Cristina Costa
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Doutora ctu Cicllcias SociJ.is pela FFLCII-USP.
I )uccnlc: da Escula de Cornunicacocs c Artcs cia I lSI'.
;\IJlor;1 de Dcmocracia, emllill/WI/do contra 0 jICI//O C
Grilos do g(/ll'm.
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Nasceu ern Epinal, na Atsacia, descen
dente de uma Iarnflia de rabinos. Iniciou seus
estudos tilcsoficos na Escola Normal Superior
de Paris, indo depois pare. a Alemanha.
Lecionou soeiologia em Bor(h~IJS, primeira
catcdra uessa ciencia criada na Franca.
Transteriu-se ern HJ02 para Sorbonne, para
onde levou inurneros cicntistas. entre eles seu
sobrinho Marcel Mauss, reunindo-os Illliil
grupo que licou conhecido como escola
sociologtca francesa. Suas pi incipais obras
foram: Da divisfio do trsbetno social, As regras
do metoda sociotoqico, 0 suicktio, Formes
etcment.ues da vida rctujos», Educar{lO e SC'
ciologia, Sociologia e titosotie e LiJ;o(!s tln
sociologia (obra posturna).
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Emile Durkheim
(1858-1917)
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Embora Cornte seja considcrado 0 pai da sociologia e tenhalhe dado
esse nome, Durkheim e aponlado como um de seus prirueiros grandes
teoricos. Elt- e seus colaboradores se esforcararn POl' emancipar a sociolo
gia das dernais teorias sobre a socicdade e constitui-Ia como discipliua
rigorosamente cienufica. Em livros e cursos, sua preocupacao foi definir
com precisao 0 objeto, 0 metodo e as aplicacoes
dcssa nova ciencia.
Cornte d811 0 nome de socloluqi: •
Em uma de suas (Juras fundamcntais, As re
a essa ciencia. rna:; Durkheirn lui
gras do metoda sociologico, publicada em 1895,
LJI n dos SCLJS gramJ,;s tooric:»:
Durkheim definiu COI1l clarcza 0 objeto da socio!o
gia - osfatos sociais.
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A sociologia de Durkheim
Distin[;uc tre::-: C1l<lclcrlslic<lS dos Iatos socials. A primeira debs ea coer
rao social, ou scja, a Iorca que os fatos exercem sobre os indivirluos, levando
os a conformar-se as rcgras cia sociedade ern que vivem, independentemente
de sua vontade e escolha. Essa fon;a se rnanifesta quando
0
individuo adota
urn determinado idioma, quando se subrnete a uru determinarlo tipo de for
macao familiar ou quando esta subordinado a determinado codig» de leis.
o grau de coercao dos fatos sociais se toma evidente pelas sancoes a que
o individuo estara sujeito quando tenta se rebclar contra clas. As sancoes po
dem SCI' legais ou espontdneas. Legais sao as sancoes prescritas pela socieda
de, sob a form" de leis, na!! quais se estabelece a infracao e a penalidade
subsequente, Espontaneas seriam as que aflorariam como decorrencia de
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11ll'';Il\<J modo, uuu: ofensa WIlli gnqJO so.ial podl' n.io tcr pcnalida
.k- prcvista por lei, mas 0 grupo pode I'SpOnlafll'aJlll'nle reagir peualizando 0
agn'ssor A n'a~-,io Jll'galiva a celia forma d,' comport.unc-nto e, muitas ve
ZI'S, nuns inlilllidadoril do que a lei, .!ogllr lixo 110 chao ou Iumar e-rn n:pal,:os
plirIICulill"''; --" nusnu: quando U;IO proibido-, por lei 1\''111 rcprin.ido. por pc
1[11l111<ldl' ,'xplll'ill[ _.. ';;10 conlpOrllll111'lllos iuihirlos Iwlll ITa('{[O I'sponl,ll1l'a
do,; .I(rllp'),; 'Ill" II 1';,;0 S,' opuserr-m.
