INTERAÇÃO PESQUISA-EXTENSÃO: UMA ANÁLISE DA COMUNICAÇÃO ENTRE OS ATORES SOCIAIS NO PROCESSO DE DIFUSÃO E TRANSFERÊNCIA DE INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS PARA O AGRONEGÓCIO CAFÉ MARCELO MÁRCIO ROMANIELLO1 JUSSARA MARIA DA SILVA 2 GABRIEL FERREIRA BARTHOLO3 RESUMO: Na região cafeeira do Sul de Minas foi implantado um programa consistindo de ações de difusão, capacitação técnica e produção de material técnico informativo, que tem como finalidade sistematizar esforços para fazer chegar aos técnicos, extensionistas e produtores, os resultados de pesquisas e recomendações técnicas para o desenvolvimento da região em produtividade e qualidade do café produzido. Contudo, faz-se necessário que as instituições de pesquisa e de extensão agropecuária compreendam que no processo de transferência e difusão de tecnologia a comunicação é um dos elemento-chave para o bom desempenho das ações programadas. Vários estudos em comunicação rural demonstram que esta intercomunicação tem sido bastante frágil, Assim, este estudo tem como objetivo identificar como se efetiva a comunicação estabelecida entre pesquisadores e extensionistas quando do processo de transferência e difusão de tecnologia institucionalizado na região cafeeira Sul de Minas Gerais. Palavras-chave: Comunicação, pesquisa agropecuária, extensão rural 1 INTRODUÇÃO O café sempre teve participação histórica marcante e decisiva na economia do Brasil, já tendo chegado a deter 80% das exportações mundiais no início do século XX. Porém, o produto brasileiro foi perdendo espaço para outros países e, atualmente, mesmo ocupando o primeiro lugar, participa com apenas 24,7% das vendas no mercado internacional. Na safra 2001/02, exportou 23 milhões de sacas, enquanto outros países colocaram no mercado externo 70 milhões de sacas, indicando o recuo da participação nacional. Entretanto, o café ainda é um destaque no Brasil, pois é o 2o produto na pauta das exportações agrícolas brasileiras, sendo também uma excelente fonte de receita tributária para cerca de 1700 municípios produtores (Coffee Business, 2002). Em Minas Gerais, a cafeicultura representa cerca de 50% da produção nacional, sendo o principal produto da pauta de exportações do agronegócio do Estado, e tem sua relevância social explicitada na geração de empregos e como fator de fixação de mão-de-obra e população no meio rural, pois, estima-se que a cafeicultura responde por aproximadamente 3 milhões de empregos diretos, indiretos e temporários. O parque cafeeiro mineiro abrange mais de 90 mil propriedades em aproximadamente 60% dos municípios do Estado, ou seja, 510 municípios (Floriani, 2001). Atualmente, a cafeicultura mineira tem sua produção distribuída 1 Mestre em Administração pelo Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras-UFLA, Campus da UFLA, Cx. Postal 176, Lavras-MG, email: [email protected]. 2 Doutoranda pelo Departamento de Administração e Economia da Universidade Federal de Lavras-UFLA, Campus da UFLA, Cx. Postral 70, Lavras-MG, e-mail: [email protected]. 3 Pesquisadores Doutores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais – EPAMIG/Centro Regional do Sul de Minas/CTS Cx. Postal 176, Lavras-MG, e-mail: [email protected] e [email protected] em quatro importantes regiões: Sul de Minas (Sul e Sudoeste), Matas de Minas (Zona da Mata e Rio Doce), Cerrados de Minas (Triângulo e Alto Paranaíba) e Chapadas de Minas (Alto/Médio Jequitinhonha e Mucuri). A região do sul de Minas Gerais é a maior produtora de café do Estado e do Brasil, correspondendo a 51,5% da produção mineira e 26,8% da produção nacional. Seu parque cafeeiro abrange 37.000 propriedades em uma área cultivada de 629 mil hectares, com uma produção média de 12,7 milhões de sacas de café beneficiado. No aspecto social, a cafeicultura sul-mineira representa uma expressiva capacidade de absorção de mão-de-obra, pois gera 672 mil empregos diretos e indiretos