Entre o passado e o presente “UM PASSADO DE ESCRAVIDÃO, UM PRESENTE RACISMO” Núbia Conceição Pereira de Morais* Aluna do curso de Mestrado em Ciências da Educação. Universidade Interamericana – Py, turma 1, Políticas Públicas, 2014 RESUMO Este artigo objetiva resgatar fatos relevantes sobre as várias tentativas de aniquilação da etnia negra baseada na escravidão e nas políticas de branqueamento. Em primeiro lugar trata-se das dificuldades enfrentadas pelos negros na sociedade brasileira, numa análise histórica onde se percebe que a ideologia do branqueamento sempre esteve presente e que mesmo transcorridos anos percebe-se que o racismo originado na escravidão permanece podando os espaços dos afrodescendentes. Observa-se que mesmo depois de decretada a abolição não foram realizados projetos de assistência ou leis para a inserção dos negros à sociedade. Permanecendo na condição de inferiores, tendo sua cultura e religião marginalizadas por conta dos estereótipos constituídos através de um imaginario deturpado que se constituiu em sérios danos aos afrodescendentes atualmente, enfrentando dificuldades para superar os diversos tipos de discriminação inclusive no mercado de trabalho e na sociedade em geral. Posteriormente às teorias racistas, surge a chamada “Democracia racial”, valorizando a miscigenação como fator primordial para o desenvolvimento do país, um reforço para o “branqueamento”. Objetivando assim, o progressivo desaparecimento do negro. Em seguida uma abordagem sobre os estereótipos construídos historicamente sobre a etnia negra, algumas considerações sobre as desigualdades sociais e o movimento como legítimo defensor dos direitos dos afrodescendentes, um instrumento de combate ao racismo. PALAVRAS-CHAVE: Escravidão – branqueamento – estereótipos – afrodescendentes racismo 1 *Aluna do curso de Mestrado em Ciências da Educação. Universidade Interamericana – Py, turma 1Políticas Públicas, 2014. E-mail: [email protected] ABSTRACT Este artículo tiene como objetivo rescatar hechos relevantes sobre los diversos intentos de aniquilación de la esclavitud basada en la raza negro y las políticas contra el lavado. La primera es la dificultades que enfrentan los negros en la sociedad brasileña, un análisis histórico donde uno se da cuenta de que la ideologia de blanqueamento estuvo siempre presente e incluso pasado año se percibe que el racismo se originó en la esclavitud sigue siendo la poda de los espacios de ascendencia africana. Se observa que, incluso después de decretada la abolición no se llevaron a cabo proyectos leyes de asistencia para la integración de los negros en la sociedad. Alojarse en baja condición, y su cultura marginada y la religión debido a los estereótipos constituido a través de un tergiversado imaginaria que constituye un perjuicio grave a los afrodescendentes actualmente luchando para superar los diversos tipos de discriminación, includa en el mercado laboral y en la sociedad en general. Más tarde las teorías racistas, existe la llamada “democracia racial”, destacando el mestizaje como fator clave para el desarrollo del país, una mejora a la “blanqueo”. Com el objetivo de este modo desaparición gradual del negro. A continuación, un análisis de los estereotipos hstoricamente construidas sobre la raza negro, algunas consideraciones sobre las desigualdades sociales y el Movimiento Negro como un legítimo defensor de los derechos de los afrodescendentes, una herramienta para combatir el racismo. 2 INTRODUÇÃO Desde tempos remotos os negros sofrem com atos de crueldade e preconceitos, considerados como um “mal” para o país. No Brasil esse cenário se configura na escravidão de grande contingente de africanos, aproximadamente quatro mihões, onde passaram por muitas dificuldades para sobreviverem. Foram oprimidos, desqualificados e levados à condição de “coisa”, considerados como seres sem alma. (Montesquieu, pensador iluminista, acreditava que os negros não tinham almas e que isto justificaria sua escravização). Sua cultura desvalorizada e deturpada por muito tempo. Hoje ainda observa-se o grande desrespeito à imagem do negro / afrodescendente na sociedade brasileira em consequência de um sistema discriminatório instalado com o objetivo de segregar um povo em função de uma ideologia de branqueamento e superposição de uma cultura a outra, no caso a africana, negando sua origem e sua verdadeira identidade. Numa tentativa de anular a presença do negro construíndo uma imagem negativa desse segmento da população na sociedade brasileira, desenvolve-se políticas de branqueamento baseadas em traços fenótipos, culturais, religiosos, colocando o negro em situação precária, a margem da sociedade, sem oportunidades e acesso aos bens, serviços, educação e trabalho. Um passado de escravidão, um presente racismo Na década de 1890, torna-se evidente esse processo de “anulação” através do incentivo à imigração européia, onde favoreceu-se a entradas maciça de brancos no país, considerados