ARTIGO
DE
INVESTIGAÇÃO
Vivências comunicacionais de Enfermeiros
face à criança com surdez profunda
Communicational experiences of nurses confronted with children
with profound deafness
Cristina Maria Fernandes dos Santos*
Telma Alexandra Lourenço Gaspar*
Vera Cristina de Carvalho Correia*
João Manuel Garcia do Nascimento Graveto**
Resumo
Abstract
A comunicação é um elemento de competência substancial
para o estabelecimento das relações do ser humano. Sendo esta
um processo complexo, revela-se mais difícil quando um dos
elementos detém limitações. Neste contexto, o presente estudo
centrou-se na relação estabelecida entre enfermeiros e crianças
com surdez profunda.
Os objectivos da investigação foram descrever as vivências
comunicacionais sentidas por Enfermeiros dos Serviços de
Otorrinolaringologia e Cardiotorácica do Centro Hospitalar
de Coimbra (CHC), face às crianças com surdez profunda
e identificar sentimentos de Enfermeiros na comunicação
estabelecida com estas crianças. Para a sua realização, recorreuse à metodologia qualitativa de cariz fenomenológico. Utilizou-se
como modo de abordagem a entrevista semi-estruturada e como
instrumentos de colheita de informação o guião de entrevista e
o gravador áudio. A análise das entrevistas foi efectuada com o
software NU*DIST (Non-numerical Unstructured Data Indexing
Searching Theorizing). Desta análise evidenciaram-se quatro
áreas temáticas: “um primeiro impacto” – dificuldades sentidas,
estratégias comunicacionais, percepção de enfermeiros e
sentimentos e significados das experiências vividas. Considerando
a última temática como a essência do fenómeno em estudo.
Os achados desta investigação proporcionaram uma reflexão
acerca das vivências comunicacionais de enfermeiros, sendo
possível considerar a adopção e adequação de diferentes
estratégias comunicacionais para se poder aperfeiçoar neste tipo
de relações.
Communication is a substantial ability for the establishment of
human relationships. Since it is a complex process, it becomes
harder when one of the elements possesses have some kind of
handicap. In
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this context, this study focused on the relationship
between nurses and children with profound deafness.
The aims of this investigation were to describe the communicational experiences lived by the nurses of Otorhinolaryngology
and Cardiothoracic Services from the Hospital Center of Coimbra
(CHC), when dealing with children with profound deafness and
to identify the feelings of the nurses based on the communication
established with these children.
To carry out this investigation, the methods used included
the qualitative phenomenological methodology. The findings
were collected through half-structured interviews and the
instruments used for data collection were the script interview
and the audio-recorder. The assessment of the interview
was done with NU*DIST (non-numerical Unstructured Data
Indexing Searching Theorizing) software.
In result of this analysis, four thematic areas were outlined:
first impact – difficulties felt, communicational strategies,
perception of the nurses and feelings and meanings of these
experiences, considering this one as the essence of the
phenomenon in study.
The findings of this investigation led to a reflection about the
communicational experiences lived by nurses, admitting the
possibility of adopting and adapting different communicational
strategies ����������������������������������������������������
to be able to get a better performance in this type
of relationship�.
Palavras chave: criança, surdez, enfermeiros.
Keywords: child, deafness, nurses.
*Enfermeiras de Nível I
**Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Mestre
em Toxicodependência e Patologias Psicossociais – ISMT – Coimbra.
Doutor em Desarrollo y Intervención Psicológica – Universidad de
Extremadura – Badajoz, Professor Adjunto na Escola Superior de
Enfermagem de Coimbra.
Recebido para publicação em: 05-09-07
Aceite para publicação em: 26-10-2008
II.ª Série - n.°8 - Dez. 2008
pp.69-78
Introdução
Os objectivos delineados para a sua consecução foram:
descrever as vivências comunicacionais sentidas por
Enfermeiros dos Serviços de Otorrinolaringologia
e Cardiotorácica do Centro Hospitalar de Coimbra
(CHC), face à criança com surdez profunda e identificar
sentimentos de Enfermeiros na comunicação
estabelecida com crianças com surdez profunda.
A comunicação é um instrumento precioso na (para
a) profissão de Enfermagem, isto é, para a relação
enfermeiro/utente, pois é impossível não comunicar.
Na vida profissional do enfermeiro, a comunicação
é a prática mais comum, pois ao relacionar-se com
o utente (prestar cuidados directos, conversar, fazer
ensinos, um simples olhar, um simples carinho…),
mesmo que este não fale, ou que não falem, os
seus corpos comunicam impelindo-os a entrar
obrigatoriamente em relação e, em simultâneo,
no processo comunicacional. Sendo assim, se os
enfermeiros estiverem despertos para os diferentes
tipos de comunicação, bem como para as diversas
alterações na comunicação aquando da prestação de
cuidados, nomeadamente quando se trata de crianças
com surdez profunda, será mais fácil desenvolver o
processo comunicacional.