e constitui-se em importante fonte de renda para os produtores rurais (Companhia..., 2002). Nessa região encontra-se também a maior concentração de cooperativas de cafeicultores do Brasil, bem como a melhor estrutura no que concerne a assistência técnica, beneficiamento, armazenamento e comercialização do produto. Dada a importância do setor para a economia do Estado, o agronegócio café é alvo de estudos sistemáticos e periódicos, tendo em vista os fatores que influenciam seu desempenho (Silva, 1998). Visando a manutenção de destaque que o café sul mineiro assume no cenário nacional, o estado de Minas Gerais, através de suas instituições públicas de desenvolvimento agropecuário e do Núcleo de Transferência e Difusão de Tecnologia do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D-Café), criou um programa para assegurar a capacidade de identificação de problemas, geração e difusão de tecnologias e informações necessárias ao pleno desenvolvimento da cafeicultura regional. Com este objetivo, foi implantado a partir do ano de 2001, um programa que consiste de ações de difusão, capacitação técnica e produção de material técnico informativo que tem como finalidade sistematizar esforços para fazer chegar aos seus clientes (técnicos, extensionistas e produtores), os resultados de pesquisas e as recomendações técnicas para o desenvolvimento da região em produtividade e qualidade. Neste contexto, onde as inovações tecnológicas têm o papel de fundamental importância para o desenvolvimento da cafeicultura e do aumento da qualidade de vida dos produtores da região, é necessário que as instituições de pesquisa e extensão agropecuária compreendam, que no processo de transferência e difusão de tecnologia a comunicação é um dos elemento-chave para o bom desempenho das ações programadas. Portanto, a intercomunicação entre as duas instituições objetiva a transferência de tecnologias geradas na pesquisa para a extensão, a sistematização desses conhecimentos pela extensão e a sua transferência para o contexto social do cafeicultor. Essa comunicação possibilitará ainda a colaboração da extensão no levantamento de alternativas metodológicas para a geração de tecnologias adequadas à realidade concreta do cafeicultor. Vários estudos em comunicação rural, revelam que um dos fatores que mais contribuem para a falha na não adequação de novas tecnologias é o processo de informação e comunicação que estas utilizam. Este processo, segundo apontam alguns pesquisadores, tem sido de uma só via, isto é, as decisões sobre o tipo de tecnologia a ser gerada são elaboradas de cima para baixo, com pouca participação dos cafeicultores ou mesmo dos agentes de extensão, que são intermediários do processo de transferência e difusão de tecnologia. Neste sentido, como afirmam Moreira e Muniz (2002), no processo de geração e difusão de tecnologia torna-se grande protagonista a necessidade de uma relação efetiva entre pesquisa e extensão. O acima exposto implica na necessidade de um processo de comunicação de duas vias, entre pesquisadores e extensionistas, para resolver de forma conjunta os problemas referentes à cafeicultura regional, visto que, se as novas tecnologias devem refletir as necessidades dos receptores (cafeicultores). Então um enfoque mais apropriado será aquele que os próprios clientes, expressem as necessidades percebidas aos cientistas para que estes desenvolvam técnicas mais adequadas à realidade do cafeicultor. O canal tradicional pelo qual os cafeicultores da região procuram expressar seus problemas é o agente de extensão, uma vez que é ele a pessoa que mais está em contato com os cafeicultores, conhece suas atividades, necessidades e problemas. Conseqüentemente, todo programa que pretende melhorar a qualidade de vida dos cafeicultores, incrementar sua produtividade e a qualidade do produto, deve considerar a presença do técnico da extensão que está em contato íntimo com os