Hip hop - Políticas e poéticas de integração sociocultural 1
Celia Maria Antonacci Ramos
As festas populares vêm sendo um rito de agregação de diferentes povos que habitam os
espaços de exclusão social nas grandes cidades. A mais contemporânea delas é a
encenação do hip hop. Organizada como uma performance teatral em torno do grafite, da
dança break, da música rap e do DJ ou MC, que anima e integra os participantes da festa,
o hip hop, mais do que unir a coletividade, é um porta-voz que integra a diversidade
social dos guetos e hoje representa a identidade dos habitantes das periferias urbanas. Os
movimentos corporais, as vestes, as pinturas grafites e as atitudes entre os rappers
adquirem uma nova forma de comportamento e são sempre recriadas no seu uso.
Dependendo do meio de vida e das ansiedades do grupo social e politicamente engajado,
as expressões discutem as necessidades locais. Atualmente, o hip hop vai além das
fronteiras estéticas. É um estilo de vida, um comportamento, uma cultura, mas também, e
principalmente, uma manifestação político-social. É um instrumento ativista que as novas
gerações das periferias das grandes cidades encontraram para se auto-afirmar enquanto
cidadãos do mundo.
Geralmente reunidos nas praças ou centros comunitários das favelas, os hip
hoppers criam seus territórios próprios, não só enquanto espaço físico, mas especialmente
político. “Com o passar do tempo”, diz Bakari Kitwana,
O hip hop tornou-se muito mais do que uma performance, tornou-se um
meio político de viver, de se vestir e de reclamar por espaço público. O
estilo de roupa hip hop vem transformando os sneakers e swearts dos
proletários em moda de alta costura. E completa, o hip hop é o maior
movimento cultural do nosso tempo. Indubitavelmente sob a influência da
música, da moda das atitudes e do estilo da linguagem. 1.
O hip hop é uma rebelião poética, que busca através da palavra-canto, dos sons
das pickups, do swing do corpo e dos desenhos e letras grafitadas produzir um
1
Texto publicado nos Anais do 1° encontro Internacional Brasil, França, Alemanha. Fernado Oliveira
organizador. Editora FIB.
1
conhecimento do mundo. Os instrumentos musicais, a voz, o spray e as vestes são armas
simbólicas para essa guerrilha de conhecimento, reconhecimento e de entrosamento dos
indivíduos com pouco ou nenhum acesso aos meios de comunicação dominantes como
rádio, televisão, jornais, escolas e, também, a político-partidária.
Desde o começo do século, a música serviu de porta-voz para estabelecer relações
ente os diferentes sujeitos que integram a sociedade. O hip hop, especialmente no seu
ritmo, expressão vocal e letra dá continuidade a muitos protestos que tiveram a música
como aliada; por exemplo, o blues, o reggae e as bandas punks.
Hoje encontramos algumas pesquisas publicadas em livros acadêmicos e muitas
reportagens em jornais e revistas especializadas em cultura hip hop, principalmente nos
USA.
O objetivo deste estudo é analisar e promover uma reflexão a partir de algumas
músicas de raps brasileiros, que introduzem em suas letras inovações semânticas de suas
comunidades - gírias e expressões vernáculas - e estão territorializando um novo espaço,
ou seja, criando uma verdadeira “nação hip hop”, com seus códigos próprios e senhas
específicas. Para tanto, seleciono o grupo Racionais MCs, rappers paulistanos, Capão
Redondo, Zona Sul, próximo ao Jardim Ângela. Na palavra-canto dos rappers Mano
Brown e Edy Rock saliento algumas expressões e gírias que dominam a cena das
performances. Essas divulgadas nas festas e shows do grupo e posteriormente impressas
em CDs e vídeos circulam no Brasil todo através do radio, da TV, das festas populares e
das danceterias. Apropriando-se do vocabulário próprio da comunidade do Capão
Redondo e criando um estilo de encenar próprio da comunidade, os Racionais MCs
divulgam o dia-a-dia dessa periferia paulistana, criam uma nova forma de protesto via
palavra-canto e imprimem na língua oficial novas expressões e sinais. Isso proque, a
grandeza e abrangência dos sons do rap ultrapassam as fronteiras das culturas periféricas
e são ouvidas, cantadas e praticadas até mesmo nas mídias oficiais.
Hip Hop em cena – breve história
O hip hop tornou-se subitamente visível no Bronx, New York, nos anos 70, mais
particularmente entre os afro-descendentes e rapidamente se espalhou pelas Américas e
Europa.
2
De origem jamaicana2, essa manifestação comportamental surgiu entre os jovens
descendentes da África negra que habitavam as montanhas da Jamaica e cultuavam,
desde os anos 30, o então imperador etíope Hailé Selassié, conhecido como RAS
TAFARI MAKONNEN, deus sol. Interpretando esse deus soberano como um profeta
bíblico, esses jovens sonhavam com o Zion negro, que se eclipsaria da dominância branca
e os permitiria voltar para a África natal. Procurando suas raízes, os elos que os ligassem
ao passado, os rastafaris, como ficaram conhecidos, se inspiravam na cultura antiga
africana, particularmente da Etiópia, e criaram, entre outras formas de comunicação, a
música reggae, que se internacionalizou no sucesso do jamaicano Bob Marley, anos 70.
Mas foi especialmente Kool Herc, também jamaicano, que, na mesma década, exportou e
inovou as batidas do reggae para o Bronx, New York.
Familiarizado com os sons nativos de seu país, Kool Herc começou a tocar no
Clube Hevalo e no Executive Playhouse, no Bronx e logo introduziu novas formas de
musicalidade ao reggae, dando origem ao rap. Ao invés de simplesmente tocar as trilhas
existentes, Kool Herc, que era um grande colecionador de discos de vinil, começou a
pesquisar trilhas antigas e tocá-los de maneira inversa, quebrada, estendendo o som até
parecer uma nova trilha3. Scratching foi como ficou conhecido esse som, e DJ (disck
jockey) foi como ficou conhecido o músico que o comanda. Além disso, Kool Herc
convidava seu amigo, Coke La Rock, como seu mestre de cerimônias - MC, a fim de
introduzir e comentar as trilhas sonoras que falavam da violência e da situação política
das favelas, além de outros assuntos de interesse da comunidade como sexo e drogas.
