PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Programa de Pós-Graduação em Administração
Mestrado Profissional em Administração
SÉRGIO JORGE SALIBA JÚNIOR
A ADOÇÃO TECNOLÓGICA AMBIENTAL
E A COMPETITIVIDADE: estudo de casos múltiplos
de empresas de grande porte
Belo Horizonte
2014
SÉRGIO JORGE SALIBA JUNIOR
A ADOÇÃO TECNOLÓGICA AMBIENTAL
E A COMPETITIVIDADE: estudo de casos múltiplos
de empresas de grande porte
Dissertação
apresentada ao
Mestrado
Profissional em Administração da Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais, como
requisito para obtenção do títulopara a
obtenção do título de Mestre em
Administração.
Orientadora:
Versiani.
Belo Horizonte
2014
Profª.
Dra.
Ângela
França
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
S165a
Saliba Júnior, Sérgio Jorge
A adoção tecnológica ambiental e a competitividade: estudo de casos múltiplos
de empresas de grande porte / Sérgio Jorge Saliba Júnior. Belo Horizonte, 2014.
134 f.: il.
Orientadora: Ângela França Versiani
Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Programa de Pós-Graduação em Administração.
1. Tecnologia ambiental. 2. Desenvolvimento sustentável. 3.
Grandes
empresas - Inovações tecnológicas. 4. Concorrência. I. Versiani, Ângela França.
II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de PósGraduação em Administração. III. Título.
CDU: 338:577.4
Sérgio Jorge Saliba Junior
Título da dissertação: A Adoção Tecnológica Ambiental e a Competitividade: Estudo
de Casos Múltiplos de Empresas de Grande Porte
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação
da
Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais e
Fundação Dom Cabral, como requisito
para a obtenção do título de Mestre em
Administração.
Área de concentração: Administração
___________________________________________________________________________________________
Orientadora Profª. Dra. Ângela França Versiani (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)
____________________________________________________________________________________________
Prof. Dr. Armindo dos Santos Teodósio (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)
______________________________________________________________________________________________
Profª. Dra. Cristiana Fernandes De Muÿlder (Universidade Fumec)
Belo Horizonte, 11 de novembro de 2014
AGRADECIMENTOS
Sobretudo, a Deus, por me brindar com mais essa oportunidade, dando-me luz e força
para superar todos os obstáculos.
À minha orientadora, Profa. Dra. Ângela Versiani, pela liberdade e confiança no
presente trabalho, além da indiscutível amizade e compreensão em momentos difíceis.
Aos meus queridos pais, que sempre me ensinaram a importância da educação na
vida de um homem e me incentivaram a dar mais um grande passo. Obrigado, pai e mãe,
por tudo que vocês me deram e me ensinaram. Pelo amor incondicional, pelo afeto, carinho
e amizade. O amor incondicional recebido ao longo de toda minha vida é com certeza
minha principal fonte de força e perseverança.
Aos meus irmãos, pela amizade e bons exemplos e por estarem do meu lado.
À minha amada esposa, pela companhia, atenção e carinho, que foram essenciais para
a conclusão deste trabalho. Você é muito importante para mim.
RESUMO
As tecnologias vêm passando por várias décadas de transformação, mas foi no início dos
anos 1960 que o debate sobre os “Limites do Crescimento”, frente às relações entre
tecnologia e meio ambiente, começou a apresentar a existência de um novo paradigma
tecnológico para as empresas, devido à visível mudança na trajetória tecnológica vigente.
De fato, a interseção do desenvolvimento econômico e a adoção e de tecnologias
ambientais implicam o envolvimento de diversos agentes, instituições, inovações, mercado
competitivo e pressão externa. O presente trabalho analisa a adoção de tecnologias
ambientais com base na sua relação com a competitividade das empresas. A partir de dados
da pesquisa, identificam-se as principais características relacionadas a todo o processo das
empresas ao adotarem tecnologias ambientais. Com esse propósito, foi realizada revisão
literária com intuito o de se compreender o novo paradigma tecnoeconômico vigente, o
surgimento das inovações em tecnologias ambientais e a sua relação com a
competitividade das empresas. O trabalho, então, explora nas empresas estudadas a
interface entre os antecedentes da adoção das tecnologias ambientais, a operacionalização
interna dessa adoção e os possíveis resultados competitivos alcançados. A partir daí,
dimensões foram sugeridas para identificar as razões que facilitaram e desmotivaram as
empresas a adotarem tecnologias ambientais. Em termos metodológicos, a pesquisa
realizada foi de natureza qualitativa com base em estudos de caso múltiplos realizados em
nove empresas diferentes. Como conclusão, este estudo ressalta que essas empresas
perceberam retornos positivos decorrentes dessas adoções tecnológicas a partir de melhoria
da imagem corporativa, da facilidade de adquirir licenciamentos ambientais, da diminuição
de riscos, da diminuição de consumo e do aumento nas vendas. E revela, também, que
somente a adoção e difusão de tecnologias ambientais de forma mais abrangente nos
processos produtivos das empresas é que representarão resultados realmente efetivos em
sua competitividade.
Palavras-chave: Sustentabilidade. Inovação. Tecnologia Ambiental. Competitividade.
ABSTRACT
Technologies have passed several decades of transformation, but it was at the beginning of
the 1960s that the debate on the "Limits to Growth", facing the relationship between
technology and the environment, began to show the existence of a new technological
paradigm for enterprises due to a visible change in the current technological trajectory. In
fact, the intersection of economic development and the adoption of environmental
technologies and imply the involvement of different actors, such as institutions, innovation,
competitive market and external pressure. This study analyzes the adoption of
environmental technologies based on their relation to the competitiveness of enterprises.
As per the research database, it identifies the main characteristics related to the whole
process of enterprises to adopt environmental technologies. Following this purpose, a
literature review with the aim of understanding the new techno-economic paradigm in
place, the emergence of innovations in environmental technologies and its relation to the
competitiveness of companies was conducted. The study then explores in the studied
enterprises the interface among the antecedents of adoption of environmental technologies,
the internal modus operandi of this adoption and the possible competitive results.
Thereafter, some dimensions were highlighted in order to identify the reasons that
facilitated and demotivated companies to adopt environmental technologies.
In
methodological terms, the conducted research was qualitative and based on multiple case
studies run in nine different companies. As a conclusion, this study exposes that these
companies had some positive returns adopting these technologies by improving their
corporate image, acquiring more environmental licenses, lowering risks, lowering
consumption and increasing sales. The final study conclusion shows that only a broadly
adoption and diffusion of environmental technologies in the production processes of these
companies that may represent a effective results in their competitiveness.
Key words: Sustainability. Innovation. Environmental Technology. Competitiveness.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Desenvolvimento sustentável: representações. ................................................. 33
Figura 2 - As tipologias das tecnologias ambientais. ........................................................ 43
Figura 3 - Sintetização do referencial teórico. ................................................................. 48
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Informantes da pesquisa ..........................................................................................52
Tabela 2 - Detalhes das entrevistas ...........................................................................................53
Tabela 3 - Questões do roteiro de entrevista por dimensão da gestão da inovação ..................55
Tabela 4 - Metodologia de pesquisa .........................................................................................56
Tabela 5 - Participação do setor mineral no PIB do Brasil (1970-2008) em % .......................58
Tabela 6 - Dados da indústria da construção ............................................................................80
Tabela 7 - Similaridades entre as organizações na adoção de tecnologias ambientais .............94
Tabela 8 - Divergências entre as organizações na adoção de tecnologias ambientais ...........102
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ABCP - Associação Brasileira de Cimento Portland
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas
ABINEE - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica
ABM - Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais
ANATEL - Agência Nacional de Telecomunicações
ABRAMAT - Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção
BCSD - Business Council for Sustainable Development
CBMM - Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração
CLAES - Centro Latino-Americano de Ecologia Social
CMMAD - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
COSIPA - Companhia Siderúrgica Paulista
CPRM - Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais
CREA - Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura
CSN - Companhia Siderúrgica Nacional
DNPM - Departamento Nacional de Produção Mineral
EUA - Estados Unidos da América
FGV - Fundação Getúlio Vargas
FIESP - Federação das Indústrias de São Paulo
FUNTEL - Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações
GDP - Gross Domestic Product
GEF - Gases de efeito estufa
IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente
IBRAM - Instituto Brasileiro de Mineração
IDTbr - Indicador de Desenvolvimento Tecnológico - base receita
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
IUCN - International Union for Conservation of Nature
LGT - Lei Geral de Telecomunicações
MMA - Ministério do Meio Ambiente
MME - Ministério de Minas e Energia
MNC - Multinational Companies
OECD - Organisation for Economic Co-operation and Development
ONG - Organização Não Governamental
ONU - Organização das Nações Unidas
P&D - Pesquisa e Desenvolvimento
PIB - Produto interno bruto
PML – Produção mais limpa
PNRS - Política Nacional de Resíduos Sólidos
PNUMA - Programa das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente
RCD - Resíduos de Construção e Demolição
ROI - Retorn on Investiment
SBM - Siderúrgica Barra Mansa
SGM - Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral
SINDUSCON - Sindicato da Indústria da Construção Civil
SPRU - Science Policy Research Unit
TELEBRAS - Telecomunicações Brasileiras S.A.
TELEBRASIL - Associação Brasileira de Telecomunicação
TI - Tecnologia da Informação
TIC - Tecnologia da Informação e Comunicação
UNEP - United Nations Environment Programme
USIMINAS - Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais
UNIDO - United Nations Industrial Development Organization
V&M - Vallourec & Mannesmann
WBCSD - World Business Council for Sustainable Development
WWW - World Wildlife Fund
SUMÁRIO1
1 Introdução ............................................................................................................................16
2 Referencial Teórico ..............................................................................................................21
2.1 Paradigma tecnoeconômico baseado em desenvolvimento sustentável .....................21
2.2 Inovações em tecnologia ambiental ...............................................................................29
2.3 Competitividade e as tecnologias ambientais ............................................................... 37
3 Metodologia de Pesquisa .....................................................................................................49
3.1 Estratégia de pesquisa ....................................................................................................49
3.2 Estratégia de análise de dados .......................................................................................54
4 Descrição e Análise dos Dados ............................................................................................58
4.1 Descrição do setor de mineração ...................................................................................58
4.1.1 A adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de mineração ..................61
4.1.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de
mineração .................................................................................................................................65
4.2 Descrição do setor de siderurgia....................................................................................66
4.2.1 A adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de siderurgia ...................68
4.2.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de
siderurgia..................................................................................................................................71
4.3 Descrição do setor de telecomunicações ........................................................................72
4.3.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de telecomunicações ..........74
1
Este trabalho foi revisado de acordo com as novas regras ortográficas aprovadas pelo Acordo Ortográfico
assinado entre os países que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), em vigor no
Brasil desde 2009. E foi formatado de acordo com a APA 2002.
4.3.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientas na empresa do setor de
telecomunicações .....................................................................................................................77
4.4 Descrição do setor de construção civil ..........................................................................79
4.4.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de construção civil .............82
4.4.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de construção
civil...........................................................................................................................................84
4.5 Descrição do setor de reciclagem ...................................................................................85
4.5.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de reciclagem .....................88
4.5.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de reciclagem 91
4.6 Discussão dos resultados da pesquisa............................................................................92
5 Conclusões ..........................................................................................................................107
5.1 Principais conclusões ....................................................................................................107
5.2 Limitações, contribuições e sugestões para pesquisas futuras. .................................112
REFERÊNCIAS....... ..............................................................................................................116
ANEXO.......................................................................................................................133
16
1
Introdução
A emergência do movimento ambientalista no final da década de 1960 trouxe para a
ordem do dia os temas da diminuição dos recursos naturais de uso comum e de inovações
tecnológicas ambientalmente limpas. Esse cenário impulsionou a crítica aos modelos de
desenvolvimento econômico até então vigentes, identificando incompatibilidade entre os
processos convencionais de crescimento econômico baseado na exploração ilimitada dos
recursos naturais e a garantia de sobrevivência do ser humano no longo prazo. A partir daí, os
debates intensificaram-se, procurando estabelecer a associação entre tipo de desenvolvimento
econômico e proteção ao meio ambiente. Inicialmente, uma nova concepção de
desenvolvimento econômico ambientalmente sustentável foi esboçada no encontro
preparatório de Founex (Suíça), em 1971. Esse encontro promoveu reflexões a respeito das
implicações que um modelo de desenvolvimento baseado exclusivamente no crescimento
econômico provocaria no longo prazo caso a problemática ambiental não fosse incorporada
no modelo desse desenvolvimento.
Tal discussão ganhou destaque com o economista Ignacy Sachs (1986), gerando o
conceito de ecodesenvolvimento. O ecodesenvolvimento representava uma espécie de
“terceira via” para o crescimento econômico (Camargo, 2003), que deveria ser buscado
mediante inovações técnicas ambientalmente sustentáveis. Tais inovações se constituiriam em
resposta à iminente crise ecológica e energética a qual ameaçava o meio ambiente (Sachs,
1986). Essa conclusão caminhou para a atual concepção de que não é o crescimento
econômico que chegou ao seu limite, mas sim o desenvolvimento calcado num padrão
tecnológico intensivo em matéria-prima e energia (Meadows, Meadows & Randers, 1972). A
partir dessa ideia, começou-se a defesa do ponto de vista mais transformacional sobre o
modelo de desenvolvimento que poderia ser alavancado mediante as inovações tecnológicas e
17
a preservação do meio ambiente. Acredita-se que tal transformação estaria ancorada na
iniciativa das empresas em tornar seus processos e produtos mais limpos, sem lançar mão de
crescer economicamente. Dessa maneira, conciliar-se-iam objetivos ambientais e econômicos
mediante a reavaliação das tecnologias adotadas em seus processos (Sachs, 1986).
Considerando o cenário em que a conservação ambiental emerge como um fator de
extrema importância para que se tenha desenvolvimento econômico sustentável, fatores de
pressão do ambiente externo fortaleceram, tais como normas e regulamentações
governamentais e/ou a conscientização do mercado sobre os riscos ambientais. Tais pressões
têm exigido das empresas ações que minimizem seus impactos no meio ambiente, forçando-as
a ignorar qualquer existência de um trade-off entre sustentabilidade ambiental e
desenvolvimento econômico. De acordo com Manzini e Vezzoli (2002), foi por essas pressões
que um novo paradigma tecnológico de desenvolvimento econômico passou a ser notado por
muitas empresas, as quais buscaram melhorar seu desempenho na dimensão ambiental.
Assim, a variável inovação começou a incorporar a dimensão ambiental por meio da escolha
de tecnologias adequadas aos vários aspectos relacionados às atividades empresariais, bem
como em resposta às pressões externas para redução dos impactos ambientais de suas
atividades. Diante de tais exigências, as empresas parecem estar sendo obrigadas a um
posicionamento mais ecoeficiênte, que visa à integração de ações ambientais em todas as suas
áreas produtivas, sempre se comprometendo com a melhoria contínua e a dedução dos
impactos ambientais inerentes aos negócios.
As pressões externas do ambiente empresarial trazem benefícios sociais ao induzir as
empresas a preservarem o meio ambiente (Almeida, L., 2002, Kemp, Smith & Becher, 2000).
Entretanto, ao mesmo tempo salientam o debate sobre a controvérsia acerca do trade-off entre
os benefícios da maior preservação ambiental e a elevação dos custos produtivos das
empresas no processo de adoção de inovações tecnológicas mais limpas, o que poderia
18
impactar sua competitividade. A ideia de que a preservação ambiental possui impacto
negativo na competitividade tem sido questionada por diversos autores. Por exemplo,
BARBIERI et al. (2010) argumenta que recentemente a adesão das empresas a esse
movimento passou a ser um fator de competitividade, seja como fonte de diferenciação, seja
como fonte de qualificação para continuar no mercado. De acordo com D`Souza, Taghian,
Lamb & Peretiatkos (2006), um dos fatores que parecem encorajar as empresas a buscar
desenvolvimento competitivo a partir de equilíbrio ambiental e econômico diz respeito aos
ganhos de imagem junto ao mercado. Tais autores são enfáticos ao afirmarem que as
empresas detentoras de práticas de sustentabilidade passam a usufruir melhor reputação junto
ao mercado. Além disso, a mudança de comportamento ou posicionamento em prol de
práticas de sustentabilidade também parece se refletir nos benefícios alcançados pelo fato de
as empresas entregarem mercadorias e serviços que satisfaçam as necessidades do novo perfil
de consumidor mais preocupado com as questões ambientais. Ao adotarem progressivamente
as tecnologias ambientais limpas, as empresas podem reduzir os impactos ecológicos e o
consumo de recursos naturais ao longo de sua cadeia produtiva. Ao assim proceder, não só
economizam os recursos necessários ao seu ciclo produtivo como o colocam em um nível
mais alinhado, com a capacidade estimada de sustentação da terra (Schmidheiny, 1992).
A questão ambiental, então, deixa definitivamente de ser somente uma questão de
obediência às prescrições tradicionais das pressões ambientais e passa a atuar na dimensão da
redução de custos, administração mais eficiente, controle e organização da produção e de
todas as atividades de criação de valor, tornando-se essencialmente uma forma de criar valor
competitivo. Corroborando essa ideia, Hart (1995) afirma que ações ambientais inovadoras
levam ao desenvolvimento de capacidades específicas que se tornam fontes de vantagem
competitiva para as empresas.
19
Esse ponto de vista assinala que a proteção ambiental, mais especificamente o processo
de adoção de tecnologias limpas, poderia ser realmente uma oportunidade capaz de adicionar
vantagem competitiva às empresas (Porter, 1991; Porter & Linde, 1995). Assim, diversos
autores (Cassagrande, 2004; Donaire 1999; Hart 1995; Layrargues, 1996) têm tentado
demonstrar que a adoção de tecnologias limpas pode efetivamente desenvolver vantagens
competitivas. Sabe-se que as dimensões econômicas e mercadológicas das questões
ambientais têm se tornado cada vez mais relevantes, representando custos e/ou benefícios,
limitações e/ou potencialidades, ameaças e/ou oportunidades para as empresas (Souza, 2002).
Há muitos estudos nas áreas de sustentabilidade empresarial que focam a estratégia e gestão
ambiental. Entretanto, poucos parecem ser aqueles que tratam da relação do processo de
adoção de tecnologias ambientais com a competitividade das empresas, principalmente no
Brasil. Frente a tal constatação, indaga-se neste trabalho como a adoção de tecnologias
ambientais impacta a competitividade das empresas.
Assim, ao se propor analisar como as empresas vêm adotando tecnologias ambientais e a
relação dessa adoção com a sua competitividade, pretendeu-se, especificamente, identificar os
fatores motivadores e entraves da adoção de tecnologias ambientais limpas, o processo dessa
adoção e seus impactos sobre a competitividade das empresas.
Para cumprir os objetivos estabelecidos neste estudo, foi realizada pesquisa empírica de
natureza qualitativa descritiva com nove empresas de grande porte de setores diferentes, as
quais operam em diversos países do mundo. Ao se pesquisar empresas em diferentes setores,
pretendeu-se contribuir para a redução das lacunas existentes na discussão sobre os principais
obstáculos e incentivos do processo de adoção de tecnologias ambientais, assim como
enriquecer o debate acerca do impacto dessas tecnologias sobre o desempenho competitivo
das empresas.
20
Isso posto, o trabalho foi estruturado em cinco capítulos, que são descritos a seguir. O
primeiro capítulo, ou seja, esta introdução, apresenta os objetivos e as questões propostas pelo
estudo, bem como os argumentos que justificam sua relevância. No segundo capítulo faz-se a
revisão da literatura, dividindo-se em três seções. A seção que versa sobre o paradigma
tecnoeconômico baseado em desenvolvimento sustentável analisa a trajetória tecnológica e os
fatores teóricos fundamentais no processo de mudança tecnológica em direção à geração e
adoção de tecnologias limpas. A segunda seção, referente às inovações em tecnologias
ambientais, trata da caracterização do termo e suas derivações, além dos principais obstáculos
e incentivos para suas adoções. Na última sessão, a pesquisa penetra nos principais
argumentos do debate sobre o relacionamento das adoções de tecnologias ambientais e o
desempenho competitivo das empresas.
O terceiro capítulo é dedicado à metodologia, trazendo as perguntas da pesquisa, o
método escolhido, o processo de coleta e análise dos dados e as limitações do método.
No quarto capítulo descrevem-se os nove casos estudados, divididos em seis subseções,
sendo as cinco primeiras para cada um dos setores avaliados, incluindo seus dados
secundários, e a sexta respeitante à apresentação dos resultados. A pesquisa foi realizada sob
o prisma da literatura e o detalhamento dos antecedentes, o processo e os resultados da adoção
das tecnologias ambientais para cada empresa estudada.
O quinto capítulo apresenta as conclusões do estudo e as respostas às perguntas
postuladas inicialmente.
21
2
2.1
Referencial Teórico
Paradigma tecnoeconômico baseado em desenvolvimento sustentável
O debate sobre o meio ambiente ganhou importância a partir de meados da década de
1960, quando acadêmicos, ambientalistas e economistas alertaram para a incompatibilidade
entre preservação ambiental e crescimento econômico. A partir daí, surgiram as primeiras
discussões sobre ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável (Montibeller Filho,
2001), sendo que no início da década de 70 a reunião de Founex (Suíça) oficializou essas
discussões. A convocação da reunião foi parte do processo preparatório para a Conferência
das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em 1972, em Estocolmo, sendo também
projetada para discutir a relação entre meio ambiente e desenvolvimento.
Para Vieira (1992), o Relatório Founex (1972) teve o mérito de ampliar tanto o escopo
da discussão ambiental, quanto o conceito de desenvolvimento. Com essa ampliação, a
preocupação com o ambiente passou a incorporar o desenvolvimento humano e social, da
mesma forma que este passou a considerar a dimensão ambiental. Na reunião de Founex, mais
especificamente em seu relatório, ficou estabelecido um pensamento alternativo entre o
pessimismo daqueles que advertiam sobre a necessidade de impor limites à reprodução do ser
humano, haja vista o esgotamento dos recursos ambientais versus o otimismo dos que
promulgavam a adequação da racionalidade econômica e a eficiência tecnológica a partir de
adequado ajuste que minimizasse os problemas ambientais.
Segundo Meadows et al. (1972), o pensamento ambientalista alternativo para esses dois
extremos é representado pelos cientistas ligados ao Clube de Roma, entre eles Commoner
(1974), Meadows et al. (1972) e Bosquet (1976). Em suas críticas ao capitalismo industrial,
os autores apresentavam contundente oposição ao desenvolvimento tecnológico. De acordo
22
com Spaargaren (1996), o Clube de Roma sustentava a ideia de que a causa dos problemas
socioambientais da época repousava nas condições e relações de produção capitalistas, que
não contabilizavam o custo ambiental relativo ao desenvolvimento técnico-econômico. Esses
teóricos afirmavam, de diferentes maneiras, que os efeitos da tecnologia gerariam saturação
ecossistêmica, principalmente na forma de poluição atmosférica, hídrica ou de resíduos
sólidos. As tecnologias modernas, baseadas no uso intensivo de recursos energéticos e na
emissão de poluentes, representavam o grande fator desestabilizador do meio ambiente.
Segundo os cientistas do Clube de Roma, o papel da tecnologia como prevenção ou
como aceleração do colapso ambiental e econômico poderia ser determinado em função dos
objetivos da sociedade como um todo. Por exemplo, se a sociedade desejasse explícita ou
implicitamente explorar a natureza mediante tecnologias destruidoras do meio ambiente,
maximizando os resultados a curto prazo, o caminho do colapso ambiental seria inevitável.
Ao contrário, se fossem utilizadas medidas alternativas, nem sempre a tecnologia seria fator
motivador desse colapso (Meadows et al., 1972).
O trabalho de Dosi (1982) mostra-se relevante na compreensão sobre o que levaria a
tecnologia a gerar um colapso ecossistêmico. O autor define tecnologia como um conjunto de
conhecimentos práticos e teóricos, métodos, procedimentos e experiências de sucesso ou
fracasso, além de dispositivos e equipamentos físicos que corporificam os avanços no
desenvolvimento técnico em determinada atividade de solução de problemas.
A partir dessa conceituação ampla de tecnologia, o autor argumenta que a busca para
resolver determinados problemas tecnológicos tende a se concentrar nas soluções já
conhecidas e nos esforços para o aperfeiçoamento dos conhecimentos relevantes para tais
soluções. Para ele, o desenvolvimento econômico está atrelado a um paradigma tecnológico,
ou seja, a “um ‘modelo’ ou ‘padrão’ de solução de determinados problemas tecnológicos”
23
(Dosi, 1982, p. 12), sendo tal modelo selecionado em função dos sucessos e benefícios
trazidos em determinado momento, tornando-se recorrente ao longo do tempo.