cafeicultores. Assim, a comunicação entre a pesquisa e extensão, é uma condição “sine qua non” para que a pesquisa gere tecnologias úteis à realidade dos produtores. Alternativas devem ser buscadas visando um perfeito entrosamento entre estes dois segmentos, para que os resultados verificados beneficiem a sociedade como um todo (Silveira, 1995). Estudos Realizados Por Guadagnin (1995); Silveira (1995); Cardoso (1994); Tagliari (1988); Friedrich (1988); Araújo e Braga (1986) e Thiollent (1984), demonstram que esta intercomunicação tem sido bastante frágil, portanto, é necessário identificar os fatores responsáveis por essa fragilidade notada. 2 OBJETIVOS DO ESTUDO 2.1 Geral Este estudo tem como objetivo descrever as relações de comunicação entre pesquisadores e extensionistas no processo de transferência e difusão de inovações tecnológicas institucionalizado na região cafeeira Sul de Minas Gerais. 2.2 Específicos - Analisar como os extensionistas tomam conhecimento das inovações tecno-científicas desenvolvidas pela pesquisa cafeeira na região; - Analisar como os pesquisadores divulgam as tecnologias para a cafeicultura na região; - Analisar a freqüência/contato entre pesquisadores e extensionistas no processo de difusão e transferência de tecnologia na região cafeeira do Sul de Minas Gerais. 3. REFERENCIAL TEÓRICO O referencial teórico deste estudo está fundamentado em conceitos-chaves, os quais serão elucidados por orientarem as perspectivas analíticas contidas na seção de resultados e discussões. Portanto, serão abordados temas sobre a comunicação, modelos de comunicação e modelo de difusão de tecnologia adotado no Brasil e os limites e problemáticas em torno da comunicação, os quais constituirão seções deste capítulo. 3.1 Modelos de Comunicação Tendo como base o modelo de difusão ou modelo difusionista a adoção de inovações era resultado da transferência de tecnologia e a comunicação é sua grande aliada, pois os extensionistas e os agricultores ao avaliarem as vantagens das inovações, consultarem uma pessoa de confiança e tomar decisões de adotar, são processos comunicativos. Para Friedrich (1988), a forma mais sintética de representar a comunicação é através da caracterização de seus três componentes essenciais: fonte ou emissor, mensagem e destinatário ou receptor (Figura 1). Fonte ou Destinatário Mensagem Emissor ou Receptor Fig. 1 – Componente do modelo clássico de comunicação, simples Para que a mensagem possa fluir da fonte ao destinatário, necessita ser codificada e transmitida através de um canal. Este modelo foi severamente criticado por Guadagnin (1995), pois caracterizava-o como unilateral, da fonte ao destinatário, e é sujeito aos riscos de autoritarismo, verticalismo, paternalismo e assistencialismo. Segundo Bordenave (1995), a orientação para a transmissão de informações foi relaborado por Claude Shannon (matemático) e Warrem Weaver (Engenheiro Eletricista) em seu livro “A teoria matemática da comunicação”, que fez história, pois, foi a primeira apresentação de um modelo mais elaborado e descritivo do processo de transmissão de informações. De acordo com o modelo de Shannow e Weaver, uma fonte de informação seleciona, de um conjunto de mensagens possíveis, uma determinada mensagem. O transmissor converte tal mensagem em sinais e estes enviados ao receptor através de canal de comunicação. O receptor, por sua vez, converte os sinais novamente em mensagem e encaminha esta última ao seu destinatário. Durante o processo de transmissão dos sinais, este pode sofrer distorções e erros não desejados pela fonte que são denominados ruídos (Figura 2). Fonte Transmissor Sinal Recepto Destinatário Mensagem Mensagem Fig. 2- Componentes do modelo clássico de comunicação, parcial. No modelo clássico de comunicação, cada componente tem sua função: cabe à fonte conceber, elaborar e codificar ou tratar a mensagem e cabe ao destinatário recebê-la; para ser entendida, deverá