FACTORES DETERMINANTES DE LA ACTITUD EMPRENDEDORA INVESTIGATIVA CIENTÍFICOS DE PARAGUAY 1 COMITÉ EDITORIAL Rafael Sânzio de Azevedo, Doutor em Letras pela UFRJ, Professor do Programa de Pós-Graduação em Letras – UFC, Membro da Academia Cearense de Letras, Membro da Comissão Editorial das Edições UFC. Escritor, historiador da Literatura Cearense, poeta, Brasil. Daniel Maceira, PHD, Centro de Estudios de Estado y Sociedad (CEDES), Argentina. Doctor Carlos Galian, Secretario de Ciencia y Tecnología de la Universidad Nacional de Misiones, Argentina. Doctor Juan Carlos Zanotti, Centro de Analítica y Bioestimulación, Paraguay Doctor Antônio Cruz Vasques, Doutor em Geociências pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Par Avaliador da Comisión Nacional de Acreditación do Governo do Chile e Consultor em Educação Superior, Brasil. Directora del Instituto de Capacitación Profesional Dra. Ana Martha Coutinho Coordinador de la Revista Prof. Doctor Rafael Sânzio de Azevedo Diseño Glauber Soares Lopes Editora IPCP Av. Miguel Dias, 468 • Guararapes Fortaleza - Ceará • CEP: 60810-160 Teléfonos: +55 (85) 3241-2403 / (85) 3241-0525 www.ipcp.com.br • [email protected] © IPCP, julio 2010 Revista IPCP: Ciencia, Salud, Educación y Economía / Instituto para Capacitação Profissional. Nº 3 (2010). Fortaleza: IPCP, 2010 ISSN 2175-7038 1. Salud – Periodicos 2. Administración – Periodicos 3. Educación – Periodicos I. Brasil, Instituto para Capacitação Profissional PRESENTACIÓN 3 A importância da leitura. Cristiane Pinho de Sá Ivanete Gomes da Silva 4 Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará Maria Paula Pinheiro Campos de Oliveira Maria Gomes Filgueira Maria Neurismar Araújo de Souza Márcio Roque Cordeiro Patricia Unger Raphael Bataglia 14 A importancia da hidroginástica na terceira idade Iza de Fátima Albuquerque Lima Sílvia Cavalcante Neves 22 O jogo tradicional: resgate da cultura popular Iza de Fátima Albuquerque Lima Sílvia Cavalcante Neves 32 Identificação das competências atuais e esperadas dos Gerentes de Tecnologia da Informação como base para um programa de Educação Continuada Antônio Roosevelt Guerreiro Chaves 40 ABUSO SEXUAL: Violência contra crianças e adolescentes Idalina Gonçalves Fernandes 48 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino Valéria Chaves de Sousa Martins 62 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia, na turma da 8ª série do Ensino Fundamental do Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, município de Salto do Jacuí, Rio Grande do Sul, Brasil. Marisa Elisabete Williges Cunha 72 Enseñar, ¿para qué? Guillermo Sicardi 84 NORMAS PARA PUBLICAÇÃO NA REVISTA IPCP 87 CDD 2 El rápido desarrollo del conocimiento y las nuevas formas de transmisión de la información no nos permiten estar quietos; al contrario, están demandando nuevas maneras de hacer, de pensar y difundir la ciencia. Esta es la razón por la el Instituto para la Capacitación Profesional, IPCP, ha entendido conveniente abordar una nueva tarea: la creación y el desarrollo de una revista electrónica que llevará por título: “Revista de IPCP: Ciencia, Educación, Salud y Economía”, constituye para nosotros un motivo de satisfacción presentar este primer número y damos nuestra bienvenida a la inquietud intelectual y nuestros deseos de hacer conocer la producción científica de los especialistas en estas áreas. Esta REVISTA está abierta a todo y a todos, y cuyas únicas limitaciones han de ser el rigor y la dignidad exigibles a cualquier trabajo universitario y a todo trabajo de investigación. Es una publicación electrónica, de periodicidad semestral, editada por el Instituto para la Capacitación Profesional de Ceará, Fortaleza, con el propósito de consolidar un espacio de diálogo reflexivo entre las experiencias de aula de docentes, y los trabajos de los estudiantes de postgrado que se están iniciando en la investigación. Esta revista electrónica que ahora presentamos pretende, pues, ser el órgano de expresión y comunicación entre especialistas del mundo entero interesados en la reflexión sobre la ciencia, la educación, la ciencia de la salud, las ciencias económicas y la cultura, sus oportunidades y consecuencias. Con esta publicación se busca: Socializar la producción intelectual de docentes, investigadores y estudiantes que se están iniciando en la labor investigativa. Contribuir en los procesos formativos de los estudiantes vinculados al IPCP promoviendo la investigación en el aula y favoreciendo procesos de escritura basados en la reflexión sistemática sobre su propia práctica. Estimular la investigación del estamento docente y de estudiantes, aportando relatos, problemas y preguntas surgidos de la experiencia que los mismos tienen en el aula y su vida profesional. 3 Cristiane Pinho de Sá Professora de Língua Portuguesa na Faculdade de Ensino e Cultura do Ceará (FAECE), na Faculdade Oboé, na Faculdade Stella Maris (FSM) e Colégio Santo Inácio. Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Ivanete Gomes da Silva Professora de Língua Portuguesa na Faculdade de Ensino e Cultura do Ceará (FAECE), na Faculdade de Fortaleza (FAFOR), e do Ensino Público. Funcionária Pública da Rádio Universitária FM (UFC) – Produtora de Rádio FM/AM Mestra em Literatura pela Universidade Federal do Ceará (UFC) ivanetegomes 2000 @yahoo.com.br RESUMO: Este trabalho tem como tema: A importância da leitura. O seu objetivo é de mostrar qual o papel que ela exerce no cotidiano de professores e alunos, procurando perceber a concepção de leitura. Utilizou-se como marco teórico os autores: Andriola (2005); Bamberger (1995); Brasil (1998); Céllis (1998); Ferreiro (2004); Freire (2000), Foucambert (1994); Teberosky (2004) entre outros, sendo os resultados mais significativos: a importância da leitura como meio eficaz para se obter e transmitir conhecimento e para a participação do homem na vida, em termos de compreensão do presente e do passado e como possibilidade de transformação sócio-cultural futura. Enfatiza também que o conhecimento é construído ao longo de leituras e correlações entre os vários tipos de leituras, caracterizando-as. Objetiva mostrar o quanto a leitura é importante como meio para o desenvolvimento cultural, para o crescimento intelectual. Destaca-se a importância de se trabalhar a leitura no cotidiano dos alunos, fazendo assim com que o aluno aprenda a fazer o uso social da leitura ao longo de sua vida. Conclui-se que para os professores e alunos a leitura é importante como fonte de conhecimento e lazer, mas para alcançar seu objetivo de formar leitores faz-se necessário que se repensem novas práticas pedagógicas, que possam transformar a leitura em um momento de prazer. PALAVRAS-CHAVE: Leitura. Tipos de leitura. Concepções dos tipos de leitura. TITULO: La importancia de la lectura RESUMEN: Este trabajo lleva el tema: A importância da leitura. Su objetivo es enseñar cual es el papel que ella ejerce en el cotidiano de profesores y alumnos, buscando percibir la concepción de lectura. Se han utilizado como referencial teórico los autores: Andriola (2005); Bamberger (1995); Brasil (1998); Céllis (1998); Ferreiro (2004); Freire (2000), Foucambert (1994); Teberosky (2004) y otros. Los resultados más importantes: la importancia de la lectura como medio eficiente para obtener y transmitir conocimiento y para la participación del hombre en la vida, en términos de comprensión del presente y del pasado y en posibilidad de transformación sociocultural futura. Destaca también que el conocimiento se construye a lo largo de lecturas y correlaciones entre los varios tipos de lecturas, caracterizándolas. Objetiva enseñar la gran importancia de la lectura como medio de desarrollo cultural, para el crecimiento intelectual. Se destaca la importancia de se trabajar la lectura en el cotidiano de los alumnos, haciendo con que ellos puedan hacer el uso social de la lectura a lo largo de su vida. Se concluye que para los profesores y alumnos la lectura es importante como fuente de conocimiento y diversión, pero para llegar al objetivo de formar lectores, es necesario que se repiensen nuevas prácticas pedagógicas, que puedan transformar la lectura como un momento de placer. PALABRAS LLAVE: Lectura. Tipos de Lectura. Concepciones de los tipos de lectura. INTRODUÇÃO Ler é um ato, acima de tudo, de prazer, de interação. Daí precisa ser considerado como uma construção de conhecimentos, onde é permitida uma análise do papel do leitor no ato. A construção da leitura não pode ser vista independentemente do processo e da interação na qual ela se deu, ambos se influenciam mutuamente. Necessário se faz que se planeje o desenvolvimento processual da leitura, permitindo sua 4 continuidade e localizando os aspectos cognitivos do processo de compreensão de textos escritos, bem como enfatizando a desenvoltura global do leitor, entre elas, a habilidade de fazer inferências, a habilidade de decodificação e outros. Dessa forma, entende-se que o bom leitor é fruto de um exercício contínuo de leitura, onde a ação de ler é engrandecida pela leitura comentada, participada e refletida conjuntamente (alunos e professores). Ressalta-se, então, que a educação como fator de mudanças só pode ser entendida através de ações conscientes e atualizadas. A postura do educador, isto é, sua ação pedagógica, é fundamental para essa mudança. O exemplo do professor é fundamental. Desde os primórdios, quando ainda não existia a linguagem escrita, o homem já realizava atos, que podem ser considerados como leitura e que surgiram da necessidade de comunicação, por exemplo: os grunhidos, os gestos, pinturas nas paredes, tudo isso funcionava como um código que, promovendo a interação entre as pessoas, também é um tipo de leitura. É na identificação que o leitor busca a informação nova, confirmando ou reestruturando as hipóteses previamente intuídas: a leitura é sempre um processo pontual e seletivo. Ler, sobretudo é uma atividade voluntária e prazerosa (ou deveria ser). No sentido amplo, a leitura é atribuição de sentidos. Tanto se pode dar sentido a um texto escrito como a um texto oral. Ler, neste caso, não implica necessariamente domínio do código escrito. Qualquer manifestação de linguagem tanto pode ser um texto de um escritor famoso, como a fala, o texto de uma pessoa simples, uma gravura, um gesto, um olhar: tudo são percepções, ou seja, leituras. Assim, como os bons leitores refugiam-se na leitura como forma de evasão e encontram prazer e bemestar nela, os maus leitores fogem dela e tendem a evitá-la. O hábito da leitura tende a formar pessoas abertas ao intercâmbio, orientadas para o futuro, capazes de valorizar o planejamento e aceitar princípios técnicos e científicos. Esse tipo de pessoa é o que permite um maior desenvolvimento social. Somente as pessoas situadas num mundo aberto são as que contribuem eficazmente para as iniciativas comunitárias de processo e melhoria social. Por esta razão, embora alguns pensem que no plano pessoal as funções da leitura decresceram, convém levar em conta que no plano social a sua importância aumentou. A leitura tem características e vantagens próprias e distintas que a distinguem dos outros meios de informação audiovisual, por sua capacidade de transmissão de grande quantidade de informação, por seu poder de estimular a imaginação, por sua flexibilidade e, especialmente, pelo poder de ser controlada pela pessoa. Este trabalho de pesquisa traduz-se por procurar mostrar a importância da leitura como ponto de partida para o desenvolvimento cultural e intelectual dos alunos. É com e através da leitura que se faz ciência, criam-se, modificam-se, descobrem-se novas formas de crescimento social. 1. O ATO DE LER Ler é essencial. Através da leitura, testam-se os próprios valores e experiências com as dos outros e, A importância da leitura 5 no final de cada livro, mais enriquecido se fica com novas experiências, novas ideias, novas pessoas. Eventualmente, se ficará a conhecer melhor o mundo e um pouco melhor de nós próprios. Ler é estimulante. Tal como as pessoas, os livros podem ser intrigantes, melancólicos, assustadores, e, por vezes, complicados. Os livros partilham sentimentos e pensamentos, feitios e interesses. Os livros nos colocam em outros tempos, outros lugares, outras culturas em situações e dilemas que nunca poderíamos imaginar que encontrássemos. Os livros nos ajudam a sonhar, nos fazem pensar. Nada desenvolve mais a capacidade verbal que a leitura de livros. Na escola se aprende gramática e vocabulário. Contudo, essa aprendizagem nada é comparada com o que se pode absorver de forma natural e sem custo através da leitura regular de livros. Alguns livros são simplesmente melhores que outros. Alguns autores veem com mais profundidade o interior de personagens estranhas, e descrevem o que eles veem e sentem de uma forma mais real e efetiva. As suas obras podem exigir mais dos leitores: consciência das coisas implicadas em vez de meramente descritas, sensibilidade às nuanças da linguagem, paciência com situações ambíguas e personagens complicadas, vontade de pensar mais profundamente sobre determinados assuntos. Mas, esse esforço vale a pena, pois estes autores podem nos proporcionar aventuras que ficam na nossa memória para toda a vida. Relativamente aos escritores em si, é difícil muitas vezes começar a ler livros de um novo escritor, o que nos leva a desistir ao fim de poucas páginas. É essencial perseverar. A maioria da boa escrita é multifacetada e complexa. É precisamente essa diversidade e complexidade que faz da leitura uma atividade estimulante. Muitas vezes um livro tem que ser lido mais de uma vez e com abordagens diferentes. Estas abordagens podem incluir: uma primeira leitura superficial e relaxada para ficar com as principais ideias da narrativa; uma leitura mais lenta e detalhada, focando as nuanças do texto, concentrando-nos no que nos parece ser as passagens-chave; e ler o texto de forma aleatória, andando para trás e para frente através dele, para examinar características particulares tais como temas, narrativa, e caracterização dos personagens. Todo o leitor tem a sua abordagem individual, mas o melhor método, sem dúvida, de extrair o máximo de um livro é lê-lo várias vezes. A leitura é importante em todos os níveis educacionais. Portanto, deve ser iniciada no período de alfabetização e continuar nos diferentes graus de ensino. Ela se constitui numa forma de interação das pessoas de qualquer área do conhecimento. A leitura é uma atividade essencial a qualquer área do conhecimento. Está intimamente ligada ao sucesso do ser que aprende. Permite ao homem situar-se com os outros. Possibilita a aquisição de diferentes pontos de vista e alargamento de experiências. É também um recurso para combater a massificação executada principalmente pela televisão. Para o homem, o livro é ainda um importante veículo para a criação, transmissão e transformação da cultura. Através do hábito da leitura, o homem pode tomar consciência das suas necessidades, promovendo a sua transformação e a do mundo. O livro pode ser considerado como precioso recurso de ensino. No entanto, não é tão popular como o giz, o quadro negro, o lápis e o caderno. É grande o número de livros editados, com inúmeros títulos diferentes, que poderiam se bem utilizados, concorrer para a melhoria da qualidade do 6 A importância da leitura ensino, Campos (1987, p. 38) enfatiza que: O professor tem a liberdade de escolher as obras didáticas para seus alunos em função do conhecimento que tem dos livros, da escola e dos alunos. Pode ainda usar de materiais impressos para o ensino de sua disciplina: dicionários, revistas, jornais e outros e, até mesmo, elaborar seus próprios textos, incentivando assim as muitas formas de ler. É necessário que se lembre que a educação do ser humano envolve dois fatores, como nomeia Ferreiro (1985): formação e informação. Por isso, os conhecimentos transmitidos às novas gerações devem ser trabalhados com os valores e costumes, para que ocorra a sobrevivência e evolução da cultura. Os textos podem ser utilizados na realização de objetivos educacionais tanto para formar como para informar. A aprendizagem da leitura sempre se apresenta intencionalmente como algo mágico, senão enquanto ato, enquanto processo da descoberta de um universo desconhecido e maravilhoso. Freire (1985 p.43) diz: “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém educa a si mesmo; os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”. Refletindo melhor, poder-se-ia dizer: ninguém ensina ninguém a ler. O aprendizado, em última instância, se desenvolve na convivência, cada vez mais com os outros e com o mundo. 1.1 As várias concepções de leitura Ao se estudar qualquer tema, sente-se de imediato a necessidade de compreender a sua definição, para daí se estabelecer generalizações e questionamentos acerca das várias concepções existentes sobre o tema em estudo. Segundo o Novo Dicionário Aurélio, “leitura é o ato ou efeito de ler” (FERREIRA, 1998, p. 1019). Ele se refere à leitura da palavra, da escrita não determinada pela interação do leitor. Ato que, muitas vezes, esgota-se na própria definição da palavra. O autor do dicionário produziu uma definição generalizada, que não reflete a especificidade que tem o ato de ler. Vários teóricos tentam explicar o que é leitura através de conceitos. Para Skinner apud Rúbia (1995, p. 10) “o sentido na leitura é a soma linear das palavras de uma sentença”. Já Bloomfield apud Rúbia (1995, p. 15) diz que “a leitura não implica outra coisa que a correlação da imagem sonora com a sua correspondente imagem visual”. Para Smith apud Rúbia (1995), “ler é fazer perguntas a partir do texto e ler com compreensão é uma questão de obter resposta” (SMITH apud RÚBIA, 1995, p. 17). Goodman (1975) afirma que “a leitura é uma atividade de mostragem, de seleção, de predição, de comparação e de confirmação pela qual o leitor seleciona uma amostragem das pistas gráficas, úteis, baseado no que vê e espera ver” (GOODMAN apud RÚBIA, 1995, p. 20). A definição de Goodman orienta para a função primordial da escola que é ensinar a ler, ter o domínio dos livros de leitura e orientar para a escolha de metodologias que favoreçam a compreensão do que está sendo lido. Considerando os conceitos de Bloomfield e Goodman, pode-se situar o processo de leitura em vários níveis de compreensão da realidade – analítico, construtivo, estratégico e informativo (RÚBIA, 1995). O processo analítico, em que a compreensão se dá do todo para as partes, das unidades maiores para as menores, é o ato de ler o próprio mundo a partir da interação homem mundo. Nessa concepção, o mundo é o universo das informações, figura como um livro que o leitor utiliza para ler. A importância da leitura 7 A leitura do mundo difere da leitura da palavra porque, muitas vezes, a leitura da palavra não corresponde à leitura do mundo. No entanto, a leitura da palavra deveria constituir-se na compreensão de fato da relação homem-mundo, produzindo a partir desse referencial um ato de conhecimento político no esforço comprometedor com sua própria realidade. O processo construtivo é a compreensão que se dá quando o leitor é sujeito de seu próprio conhecimento, exercendo um papel ativo na construção do significado, que diz respeito à própria compreensão. Perceber as contradições existentes no seu meio, saber discernir, criar um novo conceito são peculiaridades do leitor em interação com a sua realidade. O processo estratégico dá-se quando o leitor faz uso consciente das habilidades de leitura adquiridas e estas dizem respeito ao conhecimento do leitor, de como fazer alguma coisa, identificar a ideia principal, reconhecer padrões retóricos, identificar recursos coesivos. Além dessa natureza analítica, construtiva e estratégica, o processo da leitura pode ser caracterizado como interativo, isto é, exige o envolvimento do leitor com as informações do mundo. O conhecimento do mundo inclui não só a familiaridade com fatos, princípios, ideias, condutas, mas também um tipo de conhecimento estruturado e parcial sobre os eventos que constituem a nossa experiência. Assim, a leitura do mundo não se faz por meio de códigos, mas pela percepção da realidade vivida e exposta pelo e ao sujeito que a interpreta. O mundo é compreendido a partir das relações entre seus elementos. Nessas relações, o homem é o produtor e reprodutor do espaço de sua sobrevivência, o que possibilita a ele assumir o lugar de construtor e construído do mundo que pertence. Freire destaca que a leitura do mundo é anterior à leitura da palavra: “A leitura do mundo, do pequeno mundo em que me movia. Depois a leitura da palavra que nem sempre ao longo da minha escolarização foi a leitura da palavra mundo” (FREIRE, 2000, p. 12). O autor lembra-nos de um aprendizado de leitura que extrapola o nível da simples informação, do domínio do código escrito e convencionado em nossa língua. É por meio da linguagem que o homem tem acesso aos bens sociais e culturais produzidos pela humanidade. Santos, em artigo publicado na Revista Mundo Jovem, ressalta que: A condição humana provém do fato de possuirmos um sistema de articulação verbal com poder de simbolização. Isso quer dizer, que somos todos humanos, porque somos capazes, através da língua, de fazermos referências aos conhecimentos que possam estar situados em tempos diferentes ou até mesmo a fatos (SANTOS, 1997, p. 10). Para compreender o mundo, faz-se necessário o uso da língua como forma de conhecimento, o que vai além do seu uso como instrumento de comunicação. O uso da linguagem envolve a leitura da sociedade, de seus costumes, tradições e funcionamentos de suas instituições. As formas de linguagem aparecem como modo particular de ler um tempo e uma circunstância que ligam o homem a certa realidade. É a leitura que associa valores humanos e revela a importância de uma obra e, ao mesmo tempo, a necessidade de estabelecer relações com uma consciência viva. A linguagem figura como mecanismo de construção e partilhamento de um saber elaborado. É a 8 A importância da leitura expressão falada do próprio conhecimento. Assim, o ato de ler é justamente o de entender a própria língua, de apreender, de conhecer e usar esse conjunto de habilidades, o que ajuda um viver com plenitude. É o que ressalta Buenavides ao afirmar que ler não é apenas um ato mecânico: “Aprender a ler não é só adquirir um novo código, é também ter acesso a um mundo diferente daquele em que a oralidade se instala e se organiza” (BUENAVIDES apud RÚBIA, 1995, p. 11) A autora afirma ainda que ler é um ato libertador, pois um dos efeitos da leitura é o aprimoramento da linguagem, da expressão nos níveis individual e coletivo. Quanto maior o nível de consciência das pessoas, maior é o índice de leitura. Uma sociedade que sabe dizer o que quer é menos manobrável. A leitura desperta o ato de pensar, imaginar, investigar, deduzir, supor, criar e recriar estilo de vida. Ajuda a pessoa a responsabilizar-se e a comprometer-se com as ideias e realizações da humanidade. 1.1.2 Os tipos de Leitura Não existe entre os autores que estudam o processo e o mecanismo da leitura um consenso sobre os diversos tipos de leitura. Fala-se de leitura crítica, assimilativa, analítica, informativa, recreativa e outros. De acordo com Gadotti (1989, p. 27), os tipos de leituras podem ser sintetizados em: • recreativa, cujo objetivo é trazer satisfação à inteligência; • crítica, onde existe um confronto de ideias entre leitor e autor; • informativa, em que o leitor reconhece o autor como autoridade e procura aprender com ele o conteúdo. Nessa perspectiva, a leitura constitui-se como uma forma de desenvolver-nos, inteirar-nos do universo cultural e ampliar a nossa concepção de mundo. “Ler, torna-nos mais aptos para enfrentar os problemas que nos cercam e as situações que a vida moderna nos apresenta, quer no espaço social, profissional político ou familiar” (GADOTTI 1989, p. 35). Para Pinheiro (1997, p. 14), os tipos de leituras relacionam-se à satisfação de um propósito, isto é, a escolha de um tipo de leitura está sempre associada a um propósito e de modo geral é significativa quando se relaciona à vida do leitor, quando desperta sua curiosidade e ajuda-o a compreender o mundo ou a criar mundos imaginários, que respondem a seus problemas, que lhe permitem melhor relacionar-se com os outros. Os tipos de leitura são: • leitura total ou intensiva - consiste na retirada de todas as informações do texto, envolve a compreensão de detalhes; • leitura seguida ou extensiva – consiste na retirada das informações mais importantes, que envolvam a compreensão geral e é frequentemente realizada para fins de satisfação pessoal; • leitura seletiva ou scanning – consiste na localização de uma informação específica, ou seja, de determinada informação relevante para o propósito do leitor; • leitura orientadora ou skiming – consiste no movimento linear de correrem-se rapidamente os olhos sobre um texto para se ter uma ideia geral de seu assunto, ou de seu gênero, ou de sua fonte, ou de sua organização; em outras palavras, trata-se de uma leitura para se ter uma visão geral do texto. Para obter êxito na leitura, o aluno deve saber usar diferentes estratégias de leitura, de acordo com o A importância da leitura 9 seu interesse imediato. A recorrência a uma mesma estratégia impossibilita a realização dos objetivos da leitura. Para Silva (1998) a leitura deve ser trabalhada na perspectiva de ler para aprender, para conseguir capacitação, para compreender os diferentes tipos de textos que existem na sociedade, o que possibilita a participação na dinâmica do mundo da escrita. Dessa forma, as escolas e universidades devem assumir essa expectativa social através das ações docentes e das práticas curriculares. Os professores precisam observar criticamente o que ocorre em sociedade, pois “essa expectativa social deve ser assumida e cumprida pela escola através das ações docentes e das práticas curriculares, tendo os professores de observar criticamente o que ocorre em sociedade” (SILVA, 1998, p. 62). Há algum tempo o objetivo principal da Educação Básica era ensinar a ler. Hoje, diante da velocidade da transformação do conhecimento, a ênfase passou a centrar-se no ler para aprender. É importante que o aluno desenvolva a competência da leitura, mas mais importante é que aprenda por meio da leitura. A eficiência está, de forma estreita, relacionada com o êxito escolar. O leitor proficiente – capaz de identificar os vários tipos de leitura, seus objetivos e as estratégias utilizadas para o estabelecimento do significado do texto – possui um instrumento de valor extremo, o qual lhe permite penetrar no amplo mundo dos livros, enquanto que o leitor deficiente lê de maneira tão lenta que ao final de um enunciado não é capaz de atribuir significado ao texto. Dessa forma, a aprendizagem desse leitor se restringe ao que ouve; razão que o leva a fracassar nas disciplinas que requeiram muita leitura. Isto acontece com relativa freqüência nas faculdades e universidades, onde a necessidade de leitura se intensifica. Veem-se com assiduidade os fracassos dos discentes, em decorrência da falta de hábito de leitura, pois simplesmente não conseguem interpretar os livros que lhes são indicados ou o fazem de uma forma totalmente equivocada. 1.1.3 A leitura como objeto do conhecimento Desde os primórdios quando ainda não existia a linguagem escrita o homem já realizava atos, que podem ser considerados como leitura e que surgiram da necessidade de comunicação, por exemplo: os grunhidos, os gestos, pinturas nas paredes, tudo isso funcionava como um código que, promovendo a interação entre as pessoas, também é um tipo de leitura. Freire (1978, p.10) ressalta que “(...) a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. O livro constitui o mediador na comunicação entre o professor e o aluno. Através dele, se valoriza um ensino informativo e teórico. Por esse motivo, se torna necessário a formação de leitores que possam trabalhar esse material ampliando o objeto do conhecimento. O hábito da leitura tende a formar pessoas abertas ao intercâmbio, orientadas para o futuro, capazes de valorizar o planejamento e aceitar princípios técnicos e científicos. Este tipo de pessoa é o que permite um maior desenvolvimento social. Somente as pessoas situadas num mundo aberto são as que contribuem eficazmente para as iniciativas comunitárias de processo e melhoria social. Por esta razão, embora alguns pensem que no plano pessoal as funções da leitura decresceram, convém levar em conta que no plano social 10 A importância da leitura a sua importância aumentou. A leitura tem características e vantagens próprias e distintas que a distinguem dos outros meios de informação audiovisual, por sua capacidade de transmissão de grande quantidade de informação, por seu poder de estimular a imaginação, por sua flexibilidade e, especialmente, pelo poder de ser controlada pela pessoa. Orlandi (1988) considera que os objetivos da leitura determinam a forma pela qual um leitor se situa frente a ela e controla a consecução do seu objetivo, isto é, a compreensão do texto. Existe um acordo geral sobre o fato de que os bons leitores, não leem qualquer texto da mesma maneira, e que este é um indicador da competência: a possibilidade de utilizar as estratégias necessárias para cada caso. Os objetivos dos leitores com relação a um texto podem ser muito variados, e, ainda que fossem enumerados, haveria tantos objetivos como leitores, em diferentes situações e momentos. No ensino superior, precisamente, os discentes já devem ter discernimento suficiente no ato da leitura. Devem saber o que objetivam, como querem e de que forma farão para chegar ao seu objetivo, levando-se em conta que ele é um leitor proficiente e que deve ser crítico, ordenado em suas metas, coerente com seus propósitos e, acima de tudo, que saiba encontrar, na leitura a que se propõe, o prazer inestimável que se traduz em novos conhecimentos e novas fontes de pesquisa, pois uma boa leitura, sempre leva o seu leitor a outra. CONSIDERAÇÕES FINAIS A compreensão em leitura é uma área com muitas possibilidades de pesquisa, envolvendo um complexo jogo entre o leitor e as características do texto. Para entender essa complexidade é necessário levar em consideração as muitas características do leitor, o conhecimento anterior que influencia a compreensão geral do texto, o objetivo da leitura, o propósito e nível de motivação do leitor. Isso talvez explique porque pesquisar a importância da leitura seja desafiador para os interessados pela área, devendose lamentar apenas que, por envolver questões muito complexas, não seja possível abranger todas as variáveis que certamente estão relacionadas a essa habilidade. Ao final deste trabalho, pode-se afirmar que ler é uma das competências mais importantes a serem trabalhadas com o aluno, principalmente após recentes pesquisas que apontam a deficiência no estudo de leitura como uma das principais causas do baixo desempenho educacional brasileiro. Para ler, não basta identificar as palavras, mas fazê-las ter sentido, compreender, interpretar, relacionar e reler o que for mais relevante. A valorização da leitura para os professores é muito importante para o desenvolvimento dos conhecimentos, ampliando informações e encorajando-os no enfrentamento das possíveis dificuldades, que porventura apareçam. Por meio da leitura, o sujeito toma consciência de suas necessidades, transformando-se e transformando o mundo no qual está inserido. O que se propõe como reflexão é que muitos fatores entram em jogo quando se discute leitura, por exemplo: a falta de estímulos por parte de alguns professores, de hábitos familiares e sociais e por parte de políticas públicas que não incentivam a leitura através da criação de mais bibliotecas públicas, não facilitam a A importância da leitura 11 compra de livros que ainda custam muito caro para as posses atuais dos discentes. Enfim, é um conjunto de fatores que diretamente inibem o gosto, o prazer e o hábito salutar da leitura. Outro fator é que o aprendizado de leitura também depende da organização geral das instituições de ensino e da equipe pedagógica. Estamos todos interligados por relações globais, o que altera significativamente a forma de abordagem da educação no século XXI, e o desafio é o de unir as instituições (escolas e universidades) a este contexto, ação primordial para se repensar percursos de uma educação que seja de todos e para todos. Referências ANDRIOLA, Wagner Bandeira. A gestão pedagógica e o desempenho escolar. Secretaria da Educação Básica do Ceará - Fortaleza: Edições SEDUC, 2005. BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de leitura. São Paulo: Ática, 1995. BIGNOTTO, Francielle et al. Perfil das condições e acesso à saúde entre as pessoas ocupadas na agricultura brasileira. Disponível em: >http//www.sober.org.br.