Coke La Rock, segundo Nelson George, autor do livro Hip Hop America, não era muito
eloqüente em seus slogans, mantinha-se mais numa balada jamaicana, mas acabou
criando algumas frases que se tornaram slogans do hip hop, tais como Ya rock and ya
don’t stop, Rock on my mellow!, To the beat y’all!.4
Essas frases pronunciadas seguindo as quebras do som do vinil invertido deram
origem à telecopagem das palavras, poesia e estética da poesia do rap.
Com o sucesso de suas apresentações, Kool Herc levou seus concertos para as
ruas, em cima de pickups, e introduziu a tradição das festas de rua jamaicanas,
organizadas em torno de competições sem violência.
Assim, nascido na Jamaica e logo migrado para os USA, o rap introduziu uma
3
nova forma de expressão musical, que imediatamente se internacionalizou.
Entretanto, para melhor entendermos a hibridização cultural que esse movimento
cultural fez aflorar em nossa contemporaneidade, resta aqui destacar o afro-descendente
Afrika Bambaataa, que também cresceu no Bronx e, em 1974, fundou a “Zulu Nation”,
grupo que se mantém atuante até os dias de hoje, quase 30 anos depois. Bambaataa, em
sua adolescência, era colecionador de discos e, freqüentando os shows de Kool Herc,
percebeu que seus discos eram os mesmos que Herc tocava em seus shows. Bambaataa
passou a ser, ele também, um DJ que animava festas à moda de Herc. Ainda que Afrika
Bambaataa tenha começado com os mesmos discos, logo introduziu em suas
performances trilhas Africanas, Caribenhas, e DC go-go, dando às suas apresentações um
caráter multiétnico. Com isso, Afrika Bambaataa passou a agregar adolescentes de todas
essas nações que viviam no Bronx e eram rivais por suas diferentes nacionalidades.
Desde 1974 integram a “Zulu Nation” DJs, vocalistas, grafiteiros e break performáticos,
adolescentes de muitas nacionalidades que atuam no urbano através de suas expressões
artísticas performáticas e vão sempre introduzindo seus ritmos ao rap.
Afrika Bambaataa, em sua recente visita ao Brasil, setembro de 2002, quando de
uma entrevista na “Casa de Cultura Criança Esperança”, no Jardim Ângela, São Paulo,
disse que à medida que o hip hop foi viajando com a Nação Zulu ao redor do mundo,
outros ritmos foram sendo incorporados.5 Exemplo disso é o universo do jazz e do soul.
Seus ritmos podem ser considerados como ascendentes diretos do rap, do jazz e do soul e
todos os ritmos oriundos das musicalidades afro-descendentes como blackthought,
ragtime, blues, funk, gospel, samba e salsa. Todos esses são ritmos que se enriquecem
mutuamente e são interpelantes da cultura dominante.
Hoje, não só o rap é o ritmo do hip hop, mas também o jazz, a salsa, o calipso, o
mambo, o samba. Da mesma forma, esses ritmos estão sendo influenciados pelo ritmo
break do hip hop. Como explica Christian Béthune, em seu livro Le Rap: une esthétique
hors de la loi, jazz e rap são musicalidades afro-americanas e seus ritmos se misturam
num processo não de continuidade, mas de osmose.
Aqui vale lembrar que, nos USA, bem como em todos os outros países latinos
americanos, a expressão musical dos afro-descendentes vem constituindo um fato
indissociável não só de todos os ritmos nascidos no continente americano, assim como
4
ela se situa na raiz de toda a manifestação cultural original desses países. São músicas
criadas pelos povos de origem africana que traduzem o elemento crucial da cultura
africana, sua oralidade. Até o século XIX, a maioria das línguas africanas não se
expressava por escrito, e a música - tocada, cantada, dançada - era o canal de
comunicação, de transmissão dos mitos e leis, da organização da sociedade.
A exemplo da Zulu Nation, muitos outros jovens das periferias das grandes
cidades viram na dança, nos grafites e, especialmente na música, trilha e letra, uma nova
forma de expressar seus inconformismos, suas críticas, sua estética.
Este movimento cultural logo encontrou adesão em muitos outros países,
especialmente na América Latina, com uma população predominantemente de afrodescendentes excluídos da mídia dominante. Mas essa apropriação por parte de outros
adolescentes de diferentes países e guetos não significa uma simples identificação. Desde
o começo dessa diáspora cultural, o estilo do hip hop se diversificou em muitos estilos.
Para onde quer que o hip hop tenha migrado, agregou parte da cultura local e passou a
expressar as estéticas, os sons e os protestos ou problemas locais. Ainda que sempre
mantenha ligação com o global, (ou a América globalizada) podemos dizer que esse
movimento atende a forças globais e locais.
O fato de as comunidades periféricas brasileiras não traduzirem as letras dos
rappers norte-americanos, levou-os a adotar apenas a forma externa do rapper, isto é, sua
musicalidade quebrada, sem muita racionalidade musical. Com as letras impõe-se um
conteúdo, uma cultura, uma ideologia. Como, no caso do rap, as palavras da poesia eram
incompreendidas, nossos jovens criaram outras, de acordo com suas leis próprias, com
suas vivências, mitos e ritos. Fala-se de política, educação, crise econômica, prisão, falta
de oportunidade, amor, sexo, gravidez, polícia, espancamento. O rap é um jornal oral das
periferias. Anuncia todos os acontecimentos. Sem censura, esse jornal é um dos canais
mais autênticos para os jovens enviarem seus recados, publicarem seus problemas e
reivindicarem melhorias para a comunidade.
Assim, atendendo aos limites e às necessidades comunicativas, especialmente de
protesto de cada comunidade periférica, esse estilo, hoje já globalizado, é traduzido nas
possibilidades técnicas e nos anseios localizados. Percebe-se, nesse processo, o que
Massimo Canevacci denominou o processo Glocal, conflito entre global e local, ou seja,
5
Um processo de unificação cultural - um conjunto serial de fluxos
universalizantes – e pressões antropofágicas ‘periféricas’ que
descontextualizam, remastigam, regeneram.6
Isto é, um mesmo texto é produzido ou lido em muitas localidades ao mesmo
tempo, mas lido e produzido a partir de seus códigos, com os referenciais próprios de
cada cultura que o recebe e/ ou refaz.