ser previamente decodificada ou decifrada. Segundo Guadagnin (1995), com o passar do tempo, constatou-se que os destinatários não adotaram de forma automática as mensagens emitidas e transmitidas pela fonte. A compreensão de que os destinatários têm cultura, levou a um melhor ajuste das mensagens, por meio do conhecimento prévio dos mesmos. Belo (1985), baseado, fundamentalmente, na relação estímulo-resposta, preocupou-se em esclarecer melhor o que se passaria além dessa relação simples. Incluiu um novo ingrediente, que denominou realimentação ou também chamada retroalimentação, conforme (Figura 3). Fonte Codifica a Mensagem Mensagem Decodificar a Mensagem Destinatário Fig. 3 – Componentes do modelo clássico de comunicação, completo O acréscimo do ingrediente retroalimentação tornou maior a possibilidade da fonte conduzir o destinatário ao comportamento desejado; longe de promover uma verdadeira integração humana entre a fonte e o destinatário, visa apenas ao melhor ajuste das mensagens, tornando-as mais adequadas aos objetivos da fonte. Segundo Friedrich (1988), no modelo clássico a comunicação é concebida mais como ato de que como processo: a emissão de comunicados e a retroalimentação não logram estabelecer diálogo; dão-se em momentos e intensidades diferentes, e, em geral, alheios e, por vezes, até contrários à realidade concreta. 3.2 Modelos de Difusão de Tecnologia Adotados no Brasil No Brasil, as atividades de difusão de tecnologia para o setor agropecuário têm, pelo menos dois momentos bastante distintos segundo Souza (1987). O primeiro envolve às décadas de 50 e 60, onde a difusão priorizava o uso do meio de comunicação de massa para atingir maior número de agricultores e obter, como conseqüência, o aumento da produção de alimentos. O modelo de difusão de tecnologia adotado era considerado como um processo que se inicia com a inovação já elaborada pela pesquisa e termina com a adoção ou rejeição da idéia pelo agricultor ou pecuarista. Por difusão de tecnologia era entendido o desenvolvimento de uma dinâmica que partia da geração de tecnologia, tendo como etapas intermediárias a transferência do conhecimento gerado na pesquisa para a extensão, a sistematização desses conhecimentos pela extensão, a sua transferência para o contexto social do produtor, a adoção ou rejeição desses conhecimentos pelo produtor rural (Figura 4). Pesquisa Extensão Produtor Fig. 4 – Modelo de Difusão de Tecnologia no Brasil a partir da Década de 50 e 60. No início da década de 70, marca um novo período no modelo da difusão de tecnologia no Brasil, pois além dos mecanismos adotados pelo modelo anterior, foi introduzido um mecanismo de retroalimentação (modelo Berlo), consistindo no retorno de informações que têm a função de corrigir as estratégias de comunicação e de orientar o conteúdo da pesquisa (Figura 5). 2 4 1 3 Geração Difusão Pesquisador Extensionista 5 Adoção/Rejeição Produtor Fig 5. Mod 6 Fig. 5. Modelo de Difusão de Tecnologia utilizado no Brasil a partir da década de 70 O modelo da Figura 5 retira o papel de ponte desempenhado anteriormente pela extensão, ao servir como elo de ligação entre a pesquisa e o produtor. O universo processual onde os três elementos (pesquisador, extensionista e produtor) se localizam é o mesmo. As linhas pontilhadas, correspondendo aos pontos 2 e 4, apenas delimitam áreas de maior influência e desempenho da pesquisa, da extensão e do produtor rural (as áreas 1, 3 e 5, respectivamente), não excluindo, por exemplo, os papéis importantes que o produtor e o extensionista desempenham na fase de geração de tecnologia. É visível, no ponto 6, as interações entre as diferentes partes. A figura não impossibilita a reunião simultânea dos três personagens em diferentes momentos. 