culturalmente superiores. Levando os negros e muatos a ocuparem empregos subalternos, contribuindo assim, para um estágio de submissão, degradação e pobreza. Segundo Gilberto Freyre (1998), o negro no Brasil, nas suas relações com a cultura e com o tipo de sociedade que aqui se vem desenvolvendo, deve ser considerado principalmente sob o critério da história social e econômica. Da Antropologia cultural. Daí ser impossível – 3 insistamos nesse ponto – separá-lo da condição degradante de escravos, dentro do qual abafaram-se nele muitas das suas melhores tendências criadoras e normais para acentuarem-se outras, artificiais e até mórbidas. Tornou-se,assim o africano, um decidido agente patogênico no seio da sociedade brasileira. Por “ inferioridade de raça”, gritam então os sociólogos arianistas. Mas contra seus gritos se levantam as evidências históricas as circunstâncias de cultura e principalmente econômicas – dentro das quais se de o contato do negro com o branco no Brasil. Segundo uma análise histórica da presença do negro na sociedade brasileira, percebe-se que a ideologia do branqueamento sempre esteve presente e que mesmo transcorridos anos, percebe-se que o racismo originado na escravidão permanece tolhendo os espaços dos afrodescendentes. A problemática se configura numa questão de contexto histórico, tudo começou com o descobrmento no séc. la na África, com os navegadores portugueses, criando uma relçao mercantil entre países (Àfrica continente); uma relação de exploração, de dominador e dominado. A partir de então, nasce o discurso articulado e ideológico entre duas entidades, uma negra e a outra branca, dando início ao tráfico negreiro a ao colonialismo entre povos. “O Brasil formou-se, despreocupado os seus colonizadores da unidade ou pureza de raça. Durante quase todo o séc. XVI a colônia esteve escancarada a estrangeiros, só importando às autoridades coloniais que fossem de fé ou religião católica”. (Gliberto Fryre, 1998, p.29). Inicialmente as autoridades brasileiras (os portugêses) na época, esquece raça e considera seu igual aquele que tivesse religião igual à que professava. Para ser admitido como colono do Brasil no séc. XVI a principal exigência era professar a religião católica. Após a abolição, o racismo baseia-se nas teses de inferioridade biológica dos negros caracterizado pela cor da pele, perdendo os direitos básicos dos seres humanos, direito à liberdade, à expressão cultural, de escolhas e principalmente o direito de ser Humano. Munanga (2005), chega à conclusão de que os contextos históricos e geográficos geram o resultado de um racismo universalista que quis assimilar africanos e seus descendentes brasileiros, supondo-se os dominadores serem superiores. 4 Essas teorias racistas, intensamente difundidas na sociedade brasileira, e o projeto de branqueamento vigoram até os anos 30 do séc. XX, quando foram substituídos pela chamada ideologia da democracia racial. Nesse novo contexto, entretanto, a valorização da miscigenação e do mulato continuaram propriciando a disseminação de um ideal de branqueamento como projetos pessoal e social. No Brasil existe um mito da democracia racial, sugerindo que todas as etnias têem as mesmas oportunidades, os mesmos direitos. Na verdade uma falácia, pois observa-se o comportamento da sociedade em relação principalmente aos afrodescendentes. Percebe-se que há constantemente atos de preconceito, discriminação e racismo em relação a esse segmento da sociedade. Difundiu-se na sociedade brasileira a déia de se considerar inteligentes, seres pensantes e culturalmente elevados apenas os componentes das estruturas dominantes, seguindo a lógica do conhecimento único, soberano. Com base nesse discurso, justifica-se durante muito tempo, práticas como a escravidão dos seres humanos e índígenas, constituindo assim, mão de obra barata como base de toda economia colonial. A história mostra que o término da escravidão não significou para os ex escravos e seus descendentes ascensão imediata à condição de cidadão brasileiro, também não significou o início da desconstrução dos valores associados às designações de cor, prevalecendo a continuidade e o fortalecimento de fenômenos como o preconceito e a discriminação racial, difundindo assim, o “racismo científico”. Como um projeto nacional de modernização do país, observa-se a prática ideológica de branqueamento e posteriormente, a idéia de democracia racial. A elite colonial brasileira embora não organizasse um sistema de discriminação legal ou uma ideologia racista, compartilhava um conjunto de esterótipos negativos em relação ao negro. Contudo o branco era dotado de de uma positividade que se acentuava quanto mais próxima da cultura européia. ( Jaccoud, 2008). A existência de uma perspectiva de aceitação de uma hierarquia racial, o reconhecimento de problemas oriundos de uma sociedade multiracial, mais a idéia de miscigenação, imaginava-se o início da formação de permaneência de uma raça branca, objetivando o progressivo desaparecimento do negro, uma completa aniquilação. 