>. Acesso em 21 de ago.2009. BRASIL, MEC. Valorização e Formação: em busca do saber. In: Revista do Professor. Brasília, MEC/SEF n. 25, out. 2003, p. 35. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio: Língua portuguesa/Secretaria de Educação Fundamenta. Brasília: MEC/SEF, 1998. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998. CAMPOS, Dinah M. Sousa. Psicologia da aprendizagem. Petrópolis-RJ: Vozes, 1987. CÉLLIS, G. I. Aprender e formar crianças leitoras e escritoras, 1998. CHIAPPINI, L. Aprender a ensinar com textos. São Paulo: Cortez, 1997. ECO, Umberto. Leitura em fábula. Lisboa, Editorial Presença 1979. FERREIRA, Naura Syria Carapeto. Gestão da educação e formação: notas para um projeto pedagógico. In: Revista Brasileira de Política e Administração da Educação - RBPAE. Brasília, v. 14, n.1, jan/jun 1998. FERREIRO, Emília e TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita. Tradução de Diana Myriam Lichtenstein, Liana Di Marco e Mário Corso. Porto Alegre: ArtMed, 1985. FERREIRO, Emília. Relações de (in)dependência entre oralidade e escrita. Porto Alegre: Artmed, 2004. FONSECA, Vitor da. Introdução às dificuldades de Aprendizagem. 2. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1995. FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artmed, 1994. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 40. ed. São Paulo: Cortez, 2000. ______. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 8. ed. São Paulo: Cortez, 1984. ______. Aprendendo com a própria história. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. ______. Pedagogia do oprimido. 6. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. GADOTTI, Moacir. Convite à leitura de Paulo Freire. São Paulo: Scipione, 1989 (Série: pensamento e ação 12 A importância da leitura no magistério). GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008. HAILLER M. A. Didática de alfabetização. São Paulo: FTD, 1996. KIDDER, Louise H (Org.) Métodos de pesquisa nas relações sociais: delineamentos de pesquisa. São Paulo: EPU, 1987. La TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl; DANTAS, Heloysa. Piaget, Vygostsky, Wallon: Teorias Psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do Trabalho. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1996. LARROSA, J. Narrativa, identidad y desidentificación. In: J. LARROSA, La experiencia de la lectura. Barcelona, Alertes. 1996. LUCKESI, Cipriano Carlos. Fazer Universidade: uma proposta metodológica. São Paulo: Cortez, 1987. MENEGOLLA, Maximiliano. Sua Majestade: o livro. In: Mundo Jovem. São Paulo: Abril, n. 226, jul. 1991, p. 27. MINAYO, Cecília de Souza (org). Pesquisa Social. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. MORAIS, A. G. Ortografia: ensinar e aprender. São Paulo: Ática, 2001. NASPOLINI, A. T. Leitura e Produção e Escrita. São Paulo: FTD, 1996. ORLANDI, E. Pulcinelli. Discurso e leitura. Campinas-SP: Cortez–Unicamp, 1988. PIAGET, Jean. Lógica e conhecimento científico. Porto: Livraria Civilização, 1981. PILLETTI, Claudino. Filosofia e história da educação. São Paulo: Ática, 1991. PINHEIRO, A. M. V. Leitura e escrita: uma abordagem cognitiva. Campinas: Psy, 1997. QUEIROZ, Maria Eveline. Revista Cultura. Valorização da leitura será peça chave do novo ensino médio proposto pelo MEC. São Paulo. 21 de maio de 2009. RANGEL, Mary. Dinâmica de leitura para sala de aula. 4. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. RÚBIA, Mara. O ensino de português: conceituação sobre leitura. In: Curso de Aperfeiçoamento em Língua Portuguesa. Fortaleza, (mimeo), 1995. SILVA, Ezequiel Theodoro. A Leitura no Contexto Escolar. São Paulo: FDE, 1998. SILVA, Ivonilde Buenavides. Ler é importante. In: Mundo Jovem. São Paulo: Pioneira, n. 227, ano XXXV, abr. 1994. SOLE, Isabel. Estratégias de leitura. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. TEBEROSKY, A.; CARDOSO, B. Reflexões sobre o ensino da leitura e da escrita. São Paulo: Trajetória Cultural, 1993. TEBEROSKY, Ana et al. Compreensão de leitura: a língua como procedimento. Porto Alegre: Artmed, 2004. TFOUNI, Leda Verdani. Letramento e alfabetização. São Paulo: Cortez, 1995. TRIVINÕS, Augusto Nibaldo. Introdução à Pesquisa. São Paulo: Hucitec – Abrasco, 1993. YIN, Robert K. Case Study Research: design and methods. New Park-CA: Sage Publications, 1996. A importância da leitura 13 Ana Paula Pinheiro Campos de Oliveira Escola Municipal Carlos Jereissati - Maracanaú - Ceará [email protected] Maria Gomes Filgueira Escola Municipal Carlos Jereissati - Maracanaú - Ceará Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Maria Neurismar Araújo de Souza Colégio Santa Isabel - Fortaleza - Ceará Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Márcio Roque Cordeiro Escola Municipal Carlos Jereissati - Maracanaú - Ceará Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Patricia Unger Raphael Bataglia Universidade Estadual de São Paulo Julio de Mesquita Filho - UNESP – Campus Marília Doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo [email protected] RESUMO: As experiências que serão aqui relatadas ocorreram em duas escolas com características bem diferentes. A primeira em uma escola da rede pública municipal de Maracanaú teve como título “Vivendo Valores na Escola” e, a segunda, em uma escola particular de classe média de Fortaleza, refere-se a uma situação de cyberbulling com intervenção iniciada pela professora de arte-educação. Ambas tiveram o apoio do corpo gestor, envolveram grande número de alunos e foram avaliadas positivamente pelos envolvidos. PALAVRAS-CHAVE: cyberbulling, escola, arte-educação TÍTULO: Dos experiencias de educación morales bien sucedidas en Ceará RESUMEN: Las experiencias que se relatarán aquí ocurrieron en dos escuelas con características bien distintas. La primera, en una escuela de la red pública municipal de Maracanaú, tuve como título “Vivendo valores na Escola” y, la segunda, en una escuela particular de clase media de Fortaleza, se refiere a una situación de cyberbulling, con intervención comenzada por la profesora de arte-educación. Las dos tuvieron el apoyo de los gestores, la participación de un gran número de alumnos y fueron evaluadas positivamente por los involucrados. PALABRAS LLAVE: cyberbulling, escuela, arte-educación INTRODUÇÃO Os relatos aqui reunidos fazem parte dos primeiros resultados obtidos na pesquisa "Projetos BemSucedidos de Educação Moral: em busca de experiências brasileiras" coordenada pela Profª Maria Suzana De Stefano Menin. Esse projeto envolve aproximadamente 20 (vinte) pesquisadores e tem realizado um levantamento dos trabalhos em educação moral e educação de valores em escolas públicas estaduais brasileiras. A educação moral é tema emergencial nas escolas, tendo em vista a necessidade atual de novos 14 paradigmas educacionais, que dêem conta dos momentos graves que a sociedade enfrenta. Cortella (1998) apresenta a ideia de que momentos graves, como o da violência nas escolas, narcotráfico, crise de valores, dentre outros, são também momentos grávidos de possibilidades. Frequentemente os educadores enfrentam situações tensas, violentas e comportamentos que os levam a um sentimento de impotência, a ponto de a escola necessitar pedir ajuda às instituições que cuidam da segurança pública: guarda municipal, ronda escolar e ronda do quarteirão. Por outro lado, a relação entre sociedade, família e escola não é sempre clara e produtiva no compartilhamento da responsabilidade de formação ética e social dos educandos. As políticas educacionais, por sua vez, têm estado à margem dessa necessidade. Suas iniciativas têm sido tímidas e desnorteadas. Setores de nosso sistema educacional estão envolvidos pelo espírito quantitativo. Muitas iniciativas levadas a cabo no sentido de reverter esse quadro não têm entusiasmado, porque são deficientes na sua origem, quer no sentido técnico (investimento), quer no sentido pedagógico. No levantamento realizado até o momento, detectamos, no estado do Ceará, duas experiências que pareceram particularmente interessantes. Apesar de uma delas ter ocorrido em escola particular, será incluída nesse artigo pela atualidade do tema de que trata e pela continuidade do trabalho, fatores essenciais para considerarmos a experiência de fato bem-sucedida. 1. Educação Moral Dentre as posturas teóricas que estudaram o desenvolvimento moral e pensaram nas possibilidades de educação moral, focalizar-se-á aqui o construtivismo, especialmente considerando o trabalho seminal de Piaget (1932) e de Kohlberg (1984). Ambos trataram o tema moral enfatizando a dimensão racional. Naturalmente, não se ignora a esfera afetiva que é, como disse o próprio Piaget, a energética do desenvolvimento, mas não é possível explicar o ideal moral da reciprocidade sem considerarmos a construção de estruturas mentais que possibilitam entre outras coisas a reversibilidade e a operatoriedade (LA TAILLE, 2006). Para Piaget, a moralidade consiste no respeito a um sistema de regras. Por isso, busca examinar como essas regras são praticadas e aprendidas pelas crianças e adolescentes, que tipo de respeito é esse, isto é, um respeito pela autoridade que dita as regras ou um respeito pelo princípio que sustenta as regras e ainda que tipo de relação é a existente entre o sujeito e o meio, que permite o desenvolvimento da autonomia moral como oposta à heteronomia. Desenvolvimento moral é, portanto, o creodo (caminho) percorrido pelo indivíduo na passagem de um estado de anomia até a conquista da autonomia. Esse caminho não é deflagrado automaticamente, mas, pelo contrário, depende das trocas que o indivíduo realiza com seu meio. De um estado de inserção social inconsciente até o estado de autonomia moral, os meios de socialização têm papel fundamental. Nessa perspectiva, entende-se que o ambiente escolar tem influência decisiva na construção da moralidade, especialmente pensando na questão do estímulo à coerção ou no estímulo à cooperação. Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará 15 É urgente o redimensionamento do convívio escolar, no sentido de que o cuidar, a cooperação, a responsabilidade e o amor sirvam de base para uma cultura de valorização do ser e sua inserção na comunidade e sociedade mais ampla, em sintonia com as questões mais relevantes do mundo atual que nos exige cada vez mais o aprender a ser, a conviver, a viver, a partilhar, a comunicar, a comungar como humanos do planeta Terra e não como culturas singulares (MORIN, 2000, p.76). Uma comunidade escolar cuja cultura inspire educadores e educandos a agirem como cidadãos, individual e coletivamente, do local para o global. Convém ressaltar o número crescente de educadores de todo o globo e de várias iniciativas, sobretudo não-governamentais, que vêm implementando experiências com educação baseada em valores. Há um reconhecimento crescente de que o elo perdido dos sistemas educacionais do mundo inteiro é a falta de foco na dimensão afetiva. O relatório da UNESCO, feito pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, organizado por Delors (1998), reacendeu o debate sobre o futuro da educação. A conferência organizada na Austrália em 1998 fundamentou-se nas quatro premissas apontadas pelo relatório como eixos estruturais da educação na sociedade contemporânea: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser. Embora as duas primeiras sejam esperadas no âmbito da educação, as duas últimas parecem ausentes (TILLMAN; COLOMINA, 2004, p. 30). O indivíduo também precisa aprender a ser, ou seja, reconhecer seus valores pessoais, culturais e espirituais, formar seus juízos de valores, elaborar pensamentos autônomos, críticos e que exercitem a liberdade de discernimento, sentimento e imaginação, para desenvolver os seus talentos e ser senhor do seu destino. Da mesma forma, ele deve aprender a conviver, reconhecer a alteridade, perceber as interdependências que caracterizam as relações do mundo atual. Essa consciência é essencial para a realização de projetos comuns e na busca do convívio harmonioso. Viver essas duas premissas efetivamente no âmbito da educação significa uma resposta aos nossos apelos individuais e sociais e, com isso, instituir a sociedade justa e pacífica a que ansiamos. Nesse sentido, nossa escola parecia ter se transformado em um lugar comum, que reproduzia a cultura do medo, da violência, do desrespeito e da falta de solidariedade. De fato, isso é o reflexo da sociedade na qual vivemos, onde a violência, seja ela na sua forma física, moral ou psicológica, está presente nas ruas, nos lares, na mídia, nas formas das pessoas se entreterem e na escola. Enfim, no que quer que olhemos, escutemos e observemos não será raro percebermos sentimentos, palavras e cenas que expressam o desrespeito, a agressividade, a competitividade, a intolerância, atitudes que contribuem para a degradação moral e social do ser humano, o que nos distancia da sociedade de convivência igualitária, pacífica e justa que todos nós desejamos. Este apelo pelos valores não ecoava somente como um desejo da comunidade escolar: a escola simplesmente trouxe para suas discussões internas o clamor da sociedade na qual ela está inserida. Há trabalhos que relatam as tentativas de utilização de métodos e técnicas para a educação moral ou educação de valores, como discussão de dilemas, clarificação de valores, exemplares morais etc. As experiências relatadas a seguir foram interessantes por proporem uma forma de trabalho inovadora, 16 Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará integradora, persistente e bem avaliada pelos envolvidos. 2. Para uma Cultura da PAZ na Escola Municipal Carlos Jereissati (Maracanaú-Ceará) Em novembro de 2006, o grupo de educadores da EM Carlos Jereissati participou de um congresso organizado pelo IVV – Instituto Vivendo Valores, em Parnamirim – RN. Nesse congresso, conheceram o Programa VIVE – Vivendo Valores na Educação e, a partir disso, realizou-se uma reflexão sobre como a escola poderia trabalhar esse projeto no interesse de encaminhar situações críticas vivenciadas, tais como evasão, repetição, violência, drogas, desrespeito e descaso. Ao longo do ano de 2007, foram trabalhados os doze valores do programa VIVE, dando inclusive às salas o nome de um valor. O projeto Vivendo Valores no CJ (Escola Municipal Carlos Jereissati/MaracanaúCe) trabalhou a cada mês um ou dois valores até a culminância que foi a XI Mostra Cultural no mês de novembro, evento anual no qual a escola apresenta para a comunidade os trabalhos realizados ao longo do ano. Desta forma, em 2007 cada sala apresentou para toda a comunidade escolar o valor que lhe foi designado: Compromisso, Responsabilidade, Justiça, União, Amizade, Solidariedade, Paz, Tolerância, Harmonia, Amor, Respeito e Alegria. Os 12 valores, que foram trabalhados como temas transversais, passaram por todas as salas de aula e foram expressos para a comunidade escolar de diversas maneiras: dança, teatro, jograis, desenhos, pinturas, maquetes, poesias, paródias etc. O trabalho com os valores no ano de 2007 ajudou muito no redimensionamento do convívio no âmbito de nossa escola, no entanto, é claro que a prática do trabalho com os valores não foi o suficiente para erradicar os problemas advindos da sua ausência e/ou negação. O trabalho com os valores continua até hoje, pois se sabe que é a persistência nessa prática que suporta a superação dos conflitos e a formação da personalidade moral dos educandos. As Figuras 1 e 2 ilustram produções realizadas pelos grupos durante o desenvolvimento do projeto. Figura 1. Mural do Trabalho “Vivendo valores no CJ” Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará 17 Figura 2. Projeto “Vivendo valores na escola” – Faça a PAZ 3. O Santa Isabel em Foco A constante e acelerada mutação das sociedades modernas torna, por vezes, os conhecimentos adquiridos insuficientes ou inócuos na solução dos problemas do cotidiano. Sabemos ser, a criatividade, um fator indispensável na construção de um ser plural e reflexivo. Encontramos, nas diversas manifestações artísticas, excelentes recursos para o auxílio da prática pedagógica e na formação do homem espontâneo, criativo e dinâmico, capaz de exteriorizar seus pensamentos, sentimentos e sensações. Nessa perspectiva, o ensino da Arte na escola possibilita ao educando o acesso ao processo histórico e cultural da arte, às vivências contextualizadas da sociedade, contribuindo, desta forma, para um olhar critico e reflexivo, para a descoberta da sua corporeidade, bem como para torná-los participantes ativos dos novos processos artísticos e culturais da sociedade contemporânea. Esse projeto nasceu da imperiosa necessidade de redimensionar o olhar do aluno na comunidade escolar numa perspectiva ética e de formação de valores por meio do ensino da arte. O tema surgiu da própria turma de estudantes quando da crítica a imagens postadas em blogs ou orkuts. Tais imagens agressivas e sensacionalistas caracterizavam em alguns casos o que tem se chamado cyberbullying, ou seja, uma forma de agressão intencional, persistente em geral voltada a alguma pessoa ou grupo minoritário. O Bullying é um tipo de violência praticado entre pares e que visa a intimidar o agredido. Em geral, ocorre pela atribuição de apelidos depreciativos e humilhantes. Mais recentemente, essa forma de agressão tem sido veiculada pelos meios eletrônicos. Algo fundamental no bullying (e no cyberbullying) é que deve haver uma plateia que se divirta com a humilhação sofrida por alguns. Por isso, é imprescindível no combate a essa prática conscientizar o grupo a respeito da violência e possíveis efeitos deletérios do bullying. O percurso metodológico do projeto foi o seguinte: • Discussões sobre o significado da imagem, leis sobre o uso da imagem, condutas e posturas no cotidiano escolar; • Apreciação crítica do uso de imagens, fotos e vídeos jornalísticos e sensacionalistas postados 18 Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará publicamente com ou sem a autorização das pessoas envolvidas; • Estudo das novas tecnologias de comunicação e da informação como recurso metodológico na produção artística dos trabalhos; • Divisão de equipes e sorteio de temas para discussão. Os temas foram os que surgiram no decorrer das discussões e que se vinculavam com a questão da utilização da imagem de modos adequados e inadequados; • Apresentação dos trabalhos desenvolvidos pelas equipes. • Para finalizar, houve um fórum de discussão com o tema: ética e uso da imagem. O trabalho com fotos e produção de imagens foi fundamental. A Figura 3 mostra as alunas envolvidas em fotografar o jardim para compor o trabalho sobre a natureza. Figura 3. Alunas fotografando a natureza O Projeto Santa Isabel em Foco se desenvolve há três anos, no ensino fundamental (II) e médio e percebe-se uma significativa mudança de comportamento referente ao uso da imagem na comunidade escolar. Os aspectos do aprendizado técnico das aulas de cinema\vídeo e fotografia foram relevantes. O trabalho, além de desenvolver uma relação de respeito mútuo aluno\aluno, aluno\professor, aluno\funcionário, aluno\gestão, aluno\família, promoveu um repúdio a toda forma de humilhação ou violência na relação com o outro. Portanto, o reconhecimento da relevância deste projeto pela comunidade escolar tem favorecido a interdisciplinaridade, a elaboração de novos projetos, bem como uma constante atenção ao conteúdo específico do projeto: a ética e educação de valores. Conclusão Pensando em qual o tipo de formação se espera na atualidade e em como promover a educação moral e educação de valores, concluímos que os projetos relatados apresentam algumas características em comum, quais sejam: surgiram a partir da necessidade identificada pelo grupo e pela mobilização de alguns membros e contágio dos demais, suporte do corpo diretivo e criatividade na inovação dos processos. Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará 19 A qualidade do convívio construído no ambiente escolar promovida pelos projetos é essencial para a existência de um clima cooperativo, favorecedor do desenvolvimento da capacidade reflexiva e de atitudes mais saudáveis no relacionamento entre todos os atores do contexto escolar. Nesse contexto afirma os PCN’S (1998, p.68): A qualidade do convívio escolar para a compreensão e valorização da dignidade, evidentemente vale para o respeito mútuo: o aluno deve sentir-se respeitado e também sentir que dele exigem respeito. O convívio respeitoso na escola é a melhor experiência moral que o aluno pode viver. Vivemos numa época de crise de valores e de busca de novos padrões morais como reação diante de efeitos desintegradores provocados pelo individualismo e pela racionalidade instrumental, que movem o processo da modernidade. Acreditamos, porém, que a iniciativa e a realização de projetos bem-sucedidos de educação moral possam colaborar para a construção de uma instituição justa chamada escola que apoie o desenvolvimento completo daqueles que conduzirão a sociedade do futuro. Cortella (1998) afirma que: Toda mudança implica um desequilíbrio momentâneo. O medo desse desequilíbrio pode ser paralisante. Se, na tentativa de andar, um bebê não tivesse a coragem de enfrentar isso, ele nunca andaria. Do mesmo modo, vemos que as mudanças impostas, pelos tempos atuais, geram desequilíbrio e pedem novas posturas. Sair da estabilidade, da segurança pede coragem e comprometimento, fatores esses que temos encontrado não apenas nas experiências aqui relatadas, mas em muitas escolas por todo o Brasil. Referências Bibliográficas BRASIL, Secretaria de educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: Temas Transversais. Secretaria de Educação Fundamental, Brasília, MEC/SEF. 1998. CORTELLA, M.S. Novos Paradigmas da Educação. São Paulo: ATTA vídeo (VHS), 1998. DELORS, Jacques et al. Educação: um tesouro a descobrir. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC/UNESCO, 1998. DIVALTE, P.S. Arte e comunicação. 2001. (Mimeo). FOUCALT, M. Vigiar e Punir. Tradução de Raquel Ramalhete. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 1991. KOHLBERG, L. Essays on moral development. San Francisco: Harper&Row, 1984. (volume 1: The philosophy of moral education: moral stages and the idea of justice) LA TAILLE, Y; J.J-M.R. Moral e Ética. Porto Alegre: Artmed, 2006. MORIN, Edgar. Os Sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução de Catarina Eleonora F. da 20 Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará Silva e Jeanne Sawaya. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000. NOVAES, A.(org.) Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. PIAGET, J. O Juízo moral na criança. Tradução de Elzon Lenardon. São Paulo: Summus, 1994. SAVIANI, D.; COSTA, A. C. Educador: novo milênio, novo perfil? São Paulo: Paulus, 2000. TILLMAN, Diane; COLOMINA, Pilar Q. Guia de Capacitação do Educador. São Paulo: Confluência, 2003. Duas experiências de educação morais bem-sucedidas no Ceará 21 Iza de Fátima Albuquerque Lima Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Sílvia Cavalcante Neves Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] RESUMO: Este artigo representa algumas reflexões, bem recentes sobre o tema, muito mais calcadas em vivências, embora influenciadas diretamente pelos conhecimentos teóricos adquiridos ao longo de toda uma vida profissional e pela bibliografia específica consultada. Estas reflexões representam um encontro pessoal de meus valores éticos e afetivos com essa nova realidade do envelhecimento. O processo de envelhecimento ainda é pouco conhecido, porém o desgaste do organismo com o passar dos anos é inevitável deixando-nos mais susceptíveis a doenças. A prática de exercícios físicos é essencial em todas as fases de nossa vida e será ainda mais importante na terceira idade onde há uma perda de aptidão física e consequentemente de saúde. O objetivo deste estudo foi verificar o efeito da prática da hidroginástica sobre as variáveis da aptidão física (equilíbrio estático, agilidade e flexibilidade) em pessoas na terceira idade. PALAVRAS-CHAVE: terceira idade, hidroginástica. TÍTULO: La importancia de la hidroginástica en la tercera edad RESUMEN: Este artigo representa algunas reflexiones, bien recientes sobre el tema, bien más basadas en vivencias, aun que estén influenciadas directamente por los conocimientos teóricos adquiridos al largo de toda la vida profesional y por la bibliografía específica consultada. Estas reflexiones representan un encuentro personal de mis valores éticos y afectivos con esa nueva realidad del envejecimiento. El proceso de la vejez aun es poco conocido, sin embargo, el desgaste del organismo con el pasar de los años es inevitable dejándonos más susceptibles a enfermedades. La práctica de ejercicios físicos es esencial en todas las fases de nuestra vida y será aun más importante en la tercera edad donde hay una pérdida de aptidón física y consecuentemente de salud. El objetivo de este estudio fue verificar el efecto de la práctica de la hidroginástica sobre las variables de la aptidón física (equilibrio estático, agilidad y flexibilidad) en las personas mayores. PALABRAS LLAVE: tercera edad, hidroginástica. INTRODUÇÃO A terceira idade a cada dia vem conquistando um espaço maior para trabalhar sua capacidade física, e melhorar a sua qualidade de vida. Desde que a hidroginástica começou a ser introduzida nos clubes e academias em Fortaleza, o grupo de senhoras que passou a frequentar esse tipo de aula cada dia aumenta mais. Elas vêm por diversos motivos, como dores na coluna lombar, artrose, artrite, bursite, depressão, dores na coluna cervical, ou simplesmente porque querem fazer uma atividade física. Tomada essa resolução, suas vidas parecem que se transformam. Pessoas que nunca realizaram qualquer atividade física, que depois que passaram de certa idade acharam que não teriam muitas coisas para realizar no seu dia-a-dia, além de cuidar dos netos ou do marido e da casa, de repente se viram com um compromisso com sua própria saúde e bem-estar. E tudo isso com resultados positivos. Estavam cuidando da sua saúde, tendo atenção de um professor, ou professora que analisava o seu 22 problema específico e lhe trazia soluções, fazendo amizades, conversando sobre assuntos diversos, se socializando. Resumindo: vivendo! O papel do professor de Educação Física dentro deste contexto é muito importante, será ele quem conduzirá esse grupo, será ele quem esclarecerá as dúvidas, será dele o papel de socializar o grupo. Deve-se sempre estar ciente de que, “uma velhice tranqüila é o somatório de tudo quanto beneficie o organismo, como, por exemplo, exercícios físicos, alimentação saudável, espaço para o lazer, bom relacionamento familiar, enfim, é preciso investir numa melhor qualidade de vida.” (PIRES, 2002, p. 2) A partir disso, tem-se uma terceira idade com muita disposição, deixando de lado os problemas que todos têm, pelo menos enquanto estiverem na aula ouvindo uma música agradável, quanto estiverem num ambiente alegre e saudável. Com isso, este estudo vem buscar a qualidade de vida e a longevidade, pela atividade física na água – “hidroginástica”. Esta modalidade aquática que traz grandes benefícios devido ao meio, para esta população muito especial que é a terceira idade. 