3.3 Programas e métodos de difusão no meio rural Segundo Fröhlich (1992), tendo por base o modelo de difusão ou modelo difusionista, predominantemente a partir dos anos 50 até a década de 70, a orientação teórica e de pesquisa em comunicação agrícola enfatizou a transferência tecnológica de países desenvolvidos para países em desenvolvimento. Assim, a ideologia do mundo ocidental que privilegiava a modernização começou a adotar inovações: produtos e técnicas novas geradas pela ciência e pesquisa tecnológica. Como parte dessa orientação, os comunicadores voltaram para difundir inovações em todos os campos da atividade humana, inclusive para a agricultura (Bordenave, 1995). Essa concepção de desenvolvimento denominada difusionismo foi amplamente divulgada e teve aceitação por uma parcela da sociedade com formação técnica, e que foram incorporados pelos órgãos de desenvolvimento agropecuário que passaram a criar programas de difusão de tecnologia nos moldes dessa concepção. Os programas de difusão de tecnologia no meio rural são entendidos como canais formais ou informais da área de conhecimento da comunicação. Sendo a difusão um processo eminentemente social, no qual vários indivíduos comunicam informações e inovações a um sistema social configurado. A essência do programa de difusão é a informação tecnológica a qual uma pessoa comunica a inovação a outra (Rio Neto, s.d.) Segundo Souza (1987), a difusão priorizava o uso dos meio de comunicação de massa para atingir maior número de agricultores e obter, como conseqüência, o aumento da produção de alimentos. O modelo de difusão de tecnologia adotado era considerado como um processo que se inicia com a inovação já elaborada pela pesquisa e termina com a adoção ou rejeição da idéia pelo agricultor ou pecuarista. Por difusão de tecnologia, era entendido o desenvolvimento de uma dinâmica que partia da geração de tecnologia, tendo como etapas intermediárias a transferência do conhecimento gerado na pesquisa para a extensão, a sistematização desses conhecimentos pela extensão, a sua transferência para o contexto social do produtor, a adoção ou rejeição desses conhecimentos pelo produtor rural. Esse modelo difusionista foi assimilado pelas instituições de pesquisa, que passaram a desenvolver programas de difusão de tecnologia que podem ocorrer de diversas formas mediante diferentes métodos e meios de comunicação, sendo esses processo de responsabilidade do pesquisador. A difusão é considerada um pré-requisito essencial junto aos extensionistas e aos produtores, razão pelo qual os resultados de pesquisa devem ser mostrados de forma prática em Unidades de Observação. Também são utilizados como instrumento de difusão tecnológica pelas empresas de pesquisa a capacitação dos extensionistas e produtores por meio de “dias de campo”, cursos de treinamento, acompanhamento em unidades demonstrativas e preparo de materiais informativos. Ao mesmo tempo, caberá ao pesquisador promover a difusão dos resultados de pesquisa, no seio da comunidade cientifica e técnica, utilizando-se de relatórios técnicos, boletins, artigos científicos, notas técnicas, revistas e demais meios de comunicação, bem como sua apresentação em seminários e congressos. (EPAMIG, 1984) A difusão tecnológica é entendida pela extensão rural como um processo de comunicação de informações, inovações e tecnologias para um sistema social, em que o seu conhecimento constitui valioso subsídio para o estabelecimento de estratégias de ação como elemento vendedor de novas idéias para o setor primário (Dias, 1985). Bachara, citado por Fonseca (1985) observa que a ação da extensão rural é “a ação de levar aos produtores rurais tudo aquilo que os institutos experimentais concluíram; isso quer dizer; estender os conhecimentos nos campos experimentais aos produtores”. Assim, a extensão rural tem na comunicação o meio pelo qual torna viável a difusão de conhecimentos. A comunicação dos extensionistas para os agricultores pode ocorrer pelos seguintes meios, conforme Oliveira e Oliveira (2001): impressos como