Conselho Editorial Av Carlos Salles Block, 658 Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Sala 21 Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100 11 4521-6315 | 2449-0740 [email protected] Profa. Dra. Andrea Domingues Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna Prof. Dr. Carlos Bauer Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha Prof. Dr. Fábio Régio Bento Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins Prof. Dr. Romualdo Dias Profa. Dra. Thelma Lessa Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt ©2015 Fábio de Castro; Célia Futemma Direitos desta edição adquiridos pela Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da editora e/ou autor. D2917 de Castro, Fábio; Futemma, Célia Governança Ambiental no Brasil: Entre o Socioambientalismo e a Economia Verde/Fábio de Castro; Célia Futemma (Orgs.). Jundiaí, Paco Editorial: 2015. 296 p. Inclui bibliografia. ISBN: 978-85-8148-879-0 1. Governança ambiental 2. Desenvolvimento sustentável 3. Políticas ambientais 4. Recursos naturais. I. de Castro, Fábio ll. Futemma, Célia. CDD: 577 Índices para catálogo sistemático: Meio ambiente Recursos naturais 577 337.7 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi Feito Depósito Legal AGRADECIMENTOS Os organizadores gostariam de agradecer a várias pessoas e instituições que possibilitaram a realização deste projeto coletivo. Agradecemos aos 16 pareceristas, que revisaram as versões preliminares dos capítulos. Agradecemos, também, o apoio institucional do Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (Nepam), da Unicamp (Brasil); do Centro de Estudos e Documentação Latino-Americanos (Cedla, Holanda) e, em especial, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pelo apoio financeiro aos vários projetos de pesquisa, os quais possibilitaram a divulgação de parte dos resultados ao longo dos capítulos, e, principalmente, pelo apoio financeiro para a publicação deste livro. E, finalmente, os organizadores gostariam de expressar gratidão pela colaboração de Leopoldo Cavaleri Gerhardinger e Ramon Felipe Bicudo da Silva, que foi imprescindível para a realização desta coletânea. As opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de responsabilidade dos autores e não necessariamente refletem a visão da Fapesp. Sumário INTRODUÇÃO...................................................................7 Fábio de Castro; Célia Futemma SEÇÃO I – GOVERNANÇA CLIMÁTICA E O ESTADO CAPÍTULO 1 O Brasil na Rio+20: qual foi o papel do país na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável?.............................................27 Joana Carlos Bezerra CAPÍTULO 2 Mudança Climática na Rio+20: uma reflexão sobre os 20 anos de negociações climáticas no Brasil.......................53 Fabiana Barbi; Gustavo Barbosa Mozzer; Rafael D’Almeida Martins; Leila da Costa Ferreira SEÇÃO II – CIÊNCIA E MÍDIA CAPÍTULO 3 A proposição de um novo contrato entre ciência e sociedade: uma análise do Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável....................87 Gabriela Marques Di Giulio; José Eduardo Viglio; Ramon Felipe Bicudo da Silva; Francisco Araos CAPÍTULO 4 Mídia e Comunicação do Ambiente na Rio+20.............109 Rúbia Pereira Gaissler ; Thales Novaes de Andrade; Juliane Acquaro SEÇÃO III – SOCIEDADE CIVIL E PARTICIPAÇÃO CAPÍTULO 5 Governança dos Oceanos na Rio+20: o Debate sobre Áreas Marinhas Protegidas na Perspectiva da Gestão Compartilhada.......................................................137 Rodrigo Rodrigues de Freitas; Leopoldo Cavaleri Gerhardinger; Paula Chammy Pereira da Costa; Cristiana Simão Seixas CAPÍTULO 6 Populações tradicionais, a questão da terra e a conservação da biodiversidade: estratégias e conflitos nos tempos da Rio+20..................................................................................169 Jorge Calvimontes; Lúcia da Costa Ferreira SEÇÃO IV – CONSERVAÇÃO E ENERGIA CAPÍTULO 7 Políticas Ambientais para Unidades de Conservação no Estado de São Paulo............................................................207 Ana Cláudia Rocha Braga; Célia Futemma; Fábio de Castro CAPÍTULO 8 Brasil e a questão energética no debate sobre mudanças ambientais globais...............................................................237 Marilia D’Ottaviano Giesbrecht; Gabriela Marques Di Giulio; Leila da Costa Ferreira SEÇÃO V – REFLEXÕES FINAIS CAPÍTULO 9 Da Rio 92 a Rio+20: breve balanço