Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral ARTIGOS Saramago e a questão social da terra Maria Geralda de Miranda Adriana Patrícia Ronco Resumo: O presente estudo faz uma leitura do romance Levantado do chão, do escritor português José Saramago (1922-2010). Para tanto, procura apreender as principais imagens e simbologias criadas pelo autor, no decorrer da narração, para representar o drama e, ao mesmo tempo, a utopia, dos alugados de Monte Lavre, espaço de realização da narrativa. Para a interpretação dos símbolos destacados do texto, buscar-se-á apoio em Chevalier e Gheerbrant, cujas pesquisas são profícuas e abrangentes no que tange à simbologia de matriz ocidental, que é a utilizada pelo escritor no romance. A reflexão partirá da concepção de Walter Benjamin sobre alegoria, e, em seguida, se discutirá a representação alegórica presente no romance. Constituída de dois eixos fundamentais - de um lado, a família “Mau-Tempo”, que protagoniza a história, durante quatro gerações, e que é uma represente-chave dos alugados e, de outro, os “Bertos”, que representam os latifundiários de Monte Lavre - a alegoria saramaguiana, mesmo depois de transcorridos mais de trinta anos da primeira publicação da obra, continua atual em termos de crítica à política agrária de concentração de terras. Palavras-chave: José Saramago. Levantado do chão. Alegoria. Terra. Utopia. Abstract: The present study is a reading of the novel Risen from the ground, the Portuguese writer Jose Saramago (1922-2010). To do so, seeks to apprehend the main images and symbols created by the author in the course of the narrative, to represent the drama and at the same time, the utopia of Monte Lavre hired, space realization of the narrative. For the interpretation of symbols of the text detached, it will get support in Gheerbrant and Chevalier, whose research is profitable and extensive with respect to the Western matrix symbology, which is used by the writer in the novel. The reflection based on the Walter Benjamin’s conception of allegory, and then will discuss the allegorical representation in this novel. Consists of two fundamental axes: on one hand, the family “bad weather”, who stars in history, for four generations, and that is a key representative of the hired and the other, the “Bert”, representing the landowners Monte Lavre, allegory saramaguiana, even after the lapse of over thirty years of first publication, still current in terms of criticism of the agrarian policy of land concentration. Keywords: José Saramago. Risen from the ground. Allegory. Land. Utopia. 65 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Saramago e a questão social da terra É a partir da visão de alegoria do filósofo alemão Walter Benjamin que vamos ler o romance Levantado do chão, do escritor português José Saramago, que instaura, durante todo o processo de enunciação da história, uma luta árdua (e desigual) entre trabalhadores alugados e latifundiários em Monte Lavre, espaço de realização da narrativa. Os alugados de Saramago são trabalhadores de mão de obra temporária, não possuem contrato de trabalho e nenhuma garantia trabalhista. (São os bóias-frias e/ou “sem-terra” brasileiros). Como representação dos oprimidos, a família Mau-Tempo, que é “seguida” na narrativa durante quatro gerações, será lida como alegoria dos alugados, pois como afirma Walter Benjamin, a alegoria não representa as coisas tal como elas são, mas, antes, pretende dar uma versão de como foram ou podem ser. Para ele, a alegoria se localiza “entre as ideias como as ruínas estão entre as coisas” (BENJAMIN, 1984, p. 56). A alegoria assume nos escritos de Benjamin, de acordo com Tereza de Castro Callado (2004, p. 134), uma pluralidade de significações. Reproduz não apenas aquele mundo eruptivo da tragédia, voltado para o plano individual, mas o mundo coletivo, que diz respeito ao destino de todas as criaturas. Daí ser a ambiguidade e a diversidade de significação marcas essenciais dessa estética. As