periódicos, jornais, boletins, folhetos, etc; audiovisuais, como a televisão, rádio, datashow, slides, transparências, etc; meios estáticos, como cartazes, diagramas, gráficos de parede, mapas, quadros de giz, flanelógrafos, etc. e por outros métodos novos que envolvem o uso de tecnologias de última geração, em que se destacam o computador, a internet e a telefonia celular. Portanto, a difusão tecnológica é um processo de comunicação de informações dos técnicos das instituições de pesquisa e da extensão rural para os produtores rurais em seu sistema social. Sendo os programas de difusão, métodos e técnicas de comunicação individuais e de grupo, em que a mensagem principal é a nova idéia. Assim, os programas de difusão são os canais pelo qual a inovação chega dos técnicos até os produtores rurais. Segundo Oliveira (s.d.), os canais de comunicação de massa envolvem rápida disseminação de uma mensagem padronizada a uma audiência (massa) relativamente pouca diferenciada com poucas oportunidades para “resposta” (feedback) imediata. Os resultados de inúmeras pesquisas realizadas no Brasil indicam a generalização de que os canais de comunicação de massa são mais importantes para produzir conhecimento das inovações, ao passo que canais interpessoais são mais importantes para convencer os indivíduos a adotar inovações tecnológicas. 4 METODOLOGIA A metodologia do estudo consistiu-se de uma estratégia para conhecer as formas pelas quais os pesquisadores divulgam as inovações tecnológicas, bem como as formas que os extensionistas tomam conhecimento destas inovações e a freqüência de contato entre estes dois atores sociais no processo de transferência e difusão de tecnologia na região cafeeira do Sul de Minas. Utilizou-se para isso, o método de pesquisa quantitativo, onde o pesquisador procura testar a validade do estudo, confrontando as evidências empíricas. A vantagem da abordagem quantitativa, segundo Patton (citado por Alencar & Gomes, 1998) é que ela permite, através de um conjunto limitado de questões, as reações de um grupo de pessoas, facilitando a comparação e o tratamento estatístico dos dados. O estudo foi conduzido por ocasião do Encontro Ensino, Pesquisa e Extensão coordenado pela Universidade Federal de Lavras no mês de julho de 2002 na cidade de Lavras-MG. Os atores sociais escolhidos foram os professores da Universidade Federal de Lavras-UFLA, pesquisadores da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas GeraisEPAMIG e os técnicos em extensão rural da iniciativa pública (EMATER-MG) e privada (COOPERATIVAS). A amostra foi constituída por um conjunto de indivíduos representado por 81,25% (26) do universo de 32 participantes do encontro. Para a coleta dos dados utilizou-se questionários estruturados tipo survey. Como recurso de análise e interpretação dos dados coletados valeu-se de técnicas de análise disponibilizadas pelo software Statiscal Package for Social Science for Windows (SPSS 10.0), amplamente usado em pesquisas sociais. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO As informações demográficas da amostra pesquisada identificam que: dos 26 técnicos amostrados, 22 são formados em engenharia agronômica, representando 84,6% do total, os demais, 15,4% eram técnicos em agropecuária. Os dados referentes às instituições de origem dos entrevistados demonstraram que 76,9% pertenciam a instituições de extensão rural pública e privada, sendo 19 técnicos da EMATER-MG e 01 técnico de COOPERATIVA; 15,4% eram pertencentes a instituição de pesquisa (EPAMIG); 3,8% da instituição de ensino (UFLA) e 3,8% pertencia a classe de profissional liberal que trabalha diretamente com assistência técnica rural. 