A evolução de diferentes tecnologias, circunscrita a bens ou processos derivados de
aplicações efetivas ou potenciais desse paradigma, constituiria o que se define como
trajetórias tecnológicas. A trajetória tecnológica é um padrão de atividades apoiado no
desenvolvimento de determinada tecnologia, que busca efetivar a promessa de
desenvolvimento técnico. Portanto, um paradigma tecnológico age como "direcionador" do
progresso técnico, definindo ex ante as oportunidades objetivadas e as não pertinentes e é
dotado de "poderoso efeito de exclusão" (Dosi, 1988a; 1988b), ao permitir a redução
apriorística do número de possibilidades de desenvolvimento tecnológico.
A ideia de paradigma tecnológico Dosi (1982) vai ao encontro do que havia sido bem
documentado no relatório de Meadows et al. (1972)2, que socializou a visão dos recursos
naturais como limitados e finitos e que afirmou estar o crescimento econômico claramente em
contradição com a conservação dos recursos naturais. O documento indicava que tecnologias
desenvolvidas com a finalidade última de mais bem-estar para a sociedade como um todo
trariam, com o decurso do tempo, situações consideradas indesejáveis e problemáticas do
ponto de vista ambiental e da sobrevivência. A mudança tecnológica, em qualquer cenário,
não alteraria de forma significativa os resultados perniciosos do desenvolvimento técnicoeconômico da modernidade. Por exemplo, a utilização de energia nuclear permitiria ampliar
de forma indefinida a produção, porém geraria níveis crescentes de poluição. Ou seja, a
introdução de avanços tecnológicos apenas adiaria o colapso resultante do aumento da
atividade humana e, portanto, segundo a equipe de Meadows, a única forma de impedir o
2
Relatório do Clube de Roma, realizado por um grupo de pesquisadores e coordenado por Dennis Meadows. O
relatório, publicado sob o título “Limites do crescimento”, em 1972, enfatizava principalmente o aspecto
relativo à “escassez de recursos naturais, destacando a interdependência global e não sustentabilidade do
crescimento econômico sem limites, tendo em vista o esgotamento dos recursos naturais, as dificuldades na
produção de alimentos e os distúrbios irreversíveis do meio ambiente” (Souza, 1994, p. 6, como citado em
Kitamura, 1994).
24
colapso previsto seria combater as fontes de crescimento exponencial com uma política de
crescimento econômico zero.
Tal posição também é compartilhada por Commoner (1974), que descreve a crise
ambiental, apresentando poluente por poluente, produto por produto e os efeitos nocivos das
novas tecnologias. O autor discute separadamente as atividades tecnológicas, como, por
exemplo, o caso do plástico e dos fertilizantes, entre outras, como atividades autônomas. Para
ele, embora o desenvolvimento tecnológico seja compartimentado em suas manifestações
específicas, como gerador de poluentes e efeitos desastrosos ao meio ambiente, há
convergência dessas manifestações expressas em uma trajetória tecnológica emissora de
poluentes, que, em última instância, constitui ameaça às condições de vida.
Entretanto, essa ameaça pode não ser tão implacável. O enfoque evolucionista proposto
por Nelson & Winter (1977; 1982) mostra alternativas ao colapso ambiental gerado pela
tecnologia. Para esses autores, o progresso técnico pode sofrer influências do mercado e ser
selecionado ex post, o que significa: "mutações" tecnológicas (busca) são geradas no processo
competitivo entre empresas. Tal concepção é compartilhada por Freeman & Perez (1988), que
sugerem que novas tecnologias, após prolongado período de incubação e cristalização,
oferecem tão amplo campo de oportunidades para novos mercados e investimentos lucrativos
que, quando as condições sociais e institucionais são favoráveis, os empresários têm
confiança suficiente para fazerem uso de uma onda prolongada de investimento expansivo em
alternativas tecnológicas.
De acordo com Dosi et al. (1988a; 1988b), Freeman & Perez (1988) e Silvemberg &
Soete (1988), estaríamos assistindo à emergência de um novo paradigma tecnológico
"intensivo em informação" e deixando para trás outro intensivo em energia-petróleo. Entre
eles há o consenso de que a rápida adoção de um novo paradigma tecnológico constitui uma
importante alavanca para acelerar o desenvolvimento econômico e que a variável tecnológica
25
ocupa posição central na resolução do impasse do crescimento econômico, sem degradação
ambiental.
Tais ideias embasam a crítica feita ao Clube de Roma, e mais especificamente a
Meadows et al. (1972), ao propor o crescimento zero para lidar com a crise do esgotamento
dos recursos naturais. Tal crítica foi desenvolvida pelos pesquisadores da Science Policy
Research Unit (SPRU), da Universidade de Sussex, na Inglaterra, que questionaram as ideias
do livro “The Limits to Growth”, de Meadows. A SPRU, fundada pelo professor Christopher
Freeman, em 1966, é um centro de pesquisa reconhecido pelos estudos sobre o papel das
mudanças tecnológicas no processo de desenvolvimento econômico. A crítica foi publicada
em 1973 com dois títulos: “Thinking about the future: a critique of The Limits to Growth” e
“Models of doom: a critique of The Limits to Growth”, na Inglaterra (Londres: Chatto &
Widus) e nos Estados Unidos (Nova Iorque: Universe), respectivamente. Esses autores
enfatizavam a importância do progresso tecnológico, que teria sido subestimado no relatório
Meadows.
Para Freeman (1984), a solução de crescimento zero proposta pela equipe de Meadows
reflete os resultados de um modelo extremamente pessimista, que subestima a mudança
técnica e a capacidade do sistema social de responder a problemas como poluição e
crescimento demográfico exponencial. Freeman afirma que uma economia cuja produção
fosse baseada intensivamente na utilização de recursos naturais inevitavelmente encontraria
limites ao crescimento. No entanto, considerar que tal modelo de crescimento econômico será
prolongado durante muitas décadas é desconsiderar as possibilidades futuras, em aberto para a
sociedade, de fazer uso inteligente da mudança tecnológica e, assim, modificar o padrão de
crescimento.
Esse conflito entre pessimismo e evolucionismo passou a ser contemplado por pontos de
vista alternativos. O primeiro deles é o ecodesenvolvimento, cuja a expressão foi introduzido
26
por Maurice Strong, Secretário da Conferência de Estocolmo, em 1973 (Raynaut & Zanoni,
1993). Na ocasião, porém, Strong não teve a preocupação em definir o conceito, que seria
formulado, pela primeira vez, por Sachs (Godard, 1991). Na definição de Sachs, como citado
em Raynaut e Zanoni (1993, p. 7) para um determinado país ou região, o ecodesenvolvimento
significa:
O desenvolvimento endógeno e dependente de suas próprias forças, tendo por objetivo
responder a problemática da harmonização dos objetivos sociais e econômicos do
desenvolvimento com uma gestão ecologicamente prudente dos recursos e do meio.
Sachs (1986) também se apropria do referido termo, desenvolve-o conceitualmente,
criando para tal um quadro de estratégias. O autor baseia seus estudos em três pilares:
eficiência econômica, justiça social e prudência ecológica. Futuramente, sua ideia é
incorporada pelo relatório Brundtland3 sob um segundo ponto de vista, alternativo, no
conceito de desenvolvimento sustentável.
Para Sachs (1986), o meio ambiente deveria ser a base ecológica do processo de
desenvolvimento, já que ele é fator estratégico do desenvolvimento. De acordo com tal
concepção, o meio ambiente é capital não fixo, tem limites, é esgotável, não é só recurso, mas
também: serviços, espaço, genética, cultura, etc., heterogêneo e dialético. O autor argumenta
ainda ser preciso mudar o paradigma do desenvolvimento, sob o risco de esgotamento dos
recursos, dos serviços, de alteração ecológica generalizada, de colapso social.
Como Layrargues (1996), Sachs (1986) defendia o pluralismo tecnológico, envolvendo
tanto as tecnologias tradicionais como inovações adequadas, escolhidas com critério. Para ele,
“nada justifica o otimismo tecnológico ilimitado segundo o qual a sociedade encontra sempre
uma solução técnica para os problemas econômicos, sociais ou ecológicos, por mais difíceis
3
O relatório Brundtland, mais conhecido pelo título: “Nosso futuro comum”, foi publicado em 1987 e é
resultado do trabalho de uma comissão criada em 1983 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, denominada
de Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD), com o objetivo básico de “propor
estratégias ambientais de longo prazo para obter um desenvolvimento sustentável [...]” (CMMAD, 1991).
27
que possam parecer” (Sachs, 1986, p. 42). Além disso, Sachs alerta em relação à atuação
ilimitada do mercado, que nem sempre é capaz de atuar livremente sem a regulação estatal.
Em seu entendimento, o crescimento e a modernização podem conduzir tanto ao mau quanto
ao bom desenvolvimento, sendo o primeiro um resultado muito mais provável de ocorrer num
processo impulsionado pelo mercado e que enfatiza sistemas técnicos complexos (Sachs,
1986).
Após o conceito de “ecodesenvolvimento” ser introduzido por Strong e difundido por
Sachs, iniciou-se o embasamento da noção de desenvolvimento sustentável (Brüseke, 1993a;
1993b). O relatório Brundtland, de 1987, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (CMMAD, 1991), define o desenvolvimento sustentável como:
"desenvolvimento que responde às necessidades do presente sem comprometer as
possibilidades das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades" (Raynaut &
Zanoni, 1993).
Esse documento introduziu definitivamente a ideia de que o desenvolvimento
econômico deve ser realizado sem comprometer o desenvolvimento socioeconômico e
ambiental das gerações futuras. De forma bastante simplificada, a novidade da abordagem
reside na inserção da dimensão ambiental nos modelos de crescimento econômico. Siche,
Agostinho, Ortega e Romeiro (2007) realçam que o conceito de desenvolvimento sustentável,
surgido na International Union for Conservation of Nature (IUCN), passou a ser adotado
como expressão oficial nos documentos do próprio órgão, da Organização das Nações Unidas
(ONU) e da World Wildlife Fund (WWF). Nesse sentido, surge o entendimento de que a
tecnologia pode ser gerida e aprimorada, a fim de proporcionar uma nova era de crescimento
econômico. No mesmo ritmo, há que se considerar a importância da descoberta ou criação de
insumos energéticos mais econômicos e eficientes.
28
Layrargues (1996) adverte que é mister implementar uma estratégia de desenvolvimento
comprometida com a prudência ecológica, impondo-se voluntariamente um teto do consumo
material, para não acontecer uma corrida acelerada na aquisição numérica de bens. A questão
não seria o desenvolvimento tecnológico por si mesmo, mas a lógica do desenvolvimento
econômico e sua relação com o meio ambiente. Dessa forma, seria sempre preciso criar,
conhecer, avaliar e adotar tecnologias respeitosas à qualidade ambiental.
Sabe-se que a mudança dos padrões de produção e consumo é central nas discussões do
paradigma técnico-econômico vigente e tornaram-se pontos-chave nas alegações da
possibilidade de a sociedade caminhar para o desenvolvimento sustentável. Para Van Brake
(como citado em Lazzarini & Gunn, 2002), os atuais padrões de produção e consumo são
ecologicamente insustentáveis. Ratificando a ideia, Ribemboim (como citado em Lazzarini &
Gunn, 2002) salienta que os atuais padrões de consumo, além de insustentáveis, são injustos
socialmente e depredadores do meio ambiente. Já Giansanti (1999) destaca que a perspectiva
do desenvolvimento sustentável leva ao questionamento do consumismo, haja vista que
inexistem meios para solucionar a escassez dos recursos, sem mudar os hábitos e culturas de
consumo.
Nesse sentido, Lazzarini e Gunn (2002) concluem que é importante que a relação de
consumo de produtos ou serviços que atendam às necessidades dos consumidores coexista
com o uso consciente dos recursos naturais necessários. Essa atitude pode ser exemplificada
por meio de matérias-primas e energia utilizadas na produção, na capacidade do meio
ambiente em absorver a poluição, lixo e resíduos gerados na produção e consumo do produto
ou serviço. É sabido que o consumo inteligente está relacionado ao desenvolvimento e à
incorporação pelas empresas de tecnologias que não agridam o meio ambiente. Assim,
transformar o padrão de crescimento mediante a adoção de tecnologias ambientais torna-se,
por um lado, primordial para o desenvolvimento sustentável ambiental e, por outro, implica
29
ganhos de competitividade para as empresas capazes de modificarem suas rotas de
desenvolvimento tecnológico mediante inovações tecnológicas.
2.2
Inovações em tecnologia ambiental
Conforme evidenciado na seção anterior, a discussão ambiental tem se apresentado
como questão crítica para a efetivação de um novo paradigma tecnológico, identificando a
tecnologia tanto como a causa dos problemas ambientais, quanto como uma maneira de
reduzir os problemas advindos da agressão do ambiente decorrentes da própria tecnologia. Em
outras palavras, reduzir a pegada ecológica4 das atividades humanas. O debate em torno das
inovações em tecnologia ambiental deveu-se, em parte, aos interesses da sociedade sentida
ameaçada com os problemas ambientais e, em parte, à evolução dos estudos acadêmicos sobre
inovação e meio ambiente (Berkhout & Green, 2002).
Lustosa (2002) afirma que, uma vez estabelecido o paradigma tecnológico, as inovações
tornam-se seletivas na capacidade de solucionar problemas e encobrem outras soluções que
estariam fora do paradigma. Ou seja, o paradigma tecnológico tem efeito de exclusão: no seu
interior acontece uma seleção e surge uma espécie de cegueira para com as outras
possibilidades. Em seu artigo, a autora cita que, segundo B. Arthur (as cited in López, 1996),
a tecnologia não é eleita por ser a mais eficiente, mas torna-se mais eficiente porque foi eleita.
Isto é, as tecnologias tornam-se mais atrativas quanto mais são utilizadas. Assim, a tecnologia
possui interdependência temporal, sendo resultado de trajetórias previamente definidas –
path-dependence –, termo utilizado para descrever a poderosa influência do passado sobre o
4
O conceito elaborado por acadêmicos canadenses e conhecido como “pegada ecológica” (ecological footprint)
avalia a capacidade ecológica necessária para sustentar o consumo de produtos e estilos de vida. Calcula-se
uma pegada ecológica somando-se fluxos de material e energia requeridos para sustentar qualquer economia ou
segmento da economia. Tais fluxos são então convertidos em medidas-padrão da produção que se exige das
regiões de terra e água. Pegada é a superfície total, a terra necessária para sustentar determinada atividade ou
um produto (Wackernagel & Rees, 1995).
30
presente e o futuro. Isso gera um aprisionamento tecnológico (efeito de lock-in), fazendo com
que as empresas fiquem presas à tecnologia mais difundida e ao paradigma tecnológico
vigente (Lustosa, 2002). O efeito lock-in acontece principalmente quando é possível inovar,
incrementando adições a tecnologias existentes no interior de padrões tecnológicos
estabelecidos (Corazza, 2001; Flichy, 1995; Stiegler, 1998).
De acordo com Lustosa (2002), as mudanças tecnológicas na direção de tecnologias
ambientais podem ocorrer na trajetória tecnológica ou no paradigma tecnológico, desde que
uma tecnologia vigente seja aprimorada para que gere menos emissões ou haja mudança nas
fontes de energia primária na direção de causar menos impacto no meio ambiente. Dessa
forma, para que haja melhorias ambientais, as empresas devem adotar inovações. Inovação,
segundo o Manual de Oslo, é a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou
significativamente melhorado ou um processo ou um novo método de marketing ou um novo
método organizacional nas práticas de negócios, nas organizações do local de trabalho ou nas
relações externas (Organisation for Economic Co-operation and Development - OECD, 1997,
p. 55). Assim, no novo paradigma tecnológico, há possibilidades de inovações, tanto de
produto como de processo, que atuam no sentido de poupar energia, seja direta ou
indiretamente. Os novos equipamentos de consumo que incorporam componentes
microeletrônicos e novos materiais constituem um caso comum de inovações de produto. Nas
inovações de processo verifica-se a difusão de equipamentos que permitem uma gestão mais
eficiente dos fluxos nas produções industriais (Martin, 1990).
Os processos de eficiência que podem economizar energia e recursos, diminuir poluição,
aumentar produtividade com distribuição equitativa de renda e evitar desperdício de capital
passam por inovações tecnológicas norteadas pela conservação ambiental. Mudanças em
design de produtos, a aplicação da tecnologia da informação em controle e medição, a
utilização de novos materiais de baixo impacto ambiental, o aproveitamento de materiais
31
reciclados, a agregação de valor a resíduos (emissão zero), o uso de substâncias de base
natural e a capacitação de trabalhadores conscientes do processo em que estão inseridos, tudo
isso constitui a plataforma de um desenvolvimento tecnológico ambientalmente saudável que
podem diminuir nossa quantidade necessária de terra e água para sustentar as gerações atuais,
tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos gastos pela população (Cassagrande,
2004).
Essas considerações induzem a um aspecto importante para a denominada “economia
verde”. Esta é definida pela ONU como aquela que resulta em melhoria do bem-estar das
pessoas devido à maior preocupação com a equidade social, com os riscos ambientais e com a
escassez dos recursos naturais – como direcionar a mudança tecnológica na direção de
inovações ambientais (por exemplo, por meio de ecoinovação, ecotecnologia e ecoeficiência)
(Programa das Nações Unidas Sobre Meio Ambiente/ Centro Latino-Americano de Ecologia
Social – PNUMA/CLAES, 2008).
O termo ecoinovação foi primeiramente proposto por Fussler & James (1996), na obra
“Conduzindo ecoinovação: uma disciplina inovadora para a inovação e sustentabilidade”. E
pode ser definido como a produção, aplicação ou exploração de um bom método de serviço,
processo de produção, estrutura organizacional, gestão ou negócios, sendo uma novidade para
a empresa ou para o usuário, resultando, ao longo do seu ciclo de vida, na redução da poluição
e de energia em comparação a alternativas relevantes (Horbach, Rammer, & Rennings, 2012).
Com base na definição de inovação do Manual de Oslo, porém com resultado muito
similar à definição de Fussler & James (1996), Kemp & Pearson (2008, p. 7) definiram
“ecoinovação” como a produção, assimilação ou exploração de um produto, processo de
produção, serviço ou método de gestão ou de negócio que é novo para a organização
(desenvolvendo ou adotando-a) e que resulta, ao longo do seu ciclo de vida, em reduções de
32
riscos ambientais, poluição e outros impactos negativos do uso de recursos, inclusive energia,
comparado com alternativas pertinentes.
As definições de ecoinovação são bem generalistas e, por essa razão, muitos tipos de
inovações podem ser consideradas como ecoinovações (Falk & Ryan, 2006). Essa situação
resulta na importante questão de como se pode classificar a ecoinovação a fim de se
compreender melhor suas características e transformá-las em diferenciais de sucesso para a
empresa sustentável (Carrillo-Hermosilla, del Pio & Könnola., 2009). Comumente, as
definições enfatizam que ecoinovações reduzem o impacto ambiental causado pelas
atividades de produção e consumo, considerando ou não o meio ambiente como a principal
motivação para o seu desenvolvimento e implantação (Carrillo-Hermosilla et al., 2009).
Horbach et al. (2012) utilizam uma estrutura simples para separar quatro grupos de
fatores que foram considerados os principais determinantes da ecoinovação, são eles: os
fatores específicos, a tecnologia, o mercado e a regulação. Para eles, a regulação foi
identificada como um importante determinante da ecoinovação, em especial a redução de
custos e os sistemas de gestão ambiental. O mercado introduz os conceitos de benefícios para
o cliente, conhecido como marketing, e, embora a regulação seja necessária, não há forte
estímulo para a ecoinovação nem pela procura de produtos ecológicos, que ainda são muito
caros. E, por último, a tecnologia e os fatores específicos, bem como os fatores de oferta,
também desempenham importante papel importante na ecoinovação, influenciando a decisão
de inovação, com os mecanismos de transferência de conhecimentos e participação em redes.
A “ecoinovação” também se refere à “ecoeficiência”, um modo de atuação que resulta
da interseção de duas dimensões da sustentabilidade, a econômica e a social, conforme mostra
a Figura 1.
33
b
a
Dimensão Econômica
Equidade
Lucro
Ecoeficiencia
Equidade
Ecoeficiencia
Desenvolvimento Sustentável
Desenvolvimento Empresarial
Dimensão
Ambiental
Dimensão Social
Habilidade
Pessoas
Planeta
Habilidade
c
1
2
3
Pilar social
Pilar econômico
Pilar Ambiental
Figura 1 – Desenvolvimento sustentável: representações.
Fonte: adaptada de Barbieri, J. C., Vasconcelos, I. F. G., Andreassi, T., & Vasconcelos, F. C. (2010, abr.-jun.).
Inovação e sustentabilidade: novos modelos e proposições. Revista de Administração de Empresas, 50(2), 146154.
A FIG. 1b é uma representação específica para as empresas, na qual a dimensão
econômica é representada pelo lucro, condição necessária para a sua continuidade ao longo do
tempo. A FIG. 1c é a representação do modelo triple bottom line, desenvolvido por Elkington
(2001). Esse modelo enfatiza a necessidade de empreender uma gestão para obter resultados
econômicos, sociais e ambientais positivos, denominados como linhas dos pilares da
sustentabilidade. A ecoeficiência é uma prática que se dá entre as linhas dos pilares
econômicos e ambientais. Isso implica desenvolver bens e serviços que satisfaçam as
necessidades humanas a preços competitivos e que reduzam progressivamente os impactos
ambientais a um nível próximo suportável pela Terra (Elkington, 2001, p. 82). Inovações
ecoeficientes são, por exemplo, as que reduzem a quantidade de materiais e energia por
unidade produzida, eliminam substâncias tóxicas e aumentam a vida útil dos produtos. Porém,
elas podem gerar desemprego, destruir competências, prejudicar comunidades ou segmentos
34
da sociedade, entre outros problemas sociais. Por isso, a dimensão social deve estar presente
de forma explícita, para que a inovação ecoeficiente seja também sustentável.
O conceito de ecoeficiência, conforme relatado por Schmidheiny no livro “Mudando o
Rumo” (1992), surgiu da necessidade do Business Council for Sustainable Development
(BCSD) apresentar uma proposta de atuação na área ambiental durante a Conferência do Rio,
em 1992. Segundo ele, o grupo enfrentou o desafio de encontrar algo a dizer sobre meio
ambiente e desenvolvimento que "honrasse as realidades básicas do mercado" (Schmidheiny,
1992). Depois de acirrado debate, concluiu-se que o termo ecoeficiência era o que melhor
exprimia a meta de integrar eficiência econômica e eficiência ecológica.
O princípio da ecoeficiência está fundado no axioma neoclássico de que o progresso
tecnológico sempre será capaz de dar respostas às dificuldades de maximizar lucros
encontrados pela produção capitalista ao longo da sua trajetória. Com base nesse axioma, ser
ecoeficiente é oferecer bens e serviços que satisfaçam as necessidades, gerando impactos
ecológicos sempre menores e capazes de serem absorvidos pela natureza. Segundo o World
Business Council for Sustainable Development – WBCSD (como citado em Dias, 2006, p.
130):
A ecoeficiência atinge-se através da oferta de bens e serviços a preços competitivos que,
por um lado, satisfaçam as necessidades humanas e contribuam para a qualidade de vida
e, por outro, reduzam progressivamente o impacto ecológico e a intensidade de
utilização de recursos ao longo do ciclo de vida, até atingirem um nível que, pelo menos,
respeite a capacidade de sustentação estimada para o planeta Terra.
Santos, Costa, Espejo e Panhoca (2009) consideram a ecoeficiência uma filosofia de
gestão que encoraja o mundo empresarial a procurar melhorias ambientais que potencializem,
paralelamente, benefícios econômicos e sociais. Concentra-se em oportunidades de negócio.
35
Permite que as empresas se tornem mais responsáveis ambientalmente e, ao mesmo tempo,
mais lucrativas. Incentiva a inovação e, por conseguinte, o crescimento e a competitividade.
A ecoeficiência apresenta sete componentes, sugeridos por Chambolle (2001), que
permitem melhoria nas empresas: a) redução do uso de energia; b) redução do uso de
materiais; c) otimização do uso de materiais renováveis; d) redução da dispersão de
substâncias tóxicas; e) aumento da reciclabilidade; f) aumento da intensidade de serviços; g)
prolongamento do ciclo de vida dos produtos. Isso significa que a ecoeficiência permite criar
mais valor com menos uso de recursos e, consequentemente, menos impacto ecológico.
Santos, Rosa, Costa e Lago (2011 p. 4) propõem três aspectos essenciais para a
viabilização de práticas voltadas para a gestão da ecoeficiência nas empresas: a) é essencial
haver resultados econômicos que garantam a permanência da organização num ambiente de
mercado competitivo; b) é essencial haver resultados ambientais como forma de integração
dos objetivos socioambientais na estratégia de negócio do empreendimento; c) o sistema de
avaliação deve considerar os movimentos cíclicos de melhoria contínua. Assim, ressalta-se
que a ecoeficiência pode ser avaliada com base em uma equação que reúne duas dimensões, a
econômica e a ecológica. A ecoeficiência é considerada, então, o quociente da divisão entre
valor do produto ou serviço e influência ambiental.