terras de Monte Lavre, pertencentes à família dos “Bertos”, alegoria dos latifundiários, foram doadas por Dom João, o primeiro, a Lamberto Horques Alemão, Alcaide-Mor do local. Pela via da hereditariedade, este a passou para seus filhos, seus filhos a seus netos, ficando uma imensidão de terra sob o domínio de uma única família. Quando Lamberto Horques Alemão subia ao eirado de seu castelo, não lhe che- 66 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta gavam os olhos para tanto ver. Era senhor da povoação e seu termo, dez léguas de comprido e três de largo, com franqueza e liberdade de tributo. (SARAMAGO, 1980, p. 26) Como já foi dito, Saramago utiliza dois eixos alegóricos. De um lado, a família Mau-Tempo (começando com Domingos Mau-tempo e terminando em Adelaide Espada) simboliza os oprimidos; de outro, os Bertos representam os opressores. Monte Lavre é o cenário onde estes dois referidos eixos antagônicos e ambivalentes se chocam, pois é nessa região que a família Mau-Tempo firmará residência, após a morte do patriarca Domingos. Domingos Mau-Tempo era sapateiro, profissão que fazia parte da categoria dos artífices, porém, nunca vendeu a sua força de trabalho. Era um trabalhador livre, o que acentua a importância mítico-política da família Mau-Tempo no romance. Tal personagem, no entanto, era vítima de uma escravidão psíquica, fez várias mudanças durante a sua vida, mas o seu fim foi uma morte trágica: por enforcamento. Segundo Chevallier e Gheerbrant (1990), “o enforcado representa o desejo de se libertar de um jugo. (...) Ele é então místico por excelência”. A morte de Domingos Mau-Tempo marca o fim da aceitação passiva da dominação por parte dos alugados. Tanto João, o primogênito da família Mau-Tempo, como os seus descendentes, lutará para modificar a correlação de forças entre dominadores e dominados em Monte Lavre. João Mau-Tempo trabalha junto com sua mãe para sustentar os irmãos mais novos: Diz a Picança: então vai sem farnel, menino de Deus. Responde o menino de Deus esquecido, sim senhora, vou. (...) ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Maria Geralda de Miranda et al Aqui daria ocasião de clamar o coro grego, os seus espantos para criar a atmosfera dramática, própria aos grandes rasgos generosos. (SARAMAGO, 1980, p. 52) A identificação do narrador com a miséria do pequeno Mau-Tempo faz com que o primeiro intervenha no diálogo da personagem Picança com o menino. Tal intervenção – que mostra abertamente a onisciência e a onipresença do narrador, que tudo sabe e vê – traduz uma grande carga de dramaticidade, ao lançar mão da tragédia grega, como elemento comparativo à situação vivenciada pelo protagonista. E assim o “leitor-espectador” do “romance-tragédia” acaba entrando também num processo de identificação, não só com o herói, mas com toda a situação social dos “sem-terra”, já que o herói está metaforicamente contido em todos os alugados. Como na tragédia grega, o leitor acaba, inicialmente, entrando em um processo catártico: “Todo o corpinho das crianças vai ficar em carne viva, um tormento, pequenos lázaros que à noite se deitarão entre trapos, com o estômago a ganir de fome insatisfeita” (SARAMAGO, 1980, p. 77). Todavia, tal identificação, em vez de levar o leitor à “purgação”, ou a procurar um possível significado moralizante, como na tragédia, ele é seduzido pelo narrador que desde o início do romance elege um lado: o dos alugados e de suas lutas. Assim, em Levantado do chão, conforme diria Walter Benjamin, os elementos trágicos reproduzem não apenas o mundo eruptivo da tragédia, voltado para o plano individual, mas o mundo coletivo, que diz respeito ao destino das criaturas. E segue o narrador expondo de forma ainda mais contundente o drama dos pequenos bóias-frias. No fragmento acima, a título de também levar o leitor a se identificar com aquela problemática, ele lança mão de valores cristãos. Para tal estabelece um diálogo entre o romance e o texto bíblico, ao comparar as crianças