J\ Crlll((/CrlO .- 1'1111'11dida dl' lorma g(,Lt!, Oil sl'jil, iI l,dll(';\(,\\O lorm.tl I' il
lilionl;it!- dl''''''l1lpI'111Iil, sl'gundo l Iurkhr-iru. uuia imuortant« tar.-Ia ncssa
cOlllorlilill,'lI(l dos indivirluos :1 socir-d.uk: "Ill 'IIII' vivc-m. a pI)rdo dc, ap,')s aI
1~lllll te-mpo. dS n'gras c-st.uctu inlt-rualiz.ula-, t' tr.mslonuadas em h.ibitos, 0
lI';O ck- 1I1ua delnl11inada lingua Oll 0 prcdouunio 110 uso da IU,'!O direil;: ;;,10
iull'm;Jiizados no illdividuo que pass;[ a agir assilll Sl'lli "cqUtT jJCI~SiH' a respciLO.
A sC),ulldl\ car:[('krlstica dos Jalos sociais (: ql!e de,; exisle!il C atualil
',nLrl' 0'; iudividuos indc!le!llknlcillen1l' de S;I,I vontadl: ou de sua a(!t-si!O
cOliscienll', Oil seja, s,io exterior!?s aos iJldilJirl!lOs, As regril'; suciais, os eostn
lilt'S, liS kis, j;'1 ,'xisleill illltcs do nasciulento diiS!lessoas, S{HI a elas illlposios
pol' 1lll'C'allisillOS dl' cocrc:;io social, COino a l'dliC,Il:,'lll. l'orlaillo, os f,llos so
('iill": s,aoao lll,'snlO (t'llilll) Olt')'tiliuos e d"l;ldosde exisk:lj('i;1 I'xlnior ils cous
cit'llcilis indlvidllai:;.
.!I. 11'i'lTira carl(('\('llstica apo!1lada pDr Durklil'im (: a gCilcmlidarie. E'
SO(w! lodo jllio ,IIU' e gem!, qill' se repele elll lodos os iurlividuos Gil, pdo
IIH'IW';, n,lliJili()ria deles. POl' c'ssa gel1l'rlilidadc', os btos sociais Inanifcslal1l
,.,lla llallli'l'Z,1 coll'liva lill IUU I'slado COIUUnJ ao gmpo, COIIIO a:; formas dl:
hahi(;I~'{IO, de COl1uIIlica~'ao, os sl'nliillcntos l' a nwral.
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.uvolvc-r:«: 111'111 pt'rIlllili 'i"" ,,;,',},; valorc» inlvr krl:;';(',lllIa "I,j,llvld"d,' ilt, '"lid
au{i1i,;,'. Para ch-, 0 trah.iilu. I ielltil;co exigi", pon.uuo, a clinlill;\('lio tit' quais
qucr tra~'os il,' sllbjl'l:vi:ladl, lil"'ill de lima alillilk de disl;IUcianlt'llilJ.
l'rocllralldo g,II'alllil;1 <ocioiogialliil iucto
do lito c/icicntl' quanto 0 dl-: -nvoivido pelas cien
UlJrldll;1111 dl:orl:::;el~'lilVd () crunli',l,\
cias naturals. Durkhcin i aconsclhava 0 sociologo
esturiar os fatos socials CUTTiO C(J/:;U;,
a encarar os Iatos sociais COrl'O coisas, isto C, objo
fellornellos que 11'18 sao e:<tell()IU" I;
los que, lire sendo exteriorcs, deveriarn ser rnedi
puck:rn scr onscrvados (:.: rncdldl)~; (ip
dos, observados c cornparados indcpendentc
torrna (1[)jl,IIVeJ
l;lenle do que os individuo., cnvolvidos pensas
scm ou dcclarusscm a "I'll n--pcito. Tais tormula
~-(WS SCI iam apcuas 01 ,juio,'s, jllizos (li~ valor inrli
viduais que poderu servir rk- indicadorcs dos fatos sociais, mas InClSCar,Il11 as leis
de; organizacao social, luia r.icionalidade so t~ accssivcl ao cicnrista.
hnbuido dos priuripio-. positivistas, Durkheim qucria com c,;,;,; rigur, ;',
mane-ira do metodo que gar,tntia 0 SliCCSSO das ciencias exatas, definir a so
ciologia como cicucia, rompendo com as ideias e 0 sensu rouuun --
"<lcliisnlOs" ~- qw: inll'rprt'tavam de m;nH:ir<l vulgar a rc,i1idaile soci,l!.
