Produção de conhecimento e transformação: o papel da extensão universitária PRÁTICAS SOCIOEDUCATIVAS NA COOPERATIVA DE COSTURA DE AMERICANA/SP: CONTRIBUIÇÕES DA EXTENSÃO SOCIO PRACTICES IN SEWING COOPERATIVE OF AMERICAN / SP: CONTRIBUTIONS OF EXTENSION Cibele Roberta Sugahara Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC Campinas [email protected] Resumo O estudo relata a experiência de um projeto de extensão com foco em práticas sócioeducativas desenvolvidas nos anos de 2011 e 2012 na Cooperativa de Costura situada em Americana incubada pelo Polo Tecnológico Têxtil de Americana/SP. A ideia central deste trabalho é apresentar as contribuições da atividade de extensão por meio do diagnóstico sobre o perfil e expectativas dos cooperados apresentando as contribuições da primeira fase do Projeto de Extensão: Práticas Sócio-educativas na cooperativa de costura de Americana incubada pelo Polo Tecnológico Têxtil. Participaram do projeto alunos com bolsa de extensão que contribuíram com a elaboração e condução de material de apoio e realização das oficinas. Como resultado ressalta-se a capacidade da cooperativa em reunir interesses comuns voltados à costura, por meio da socialização de conhecimentos e práticas contando com a colaboração de pessoas que estão na cooperativa desde o início de suas 1 atividades. Os resultados demonstram que, esse espaço preconiza as relações de cooperação como usuários-empresários na autoprestação de serviços. Palavras-chave: Cooperativa. Trabalho. Costura. Cooperativa de Costura. Cooperativa de Abstract This article discusses the experience of an extension project with socioeducational practices developed in the years 2011 and 2012 in the Cooperative of sewing incubated of Polo Tecnológico Têxtil of Americana/SP. The central idea of this work are the introduce contributions of activity extension through the cooperative diagnosis on the profile and expectations of cooperative featuring the contributions of the first phase of the Extension Project: Socioeducational practices in the sewing cooperative incubated by the Polo Tecnológico Textil. Students participated in the project extension scholars who contributed to the preparation of supporting material and conducting workshops. The results show that prevails in the cooperative relations as users-entrepreneurs in self-handling services. Keywords: Cooperative. Sewing Cooperative. Cooperative Work. Sewing 1. INTRODUÇÃO As atividades oriundas do projeto de extensão envolvem uma Cooperativa de Costura incubada pelo Polo Tecnológico Têxtil situado em Americana/SP, organização civil sem fins lucrativos criada em 2002 e que tem por objetivo reunir e representar toda a cadeia produtiva do setor têxtil e de confecção de Americana e região. O projeto parte da necessidade de qualificação das pessoas na atividade de costura, como requisito demandado pelo mercado de trabalho de indústrias de confecção de pequeno e médio porte na região de Americana/SP. Trata-se de uma cooperativa de trabalho em confecção e produção têxtil de Americana que objetiva prestar serviço de confecção e comercialização de produtos têxteis envolvendo: corte, costura, acabamento, confecção, moda, decoração, uniformes e similares. Essa cooperativa objetiva também congregar profissionais autônomos ligados, direta ou indiretamente, à área têxtil em conformidade ao objeto da cooperativa, prestando-lhes serviços necessários ao desempenho de suas atividades profissionais na modalidade de autogestão. 2 A cooperativa enquanto rede social é um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades, competências e qualificação técnica para o exercício da profissão de costura. Complementarmente, a região de Americana por ser conhecida como concentradora de indústrias têxteis e de confecção apresenta carência de pessoas qualificadas para a atividade de costura. Isso denota a necessidade de ações orientadas a impulsionar a qualificação dessa atividade. A cooperativa pode ser considerada uma rede social por reunir interesses comuns e propiciar o compartilhamento de informação entre seus integrantes. Como ressaltam Tomaél, Alcará e Chiara (2005, p. 102) “o espaço em que as redes sociais se constituem e se proliferam são inerentes à informação e ao conhecimento uma vez que são eles que movimentam as redes”. Acredita-se que, a socialização de informação e experiência entre os integrantes da rede de cooperados pode minimizar as dificuldades de qualificação da atividade de costura que impactam as indústrias de confecção de Americana. Nesse sentido, práticas comuns podem resultar em sinergia e melhores condição de trabalho para os integrantes desse espaço. Pode-se dizer que o surgimento de rede de cooperação tem por princípio o exercício de trabalho em comum como meio de satisfazer necessidades sócioeconômicas individuais ou coletivas. Esse ambiente oportuniza