dos ranchos a pequenos Lázaros. (Lázaro é uma personagem bíblica que teve o seu corpo coberto por chagas (lepra), mas depois de morto e sepultado, após quatro dias, foi ressuscitado por Jesus Cristo). Na verdade, todo o esforço do narrador em fazer o leitor se identificar (isto é, mostrar-lhe a problemática social, gerada pela concentração de terras), através de duas visões de mundo antagônicas, mas também ambivalentes: a clássica (com a tragédia) e a judaico-cristã (com o episódio bíblico de Lázaro), reforça também a sua estratégia narrativa, que é a de inserir o leitor na história. E isso nos remete à preocupação de Roland Barthes que afirma que o texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação. O pensador francês salienta que o lugar onde essa multiplicidade se reúne não é no autor, mas no leitor. O leitor é o espaço exato em que se inscrevem, sem que nenhuma se perca todas as citações de que uma escrita é feita: “a unidade de um texto não está em sua origem, mas no seu destino. (...) O leitor é esse alguém que tem reunidos num mesmo campo todos os traços que constituem o escrito” (BARTHES, 1984, p. 53). O diálogo com o texto bíblico é muito frequente no romance. Em vários momentos, João Mau-Tempo é comparado a Jesus Cristo. Um trecho já citado é o de sua conversa com a personagem Picança, sua mãe. Em outra passagem, o pequeno João Mau-Tempo está trabalhando na carvoaria e é obrigado a carregar um feixe de lenha muito superior à sua força, o narrador, mais uma vez, revelando a sua onisciência observa: “grandes declamações se fazem desde há dois mil anos por ter levado Cristo a cruz ao Gólgota, e com a ajuda 67 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Saramago e a questão social da terra de Cirineu, e deste crucificado que aqui vai ninguém fala, ele que mal ceou ontem e não comeu hoje” (SARAMAGO, 1980, p. 72). Percebe-se também, a partir do diálogo entre o romance e o texto bíblico, que Saramago vai transformando João Mau-Tempo no Jesus Cristo dos alugados. Ora, se Jesus ressuscitou Lázaro e se as crianças dos ranchos são pequenos Lázaros, João virá a ser o ressuscitador (no sentido de líder) dos “sem-terra”, todavia, neste caso, o milagre dar-se-á nas consciências dos trabalhadores, pois a luta de João libertará do jugo do latifundiário gerações futuras de alugados. É necessário ressaltar que, além dos dois eixos alegóricos, a narrativa apresenta ainda duas fases distintas. A primeira se caracteriza pela falta de consciência dos trabalhadores e a segunda pela tomada de consciência e organização política. Na primeira fase, quem informa ao leitor a situação de miserabilidade das crianças dos ranchos é o narrador, que tudo sabe e denuncia. Esta postura inicial do narrador, de falar pelos alugados, o transforma em defensor dos oprimidos, já que estes, num primeiro momento, são passivos e manipulados por integrantes do clero, que estão do lado dos Bertos (metáfora dos latifundiários e dos dominadores) e tudo faz para manter o status quo. É bom, dizia Segísberto em um jantar de aniversário, que eles nada saibam, nem ler, nem escrever, nem contar, nem pensar, que considerem e aceitem que o mundo não deve ser mudado (...), que só depois de morrer haverá paraíso. (SARAMAGO, 1980, p. 72) Antes do discurso de Segisberto, o narrador faz o seguinte comentário: “A decisiva arma é a ignorância”. A não reação dos alugados às péssimas condições de vida era 68 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta também em função do temor que tinham ao “Deus dos Bertos”, uma vez que o porta-voz do céu em Monte Lavre (o padre Agamedes) ensinava que a libertação dos sofrimentos não se dava na terra, no plano material, mas numa instância superior e metafísica, chamada paraíso. Como podemos observar, aqui também o narrador estabelece uma dicotomia entre alienação e teocentrismo, por um lado, e, por outro, consciência e organização política. A Igreja Católica em Monte Lavre, simbolizada pelo padre Agamedes, tinha a