Para ap()derar-~;I' dos btos sociais, 0 ciculista deve ideulillcar, dcnlre
os acol1lccimentos gcr;tis I' repelitivos, aqueles que aprcseu!;liu caral teristi
cas exteriores COll1nns. ASSItl1, ;)01' exernplo, 0 coujunto de atos que suscitam
Iia sociecl3de rea<;(jes CiHKretas cl;lssificadas COl1l0 "penalidadcs" cuustitueru
os fatos sociais ic[,'lIti Ilc"lVC·is como "crime". Vcmos que os fcn(lIllCIIOS develu
ser scrnpn' cOlisir!erddos 1'1/1 silas m,lilifl,~;tal,:iks colclivilS, dislin~~liiudo<,,'
dos acou!<:cinwulos iilrlivi,llillis ou acidcnlais. II W'III:ralid;ld,' disliIignt' 0 es
sCIicial do fortuilo e I'Slll'CiJiI'11 a nalureza socioiogicil dos fl'IH·lIuellos .
o ~;Ilicidio, alilp};\lill'JlIc estndado por Dnrkheim, conslilllia'sc, liess,'
sClilido, em lato :;ocial pOl' "()t'responder a iodas cssas caradcrl~;licas: c ge
ral, existinrlo I~m todas as socieclades; e, cmbora scndo fortuil0 I' n'silitamio
de raz(Jes pari jelliarcs, illlIl','1 'lila em lod,ls e1as ccrla n 'I'll \:irida.I,·, ITITllril'S
ce OU elimil1ui de iUlel1sirlade em ccrtas condi<;6es histljricas, CXjll'CSS<lIHlo
ass!i11 sua natureza social.
11111"
~:C'cul:) Pd~;\ddu.
),
A objetividade do fato social
Sociedade: urn organismo em adapta~ao ,2, ,
[1111,1 \'t''; idt'l!tiliciidos e car:lclI'riza<!DS os/ii/os S(}(luis, DllIklwilll pru
,lIrOIl ddluir 0 illdodo de conhecimento ~i;:-"G,raele, 1'0111') para
os jlosilivisliis de Illalll'ira geral, a exp~-ao cicnlilic<l"xigl: quc 0 pcsquisa
dOl' lllill1tl'i1ha ("('rIa disl;lllcia e l:culm!idade e!1l rda':i!O aos falos, resgll"r·
dil!ll!O a ohjl'lividildl' de sua an{l1ise.
Ali'lll disso, (: pnTiso, segundo Dlirldll~illl, qlle 0 soci{Jlogodeixe de lada
~;lIas jJreno('il('s, islo e, seus valores e sentimenlos pessoais em rela~ao ao acon
lI'cimcnto a SCI' esludado, pois nada lem de cienlifico e podenl distorcer a rea
lilladl' dos bios. Essa poslura exige 0 niio-envolvililento afctivo (HI de qualquer
ou[ra esp(cil' l'nlre 0 cientisla e sell objcto. A neutralidade exige tambem a
l1a(~inlcrfen"lIcia do cienlista no fato observado. Assim Durkheim im<lginava
IIIII', ao cstudar, ]Jor excmplo, uma bIiga entre ganglles, 0 ci,~ntista nao develia
1..
Para \)urklwim, a sOl'iologia tinha pOl' fillalid;lde n{lo Sl') ('X plical' a so
ciedade como iarnb(:iIl encont~ar solw;()es para a vida social. A sociedarle,
COmo todo organismo, aprest:nlaria cstados normais e J)(Jli1lrigicos, isto (\ sall
daveis e doentios.
Durkheim considera IlIli fato social como normal quando s,: cnconlra
generalizado pela sociedade ou quando desempenha alguma func;:ao impor
lante para sua adaptac;:ao 011 sua evolu<;:ao. Assim, afimla que 0 crinte, pOl'
exemplo, e normal nao <lpellaS pOI' ser encontrado em toela e qualqucr socie
dade e elll todos os tempos, mas tambcrn POl' rcpresentar lim fato social que
integra as pessoas ern torna de uma conduta valorativa. que !June 0 compor
tarnento considerado nocivo,
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II!idil(k, I" gar,llllia !I" llorIllalidiU!" 11<1 l!J('dida 1'111 qur
l'J'preselila 0 ,'llllsellSo soriul. a vout.uh- co]Pliva, r.u ()
acordo de 11111 gTUpo a rcspeito c1I- delermillada qurstao.