o desenvolvimento de crenças e valores comuns entre as pessoas e, assim, ao participarem de ações de qualificação se beneficiam com melhores condições de vida e de trabalho. É neste contexto que se realiza as práticas socioeducativas do projeto de extensão na Costura de Americana/SP, tendo como eixo condutor a qualificação de pessoas em situação de vulnerabilidade social. Neste trabalho relata-se sobre o perfil, habilidades e expectativas dos cooperados e os resultados de oficinas com foco no diagnóstico do ambiente tendo como base teórica a experiência da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Unicamp. O presente artigo tem por objetivo apresentar as contribuições da primeira fase do Projeto de Extensão: Práticas Sócio-educativas na cooperativa de costura de Americana incubada pelo Polo Tecnológico Têxtil da Pontifícia Universidade Católica de Campinas/SP. 3 Bialoskorski Neto (2000) ressalta que a gestão de um empreendimento cooperativo deve estar voltada aos desejos dos consumidores de serviços e produtos no mercado. Nesse ambiente Amato e Rufino (2000, p.1) alertam sobre a importância dos valores de cooperação para a autogestão da cooperativa. Nesse sentido, as atividades na cooperativa devem ser baseadas, segundo os autores, em valores como “autoajuda, responsabilidade, democracia, igualdade, equidade e solidariedade”. As práticas socioeducativas devem ser constituídas tendo como parâmetro os valores dos cooperados. Desse ponto de vista é relevante destacar a abordagem tipológica sobre a dualidade de cooperados de Pinho (1977, p.15) que os classificam como: cooperado pessoa-física – nessa categoria estão os empresários individuais, que se reúnem para exercer, em comum, determinadas funções auxiliares da atividade econômica empresarial como, por exemplo, a aquisição de equipamentos; cooperado pessoa-jurídica – representado, na prática, pelas cooperativas singulares, como associadas de federações e centrais, e por estas enquanto membros de confederações. Em complemento Amato e Rufino (2000, p.3) apresentam três modelos de cooperativas que podem atender necessidades econômicas ou de seus sócios e famílias, classificando-as como: Cooperativa de Consumo – objetiva fornecer aos associados-usuários gêneros alimentícios ou de utilidade pessoal e doméstica em condições vantajosas comparadas às de outras empresas; Cooperativa de produção ou cooperativas operárias de produção ou de trabalhadores – foco na organização autônoma dos trabalhos com vistas à produção de determinados bens; Cooperativa de crédito – tendo como base as particularidades regionais fornecem subsídios para o financiamento de empreendimentos de seus associados como fazem, por exemplo, os Bancos Populares. A cooperativa deste estudo é considerada uma cooperativa de produção por confeccionar artigos do vestuário e acessórios com foco na organização autônoma dos trabalhos. Além disso, tem como princípio a economia solidária por casar, como afirma Rufino (2005, p. 213), “o princípio da unidade, da posse e uso dos meios de 4 produção e distribuição com o princípio da socialização desses meios, sendo a representante típica desse modelo a empresa cooperativa de produção”. A Economia Solidária busca o fortalecimento dos grupos (como, por exemplo, cooperados) semelhantes às propostas para as micro e pequenas empresas tendo como público-alvo o “indivíduo” e não a empresa jurídica. O foco são “indivíduos”, ou seja, cooperativas populares, empresas autogestionárias, empreendimentos populares, entre outros. (RUFINO, 2005). Singer (2000) ressalta que a economia solidária é um modo de produção e distribuição alternativo. O autor destaca, ainda, que na organização solidária o aprendizado se estende a todos os indivíduos da cooperativa. É nesse contexto, que as práticas socioeducativas como as oficinas do projeto de extensão são realizadas. Isso denota o estreitamento da atividade de extensão universitária com o mercado de trabalho, com vistas à qualificação da mão-de-obra de costureiras contribuindo para a superação de desafios das indústrias de confecções de Americana/SP. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A primeira fase do projeto de extensão junto à Cooperativa de Costura deste estudo contempla as práticas socioeducativas desenvolvidas junto às cooperadas observando o contexto e as competências humanas de forma a qualificar as atividades. Para o alcance da qualificação das atividades e apoio à gestão da cooperativa foram conduzidas oficinas socioeducativas de cunho interativo. Essas visavam estimular o desenvolvimento de habilidades para lidar com desafios típicos da autogestão como conflitos, divisão das tarefas, autonomia e construção de identidade do grupo. Do ponto de vista metodológico, as ações de extensão com os cooperados foram conduzidas de modo participativo em um processo de melhoria da qualificação das costureiras e estímulo à reflexão na práxis, criação de um ambiente de colaboração e respeito entre os cooperados. 