Hip hop - migração brasileira
Segundo André Luis Martins, o break foi encenado no Brasil, nos ano 70, com o grupo
Funk & Cia, grupo de soul, que lançou nas ruas de São Paulo a arte de dançar e novos
estilos de robótica, pop e break. As escadarias do teatro Municipal eram o ponto de
referência. Logo o grupo começou a procurar lugares abrigados da chuva, e as estações
de metrô, Tiradentes e São Bento passaram a ser os pontos escolhidos para os encontros.
Conta Thaide, um dos primeiros rappers brasileiro, que
A turma andava de metrô e achava que a estação São Bento era
o lugar certo, passava muita gente, isto era importante, mas não tinha
multidão. A praça era o lugar ideal. Organizávamos batalhas de hip
hop todos os sábados. Às vezes chegava a se reunir, ou passavam por
ali, cerca de 5000 pessoas. Isso era bom, divulgava o movimento.7
Mas a dança de rua e o rap foram percebidos aqui no Brasil mais a partir dos anos
80, quando começaram a circular revistas e discos sobre o movimento hip hop nos USA.
Logo outras revistas passaram a ser editadas no país e vendidas especialmente na Rua 23
de Maio, em São Paulo. Os pioneiros do movimento foram Nelson Triunfo, Thaíde & DJ
Hum, MC/DJ Jack, os Metralhas, Racionais MCs, Os Jabaquara Breaks e os Gêmeos.
Logo se integram DJ Hum e Nelson Triunfo. Com a primeira vinda de Afrika Bombaataa
ao Brasil, em 1983, o Hip Hop nacional começou a se organizar em torno de gangs e
eventos.
6
Tahíde, perguntado sobre como ele via a história do hip hop no Brasil, respondeume sem hesitação:
Tudo tem um ponto de partida, e neste caso o ponto de partida é a
África. Tudo começou na África. Lá é o país do swing, da música.
Toda música, com exceção da clássica, vem da África. O blues, o
rock, o jazz, a salsa, o soul, o reggae, o go go, o samba, o gospel,
todas. A forma como os africanos falam, cantam, dançam está
relacionada com os sons dos tambores. Sempre nas festas eles
começam com os tambores. Os rituais, os cânticos religiosos, tudo
envolve os tambores e o swing, isto é, o corpo, que não pode ficar
parado.8
Ao som dos tambores e das expressões de corpo
Segundo Philip Tagg, a palavra clássica Grega musiké, que se refere à habilidade e à arte
das musas, tornou-se nosso próprio conceito provavelmente a 700 e 1600 anos atrás e
parece ter sido usada no sentido moderno só no século quinto. Essa palavra foi
provavelmente recorrente na maioria nas línguas européias por volta dos anos de 1400.
Isso significa que a música foi adicionada relativamente recente ao conceito europeu, e
seu uso não é sempre essencialmente um elemento do ritual diário europeu. Em alguns
lugares, as pessoas não têm palavra equivalente para música, especialmente em Tif, no
oeste da África (Keil, 1977) e no Ewe of Togo, leste de Ghana.9
Para eles, Vù significa tambor, e há é a palavra para clube, associação ou
organização. Vú há é o clube a que você pertence na cidade. Você pode pertencer a um
clube com tambores rápidos ou silenciosos, dependendo de sua família ou de seu caráter.
A voz é chamada ba; assim, cantar é vú bá. Vú é usado para significar a performance toda
ou a ocasião do evento. A música, o canto, o tambor o drama e assim por diante. 10
Walter Benjamin lendo Eisler lembra,
(...) A crise da música de concerto é a crise de uma forma produtiva obsoleta,
superada por novas invenções técnicas. (...) Devemos guardar-nos de sobre valorizar a
7
música orquestral, considerando-a a única arte elevada. Somente no capitalismo a
música sem palavras teve tanta significação e conheceu uma difusão tão ampla.\
E completa Benjamin, a tarefa de transformar o concerto não é possível sem a
cooperação da palavra. Somente ela, como diz Eisler, pode transformar um concerto
num comício político.11
Enquanto os europeus percebem a música como algo separado, a maioria das
vezes como entretenimento no seu dia-a-dia, para os africanos a música é uma parte
integral do todo, que inclui o ritual diário.
Na diáspora Africana, os africanos reconstruíram suas tradições especialmente
através da música e da dança. Segundo José Enrique Finol, ao se referir ao Ritual de San
Benito, na Venezuela,
Os tambores não são apenas instrumentos musicais, mas signos. Eles são
primeiro extensão da natureza no mundo dos homens, desde que eles
sejam como elos de comunicação dos homens com deuses e, pelos seus
significados, com suas origens. Os tambores representam também os
corpos pelo volume e as vozes pela sua função de comunicação. (...) Os
tambores são vozes coletivas, de expressão. Através de suas vozes, os
tambores falam pelo povo que os toca, não apenas como instrumentos do
ritual, mas também como instrumentos de identificação e poder político. 12
Mas não só Finol assim pensa, também Martinez diz:
Os textos orais da África foram preservados pela língua dos tambores.
Até o século XIX, a maioria das línguas africanas não era expressa por
escrito, mas nas músicas dos tambores, e a dança do corpo era o canal
de comunicação – tocada, cantada e dançada, a transmissão dos mitos,
das crenças religiosas e das leis eram transmitidas. Em suma, toda a
organização social era expressa e transmitida pela expressão oral. 13
8
Na era das urbes industriais e informatizadas, dos meios eletrônicos, os sons dos
scratches das pickups substituem a percussão dos tambores e anunciam o começo da
festa hip hop.
Os encontros de hip hop, nas formas de música, grafite, dança break e falas dos
DJs constituem verdadeiros fóruns de cidadania que conferem prestígio e dignidade aos
integrantes diretos - os que se apresentam - mas também aos participantes da festa, na
medida em que, com os seus movimentos corporais e vozes em coro, convalidam os
discursos enunciados pelos DJs.
