UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE CIÊNCIAS EXATAS E TECNOLÓGICAS ENGENHARIA AGRÍCOLA POLÍTICA AGRÁRIA: ANÁLISE DOS INVESTIMENTOS PÚBLICOS EM REFORMA AGRÁRIA DE 2000 A 2010 Gustavo Henrique Mendes Brito ANÁPOLIS–GO 2012 GUSTAVO HENRIQUE MENDES BRITO POLÍTICA AGRÁRIA: ANÁLISE DOS INVESTIMENTOS PÚBLICOS EM REFORMA AGRÁRIA DE 2000 A 2010 Monografia apresentada a Universidade Estadual de Goiás – UnUCET, para obtenção do título de Bacharel em Engenharia Agrícola. Área de concentração: Extensão Rural. Orientadora: Profª. D.Sc. Alzirene de Vasconcelos Milhomem ANÁPOLIS–GO 2012 GUSTAVO HENRIQUE MENDES BRITO POLÍTICA AGRÁRIA: ANÁLISE DOS INVESTIMENTOS PÚBLICOS EM REFORMA AGRÁRIA DE 2000 A 2010 Monografia apresentada a Universidade Estadual de Goiás – UnUCET, para obtenção do título de Bacharel em Engenharia Agrícola. Área de concentração: Extensão Rural. Aprovada em: 02 /07 /2012. BANCA EXAMINADORA Profª. D.Sc. Alzirene de Vasconcelos Milhomem Universidade Estadual de Goiás - UnUCET (Orientadora) Profª. M.Sc. Brandina Fátima Mendonça de Castro Andrade Universidade Estadual de Goiás - UnUCET (Avaliadora) Profª. D.Sc. Roberta Passini. Universidade Estadual de Goiás - UnUCET (Supervisora TCC) AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus, pela força espiritual para realização desse trabalho. Aos meus pais Lucia Helena e Niltom Mendes, avós Sebastião Mendes e Maria Barbaresco, pelo apoio, compreensão, ajuda, e, em especial, por todo o carinho ao longo deste percurso. A minha tia Zilvanda Mendes, pelo carinho, compreensão e pela grande ajuda. A minha Orientadora D.Sc. Alzirene Vasconcelos Milhomem, pela paciência na orientação e incentivo. Ao professor D.Sc. Elton Fialho dos Reis. Ao corpo docente da UEG, que fez parte da minha formação acadêmica. Aos meus amigos, colegas de curso e em especiais, Sanchez de Castro, Suzane Santana, Rangel Alves, Thiago Henrique, Rodrigo Moura, Sandriane Araujo, Áthina Bárbara, Edilson Henrique, Sergio Luis, Thálita Carrijo e Juvêncio Otávio, pela cumplicidade, ajuda e amizade conquistada ao longo desses cinco anos, e que levarei para vida toda. E a todos que contribuíram para realização desse trabalho. iii “O único lugar que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” Albert Einstein iv SUMÁRIO LISTA DE TABELAS ........................................................................................................... VI LISTA DE FIGURAS........................................................................................................... VII RESUMO............................................................................................................................. VIII 1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 9 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ....................................................................................... 11 2.1. A AGRICULTURA E OS PROBLEMAS SOCIAIS E ECONÔMICOS .................. 11 2.2. O SISTEMA DE OCUPAÇÃO DE TERRAS BRASILEIRAS ................................. 12 2.3. REFORMA AGRÁRIA ............................................................................................. 14 2.3.1. Estatuto da Terra ............................................................................................. 18 2.3.1.1. Fatos relevantes do Estatuto da Terra durante o governo militar ................ 20 3. DISCUSSÃO .................................................................................................................... 22 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 39 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 41 v LISTA DE TABELAS TABELA 1 - METAS E REALIZAÇÕES DO GOVERNO SARNEY COM O I PNRA1985/1990 ................................................................................................................................. 16 TABELA 2 - BRASIL: ASSENTAMENTOS RURAIS ATÉ 1994. ....................................... 17 TABELA 3 - AÇÃO FUNDIÁRIA NO PERÍODO DOS GOVERNOS MILITARES – 1964/1984. ................................................................................................................................ 21 TABELA 4 - NÚMERO E ÁREA TOTAL DOS ESTABELECIMENTOS AGROPECUÁRIOS COM DECLARAÇÃO DE ÁREA, CONFORME TRÊS ESTRATOS DE ÁREA BRASIL, 1975 A 2006. .......................................................................................... 27 vi LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 - MAPA DAS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS ................................................. 12 FIGURA 2 - EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DE GINI DA CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA NO BRASIL DE 1096 A 2006. ....................................................................................................... 28 FIGURA 3 - DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DO NÚMERO DE PROPRIEDADE E ÁREA OCUPADA POR ESTRATOS NO BRASIL EM 2006. .............................................. 30 FIGURA 4 - EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE FAMÍLIAS ASSENTADAS POR PROCESSO DE REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 1998 A 2010. ............................. 31 FIGURA 5 - GASTOS PÚBLICOS, AUTORIZADOS E EFETIVOS, PARA OBTENÇÃO DE ÁREAS PARA REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 2001 A 2011, EM R$ MILHÕES. ............................................................................................................................... 34 FIGURA 6 - CONCESSÃO DE CRÉDITO PARA ASSENTAMENTOS, AUTORIZADO E DESEMBOLSADOS, PARA FINS DE REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 2001 A 2011, EM R$ MILHÕES .......................................................................................................... 36 vii RESUMO A reforma agrária é entendida como um processo amplo e massivo de distribuição da propriedade da terra e mesmo nos dias atuais ela se faz necessária, pois muitos a confundem com políticas agrícolas e até afirmam que a reforma agrária é coisa do passado, pois a agricultura brasileira vem mostrando que é capaz de produzir tanto para o seu abastecimento interno, quanto para exportação. Observa-se ainda uma enorme concentração de terras nas mãos de poucos, comprovado pelo índice Gini que em 2006 era 0,854 contra 0,836 de 1967, para distribuição de terras no Brasil. Por isso o presente trabalho teve como objetivo avaliar os investimentos públicos em reforma agrária através de dados do INCRA, IBGE e MDA, com análise nas variáveis: montante de investimentos públicos e número de famílias assentadas no Brasil de 2000 a 2010. Como resultado observou uma redução no número de famílias assentadas, caindo de 61 mil famílias em 2000 para 40 mil de 2010, além disso, o montante de investimentos públicos oscilou muito nesses dez anos de estudo, saltando de R$ 491 milhões de 2001 para R$ 1,92 bilhões em 2005 e voltando a cair a partir daí, chegando a R$ 518 milhões em 2010. Com isso pode-se observar que o que vem sendo feito nesses 10 anos, não passam de atendimentos pontuais, para conter manifestações dos movimentos sociais, e uma mudança de foco dos nossos governantes, pois os mesmos acharam mais cômodo intensificar seus esforços no agronegócio e em políticas agrícolas, com isso, mesmo nos dias atuais a reforma agrária ainda se faz necessária para ocorrer uma redistribuição de renda e riquezas. Palavras-chave: Reforma Agrária, Assentamento, Latifúndios. viii 1. INTRODUÇÃO O objetivo da reforma agrária é proporcionar a redistribuição de propriedades rurais que estão na maioria das vezes nas mãos de grandes latifundiários, para que essas terras possam realizar a sua função social, ou seja, redistribuição de terras e incentivo a produção familiar (FRANCISCO, 2008). As maiorias dos países que hoje são denominados desenvolvidos sofreram o processo de reforma agrária, processo pelo qual foi em alguns casos problemático e de grande resistência ao longo da história. No entanto seus governantes conseguiram realizar com sucesso o processo da reforma agrária. No Brasil este processo é caracterizado como conservador (BUAINAIN et. al.,[s.d]). Este fato por ser explicado se recorrermos à história, onde podemos ver que a distribuição desigual de terras teve inicio a partir de 1530, pois as capitanias hereditárias e o sistema de sesmarias realizaram a distribuição de terras a quem tivesse condições de explorar, produzir e ao mesmo tempo pagar a coroa portuguesa com um sexto da sua produção (FRANCISCO, 2008). O sistema de capitanias hereditárias foi instituído pelo rei de Portugal, Dom João III, onde ele determinou a criação de 14 distritos que foram divididos em 15 lotes e repartidos com 12 donatários. Em contra partida esses indivíduos que receberam essas doações da coroa portuguesa, tornaram-se homem de confiança da realeza, porém, ainda precisavam pagar impostos à monarquia. (SANTANA, 2008). No entanto devido às dificuldades de administração das capitanias e a falta de recursos, o sistema de capitanias acabou fracassando (SOUSA, 2011). Segundo Santana (2008), o sistema de sesmarias foi inserido a partir da instituição das capitanias, pois muitos donatários abriram mão do privilégio e outros nem mesmo reuniram recursos para atravessar o Atlântico e formalizar a posse de suas capitânias, e com isso o pedaço de terra devolvido ou abandonado foi explorado pelo sistema de sesmarias. Essas explorações que foram admitidas pelos sesmeiros, era basicamente a exploração da cultura do açúcar, que tinha o mercado europeu em franca expansão. E como a demanda era cada vez maior, a pequena exploração movia-se em busca de novas terras dentro dos vastos domínios das grandes fazendas, consolidando, ainda no período colonial, não apenas a concentração fundiária, mas também a relação latifúndio minifúndio que marcaria tanto a estrutura fundiária como a dinâmica agrária brasileira (BUAINAIN e PIRES, 2003). 