1. Um Breve Estudo Sobre a Educação História da Hidroginástica A atividade aquática é muito antiga, praticada há mais de mil anos pelos romanos e gregos. Há relatos e livros mencionando esta prática em piscinas públicas onde as pessoas se reuniam para sessões de hidroterapia. Na Grécia antiga isso era tão comum quanto a sauna e proporcionava bastante bem-estar. Existem alguns relatos de massagens e movimentos feitos por japoneses e chineses em banheiras e piscinas. E, por isso, a hidroterapia é dita como mãe da hidroginástica, propriamente dita. Zilenovski e Freire (1981) afirmam que a hidroterapia era, freqüentemente, utilizada na recuperação de atletas com problemas musculares, idosos e acidentados, antes do surgimento das sessões com formato de uma aula de Hidroginástica. A hidroginástica teve a sua ascensão no Brasil e no mundo, no início da década de 80, devido ao elevado número de lesões provocado pela prática da ginástica aeróbica e assim vários especialistas dos Estados Unidos começaram a estudar os exercícios aquáticos a fim de minimizar o impacto encontrado nas atividades feitas em sala de aula. Dentre os problemas encontrados nestas aulas, os especialistas puderam reduzir: o impacto, corrigir a execução dos movimentos de alto impacto ou estimular o uso de tênis como efeito amortecedor. A hidroginástica veio como alternativa nesta linha de pensamento. (MARQUES, 1995) Atualmente, a hidroginástica é estudada no mundo todo e futuristas já apontam a água como o meio mais propício para a prática de atividades físicas e juram ser ela o alvo de maiores investimentos no mercado financeiro do fitness para os próximos anos. (MARQUES, 1995) Segundo Krasevec (1985, p. 27), “a hidroginástica tornou-se uma forma popular de exercício entre todos os tipos de pessoas. Algumas sempre praticaram não só ginástica, como várias modalidades de esportes uma vez que pretendem ficar em boa forma física a vida inteira.” A importância da hidroginástica na terceira idade 23 Avaliação É notória em grande parte das academias a falta de comprometimento do profissional do fitness (parte da Educação Física envolvida com a prática de atividades que visam à saúde, e em alguns casos à estética) com a avaliação e a reavaliação de seus alunos. O que seria fundamental para a realização de um trabalho de boa qualidade. A não realização de avaliações e reavaliações, ou falta de critérios durante a execução destas, é um problema que se espalha por todos os desdobramentos da Educação Física, desde os comprometidos com uma abordagem pedagógica, até os que trabalham visando à estética. (MARQUES, 1995) Constantemente, os profissionais da área pedagógica, por exemplo, se confundem na delimitação de critérios ao avaliar um aluno. Este fato leva ao questionamento se ele deve dar um grau ao aluno pela sua performance no desporto (o que não acrescentará muito à vida do aprendiz) ou pela presença na aula (que muitas vezes só é física, ou seja, não há um verdadeiro interesse da criança em aprender alguma coisa naquela aula). No caso a ser explorado neste trabalho (fitness), a avaliação funcional é o recurso mais difundido e utilizado pelos profissionais como meio de coleta de dados para posteriores avaliações. Esta consiste de medidas que descrevem a composição corporal de cada indivíduo, dando valores aproximados do percentual de gordura, de massa muscular, de massa óssea e de peso residual, que compõem o peso total dos mesmos. Este tipo de controle é mais utilizado em indivíduos praticantes de musculação, onde se observa uma maior resposta ao treinamento, em menor tempo. Outras atividades, que provocam efeitos em prazo maior, não têm o seu trabalho enriquecido por este tipo de verificação. Neste contexto surge a hidroginástica, que é assim definida, de acordo com Nogueira (2000, p. 1): Utiliza-se no Brasil o termo “hidroginástica”, para designar de modo genérico uma grande variedade de propostas ou programas de exercícios aquáticos praticados em posição vertical, desenvolvido para o aprimoramento da aptidão física em sedentários, ou ainda elaborados como formas de treinamento complementar à preparação física dos atletas de várias modalidades esportivas. [...] Hidroginástica Segundo Bonachela (1994), a hidroginástica surgiu na Alemanha para atender a um grupo de pessoas com mais idade que precisavam praticar uma atividade física segura sem causar riscos ou lesões às articulações e que lhe proporcionasse bem-estar físico e mental. No Brasil, a hidroginástica apareceu há cerca de vinte anos, teve um crescimento extraordinário e atualmente é bem diferente daquela praticada por seus pioneiros ficando mais dinâmica, ganhando espaço na mídia e abrindo um público heterogêneo, sendo hoje uma das atividades mais procuradas nas academias, clubes, condomínios, etc. Assim como a natação, esta nova modalidade de atividade aquática surge com o propósito de solucionar uma série de problemas até então ignorados por outras modalidades terrestres (como, por exemplo, o alto impacto que era oferecido por algumas destas), e de absorver um público que normalmente era excluído das academias, a terceira idade. (WHITE, 1998) 24 A importância da hidroginástica na terceira idade Porém, o número de pesquisas que surgiram não cresceu muito, o que não possibilitou o surgimento de muitas comprovações sobre a verdadeira eficiência da atividade. Soma-se a isso a difícil acessibilidade da maioria dos professores da área a livros para consulta, dificultando ainda mais o aprofundamento do conhecimento nesta área. Isto tudo possibilitou o surgimento de afirmações que contestavam a verdadeira importância e eficiência da hidroginástica. (SOVA, 1998) É possível exemplificar esta evasão nas turmas de hidroginástica (principalmente em relação ao público mais novo), em estabelecimentos que oferecem atividades físicas diferentes ao mesmo tempo, onde há uma resistência de alguns alunos à aludida prática, por acharem que é um exercício pouco intenso, voltado para pessoas idosas, obesas ou com algum comprometimento físico. Todos esses problemas levaram a uma acomodação quanto à realização de medições periódicas, que possibilitariam avaliações e reavaliações de praticantes de atividades aquáticas. Porém todo este contexto pode ser questionado. Bernado (2001, p.5), após uma pesquisa de três meses, com indivíduos praticantes de hidroginástica relatou que: 52% dos praticantes diminuíram o percentual de gordura e o peso corporal; 26% indicaram aumento da massa muscular por diminuírem o percentual de gordura, embora o peso corporal tenha se mantido o mesmo ou aumentado; 15% aumentaram o peso corporal e o percentual de gordura; e 7 % mantiveram o mesmo peso com discreto aumento no percentual de gordura corporal. Aprofundando-se este tipo de estudo pode-se desmistificar algumas afirmações e preconceitos contra a atividade. Para isso basta escolher e delimitar de maneira mais coesa, métodos que possibilitem uma coleta de dados mais precisa, para que se possa ter uma avaliação com menor desvio da realidade, permitindo uma melhor análise dos dados, e a composição de uma justificativa mais próxima de uma verdade cientifica. Neste momento destacam-se o papel da avaliação funcional, de uma anamnese (para se conhecer os hábitos sociais do indivíduo), uma avaliação e acompanhamento nutricional (para se controlar sua ingesta calórica, não permitindo que esta seja muito baixa, nem muito elevada, o que alteraria a relação das alterações da composição corporal com a hidroginástica). (OTTO, 1987) Sabendo-se que no meio aquático a ação da gravidade não atua sozinha, devido à força de empuxo (que será explicada mais à frente), torna-se notório que ela sofrerá alguma modificação, sendo menor do que fora da água, vale lembrar que quanto maior a profundidade, maior será a força de empuxo, consequentemente a diminuição no peso será ainda maior. Nogueira (2000, p. 7) destaca como vantagens deste efeito: “a agradável sensação de ”alívio de peso” experimentada pelos praticantes dos exercícios aquáticos, o que os torna grandemente acessíveis também às gestantes, obesos ou portadores de deficiências físicas entre outros.” Brandt (2000, p. 11) também cita a diminuição do peso, quando se diz que “muito se tem falado da natação como uma atividade física que proporciona benefícios à saúde. Isso porque, no meio líquido, o peso A importância da hidroginástica na terceira idade 25 corporal é menor, diminuindo, conseqüentemente, as sobrecargas articulares.” Já Nogueira (2000, p. 8), afirma que: “nas aulas de hidroginástica, a menor densidade feminina favorece aquelas atividades que visarão maior amplitude nos movimentos articulares, maior elasticidade muscular e maior grau de descontração e relaxamento físico.” 2. Terceira Idade: A Trajetória de Todos Humanos O envelhecimento é uma preocupação constante do homem em todos os tempos. Em nossa sociedade o homem rejeita o envelhecimento, não se conformando com a sua evidencia. A terceira idade desperta sentimentos negativos, como a piedade, o medo, e o constrangimento. (LEITE, 1996) A imortalidade e a eterna juventude são sonhos míticos do homem. A eterna juventude está sempre relacionada com a felicidade plena. A procura da fonte da juventude é assunto nos mais antigos escritos. A mitologia está repleta de seres imortais e a Bíblia cita com freqüência seres de grande longevidade. (ERIKSON, 1987) Segundo Otto (1987), o termo terceira idade foi criado pelo gerontologista francês Huet, cujo princípio cronológico coincide com a aposentadoria, na faixa dos 60 aos 65 anos, embora as mudanças características já tenham começado a se tornar evidentes mais cedo. O termo “terceira idade” surge para expressar novos padrões de comportamento de uma geração que se aposenta e envelhece ativamente. (OTTO, 1987) Sem dúvida, vivemos em uma realidade altamente perversa, onde o saber se degrada à medida que a tecnologia avança, criando novas possibilidades de conhecimento às quais os idosos não têm mais acesso nem condições para acompanhar. Conclui-se, sem muito esforço, que a nossa sociedade é excludente e autoritária, e que a modernidade fez do homem e, principalmente, do idoso, uma peça descartável no próprio sistema produtivo, impossibilitando-o de desfrutar aquilo que produziu. (CORAZZA, 2001) Essa marginalização do idoso decorrente de ideologias, de preconceitos internalizados e expressos em nossa sociedade e do conjunto de fatores sociais e econômicos produz sentimentos de revolta e impotência, relegando os idosos a um plano secundário na família e na sociedade. (CORAZZA, 2001) O avanço tecnológico da ciência, as grandes descobertas no sentido de debelar e prevenir doenças e os estudos pioneiros da geriatria e gerontologia estão contribuindo para a maior expectativa de vida, através da intervenção no processo do envelhecimento, O aumento dessa expectativa de vida, por um lado, possibilita ao idoso viver mais anos e com melhor qualidade. No entanto, estão sujeitos às dificuldades de adaptação às condições de vida atuais, acrescidas das dificuldades físicas, psíquicas, culturais e sociais decorrentes do envelhecimento. (BARBOSA, 2000) As dificuldades físicas são caracterizadas por algumas perdas nos aspectos sensoriais, de visão e audição que hoje já podem ser corrigidas e compensadas, bem como por algumas doenças, não 26 A importância da hidroginástica na terceira idade propriamente decorrentes da idade, mas em conseqüência de abusos ou ausência de prevenção e hábitos mais saudáveis durante toda a vida. (BARBOSA, 2000) Do ponto de vista psicológico, agudizam-se as consequências dos traumas, das mágoas, e da ausência de afetividade vivenciados desde a infância. As reações, as associações e o reconhecimento dessas situações são mais lentas no idoso, assim como a aprendizagem. No entanto, não significam incompetência. Os idosos necessitam de um tempo um pouco maior para que possam passar do raciocínio ao sentimento. À medida que se avança em idade, a capacidade intelectual vai se tornando mais seletiva, daí se enfatizar que o idoso tem que se manter ativo para continuar produzindo. (BARBOSA, 2000) Os valores culturais que idolatram o novo, o moderno, o jovem e ridicularizam o antigo e o velho, são responsáveis pelos sentimentos de rejeição do idoso à sua própria imagem, diminuindo e mesmo aniquilando a sua auto-estima. (ERIKSON, 1987) Como os idosos, por si só, não têm condições de superar as dificuldades naturais do envelhecimento, porque não foram instrumentalizados para isso, eles se entregam e assumem esses valores cheios de preconceitos como se fossem verdadeiros, colocando-se, eles próprios, à margem da sociedade que, por sua vez, também os marginaliza. Do ponto de vista social, o número de idosos no Brasil vem aumentando de forma acelerada, pois, segundo Massaud (2001), citando os dados do IBGE, no censo de 1980, os idosos correspondiam a 6.06% da população em geral; em 1990 já eram 7.06%, sendo que a estimativa para 2000 é de 8% e, para 2025 é de 15%. Diante dessa realidade, pode-se considerar que a velhice é um fenômeno social, não estando o país preparado para enfrentá-lo concretamente. Finalmente, as atividades de exploração, de fantasia, de imaginação, esportes, criatividade, são todas partes da experiência humana do lazer. O organismo humano sofre profundas modificações com o passar dos anos, uma delas é que, a partir dos trinta anos, começamos a perder massa muscular. O volume dos músculos no organismo vai resultar em menos mobilidade. Uma coisa leva a outra, menos músculos > mais tempo parado > mudança da composição corporal > gordura acumulada > menos qualidade de vida. Esta corrente deve ser rompida. Mantenha-se ativo – praticar algum tipo de atividade física é fundamental – sua saúde é seu maior patrimônio. Não existe idade para começar a se exercitar. (FARIAS JUNIOR, 1997) Um programa de exercícios deve-se iniciar com a procura de um profissional, para juntos estabelecer objetivos e metas a serem alcançados. Não existe a melhor atividade, de uma forma geral, pois a individualidade do aluno deve ser lembrada, o melhor exercício deve ser aquele que traga prazer para seu praticante. O programa ideal é aquele que mistura atividades aeróbias e anaeróbias, a mídia está divulgando a caminhada (atividade aeróbia) como sendo o melhor exercício, sua preocupação está em prevenir problemas cardiovasculares. Se uma pessoa usar somente a caminhada para manter-se ativa pode ser que A importância da hidroginástica na terceira idade 27 ela seja capaz de caminhar longas distâncias, sem perder o fôlego, mas talvez não consiga erguer uma sacola de compras, amarrar seus sapatos ou o que é mais importante carregar seus netos no colo, portanto um programa de exercícios para ser completo deve ter em sua rotina exercícios localizados resistidos. (FARIAS JUNIOR, 1997) A importância do exercício físico no processo de adaptação ao envelhecimento se dá a partir do momento em que este ajuda as condições de saúde e o vigor físico, através de um programa regular de exercícios físicos, o que melhora a força muscular, a coordenação motora, a amplitude articular, ou seja, diminui reduções físicas relacionadas com a velhice. Adaptar-se à aposentadoria é essencial, sendo necessário que o aposentado recoloque as responsabilidades de trabalho em atividades prazerosas, em estados afetivos e de humor, pois o exercício foi associado ao realce dos estados de ânimo, servindo de ajuda para o regresso do estado emocional bem como ao estabelecimento de afiliações com grupos da mesma faixa etária, promovendo relacionamento interpessoal. (SIEGEL, 1975, p. 56) Boa saúde física é a condição básica para ter boa aparência, sentir-se bem e ter reservas necessárias para usufruir uma variedade de interesses. Em conjunto, a saúde física e a psicológica determinam a ocorrência de uma boa qualidade de vida na velhice. Portanto, devemos nos preocupar em oferecer aos idosos meios através dos quais possam associar a longevidade a uma boa qualidade de vida, resgatando assim a sua autonomia. Segundo Nieman (1999), um ingrediente fundamental para o envelhecimento saudável é a atividade física regular. De todos os grupos etários, as pessoas idosas são as mais beneficiadas pela atividade. O risco de muitas doenças e problemas de saúde comuns na velhice diminui com a atividade física regular. A hidroginástica vem crescendo em número de adeptos, principalmente desta faixa etária, já que o ambiente e seu caráter lúdico são o grande atrativo, sendo esta prática física cada vez mais indicada por médicos, amigos, parentes, entre outros. Quando executada com eficiência e segurança, de forma regular, ela melhora componentes do condicionamento físico, tais como: condicionamento aeróbio, força muscular, flexibilidade e composição corporal. Segundo Sova (1998), melhora ainda os componentes secundários como a velocidade, potência, reflexo, coordenação e equilíbrio. Os exercícios de hidroginástica desencadeiam uma série de reações fisiológicas no corpo. O corpo humano reage diferentemente a cada situação de esforço ou contato com o meio líquido. (ROCHA, 2000) Segundo Bonachela (1994), os principais benefícios da hidroginástica para os indivíduos idosos são: melhoria do sistema cárdio-respiratório, aumento da amplitude articular, melhoria da resistência muscular, ativação da circulação sangüínea, melhoria da postura, alívio das dores, diminuição significativa do impacto nas articulações, melhoria do condicionamento físico geral, alívio das tensões do dia a dia, efeito relaxante, além de proporcionar bem-estar físico e mental. De acordo com pesquisas, a participação regular em atividades físicas e sociais tem efeitos que 28 A importância da hidroginástica na terceira idade previnem, excitam e diminuem o estresse, e aumentam a resistência a doenças. Depressão e a inatividade andam juntas. Idosos ativos são mais bem-humorados, têm menos ansiedade e depressão, além de serem mais independentes, autônomos e sadios. Boas condições de saúde física têm um efeito direto e significativo sobre a diminuição da angústia e estão relacionadas a altos níveis de integração social e de auto-estima. (BONACHELA, 1994) A integração social e a atividade facilitam a ocorrência de comportamentos promotores de saúde, tais como, diminuição do consumo de cigarros e bebidas e o aumento da prática de atividades físicas, e levam às mudanças positivas nos estados psicológicos, facilitando a expressão de afeto, auto-estima e controle pessoal. (BONACHELA, 1994). CONCLUSÃO A hidroginástica é uma atividade física ideal para o idoso, desde que praticada com os devidos cuidados e precauções. Quando se trabalha com o idoso deve-se sempre estar atento a suas principais características. Primeiro no sentido biológico, pois sua estrutura está se fragilizando e tornando-se menos ágil. E, em segundo lugar, monitorando sua estrutura psicológica, que se abala devido às mudanças bruscas em sua vida. Geralmente são pessoas sensíveis, carentes, que não possuem o amor da família, sentem-se inúteis por não poder trabalhar, e são desrespeitados pela sociedade em geral, quando na verdade são pessoas que podem ter muita utilidade no sentido profissional, e deveriam ser os mais respeitados, afinal tudo o que já viveram, pode ser passado a outra pessoa menos experiente e trazer benefícios para ambos. As alterações verificadas na capacidade física, anatomo-fisiológica, psicossocial e cognitiva são comuns e evoluem progressivamente, no processo de envelhecimento. Todavia, podem ser proteladas e eliminadas com a prática da atividade física, como a hidroginástica. Além do mais, sua aplicabilidade deve ser moderada, progressiva e com exercícios adequados, atendendo as necessidades individuais e do grupo, de idosos. Em suma, algumas considerações devem ser efetuadas, de forma sistemática e objetiva, a exemplo de: objetivos do programa das aulas, atitudes do educador físico, o local, as propriedades físicas da água, entre outras, aspectos que caracterizarão a hidroginástica e a diferenciarão de outras práticas de atividades físicas, nesta faixa etária. Assim, esta modalidade oferecerá benefícios morfológicos, orgânicos e psicossociais, ao idoso, proporcionando-lhes uma melhor qualidade de vida, tendo, por conseqüência, a longevidade. Enfim, com a prática da hidroginástica ou de qualquer atividade física, a terceira idade se sentirá mais útil, independente, com mais esperança e vontade de viver, mais auto-estima, com maior vitalidade e disposição, tornando-se as pessoas dessa etapa da vida seres mais saudáveis, sociáveis e felizes. A importância da hidroginástica na terceira idade 29 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABORRAGE, A.M. Hidroesporte – treinamento complementar. Londrina: Midiograf, 1997. BARBOSA, Rita Maria dos Santos Puga. Educação física: gerontológica saúde e qualidade de vida na terceira idade. Rio de Janeiro: Sprint, 2000. BERNADO, M. Pesquisa: Modificação física ocorridas nas aulas de hidroginástica. Saúde Total, Rio de Janeiro, n.5, p.5, 2001. BLAN, S. Hipertensão arterial. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1996. BONACHELA, V. Manual Básico de Hidroginástica. Rio de Janeiro: Sprint, 1994. BRANDT, J. Natação = Saúde e Bem-Estar. Saúde Total, Rio de Janeiro, n.7, p.11, 2000. CORAZZA, Maria Alice. Terceira idade & Atividade física. São Paulo: Phorte, 2001. COUNSILMAN, J. Natação ciência e técnica para preparação de campeões. Rio de Janeiro: IberoAmericano, 1980. DUMAZEDIER, Jofre. Indivíduos com hipertensão arterial. ACTA AWHO. v.15, n.1, p.4-9, 1999. ERIKSON, Erik H. Identidade, juventude e crise. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. FARIAS JÚNIOR, Alfredo G. de et al. Atividades físicas para a terceira idade. Brasília: SESI, DN,1997. KRASEVEC, Joseph A. et al. Hidroginástica. São Paulo: Hemus, 1985. LEITE, P.F. Exercício, envelhecimento e promoção de saúde. Belo Horizonte: Health, 1996. MARQUES, Mônica B. Hidroginástica. São Paulo: Fitness Brasil, 1995. MASSAUD, Marcelo Garcia. Natação para adultos. Rio de Janeiro: Sprint, 2001. MAZO, G, Z. Universidade e terceira idade: percorrendo novos caminhos. Santa Maria: Nova Prova, 1998. MOREIRA, Carlos Alberto. Atividade física na maturidade. 3.ed. Rio de Janeiro: Sprint, 2000. NERI, O. A. Clínica médica: os princípios da prática ambulatorial. São Paulo: Atheu, 1993. NIEMAN, David C. Exercícios e saúde. São Paulo: Manole, 1999. NOGUEIRA, L. Fundamentação Profissional em Hidroginástica. Rio de Janeiro: UFRJ, 2000. OTTO, E. Exercícios físicos para a terceira idade. São Paulo: Manole, 1987. PIRES, T.S. A recreação na terceira idade. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002. ROCHA, P.E.C.P. Medidas de Avaliação em Ciências do Esporte. 4. ed. Rio de Janeiro: Sprint, 2000. SIEGEL, S. Estatística não Paramétrica: para as ciências do comportamento. São Paulo: McGraw-Hill, 1975. 30 A importância da hidroginástica na terceira idade SOVA, Ruth. Hidroginástica na terceira idade. São Paulo: Manole, 1998. WESTCOTT, Wayne et al. Treinamento de força para a terceira idade. São Paulo: Manole, 2001. WHITE, M.D. Exercícios na água. São Paulo: Manole, 1998. ZILENOVSKI, A. M. & FREIRE, C. A. R. - Efeito da associação pindolol-clopamida na hipertensão arterial sistêmica. Estudo multicêntrico. - Arquivos Brasileiros de Cardiologia v.37, n.3, p.219-224, 1981. A importância da hidroginástica na terceira idade 31 Iza de Fátima Albuquerque Lima Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] Sílvia Cavalcante Neves Mestranda em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai [email protected] RESUMO: O presente artigo trata do desenvolvimento da criança alicerçado a partir da utilização do jogo. Nela procuramos caracterizar os vários tipos de jogos e de brincadeiras, com o intuito de averiguar a importância dos mesmos para o desenvolvimento cognitivo e cultural da criança que frequenta a educação infantil. Considerando a necessidade de avaliar a importância que o brinquedo e a atividade de brincar tem para o desenvolvimento cognitivo da criança na educação infantil e a dificuldade do setor educacional em perceber essa importância, tornou-se imprescindível enfocar esse aspecto relativo à compreensão do funcionamento social e simbólico do jogo, a sua função social e qual a mensagem que ele transmite, procurando sempre sublinhar o lado pedagógico e cognitivista. Embora muitos autores, partindo de referenciais teóricos diferentes, ressaltem a importância do brinquedo para o desenvolvimento infantil, não se observa na prática a utilização desses recursos. O referencial teórico fundamenta-se nas teorias de Piaget (1978), Vygotsky (1997) e Wallon (1975), que concordam que o jogo desempenha um papel importante no desenvolvimento da criança. Esses autores exercem grande influência nos profissionais que trabalham com educação infantil, por isso torna-se importante a discussão de suas teorias. Procurou-se, ainda, nesse trabalho, enfocar e dar a dimensão exata e real do que seja a atividade de brincar, o que a brincadeira representa e como o jogo ajuda a compor o imaginário e sua representação no universo infantil. Acredita-se, contudo, que com maiores pesquisas na área, chegar-se-á a uma nova metodologia pedagógica, em que todo o processo educativo poderá girar em torno do jogo. PALAVRAS-CHAVE: Ludicidade, educação infantil e cultura. TÍTULO: El juego tradicional: resgate de la cultura popular RESUMEN: El presente artigo trata del desarrollo del niño basado a partir de la utilización del juego. En él, buscamos caracterizar los varios tipos de juegos y bromas, con el intuito de averiguar la importancia de los mismos para el desarrollo cognitivo y cultural del niño que están en la educación infantil. Considerando la necesidad de avaluar la importancia que el juguete y la actividad de jugar tiene el desarrollo cognitivo del niño en la educación infantil y la dificultad del sector educacional en percibir esa importancia, se hizo imprescindible enfocar ese aspecto relativo a la comprensión del funcionamiento social y simbólico del juego, a su función social y cual el mensaje que el transmite, procurando siempre enfocar el lado pedagógico y cognitivista. Además muchos autores partiendo de referenciales teóricas diferentes, resalten la importancia del juguete para el desarrollo infantil, no se observa en la práctica la utilización de eses recursos. El referencial teórico es basado en las teorías de Piaget (1978), Vygotsky (1997) y Wallon (1975), que concuerdan que el juego tiene un papel importante en el desarrollo del niño. Eses autores ejercen gran influencia en los profesionales que trabajan con educación infantil, por eso se hace importante la discusión de sus teorías. Se buscó, aun, en ese trabajo, enfocar y dar la dimensión exacta y real de lo que sea actividad de jugar, lo que la broma representa y como el juego ayuda a componer el imaginario y su representación en el universo infantil. Se acredita, entretanto que con pesquisas más elevadas en el área, llegará a una nueva metodología pedagógica, en que todo el proceso educativo podrá girar en torno del juego. PALABRAS-LLAVE: Ludicidad, educación infantil y cultura. INTRODUÇÃO Nesse trabalho pretende-se expor, através de pesquisa bibliográfica, como a criança poderá desenvolver suas habilidades psicomotoras, sócio-afetivas e cognitivas, fazendo uso do lúdico, o que conduz à análise e sugestões de atividades pedagógicas em sala de aula, utilizando-o como meio de atingir seus objetivos. Trabalhando com o lúdico, a criança aprende a descobrir, indagar e elaborar, pelo seu próprio caminho, a maneira de compreender o mundo e tudo que a cerca. 32 Baseando-se no conhecimento das necessidades, interesses e capacidade de aprender da criança, enumeram-se algumas atividades lúdicas que poderão favorecer o seu desenvolvimento global. Desde que o homem existe na terra, ele sempre criou instrumentos lúdicos e desenvolveu diferentes formas de se expressar ludicamente. Hoje, existem instrumentos lúdicos de vários tipos, já fabricados para atender aos interesses de determinada faixa etária, mas pode não ser esse o tipo mais adequado para a criança em determinados momentos. É valiosa a contribuição do adulto para o brincar da criança. Porém, muitas vezes, por desconhecimento ou desinformação, sua atuação é inadequada. Assim, foi sentida a necessidade de analisar melhor essa relação adulto-criança face ao lúdico. É possível afirmar que pais e educadores ficam perplexos diante desta situação e, frequentemente, desconhecem o processo de desenvolvimento moral da criança, não sabendo, portanto, como auxiliar na estruturação moral infantil. Para que se compreenda melhor o lúdico da criança, na educação infantil, e como ele influi em sua aprendizagem, faz-se necessário que seja focalizado o desenvolvimento desta criança e o significado do lúdico em sua vida. A teoria de Piaget (1978) destaca a importância dos instrumentos lúdicos na construção do conhecimento pela própria criança, pois, além de estimular o desenvolvimento do raciocínio lógico, os instrumentos lúdicos promovem a autonomia, cooperação social, ajudando a superar o egocentrismo. Não se pretende, com essa pesquisa, propor novos métodos de ensino, mas ressaltar a importância do lúdico no desenvolvimento infantil e como ele poderá ser trabalhado em sala de aula. Estamos vivendo uma época de grandes e rápidas transformações e, embora profissionais ainda não tenham se dado conta de que estas transformações atingem diretamente a escola, todos nós estamos conscientes de que é necessário mudar nossa postura em sala de aula, reavaliar nosso papel de professor e pensar sobre a finalidade de tudo aquilo que estamos tentando, muitas vezes, sem sucesso, ensinar aos nossos alunos. Para que se compreenda o momento atual da Educação Física é necessário considerar suas origens no contexto brasileiro, abordando as principais influências que marcam e caracterizam esta disciplina e os novos rumos que estão se delineando. No século passado, a Educação Física esteve estreitamente vinculada às instituições militares e à classe médica. Esses vínculos foram determinantes tanto no que diz respeito à concepção da disciplina e suas finalidades quanto ao seu campo de atuação e à forma de ser ensinada. REFERENCIAL TEÓRICO Baseado nos Referenciais Curriculares Nacionais de Educação Infantil (1988), considera-se que os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento da criança. Portanto, compreende-se o valor e a necessidade da educação qualificada na educação infantil. O principal objetivo da educação é formar pessoas criativas, inventivas, capazes de modificar a forma O jogo tradicional: resgate da cultura popular 33 de viver com outras pessoas, de ser mais livres e felizes. Sabe-se que a criança passa por um processo natural de desenvolvimento, recebendo grande influência do meio ambiente. Esse processo, para sua eficácia, requer um ambiente acolhedor, uma liberdade de ação e estimulação para novas descobertas. O exercício livre das possibilidades físicas e mentais da criança continua sendo a condição indispensável ao seu desenvolvimento tendo, portanto, a educação infantil, como objetivo, o de criar condições para satisfazer as necessidades básicas da criança, oferecendo-lhe um clima de bem-estar físico, afetivo-social e cognitivo, mediante atividades lúdicas que promovam a curiosidade e espontaneidade. (ADRADOS, 1985, p. 12) Vale ressaltar que a característica da atividade lúdica está na atitude da criança durante o lúdico e não no material em si. É a maneira de trabalhar o material que vai influir no seu processo de desenvolvimento e não o fato de possuí-lo. A Educação Infantil tem uma função sócio-educacional específica que é proporcionar o desenvolvimento da criança, valorizando o conhecimento que ela já possui e garantindo a aquisição de novos conhecimentos. Um bom currículo é aquele que articula a realidade sócio-cultural da criança, levando em consideração o conhecimento que ela já tem, seu desenvolvimento, as características próprias do momento em que está vivendo e os conhecimentos do mundo físico e social. (MARCELINHO, 1990, p. 23) Acredita-se ser relevante a participação do lúdico nesse processo educativo, pois é através dele que a criança amplia suas experiências, desenvolve sua capacidade de raciocínio e adquire novos comportamentos. Se for feito um retrospecto na história da educação infantil, observamos que desde o século passado já havia um interesse maior pelo lúdico na educação da criança: Pode-se concluir, portanto, que a educação infantil, utilizando-se de atividades lúdicas e criando situações-problema, poderá ser um ambiente especialmente preparado para fornecer um desenvolvimento harmonioso das habilidades psicomotoras, sócio-afetiva e cognitiva da criança, contribuindo, assim, para o amadurecimento de sua personalidade e incentivando-a para uma vida participativa, questionadora e social. Diferentes autores estudaram a importância do lúdico na vida da criança; porém, todos convergem para um mesmo ponto, quando afirmam que a criança é de natureza lúdica e que brincar, para ela, não constitui perda de tempo, mas uma forma de desenvolver suas próprias habilidades e chegar a um autodomínio, tendo um conhecimento do mundo, através de suas próprias emoções. Trabalhar com o lúdico estimula as funções sensoriais e cognitivas, além de permitir o equilíbrio emocional, pois, vai ao encontro ao interesse da criança e, por meio dele, ela projeta seu mundo interior e passa a melhor conhecer o meio em que vive. Nesse sentido, podem ser considerado tanto como objeto que serve para as crianças brincarem como o próprio jogo, brincadeiras, divertimento, passatempo, folguedo. 