O vínculo da palavra falada parece ser o mais elementar aglutinador das culturas
orais. A palavra fomenta as primeiras legislações, guarda os primeiros mitos. O tesouro
do conhecimento empírico é transmitido pela oralidade dos desprovidos de alfabetização
oficial ou de meios tecnológicos de registro sofisticados. Entretanto, a interação
lingüística permite a divulgação do conhecimento e envolve o público na participação
político-cultural. Serve de vínculo comunitário, pois expressa o comum, o que é de todos,
entendido por todos. As palavras-canto dos rappers falam de conflitos sociais, políticos e
psicológicos de um grupo. Como uma língua vernácula, o hip hop vem produzindo
muitos dialetos. São os primeiros passos para a recuperação da dignidade, sem a qual
cultura alguma pode existir.
O hip hop, como um todo, quer na música e letra dos rappers, nos desenhos
grafites, na dança dos breaks e na voz dos MCs, levanta-se contra uma ordem social
estabelecida e injusta. Além disso, e talvez aqui seja o mais importante, os hip hoppers
adquirem uma autonomia cultural a partir da criação de um universo próprio, que envolve
vestuário, pintura grafite, ritmo, dança e, mais que tudo, um vocabulário permeado de
gírias-expressões, autênticos provérbios pós-modernos que constroem refrões - senhas de
identificação e integração nos grupos. Essas senhas vêm das periferias e são introduzidas
em algumas letras de raps, e é a partir daí que podemos ver o efetivo protesto que é a
emergência de uma nova ordem.
Exemplos: Racionais’ MCs Qual mentira vou acreditar 14
9
A partir desse título, Qual mentira vou acreditar, essa letra mostra uma crítica à
polícia brasileira, que divulga não haver racismo no Brasil, mas não cumpre leis de
condutas anti-raciais e de entrosamento social.
Além disso, algumas gírias e expressões chamam nossa atenção. Cito algumas.
•
dormir é embaçado: significa difícil ou perder tempo
•
Se pam: se acontecer outra coisa
•
Se os cara não colar: se os caras não chegarem
•
Tô devagar: estou devagar
•
A polícia cresce o olho: a polícia me olha
•
Tomar geral: ser revistado pela policia
•
Dar perdido: Como escapar
•
Home: polícia
•
Pá de mulher: muita mulher.
•
Pegando o maior pau; apreciar.
•
Confio no meu Taco: pênis.
•
Capotar no soco.
•
Pleiba: povo.
•
Dei um Cavalo: dei carona
•
Tem preto no branco: cocaína e maconha
•
Esse cara é dentista, diz que a firma dele chama Boca: esse é um trocadilho, boca,
local de venda de drogas.
•
Tá fazendo hora extra no mundo: já devia estar morto
Fórmula mágica da paz15
•
Levantar sua goma: construir casa
•
Tem rolê sem dinheiro: não tem
10
Esses aforismos específicos dos hip hopppers nacionalizam-se através das letras
dos raps, especialmente dos mais populares como os Racionais MCs. Enunciadas durante
as festas hip hop, transmitidas via emissões de rádio, TV e festas populares, esse novo
vocabulário configura uma nova cultura e vincula seus participantes.
Segundo conta Armando, um jovem paulistano dessas mediações, ao cruzar o
território do Capão Redondo foi interceptado. Entretanto, ao pronunciar as frases com as
gírias do hip hop logo foi reconhecido como um familiar da comunidade, não
especificamente do Capão Redondo, mas da comunidade hip hop. A partir daí, teve passe
livre e não foi molestado. Também esse refrão e as expressões e gírias das letras dos raps,
conta Armando, são saudações entre os amantes da cultura hip hop via internet.
Autonomia da palavra, uma conquista política cultural
Segundo esclarece Pierre Bourdieu, a língua oficial faz com que os cidadãos se
inclinem naturalmente a ver e a sentir as coisas da mesma maneira, e assim trabalha para
edificar a consciência comum da nação. Serve como um instrumento de integração
intelectual e moral.
Produzida por autores com autoridade para escrever, fixada e
codificada pelos gramáticos e professores também incumbidos de
inculcar seu manejo, a língua é um código (...) A língua oficial está
enredada com o Estado, tanto em sua gênese como em seus usos
sociais. É no processo de construção do Estado que se criam as
condições da constituição de um mercado lingüístico unificado e
dominado pela língua oficial, obrigatória em ocasiões e espaços
oficiais ( escolas, entidades públicas, instituições políticas). Por outro
lado, os usos populares e puramente orais pertencentes aos
camponeses são definidos negativa e pejorativamente e vão sendo
suplantados. ( ...) A imposição da língua legítima contra os idiomas e
os dialetos faz parte das estratégias políticas dos anos da Revolução
11
Francesa, destinada a assegurar a eternização das conquistas das
revoluções pela produção e reprodução do homem novo. (...) Seria um
tanto ingênuo atribuir à política de unificação lingüística apenas as
necessidades técnicas de comunicação entre as diferentes partes do
território. (...) Mais que isso, constitui um poder simbólico cujo móvel
é a formação e reformação das estruturas mentais. (...) Não se trata,
portanto, de comunicar, mas de fazer reconhecer um novo discurso de
autoridade, com seu novo vocabulário político (...), metáforas e
eufemismos e a representação do mundo social por ele vinculada. 16
Reunidos a partir de diferentes lugares da África, os africanos, na diáspora, além
de possuírem não uma língua comum, foram obrigados a aprender a língua oficial do
colonizador e a se unirem a partir dela. Mas tão logo nos quilombos e hoje especialmente
nas favelas, mediante a palavra-canto dos rappers e das poéticas do hip hop em geral, um
verdadeiro recrudescimento das tradições africanas ergue-se como uma forma espontânea
de conquista e autonomia cultural. Aqui não se fala em redescobrimento de uma cultura muitos poucos conhecem ou praticam ritos africanos autênticos -, mas de valorização da
cultura que se formou aqui mesmo, com traços africanos, mas também indígenas e até
mesmo europeus.
Nas culturas orais, a palavra é um dom de Deus, um instrumento sagrado, uma
arte, pois pela palavra transmite-se o conhecimento, a cultura. Pronunciada com
entusiasmo, a palavra evoca e transmite a euforia de seu locutor, que está possuído de
entusiasmo e entusiasmo tem sua raiz em “theo”, que significa Deus. Nas festas hip hop,
a voz dos DJs e rappers transmitem as mensagens com um entusiasmo contagiante.