De acordo com Rodrigues (2000), é devido ao mau
funcionamento da cóclea que surgem os graus mais
acentuados de surdez, como é o caso da surdez. Não
existe percepção da palavra, apenas os ruídos intensos
são percebidos. Nas crianças com surdez profunda
não existe desenvolvimento espontâneo da linguagem
(Lafon, 1989). Nenhuma sensação auditiva verbal
pode ser captada pela criança espontaneamente.
Decorrente disto, é necessário adoptar métodos
especiais na estimulação da linguagem e fazer um
treino intenso de maneira a aproveitar os resíduos
auditivos. No entanto, pode e deve-se recorrer à
língua gestual (Faculdade de Ciências da Universidade
de Lisboa, 2007).
De forma a contribuir para o desenvolvimento
do corpo de conhecimentos da Enfermagem,
considerámos relevante a elaboração de um estudo
que abordasse as “Vivências Comunicacionais de
Enfermeiros face à Criança com Surdez Profunda”,
devido à escassez de estudos desenvolvidos neste
campo de conhecimentos, entendemos como
importante identificar/descrever conceitos inerentes
a esta temática que podem ser cruciais para o
entendimento da comunicação face à criança com
surdez profunda.
Este estudo de investigação desenvolveu-se a partir da
seguinte questão: quais as vivências comunicacionais
sentidas por Enfermeiros dos Serviços de
Otorrinolaringologia e Cardiotorácica do CHC, face à
criança com surdez profunda?
Metodologia
Sendo uma área onde o conhecimento é, ainda,
escasso, esta investigação situa-se ao nível I
(exploratório-descritivo), com vista a reconhecer
um fenómeno, de forma a torná-lo público. Este
consiste em descrever e identificar um fenómeno,
acontecimento ou situação, de forma a torná-lo
conhecido (Fortin, 2000).
Optou-se pelo método qualitativo visto que este, de
acordo com Queirós (2001), centra-se na forma como
os sujeitos interpretam e sentem as suas experiências,
bem como, o meio em que se encontram inseridos
com intuito de promover uma melhoria nos cuidados
de enfermagem prestados. Este método preocupa-se
com a compreensão absoluta e ampla do fenómeno
em estudo, observa, descreve e interpreta o meio
e o fenómeno tal como se apresentam, sem os
controlar e segundo a perspectiva dos sujeitos. Tem
como objectivo descrever ou interpretar, mais do que
avaliar, isto porque o método fenomenológico visa a
busca da essência do fenómeno, assim como a sua
natureza intrínseca e o sentido que as pessoas lhe
atribuem (Fortin, 2000).
Para a selecção dos participantes foram tidos em conta
os seguintes critérios de inclusão: que os enfermeiros
exercessem a profissão nos Serviços escolhidos e que
tivessem experiência comunicacional com crianças
com surdez profunda, tendo sido respeitados os
procedimentos éticos e formais.
Estabelecidos os referidos contactos, foram realizadas
onze entrevistas no total, nove a enfermeiros do
Serviço de Otorrinolaringologia e duas a enfermeiros
do Serviço de Cardiotorácica
Nos estudos de cariz qualitativo devem ser incluídos
participantes até obter saturação “isto é, quando não
emergem novos temas ou essências dos participantes e
os dados se repetem…” (Streubert e Carpenter, 2002,
p.67). Em concreto, neste estudo verificou-se que as
11 entrevistas permitiram a saturação de informação.
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Dos onze participantes, seis eram do sexo feminino
e cinco do sexo masculino, variando as suas idades
entre vinte e três e quarenta e cinco anos.
No momento da colheita de dados, constatou-se
que a experiência profissional dos participantes varia
entre oito meses e vinte e quatro anos. No entanto, no
que diz respeito ao tempo de exercício da profissão
nos actuais serviços, varia entre os oito meses e os
dezasseis anos.
Relativamente à categoria profissional, participaram
dois Enfermeiros de Nível II, oito Enfermeiros
Graduados e uma Enfermeira Especialista.
No que concerne ao modo de abordagem, utilizouse a entrevista semi-estruturada e como instrumento
de colheita de informação o guião de entrevista e o
gravador áudio. Para que os participantes tivessem
maior liberdade de resposta este guião foi composto
por duas perguntas abertas, sendo elas:
– Descreva-nos as suas vivências pessoais de
comunicação, enquanto enfermeiro do Serviço
de Otorrinolaringologia do Centro Hospitalar de
Coimbra, na relação que estabelece perante criança
com surdez profunda, que o(a) tenha marcado de
algum modo;
– O que sente quando comunica com crianças com
surdez profunda?
As entrevistas decorreram no período de 29 de
Março a 7 de Abril de 2007, com uma duração de
aproximadamente dez a quinze minutos, em média.
Para o procedimento de análise dos achados optámos
pelo método fenomenológico, proposta de análise
fenomenológica de Loureiro (2002), que converge
num único de vários modelos de abordagem,
mantendo o essencial da proposta de Husserl,
apresentada posteriormente por Spiegelberg.