34 O jogo tradicional: resgate da cultura popular O folguedo representa para a criança um desafio, um trabalho de construção e criação. Ela quer dominá-lo; quando o faz, cria uma nova forma de usá-lo. Observando-a de posse dos pinos coloridos (jogo de encaixe), nota-se que ela passa horas montando um determinado objeto e, ao terminar, aprecia-o, mostra aos colegas e, logo após, desfaz tudo para tentar uma nova forma ou apenas pelo prazer de exercitar sua capacidade. A partir do jogo de carretel: uma criança de dezoito meses, que apresentava um comportamento “exemplar” (não incomodava seus pais durante a noite e nunca chorava na ausência da mãe), tinha como diversão jogar por sobre o cortinado do berço um carretel amarelo, amarrado num barbante, onde o fazia aparecer e desaparecer várias vezes. Esse lúdico parecia encher-lhe de satisfação”. Essa brincadeira representava, para a criança, um instrumento para compreensão e aceitação da separação da mãe. (KUPFLER, 1992, p. 24) O lúdico permite à criança descobrir novas maneiras de trabalhar seu corpo e adquirir autoconfiança. O desenvolvimento das habilidades de mover-se, em redor do seu mundo, agarrar e manipular com as mãos e pés, está diretamente ligada ao desenvolvimento dos ossos e músculos. À medida que a criança se locomove, vai tendo seu campo de ação ampliado. O conhecimento dos objetos que a circundam decorrerá principalmente das percepções visuais e táteis. Quanto mais ela aguça sua percepção, alcança com mais facilidade os objetos e, assim, vai conhecendo suas próprias possibilidades, ampliando então, seu equilíbrio psicomotor e seu conhecimento do mundo. É através da brincadeira que a criança desenvolve seu processo de integração com outras crianças. Com o lúdico a criança tem oportunidade de dialogar, discutir, criticar, concluir e tomar decisões ajustáveis ao seu meio ambiente. Muitas são as habilidades sociais reforçadas pelo lúdico, tais como, a cooperação, comunicação, competição e redução da agressividade. A atividade lúdica ou o período dos instrumentos Lúdicos de Exercícios ocorre no desenvolvimento sensório-motor, tendo como característica principal a atividade física. Essa atividade começa a ser notada, mais claramente, no terceiro estágio do citado período, quando a criança descobre a possibilidade de balançar objetos colocados no alto do berço. Guy (1987, p. 64), diz que: A atividade lúdica começa nas necessidades nascidas no interior do corpo, depois visa aos objetos do mundo exterior que são os lúdicos. As três fases evolutivas no lúdico da criança: a primeira denominou de Auto-Cósmica, onde a criança está centrada na exploração do seu corpo e dos objetos que estão diretamente relacionados a ela. A segunda chamou de Microesfera, onde há uma aceleração de atividades lúdicas, permitindo à criança abandonar-se na sua fantasia. A terceira fase seria a entrada da criança na escola, onde seu mundo terá agora que ser dividido com outros, é a fase da Macro-esfera. A criança brinca pelo simples prazer da atividade. Nesse período, ao apresentar-se um objeto, de especial interesse, a criança imediatamente estenderá as mãos, tentando agarrá-lo; no entanto ao colocar-se um pano cobrindo totalmente o objeto, ela provavelmente começará a chorar, pois mesmo que saiba onde está o objeto, não consegue resolver o problema de como encontrá-lo e, por isso, não tentará levantar o pano. Mais tarde, através de indícios ou sinais, ela levantará o pano para encontrar o objeto. É interessante notar que, devido sua limitada noção de espaço-tempo, ela não tentará para o deslocamento do próprio O jogo tradicional: resgate da cultura popular 35 objeto, procurando-o, na maioria das vezes, na posição inicial, como se o ato de encontrar o objeto dependesse apenas da própria ação anteriormente bem sucedida. Propõe uma classificação da evolução das atividades da criança que leva em conta ao mesmo tempo a atividade lúdica e o desenvolvimento cognitivo. Essa evolução se inicia com os Lúdicos de Exercícios, quando a criança se encontra na fase sensório-motora, onde se salienta o exercício dos esquemas de ação que promovem a interiorização e o domínio, fundamentais à construção de novas formas de ação. Logo após, vem a fase da intuição, da fantasia, onde se classificam os lúdicos em Lúdicos Simbólicos ou “Faz de Conta”, nos quais uma criança é capaz de representar, em sua imaginação, um fato não compreendido no campo afetivo. Mais tarde surgem os Lúdicos de Regras que são criadas pelo grupo, avaliadas e postos em prática. (OLIVEIRA, 1984, p. 67) No quarto estágio ela já aprendeu a remover um obstáculo para atingir seu objetivo. Ao esconder-se um lúdico que ela deseja, com um travesseiro, por exemplo, chega um momento em que ela esquece o lúdico e afasta o obstáculo, dando gargalhadas. Transfere seu interesse pelo lúdico para a própria ação, independente de seu objetivo. No quinto estágio começa a “experimentação”; a criança tenta novas maneiras de brincar com os objetos ou manipulá-los. No final do período sensório-motor surge a simbolização, quando a criança utiliza-se de um estímulo qualquer como símbolo do que deseja. Segundo Lima (1997), durante essa fase o pensamento da criança se desenvolve da experiência sensório-motora para o juízo intuitivo. Na segunda fase do Jogo Simbólico, entre quatro e sete anos, a fantasia é acrescentada à atividade física. Esse é o período em que a criança usa o lúdico para reproduzir, de forma simbólica, as situações que lhe interessam; através desse “faz de conta”, trabalha uma melhor maneira de compreender situações alarmantes. O terceiro estágio, dos Lúdicos de Regra, também inclui muita atividade física e fantasia; começa aos sete anos. É frequentemente chamado de estágio do banho, porque as crianças já estão mais independentes dos adultos e têm prazer de estar juntas com crianças da sua idade. Ainda se ocupam em situações concretas e o conceito subjetivo do mundo já está cada vez mais seguro e cheio de informações. Alguns autores encararam o lúdico sob o aspecto da realização, do ato de fazer, criar e conhecer. Descreveram o desenvolvimento do lúdico, de acordo com as idades das crianças; demonstrando um aumento de capacidade e enriquecimento das faculdades cognitivas (OLIVEIRA, 2000). No primeiro ano de vida, predominam na criança os lúdicos funcionais ou lúdicos de exercícios. A criança brinca com o próprio corpo, com objetos e, no fim da primeira idade, com algumas pessoas. Mais ou menos aos dois anos e meio, começam os lúdicos de ilusão ou ficção, ou lúdicos simbólicos – estágio do raciocínio pré-lógico. Aqui, elas demonstram tanto o desenvolvimento cognitivo como também o criativo; isto é, o desenvolvimento do desenho e do lúdico. Durante a época do jardim da infância (terceiro ao quinto ano de vida), acentua-se o jogo de representação de papéis e do lúdico de construção. No jogo de representação de papéis, a criança imita ou identifica-se com atividades que vivenciou ou das quais tem notícia através de leitura ou dos meios de comunicação. (LIMA, 1980, p. 45) 36 O jogo tradicional: resgate da cultura popular O jogo típico, para brincar de construir, é a caixa de bloquinhos de construção; sendo também usados mobília, plantas, pedras, areia, terra do jardim, como elementos de lúdico. Não é raro a criança encontrar limites nessas situações, chocando-se com as proibições dos adultos. A criança, na idade da escola primária (6 a 9 anos), é capaz de brincar em grupos. As regras são determinadas de fora ou formuladas pelo grupo. Também o jogo de construção, com frequência, é realizado em conjunto. O lúdico, em grupo das crianças de 10 a 14 anos, é caracterizado pela distribuição das funções. Enquanto a criança pequena imita papéis da vida dos adultos ou se identifica com eles, nessa fase, os papéis se originam na vida comum das crianças mais velhas. Para que a aprendizagem ocorra, o aluno tem que ser visto como sujeito do processo, que age sobre o objeto do conhecimento, neste caso a metodologia tradicional com sua transmissão mecânica das informações e conteúdos, acumulados de geração em geração, suas falhas de exercícios e aulas expositivas, perde o sentido, pois o conhecimento não se dá, de uma vez, mas é um processo contínuo de construção. A Educação Física através do tempo tem sido utilizada como meio de manipulação para manutenção da ordem. Não foram poucos aqueles que viram na Educação Física e Desporto um eficaz instrumento de manipulação e dela vêm se servindo para atender seus objetivos (CASTRO, 1993). A grande maioria dos professores que atua no dia a dia das escolas pode vir exercendo suas atividades sem ter consciência do que está por trás das políticas que permeiam suas práticas (MOREIRA, 1991). Entretanto, os governantes e os mentores das políticas, sobretudo durante os governos de exceção, têm tido políticas bem definidas para a Educação Física e Desporto. Durante o Estado Novo a Educação Física foi utilizada como meio para desenvolver o patriotismo e o civismo. O que se traduzia em doutrinar os indivíduos de acordo com a ideologia oficial e produzir cidadãos leais ao Estado. Outro importante objetivo era a melhoria da raça. Esses objetivos refletiam a influência da Alemanha nazista daquela época (FARIA JÚNIOR, 1984). Platão assim nos escreve: "as crianças devem ser enviadas ao mestre de ginástica para que sendo seus corpos mais fortes obedeçam melhor... e não se tornem fatalmente covardes quer em guerra quer em outras ações, pela fraqueza de seu corpo" (MANACORDA, 1989, p.27). A intenção de Platão explicita a importância da obediência que é sinal de aceitação sem questionamento, que não tem lugar quando o objetivo da educação é a formação do cidadão crítico que tenha capacidade de reflexão. A ordem e a disciplina têm acompanhado a Educação Física. Segundo Cantarino Filho (1982), a Educação Física Escolar brasileira teve seu início oficial em 1851, com a reforma Couto Ferraz, onde se tornou obrigatória a ginástica nas escolas da corte, reforma essa que provocou grande contrariedade nos pais, pois à época todo trabalho físico era associado ao trabalho escravo. Esse fato dificultou em muito a prática da ginástica nas escolas. Apesar da falta de reflexão teórica e de atitude científica que caracterizaram a Educação Física como um todo até poucos anos, houve avanços consideráveis nas áreas de influência biomédica e técnicodesportiva, mas os avanços nesta área tendem a apresentar o professor como um formador de atletas, com tendências elitistas. Deve-se considerar que o processo precisa evoluir, de forma mais conjunta, sendo capazes de formar mentes críticas e conscientes (DARIDO, 1999). Neste sentido, está se direcionando à conquista quanto à capacidade de comprometimento e entendimento de conhecimentos filosóficos. O jogo tradicional: resgate da cultura popular 37 O pensamento pedagógico até o atual momento teve um real significado, pois possibilitou um aprimoramento da prática docente, bem como uma evolução constante na forma de pensar a Educação Física Escolar brasileira. Ao nos interarmos desse pensamento, novas concepções de ensinar, foram internalizadas, propiciando um distanciamento de abordagens de ensino mecânico, pautado nos métodos ginásticos, que objetivam trabalhar o corpo, fragmentando, assim, o direcionamento da Educação Física Escolar, que não pode preterir a influência da mente sobre os comandos corporais. Importante ressaltar que em 1828 foi editado o primeiro livro sobre a educação física no Brasil, tendo como autor Joaquim Jerônimo Serpa. O livro teve por titulo Tratado de Educação Física - Moral dos Meninos. O ano de 1882 foi de uma grande importância para a educação física, sendo também o principal acontecimento do período republicano no assunto: Ocorre o famoso parecer de Rui Barbosa, motivado pela "Reforma do Ensino Primário e várias instituições complementares da instituição pública", que teve um capítulo sobre a educação física. Rui Barbosa, através do seu parecer, mostrou que a educação física “precede as outras formas de educação, sendo a base onde devem repousar os outros princípios”. (MARINHO, 1980, p.162). Por outro lado, segundo Soler (2003, p.26). “Rui Barbosa reforçou o pouco conhecimento a respeito da Educação Física, e como o homem na época era visto em fragmentos”. Sobre este tema, o papel do educador como facilitador dos jogos, das brincadeiras, da utilização dos brinquedos e principalmente da organização dos espaços lúdicos para crianças, de 0 a 6 anos, muito poderia ser dito, mas seria necessário chamar a atenção sobre alguns aspectos considerados importantes para facilitar a relação da criança e do professor nas atividades lúdicas. Dessa forma, o jogo vale como uma ferramenta pedagógica para a contribuição na formação do ser humano, sobretudo no desenvolvimento da inteligência, nos períodos iniciais de vida. Assim, se é na interação com o meio que ocorre uma efetiva construção da inteligência – desde que as estruturas mentais orgânicas responsáveis pelo ato de conhecer se encontrem em boas condições de funcionamento –, o jogo pode ser um instrumental absolutamente útil neste processo de elaboração inteligente do mundo. CONCLUSÃO Para as considerações finais desse estudo, destacou-se a brincadeira como favorecimento para a interação entre as crianças. Diante do desenvolvimento do trabalho, constatou-se a relevância do brinquedo na vida da criança, como função estimuladora de seu desenvolvimento cognitivo. Considerando a escola um meio social de inter-relações, ambiente no qual a criança permanece durante parte do seu dia, nas suas horas de maior apreensão, em seus melhores anos de vida, a realização de atividades prazerosas vai solidificar suas estruturas. A cooperação, que é relacionada à solidariedade e à organização, consegue estabelecer relações humanas, saudáveis ao crescimento e desenvolvimento da criança. O jogo desenvolve um espírito construtivo entre as pessoas e desperta a sua imaginação, tendo seus fins e meios. O espaço e o tempo são agentes a definir suas características. O educador tem nos jogos um forte aliado para desenvolver e fixar conceitos. Seus objetivos tornaramse bem claros e dominados pelo professor, para, então, a sua aplicação no dia a dia ser eficaz. Para a análise e escolha de um jogo é importante que o educador elabore um planejamento, no qual determine as características do jogo e do grupo. Esses registros devem conter: nome do jogo; origem histórica do jogo; materiais necessários para o desenvolvimento da atividade; número de participantes; local disponível e necessário para o 38 O jogo tradicional: resgate da cultura popular bom andamento da atividade; descrição da regra tradicional; interpretação da regra pelo grupo; variações do jogo; objetivos e observações específicas ao roteiro proposto. Além de realizado o diagnóstico do jogo, a ação do professor é fundamental para alcançar e ampliar os objetivos propostos. A criança é concebida como um ser dinâmico que, a todo o momento, interage com a realidade, operando ativamente em objetos e pessoas. Essa interação com o meio ambiente faz com que a criança construa estruturas mentais e adquira maneiras de fazê-las funcionar. É possível que uma grande quantidade de questões tenha sido levantada neste trabalho, mas a mensagem que fica é justamente a de um espaço para uma profunda reflexão a respeito da prática da Educação Física na escola. Reflexão esta que indique um caminho de renovação, afim de que haja condições de, modificando a prática desta disciplina curricular, esta renasça a partir de uma nova visão acerca das atividades corporais na escola, mais crítica e mais humana. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, H.; FROESELER, M.G.V.G. O livro dos jogos e das brincadeiras. Belo Horizonte: Leitura, 1997. CARRAHER, Terezinha Nunes. Aprender Pensando. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1980. CASTELLANI, Lino. Educação Física no Brasil: A história que não se conta. Campinas: Papirus, 1988. CUNHA, Francisco Moacir Rodrigues. Matemática Financeira. Fortaleza: UECE/NECAD, 1998. GUY, J. A educação pelo jogo. São Paulo: Flamboyant, 1987. NEGRINE, Airton. Aprendizagem & Desenvolvimento Infantil: Simbolismo e Jogo. Porto Alegre: PRODIL, 1994. ______. Aprendizagem & Desenvolvimento Infantil: Perspectivas Psicopedagógicas. Porto Alegre: PRODIL, 1994. OLIVEIRA, Barros de Vera. O brincar e a criança de zero a seis anos. Petrópolis: Vozes, 2000. OLIVEIRA, P.S. O que é brinquedo. São Paulo: Brasiliense, 1984. REGO, L.B. A concepção da escrita pela criança. São Paulo: Pontes, 1992. SEBER, Maria da Glória. O diálogo com a criança e o desenvolvimento do raciocínio. São Paulo: Scipione, 1991. STAREPRAVD, Ana Ruth. Matemática Em Tempo de Transformação: Construindo VIANA, Mariza. 1,2,3, meia e ... já: jogos infantis populares. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2004. O jogo tradicional: resgate da cultura popular 39 Antônio Roosevelt Guerreiro Chaves Mestrando em Educação pela Universidad Americana, Assunção - Paraguai. Superintendente de Organização e Informática do Grupo Edson Queiroz. Graduado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Ceará. [email protected] RESUMO: O trabalho aborda as competências identificadas e esperadas dos gerentes de Tecnologia da Informação no sentido de se obter informações relevantes que sirvam de base para um programa de educação continuada. Assim, foi possível fazer uma análise das competências gerenciais que os profissionais antes citados possuem e as que deveriam possuir para favorecer a sustentabilidade da organização. Conclui-se que a sustentabilidade da organização terá maior participação da área de Tecnologia da Informação se for adotada a política de treinamento continuado visando ao aprimoramento das competências dos seus gerentes. PALAVRAS-CHAVE: Tecnologia da Informação, Educação Continuada, Competências Gerenciais. TÍTULO: Identificación de competências atuales y esperadas de los gerentes de tecnologia de información como base para um programa de educación continuada RESUMEN: Esta Investigación tiene por objetivo identificar las competencias gerenciales actuales y las que se esperan, de los gerentes de Tecnologia de la Infomación de las empresas estudiadas, en el sentido de obtener informaciones importantes que sirvan de base a un programa de educación continuada. Los debates se fundamentaron en conceptos y teorías de especialistas en el tema, haciendo hincapié en los principales modelos de gestión estratégica y de gestión de la Tecnología de la Información. La investigación, establecida en un estudio de caso, realizó entrevistas utilizando un cuestionario estructurado con preguntas abiertas y cerradas, formuladas a gerentes de Tecnologia de la Información de un gran grupo empresarial. Por medio de los datos obtenidos fue posible identificar cómo están organizadas las estructuras de los departamentos de Tecnologia de la Información y analizar las competencias gerenciales que los profesionales antes citados poseen y las que deberían poseer para favorecer y mantener el sostenimiento de la referida organización. Se concluye conque el sostenimiento de la organización tendrá mayor participación del área de Tecnología de la Información si se adopta una política de entrenamiento continuado destinada a obtener mejoría en la competencia de los gerentes. PALABRAS LLAVE: Organización. Competencias gerenciales. Tecnología de la Información. Educación continuada. 1. INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA A sustentabilidade das organizações bem sucedidas em um mercado global, onde a conjugação de inúmeros fatores determina a sua permanência ou não, nesse cenário de alta competitividade, depende cada vez mais da eficiência e da eficácia de seus gerentes e especialistas funcionais de suas diversas áreas. A tecnologia da informação (TI), não obstante o fato de oferecer suporte aos diversos segmentos das organizações para esse mister, submete-se também aos princípios de competência, exigindo o alinhamento dos conhecimentos, habilidades e atitudes como base de estratégias agressivas e pró-ativas que podem alterar a perspectiva competitiva de um setor (EFRAIN et al., 2005). Portanto, torna-se de fundamental importância, a identificação das competências inerentes aos principais agentes do processo de transformação das organizações com base na utilização dos recursos de TI. Isso é básico para que se formate uma adequação dos perfis desses profissionais através de um programa de educação continuada utilizando-se diversas formas de 40 qualificação, inclusive, com utilização dos modernos recursos tecnológicos, como por exemplo, a educação à distância. Então seria o caso de se perguntar: qual seria o perfil adequado dos atuais gerentes de TI para enfrentar as constantes modificações de cenários que as inovações tecnológicas nos oferecem, conciliando as obrigações de manutenção do existente com novas implementações ou mesmo substituição das arquiteturas de programas e máquinas? Fica claro que a identificação das competências dos gerentes de TI em conotação com as competências necessárias, aponta para um programa de treinamento para suprir deficiências ou mesmo qualificar com novos conhecimentos para enfrentar os desafios tecnológicos e subjacentes. 2. OBJETIVOS Objetivo geral: Identificar as competências necessárias ao gerente de tecnologia da informação para que possa exercer uma gestão eficiente e que sirvam de base para uma educação continuada. Objetivos específicos: Estudar os principais modelos de gestão de TI; Estudar as premissas sobre as competências gerenciais; Fazer uma abordagem sobre educação continuada. 3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Este trabalho teve seu desenvolvimento baseado em referências teóricas relacionadas com os seguintes assuntos: Estruturas Organizacionais, Gestão Estratégica e Gestão Estratégica da Tecnologia da Informação e as competências inerentes aos gestores dessas tecnologias. Analisando os autores em suas definições sobre planejamento estratégico, é notório o caráter ratificador ou complementar na expressão das idéias. Como exemplo, percebe-se a abordagem voltada para a análise do ambiente de uma organização objetivando prospectar oportunidades e verificar possíveis ameaças, e continuar essa tratativa no sentido de clarificar a consciência de que não se trata de adivinhar o futuro, mas, tão somente, de garantir o sucesso. Ansoff (2001), afirma que esse processo sistemático de tomada de decisões busca o sucesso evitando o máximo de surpresas. Estrada (2007) define seu modelo em quatro etapas – Avaliação, Formulação, Implementação e Aprendizagem – com base nos seguintes pressupostos: relacionamento e interação decorrentes do processo de mudança, monitoramento e retro-alimentação. São muitos os modelos de gestão estratégica descritos na literatura. Vale ressaltar que os modelos citados não são excludentes. O primeiro, Ansoff, estratifica sua idéia em 10 etapas e faz avaliações (internas e externas). As etapas iniciais (quatro fases) servem de base para a definição das etapas finais do modelo. Assim, as demais constituem o eixo do planejamento estratégico, revisionadas pelos estímulos provenientes de avaliações continuadas (internas e externas) juntamente com a sinergia estrutural (recursos internos apropriados para execução dos objetivos). O segundo, o modelo de Estrada, estabelece a retro-alimentação através da interação de todas as fases à luz dos resultados dos indicadores assinalados para tais fins. Entende-se que esse contexto favorece a aprendizagem de modo mais rápido e modular, uma vez que a interação acelera o processo dedutivo dos acertos e dos desvios entre o previsto e o real. Competências Gerenciais: Mills et al (2002), definem competência como uma forma de descrever o quão bem uma empresa desempenha as atividades necessárias ao seu sucesso. Ruas (apud FERNANDES, 2003, p. 11) afirma que competências essenciais “diferenciam a organização no espaço da competição, Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação 41 contribuindo para uma posição de pioneirismo no mercado, enquanto competências funcionais são específicas de cada uma das áreas vitais da empresa”. Competências do Gerente de TI As competências estratificadas em Conhecimentos, Habilidades e Atitudes foram retratadas em formulários fechados e aplicados aos gerentes de TI, seu superior e seus subordinados. O material colhido foi substancial para a comparação entre o que foi identificado como existente em termos de competências, e o que deveria existir para melhor desempenho dos gerentes. Com a utilização de planilhas Excel, foram feitas tabulações comparativas, em classificação ordinal, sendo estabelecido o percentual de 30% como tolerância entre a situação adequada e a real no caso de menor pontuação da última. Através dos gráficos seguintes, têm-se a indicação dos pontos merecedores de atenção, portanto, sugeridos para um programa de treinamento. Gráfico 1. Conhecimentos do Gerente de TI 243 Conhecimento de Engenharia de Software 163 Dominio dos Conceitos de Gestão de Pessoas 227 149 Capacidade de Assimilar Novas Tecnologias e Tecnologias Emergentes 213 158 Dominio dos Conceitos de Planejamento Estratégico de Tecnologia da Informação 204 177 Conhecimento das Práticas, Políticas e Normas Operacionais da Empresa 181 150 181 Conhecimento de Gestão Estratégica 137 Conhccimento da Arquitetura de TI Corrente e Futura 176 101 175 Conhecimento de Técnicas de Negociação 130 167 Conhecimento em Lingua Inglesa 155 Conhecimento em Administração de Empresas 157 137 140 Conhecimento de Técnicas de Liderança 170 Conhecimento em Contabilidade Gerencial 135 102 127 Conhecimento de Legislação Tributária 87 0 50 100 150 Total Possui 200 250 300 Total Deveria Análise: Na análise consolidada dos conhecimentos somente o item técnicas de liderança foi apontada como satisfatória no rol desses atributos. Os demais pontos são passíveis de aprimoramentos por parte dos gerentes, com destaque para engenharia de software, assimilação de novas tecnologias e gestão de pessoas. A rapidez da evolução da tecnologia da informação causa descompasso no processo de atualizações profissionais e conseqüentes aplicações desses conhecimentos, reiniciando a partir daí novo ciclo de qualificações para a permanência no estado da arte. 42 Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação Gráfico 2. Habilidades do Gerente de TI Vender idéias – Persuasão 301 208 Visão de Mercado e Negócio 208 Visão sistêmica 209 Negociação 295 292 290 205 Capacidade de trabalhar sob pressão 277 173 Capacidade de Gestão 252 211 Domínio de Língua Estrangeira 250 179 Capacidade para Tomada de decisões 248 187 Conhecimento de Finanças 248 148 Facilidade de gestão de conflitos 233 193 Raciocínio lógico/matemático 221 167 Capacidade de Resolução de Problemas 211 156 166 Facilidade de relacionamento interpessoal Capacidade de implementar novas idéias 210 157 130 148 Flexibilidade para mudanças 139 Incentivo e Pró – atividade 97 Liderança 0 50 188 165 157 100 150 200 Total Possui 250 300 350 Total Deveria Análise: No contexto consolidado algumas habilidades apresentam-se como existentes superando as indicações de melhorias. Assim, liderança, incentivo e pró-atividade, flexibilidade para mudanças e facilidades de relacionamento interpessoal são os destaques. As demais compõem a relação das habilidades a serem trabalhadas. Gráfico 3. Atitudes do Gerente de TI Paciência 316 174 Dinamismo 267 188 Negociação 252 Organização 260 225 Flexibilidade 265 241 256 249 251 Facilidade de comunicação Noção de Prioridades 245 219 Trabalhar em Equipe 230 211 228 222 Liderança Autocontrole 220 186 Decisão 191 211 187 189 Análise 173 Cumprir ordens e determinações 85 Senso de Responsabilidade 0 50 213,8 136 100 150 Total Possui 200 250 300 350 Total Deveria Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação 43 Análise: Algumas atitudes existentes excederam as expectativas a saber: senso de responsabilidade, cumprimento de ordens e determinações, poder de análise e facilidades de comunicação. No entanto, paciência e dinamismo ficaram muito aquém do esperado, de forma bastante significativa. Os demais itens ficaram aproximados na avaliação “existente” e “deveria existir”. Infere-se que os aprimoramentos dessas características funcionais são resultantes das práticas na utilização de recursos nas melhores relações possíveis de custo versus benefício. _________________________________________________________________________________ COMPETÊNCIAS INDICADAS PARA OS GERENTES DE TI Conhecimentos Habilidades Atitudes Conhecimento de Engenharia de Software Capacitação de Resolução de Problemas Paciência Domínio dos Conceitos de GesRaciocínio Lógico / Matemático tão de Pessoas Capacidade de Assimilar novas Tecnologias Conhecimento de Finanças Arquitetura de TI Corrente e Futura Capacidade de Tomada de Decisões Conhecimento de Gestão Estratégica Domínio de Língua Estrangeira Técnicas de Negociação Capacidade de Trabalhar Sob Pressão Conhecimento em Contabilidade Gerencial Negociação Conhecimento de Legislação Tributária Visão Sistêmica Dinamismo Visão de Mercados e Negócios Vender Idéias-Persuasão Quadro 5: Competências indicadas dos gerentes de TI das empresas estudadas A importância da educação corporativa e continuada na adequação das competências. Identificar as competências existentes e esperadas dos gerentes de TI de uma grande organização se torna importante quando essa organização dá prosseguimento ao processo, incentivando e promovendo a qualificação exigida com visões da empresa e sua posição no mercado. Muito se fala no atual momento na educação corporativa através da iniciativa de empresas que passaram a entender que o conhecimento tem cada vez mais seu prazo de validade reduzido, devido às mudanças velozes do mercado competitivo e globalizado. Borges et al., (2006, p. 150) esclarece que Educação Corporativa é um conceito emergente decorrente das mutações na arquitetura física e estratégia das organizações resultantes da revolução tecnológica. No quadro abaixo esse mesmo autor apresenta os princípios e práticas de sucesso na Educação Corporativa. 