Palavras-som repetidas, ritmadas nas quebradas das letras enfatiza o enunciado de Whorf:
a fala é o melhor espetáculo encenado pelo ser humano. 17
Quando se recupera a palavra, recupera-se um lugar na cultura, pois poder dizer
significa poder transmitir essa cultura e, especialmente, denunciar suas opressões
destruidoras.
O hip hop recupera a autonomia da palavra, da fala espontânea, do direito da
transmissão da cultura e da proclamação da denúncia. Mais que isso, legitima um
12
conhecimento próprio das tradições orais, que acreditam que a expressão mais elementar
da comunicação humana se dá associada ao uso do corpo. No canto rap, a palavra está
também expressa nos gestos do corpo, no movimento dos olhos, da boca, na dança break,
na sintonia dos movimentos do corpo com o quebrado das vozes e no gestual das pinturas
grafite com suas letras quebradas. A comunicação não-verbal do corpo e as pinturas
grafites estão em sintonia com a expressão verbal, com a oralidade. Há toda uma
sinestesia que aclara o que se diz oralmente e que a fala por si só não dá conta.
O canto rap é um texto cinético, cheio de swing, pois o movimento corporal é
também um enunciado, faz parte da teatralidade do rapper. O que conta mesmo é a
performance. Canto de corpo e de gesto, o rap torna-se performance.
A partir disso, a turma do hip hop faz da oralidade um método, uma arma de
autoridade e de denúncia das mazelas sociais e faz existir suas inquietações e
reivindicações. Os cantos recitados criam conhecimentos e fazem perceber soluções
lúdicas, pois criam um encadeamento lógico de idéias, de disputas, de convivência social
participativa.
O hip hop, mais do que uma proposta de novas estéticas, é uma ação política
ativista, em que a rebelião acontece via música, dança, grafite e, especialmente, via novas
formas de conquista de territórios políticos de liberdade de expressão lingüística. Já no
começo do século, o lingüista Saussure advertia que não é o espaço que define a língua,
mas a língua que define o espaço. Isto porque uma dada inovação fonética acaba por
determinar sua área de difusão pela força intrínseca de sua lógica autônoma, através do
conjunto de indivíduos falantes da mesma língua.
18
As letras dos rappers em linguagem
exclusiva das gangs de rua demarcam o território político social na extensão de quem as
ouve e entende. Quer seja na comunidade, na rua, numa danceteria, no radio ou na TV,
essas letras balizam o território de ocupação simbólica dos hip hops. Seus sons só são
audíveis na dimensão de quem os entende. Criam, assim, o que Hakim Bey já sinalizou,
uma verdadeira Temporary Autonomous Zones19, pois ao criarem um vocabulário próprio,
os hip hoppers rompem com a dominação política oficializada na homogeneidade da
língua imposta através das instituições dogmáticas de controle social, como as igrejas, as
escolas, as editoras e as gravadoras, que investidas de poder legitimam os discursos, as
normas e uniformizam os sonhos e fabricam a semelhança intelectual e moral. Dessa
13
forma, pela primeira vez no mundo capitalista, o indivíduo está dentro da cena, se
apresenta e se representa sem censura prévia, sem compromisso com os ideais das classes
dominantes e até com a tradição. Isto porque as festas do hip hop advêm de grupos
metropolitanos multiculturais e se diferem das festas populares na medida em que não
(re) encenam textos folclóricos imutáveis e atemporais, que ligam o passado ao futuro e
mantêm a tradição, mas encenam narrativas da diáspora pós-colonial do aqui e agora.
Traduzida para a escrita perde o caráter urbano na qual nasceu, sua
espontaneidade, sua oralidade, isto é, perde o contexto social que lhe confere o
significado. Entretanto, aqui vale lembrar, que só a escritura permite aos grupos dispersos
criar uma união duradoura. Na sociedade informatizada a escritura pode ser também
eletrônica. A indústria fonográfica e a internet ocupam-se do registro e da divulgação
desses sons. Assim, lembrando Antônio Risério, quando fala a respeito da poesia dos
Orubás,
Pertence ao universo das criações orais da espécie, que madrugou
nos tempos paleolíticos da primeira humanidade e desde então não
pára de se expandir, estendendo-se, num arco de milênios, a estes
nossos dias cibernéticos. 20
14
1
KITWANA, Bakari. The hip hop generation. Basec Civitas Books. 2002. P.196.
Ainda que muito controversa quanto a sua origem, adoto aqui os estudos que admitem a influência
jamaicana do hip hop.
3
A origem do Scratching é bastante controvertida. Saliento aqui também a atuação de Grandmaster Flash,
considerado por alguns autores como o introdutor do Scratching.
4
GEORGE, Nelson. Hip hop America. Penguin. New York.1999, p.19.
5
Entrevista concedida na Casa de Cultura Criança Esperança, Jardim Ângela, São Paulo, agosto 2003.
6
CANEVACCI, Massimo. Sincretismo. Uma exploração das hibridações culturais. Estúdio Nobel.
1996, p.13.
7
Entrevista a mim concedida, maio 2002.
8
Idem.
9
TAGG, Philip, Introductory notes to the Semiotics of Music. In . 1999, p. 14.
10
Idem, ibdem, p. 14.
11
Benjamin, Walter. O autor como produtor. Em Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. São
Paulo, Brasiliense, 1987, p. 130.
12
José Enrique Finol, Ritual de San Benito, na Venezuela, p. 179/187.
2
13
Martinez. Quimera – África – numbers 112-113-11
14
As letras estão em anexo a este trabalho.
Idem.
16
BOURDIEU, Pierre. A Economia das trocas lingüísticas. São Paulo, EDUSP, 1998, p. 32.
17
Whorf, s/d, apud Antonio Risério.Oriki Orixá. São Paulo, Editora Perspectiva, 1996, p.26.
18
Apud Bourdieu, op. cit. p. 31
19
BEY, Hakim. TAZ, Zona Autônoma Temporária. São Paulo, Conrad Livros, 2001.
20
RISÉRIO, Antonio. Op. cit. P. 26.
15
Qual Mentira Vou Acreditar
São apenas dez e meia, tem a noite inteira.
Dormir é embaçado, numa sexta-feira.
TV é uma merda, prefiro ver a lua.
Preto Edy Rock está a caminho da rua.
hã... sei lá vou pruma festa, "se pam",
se os cara não colar, volto às três da manhã.