O processo de validação foi, tal como as outras etapas,
realizado de acordo com o modelo supracitado,
tendo-se após a obtenção das unidades naturais
de significado e construção do perfil constitutivo,
recorrido a um especialista com experiência de
investigação e orientação de trabalhos de investigação
fenomenológica, possibilitando a validação do
processo desde a formação das unidades naturais de
significado até aos perfis constitutivos.
Numa primeira fase, as entrevistas foram analisadas
por cada um dos investigadores, para evitar uma
possível “contaminação” do pensamento. A posteriori,
reuniram-se as análises realizadas individualmente,
compararam-se, tendo-se chegado a um consenso
acerca das mesmas. Assim, foi possível definir, além
da estrutura dos achados, um índice temático.
Na última etapa, etapa de validação, retornámos ao
serviço onde os informantes exercem funções, para
que estes validassem os achados. De acordo com
Streubert e Carpenter (2002) esta é uma actividade
fundamental para aumentar a credibilidade do
estudo.
Apresentação, análise e discussão
dos achados
Neste estudo, através do processo de análise
fenomenológica de Loureiro (2002) realizado às
informações obtidas nas entrevistas, identificaramse quatro temas centrais, sendo eles: “um primeiro
impacto” – dificuldades sentidas, estratégias
comunicacionais, percepção de enfermeiros e
sentimentos e significados das experiências vividas.
Consideraram-se os sentimentos e significados das
experiências vividas como a essência do fenómeno
em estudo, embora todos os temas em conjunto se
encontrem intimamente relacionados entre si e em
constante interacção. Está subjacente a estes temas
centrais o contexto onde o fenómeno foi estudado,
como por exemplo, a disponibilidade dos participantes
e investigadores e o local onde foram realizadas as
entrevistas. O diagrama I abarca toda a estrutura do
fenómeno investigado, tornando possível uma melhor
reflexão sobre os resultados da investigação.
Diagrama I – Estrutura do Fenómeno em Estudo
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“Um primeiro impacto”
– dificuldades sentidas
doentes de Otorrinolaringologia onde estão as crianças.
Neste contexto, a comunicação com a criança surda
é dificultada, conforme relata um dos enfermeiros,
“…porque (…) ela está no meio de adultos, começa
logo por aí, pelos vistos são razões técnicas, é que só
neste bloco é que existe determinado aparelho (…)
A enfermaria não tem nem de longe nem de perto
condições para as crianças, muito menos crianças
com mães.” (E9: 27 - 31)
Na subsequência destes factores e devido ao facto
de ser um serviço com grande movimentação de
doentes, há uma sobrecarga de trabalho e stress para
os enfermeiros, sendo também estes factores que
contribuem para uma diminuição da capacidade de
comunicação do enfermeiro face à criança com surdez
profunda (Rosas, 1989).
As limitações sentidas pelos enfermeiros na relação
estabelecida com crianças com surdez profunda
poderão estar relacionadas com a falta de formação
nestas áreas, o que irá dificultar a comunicação e,
consequentemente, o cuidar. Esta ideia foi reforçada
quando foi referido que “nós também não somos
especializadas nem em crianças, nem neste tipo de
cirurgias, mas vamos tentando dar o nosso melhor
que é isso que nos é pedido….” (E10: 106 – 108)
Segundo Lapassade (1933) apud Gomes (1999, p.178),
‘O homem moderno aparece cada vez mais em todos
os planos da sua existência, como um ser inacabado. O
inacabamento da formação torna-se uma necessidade
num mundo marcado pela transformação permanente
das técnicas o que implica uma educação igualmente
permanente’. Na mesma perspectiva Honoré (2004,
p.120) refere que o objectivo da formação tanto
inicial como contínua consiste em contribuir para o
desenvolvimento de uma “pessoa enfermeira cujo
perfil é determinado pelos conhecimentos, aptidões
e qualidades humanas”.
Aquando da realização das entrevistas, os participantes
referiram sentir uma dificuldade redobrada na
comunicação quando a surdez se apresentava em
simultâneo, ou seja, tanto no acompanhante (mãe)
– como na criança. A complexidade desta situação
deve-se ao facto do enfermeiro ter dificuldade em
apelar a estratégias alternativas de comunicação não
verbal, uma vez que, tendo em conta a dificuldade de
comunicar com estas crianças, uma das estratégias dos
enfermeiros é a colaboração dos pais, pois são eles
que melhor conhecem os filhos. Quando estes últimos
são não ouvintes verifica-se uma maior dificuldade
Devido à complexidade inerente à relação
comunicacional estabelecida entre o enfermeiro
e a criança com surdez profunda num “primeiro
impacto”, muitos são, os momentos, em que os
enfermeiros vivenciam dificuldades, podendo estas
dever-se a inúmeras razões.
