empresas; ao nível da qualidade, a continuidade da aposta na dinamização do Sistema Português da Qualidade. Em qualquer dos casos, o diagnóstico de necessidades das empresas, seja ao nível da qualificação dos recursos ou da qualidade, de modo a garantir a correspondência entre a oferta e a procura, no enquadramento da indústria de componentes para a automóvel, deve ser a base da política pública, garantindo às empresas um enquadramento de base adequado ao seu desenvolvimento. Ainda a montante da actividade, a existência de incentivos é um elemento importante, dado que, como concluiu Simões (1997), "quase todas as empresas [da amostra usada por Simões] recorreram a apoios externos para a certificação". No Plano Operacional de Economia, que agrega o conjunto de incentivos a conceder no âmbito da política pública até 2006, estão consagrados os incentivos à qualidade, seja ao nível das empresas – medidas 1.2 e 3.1 – ou de outras entidades que se posicionam ao nível do apoio à qualidade, integradas ou não no Sistema Nacional de Qualidade – medida 3.1. As medidas integram um conjunto de incentivos que abrangem desde a implementação e certificação de sistemas de gestão da qualidade à gestão ambiental e de segurança e saúde ocupacional. Por outro lado, 78 Conclusões e Discussão consideram a concessão de apoio à criação de novas infra-estruturas de qualidade, bem como a modernização e consolidação das existentes. É esta a mesma lógica dos incentivos dedicados à formação. A formação e qualificação dos recursos humanos encontra o seu enquadramento em medidas como a medida 1.2 – orientada para as empresas - ou a medida 2.3 – orientada para empresas, escolas tecnológicas e outras entidades ligadas à formação. Ao nível da actividade das empresas de componentes para automóvel em Portugal, um vector fundamental da intervenção da política de qualidade é a orientação do incentivo à qualidade das empresas para a implementação da norma ISO/TS 16949. A norma ISO/TS 16949 combina os standards da QS 9000 de origem americana com a francesa EAQF, a alemã VDA 6.1 e a italiana AVSQ e está a caminho de ser a mais importante norma de qualidade na indústria automóvel, assim com em outras (Pearch e McRoberts, 2000). A indústria automóvel caminha no sentido da unificação dos standards, sendo que, por exemplo, a Q1 2001 da Ford exigirá a certificação ISO/TS 16949 (Ford Motor Co., 2001). A gestão dos recursos humanos assume uma importância fundamental no seio desta norma, sendo que os fornecedores deverão ter um processo para motivar os colaboradores para atingirem objectivos de qualidade e para a realização de melhoramentos contínuos, assim como um processo de medida de satisfação dos empregados e da compreensão dos objectivos da qualidade. No que respeita aos recursos humanos, realça-se a importância de promover, por um lado, o uso de "boas prácticas" de gestão de recursos humanos, o que cruza com a intervenção ao nível da qualidade e, por outro, promover a qualificação das pessoas. A qualificação de recursos é uma questão importante, que tem sido referida pelas empresas do sector como uma das suas maiores dificuldades em termos de desenvolvimento (Veloso et. al, 2000) e é um dos factores críticos de desenvolvimento do sector (Inteli, 2000). A desadequação das escolas face às necessidades das empresas, apontada por estas como a principal razão para o problema, pode estar por detrás da sua motivação para a integração de pessoas com qualificações de base, abaixo do 9º ano, às quais proporcionam formação avulsa, assumindo um ónus elevado em termos da qualificação do quadro de recursos humanos associado ao sector. Uma diversificação do sistema de ensino, com, entre outros, uma maior aposta na qualificação profissionalizante equivalente ao 12º ano poderá ser uma resposta a esta questão. Este tipo de formação existe, mas não se assume eficazmente como resposta às necessidades das empresas, pelo que a intervenção ao nível da qualificação e formação deve ter por pressuposto a orientação para as necessidades do sector. Nesse sentido, as componentes de diagnóstico e de prospectiva e a sua articulação são fundamentais como elementos orientadores das políticas de formação: diagnóstico, como meio de determinar as necessidades das empresas em termos de qualificações; prospectiva, como meio de orientar o desenvolvimento de competências de acordo com a perspectiva de evolução da indústria, ou seja, determinar que competências devem ser desenvolvidas de modo a garantir um quadro de competências adequado à perspectiva de evolução da indústria automóvel, dos 79 Conclusões e Discussão processos e dos produtos. Em resumo, promover a qualificação de pessoas de acordo com as necessidades actuais e futuras das empresas. É ainda importante reflectir sobre a intervenção da política pública noutros domínios. Sendo a indústria automóvel uma indústria de carácter oligopolista, dominada