44 Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação PRINCÍPIOS E PRÁTICAS DE SUCESSO DA EDUCAÇÃO CORPORATIVA Princípios Práticas Competitividade Obter o comprometimento e envolvimento da alta direção com o sistema de Educação. Alinhar as estratégias, diretrizes e práticas de gestão de pessoas às estratégias do negócio. Implantar um modelo de gestão de pessoas por competências. Conceber ações e programas educacionais alinhados às estratégias do negócio. Perpetuidade Ser veículo de disseminação da cultura empresarial. Responsabilizar líderes e gestores pelo processo de aprendizagem. Conectividade Adotar e implementar a educação “inclusiva”, contemplando o público interno e o externo. Implantar modelo de gestão do conhecimento que estimule o compartilhamento de conhecimentos organizacionais e a troca de experiência. Integrar o sistema de educação com o modelo de gestão do conhecimento. Criar mecanismos de gestão que favoreçam a construção social do conhecimento. Disponibilidade Utilizar de forma intensiva tecnologia aplicada à educação. Implantar projetos virtuais de educação (aprendizagem mediada por tecnologia). Implantar múltiplas formas e processos de aprendizagem que favoreçam a “aprendizagem a qualquer hora e em qualquer lugar”. Cidadania Obter sinergia entre programas educacionais e projetos sociais. Comprometer-se com a cidadania empresarial, estimulando: . a formação de atores sociais dentro e fora da empresa; . a construção social do conhecimento organizacional. Parceria Parcerias internas: responsabilizar líderes e gestores pelo processo de aprendizagem de suas equipes, estimulando a participação nos programas educacionais e criando um ambiente de trabalho propício à aprendizagem. Parcerias externas: estabelecer parcerias estratégicas com instituições de ensino superior. Sustentabilidade Tornar-se um centro de agregação de resultados para o negócio. Implantar sistemas métricos para avaliar os resultados obtidos, considerandose os objetivos do negócio. Criar mecanismos que favoreçam a auto-sustentabilidade financeira do sistema. Princípios e práticas de sucesso da educação corporativa, Éboli, 2004, p. 151. Essas instituições, denominadas de Universidades Corporativas, Faculdades, Institutos ou mesmo, Centros de Educação, tiveram inicialmente seus objetivos baseados nos seguintes pontos, segundo Meister (1994, p. 8). - Vinculação de modo mais estreito dos programas de aprendizagem às metas e resultados estratégicos reais das empresas; e, - Necessidades das empresas em reaparelhar sua força de trabalho. Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação 45 Como se trata da interação Universidade x Empresa, a dinamicidade no surgimento de novos cenários por conta do mercado clama por adaptações rápidas das competências empresariais para que essas possam permanecer no ambiente competitivo. Meister (ibid.) sustenta que essas adaptações são facilitadas pelas Universidades Corporativas e que essas dependem das forças que as mantêm, a saber: Emergência de organizações não hierárquicas, enxutas e flexíveis; Advento e consolidação da economia do conhecimento; A redução do prazo de validade do conhecimento; Novo foco na empregabilidade/ocupacionalidade para a vida toda; Mudança no mercado de ocupação global. Como se observa, a competitividade tem dependência direta da formação dos integrantes das organizações. Isso cria uma vantagem competitiva sustentável através do comprometimento da empresa com a educação e o desenvolvimento dos funcionários. O elo entre a qualificação dos funcionários e a competitividade de uma instituição foi comprovado segundo Meister (2004) por Lester Thuram, Reitor da Sloan School of Management do MIT, quando disse: A educação e a qualificação da força de trabalho será a principal vantagem competitiva do século vinte e um. Motivo: Está surgindo um conjunto totalmente novo de tecnologias que exigirão que o trabalhador médio, seja no setor administrativo ou de produção, adquira qualificações que não eram obrigatórias no passado. Essas qualificações vão além das responsabilidades limitadas de determinado cargo e alcançam um amplo conjunto de habilidades necessárias para que o trabalhador se adapte às novas tecnologias e mudanças no mercado de trabalho. Lester Thuram (apud MEISTER, 1994, p.7). Ainda segundo Meister (ibid., p. 13), existem sete competências básicas no ambiente de negócios que expressam a soma de qualificações, conhecimentos e conhecimentos implícitos para superar o desempenho da concorrência. São elas: Aprendendo a aprender; Comunicação e colaboração; Raciocínio criativo e resolução de problemas; Conhecimento tecnológico; Conhecimentos de negócios globais; Desenvolvimento de lideranças; e, Autogerenciamento da carreira. É importante ressaltar que o projeto de educação continuada deve contemplar o desenvolvimento de qualificações híbridas. Implicam conhecimentos dos negócios globais como atributos subjacentes ao seu domínio técnico, a exemplo de analistas de sistemas. Nesse caso, além de conhecer com profundidade a arquitetura de uma rede estruturada na filosofia cliente/servidor, adiciona em seus conhecimentos proficiência em marketing, comunicações, planejamento estratégico, comunicações além do desenvolvimento de relacionamento com os clientes. Essa formação híbrida e horizontal aumenta a facilidade de interlocução entre os componentes dos mais variados setores, ensejando um ambiente colaborativo que se configura como fator de diferenciação com relação à concorrência. METODOLOGIA Este trabalho foi baseado em revisão bibliográfica e na análise dos formulários aplicados aos gerentes aos subordinados dos gerentes e ao superior dos mesmos. O critério adotado para eleição dos atributos compreendidos pelos conhecimentos, habilidades e atitudes para comporem o conteúdo programático do treinamento, foi resultado de trabalho interno resultante de outra pesquisa. De acordo com sua natureza a presente pesquisa é classificada como qualitativa, vez que busca a compreensão e identificação dos perfis de competências existentes e os desejáveis dos gerentes de TI em uma empresa de grande porte, com extensão no território nacional. A quantificação foi somente para estabelecer a tabulação comparativa. Quanto aos seus objetivos, esta pesquisa caracteriza-se como descritiva, pois objetiva proceder à descrição das características organizacionais das empresas de um grupo empresarial com abrangência em todo o território nacional. Tem seu foco maior no departamento de tecnologia da informação, descrevendo 46 Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação sua estrutura orgânica, seus procedimentos estratégicos e operacionais que suportam as atividades finais das empresas. Culmina com o estudo das competências atuais dos gerentes de tecnologia da informação, em conotação com as que deveriam existir para favorecer o melhor desempenho da organização. No aspecto técnico, classifica-se essa pesquisa exclusivamente como um estudo de caso, vez que procede de uma análise detalhada de um complexo de empresas que executa as atividades gerenciais de tecnologia da informação de forma centralizada com operações distribuídas. A questão da pesquisa assenta-se na obtenção de resposta para a seguinte indagação: Quais as competências presentes e esperadas dos gerentes de TI para favorecer a sustentabilidade da organização estudada? COLETA DE DADOS Para se obter dados é necessário entender que a qualidade dos resultados obtidos depende fortemente da utilização de procedimentos diversos para sua obtenção, e esses resultados devem ser provenientes da convergência ou divergência das observações obtidas de diversos procedimentos. (GIL, 2002). Então, fica claro que o processo de coleta de dados, lançou mão de mais de uma técnica de obtenção dos mesmos. Assuntos como gestão estratégica, modelos de estrutura organizacional, estrutura da área de tecnologia da informação e as competências que os gerentes de tecnologia da informação devem possuir motivaram o autor a buscar uma ampla revisão bibliográfica em livros, artigos científicos, dissertações, teses e artigos eletrônicos. Essas fontes de informações foram utilizadas ao arbítrio das sequências de leituras com destaque para o acervo que normaliza as empresas estudadas, principalmente no que se reporta à área de tecnologia da informação. A população estudada compreendeu todos os gerentes de Tecnologia da Informação das empresas que compõem o conglomerado Edson Queiroz e que atuam corporativamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Identificadas as competências existentes e considerando que o resultado aponta para a necessidade de outros perfis, pode-se dizer que o objetivo geral foi alcançado, já que a análise final dos resultados da pesquisa mostrou que para ser exercida uma gestão mais eficiente da área de TI o projeto de educação continuada se faz indispensável. Quanto aos específicos, constataram-se através da análise dos gráficos apresentados as necessidades de aprimoramentos desses gerentes. Como resultado ficou evidenciado, também, que um programa de educação continuada trará grandes benefícios à organização. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANSOFF, Igor H.; DECLERCK, Roger P.; HAYES, Robert L. Do planejamento estratégico à administração estratégica. São Paulo: Atlas, 1981. BORGES, Jairo E. et al.. Treinamento, desenvolvimento e educação em organizações e trabalho: fundamentos para a gestão de pessoas. ESTRADA, R. J. S. A Eficiência e a Eficácia da Gestão Estratégica: do Planejamento Estratégico à Mudança Organizacional. Revista de Ciências da Administração. Florianópolis: RCA, set-dez/2007, v.9, n. 19, p. 147-178. FERNANDES, B. H. R. et al.. Construindo o diálogo entre competência, recursos e desempenho organizacional. Revista de administração de Empresas. São Paulo: ERA, out-dez/ 2003, v. 46, n. 4, p. 48-65. MEISTER, Jeanne C. Educação Corporativa. São Paulo: MAKRON Books, 1999. Identificação das competências atuais e esperadas dos gerentes de tecnologia da informação 47 Idalina Gonçalves Fernandes Doutoranda em Educação na Universidad del Pacífico, Assunção - Paraguai. [email protected] RESUMO: Este trabalho tem a intenção de abordar o abuso sexual e a violência contra crianças e adolescentes e sua influência no meio educacional. O estudo deste tema foi por vezes difícil, pois é assustador o que se lê sobre abuso sexual e violência, e sobre sua incidência contra crianças e adolescentes. Percebe-se a importância deste assunto ao se observar que o mesmo mostra a realidade direta de um país de extrema desigualdade e exclusão social. As conclusões do trabalho mostraram que a violência e o abuso sexual contra crianças ainda são fatores muito presentes em todas as relações sociais, e que a perpetuação da violência se dá em diferentes instâncias da sociedade, família, instituições governamentais e da sociedade civil, organizada ou não. PALAVRAS-CHAVE: violência, abuso sexual, crianças. TÍTULO: Abuso sexual: violencia contra niños y adolescentes RESUMEN: Este trabajo intenta abordar el abuso sexual y la violencia contra niños y adolescentes y su influjo en el medio educacional. El estudio de este tema fue, por veces, difícil, pues es asustador lo que se lee sobre abuso sexual y violencia, y sobre su incidencia contra niños y adolescentes. Se percibe la importancia de este asunto cuando se observa que el mismo enseña la realidad directa de un país de extrema desigualdad y exclusión social. Las conclusiones del trabajo revelaron que la violencia y el abuso sexual contra niños aún son factores muy presentes en todas las relaciones sociales, y que la perpetración de la violencia se da en distintos sectores de la sociedad, familia, instituciones del gobierno y de la sociedad civil, organizada o no. PALABRAS-LLAVE: violencia, abuso sexual, niños. INTRODUÇÃO Desde o início da carreira na educação percebi que a violência está em todos os segmentos sociais, e a comunidade escolar tem refletido tais acontecimentos, não importa o tipo de comunidade, sua localidade ou seu poder aquisitivo. Isso fez meu interesse pelo assunto aumentar à medida que, mesmo mudando de escolas, percebo que os problemas e a forma de tratá-los são bem semelhantes. No decorrer destes anos tem-se visto famílias desestruturadas, muitos pais ausentes no desenvolvimento de seus filhos, alunos sem apoio familiar para enfrentar os conflitos que surgem na vida e a escola despreparada para trabalhar com situações diversas que ocorrem no dia a dia dos estudantes, e que, de uma forma ou de outra, apresentam-se no cotidiano escolar. Esses foram grandes incentivos para o tema do presente artigo, na medida em que ele mostra o perfil da comunidade escolar, na qual, muitas vezes, estamos inseridos, não percebendo ou fingindo não perceber os problemas ali existentes. Assim, este estudo tem a pretensão de abordar o abuso sexual e a violência contra crianças e adolescentes e sua influência no contexto escolar. Diante deste problema, um dos fatores mais importantes a serem tratados no momento é a definição do que vem a ser a violência e o abuso sexual, para, em seguida, se realizar um estudo sobre a criança e o adolescente. 48 É importante observar que o abuso sexual e a violência deixaram de ser um problema policial, para se tornar um problema social, ganhando cada vez mais espaço nas manchetes da mídia impressa e eletrônica. O estudo deste tema foi, por vezes, difícil, pois é assustador o que se lê sobre abuso sexual e a violência no Estado do Espírito Santo, e sobre sua incidência contra crianças e adolescentes. Percebe-se a importância deste assunto ao se observar que ele mostra a realidade direta de um país de extrema desigualdade e exclusão social. Como se vê, o trabalho a ser apresentado está voltado para a temática da violência no meio educacional, uma vez que no cenário nacional é alto o índice de violência contra crianças e adolescentes. O objetivo nesta análise é compreender os motivos sociais, econômicos, políticos e psicológicos da violência e como ela influencia a vida de crianças e adolescentes; e quais as consequências na formação física e psíquica das pessoas nessas duas fases da vida. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 CONCEITOS INERENTES AO ABUSO SEXUAL A sexualidade é parte de todo ser humano, independente da idade. Crianças da mesma faixa etária apresentam comportamentos e hábitos sexuais parecidos, e, para desenvolvê-los de forma saudável, é preciso seguir etapas. A criança tem esse direito, e o adulto tem o dever de assegurá-lo. Quando a criança vivencia ou conhece atividades sexuais inadequadas para sua idade, seu desenvolvimento pode tornar-se problemático. A situação torna-se mais grave quando o desenvolvimento de uma criança é interrompido por atos de violência, sedução ou coerção. O abuso sexual de uma criança não é apenas a exposição ou relações sexuais em que podem ser envolvidas, mas também os jogos sexuais que estimulam a criança, ou os que se usam para estimulação de outros. Por exemplo, coito, masturbação, carícias, atos exibicionistas, entre outros. Desta maneira, a agressão contra crianças e adolescentes tem vários nomes e formas. Pode ser agressão física ou verbal. Ou, então, negligência, que é quando o responsável se nega a fornecer à criança itens básicos para sua sobrevivência, como comida, casa ou educação. Ainda há a violência sexual, que se manifesta nas formas de exploração sexual comercial (ou prostituição infantil), abuso sexual, pornografia e pedofilia. Estatísticas sobre abuso infantil são difíceis de conseguir, e, muitas vezes, imprecisas. A maior parte desses crimes não chega ao conhecimento das autoridades, pois, sendo a vítima uma criança, tem pouca ou nenhuma capacidade de resistência. Segundo o Laboratório de Estudos da Criança (LACRI), da Universidade de São Paulo, apenas 2% dos casos ocorridos dentro das famílias são denunciados à polícia. Uma pesquisa feita por entidades que trabalham em parceria com o Ministério da Justiça mostra que, a cada oito minutos, uma criança brasileira é vítima de abuso sexual, isso totaliza 60 mil crianças por ano, sendo que 80% das vítimas são meninas entre 2 e 10 anos. Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 49 Cabe neste sentido uma menção importante que se refere ao fato de que: A exploração sexual também se fortalece da falta de compromisso do Estado, que não cumpre seu papel de garantir os direitos fundamentais da população infanto-juvenil. O Estado não formula políticas públicas de proteção, defesa e promoção da infância (BARBOSA, In: UNESCO, 1999, p. 29). Ao nível do senso comum, pode-se dizer que o abuso sexual ocorre quando existe um jogo, ou até mesmo o ato sexual, entre pessoas de sexo diferente, (ou de mesmo sexo), em que o agente abusador já tem experiência, e visa à sua satisfação sexual. Estas práticas geralmente são impostas às crianças ou adolescentes, através de violência física, ameaças, ou, em alguns casos, induzindo-as, convencendo-as através do uso de violência ou ameaça. De acordo com a UNESCO: O abuso e a exploração sexuais são atos de violência contra crianças e adolescentes. São transgressões dos direitos humanos e da liberdade sexual. Nestes casos, a sexualidade não é fonte de reprodução da espécie humana, tampouco de prazer. Não é praticada na forma de relações bilaterais e legítimas. Ao contrário, manifesta-se como instrumento de perversão, coação e coerção. Tais atos atentam contra a dignidade (BARBOSA, In: UNESCO, 1999, p. 35). No abuso sexual, a criança é despertada para o sexo precocemente, de maneira deturpada, traumática, ficando com marcas para o resto da vida, podendo desenvolver comportamentos patológicos como aversão a parceiros do mesmo sexo do abusador ou, por outra, promiscuidade e uma sexualidade descontrolada, entre outros. Ao ser abusada sexualmente, a criança é desrespeitada como pessoa humana, tem seus direitos violados, e o pior: na maioria das vezes, isso ocorre, dentro de seu próprio lar, por quem tem a obrigação de protegê-la. As marcas, as consequências do abuso sexual podem ser físicas ou psicológicas. Geralmente ficam as duas modalidades. O sexo oral é uma forma de sexo muito utilizada pelos abusadores, e propaga doenças sexualmente transmissíveis, da mesma forma que o sexo vaginal e anal, o que também significa risco de contaminação pelo vírus da AIDS. Já no abuso sexual sem contato físico, alguns abusadores se limitam a olhar suas vítimas trocarem de roupa, tomar banho, etc. É o "voyeur". Há o tipo de abusador que expõe os órgãos sexuais para suas vítimas. Este tipo de desvio comportamental tanto acontece na rua, como em casa. É o "exibicionista". Alguns abusadores vêem fitas e revistas pornográficas com suas vítimas, alegando que precisam "ensiná-las", despertando sua sexualidade de uma forma precoce e deturpada. Às vezes, nestes casos, o abusador chega a manter contatos mais íntimos, sob a desculpa de que "está apenas ensinando" a vítima, ou acontece ainda com frequência, que o abusador "pague" a criança com dinheiro ou com doces, dê presentinhos, para que ela permita que ele a toque intimamente, abuse de seu corpo de diversas formas.Essa modalidade de abuso é mais utilizada nas comunidades de baixa renda. 50 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes O abuso sexual acontece quando alguém (geralmente um adulto) usa uma criança ou um adolescente para se satisfazer sexualmente. Essa satisfação sexual pode se dar por intermédio de várias modalidades. O abuso sexual geralmente é praticado com o uso de violência física, ou de ameaças, no entanto, em algumas ocasiões, é usado o "carinho", para convencer a vítima a permitir o abuso - como se fosse um "segredo" do adulto e da criança. Quando manipulada, através do abuso sexual, a criança é despertada para o sexo de maneira inadequada, ficando com marcas psicológicas para o resto da vida. O pior é que, muitas vezes, quem abusa é quem tem a obrigação de protegê-la. A base internacional de toda a legislação específica referente ao abuso sexual tem como referência os seguintes documentos: Declaração sobre os Direitos da Criança, ratificada em 26/9/1923, em Genebra; Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela ONU, em 1948, Segunda Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada em 1959; Convenção sobre os Direitos da Criança de 1989, Declaração de Viena de 1993. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu as plenas garantias do Estado de Direito, definindo a proteção à família e estabeleceu que as crianças e adolescentes são sujeitos de direito (artigos 226 e 227). O ECA (Lei 8069, de 13 de julho de 1990) detalha os direitos da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, estabelecendo todo um sistema de garantia de direitos e da proteção integral e integrada da criança e adolescente. “O ECA é um dispositivo jurídico que propõe garantir a integridade física e mental de crianças e adolescentes mediante a compreensão do vêm a ser maus-tratos, preservando a vida e intervindo nas famílias e instituições que ameacem a formação de um cidadão (PASSETTI et al., 1995, p.50). A Lei 8022 de 25/7/90, dos crimes hediondos, alterou o artigo 263 do ECA, no caso das penas impostas aos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, conforme mostra o quadro abaixo, elaborado pela Secretaria dos Direitos da Cidadania, trazendo a legislação relativa à exploração, abuso sexual e maustratos de crianças e adolescentes. O Estatuto da Criança e do Adolescente - Artigos da Lei nº 8069/90 estabelece em seus artigos que: Art.7º. A criança e o adolescente têm direito à proteção à vida e à saúde; Art. 15º. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas; Art. 16º. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação; VII - buscar refúgio, auxílio e orientação. Art. 17º. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais. Art. 18º. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor. As leis e os programas, supostamente destinados a zelar pelas crianças e adolescentes, a atacar o Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 51 problema da prostituição e os maus tratos, diversas vezes atingem somente homens e mulheres que induzem crianças e adolescentes a atos sexuais. Com isso, ao invés de proteger aqueles que são forçados ou fraudulentamente induzidos à prostituição, muitas leis protegem homens das “más prostitutas”, enquanto que são ignoradas organizações criminais que traficam meninas e mulheres e agências turísticas que promovem e exploram o sexo. Na prática da supressão da prostituição, as mulheres prostituídas é que são presas e penalizadas, em vez dos homens que as exploram. Na verdade, a relutância das crianças prostituídas em colaborar com a investigação policial, por medo de retaliação do submundo ou de perseguição, é um obstáculo maior para o cumprimento das leis que poderiam ser usadas para protegê-las. Por fim, o que foi dito sobre a aplicação discricionária da lei, a sedução do dólar do turista, a baixa remuneração dos oficiais de aplicação da lei e os poucos recursos das forças policiais são poderosos incentivos para desvirtuar a administração da Justiça. 1.2 CARACTERIZAÇÃO DO ABUSO SEXUAL O abuso sexual compreende uma série de situações como o “voyerismo”, a manipulação da genitália, a pornografia, o exibicionismo, o assédio sexual, o estupro, o incesto e a prostituição infantil, dividindo-se em dois tipos básicos: abuso sexual sem contato físico e abuso sexual com contato físico. Em relação ao abuso sexual sem contato físico, destacam-se: - abuso verbal: conversas abertas sobre atividades sexuais destinadas a despertar o interesse da criança ou do adolescente ou a chocá-los. - telefonemas obscenos: a maioria é feita por adultos, especialmente do sexo masculino, podendo gerar ansiedade na criança, no adolescente e na família. - exibicionismo: a intenção, neste caso, é chocar a vítima. O exibicionista é, em parte, motivado por esta reação. A experiência pode ser assustadora para as vítimas. - voyeurismo: o voyeur obtém sua gratificação através da observação de atos ou órgãos sexuais de outras pessoas, estando normalmente em local onde não seja percebido pelos demais. A experiência pode perturbar e assustar a criança ou adolescente (MONTEIRO FILHO E ABREU, 1997, p. 8). Quanto ao abuso sexual com contato físico evidenciam-se: - atos físico-genitais: incluem relações sexuais com penetração vaginal, tentativa de relações sexuais, carícias nos órgãos genitais, masturbação, sexo oral e penetração anal. - sadismo: abuso sexual incluindo flagelação, tortura e surras. - pornografia e prostituição de crianças e adolescentes: são essencialmente casos de exploração sexual visando fins econômicos (FILHO E ABREU, 1997, p. 9). Outras formas de abuso sexual podem ser destacadas como: - pornografia: é uma forma de abuso sexual da criança ou do adolescente cujo objetivo, muitas vezes, é a obtenção de lucro financeiro. Crianças ou adolescentes de 3 a 17 anos são 52 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes utilizados no papel de atores/atrizes ou modelos em vídeos, fotografias, gravações ou filmes obscenos. - prostituição infantil: é definida como a utilização ou a participação de crianças ou adolescentes em atos sexuais com adultos ou outros menores, onde não está necessariamente presente a utilização da força física, mas pode estar presente outro tipo de força como a coação. - estupro: do ponto de vista legal, estupro é a situação em que ocorre penetração vaginal com uso de violência ou grave ameaça, sendo que, em crianças e adolescentes de até 14 anos, a violência é presumida. - atentado violento ao pudor: é constranger alguém a praticar atos libidinosos, sem penetração vaginal, utilizando violência ou grave ameaça, sendo que, em crianças e adolescentes de até 14 anos, a violência é presumida, como no estupro. - incesto: é qualquer relação de caráter sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente, entre um adolescente e uma criança, ou ainda entre adolescentes, quando existe um laço familiar, direto ou não, ou mesmo uma mera relação de responsabilidade. - assédio sexual: caracterizado por propostas de contato sexual, quando é utilizada, na maioria das vezes, a posição de poder do agente sobre a vítima, que é chantageada e ameaçada pelo agressor (MONTEIRO FILHO E ABREU, 1997, p. 11). É importante informar que o profissional de saúde, assim como outros profissionais e pessoas envolvidas com crianças e adolescentes, devem estar atentos para identificar os casos de abuso sexual em que há evidência de violência física, como também aqueles em que não há marcas. O envolvimento de membros da família no abuso sexual pode dificultar a identificação da agressão. A ameaça de um processo criminal envolvendo a família e o profissional como testemunha pode contribuir para que o abuso sexual não seja revelado. Outras dificuldades também podem surgir dos tabus sexuais manifestados pelos profissionais, assim como pela população em geral. Portanto, o abuso sexual pode ser identificado por lesões físicas, hematomas, ruptura do hímen, equimoses, marcas de mordidas, lacerações anais e outras. QUADRO I Identificação de abuso sexual em crianças e adolescentes INDICADORES COMPORTAMENTO - Infecções urinárias; - Dor ou inchaço na área genital ou anal; - Lesões e sangramento; - Secreções vaginais ou penianas; - Doenças sexualmente transmissíveis; dificuldade de caminhar; - Baixo controle dos esfíncteres; - Enfermidades psicossomáticas. - Comportamento sexual inadequado para a idade; - Falta de confiança em adultos; - Fugas de casa; - Regressão a estado de desenvolvimento anterior; - Brincadeiras sexuais agressivas. - Vergonha excessiva e alegações de abuso; - Ideias e tentativa de suicídio; - Auto-flagelação. CARACTERÍSTICAS DA FAMÍLIA - Ocultação frequente do abuso; - Possessividade, negando à criança contatos sociais normais. - Acusação à criança de promiscuidade, de sedução sexual e de ter atividade sexual fora de casa. - Crença de que contato sexual é forma de amor familiar. - Alegação de outro agressor para proteger membro da família. Fonte: DESLANDES, Suely Ferreira. Prevenir a Violência. Rio de Janeiro. Setembro de 1994. Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 53 A realidade constatada na trajetória da pessoa que sofre abuso sexual é bastante angustiante, conflitiva, acarretando consequências que deixam marcas tanto sociais quanto psíquicas. Socialmente, é possível pensar o abuso sexual sob dois enfoques: o da revelação e o da não-revelação deste abuso. A revelação, por vezes, traduz-se para a família e/ou para o meio social como um fato inventado, ou produzido, e há o descrédito. Pode haver, também, a culpabilização seguida de rejeição por parte da família, amigos do bairro, da escola e colegas de trabalho. Mees (2001, p.61) mostra que, habitualmente, isso é percebido de duas formas: Negação: a violação é negada e tida como loucura. É preciso negar, corrigir a mentira e muitas vezes a vítima tende a confessar que inventou tudo aquilo; Agressividade de interrogatório: questionam tudo o que aconteceu com perguntas indiscretas e tiram conclusões próprias. No caso do abuso sexual intra-familiar, a revelação pode, ainda, desencadear a separação dos membros da família. A criança/adolescente, em muitas situações, é retirada do convívio familiar. Também se o envolvido no abuso é o pai, há afastamento, muitas vezes, mediante prisão. A família, em alguns casos, perde a pessoa que supre as necessidades básicas do grupo e enfrenta sérias dificuldades em dispor de meios para a sobrevivência. Há a desagregação familiar, a estigmatização, o isolamento. De acordo com Monteiro Filho e Abreu (1997), alguns comportamentos que podem ser observados em crianças ou adolescentes abusados sexualmente são: - altos níveis de ansiedade imagem corporal distorcida baixa auto-estima sentimentos de menos-valia distúrbios no sono (sonolência, pesadelos) distúrbios na alimentação (perda ou excesso de apetite) enurese noturna (urinar na cama) distúrbios no aprendizado comportamento muito agressivo, apático ou isolado comportamento extremamente tenso, em “estado de alerta” regressão a um comportamento muito infantil tristeza, abatimento profundo comportamento sexualmente explícito (ao brincar, demonstra conhecimento inapropriado para sua idade) masturbação visível e contínua, brincadeiras sexuais agressivas relutância em voltar para casa ausência à escola por vontade dos pais faltas frequentes à escola não participação nas atividades escolares, existência de poucos amigos não confiança em adultos, especialmente os que lhe são próximos ideias e tentativas de suicídio auto-flagelação fugas de casa dificuldades de concentração choro sem causa aparente hiperatividade comportamento rebelde No âmbito social a não-revelação, aparentemente, nada acarreta, e quando o abuso sexual é intra- 54 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes familiar, a família permanece em seu funcionamento; se organizada, mantêm-se; se desestruturada, também não se altera; cada um vive um papel, tem uma função. O abuso tende a perpetuar-se por anos seguidos e há casos em que apenas troca-se uma filha por outra, quando o abuso se dá na relação pai x filha. No tocante ao abuso praticado por alguém que não pertence à família, ou seja, abuso sexual extra-familiar, a família denuncia e submete-se a um percurso doloroso e desgastante, não só para quem sofreu o abuso, mas para todos os que se incluem no núcleo familiar. O que ocorre com certa frequência é que, na iminência de se vivenciar toda sorte de conflitos – culpa, estigmatização, rejeição e abandono – a pessoa que sofreu o abuso, seja dentro da família ou extrafamiliarmente, acaba por retratar-se socialmente, negando o fato. Pensa na perspectiva de retomar sua vida, ainda que seja preciso submeter-se internamente, mas que esta condição não se reverta em marcas e consequências sociais que acusam, segregam, punem e condenam. Monteiro Filho e Abreu afirmam que: O abuso infantil fornece a ambos, meninas e meninos, informações errôneas sobre relacionamentos entre adultos e crianças. Uma relação envolvendo abuso sexual entre um adulto e uma criança - ou adolescente - é baseada em um poder e conhecimento desiguais. À medida que estas crianças crescem, percebem que sua confiança e seu amor foram traídos. Consequentemente, pode ser difícil para elas voltar a confiar em alguém, e isso pode gerar problemas em seus relacionamentos na vida adulta (1997, p. 27). A segregação, a rejeição e a estigmatização destas pessoas, por várias vezes, as colocam no isolamento, há o afastamento do meio social, dificuldades nas relações e no convívio com outros indivíduos. Por outro lado, as condições acentuadamente precárias, a ausência de recursos para sobreviver, a falta de respaldo e/ou retaguarda familiar e social, em muitos casos, induzem-nas à prostituição, à promiscuidade. Se a revelação desencadeia tantas consequências que se tornam penosas para a pessoa que sofreu o abuso e sua família, também abre a possibilidade do tratamento terapêutico, visando a mudanças importantes na dinâmica e na história afetiva e social destas pessoas e suas respectivas famílias. O que é inviável, quando a revelação não acontece, nada se altera, quem é submetido ao abuso permanece como depositário das disfunções internas da família e/ou da sociedade, sofre, retrai-se do convívio social, e, indubitavelmente, carrega em sua vida danos tanto psíquicos quanto sociais. 