Diz Durkheim:
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1\ cOIl;;ci;'llci(\ cO[I''tiVd l'" e-rn {'('rio ~;('lllidll, d jrlllll;\ Jlllll ,d vij',\'!Jl" u.i ',()
,'il'I!;lIk, 1,'la "piun',' COll](J tllli cnnjunto dt, regr, I,; tOIles I' "staiJelITid:ls qu«
.uribucm val.n e clrIimit.uu os atos individuals I~ ,'oliSCit"I1Cia colctiva qUI'tI"li
ne 0 que, numa socicdad«, Cconsiderado "imoral", "n-provav«l" ou "vriminoso"
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Morfologia social: as especies sociais
sabor so 0 u~;:Jdo (;CUrIOn"iICO atual cJOS flOVOS C'LJrUpClJ:3, corn sua
caractensuca ausencia de or qanizacao. e normal ou nao, proci.rnr-se-a no
oassado 0 quo lhe deu origem. Se estas coroicoes sao aindil ilqLlelas e.n qur:
atuaunonto se cncontra nossa socrcoarte, e por que a s.tuacao e norrn.il, a
I le'spr;l[o elc>~; pi otesios que desr;ncCleJ()ld" (p. 57)
"
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Para Iiurkhvnn, a sociologia dcveria tel' ainda pOI' obictivo cornparar as
diversas socierlades. Constituiu assim 0 campo da morfologia social, ou soja.
a classificaciio das esbecies socia is numa nitida relcrencia {IS especies estuda
das em biologia. Essa relerencia, utilizada tarnbcm em
outros estudos tooricos, tern siclo considerada erronca
urna vez que todo comportamento humane, pOI' mais
Durkheiru ad2rlitCiV;1 l'ljl'l.'
dilercntc que se aprescnte, resulta cla expressao de ca
evolucao fJ8 1i-1I (L-iS t::SiK:Ui
ractcristicas univer sais de lima rnesma especie.
soc.uis a pal ur da horda
Durkhcim cousiderava que torlas as eocicdadcs
haviarn cvoluido a partir da horrla, a forma social mais
simples, igualitaria, reduzida a lim unico scgll1enlo onck- os inrlivuluos s,: ,IS
scrnelhavam aos {lt01l10S, isto e, se aprescntavam justapostos e iguais. Desse
ponto de partida, foi possivel lIrna s<'rie dc> cornbilla<,'(H'S das quais origillil
ramose outras especies sotiais identificaveis IlO passado e no pre:iente, lais
como os clas I' as tribos,
Para DlIrkheiIlI, 0 Irabalho de classillcal,',io d,I,; sllciedade:; -- COIIIO
tlldo 0 mais - deveria Ser efctuado com base ern apurada observa('ao experi
llIentaL Guiildo pOl'I'SsC' proccdilTll'l1to, e:;lalH'klTu a passagcrn da solidarie
dade mecrllliCil para a slilidliriedade OTgrllliCil COIIIO () molor de (ransforrJla<,'ilO
de toda e qllalquer socicdadc.
['arlinclo, pois, do principio de qLI(' 0 ohjc-tivo maximo da vida social e
jJllll110Vcr a harmonia da socicdade cousigo mesrua e com <IS demais socie
dades, " que c-ssa harmonia l' cOlbegl1icl,1 pOI' mei« do CO!ISe'IlS0 social, a
"sin'li!t:" do urgani';l!Io social se (ol1tllncle COJl1 a !~('neralid"de clos acontcci
1iH'l1tos, Ouando lIlII Iato poe em risco a harmonia. o acordo, () cn!1SClISO e,
portaruo, a adaptacao c a evolucao da socicdadc, estamos
diant« de UIll acontccimeuto de cararcr morhido e de lima
socieddde dOCUlt',
i~qIJlll) lllJi ! Hi(: Ull 11:;Ct)
l'ortanto, l/o1ll1ll/0 dCjuele tato qllc :ldO ,'~drap()la os
(l harrllnf lid U 0 cur l~;f.::I-·lS()
lillliks tlos acolltecimcutos nnis gerais de lUlia determina
rt;prt;:;t;rdlJ Uin estl.ldu
da socierlatle e que rcflde os valores c as condutas aceitas
fiH)11 ,ido lid :,CJcIl;cincJc
pela maior pdrte cia pop:dac;<'lo, P{l(o/,jgito ,'. ,Iquele qlll: se
I'neolltra fora dos JillJil<'s pcrlllitidos pcl;1 orcll'lli social ('
pcLI Illoral vigellle, Os r,lios pat"logi(os, ('OIlJ(l ,IS ItOeli\,IS, sao eonsiderat!os
Irallsit<lrios e excepciopais,
3 A conscienda coletiva
l'"dd il (cOli;1 ';Ol i,,jp!,il'd cit, Illirldll'illl pn'tt'lIc1I' dl'lIllJIISlr;lr CjIlC os
lilllJS '-;oci;lis [('Ill l'xiskncia propria " inciependull d,lqllilo que pensa I' faz
cada indivicilio em parliclilar. EllIhor;1 todos !)(lSSlIalil slia ",",>I1sl:i{:lIcia indi
viclu,i1", SI'11 lIl'ldo pn'lprio de Sl' cOlllporlar e illterpretar a vida, podem-se
llOlar, 110 inkrior de qllalquer grllpCl (HI sociedade, formas padronizadas de
cCilldlila I' pl'lIsamcnl0. Essa C[)nstalat;,lo est;'l na base do que Durkheim cha
11iOU de cOl/scihu:ia co/div(/.