crítico sobre os dois encontros......................................................................263 Maria Teresa Manfredo; Lúcia da Costa Ferreira Autores – Dados biográficos....................285 INTRODUÇÃO Fábio de Castro Célia Futemma 1. Introdução Nas duas últimas décadas a questão ambiental ganhou uma posição proeminente na arena política brasileira (Camargo; Capobianco; Oliveira, 2004; Ferreira, 2003; Little, 2003; Trigueiro, 2003). Muitos dos desafios ambientais enfrentados no país estão diretamente relacionados com as questões sociais, políticas e econômicas, que remetem ao dilema de como formular um modelo de desenvolvimento sustentável que inclua os preceitos de conservação ambiental e cultural, justiça social e melhoria da qualidade de vida em diferentes segmentos da sociedade. Além das demandas nacionais, o país enfrenta pressões externas antagônicas, em que a conservação de recursos naturais e a expansão da produção de commodities geram contradições entre as políticas econômicas e ambientais. Por um lado, o país abriga 65% da Amazônia, um bioma de dimensão continental que proporciona serviços ambientais de importância global, cujas transformações da paisagem implicam em consequências negativas em escala mundial. Por outro lado, o aumento do consumo mundial de produtos primários influencia diretamente na comodificação da economia nacional, com impacto direto no meio ambiente e nas populações locais. Enquanto o país busca soluções para alterar sua posição de um dos maiores emissores mundiais de carbono, principalmente a partir do desmatamento (La Rovere et al., 2013), o atual modelo de desenvolvimento econômico é promovido através da expansão do agronegócio e da extração mineral. 7 FÁBIO DE CASTRO; CÉLIA FUTEMMA (ORGS.) O dilema ambiental, portanto, levanta o questionamento de como formular um modelo de desenvolvimento econômico baseado no uso sustentável, equitativo e justo dos recursos naturais. Esta questão é o cerne da perspectiva de governança ambiental, que trata de entender como os diversos segmentos da sociedade interagem para negociar os seus interesses múltiplos (e geralmente conflitantes) na tomada de decisão sobre o acesso, o uso e o manejo de recursos naturais (Castro et al., 2011). Mais do que uma perspectiva centrada no “governo” e nas instituições formais (Cavalcanti, 2004; Camara, 2013), neste volume tratamos a governança ambiental como uma arena social geralmente assimétrica, em que as interações (de cooperação, de conflito, de negociação e de resistência, por exemplo) são mediadas por mecanismos formais e informais e múltiplas visões e motivações (proteção ambiental, crescimento econômico, autonomia, sobrevivência) pelos diferentes atores envolvidos no processo. Esse processo gera uma dinâmica social de contínua reconfiguração de estratégias entre e dentro de cada grupo, através de um jogo de poder para fortalecer cada qual sua posição política a partir de recursos econômicos, políticos e culturais disponíveis. Por exemplo, populações tradicionais fazem uso de sua identidade cultural para assegurarem o acesso exclusivo aos seus territórios; agricultores familiares se organizam acerca da função social da terra e de segurança alimentar. As grandes empresas argumentam com números a importância dos recursos naturais para atingir o tão esperado desenvolvimento econômico. A posição do Estado, por sua vez, é ambígua em negociar os diferentes interesses da sociedade, priorizar os objetivos e encontrar soluções consensuais. Neste contexto, a perspectiva de governança ambiental foca no processo interativo entre os atores relevantes na formulação e negociação dos modelos de desenvolvimento, de conservação e de soluções para os problemas socioambientais (Castro et al., 2011). Tal perspectiva assume um sistema democrático, com condições 8 GOVERNANÇA AMBIENTAL NO BRASIL de exercício da cidadania. No entanto, o contexto nacional faz parte de uma sociedade globalizada que gera configurações socioambientais multiescalares com implicações diversas. As novas estruturas multiescalares trazem indagações a respeito de suas implicações para a governança ambiental no Brasil. Contrastar o contexto socioambiental com as agendas e os resultados em diferentes marcos temporais é, portanto, um exercício fundamental para identificar fatores que influenciam na reconfiguração socioambiental no país nestas últimas duas décadas. Este livro trata de entender as transformações recentes na governança ambiental no Brasil entre 1992-2012. Este período é marcado por dois eventos internacionais que representam uma arena de deliberação sobre assuntos socioambientais de mais alto nível – Rio 92 e Rio+20 –, no qual o Brasil teve um papel chave e singular de organizador e anfitrião. Neste capítulo introdutório, discutimos brevemente a evolução recente da governança ambiental no Brasil, seguido de uma descrição sumária da estrutura do livro, incluindo as seções e os respectivos capítulos. 