5 Os processos de anulação da presença do negro persistiam com base nos ideais de desenvolvimento econômico do país, onde era necessário o aprimoramento racial de um povo, influenciando nas decisões políticas e aumentando as diferenças e as desigualdades no país principalmente em relação à população de descendência africana, tolhendo assim, qualquer forma de ascensão social desse segmento da população, chegando em 1920 o impedimento de entrada de imigrantes de cor preta no país, através de projetos de lei na câmara dos Deputados por então parlamentares. Mas foi permitido posteriormente a entrada de milhares de imigrantes brancos. Em 1930, os discursos racistas desapareceram dando lugar a um pensamento racial destacando a positividade da mestiçagem no Brasil, dando a ideia de uma convivência harmônica, uma “democracia racial”; quando o conceito de raça perde força e as desiguladaes racial antes percebidas através de dimensões biológicas, agora substituídas pela dimensão cultural e social. O termo democracia racial surge em 1940 em artigos escritos por Roger Bastide e com mais ênfase na década de 1950 na divulgação da obra de Gilberto Freyre. Depois de muitas discussões e passado o auge das idéias, surge a recusa pelo determinismo biológico que dar lugar a valorização do aspecto cultural, reversível em suas diferênças. Com o mito da democracia racial a idéia de raça deu lugar às ciências sociais, à cultura e o ideal de branqueamento foi ultrapassado em termos de projeto nacional, surgindo assim, a afirmação e valorização do “povo brasileiro”. Com base nesses argumentos, supõe-se que não há discriminação racial entre o povo brasileiro. A questão racial volta a ser discutido no Brasil com o processo de redemocratização, agora as discussões são dirigidas para o viés das desigualdades sociais em relação à má distribuição da renda. O grande problema em relação ao afrodescendente na sociedade brasileira constituído históricamente é a imagem deturpada do negro elaborada, articulada, montada sob estereótipos e preconceitos raciais que interferam na mobilidade social, nas oportunidades de educação e emprego, consequentemente ascensão social. Esse processo é constituído no imaginário das pessoas desde criança, quando a sociedade incute nos pensamentos desqualificação de pessoa negra como “feio, incapaz, coisa, sem alma, cultura inferior”. Certas famílias preferem que os filhos e filhas casem-se com pessoas brancas para “limparem” a família, devido à aversão à própria raça ou etnia a 6 que pertenciam, por conta desse imaginário deturpado, criado por ideais racistas, proliferando dentro da própria raça conceitos errôneos sobre a imagem do negro. Nenhuma criança gostaria de se identificar, de se assemelhar e pertencer a um grupo etnico com essas características. Características essas que foram deturpadas, com uma carga de estereótipos construídos ao ongo da história, com uma gama de preconceitos instalados que chega à rejeiçãde sua própria identidade. “ Nas festividades juninas onde havia a Rainha do Milho,eram sempre escolhidas as meninas loiras”. “ Os meninos preferiam sempre namorar as meninas brancas”. “ Os filhos tinham que se casar com mulheres brancas e vice-versa”. “Numa concorrência por uma melhor colocação no mercado de trabalho sempre os brancos”. “ Brancos nas melhores posições, nos melhores papéis na TV, pretos em posições inferiores”. Segundo Ana Célia da Silva (2008, p.23), a criança que internaliza essa representação negativa, tende a não gostar de si própria e dos outros que lhe assemelham. Contudo a raça é assim mantida, como símbolo de posição subalterna na divisão hierárquica do trabalho e continua a fornecer a lógica para confinar os membros do grupo racial subordinado àquilo que o código racial das sociedades define como “seus lugares apropriados” (Hasenbalg, 1979, p. 83). Dito popular “procure o seu lugar”. Atualmente as desigualdades raciais então reconhecidas, se configura num cenário de pobreza, carência e despreparo para a concorrência no mercado de trabalho. Mesmo com reconhecimento formal perante a lei, na realidade, os afrodescendentes não alcançaram facilmente as mesmas oportunidades e posições que os brancos, principalmente no que se refere ao espaço econômico, causando um grande abismo entre os ricos e os pobres negros, vítimas do “apartheid”, diferentemente dos Estados Unidos onde o sentimento de ódio e de discriminação sempre foram mais latentes. 