Silva (1980) apud Augusto (1995, p.67) refere que ‘o
processo da relação inicia-se no primeiro momento
em que o enfermeiro-doente e família se encontram.
É um factor (…) [que] marca logo o cariz das relações
futuras’.
As dificuldades sentidas pelos enfermeiros, acabam
por constituir uma barreira ao estabelecimento de
uma relação comunicacional eficaz. Uma dessas
dificuldades deve-se ao facto de lidar com crianças,
sobretudo quando estas apresentam surdez profunda.
Este facto é patente, por exemplo, quando dizem que
“…é sempre difícil lidar com uma criança surda,
nós temos aqui crianças com 2/3 anos e é sempre
difícil lidar com estas crianças, mais ainda, quando
tem outra doença associada que nos interfere um
pouco na comunicação visto serem surdos e terem
dificuldade na comunicação.” (E10: 5 – 8).
Estas dificuldades poderão estar relacionadas com
o facto de a sociedade humana atribuir maior
importância à comunicação oral, por ser mais
adequada a transmissão de informação; dificultando
a comunicação entre ouvintes e não ouvintes.
No entanto, de acordo com Souto (2006), nós
transmitimos uma maior quantidade de mensagens
pelo nosso comportamento não verbal. Desta
forma, os enfermeiros poderão desenvolver uma
comunicação não verbal eficaz em muitos dos seus
relacionamentos com a criança surda e a sua família.
As condições do serviço também influenciam a
comunicação estabelecida com a criança. A falta
de algumas condições, dos recursos do serviço
pode quebrar o contínuo de uma comunicação,
assim como causar mal-estar e desconforto a ambos
os sujeitos que intervêm na comunicação. Essa
deficiência de condições do serviço foi referida por
alguns participantes como algo que marca em termos
de comunicação e de compreensão, uma vez que
as mesmas instalações físicas, são partilhadas pelos
Serviços de Otorrinolaringologia e Urologia, estando
em contacto os doentes de urologia adultos e os
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comunicacional. Esta dificuldade foi descrita como,
por exemplo, “...lembro-me de uma situação em que
a criança era surda e a mãe também o era e daí
resultou uma situação em que era extremamente
difícil comunicar quer com uma quer com outra (…)
e era extremamente difícil comunicar com a mãe da
criança, que fará com a criança.” (E8: 5 – 12)
A comunicação é uma necessidade do Ser Humano
e este é, essencialmente, um ser comunicativo, ‘...
Então, se está aceite que todo o comportamento,
numa situação interaccional, tem valor de mensagem,
isto é, é comunicação, segue-se que, por muito que o
indivíduo se esforce, é-lhe impossível não comunicar’
(Watzlawick, 1993 apud Rebelo, 2002).
O envolvimento dos familiares nos cuidados
prestados à criança proporciona e mantém o direito
que a família tem de estar unida. Pode trazer conforto
e tranquilidade a ambos, ajudar a reduzir a ansiedade
e o medo (incluindo o medo da hospitalização).
Neste contexto, os pais são agentes facilitadores da
comunicação, mas devido à situação de saúde dos
filhos surgem sentimentos de desespero e ansiedade,
constituindo uma barreira na relação enfermeirocriança, actuando como factor destabilizante. Da
experiência dos enfermeiros ressalta que, “às vezes as
mães são umas barreiras, porque algumas sentem-se
um pouco… e acredito que não seja uma situação
fácil, vir para um hospital com uma criança pôr um
implante, mas despejam em nós por vezes alguma…
raiva não direi, mas algum desespero pela situação
em que o filho está e por vezes, travam ali um pouco
a relação entre a criança e o enfermeiro. Isso é
um bocado difícil para nós, porque acabamos por
não fortalecer aquela relação que queríamos com
a criança e pronto acaba por ser uma coisa mais
distante, o que acabava por serem as mães as
culpadas destas situações.” (E10: 97 – 103)
Para as crianças e seus familiares, a hospitalização
constitui um potencial de stress mais grave que
nas pessoas ouvintes, gerando, simultaneamente,
sentimentos de frustração nos profissionais de saúde
(Oliveira e Pedro, 2005).
Convém, no entanto, realçar que a família também
vive o processo de doença com muita intensidade
e angústia, o que deve ser alvo da atenção dos
enfermeiros. A autora refere, ainda, que a ansiedade
produzida pela doença interfere na comunicação,
sobretudo na habilidade de comunicar. Sendo assim,
as pessoas ficam irritadas, nervosas, impacientes e
descontroladas, não sabendo por vezes o que dizem
ou o que ouvem (Augusto, 1995).