2. Governança Ambiental no Brasil A governança ambiental no Brasil tem sofrido grandes transformações nos últimos 20 anos. O processo de democratização iniciado na década de 80 levou a uma mudança gradativa do arranjo institucional centralizado do governo militar para uma série de procedimentos de tomada de decisão descentralizada e participativa. Em particular, a Constituição de 1988, que inclui um capítulo sobre Meio Ambiente, foi um salto de qualidade na institucionalização da problemática socioambiental. Porém, a implementação e o cumprimento de regras formais têm sido os grandes gargalos deste processo. Neste sentido, a década de 90 foi marcada por um intenso período de mobilização social em que o exercício da cidadania foi fundamental para 9 FÁBIO DE CASTRO; CÉLIA FUTEMMA (ORGS.) o aumento da participação local em pressionar o poder público para implementar regras e combater possíveis violação das mesmas (Alonso et al., 2007). A crescente organização da sociedade civil, através da criação de inúmeras organizações não governamentais, levou a uma maior visibilidade de casos de injustiça ambiental e busca de inclusão social nas tomadas de decisão (Acselrad, 2008). A Rio 92 traduziu-se, praticamente, no ápice dessa transformação da sociedade brasileira e se tornou um marco importante na consolidação desse processo. As organizações da sociedade civil se mobilizaram e se prepararam para o evento através da profissionalização, da criação de canais de comunicação e das conexões com redes transnacionais de ativismo (Hochtetler; Keck, 2007). Os ativistas aproveitaram a alta relevância da agenda ambiental na governança global na década de 90 e a agenda de desenvolvimento sustentável para fomentar o socioambientalismo, no qual os preceitos de direitos humanos, de autonomia e da diminuição de desigualdade e pobreza estavam intimamente ligados à conservação do meio ambiente (Born, 2004). O início do novo milênio foi marcado pela entrada do Partido dos Trabalhadores (PT) no governo federal. Durante os primeiros anos, o PT trouxe o movimento social para próximo (e dentro) do Estado, criando novas oportunidades de influência na institucionalização das demandas sociais e ambientais (Hochtetler; Keck, 2007). Foi neste período que houve um aumento na demarcação de terras indígenas, no reconhecimento e na titulação de territórios quilombolas e a expansão da categoria de populações tradicionais em todo o Brasil. Ou seja, a incorporação de uma diversidade de populações rurais que vivem em diferentes biomas brasileiros. Além disso, várias medidas legais foram implementadas para diminuir o desmatamento da Amazônia. Nesse novo arranjo institucional, o Estado retomou um papel central na governança ambiental. Ironicamente, essa mudança 10 GOVERNANÇA AMBIENTAL NO BRASIL acabou diminuindo o poder político dos ativistas, uma vez que a aliança com o governo despolitizou o movimento socioambiental. Durante o segundo mandato, com o fortalecimento da frente ruralista no parlamento, o governo federal direcionou sua agenda econômica para a expansão do agronegócio e do biocombustível com impactos diretos nas populações rurais. Decisões federais, tais como a regularização de organismos geneticamente modificados (Mueller, 2009) e o licenciamento de projetos de usinas hidrelétricas de forma inconstitucional (Hall; Brandford, 2012), concretizaram-se, apesar da forte resistência do próprio Ministério do Meio Ambiente. Como resultado, o movimento socioambiental gradativamente se distanciou do Estado devido à falta de apoio às demandas das populações rurais, culminando na resignação da então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em 2008. Nos últimos anos, essa situação tem se agravado com a polarização entre propostas pragmáticas, a partir do modelo econômico hegemônico, e propostas alternativas, a partir de um novo modelo de desenvolvimento. Assim sendo, de um