Tô devagar, tô a cinquenta por hora,
ouvindo funk do bom, minha trilha sonora.
A polícia cresce o olho, eu quero que se foda!
Zona Norte a bandidagem curte a noite toda.
Eu me formei suspeito profissional,
bacharel pós-graduado em "tomar geral".
Eu tenho um manual com os lugares, horários,
de como "dar perdido"... ai, caralho...
"prefixo da placa é MY, sentido Jaçanã, Jardim Ebron...".
Quem é preto como eu já tá ligado qual é,
Nota Fiscal, RG, polícia no pé
"escuta aqui: o primo do cunhado do meu genro é mestiço,
racismo não existe, comigo não tem disso, é pra sua segurança".
Falou, falou, deixa pra lá.
Vou escolher em qual mentira vou acreditar.
Tem que saber mentir, tem que saber lidar,
em qual mentira vou acreditar?
A noite é assim mesmo, então... deixa rolar.
Em qual mentira vou acreditar?
Ô, que caras chato, ó! Quinze pras Onze,
eu nem fui muito longe e os "hôme" embaçou.
Revirou os banco, amassou meu boné branco,
sujou minha camisa do Santos.
Eu nem me lembro mais pra onde eu vou.
E agora, quem será que ligou?
"Espere na atração, eu tô na Zona Sul,
eu chego rapidinho, assinado: Blue".
Pode crer, naquele lado de Santana,
conheço uns lugar, conheço umas fulana.
Juliana? Não. Mariana? Não. Alessandra? Não. Adriana? Não.
O nome é só um detalhe, o nome é só um nome.
953... hum, esqueci o telefone.
"Pôrra, demorou, heim?!" E aí, Blue, como é?
Isso aqui é um inferno, tem uma pá de mulher,
trombei uma pá de gente, uma pá de mano,
tô há quase uma hora te esperando.
Passou uma figura aqui e deu idéia,
disse que te conhece e pá, chama Léa.
Cabelo solto, vestido vermelho,
estrategicamente a um palmo do joelho.
Os caras comentaram o visual, "oz bi", que tal,
pagando o maior pau.
Ninguém falou, ah! ah! mas eu ouvia
meio mundo xingando por telepatia ("mina filha da puta!").
Economizava meu vocabulário, não tinha o que falar,
falava o necessário, meio assim, é claro,
será qual é que é, truta
é o que não falta, mina filha da puta.
Tudo comigo, confio no meu taco,
versão africana "Don Juan de Marco",
tudo muito bom, tudo muito bem,
sei lá o que é que tem, idéia vai, idéia vem,
ela era princesa, eu era o plebeu,
quem é mais foda que eu, espelho, espelho meu.
"Tipo Taís de Araújo ou Camila Pitanga?".
Uma mistura. Confesso: fiquei de perna bamba.
Será que ela aceita ir comigo pro baile?
Ou ir pra Zona Sul ter um "Grand Finale"?
Amor com gosto de fruta até às seis da manhã,
me chamar de "meu preto" e me cantar "Djavan".
Ninguém ouviu, mas... puta que pariu!
Em fração de segundos meu castelo caiu!
A mais bonita da escola, rainha passista,
se transformou numa vaca nazista!
Eu ouvindo James Brown, pá, cheio de pose,
ela pergunto se eu tenho... o quê? Gun's Roses?
Lógico que não! A mina quase histérica,
meteu a mão no rádio e pôs na Transamérica.
Como é que ela falou? Só se liga nessa,
que mina cabulosa, olha só que conversa:
que tinha bronca de neguinho de salão (não...)
que a maioria é maloqueiro e ladrão (aí não...).
Aí não, mano! Foi por pouco,
mano. Eu já tava pensando em capotar no soco.
Disse pra mim não falar gíria com ela,
pra me lembrar que não tô na favela.
Bate-boca, novela, será que é meia-noite, já?
A Cinderela virou bruxa do mal.
Me humilhar não vai, vai tirar o caralho,
levanta o seu rabo racista e sai!
"Eu conheço essa perversa "há maior cara",
correu a banca toda de uns "pleiba" que colava lá na área.
" Pra mim ela já disse que era solitária,
que a família era rígida e autoritária.
Tem vergonha de tudo, cheia de complexo,
que ainda era cedo pra pensar em sexo.
A noite é assim mesmo... deixa rolar!
Vou escolher em qual mentira vou acreditar.
Refrão
Ih! Caralho! Olha só quem tá ali?
O que que esse mano tá fazendo aqui?
E aí, esse maluco veio agora comigo,
ligou que era até seu amigo,
que morava lá na sul, irmão da Cristiane,
dei um "cavalo" pra ele no Lausane.
Ia levar um recado pra uns parente local,
da Igreja Evangélica Pentecostal.
Desceu do carro acenando a mão:
"Na paz do Senhor!". Ninguém dava atenção.
Bem diferente do estilo dos crentes.
Um bom "jaco" e touca, mas a noite tá quente.
Que barato estranho, só aqui tá escuro.
Justo nesse poste não tem luz de mercúrio.
Passaram vinte fiéis até agora,
dá cinco reais, cumprimenta e sai fora.
Um irmão muito sério, em frente à garagem,
outro com a mão na cintura em cima da laje.
De vez em quando a porta abre e um diz:
"tem do preto e do branco?" e coça o nariz.
Isso sim, isso é que é união!
O irmão saiu feliz, sem discriminação!
De lá pra cá veio gritando, rezando:
"Aleluia, as coisas tão melhorando!".
Esse cara é dentista, sei lá...
diz que a firma dele chama "Boca S.A.".
Será material de construção?
Vendedor de pedras? Lá na zona sul era patrão.
Ih! patrão o caralho! Ele é safado.
Fugiu do Valo Velho com os dias contados.
A paranóia de fumar era fatal.
Arrombava os barracos, saqueava os varal.
Bateu na cara do pai de um vagabundo.
HUmm... tá fazendo hora extra no mundo.
A noite tá boa, a noite tá de barato,
mas puta gambé pilantra é mato!