(1)
Desse modo, acredita-se que são inúmeras as oportunidades de as empresas serem
ecoeficientes, levando-as a um novo posicionamento estratégico. Reorientação dos processos,
revalorização dos subprodutos e recolocação nos mercados bem como uma nova orientação
mercadológica e também uma oportunidade para novos negócios (WBCSD como citado em
Dias, 2006) são vantagens para as empresas adotarem a ecoeficiência, a qual está
intrinsecamente relacionada às ecotecnologias.
36
Horbach (2008) afirma que as ecotecnologias também se encontram atreladas às
denominadas ecoinovações. Para Giannetti, Almeida e Bonilla (2003), a ecotecnologia é uma
ciência que integra as áreas de estudo da ecologia e da tecnologia, criando projetos
sustentáveis. Seu objetivo é atender às necessidades humanas, minimizando o impacto
ambiental a partir do conhecimento das estruturas e processos dos ecossistemas e da
sociedade. Os autores enfatizam que as ecotecnologias implicam a utilização de ferramentas
tecnológicas que ofereçam vantagens ambientais sobre suas contrapartes tradicionais. Buscam
reproduzir processos naturais que possam ser utilizados para a minimização dos impactos
causados pelas atividades humanas.
As ecotecnologias também se caracterizam pela abordagem holística dada à solução dos
problemas que ameaçam a sustentabilidade de um ecossistema e, em termos gerais, procura-se
que sejam técnicas simples, baratas e duradouras. Atualmente, as ecotecnologias também
fazem parte das chamadas tecnologias ambientais ou ambientalmente sustentáveis, pois não se
trata apenas de tecnologias individuais, mas de “sistemas totais”, que incluem conhecimentos
técnicos, processos, produtos e serviços e equipamentos, bem como procedimentos
organizacionais e de gestão (Giannetti et al., 2003).
A janela de oportunidades para a ecoinovação, ecoeficiência e ecotecnologia torna-se
uma grande vitrine para o desenvolvimento dos mercados nas próximas décadas, e o
aproveitamento dessa situação por parte do empresariado é vista como uma questão de atitude
e visão, de como transformar problemas sociais e ambientais em negócios rentáveis e
sustentáveis. A respeito dessa oportunidade futura, Almeida, F. (2002, p. 82) afirma:
[...] Cabe às empresas, de qualquer porte, mobilizar sua capacidade de empreender e de
criar para descobrir novas formas de produzir bens e serviços que gerem mais qualidade
de vida para mais gente, com menos quantidade de recursos naturais. [...] A inovação,
no caso, não é apenas tecnológica, mas também econômica, social, institucional e
política [...].
37
Desse modo, tem sido destacado que os dias atuais vêm reforçando a preocupação com a
inovação e a eficiência, além de oportunidades para todos a fim de melhorarem suas
condições de vida. À medida que a globalização universaliza os mercados, obrigando as
empresas a se preocuparem com indicadores de desempenho de qualidade e ambientais,
principalmente aqueles que envolvem a busca pelos processos de certificação de desempenho
(Schmidheny, 1992). Para Arundel & Kemp (2009), a competitividade das empresas, países e
mesmo regiões fica cada vez mais ligada à sua capacidade de adotar tecnologias ambientais.
2.3
Competitividade e as tecnologias ambientais
As dimensões econômicas e mercadológicas das questões ambientais têm se tornado
cada vez mais relevantes, representando custos e/ou benefícios, limitações e/ou
potencialidades, ameaças e/ou oportunidades para as empresas (Souza, 2002). Muitas
organizações, ao obterem boa performance ambiental associada à boa gestão operacional,
baixo risco financeiro e boas perspectivas de sucesso econômico futuro, estão começando a
influenciar as normas de práticas corporativas e estão transformando a ecologia, de algo
externo para algo que está dentro do sistema de mercado e que é central para os objetivos das
empresas (Hoffman, 2001).
Nessa direção, vêm se observando significativos indícios de que tradicionais estudiosos
do gerenciamento da firma começam a se preocupar seriamente com a impossibilidade de a
teoria econômica lidar com o binômio competitividade-sustentabilidade ambiental. Esse é o
caso de Porter & Linde (1995), que publicaram na Harvard Business Review um artigo
intitulado “Green and Competitive: Ending the Stalemate”, em que defendem que a proteção
ambiental não representa uma ameaça à empresa, mas sim uma oportunidade capaz de
adicionar vantagem competitiva. Os autores afirmam que as empresas, por puro
38
desconhecimento ou pelos altos custos dos investimentos que seriam necessários, não
percebem os benefícios que podem colher com a modificação de seus métodos de produção
em direção à incorporação de tecnologias ambientais limpas.
Para Porter & Linde (1995), se anteriormente os investimentos de recursos em
atividades ambientais eram vistos como algo desnecessário, a popularização do
ambientalismo mudou essa regra. De acordo com Prahalad & Ramaswamy (2003), a
competência em seu negócio, a partir de tecnologia e inovação, é uma necessidade tão grande
quanto jamais tem sido. Não é somente uma questão de obediência às prescrições tradicionais,
tais como redução de custo, administração mais eficiente, controle e organização,
reengenharia e terceirização, mas essencialmente uma forma de criar valor. A tecnologia afeta
o negócio em todas as suas formas e atividades e a inovação é a única estratégia que permite
crescimento lucrativo. A produção “mais limpa”5 e o desenvolvimento sustentável nas
organizações são favorecidos pela inovação em tecnologias ambientais, no entendimento de
Barbieri e Álvares (2004).
A aplicação de uma produção mais limpa gera a economia dos mais diversos recursos
utilizados no processo produtivo de uma empresa. Ela traz benefícios relevantes, sejam em
função da economia na utilização de água, energia e matéria-prima ou até mesmo no retorno
econômico que o desenvolvimento e comercialização de subprodutos podem gerar.
Conforme Porter & Linde (1995, p. 32):
Se for parar para pensar, a poluição é fundamentalmente uma manifestação de
desperdício econômico. É o uso incompleto e sem proveito de recursos ou a queima de
5
Produção mais limpa (cleaner production): conceito definido pela United Nations Industrial Development
Organization/United Nations Environment Programme (UNIDO/UNEP) que estimula atitudes voluntárias por
parte das indústrias, independentemente do alcance da legislação ambiental. Segundo a UNIDO/UNEP,
Produção Mais Limpa (PML ou P+L) é a aplicação continuada de uma estratégia ambiental preventiva e
integrada aos processos, produtos e serviços, a fim de aumentar a ecoeficiência e reduzir os riscos para o
homem e para meio ambiente. Aplica-se a processos produtivos, a produtos e a serviços (Mello & Nascimento,
2002).
39
alguma coisa. Então, a ocasião própria para diminuir os custos com a eliminação da
poluição pode parecer tudo, exceto rara.
Os mesmos autores acrescentam que toda empresa pode aumentar seus lucros e
produtividade de modo drástico com a redução da poluição, ou seja, a empresa pode ficar
mais competitiva ao adotar tecnologias ambientais limpas. Essa mesma concepção é
corroborada por Leff (2001), que sublinha a necessidade de mudanças no comportamento das
organizações para que acompanhem voluntariamente as transformações em prol de um
comportamento contra o desperdício e a favor do desenvolvimento sustentável. Da mesma
forma, Layrargues (1996) tem ressaltado a importância das opções tecnológicas para o
desenvolvimento econômico e a redução do consumo material que leva ao desperdício, tanto
em países desenvolvidos como subdesenvolvidos (Hourcade, 1983; Puiseux, 1979).
Freeman (1996) refere que, para que o desenvolvimento sustentável ambiental torne-se
realmente um padrão de desenvolvimento, é necessário que tecnologias poupadoras de
energia e de materiais se difundam ao ponto de que toda economia passe a utilizá-las. A teoria
de Freeman é maturada pela análise de Dosi (1982) sobre “os saltos tecnológicos”, de que os
avanços ao longo da trajetória tecnológica das empresas são influenciados por impulsos
originados no mercado, como, por exemplo, alterações de demanda e variações na
lucratividade.
Já as mudanças que buscam novas direções tecnológicas estão mais associadas às novas
oportunidades, em função do desenvolvimento científico ou à crescente dificuldade
(tecnológica e/ou econômica) em prosseguir em uma dada direção tecnológica (Sicsú &
Rosenthal, 2001). Desse modo, o paradigma tecnológico dominante e o ambiente seletivo
estabelecem o ritmo e a direção do progresso técnico, podendo culminar em uma mudança
lenta e gradual para um novo paradigma (Lustosa, 2002).
40
O conceito de trajetória tecnológica desenvolvido por Dosi e diversos outros autores,
tais como Rosenberg (1982) e Nelson & Winter, (1982) para explicar de que forma as
inovações se encadeiam entre si, serve, então, de marco conceitual para compreender as
trajetórias de desenvolvimento tecnológico6. Esses autores não pretenderam ignorar que a
trajetória do novo paradigma tecnológico envolve várias frentes de "trade-offs" com o sistema
socioeconômico para aumentar a produtividade, uma das quais justamente as inovações
poupadoras de recursos naturais (Martin, 1990).
A literatura enfatiza essa teoria ao mostrar que as empresas mais propensas a investir em
ecoinovação são as que constroem suas capacidades organizacionais e práticas baseadas em
redução na fonte, reciclagem, prevenção da poluição e design de produtos verdes (Kesidou &
Demirel, 2012). Assim, as empresas reforçam a necessidade de aumentar a inovação de
produtos e processos para manter uma posição competitiva em mercados saturados (Ferrer,
Negny, Robles, & Le Lann, 2012).
Para Barbieri e Álvares (2004), a solução dos problemas ambientais, ou sua
minimização, exige nova atitude de empresários e administradores, que devem abranger e
levar em consideração o meio ambiente em suas decisões e adotar concepções tecnológicas
que contribuam para ampliar a capacidade de suporte do planeta. Em termos gerais, espera-se
que as empresas deixem de ser causadoras dos problemas ambientais e façam parte das
soluções, envolvendo em sua gestão as questões relativas ao meio ambiente.
A internalização adequada da variável ambiental pelas empresas pode propiciar a
utilização de insumos tais como energia, matérias-primas e trabalho de modo mais produtivo,
6
Dosi afirma que o processo de aprendizagem tecnológica é necessariamente local e chega a criar o conceito de
trajetória de desenvolvimento tecnológico para explicar as diferenças de especialização comercial e produtiva
entre os países. "El desarrollo tecnológico viene determinado por la comunidad en la que tiene lugar. Así la
trayectoria de desarrollo tecnológico constituye un resultado esperado de determinada comunidad nacional.
... en épocas de transición, la dirección de la propia tecnología, sus ramas principales, no sus derivaciones, se
ve afectada por el agrupamiento de sus apuestas. ... Al determinar la agrupación de apuestas, el contexto
nacional conforma la tecnología" (Dosi, 1991, p. 185-186).
41
potencializando reduções em custos, bem como a compensação dos gastos com melhorias
ambientais (Oliveira, Borges & Jabbour, 2005). Essa ideia é corroborada por Lustosa (2002),
que sinaliza a preservação ambiental como associada ao aumento da produtividade dos
recursos utilizados na produção e, consequentemente, a possíveis incrementos da
competitividade empresarial.
Complementando a ideia de se adquirir competitividade empresarial mediante
incorporação de tecnologias que levem ao desenvolvimento sustentável, Azzone, Bertel &
Noci (1997) consideram a sustentabilidade sob quatro diferentes enfoques organizacionais.
Um deles se trata de uma estratégia ambiental baseada em inovações em que a variável
ambiental é vista como a mais importante prioridade competitiva e as soluções, baseadas em
inovações, são “tomadas (sought)” envolvendo a introdução de novas tecnologias que
alavanquem radicalmente a performance ambiental das tecnologias correntes ou a criação de
novas necessidades de mercado como consequência de produtos ambientalmente amigáveis.
Diversos autores mencionam as tecnologias ambientais como um potencial agente para
proporcionar uma produção mais limpa nas empresas. Jabbour (2010) apresenta diversas
definições sobre tecnologia ambiental elaboradas por autores diferentes, ressaltando que três
delas despontam como as mais apropriadas e completas.
A primeira refere-se à afirmativa de Kuehr (2007) de que as tecnologias ambientais
fomentam a melhoria contínua de processos, produtos e serviços, por meio da adequada
conservação de matérias-primas e energia, reduzindo o consumo de substâncias tóxicas,
desperdícios de recursos naturais e geração de poluição durante o ciclo produtivo. Na segunda
proposta de conceituação ressaltada pela autora, Vachon & Klassen (2007) indicam que as
tecnologias ambientais podem ser amplamente definidas como a adoção de técnicas de design,
equipamentos e procedimentos operacionais que limitam ou reduzem os impactos ambientais
de produtos e serviços no ambiente natural. E a terceira destaca que as tecnologias ambientais
42
podem ser compreendidas como hardwares ou softwares que se relacionam ao
desenvolvimento de produtos e processos verdes, envolvendo tecnologias que reduzem o
consumo de energia, previnem a poluição e reciclam os resíduos (Kuehr, 2007).
De acordo com Kuehr (2007), a utilização de tecnologias ambientais pode ser um
elemento fundamental para assegurar o desempenho econômico, produtivo e ambiental de
muitas empresas. No caso da proteção ambiental, essas tecnologias envolvem:
a) Tecnologias de controle de poluição (end-of-pipe), cujo principal objetivo é combater as
saídas indesejáveis de resíduos do processo produtivo (poluição) sem realizar
intervenções no próprio processo. Trata-se de equipamentos de controle de emissões e
efluentes, tais como filtros purificadores, incineradores e redes de tratamento de água e
esgoto, entre outros, que removem os resíduos poluentes ou reduzem sua toxicidade.
b) Tecnologias de prevenção da poluição, centradas no processo produtivo para torná-lo
mais eficiente, ou seja, ampliar a taxa de utilização dos insumos nos produtos
fabricados. Essas tecnologias permitem não só reduzir os resíduos e poluentes na fonte,
mas também reutilizar ou reciclar os resíduos produzidos, preferencialmente ainda na
planta industrial, voltando-se diretamente para o processo produtivo, e, em último caso,
tratar os resíduos que não podem ser eliminados, reutilizados ou reciclados.
c) Tecnologias de produtos e processos de acordo com o que foi conceituado pelo
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), como a aplicação
contínua de uma estratégia ambiental.
Nesse contexto, cabe destacar a proposta desenvolvida por Kuehr (2007), de que o
conjunto das tecnologias ambientais pode ser dividido em quatro categorias, descritas a seguir
e representadas na Figura 2.
43
Figura 2 - As tipologias das tecnologias ambientais.
Fonte: adaptado de Kuehr, R. (2007). Environmental technologies: from a misleading interpretations to an
operational categorization and definition. Journal of Cleaner Production, 2007, p. 4.
Tecnologia para mensuração ambiental: envolve ferramentas, instrumentos,
equipamentos e sistemas de gestão da informação para mensuração e controle ambientais e
subdivide-se em duas subcategorias: uma, objetiva, fornecer uma gama confiável de opções
para a tomada de decisões sobre a qualidade do meio ambiente; a outra tem como meta
fornecer à humanidade informações úteis na busca por alternativas ambientais, como, por
exemplo, a falta de água e o aquecimento global. A tecnologia de mensuração ambiental
contrasta com suas congêneres por não focar necessariamente na redução dos impactos
produzidos pela humanidade sobre o ambiente natural, mas sim por subsidiar o entendimento
de como o meio ambiente vem se alterando e quais são as melhores alternativas para
minimizar os impactos dessas alterações sob a perspectiva de qualidade de vida da população.
Tecnologias de controle da poluição: englobam o conjunto de processos e materiais
desenvolvidos para neutralizar os impactos gerados durante o ciclo produtivo, sem,
necessariamente, implicar modificações nos processos originais. Em outras palavras, tais
tecnologias apoiam o controle da poluição gerada em determinado processo, sem alterá-lo
44
completamente. Se, por um lado, tais tecnologias podem controlar a poluição; por outro,
podem gerar outros tipos de impacto ambiental, como, por exemplo, o aumento no consumo
de energias.
Tecnologias mais limpas ou de prevenção da poluição: dizem respeito às
modificações empreendidas para minimizar ou até mesmo eliminar qualquer efeito prejudicial
que um processo pode gerar no meio ambiente. Diferem das tecnologias de controle da
poluição por requererem uma perspectiva holística de como podem ser reduzidos os impactos
ambientais de um processo ou produto.
Tecnologias ambientais de impacto nulo: tecnologias que, de fato, não geram impacto
algum durante seu processo de desenvolvimento e utilização. Numa perspectiva pontual,
podem ser observadas no campo da biotecnologia, mas, no contexto de um ciclo produtivo
completo, sua existência é considerada utópica.
Para Kuehr, as empresas têm decidido realizar inovações de forma espontânea quando
identificam oportunidades tecnológicas e a possibilidade de auferir vantagem competitiva.
Práticas ambientais podem ser geradoras de vantagem competitiva por meio de estratégias de
baixo custo ou diferenciação, conforme as dimensões de competitividade estudadas por Porter
(1991). No entanto, outros estudiosos, como Tigre (1994), revelam que o principal incentivo
para as indústrias gerarem e adotarem inovações são as exigências das políticas ambientais
emanadas dos governos. A pressão regulatória pode ser um estímulo à inovação nas empresas,
superando a inércia e incentivando a criatividade e competitividade nas organizações (Porter
& Linde, 1995). Assim, estudiosos têm revelado as práticas socioambientais como fontes de
vantagem competitiva por meio da legitimação social da redução de obrigações e custos para
legalização (Shrivastava, 1995) e do desenvolvimento de “melhores práticas” de negócios
(Porter & Linde, 1995; Shrivastava, 1995).
45
O intenso debate sobre as questões entre a competitividade das empresas e o meio
ambiente, como reportam Young e Lustosa (2001), dividiu-se em duas vertentes: uma que
acredita na existência de um trade-off, que por meio de rígidas normas ambientais traria
benefícios sociais ao promover melhor preservação ambiental; e outra que acredita que tais
regulamentações poderiam reduzir a competitividade de algumas empresas que não possuem
condições para se adequarem a elas, principalmente porque teriam seus custos elevados.
O problema central, então, não seria a regulamentação em si, mas o modo como ela é
formulada. Na prática, as vantagens anteriormente citadas nem sempre são observadas. A
criação de tributos que se transformem em incentivos para alterar o comportamento de
empresários e consumidores não é tarefa simples; se forem elevados, poderiam inviabilizar
negócios; se forem baixos, não provocariam as mudanças desejadas. Somado a isso, para que
os tributos fossem justos e eficazes, deveriam ser estabelecidos de acordo com as
circunstâncias específicas de cada setor econômico (Barbieri & Álvares, 2004; Porter &
Linde, 1995).
Segundo Schmidheiny (1992), teoricamente tem sido evidenciado que os incentivos
econômicos possuem mais eficácia no alcance de objetivos ambientais, propiciando estímulos
permanentes para que as empresas deixem de gerar poluição. No comando e controle, que são
as regulamentações governamentais com padrões de desempenho definidos para tecnologias,
produtos, emissão de efluentes e disposição de rejeitos, uma vez alcançados os níveis
estipulados por essas normas regulatórias, as empresas tenderiam a reduzir esforços
ambientais. Dessa forma, os instrumentos econômicos contribuiriam também para estimular
as atividades de produção e desenvolvimento (P&D), induzindo os agentes a incorporarem
princípios de melhoria contínua dos parâmetros ambientais.
Alguns outros autores também se apresentam como defensores dessa perspectiva sobre a
utilização de instrumentos de regulamentação ambiental em um contexto positivo.
46
Schmidheiny (1992) argumenta que os instrumentos econômicos são mais apropriados em
mercados de alta competição e estes mais apropriados para promoverem o desenvolvimento
sustentável, pois nesses mercados os preços refletem os custos dos recursos ambientais. Para
Schmidheiny (1992), os instrumentos de comando e controle, na medida em que implicam a
adesão às exigências específicas, tendem a perpetuar uma dada situação em vez de induzir a
sua melhoria constante.
Outro argumento apresentado por Schmidheiny (1992) é de que a imposição de
regulamentações ambientais adequadas pode estimular as empresas a adotarem inovações que
reduzam os custos totais de um produto ou aumentarem o seu valor. Assim, no momento em
que as empresas visualizam as regulamentações como um desafio, passam a desenvolver
soluções inovadoras e, portanto, melhoram a sua competitividade (Porter & Linde, 1995).
Porter (1992) opina que diversos agentes, ao longo do tempo, passaram a intervir, com
forças distintas, dentro da estrutura tradicional de análise competitiva das empresas, como
organizações
não
governamentais
(ONGs),
comunidades,
órgãos
governamentais,
investidores, seguradoras e a mídia. De um lado, comunidades, órgãos governamentais e
seguradoras cobram principalmente processos limpos; de outro, consumidores mais
conscientes selecionam produtos menos impactantes e/ou resultantes de processos menos
impactantes ambientalmente; por fim, as ONGs e os investidores cobram processos e produtos
mais limpos. De qualquer maneira, as condições ambientais para a compra de produtos,
empréstimos financeiros, avaliação de riscos de mercado, avaliação do valor de ações, venda
de ativos, contratação de seguros, obtenção de licença para operar e a manutenção de uma
imagem de empresa “cidadã” resultam em pressões sobre todas as operações e produtos das
empresas, ao longo de seu ciclo completo de vida (Souza, 2002).
Young e Lustosa (2001) e Lustosa (2002) indicam que o problema central desse
contexto é o modo de indução de mudanças tecnológicas na direção de tecnologias mais
47
limpas a fim de se obter sustentabilidade ambiental. Além do mais, a mudança tecnológica na
direção dessa sustentabilidade depende de outros fatores não econômicos, como o
desenvolvimento de capacidades específicas da firma, infraestrutura e mudanças
institucionais. Rohrich e Cunha (2004) ressaltam que as inovações tecnológicas de produtos e
processos e, por conseguinte, a geração de redução de custos ou incremento na valorização
dos produtos podem variar de acordo com a importância atribuída à preocupação ambiental.
Dessa forma, infere-se, nesse contexto, que quanto maior a preocupação empresarial com a
questão ambiental, maior será o número de inovações orientadas para produtos e processos
ambientalmente adequados.
Por fim, Barbieri e Álvares (2004) acreditam que uma política ambiental consistente
deve se valer de todos os instrumentos possíveis e estar atenta aos efeitos sobre a
competitividade das empresas, devendo ser eficiente para prevenir danos ambientais sem, no
entanto, prejudicar os fatores competitivos das empresas. Nesse cenário, admite-se cada vez
com mais ênfase que as estratégias empresariais consideram as exigências ambientais como
configuradoras de uma “janela de oportunidade”, a ser explorada por novas estratégias
empresariais fundadas na inovação tecnológica (Porter & Linde, 1995; Reinhardt, 1999). Da
mesma maneira, acredita-se que o crescimento econômico pode continuar indefinidamente no
mesmo ritmo, desde que ocorram modificações tecnológicas no sentido de tornar os insumos
energéticos mais econômicos e eficientes.
Desse modo, a discussão realizada até esse momento pode ser sintetizada em um
esquema cujos elementos são passíveis de verificação empírica. Na teoria apresentada neste
capítulo, as tecnologias ambientais são parte de uma trajetória tecnológica que começou a se
caracterizar a partir de um paradigma tecnoeconômico alimentado por vários tipos de
pressões externas, entre elas a sociedade, o governo e a competição por inovação. Observouse o debate em relação a quanto o novo paradigma tecnológico estaria sendo incorporado pela
48
empresas, uma vez que, seguindo o paradigma anterior, torna-se difícil passar para outro
paradigma. Entretanto, mostrou-se que o novo paradigma tecnológico baseado em tecnologias
ambientais poderia implicar competitividade para as empresas à medida que as novas
tecnologias ambientais trariam reduções de custos através de reduções de consumo e melhoria
de imagem corporativa.
De forma sintética, o exposto pode ser visto na Figura 3, na qual ecoinovações,
ecoeficiências e ecotecnologias, influenciadas por pressões externas, poderiam de alguma
forma trazer resultados competitivos para as empresas que as adotassem. Tais resultados
competitivos seriam representados por fatores tangíveis e intangíveis.
A
M
B
I
E
N
T
E
E
X
T
E
R
N
O
Sociedade, Governo,
Mercado, etc
Figura 3 - Sintetização do referencial teórico.
Fonte: elaborado pelo autor.
