LINGUAGEM, TEORIA E CONHECIMENTO: O PAPEL DA
LINGUAGEM NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO TEÓRICO
Elisson Ferreira Morato
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET MG)
GT 05: Filosofia da Ciência e da Tecnologia
RESUMO: este trabalho apresenta uma reflexão sobre as relações entre linguagem e construção
teórica a partir do conceito de teoria de Popper (1972), da teoria da significação de Peirce (1972) e do
conceito de paradigma de Khun (2007). De acordo com Popper, as teorias são enunciados, ou
conjuntos de signos, utilizados para explicar o mundo. Nessa perspectiva, podemos entender que a
teoria se coloca no lugar de um evento do mesmo modo que, na linguagem, uma representação ocupa
o lugar de um objeto. Assim, podemos dizer que uma teoria é uma representação de um evento
possibilitada pela linguagem, sendo que esta representação ocorre dentro de um paradigma científico
determinado, um modelo que leva a teoria a ser articulada segundo valores de verdade e falsidade, os
quais podem ser alterados com o tempo.
PALAVRAS-CHAVE: linguagem; teoria; representação.
1. Introdução:
O ensino tecnológico não pode prescindir de apresentar, além de um conjunto de
técnicas, um montante de conhecimentos teóricos. Assim, essa modalidade de ensino reúne
tanto um saber-fazer quanto um fazer-saber, o que inclui tanto o conhecimento técnico quanto
a aplicação de teorias. Uma teoria, por sua vez, não raramente se encontra permeada de mitos,
dentre os quais o de que ela é o próprio evento que procura explicar ao invés de uma
representação deste. Encontramos também a ideia pré-concebida de que as teorias são isentas
de julgamentos de valor. Também citamos a concepção de que a teoria se constrói pelo
acúmulo de conhecimentos, de modo a se tornar apenas o apêndice de outra já suprimida.
Nesse âmbito, nos encorajamos a provocar uma reflexão sobre teoria e alguns fatores que lhes
são determinantes.
Se a teoria é um modo de representar e, ao mesmo tempo, compreender um fenômeno
e prever dados que lhe sejam correlatos, podemos entender que essa representação é operada,
direta ou indiretamente, pela linguagem, através da qual o observador interage com o mundo.
Dessa maneira, uma teoria se coloca artificialmente no lugar daquilo que procura explicar e se
torna uma representação passível de ser comunicada, partilhada e/ou contestada por uma dada
comunidade científica. Nesse contexto, o presente trabalho apresenta uma reflexão teórica
sobre as relações entre linguagem e teoria com o objetivo de estimular o posicionamento
crítico frente ao estudo e/ou a aplicação teórica no ensino tecnológico.
Nossa pesquisa consiste em um estudo teórico-reflexivo, resultando daí uma
metodologia centrada no estudo de conceitos elementares como o de teoria, conforme
depreendido no trabalho de Karl Popper (1972) e Thomas Khun (2007), linguagem,
significação e representação, conforme Charles Sanders Peirce (1972) e de paradigma,
também discutido na obra de Thomas Khun (2007). Para tanto, iniciamos nossa discussão
através do conceito de teoria.
2. Conceito de teoria:
As concepções melhor cristalizadas de teoria a definem como uma representação de
um dado fenômeno (o movimento, a linguagem, a evolução, a relatividade etc) de modo a se
obter, a partir desta, um esclarecimento lógico de um evento e, ao mesmo tempo, um conjunto
de previsões possíveis de outros fatos que sejam derivados ou estejam relacionados ao evento
principal.
Uma teoria está relacionada com uma explicação possível sobre algo que se acredita
poder explicar. O epistemólogo austríaco Karl Popper (1902-1994), em sua obra A Lógica da
Pesquisa Científica nos oferece a seguinte explicação: “As teorias são redes lançadas para
capturar aquilo que denominamos o mundo: para racionalizá-lo, explicá-lo, dominá-lo.”
(POPPER, 1972, p. 60) É curioso observar o acréscimo que o autor faz a essa acepção: “As
teorias científicas são enunciados universais. Como todas as representações linguísticas, são
sistemas de signos ou símbolos” (POPPER, 1972, p.60).
Julgamos curiosa a definição de Popper por que, quando comparado ao conceito do
mesmo objeto, legado por um teórico das ciências da linguagem, temos a seguinte definição:
teoria é “um conjunto coerente de hipóteses suscetíveis de serem submetidas à verificação.”
(GREIMAS; COURTÈS, 2008, p. 498). A noção dada pelos semioticistas franceses Algirdas
Julien Greimas e Jean Courtès nos parece, podemos dizer, menos contaminada por uma
concepção linguística de ciência.