9 No entanto, em 1964, foi criado o Estatuto da Terra, onde ele diz que o Estado tem a obrigação de garantir o direito ao acesso a terra para quem nela vive e trabalha. Porém, mesmo com as transformações sociais e econômicas brasileira, a distribuição das terras contínua ineficiente e arcaica, apesar das questões agrárias atuais não serem as mesmas do fim dos anos 50 (BUAINAIN, 2006). Isto acontece devido às barreiras enfrentadas no processo de reforma agrária, dando destaque para a resistência dos grandes proprietários rurais (latifundiários) e o elevado custo de manutenção das famílias assentadas (FRANCISCO, 2008). O fato é que as propriedades rurais destinadas para a reforma agrária podem ser obtidas pela união de duas formas: expropriação e compra. Depois que estiver em posse dessas propriedades, elas são divididas em lotes de terras que são distribuídos a famílias camponesas. No entanto essas famílias são quase que na sua totalidade descapitalizadas, e necessitam financiamentos para compra de adubos, sementes e máquinas, para que possam, enfim, produzir. Além disso, é necessária toda uma infraestrutura como energia e estrada para escoar a produção, ou seja, mesmo sabendo da importância da reforma agrária para o país, ela tem todo um custo para a união (FRANCISCO, 2008). Segundo o INCRA (2010), de 2003 a 2009, o governo brasileiro comprou mais de 40 milhões de hectares para realizar a reforma. Dinheiro o qual saiu dos cofres públicos, além disso, tem todo o investimento na infraestrutura e manutenção dos assentamentos. Com isso o presente trabalho tem como objetivo avaliar o investimento do governo brasileiro em reforma agrária no período de 2000 a 2010, através de dados estatísticos obtidos em revistas, circulares e dados do INCRA e IBGE. 10 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1. A AGRICULTURA E OS PROBLEMAS SOCIAIS E ECONÔMICOS A agricultura possui três finalidades, e dentro de um critério de prioridades sociais e econômicas, a primeira é alimentar o ser humano, a segunda fornecer matéria prima para indústria de transformação e a terceira fornecer produtos para indústria seja como matéria prima ou integrando o processo produtivo (BURGER, 1999). Porém, nem sempre foi assim, na economia primitiva, por exemplo, o homem se alimentava dos produtos naturais que conseguia da caça e da pesca, ou seja, ele era dependente do que a terra lhe oferecia. Mais com o passar do tempo, ele foi aprendendo a cultivar a terra e produzir para seu próprio sustento (CORAZZA e MARTINELLI, 2002). Isso aconteceu porque o homem foi desenvolvendo novas técnicas de cultivo, fixouse ao solo, apropriou-se da terra e fez da agricultura a fonte básica de alimentos para a crescente população mundial (BURGER, 1999). Segundo UNFPA (2011), o nosso globo possui cerca de sete bilhões de pessoas. E esse número só tende a crescer e se urbanizar. Segundo dados estatísticos de 1960 a 1997 o Brasil apresentou uma taxa de urbanização de 73,5%, ficando atrás somente da Bulgária com 77,5% da população fixa nos centros urbanos, o que por seu lado tende a ser um grande problema, pois o homem que ficou no campo e que antes produzia apenas para o seu consumo é pressionado a produzir também para a população urbana, o que pode acarretar em uma carência de alimentos e matéria prima (BURGER, 1999). Esse fato é comprovado pelo censo do IBGE (2010), onde o Brasil já possuía cerca de 190.732.694 milhões de pessoas, desse total apenas 15,65% da população (29.852.986 pessoas) viviam em situação rural, contra 84,35% em situação urbana (160.879.708 pessoas). Para Ribemboim e Moreira (2008) essa migração campo-cidade é conhecida como êxodo rural, e seu resultado é a consequência da deterioração social e ambiental do meio rural que expulsa os camponeses rumo aos centros urbanos, seja à causa da reestruturação fundiária capitalista, em decorrência da modernização da agricultura ou, ainda, intempéries climáticos. Segundo Castro et. al. (2006) a família toma decisões que visam ao bem-estar de todos os seus membros. Portanto, viver no meio rural ou na cidade, são duas alternativas, porém os prós e os contras devem ser devidamente avaliados. Como por exemplo, a violência urbana e o risco de não encontrar emprego, por outro lado, o diferencial de salário é tentador. 11 Mais o que realmente preocupa é que daqui a no máximo 5 a 10 anos cerca de 90% da população brasileira estará vivendo em cidades (IBGE, 2010), demandando cada vez mais alimentos e matéria prima, essa á qual será produzida pela minoria que se aventurou a ficar no campo, no entanto a produção agrícola só pode ocorrer em solos agricultáveis, com técnicas disponíveis, de maneira eficiente e sem depreciar o solo com seu uso intensivo. Porém ao se tratar de Brasil, um país de dimensões continentais, além dos problemas de migração do homem do campo para os centros urbanos, tem-se problemas como terras mal exploradas, ausência de pesquisa, assistência e crédito rural, e principalmente enormes latifúndios improdutivos (BURGER, 1999). 2.2. O SISTEMA DE OCUPAÇÃO DE TERRAS BRASILEIRAS O problema do sistema de ocupação das terras brasileira é histórico, pois desde 1530 a coroa portuguesa se viu forçada a colonizar o Brasil, pois estavam correndo o risco de invasões e roubo de suas riquezas por piratas estrangeiros e navios franceses. Com isso o então rei de Portugal D. João III dividiu as terras brasileiras em faixas, que partiam do litoral até a linha imaginária do Tratado de Tordesilhas, em outras palavras, criou-se as capitanias hereditárias, que foram doadas para os nobres e pessoas de confiança do rei (SOUSA, 2011). Essas capitanias foram divididas em quinze lotes, formando doze capitanias dividas entre doze donatários, onde cada uma tinha em média 300 km de largura. No entanto a coroa portuguesa impôs que os donatários arcassem com os gastos da colonização, com isso muitos dos nobres portugueses não se interessaram pela oferta, pois não tinham provas de outras riquezas no território brasileiro, a não ser o Pau-Brasil, que por sua vez era reservado à exploração da coroa (INNOCENTINI, 2009). FIGURA 1 - MAPA DAS CAPITANIAS HEREDITÁRIAS FONTE: BENTO, 2010. 12 Segundo Sousa (2011), o sistema de capitanias hereditárias acabou não alcançando o resultado esperado, pois enfrentou inúmeros problemas, como a falta de apoio econômico do governo, a inexperiência de alguns donatários, as dificuldades de comunicação e locomoção, e a inimizade dos indígenas. No entanto para a coroa, o Brasil ainda era uma terra de dimensões continentais, porém pouco colonizada e principalmente, pouco produtiva. Foi ai que surgiu o artifício para a exploração da terra: as sesmarias, que eram lotes menores, dentro das capitanias, e que foram doadas a um sesmeiro com o objetivo de tornar a terra produtiva (OLIVEIRA, 2009). O sesmeiro tinha então a partir do recebimento do lote, a obrigação de cultivar a terra por um prazo de cinco anos, tornando-a produtiva e pagando os devidos impostos à Coroa. Por outro lado, os sesmeiros se tornariam grandes proprietários de terras, formando a elite colonial brasileira, bem como a concentração das terras, formando os primeiros latifúndios (SOUSA, 2011). Embora não tenha satisfeito completamente as expectativas iniciais de produção, o sistema de distribuição de terras por sesmarias durou até 1822 com a resolução de 76 que pôs fim a esse sistema de ocupação de terra (OLIVEIRA, 2009). O que para Nozoe (2006) só aconteceu devido à aplicação descontinuada da legislação fundiária no decorrer de nosso período colonial, resultando no uso mais ou menos generalizado da posse como recurso de acesso a terra. Essa suspensão, sem substituí-lo por qualquer sistema legal que regulasse o acesso a terra até 1850 com a lei de terras fez com que nesse espaço de tempo, a tomada de terras por apossamento fosse o único caminho para pose de terras, disseminando por todo território brasileiro (COVOLAN e GONZALES, 2008). Segundo Buainain e Pires (2003), a criação dessa lei, só fez com que os produtores independentes, camponeses e quilombolas não tivessem acesso a terra, pois a mesma só poderia ser adquirida por compra, não sendo permitidas novas concessões de sesmaria, muito menos a ocupação por posse. No entanto, essa lei continha brechas, pois era permitida a venda de todas as terras devolutas, e eram consideradas terras devolutas todas aquelas que não estavam sob os cuidados do poder público e aquelas que não pertenciam a nenhum particular, sejam estas concedidas por sesmarias ou ocupadas por posse. Por outro lado, seriam regularizadas todas as posses de terras que tivessem alguma cultura e/ou moradia do posseiro, desde que estivesse nas terras antes da lei das terras de 1850 (CAVALCANTE, 2005). 