2. DISCUSSÃO 2.1 CONVERSANDO COM PAIS E EDUCADORES: PREVENÇÃO DE ABUSO SEXUAL INFANTIL Se observarmos, detidamente, os meios de comunicação (jornal, televisão) apenas nos informam acerca dos monstruosos acontecimentos. Claro! O que dá IBOPE. O nosso grande objetivo neste artigo é o de informar, dar instruções, orientações aos pais e educadores, quanto à forma de como identificar uma criança ou adolescente que foi molestado sexualmente. Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 55 Segundo as estatísticas, deparamos com um índice muito elevado no Brasil e no nosso Estado de (pedófilos e molestadores sexuais). Portanto, o que temos a fazer no momento é saber orientar, nossos filhos e alunos, em como se livrar desses monstros e evitar cair nas garras deles. Cabe ao governo informar, divulgar nos meios de comunicação, montar programas educativos, não só para as escolas, mas também para as comunidades, de um modo geral, repassando para os pais a forma correta de denunciar, o amparo legal dentro da Constituição e do Estatuto do Menor e do Adolescente e dar a estas famílias apoio moral, social e principalmente psicológico para a criança que passou por um terror. Por esta falta de informações, de capacitação para os educadores, ao depararmos com um acontecimento desses, ficamos chocados, apavorados, sem ação; e as famílias muitas vezes ficam até agressivas com a criança que passou por tamanha brutalidade, duvidando, não acreditando. Acha que é invenção, que é pura imaginação. Esse tipo de reação dos pais é inaceitável. Jamais devemos desacreditar na fala de nossos filhos. Deveremos, sim, conversar com eles, questionar ao máximo e buscar mais informações fora do ambiente familiar, se for o caso. Tal atitude da família, diante do acontecido, é insensata: ela não tem do que se culpar. O que não pode é acontecer a omissão, ou até o protecionismo, no caso desse monstro ser o pai, o padrasto, o avô, o tio, o vizinho, um grande amigo da família e, ou até mesmo o amante de um dos cônjuges. É imprescindível denunciar mesmo, não importa a situação social, não tem que ter vergonha de colocar um monstro desses na cadeia, tem que se preocupar é com o bem-estar social e principalmente psicológico dessa criança. 2.2 INSTRUÇÕES PARA IDENTIFICAR UM PEDÓFILO OU UM MOLESTADO SEXUAL PEDÓFILO Segundo os grandes estudiosos, pedofilia é a perversão sexual na qual a atração sexual de um adulto ou adolescente está sendo dirigida a uma criança. Pedofilia é um distúrbio psicológico de desvio de conduta sexual do ser humano, onde ele (a) sente compulsivamente desejos de caráter homossexual ou heterossexual. Sente grande atração, especialmente por crianças, adolescentes do mesmo sexo ou sexo oposto. Esse tipo de distúrbio não só acontece com homens, acontece também com mulheres. Um pedófilo não é só adulto, também os adolescentes entre 15 e17 anos podem ser classificados como pedófilos (se molestarem crianças mais novas do que eles 5 anos). Normalmente esses maníacos são doentes e têm um grau muito elevado de lesão no desenvolvimento da sexualidade e da sua personalidade. Julgam-se inferiores, incapazes e impotentes sexualmente. Diante dessas disfunções, eles procuram realizar suas fantasias, seus prazeres sexuais, se autoafirmam, usando crianças e adolescentes, pois, com crianças/adolescentes em seu poder, sentem-se mais seguros, poderosos, controladores da situação. Autoafirmam-se diante de crianças/adolescentes, pois o olhar infantil – angelical – desperta neles a excitação, a fragilidade insegura de sua própria identidade sexual. 56 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes A partir do momento em que os desejos sexuais de se relacionar com crianças/adolescente ultrapassem a barreira de desejos para o âmbito do contato físico direto, carícia, deixa de ser pedofilia, passa a ser abuso sexual. O abuso sexual constitui um comportamento sexual totalmente inadequado. Nessa circunstância, já se fazem toques nos órgãos genitais da criança/adolescente, leva-se a criança/adolescente a acariciar seus órgãos genitais, faz-se sexo oral, anal, relação sexual e até estupro. Como as crianças são ingênuas, indefesas, medrosas e ficam envergonhadas com o acontecido, ao terem consciência do que estão sofrendo, constitui, na maioria dos casos, uma covardia deste “ser humano” a prática desse ato, ou seja, essa bruta violência ocasionada por esse “monstro”. 2.3 SINAIS DE ABUSO SEXUAL Normalmente, a criança/adolescente que sofreu abuso sexual, sente-se humilhada, envergonhada, fica apática, triste e, às vezes, até agressiva. Se já é uma criança em idade escolar, consequentemente seu rendimento, quanto à aprendizagem, cai. Dependendo do relacionamento com seus pais, essa criança/adolescente não informa nada do acontecido. Ela fica com medo, com vergonha e prefere contar para um coleguinha ou para a professora. Algumas dicas a serem observadas, para descobrir se o filho (a) foi ou está sendo abusado sexualmente: - Observe as atitudes, o comportamento de seu filho (a), (caso verifique alterações, sente-se com ele (a), converse e busque o maior número possível de informações). - A criança que está constantemente amuada pelos cantos da casa, que só quer ficar deitada, que está choramingando constantemente, deve ser investigada. - Se reclama de dores na hora do banho ao lavar seus órgãos genitais, chora na hora de fazer xixi, está mancando ao andar, está sempre de perninhas abertas e está com a mãozinha constantemente nos seus órgãos genitais. Observe se não há sangramento em roupas íntimas. - Quanto às crianças em idade escolar, observe a sua forma de falar, de expressar o seu comportamento em relação às atitudes sexuais. - Observe e investigue as colocações das crianças, quanto a medo de alguém ou de lugares. - Fique atento quanto ao uso de drogas e atividades sexuais precoces. Outro ponto de destaque é o fato de como se precaver para evitar que o filho (a) seja molestado sexualmente: - Seja a melhor amiga de seu filho (a). - Ouça atentamente todas as suas colocações e acredite nele (a). Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 57 - Investigue tudo o que ele (a) lhe contou. - Responda na íntegra todas as suas perguntas, satisfazendo as suas curiosidades. - Oriente para não aceitar presentes (balas, bombons, dinheiro, carona e não ir a lugar nenhum com pessoas estranhas e principalmente sem a sua autorização). - Oriente seu filho (a) quanto às boas maneiras, bom comportamento, tratamento com respeito os adultos e principalmente estranhos. (nada de beijos, abraços, sentar no colo, nada de intimidades...). O Lobo Mau pode estar mais próximo do que acreditamos. (avô, tio, vizinho, amigo, padrasto ou até o próprio pai). - Oriente seu filho (a) para fugir desse tipo de pessoas muito carinhosas e que procuram sempre estar perto das crianças e longe dos adultos. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo permitiu verificar que a violência é uma ação direta ou indireta, destinada a limitar, ferir ou a destruir as pessoas ou os bens. Ela não consiste apenas em agressão física, mas em toda ou qualquer violação do desenvolvimento psicossocial do indivíduo. Neste sentido, a violência não é apenas o ato extremo do homicídio, mas também a negligência familiar e/ou governamental no que tange à educação, saúde, lazer, alimentação e ao respeito à individualidade. Com a realização do trabalho foi possível também constatar alguns fatores responsáveis pela atual situação de violência, destacando-se, entre eles: os fatores sócio-econômicos; os fatores institucionais; os fatores culturais; a demografia urbana e a mídia, que, com seu poder, colabora para a apologia da violência. O estudo permitiu concluir que tem crescido o número de crianças e adolescentes vítimas de assassinatos, em grande parte provocados por traficantes envolvidos com o uso de drogas. Pode-se concluir, ainda, que crianças e adolescentes que crescem em um ambiente onde o padrão de sociabilidade é a violência não saberão como se expressar de outra forma. Essas crianças provavelmente farão parte do mesmo ciclo de seus pais e avós, perpetuando relações familiares – e sociais em geral – baseadas na agressividade e na imposição arbitrária da vontade dos mais poderosos. Além de ser um fato histórico, podem-se citar diversos fatores que estimulam a violência tais como a desigualdade social, a falta de políticas sociais, a ineficiência do governo, entre outros, que contribuem para que ela seja mantida. Esses fatores permanecem impulsionando uma parcela da população à marginalidade, pela privação das condições mínimas de sobrevivência, e essa privação resulta em um comportamento violento: o indivíduo não encontra condições que favoreçam seu bem-estar social e vê-se no direito de retirar do outro o que o Estado deveria lhe proporcionar. Com todos esses cuidados e orientações dadas adequadamente, caso venha a acontecer de um 58 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes monstro tocar, molestar seu filho (a), não se culpe, procure os órgãos competentes imediatamente e faça a denúncia. Diante das informações acima, não poderíamos deixar de lembrá-los que em nosso País, em nosso Estado e em nosso Município, existem leis bem elaboradas e que também nossas crianças/adolescentes têm mais um amparo legal que é o Estatudo da Criança e do Adolescente, e que o grande objetivo dele não e só o de proteger nossas crianças/adolescente, mas principalmente combater e até punir o pior crime do nosso País: a Pedofilia e o Abuso Sexual. Contudo, infelizmente, com todos esses amparos legais, a maioria desses monstros fica impune. Mas, a nossa grande preocupação, enquanto educadora, é a sequela que essa criança vai carregar para o resto de sua vida. O monstro vai para a cadeia e o acompanhamento psicológico da criança/adolescente ou até da família é também amparado por lei. REFERÊNCIAS BARBOSA, Hélia. “Estupro não é apenas crime moral”. CEDECA/BA abril de 1996. ______. Abuso e exploração sexual de crianças: Origens, Causas, Prevenção e Atendimento no Brasil. In: Inocência em Perigo: abuso sexual de crianças, pornografia infantil e pedofilia na Internet Rio de Janeiro: UNESCO / Garamond, 1999, p.24 - 41. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN: arte/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. BRASIL, Ministério da Educação. Leis de diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei nº 9394/96. Brasília: MEC/SEF, 1989. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Brasília, MEC, 1989. MEES, Lúcia Alves. Abuso sexual: trauma infantil e fantasia feminina. Porto Alegre: Artes e Ofícios. 2001. MONTEIRO FILHO, Lauro e ABREU, Vânia Izzo de. Abuso sexual com crianças e adolescentes: ABRAPIA. 2. ed. Petrópolis: Autores Associados, 1997. PASSETTI, E., Genta, E. R., Solazzi, J. L., Lazzari, M. C., Lossurdo, M. M. C., Silva, R. B. D. da, & Oliveira, S. M. de. (1995). Violentados: crianças, adolescentes e justiça. São Paulo: Imaginário: 1995. UNESCO. Educação: um tesouro a descobrir. 3. ed. Brasília: MEC: UNESCO. 1999. Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 59 ANEXO OS SÍMBOLOS DA PEDOFILIA Pedofilia e abuso sexual infantil Os pedófilos estão se comunicando e se identificando através de símbolos. Proteja seu filho da pedofilia. Não é nossa intenção que saiam à rua procurando em pessoas alguns dos símbolos que são considerados pela polícia como os logotipos utilizados por pedófilos, para identificar suas preferências sexuais. Esse alerta é para que estejam atentos. Queremos ainda deixar claro que, se por acaso, alguma pessoa for vista usando acessórios com símbolos iguais ou semelhantes, ela não é necessariamente um pedófilo, pois muitos desses desenhos já existem há muito tempo. Identificar pedófilos O F.B.I. elaborou um informe em que indica e registra uma série de símbolos utilizados por pedófilos para serem identificados entre si. Os símbolos são sempre compostos pela união dos similares, um dentro do outro. O de forma maior identifica o adulto, enquanto que a menor corresponde a um menino ou uma menina. A diferença de tamanhos entre eles mostra uma preferência por crianças maiores ou menores quanto à idade. Os triângulos simbolizam os homens que gostam de meninos, enquanto os corações representam homens (ou mulheres) que gostam de meninas. A mariposa personifica aquele que gosta de ambos. No caso de que coincidam com alguém que utilize algumas dessas simbologias, deverão estar alertas, e, em caso de aproximação com crianças, avisar à polícia. Os pedófilos gostam de exibir-se em códigos para os demais, utilizando os símbolos em colares, aneis, pulseiras, moedas, joias, troféus, adesivos, camisetas, etc. É o desenho gráfico a serviço da pedofilia. Protejamos nossos filhos. Os pedófilos cada dia ficam mais expostos, e existem ativistas que lutam para que a relação entre crianças e adultos seja considerada normal, aceita socialmente, que seja legalizada a pornografia infantil, 60 Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes pois, nas suas crenças, a criança pode decidir o que fazer com seu corpo. São verdadeiros doentes mentais, insanos. Quando esses símbolos foram publicados, várias pessoas identificaram um desses símbolos, por exemplo, como uma marca de sorvetes. Outros com logomarcas de empresas. Apenas estamos divulgando uma lista fornecida e divulgada em todo o mundo pelo F.B.I. Vilma Medina. Editora de GuiaInfantil.com Abuso sexual: violência contra crianças e adolescentes 61 VALÉRIA CHAVES DE SOUSA MARTINS Doutoranda em Educação na Universidad del Pacífico, Assunção - Paraguai. [email protected] Ai daqueles que pararem com sua capacidade de sonhar, de invejar sua coragem de anunciar e denunciar. Ai daqueles que, em lugar de visitar de vez em quando o amanha pelo profundo engajamento com o hoje, com o aqui e o agora, se atrelarem a um passado de exploração e de rotina. Paulo freire RESUMO: O nordeste brasileiro é palco de uma estrutura arcaica nos fins do século XIX e XX, altamente marcada pelo patriarcalismo que demonstram no tocante ao direito de alfabetização, as distâncias geográficas dos grandes centros, as dificuldades econômico-financeiras e o trabalho rural dificultavam as oportunidades de escolarização de homens e mulheres em áreas geográficas interioranas. No que concerne às relações de trabalho, historicamente têm-se deserdado a mulher da cidadania, sobretudo no que concerne à construção de sua própria identidade, pois a maioria participa da produção e geração de renda familiar. Também, o feminino é contemplado na reforma agrária, sobretudo, como elemento que compõe a família e, nessa perspectiva, sua individualidade cai no plano da invisibilidade, do privado, sem expressão na esfera política. Nesse contexto, é comum que ao se tratar de questões relativas à produção da riqueza material e da exploração do trabalho, se constate a existência de luta de classes ma medida em que é reconhecida como um processo que exige lutas sociais por direitos. Assim, observa-se que a mulher sofre em todos os níveis de relação com a terra, o fenômeno da invisibilidade e a subordinação feminina aparecem, reafirmando o tratamento desigual entre os sexos. Com essa desigualdade, esse patriarcalismo a mulher não teve espaço para estudar. Entendem-se a importância do processo de alfabetização para superar os limites, especialmente a figura feminina, todos estes sujeitos que nutrem representações sociais que os tornam crentes na incapacidade que possuem de aprender muitas vezes pelas limitações da idade, de exercer melhor a cidadania, participar com mais eficácia das resoluções que são construídas e decididas em suas comunidades. PALAVRAS-CHAVE: Mulheres, sertão nordestino, alfabetização, patriarcalismo, questão de gênero. TÍTULO: El escenario educativo en las mujeres del interior nordestino RESUMEN: El Nordeste brasileño es el escenario de una estructura arcaica a finales del siglo XIX y XX, caracterizado por mostrar muy patriarcales sobre el derecho a la alfabetización, la distancia geográfica de los grandes centros, las dificultades económicas y financieras y ha obstaculizado las oportunidades de trabajo para la escuela rural de los hombres y las mujeres en zonas del interior. Con respecto a las relaciones laborales históricamente han sido la esposa abandonada de la ciudadanía, especialmente con respecto a la construcción de su propia identidad, como la mayoría de los involucrados en la producción y la generación de ingresos. Además, la mujer se considera en la reforma, especialmente en los elementos de la familia y con esto en mente, la caída de su individualidad en términos de la invisibilidad, el sector privado, sin expresión en la esfera política. En este contexto, es común cuando se trata de cuestiones de la producción de riqueza material y la explotación del trabajo, es determinar la existencia de una lucha de clases ya que se reconoce como un proceso que requiere de las luchas sociales de los derechos. Así, se observa que la mujer sufre en todos los niveles de relación con la tierra, el fenómeno de la invisibilidad y la subordinación de la mujer, confirmando la desigualdad de trato entre los sexos. Con esta desigualdad, el patriarcado que las mujeres no tienen espacio para estudiar. Ellos entienden la importancia del proceso de alfabetización para superar los límites, sobre todo la figura femenina, todos los chicos que nutren las representaciones sociales que los hacen los creyentes en la incapacidad de aprender que tienen muchas veces por las limitaciones de edad, a participar en una mejor ciudadanía, participar más eficazmente las resoluciones que se construyen y se decidió en sus comunidades. PALABRAS LLAVE: selva nororiental de la Mujer, la alfabetización, el patriarcado, género. 62 INTRODUÇÃO As economias açucareira e cafeeira, e a ocupação do interior utilizando como suporte e a pecuária são exemplos dessa importância como os principais produtos brasileiros e destinavam-se essencialmente ao mercado externo. De forma geral, essas economias eram favorecidas pelo clima e solo, e pela baixa competitividade do mercado internacional. Segundo Martins (1997, p. 86): Do ponto de vista patriarcal, a terra e o gado são patrimônios, e, como tal, deve pertencer ao homem. A mulher, como dependente do pai ou marido, de acordo somente tem a possibilidade de administrar e se desfazer da terra em caso de morte do referencial masculino, e, mesmo assim, teoricamente, pois, com a perda desse referencial, o patrimônio deve ser mantido como bem masculino. Para garantir esse hábito, a própria comunidade permite que a mulher viúva sofra as mais diversas e requintadas pressões para repassar a terra ao comando do homem. Neste processo de caracterização da desigualdade entre os sexos se impõe na visão de que às mulheres não tinham necessidade da apropriação da leitura, na medida em que eram donas dos afazeres domésticos e das lidas excruciantes para ajudar no sustento da família, não obtinham as condições de escolarização. Portanto, sem acesso à leitura, à escolarização formal e a conseqüente busca por informação marcaram os primeiros atos sociais e culturais que determinaram a falta de oportunidades de se prepararem para o acesso à vida pública, e as tornarem submissas aos papéis sociais impostos. À mulher estava destinada à vida privada do lar, na criação dos filhos e na organização das necessidades da família e aos homens a vivência da vida pública ou a lida em negócios financeiros estabelecendo claramente a legitimidade de representações de papéis sociais. As mulheres não tinham acesso aos negócios na sociedade brasileira patriarcal, cuja instrução e formação estavam relacionadas aos bons costumes, convertendo-se o magistério em uma extensão das tarefas domésticas e maternais. (DUMONT & ESPÍRITO SANTO, 2007) Na predominância das relações que determinam papéis sociais cabe à mulher o cuidado como uma característica relacionada ao feminino na tarefa de cuidar dos doentes e idosos cabe às mães, filhas, noras e esposas (SILVEIRA, 2000). Desta forma a instrução feminina era considerada necessária para a construção de famílias educadas e instruídas em um imaginário social que privilegia a moral e os bons costumes. As concepções de Paulo Freire sobre a superação da opressão é também a superação dos limites da questão de gênero, a partir do direito de alfabetização. Neste contexto avalia também a importância da Educação como fomento para mudanças na vida da mulher. (LANGE; MARAFIGA; FRICHE, 2002, p. 1) A formulação do patriarcado remete à noção de dependência e dominação a partir da questão econômica, sendo o sexo masculino mais diretamente ligado às relações de produção e, portanto, de formação de riquezas. A mulher fica totalmente alienada no modo de produção, embora participe ativamente na célula familiar de processos de organização que permitem aos homens o desenvolvimento da reprodução do sistema. O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino 63 Para investigar essas mulheres deve-se compreender que o fenômeno da exclusão nem sempre é um processo que tem reconhecimento como uma imposição social. Provavelmente as mulheres se tornaram pilares de sustentação familiar não tenham a consciência desse fenômeno, como processo que determinado pela existência de imposições sociais. A exclusão da mulher é construída pelas representações sociais que se origina da vinculação com processos ligados à ideologia nos campos de atuação da questão de gênero. Dentro dessa conjuntura a mulher do sertão nordestino era excluída por vários fatores que antecedem de séculos com essa discriminação de que mulher nasceu para cuidar de filho, casa e marido não podendo ter escolha á nada e, tão pouco a educação, então com altos índices de analfabetismo entre as mulheres principalmente as nordestinas foi implantado o programa de jovens e adultos para que essas mulheres pudessem resgatar e sua auto- estima e sentir incluída na sociedade 1.1 DESIGUALDADE NA RELAÇÃO DE GÊNERO Essa desigualdade faz parte de um amplo processo histórico, cultural, estrutural, que perpassa as esferas privada e pública. A subordinação da mulher na relação com a produção agrícola e agropecuária se reproduz nas esferas da informalidade e no domínio do lar na criação dos filhos. (SAFIOTTI, 1987) Na relação do privado com a casa rural, que é também uma relação com a terra, o poder decisório geralmente pertence ao homem, ficando a cargo da mulher o trabalho com os animais de pequeno porte, as atividades na horta, na agricultura de subsistência, na fabricação de pequenos produtos, no abastecimento da água, da lenha, no preparo do alimento, no serviço da roupa lavada, da higiene e limpeza do ambiente e na preparação dos filhos para a sociedade, etc. (ARRUDA, 2002) No campo da formalidade, a desigualdade nas relações de gênero se mantém e resulta de ações historicamente reforçadas e reproduzidas pelo Estado, inclusive em aspectos decisivos que contribuem para neutralizar ou reduzir a participação da mulher no espaço público. Segundo Andrade (1986, p. 37), “a divisão sexual do trabalho surge com a sociabilidade e a formação da família”. Para o autor, é na família que os papéis são determinados, cabendo à mulher desempenhar tarefas sedentárias, relativas à casa e à família, enquanto o homem, por suas características físicas, luta pela sobrevivência comum e cuida do rebanho. É nesse modelo que se funda a divisão de tarefas que tem se ajustado à conjuntura econômica, política e cultural reafirmando para a figura feminina “a maternidade e o trabalho doméstico como necessidade e responsabilidade social que deve recair apenas para o sexo feminino”. Assim, observa-se que a mulher sofre em todos os níveis de relação com a terra, o fenômeno da invisibilidade e a subordinação feminina aparecem, reafirmando o tratamento desigual entre os sexos. Segundo Melo (2001, p. 3) a questão de gênero perpassa várias situações na vida da mulher nordestina. Um exemplo deste marco relacionado ao gênero é dimensionado quando em alguns estados nordestinos se projetam situações de calamidades motivadas pela seca e o governo federal estabelece medicas saneadoras como os Programas de Emergência de Seca. A autora avalia que: 64 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino Existe uma grande desatenção com a equidade de gênero o que tem ocorrido apesar do relevante papel da mulher na produção agrícola familiar. Na região, essa forma social de produção, que se caracteriza como de sobrevivência ou subsistência, por diversos fatores, apresenta-se como a mais vulnerável aos efeitos de uma seca. Neste sentido, a questão de gênero se insere pelo não reconhecimento de sua força de trabalho, de seus direitos de também receber os benefícios dos programas sociais que são predominantemente determinados aos homens. Entende-se como forma de opressão e questão de gênero todas as iniciativas que tem como foco a inibição dos direitos femininos, as imposições de papéis sociais e a falta de reconhecimento de sua igualdade enquanto sujeito capaz e trabalhadora. Entretanto, só a classificação por gênero, não explica esta situação. É preciso a categoria patriarcado, com a acepção de “dominação-exploração” de todos os homens sobre todas as mulheres. É a forma patriarcal da ordem de gênero que é predominante em sociedades tradicionais em que o cenário cotidiano reflete relações de assimetria entre o pai, a esposa e os filhos. Portanto, no sistema de dominação erigido pelo patriarcado as relações de poder são hierarquizadas e direcionadas por gênero, aqui entendido não como sexo, mas como categoria concernente às funções sociais de produção e organização social. As diferenças sexuais presentes no ser macho ou fêmea são transformadas em subordinação histórica das mulheres. A questão da violência contra a mulher é um exemplo típico de como as desigualdades se manifestam nas relações sócio-culturais derivadas dos costumes e de um processo educacional que estabelece papéis sociais que permitem a criação de estereótipos que reforçam a desigualdade entre os sexos e a inferioridade feminina. A desigualdade entre raça e sexos que perseverou no sistema produtivo e na distribuição e usufruto da produção da riqueza é uma realidade social em vários países. Muitas mulheres, mesmo realizando o mesmo trabalho destinado aos homens, têm salários menores. Portanto existe uma discriminação no mercado de trabalho no tocante às remunerações para indivíduos com as mesmas características produtivas em postos de trabalho idênticos, associada à questão de gênero (separação entre sexo) na inserção no mercado de trabalho. (SAFFIOTI, 1997) 1.2 CULTURA NORDESTINA A cultural nordestina tem foco em uma cultura patriarcal arraigada, que determina a conjuntura dos papéis sociais direcionados ao doméstico, ao dentro de casa (SARTI, 2003). Além da lida no espaço agrícola, as tarefas da ordenha e as da criação de animais têm implicações no modo de vida que conferem a desigualdade de gênero. No sertão nordestino as mulheres têm um espaço na esfera produtiva do trabalho, além da dupla jornada da criação dos filhos e a labuta no espaço doméstico. Portanto, para autores como Andrade (1986) e O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino 65 Bruschini (1990) as mulheres nordestinas no interior do sertão vivem em um ambiente cujo trabalho é hostil e depende de toda a família, as mulheres trabalhadoras pobres, brancas ou negras fazem parte do esforço de mão-de-obra, e não obtiveram acesso à escolarização. Nos últimos anos do século XX muitas mudanças ocorreram nas relações familiares e na dinâmica econômica das famílias, o avanço da Educação Popular produziu melhorias a partir de oportunidades de escolarização, a educação de Jovens e Adultos se constituiu em uma modalidade popular que favoreceu o processo de alfabetização aos adultos que não tiveram a oportunidade de ter acesso à escola. No semi-árido nordestino a figura feminina é fundamental e sofre tanto quando o homem que perde a sua produção, na medida em que, além de participar ativamente na produção agrícola, se associa à força de trabalho e também às labutas domésticas de organizar, educar e realizar todas as tarefas necessárias para o sustento da família. (MELO, 2001) Assim, entende-se que quando se agravam as condições climáticas a mulher sofre no lar a dimensão dos efeitos da perda da produção que limita de forma drástica as condições de sustento da família. Freire explorou a dimensão de uma economia solidária que se tornou uma forma alternativa de política econômica para o povo carente no nordeste, através da força da solidariedade e da junção de esperanças e ações políticas no intuito de desenvolver condições para a melhoria da qualidade de vida. Esse cenário de solidariedade para a construção de uma economia depende diretamente de processos educativos e da superação de visões sobre desigualdades e questões de gênero. Desconsiderar-se a importância da mulher nos programas sociais equivale a reduzir o seu papel como sujeito que faz parte integrante da divisão sexual do trabalho agrícola. 