3. Teoria e representação de mundo:
A teoria preenche uma lacuna importante no conhecimento humano, já que explica
aquilo que, até então, não encontrava uma elucidação satisfatória. Entretanto, devemos
lembrar que o conjunto de hipóteses que forma o aparato teórico não consiste no
esclarecimento definitivo do problema, nem a confirmação de tal fenômeno é dada pela
aplicação de tais e tais hipóteses. Uma teoria fornece uma explicação transitória que,
entretanto, tem o aspecto de ser definitiva. Como nos diz Popper (1972, p. 87), “as teorias
científicas estão em perpétua mutação”.
É transitória porque, conforme nos mostra a história da ciência, as explicações dos
eventos duram um período de tempo maior ou menor até serem substituídas por outras. E é
definitiva porque o pesquisador ou o público leigo tem a impressão de que a explicação existe
desde tempos imemoriais e perdurará até o último capítulo possível da história do
conhecimento humano.
O fato de as teorias serem elaboradas e, posteriormente, substituídas enquanto os
eventos permanecem suscitando dúvidas nos dão uma primeira certeza de que a teoria não é o
fenômeno em si, assim como um conceito, de força, gravidade ou movimento, por exemplo,
não é, necessariamente, a coisa que ele descreve e/ou representa. Do mesmo modo, uma
palavra, pedra, céu, queda, por exemplo, são apenas termos através dos quais representamos e
comunicamos essas coisas.
Nessa perspectiva, podemos entender que uma teoria representa um fenômeno do
mesmo modo que as palavras representam os objetos ou os eventos o mundo. O problema da
construção ou elaboração teórica não difere do problema da representação das coisas através
da linguagem. Tanto nosso conhecimento do mundo quanto a elaboração teórica dos fatos é
perpassada pela linguagem, linguagem não entendida como conjunto de sinais que servem a
comunicação, mas como elemento que media o mundo e o conhecimento humano. A
capacidade de explicar cientificamente o mundo deriva da capacidade de representá-lo e de
transformar essa representação em dados através dos quais são tecidas hipóteses por meio das
quais se constitui a teoria.
Precursor dessa noção é o filósofo alemão Imanuel Kant (1724-1804), segundo o qual
só podemos conhecer o mundo através de nossa capacidade de representá-lo e, ao mesmo, na
capacidade de interpretarmos essas representações:
“Nosso conhecimento emana de duas fontes principais do espírito: a primeira consiste na
capacidade de receber representações (a receptividade das impressões) e a segunda na faculdade de
conhecer um objeto por meio dessas representações (a espontaneidade dos conceitos. Pela primeira
nos é dado um objeto, pela segunda é pensado em relação a essa representação.” (KANT,
1958,
p. 62)
Assim, Kant alega que o entendimento é “a faculdade que temos de produzir nós
mesmos representações” (1958, p. 63). Desse modo, o que conhecemos do mundo não são os
fenômenos, mas representações destes, ao passo que “os fenômenos não são as coisas em si,
existem só no mesmo sujeito” (KANT, 1958, p. 131).
O filósofo alemão separa as coisas em si, os númenos, dos fenômenos, estes são a
maneira através da qual percebemos aquelas. Desse modo, não podemos conhecer as coisas
em si mesmas, mas apenas representá-las mentalmente através das sensações que percebemos
através dos sentidos. Temos, então, um paradoxo, é através dos sentidos que conhecemos as
coisas, e também dos sentidos que estamos privados de conhecer as coisas tais como são em
si mesmas. Do mesmo modo, uma teoria nos permite conhecer um evento, mas, ao mesmo
tempo, não nos permite de conhecê-lo em si mesmo.
5. Fenômeno e evento:
Julgamos necessário estabelecer uma diferença terminológica entre fenômeno e evento.
Na filosofia kantiana fenômeno pode ser entendido como uma propriedade através da qual
um objeto em si mesmo é apreendido pelos sentidos. As cores, formas, texturas, sons são
fenômenos através dos quais podemos conhecer os objetos. Uma maçã, por exemplo, é
percebida através das sensações visuais, táteis e gustativas. Nessa perspectiva, o que podemos
apreender não é a maçã em si mesma e sim os fenômenos a ela relacionados.
Neste trabalho, a fim de evitar equívocos distinguimos fenômeno, que é a propriedade
através da qual apreendemos um dado objeto, de evento, sendo que este último é o conjunto
de fenômenos que forma aquilo que uma teoria busca explicar, como a gravidade, o
movimento, ou a eletricidade, por exemplo. Logo é mais lícito entender, neste artigo, que a
teoria busca representar um evento e não um fenômeno, já que aquele é um conjunto formado
pela multiplicidade destes.