5.1 Divulgação das inovações tecno-científicas desenvolvidas para a região cafeeira do Sul de Minas Sobre a forma como são divulgadas as inovações tecno-científicas para o segmento cafeeiro da região Sul de Minas, identifica-se que os artigos científicos e os eventos técnicoscientíficos apresentam-se, para os pesquisadores, como os principais meios de comunicação e são utilizados por 100% dos entrevistados. Em seguida, foram mencionados por 80% dos pequisadores, a utilização de dias de campo e publicações em boletins e revistas técnicas especializadas como meios de comunicação entre pesquisador, extensionista e produtor. Estes e os demais meios de comunicação utilizados podem ser observados na tabela 1. Tabela 01 – Divulgação de inovações tecno-científicas pelos pesquisadores Divulgação das inovações tecnológicas Através de palestras aos produtores Artigos científicos Boletins e ou revistas especializadas Eventos técnicos científicos (congressos, etc) TV, rádio, jornal, etc Diretamente aos extensionistas (palestras, cursos, etc.) Artigos em jornais Diretamente com os cafeicultores Dias de campo, etc Freqüência 3 5 4 5 3 3 2 2 4 Porcentagem 60 100 80 100 60 60 40 40 80 Em ordem de classificação, os pesquisadores apontam que divulgam, com maior incidência, as tecnologias geradas, dando prioridade aos seguintes meios de comunicação: 1ºArtigos científicos 2º Eventos técnicos científicos (congressos, etc) 3º Boletins e ou revistas especializadas 4ºTV, rádio, jornal, etc. 5º Dias de campo, etc. 6º Artigos em jornais 7º Diretamente aos extensionistas (palestras, cursos, etc.) 8º Através de palestras aos produtores 9º Diretamente com os cafeicultores 5.2 Formas pelas quais os extensionistas tomam conhecimento das inovações tecnocientíficas desenvolvidas para a região cafeeira do Sul de Minas Pela tabela 02, podemos observar as formas pelas quais os extensionistas tomam conhecimento das inovações tecnológicas desenvolvidas pelos pesquisadores para a região cafeeira do Sul de Minas. Verifica-se a predominância da busca de informações nos eventos técnicos-científicos (congressos, simpósios, etc), boletins e ou revistas especializadas. Tabela 02 – Formas pelas quais os extensionistas tomam conhecimento das inovações tecnológicas. Conhecimento das Inovações Freqüência Porcentagem Revistas científicas 12 60 Boletins e ou revistas especializadas 17 85 Diretamente com professores e pesquisadores (palestras, cursos) 12 60 Teses e artigos científicos 10 50 Eventos técnicos científicos (congressos, simpósios, etc) 18 90 TV, rádio, jornal, etc 13 65 Os dados ainda apontam que os extensionistas tomam conhecimento das inovações tecnológicas geradas pela pesquisa regional com maior incidência, dando prioridade aos seguintes meios de comunicação: 1º Eventos técnicos científicos (congressos, simpósios, etc) 2º Boletins e ou revistas especializadas 3º TV, rádio, jornal, etc 4º Revistas científicas 5º Diretamente com professores e pesquisadores (palestras, cursos, etc) 6º Teses e artigos científicos Destaca-se ainda a resposta de um dos extensionistas quando afirmou tomar conhecimento das inovações tecnológicas através do Circuito Sul Mineiro de Cafeicultura realizado nas principais regiões cafeeiras do Sul de Minas. Evento, este coordenado pelas instituições EMATER-MG, EPAMIG, UFLA e IMA. 5.3 Freqüência/Contato entre os pesquisadores e extensionistas para tomarem conhecimento das inovações tecno-científicas desenvolvidas para a região cafeeira do Sul de Minas. Ao se analisar a freqüência dos contatos entre pesquisadores e extensionistas para a divulgação das inovações tecno-científicas, desenvolvidas para a região cafeeira do Sul de Minas, verifica-se a existência de uma grande lacuna nesta inter-relação. 