lado está o modelo que propõe a compatibilidade entre o aumento de produção de produtos primários com a conservação ambiental. Denominado como Economia Verde (Pnuma, 2011), este modelo se baseia em um fortalecimento institucional e mecanismos de incentivos de mercado (por ex., esquemas de compensação ambiental, certificação, taxações). Este modelo foi introduzido pela Rio+20 e é apoiado pelo governo nacional (mais informações: <http://www.mma.gov.br/ governanca-ambiental/economia-verde>), pelas elites econômicas e pelos (alguns) ambientalistas pragmáticos. Do outro lado estão as posições críticas que salientam as consequências socioambientais negativas advindas do modelo atual, tais como o aumento da violência contra a vida humana, violação de direitos humanos, falta de apoio institucional e até mesmo ações inconstitucionais por parte do governo (Fearnside, 2006; 11 FÁBIO DE CASTRO; CÉLIA FUTEMMA (ORGS.) Zhouri; Laschefski, 2010). Este grupo, composto pelas populações locais, movimentos sociais e acadêmicos ativistas, defende uma mudança estrutural no modelo de desenvolvimento, que seja baseada em preceitos de direitos humanos, de autonomia, de participação efetiva, de pluralidade legal e de economia solidária (Singer, 2004). O Brasil representa um caso particularmente interessante neste debate. Na última década o país tem se posicionado como uma economia emergente democrática e detentora de uma grande parcela dos recursos naturais e serviços ambientais, com uma política socioambiental sólida e inovadora. A diminuição da taxa de desmatamento, o aumento de energia renovável, a formalização dos territórios tradicionais e as metas ambiciosas de redução de emissão de carbono são alguns dos feitos frequentemente usados pelo governo nacional para ilustrar o avanço do país no contexto global. Entretanto, este quadro se contradiz com as tendências recentes e a posição do país durante a Rio+20, evento que deveria representar o mais recente marco do processo de governança ambiental global. O governo federal tem assumido um papel de facilitador no relaxamento da legislação ambiental para dar suporte à expansão da exploração dos recursos naturais por grandes corporações empresariais. O processo de reforma do Código Florestal, as inconstitucionalidades acerca da aprovação da construção da Usina de Belo Monte e a falta de liderança do governo brasileiro na redação do documento “consensual” da Rio+20 são alguns dos exemplos recentes do baixo nível de comprometimento do país com a agenda socioambiental. Ao mesmo tempo, o governo federal não tem cumprido o seu papel de fomentador das garantias dos direitos das populações locais. Ironicamente, o Ministério Público tem assumido esse papel, aliando-se aos movimentos sociais e tornando-se, atualmente, um dos maiores inimigos do Estado. Embora haja consenso entre acadêmicos, sociedade civil e ativistas sobre a falta de avanço (ou mesmo um retrocesso) na 12 GOVERNANÇA AMBIENTAL NO BRASIL questão ambiental, a Rio+20 representa um marco analítico para avaliar como as mudanças do contexto social, econômico e político nas últimas duas décadas têm influenciado a governança ambiental no país. Dentre as mudanças observadas neste período, três merecem destaque. Primeiro, a crise econômica e de segurança global tem diminuído a prioridade das questões socioambientais na governança global. Segundo, o surgimento de uma nova configuração sociopolítica e econômica multipolar, influenciada por demandas de novos padrões de consumo por economias emergentes, como a China e Índia. Terceiro, o fortalecimento do setor privado na governança ambiental a partir de propostas pragmáticas e o enfraquecimento do movimento socioambiental em função da fragmentação dos focos ambientalista e de justiça social. Essas novas tendências não têm apenas criado obstáculos para o avanço da proposta de desenvolvimento sustentável baseada em conceitos de justiça, igualdade e participação desenhada durante a Rio 92. Elas têm, também, proporcionado novos ingredientes para a reformulação de um programa para alcançar a tão almejada sustentabilidade a partir de mecanismos de incentivos de mercado, nos quais o setor privado assume a posição central de provedor de empregos, de infraestrutura e, em alguns casos, até benefícios sociais a partir de seus programas de Responsabilidade Social Empresarial. Neste livro, oferecemos uma pequena amostra de como a análise desse contraste pode render importantes insights e indicar algumas facetas da governança ambiental no país a partir da análise comparativa entre os contextos social, político e econômico na Rio 92 e na Rio+20. 