6. A linguagem e a representação teórica: o legado de Peirce:
No início do século XX, o pensador e semioticista norte-americano, Charles Sanders
Peirce (1839-1914) elaborou uma teoria segundo a qual só podemos conhecer o mundo
através das sensações que captamos deste. O diferencial, entretanto, estava em considerar que
essas sensações geram elementos de representação, os signos. Defendendo uma visão pansemiótica do mundo, o autor alega que as coisas só podem ser percebidas através de signos, os
quais se colocam no lugar dos objetos representados.
Nosso conhecimento, assim, é possibilitado através das representações que fazemos
dos objetos do mundo e dos fenômenos, e conhecer um evento é representá-lo por meio de
signos, que são elementos que formam o pensamento colocando-se mentalmente no lugar da
coisa representada.
Conforme a teoria peirceana, a realidade, ou os objetos do mundo, chega à
consciência segundo três categorias de percepção, sendo elas: a Primeiridade, a Secundidade
e a Terceiridade (PEIRCE, 1972, p. 136), que são classes de fenômenos usadas na construção
de representações mentais, os signos, do mundo. As categorias têm um papel importante, uma
vez que permitem a apresentação dos fenômenos, possibilitando o estudo de sua natureza
básica e, consequentemente, de suas representações.
As categorias permitem uma especificação satisfatória dos fenômenos segundo
modalidades de signos e de significação distintos. As três modalidades básicas para os
processos de significação, apontadas anteriormente, não são uma função isolada, pelo
contrário, a Primeiridade está contida na Secundidade essas duas, conjugadas, integram a
Terceiridade, o que merece um esclarecimento mais delongado.
Na primeira categoria, a Primeiridade, temos as sensações vagas que não chegam a
gerar uma reação na mente, não sendo capazes de gerar um signo definido que as represente.
Os estímulos da Primeiridade não chegam a se constituir enquanto signos, mas apenas como
Quali-signos (PEIRCE, 1972, p.100), uma primeira ordem de fenômenos sem uma
representação mais complexa.
A Secundidade pode ser ilustrada como sendo a sensação provocada por um estímulo,
categoria na qual se tem a descrição da relação entre consciência e mundo exterior. Assim, o
contato com o fenômeno leva a uma resposta, uma reação por parte do indivíduo, e dessa
maneira, os objetos são dados na conjugação de uma ação com uma reação.
A Primeiridade depende de uma Secundidade para existir, ou vice-versa. As sensações
primitivas dadas pelo Quali-signo peirceano, levam imediatamente a uma resposta, passando
do campo da Primeiridade para o da Secundidade. A Primeiridade consiste em uma categoria
preenchida por signos caracterizados como estímulos vagos, signos primitivos que logo
encontram uma forma mais evoluída, possibilitada pela ação cognitiva que seria definida
como um Sin-signo (PEIRCE, 1972, p. 100) que envolve um Quali-signo, ou antes, vários
Quali-signos (PEIRCE, 1972, p. 100). Desse modo, depreende-se que o Sin-Signo é uma
formulação constituída por Quali-Signos.
As duas categorias anteriormente explanadas resultam em uma outra, subsequente: a
Terceiridade, que consiste já no pensamento por signos. O elemento aqui constituído por via
da Primeiridade e Secundidade é chamado de Legi-signo, a significação formada por Qualisignos e Sin-signos. Uma vez que se trata do pensamento traduzido em linguagem, o Legisigno é dotado de significação graças à atuação de convenções sociais, linguísticas e culturais.
Na doutrina de Peirce, a Primeiridade, mera qualidade de signo, só existe enquanto
pensada pela Secundidade, uma espécie de signo que leva à consciência da Primeiridade. A
Terceiridade, por sua vez, fornece o entendimento necessário à consumação das categorias
anteriores. Trata-se de um conjunto de elementos em dependência recíproca: não há
Terceiridade sem Secundidade ou este último sem Primeiridade. Essa ordem pode ser
invertida de modo a se afirmar que não há Primeiridade sem Secundidade e/ou Terceiridade.
Com a inter-relação mantida pelas três categorias dos fenômenos, Peirce apresenta
uma tricotomia na qual vincula o signo, ou representamem, a ele mesmo, estabelecendo,
assim, a natureza de um fenômeno semiótico em si. A tríade Quali-signo, Sin-signo, Legisigno caracteriza três modos possíveis de apreensão das realidades.
O mais frágil e mais primitivo dos signos, o Quali-signo é uma qualidade de
impressão de um objeto: é a impressão imediata que um objeto provoca na mente de um
sujeito cogniscente. Uma exemplificação eficaz dessa qualidade de signo e de seu efeito a
priori é a sensação de vermelhidão. Uma grande tela vermelha que fosse colocada a nossa
percepção geraria impressões vagas e passageiras relacionadas a ela. Impressões que só se
dariam por percebidas e apreendidas com a ocorrência de um signo mais evoluído: o Sinsigno.