5 Cabe ressaltar que as práticas envolveram dois alunos e dois professores da Faculdade de Administração da PUC Campinas com projetos de extensão e pesquisa cuja temática está relacionada com o cooperativismo. Além disso, a prática de extensão contou com financiamento da própria instituição de ensino. Adicionalmente, faz-se necessário mencionar que as atividades de extensão estão alinhadas com o projeto de pesquisa “Estratégias e ações de responsabilidade social alinhada estrategicamente pelas empresas do Setor Têxtil Paulista”, por entender que a pesquisa e a extensão não devem ser indissociáveis e sim complementares. Isso porque a prática extensionista traz subsídios à pesquisa e vice-versa. Nesse caso, específico, as atividades de extensão articuladas com a pesquisa trazem reflexões a partir da realidade da Cooperativa à medida que as estratégias de responsabilidade social, como as relacionadas à reciclagem de material da cooperativa podem ser trabalhadas tendo como foco a qualificação profissional e a melhoria na qualidade de vida e renda dos cooperados. É nesse contexto que se sentiu que as intervenções de extensão podem ser inseridas como importante forma de vincular o conhecimento gerado na pesquisa com as ações de extensão. As atividades do projeto iniciaram com a oficina diagnóstica objetivando levantar informações sobre o empreendimento e a equipe. A primeira etapa contemplou a busca de informações sobre a faixa etária, o nível de instrução e as habilidades com máquinas de costura e as expectativas sobre a atividade que desempenham. O levantamento de dados ocorreu a partir da definição de um roteiro e do diálogo com os cooperados. Nesse sentido o levantamento foi realizado junto a onze cooperadas no próprio espaço da cooperativa em Americana. Após o levantamento de dados foi desenvolvida a oficina de diagnóstico e identidade coletiva, que objetivou trabalhar a identidade individual e a coletiva do empreendimento bem como promover a socialização entre os trabalhadores. A oficina foi conduzida tendo como base o instrumento utilizado pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP/UNICAMP). Assim, partiuse para a divisão do grupo em duplas estimulando a troca de informações socioculturais e subjetivas entre duplas. Após esse diálogo foi solicitado que formassem um círculo interno formado por uma pessoa de cada dupla, e um externo 6 formado pelas outras pessoas de cada dupla. Em seguida as pessoas que estavam atrás apresentaram as que estavam na frente, relatando sobre as informações do diálogo em dupla. A seguir apresenta-se a descrição dos dados de forma a possibilitar a compreensão do perfil das empreendedoras e suas expectativas ao participar desse tipo de empreendimento. RESULTADOS E ANÁLISE No momento da realização das atividades de extensão identificou-se que o perfil dos cooperados da Cooperativa de Costura de Americana/SP são mulheres com idade entre 35 e 68 anos. Em relação à formação ressalta-se que a maior parte possui o ensino fundamental completo e já dispunha de conhecimentos básicos sobre a atividade de costura antes de participar da cooperativa. Considerando a cooperativa uma sociedade de autogestão Pinho (1977, p. 49) ressalta que a análise da faixa etária dos “usuários-empresários-dirigentes auxilia a compreensão de sua performance econômica”. Dessa forma, o diagnóstico da faixa etária dos cooperados poderá ser útil para o desenvolvimento de futuras ações com vistas à desincubação. A cooperativa de costura situada em Americana possui em torno de 40 máquinas dos seguintes tipos: costura reta, overloque, interloque, elastiqueira, casadeira, botoneira, viés, pregadora de botões e ilhós, de corte, pespontadeira e reta eletrônica. A diversidade de máquinas de costura oportuniza o aprendizado das várias fases da costura. Nesse sentido, como ressalta Pinho (1977, p.11) o cooperativismo determina até mesmo o como produzir visto que as cooperativas são consideradas “instrumentos de educação técnica e democrática”. Pode-se observar que a qualificação técnica representa, ao mesmo tempo, melhor condição de trabalho e de vida. Em relação às expectativas dos cooperados ao participar desse tipo de empreendimento destaca-se a busca de melhor renda familiar como principal 7 elemento de inserção nesse ambiente. Caber ressaltar que grande parte das pessoas que fazem parte da cooperativa estava desempregada e não possuía formação técnica especializada. Além disso, aproximadamente dois terços dos cooperados veem a cooperativa como espaço exclusivo e permanente para a construção de novos conhecimentos e troca de experiências. TABELA 1 Principal motivo que leva a ser um cooperado Respostas Nº de cooperados % Necessidade de