1\ cldinit;;\o de conseiencia coktiva ,lp,UTce pela pril1ll~ira vez na obra
nil i/iuisiio i/o tmba/hl! social: trata-se do "conjunto da,; crell<,~as I' c10s senti
nH'ntos ('OIlIuns a media dos ll1embros de uma mesma sociedade" que "for
lila tnll sistema dderminado com vida pr<lpria" (p. 342).
i\ consci0ncia coletiva nao se baseia na consciencia de individuos sin
.1',llhil'S ou Ik gTlIPOS especifieos, lilas est;'1 c:;palhada POI' toda a sociedade.
lila revl'ial ia, segundo DLlrkheim, 0 "Iipo psiquico da sociedade", que nao
s"ria <JIWfI<JS 0 prodllto das con,;cicncias individllais, mas algo diferente, que
Sl' ill/poria aos individllos e perduraria atravl>s das ger'Il;(ies.
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d,ld,,:, variarn dr- I':'ta~:io, aprcsen lando Iornias dif"n'Il!":' de orga niza<;ao social 'lIlt' toru.un {lossi
an or m ais em cad a sociedade?
Para Durkhciru a normalidadc so
pode ser cntcndida em tuncao do
cStilgio social da socicdarle ern
questi'io:
"
ell) ponto de VIS!;) pur arnento
biol(JQICl), 0 que e normal para 0
e;c,lvagem nao 0 e sernpr e para 0
civliz ado. e vice-versa" (As reylas
(In metodo sOCiologieo, p 52,)
Divisao do trabalho SOCIal, urn dspecto da
solidonedad« olganlca em DurHlclrn. (DesC"nho
(k W Hearth Robison)
"lJiIl f.du ,,(,,:i.iI nao p()(I", pore;, 'Iur aconnaco du numlal pliriJ uma e,-,p0cie
SOCIal dctorrninada '-'1:llao ern relacao corn uma tase. igualrnenle cieterminada,
de sell dosonvolvuucnto "(p 52)
Solir!:lriodado meeanica, para Durkheim,
era aquela que predorninava nas sociedades
pre-capitalislas, onde os individuos se
identificavam por meio da familia, da religiao,
da tradir,;ilo e dos costumes, permanecendo
ern ger,li IIldependentes e autonomos em
relar,;ao !l divisao do trabalho social. A
consciencia coletiva exerce aqui todo seu
poder de coerr,;ao sabre os individuos.
Solidariedade organiea e aquela tfpica
das sociC'dades capital islas, onde, pela
acelerada divisao do trabalho social, os
indivfduos se tornavam inlerdependentes.
Essa interdependencia garante a uniao
social, em lugar dos cos/umes, das tradi,,6es
ou das relar,;6es socia is estreitas, Nas
socledades capita/islas, a consciencia
coletiva se afrouxa. Assim, ao mesrno lempo
que os individuos sao mutuarnente depen
dentes, cada qual se especializa numa
alividade e tende a desenvo/ver maior
autonomia pessoaL
Durkheim e a sociologia cientffica
JlI:
1M
,:)
8tivida_des
1. Durkheim afirrna, ern seu livro As regras do metoda sociologiC(!:
"Existem, pois, especies sociais pela mesrna razao por que existem especies
ern biologia. Estas, com efeito, sao devidas ao fato de que as organismos nao
constituem senao combinar,;oes variadas de lima unica e mesma unidade
anatomica". (p. 8 t )
G
Que caracteristicas da escola positivist a podemos encontrar nesse lexto?