7 No entanto, o racismo no país continuou e continua ocorrendo de maneira velada. Até poco tempo atrás, mesmo com a promulgação da Constiituição Federal de 1988, que considera o racismo como “crime inafiançável e imprescritível”, ainda se divulgam anúncios de emprego em jornais, cuja característica seria pessoas de “boa aparência”, significando um implícito ato de racismo. O Movimento Negro criado para combater a exclusão sofrida por parte significativa da população contra o processo de exclusão político-decisório e do processo de desenvolvimento econômico, pôe em pauta importantes demandas como o enfrentamento das condições de pobreza e a oferta de melhores condições de educação, de trabalho e de cidadania, assim como o reconhecimento da discriminação racial; destacando a defesa da preservação e valorização do patrimônio cultural dos negros. Segundo dados do IPEA (Brasil, 2008), na década de 1980, a população negra brasileira tinha acesso restrito aos serviços de educação, saúde e proteção social etc. CONCLUSÃO Com o mito da democracia racial, se propaga o discurso da negação da existência do racismo que se configuara como agente relevente de sustentação e acentuação das desiguladades sociais. Um racismo sutil, disfarçado, oculto. Com base nos argumentos apresentados, se faz necessário a construção de políticas públicas de combate à desigualdade, diminuíndo a pobreza, oportunizando os afrodescendentes ao acesso à educação, a uma boa colocação no mercado de trabalho. Ações concretas, eficazes que realmente valorizem os afrodescendentes, colocando-os numa posição ascendente e de inclusão na sociedade brasileira , livre de estereótipos, dos preconceitos construídos. Desconstruíndo o imaginário deturpado criado com o intuíto da não identidade, da rejeição, como alicerce de um racismo cruel e aniquilador. Atualmente observa-se recorrentes atos de racismo como os que presenciamos na diversas formas de discriminação, seja em relação ao gênero, à questão da posição social ou econômica, a própria relação entre homens negros mulheres brancas e vice-versa. Recentemente, as autoridades brasileira vêm tomando algumas providências, objetivando a redução das desigualdades sociais entre brancos e negros, entre outros projetos 8 existe um sistema de cotas para afrodescendentes provinientes de escolas públicas nos vestibulares e nas Universidades Federais. Em defesa de sua dissertação de Mestrado, na Universidade de Brasília (UNB), contestando sobra as cotas raciais, Roberta Fragoso Kaufmann diz que “Negro rico no Brasil vira branco. E branco pobre vira negro”. Gerando assim, uma gama de discussões e discórdias entre os estudiosos e defensores de cotas nas Universidades. E a reprodução desses preconceitos e discriminação é visivelmente comprovada no interior das instituíções sociais, inclusive escolas e empresas. Um racismo invisíbilizado, mas em toda parte, caracterizado nas falas dos agentes detentores do saber baseado na cor da pele, lugar, classe, gênero e religião. Observa-se ainda um relevante desinteresse em formar cidadãos capazes de estudar a si próprios se colocando num contexto onde possam se identificar e transformar a sociedade. Nesse contexto, destaca-se o papel imprescindível da escola que tem sido durante todo esse tempo responsável pela consolidação do padrão de poder dominante através da constituição de um discurso identitário de referência única para a nação. A escola tem o dever moral de divulgar os valores e as contribuições dos povos como os indígenas e os africanos, formadores primordiais de nossa cultura. As Universidades precisam desenvolver mais programas, estudos, pesquisas utilizando a realidade e a abertura para o diálogo, contrução e divulgação das culturas formadoras valorizando as contribuições intelectuais, artisticas e cientístas negros, da mulher negra, possibilitando a construção do conhecimento através do aprimoramento e inovação das ações pedagógicas. Só através de uma educação verdadeira, de qualidade, livre de conceitos esteriotipados, a sociedade brasileira tornar-se-a livre de preconceitos e racismo. A formação dos professores tem se constiruído como um grande desafio de desmistificar a democracia racial criando novas obordagens epistêmicas, instrumentalizando os professores e professoras para uma postura de trabalho com um novo olhar para a educação da população brasileira. Não só as instituições públicas, também as privadas, igrejas, empresas etc. A escola deve se colocar como um agente de afirmação de identidades, como instrumento indispensável à valorização da imagem do afrodescendente, desenvolvendo em seus projetos novos espaços pedagógicos como fonte de elevação da auto-estima, construíndo 9 currículos que favoreçam conhecimentos sobre as origens desse segmento, que é a maioria, objetivando o reconhecimento de sua identidade. REFERÊNCIAS AZEVEDO, T. As elites de cor numa cidade brasileira: um estudo de ascensão social, classes sociais e grupos de prestígio. Salvador: Edufba, 1996. ARAÚJO, Joel Zito. A negação do Brasil. São Paulo: SENAC, 2000. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Lei 9.394 de dezembro de 1996. São Paulo. Ed. Esplanada. CHAUI, Marilena. O que é ideologia. Coleção Primeiros Passos. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1988. CUNIN, E. Identidades a flor de piel. 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