1.3 PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO Neste sentido, o processo de alfabetização é uma oportunidade que favorece a construção de novas relações na economia familiar, como sujeito de sua vida numa perspectiva educacional no interior de uma sociedade de exclusão. Assim, ao dispor das condições de leitura, de conhecimento letrado, torna-se possível desenvolver ações e posturas que permitem a melhoria da saúde, qualidade de vida, cidadania, habitação e previdência social. Portanto, o ato de alfabetizar não implica ensinar letras e sílabas no mero desenvolvimento de uma leitura desprovida de interpretação, mas trata-se de uma leitura que favoreça uma perspectiva crítica, de leitura do mundo. (FREIRE, 1989) Malta (2005) avalia neste contexto atual a importância para as mulheres do processo de aprender na EJA, a ressignificação dos processos educativos deverá ter base dialógica, a partir do ponto de vista da história dos sujeitos sócio-históricos que encarnam os saberes aprendidos na vida. Essa modalidade de educação de jovens e adultos tem o seu sentido direcionado à importância do caráter emancipatório da Educação Popular, na produção de um espaço escolar voltado para os conhecimentos direcionados ao 66 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino exercício democrático de construção de saberes que impliquem interações entre os sujeitos da práxis: professores e alunos. (MALTA, 2005) Como modalidade educativa especial que lida com pessoas que já possuem uma bagagem cultural proveniente de suas experiências de vida, é necessária a proposição de atividades pedagógicas que tenham como foco a emancipação das mulheres e o reconhecimento de que deverão superar as imposições sociais caracterizadas pelas posturas que oprimem e discriminam, a fim de constituir uma nova representação social que coloque em foco as lutas e a emancipação. A produção de uma educação com o objetivo de libertar as mulheres de diferentes níveis e tipos de opressão deve ser considerada e necessita de uma análise específica com focos diferentes, com vistas à elaboração de uma pedagogia diferente, pautada na análise crítica de experiências que possam formar novas posturas de ação social como a superação da questão de gênero. Neste sentido, Freire (2001, p. 259) aponta: Dada à seriedade e a complexidade da questão de gênero, isso merece reflexão em conjunção com uma rigorosa análise com relação ao fenômeno da opressão. Isso também requer novas práticas pedagógicas, para que se alcance o sonho da luta pela libertação e a vitória sobre todas as formas de opressão. Na perspectiva freireana, a mulher atingirá essa postura mediante uma educação que supere a educação bancária, tendo como foco a emancipação da mulher e a reflexão sobre o seu papel social. Assim, mesmo compreendida dentro da perspectiva em que Freire escreveu a obra Pedagogia do Oprimido, as mulheres merecem destaque e pontos específicos enquanto grupo dominado dentro da sua luta por emancipação e libertação. Dentro deste contexto então devemos pensar políticas afirmativas para grupos minoritários, dentre eles, camada de mulheres analfabetas e nessa perspectiva a teoria freireana representa uma das possibilidades de emancipação destas mulheres. Isso pode ocorrer levando-se em consideração todo o contexto da educação de jovens e adultos e à luz da teoria freireana, somada à preocupação necessária à escolarização e à emancipação de mulheres que deixaram de estudar, no tocante ao processo de alfabetização e emancipação. O aspecto mais relevante para uma mudança qualitativa na Educação de Jovens e Adultos é o educador ter firmeza e coragem para empreender debates e discussões político-sociais e organizar e estimular os alunos à participação, aprendendo de forma interativa com os aspectos sociais. Nessa leitura se constroem conteúdos próprios em diferentes sistemas de significação e valores que envolvem rupturas nos modos de falar, escrever e analisar o mundo. E, em função dessas diferentes perspectivas, criam-se também diferentes leituras, com diferentes feições, conforme a bagagem cultural do aluno. Nesse contexto, a leitura é formadora e exige uma ação interdisciplinar, nos processos pedagógicos e nas relações sociais mais amplas para a construção das recontextualizações que passam necessariamente pelo diálogo, trazendo o enriquecimento, a apropriação de princípios e regras que são próprias do discurso O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino 67 pedagógico (científico, literário, informativo, entre outros) e inerente a qualquer prática de intervenção educativa de sucesso. Aprender a ler não é uma tarefa tão simples, pois exige uma postura crítica, sistemática, uma disciplina intelectual por parte do leitor, e esses requisitos básicos só podem ser adquiridos através da prática que permita aos educandos o enriquecimento através de experiências com base na relação de troca coletiva que pressuponha diferentes níveis de saberes e de participação. Educar jovens e adultos que possuem uma bagagem cultural implica um processo de alfabetização diferenciado e, no caso da existência de um número elevado de mulheres, que se inserem neste contexto, deve-se valorizar a atuação social no resgate histórico das conquistas de diferentes sujeitos, contemplando, nesse sentido, a análise de situações na perspectiva do reconhecimento e da convivência na diversidade e da superação da questão de gênero. (NOGUEIRA, 2003) O grande desafio dos educadores de turmas de EJA é levar ao educando a dimensão ético-política, as dimensões teórico-conceituais articuladoras de práticas e teorias do saber pedagógico. A construção de uma consciência crítica é uma formação que exige profundo conhecimento, sensibilidade face à realidade e ao processo de visualização do universo político que envolve a educação a e a vida social. Esses quesitos são essenciais como critérios para a construção de uma sociedade democrática e mais pluralista. Se a alfabetização é o domínio de código escrito, fazendo uma leitura de mundo, o educador deve oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento dessa prática educativa. Como tudo serve para ler, jornais, revista, gibi, textos de diversas ordens, certamente tudo isso servirá para que o educando possa se expressar e comunicar-se. Contudo, são poucos, segundo estatísticas, os que chegam neste patamar de vivência com o código escrito e a leitura. Contudo, ao mesmo tempo, esses indivíduos reconhecem que atualmente, sofrem, na pele, o preconceito, a desigualdade social e a exclusão social por não terem o domínio do código escrito. E constatou-se que alguns alfabetizandos se sentem culpados, buscando aprender para a melhoria da qualidade de vida. É essencial que a sociedade compreenda que cada ser humano, conforme Freire (1992, p. 45), está situado no espaço e no tempo, no sentido de que vive numa época precisa, num lugar preciso, num contexto social e cultural e, portanto, deve ter as condições de ser reconhecido como pessoa que integrante da sociedade, e não como excluído, por ser considerado analfabeto. O mundo da produção produz riquezas e deixa excluída a grande maioria da população que possui apenas um conhecimento prático das coisas. Portanto, a importância do aprendizado da leitura e da escrita é parte fundamental para o indivíduo se colocar como pessoa envolvida no processo histórico-social. Conforme Nogueira (1997, p. 34) analisa: Nesse contexto, verifica-se que a postura pedagógica desvinculada da realidade é profundamente alienante. Estarão os cursos enfatizando a realidade histórica a fim de dar 68 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino condições do educando perceber a relação política em que está inserido? È preciso que a educação tenha um contexto transformador pautado na esperança e na autonomia Freire (1987) entende a alfabetização como um ato de conhecimento, aprender a ler e escrever sobre o significado da linguagem e do mundo. Diante de um mundo globalizado e do gigantesco processo de mudanças nas relações materiais da sociedade contemporânea, nas suas formas de representação social, nas relações institucionais da sociedade de informação, em sua complexidade e abrangência tudo isso implica a atuação direta de uma educação crítica que possa transpor a mera informação. Neste novo cenário social e cultural, a educação coerente deverá opor-se aos efeitos da globalização, que tem evidenciado o desenvolvimento de políticas de afirmação de identidades de grupos marginalizados, como modo de processos de dominação e homogeneização cultural e, dentro desses grupos, está a mulher. A educação dessas mulheres implica um diálogo entre as várias instâncias que perpassam a prática educacional de alfabetização de jovens e adultos, explicitando os vários aspectos psicológicos, cognitivos, filosóficos, sociológicos, antropológicos, entre outros, que envolvem a constituição do sujeito epistemológico e sua inserção na cultura. (GADOTTI; GOMES; FREIRE, 2006). CONCLUSÃO No estudo realizado, a região do nordeste brasileiro foi muito sucateada na medida em que o cenário era marcado pela opressão e a pobreza, tendo no seu sistema econômico traços típicos de desenvolvimento industrial tardio. Percebeu-se que o processo histórico foi marcado pelo isolamento regional e pela letargia, heranças do modelo primário-exportador da atividade econômica. Esse modelo gerou uma sociedade tradicional, sendo que o nordestino vivia da agricultura e da pecuária, e como o clima era precário a situação de pobreza era muito comum em toda a região. Evidenciou-se, portanto, que, embora a participação da mulher na luta social tenha sido abrangente, sendo identificável em autores como Safiotti (1987); Arruda (2002); Safiotti (1992/1997) e Machado (2000) a existência da determinação da divisão sexual do trabalho na família em relação à esfera da produção, além da dualidade que se caracteriza pela super exploração, na medida em que os papéis sociais impõem à mulher uma árdua tarefa produtiva, de organização do lar e de criação dos filhos. A família é o centro da vida feminina, onde se realizam os papéis femininos determinados socialmente, onde se evidenciam os espaços e as relações de gênero, nos tradicionais espaços concebidos historicamente como femininos e masculinos que foram marcados pelo tradicionalismo da sociedade patriarcal. A cultura nordestina não deixava escolha, pois a prioridade das mulheres era saber cozinhar, cuidar da casa e dos filhos e algumas até do roçado, e tinham que casar-se cedo para poder ter muitos filhos, geralmente mais de dez; era comum no interior do nordeste famílias numerosas até porque isso envaidecia a alma masculina e ajudava na economia da casa no sustento da família, por isso quanto mais numerosa, melhor. O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino 69 Neste sentido, pode-se avaliar como a criação ideológica da questão de gênero forneceu as bases estruturais desta sociedade na construção social e histórica de mulheres que passaram por estas experiências de vida em suas relações sociais. As mulheres foram idealizadas e ingênuas, sem obter ainda a consciência de sua submissão como imposta pela categoria gênero, elas não demonstraram uma consciência crítica sobre essa situação, embora demonstrem que suas possibilidades de melhoria de qualidade de vida e de projetos pessoais tenham sido reservados à família e ao matrimônio. Portanto, convivem numa sociedade marcada pelo forte poder do patriarcalismo, vivenciando a complexidade da questão de gênero evidenciada no processo produtivo. Portanto, constatou-se que as mulheres consideram que o incremento da escolarização melhora as condições de suplementar a economia familiar e vislumbram na educação uma forma de superação da pobreza e melhoria da qualidade de vida. É impossível pensar em escola sem considerar essas dimensões materiais e simbólicas referentes ao lugar que ocupam na sociedade. Essas mulheres têm a alfabetização como um ideal, não importa a idade, pois é sabendo ler e escrever que elas irão se tornar realmente cidadãs. O programa de educação de jovens e adultos veio para dar oportunidades a essas pessoas, principalmente às mulheres, porém o índice de mulheres é bem superior ao de homens, por causa do patriarcalismo que já vinha de muitos anos no sertão nordestino. REFERÊNCIAS ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste: contribuição ao estudo da questão agrária no Nordeste. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1986. ANDRADE, ROBERTA, Intervenção Psicossocial com pessoas da terceira idade:possibilidades de fortalecimento na comunidade http://www.artigos.com/artigos/humanas/psicologia/intervencao- psicossocial-com-pessoas-da-terceira-idade:-possibilidades-de-fortalecimento-na-comunidade2074/artigo/ ARRUDA, Ângela. Teoria das representações sociais e teorias de gênero. 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15555.pdf.> Acesso em: 23 jun. 2009. BRUSCHINI, Maria Cristina Aranha. Mulher, casa e família: Cotidiano nas camadas médias paulistanas. São Paulo, Vértice, 1990. DUMONT, Lígia Maria Moreira; ESPÍRITO SANTO, Patrícia. Leitura feminina: motivação, contexto e conhecimentos. Revista Ciências e Cognição, v. 10, p. 28-37, 2007. <http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v10/m317143.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2009. FREIRE Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970. ______. Educação e mudança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1979. 70 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino Disponível em: ______. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora, 1983. ______. A educação na cidade. São Paulo: Cortez Editora, 1991. ______. Pedagogia da esperança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992. ______. Política e educação. São Paulo: Cortez Editora, 1993. ______. Cartas a Cristina. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1974. ______. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997. ______. Pedagogia da indignação. São Paulo: UNESP, 2000. ______. Educação e atualidade brasileira. São Paulo: Cortez Editora, 2001. GADOTTI, Moacir; GOMEZ, margarida; FREIRE Eutgardes. Lecciones Paulo Freire: Cruzando fronteiras: Experiências que se completam. 1. ed. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Socialies – Clacso, 2006. LANGE, Célia Maria; MARAFIGA, Margarete; FRICHE, Ruth Marilda. A superação dos limites da questão de gênero num processo de gestão de economia solidária. <Disponível em: http://www.rizoma.ufsc.br/pdfs/561-of8c-st2.pdf.> Acesso em: 1 de maio, 2009. MACHADO, Leda Maria Vieira. A incorporacão de gênero nas políticas públicas: perspectivas e desafios. São Paulo: Annablume,1999. MALTA, Arlene Andrade. Aprendizagem na educação de Jovens e Adultos: A emergência de diferentes saberes na re-significação de práticas escolares. Disponível em: <http://www.paulofreire.org.br/pdf/comunicacoes_orais/A%20aprendizagem%20na%20educa%C3%A7% C3%A3o%20de%20jovens%20e%20adultos2.pdf>. Acesso em: 24 maio 2009. MARTINS, José de Souza. Exclusão social e a nova igualdade. São Paulo: Paulus, 1997. NOGUEIRA, Claúdia Mazzei. A mulher e a sua luta contra a opressão e a exploração. Espaço Acadêmico, Maringá/PR, n. 58, p.01-02, mar. 2006. Disponível em: <www.espacoacademico.com.br/.../58nogueira.htm>. Acesso em: 22 maio 2009. SAFFIOTI, H. I. B. O poder do macho. São Paulo: Moderna, 1987. SARTI, Cynthia A Família: redes, laços e políticas públicas. São Paulo, IEE/PUC-SP, 2003 O cenário educativo nas mulheres do sertão nordestino 71 Marisa Elisabete Williges Cunha Especialista em Administração e Supervisão Escolar, Mestra em Ciências da Educação e Doutoranda em Ciências da Educação pela Universidad Autónoma de Asunción. [email protected] RESUMO:A presente pesquisa teve como objetivo analisar a percepção dos alunos em relação as contribuições do uso do computador para a melhoria da aprendizagem, na disciplina de Geografia da turma da 8ª série do Ensino Fundamental do Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, Salto do Jacuí, Rio Grande do Sul, Brasil. O tema foi abordado considerando a visão de teóricos e pedagogos, que entendem que as tecnologias educativas contribuem para o aprendizado dos alunos, como também da necessidade de incorporar os recursos tecnológicos como agente facilitador entre o ensino e a aprendizagem, atendendo às necessidades da sociedade atual. A relevância do estudo está em constatar que ao oportunizar o uso do computador, os alunos, possam criar, investigar, desenvolver, interagir e construir seu próprio conhecimento. O presente estudo constitui-se em uma pesquisa não experimental, de tipo descritivo com enfoque quali-quantitativo. A revisão literária embasou teoricamente e legalmente a pesquisa, direcionando caminhos que contribuem no processo de ensino-aprendizagem em consonância com as novas tecnologias, proporcionando a construção do conhecimento significativo, aliando o ensino às metodologias que garantam efeitos mais eficazes na educação. Os resultados indicaram que a ferramenta pedagógica, computador quando articulado com os conteúdos escolares e mediado entre os alunos, segundo a percepção dos mesmos, contribui para a melhoria da aprendizagem num processo de construção colaborativa do conhecimento. PALAVRAS CHAVE: Aprendizagem; Ensino; Computador; Novas Tecnologias 1. Introdução Atualmente vivemos em uma sociedade baseada no conhecimento, alicerçado pela tecnologia, sob este prisma, mudam os conceitos de educação e de aluno, desta forma é necessário repensar as maneiras de ensinar e aprender. Há muita rapidez de informações e dinamismo no conhecimento. Nessa perspectiva mudam os paradigmas educacionais, de maneira que há a necessidade de encontrar a melhor forma de ensinar, propiciando aos alunos o desenvolvimento de competências para lidar com as características da sociedade atual, enfatizando a autonomia do aluno para a busca de novas compreensões. Não há mais espaço para o modelo conservador de aprendizagem competitiva e individualista onde o professor aparece como único detentor do saber. Desta forma, conforme as idéias de Rays (2002), as atuais transformações sociais, políticas e econômicas requerem uma avaliação do papel social da escola e do professor enquanto educador. Neste 72 novo cenário, não é mais a escola a mola propulsora das transformações, não apenas ela, mas a família, a sociedade, os meios de comunicação, a informática a televisão, os grupos de convívio. O professor, verdadeiro agente transformador precisa ter em mente que os educandos carregam vivências sociais e familiares que devem ser valorizadas. Centrar-se na realidade do aluno proporcionando meios para que este descubra o que ainda lhe é desconhecido, despertar o saber discente a partir do que este já conhece, valorizando-o como ser que descobre e aprende é a missão do professor educador. Este professor, em sua prática deve enfatizar a produção coletiva do conhecimento através do trabalho em equipe e em atitudes que busquem refletir as alterações que ocorrem na sociedade. Assim, conforme Fazenda (1993), é necessário buscar uma interação e reciprocidade entre as ciências de maneira que chegue a um patamar onde uma disciplina completa a outra. Para isso é necessário que o docente tenha uma visão holística, na medida em que busca a superação da fragmentação do conhecimento, promovendo o resgate do ser humano em sua totalidade, considerando as suas inteligências múltiplas contemplando os trabalhos coletivos e a participação crítica e reflexiva dos alunos no processo de construção do conhecimento. Neste novo paradigma educacional, frente às novas tecnologias, o computador apresenta-se como uma ferramenta completa, associando som, imagem e interação, na medida em que propicia ao aluno a possibilidade de expressar-se através das novas linguagens tecnológicas promovendo a inclusão social dos alunos frente as inovações, domínio de novas formas de construção do conhecimento, valorização do autodidatismo, velocidade no aprendizado, valorização do trabalho em equipe e criatividade. Além disso, possibilita o desenvolvimento de um processo educacional democrático rompendo com os paradigmas de que educação é um ato de depositar, transmitir valores e conhecimentos. Assim, o uso do computador, como ferramenta de ensino, de acordo com a interatividade do sujeito com a máquina, abre inúmeras possibilidades de criação proporcionando uma educação de qualidade e em consonância com as premissas atuais. Acreditando que a escola é o pilar sustentável da sociedade, surge a necessidade de estar repensando e construindo a educação constantemente, momento oportuno para inserir uma nova abordagem de prática educativa, no sentido de associar a educação às novas tecnologias. Assim a questão que conduziu este estudo buscou descobrir qual a percepção dos alunos, da turma da 8ª série do Ensino Fundamental, do Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, no município de Salto do Jacuí, Rio Grande do Sul, Brasil, em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia. Este estudo está focado no uso do computador como ferramenta de ensino-aprendizagem tendo como objetivo geral determinar qual a percepção dos alunos em relação ao uso do computador e internet na aprendizagem da disciplina de Geografia, para tanto se fez necessário descobrir o acesso que os alunos têm ao computador conectado a internet; qual a freqüência que acessam a rede; quais os sites mais acessados e programas de computador que eles conhecem, como também foi necessário conhecer a estrutura física o laboratório de informática do Instituto e identificar os recursos tecnológicos utilizados pela professora de Geografia da turma pesquisada. Esta pesquisa justifica-se pela importância de associar o ensino às novas tecnologias de informação e comunicação, sobretudo ao computador, uma vez que os alunos possuem familiaridade com este recurso A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 73 tecnológico, no sentido de dar suporte aos processos que visam melhorias na educação, tornando a escola um ambiente onde o conhecimento seja construído de forma contextualizada, significativa e prazerosa, de maneira que os alunos e professores tornem-se parceiros no processo educativo. Dar significado ao conhecimento e tornar o processo educativo prazeroso, remetem aos conceitos de aprendizagem significativa e motivação. Conforme Moreira (2006), para que o aluno sinta-se motivado, é necessário que a aprendizagem seja significativa para ele, ou seja, que o novo conhecimento seja relacionável com aquilo que o aprendiz já sabe, despertando nele o desejo de aprender. 2. Referencial teórico A educação acontece em um processo e engloba fatores sociais, políticos e pedagógicos. De acordo com Rays (2002), as atuais transformações sociais, políticas e econômicas requerem uma avaliação do papel social da escola e do professor enquanto educador. A educação sob este novo prisma redefine seu papel, indo muito além de desenvolver as habilidades de ler, escrever, ouvir e calcular. Seu novo papel requer uma postura em que o processo de construção do conhecimento deve estar voltado para o que acontece no mundo de hoje. O cidadão que objetiva-se formar deve ser criativo e autônomo que constrói seu conhecimento comparando, relacionando e se comunicando. Assim o conceito de ensinar e aprender sofre uma mudança de paradigmas. Conforme Pilléti (1989), para que alguém aprenda é necessário estar motivado. Desta forma é necessário conhecer os interesses atuais dos alunos e buscar recursos e métodos que os motivem, pois “ninguém consegue ensinar nada a uma pessoa que não quer aprender” (p.33). Por isso motivação e aprendizagem têm uma relação mútua, uma vez que sem motivação não há aprendizagem e os êxitos em aprendizagem reforçam a motivação. Conforme Kauark (2007), o clima de sala de aula influencia muito na motivação e consequentemente na aprendizagem. Desta forma é necessário que o professor tenha em mente quais são os fatores que geram motivação no grupo, que aspectos deve buscar para propiciar um clima de motivação para seus alunos e que metodologia deve empregar. Neste processo de construção do conhecimento a relação entre os sujeitos e a organização da sala de aula são muito importantes, pois é no trabalho coletivo e divisão das tarefas e responsabilidades que o conhecimento se constrói, na medida em que o aluno que tem mais habilidades ensina o colega que tem mais dificuldades através das trocas de experiências, em aprendizagem colaborativa. Conforme Morgado (2004), alunos envolvidos em experiências de cooperação obtêm melhores resultados, aumentam a auto-estima e estabelecem melhores níveis de relacionamento com seus pares. Segundo a Conferência Mundial de Educação para todos, realizada em Jontien na Tailândia, em 1990, descrita por Delors (2001), a educação do futuro deve atender aos objetivos definidos por quatro pilares, que são: aprender a conhecer (refere-se ao domínio dos próprios instrumentos de conhecimento, aprender a fazer (diz respeito à capacidade que o indivíduo deve desenvolver para conviver em grupo e trabalhar em equipe), aprender a viver juntos (respeito aos valores do pluralismo cultural) e aprender a ser 74 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia (capacidade de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal de cada um). Os objetivos destes quatro pilares, vão muito além de informação e desenvolvimento de um conhecimento intelectual, eles englobam toda a formação humana e social do indivíduo, envolvendo conhecimento, comportamento, conceitos, procedimentos, valores e atitudes que não são atingidas através de um ensino livresco, conteudista e descontextualizado. Eles exigem uma nova visão de educação que busque através da pesquisa e autonomia do sujeito desenvolver habilidades e competências para a construção do conhecimento explorando analisando e interagindo no mundo que o cerca. Hoje o compromisso da educação é formar a pessoa humana e proporcionar que ela mesma busque sua cidadania a fim de provocar a transformação social tão necessária na sociedade do conhecimento. Diante disso percebe-se o compromisso da prática pedagógica construtivista que busca a democratização do saber baseado na premissa de que “o conhecimento é herança da humanidade, direito de todos” (Matui, 1998, p. 89). A sociedade moderna está cada vez mais permeada por inovações tecnológicas, de modo especial de computadores atingindo todos os segmentos. Neste sentido a escola precisa engajar-se nesse processo, introduzindo em suas práticas educativas este importante recurso tecnológico com o objetivo de melhorar a qualidade do processo educativo, para não tornar-se uma instituição obsoleta em relação à realidade a qual todos estamos inseridos. Para isso, conforme Mercado (2002), a escola deverá ter uma proposta pedagógica consistente bem estruturada e planejada, onde o computador possa ser um auxiliar para o aluno, tornando-se uma ferramenta que represente um diferencial na busca de uma escola de qualidade. Entretanto a tecnologia não deve ser vista como redentora da educação, mas como um elemento a mais na construção de mecanismos que contribuam para a superação de suas limitações. Deve contribuir no currículo escolar na elaboração de projetos, no trabalho com disciplinas, capacitando professores e alunos no uso técnico a fim de desenvolver uma educação de qualidade tornando possível o intercâmbio entre conhecimentos e aumentando a eficiência da escola. Conforme ainda Mercado, a tecnologia sozinha não resolve os problemas da educação, como também é errôneo acreditar que as “máquinas que ensinam” vão substituir os professores, o que existe é uma complementação. Assim o educador que adota as novas tecnologias em seu fazer pedagógico perde o posto de dono do saber, mas ganha um novo e importante posto, o de mediador da aprendizagem, dirigindo pesquisas dos alunos, apontando caminhos, esclarecendo dúvidas, propiciando que os alunos aprendam de forma autônoma e participativa, propondo projetos e aprendendo mais com tudo isso. O computador proporciona o acesso ao meio de comunicação mais moderno e completo, a Internet, vista por muitos como a verdadeira aglutinação dos demais veículos de comunicação e maior do mundo, constituindo a maior riqueza da humanidade. Segundo Tajra (2007), a Internet traz muitos benefícios para a educação, tanto para professores como para alunos, na medida em que facilita pesquisas, intercâmbio entre professores e alunos, permitindo troca de experiências entre eles. Assim a Internet preconiza uma mudança no papel do professor, ele terá a possibilidade de elaborar um processo de ensino-aprendizagem aberto, flexível, inovador e contínuo e ainda exige de si uma melhor formação teórica para poder selecionar conteúdos pertinentes a pesquisa ou projeto, A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 75 frente a variados sites de informações existentes na rede. Conforme Mercado (2002), para a educação, a Internet pode ser considerada a mais completa, abrangente e complexa ferramenta de aprendizado e comunicação global. Através dela tem-se acesso a fontes de informação que virtualmente permitem estudar as diferentes áreas do conhecimento ampliando o universo de pesquisa em todas as áreas do conhecimento humano. Sua utilização promove uma nova dinâmica pedagógica que inserida num projeto pedagógico sólido contribui para a formação dos alunos. Sua utilização permite que alunos e professores tenham a oportunidade de, através das redes, esclarecerem suas dúvidas, fazer perguntas, manifestar suas idéias e opiniões, fazer uma leitura de mundo mais global, confrontar idéias e pensamentos com grupos de estudantes separados geograficamente de temas do mesmo interesse. Porém nesse contexto o professor tem um papel fundamental que é o de mediar, guiar, orientar, selecionar e contextualizar, o que é relevante nesse mar de informações disponíveis muitas vezes pouco relevantes. Assim o professor não é o informante, mas o coordenador do processo de ensino-aprendizagem que estimula e acompanha a pesquisa e debate os resultados. A internet proporciona um trabalho em equipe, onde através de um processo colaborativo e cooperativo desenvolve a habilidade de comunicação na busca do conhecimento. A informática, tão necessária nas ações pedagógicas atuais, teve um processo de introdução gradativo no Brasil, a partir da década de 70. Conforme Valente (1999), a informática educativa se iniciou com algumas experiências em universidades, como na Universidade Federal de São Carlos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Ações oficiais do Governo Federal aconteceram somente no inicio na década de 80, mais especificamente em 1983 com a Criação do Projeto Educom - Educação com Computadores. Conforme Tajra (2007), esta foi a primeira ação oficial e concreta para levar os computadores até escolas públicas. Posteriormente, na década de 90, surgiu o programa PROINFE que se constituiu em um centro de gerenciamento nacional de informática e ambientes de aprendizagem integrado por grupos interdisciplinares, professores e técnicos, organizados em núcleos chamados de centros de informática na educação. A informática educativa, em termos oficiais e legais, foi tratada somente em 1996, quando ocorreu a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, LDB 9.394/96, fazendo referência ao termo tecnologia, mas não trouxe uma discussão mais profunda em relação a informática educativa. Posteriormente surgiu o programa PROINFO, em 1997, visando a criação de centros e Núcleos de Tecnologias Educacionais em todos os Estados do país, no sentido de apoiar o processo de informatização nas escolas mediante a capacitação de professores e equipes administrativas, seguido pelos Parâmetros Curriculares Nacionais em 1998 e o Plano Nacional de Educação em 2000 que deu origem subsequente aos Planos Estaduais e Municipais de Educação. Os Parâmetros Curriculares Nacionais, que são um conjunto de diretrizes para a educação nacional, promulgados em 1998, destinam um capítulo para tratar sobre as tecnologias de comunicação e informação, enfocando a importância que os recursos tecnológicos têm na sociedade contemporânea, embora nossa realidade nacional esteja longe de ser uma sociedade tecnológica. Entretanto é inegável o fato de que vivemos um processo irreversível e que traz mudanças substanciais para a vida em sociedade e nas formas de trabalho humano. 