13 2.3. REFORMA AGRÁRIA Segundo Buainain e Pires (2003), o problema agrário brasileiro, está diretamente ligado a sua história e sua forma de ocupação, a começar pelas capitanias hereditárias e posteriormente as sesmarias que explorava cada vez mais terras à medida que se expandia a monocultura de cana, essa exploração acontecia dentro dos vastos domínios das capitanias, consolidando ainda no período colonial, não apenas a concentração fundiária, mas também a relação latifúndio e minifúndio que marcaria toda a estrutura fundiária e a dinâmica agrária brasileira. Além disso, mesmo com a independência do Brasil em 1822, e a ruptura da legislação colonial, foi criado a Lei das Terras em 1850 para dificultar o acesso das famílias camponesas e quilombolas as terras até então livres, mais que foram apossadas nesse espaço de 28 anos “sem lei”. A legislação afirmava o poder da Coroa sobre as terras, e definia a aquisição e doação como únicos meios de acesso a propriedade fundiária, além de fixar preços mínimos para os lotes e determinar que as vendas fossem em leilão público e com pagamento à vista e em dinheiro (BUAINAIN e PIRES, 2003). Como se podem imaginar, tais medidas impossibilitaram os produtores independentes, camponeses e quilombolas de ter acesso a terra, pois a grande maioria era pobre demais para pagar por isso, por outro lado os grandes fraudavam facilmente a lei, fazendo parecer que a ocupação ocorrera antes de 1850, beneficiando-se da lei que reconhecia todas as posses, independente da extensão anterior a esta data (BUAINAIN e PIRES, 2003). Mesmo com a mudança política em favor das forças urbanas em 1930 o sistema de propriedade da terra continuou intacto até a constituinte de 1946 defendida em plenário por Luis Carlos Prestes, propondo um programa de reforma agrária para resolver os problemas de concentração da propriedade da terra provocada pela aplicação da Lei de Terras (STEDILE, 2005). No entanto essa proposta não foi bem aceita pela igreja católica, que se preocupou com a influência que o partido comunista estava exercendo sobre os camponeses no país afora, e para conter esse avanço em 1950 o então Bispo Inocêncio Engelke, um mineiro de Campanha, se manifestou em favor da reforma agrária, no entanto com uma proposta mais conservadora (STEDILE, 2005). Já para Guedes Pinto (1995) o final dos anos cinquenta e inicio dos anos sessenta foi marcado pelos intensos debates e o crescimento do apoio popular no que se diz respeito às reformas estruturais. Reforma as quais ficou conhecida como reformas de base (agrária, 14 urbana, bancária e universitária, e que teve um destaque para a reforma agrária, pois em 11/10/62 através da Lei Delgada n° 11, criou a Superintendência de Política Agrária – SUPRA, para planejar, promover e executar a reforma agrária e assistência técnica e financeira dos sem terra. Além disso, o Presidente da República João Belchior Marques Goulart, ou popularmente conhecido como JANGO, aprova em 1963 o Estatuto do Trabalhador Rural que tinha a função de normatizar o trabalho no campo com leis trabalhistas, e em março de 1964 assina o decreto prevendo a desapropriação para fins de reforma agrária em terras localizadas na faixa de 10km ao longo das rodovias, ferrovias e açudes, além da abertura de uma sessão legislativa para propor uma série de providências que eram consideradas indispensáveis para atender as reivindicações da população (GUEDES PINTO, 1995). Mais a verdade é que nenhuma destas propostas foi executada, e mesmo com o surgimento de inúmeros programas e teses políticas em defesa da reforma agrária, foi o golpe militar de 64 que gerou a primeira lei de reforma agrária do país, o Estatuto da Terra, que embora tenha sido gerada num golpe, tinha características progressistas. O problema é que durante os 20 anos da ditadura militar, os movimentos, organizações dos trabalhadores e partidos de esquerda silenciaram o debate em torno de programas de reforma agrária, surgindo novos movimentos praticamente em 1984 com a fundação do MST, que se tornaria o movimento mais expressivo em defesa da reforma agrária (STEDILE, 2005). Para Guedes Pinto (1995) os sem terra começaram a se articular no começo dos anos oitenta, no Rio Grande do Sul, ocupando terras ociosas. Esse processo de ocupação se multiplicou pelo Brasil ao longo dos anos, e com isso deu-se origem ao Movimento dos Trabalhadores sem Terra – MST, que se constitui formalmente em 1985 com a realização do seu primeiro congresso nacional. Com o fim da ditadura militar em 1985, Tancredo Neves e eleito o primeiro presidente civil pós-ditadura, no entanto não assumiu devido a problemas de saúde que o leva a falecer, fazendo com que o seu vice José Sarney tome posse, e assuma os compromissos de Tancredo Neves com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, e o movimento sindical dos trabalhadores rurais, para realização de um efetivo programa de reforma agrária (GUEDES PINTO, 1995). Segundo Sparovek (2003), além do fim do governo militar, e a posse de José Sarney, o ano de 1985 foi marcado pela criação do Ministério da Reforma e do Desenvolvimento 15 Agrário – MIRAD, e a elaboração do primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária – PNRA, que previa o assentamento de 1.400.000 famílias em cinco anos. No entanto ao mesmo tempo em que se elaborava o PNRA, as forças políticas que eram contrárias à reforma agrária, se articulavam e passaram a pressionar o Sarney, para que o mesmo alterasse o texto do PNRA, e acrescentasse ao seu decreto alterações como o latifúndio produtivo, que proibia a desapropriação de terras com alta incidência de arrendatários ou parceiros, mas mantendo a meta de 1,4 milhões de beneficiários (GUEDES PINTO, 1995). Para Sparovek (2003), essas alterações no PNRA foram significativas e dificultaram o processo de desapropriação, Com isso o número de beneficiários de projeto de reforma agrária do governo Sarney não atingiu 10% da sua meta inicial, como mostra a TABELA 1. TABELA 1 - METAS E REALIZAÇÕES DO GOVERNO SARNEY COM O I PNRA1985/1990 Assentamento (N° de Famílias) Desapropriação (Área em ha) FONTE: Guedes Pinto, 1996. Metas Programadas do I PNRA 1.400.000 43.000.000 Metas Executadas 90.000 4.500.000 Os números reduzidos do Primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária – I PNRA podem ser explicados pelo pedido de demissão do presidente do INCRA e praticamente toda sua equipe que estava se estruturando para executar o plano. No entanto esse episódio só ocorreu devido às pressões políticas em torno do Presidente Jose Sarney, que por sua vez alterou o texto original do PNRA. Vale ressaltar que durante o governo Sarney, o Incra chegou a ser extinto em 1987 e restabelecido 1989, além disso, foi elaborada a Constituição de 1988, que trata da questão da desapropriação de terras para fins de reforma agrária no capítulo III (Política Agrícola e Fundiária e da Reforma Agrária) e no título VII (Ordem Econômica e Financeira) (SPAROVEK, 2003). Com o fim do governo Sarney, em 1990 assume Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito pelo povo desde 1960, com isso Collor ser propôs a assentar 500000 famílias. No entanto o que se viu durante os seus dois anos de governo foi à extinção do Ministério Extraordinário para o Desenvolvimento e a Reforma Agrária - MIRAD, a subordinação do INCRA ao Ministério da Agricultura, que passou a se chamar Ministério da 16 Agricultura, do Abastecimento e da Reforma Agrária – MAARA, e nenhuma desapropriação por interesse social para fins de reforma agrária (GUEDES PINTO, 1995). Após forte denuncias de corrupção, e abertura do processo de impeachment, Fernando Collor de Mello renuncia a presidência, e quem assume é seu vice Itamar Franco que governou o Brasil de 1992 até 1994, no entanto pouco fez, devido às dificuldades decorrentes da situação a qual assumiu. Mesmo assim ainda aprovou um projeto emergencial para o assentamento de 80.000 famílias, e desse total atendeu 23.000 e implantou 152 projetos em uma área de 1.228.899 hectares (GUEDES PINTO, 1995). Para Morissawa (2001), o governo Itamar foi marcado pela aprovação da Lei n. 8.629, conhecido como Lei Agrária, que por sua vez, promoveu uma reclassificação geral das propriedades rurais no Brasil, passando a ter as seguintes denominações: a) minifúndio: com dimensão menor que o módulo rural fixado para o município; b) pequena propriedade: com dimensão entre um e quatro módulos rurais; c) médias propriedades: com dimensão entre cinco e quinze módulos; d) grandes propriedades: com dimensão superior a quinze módulos rurais. O que se pode ver é que no final de 1994, o Estatuto da Terra já tinha 30 anos de existência, e seu balanço com o total de famílias beneficiadas pelo governo federal pode ser sintetizado na TABELA 2. TABELA 2 - BRASIL: ASSENTAMENTOS RURAIS ATÉ 1994. Tipos de Assentamento Número Área (milhões de ha) Reforma agrária (Gov. Federal) 850 8,1 Ações Fundiárias Estaduais 728 5 Colonizações 48 14,1 TOTAL 1626 27,2 FONTE: Guedes Pinto, 1995. Número de Famílias 143514 122114 85181 350809 Pode-se ver que após 30 anos de existência do estatuto da terra, os números são pífios, pois ao se lembrar somente o I PNRA previa o assentamento de 1400000 famílias em cinco anos, e os dados mostram que em 30 anos conseguiram assentar 350809 famílias, ou seja, pouco mais que 25% do total que era previsto apenas para 5 anos. É importante lembrar que na década de 90, A Lei n° 8.022 transferiu para a secretaria da Receita Federal, do Ministério da Fazenda, a competência referente à administração das receitas arrecadadas pelo INCRA, em especial o Imposto Territorial Rural – ITR (GUEDES PINTO, 1995). 17 Com o fim do governo de Itamar Franco, quem assume é Fernando Henrique Cardoso, que por sua vez, cria o Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, que passa a ser responsável pela reforma agrária e agricultura familiar. Além disso, a pressão dos movimentos sociais como o MST, estimulou a efetivação dos assentamentos, além de aumentar o número de desapropriações, e a criação de linhas de créditos específicas para os assentados, como o Procera- Programa de Crédito para Reforma Agrária e o Pronaf-Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (SPAROVEK, 2003). Tais fatos foram comprovados pelo INCRA, que verificou famílias assentadas de 1995 a 1999, o que por sua vez, fez com que o governo de Fernando Henrique Cardoso fosse o que mais investiu em reforma agrária mundialmente até 1999. Para Hoffmann (1998), a realização do I Censo da Reforma Agrária em 1996, mostrou que mesmo com o aumento da implantação dos projetos de reforma agrária, a estrutura fundiária do Brasil, avaliada pelo grau de desigualdade na distribuição da terra, continuou praticamente inalterada. Isso porque o índice de Gini da distribuição da posse da terra, calculado com base nos dados do Censo Agropecuário de 1995/96, foi de 0,843 em 1998, um dos maiores do mundo. 