Refrão
Fórmula Mágica da Paz
Essa pôrra e um campo minado. Quantas vezes eu pensei em me jogar
daqui, mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho. A minha vida é aqui e eu não
consigo sair. É muito fácil fugir mas eu não vou. Não vou trair quem eu fui,
quem eu sou. Eu gosto de onde eu vou e de onde eu vim, ensinamento da
favela foi muito bom pra mim.
Cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão e eu sempre
respeitei, em qualquer jurisdição, qualquer área. Jardim Santo Eduardo,
Grajaú, Missionária. Funxal, Pedreira e tal, Joaniza. Eu tento advinhar o
que você mais precisa. Levantar sua "goma" ou comprar uns "pano", um
advogado pra tirar seu mano. No dia da visita você diz que eu vou mandar
cigarro pros maluco lá no X.
Então, como eu tava dizendo, sangue bom, isso não é sermão, ouve aí:
tenho o dom. Eu sei como é que é, é foda parceiro, Hee, a maldade na cabeça
o dia inteiro. Nada de roupa, nada de carro, sem emprego, não tem
IBOPE, não tem rolê sem dinheiro. Sendo assim, sem chance, sem mulher,
você sabe muito bem o que ela quer (HEE....). Encontre uma de caráter se
você puder. É embaçado ou não é?
Ninguém é mais que ninguém, absolutamente, aqui quem fala é mais um
sobrevivente.
Eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo BLACK e tênis ALL
STAR. Na roda da função "mó zoeira!" Tomando vinho seco em volta da
fogueira. A noite inteira, só contando história, sobre o crime, sobre as
treta na escola. Não tava nem aí, nem levava nada a sério. Admirava os
ladrão e os malandro mais velho. Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:
o que melhorou? Da função quem sobrou? sei lá, muito velório rolou de lá
pra cá, qual a próxima mãe que vai chorar?
Há! Demorou mas hoje eu posso compreender, que malandragem de
verdade é viver. Agradeço a DEUS e aos ORIXÁS, parei no meio do
caminho e olhei pra trás. Meus outros manos todos foram longe de mais:
Cemitério São Luis, aqui jaz.
Mas que merda! meu oitão tá até a boca, que vida louca! Por que é que tem
que ser assim? Onti eu sonhei que um fulano aproximou de mim, "agora eu
quero ver ladrão, pá! pá! pá! pá!", Fim. É... sonho é sonho, deixa quieto.
Sexto sentido é um dom, eu tô esperto. Morrer é um fator, mas
conforme for, tem no bolso e na agulha e mais 5 no tambor. Joga o jogo,
vamo lá, caiu a 8 eu mato a par.
Eu não preciso de muito pra sentir-me capaz de encontrar a
FÓRMULA MÁGICA DA PAZ.
Eu vou procurar, sei que vou encontrar, eu vou procurar,
eu vou procurar, você não bota mó fé, mas eu vou atrás(Eu vou procurar e sei
que vou encontrar)
da minha FÓRMULA MÁGICA DA PAZ.
Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Procure a sua(eu vou procurar, eu vou procurar, você não bota mó fé...)
Eu vou atrás da minha(você não bota mó fé)
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Caralho! Que calor, que horas são agora? Dá pra ouvir a pivetada gritando
lá fora. Hoje acordei cedo pra ver, sentir a brisa de manhã e o Sol
nascer. É época de pipa, o céu tá cheio. 15 anos atrás eu tava ali no meio.
Lembrei de quando era pequeno, eu e os cara... faz tempo, faz tempo,
E O TEMPO NÃO PARA.
Hoje tá da hora o esquema pra sair, é... vamo, não demora, mano, chega aí!
"Cê viu onti? Os tiro ouvi de monte! Então, diz que tem uma pá de
sangue no campão." IH, mano toda mão é sempre a mesma idéia junto:
TRETA, TIRO, SANGUE, aí, muda de assunto. Traz a fita pra eu ouvir
porque eu tô sem, principalmente aquela lá do Jorge Ben. Uma pá de mano
preso chora a solidão. Uma pá de mano solto sem disposição. Empenhorando
por aí, rádio, tênis, calça, acende num cachimbo... virou fumaça!
Não é por nada não, mas aí, nem me ligo ô, a minha liberdade eu curto
bem melhor. Eu não tô nem aí pra o que os outros fala. 4, 5, 6, preto
num Opala. Pode vir GAMBÉ, PAGA PAU, tô na minha na moral na maior,
SEM GORÓ, SEM PACAU, SEM PÓ. Eu tô ligeiro, eu tenho a minha regra,
não sou pedreiro, não fumo pedra. Um rolê com os aliados já me faz feliz,
respeito mútuo é a chave é o que eu sempre quis(diz...). Procure a sua, a
minha eu vou atrás, até mais, da FÓRMULA MÁGICA DA PAZ.
Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Eu vou procurar, eu vou procurar
você não bota mó fé..., mas eu vou atrás....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Da FÓRMULA MÁGICA DA PAZ
Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Eu vou procurar, eu vou procurar
você não bota mó fé..., mas eu vou atrás....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Choro e correria no saguão do hospital. Dia das criança, feriado e luto
final. Sangue e agonia entra pelo corredor. Ele tá vivo! Pelo amor de
DEUS Doutor! 4 tiros do pescoço pra cima, puta que pariu a chance é
mínima! Aqui fora, revolta e dor, lá dentro estado desesperador!
Eu percebi quem eu sou realmente, quando eu ouvi o meu sub-consciente:
"E aí mano Brown CUZÃO? Cadê você? Seu mano tá morrendo o que você
vai fazer?". Pode crê, eu me senti inútil, eu me senti pequeno, mais um
cuzão vingativo(mais um). Puta desespero, não dá pra acreditar, que pesadelo,
eu quero acordar. Não dá, não deu, não daria de jeito nenhum, o Derlei era só
mais um rapaz comum! Dali a poucos minutos, mais uma Dona Maria de luto!
Na parede o sinal da cruz. Que porra é essa ? Que mundo é esse ? Onde
tá JESUS ? Mais uma vez um emissário não incluiu CAPÃO REDONDO
em seu itinerário. Pôrra, eu tô confuso. Preciso pensar. Me dá um tempo
pra eu raciocinar. Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá, minha
ideologia enfraqueceu. PRETO, BRANCO, POLÍCIA, LADRÃO OU EU,
quem é mais filha da puta, eu não sei! Aí fudeu, fudeu, decepção essas
hora... a depressão quer me pegar vou sair fora.