O Sin-signo é um representamem que existe em função do anterior sendo, nessa
perspectiva, uma elaboração de um Quali-signo, a sensação provocada pelas impressões do
Quali-signo. O Sin-signo é um processo de reação e, ao mesmo tempo, é essa reação. Diante
da tela vermelha, por exemplo, poderíamos sentir excitação, tristeza, ou qualquer outra gama
de reações.
O Legi-signo é um signo que se porta como que estipulado por uma lei, ou como
sendo, necessariamente, essa lei. Muitas vezes, as reações diante dos objetos podem ser
culturalmente motivadas. Essa elaboração convencionada nos mostra que os dois signos
anteriores encontram uma formulação que é convencionada e legislada. A cor vermelha, por
exemplo, pode ser usado em um semáforo como a representação de um estatuto que ordena
um motorista que pare, ainda que, a priori, o vermelho não tenha essa função. Os Legi-signos
são aqueles elaborados a partir de reações advindas de sensações vagas, os Quali-signos, e
transformadas em uma ideia cristalizada. Trata-se do pensamento traduzido em linguagem,
seja ela verbal ou não-verbal.
A linguagem, assim compreendida, é um processo dinâmico através do qual
representamos nosso estar-no-mundo através da interpretação deste. Peirce dividiu esse
processo em três etapas: na Primeiridade temos a impressão imediata das coisas através dos
sentidos (visão, olfato, paladar, tato, audição), na Secundidade esses estímulos são
organizados e associados a alguma ideia e na Terceiridade, temos o pensamento propriamente
dito: a interpretação e re-elaboração mental do mundo observado.
Em todas essas etapas ocorre a formação de signos, ou representamens, que são
elementos através dos quais representamos os objetos, concretos ou abstratos do mundo. A
elaboração teórica se assemelha, nesse aspecto, ao processo de significação do mundo. A
interpretação do mundo através da linguagem opera do mesmo modo que a teorização de um
fenômeno, de modo que uma teoria se torna um conjunto de signos, um conjunto de
elementos ou representações, como premissas, equações e enunciados que se colocam no
lugar dos eventos em si mesmos.
7. Eratóstenes e Ptolomeu:
Um exemplo do processo de significação concebido pela teoria de Peirce pode ser
dado por uma experiência realizada pelo matemático grego Eratóstenes (285-194 a.C.).
Conta-se ele descobriu na lendária biblioteca de Alexandria, no norte do Egito, um
pergaminho no qual se relatava que, na cidade de Siene, ao sul, ao meio-dia durante o dia
mais longo do ano o sol não projetava nenhuma sombra em contato com uma coluna de pedra
ou com uma vara fincada no chão. Do mesmo modo, ao meio-dia, a luz do sol iluminava
diretamente o fundo de um poço.
O que intrigou Eratóstenes não foi o relato em si, mas o fato de que também no dia
mais longo do ano, no mesmo horário, o mesmo fenômeno não ocorria na cidade de
Alexandria. Nessa localidade, uma vara fincada no chão ao meio-dia do dia mais longo do
ano projetava uma sombra de extensão significativa, ao contrário do que ocorria em Siene.
O matemático então intuiu que essa diferença na extensão da sombra era devido ao
fato de que os raios solares atingiam a Terra em ângulos diferentes. E essa diferença no
ângulo dos raios solares em relação à Terra era devida e circunferência desta, ou seja, a Terra
não era plana ou achatada como prediziam alguns. Para chegar a essa constatação, o sábio não
utilizou apenas raciocínio lógico e uma argumentação coerente, mas cálculos matemáticos e
experimentos.
Eratóstenes mediu a distância entre Alexandria e Siene (cerca de 800 km) e pode
calcular com relativa precisão a medida da circunferência do planeta. Se a vareta fincada em
Alexandria com aquela fincada em Siene se encontrasse no centro do planeta, formariam um
ângulo de 7 graus. 7 graus correspondem a 1/50 avos de uma circunferência. Ora se a
distância entre Alexandria era de cerca de 800 km e se um círculo possui 360 graus, a
circunferência da Terra deveria medir cerca de 40 mil Km. Uma definição bastante precisa se
consideramos hoje que a Terra possui um diâmetro de 40.072 km na linha do Equador. Tudo
apenas observando o jogo entre sol e sombra em duas cidades diferentes.
O procedimento de Eratóstenes, se encaixado nas categorias da significação de Peirce
nos daria a seguinte configuração:
Quadro 1:
Primeiridade
Secundidade
Sensação visual de luz e Reação
às
sensações,
sombra
organização
visual
dos
objetos:
“Luz,
sombra,
coluna, vareta etc.”