profissionalização (aprender a costurar) 03 18 Estar desempregado 08 73 Fonte: Elaborado pelos autores – dados da cooperativa, 2012 O grupo de cooperadas em relação às sugestões de melhoria ressaltou que seria importante o recebimento de novos tipos de encomendas como desafio à aprendizagem e profissionalização de suas atividades (Tabela 2): TABELA 2 Sugestões de Melhoria para o trabalho na cooperativa Respostas Nº de cooperados Receber novos tipos de encomendas dos clientes 11 Melhores condições para a instalação e disposição do maquinário 01 Participar de cursos ou oficinas de costura 11 Fonte: Elaborado pelos autores – dados da cooperativa, 2012 8 Em relação aos aspectos socioculturais chama a atenção o fato do grupo de cooperados residirem próximo à cooperativa e ter conhecimentos básicos sobre a atividade de costura. Em relação aos aspectos subjetivos ressalta-se a confiança e disponibilidade para o aprendizado do grupo. O principal impacto social do trabalho da cooperativa é a capacidade de reunir interesses comuns voltados à costura, por meio da socialização de conhecimentos e práticas contanto com a colaboração de pessoas que estão na cooperativa desde o início de suas atividades. Isso demonstra que, esse espaço preconiza as relações de cooperação como usuários-empresários na autoprestação de serviços. Quanto aos resultados da oficina de diagnóstico um ponto fundamental foi a participação de alunos bolsistas em extensão na organização das atividades e oficinas que consistiu em primeiramente observar o trabalho realizado na cooperativa durante visitas realizadas em dois dias. A partir dessa observação os alunos colaboraram na preparação do instrumento de coleta de dados sobre o perfil dos cooperados e na preparação do material para condução da oficina de diagnóstico e identidade coletiva. Com o roteiro de diagnóstico em mãos os alunos dialogaram com os cooperados e ajudaram a registrar as informações. CONSIDERAÇÕES FINAIS As práticas socioeducativas no âmbito do projeto de extensão junto aos cooperados permitiram reinterpretar a situação de um empreendimento que tem como base a gestão democrática. Como organização de autogestão a cooperativa precisa definir claramente ações para aperfeiçoar a capacidade instalada disponível e atender aos seus anseios, como relatado anteriormente, que é receber novos tipos de encomendas. Nesse sentido, faz-se necessário um estudo para conhecer as limitações físicas e de qualificação. Como possível alternativa sugere-se a sistematização das informações de seus processos de negócios voltados ao ciclo de produção. Assim, as atividades podem ser organizadas a partir do quadro de cooperados existente e do tipo de produto e/ou serviço prestado. 9 Ressalta-se que as pessoas que participam da cooperativa de costura também a consideram um local para aperfeiçoamento profissional e oportunidade de renda. Durante as atividades de extensão foi ressaltado que a preocupação com a renda faz com que haja cooperação para o atendimento de novas encomendas e ampliação das atividades da cooperativa no oferecimento de novos produtos. O cenário da cooperativa de costura estudada é desafiador uma vez que por um lado a indústria de confecção de Americana carece de pessoas qualificadas em atividades de costura e, por outro, existe ociosidade da capacidade instalada. Acredita-se que um caminho possível seja o estreitamento das ações entre a universidade e a cooperativa de costureiros de Americana, por meio de ações socioeducativas visando contribuir com a inclusão social e no mercado de trabalho. REFERÊNCIAS AMATO NETO, João; RUFINO, Sandra. Cooperativas de trabalho: uma solução para a qualificação da mão-de-obra na construção civil. In: Congresso de Tecnologia, 2000. São Paulo. Anais...São Paulo: FATEC, CD BIALOSKORSKI NETO, Sigismundo. Política institucional de monitoramento da autogestão das cooperativas do Estado de São Paulo: uma proposta preliminar de metodologia, pesquisa e implantação. Resultados da primeira fase. FAPESP, 2000. CADERNO EMPÍRICA. Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Estadual de Campinas. Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários. UNICAMP. Campinas/SP: Instituto de Economia, 2009. PINHO, Diva Benevides. Economia e cooperativismo. São Paulo: Saraiva, 1977. RUFINO, Sandra. A dinâmica das redes de cooperação na economia solidária. In: Redes entre organizações: domínio do conhecimento e da eficácia operacional. São Paulo: Atlas, 2005. 10 SINGER, Paul. Economia solidária: um modo de produção e distribuição. In.: SINGER, Paul; SOUZA, André Ricardo (Org.). A economia solidária no Brasil: a autogestão como resposta ao desemprego. São Paulo: Contexto, 2000. TOMAÉL, Maria Inês; ALCARÁ, Adriana Rosecler; CHIARA, Ivone Guerreiro Di. Das redes sociais à inovação. Revista Ciência da Informação, Brasília, v.34, n.2, maio/ago. 2005. 11