ADOÇÃO DE TECNOLOGIAS
AMBIENTAIS
C
O
M
P
E
T
I
T
I
V
I
D
A
D
E
49
3
Metodologia de Pesquisa
Este capítulo tem por objetivo apresentar e discutir a metodologia empregada na
pesquisa desta dissertação, detalhando aspectos como a escolha do método, a seleção dos
casos, os instrumentos de coleta de dados e o seu esquema de análise. Assim sendo, o capítulo
é organizado em duas seções. Na primeira, apresenta-se a estratégia de pesquisa, classificando
o presente estudo; e na segunda, mostra-se como os dados foram analisados.
3.1
Estratégia de pesquisa
Dada a natureza da questão proposta cujo objetivo geral foi analisar como as empresas
vêm adotando tecnologias ambientais e que relação essa conduta tem com a competitividade,
optou-se pela realização de uma pesquisa de natureza qualitativa descritiva, atrelada ao
método de estudos de casos múltiplos.
Esse método é utilizado quando as perguntas que guiam a pesquisa são do tipo “como?”
ou “por que?”, bem como quando se tem como objetivo principal estudar um fenômeno
contemporâneo em seu contexto. A utilização de mais de um caso possibilita a obtenção de
evidências mais amplas, tornando o estudo mais robusto e facilitando a generalização analítica
(Yin, 1994). Isso ocorre porque, por meio de vários casos, é possível proceder à comparação,
buscando similaridades e diferenças entre eles.
Logo, nesta pesquisa procurou-se observar evidências em diferentes cenários, pela
comparação de um mesmo fenômeno, ou seja, a adoção de tecnologias ambientais por
diferentes empresas de setores econômicos igualmente diversos (Yin, 1994). O estudo de
multicasos tornou-se adequado para este estudo, uma vez que leva em consideração as
condições contextuais nas quais as empresas estão inseridas. Segundo a indicação de Yin
50
(2005), o estudo de casos múltiplos é procedente quando o pesquisador tem por finalidade
confrontar realidades diferentes. Essas considerações permitem concluir que se trata de uma
estratégia de pesquisa indicada para o presente estudo.
Utilizou-se também neste trabalho a estratégia qualitativa de pesquisa, tendo em vista
que o objeto de análise demandava que os dados coletados fossem descritos exaustivamente e
interpretados de acordo com o entendimento das unidades de observação (Bryman, 1992).
Para Triviños (1987), esse recurso é essencialmente descritivo e tem como premissa relatar
como fatos e situações exprimem realidades para aqueles que as vivenciam. Tal característica
exige do pesquisador uma série de informações sobre o que deseja pesquisar e lhe permite
registrar, analisar e correlacionar os fatos ou fenômenos sem manipulá-los, buscando
descobrir a frequência com que ocorrem, bem como as suas características essenciais para os
entrevistados. Na pesquisa qualitativa descritiva, o pesquisador trabalha com dados ou fatos
colhidos da realidade dos entrevistados, procurando descrever a percepção dos
acontecimentos detalhadamente pela compreensão dos vários elementos que influenciam ou
compõem dado fenômeno (Oliveira, 2002).
Para este estudo, foram selecionadas nove empresas consideradas importantes no
panorama empresarial brasileiro e que utilizaram de alguma maneira uma tecnologia
ambiental. Cabe ressaltar que não se buscou uniformidade entre elas no que se relaciona ao
segmento de atuação; a ideia é que maior abrangência do estudo fosse alcançada, evitando
qualquer conformidade às regras e normas ditadas pelo ambiente originário de cada empresa.
Não faz parte do objetivo deste estudo observar se a tendência à similaridade de forma e
estrutura em relação ao ambiente institucional influencia diretamente a adoção das tecnologias
ambientais.
Entretanto, uma condição foi estabelecida na seleção dos casos avaliados: a necessidade
de a empresa se destacar como player em seu mercado de atuação. Partiu-se da premissa de
51
que o tamanho e o grau de maturidade de uma empresa líder permitem supor um estágio de
evolução tecnológico que considere a adoção de tecnologias ambientais em seu processo um
componente intrínseco do negócio. Além disso, empresas líderes são naturalmente formadoras
de opinião e, em muitos casos, alvos de iniciativas de benchmarking por parte dos
concorrentes. Admite-se neste trabalho que empresas líderes têm mais disponibilidades
financeiras quando comparadas às concorrentes, o que, supostamente, lhes garante mais
possibilidades de assumir os altos investimentos necessários à adoção de tecnologias
ambientais.
Dessa maneira, foram escolhidas nove empresas multinacionais atuantes em cinco
setores distintos, sendo quatro do setor de mineração, duas do setor de siderurgia, uma do
setor de construção civil, uma de telecomunicações e uma do setor de reciclagem de
eletrônicos. Para garantir que as premissas definidas fossem seguidas, todas as empresas
escolhidas são de grande porte, com atuação dentro e fora do Brasil e faturamento anual
acima de um bilhão de reais. Posteriormente, foram realizadas entrevistas com um executivo
de cada uma delas, totalizando nove executivos. A fim de identificar cada empresa, elas serão
assim denominadas neste texto, na análise dos dados:
a) Empresa 1, Empresa 2, Empresa 3 e Empresa 4 do setor de mineração;
b) Empresa 5 e Empresa 6 do setor de siderurgia;
c) Empresa 7 do setor de telecomunicações;
d) Empresa 8 do setor de construção civil; e
e) Empresa 9 do setor de reciclagem de lixo eletrônico.
Conforme mostrado na Tabela 1, é possível observar o setor de atuação de cada empresa
estudada. A seleção dos respondentes para entrevistas seguiu o critério de amostragem não
probabilística, em que as amostras foram selecionadas por critérios subjetivos do pesquisador,
52
de acordo com a sua experiência e com os objetivos do estudo, sendo constituídas por pessoas
que estão ao alcance do pesquisador e dispostas a responder o questionário (Bagozzi, 2004).
Apesar de guiado por critérios de conveniência, o pesquisador procurou seguir um critério de
seleção dos respondentes definido pelo seu envolvimento no fenômeno, seu conhecimento das
circunstâncias e de sua capacidade de expressar os detalhes e a essência para sua compreensão
(Triviños, 1987).
Tabela 1
Informantes da pesquisa
Setor
Mineração
Siderurgia
Telecomunicações
Construção Civil
Reciclagem de Lixo Eletrônico
Entrevistado
Entrevistado 1
Entrevistado 2
Entrevistado 3
Entrevistado 4
Entrevistado 5
Entrevistado 6
Entrevistado 7
Entrevistado 8
Entrevistado 9
Cargo
Gerente de Meio Ambiente
Coordenador da Gerência Geral de Tec. E Ecoeficiência
Supervisor de Meio Ambiente
Gerente de Meio Ambiente
Coordenador de Meio Ambiente
Coordenador de Meio Ambiente
Gerente de Negócios
Gerente de Suprimentos
Gerente Geral
Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa.
O processo de coleta de dados foi dividido em duas etapas: coleta de dados primários e
coleta de dados secundários. No que diz respeito à análise de dados secundários, foram
utilizados no presente trabalho documentos disponíveis em meio eletrônico, nos sites das
empresas investigadas, assim como relatórios anuais de sustentabilidade, publicações em
jornais eletrônicos reconhecidos, publicações setoriais e relatórios de administração.
Valendo-se da possibilidade do uso de múltiplas fontes de pesquisa oferecidas pelo
estudo de caso, esta etapa teve como objetivo a contextualização do ambiente das empresas
entrevistadas e a diminuição da possibilidade de viés na sua interpretação. Os dados coletados
nessa primeira fase serviram de base para a formulação de um roteiro de entrevistas
53
semiestruturado organizado em blocos, que foram influenciados pela revisão bibliográfica
realizada nesta investigação.
Nas entrevistas, foram aplicadas oito perguntas distribuídas em três blocos: a)
antecedentes da adoção; b) processo da adoção; c) resultado da adoção. Optou-se por
perguntas abertas, mais propícias a que os executivos entrevistados expusessem as
experiências de suas respectivas empresas. As perguntas seguiram o roteiro elaborado, tendose como base a bibliografia estudada e as diretrizes estabelecidas pelas perguntas básicas da
pesquisa. As entrevistas foram gravadas para possibilitar sua posterior transcrição e preservar
sua fidelidade.
Em relação à coleta de dados primários, as pesquisas, além de serem semiestruturadas,
foram realizadas presencialmente com os executivos escolhidos das empresas estudadas. Ao
todo foram realizadas nove entrevistas, com duração média de 35 minutos, com
representantes gerenciais ou colaboradores diretamente envolvidos em atividades de
sustentabilidade ambiental. Na Tabela 2 é possível observar as datas, a duração e o número de
laudas geradas para cada entrevista.
Tabela 2
Detalhes das entrevistas
Entrevista
Empresa 1
Empresa 2
Empresa 3
Empresa 4
Empresa 5
Empresa 6
Empresa 7
Empresa 8
Empresa 9
Setor
Mineração
Siderurgia
Telecomunicações
Construção Civil
Reciclagem de Lixo Eletrônico
Fonte: elaborada pelo autor a partir de dados da pesquisa.
Duração
28 minutos
32 minutos
29 minutos
53 minutos
33 minutos
37 minutos
34 minutos
39 minutos
42 minutos
# Laudas
8 laudas
9 laudas
8 laudas
15 laudas
10 laudas
11 laudas
10 laudas
12 laudas
12 laudas
54
O pesquisador fez a primeira pergunta e procurou explorar ao máximo cada resposta até
esgotar a questão, para então passar para a segunda pergunta. Cada questão é aprofundada a
partir da resposta do entrevistado, como um funil, no qual perguntas gerais vão dando origem
a específicas. O roteiro exige poucas questões, mas suficientemente amplas para que não haja
interferências entre elas ou redundâncias (Triviños, 1987).
Portanto, esta pesquisa se valeu de entrevistas semiestruturadas e da análise de dados
secundários como elementos para a coleta de dados.
3.2
Estratégia de análise de dados
De acordo com Yin (2005), o êxito do processo de análise dos dados depende da
experiência, perseverança e do raciocínio do pesquisador para elaborar as interpretações que
possibilitam a obtenção cuidadosa de conclusões. Essa análise consiste em examinar,
categorizar, classificar e recombinar as evidências, visando estabelecer um diálogo entre o
referencial teórico que ampara o trabalho e os resultados obtidos pela coleta de dados (Yin,
2005).
A primeira parte do processo de pesquisa foi dedutiva, partindo-se da teoria já existente
para o processo empírico. Porém, após a consolidação dos dados, buscou-se, em cada etapa
descrita desta dissertação, um novo confronto com a literatura, no sentido de obter possíveis
novos achados e contribuições à teoria existente, também em consonância com o exposto
(Eisenhardt, 1989).
A segunda parte do processo de pesquisa foi indutiva, baseada nos dados levantados. Na
medida do possível, buscou-se comparar as experiências das diversas empresas no sentido de
identificar-lhes as semelhanças e diferenças vivenciadas em seus respectivos processos de
adoção de tecnologias ambientais.
55
Utilizaram-se técnicas da análise de conteúdo (Bardin, 2004) para identificar os
significados atribuídos pelas organizações e construir as categorias de análise, relacionando-as
aos paradigmas tecnológicos ambientais. Seguindo as orientações de Bardin (2004), foi feita
pré-análise dos dados, organizando-os de modo a possibilitar um estudo sistemático deles.
Para tratar os dados coletados nas entrevistas, foram realizados procedimentos de análise
de conteúdo, sugeridos por Bardin (2004), seguindo-se a ordem descrita a seguir:
A) Pré-análise: segundo Bardin (2004), esta etapa tem como objetivos escolher os
documentos a serem submetidos à análise e elaborar indicadores que fundamentem a
interpretação final. Como foram aplicadas entrevistas orientadas por um roteiro de oito
perguntas baseadas nas oito dimensões dentro de três blocos decorrentes da adoção tecnologia
ambiental, os documentos submetidos à análise foram as transcrições das entrevistas. As
questões são apresentadas na Tabela 3.
Tabela 3
Resultados
da Aoção
Processo da
Adoção
Antecedentes
da Adoção
Questões do roteiro de entrevista por dimensão da gestão da inovação
DIMENSÕES DA ADOÇÃO DA
TECNOLOGIA AMBIENTAL
Id
Fator de com petição
1
Tecnologias Adotadas
2
Qual ou quais a tecnologia am biental adotada pela em presa?
Razões da Adoção
3
Qual a razão que levou a em presa a adotar essa tecnologia am biental?
4
A ideia para adoção de um a tecnologia am biental partiu de quem ?
5
Com o você avalia os esforços em penhados pela em presa para adotar essa tecnologia?
Operacionalização
6
Com o a em presa realizou ou operacionalizou a adoção dessa tecnologia am biental?
Entraves encontrados
7
5Quais são os benefícios percebidos pelos gestores ou pela em presa após a adoção de
um a tecnologia am biental? Desvantagens
Beneficios Percebidos
7
Quais são os benefícios percebidos pelos gestores ou pela em presa após a adoção de
um a tecnologia am biental? Vantagens
Resultados com petivivos
efetivos alcançados
8
Com o você avalia o resultado da adoção e im plem entação dessa tecnologia na
com petitividade de sua em presa?
PERGUNTAS
Com o você descreve o setor em que sua em presa atua assim com o a com petição
dentro dele?
Esforços em pregados
Fonte: elaborado pelo autor.
56
B) Exploração do material: nesta fase procedeu-se à leitura das entrevistas transcritas e
a operações de codificação, decomposição e enumeração das unidades de análise
identificadas. As respostas das empresas a cada questão foram analisadas e, de acordo com os
relatos que evidenciavam as práticas de adoção tecnológica ambiental, foram identificadas as
similaridades e divergências entre as empresas no processo de adoção. O objetivo dessa
quantificação foi facilitar a comunicação dos resultados para que eles pudessem ser
posteriormente confrontados.
C) Tratamento dos resultados obtidos e interpretação dos dados: as similaridades e
divergências identificadas foram agrupadas por dimensão. Dessa forma, foi possível verificar
o grau de formalização das práticas de adoção tecnológica das empresas analisadas,
considerando-se as oito dimensões definidas neste estudo.
Concluindo, a Tabela 4 sintetiza a discussão mantida neste capítulo a respeito da
metodologia de pesquisa que viabilizou a investigação do processo de adoção das tecnologias
ambientais desde a fase antecedente da própria adoção até os resultados observados depois
dela.
Tabela 4
Metodologia de pesquisa
Estratégia de Pesquisa
Método de Pesquisa
Unidade Empírica
Estratégia de Coleta de Dados
Estratégia de Análise de Dados
Fonte: elaborado pelo autor.
Metodologia de Pesquisa
Pesquisa Qualitativa
Estudo de Multicasos
9 empresas distintas de 6 setores também distintos
Entrevista semi-estruturada e análise documental
Análise de conteúdo
57
No próximo capítulo será apresentada a análise dos dados elaborada a partir da
realização da análise de conteúdo das entrevistas, das notas de campo e dos documentos com
dados secundários.
58
4
Descrição e Análise dos Dados
Este capítulo descreve e analisa os dados da pesquisa e está subdividido em seis seções.
As cinco primeiras correspondem às empresas estudadas e seus respectivos setores. Inicia-se
cada seção com a descrição dos dados secundários que caracterizam cada setor, para em
seguida apresentar os dados primários, os quais detalham os antecedentes, o processo e os
resultados da adoção das tecnologias ambientais nas empresas pesquisadas de cada setor. Na
sexta e última seção discutem-se os resultados por meio da comparação entre as empresas de
cada setor, analisando os dados à luz da literatura.
4.1
Descrição do setor de mineração
A importância econômica da indústria mineral para o país, compreendendo a mineração
e a transformação mineral, medida pela participação desse setor no Produto Interno Bruto
(PIB), tem declinado ao longo dos últimos 38 anos (Tabela 5), passando de 5,9%, em 1970,
para 4,2% em 2008. A queda verificada nas últimas décadas tem sido vista, em parte, como
um fenômeno natural, que acontece quando as economias crescem e se diversificam, como
tem acontecido com a economia brasileira (Brasil, 2010a).
Tabela 5
Participação do setor mineral no PIB do Brasil (1970-2008) em %
Segmento da
Indústria
Mineração (1)
Transformação (2)
não-metálicos
metalurgia
Total (1+2)
PIB Brasil
Anos
1970
0,8
5,1
1,6
3,5
5,9
1980
0,8
5,4
1,8
3,6
6,4
1990
0,6
4,1
1,3
2,8
4,7
2000
0,6
2,6
0,7
1,9
3,2
2005
0,8
3,4
0,6
2,8
4,2
2008
1,1
3,1
0,7
2,4
4,2
Taxa média anual de crescimento por
década
70'
80'
90'
2000'
8%
-1%
0%
10%
8%
1%
0%
2%
9%
-1%
-3%
3%
8%
-1%
-1%
6%
7,7%
2,0%
2,1%
3,2%
59
Nota: O cálculo da taxa média anual para os anos 2000 refere-se ao período 2000-2008.
Fonte: Brasil (2010b).
Contudo, de acordo com o levantamento da Federação das Indústrias de São Paulo
(FIESP), acredita-se que o PIB da indústria extrativa mineral deva crescer 4,3% em 2014,
recuperando a queda de 2,7% em 2013. A última consolidação de investimentos em
mineração no Brasil estabelece US$ 32 bilhões nos próximos 4-5 anos, com o protagonismo
do segmento de minério de ferro, responsável por cerca da metade desses investimentos. Os
estados de Minas Gerais e Pará são os líderes nacionais em produção mineral e em
investimentos (Brasil, 2011).
O mercado de mineração brasileiro é dominado por 15 empresas de mineração, de
origem tanto nacional quanto internacional. O ferro é de longe o minério que predomina entre
os minerais exportados. A empresa Vale S.A. domina o setor, representando 80% da produção
brasileira total de ferro, seguida pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Anglo
American, MMX e Samarco. Assim como o ferro, outros minérios brasileiros também são
dominados por um grupo relativamente pequeno de empresas. A Mineração Rio do Norte, a
Alcoa e a Vale dominam a produção de bauxita e alumina. A produção de nióbio é dominada
de forma quase absoluta pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM),
enquanto a produção de manganês é quase totalmente controlada pela Vale. A Votorantin é a
única produtora de zinco no Brasil e é também responsável por cerca de metade da produção
de níquel no país, ao lado da Anglo American Brasil (Global Business Reports, 2010).
Por sua vez, a produção brasileira de cobre é dominada por apenas duas empresas: Vale
e Yamana. Já a produção de ouro é talvez a mais uniformemente dividida entre os recursos
minerais do Brasil, com a Anglo Gold Ashanti, Yamana Gold e Kinross representando a maior
parte da oferta junto aos pequenos produtores, como Eldorado Gold e Jaguar, assim como
garimpos em regiões mais remotas do Brasil (Global Business Reports, 2010).
A regulamentação brasileira no setor é particularmente complexa, com a jurisdição
sobre processos dividida entre os níveis municipal, estadual e federal. No âmbito federal, os
60
três principais órgãos do governo responsáveis pelo setor de mineração são o Ministério de
Minas e Energia (MME), o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e o
Serviço Geológico do Brasil da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM). A
mineração é regida pelo Código de Mineração (Lei nº 9.314/1997), que estabelece que todas
as licenças de exploração mineral sejam concedidas pelo DNPM, com concessões de
desenvolvimento vindas do MME. Segundo a Constituição Federal de 1988, todos os recursos
minerais pertencem ao governo federal e os direitos de explorar os recursos devem seguir as
regras do Código de Mineração. Todas as companhias que estão dentro da lei, com sede e
administração no Brasil, podem solicitar licenças para a exploração e produção dos
commodities brasileiros (IBRAM, 2012).
Conforme estabelecido na Constituição de 1988, a sustentabilidade ambiental é de
grande importância na forma como a atividade industrial é realizada no Brasil. A
regulamentação ambiental varia entre as autoridades estaduais, passando esse processo
essencialmente por três níveis distintos de controle. Primeiramente, avalia-se o impacto
ambiental e, quando concluído, obtém-se a licença ambiental, que garante que os impactos
ambientais de determinado projeto estejam em conformidade com a respectiva
regulamentação ambiental do estado em questão. O processo final de regulamentação é o
plano de recuperação de materiais degradados, que por sua vez afirma que todas as medidas
possíveis serão tomadas para garantir a sustentabilidade ambiental durante o desmantelamento
da mina e a remoção de rejeitos. As duas principais autoridades reguladoras ambientais são o
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (IBAMA) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA)
(Brasil, 2011).
Segundo a Global Business Reports (2010), ao longo da última década a inovação no
setor de mineração tem ajudado a tornar viáveis corpos de minério anteriormente não
rentáveis e aumentar a produtividade (ou pelo menos deter seu declínio). Projeta-se que o foco
61
em inovação deva incorporar tecnologias capazes de obter mais potência com menos insumos,
tais como as tecnologias ambientais (Global Business Reports, 2010). Tem sido divulgado
que tais inovações possibilitam aumentar a produtividade e eficiência em ambientes
complexos e de difícil extração, elevando a probabilidade de sucesso da exploração de
minérios (Global Business Reports, 2010). A forma de atuação das empresas de mineração no
tocante às inovações ambientais parece se constituir em ponto-chave para a obtenção de
resultados efetivos em sua competitividade.
4.1.1 A adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de mineração
Nas entrevistas realizadas, o objetivo do primeiro e do segundo grupo de perguntas era
analisar os fatores motivadores e os entraves relacionados à adoção de algum tipo de
tecnologia ambiental e o porquê e como essas tecnologias foram aplicadas. Partiu-se da ideia
de que o entendimento dos entrevistados sobre o setor de mineração e seus fatores
competitivos são reveladores para entender-se o cenário da adoção da tecnologia ambiental.
Segundo os entrevistados, as empresas do setor competem para cativar o investidor e
oferecer-lhe retorno financeiro. Isso porque a atividade de mineração é um mercado de
commodity. Assim, considerando que o mercado de commodities é controlado pela oferta e
procura global sem que os atores tenham influência sobre ele, observou-se que a eficiência da
operação torna-se um dos fatores mais importantes da competitividade. A palavra “custo” foi
empregada diversas vezes por todos os entrevistados durante a definição da competição entre
as empresas do setor e a eficiência em custo como uma prioridade competitiva ou principal
foco de mercado para que o investidor tenha o retorno esperado.
62
[...] a competitividade que tem dentro do setor é basicamente para cativar o investidor
para aplicar recursos dentro da empresa [...]. Obviamente, em primeiro lugar, ele quer é
o retorno financeiro (Entrevistado 1).
[...] hoje a gente está falando de custo, estamos em um movimento corporativo enorme
para a redução de custo, etc., porque a gente tem que aproveitar cada tonelada que vende
[...] Então, o ator de competitividade do mercado hoje, 2014, é custo. No mercado de
mineração, na commodity de ferro (Entrevistado 3)
Em que pese a importância do custo como o fator de competitividade mais citado,
detectou-se nas entrevistas que as questões sobre sustentabilidade ambiental também são
vistas como fatores da competitividade, desde que atreladas aos ganhos financeiros dos
investidores e que haja valorização pelos stakeholders.
[...] competitividade é tornar o negócio mais atrativo para o investidor, ou seja, quanto
mais renda, quanto mais retorno o investidor tiver, mais competitiva vai ser a empresa e
mais interesse o competidor vai ter para colocar dinheiro nela para esta seguir dentro do
seu caminho, adotando as melhores técnicas, tanto da parte ambiental quanto da parte de
relacionamento com a comunidade; enfim, o seu relacionamento como um todo, com
todos os stakeholders (Entrevistado 4)
Apesar de as tecnologias ambientais não serem consideradas os principais fatores de
competitividade no setor, elas foram adotadas e conceituadas como inovação por três das
quatro empresas estudadas. Constatou-se que as tecnologias ambientais mencionadas foram
de controle e prevenção de poluição. A razão ou motivo pelo qual foram adotadas diz respeito
primeiramente aos fatores de retorno financeiro a partir de redução de custo e/ou a alguma
pressão externa. Somente de maneira secundária admite-se a adoção das tecnologias
ambientais com vistas a objetivos estratégicos. Nesse sentido, essa adoção ocorreu mais
reativamente do que como postura para se antecipar à concorrência. A maior razão disso
seriam as pressões externas dos órgãos.
63
[...] a gente adota muito, ainda está muito no setor, ainda está muito a questão da
reatividade. Ao invés de ser proativo, você é reativo. Então, tecnologia de ponta é pouco
que você vai encontrar no setor para questão ambiental (Entrevistado 1).
[...] no finalzinho do ano passado, parte dos nossos termos de licenciamento ambiental,
esse tipo de coisa, condicionantes para licenciamento e tal, a gente teve que fazer uma
obra que era a pavimentação de uma comunidade lá no Espírito Santo, no município de
Anchieta, chamada Porto Grande. Era uma rua que não era asfaltada e a gente teve que
fazer a pavimentação e nós fizemos a pavimentação dessa rua com blocos produzidos
com rejeitos produzidos pela empresa (Entrevistado 3).