Terceiridade
Formação de conceitos a
associação
de
ideias:
“Sombra de um objeto
formada pela luz sobre ele”
Entretanto, o quadro acima se mostra suficiente para explicar um processo de
construção teórica? E se a simples observação de um evento é a condição para a construção
teórica, porque outro observador não teria chegado às mesmas conclusões antes de
Eratóstenes? Podemos responder que outros não o fizeram porque não eram cientistas. Tal
resposta é válida, mas um tanto vaga e sem o devido detalhamento.
Eratóstenes observou o evento equipado não apenas com os sentidos, a visão, por
exemplo, e com a faculdade do raciocínio, mas com um conjunto de crenças, segundo as quais
determinados cálculos matemáticos lhe permitiriam tirar algumas conclusões possíveis.
Incorrendo propositalmente em uma tautologia, essas conclusões, por seu turno, poderiam ser
confirmadas por esses cálculos.
O matemático, então, não utilizou apenas a experiência dos sentidos, para construir o
conhecimento teórico, mas uma espécie de prisma científico através do qual convertia os
fenômenos observados em dados, digamos científicos. Naquela época, ainda não havia ciência
a não ser em estado embrionário. Eratóstenes, portanto, não era um cientista e não elaborou
uma teoria, mas, ainda assim, agiu dentro um procedimento científico, um conjunto de
princípios segundo os quais os resultados de suas observações foram convertidos em cálculos
e os cálculos na representação lógica de um evento.
Cerca de dois séculos depois de Eratóstenes, outro importante personagem desse
período proto-científico elaborou uma tese segundo a qual a Terra era o centro do universo e
em seu redor giravam o Sol e os planetas. Era o geocentrismo, uma proto-teoria planetária
criada por Hiparco de Nicéia (190 - 126 a. C.) e aperfeiçoada por Cláudio Ptolomeu (168-90
a. C.).
Tanto Hiparco quanto Ptolomeu usaram cálculos, observações e também estavam
atuando dentro de parâmetros lógicos. Entretanto, o sistema geocêntrico se mostrou
equivocado enquanto as conclusões de Eratóstenes, no máximo, foram pouco menos precisas
do que hoje. Não podemos dizer sumariamente que Ptolomeu e Hiparco estavam errados, em
especial porque, naquela época, o único conceito possível de planeta Terra era,
necessariamente, o de um corpo celeste imóvel.
Ptolomeu estava correto, mas dentro de um paradigma errôneo. A Terra não poderia
ser entendida como um corpo que se move no espaço porque o único ponto de referência
possível para a observação do movimento dos astros era a própria Terra. Desse modo,
observando o céu, a Terra parecia ser o único corpo imóvel nesse antigo sistema planetário.
O que rendeu a Eratóstenes o mérito e a Ptolomeu e Hiparco o abandono de seu
sistema não foi a verdade dos fatos em si mesmos, mas a maneira pela qual esses fatos foram
aceitos e representados durante séculos. Por exemplo, mesmo errado, o geocentrismo
ptolomaico perdurou até o século XV, quando ocorreu a chamada revolução copernicana.
Pelo mesmo motivo, pouca importância se deu a precisão das conclusões de Eratóstenes e o
homem medieval passou quase mil anos temendo navegar e chegar a um abismo no qual o
mundo, que era plano, acabava.
O conjunto de crenças que girava em torno desses três pensadores antigos é o que
chamamos de paradigma, ou de proto-paradigma, já que, naquela época, ainda havia uma
ciência propriamente dita. Com o advento da ciência moderna, a partir do século XVI,
podemos falar definitivamente em paradigma e de como ele pode transformar os dados brutos
de uma observação sensorial em teoria científica. Para tanto devemos esclarecer sobre o
conceito de paradigma, um termo que já mencionamos anteriormente.
8. Paradigma e progresso científico em Khun:
Embora o conceito de paradigma, em Thomas Khun seja essencial ao desenvolvimento
de suas considerações sobre as revoluções científicas, o autor mal o define ao longo da obra,
ou o faz de maneira bastante vaga. Tal crítica foi acatada posteriormente pelo autor que
concretizou a noção de paradigma de dois modos possíveis. Paradigma pode ser entendido
tanto como um conjunto de crenças, valores e técnicas partilhadas pelos membros de uma
comunidade científica quanto um tipo de elemento desse conjunto, como metodologia
fórmulas, conceitos etc (cf. KHUN, 2007, p. 220).
De maneira geral, sem nos afastarmos do conceito khuniano, podemos entender
paradigma como um conjunto de crenças que orienta a observação de um evento e dirige
elaboração de uma teoria. Na história da ciência, os paradigmas podem ser substituídos por
outros, como ocorreu com o geocentrismo ptolomaico. Essa mudança é o que Khun chama de
revolução científica (KHUN, 2007, p.122).