Segundo os participantes, um factor que também
dificulta o processo comunicacional é a hospitalização,
uma vez que a criança se encontra num ambiente
estranho e desconhecido, ou seja, “como é que a
criança estando num ambiente fora do ambiente
rotineiro dela, como é que ela enfrenta as
dificuldades todas e ainda mais essa de nos tentar
compreender…” (E8: 33 – 35)
Castanheira et al (1988) já apelou para esta situação,
dizendo que muitas vezes os enfermeiros podem
influenciar positiva ou negativamente a maneira da
criança considerar a hospitalização, dependendo da
comunicação entre estes. O mesmo autor acrescenta
que o enfermeiro tem de perceber como é que a
criança expressa satisfação ou insatisfação para saber
se as necessidades da criança estão a ser satisfeitas.
O enfermeiro poderá vivenciar uma relação de
ajuda no encontro com qualquer ser humano,
principalmente com a criança com surdez profunda,
materialização do acto do cuidar, simultaneamente
simples e complexo: a razão e a essência de se ser
enfermeiro (Cabete, 1999).
Estratégias comunicacionais
A comunicação é um processo que se efectiva pelo
uso das palavras, sendo estas enriquecidas por um
conjunto de mensagens não verbais. Os enfermeiros,
na sua prática diária comunicam constantemente
com a criança, daí que tenham que ser detentores
de conhecimentos relativos às diversas estratégias
comunicacionais. Neste sentido, a maioria dos
enfermeiros do presente estudo parecem estar
atentos a estes aspectos, valorizando alguns indícios
não verbais como os gestos, o toque, a expressão
labial, o brincar entre outros.
A comunicação com a criança com surdez profunda
exige do enfermeiro a utilização de estratégias
comunicacionais diferentes das utilizadas em outras
situações e que se adeqúem ao contexto, no sentido
de promover a eficácia comunicacional.
Uma destas estratégias utilizadas prende-se com o
acto de brincar. Tendo em conta que é uma actividade
lúdica, contribui para que a criança aprenda a
conhecer-se a si próprio e aos outros, ou seja,
pretende levar à compreensão da criança através da
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brincadeira revestindo-se das mais diversas formas.
Garvey (1992, p.7) afirmou que “a actividade lúdica
desempenha qualquer função única ou uniforme na
vida de uma criança”. O brincar é uma das estratégias
mais praticadas pelos participantes, uma vez que lhes
permite estabelecer uma relação comunicacional
com a criança surda, proporcionando uma maior
proximidade. Esta ideia é reforçada com a descrição
“normalmente nós comunicamos, portanto
utilizamos todo o tipo de estratagemas e peripécias
que nós fazemos no dia-a-dia para comunicar
com as crianças, desde brincar com elas, portanto
fazer um balãozinho com uma luva se for preciso,
situações do género.” (E1: 49 – 52)
É normal que as crianças sintam ansiedade em diversas
fases do internamento (Oliveira e Pedro, 2005).
As crianças surdas experimentam com frequência
dificuldades na comunicação com os profissionais
de saúde, por incapacidade de acompanhar uma
conversa, deste modo a presença da família ao longo
do internamento é fundamental para o bem-estar
desta e para o estabelecimento da comunicação com
a equipa de enfermagem, como foi referido, “…nós
aqui não temos grandes problemas e temos sempre
os pais por perto para nos fazerem a ligação, que
é muito importante se não estivessem então!.. aí
sim, iria ser complicado.” (E11: 66 – 73), “a mãe
sinceramente neste serviço é a nossa ponte de
ligação sem dúvida, muitas vezes eu própria para
tentar fazer alguma coisa, às vezes tinha-lhe de
pedir colaboração…” (E2: 42 – 45)
Com intuito de diminuir estas dificuldades, Salt (1991)
apud Augusto (1995), refere que o envolvimento dos
familiares nos cuidados prestados à criança ajuda a
manter o lugar desta na família, a continuidade como
unidade familiar através da conservação do seu lugar
e a ligação com o ambiente familiar na sua rotina,
prevenindo, assim, que a criança sinta um “corte” e
fornecendo mais oportunidades para exprimirem as
suas preocupações.
Outra estratégia apontada pelos participantes, de
forma a facilitar a comunicação com a criança surda,
é os gestos: “temos que comunicar por gestos,
indicar para o bracinho dizer que vamos colocar
uma agulhinha…” (E1: 23 - 25), pois é considerada
como uma espécie de linguagem universal, facilitando
muito mais a comunicação. Na opinião de Phaneuf
(2005), na profissão de Enfermagem, os gestos
traduzem o nosso estado interior. Daí que, quando o
enfermeiro precisa de comunicar através de gestos,
necessita de os adaptar às suas necessidades. Nesta
medida, os enfermeiros quando comunicam com a
criança surda através de gestos pretendem transmitir
uma mensagem, de forma a superar as dificuldades
da impossibilidade da comunicação oral por parte das
crianças.