O elevado investimento normalmente necessário é sempre levado em consideração no
processo decisório de adoção de uma tecnologia ambiental. De acordo com os entrevistados, o
investimento nesse tipo de tecnologia é quase sempre alto no momento em que se quer adotála. Embora haja a crença de que tal investimento poderá se tornar viável no futuro, predomina
a ideia de que os altos custos são limitadores da adoção das tecnologias em curto prazo.
[...] a questão de custo [...], eu acho que os altos investimentos são um fator limitante
para a implantação de algumas tecnologias. A gente sabe que as melhores tecnologias
são também as mais caras, então é muito difícil você conseguir junto à alta
administração da empresa a disponibilidade de um recurso muito alto para algo que vai
dar um retorno a longo prazo. Então, acho que um grande entrave para as questões
relacionadas à sustentabilidade são os altos investimentos (Entrevistado 2).
Desse modo, embora as questões de ganho financeiro de longo prazo estejam em
evidência como dificultadores das tomadas de decisão sobre a adoção das tecnologias
ambientais, os entrevistados mencionaram que existem políticas e ações internas nessas
empresas, direcionadas para a proteção do meio ambiente. Tais políticas influenciam e
motivam as empresas a adotar uma tecnologia ambiental específica. Por exemplo, entre essas
políticas estão alguns programas corporativos direcionados para a remuneração variável dos
funcionários em relação a resultados ambientais obtidos e comitês internos compostos de
alguns gestores que discutem assuntos exclusivos sobre eficiência ecológica.
64
[...] dentro desse comitê de eficiência energética, além da gente discutir a questão de
oportunidades de melhoria de processos, de redução de consumo, a gente discute
também o que está muito vinculado à questão de redução emissão de gases do efeito
estufa (Entrevistado 1).
[...] existe um programa que a gente chama de RAD, que seria Recuperação de Áreas
Degradadas, que é justamente para conservar e ter o mínimo impacto sobre a
biodiversidade. Mas o programa que eu gostaria de destacar aqui nessa conversa é o
Plano de Ação para a Sustentabilidade (Entrevistado 4).
É importante ressaltar que não foram identificadas especificidades no processo de
adoção das tecnologias ambientais a ponto de detalhar fases das adoções citadas. Quando
indagados para se aprofundar no detalhamento do processo de adoção, os entrevistados
reiteraram que no processo de adoção “[...] não teve diferença de um projeto que se pretende
adotar na empresa”. Isso não quer dizer que essa adoção seja simples, mesmo porque as
tecnologias a serem adotadas na maioria das vezes não são dominadas pelas próprias
empresas e requerem parceiros externos para executá-las e, de forma geral, o processo de
adoção precisa de apoio institucional, aprovação de orçamento, pesquisa, desenvolvimento,
planejamento ou escolha de parceiros.
[...] em termos de operacionalizar, desenvolver é trabalhoso. Envolve uma rotina
acadêmica muito forte, testes, diversos laboratórios, muitos parceiros envolvidos, etc.
Mas na hora de operacionalizar, foi escolhido o parceiro Unistein, que se demonstrou
aberta desde o princípio. Ela viu que tinha negócio nisso aí também, viu que era
importante, que a gente estava interessado. Lógico, nós estávamos interessados em
ganho. A escolha de parceiros foi essencial (Entrevistado 3).
[...] para fazer esse projeto, fizemos uma parceria com a Renova, uma empresa da área
de energia. Inclusive ela tem já campos grandes de geração, não de energia solar, mas de
geração de energia eólica no Nordeste (Entrevistado 1).
Detectou-se adicionalmente que um organograma corporativo voltado para incentivar
novas tecnologias na área da sustentabilidade pode ser um fator importante para entender o
processo de adoção e operacionalização de uma tecnologia. Um dos entrevistados comentou
ter sido criada em sua empresa uma gerência de tecnologia e eficiência, que basicamente é
65
responsável por qualquer desenvolvimento tecnológico e que, “a partir de um processo de
mapeamento tecnológico, fez um roadmap tecnológico” e contratou uma empresa de
inteligência para começar a averiguar as possibilidades existentes.
4.1.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de
mineração
O terceiro bloco de perguntas buscava compreender os resultados percebidos na adoção
das tecnologias ambientais. Entre vários resultados efetivos mencionados pelos entrevistados,
nenhum foi diretamente relacionado à competição da empresa, uma vez que houve
unanimidade entre eles de que, na maioria das vezes, os resultados ainda são intangíveis
quando uma tecnologia ambiental é adotada. Um fator intangível não é considerado como
vantagem competitiva para o entrevistado, embora ele acredite que traga benefício como
ganho de imagem junto aos investidores.
[...] Imagem, por dizer assim, formas públicas e de sociedade; imagem com os clientes”
[esse ganho de imagem] aproxima o diálogo, é uma evidência que a gente não está
fazendo aqui Green wash, por mais que eu tenha medo de que aconteça, que eu sou
radicalmente contra. Então, a gente não está fazendo Green wash, o que a gente está
fazendo mostrando é mostrar e a gente tem que mostrar mesmo (Entrevistado 3).
[...] Eu acho que o benefício maior, eu acho que em termos de imagem pra empresa
entendeu e mesmo de conscientização dos funcionários com relação à importância da
energia em si, né? (Entrevistado 1).
Um ponto adicional de atenção observado nesse bloco de perguntas é que para nenhum
dos casos estudados houve pontos negativos citados como resultado da adoção da tecnologia
ambiental. Além do ganho de imagem, fatores positivos adicionais e também intangíveis
foram citados, tais como a capacitação da empresa, mudanças no comportamento de seus
stakeholders e inovação. Tais fatores foram considerados intangíveis, pois mesmo para os
66
casos em que se registraram redução de consumo e eficiência energética, os entrevistados
conceituaram tais ganhos como pontuais e que não trazem resultados financeiros de forma
expressiva a ponto de ser a adoção tida como um ganho de competitividade.
[...] não é um projeto de grande impacto, seria um diferencial grande se fosse um
projeto, um megaprojeto. Mas não, a empresa instalou um sistema pra produzir um
megaprojeto de energia solar. Certamente um projeto dessa grandeza teria um impacto
muito positivo na questão de como as pessoas viriam a empresa. As pessoas que eu digo
são os stakeholders de maneira geral, a comunidade que está em volta, os próprios
funcionários, investidores. Então acho que isso seria um ponto muito positivo para a
empresa atrair investidores, diminuir talvez a pressão da sociedade com relação à
atuação da empresa [...] E um projeto desse tamanho seria um diferencial grande para a
empresa. Mas o impacto no geral de visibilidade, de competitividade da empresa para
esse projeto específico é pequeno (Entrevistado 1).
[...] background de inovação, capacitação de engenharia muito grande para o corpo
técnico da empresa [...] que aprendeu a fazer muita coisa e isso abre a cabeça. E não
tenha dúvida de que educação e inovação são o motor para qualquer desafio
(Entrevistado 3).
4.2
Descrição do setor de siderurgia
A siderurgia é um importante setor da economia brasileira, uma vez que fornece
insumos para infraestrutura e para outras áreas, como a construção civil, os eletroeletrônicos,
os bens de capital e a indústria automobilística. Cabe destacar que em 2010, de acordo com
dados da Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral (SGM) (Brasil, 2010a),
o setor siderúrgico respondeu por 2% na formação do PIB nacional e 8,1% no PIB industrial.
No mesmo período, conforme a SGM, o crescimento da produção de aço foi de 24%,
mantendo o país na nona posição do ranking de países produtores.
Há perspectivas de crescimento do setor e de significativa mudança, a julgar pelos novos
investimentos. Desses investimentos, o total de R$ 46,4 bilhões levará a produção brasileira
ao patamar de 70 milhões de toneladas por ano de aço bruto. A produção para o ano de 2009
foi de 26,5 milhões de toneladas/ano (Instituto Brasileiro de Siderurgia - IBS, 2010).
67
Atualmente, o parque siderúrgico brasileiro é composto de: Aços Villares S.A. (Grupo
Gerdau), ArcelorMittal Aços Longos, ArcelorMittal Inox Brasil S.A., ArcelorMittal Tubarão,
Belgo-Arcelor Brasil, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Companhia Siderúrgica
Paulista (COSIPA), Gerdau Açominas S.A., Gerdau Aços Longos S.A., Gerdau Aços
Especiais S.A., Siderúrgica Barra Mansa (SBM), ThyssenKrupp CSA Siderúrgica do
Atlântico, Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (USIMINAS), Vallourec & Mannesmann
(V&M) do Brasil S.A. e Villares Metals S.A. (IBS, 2010).
A elevada participação no mercado de reduzido número de firmas, típica das estruturas
de mercado do oligopólio homogêneo, com a prevalência de pequena diferenciação de
produtos e elevadas escalas técnicas da produção, relativamente aos demais ramos da
indústria, dita a característica comum da indústria. Dessa forma, a ausência de rivalidade
observada no setor siderúrgico nacional, aliada ao fato de que as firmas são tomadoras de
preço, denota que os esforços competitivos passam pela capacidade do setor de explorar ao
máximo as fontes de redução de custos, como a gestão da sua produção, logística e
fornecedores (Ferraz, Kupfer & Haguenauer, 1997). Depreende-se então que as firmas
atuantes não concorrem por preço e diferenciação de produto. De modo geral, as empresas da
indústria em análise são principalmente sensíveis a variações da demanda ditadas
principalmente pelos maiores centros consumidores, bem como ao volume da produção
mundial (Ferraz et al., 1997).
Os setores metalúrgico e siderúrgico integram o grupo de atividades de alto impacto
ambiental disposto pela Lei nº 10.165/2000, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio
Ambiente. As atividades exercidas pelas empresas brasileiras desses setores são consideradas
de risco e com potencial para provocar significativos danos ambientais, seja na modificação
do meio ambiente ou na geração de resíduos (Milanez & Porto, 2008). Por essa razão, as
siderúrgicas também são passíveis de processo de licenciamento ambiental.
68
A siderurgia é considerada por alguns uma indústria consolidada e madura
tecnologicamente. Essa afirmativa, porém, se fundamenta muito mais numa constatação
financeira do que técnica. Um indicador usado para medir os gastos do setor em P&D, em
US$ investidos, relativamente às receitas auferidas, também expressas em US$, é proposto na
Nota Técnica TR 13, elaborada pela Associação Brasileira de Metalurgia e Materiais (ABM):
Indicador de Desenvolvimento Tecnológico - base receita (IDTbr). No Brasil, calcula-se um
IDTbr da ordem de 0,035%, valor muito baixo quando se considera que o país ocupa o oitavo
lugar na produção de aço (ABM, TR13, 2011).
Os programas oficiais de fomento à inovação tecnológica não definiram a siderurgia
como um setor estratégico e vocacionado do País. Sem um fundo setorial específico, as
empresas siderúrgicas passaram a ser elegíveis nos programas de governo somente nas áreas
de energia, software e, principalmente, meio ambiente. A contrapartida em P&D anunciada
pelas empresas para o período 2007-2012 continuou a totalizar um valor anual considerado
baixo, com média de 11,5 milhões de dólares/ano, quando comparado a investimentos de
P&D em empresas estrangeiras (ABM, TR13, 2011).
Acredita-se que, para que a siderurgia brasileira possa crescer, seja necessária uma
coordenação entre estado, empresas e associações de classe que envolva um posicionamento
de política comercial brasileira tão ofensiva quanto as estratégias das empresas brasileiras de
inovação e modernização para competir internacionalmente. Soluções tecnológicas para as
áreas de energia e meio ambiente representam, na atualidade, um dos maiores desafios da
siderurgia.
4.2.1 A adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de siderurgia
69
Para ambos os casos estudados nesse setor, os entrevistados ressaltam que as empresas
competem no mercado de commodities e o principal diferencial dessa competição é o controle
do custo da operação. A despeito dessa característica marcante do setor, os entrevistados
citaram a qualidade e a diversificação do produto como fatores essenciais na competitividade
de suas empresas.
[...] Qualidade, custo e aplicação do produto. Hoje a gente está atuando mais na
aplicação do produto e prestação de serviço, fornecimento de solução, do que só a
entrega do produto, que é o produto otimizado pra aquela aplicação. Tem que entregar
daquela forma, adaptar a entrega (Entrevistado 5).
As empresas afirmam ter adotado muitas tecnologias ambientais, sendo que, na maioria
das vezes, tal adoção foi motivada de forma isomórfica entre as empresas competidoras do
setor, já que estão disseminadas no mercado por anos. Embora essas adoções tenham
implicado redução de custo na operação, nenhuma das tecnologias mencionadas foi
considerada uma inovação para os entrevistados. Eles também reconheceram que a
regulamentação ambiental no setor é forte, por isso as empresas procuram trabalhar de forma
ambientalmente correta e obediente às políticas e regras determinadas pelos órgãos
regulamentadores.
Uma evidência disso é o fato de que as tecnologias de eficiência enérgica aplicadas no
processo produtivo dessas empresas e citadas na pesquisa objetivam a “prevenção de
poluição”. Constitui exceção o processo de carvão vegetal aplicado por uma das empresas
estudadas, uma vez que essa tecnologia também se encaixa na de “produtos e processos” e
estão de acordo com o que foi conceituado pelo PNUMA.
[...] no caso de siderúrgicas, há várias tecnologias, mas elas são comuns. Qualquer
siderúrgica que você for você vai encontrar, nessas maiores. Você aproveita gases, No
nosso caso, desde a década de 70 já é feito. Esses gases são utilizados para evitar a
70
compra de outros insumos e para evitar a poluição. Se você não aproveitar esse gás, vai
ter que queimar e jogar ele na atmosfera (Entrevistado 6).
[...] Então, é uma fonte renovável de energia, ela é ambientalmente muito mais limpa e
na época, a gente pode falar [...] o preço do coque e do carvão flutua. Então, a gente tem
estudo que comprova que o preço do coque é mais em conta do que o preço do carvão
(Entrevistado 5).
O alto investimento realizado e seu longo prazo de retorno destacaram-se nas entrevistas
como os maiores entraves à adoção das tecnologias. Os processos estabelecidos pelos órgãos
reguladores também são aludidos como obstáculos para certos casos de adoção de tecnologias
ambientais, até mesmo por fazerem parte dos procedimentos necessários para se adotar uma
nova tecnologia.
[...] não saiu, por causa de análise de investimento que não era viável e tal. Nesse caso
eles iam reduzir a [...] O CDQ ia reduzir a perda de água que seria por vapor, que se
tornou a seco e que hoje se joga água e evapora (Entrevistado 6).
[...] processos de regularização que são mais complexos, a área que a gente tem são
áreas rurais; 20% da minha área têm que ser reserva legal, que é obrigatório; então,
tenho que ter uma área muito maior e preservar uma outra área [...] Tenho que ter toda a
gestão ambiental, licenciamento é muito complexo, então há várias desvantagens
(Entrevistado 5).
A operacionalização de tecnologias ambientais nesse setor, por já se encontrarem
disseminadas, acaba sendo considerada um projeto como outro qualquer dentro da
organização e apresenta os mesmos procedimentos e fases de projetos de outros campos de
aplicação, sendo que o tempo e o esforço para sua implementação dependem de sua
complexidade.
[...] o esforço é bem normal, um projeto interno a empresa tem dinheiro pra conduzir o
projeto e como todo projeto o pessoal foca e implanta, não tem muita novidade assim.
Na hora que mostrou que é viável e que vale a pena, e as condições técnicas atendem, o
pessoal pega e implanta, não teve dificuldade não (Entrevistado 6).
71
[...] uma novidade que requer estudo sobre a pressão do alto-forno atual e qual é a
pressão mínima que a turbina exige. Nem todo alto-forno é capaz de ter uma turbina
dessas, porque às vezes ele não consegue ter a vazão de gás que sai no topo dele, que é o
que gira a turbina. Às vezes não é tão grande, então não faz sentido e você acaba
mantendo a válvula. Foi assim, tempo de estudar básico, ver as tecnologias existentes e
fazer a instalação (Entrevistado 6).
Outros procedimentos e processos considerados importantes para a adoção de uma
tecnologia, apesar de corriqueiros, foram citados, tais como a escolha de fornecedores e a
avaliação dos recursos internos disponíveis no momento do planejamento e que irão depender
do investimento em questão.
[...] decidem se tem algum equipamento, se tem alguns engenheiros que entendem do
assunto, veem todas as tecnologias e equipamentos disponíveis, rendimento, eles fazem
um pesquisa ampla. Eles soltam um edital depois que decidiram que tipo de tecnologia
eles colocaram no edital com relação ao preço. Mas antes de decidir o equipamento, o
que está no projeto, o pessoal estudou muito em qual tipo de equipamento deve ser
colocado, porque, como já é uma tecnologia conhecida, há mais de um fornecedor
(Entrevistado 6).
4.2.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais nas empresas do setor de siderurgia
Entre os benefícios resultantes da adoção de tecnologias ambientais pelas empresas do
setor destaca-se a redução de consumo, mesmo que em algum casos esse benefício seja
logrado a partir de tecnologias adotadas no passado. Algumas delas já estão tão disseminadas,
devido ao benefício competitivo e também ambiental, que já são parte dos processos
produtivos, como um dos casos explicados pelo Entrevistado 6, ao relatar:
[..] internamente, a água que é utilizada nos processos é recirculada, então você
aproveita, reutiliza a água. Capta a água de um rio, leva para dentro da usina e dentro da
usina existem várias estações de tratamento, onde essa água é utilizada, tratada e
reaproveitada internamente. Cerca de 95% é recirculada ou mais que isso (Entrevistado
6).
72
Ele também comenta que a tecnologia de aproveitamento de gases nos altos-fornos da
Empresa 6 diminui as emissões e, principalmente, reduz o custo com o consumo de insumos,
uma vez que, depois de operado para o alto-forno, “[...] aproveitou os gases pra poder não
comprar insumos, então tem a questão de custo por trás e também para evitar de queimar ele
na atmosfera, então tem um lado ambiental forte aí também”.
Adicionalmente a isso, a adoção de tecnologia ambiental pode trazer benefícios
relacionados ao cumprimento de normas regulatórias, que eventualmente podem beneficiar a
competitividade das empresas mais ambientalmente corretas.
[...] Naquela época, a gente tinha o benefício dos créditos, que na realidade não aconteceram. Estou
falando do carvão vegetal; aquela outra tecnologia que te falei do uso de gás de alto-forno [...] deixa de
comprar energia. Na verdade, o gás de alto-forno é uma energia que, se eu não usar, vou jogar fora
mesmo, então, estou realmente aproveitando energia gerada pelo meu processo e eu ganho crédito de
carbono por isso, que eu tenho o projeto aprovado, apesar do valor dele não estar valendo nada, mas eu
tenho créditos para, se um dia o mercado voltar a aquecer, consigo vender esses créditos ou usar em outras
plantas nossas do grupo que têm restrição de emissão, por exemplo (Entrevistado 5).
4.3
Descrição do setor de telecomunicações
As telecomunicações estão inseridas no Setor de Tecnologia de Informação e
Comunicação (TIC). De acordo com a Associação Brasileira de Telecomunicação
(TELEBRASIL), telecomunicações é o “setor da economia que engloba os serviços de
telecomunicações, serviços de valor agregado e produtos utilizados para a prestação desses
serviços”. Esse segmento abrange os serviços de telecomunicações assim definidos pela
regulamentação vigente e prestados por agentes que possuam concessão ou autorização para a
prestação de tais serviços.
Esse setor vem passando por profundas transformações nas últimas décadas, entre as
quais se destacam a convergência entre as tecnologias envolvidas no desenvolvimento e a
fabricação dos equipamentos que compõem a infraestrutura física necessária à oferta de
73
serviços de telecomunicações, bem como as tecnologias tipicamente pertencentes a outros
setores, como tecnologia da informação, computação em rede e eletrônica de consumo. Em
suma, as últimas décadas assistiram a um processo de coevolução de tecnologias e serviços de
setores antes separados. Ao primeiro caso, tecnologias, dá-se o nome de convergência
tecnológica, enquanto o segundo caso é denominado de convergência de serviços. Esse
processo de coevolução é mais bem compreendido quando outra transformação do setor de
telecomunicações é levada em consideração: a liberalização comercial e regulatória (Loural &
Leal, 2010).
No fim dos anos 1990, o quadro regulatório em todo o mundo já havia se voltado para o
estímulo à competição e à entrada de novas empresas no setor, por meio de privatizações e
abertura de mercado para novos concorrentes (Szapiro & Cassiolato, 2003). No caso do
Brasil, o governo privatizou a Telecomunicações Brasileiras S.A. (TELEBRAS), antiga
holding estatal monopolista, por meio da Lei nº 9.472/1997 (Lei Geral de Telecomunicações LGT), e ainda permitiu a entrada de novas empresas prestadoras de serviços de
telecomunicações mediante um regime de competição regulada previsto nessa lei.
Há uma modalidade de impacto das telecomunicações nas demais infraestruturas
econômicas que merece destaque especial: o impacto ambiental. Geralmente, sua avaliação é
feita pelo cálculo das emissões de gases de efeito estufa (GEF), que podem ser diretas – ao
longo do ciclo de vida – e indiretas – pelo consumo de energia elétrica e outras emissões
(Szapiro & Cassiolato, 2003). O impacto negativo das telecomunicações e das TICs, em geral,
provém dos recursos e da energia consumida em todo o seu ciclo de vida, tais como: a
produção e instalação de dispositivos e redes e a energia elétrica consumida no seu uso e no
processo de descarte e reciclagem (Szapiro & Cassiolato, 2003). As TICs contribuem com 2%
a 2,5% das emissões de GEF, dos quais 40% são para alimentar computadores pessoais e
74
monitores, 23% vêm de datacenters e 24% vêm das telecomunicações fixas e móveis (Szapiro
& Cassiolato, 2003).
Segundo Szapiro & Cassiolato (2003), o sistema de inovação das empresas de
telecomunicações instaladas no Brasil sofreu drásticas mudanças devidas à privatização, que
permitiu a captação de investimento estrangeiro para o setor, tanto para o fornecimento de
serviços, quanto para a indústria de equipamentos. A consequência foi uma redução de
esforços tecnológicos locais, ou seja, observa-se que para as subsidiárias de multinational
companies (MNCs) a principal fonte de tecnologia é a matriz e que estas não têm
desenvolvido uma base tecnológica forte no local. Tal fato tem gerado efeito negativo no
sistema de inovação local.
Por outro lado, o Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações
(FUNTEL) vem ao encontro dessa necessidade. Criado pela Lei nº 10.176/2001 (Lei de
Informática), esse fundo constitui uma ferramenta elaborada pelo governo brasileiro para
incentivar empresas que produzem no país. A partir de certos benefícios fiscais, essas
empresas têm mais condições de investir em P&D, colaborando para a criação de inteligência
nacional e para o fomento ao setor de telecomunicações.
Considerando que este é um mercado regulamentado no Brasil e, conforme descrito, que
apresenta pouca inovação, a postura ambiental das empresas do setor pode apresentar alguns
frutos tecnológicos que impactam diretamente no modelo de negócio ou até mesmo nos
produtos de cada empresa.
4.3.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de telecomunicações
Para a empresa estudada que atua na fabricação de cabos óticos e na instalação de
cabeamentos estruturados e metálicos, apesar de o mercado no Brasil ainda ser protegido pela
75
regulamentação da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), existe muita
concorrência com as empresas asiáticas, que conseguem produzir com custo mais baixo. A
principal matéria-prima para soluções de cabeamento é o cobre, commodity que torna o
controle de custo um dos direcionadores da competitividade, embora a apresentação de algum
diferencial técnico seja crucial para conquistar o mercado.
[...] cada vez o mercado tem sido atacado por fabricantes de fora do Brasil,
principalmente asiáticos, onde realmente o custo é muito mais baixo e as empresas
realmente precisam ter diferenciais. Então, as empresas, para conquistar esse mercado,
têm que ter diferenciais além dos técnicos, porque é um mercado regido por normas, se
a empresa consegue comprovar que atende à norma, realmente o custo é [...] A parte
técnica já não é um diferencial e como a parte de cobre principalmente é uma
commodity, o custo se torna muito importante. Então, realmente é um mercado que
acaba se reinventando muito com novas tecnologias para, puramente, poder se
diferenciar de empresas que realmente não tenham capacidade tecnológica para investir
em novas soluções, basicamente é isso (Entrevistado 7).
No caso específico da Empresa 7, apurou-se que a motivação para adotar a tecnologia de
reciclagem de cabos usados no Brasil foi algo mais simples, tendo em vista tratar-se de uma
empresa de atuação global com processos e produtos desenvolvidos primeiramente para
atender às condições ambientais exigidas pelo mercado europeu. Dessa forma, a empresa
criou políticas ambientalmente sustentáveis, o que acarretou mais sensibilização da empresa
como um todo para a importância da inovação. Consequentemente, a empresa lançou o
programa de tecnologia da informação – o “Green IT”, ou TI Verde, cujo objetivo é reciclar
cabos óticos usados.