.-
Durkhcim se distingue dos demais positivistas porque suas ideias ul
/rapassaram a reflexao filosofica e chegaram a constituir urn todo organizado
e sistematico de pressllpostos teoricos e metodologicos sobre a sociedade,
o empirislllo positivista, que pllsera os filosofos diante de lima realida
de social a scr especlllada, trallsfonTIOll-Se, em Durkheim, numa rigorosa
pos/ura empirica, cenlrada lIa verificac;:ao dos falos que poderiam ser obser
vados, llIensllrados e relacionados atrav(~s de dados coletados diretamente
pdo Cil'lltis/a, Encon/rarnos ern seus eSllldos um illovador e fecundo uso da
1)(
mau-matica l'slalislica " uiuu intl·grada llliliza'JIO dil~; all,'i1isc:; qualitativ.. r'
quantitativa. Ohscrvaca«, nu-usuracao r' interprctacao IT,HII a"plTIDS COlli
ple-nn-ntarcs do merodo durkheirniano.
Para isso, l iurkhoim procurou cstalx.lcccr os limiu:s e as <li/tlll'II,;a:;
en/re a particularidade e a natureza dos acontccimentos filosofico«. histori
cos, psicologicos e sociologicos. Elaborou um conjunto coordcnad« clc CUll
ccitos c de tecnicas ric pesquisa que, cmbora norteado por prinripios das
ciencias naturais, guiava 0 cientista para 0 discernimento de um objcto de es
tudo proprio e dos meios adequados para interpreta-lo.
Ainda que preocupado com as leis gerais capazes de cxplicar a cvolu
<;iio das sociedades humanas, Durkheim ateve-se tambern as particularida
des cia sociedade Ern que vivia, aos mecanismos de coesao dos pequenos
grupos e a formacao de sentimentos comuns resultantes da couvivencia so
cial, Distinguiu difercntes iustancias da vida social e seu papel ua organiza
cao social, CO[]IO a educacao, a familia e a religiao.
Podc-se dizer que j,\ se delineava uina apreensao da
sociologia em que se relacionavarn harmonicarnente 0 geral
Aos poucos corneca a '"
e 0 particular. Havia busca, ainda que nao expressa, da
desenvolver na socioloqia
nocao de totalidadc. Essa nocao foi desenvolvida particular
tarnbern a preocupacao
mente por seu sobrinho c colaborador Marcel Mauss, ern
cord 0 particular.
sells estudos autropologicos, Em vista de todos esses aspcc
los tao relevantes e iuedilos, os limites antes impostos pcla
filosofia positivist a perderam sua importancia, fazendo dos est lidos de
Durkheirn um constante objeto de interesse cia sociologia conternporanea.
v(,1 dcfini-Ias COlllO "inn-riores" ou
"supc-riorc-s", r o nro 0 .. icn ti sl a
('!assifica o s f:1(OS norniais e o s
E contiuua:
,)1
2. Defendendo a irnparclalidade e a objetividade da ciencia, Durkheim afirma: "0 senlimenl0 e objelo
da ciencia, nao e criterio de verdade cientifica". (p, 31)
Para Durkheim, a verdadeira ciencia deve se guiar pelos senlimenlos pessoais do cientista?
Porque?
.,
~,~, Quais as caracleristicas dos fatos sociais para Durkheim?
I
b;,
1;;;,4, Como 0 soci610go deve estudar os fatos sociais?
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"eCjlllllio DUlldluirn, car'H.:I,,,:.. ur r
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5. I\flnl1il"I(J~; qUE: [)urk~loiln clJrl:i1dlJr3VCl a educacao forrnal e informal co:nu elemenlo unportar.to de
mtcqracao dos individuos a sociedade Voce concorda com essa posicao? Argllrnonte.
6. Durktu.irn cons.oorava a gencr:iliclncJc olnrnonto essencial do lato social. Procure ern jornars e
penodicos falos sociais segundo esse criterio.