A face humana é carregada de expressão, transmitindo
as nossas reacções ao que vemos, ouvimos e
percebemos interiormente. É, muitas vezes, através da
expressão labial que o enfermeiro se consegue fazer
entender perante a criança surda, sendo este um dos
meios mais fáceis para a criança interpretar o que lhe
está a ser dito. De acordo com esta ideia, afirmaram
que “… para comunicar com um surdo é preciso
arranjar sempre estratégias e então em crianças…
a criança normalmente consegue ler pelos lábios
(…).” (E10: 77 – 78)
Na opinião de Souto (2006), para facilitar a interacção,
pode-se desenvolver várias estratégias, entre as quais:
ter o cuidado de falar olhando para a criança de
maneira a que ela possa ler através dos seus lábios e
pronunciar as palavras clara e lentamente para que a
criança as distinga.
O toque desperta sentimentos tanto em quem toca
como em quem é tocado, pelo que, é importante
que o enfermeiro tenha consciência da imensa
potencialidade desta estratégia comunicacional. Neste
contexto, os participantes referiram este método
como sendo um dos mais utilizados aquando da
comunicação com a criança surda: “comunicamos de
todas as maneiras com todos os métodos que tenho
à mão para me fazer entender, para ele me entender
e para eu o entender a ele, faço um esforço para o
compreender, faço de tudo, gestos, o toque embora
eles inicialmente sejam um bocado esquivos, não
gostam muito que a gente lhes toque. Mas depois a
gente acaba por fazer umas palhaçadas, desde que
seja para ajudar a gente faz o que for possível.” (E11:
76 – 81) Esta forma de comunicação “pode ser usada
como meio de transmitir informação e ainda como
meio de intervenção” (Chalifour, 1989, p.104 apud
Gemito, 1999 p. 176).
De acordo com o que nos é relatado pelos
participantes, é notório o sentimento de necessidade
auto-protecção, quando lidam com situações
que consideram ser mais difíceis para as crianças,
ajustando as estratégias para lidar com as mesmas.
Este aspecto foi descrito como: “…nós quando
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vamos “picar” uma criança, se a criança não for
muito susceptível, a gente sai de lá a chorar como
se fossemos nós a criança, e quando vamos, vamos
muitas que é para não ser só eu, quer dizer (risos),
eu quando vou para “picar” uma criança nunca
quero ir sozinha, isto não só pelo facto de a estarem
a segurar de um movimento mais brusco para que
não haja nenhum acidente, mas também por uma
questão de sentirmo-nos mais protegidos, não nos
sentimos tão sós a fazer uma coisa que sabemos que
é dolorosa.” (E10: 23 – 30)
O que foi explanado anteriormente é corroborado
por Lisboa, Loureiro e Lucas (1995) que afirmam que,
muitas vezes, os profissionais de Enfermagem sentem
necessidade de adoptar uma postura profissional e
técnica de distanciamento. Esta postura decorre da
necessidade de evitar a identificação ao sofrimento do
outro, o que poderia ser angustiante e incapacitante.
Esta estratégia é adaptativa e previne o surgimento de
stress profissional.
Alguns enfermeiros referiram sentir “… que háde ser muito difícil perceber o que nós queremos
dizer e não entender assim, sem ser por gestos. E é
muito difícil para eles perceberem nomeadamente
porque são crianças muito pequenas com três anos,
até às vezes com dois anos e meio…” (E5: 12 - 15),
no entanto, não se pode deixar de comunicar. Nesta
perspectiva, Watzlawick apud Rispail (2003) defende
que se admitimos que numa interacção todo o
comportamento tem um valor de mensagem, significa
que há comunicação. As nossas emoções e as nossas
manifestações corporais falam por nós. O nosso
corpo, a nossa posição corporal, os nossos gestos
representam a nossa relação com o mundo.
Alguns participantes referiram que as crianças com
surdez são mais espertas e desenvolvidas que outras
crianças. Esta vivência é descrita como, “é com
agrado que tratamos dessas crianças. Eles são
muito mais espertos do que os outros garotos têm
surdez mas têm outros sentidos mais apurados e
mais desenvolvidos.” (E6: 47 - 49). Isto pode deverse ao facto de ao longo do seu curto período de vida
se terem deparado com situações que as obrigaram
a uma adaptação ao mundo, que, genericamente,
assenta numa comunicação oral. Assim, é importante
não esquecer que, de certo modo, são raras as
circunstâncias que elas não compreendem apesar das
suas limitações.
A interpretação que a criança surda faz da experiência
hospitalar pode advir da sua necessidade de avançar
ao longo de uma sequência, explorando muito
o contexto que a rodeia, tem uma capacidade
de observação e de memória visual apurada e
potenciada, estando muito atenta aos pormenores e
na ausência de uma fonte de distracção possui uma
boa capacidade de concentração (Souto, 2006). Daí
ter sido mencionado que “… elas são espectaculares,
têm uma capacidade extraordinária, são fora de
série. Costuma-se dizer que quando não se tem um
sentido apura-se os outros e é mais ou menos isso,
porque eles… têm uma força.” (E10: 45 - 47)
Percepção de enfermeiros
A percepção que temos do outro é influenciada por
algumas das nossas tendências e dos nossos hábitos
perceptuais, que se podem revelar determinantes
na avaliação e relação com o outro. “Em psicologia a
percepção define-se como um conhecimento imediato
de origem sensorial” (Jimenez, 1997, p.81). Neste
contexto a percepção dos enfermeiros, não se baseia
apenas na primeira ideia que chega à mente através
da informação recebida pelos órgãos dos sentidos, ou
seja, a percepção do objecto. Muito pelo contrário,
é uma transcendência que permite a compreensão
do outro ou da situação, a representação do meio, a
percepção das características, posterior à percepção
imediata (Miller apud Jimenez, 1997).