3. Estrutura do livro Este livro é o resultado de um projeto participativo, incluindo professores, alunos e pesquisadores associados do Nepam13 FÁBIO DE CASTRO; CÉLIA FUTEMMA (ORGS.) -Unicamp. O Nepam tem se consolidado como um dos centros de estudos socioambientais de excelência no Brasil ao longo destas duas décadas. Em particular, alguns dos professores foram protagonistas neste processo, atuando diretamente nos debates durante as duas conferências das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. A partir de uma perspectiva de governança ambiental, o livro é dividido em quatro eixos principais. Os dois primeiros eixos enfocam atores relevantes como o Estado, a comunidade acadêmica, a mídia e a sociedade civil. Embora o setor corporativo não esteja contemplado em um capítulo específico, ele é parte da análise de vários capítulos. O terceiro eixo de leitura do livro é relacionado às políticas públicas indiretas, tais como descentralização (nível estadual) e política energética. Esta obra é concluída com uma reflexão interna de alguns acadêmicos ligados ao Nepam, que tiveram participação direta nos dois eventos. Abaixo, segue uma breve descrição de cada capítulo e sua conexão com o eixo central de governança ambiental no Brasil. A primeira seção do livro abre a discussão sobre governança ambiental a partir do contexto e das ações do governo brasileiro frente à negociação climática nos níveis nacional e mundial. No Capítulo 1, Joana Bezerra descreve as diferenças no contexto político global e nacional nos períodos da Rio 92 e Rio+20. O primeiro evento aconteceu em um contexto de globalização, do fim da Guerra Fria, de democratização nacional e da relevância das questões climáticas na agenda global. Este contexto mundial e nacional criou um espaço para o envolvimento de vários chefes de estado e da formulação de acordos concretos para um modelo de desenvolvimento sustentável. Em contraste, o segundo evento aconteceu dentro de uma conjuntura multipolar global altamente influenciada por economias emergentes, e um período de crise econômica mundial, porém, com um quadro doméstico de crescimento econômico e emergência da classe média. A autora argumenta que essas diferenças determinaram o tipo de liderança 14 GOVERNANÇA AMBIENTAL NO BRASIL assumido pelo país. Enquanto o governo brasileiro tentou sanar a imagem negativa do país durante a Rio 92 com uma posição pró-ativa a partir de ações concretas, na Rio+20 o governo tentou se alinhar com o modelo pragmático neo-desenvolvimentista e manteve uma posição conservadora de busca de um documento de consenso a partir da retirada de temas controversos. Essa mudança de posição do Estado entre as duas conferências é mais detalhada no Capítulo 2, em que Fabiana Barbi, Gustavo Barbosa Mozzer, Rafael D’Almeida Martins e Leila da Costa Ferreira analisam a evolução das negociações climáticas no Brasil. Os autores dividem esse processo em três períodos. O primeiro período trata da construção de estruturas político-institucionais e científicas voltadas para as questões climáticas e como foram estabelecidas (1994-2001); o segundo período de implementação do Protocolo de Quioto (2002-2008); e por fim, o período de estabelecimento da Política Nacional de Mudanças Climáticas incluindo planos de mitigação e adaptação (desde 2009). Os autores enfatizam a relevância da participação da sociedade civil neste processo, sobretudo na mobilização e discussão sobre o tema por parte das ONGs e na construção de conhecimento por parte da comunidade científica. No entanto, concluem que, apesar dos avanços nas negociações no nível nacional, a maior barreira a ser vencida é o contraditório projeto de desenvolvimento econômico que aponta para o aumento de produção e uso de combustível fóssil. A segunda seção do livro se dedica a dois componentes importantes na construção e comunicação do conhecimento quanto à questão climática: a sociedade acadêmica e a mídia. No Capítulo 3, Gabriela Marques Di Giulio, José Eduardo Viglio, Ramon Bicudo da Silva e Francisco Araos discutem o papel da ciência no debate sobre mudanças climáticas através da análise dos documentos produzidos durante o “Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável”, organizado pelo 15