2.3.1. Estatuto da Terra Embora inúmeras propostas de leis a favor da reforma agrária tenham sido elaboradas no período de 1946 a 1964, a primeira lei a ser posta em prática foi elaborada pelo então governador Marechal Humberto Castelo Branco que assumiu o poder no golpe militar de 64. O Estatuto da Terra, como é conhecido foi elaborado e considerado progressista devido à época e as circunstâncias, isso porque ele previa o cadastro e classificação de todas as propriedades de terra do país, levando em consideração o tamanho, utilização e capacidade de produção, além disso, visava desapropriar para fins de reforma agrária todas as propriedades consideradas minifúndios e latifúndios e isso sem esquecer os devidos pagamentos das áreas desapropriadas além da obrigatoriedade do pagamento de Imposto Territorial Rural – ITR, e formação de cooperativas (STEDILE, 2005). O sistema de classificação das propriedades agropecuárias do Estatuto da Terra foi dividido em módulos rurais, que por sua vez se referia a uma propriedade familiar adequada para aquela região, ou seja, é um imóvel rural explorado pelo agricultor e sua família, e que ao mesmo tempo lhes garantia a subsistência e o progresso econômico e social. 18 Para Guedes Pinto (1995) o governo militar surpreendeu ao colocar entre suas prioridades a realização da reforma agrária. E para que a mesma fosse realizada, Castelo Branco designou um grupo de trabalho sob a coordenação do ministro do planejamento, para elaboração de um projeto de lei de reforma agrária, que por sua vez elaborou um projeto de emenda constitucional que permitia a união promover a desapropriação da propriedade rural, desde que fosse realizado o pagamento de prévia e justa indenização em títulos especiais da dívida pública (Emenda Constitucional n° 10, de 10/11/1964). Além disso, 20 dias após a criação da emenda constitucional, o grupo de trabalho viu seu projeto de lei ser aprovado pelo congresso nacional, ou seja, no dia 30 de Novembro de 1964, a Lei N° 4.504 é sancionada pelo Presidente da República e levava o nome de Estatuto da Terra (GUEDES PINTO, 1995). Segundo Guedes Pinto (1995), o estatuto foi considerado detalhista, abrangente, bem elaborado e ambicioso, pois além da reforma agrária, abrangia a modernização da política agrícola do país. Para ter ideia, o Estatuto da Terra foi dividido em quatro partes, onde: Título I – Disposições preliminares Título II – Da Reforma Agrária Título III – Da Política do Desenvolvimento Rural Título IV – Das Disposições Gerais e Transitórias Com isso, foi possível distinguir as medidas de reforma agrária das políticas agrícolas e consequentemente as questões relativas à tributação da terra e à colonização, que era vista como a substituta da reforma agrária, foi colocada no título III (GUEDES PINTO, 1995). Para gerir as ações relacionas a reforma agrária foi criado o Instituto Brasileiro de Reforma Agrária – IBRA, que era subordinado diretamente ao presidente da república, por outro lado criou-se também o Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário – INDA, para cuidar das políticas de desenvolvimento rural e subordinado ao Ministério da Agricultura (GUEDES PINTO, 1995). Portanto, o estatuto da terra não se contentou em ser uma lei de reforma agrária, pois visou à modernização da política agrícola do Brasil, e com isso se tornou um instrumento jurídico e institucional necessário para desencadear um programa nacional de reforma agrária (GUEDES PINTO, 1995). 19 2.3.1.1. Fatos relevantes do Estatuto da Terra durante o governo militar Segundo Guedes Pinto (1995) a incorporação da política agrícola ao estatuto da terra fez com que uma brecha fosse aberta, e com isso permitiu uma serie de desvios, isso porque os membros do grupo de trabalho mais comprometidos com o projeto de reforma agrária foram marginalizados e o IBRA concentrou-se no levantamento de dados através do cadastramento de imóveis, ao invés de realizar projetos efetivos de reforma agrária, através da desapropriação e demais instrumentos previstos na lei. A partir de 1965, as atividades de zoneamento, cadastro e tributação passaram a ter preferência sobre as atividades relativas à desapropriação por interesse social, tais fatos ocorrem devido aos decretos n° 55.889 e 55.891 baixados em março de 65. Embora o INDA fosse o responsável por promover a política de desenvolvimento rural, em 1967 o IBRA realizou um encontro para tratar entre sobre a ocupação de território com ênfase na colonização. Em 1968 Luis Carlos Pereira Tourinho (criador do IBRA e do grupo de trabalho interministerial) em conjunto com a FAO, publicaram três documentos que mostravam a imoralidade, corrupção administrativa e o caótico sistema de gestão implementado para execução do estatuto da terra. No plano orçamentário, os maiores recursos eram destinados ao departamento de cadastro e tributação, não havendo praticamente ações concretas de reforma agrária. Segundo a FAO (1992) para desencadear um programa efetivo de reforma agrária, seria necessário uma meta de 250.000 famílias assentadas por ano, ao longo de 20 anos. A partir de 1970, com o Decreto de lei n° 1.110, o IBRA e o INDA são extintos, e é criado o Instituto Nacional e Colonização e Reforma Agrária – INCRA, que passaria a ser subordinado ao Ministério da Agricultura. Além disso, o governo federal começa a lançar inúmeros programas especiais de desenvolvimento regional. Segundo Guedes Pinto (1995) esses programas apresentavam-se como substitutivos da reforma agrária, dando destaque ao Programa de Integração Nacional - PIN, lançado em 1970 e que tinha como objetivo ocupar parte da Amazônia, ao longo da rodovia transamazônica e que buscava integrar os homens sem terra do Nordeste com as terras sem homens da Amazônia. Pode-se destacar também o Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste – PROTERRA, lançado em 1971, o Programa Especial do Vale do São Francisco – PROVALE, lançado em 1972, o Programa de Pólos Agropecuários e 20 Agrominerais da Amazônia – POLOAMAZÔNIA de 1974, o Programa de Desenvolvimento de Áreas Integradas do Nordeste – POLONORDESTE em 1974 e mais dezenas de programas abrangendo o Centro-Oeste, novas áreas do Nordeste, Sul do Mato Grosso, Paraná, entre outros. Após 15 anos de existência do estatuto da terra, em 1979,pode-se constatar que 9327 famílias haviam sido beneficiadas através dos projetos de reforma agrária e 39948 através de projetos de colonização. De acordo com o índice Gini, que mede a distribuição de terras no Brasil, de 1960 para 1975 o índice passou de 0,731 para 0,867. O ITR dos minifúndios estavam em média Cr$ 2,36/ha e dos imóveis com mais de 10000 ha Cr$ 0,51/ha, ou seja, em base 4,6 vezes menor, e mesmo assim o INCRA só conseguiu receber 68,7% do imposto lançado sobre os minifúndios e 18,6% dos latifúndios. Segundo Guedes Pinto (1995), a reforma agrária que deveria ser realizada durante os 15 primeiros anos do estatuto da terra foi praticamente abandonada, por outro lado, a política agrícola, dirigida aos que tem terra, havia sido executada em larga escala. Já na década de 80, foi criado o Ministério Extraordinário para Assuntos Fundiários – MEAF, os Grupos Executivos de Terras do Araguaia/Tocantins – GETAT, e do Baixo Amazonas – GEBAM, para tratarem dos conflitos relativos à posse de terra na região norte do país. No entanto todos esses órgãos governamentais foram extintos, e o balanço de suas realizações foi considerado pobre, com alguns milhares de títulos de terras de posseiros regularizados. Em resumo a ação fundiária dos cinco governos militares no período de 1964 – 1984 podem ser observados na TABELA 3. TABELA 3 - AÇÃO FUNDIÁRIA NO PERÍODO DOS GOVERNOS MILITARES – 1964/1984. Colonização – Reforma Agrária Áreas Desapropriadas Regularização Áreas Famílias Áreas Áreas Áreas Arrecadadas Beneficiadas Discriminadas Arrecadadas Beneficiadas (ha) N° Imóveis (ha) Unidades (ha) (ha) Unidades 13,5 milhões 185 17 milhões 115 mil 80,8 milhões 107 milhões 113 mil FONTE: Guedes Pinto, 1995. 21 3. DISCUSSÃO Segundo INCRA (2011), O Brasil tem problemas fundiários desde 1530, devido à criação das capitanias hereditária e posteriormente o sistema de sesmarias, que proporcionou o surgimento do latifúndio nas terras brasileiras. Fato comprovado por Jezus (2010), pois de 1500 a 1850 o regime de ocupação de terras brasileiras foi marcado pelo sistema de sesmarias, onde a Coroa portuguesa cedia áreas a quem tivesse condições de produzir e ao mesmo tempo pagar a coroa os devidos impostos, fazendo com que a terra não tivesse um valor mercantil, no entanto quem tivesse em posse dessas terras conseguia status e poder. No entanto segundo o INCRA (2011), a Independência do Brasil em 1822 e o fim do sistema de sesmarias com a resolução de 76 agravaram ainda mais a situação agrária brasileira, pois a troca de donos das terras se deu sob a lei do mais forte. Para Colovan e Gonzales (2008), essa violência gerada pela disputa da posse de terras só ocorreu porque suspenderam o sistema de sesmarias e não o substituíram por qualquer sistema legal que regulasse o acesso a terra até 1850, fazendo com que nesse espaço de tempo a tomada de terras por apossamento fosse o único caminho para pose de terras. Em 1850, foi criado a Leis das Terras que proibia ocupar áreas públicas, além disso, essa lei determinava que a aquisição de terras só pudesse ser feito mediante ao pagamento em dinheiro, fortalecendo ainda mais os latifundiários, pois tal medida praticamente tornava ilegais as posses dos pequenos produtores (INCRA, 2011). Segundo Buainain e Pires (2003), a criação dessa lei, só fez com que os produtores independentes, camponeses e quilombolas não tivessem acesso a terra, pois a mesma só poderia ser adquirida por compra, não sendo permitidas novas concessões de sesmaria, muito menos a ocupação por posse. Para Jezus (2010), a promulgação da Lei das Terras, foi feita para atender os interesses da elite rural da época, pois ela mudou o regime de posses e propriedades da terra, fazendo com que as terras devolutas fossem compradas e regularizadas os seus títulos, e não simplesmente ocupadas. Com isso, o principal resultado dessa lei foi conceder um valor monetário para a terra, e permitir que a perda do valor sofrido pelo fim da escravatura fosse compensada pelo ganho do valor obtido na terra, além de impossibilitar que os escravos, depois de livres ocupassem uma área para subsistência. 