O fato de os paradigmas serem ocasional e inevitavelmente substituídos por outros
mostra que o conhecimento científico não é construído pelo acúmulo de saberes, mas pelo
rompimento que novos conhecimentos provocam em relação aos antigos. Nessa perspectiva,
as teorias são transitórias: funcionam e explicam o evento durante um período de tempo e
depois podem ser substituídas constando apenas em capítulos da história da ciência. Isso
ocorre porque o paradigma oferece respostas para os eventos apenas durante um período de
tempo. Mas qual a relação entre paradigma, linguagem e representação teórica?
É dentro de um determinado paradigma que a observação de evento ganha uma
configuração teórica. No exemplo de Eratóstenes ou de Ptolomeu, a ausência de sombra ao
meio-dia ou o suposto movimento do Sol em relação à Terra foram dados elaborados a partir
da observação bruta do mundo concreto, de modo que as primeiras ferramentas desses sábios
foram apenas os olhos. Posteriormente é que esses estímulos foram compreendidos dentro
daquilo que chamamos de proto-paradigma, já não havia ainda um método científico definido.
Primeiramente esses homens interpretaram os estímulos dados pelo mundo sensível, e,
em seguida, o transpuseram para um paradigma que lhes permitiu teorizar a respeito. Essa
discussão pode gerar a seguinte tautologia, a observação leva ao paradigma e o paradigma
leva a observação. De fato, o paradigma pode educar os sentidos do observador, de modo que
este perceba o evento sempre dentro do paradigma. Entretanto, não podemos nos esquecer que
um paradigma não existe a priori, ele também é uma convenção. Uma espécie de ferramenta
de pensamento muitas vezes usada de maneira inconsciente através da qual o cientista
transforma os dados brutos do evento observado em dados científicos. Linguagem e
paradigma, desse modo, são como ferramentas complementares na elaboração teórica.
Segundo Khun (2007, p.150), “o mundo observado é condicionado pela tradição
científica”, e, desse modo, “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como
daquilo que sua experiência visual conceitual prévia o ensinou a ver”. Assim, podemos acatar
que as alterações perceptivas, a maneira como um observador vê o mundo, acompanham as
mudanças de paradigma, ou das maneiras através das quais o conhecimento do mundo pode
ser elaborado.
Se conciliarmos as ideias de Peirce com de Khun poderíamos articular a seguinte
configuração para o conhecimento teórico-científico:
Quadro 2:
Primeiridade
peirceana
Impressão
imediatada dos
objetos
Secundidade
peirceana
Reação
a
impressão
imediata,
sensação
Terceiridade
peirceana
Elaboração das
impressões em
pensamento
organizado,
reconhecimento
dos objetos do
mundo
Observação
científica
Observação do
evento
Constatação do
problema
Reação
ao
evento
observado
Elaboração
teórica
Formulação de
hipóteses
e
representação
teórica
Não podemos nos esquecer que os paradigmas não são fatos ou eventos naturais, e sim
convenções científicas igualmente transitórias como as formas de se perceber um evento. Se
encaixada na teoria da significação de Peirce, um paradigma seria um signo pertencente a
terceira categoria, a Terceiridade, que constitui uma classe de signos que consistem em uma
lei ou uma convenção. Exemplos desses legi-signos seriam o conceito ptolomaico de Terra
enquanto um corpo imóvel no céu. Os paradigmas convencionam as observações dos eventos
do mesmo modo que a observação dos eventos convenciona um paradigma. É que ocorre
quando uma teoria não consegue mais prever ou explicar um dado problema.
A revolução copernicana, por exemplo, ocorreu porque as observações de Copérnico
não conseguiam ser orientadas pelo paradigma ptolomaico do geocentrismo. Ou seja, as
representações copernicanas do evento observado é que condicionaram a mudança de
paradigma e não o contrário.
9. Copérnico:
Matemático e astrônomo polonês, Nicolau Copérnico (1473-1543), contrariou o
paradigma ptolomaico segundo o qual a Terra era o centro do universo e não se movia.
Entretanto, esse progresso científico notável não se deveu ao acúmulo de saberes sobre o
sistema solar, mas do rompimento com os conhecimentos até então admitidos e tidos como
verdadeiros. O objeto dessa discussão, o sistema planetário, entretanto, continuava inalterável.
Copérnico, embora autor de ideias revolucionárias, não deixou comprovações mais
empíricas sobre suas conclusões e teve que esperar que outros astrônomos, como Kepler e
Galileu confirmassem suas ideias. Para Copérnico, o fato de o Sol ocupar o centro do sistema
solar já não era tão novo, já que existiam evidências dessa convicção em pensadores gregos
como Aristarco de Samos (310-230 a. C.). Mas a Copérnico faltaram dados que permitissem a
verificação de suas hipóteses: suas ferramentas foram apenas os olhos nus com que observava
os astros e cálculos matemáticos. Os principais meios com que o astrônomo polonês divulgou
sua teoria foram os argumentos.