sua opção clara. Estava do lado dos latifundiários, a serviço deles. Já o narrador, claramente do lado dos alugados, portanto, contra a Igreja, procura, no entanto, passar uma visão positiva em relação a Jesus Cristo, em mais de um momento, metaforizado em João Mau-Tempo. É evidente que, ao tratar da questão da posse da terra, que sempre foi uma questão polêmica, o narrador não poderia deixar de falar da quase inexistência de políticas voltadas para o disciplinamento de seu uso. Boa parte da terra dos Bertos é improdutiva. Com efeito, os latifundiários de Monte Lavre não têm apenas o clero a seu lado, mas todo o aparelho estatal, com destaque para o aparato repressivo. É em razão disso que a organização dos alugados em Monte Lavre se realiza de forma clandestina. João Mau-Tempo e os seus companheiros liam panfletos deixados na roça, embaixo de pedras. Melhores salários e diminuição da jornada de trabalho eram, pois, as principais reivindicações. A exemplo dos trabalhadores de Chicago, os alugados de Monte Lavre queriam o seu Primeiro de Maio: “Levantem-se homens todos, nem foi preciso dizer mais palavras, cada qual seguiu seu destino, firmes para as oito horas e para o salário de quarenta escudos” (SARAMAGO, 1980, p. 72). ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Maria Geralda de Miranda et al O Primeiro de Maio é um marco na história da luta dos trabalhadores. A luta pela redução da jornada de trabalho levou os líderes de Chicago à prisão e à morte por enforcamento. Tal acontecimento forçou o Congresso Americano a promulgar no dia 10 de maio de 1890 a lei das 8 horas de trabalho. Assim, o Primeiro de Maio não é apenas símbolo de luta, mas também de conquistas. Em Monte Lavre, ele estava prestes a ser alcançado, pois como o trigo, os alugados já estavam maduros. “Este trigo, qualquer pessoa o vê, está maduro, os homens também?” (SARAMAGO, 1980, p. 138). A morte de Domingos Mau-Tempo, como já foi dito, marca o fim de uma época de aceitação passiva das injustiças. É bom frisar que tanto a morte de Domingos como a dos operários de Chicago tiveram a mesma causa: enforcamento. E, de acordo com Chevallier, a morte por enforcamento marca o fim de um ciclo. Em Monte Lavre terminava o ciclo da alienação e começava o da luta, pois os alugados já estavam maduros, ou seja, dispostos a lutar por seus direitos. A mudança de atitude dos trabalhadores e a reação organizada contra os latifundiários transformam a ação narrativa. De acordo com Maria Auzira Seixo, o romance estabelece um processo geral de transformações, um sintagma básico, onde atitudes, comportamentos, situações, tempos, etc, não só se diferenciam, mas, sobretudo e justamente, se trabalham num sentido de modificação que conserva a entidade inicial como marca de produção da alteridade final. (SEIXO, 1989, p. 2) Os trabalhadores, esse outro da história, até um determinado momento sem voz, sem consciência, sem direitos (era o narrador que falava em nome deles), passam a interferir e modificam a história. Os dominados se insurgem contra os dominadores e isso, de fato, imprime um novo ritmo à narrativa. O sintagma básico (a luta entre oprimidos e opressores e/ ou entre alugados e latifundiários) se encaminha para a produção da alteridade final, isto é, para a a vitória dos trabalhadores. “Então o milhano lança um grande grito que ressoa em toda a abóboda celeste e afasta-se para o norte, enquanto os anjos sobressaltados acorrem à janela, atropelando-se, e ja nao veem” (SARAMAGO, 1980, p. 209). O milhano, ave de rapina européia, cujo voo é carregado de presságios, tem uma visão aguda, daí simbolizar a clarividência. Ele aparece todas as vezes que os trabalhadores estão reunidos. Através desta ave e também de outros símbolos: as formigas, os cães, etc, o narrador vai comunicando a justeza da luta e a certeza da vitória dos trabalhadores, ou, se preferirmos, o narrador vai antecipando o final de seu romance. Na verdade, o grito do milhano informa que a reunião clandestina