22 Com isso as terras brasileiras ganharam uma nova perspectiva, e se transformaram em uma valiosa mercadoria capaz de gerar lucro, tanto para seu caráter específico, quanto por sua capacidade de gerar outros bens (CAVALCANTI, 2005). Observa-se que desde a colonização o Brasil já possui problemas fundiários, provocados primeiramente pelo sistema de ocupação imposto pelos nossos colonizadores, e posteriormente por uma lei que tinha como objetivo atender os interesses da elite rural formada até 1850. A questão é que os problemas agrários brasileiros não pararam por ai, pois desde o período da pós-escravidão, até em torno de 1930, deu-se início à formação do campesinato na sociedade brasileira, formada pela migração dos camponeses pobres originário da Europa e pobres mestiços que, excluídos, pela Lei das Terras, passaram a adentrar no “sertão” nas regiões interioranas de Minas Gerais e de todo Nordeste brasileiro, em busca de terras públicas que não seriam disputadas pelos produtores capitalistas, preocupados em produzir para exportação e que ocupavam as melhores terras localizadas no litoral e próximo dos portos (STEDILE, 2005). O problema é que o acesso às terras públicas era proibido pela Lei das Terras, e com isso começaram as primeiras discussões e debates que defendiam a necessidade de democratizar o acesso às terras públicas em 1930, além disso, acontecia ao mesmo tempo a chamada revolução burguesa, que mudou o modelo econômico e passou a industrializar o país (STEDILE, 2005). Para Stedile (2005), mesmo com a consolidação do campesinato como classe social e o aumento do proletariado rural em todo país, a primeira manifestação real a concluir que o Brasil tinha um grande problema agrário, representado pela enorme concentração da propriedade da terra, foi realizada na constituinte de 1946, defendida por Luiz Carlos Prestes, onde ele propôs um programa de reforma agrária para resolver o problema. No entanto, a igreja católica se preocupou com o crescimento e a influência que o partido comunista de Luiz Carlos Prestes estava exercendo no campesinato brasileiro e se manifestou em defesa da reforma agrária, porém através de uma visão mais conservadora. Já para Guedes Pinto (1995) o final dos anos cinquenta e inicio dos anos sessenta foi marcado pelos intensos debates e o crescimento do apoio popular no que se diz respeito às reformas estruturais. Reforma as quais ficou conhecida como reformas de base (agrária, urbana, bancária e universitária, e que teve um destaque para a reforma agrária, pois em 11/10/62 através da Lei Delgada n° 11, criou a Superintendência de Política Agrária – 23 SUPRA, para planejar, promover e executar a reforma agrária e assistência técnica e financeira dos sem terra. Infelizmente, não vivemos no mundo do talvez, mais acredito que se as reformas de base propostas por João Goulart tivessem sido empregadas, a realidade da estrutura agrária brasileira talvez fosse outra, isso por que tais reformas visavam alterações bancárias, fiscais, urbanas, administrativas, agrárias e universitárias, fazendo com que o Estado tivesse maior participação nas questões econômicas e com isso regulasse o investimento estrangeiro no país. Segundo Gasparetto (2010), a reforma agrária estava entre as principais mudanças pretendidas por João Goulart e suas reformas de base, e tinha como objetivo reduzir os combates por terras e possibilitar que milhares de trabalhadores tivessem acesso às terras. Com isso a primeira medida tomada por João Goulart, foi à criação do Conselho Nacional de Reforma Agrária em 1962 para tentar agilizar o processo de reforma agrária, porém não teve nenhum resultado, devido ao regime parlamentarista que o Brasil vivia, fazendo com que o Presidente perdesse os poderes para o Primeiro Ministro. No entanto em 1963 o regime presidencialista foi restabelecido por um plebiscito (GASPARETTO, 2010). Com mais autonomia, João Goulart tratou de colocar em prática as medidas que antes foi barrada, como a criação do Estatuto do Trabalhador Rural, que tinha como objetivo proporcionar ao trabalhador do campo os mesmos direitos dos trabalhadores urbanos. No entanto essa lei aliada à lei que alterava a estrutura da contabilidade das grandes empresas estrangeiras, e que tinha como objetivo reduzir os altíssimos índices de lucros conquistados no Brasil, desagradou os setores mais conservadores do congresso, e membros da direita brasileira, que estavam receosos com a possibilidade do crescimento de governo com linhas comunistas, fazendo com que eles se organizassem e com o auxilio dos militares, promovessem o golpe de Estado que tiraria do poder o então Presidente João Goulart, encerrando as tão almejadas reformas de base e estabelecendo uma ditadura militar no país (GASPARETTO, 2010). Enfim, mesmo com inúmeras propostas levantadas e até mesmo alguns governantes em favor da reforma agrária, a primeira lei a ser posta em prática foi elaborada durante golpe militar de 1964. Conhecida como Estatuto da Terra, essa lei foi considerado progressista devido à época e as circunstâncias, isso porque ele previa o cadastro e classificação de todas as propriedades de terra do país, levando em consideração o tamanho, utilização e capacidade de produção, além disso, visava desapropriar para fins de reforma agrária todas as 24 propriedades consideradas minifúndios e latifúndios e isso sem esquecer os devidos pagamentos das áreas desapropriadas além da obrigatoriedade do pagamento de Imposto Territorial Rural – ITR, e formação de cooperativas (STEDILE, 2005). No entanto, Jezus (2010) considera o Estatuto da Terra de 1964 um marco jurídico na legislação que regulamenta o uso e posse da terra, isso porque essa Lei previa a desapropriação mediante o pagamento via Títulos da Dívida Agrária (TDA), vencíveis em 10 anos, além de ter como objetivo em relação à reforma agrária, assegurar a todos a oportunidade de aceso a propriedade da terra, condicionada pela sua função social. Por outro lado, mesmo com caráter reformista e social, os princípios da reforma agrária foram deixados de lado e o Estado concentrou-se em melhorar a produtividade e modernizar a produção, fazendo com que durante os 20 anos de ditadura militar, somente 115 mil famílias fossem assentadas (JEZUS, 2010). Para Stedile (2005), o período da ditadura militar silenciou os debates em torno de programas de reformar agrária, fazendo com que os movimentos sociais no campo só voltassem a aparecer a partir de 1979, após o terceiro congresso nacional da Contag, dando destaque ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que foi fundado em 1984, e que se tornou o mais expressivo movimento em prol da reforma agrária. Para o Incra (2011), o fim da ditadura militar e a redemocratização do país, trouxe de volta o tema da reforma agrária. Além disso, o Decreto n° 97.766 de 10 de outubro de 1985, instituiu o Novo Plano de Reforma agrária, com o sonho de destinar 43 milhões de hectares para o assentamento de 1,4 milhões de famílias até 1990 No entanto o que se viu, foi um resultado catastrófico, pois após cinco anos assentaram 90.000 famílias em pouco menos de 4,5 milhões de hectares. Para Jezus (2010), o I Plano Nacional de Reforma Agrária, tinha uma proposta bastante ousada, pois estimava assentar 10,6 milhões de trabalhadores sem terra, ou com terra insuficiente para sua subsistência no período de 1984 até 2000, além de 1,4 milhão de assentados de 1985 a 1990. No entanto o que a pode ser observado até aqui é à força da elite rural mesmo com leis que em tese resolveriam grande parte dos problemas e conflitos por terras, o que se viu e ainda se vê é que essas leis não são colocadas em prática, ou até mesmo alteradas, para atender os desejos dos grandes latifundiários. Um exemplo claro disso foi o I PNRA, que no papel tinha tudo para ser um sucesso, no entanto os grandes proprietários de terras pressionaram o governo para alterar o texto do Plano, e acrescentar ao mesmo o conceito de 25 propriedade produtiva sem definir ao certo o que seria produtiva, e com isso impossibilitou grande parte das desapropriações, resultando no cumprimento de menos de 10% da sua meta original. Portanto não se pode dizer que faltaram leis para a realização da reforma agrária no Brasil, além do Estatuto da Terra, e o I PNRA, podemos destacar a Constituição de 1988 que permitia desapropriar para fins de reforma agrária, no entanto impedia a desapropriação de terras produtivas, a Lei n 8.629/93 que determinava à maneira correta de se aferir a produtividade da área agrícola, a Medida Provisória n. 2.183 que vedava a desapropriação de terras que fossem invadidas e o II PNRA que tinha onze metas a serem cumpridas no período de 2004 a 2006 entre elas pode-se destacar a intenção de assentar 400000 famílias e regularizar a posse de outras 500000. Para Jezus (2010), as leis propostas de reforma agrária no Brasil nunca foram além de dar alguns pequenos sustos na elite agrícola ou, de outro ponto de vista, gerar pequenos momentos de esperança para os camponeses sem terra. Ou seja, não faltaram leis que fundamentassem a realização de uma reforma agrária no Brasil. No entanto, o período do Brasil Colônia e a Lei de Terras encarregaram-se de promover a concentração de terra, o Estatuto da Terra que tinha o poder de modificar a estrutura agrária brasileira concentrou suas ações em políticas agrícolas que visavam modernizar a agricultura, o I PNRA assentou menos de 140 mil trabalhadores dos 1,2 milhões que se propôs a assentar, isso devido à constituição de 1988 e seu conceito de propriedade produtiva, e o Estado mudou a forma de entender e tratar a reforma agrária a partir de 1990, além de adaptar o velho modelo agrícola de latifúndio – minifúndio ao moderno agronegócio, sem a necessidade de alterar a sua estrutura agrária. Os resultados de todas essas ações podem ser vistas nos dias atuais, pois estudos mostram que os gastos efetivos com distribuição de terras estão caindo ano após ano, por outro lado a concentração de propriedades rurais continua praticamente a mesma do começo da ditadura. Desta forma a legislação fundiária alterou pouca coisa a estrutura fundiária no Brasil analisando pelos dados dos Censos Agropecuários do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), observado na TABELA 4. 