26,9% dos entrevistados apresentam a não aplicação desse tipo de comunicação entre os agentes que participam das ações de desenvolvimento da cafeicultura regional, como pode ser observado na tabela 3 abaixo. Tabela 03 – Freqüência/contato entre pesquisadores e extensionistas (freqüência e porcentagem) Freqüência Freqüência Porcentagem Porcentagem acumulada Não se aplica 7 26,9 26,9 Não procura 2 7,7 34,6 Diário 2 7,7 42,3 Semanal 3 11,5 53,8 Quinzenal 2 7,7 61,5 Mensal 0 0 61,5 Bimestral 2 7,7 69,2 Trimestral 4 15,4 84,6 Semestral 1 3,8 88,4 Anual 2 7,7 96,1 Conveniência 1 3,8 100,0 Total 26 100,0 A questão do relacionamento e contato pesquisa/extensão, nos leva a reflexões e avaliações. No estabelecimento de diretrizes para a articulação pesquisa-extensão, é de fundamental importância a aceitação da premissa segundo qual essas atividades são dependentes e se complementam, em todos os níveis de decisão. De igual forma, não se pode perder de vista a comunicação dialógica na geração e transferência de tecnologia. Este processo se inicia a nível de produtor, com o levantamento e definições de pesquisas; passa pela experimentação que conduz a resultados parciais; prossegue com o teste da tecnologia gerada e conclui-se com a incorporação da tecnologia aos sistemas de produção em uso pelos produtores (EMBRAPA, 1982). As bases de uma articulação efetiva devem assentar-se na definição de princípios de co-participação de pesquisadores e extensionistas em todos os momentos do processo de geração e transferência de tecnologia. Não se pode imaginar um trabalho de articulação desenvolvido em fases estanques e de forma aleatória. Há que se buscar uma ação sistematizada e eficaz, consubstancialmente em programas de trabalho em diversos níveis, que possam contribuir concretamente para a abertura de maiores espaços de interação entre pesquisadores e extensionistas. 6 CONCLUSÕES O presente trabalho, restrito ao contingente por ele abrangido, resultou de uma preocupação no estabelecimento da comunicação dialógica entre a pesquisa e a extensão agropecuária, visando a curto e a longo prazos dimensões pelo movimento de interação pesquisa e extensão para a solução de problemas referentes a cafeicultura na região Sul de Minas. Os dados da pesquisa demonstram que nesta região, torna-se necessário exercitar meios e canais de comunicação interpessoais entre os pesquisadores e extensionistas, permitindo o estabelecimento de uma comunicação dialógica mais próxima, além de possibilitar o envolvimento, a troca de informações e a participação dos extensionistas. Portanto, faz-se necessário a concentração de ações como encontros periódicos, palestras técnicas, cursos de capacitação, eventos técnicos científicos regionais e a produção de boletins e ou revistas especializadas, que permitiriam melhores resultados para o processo de transferência e difusão de tecnologia para a região. Como pano de fundo, ressalta-se a importância do relacionamento e contato entre a pesquisa e a extensão, objetivando não apenas facilitar a entrega de tecnologias para os produtores, mas no auxílio da identificação de problemas relevantes, socialmente apropriados que sejam favoráveis à criação de melhores condições de vida para as populações envolvidas, e em última análise, redefinindo o processo de desenvolvimento regional. Torna-se portanto imprescindível a articulação comunicativa entre os agentes da pesquisa e da extensão para que haja a compreensão da lógica e da racionalidade da produção cafeeira na região Sul de Minas, uma vez que ambos agentes funcionam como componentes importantes do desenvolvimento, assumindo ao longo de um processo histórico, tarefas que objetivam o bem estar social e a melhoria da qualidade de vida do setor rural, por meio do conhecimento, da produção e da transferência de tecnologias. A título de provocação, deixaremos a tarefa de refletir e aprofundar a discussão desta articulação na esperança de que a lucidez do debate nos conduza à intervenções mais conseqüentes com vistas à promoção da cafeicultura regional. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, E.; GOMES, M. A. Metodologia de pesquisa social e diagnóstico participativo. Lavras: UFLA/FAEPE, 1998. 212 p. Curso de pós-graduação “Lato Sensu “Especialização a Distância: Gestão de Programa de Reforma Agrária e Assentamento. 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