que ele também estava a guardar chegou ao fim. A reunião era tão escondida que nem os anjos sabiam da existência dela. Aliás, o narrador confia mais no milhano que nos anjos. Malandros é o que eles são, não querem trabalhar, se esta guerra tivesse sido ganha por quem eu cá sei, nem se atreviam a mexer um dedo. Estavam aí calados como ratos a trabalhar pelo que nós quiséssemos. (SARAMAGO, 1980, p. 209) Com a vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial foi, pelo menos, num primeiro momento, como se tivesse sido derrubada a ditadura salazarista em Portugal. Com isso, os dominadores passaram a implementar ainda mais a repressão política. João Mau-Tempo e Domingos Santos Vidigal foram presos: 69 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Saramago e a questão social da terra Domingos Santos Vidigal está enterrado como não tarda que este esteja, e sobre estes casos hão de passar os anos e há de passar o silêncio até que as formigas tomem o dom das palavras e digam a verdade, toda a verdade e só a verdade. (SARAMAGO, 1980, p. 176) A formiga é o símbolo da atividade construtora e de vida organizada. Na tradição celta, simbolizava os oprimidos. Na narrativa são os trabalhadores que estão construindo a sua história. As formigas, personificação dos trabalhadores, assistem “indignadas” à morte de uma das formigas. Mas o narrador, adiantando ainda mais a ação narrativa, lança mão de sua mais importante prerrogativa discursiva: a onisciência. Ele prevê que da mesma forma que Germano Vidigal está sendo enterrado, o regime político autoritário também será, basta que as formigas denunciem a verdade. “Está um ajuntamento de gente, não é que ladrem, era o que faltava ladrarem homens, porém se este murmúrio não é como o rosnar dum cão, perca eu o nome que tenho” (SARAMAGO, 1980, p. 313). E prossegue: “as formigas ao longo do prédio vão, levantando como cães a cabeça, e por enquanto caladas, que será de nós se um dia juntar toda esta canzoada” (SARAMAGO, 1980, p. 313). A luta dos “sem-terra” somava-se ao um sentimento de mudança de toda a sociedade. É na manifestação pública que os ‘homens ladram” feito cães, por seus direitos e pela democracia, diria o narrador. Os cães (também personificação dos trabalhadores) são animais que desvendam o invisível, indicando uma intersecção entre o mundo material e o mundo espiritual. São intermediários entre os vivos e os mortos. Na cultura celta, o cão era também associado à figura do guerreiro. 70 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta A simbologia do cão no romance de Saramago é muito abrangente. As lutas entre dominadores e dominados e/ou entre oprimidos e opressores sempre foram lutas árduas. É como andar na escuridão. Em razão disso, os dominados são obrigados a desenvolverem uma capacidade sensorial superior. Neste sentido, necessitam adquirir faro de cães. É o ladrar dos homens que transformará Monte Lavre em um lugar mais humano de se viver. As formigas constroem sua luta silenciosamente, clandestinamente, formando consciências, mas os cães, estes saem às ruas e invadem praças. Os alugados são formigas que estão levantando a cabeça feito cães, para ladrarem por seu direitos. Diz o narrador: Acordam as aves de madrugada e não veem ninguém a trabalhar. “Muito mudado vejo o mundo diz a calhandra, mas o milhano, que voa alto e devagar, grita que o mundo está muito mais mudado do que julga a calhandra, e não é apenas por trabalharem os homens as horas justas” (SARAMAGO, 1980, p. 357). Os latifundiários tiveram que ceder. O Primeiro de Maio passou a existir em Monte Lavre. O mundo de fato estava mudado, os alugados já tinham direitos, disso sabia a calhandra, mas o milhano, que tem uma visão muito mais aguçada, sabia que as mudanças não paravam por aí. Conforme “previu o pássaro da clarividência”, o governo salazarista foi derrubado no dia 25 de abril de 1974. As Forças Armadas depuseram o Primeiro Ministro Marcelo Caetano e o Presidente Américo Tomás. Para comemorar