26 TABELA 4 - NÚMERO E ÁREA TOTAL DOS ESTABELECIMENTOS AGROPECUÁRIOS COM DECLARAÇÃO DE ÁREA, CONFORME TRÊS ESTRATOS DE ÁREA BRASIL, 1975 A 2006. Ano Menos de 10 ha De 10 a menos100 De 100 ha e mais Total ha N° Área (mil hectares) N° Área (mil hectares) 1975 2.601.860 8.933 1.898.949 60.172 487.638 254.742 4.988.447 323.896 1980 2.598.019 9.004 2.016.774 64.494 536.362 291.356 5.151.155 364.854 1985 3.064.822 9.987 2.160.340 69.565 567.842 295.373 5.793.004 374.925 1995/96 2.402.374 7.882 1.916.487 62.694 519.322 283.035 4.838.133 353.611 7.799 1.971.577 62.893 471.817 259.250 4.920.465 329.941 2006 FONTE: 2.177.071 N° Área (mil hectares) N° Área (mil hectares) Hoffmann e Ney, (2010). A Tabela 4 mostra o número e a área ocupada pelos estabelecimentos agropecuários, conforme três estratos de área e condição do produtor. Conforme se pode observar, há um ligeiro acréscimo do número de estabelecimentos, de cerca de 4,8 milhões para 4,9 milhões (+1,7%), o qual é puxado pelo aumento do contingente de proprietários, de 3,6 milhões para 3,9 milhões (+9,5%). Por outro lado, há uma clara tendência à diminuição do contingente de não proprietários: parceiros, arrendatários e ocupantes. A queda observada entre os censos de 1985 e 1995/1996, que poderia ser, em parte, explicada pela exclusão dos estabelecimentos temporários provocada pelo uso do ano agrícola em 1995/96, é confirmada em 2006. Se não fosse a exclusão, a variação estimada seria provavelmente menor de 1985 a 1995/96 e maior entre os dois últimos censos (HOFFMANN e NEY, 2010). O aumento de quase 74,7 mil no total de estabelecimentos com área inferior a 10 ha (+3,1%), entre 1995/96 e 2006, é bem menor que o crescimento de 392 mil proprietários (+28,0%). O motivo é a forte queda do contingente de pequenos agricultores não proprietários, ou seja, arrendatários, parceiros e ocupantes, de cerca de 1 milhão para 689 mil (−31,5%). Entre os estabelecimentos com área a partir de 100 hectares, há uma redução de mais de 47 mil unidades (−9,1%). O resultado é uma mudança pouco expressiva na proporção de pequenas e grandes unidades agrícolas no total de estabelecimentos e uma grande mudança entre os proprietários. 27 A proporção de propriedades com menos de 10 ha e com mais de 100 ha são, respectivamente, de 36,9% e 13,3%, em 1975; 36,6% e 13,8%, em 1980; 38,2% e 13,4%, em 1985; 38,7% e 13,4%, em 1995/1996; e de 45,3% e 11,0%, em 2006 (Tabela 4). De acordo Hoffmann e Ney (2010), entre os dois últimos censos agropecuários, observou-se forte estabilidade da desigualdade fundiária e queda na área média dos estabelecimentos agrícolas, o que indica que a estabilidade pode ter acontecido essencialmente devido ao crescimento do número de minifúndios. É o que de fato acontece. O índice de Gini se mantém estável em torno de 0,856, mas há um aumento de 74,7 mil produtores agrícolas com menos de 10 ha entre os censos agropecuários de 1995/96 e 2006, enquanto ocorre uma clara diminuição do número de agricultores com área a partir de 100 hectares. O crescimento dos minifúndios é ainda maior quando são considerados apenas os proprietários de terra: aumento de quase 392 mil pequenos estabelecimentos de 1995/96 a 2006. No mesmo período, ocorre a diminuição de 439 mil para 281 mil no contingente de pequenos arrendatários e parceiros. Esta variação pode estar ainda subestimada pelo uso do ano agrícola no censo de 1995/1996, que tende a excluir parte dos agricultores temporários. Desde 1985 os dados mostram uma redução de cerca de 370 mil estabelecimentos de não proprietários com menos de 10 hectares (HOFFMANN e NEY, 2010). Segundo Carvalho e Aggege (2011), a concentração de terras aumentou, e o Índice Gini que mede a concentração de terras pode comprovar isso, como apresentado na FIGURA 2. FIGURA 2 - EVOLUÇÃO DO ÍNDICE DE GINI DA CONCENTRAÇÃO FUNDIÁRIA NO BRASIL DE 1096 A 2006. FONTE: IBGE, 2009. 28 Como pode ser observado em 1967 o Índice Gini era de 0,836, e quanto mais perto de 1,0 mais concentrada são as terras, com excessão de 1992 o índice esteve sempre maior que em 1967 onde o país era governado pelos militares. Além disso, podemos ver que durante o primeiro governo do FHC (1995 a 1998) o índice teve uma pequena redução, saindo de 0,856 para 0,843, onde essa redução pode ser explicada pelas políticas implantadas no seu governo, entre elas a criação do MDA que passou a ser responsável pela reforma agrária e agricultura familiar, e com isso estimulou a efetivação dos assentamentos, além de aumentar o número de desapropriações de terras para fins de reforma agrária. Para Morissawa (2001), de fato FHC assentou 264.625 famílias, porém 70% no Norte e no Nordeste, onde os custos das terras e as condições sócio-econômicas são baixíssimos em relação a outras regiões. Neste mesmo período, nos dois primeiros anos do primeiro mandato de FHC, 450 mil famílias de pequenos proprietários rurais perderam suas terras diante da grave crise na agricultura familiar. Por outro lado partir do segundo governo do Fernando Henrique Cardoso (1999 a 2002) o índice voltou a crescer, e no fim do seu mandato, quem assume é Luis Inácio Lula da Silva em 2003, e após quatro anos de governo o índice alcançou 0,854 em 2006. Essa elevação pode ser explicada pela mudança de foco do governo e a adaptação da velha estrutura agrária brasileira ao moderno agronegócio sem a necessidade de mudanças bruscas, com isso eles concluíram que a distribuição de terras custa mais caro do que as políticas focadas na agricultura familiar, como é o caso do PRONAF. Para Bonfim (2011), a forma com que o governo FHC entendeu a reforma agrária, agravou a situação, isso porque foram sendo realizadas medidas que aliviam a situação agrária, mais não a resolvia, com isso, a reforma agrária foi evoluindo para uma proposta de reforma agrária de mercado. Na prática a reforma agrária de mercado consiste em retirar do Estado o seu papel mediador, transferindo a responsabilidade para a sociedade civil, ou seja, os sem terra ou pequenos agricultores interessados em adquirir terra ou aumentar sua área passariam a organizar-se em associações, obteriam empréstimo de um agente financeiro indicado pelo governo, e comprariam terra diretamente dos proprietários vendedores (BONFIM, 2011). Para Filgueiras (2006), essa adaptação da estrutura agrária brasileira, se deu devido à crise cambial que o segundo governo do Fernando Henrique Cardoso passou. Isso fez com que o país fosse pressionado a gerar expressivos superávits na balança comercial, e como isso 29 esses superávits fossem gerados com base na exportação de produtos agrícolas, que por sua vez exigiu uma intensa modernização em maquinário para se ter um ganho em produtividade e ser competitivo no mercado internacional. Para deixar ainda mais claro, o Censo Agrário do IBGE de 2006, mostra como está à concentração de terras no Brasil (FIGURA 3), corroborando com os dados de Hoffmann e Ney (2010). FIGURA 3 - DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DO NÚMERO DE PROPRIEDADE E ÁREA OCUPADA POR ESTRATOS NO BRASIL EM 2006. FONTE: IBGE, 2009. As pequenas propriedades, com menos de 10 hectares, ocupam 2,36% do total de terras, embora representem quase metade (47,86%) dos estabelecimentos rurais. Já os latifúndios com mais de mil hectares, somam menos de 1% das propriedades e controla 44,42% das terras, situação com poucos similares no mundo (FIGURA 3). Para Arruda (2011), as medidas políticas, econômicas e sociais no que diz respeito à estrutura agrária brasileira foram tomadas para que a terra fique nas mãos de um número cada vez menor de pessoas. O problema da concentração de terras não é apenas a concentração de recursos, ela também gera uma estrutura baseado no latifúndio – minifúndio, que serve apenas como fonte de poder de uma classe dominante sobre uma minoria de trabalhadores (JEZUS, 2010). Os números da FIGURA 3 mostram que se deve fazer uma mudança na estrutura fundiária brasileira para que o progresso e o aumento de produtividade resolvam os nossos problemas agrários. No entanto para que ocorra uma mudança na estrutura fundiária 30 brasileira, é necessário ocorrer uma verdadeira reforma agrária para que cerca de 7,6 milhões de pessoas que vivem no meio rural em estado de miséria, possam ter acesso a terra e consequentemente acesso ao progresso. Para o INCRA, o número de famílias necessitadas e em estado emergencial é bem menor, estima-se cerca de 170 mil famílias, o que pode parecer um número bem pequeno, mais segundo dados do próprio INCRA e MDA é preocupante, pois com o passar dos anos o número das famílias atendidas só tende a diminuir, como mostra o FIGURA 4. FIGURA 4 - EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE FAMÍLIAS ASSENTADAS POR PROCESSO DE REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 1998 A 2010. FONTE: Incra (2010) e Jesuz (2010). Tomando como base segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999 – 2002), observa-se uma redução de (-49,4%) no número de famílias assentadas, caindo de 85 mil famílias em 1999 para 43 mil famílias em 2002. Se compararmos a quantidade de famílias assentadas do segundo mandato do FHC, 252 mil famílias, com o primeiro mandato do governo Lula (2003 – 2006), 381 mil famílias, ocorre um aumento no número de famílias assentadas de (+51,2%), um ganho de 129 mil famílias. No entanto do primeiro mandato de Lula para seu segundo mandato (2007 – 2010), 233 mil famílias, ocorreu uma redução de (38,8%), uma perda de 148 mil famílias. Apesar de ser considerado o governo que mais investiu em reforma agrária, os números de FHC mostram que a quantidade de famílias assentadas só declinou ao longo dos anos, o que pode ser explicado devido à forma como o próprio governo passou a entender a reforma agrária, pois, para eles o Brasil já não era mais um país agrícola e o número de trabalhadores rurais que já era pequeno, caminhava para uma redução ainda maior, além 31 disso, o governo achou mais interessante, mais eficaz e principalmente mais barato investir na distribuição direta dos recursos da reforma como um subsídio que pudesse servir para o início de alguma atividade econômica, do que investir na reforma agrária em si. Para Andrioli (2003) essa redução nas desapropriações no governo do Fernando Henrique Cardoso, a redução no número de famílias assentadas fez com que as famílias de agricultores buscassem uma nova perspectiva de vida nas cidades, contribuído para o aumento das favelas. Outro problema apontado por Andrioli (2003) é que com relação às famílias que foram assentadas no governo Fernando Henrique, isso porque a maioria dos seus assentamentos foi na Amazônia, onde antigos posseiros foram transformados em assentados não permitindo que essas famílias tivessem condições mínimas de sobrevivência na terra, fazendo com que as mesmas abandonassem suas terras. Continuando a análise na FIGURA 4, pode-se ver que no governo Lula o número de assentados cresceu consideravelmente, atingindo o pico de 136 mil famílias assentadas em 2006, no entanto o Índice Gini nesse mesmo ano indicava 0,854 da série, além disso, a partir do seu segundo mandato os números caíram consideravelmente. Para Bomfim (2011), o número de famílias assentadas no primeiro mandato de Lula pode ser explicado pelo anuncio do II Plano Nacional de Reforma Agrária – II PNRA, que teve como meta assentar 400 mil famílias nos três anos restantes do primeiro mandato de Lula (2004 – 2006), mais 120 mil famílias em 2007. A partir do seu segundo mandato, os números de assentados do governo Lula caíram consideravelmente, de 2006 para 2007, por exemplo, teve uma redução de (-50,7%) no número de assentados, de 2007 para 2008 um ligeiro acréscimo de (+16,7%), no entanto de 2008 para 2009 e de 2009 para 2010 reduziram (-20%) e (-28,6%) respectivamente. Segundo o Incra, o governo de Luis Inácio Lula da Silva destinou para desapropriação 3,4 milhões de hectares ou 1.835 imóveis rurais. Por outro lado o governo do Fernando Henrique desapropriou 10,2 milhões de hectares distribuídos em 3.536 propriedades. No entanto é importante deixar bem claro, que esses dados sobre a destinação das terras não significam que o governo Fernando Henrique assentou mais do que o governo Luis Inácio Lula, isso porque a lei 8.629 de 25 de fevereiro de 1993 que classifica os imóveis rurais como pequena, média, e grande propriedade, e cada tipo imóvel é medido por módulos 32 que por sua vez tem as grandes propriedades que na maioria das vezes são os alvos para desapropriação para fins de reforma agrária com áreas acima de 15 módulos (JEZUS, 2010). Como o módulo em hectares é diferente para cada região do país, uma pequena propriedade na Amazônia, por exemplo, pode ter 300 ha enquanto na região de Campinas uma pequena propriedade possui 5 ha, assim como no governo Fernando Henrique a maior parte dos assentamentos no governo Luis Inácio Lula se concentrou na Amazônia (ALENTEJANO, 2004). O interessante é que apesar de o presidente Lula sempre criticar o modelo de reforma agrária empregado por Fernando Henrique Cardoso, quando ele teve em mãos o poder de mudar essa dinâmica da estrutura agrária brasileira, ele praticamente continuou o que estava sendo feito, com a exceção de intensificar o investimento em políticas agrícolas, saltando de R$ 2,3 bilhões investidos no Pronaf pelo FHC para R$ 13 bilhões no seu governo (SILVA, 2010). Ou seja, assim como no governo FHC, o governo Lula entendeu e concluiu que a distribuição de terras custa mais do que as políticas focadas na agricultura familiar, como o PRONAF (SIMÕES, 2010). O grande responsável pela reforma agrária estar cada dia mais caro, é o próprio governo, pois os índices que medem a produtividade de uma propriedade não são atualizados há décadas com isso uma propriedade com baixos coeficientes de produtividade para os dias atuais dificilmente será desapropriada, além disso, o modelo de desapropriação baseado na compra de terras a preço de mercado tornou ainda mais difícil a reforma, pois o preço do hectare segue em constante valorização, e por fim nossos governantes acharam mais fácil, e mais cômodo equilibrar nossa balança comercial priorizando o agronegócio e seu modelo primário – exportador (RAMOS, 2010). Além disso, o agronegócio foi visto como o “salvador da pátria”, pois ele veio para equilibrar o balanço de pagamentos do Brasil e suprir os déficits de serviço e do setor industrial. Embora o Brasil esteja exportando cada vez mais, safra recordes atrás de safras recordes, e o preço das commodities esteja em alta, essa política é arriscada e precária (PEREIRA FILHO, 2008) Para Pereira Filho (2008), o aumento da produção de commodities pode até resolver o problema econômico brasileiro atualmente, mais ao se pensar em longo prazo é arriscado e precário, pois esse quadro depende de sua situação favorável no mercado internacional, e uma 33 vez que esse mercado desaqueça, começaríamos a ter um desequilíbrio na nossa balança comercial. Embora essa priorização pelo sistema primário exportador tenha sido adotada pelo governo Fernando Henrique, o governo Lula adotou a mesma tática e aprofundou ainda mais nesse sistema através de alianças com grandes indústrias e grandes proprietários de terra. O resultado dessa aliança praticamente impede a realização de uma reforma agrária, isso porque fica inviável desapropriar para fins de reforma agrária áreas que são objeto de desejo das grandes agroindústrias que invadiram o agronegócio e que estão interessadas em expandir a área de suas commodities, além disso, diversos estudos mostram que os gastos com distribuição de terras caem a cada governo (PEREIRA FILHO, 2008). Para o MDA o governo não parou de investir em reforma agrária, na verdade o que ocorreu foi uma mudança no seu foco e a sua prioridade atual é qualificar os assentamentos através do aumento de crédito para pequenos agricultores e o desenvolvimento de projetos já implantados. Para Vigna (2011), não há uma proposta do governo para a reforma agrária, na verdade o que acontece são atendimentos pontuais, de acordo com a pressão dos movimentos sociais em cada época. O resultado dessa falta de investimento público na reforma agrária pode ser visto na FIGURA 5. FIGURA 5 - GASTOS PÚBLICOS, AUTORIZADOS E EFETIVOS, PARA OBTENÇÃO DE ÁREAS PARA REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 2001 A 2011, EM R$ MILHÕES. FONTE: INESC, (2011). 34 Observa-se que de 2001 para 2002, os dois últimos anos do governo FHC, ocorreu um pequeno acréscimo no montante investido (+8,5%), saltando de R$ 491 milhões para R$ 533 milhões, no entanto ao se comparar com o número de famílias assentadas nesse mesmo período, 63 mil famílias em 2001 e 43 mil famílias em 2002 constataram que o aumento do montante investido na obtenção de terras não resultou no aumento no número de famílias assentadas (FIGURA 5). Já no primeiro mandato de Lula, os gastos cresceram significativamente com R$ 5,53 bilhões investidos de 2003 a 2006. Se comparado com seu segundo mandato (2007 – 2010), 4,01 bilhões, ocorreu uma redução de (-27,5%). O aumento do investimento do governo Lula na reforma agrária no seu primeiro mandato pode ser explicado pela pressão dos movimentos sociais, que obrigaram o governo a elaborar o segundo Plano Nacional de Reforma Agrária – II PNRA que tinha a proposta de assentar 520 mil famílias, que embora não tenha cumprido a sua meta, assentou de 2003 a 2006 cerca de 381 mil famílias (CHOMA, 2010). Por outro lado, de 2007 a 2010 foram gastos R$ 4,01 bilhões na obtenção de terras, porem foram assentadas 233 mil famílias, resultando numa redução de R$ 1,52 bilhões ou 148 mil famílias que deveriam ser assentadas. Para Vigna (2012), a queda no número de famílias assentadas no segundo mandato de Lula aconteceu porque seu governo foi se afastando do discurso pela reforma agrária e avançou no sentido da agricultura familiar, isso porque o Plano Safra da Agricultura Familiar começa a ganhar espaço no marketing político governamental e os projetos de reforma agrária foram marginalizados, fazendo com que ano a ano um menor número de famílias fossem assentadas. Para Choma (2010), o segundo mandato do governo Lula congelou a reforma agrária e adotou uma clara opção pelo agronegócio e o latifúndio. Outro ponto bastante pertinente é que tanto o governo Lula quanto o governo FHC investiram menos do que poderia ser investido durante seus mandatos, isso porque a Lei Orçamentária Anual (LOA) que define quanto o governo pode gastar, sempre esteve acima do que foi gasto ano após ano, ou seja, o problema de aquisição de terras não é monetário. Para Glass (2007), o governo deveria acelerar o processo de aquisição de terras com medidas políticas, pois apesar de importantes, os números da LOA estão sujeitos às condições da macro-economia do país, com isso muitas vezes são necessários cortes no orçamento, devido a imprevistos. 