[...] Uma outra coisa interessante também que o mercado europeu criou foi uma diretiva
no sentido de que as empresas que produzissem produtos que de alguma maneira
criassem um impacto ambiental se responsabilizassem em criar políticas de logística
reversa, ou seja, criar maneiras de recolher aquele lixo ambiental depois que foi aplicado
para realmente minimizar o impacto em lixões. Aqui no Brasil a gente criou um
programa chamado Green IT (Entrevistado 7).
76
O programa “Green IT” é caracterizado como uma tecnologia de prevenção da poluição,
resultando em uma inovação de processo. Em relação aos entraves encontrados, observou-se
que a maior dificuldade para que a empresa adotasse esse programa foi a barreira criada pelos
seus maiores clientes, pois empresas de grande porte na maioria das vezes possuem processos
de venda de material eletrônico e de informática como sucata. O respondente abordou essas
dificuldades, explicando que elas existem:
[...] porque a maioria das empresas, principalmente mineradoras ou grandes empresas,
indústrias, têm o retorno financeiro em cima da sucata, que é gerada tanto da área de TI
quanto da área industrial. Então realmente teve muita dificuldade em implantar [...] que
grandes empresas implantassem nosso programa, mas as barreiras estão sendo
quebradas há algum tempo (Entrevistado 7).
O processo de operacionalização do programa “Green IT”, juntamente com as
adaptações no produto para o mercado brasileiro, foi fruto das diretivas do mercado externo e
recebeu o apoio dos diretores brasileiros, já que se tratava de um processo global da
companhia iniciado em 2006.
[...] existe um grupo de trabalho dentro da área, da diretoria de engenharia, que tem a
diretriz de desenvolver produtos ecologicamente amigáveis. Eles lançaram a ideia e com
a participação da área comercial, também na questão do modelo de negócio de como
trabalhar isso benefícios que teriam que estar sendo agregados às empresas, de como
apresentar isso. Então se criou um grupo de trabalho e se começou a trabalhar, começouse então a buscar a cara do programa, mas partiu principalmente da área técnica
(Entrevistado 7).
Em outro relato, o Entrevistado 7 complementa que, para implementar as práticas
internacionais no Brasil, a empresa teve que empregar muito tempo e recursos antes de os
clientes começarem a aderir ao processo.
77
[...] provavelmente junto com a diretiva da Europa, com mais afinco em 2006, ele foi
finalizado e apresentado para as empresas, para as pessoas do grupo em janeiro de 2007
e entrou em operação. Mas ele se tornou realmente um programa que hoje tem tido um
retorno de adesão a partir de 2012, que foi um ano bastante [...] onde realmente muitas
empresas aderiram. Empresas de grande porte, tanto do governo quanto do mercado
privado (Entrevistado 7).
Quanto aos recursos empregados, pode-se identificar que a adoção foi viabilizada por ter sido
um processo que envolveu diversas áreas da empresa, desde a comercialização até a produção. Deve
ser destacado que depois da adoção houve investimento em mídias para divulgação externa. Tais
situações demonstram que a integração entre setores ou áreas da empresa e investimentos
financeiros foram condições necessárias para a adoção da tecnologia ambiental. Em outras
palavras, sem investimentos em recursos monetários e humanos não seria possível que tal
adoção acontecesse.
[...] Acho que basicamente é isso. Várias áreas da empresa, área comercial, marketing,
engenharia estiveram envolvidas no intuito de criar um programa como esse
(Entrevistado 7).
[...] empresa realmente investiu muito em mídia, em marketing nesses últimos cinco
anos, buscando realmente fortalecer sua imagem. E como ela é uma empresa que busca
agregar valor ao processo, não somente fornecer produto [...], gastou muito esforço,
tanto econômico quanto de gestão, de homem/hora, então criou-se um grupo de trabalho
buscando criar um programa (Entrevistado 7).
4.3.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientas na empresa do setor de
telecomunicações
Na visão do entrevistado, os resultados obtidos após a adoção do programa “Green IT”
diante da competitividade da empresa não são necessariamente efetivos, mas podem ser
levantados a partir de uma porcentagem de reaproveitamento de matéria-prima na fabricação
de novos produtos no presente e no futuro.
78
[...] analisamos todo ano e aí a gente avalia [...] Hoje, por exemplo, o que a gente
consegue recolher de material, de resíduo em relação ao que nós fabricamos é em torno
de 10%. Nós avaliamos que temos muito a crescer nesse programa. É claro que nunca
vai se chegar a 100% (Entrevistado 7).
Dado que na visão do entrevistado 10% de tudo o que a Empresa 7 fabrica em peso por
ano é restituído para minimizar o impacto ambiental, ele considera a adoção da sua tecnologia
um sucesso em relação ao meio ambiental, apesar de a empresa não conseguir avaliar a
porcentagem ideal de retorno para apresentar impacto competitivo positivo. De qualquer
forma, o fato de haver aumento de grandes clientes na carteira da empresa devido ao
programa é um ótimo resultado na competitividade, causado pela maior penetração no
mercado.
[...] grandes empresas começaram a participar desse processo, dentre elas a Vale, a
Usiminas, Gerdau, ArcelorMittal, órgãos de governo. A partir do momento em que a
gente conseguiu a participação dessas grandes empresas nesse programa, percebemos
que o mercado de TI estava realmente se voltando para a questão ambiental e realmente
conseguimos com isso melhorar a nossa penetração nesses clientes (Entrevistado 7).
Assim como todos os das outras empresas avaliadas, o entrevistado considerou o ganho
de imagem um resultado impactante na competitividade de sua empresa. Ele relata que a
imagem da empresa cresceu para o mercado e que:
[...] a última pesquisa da revista RTI, que é uma revista voltada para o mercado de
cabeamento estruturado, é que a Empresa 7 realmente é uma empresa hoje Top of Mind.
Então, quando você pergunta para as pessoas envolvidas no mercado de TI qual a
primeira fabricante que lhes vem à cabeça, em todas em produtos em que a Empresa 7
atua, no mínimo para 70% das pessoas a primeira empresa que vem à cabeça é a
Empresa 7. Mas claro que isso foi conseguido através de programas como esse, que
agregam valor ao negócio do cliente, que não simplesmente pretende se colocar como
um fornecedor, um fabricante, mas também como um fabricante que agrega valor. O
resultado disso tem sido realmente a valorização da marca no mercado brasileiro
principalmente (Entrevistado 7).
79
4.4
Descrição do setor de construção civil
A construção civil constitui-se em um setor de grande importância para o
desenvolvimento econômico e social do país, destacando-se pela quantidade de atividades que
compõem seu ciclo de produção, gerando consumo de bens e serviços de outros setores, além
de absorver grande parte da mão-de-obra brasileira não especializada do país (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, 2010).
No ano de 2013, esse setor manteve um ritmo lento, o que prejudicou sua projeção de
crescimento. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo
(IBGE, 2010), a construção civil fechou o ano com crescimento de 2%, abaixo dos 2,5% do
PIB nacional. Como mostra tabela do PAIC 2010 (Tabela 6), o setor apresenta números
significativamente positivos de crescimento para alguns dados básicos da indústria desde
2007 até 2010. Durante o ano de 2012, o valor adicionado pela cadeia produtiva da construção
civil somou R$ 328,5 bilhões, o que representou 8,8% do PIB do país. Todos os elos dessa
cadeia foram responsáveis pela geração de 13,4 milhões de ocupações, entre empregados –
com e sem carteira de trabalho –, trabalhadores por conta própria e proprietários. O setor da
construção civil respondeu pela maior parcela do valor agregado – R$ 213,4 bilhões ou 65%
do PIB de toda a cadeia. Ele também foi responsável pelo maior número de ocupados: 9,6
milhões ou 71,5% do total de pessoas (Fundação Getúlio Vargas/ Associação Brasileira da
Indústria de Materiais de Construção – FGV/ABRAMAT, 2013).
80
Tabela 6
Dados da indústria da construção
Dados gerais da indústira da construção
Salários,
Número
returadas e Gastos
de
Pessoal
outras
com
empresas Ocupado
remunera- pessos
ativas
ções
Ano
Valor das
Construções
Total dos incorpora- Valor das
Receita
para
custos e
ções, obras e/ou
operacional
entidades
despesas obras e/ou serviços
líquida
publicas
serviços
1000
2007
2008
2009
2010
53
57
64
79
1576
1806
2044
2479
19359
25718
31780
41899
28979
38725
48166
63128
101472
132830
156299
205583
1 000 000 R$
130093
123797
163109
158693
196852
190843
258797
106976
50968
68607
83965
106976
124455
154697
186286
245157
Fonte: IBGE, Pesquisa Anual da Indústria da ocnstrução 2007-2010
O setor da indústria da construção civil, que superficialmente pode parecer uma
atividade única, é muito bem dividido de acordo com critérios e especificidades, que são
adotados pelos órgãos ligados diretamente a essa indústria, tais como o Conselho Regional de
Engenharia e Arquitetura (CREA), o Sindicato da Indústria da Construção Civil
(SINDUSCON), entre outros. O setor é diversificado e possui grande variedade de bens
produzidos: edificações (residencial, comercial, industrial, de serviços, entre outros), obras de
infraestrutura ou construção pesada (pontes, rodovias, usinas, barragens, saneamento, portos,
etc.) e montagens industriais.
Diante dessa diversidade, o setor é composto de subsetores, cujas atividades se interrelacionam e apresentam dinâmicas de mercado distintas. Por isso, para compreender essas
diferenças, é preciso classificar a construção civil nos seguintes subsetores: edificações e
construção pesada. Em decorrência da existência de subsetores dos quais fazem parte grandes
empresas, o levantamento dos principais desafios em relação à concorrência deve considerálos por subsetor, pois, embora as empresas possam atuar tecnicamente tanto em construção
pesada quanto em edificação, as grandes empresas mantêm-se nos seus subsetores, em face da
81
especialização e da experiência acumulada nos diversos perfis dos mercados compradores
(FGV-ABRAMAT, 2013).
No tocante ao meio ambiente, a sociedade atual tem como desafio o gerenciamento de
seus resíduos, especialmente os resíduos sólidos urbanos, sendo que os resíduos da construção
civil podem representar mais de 50% do volume desses resíduos gerados em algumas cidades
brasileiras. Nesse contexto, verifica-se a real necessidade do gerenciamento de resíduos de
construção e demolição (RCD) pelas empresas públicas e privadas, cuja realização é
determinada de forma obrigatória pela Resolução CONAMA nº 307/2002, que estabelece
diretrizes, critérios e procedimentos para a efetiva gestão dos resíduos da construção civil,
fixando prazos para sua elaboração e implementação. Essa resolução direciona-se para os
geradores que tenham como objetivo prioritário a não geração de resíduos e, secundariamente,
a redução, a reutilização, a reciclagem e a destinação final (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE, 2010).
Além disso, a construção civil também é passível de licenciamento, a partir de uma
licença ambiental definida pela Resolução CONAMA nº 237/1997, que representa uma
autorização emitida pelo órgão público competente. Ela é concedida ao empreendedor para
que exerça seu direito à livre iniciativa, desde que atendidas as precauções requeridas, a fim
de resguardar o direito coletivo ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Assim como
para alguns outros setores, na construção civil as licenças são exigidas pela Lei nº 6.938/1981,
que determina a necessidade de licenciamento para as atividades utilizadoras de recursos
ambientais, consideradas efetiva e potencialmente poluidoras, bem como as capazes, sob
qualquer forma, de causar degradação ambiental.
O setor da construção civil tem sido frequentemente associado a uma reputação de fraca
inovação tecnológica. Contudo, alguns investigadores têm identificado modalidades de
incorporação de novas tecnologias (Gann, 2000), que muitas vezes podem ser atribuídas às
82
políticas de incentivo à inovação tecnológica. Destaca-se que programas de incentivos fiscais
(como a Lei n° 11.196/2005), o fomento e subvenção a projetos inventivos e programas de
gestão tecnológica foram criados para mover a indústria da construção civil para uma nova
postura diante do valor do conhecimento.
4.4.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de construção civil
A competição para a empresa que foi o objeto de estudo no setor de construção civil foi
relatada pelo entrevistado de forma a descrevê-la em relação ao nicho de mercado em que
atua e não em toda a indústria da construção civil, haja vista que o setor possui atividades
diversificadas que provocam uma competição heterogênea entre essas atividades. Como a
empresa atua no mercado denominado “faixa 1”, que atende ao programa habitacional do
governo “Minha casa, minha vida”, o maior fator de competição nessa faixa foi citado como a
capacidade de execução de uma obra dentro do prazo, qualidade e custo estabelecidos pelo
programa do governo.
Notou-se que nessa faixa as receitas das empresas atuantes são obtidas de pagamentos
do governo somente depois que as obras estão prontas e entregues para os cidadãos
beneficiários do programa governamental. Isso faz com que o principal fator competitivo seja
a velocidade com que cada empresa consegue receber do governo sem que haja maiores
desvios na eficiência operacional: “[...] Hoje o principal é a gente entregar no prazo, hoje a
nossa velocidade de execução é o principal, a gente conseguir fazer dentro do custo ‘Minha
casa, minha vida’” [...]” (Entrevistado 8).
A necessidade de realizar uma obra da forma mais eficiente possível e de cumprir
pontualmente o prazo de execução motivou a empresa a adotar uma tecnologia que lhe
permitisse agilizar suas construções dentro de um único padrão de custo. A tecnologia
83
adotada pela empresa, denominada “parede de concreto”, é um sistema que muda o padrão
convencional de construção, conferindo velocidade e limpeza à obra. Apesar de não ter
aplicação ambiental direta, essa tecnologia pode ser considerada de prevenção de poluição. O
entrevistado 8 menciona que o sistema de parede de concreto não:
[...] gera resíduo, não existe tijolo nas obras da empresa e não existe saco de argamassa,
de cimento, porque a fachada não precisa de reboco. Você não tem que ficar emassando,
então não tem resíduo para a fachada. Contrapiso a gente não faz também, já faz o piso
ali nivelado, assenta a cerâmica direto no piso. Não tem contrapiso, não tem alvenaria,
que é um dos maiores índices de [...], resíduo na obra é alvenaria (Entrevistado 8).
Apesar de admitir que a introdução do sistema de parede de concreta custou mais caro
que as paredes convencionais, o entrevistado considerou essa tecnologia uma inovação no
mercado, pois sua empresa foi o primeiro player a utilizá-la em seus processos no país.
[...] então todo mundo está vendo e a empresa conseguiu firmar nisso aí, e não é algo
comum no mercado. Você nunca ouviu falar na parede de concreto assim. Eu nem
estudei isso na minha faculdade, é sempre ou estrutura de concreto armado, fechado por
tijolinho, bloquinho ou alvenaria estrutural. Então é uma inovação que traz “n”
benefícios, o principal deles é velocidade. O custo é mais alto, mas ele é mais certeiro,
ele é mais (Entrevistado 8).
Justamente por ser uma inovação, o maior entrave percebido na adoção dessa tecnologia
foi de ordem técnica, já que não existiam parceiros e normas técnicas estabelecidas pelo
governo brasileiro para auxiliar no processo de operacionalização e implementação. Apesar
de a tecnologia ter sido adotada pela primeira vez há 10 anos, a precariedade da capacidade de
produção dos fornecedores locais fez com que ela fosse mais difundida a partir de 2009. Os
próprios entraves verificados parecem ter ditado as fases do processo de adoção, uma vez que
foram eles que ocasionaram a capacitação interna e a procura de fornecedores habilitados fora
do país por meio de consultorias.
84
[...] Teve que fazer um estudo, porque, como não existia [...] Eu nem estudei isso na
faculdade. Teve que a ABNT entrar, fazer um estudo, tudo [...], os institutos, a ABNT e
mais a ABCP, que é de cimento, Associação Brasileira de Cimento Portland [...], todos
os ensaios, normas, teve que ser desenvolvido para esse produto ser viabilizado
(Entrevistado 8).
[...] um ou outro empreendimento há alguns 10 anos atrás, mas que a gente está nessa
velocidade considerando o primeiro, foi um caso pontual esses 10 anos atrás. Mas desde
2009, que foi quando iniciou essa obra de 5000 unidades lá em Manaus, a gente está
fechando aí, fechou uma de 2013 com 35 mil e no de 2014, a previsão são 40 mil
unidades (Entrevistado 8).
Esse processo foi conduzido por um setor da empresa encarregado de “inovações
técnicas”, que não só está à frente dos trabalhos pela busca de novas tecnologias, como
conduz qualquer processo interno de qualquer tecnologia já adotada, sendo que muitas vezes
isso acontece através de parceiros externos. “[...] teve um consultor dos Estados Unidos da
América (EUA), que é um dos principais players de fornecedores. É nos EUA e na Coreia
onde a gente já foi e já estamos comprando desse fornecedor da Coreia" (Entrevistado 8).
Tal processo é concretizado por grandes esforços e ações conjuntas entre o setor de
inovação e outros setores da empresa. Esses “[...] esforços são contínuos diretos, tanto é que
essa equipe de inovação e os suprimentos corporativos que estão comigo têm dentre “n”
metas [..,] viabilizar, fomentar, melhorar, sempre voltado à parede de concreto” (Entrevistado
8).
4.4.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de construção
civil
Tendo-se que a tecnologia adotada pela empresa desse setor não teve conotação
ambiental ao ser aplicada, mesmo apresentando resultados ambientalmente amigáveis, os
resultados obtidos em relação à competitividade da empresa estavam exclusivamente
relacionados ao encurtamento do tempo de execução de suas obras, assim como à
possibilidade de controlar os custos da execução com essa nova técnica. A partir disso, a
85
empresa tornou-se líder de mercado em seu segmento, triplicou seu faturamento em apenas
dois anos, além de conquistar grandes progressos competitivos.
[...] Esse sistema viabilizou a ela conquistar novas obras, dentro do governo, dentro do
“Minha casa, minha vida’’ ser a principal player, ser chamada: “para, vem cá, preciso de
você’’. Hoje muito mais pessoas procuram a nossa empresa para viabilizar o “Minha
casa, minha vida’’ do que [...] Em paralelo também acontece, lógico, a gente quer mais e
mais, mas também tem o pé no chão de que a empresa tem que crescer agora mais
organizado. Um impacto negativo nisso daí, positivo que gerou caixa, a empresa está
hoje com a margem muito boa, está entre [...], A imagem é a melhor hoje na construção
civil, se você pegar o balanço, que é público, que lança na bolsa [...] (Entrevistado 8).
Surpreendentemente, apesar de os ganhos competitivos terem sido notórios, identificouse resultado negativo provocado pelo fato de que 85% das receitas da empresa foram
extraídas do programa do governo “Minha casa, minha vida”; resultado exclusivamente
relacionado ao denominado risco governo.
[...] um ponto negativo que a empresa enxerga um pouco aí, é [...], num curto longo
prazo o fato de ter voltado hoje a 85% da empresa FGV dela é “Minha casa, minha
vida’’, 15% está na incorporação, então esse risco governo que é uma preocupação
(Entrevistado 8).
Abstraiu-se, particularmente, que a Empresa 8 obteve resultado competitivo favorável
por meio de um tecnologia inovadora, que por sua vez também pode ser classificada como
ambiental devido à redução de resíduos, mas que em momento nenhum foi adotada visando a
benefícios ambientais.
4.5
Descrição do setor de reciclagem
O mercado brasileiro de eletrônicos e produtos de informática é considerado o quinto do
mundo, depois da China, Estados Unidos, Japão e Rússia. A produção de lixo eletrônico total
86
no Brasil em 2011 foi de 1 milhão de toneladas, o equivalente a 6,5 quilos por habitante. Essa
estimativa é de 8 quilos por habitante para 2015. A produção atual da Europa é de 20 quilos
por habitante por ano (The World Bank, 2012). O lixo eletrônico de TIC representa 20 a 30%
desse volume.
O Brasil é o maior produtor de lixo eletrônico (e-waste) em volume per capita entre os
países emergentes. No país são geradas, por ano, 96,8 mil toneladas de lixo eletrônico de
computadores pessoais, atrás apenas da China, com 300 mil toneladas. Quanto a celulares, são
geradas 2,2 mil toneladas de lixo e, em relação a geladeiras, 115 mil toneladas de resíduos por
ano (Schluep, Kuehrc, Hageluekenb, Magalinic, Maurerc, Meskersb et al., 2009).
Computadores, celulares e demais produtos eletrônicos são cada vez mais acessíveis por
todos os níveis da população e seu uso generalizado tem gerado sérias consequências ao meio
ambiente. Não bastasse o alto consumo de matéria-prima (na sua maioria recursos não
renováveis) e energia, o que sobra do seu processo e seu descarte final causam impacto
potencial de proporções ilimitadas, haja vista a falta de um gerenciamento adequado.
Schluep et al. (2009) afirmam que o lixo eletrônico é enviado para países em
desenvolvimento (China, Índia, Paquistão), onde são “tratados” da maneira que melhor lhes
convém. Segundo o autor, 50 a 80% do resíduo eletrônico coletado para ser reciclado nos
países desenvolvidos são simplesmente enviados em navios contêineres para países em
desenvolvimento, onde o custo de processamento é bem mais baixo. Por exemplo, o custo
para se reciclar o resíduo eletrônico na Índia é 10 vezes menor que nos Estados Unidos.
Schluep et al. (2009) constataram, em seu estudo, que existe uma lacuna no que diz
respeito ao pós-consumo dos resíduos eletroeletrônicos no Brasil. Registrou-se grande
carência de empresas especializadas no gerenciamento desses resíduos, além de desinteresse
do mercado secundário de materiais para os resíduos eletrônicos (sucatas), gerando como
consequência o descarte inadequado destes, nos locais de destinação de resíduos domiciliares.
87
No Brasil, o setor produtivo de eletroeletrônicos é representado desde 1963 pela
Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE). Possui como associadas
cerca de 650 indústrias de capital nacional e internacional, dos mais diversos portes e
segmentos, distribuídas em 10 áreas: automação industrial; componentes elétricos e
eletrônicos; equipamentos industriais; geração, transmissão e distribuição de energia elétrica;
informática; material elétrico de instalação; serviço de manufatura em eletrônica; sistemas
eletroeletrônicos prediais; telecomunicações; utilidades domésticas (ABINEE, 2013).
A indústria brasileira de eletroeletrônicos reúne cerca de 4.000 empresas, sendo 80%
delas de pequeno porte, com menos de 100 colaboradores. Trata-se de um setor de capital
intensivo, gerando por volta de 180 mil empregos diretos, tendo atingido em 2011
faturamento de 80 bilhões de dólares, representando aproximadamente 3,5% do PIB brasileiro
(ABINEE, 2012). Apesar de existirem empresas especializadas em reciclagem de aparelhos
eletroeletrônicos, o número ainda é insignificante, se comparado ao aumento do consumo
desses produtos. As vendas desses aparelhos no varejo brasileiro cresceram 29,4%, tendendo
a aumentar gradativamente (Schluep et al., 2009).
Segundo Schluep et al. (2009), a gestão ambiental na indústria eletroeletrônica é
relativamente recente e o foco das pressões ambientais deixa de ser a gestão ambiental da
produção e passa a ser a gestão ambiental do produto. Entretanto, o Brasil tem sofrido
resistência dos fabricantes a assumir a gestão dos resíduos eletroeletrônicos de seus produtos
no final de vida útil. Há poucos exemplos de articulação voluntária do setor produtivo para
recuperação ou reciclagem desses insumos e ainda é incipiente a utilização de ecodesign e
inovação na concepção dos produtos. A inovação vem sendo impulsionada pelo mercado,
pelos custos, pela concorrência, sendo a questão ambiental o fator menos relevante para
motivá-la.
88
Os impactos ambientais gerados pelos resíduos eletroeletrônicos vêm despertando a
sociedade, empresários e ambientalistas de tal forma que o tema entrou na pauta da Política
Nacional de Resíduos Sólidos (Schluep et al., 2009).
A Lei nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), foi
regulamentada em dezembro de 2010 pelo Decreto nº 7.404. Ao longo de 86 artigos, o decreto
detalha as regras tratadas na PNRS e cria o Comitê Interministerial da PNRS, formado por
representantes de 12 ministérios que poderão convidar, inclusive, representantes do setor
privado. Supõe-se que a integração dos vários ministérios possibilite mais sinergia entre todos
os agentes envolvidos nesse processo de implantação tão complexo (ABINEE, 2012). A
referida lei, que inclui na categoria dos resíduos sólidos os equipamentos eletrônicos, em seu
art. 33 estabelece que são de responsabilidade dos fabricantes, importadores, distribuidores e
comerciantes a estruturação e implementação de sistemas de logística reversa. Apesar disso, a
grande maioria dos estados brasileiros carece de leis específicas para a questão do lixo
tecnológico.