o fim do salazarismo, o povo enfeitou as ruas, os carros e as janelas com cravos. Por causa disso, o movimento ficou conhecido como Revolução dos Cravos. Depois de abril vem maio, que é o mês das flores e os trabalhadores comemoraram livremente o seu dia. O Primeiro de Maio foi oficializado, a guarda não tem mais o encargo ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Maria Geralda de Miranda et al de reprimir. É o estabelecimento da democracia: liberdade de reunião e de imprensa. Monte Lavre vive uma nova fase de sua história. Os alugados tiveram a sua primeira vitória. A união das formigas e a transformação destas em cães, somadas ao desatino dos Bertos levaram o regine autoritário a se desmoronar. O texto é permeado pela história de Portugal e o narrador, como “defensor” dos alugados, sabia que o modelo agrário de concentração de terras perpassou todos os governos portugueses, da monarquia à República. Após a Revolução dos Cravos, também permaneceu. Tanto se apregoou de mudanças e de esperanças saíram as tropas dos quartéis, coroaram-se os canhões de ramos de eucalipto e os cravos encarnados, diga vermelhos, que agora já se pode (...) e eu quero trabalhar e não tenho onde, quem me explica que revolução é esta. (SARAMAGO, 1980, p. 357) A Revolução dos Cravos não mexeu com a estrutura agrária, deixando intacta a “dinastia de Lamberto”, que continuava a mandar nas terras de Monte Lavre e nos trabalhadores. Ao lermos o romance, temos a impressão de que seu grande final, ou melhor, que a grande “redenção” dos alugados se dará justamente no momento da queda da ditadura, mas quando chegamos ao fim, verificamos que a Revolução dos Cravos não resolveu o problema crucial da terra. A transformação do sintagma básico de que trata Maria Auzira Seixo não se realiza exatamente aí. Isso leva o narrador a escolher um outro final para a narrativa, ou seja, uma outra revolução: estão Norbertos e Gilbertos ausentes. A guarda não sai do posto, é dia da revolução. (SARAMAGO, 1980, p. 361) Os trabalhadores alugados levantam do chão a sua luta e fazem a sua revolução, já que a dos Cravos não resolveu o problema do modelo agrário de concentração de terras. Este segundo desfecho, ou melhor, esta outra revolução é que, de fato, impõe a marca de alteridade final ao romance. Vale pontuar, mais uma vez, que o narrador criou esta segunda via de libertação para os dominados, só conseguida pelo processo de radicalização entre os pólos antagônicos da obra. Ao final, observa o narrador: Toda revolução tem seus mártires. A segunda tinha os seus “mil vivos e cem mil mortos ou dois milhões de suspiros que se ergueram do chão” (SARAMAGO, 1980, p. 364). Parafraseando Milton Nascimento e Chico Buarque que compuseram uma canção com o mesmo nome do romance, nós diríamos: E assim os “levitantes colonos, desgarrados da terra, como em cama de pé sem deitar” escreveram a sua história, “com o mundo de pernas pro ar”. Depois das mantas vão ao Vale da Canseira, às Relvas, Ao monte de Areia, à Fonte Pouca, à Serralha e à Pedra Grande, em todos os montes e herdades são tomadas as chaves e escritos os inventários (...) 71 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta ARTIGOS Revista Augustus | Rio de Janeiro | Ano 16 | N. 31 | Fevereiro de 2011 | Semestral Saramago e a questão social da terra Referências: BARTTHES, Roland. O Rumor da Língua. Lisboa: Edições 70, 1984. CALLADO, Tereza de Castro. “O drama da alegoria no século XVII Barroco”. In: Revista de Filosofia do Mestrado Acadêmico da UECE. Fortaleza, v. 1, 2004. p. 133-165. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1989. Bíblia Sagrada, 2ed. São Paulo. SBB, 1989. CHEVALIER & GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1980. SARAIVA. José Hermano. História Concisa de Portugal. Lisboa: Europa América, 1988. SARAMAGO, José. Levantado do Chão. Lisboa: Caminho, 1980. SEIXO, Maria Auzira. A Palavra do Romance. Lisboa: Garcia e Carvalho, 1989. 72 UNISUAM | Centro Universitário Augusto Motta