7.0 Cllln", pur.: [')urkheirn, e urn Iato social normal ou patolcqico? POI que?
8. 0
(1I1C I" c"n:;cll~,ncia
2. Olhando pi.na esla Il1Id\Jern identifique os elerneruo-:
ou nEIO urn fato social rdla ole, e social todo fato que geral.
e
r
!
colctiva?
9. Que tei ucrill Dill khoun ostaboloce pare: a evolucao das especies socials?
'10. D,dllU
d
:;"li,LlIicdarie n.cc.mica
8
a schdariodade orqanica.
1'1. Sobrc ccrl(l" ;;I;ntimcntos que cram ate ontao considerados inalos no hornern ... como arnor
Iilial. picdaue. ciumo sexual -, Durkheim atirrna que eles nao sao encontrados em tooas as
sociedacles: "Tais sentimentos resullam po is da orqanizacao cotetiva, em vel de constituirern a
base dela". (p. 99)
PoeJemos dizer que Durkheim alirma que os sentimenlos humanos sao fruto da coercao SOCi31?
Fila de desempregados csperando pete seguro
POI que? 0 que seria necessario para que urn senlimento fosse considerado inato no homem e
de,cmprego
parte de i;ua natureza?
12. Definindo d nurmalidade o d .norbidez dos fatos sociais, Durkheim atirma: "Charnarnos norrnais os
falos que apresentam as formas gerais e daremos aos outros 0 nome de morbidos ou patoloqi
cosH(p.51)
VO[;lJ ~;l:lId cdlJclL
de dar
Uill
exernplo atual de
clo consulcraria ruorbido, scquindo
0
urn taro
que
0
~,
3. Estudando 0 grafico a seguir, da reportagem "Fimde-sernana registra 54 hcmicidics flio r.i.1.,
de de SP", publicada pela Folha de SPaulo, explique:
a) Seria urn fato social'!
b) Segundo Durkheirn lruta-se de urn falo social norma! ou patoloqico
autor considerana normal e urn que
criterio par clo estabelocido?
Evolu~ao
13. Oual
d (,(JI,trrl)lJi,~dll
dos crimes no Grande Sao Poulo
de Durkhoim para () dosenvolvnncnto da socioloqia?
7.358
Homicidios dolosos
;\plica(;iio de couccitos
1. A 1,,10 relenlilica 0 concerto de solidariedade rnecanica ou orqanica? Explique 0 porque.
alta em relacao a 94
90
91
92
93
94
95
Fonte: Secretana da Scgurall y;) do Estado de Sao Paulo. marco de 1995
-';~.
4. Video: A festa de Babette (Dinamarca, 1988. Direcao de Gabriel Axel. Duracao: 111 rnin,)Fugitiva da Comuna de Paris, ern 1871, se estabelece numa pequena localidade. Apes 17 anos de
convivio corn a familia que a acolhe e a comunidade refigiosa local, organiza urn banquete corn uma
pequena fortuna que ganhou na loteria.
:: :
Mcrnbros de uma colo!lla alema em Santa Catarina
t;i!"
~
Procure identiticar no filme como se
trial e tradicional.
oa a solidariedade orqanica em
urna sociedade nao indus
II
68
(,I,
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TellJil p.ua delJale
.'"~ ,';~·~JUII,
u.i.>.
It'Vt'/)IU:;
uni., l(Jscnh:J do livro Al.ortion mille UJ11ted
~-)t(lt(!~, orpallliac1o
por
AI,uy Steichen (:dlcl,):one (New York, Hoeber-Hurper and Row, 1958)
e
a aborto uma vclha pratica, ruas.rnesmo na Al1tigLlieJacJe provocava gran
des dilerencas de opiniao. Piatao, na Republica, aprovava 0 aborto, a fim de impe
dir 0 nascunento de filhos concebidos em incesto; Arist6teles, sempre pratico pen
sava no aborto como um utiI regulador rnalthusiano. De outro lade, 0 juramento de
Hipocrates contem as palavras: "nao darei a uma mulher 0 pessario para provocar
aborto"; Seneca e Cicero condenaram 0 aborto a partir de principios rnorais, 0
cocliqo justiniano proibia 0 aborto. No cntanto, parece hewer pouc.i duvida de que,
no Irnperio Romano e no mundo helenistico, 0 aborto era, nas patavras de urn
cspecialista. "rnuito comurn nas classes altas". A lqreja Crista opos-so riqorosa
mente a essa "atitude paqa" e considerou 0 aborto urn pccado. Em muitos osta
dos, a lei seguiu a doutrina da Igreja e considerou 0 pecado um crime. Mas na lei
anqlo-saxonica 0 aborto era considerado apenas urn "delito oclesiastico"
Hojo, 0 aborto e urn problema rnundial. as iovantamcntos e estudos willil"
ci')s por pesquisadores isolados e pela Unesco rnostram que essa pr,ltica e muito
difundida nos paises escandinavos, na Finlandia, na Alemanha, nL! Uniao Sovleli
ca, no Japao, no Mexico, em Porto Rico, na America Ldtina, nos Estados Unic:os,
bern como em outras regi6es, a livro de George Devereux, A sludy 01 abortion In
primitive societies, que abrange aproximadarnente 400 sociedades pie· incustriais,
bern como 20 nai(6es hist6ricas e modernas, conclui que 0 aborto "8 urn fen6meno
absolutamente universal".