O Brasil é o mercado emergente que gera o maior volume de lixo eletrônico per capita a
cada ano, mas, por outro lado, encontra-se entre os países mais preparados para enfrentar o
desafio de tratá-lo, principalmente diante do volume relativamente baixo de comércio ilegal
do lixo em comparação a outros mercados. Basta avaliar se as empresas atuantes nesse
mercado adotam tecnologias ambientais de forma a alcançarem alguma vantagem competitiva
com essa adoção.
4.5.1 A adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de reciclagem
A empresa estudada desse setor atua na reciclagem de eletrônicos, o que já caracteriza,
para o entrevistado, uma atividade ambiental. De acordo com ele, mesmo em se tratando de
89
um negócio novo no país, o volume de lixo eletrônico gerado no Brasil fez o negócio crescer
expressivamente devido ao tamanho da sua população e ao aumento da renda nos últimos
anos. A capacidade logística das empresas, justamente por ser um país de grande extensão,
torna-se o fator mais importante para a competição nesse mercado, impactando diretamente
no seu custo operacional. Dessa maneira, a logística reversa faz parte da cartilha de
competição para o setor.
[...] O fator de concorrência é ter uma logística reversa bem estruturada no Brasil,
porque o país é continental e muito desigual. Então, é óbvio que, quando uma empresa
que tem abrangência nacional pede para a gente prestar algum serviço, ela não quer que
a gente preste serviço somente. São Paulo, porque tem 60% do volume do Brasil e tem
mais de 65% do GDP [Gross Domestic Product] do PIB brasileiro. Não é só Brasil, não
é só São Paulo, então precisa de uma estrutura logística para você captar todo esse
volume no Brasil inteiro, e isso é o caminho crítico do custo da minha operação. É muito
caro eu coletar material fora de São Paulo e o volume é infinitamente menor do que o
que a gente tem aqui (Entrevistado 9)
No caso da atividade de reciclagem, o controle dos custos também foi mencionado como
algo primordial para a competitividade das empresas. Segundo o entrevistado, as questões
macroeconômicas do país influenciam a operação das empresas de modo que elas necessitam
ter rigoroso controle de custos operacionais.
[...] A gente tem uma diretriz forte em custo, porque a gente precisa estar olhando,
porque o Brasil tem uma característica bem diferente do país do primeiro mundo. Como
a gente tem um esquema que atende ao mundo inteiro, muitas vezes tem que ficar
explicando a eles por que nossos custos aumentam, ano a ano, mesmo se você ganha
escala, se você [...] que você vê, que você veja seu negócio aumentando, ganhando
escala, mesmo assim, você vê seus custos operacionais aumentando, ao invés de você ter
um ganho proporcional de escala, no Brasil, por causa de inflação, por causa da falta de
produtividade (Entrevistado 9).
O próprio método utilizado na produção da empresa – recuperação de metal precioso em
placas eletrônicas – é uma tecnologia ambiental de prevenção da poluição e reconhecido
como uma inovação pelo entrevistado no momento da sua adoção, principalmente por ser um
90
processo novo para a época e que é até hoje utilizado apenas pela empresa estudada. Nota-se
que tanto o desenvolvimento quanto a adoção dessa tecnologia aconteceu principalmente para
atender a legislações dos Estados Unidos, local onde são processados os materiais de todos os
clientes do mundo, e para otimizar os custos.
[...] Porque basicamente dentro dos Estados Unidos você precisa atender à legislação
deles, e esse processo que foi desenvolvido pela nossa empresa é o processo que gera o
menor resíduo. O resíduo final que vai ter que ser endereçado aos aterros sanitários dos
americanos, então [...], e a economia gerada nesse processo também e a energia e água.
De acordo com o entrevistado, o processo de adoção dessa tecnologia sofreu pressões
externas do próprio mercado, que passou a exigir processos mais amigavelmente ambientais
atrelados à redução de custo de produção.
[...] o que sei é que partiu de uma necessidade de mercado atrelada a
uma necessidade do governo americano de fazer as coisas de forma
que agrida menos o meio ambiente. Então esse processo veio de uma
necessidade que foi percebida para você gerar riqueza nos metais
preciosos, agredindo o menos possível o meio ambiente e utilizando o
menos possível energia também (Entrevistado 9).
Mais uma vez, o principal entrave na adoção dessa tecnologia foi citado como o longo
prazo de retorno do investimento, mesmo se tratando de um negócio rentável. O entrevistado
comenta que o processo de reciclagem, além de demandar capital elevado, possui agravantes
inerentes ao modelo de negócio, tais como o maior tempo despendido em logística para o
processamento da sucata eletrônica até a extração dos metais preciosos.
[...] pode ser rentável, mas consome muito um capital pesado e o retorno é demorado
pelas características do negócio. Ele gira muito em um tempo muito longo, não é um
business de giro rápido. É um payback, um ROI [returno n investiment] do processo. Se
você fosse levar em consideração cada contêiner que você exporta, ele é demorado,
relativamente demorado, 75, 80 dias (Entrevistado 9).
91
Os processos de operacionalização e implementação dessa tecnologia estão muito
relacionados aos projetos de pesquisa e desenvolvimento efetuados pela própria empresa,
mesmo porque eles utilizam essa informação para fomentar uma imagem positiva perante
qualquer pressão externa.
[...] O processo é desenvolvido dentro dos laboratórios de Chicago. Ele é posto em
prática em uma escala pequena e, uma vez que se comprove o resultado, vai para uma
escala industrial. Só que o processo em si é cercado de direitos e de sigilos também,
porque é parte do segredo do business (Entrevistado 9).
[...] tem esse processo como um fruto de um estudo muito bem elaborado e eles se
orgulham muito de, durante uma apresentação, passar por esses steps. Dizer que eles
fazem o waste to energy, que isso faz economia de energia e as empresas hoje querem
estar vinculadas a empresas que tenham credibilidade no mercado, e façam realmente a
coisa mais sustentável possível (Entrevistado 9).
4.5.2 Resultados da adoção de tecnologias ambientais na empresa do setor de reciclagem
A tecnologia adotada é chamada de “waste to energy” e faz parte do modelo de negócio
da empresa como atividade geradora de receita, o que deixa claro que quaisquer resultados
impactam sua competitividade. Isso faz com que essa empresa apresente uma particularidade,
pois a própria tecnologia de produção da empresa é, ao mesmo tempo, ambiental e fonte de
riqueza para ela. “[...] Essa tecnologia, que viabilizou a recuperação de metal precioso da
reciclagem de placas, gera para a empresa algo em torno de 300 milhões. Estou falando
porque é aberta, 300 milhões de dólares por ano” (Entrevistado 10).
O fato de a empresa realizar um processo de reciclagem mais eficiente do que o dos
concorrentes faz com que ela obtenha ganhos que atingem diretamente sua competitividade.
Tais benefícios são observados economicamente pela redução no consumo de energias mais
caras, como a nuclear, pelo reaproveitamento de materiais retirados durante o processo
produtivo e até pela extração de energia de materiais reciclados para alimentar o alto-forno.
92
[...] A diminuição do uso da energia nuclear e a despoluição do plástico, porque dentro
do plástico existem ainda alguns materiais que não podem ir para o aterro sanitário
diretamente. Então, é a descontaminação do plástico e a utilização de menos energia no
processo porque já dentro do plástico existe, das placas de eletrônica, um material que
incinera fácil, tem energia ali dentro. Por isso aquele lixo é utilizado também para
alimentar o forno. Quanto isso geraria se a gente não usasse plástico? Qual seria o
impacto? Waste to energy, qual seria o impacto? Primeiro, o processo teria que ser de
redesenvolvido para tirar todos os elementos nocivos da placa porque ela ainda possui
elementos nocivos na hora em que chega na trituração. Teria também um acréscimo na
conta da energia, na utilização da energia, porque aquela energia da placa não estaria
sendo utilizada. Mas quantificar isso, não sei dizer quanto que [...] O impacto ambiental
é o mesmo, porque eu não poderia mandar para um aterro normal nos Estados Unidos. E
a parte de energia não tenho como precificar, quantificar o quanto de energia a gente
economiza no processo, mas, por exemplo, sei que o consumo de energia é massivo
nesse tipo de indústria, e que, se economizar 10%, já é uma grande, uma imensa
economia (Entrevistado 9).
Por causa dessa tecnologia inovadora, a empresa encontra-se entre as líderes de seu
mercado. Os benefícios identificados são econômicos, ambientais e até inovativos se
comparados com outros mercados, já que podem ser uma solução para necessidades futuras.
Obviamente existe a limitação do volume produtivo de uma empresa de reciclagem em
relação às outras atividades tradicionais de mercado. Como exemplo, pode-se citar a extração
de metais preciosos.
[...] hoje a gente é um dos maiores players do mundo, e parte do sucesso é por causa do
processo que a gente utiliza. Só desse processo você pode entender um negócio de 300
milhões de dólares para uma empresa. É um negócio interessante, onde o processo que
você utiliza, se ele tiver uma diferença competitiva, vai te dar vantagem na aquisição de
mais e mais material, gerando mais e mais riqueza para a cadeia inteira (Entrevistado 9).
[...] Reduz a utilização de um bem precioso que não é renovável, no caso do ouro, da
platina, do paládio, da prata, é um material que você recupera sem ter que ir para a
natureza novamente. E os índices de recuperação desses metais preciosos na reciclagem,
o índice por tonelada é muito maior do que nas mineradoras, ou seja, uma tonelada de
lixo eletrônico tem muito mais metal precioso do que uma tonelada de terra de uma
mineradora (Entrevistado 9).
4.6
Discussão dos resultados da pesquisa
93
Nas seções anteriores, ficaram evidenciados os antecedentes de adoção de tecnologias
ambientais nas empresas estudadas, algumas fases desse processo e os resultados percebidos
sob a ótica de sua competitividade. Os relatos das entrevistas revelaram uma série de
elementos que contribuem para essa adoção ou a desfavorecem, assim como os choques
acarretados na maneira como essas empresas competem em seus mercados.
A fim de analisar a adoção de uma tecnologia ambiental sob a ótica de cada uma das
empresas estudadas, é importante considerar o comportamento demonstrado por elas a partir
de dimensões que foram definidas pelo roteiro das entrevistas, bem como as similaridades e
divergências detectadas entre elas. A Tabela 7 consolida todas as percepções captadas nas
entrevistas, que foram detectadas como similaridades entre as empresas, para que se possa
interpretar se elas adotaram as tecnologias ambientais de maneira singular e também se a
relação entre essa adoção e a competitividade é de alguma forma congruente.
94
Tabela 7
Similaridades entre as organizações na adoção de tecnologias ambientais
Resultados
Processo da Adoção
Antecedentes da Adoção
DIMENSÕES DA
ADOÇÃO DA
TECNOLOGIA
AMBIENTAL
Fator de com petição
Tecnologias Adotadas
Razões da Adoção
Esforços
em pregados
ORGANIZAÇÕES
1
2
5
6
7
8
9
Controle de Custo, Controle de Custo,
Controle de Custo
Mercado de
Mercado de
Controle de Custo
Investivor e
Controle de Custo
e Mercado de
Commodity,
Commodity,
e Mercado de
Controle de Custo
Controle de Custo
e Qualidade
Commodity
Qualidade e
Qualidade e
Commodity
Diversificação
Diversificação
Investidor,
Investidor,
Controle de Custo Controle de Custo
e Mercado de
e Mercado de
Commodity
Commodity
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Tecnologia de
Controle da
Poluição ( end-ofpipe)
Pressão Externa,
Redução de
Pressão Externa e
Consumo e
Redução de
Redução de
Consumo
Emissões
3
4
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Tecnologia de
Controle da
Poluição ( end-ofpipe)
Pressão Externa
Pressão externa e
Redução de
Consumo
Pressão Externa,
Redução de
Consumo e
Redução de
Emissões
Pressão Externa,
Redução de
Consumo e
Redução de
Emissões
Pressão Externa
Apoio
Apoio
Apoio
Apoio
Apoio
Institucional/Execu Institucional/Execu Institucional/Execu Institucional/Execu Institucional/Execu
tivo
tivo
tivo
tivo
tivo
P&D
Operacionalização
Parcerias e projeto
piloto
Programas
internos
Parcerias e projeto
piloto
Programas
internos
Investimentos
internos
Investimentos
internos
Entraves encontrados
Longo ROI
Longo ROI
Longo ROI
Longo ROI
Longo ROI
Longo ROI
Beneficios
Percebidos
Redução de
consumo marginal
e inovação
Redução de
Resíduos e
inovação
Inovação
Redução de
resíduos
Resultados
com petivivos efetivos
alcançados
Melhoria da
Imagem
Melhoria da
Imagem e
Licenciamento
Melhoria da
Imagem e
diminuição do do
risco do negócio
Melhoria da
Imagem e
diminuição do do
risco do negócio
Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa.
Investimentos e
programas
internos
Melhoria de
Imagem
Melhoria da
Imagem e
acréscimo nas
vendas
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
Pressão Externa e
Redução de
Consumo
Apoio
Apoio
Institucional/Execu Institucional/Execu
tivo e P&D
tivo e P&D
Redução de
Redução de
consumo marginal, consumo marginal,
Redução de
Redção de
Redução de
consumo marginal
Emissões e
Emissões e
e Inovação
regulatório
regulatório
Melhoria da
Imagem e
Licenciamento
Tecnologia de
Prevenção da
Poluição
P&D
Parcerias
Investimentos
internos
Redução de
resíduos e
Inovação
Redução de
Consumo,
Resíduos e
Emissões
Melhoria da
Imagem e
acréscimo nas
vendas
Melhoria da
Imagem e
acréscimo nas
vendas
95
Todas as nove empresas estudadas citaram o custo como fator crucial para a
competitividade em seus mercados e seis delas atrelaram esse fator à competição em seus
respectivos setores, pelo fato de estes estarem direta ou indiretamente influenciados pelo
mercado de commodities. Isto é, essas seis empresas não possuem controle sobre seus preços,
pois estes são definidos pelo mercado internacional. A partir dessa primeira dimensão
analisada, pode-se confirmar que não houve alguma variável ambiental que de fato
estimulasse diretamente a competição dessas empresas, resultado que se contrapõe ao
entendimento de autores como Porter (2000) e Sachs (1986), que citam o meio ambiente
como um dos fatores estratégicos para o aumento do desenvolvimento econômico.
Identificaram-se similaridades entre as empresas do setor de siderurgia na apresentação
da qualidade e diversificação do produto como fatores de competição. Embora tais
similaridades sejam necessidades diretamente relacionadas à forte concorrência asiática
sofrida por esse setor, a qualidade e diversificação dos produtos ressaltam uma nova
plataforma de desenvolvimento tecnológico. Segundo Cassagrande (2004), as inovações
tecnológicas norteadas pela conservação ambiental, tais como as mudanças em design de
produtos e vários outros processos mais limpos, são denominadas ações de ecoeficiência.
Uma vez que a segunda dimensão analisada foi a das tecnologias adotadas, de acordo
com as entrevistas e as teorias apresentadas nesta dissertação, constatou-se que sete das nove
empresas adotaram algum tipo de tecnologia de prevenção de poluição, atrelada ao seu
processo produtivo. Apenas duas adotaram tecnologias de controle de poluição, as quais
ajudam a filtrar ou reduzir um poluente, porém não propõem um salto tecnológico de
qualidade para reduzir a emissão na fonte. O comportamento dessas empresas no tocante ao
tipo de tecnologia adotada sugeriu que no geral elas estão de alguma maneira inserindo
tecnologias ambientais no seu padrão de desenvolvimento. Entretanto, não ficou evidente que
esse movimento está acontecendo de forma plena, como sugerido por Freeman (1996), para
96
que haja desenvolvimento sustentável, pois são apenas aplicações pontuais. Freeman (1996)
preleciona que, para haver desenvolvimento sustentável na íntegra, há necessidade de que as
adoções abranjam toda a cadeia produtiva e não sejam apenas ações isoladas. Por outro lado, a
imposição voluntária de ações para reduzir o consumo desenfreado de bens naturais requer a
possibilidade de que as empresas estejam comprometidas com a sustentabilidade ambiental
(Layrargues, 1997).
As entrevistas permitem pontuar alguns fatores como os principais motivadores da
adoção de práticas sustentáveis. E a terceira dimensão analisada foi compreender quais foram
as razões que levaram as empresas a adotarem tecnologias ambientais e se isso aconteceu de
forma voluntária ou não. Para Freeman (1996), corroborando o que foi identificado em oito
das empresas estudadas, a pressão exercida para que as organizações se adequem às regras e
normas ambientais acaba guiando seu comportamento, e a preocupação gerada originaria
uniformidade entre elas. Portanto, a análise das entrevistas deixa clara a importância do papel
regulador de governos e agências como motivador da adoção de práticas sustentáveis,
conforme ressaltam Schmidheiny (1992) e Porter & Linde (1995).
Outros motivadores identificados em mais de uma empresa foram a redução de consumo
ou custo e a redução de emissões de poluentes. São indícios de que as empresas na atualidade
estão, dentro da realidade de cada mercado, tentando se tornar ecoeficientes. Esse resultado
confirma o entendimento de Schmidheiny (1992) e também a afirmativa de Kuehr (2007) de
que as tecnologias ambientais incitam esses benefícios a partir de melhorias de processo e
serviços.
A quarta dimensão analisada diz respeito aos esforços empregados pelas empresas para
viabilizar a adoção da tecnologia ambiental escolhida. Sete empresas mencionaram o apoio
institucional e executivo como fator essencial nos esforços realizados. A literatura notifica a
necessidade da reorganização dos negócios e da indústria em torno de princípios
97
ecologicamente mais adequados, com impactos nas corporações, em seus produtos, seus
sistemas de produção e suas práticas gerenciais (Shrivastava, 1995). A participação efetiva da
alta direção das empresas avaliadas fornece o respaldo necessário e traz o assunto para a
agenda diária dos diversos setores analisados.
O Manual de Oslo (OECD, 1997) adota como critério-chave a medição de atividades
tecnológicas por meio de estatísticas de P&D, o que foi identificado em quatro das empresas
estudadas. Com base nesses resultados, pode-se afirmar que não somente investimentos
diretos em P&D geram inovações tecnológicas ambientais, estas podem decorrer de outras
pesquisas.
A quinta dimensão analisada foi o processo de operacionalização da tecnologia adotada.
Neste ponto, identificaram-se quatro fatores que figuram entre as similaridades encontradas:
parcerias realizadas pelas empresas, projetos-piloto e programas e investimentos internos de
sustentabilidade ambiental. A despeito desses quatro fatores similares, vale ressaltar que
nenhum dos entrevistados salientou os projetos de sustentabilidade ambiental como algo que
requer atenção especial, mas sim como atividades de cunho cotidiano e que possuem seu grau
de importância atrelada apenas ao valor ali investido, assim como qualquer outro projeto em
outras áreas de aplicação.
Ainda que os dados obtidos tenham revelado uma tendência nesse sentido, os
entrevistados admitem que muitas das suas iniciativas são processos incipientes, mas não são,
de forma alguma, irrelevantes. Projetos que auxiliam uma empresa a tornar-se um pouco mais
ambientalmente amigável permitem identificar ações além da conformidade estrita.
Em relação à necessidade das empresas de efetuar parcerias para operacionalizar suas
tecnologias ambientais – aspecto identificado pelos dados coletados –, na interpretação de
Porter & Linde (1995) a popularização da terceirização reflete o crescente reconhecimento de
que é difícil desempenhar todas as atividades de forma tão produtiva quanto os especialistas.
98
De acordo com Lustosa (2002) e a OECD (1997), as mudanças tecnológicas no sentido da
adoção de práticas mais limpas podem ocorrer pela evolução das tecnologias vigentes. Essa
evolução se dá com base na inovação do método organizacional nas práticas de negócios, nas
organizações do local de trabalho ou nas relações externas. Isso corrobora a implementação
de programas e a realização de investimentos internos, identificados nos dados obtidos sobre
o processo de operacionalização das tecnologias ambientais adotadas.
A sexta dimensão inspecionada foram os entraves encontrados ao se adotar uma
tecnologia ambiental. Seis das empresas analisadas realçaram o longo prazo de retorno dos
investimentos como o principal obstáculo para a difusão de práticas ambientais em suas
organizações. Entretanto, a aplicação de uma produção mais limpa por meio das tecnologias
ambientais adotadas gerou retornos com economia dos mais diversos recursos utilizados no
processo produtivo de cada uma dessas empresas, porém apenas de forma pontual, seja em
função da economia na utilização de água, energia ou matéria-prima. Essas tecnologias não
foram aplicadas em larga escala a ponto de revolucionar completamente o processo produtivo
em cada uma dessas empresas. Essa limitação não só compromete negativamente o retorno
dos investimentos e o seu prazo, bem como leva as empresas a um aprisionamento
tecnológico (efeito lock-in).
A relação dos indicadores identificados na discussão teórica sobre sustentabilidade
ambiental com os diversos atores que compõem a pesquisa reforça a discussão no trabalho
seminal de Porter & Linde (1995), quando afirmam que as empresas não percebem, seja por
desconhecimento, seja pelo alto custo de investimentos ou por outros fatores, os benefícios
que podem colher com a modificação de seus métodos de produção. A princípio, os fatores
internos, que incluem os aspectos de decisão sobre uma adoção tecnológica, que estão sob
controle da empresa, são aqueles relacionados puramente à ampliação das vantagens
competitivas empresariais versus o nível dos investimentos decorridos. Ou seja, o fator
99
financeiro desempenha importante papel na determinação de seu sucesso ou fracasso de um
projeto nas organizações. Assim sendo, uma empresa irá investir voluntariamente em
tecnologia ambiental somente se esta trouxer alguma vantagem competitiva maior que o
investimento monetário empregado em sua adoção.
A sétima e penúltima dimensão investigada foram os benefícios da adoção das
tecnologias ambientais percebidos pelos entrevistados. Os relatos evidenciam que eles são
pontuais e específicos, abrangendo campos como redução de consumo, redução de emissões,
inovações e ganhos regulatórios, sem afetar positivamente todo o processo produtivo dessas
empresas. Um ponto interessante a ser ressaltado é a redução de custo alcançada com a
diminuição do consumo, pois mesmo que essa redução tenha se mostrado inexpressiva diante
do consumo total dessas empresas, ao longo do tempo poderá ser difundida de forma
abrangente a ponto de representar um ganho real de grande escala produtiva. Diante disso,
Dosi (1982) cita que os benefícios atingidos por alguma tecnologia para solucionar um
problema esporádico pode tornar-se escalonável a ponto de representar positivo impacto de
grande porte para o resultado total de uma organização.
O fato de a inovação ter sido citada cinco vezes como benefício tornou a análise
interessante, pois convém lembrar que Horbach et al. (2012) citam como condicionantes para
a ecoinovação os fatores específicos e a regulação, algo que abrange todos os benefícios
apresentados pelos entrevistados em forma de reduções de consumo, emissões e resíduos.
Esses benefícios também são confirmados pela PNUMA/ CLAES (2008), para quem a
ecoinovação, a ecotecnologia e a ecoeficiência são mecanismos que de alguma maneira
reduzem o risco ambiental para as gerações futuras.
Concluindo a análise, a última dimensão foi direcionada para os resultados alcançados
pela adoção da tecnologia ambiental relacionados à competitividade dessas empresas.
Destaca-se o fato de os entrevistados terem considerado o valor da imagem da empresa
100
perante o ambiente externo como um fator que atinge a competitividade. Isso talvez seja uma
resposta a uma tentativa das empresas de mudar sua imagem pública por meio de
investimento em energia renovável e metas na redução de emissões, ou seja, apenas uma
tendência a divulgar informações de cunho ambiental positivo para transmitir uma boa
imagem à sociedade. Além disso, corresponde a um dos trade-offs da tipologia proposta por
Porter, segundo a qual a inconsistência em imagem e em reputação demanda esforços
gigantescos para criar uma nova imagem, processo que, em geral, representa consumo de
recursos para a maioria das empresas. Embora o discurso possa trazer ganhos e uma série de
benefícios à imagem da organização, quando isso não encontra respaldo na prática, poderá
comprometer seriamente a sua imagem no longo prazo.
Outros pontos identificados em relação à competitividade das empresas foram a
diminuição do risco de seus negócios, o incremento nas vendas e o auxílio no processo de
licenciamento. Essas evidências confirmam algumas teorias da literatura. Shrivastava (1995),
por exemplo, enumera alguns dos pontos a partir dos quais as empresas podem obter
benefícios ao se posicionarem de modo ambientalmente amigável: redução de custos de
produção a partir da adoção dos princípios da eficiência ecológica, obtenção da vantagem
competitiva de ser o primeiro entrante em suas respectivas indústrias, garantia de
rentabilidade de longo prazo, estabelecimento de melhores relações com a comunidade e
melhoria da imagem corporativa.