Esse astrônomo, apesar de observar o céu a olho nu se baseou não só na simples
observação, mas na elaboração de dados. Por outro lado, os dados de Copérnico serviram para
que outros cientistas consolidassem a ruptura com o paradigma geocêntrico, inaugurando a
moderna astronomia. Galileu, ao inaugurar a ciência experimental tornou mais consistente a
teoria copernicana e Newton, com sua teoria da gravitação universal também confirmou a
validade das ideias de Copérnico.
Copérnico não deixou equações memoráveis, mas um modelo teórico no qual o Sol
ocupava o centro do sistema planetário em torno do qual os planetas conhecidos
desenvolviam órbitas elípticas. A ideia segundo a qual os planetas descrevem órbitas elípticas
em torno do Sol, por outro lado, serviu de base que o físico inglês Isaac Newton (1643-1727)
construísse a teoria da gravitação universal.
Entretanto, o nos interessa em Newton não é o fato de ter apoiado sua teoria nos
ombros de um gigante, como Copérnico, conforme teria dito certa vez. Mas no de estabelecer
cálculos segundo uma linguagem especificamente científica, ou um modo de expressão
particular. A elucidação da força que mantinha em funcionamento o modelo planetário de
Copérnico não foi dado apenas por uma argumentação verbal pura e simples, mas também por
fórmulas matemáticas, como:
De acordo com a teoria newtoniana, o motivo pelo qual os planetas descrevem uma
órbita em redor do Sol é o mesmo pelo qual os objetos caem. A gravidade faz com que os
objetos se atraiam for meio de uma força, a gravidade, a qual depende tanto da quantidade de
matéria que há nesses corpos quanto da distância que os separa.
Na lei da gravitação universal, m1 e m2 são dois corpos de massa diferente. R é a
distância entre eles e F1 (F2) é a força sentida pelos corpos. A força gravitacional, nesse caso,
é proporcional a massa, a quantidade de matéria, de cada um dos corpos e ocorre na
proporção inversa do quadrado da distância que esses corpos possuem entre si. Newton,
portanto, teria enunciado sua ideia da gravitação universal como uma lei da física, uma
convenção que deveria ser aceita pela comunidade científica de seu tempo.
Podemos observar, que o pesquisador que lide com a questão da gravidade,
independente do fim a que se proponha, já não recorre à simples queda de um corpo para
desenvolver cálculos, mas recorre diretamente à fórmula de Newton. A ferramenta do
conhecimento deixa de ser a simples observação de um evento para ser uma fórmula
matemática.
Nesse caso específico, a lei da gravitação, de Newton, substitui o evento enquanto que
o seu paradigma, sua forma de aplicação, substitui a observação bruta como única etapa da
observação e da formulação da teoria. A fórmula de Newton substitui o evento e os conceitos,
ela é uma teoria, uma convenção científica, que se coloca no lugar dos eventos naturais, dos
conceitos e das observações que fazemos do evento.
Assim, a construção da teoria da gravitação não se deu unicamente através da
interpretação dos estímulos provocados pela observação de uma maçã que caíra. A queda da
maçã apenas despertara sua consciência para a elaboração de um paradigma científico dentro
do qual caberia a gravitação universal. A proposição de Newton foi de nomear certos eventos,
e conceituá-los, por exemplo, com os conceitos de força, gravidade/gravitação, massa etc, e
partir daí, explicá-los dentro de modos possíveis.
10. Diálogo entre Peirce e Saussure:
Conforme dissemos anteriormente, o trabalho de Peirce nos leva a entender que o
conhecimento de um evento, antes que este seja teorizado, resulta da interpretação deste pelos
sentidos. A construção teórica não é resultado simples e direto da observação do mundo, mas
da observação de dados que são gerados pela observação de um evento dentro de um
paradigma. O teórico não trabalha apenas com os sentidos, mas com dados, cálculos e
hipóteses.
A teoria de Peirce é altamente complexa e não se limita apenas a explicar o fenômeno
da significação, parte de seus estudos consiste em uma classificação exaustiva dos signos
segundo três categorias básicas: a Primeiridade, a Secundidade e Terceiridade. Os signos que
pertencem a Primeiridade são aqueles que consistem a sensação imediata das coisas, os signos
de Secundidade são dados pelas reações aos signos da categoria anterior. Já os signos da
Terceiridade, se caracterizam por serem dados por uma convenção
Os signos dessa última categoria é que formam o pensamento organizado e são
estabelecidos a maneira de uma lei, de uma convenção, de um dado partilhado por uma
comunidade. O autor nos dá o exemplo dos símbolos: a justiça é representada como uma
mulher com uma venda nos olhos e uma balança nas mãos. Não há nenhuma semelhança
entre o conceito de justiça e a representação desta a não ser dentro de uma convenção préestabelecida. Do mesmo modo, não há uma relação natural entre uma teoria e o evento que ela
descreve, a não ser dentro das convenções dadas por um paradigma.