2 de Novembro era finados. Eu parei em frente ao São Luis do outro lado
e durante uma meia hora olhei um por um e o que todas as Senhoras
tinham em comum: a roupa humilde, a pele escura, o rosto abatido pela
vida dura. Colocando flores sobre a sepultura. ("podia ser a minha mãe").
Que loucura.
Cada lugar uma lei, eu tô ligado. No extremo Sul da Zona Sul tá tudo
errado. Aqui vale muito pouco a sua vida. A nossa lei é falha, violenta e
suicida. Se diz que, me diz que, não se revela: parágrafo primeiro na lei da
favela. Legal... Assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e
que só morre o pobre. A gente vive se matando irmão, por quê ? Não me
olhe assim, eu sou igual a você. Descanse o seu gatilho, descanse o seu
gatilho, entre no trem da malandragem, o meu RAP é o TRILHO.
VOU DIZER....
Procure a sua paz....
Pra todas a famílias ai que perderam pessoas importante morô meu!!!!
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Procure a sua Paz(Paz....)
Não se acostume com esse cotidiano violento,
Que essa não é a sua vida, essa não é a minha vida morô mano!!!!
Procure a sua paz....
Aí Derlei, descanse em paz!
Aí Carlinhos procure a sua paz!
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Aí Quico, você deixou saudade morô mano!
Agradeço à Deus e aos Orixás....
Eu tenho muito a agradecer por tudo
Agradeço à Deus e aos Orixás....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Cheguei aos 27, sou um vencedor, tá ligado mano!!!!
Agradeço à Deus e aos Orixás....
Aí procure a sua, eu vou atrás da minha FÓRMULA MÁGICA DA PAZ!
Você não bota mó fé....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Aí, manda um toque na quebrada lá, Coab, Adventista e pá RAPAZIADA!!!!
Malandragem de verdade é viver....
Se liga!!!!
Procure a sua paz!!!!
Você não bota mó fé....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Que tu fala é MANO BROWN mais um sobrevivente
Agradeço á Deus, Agradeço á Deus....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
27 ano, contrariando a estatística morô meu!!!!
Agradeço á Deus, Agradeço á Deus....
Procure a sua paz....
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Eu vou procurar....
Procure a sua paz...
procure a sua!!!!
Eu vou encontrar
Você pode encontrar a sua paz, o seu paraíso!!!!
Eu vou procurar
Você pode encontrar o seu INFERNO!!!!
A FÓRMULA MÁGICA DA PAZ........!
(Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
eu prefiro a
PAZ!!!!!!
Hey Boy
Hey boy! hey boy!
Dá um tempo ai, cola ai!
Pera ai!
Que é mano?
Que esse otário tá fazendo aqui?
Ai dá um tempo ai, chega ai...
Que foi bicho!?
Lembra de mim mano?
Não...
Então vamo trocar uma idéia nós dois agora...
Hey boy o que você está fazendo aqui
Meu bairro não é seu lugar
E você vai se ferir
Você não sabe onde está
Caiu num ninho de cobra
E eu acho que vai ter que se explicar
Pra sair não vai ser fácil
A vida aqui é dura
Dura é a lei do mais forte
Onde a miséria não tem cura
E o remédio mais provável é a morte
Continuar vivo é uma batalha
Isso é se eu não cometer falha
E se eu não fosse esperto
Tiravam tudo de mim
Arrancavam minha pele
Minha vida enfim
Tenho que me desdobrar
Pra não puxarem meu tapete
E estar sempre quente
Pra não ser surpreendido de repente
Se eu vacilo trocam minha vaga
O que você fizer
Aqui mesmo você paga
A pouca grana que eu tenho
Não dá pro próprio consumo
Enquanto nós conversamos
A polícia apreende e finge
A marginalidade cresce sem precedência
Conforme o tempo passa
Aumenta é a tendência
E muitas vezes não tem jeito
A solução é roubar
E seus pais acham que a cadeia é nosso lugar
O sistema é a causa
E nós somos a consequência....Maior
Da chamada violência
Por que na real
Com nossa vida ninguém se importa
E ainda querem que sejamos patriotas
Hey...Boy...
Isso tudo é verdade
Mas não tenha dó de mim
Por que esse é meu lugar
Mas eu o quero mesmo assim
Mesmo sendo o lado esquecido da cidade
E bode espiatório de toda e qualquer mediocredade
A sociedade já não sabe o que fazer
Se vão interferir ou deixar acontecer
Mas por sermos todos pobres
Os tachados somos nós
Só por ser conveniente
Hey boy...
Pense bem se não faz sentido
Se hoje em dia eu fosse um cara
Tão bem sucedido
Como você é chamado de superior
E tem todos na mão
E tudo a seu favor
Sempre teve tudo
E não fez nada por ninguém
Se as coisas andam mal
É sua culpa também
Seus pais dão as costas
Para o mundo que os cercam
Ficam com o maior melhor
E pra nós nada resta
Você gasta fortunas
Se vestindo em etiqueta
E na sergeta é as crianças
Futuros homens
Quase não comem morrem de fome
Com frio e com medo
Já não é segredo e as drogas consomem
Sinta o contraste e só me de razão
Não fale mais nada porque
Vai ser em vão
Hey Boy...
Você faz parte daqueles que colaboram
Para que a vida de muias pessoas
Seja tão ruim
Acha que sozinho não vai resolver
Mas é por muitos pensarem assim como você
Que a situação
Vai de mal a pior
E como sempre você pensa em si só
Seu egoísmo ambição e desprezo
Serão os argumentos pra matar você mesmo
Então eu digo Hey boy...
Não fique surpreso
Se o ridículo e odioso
Círculo vicioso
Sistema que você faz parte
Transforma num criminoso
E doloroso
Será ser rejeitado HUMILHADO
Considerado um marginal
Descriminado, você vai saber
Sentir na pele como dói
Então aprenda a lição
Hey Boy...
"-Aí boy sai andando ai certo...
-Eu tenho todos os motivos
-Mas nem por isso eu vou te roubar
-Morô?
-Sai andadando
-Vai caminha mano!
-Não tem nada pra você aqui não, seu otário!
-Vai embora
-Sai fora
-E não pisa mais aqui hein!"