Autores de outra corrente também tentaram demonstrar que estratégias ambientais
podem desenvolver vantagens competitivas para além dos ganhos, com redução de resíduos e
eficiência (Porter, 1991; Porter & Linde, 1995), a partir, por exemplo, da adequação a
legislações ambientais mais restritivas, que levam à inovação, e também da conquista da
legitimação social. A legitimação social proporcionada pelo licenciamento, segundo os
101
entrevistados, é geradora de vantagem competitiva por viabilizar mais acesso ao crédito e
melhoria de imagem, o que pode ser traduzido em relações econômicas favoráveis.
O estudo das similaridades detectadas até o momento entre as unidades avaliadas
possivelmente já permite concluir que a adoção de tecnologia ambiental gera impacto na
competitividade das empresas, mesmo que essa adoção aconteça de forma pontual e
esporádica. Para que a análise seja mais abrangente, os fatores identificados como divergentes
entre essas unidades também foram analisados. A Tabela 8 consolidou todas as percepções
captadas nas entrevistas que foram detectadas como divergentes.
102
Tabela 8
Divergências entre as organizações na adoção de tecnologias ambientais
Resultados
Processo da Adoção
Antecedentes da Adoção
DIMENSÕES DA
ADOÇÃO DA
TECNOLOGIA
AMBIENTAL
ORGANIZAÇÕES
1
2
Fator de com petição
3
4
Inovação
Tecnológica
Renda
Necessidade de
Inovação
Incorporar
sustentabilidade
no Negócio
Roadmap
Tecnológico
Programa de
remuneração
5
6
7
8
9
Pós-vendas
Novas
Tecnologias
Velocidade de
Execução
Volume de vendas
e Logística
Tecnologias Adotadas
Razões da Adoção
Melhoria de
Processo
Esforços
em pregados
Via departamento
de suprimentos
Operacionalização
Mudança do
processo de
compra
Entraves encontrados
Falta de escala
para aplicação
Agregar valor aos
clientes e
aumentar vendas
Troca de
informação entre
países
Implementação de
Indicadores
Investimento em
Inovação
Marketing
Importações
Dificuldade para
adesão imediata
dos clientes e
entraves fiscais
Uso de mais
recursos internos
que o normal
Beneficios
Percebidos
Comportamento
Institucional
Menor passivo
ambiental
Resultados
com petivivos efetivos
alcançados
Capacitação em
Inovação e
Tecnologia
Capacitação em
Inovação
Fonte: elaborado pelo autor a partir de dados da pesquisa.
Mercado
Diminuição de
risco
Melhoria de
processos na
produção
Desenvolvimento
Tecnológico
Velocidade de
Execução
Espaço Físico
para produção
Valor ao Cliente
Liderança no
Segmento de
Atuação
Diferenciação
103
Em atendimento ao objetivo de investigar os possíveis impactos de uma adoção
tecnológica ambiental na competitividade de uma empresa, percebe-se nas entrevistas que a
maioria dos fatores citados que divergem entre os entrevistados estão diretamente
relacionados ao momento que cada empresa está vivendo em seu mercado. Essa constatação
se deu quando um dos entrevistados identificou um fator particularmente importante para a
competitividade da sua empresa e também citou outros diretamente relacionados a esse fator
particular. Por exemplo, o Entrevistado 3 identificou a inovação tecnológica como importante
para a competição da sua empresa, acrescentando, consequentemente, outros que estão ligados
à inovação tecnológica nas outras dimensões avaliadas, tais como roadmap tecnológico,
capacitação interna e a necessidade urgente de inovar para garantir longevidade em seu
mercado. Verificando e confrontando a quadro de similaridades com o de divergências, é
possível observar esse comportamento em todas as outras empresas.
No entanto, essa particularidade retrata que a internalização da variável ecológica no
âmbito desses negócios não ocorre de forma homogênea, e sim variando entre as unidades
produtivas e setores, da mesma forma como relatado por Donaire (1999). Essa variação de
comportamento se deve à decisão sobre a tecnologia ambiental a ser adotada encontrar-se
associada à natureza do negócio da empresa e ao grau de maturidade que essa empresa detém
em relação aos assuntos de sustentabilidade ambiental. Dois bons exemplos são os das
Empresas 3 e 4, que deixaram claro já possuírem departamentos e programas voltados para a
sustentabilidade ambiental, sugerindo fatores bastante particulares no decorrer de suas
entrevistas ao comentarem sobre inovação tecnológica, capacitação interna sobre
sustentabilidade e também programas de remuneração atrelados a resultados ambientalmente
saudáveis.
104
Contudo, para Barbieri (2007), na maioria das empresas o nível de maturidade ambiental
ainda não se transformou em ações administrativas e operacionais efetivas. A análise dos
dados obtidos indica que a maturidade de cada empresa analisada é de certo modo guiada pelo
desenvolvimento da legislação ambiental, que regulamenta suas atividades empresariais
quanto ao uso de recursos e serviços ambientais; pela maior cobrança por parte dos
indivíduos, que esperam que essas empresas busquem reduzir e compensar os impactos que
suas ações causam; pelos investidores, que buscam minimizar seus riscos; e até pelo próprio
mercado, já que as questões ambientais tornaram-se importantes para a competitividade delas
em alguns âmbitos.
Algumas evidências extraídas da Tabela 8 ratificam que as divergências encontradas
estão relacionadas às especificidades da atividade de cada empresa estudada. A Empresa 8,
por exemplo, foi a única a reconhecer a velocidade na execução de suas atividades como um
fator de competitividade. E pelos dados obtidos da entrevista, confirma que todos os outros
fatores divergentes identificados nas outras dimensões analisadas são consequência dessa
necessidade que a empresa possui de terminar suas obras rapidamente para que ela receba o
dinheiro da venda das residências o mais rápido possível, a fim de reinvestir em novos
empreendimentos.
Outro exemplo, o da Empresa 3, permite confirmar a influência da atividade que a
empresa exerce sobre sua maturidade em relação à adoção de uma tecnologia ambiental. Ao
externalizar em sua resposta a forte preocupação de sua organização em relação à total
sustentabilidade de seu negócio, o Entrevistado 3 indicou a inovação tecnológica como um
fator essencial para que efetivamente haja mudança na trajetória de desenvolvimento dessa
empresa a ponto de acarretar longevidade competitiva de seu negócio. Mais uma vez, mesmo
105
analisando as demais empresas, fica notório que todos os fatores abordados exclusivamente
pelos entrevistados ao longo das dimensões do estudo são consequências específicas de cada
atividade que suas respectivas empresas exercem ou advêm de necessidades pontuais e
específicas.
Prahalad & Rangaswami (2009) apresentam o processo da busca da sustentabilidade a
partir de estágios que exibem desafios inerentes. Cada estágio representa uma etapa a ser
percorrida pela organização em direção à maturidade em gerir seus produtos/serviços e
processos de maneira sustentável para o planeta. Esse processo inclui repensar não apenas
produtos, tecnologias e processos, mas também o modelo de negócios envolvido, o que
significa que as empresas que tornaram a sustentabilidade uma meta tenderão a obter
vantagem competitiva sobre as demais.
A última condicionante está vinculada à avaliação de maturidade da organização em
relação a seu contexto e à necessidade/disponibilidade de considerar as atividades ambientais
como elemento estratégico. Assim, parte-se de elementos regulatórios e mandatórios (quer em
termos governamentais, quer em termos de competitividade e mercado) para uma visão de
agregação de valor a partir da ecoinovação e da geração de produtos, serviços e ações
sustentáveis do ponto de vista ambiental. Essa visão requer da organização amadurecimento e
compreensão de seu papel em um conjunto de cadeias de agregação de valor não apenas
econômico, mas também ambiental. Em um nível ainda maior de maturidade, a organização
poderá perceber que o processo de adoção de uma tecnologia ambiental pode reverter-se em
ações de ecoeficiência.
De fato, realizar ações ambientais pode acarretar uma série de mudanças positivas na
organização, como a fidelidade dos clientes, a conquista de novos mercados, a criação de
106
novas parcerias com outras empresas e fornecedores, o reconhecimento da sociedade, a
melhoria da imagem da empresa valorizando sua marca. Assim, é possível concluir, embora
com algumas restrições, que tais ações podem aumentar a competitividade das empresas
quando aplicadas de forma abrangente, transpondo as especificidades de cada uma delas para
que resulte de fato em uma mudança na trajetória de desenvolvimento do mercado.
107
5
CONCLUSÕES
Este capítulo é formado por duas seções. Na primeira, são destacadas as principais
conclusões que os dados obtidos pelas empresas pesquisadas revelaram em confronto com o
objetivo geral estabelecido para o trabalho. Em seguida, na segunda seção, são apresentadas as
limitações decorrentes do método utilizado e sugeridas recomendações de pesquisas futuras
que podem dar continuidade ou mesmo complementar o estudo que foi desenvolvido na
presente dissertação.
5.1
Principais conclusões
O presente trabalho procurou descrever e analisar como as adoções de tecnologias
ambientais se relacionaram com a visão de competitividade das nove organizações estudadas.
Sem pretender medir a competitividade mediante dados objetivos, como, por exemplo, dados
financeiros ou de produção, procurou-se avaliar do ponto de vista dos entrevistados como a
adoção de tecnologias ambientais representava associação com a competitividade para as suas
empresas. E sugere que a adoção de tecnologias ambientais pode, de fato, auxiliar as empresas
a constituir um caminho para aliar crescimento econômico e preservação ambiental. As
evidências empíricas revelaram que, nas empresas analisadas, as tecnologias ambientais
possuem relação positiva com a competitividade tanto com os fatores intangíveis, como
108
melhoria da imagem corporativa e diminuição de riscos futuros, quanto com os mais tangíveis,
como redução de consumo e acréscimo nas vendas.
Assim, o efeito da adoção dessas tecnologias sobre o desempenho competitivo parece
ocorrer de forma a promover redução de custo, melhoria do processo produtivo, melhoria nos
serviços ofertados, melhoria da imagem da empresa, aumento de vendas e facilidade de
licenciamento ambiental. Entre as empresas analisadas, todas mencionaram somente impactos
positivos ao se ter adotado alguma tecnologia ambiental. Entretanto, tal introdução mostra ter
sido apenas de forma pontual em alguma parte do processo, não representando algo
expressivo considerando todo seu processo produtivo. Uma exceção é a empresa 6, que adotou
tecnologia ambiental que possui efeito direto em seu processo produtivo. Tal adoção permitiu
que sua principal matéria-prima, que não era de fonte renovável, fosse substituída pelo carvão
vegetal, que é de fonte totalmente renovável, conseguindo, assim, ter mais previsibilidade de
seu custo produtivo a ponto de lhe permitir não sofrer com a flutuabilidade dos preços do
mercado de commodity. Nesse sentido, parece que uma condição necessária para que as
empresas vislumbrem ganhos expressivos advindos da adoção de inovação tecnológica
ambiental seja optar por uma tecnologia que seja capaz de transformar seu processo produtivo
como um todo e não apenas pequena parte dele para suprir apenas uma necessidade pontual.
É interessante notar que os objetivos das empresas pesquisadas ao adotar as tecnologias
ambientais divulgadas na pesquisa se demonstraram bem similares, a despeito de os setores
serem totalmente diferentes. Neste trabalho, essa similaridade de objetivos acrescida da
importância atribuída pelas empresas ao mercado para a adoção das tecnologias parece indicar
que há consenso de que a reatividade às pressões externas é uma condição motivadora da
adoção e difusão desse tipo de tecnologia. Além disso, todas as empresas, ao optarem por
109
tecnologias ambientais, apresentam-se bastante focadas, primeiramente, no ganho de imagem,
embora reconheçam que os ganhos de eficiência e produtividade econômica são primordiais
no processo decisório.
Pode-se concluir, então, que caso essas empresas não vislumbrem ganhos efetivos na
geração e difusão de tecnologias ambientais no sentido de realmente transformar seus
processos produtivos de forma abrangente, dificilmente as organizações as adotarão,
demonstrando postura ativa, em que se valoriza tal atitude pelos ganhos econômicos e
ambientais que realmente pode ocorrer. Os casos analisados mostram que as empresas
justificam a adoção devido às obrigatoriedades das regulamentações ambientais. Assim sendo,
tais exigências são importantes no sentido de as firmas assumirem comportamento ambiental
menos danoso. As normas e regulamentações induzem as empresas a modificarem suas
rotinas, bem como as estratégias adotadas. Tal indução pode ao longo do tempo contribuir
para se alterar a postura reativa de tais empresas na medida em que, ao adotarem tais
tecnologias, venham a sentir os ganhos efetivos dessa adoção.
De fato, o aumento das pressões regulatórias pode ser considerado o motivador mais
relevante para a adoção de uma tecnologia ambiental devido ao número de vezes que foi
mencionado pelos entrevistados. A consciência ambiental fatalmente tem crescido em todas
essas empresas, mas o que se viu ao longo deste trabalho foi que elas responderam
primeiramente a um estímulo do tipo compulsório ao decidirem adotar uma tecnologia
ambiental. Diante dessa constatação, é fundamental discutir o papel da legislação como agente
de mudança na forma de atuação das empresas. A formulação das normas e padrões deve
assegurar a pertinência do teor das exigências, mas também sua exeqüibilidade, para que
sejam alcançados resultados expressivos para as empresas.
110
Convém salientar que o estudo indica que o número de empresas que tentam atuar de
forma ambientalmente saudável é maior naqueles setores com maiores potenciais de dano
ambiental, com mais visibilidade na mídia ou naqueles considerados mais globalizados.
Talvez por isso que todas as empresas estudadas dos setores de mineração e siderurgia citaram
como razão da adoção de uma tecnologia ambiental a redução dos riscos ambientais e
melhoria de imagem, o que, de fato, é um dos objetivos básicos de qualquer resposta às
pressões externas.
O posicionamento institucional e dos executivos das empresas perante as questões
ambientais mostrou-se também exercer papel motivador no processo decisório sobre adotar
uma tecnologia ambiental. Ficou claro nas entrevistas que os processos de adoção tecnológica
ambiental, por se tratar de projeto comum nessas empresas, precisam do apoio das lideranças
para que possam acontecer. Mais importante, porém, é que, por depender de investimentos
altos, a implantação de projetos envolvendo tecnologias ambientais pode se beneficiar do
mesmo arrojo que esses líderes imprimem às demais decisões de investimento, mesmo diante
das típicas imprecisões de longo retorno das avaliações econômico-financeiras dos projetos
ambientais.
Conclui-se que a adoção de tecnologias ambientais de modo que haja transformação em
todo o processo produtivo dessas empresas pode acontecer a partir de estratégias de transição
construídas sob uma plataforma de práticas interdisciplinares abrangendo todas as áreas da
empresa. As parcerias adequadas com agentes externos, como, por exemplo, acordos
comerciais com empresas especializadas em certas tecnologias ambientais para compor essa
estratégia, mostraram-se essenciais para a formação de agentes de transformação e
implantação de processos tecnológicos ambientais. Isso porque os entrevistados deram ênfase
111
a aspectos de cooperação na busca de parcerias para inovação e no desenvolvimento de ativos
específicos devido à não detenção de tais conhecimentos pelas suas empresas.
Sendo assim, os aspectos mais importantes dessa abordagem para a eficácia de adoções
tecnológicas atualmente seriam o comprometimento governamental de alto nível para manter
as pressões, a flexibilidade das empresas para realocar recursos existentes na medida do
necessário para enfrentar demandas incrementais e até a capacidade para alavancar parcerias
para estimular o fluxo de recursos para apoio técnico e financeiro.
As organizações pesquisadas descrevem o alto investimento como o principal obstáculo
para a implantação das tecnologias “verdes”. É preciso ressaltar que os investimentos em
tecnologias ambientais capazes de transformar seu processo produtivo são percebidos como
impactantes na estrutura de custo das empresas e é notório que os respondentes enfatizam a
noção de que o custo de sua operação irá sempre aumentar quando da adoção desse tipo de
tecnologia devido ao longo retorno desse investimento. Sendo assim, o conhecimento pleno
dos possíveis impactos de curto e longo prazo decorrentes do processo de adoção de
tecnologias ambientais pode contribuir para assegurar que os investimentos com essa
finalidade tenham retorno elevado e não apenas pontual da forma que foi constatado no
estudo.
Inferiu-se que essas novas tecnologias, se aplicadas de forma mais articulada junto ao
processo produtivo dessas empresas, podem ser duradouras e efetivas, gerando uma série de
benefícios, tanto para a organização, para os gestores individuais e para a sociedade. Dessa
forma, fortaleceria os relacionamentos e parcerias entre clientes e fornecedores, gerando uma
rede de satisfação e comprometimento que ultrapassa os níveis da organização e cria um
circulo virtuoso de mais lucros, projetos, desenvolvimento e bem-estar coletivo.
112
Porter & Linde (1995) defenderam o ponto de vista de que a proteção ambiental poderia
ser uma oportunidade capaz de adicionar vantagem competitiva às empresas. A percepção dos
respondentes é a de que o mercado brasileiro apresenta apenas uma tendência nesse sentido,
mas que ainda é prematuro afirmar que o critério ambiental efetivamente pode representar
ganhos desse tipo em patamares elevados a ponto de realmente afetar todo o resultado
financeiro das empresas. Por definição, as tecnologias ambientais de controle de poluição
atuam na redução da poluição gerada pelos processos produtivos. Nesse sentido, por mais
restrita e específica que seja a atuação da empresa a partir de um comportamento ambiental, o
benefício da redução de poluição deverá estar sempre presente.
Para concluir, como relatado nas entrevistas e exposto anteriormente, este estudo
verificou que, apesar da sustentabilidade ambiental não ter sido mencionada em qualquer
momento como algo que esteja à frente dos interesses econômicos para as empresas
estudadas, ela alcança resultados melhores com a adoção de tecnologias ambientais
proporcional ao seu grau de amadurecimento institucional em relação à sustentabilidade
ambiental. Consequentemente, apurou-se que o engajamento de outras áreas que não estão
diretamente ligadas à produção ou assuntos técnicos é fundamental para que haja uma escala
maior dos resultados dessas práticas ambientais. Portanto, a inserção da preocupação
ambiental deve fazer parte da agenda de todas as áreas e níveis das organizações, já que a
escassez de recursos naturais e matéria-prima é, sem dúvida, um dos maiores desafios que
enfrentarão.
5.2
Limitações, contribuições e sugestões para pesquisas futuras
113
Em se tratando de um estudo de casos, fica evidente que a pesquisa possui algumas
limitações. A primeira relaciona-se ao fato de que grande parte das informações foi obtida da
percepção que o entrevistado tem sobre o processo estudado. Portanto, não podem ser
categoricamente afastadas as possibilidades de interferência decorrentes de seu julgamento
acerca dos fatos, de sua capacidade de percepção da realidade e de seu domínio sobre os
aspectos envolvidos no tema tecnológico ambiental.
Limitações idênticas podem ser também relacionadas ao desenho da pesquisa
propriamente dita, associado ao papel do pesquisador e ao esquema da análise. Além do
cuidado do pesquisador em não permitir que sua subjetividade interfira na análise dos dados,
cabe-lhe especificamente o zelo na seleção do material levantado na pesquisa e na condução
da entrevista, buscando aspectos simbólicos e subjacentes às falas dos entrevistados. Na
presente pesquisa não se descarta o enviezamento da análise, devido principalmente à
quantidade de entrevistas por empresa, bem como ao tempo despendido pelos entrevistados
para os depoimentos.
Nesse sentido, a profundidade pretendida pode ter ficado comprometida, uma vez que os
relatos tenderam a ser mais pontuais do que narrativas sobre a história de como as empresas
passaram a adotar a tecnologia ambiental. Embora o pesquisador tentasse buscar tais
informações, os depoentes se esquivavam de mais detalhes, seja devido ao tempo que
possuíam para as entrevistas, seja por outro de desconhecimento do pesquisador. Assim sendo,
o estudo longitudinal poderia suprir essa lacuna, uma vez que permitiria introduzir a dimensão
temporal na análise.
Como outra limitação deste estudo, pode-se indicar o fato de que a pesquisa não mediu
os fatores competitivos das empresas mediante dados mais objetivos ligados a faturamento,
114
custos de produção, etc. Essa condição limita de certa maneira a acurácia dos resultados em
relação à associação com a competitividade. Entretanto, as empresas, ao responderem que as
ações de adoção desse tipo de tecnologia trazem benefícios competitivos para aquelas
aplicações específicas que vivenciaram, não proporcionam inovações, redução de custo e
consumo, que na maioria das vezes não foram expressivos a ponto de fornecer vantagem
competitiva sobre seus concorrentes. Em condições específicas isso poderá servir como guia
para organizações que pretendam desenvolver ou fortalecer competências no contexto
tecnológico ambiental para galgar melhores resultados no futuro. O aumento de importância
dada às questões ambientais, aliado ao acirramento do processo concorrencial e as pressões
externas, abre a possibilidade de as empresas reforçarem seu desempenho competitivo via
geração e difusão de tecnologias ambientais.
Espera-se que os resultados apresentados neste estudo sirvam de estímulo para novos
trabalhos que foquem a atual política tecnológica ambiental das organizações e a forma como
esta pode incentivar a adoção de tecnologias que reduzam o impacto ambiental e aumentem o
desempenho competitivo das empresas não de forma apenas tangencial, mas via efetiva
melhoria de processos, redução do consumo de bens naturais e redução expressiva dos custos
de produção.
Como qualquer resultado com limitações, é preciso ter cuidado e novos estudos são
necessários para reforçar ou refutar tais resultados. Recomenda-se que pesquisas similares
sejam realizadas com bases de dados mais objetivos, a fim de se obter análises comparativas
para dimensionar quantitativamente a relação custos versus benefícios da adoção de uma
tecnologia ambiental e aumentar as possibilidades dos resultados desta investigação.
115
Como indicações para pesquisas futuras, recomenda-se que dados primários sejam
coletados de forma mais objetiva, procurando levantar dados econômicos da relação custos
tecnológicos ambientais versus resultados competitivos. Esses estudos devem ser mais
aprofundados, para que gerem dados quantitativos sobre os investimentos necessários, as
vantagens competitivas alcançadas, os motivadores e entraves para a adoção de uma
tecnologia ambiental, ou seja, abrangendo não só percepções, mas dados financeiros.
Estas conclusões reforçam a importância da realização de estudos que incorporem as
características quantitativas. As características quantitativas das oportunidades tecnológicas,
condições de apropriabilidade e cumulatividade são essenciais para compreender o processo
tecnológico ambiental adotado pelas empresas e seu resultado competitivo. Apesar de se
mostrar empiricamente que, caso haja adoção tecnológica de aplicabilidade efetiva no
processo produtivo das empresas, existe correlação entre o aumento do desempenho
competitivo e a preservação ambiental, via tecnologias com efeitos ambientais significativos.
Os dados financeiros podem corroborar esta conclusão.
116
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ANEXO
Entrevistado:
Empresa:
Cargo:
Necessidade de confiabilidade:
Sim
Não
Principais pontos abordados:
Opiniões do Entrevistado:
Apresentar a entrevista e o assunto abordado - 5 min
PERGUNTAS
1. Como você descreve o setor em que sua empresa atua assim como a competição
dentro dele?
Continuação

Fatores de concorrência

Como você mede tais fatores (satisfação, qualidade, custo, etc)

O que é competitividade para sua empresa... ?
2. Qual ou quais a(s) tecnologia(s) ambientai(s) adotada(s) pela empresa?
Continuação
 A adoção dessa tecnologia você considera uma inovação para a empresa?
 Pedir para explicar?
Obs: caso tenha adotado mais de uma, pedir para escolher a mais importante e explicar
porque...
3.
Qual a razão que levou a empresa a adotar essa tecnologia ambiental?
Continuação
134


Quando adotou essa tecnologia?
Qual o tempo gasto para adoção?
4.
De quem partiu a ideia para adoção dessa tecnologia ambiental partiu de quem?
(quem ou o que incentivou e como)
Continuação
 Quais os principais motivadores dessa adoção?
5.
Quais são os benefícios percebidos pelos gestores ou pela empresa após a adoção
de uma tecnologia ambiental?
Continuação
 Quais seriam as vantagens e desvantagens da adoção de uma tecnologia ambiental?
 Entraves para adoção.
6.
Como você avalia os esforços empenhados pela empresa para adotar essa
tecnologia?
7.
Como
você
avalia
os
esforços
implementação/operacionalização dessa tecnologia?
empenhados
para
a
Explorar as fases da operacionalização, dificuldades e fatores facilitadores...
Continuação
 Qual o tempo gasto para implementação das tecnologias ambientais?
 Explorar tempo gasto e como divide as fases
8.
Como você avalia o resultado da adoção e implementação dessa tecnologia na
competitividade de sua empresa?
Continuação
 Impacto positivo ou negativo?
 Redução de custo? Diferenciação??
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estudo de casos múltiplos de empresas de grande porte