Segundo Phaneuf (2005, p.94) “é da percepção
que emerge as nossas avaliações positivas ou
negativas das pessoas e das coisas.” Deste modo,
das relações comunicacionais surgem percepções,
das quais resultam sentimentos e significados que
vão influenciar as relações comunicacionais futuras.
Como tal, é através das percepções dos enfermeiros,
da ideia que eles têm das crianças com surdez e da
forma como as tentam compreender que as vivências
comunicacionais se tornam marcantes, quer pela
positiva, quer pela negativa.
Sentimentos e significados das experiências
vividas
A relação com as crianças com surdez profunda
desencadeia no enfermeiro diversas emoções, as
quais estabelecem um desafio para o próprio. De
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acordo com o que foi referido pelos participantes, o
desenvolvimento de uma comunicação com elas gera
múltiplos sentimentos e significados de conforto e de
desconforto.
É importante realçar que os sentimentos não podem
ser considerados obstáculos ou ameaças a um agir
adequado. Pelo contrário, o facto de reconhecer
e reflectir sobre as circunstâncias em que são
experienciadas determinadas emoções e sentimentos,
permite uma melhor compreensão e opções mais
pertinentes em situações futuras similares (Mateus,
2005).
Consideramos os sentimentos e significados das
experiências vividas pelos participantes um tema
central de bastante relevância, pois é através dos
sentimentos provenientes das experiências vivenciadas
que os enfermeiros irão atribuir significados. Por
sua vez estes significados poderão vir a influenciar
futuramente as relações comunicacionais com as
crianças surdas, constituindo, então, a essência do
fenómeno em estudo.
Dos sentimentos e significados de conforto
mencionados pelos participantes destacam-se a
gratidão e a ternura. Estes sentimentos e significados
advêm da relação com a criança surda, bem como, da
satisfação na realização do trabalho que desenvolvem
com esta e pela sua evolução a nível do tratamento.
Esta ideia é realçada através da expressão, “… é bom,
é gratificante ver a evolução que eles têm.” (E4: 60 61). A gratificação é, deste modo, sentida com grande
intensidade e geradora de bem-estar no indivíduo.
As dificuldades sentidas pelos enfermeiros na
comunicação com as crianças surdas vão fortalecer
a relação entre ambos, uma vez que implica uma
maior disponibilidade por parte do enfermeiro,
com o intuito de ultrapassar essas dificuldades,
intensificando assim os laços de ternura. O afecto dá,
assim, o verdadeiro sentido a tudo. Este sentimento é
descrito da seguinte forma, “acho que é um grande
afecto, por pouco tempo que seja que estamos com
eles, criamos aqui um elo bastante grande, porque
talvez pela dificuldade, quanto mais difícil mais
tempo nós temos que lá estar e sei lá, é um carinho
diferente.” (E2: 23 – 25)
Quando a intervenção do enfermeiro não tem o efeito
desejado, surgem sentimentos de desconforto, que
advém de situações que, de algum modo, despertam
emoções difíceis de superar. Os sentimentos e
significados mencionados pelos participantes foram:
o receio, ansiedade, angústia, impotência e situação
difícil.
Os participantes referiram sentir receio de não
conseguir comunicar com as crianças surdas, devido
às dificuldades intrínsecas às mesmas, “…é uma
situação um pouco difícil não é? principalmente
quando não lidamos com crianças todos os dias, há
sempre um certo receio da nossa parte.” (E1: 37 – 39),
no entanto, usam algumas estratégias comunicacionais
para diminuir as dificuldades sentidas. Porém, mesmo
com a sua utilização, podem não conseguir ultrapassar
todas as dificuldades, sentindo-se angustiados por não
conseguirem comunicar, principalmente aquando da
realização de procedimentos invasivos, isto porque,
“enfrentar uma criança para fazer um tratamento
já por si há sempre uma certa angústia quanto a
tratamentos mais agressivos (…) causam mais
angústia, que sabemos que é daquelas situações que
a criança à partida sofre mais, pelo menos manifesta
mais esse sofrimento e portanto causa sempre uma
certa angústia, mas pronto tentamos ultrapassar
isso e não mostrar muito isso.” (E1: 54 – 60), o que
vai gerar ansiedade, pois, “…o sentimento é sempre
um sentimento de expectativa um sentimento de
ansiedade…” (E9: 32 – 33).