,brn,:;s H.
NC·Wrrlt.Hl,
0 atJort() como
(J(l(;f"l(:i'l uc1S ~()clcdad8S,
If1
A nt~l!cia social nurn flIundo ern CffSB; lexto5 (jo SClcntlflr; American, p E)~
COlli L'a:;e flilS IIlforrnal(oes fornecidas polo texto citado, discuta as seguintes quest6es:
L S,.'ljllli,lo d iIL'lIIlI\:do ele OlllklJc:m,
2_ Utlll,11I '/ilJ
car,] a
3.
(""/>11
1,-/dli,1
(J
0
alJorto seria 11m 1;'lto social? .JllsNique.
,IIJollo urn lunolllelJo normal
()lJ
palol:5gico? POI quJ? E voce, como on·
qlJll~..; tnn?
FiI~:i1 UIJI:i cOIJJ/J,lIaFio entre as propostas teoricas de Durkheim e 0 t'po de pesquisas sobre
abono Il1oIJclOnadas no lexlo. 0 que se parle notar de comum entre ambos?
0
leitur0 Cornplement~
[Durkheim e
0
metodo sociologicol
Durkheim deslocou 0 problema para urn terreno eslritamente formal, unico
em que ele poderia ser estabelecido em uma ciencia em plena formac;;ao. Uma
observai(ao bem-feita em geral deve muito a uma teoria constituida, mas ela nao e
o produlo necessario dos conhecimentos ja obtidos, Ao contrario, representa a via
II Jl
.))1 \ ,,' I h., d~i
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inevitavo: pard lJ con~L:Clll;(tU d0StGS. Dei! a conctus.ic 1(')~11\_1I: U~ ~.,;)Li(~luU(j0 ~;(: 1)(;
neticiarao das tcorias a mediiJa que d invesuqacao scc.olo.n..a progredir Ate l:i, [;
rnesrno dcpois, precisam saber proceder a descricoes exatas, '" observacoos bern
feilas e, em parucular, devern aprender a extrair, ua complexa iealidaue social, ()~,
tatos que interessam precrsarnente a sociologia. Para atinlJlr esses fins, nao ne
cessitarn de urna teoria sociol6gica, propria mente Ialanrto Ma" do urna e"peci,: de
teoria sociol6gica, 0 que e outra coisa e presurnivelrncntc algo exequivel e legiti
mo. Nesse senlido (e nao em um plano substantive) e que" socioloqia poderia
aproveitar a hcao e a experiencia das ciencias mais rnaouras: transferindo para o
seu campo 0 procedirnento cientifico usado nas cicncras ernpirico-indutivas, de
observacao ou experimentais. lsso seria lacll, desde que a ambicao inicial se .es
trinqisse Icrmulacao de um conjunto de regras simples e prccisas, aplicaveis
investioacao socioloqica rlos tenomenos socials.
Do flue foi exoosto conclui-se que Durkheim se propos a tare fa de realizar
uma teoria da investiqacao sociol6gica. De fato, ele empreendeu tal tareta. E foi 0
primeiro socioloqo que consequiu atingir semelhante objetivo, em condicoes diticois
e com urn exito que so pode ser contest ado quando se toma urna posicao dlferente
em face das co.idicoes, lirnitus e ideals de explicacao cientifica na socioloqia.
a
a
Flo~eSlan
Fernan':k:s, FunckJrnenlos
cJa explJc£J~;ao soclologica,
empiflCOS
p. 77-78.