por grandes empresas multinacionais, nomeadamente ao nível do fabrico de veículos e do fornecimento de componentes em 1ª linha, o incentivo ao investimento directo estrangeiro é uma questão absolutamente relevante em termos de política (Inteli, 2000). Sendo a capacidade de inovação e domínio das tecnologias um factor crítico para os fornecedores (Inteli, 2000), a capacidade de absorver a tecnologia associada ao investimento estrangeiro é assim um dos principais factores estruturantes do desenvolvimento do sector. Para absorver esta tecnologia, o desenvolvimento de competências é um elemento chave, o que vai de encontro às principais conclusões deste trabalho pois, como demonstra Xu (2000), "...um país precisa de atingir um nível mínimo de capital humano de modo a poder beneficiar de efeitos de transferência de tecnologia por parte das multinacionais...". 4.5 Sugestões para Trabalho Futuro O trabalho realizado permitiu, através da abordagem realizada, retirar algumas conclusões sobre a contribuição da qualidade para a competitividade das empresas - e do sector -, assim como indicar quais os factores que determinam o desempenho das empresas na qualidade. A dimensão da amostra não permitiu, no entanto, o suporte estatístico de algumas considerações, o que impediu a geração de um conjunto mais alargado de conclusões. Sugere-se, assim, a importância de aplicação de um estudo desta natureza a um conjunto mais alargado de empresas dentro do sector de componentes para automóvel. Com base numa amostra mais alargada, julga-se interessante a segmentação do estudo nos principais sub-sectores que se alinham em torno da cadeia do automóvel em Portugal, alargando mesmo o seu âmbito a empresas sem uma orientação prioritária para o sector. Será interessante, por outro lado ainda, analisar o problema em função de uma tipologia de fornecedores como a desenvolvida no ponto 1.3.3b), ou seja, em função da complexidade dos produtos fornecidos e do desenvolvimento da cadeia de valor no seio da empresa, distinguindo, por um lado, entre empresas focadas no processo e empresas focadas no produto e, por outro, entre empresas com actividade produtiva e empresas fundamentalmente centradas na montagem, de que são exemplo algumas multinacionais. A longevidade da aposta na qualidade será outra variável de segmentação das empresas com interesse para a análise. Permitir-se-á, assim, retirar mais algumas conclusões que se consideram fundamentais para a orientação do processo de desenvolvimento da competitividade das empresas de componentes para automóvel portuguesas. 80 Referências Bibliográficas R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AIMA, Associação dos Industriais de Montagem de Automóveis (2001), Dados Estatísticos: Veículos Automóveis Produzidos em Portugal, Exportação e Mercado Externo, Exportação e Mercado Interno ACAP, Associação do Comércio Automóvel de Portugal (2001), http://www.acap.pt AFIA, Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (2000), www.afia-afia.pt Akao, Y. (1990) - Quality Function Deployment, Productivity Press, Cambridge, EUA Alridge, J.R. e Dale, B.G. (1994) - Failure Mode and Effects Analysis, in Dale, Barrie G. (1994) - Managing Quality, 2ª Ed., Prentice Hall International (UK) Limited, Reino Unido Anupindi, R., Chopra, S., Deshmukh, S., Van Mieghen, L. e Zemel, E. 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METODOLOGIA E INSTRUMENTOS DE R ECOLHA DE DADOS O presente trabalho é desenvolvido com base em dados sobre o sector de componentes para automóvel em Portugal recolhidos no âmbito do estudo de Veloso et. al (2000) e decorre da participação na definição do modelo conceptual e operacional, no desenvolvimento do questionário de recolha de dados e no seu tratamento e sistematização. 1.1 Metodologia A abordagem à recolha de dados consistiu na apresentação pessoal do questionário às empresas participantes, esclarecendo à partida os objectivos do estudo e quaisquer dúvidas prévias relacionadas com o preenchimento do questionário. O período de resposta foi suportado por um acompanhamento telefónico a dúvidas decorrentes do processo de resposta ao questionário, ao que se seguiu uma última visita à empresa para recolha deste e discussão de aspectos de carácter estratégico e orgânico, como forma de alargar a informação disponível à percepção dos responsáveis das empresas sobre o conjunto alargado de factores analisados no estudo de Veloso et al. (2000). O processo de recolha foi desenvolvido entre Janeiro e Março de 1999. 1.2 Instrumentos Os instrumentos de recolha de dados consistiram no questionário que se apresenta em seguida. Este foi estruturado segundo as seguintes dimensões: 1. Gestão de Topo - Características da Empresa e Estratégia; 2. Organização e Recursos Humanos; 3. Financeira; 4. Marketing e Comercial e Relacionamento com a Envolvente; 5. Logística; 6. Qualidade; 7. Produção.