35 No entanto para Vigna (2012), tanto a diminuição dos recursos orçamentários, como a sua execução mostra a negação dos governantes com relação à reforma agrária e sua função social, pois mesmo com o dinheiro em mãos mantém enormes quantidades de terras improdutivas. Ou seja, essa baixa execução do orçamento destinado para obtenção de terras, só tende a prejudicar as famílias que esperam do governo uma reforma agrária, isso porque o preço da terra só tende a aumentar, e como as terras desapropriadas são pagas em valores de mercado, o que se vê é realmente uma mudança de foco e atendimentos pontuais na reforma agrária. Além disso, as poucas desapropriações que ainda estão sendo feitas, se concentram em terras públicas, isso porque o próprio governo tem dificuldades para obter terras ao preço de mercado. O problema é que assentamentos em terras públicas não modificam a estrutura fundiária brasileira, pois os latifúndios improdutivos vão continuar improdutivos (VIGNA, 2012). Quanto á concessão de crédito para os assentados pode-se perceber que o crédito obedece ao mesmo comportamento do orçamento com reforma agrária entre 2001 a 2011. O valor efetivamente gasto foi sempre menor que o autorizado e aprovado pela LOA, com exceção de 2007, que gastou 131 milhões a mais, no entanto a partir daí até mesmo os gastos com a concessão de crédito foi declinante, chegando a 463 milhões em 2010, o menor valor desde 2001 (FIGURA 6). Mais o interessante é que ao confrontar os gastos de 2000 até 2010, com o número de famílias assentadas e o total de área desapropriada podemos ver que o governo FHC assentou menos, no entanto desapropriou mais, ao contrário de Lula que desapropriou menos, por outro lado assentou mais famílias principalmente no seu primeiro mandato. Isso pode ser explicado pela valorização do preço das terras, e como o governo paga um preço de mercado, o governo Lula pagou mais por menos terra. Para o INCRA o investimento por família assentada chega em torno de 120 mil reais (60 mil em terras e 60 mil em estrutura básica). Lembrando que o próprio Incra diz que 170 mil famílias precisam ser assentadas com urgência, e ao confrontar esses números temos que seria necessário investir R$ 20.400.000.000,00 para resolver o problema, comparando esse investimento com o maior investimento que o governo já fez de R$ 1.920.000.000,00 em 2005 na obtenção de terras e R$ 1.422.000.000,00 em concessão de crédito para os assentados em 2007, observa-se que o que está sendo feito não chega nem perto do que é necessário ser feito. 36 FIGURA 6 - CONCESSÃO DE CRÉDITO PARA ASSENTAMENTOS, AUTORIZADO E DESEMBOLSADOS, PARA FINS DE REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL DE 2001 A 2011, EM R$ MILHÕES FONTE: INESC, 2011. O que preocupa ainda mais é que os gastos com distribuição de terras continuam a cair e a concentração de terras continuou praticamente a mesma de 40 anos atrás. A terra continuou concentrada porque segundo o Incra, a dificuldade de obter terras levou o Estado a priorizar assentamentos em áreas públicas. De acordo com o MDA 60% dos assentamentos realizados no Brasil estão em terras públicas, 30% em áreas desapropriadas e 10% em áreas compradas. Para Vigna (2011), seria fundamental que o governo incluísse a reforma agrária no pacote de crescimento e desenvolvimento do país que vem sendo elaborado, já que o mesmo tem o objetivo de avançar na distribuição de renda e justiça social. Podemos observar mais uma vez que o governo decidiu que a reforma clássica de distribuição de terras não tem mais sentido, talvez porque não tenha condições de competir com o moderno agronegócio, ou talvez pela acomodação dos movimentos sociais como o MST que praticamente desistiram de pressionar o governo para realizar uma efetiva reforma agrária, desapropriando os latifúndios improdutivos. O problema é ainda maior, ao ver as pesquisas que mostram que no prazo máximo de 10 anos vão chegar ao mercado de trabalho 20 milhões de e eles vão precisar de trabalho ou de terra (CARVALHO e AGGEGE, 2011). 37 E como o governo priorizou o agronegócio, que por sua vez depende cada vez mais de um ganho de produtividade para ser viável, fez com que esse negócio fosse intensivo em maquinário e técnicas que substituíram grande parte da mão de obra humana no campo, além disso, a cidade não tem condições de comportar toda essa demanda de trabalhadores que está por vir, portanto mais uma vez se torna necessário a redistribuição de terras. Para Weid (2003), a agricultura familiar é capaz de gerar emprego a um menor custo, pois ao instalar uma família em um assentamento da Reforma Agrária, ela emprega de forma direta cerca de 3 a 4 pessoas, fazendo com que o custo por emprego seja algo em torno de 17 mil reais. Outro ponto importante é que diversos autores afirmam não ser mais necessária uma reforma agrária nos dias atuais, isso porque ela não tem condições de se inserir no mercado competitivo, Silveira (2011) vai mais além, e afirma que a idéia de reforma agrária não cabe mais na dinâmica atual de um país exportador de produtos agrícolas, isso devido à alta competitividade, e como o lucro depende de uma enorme produtividade, as pequenas propriedades em geral não têm estrutura para sobreviver no mercado sem subsídios públicos. Para Delgado (2011), o pequeno produtor tem condições sim de se inserir no mercado, desde que já políticas públicas de garantia de preços e sistemas de concessão de crédito, é possíveis que essas famílias produzam excedentes e disputem de igual para igual o mercado com grandes produtores. 38 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de ser um problema histórico, não faltaram leis para que o Brasil promovesse uma reforma agrária, ano após ano, década após década o país tem aumentado a sua produtividade através do uso intenso em máquinas e fertilizantes, no entanto a sua estrutura fundiária permanece a mesma, ou melhor, tem se concentrado ainda mais terras. As leis que deveriam em tese realizar uma verdadeira reforma agrária não foram colocadas em prática, o Estatuto da Terra tinha o poder de mudar o panorama de nossas terras, no entanto suas ações e investimentos foram no intuito de ganho de produtividade e políticas agrícolas. Tomando como base o período de estudo (2000 a 2010), observa-se que a propriedade da terra continua concentrada, latifúndios continuam improdutivos e os recursos para obtenção de terras têm caído com o passar dos anos. Isso vem acontecendo porque o agronegócio está tomando o campo, e o governo realiza apenas desapropriações pontuais para acalmar o animo dos movimentos sociais. Outro problema é quando são enfim desapropriados, os latifúndios improdutivos são pagos a preço de mercado, beneficiando os latifundiários, pois os mesmos não recebem nenhuma punição por manter a propriedade improdutiva, que por Lei não estavam cumprindo sua função social, além disso, caso não queiram vender suas terras, nada pode ser feito já que não existe mais a desapropriação por interesse social. Se ainda não fosse o bastante, os nossos governantes investem cada vez menos na reforma agrária, em 2010, por exemplo, foram gastos R$ 518 milhões, quantidade inferior a gasta por FHC em 2002 com R$ 533 milhões. E como a terra está cada vez mais cara, a quantidade investida resolve cada vez menos o problema, e cada vez menos famílias são assentadas. Por outro lado o agronegócio só tende a crescer, e aumentar a nossa fronteira agrícola, tomando cada vez mais terras, fazendo com que o governo mudasse o foco da reforma agrária para políticas agrícola, no entanto de nada adianta políticas para distribuir sementes, água e até mesmo dinheiro para as famílias sem terra, se as mesmas não têm onde plantar. E por falar em famílias sem terras, os 7 milhões de famílias em estado de miséria no campo mostram como é preocupante a situação, pois se comparado com 2006 (136 mil famílias assentadas) e imaginando que o governo mantenha esse ritmo de famílias assentadas 39 por ano, além de não aumentar mais nenhuma família, seria necessário quase 52 anos para resolver o problema. Ou seja, os números mostram que é necessário um maior e crescente investimento em reforma agrária, mais para isso nossos governantes devem parar de ceder à pressão dos grandes proprietários de terras e executar as leis que tem em mãos, pois não tem como ocorrer um verdadeiro desenvolvimento sem distribuir renda, e a reforma agrária seria a melhor maneira de promover o crescimento econômico e social brasileiro. Contrariando a opinião de muitos, acredita-se que ainda ser necessário uma reforma agrária no Brasil, isso porque os latifúndios continuam improdutivos a riqueza continua concentrada e os recursos destinados estão muito aquém do necessário para resolver o problema agrário brasileiro. Mais para que ocorra essa verdadeira reforma agrária, deve-se investir na manutenção de estradas, políticas de preço mínimo e principalmente atualizar os índices de produtividade, para que os latifúndios improdutivos cumpram sua função social, ou seja, deve-se investir tanto na obtenção de imóveis rurais para fins de reforma agrária, quanto na assistência técnica aos assentados, bem como na implantação e recuperação de assentamentos rurais. 40 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENTEJANO, P. R. R. A política de assentamentos rurais do governo FHC e os desafios da reforma agrária no Brasil do século XXI. São Paulo, 2004. Disponível em <http://www.geografia.fflch.usp.br/revistaagraria/revistas/1/alentejano.pdf>. Acesso 7 Jun. 2012. ANDRIOLI, A. I. A reforma agrária e o governo Lula: entre a expectativa e a possibilidade. Revista Espaço Acadêmico, Brasil, v. 9, n. 31, 2003. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br>. Acesso 12 Jun. 2012. ARRUDA, P. Extrema – Unção. [Ago, 2011]. 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