De acordo com a Academia das Ciências de Lisboa
(2001), a angústia é um mal-estar profundo, físico
e psicológico, que se manifesta por ansiedade,
inquietação e tristeza especifica, provocado por uma
situação penosa que não é dominada ou da qual se
tem medo.
Os participantes experienciaram “uma certa
impotência em tentar comunicar e às vezes não
conseguir, não se conseguir estabelecer mesmo essa
comunicação.” (E5: 38 – 39) No entanto, referemna, também, como um significado atribuído aos
sentimentos de desconforto vivenciados aquando da
comunicação. De acordo com Lazure (1994), nalgumas
situações os enfermeiros sentem-se impotentes,
contudo a prática da relação de ajuda contribui
para avaliar essa impotência, permitindo identificar
na criança com surdez profunda as dimensões
onde poderão oferecer uma ajuda profissional de
qualidade.
Apesar dos participantes tentarem encontrar
estratégias para conseguirem estabelecer uma
comunicação funcional com estas crianças, eles
salientam que esta comunicação não deixa de ser uma
situação difícil, “…comunicar com uma criança
Revista Referência - II - n.°8 - 2008
Vivências comunicacionais de Enfermeiros face à criança com surdez profunda
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estrutura do fenómeno foi constituída com base nas
vivências comunicacionais de enfermeiros em estudo,
num determinado contexto. Contudo, as informações
contidas no estudo poderão servir de reflexão sobre
a prática profissional, uma vez que se trata de um
estudo transferível.
Tendo em conta as dificuldades sentidas pelos
participantes aquando da relação comunicacional com
as crianças com surdez, consideramos oportuno que
estes recorram à utilização da língua gestual com o
intuito de superar ou diminuir as dificuldades sentidas.
Será fundamental que os enfermeiros estejam mais
despertos para esta língua, uma vez que ela é utilizada
não só pelas crianças surdas mas também pelos
ouvintes, nomeadamente os seus familiares.
Pensamos que será oportuno a continuação deste
estudo, pois ainda há muito para conhecer nesta área e
dar a conhecer. Somos da opinião que é extremamente
importante que as sugestões referidas sejam alargadas
a todos os profissionais e se possível a todos os
serviços do Hospital, a fim de que as crianças com
surdez tenham oportunidades iguais nos diferentes
serviços, maior bem-estar e uma melhor relação de
confiança em relação às instituições hospitalares e
seus profissionais.
O Hospital é um centro de atendimento público,
logo é um espaço no qual são acolhidas uma grande
diversidade de pessoas com problemas de saúde.
Neste contexto os profissionais de enfermagem devem
apetrechar-se cada vez mais de conhecimentos, tanto
técnicos como relacionais, de forma a satisfazer as
necessidades fundamentais dos doentes, tendo como
principal objectivo o seu bem-estar e conforto.
é complicado e comunicar com uma criança que
não ouve ainda mais complicado é…” (E9: 5 – 6).
Aparentemente, a comunicação estabelece-se mais
facilmente quando as pessoas em presença possuem
uma boa acuidade auditiva e visual, mas isso não
constitui, no entanto, um obstáculo insuperável
(Phaneuf, 2005).
A preparação da criança, bem como, a prestação
de cuidados, nomeadamente, cuidados invasivos,
constituem situações difíceis quer para os enfermeiros,
quer para as crianças e familiares. Isto porque, “…é
muito raro uma criança aceitar logo à partida
que se faça esse tipo de tratamento não é, tem que
ser, somos dois ou três de volta dela, a mãe segura
o braço, um de nós segura na criança, isto é uma
situação complicada...” (E1: 26 – 29)
Neste contexto, quando estas crianças se revelam
retraídas e inseguras, comunicar com elas pode tornarse um grande desafio para a equipa de Enfermagem.
Conclusões/implicações para a
enfermagem
Perante um tema com o qual, diariamente, os
participantes deste estudo se deparam e sendo este
pouco explorado, os mesmos tiveram oportunidade
de partilhar as suas experiências e reflectir de uma
forma sistematizada acerca da sua actuação aquando
da relação com estas crianças.
No decorrer da elaboração desta pesquisa objectivouse a importância de se ter enveredado por uma
abordagem epistemológica compreensiva qualitativa
numa perspectiva fenomenológica hermenêutica,
tendo em conta que o que se pretende conhecer é a
essência do fenómeno, através das experiências, dos
sentimentos e dos significados atribuídos às vivências
comunicacionais.
No que diz respeito aos objectivos da investigação,
entendemos que os mesmos foram logrados. No
entanto, sentimos algumas dificuldades na sua
consecução, principalmente devido à escassez de
estudos e bibliografia nesta área, tendo dificultado a
confrontação dos achados identificados com outros
autores.
Devido ao facto de ser um trabalho de cariz
qualitativo, o fenómeno em estudo não é passível de
ser generalizado a todos os enfermeiros que cuidam
de crianças com surdez profunda, isto porque a
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Revista Referência RII0727 - Escola Superior de Enfermagem