Para tanto podemos recorrer ao exemplo da fórmula de Newton. A fórmula a seguir
possui semelhança com aquilo que ela representa apenas por força de uma convenção e não
por uma razão natural. O que associa a força da gravidade em si mesma ao conceito de
gravidade não é a natureza, mas a linguagem. Especificamente a linguagem usada na física
dentro de um paradigma estabelecido por Isaac Newton. As teorias, desse modo, são
convenções partilhadas e ensinadas em livros e disciplinas. Entretanto, não são o próprio
evento que representam.
Enquanto, Peirce elaborava sua teoria da significação na América do Norte, outro
autor, o linguísta suíço Ferdinand Saussure (1857-1913) trabalhava em uma teoria que, em
certo ponto, dialoga com a de Peirce. Saussure estabeleceu uma teoria da significação baseada
hegemonicamente na linguagem verbal e estabeleceu um modelo de signo baseado na relação
entre um conceito e uma imagem acústica. O conceito é a palavra, falada ou escrita, enquanto
por imagem acústica, o autor define a impressão causada na mente por alguma palavra. As
palavras são uma relação entre um significante e um significado, sendo que o significante é a
palavra em si, falada ou escrita, e o significado a impressão que ela causa ou a imagem que
ela evoca: “o signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma
imagem acústica. Esta não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão psíquica
desse som” (SAUSSURE, 1976, p. 80).
Entretanto, o linguísta suíço estabelece que a relação entre a palavra e a ideia que ela
designa é arbitrária: não há nenhuma relação natural entre o conceito de gravidade e o evento
que ele, o conceito, designa: “o laço que une o significante ao significado é arbitrário. (...)
Assim, a ideia de ‘mar’ não está por relação alguma à sequência de sons m-a-r que lhe serve
de significante” (SAUSSURE, 1976, p.81). O modelo de signo de Saussure é a palavra,
junção entre significante e significado, e a palavra, na teoria de Peirce é apenas um dos tipos
de signos convencionados que se estabelecem no universo das significações possíveis, assim
como as teorias.
11. Conclusões e perspectivas:
Próximos do término deste artigo, poderíamos supor que uma conclusão possível seria
a de que as ciências da linguagem contribuiriam com a base epistemológica de todas as
teorias. Entretanto, essa afirmação é bastante reducionista e merece maior esclarecimento.
É através da linguagem que representamos o mundo interior ou exterior, e de certo
modo, é por meio dela que o explicamos. Entretanto, não se trata de buscar uma
hierarquização entre linguagem, conhecimento e teoria, mas de entender que, assim como as
palavras, as teorias têm origem na observação dos eventos e na instauração de paradigmas.
Uma teoria não tem uma origem natural nem nasce de si mesma, do mesmo modo que poderá
ter aceitação breve na comunidade científica, ou delongada até que o evento seja
definitivamente explicado e se torne um fato do cotidiano, como o fato de a água ferver a cem
graus Celsius.
Nessa perspectiva, compreender ou elaborar um conhecimento teórico é antes
construir ou entender uma convenção do que descobrir um segredo da natureza. É construir
uma explicação possível dentre outras menos plausíveis. E entender que tal explicação
também é passível de ser refutada. A teoria já nasce fadada a refutação, seu estigma de
nascença é justamente sua transitoriedade. O entendimento dessa condição, já esclarecida por
Popper e Khun, ajuda a entender a ciência de modo menos arbitrário e, ao mesmo tempo,
contribui para uma espécie de humildade científica, já que a busca da certeza corre paralela a
possibilidade do erro.
Esperamos contribuir para se refletir sobre o caráter epistemológico de uma teoria, a
qual também está sujeita a valores de certo e errado, a qual é construída não livre, mas
arbitrariamente por uma comunidade científica, teoria a qual cabe a professores e
profissionais tecnólogos tanto aplicar quanto ensinar.
REFERÊNCIAS:
GREIMAS, A. J.; COURTÈS, J. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.
KHUN, T. A Estrutura das Revoluções Científicas. 9ª Ed.São Paulo: Perspectiva, 2007.
PEIRCE, C. S. Semiótica e Filosofia. São Paulo: Cultrix, 1972
POPPER, K. Lógica da pesquisa científica. São Paulo: Cultrix, 1972.
SAUSSURE, F. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 1976.
Download

linguagem, teoria e conhecimento: o papel da - CEFET