76 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia Segundo ainda os PCNs, as propostas didáticas que utilizam as tecnologias como instrumentos de aprendizagem devem ser contempladas e integradas com outras propostas de ensino, como também considerar as experiências que os alunos já tem em relação aos recursos tecnológicos para que a aprendizagem realmente se torne significativa. Também determina que a escola deve possibilitar e incentivar que os alunos utilizem dos conhecimentos de informática para apresentar trabalhos escritos nas diferentes áreas do conhecimento, como também pesquisar assuntos variados e utilizar os diversos recursos da informática em prol da educação. Também desmistificam o fato de que as tecnologias podem substituir os professores no processo de aprendizagem, pois é o professor que planeja e desenvolve as situações de ensino a partir do conhecimento que possui sobre as disciplinas, pois as tecnologias são apenas instrumentos capazes de aumentar a motivação dos alunos caso, seja utilizada como uma proposta de trabalho inovadora aos olhos dos alunos. 3. Aspectos metodológicos Esta pesquisa foi realizada no Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, localizado no município de Salto do Jacuí, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, estando constituído sobre um desenho não experimental, de tipo descritivo com enfoque quali-quantitavo (misto). Conforme Sampiéri et al. (2006), em uma pesquisa não experimental o pesquisador limita-se em observar os fatos que acontecem em seu ambiente natural, para depois analisa-los, não havendo manipulação das variáveis. Esta pesquisa não experimental é de modelo transversal descritivo, pois de acordo com sampiéri et al. (2006,p.228) “os modelos transversais descritivos tem como objetivo indagar a incidência de valores (...) ou situar, categorizar e proporcionar uma visão de uma comunidade em um contexto”. Assim a presente pesquisa analisa descritivamente a percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia, através de um guia de observação das atividades no laboratório de informática, como também utiliza quantitativamente os dados coletados através de questionários fechados, com questões de múltipla escolha dirigido aos alunos, o que justifica o enfoque quantitativo da pesquisa. Também se utilizou como importante fonte de dados os questionários com perguntas abertas dirigidos à professora de Geografia da turma pesquisada, como também entrevista com perguntas abertas e semi-estruturadas dirigidas à coordenadora/supervisora escolar, cujos instrumentos foram importantes fontes de dados para a pesquisa qualitativa. Conforme Samperi et al. (2006), tanto o enfoque quantitativo quanto o enfoque qualitativo podem ser empregados em uma mesma pesquisa, pois ambos combinam-se para que se possa conhecer melhor um fenômeno e para conduzir a soluções diversas. Desta forma a classificação de pesquisa é mista porque evidencia um segmento qualitativo que diz respeito aos dados descritivos e quantitativos por manipular os dados que geraram gráficos e tabelas para análise e interpretação. “A pesquisa é de modelo misto quando os enfoques quantitativo e qualitativo se combinam durante o processo, ou pelo menos na maioria das etapas” (Sampiéri et al.p.18). A escolha do método se deu na certeza de possibilitar a análise sobre a percepção dos alunos em relação à contribuição do uso do computador na aprendizagem dos alunos na disciplina de Geografia, na A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 77 turma da 8ª série do Ensino Fundamental do I.E.E. Miguel Calmon, no município de Salto do Jacuí-RS. No estudo, o universo caracterizou-se por 33 (trinta e três) alunos da 8ª série do Ensino Fundamental do Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, do turno da manhã. Todos os alunos pesquisados responderam aos questionários e fizeram parte do trabalho científico, configurando 100% da população, justificando o fato de que neste caso não houve amostra. Na investigação optou-se por três tipos de instrumentos de coleta de dados: questionário, guia de observação diário e entrevista. Assim utilizou-se de uma entrevista estruturada com roteiro de itens com alternativas de respostas e itens subjetivos para a coordenação/supervisão escolar, dois questionários de perguntas abertas para a professora de Geografia, um antes de desenvolver a pesquisa e outro após, dois questionários fechados de múltipla escolha para os alunos e um guia de observação da turma, que foi utilizado pela pesquisadora para anotar aspectos observados durante o desenvolvimento das aulas através do computador e ferramenta Orkut. A observação foi realizada de forma direta, a campo, enfocada, ou seja, através de itens previamente elaborados pela pesquisadora a fim de dirigir a observação e levantar dados mais específicos e pertinentes para analisar a contribuição do computador na aprendizagem dos alunos na disciplina de Geografia. A construção dos instrumentos de pesquisa deu-se a partir da revisão bibliográfica, ao nível do conteúdo e da correta formulação das próprias questões. Estas permitiram levantar dados pertinentes ao estudo da contribuição do computador na aprendizagem dos alunos da disciplina de Geografia, da 8ª série do Ensino Fundamental, no I.E.E. Miguel Calmon. Os questionários utilizados na investigação, tanto para os alunos, quanto os utilizados para coletar dados junto à professora, a entrevista para a coordenadora pedagógica e o guia de observação da turma, tiveram como parâmetro um roteiro pré-estabelecido pela pesquisadora para que fossem coletados somente itens que estivessem relacionados com os objetivos da proposta de investigação. A pesquisa teve inicio na primeira semana do mês de agosto, momento em que foram aplicados os questionários diagnósticos aos 33 alunos da 8ª série a para a professora de Geografia, o qual serviu de orientação para a tomada de decisão de quais instrumentos seriam pertinentes para desenvolver a pesquisa. A pesquisadora acompanhou o trabalho de sala de aula da disciplina de Geografia durante o período de três meses como observadora, não intervindo no planejamento das aulas. Também acompanhou as aulas desenvolvidas no laboratório de informática através do computador e Internet, com o auxilio da ferramenta Orkut. A professora cadastrou uma comunidade no Orkut que chamou de “8ª série I.E.E. Miguel Calmon” e convidou todos os alunos para cadastrarem-se e fazer parte dela, com o o intuito de utilizá-la como uma plataforma on-line. Assim nesta comunidade a professora utilizou todos os recursos disponíveis como fóruns, eventos, recados, fotos... tudo foi usado para postar os conteúdos desenvolvidos nas aulas de Geografia. Desta forma em cada aula os alunos acessavam os eventos e ali estavam postadas as atividades que deveriam desenvolver para a aula do dia. As atividades eram ler os fóruns solicitados, acessar aos links sugeridos para a pesquisa e estudo, assistir aos vídeos postados e produzir um comentário coletivo sobre o assunto estudado. A professora, no período que antecedia as aulas sempre procurava entrar em contato com os alunos enviando-lhes um recado ou um incentivo pelo desempenho e esforço. A professora sempre obteve respostas, o que evidenciou a interação dos alunos nessa nova atividade. 78 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 4. Análise dos resultados 4.1 Caracterização institucional O Instituto Estadual de Educação Miguel Calmon, pertence a rede pública Estadual de ensino e está em plena atividade há 51 anos no município de Salto do Jacuí, oferece educação básica completa e dois cursos profissionalizantes: Curso Normal e Curso em Eletromecânica. Também oferece a modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos), no período da noite. Têm no total, 934 alunos, 69 professores, dentre eles graduados, especialistas, mestres e 20 funcionários. O Instituto tem um laboratório de informática equipado com 21 computadores conectados em rede e com acesso a Internet à disposição de alunos, professores, funcionários e comunidade escolar. No momento da pesquisa o documento oficial e norteador da instituição é o regimento escolar, cuja uma das finalidades é a de proporcionar condições para a formação de sujeitos autônomos e críticos, que possam apropriar-se do conhecimento e das novas tecnologias necessárias para a valorização da vida com qualidade social e dignidade humana. 4.2. Resultado quanto ao objetivo geral da pesquisa O objetivo geral da pesquisa de determinar qual a percepção dos alunos em relação ao uso do computador e Internet na aprendizagem da disciplina de Geografia foi alcançado, a partir de questionário aplicado aos alunos, após as aulas de Geografia trabalhadas no laboratório de informática através do computador, Internet e ferramenta Orkut, cujas respostas geraram os gráficos, sendo que os mais significativos vêm expostos a seguir: 45% 45% 45% 70% Concordo Muito 40% 35% Concordo 30% Nem concordo nem discordo 25% 20% Discordo 15% Concordo muito Concordo 50% 40% Nem concordo nem discordo 31% 30% Discordo 20% 7% 10% 5% 62% 60% Discordo muito 3% 10% 0% Discordo muito 7% 0% 0% 0% 0% GRÁFICO 1: O computador, Internet e Orkut facilitam o aprendizado. GRÁFICO 2:Estudar a partir dos fóruns on-line, pesquisar, compartilhar respostas com os colegas contribuiu para o aprendizado dos conteúdos da disciplina de Geografia. Conforme os dados representados no Gráfico 1, obtido através da pergunta: Com relação ao A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 79 aprendizado dos conteúdos escolares, o computador, a internet e a ferramenta Orkut, facilitaram, tornando-o mais prazeroso? 45% dos alunos responderam que concordam muito que o computador e ferramenta Orkut facilitaram o aprendizado tornando-o mais prazeroso, 45% apenas concordaram com a afirmativa, sendo que 3% elegeram a alternativa não concordo e nem discordo mantendo-se neutros na questão e 7% dos alunos discordou com a afirmação. Assim conclui-se, conforme os dados do gráfico 1, que 90% dos alunos concorda/concorda muito que o computador, a Internet e a ferramenta Orkut contribuíram para a aprendizagem dos conteúdos de Geografia. Segundo os dados do Gráfico 2, 93% dos alunos pesquisados deram parecer favorável (62% concordam muito e 31% concordam) sobre a afirmativa de que estudar a partir dos fóruns on-line, pesquisar, compartilhar respostas com os colegas contribuiu para o aprendizado dos conteúdos da disciplina de Geografia, tendo em vista que as aulas com o auxílio do computador, Internet e a ferramenta Orkut aconteceram em um ambiente colaborativo. Assim os Gráficos 1 e 2, expostos acima, foram importantes instrumentos para a análise deste estudo e contemplaram positivamente o objetivo geral que buscava verificar a contribuição do computador, da Internet e da ferramenta Orkut, na aprendizagem dos conteúdos de Geografia, como também vieram comprovar a hipótese da pesquisa a qual se referia que, na percepção dos alunos, o uso do computador traz melhoria na aprendizagem da disciplina de Geografia (dados do gráfico 2). Conforme Moran (2000), o antigo paradigma baseado unicamente no professor como transmissor do conhecimento e de uma aprendizagem individualista e competitiva, deve dar espaço a uma nova metodologia onde alunos e professores estejam articulados num processo permanente de aprender a aprender. Esse aprender a aprender pôde ser observado pela pesquisadora nos momentos de interação entre os grupos de alunos, professora da turma e o recurso tecnológico utilizado, no caso o computador, Internet e ferramenta Orkut. Conforme a abordagem do desenvolvimento cognitivo de Vygotsky, a aprendizagem origina-se da ação do aluno sobre os conteúdos específicos e sobre suas estruturas previamente construídas “O que a criança é capaz de fazer hoje em cooperação, será capaz de fazer sozinha amanhã. Portanto, o único tipo positivo de aprendizado é aquele que caminha à frente do desenvolvimento servindo lhe de guia (...). O aprendizado deve ser orientado para o futuro, e não para o passado” (Vygotsky, 1989, p. 89, apud Brasília, Seed, 2000, p. 69). Os conceitos chaves da teoria de Vygotsky são as relações do indivíduo com a sociedade através da mediação e dos instrumentos e técnicas, assim ele as internaliza, reelabora e incorpora. Estes instrumentos e técnicas são os meios utilizados para mediar o conhecimento, no caso da pesquisa, o computador, Internet e ferramenta Orkut. Estes mesmos instrumentos na teoria da aprendizagem significativa de Ausubel funcionam como os organizadores prévios. “A principal função do organizador prévio é servir de ponte entre o que o aprendiz já sabe e o que ele precisa saber para que possa aprender significativamente a tarefa com que se depara” (Ausubel, 1978, p. 171 apud Moreira, 2006, p. 23). 80 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 4.3. Opinião dos alunos em relação ao uso do computado e Internet nas disciplinas escolares. Este objetivo específico foi contemplado a partir das respostas do questionário aplicado após as atividades no laboratório de informática, gerando o Gráfico 3, exposto a seguir: 69% 70% Concordo muito 60% Concordo 50% 40% Nem concordo nem discordo 30% 20% 17% Discordo 14% Discordo muito 10% 0% 0% 0% GRÁFICO 3: Todas as disciplinas escolares devem utilizar o computador e ferramentas on-line em suas aulas. Neste Gráfico 3, observa-se um total de 86% de alunos que desejam que as demais disciplinas utilizem o computador e ferramentas on-line nas atividades escolares (69% concorda muito, 17% concorda). Este desejo dos alunos vem ao encontro do que se refere Delors (2001), em relação aos delineamentos da educação do futuro, descritos a partir da Conferência Mundial de Educação para todos, realizada em Jontien, na Tailândia, no ano de 1990. Esta conferência definiu os quatro pilares essenciais que devem ser metas para o desenvolvimento educacional em todos os países membros desse acordo, que são: aprender a conhecer (refere-se ao domínio dos próprios instrumentos de conhecimento), aprender a fazer (diz respeito a capacidade que o indivíduo deve desenvolver para conviver em grupo e trabalhar em equipe), aprender a viver juntos (respeito aos valores do pluralismo cultural), aprender a ser (capacidade de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal de cada um). Essas metas vão muito além do desenvolvimento de conhecimento intelectual, eles englobam toda a formação humana e social do indivíduo, como comportamento, hábitos, atitudes, valores que não são atingidos com o ensino livresco. 5. Conclusão A presente pesquisa proporcionou a comprovação de que na percepção dos alunos da 8ª série do I.E.E. Miguel Calmon, o computador traz melhoria na aprendizagem dos conteúdos da disciplina de Geografia. Os resultados deste estudo não experimental de tipo descritivo com enfoque quali-quantitativo, mostraram que o computador associado às atividades escolares promove, na percepção dos alunos, melhoria no aprendizado, pois é uma ferramenta completa que une som, imagem, texto, interatividade, possibilitando o desenvolvimento da criatividade e a curiosidade para aprender novos conhecimentos e desenvolver as inteligências pessoais de cada um. É preciso que as tecnologias sejam incorporadas nas atividades escolares, entretanto, conforme alguns autores, a escola precisa ter uma postura pedagógica consistente, bem planejada, onde o computador A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 81 possa ser um auxiliar para o aluno, tornando-se uma ferramenta que represente um diferencial na busca por uma escola de qualidade. O computador, a tecnologia por si só, não garante uma educação de qualidade, como também a sua presença não melhorará o processo pedagógico, e sim seu uso combinado com estratégias adequadas à realidade dos alunos, levando em conta suas necessidades e motivação. Assim a revisão da literatura apresentada neste trabalho possibilitou um maior aprofundamento no assunto, tendo respaldo em diversos teóricos que trataram deste tema, bem como o amparo legal no que tange às leis educacionais nacionais, estaduais e do educandário pesquisado, a respeito do uso das tecnologias no processo educacional, e dos instrumentos de coleta de dados, a fim de responder os objetivos e hipóteses previamente estabelecidos para a pesquisa. O objetivo da pesquisa foi plenamente alcançado, a partir dos dados obtidos nos questionário, onde a maioria dos alunos responderam concorda/concorda muito que o computador, a Internet e a ferramenta Orkut facilitaram a aprendizagem dos conteúdos de Geografia, na media em que estudavam a partir dos fóruns postados pela professora, realizavam as tarefas sugeridas, pesquisavam nos sites, respondiam os fóruns e compartilhavam as respostas com os colegas e professora, realizando um trabalho colaborativo. Esta constatação vem ao encontro das idéias de Harasim et al. (2005), enfatizando que o conhecimento avança quando o aprendiz enfrenta situações que não tinha pensado, quando troca informações com seus colegas, quando observa os outros a resolver os problemas e tenta entender as soluções, num processo de circulação de informações. Constatou-se também através do questionário aplicado aos alunos após as atividades no laboratório de informática e observação da pesquisadora através do guia de observação, que, na percepção dos alunos, o uso do computador, Internet e ferramenta Orkut, trazem motivação para o estudo dos conteúdos programáticos, sendo que a maioria deles foram favoráveis a essa atividade de utilizar o Orkut, site comumente utilizado por eles para entretenimento com fins pedagógicos. Desta forma verificou-se que a motivação é um fator que contribui para o sucesso do ensino-aprendizagem. A utilização do computador por pequenos grupos de alunos tem apresentado bons resultados, isso pode ser confirmado através desta pesquisa. Também de acordo com os instrumentos de coleta de dados, identificou-se a opinião favorável dos alunos em utilizar o computador, Internet nas demais disciplinas escolares. Este desejo confirma o que Delors (2001), estabelece como metas para a educação do futuro, sendo que esta deve ir muito além do desenvolvimento intelectual, englobando toda a formação humana e social do indivíduo, como comportamento, hábitos, atitudes, valores, que não são atingidos com o ensino livresco. Estas metas são atingidas a partir de uma educação que busque através da pesquisa e autonomia do sujeito desenvolver habilidades e competências para a construção do conhecimento explorando, analisando e interagindo no mundo que o cerca. A metodologia de trabalho utilizada nas aulas de Geografia, utilizando o Orkut com fins pedagógicos, foi muito pertinente, pois esta prática faz parte de dia-a-dia dos alunos, tornando o ensino significativo aos olhos dos alunos. Assim ao desenvolver as aulas de Geografia através do computador e ferramenta Orkut, a professora inovou sua metodologia, proporcionando aos alunos a possibilidade de tornar o ensino da Geografia que comumente é considerado abstrato e conteudista em um estudo significativo e interativo, proporcionando assim, na visão dos alunos, uma melhoria na aprendizagem, pois possibilitou, através de um ambiente colaborativo, a construção do conhecimento compartilhado, significativo e autônomo, despertando assim o desejo de que as demais disciplinas escolares também a utilizem como recurso didático em suas aulas. 82 A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia A pesquisa deixa claro que o computador e internet contribuíram para a melhoria do aprendizado dos conteúdos da disciplina de Geografia, pois à medida que os alunos estudavam, a partir dos fóruns postados, realizavam as tarefas sugeridas, pesquisavam nos sites, respondiam aos fóruns e compartilhavam as respostas com os colegas e professora, num processo colaborativo, seu aprendizado melhorava. Diante disso recomendam-se novos estudos e iniciativas que venham ao encontro da temática de informática educativa e incorporação do computador e Internet como ferramentas pedagógicas em diferentes níveis e modalidades de ensino. Isso é necessário na mesma ou em outras instituições escolares e espaços educacionais, aprofundando ou incrementando o presente estudo para que o conhecimento possa ser construído pela ação, interação, autonomia e cooperação dos alunos. Assim torna-se pertinente que professores criem momentos periódicos em suas instituições de ensino para discutir sobre as possibilidades de desenvolver um trabalho em conjunto entre todas as disciplinas a fim de proporcionar projetos interdisciplinares com o computador e internet no ambiente escolar, tanto na instituição pesquisada quanto em outras instituições de ensino. 6. Referências BRASIL (1996). Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB. Lei 9.394/96). BRASIL (1998). Parâmetros Curriculares nacionais. Introdução aos Parâmetros curriculares nacionais. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF. BRASIL, Secretaria de Educação e Cultura (2000). Plano Nacional de Educação. MEC/SEED, Brasília. Cortez, Brasília, DF: MEC, UNESCO. DELORS, Jacques (2001). Educação: um tesouro a descobrir. 6ª Edição. São Paulo: Edição. Lisboa: Artes Gráficas Ltda. Estado do Rio Grande do Sul (2007). Plano Estadual de Educação. Disponível: http://www.educacao.rs.gov.br/pse/html/pee.jsp?ACAO=acao1(acessado 05 de setembro de 2008). FAZENDA, Ivani Catarina Antunes - Org. (1993). Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez. HARASIN, Linda... [et al.]. (2005). Redes de aprendizagem: um guia para ensino e aprendizagem on-line. Trad. Ibraíma Dafonte Tavares. São Paulo: Editora Senac. MERCADO, Luiz Paulo Leopoldo. Org. (2002). Novas Tecnologias na educação: reflexões sobre a prática. Maceió: Edufal. MOREIRA, Marco Antônio (2006). A teoria da aprendizagem significativa e sua implementação em sala de aula. Brasília: Editora Universidade de Brasília. RAYS, Oswaldo Alonso, org. (2002). Educação: ensaios reflexivos. Santa Maria: Pallotti. Sampieri, Roberto Hernandez et al. (2006). Metodologia de Pesquisa. 3ª Edição, São Paulo: McGraw-Hill. TAJRA, Sanmya Feitosa, (2007). Informática na Educação: novas ferramentas pedagógicas para o professor na atualidade. 7ª ed. São Paulo: Érica. A percepção dos alunos em relação à contribuição do computador na aprendizagem da disciplina de Geografia 83 Guillermo Sicardi Socio Director de Solution Alliance, Uruguay MBA con mención en Marketing de la Universidad ORT, Uruguay [email protected] ¿Qué les enseñan a nuestros hijos en los liceos? Y más importante aún ¿para qué les enseñan lo que les enseñan? Me hago estas preguntas desde mis distintos roles como padre, docente universitario, empresario y ciudadano. Y lamentablemente no tengo buenas respuestas, y las que tengo, no me satisfacen. Primero. Tengo la plena convicción que la mayoría de los liceos – aún los privados – se esmeran más por cumplir con “el programa” que por despertar los talentos y virtudes de sus educandos. Los profesores no están entrenados para detectar talentos, apenas están capacitados para responder simples preguntas. No saben detectar en el “payaso” de la clase a un futuro actor, en el tímido o recatado a un posible investigador, en el charlatán a un promiscuo orador o en el galancito a un innato vendedor. El 80% de lo que aprendan en el liceo lo olvidarán en menos de 5 años o quedará obsoleto. En cambio el habilidoso para el deporte, para la charla amena o para la investigación, lo será para toda su vida. No importa el deporte que desarrolle, ni lo que investigue: lo importante es que hará algo que le gusta y para lo cual tiene un talento natural. Segundo. El sistema educativo está diseñado para contemplar a los mediocres, no para destacar a los excelentes. Existen clases de “recuperación” en Febrero para los más lentos o las más haraganes, pero no hay clases de “potenciación” para los sobresalientes. ¿No es mejor potenciar los talentos y las fortalezas que compensar las debilidades? 84 Tercero. Todos los liceos dicen que “educan en valores”, pero ¿qué valores? Lo que más valoran los uruguayos es la “seguridad”. Por eso el 63% de los jóvenes menores de 25 años aspiran a ser empleados públicos. No es para menos; en abril del 2009 el Parlamento llamó a un concurso para cubrir el puesto de “oficial de Intendencia” (manejar ascensores, servir café, trasladar insumos y atender al público) con su sueldo de $ 27.000 por mes. La mayoría de los padres quieren que sus hijos sean educados en valores como la “solidaridad”, el “compañerismo” o la “criticidad”, antes que los valores de “calidad” o el “emprendedurismo”. Por eso se inscribieron más de 180.000 jóvenes para servir café y menos de 100 para presentar proyectos emprendedores. Recientemente el Banco Santander hizo un llamado para “Emprendedores Universitarios”; se anotaron 43 proyectos y sólo 15 entregaron el plan de negocios exigido. La Universidad ORT junto a VTV y Grupo la Información de España organizaron el Venture Day Iberoamericano + R; se presentaron 120 proyectos, de un plumazo descartaron 80, quedaron sólo 40. Y al Open Coffee Montevideo, menos de 12 anotados. ¿De qué valores hablamos? Cuarto. No tengo los más mínimos parámetros para juzgar la calidad de la educación que reciben mis hijos ni para comparar entre diferentes Instituciones. ¿Cómo puedo saber si el Colegio Inglés es mejor que el Seminario? ¿Cómo sé si el Elbio Fernández educa mejor en matemáticas que The British School? ¿Por qué el Christian Brothers cobra tres veces más caro que el IEEP en El Pinar? La respuesta: imposible saberlo. Las autoridades de secundaria están más ocupadas en “inspeccionar” el cumplimiento de los programas creados por sus burócratas y sus Asambleas Técnico Docentes, que en darle a los padres las herramientas e información necesaria como para que podamos evaluar con objetividad y profesionalismo el lugar donde educaremos a nuestros hijos. Al final terminan pesando estos tres criterios para elegir el Colegio, que nada tienen que ver con la Educación y son: 1 – quiénes son las familias y amigos que van a cierto Colegio (para que estudie con “gente como uno”), 2 – la estructura edilicia (que nos “llena el ojo” con aulas, gimnasios y laboratorios lustrosos), 3 – la cercanía (no será muy buen colegio, pero queda cerca) Quinto. ¿Qué espero de un liceo? • Quiero que el liceo ayude a mis hijos a descubrir sus talentos, no a salvar exámenes • No quiero que lo feliciten por tener todo 12, eso no me da ninguna señal sobre dónde están sus talentos y sus pasiones. Sólo me dice que es un chico muy responsable. O un anodino que tanto le da estudiar matemáticas, como historia o dibujo. Enseñar, ¿para qué? 85 • Quiero que lo formen para ser un ciudadano útil: que aprenda a arreglar un enchufe más que medir el azimut de una estrella, que sepa cocinarse a recordar de memoria la Tabla Periódica. • Que aprenda a pensar por sí mismo, no a memorizar. • Que aprenda a resolver conflictos con otros compañeros, no a recurrir al amparo de un docente • Que le estimulen la iniciativa individual • Que le ayuden a desarrollar su autoestima, la mejor herramienta para superar obstáculos en la vida • Y sobre todo, que se divierta aprendiendo y que sus profesores se diviertan enseñándole, porque en última instancia, si mi hijo no logra hacer lo que le guste, va a tener que trabajar. 86 Enseñar, ¿para qué? La Revista del IPCP es una publicación semestral con artículos de carácter inéditos de las áreas de educación, administración y salud resultado de investigaciones o estudios. 01. Los trabajos enviados deben ser originales e inéditos. 02. Los originales aceptados, se constituyen en propiedad exclusiva de la revista y no serán devueltos al autor, sin embargo el mismo recibirá dos ejemplares de la publicación. 03. La revista no se hace responsable de las opiniones, afirmaciones e ideas de los autores. 04. Todos los trabajos enviados a la Revista serán sometidos a análisis, evaluación y aprobación de reconocidos especialistas de los temas tratados y que conforman el Comité Editorial. 05. Los originales deben estar en español o portugués, acompañado de un resumen en inglés, así como las palabras claves. 06. La revista estará organizada de la siguiente manera: Artículos: resultados de investigaciones o estudios concluidos. Comunicaciones: comprende comunicaciones o relatos de experiencias obtenidas en actividades profesionales realizadas. Reseñas: comprende análisis de libros, revistas, tesis lanzadas en el periodo de la publicación de la revista. 07. Todos los trabajos deberán ser enviados a la siguiente dirección: a la atención de la editora. El texto deberá estar en formato Word, y no debe sobrepasar 2 MB, Fuente Arial tamaño 11, papel DIN A4c con 1,5 espacios entre línea, con margen de 3,0 cm. y demás márgenes 2,5 cm.. Además deberá ir el título del trabajo en idiomas español y portugués, nombre (s) de autor (es), último grado académico, institución a la que pertenece, dirección postal, teléfono, y e-mail. 08. La extensión máxima del trabajo, 20 páginas, reseñas 5 paginas, comunicaciones 10 páginas. 09. El título del trabajo, debe ser breve y suficientemente específico y descriptivo para representar el contenido del texto. Tanto el título como las palabras claves deben estar traducidos al inglés. 10. Resumen, debe ser tener no más de 200 palabras, incluyendo objetivo, método, resultado, conclusiones, en inglés, español y/o portugués. 11. Figuras y tablas, las fotografías, gráficos deben ser nítidas, las tablas en blanco y negro, y deben estar numerados en orden. 12. El trabajo se deberá regir por la Norma ABNT. Normas para publicação na Revista IPCP 87 88