1.1 OS EQUÍVOCOS NACIONAIS
Tudo o que foi analisado nos induz a concluir que a
crise brasileira, da mesma forma que as crises que
afetam a ordem mundial, deve ser entendida em duas
dimensões:
− a primeira, de caráter civilizatório, referente
ao momento crítico a que chegou o mundo e
sua história, por ter esgotado os fundamentos
de sua organização, sem ter posto, ainda, os
fundamentos necessários ao advento de uma
nova sociedade, ou uma nova civilização – a
civilização do Terceiro Milênio.
− a segunda, especificamente brasileira, de
caráter conjuntural, referente a equívocos
específicos, erros de perspectivas e de
propostas de solução, que se vêm consolidando
nos rumos do país, de sua gestão, na cultura da
sociedade
e
no
seu
processo
de
desenvolvimento. As conseqüências, desses
equívocos, somadas ao momento crítico da
história, põem em risco a viabilidade do
processo, brasileiro de desenvolvimento,
porquanto põe o país como caudatário de um
modelo global, iníquo e em desestruturação.
Este condicionamento a um modelo em
desestruturação fará o país pagar um preço de
dimensão no mínimo proporcional à sua
demora para encontrar-se consigo mesmo e
superar seus condicionamentos, de acordo com
o princípio da equivalência entre o preço a ser
pago, e o tamanho dos desvios ou a demora
em corrigi-los.
Para evitar que esse preço seja muito alto, é
necessário adotar, agora, medidas que tornem o
país menos dependente dos condicionamentos
globais, e da crise global, para o que se exige, além
da vontade efetiva de mudar, o diagnóstico correto da
situação e a coragem da auto-análise, incluídos nessa
análise os próprios defeitos.
Nesta
perspectiva, é preciso identificar alguns
obstáculos que se põem no caminho da inovação,
além da dificuldade inerente às elites de entender,
assumir e promover a mudança. Esses obstáculos
estão presentes na estrutura do Estado e na própria
cultura nacional, e identificá-los é pressuposto de sua
superação.
•
A submissão aos modelos externos
Na medida em que não for posta sob algum controle,
ou não se ingressar nela com a necessária
consciência, a globalização constitui um fator
irreversível que subordina e unifica idéias, elimina
culturas e impõe unanimidades, geradas a partir do
pensamento, ou dos interesses dos que têm o poder
de manipular o processo. A aceitação desse
condicionamento, se transforma em grave ameaça,
porque induz a aceitação de uma verdade única,
imposta a realidades diferentes. Ora, a verdade ditada
por tal perspectiva acaba sendo uma verdade
distorcida, e a sociedade não pode estruturar-se a
partir de tal distorção.
Se não se contrapuserem a esse condicionamento
global outras alternativas, a partir da multiplicação de
centros de pensamento e da formulação de propostas
preocupadas com a realidade essencial e formuladas
a partir dessa realidade, a globalização eliminará o
espírito crítico, o pluralismos de idéias, e qualquer
identidade local ou nacional. Este processo
desumaniza as pessoas, sua consciência e suas
circunstâncias.
O processo de submissão aos interesses ditados pela
globalização e às perspectivas de seus beneficiários
se torna tanto mais grave por afetar lideranças sociais
e políticas, amortecer os intelectuais e tomar conta do
pensamento acadêmico, onde passa a prevalecer o
debate em torno, e a partir, do contexto globalizado e
dos que o manipulam em prejuízo da criatividade e da
formulação de propostas embasadas nas múltiplas
identidades. Desta forma, se impõe o último modismo
de pensar ou o último interesse, gerado no exterior
que, sem preparo crítico, os meios de comunicação
marketizam
rapidamente.
Rapidamente,
se
produzem, dessa forma, as unanimidades
nacionais, a favor ou contra, abafando ou
deixando sem voz a cultura, o pensamento e as
propostas alternativas. Também dessa forma, a
globalização gera o pensamento único, as propostas
idênticas, as únicas perspectivas, o mesmo debate,
quando o que precisa ser globalizado é o
pluralismo, a criação de espaços e perspectivas
diferentes e as propostas alternativas, de acordo
com as infinitas identidades diversificadas e com
a própria pluralidade dos seres humanos e de
suas culturas.
Constitui um equívoco aguardar que os mecanismos
da globalização abram espaço para o pluralismo e o
alternativo. Eles não o farão. É necessário que se
exercite a criatividade do mundo e sua capacidade
autônoma de pensar, e para isso tem um papel
essencial a universidade, como comunidade de alunos
e professores em busca contínua da verdade e da
inovação, segundo o conceito que dela expressava o
Cardeal Newman, no século passado.
Provavelmente, nunca a história há de assistir a
outra luta de gigantes como esta: a reação da
individualidade do ser humano e de sua
capacidade de pensar e formular, bem como a
defesa de suas identidades culturais contra a
mediocridade das unanimidades gerada pelo
poder da globalização.
A falta de consciência dessa luta tem impedido que o
Brasil, através de sua elite, a universidade brasileira,
de seus intelectuais, e os sistemas de marketing
através de seus comunicadores, formulem um
pensamento próprio e fundamentem propostas
nacionais de organização e gerência de uma
sociedade, que, integrada ao processo global, tenha a
marca da identidade nacional, e se construa a partir
dessa
identidade.
As
propostas
populares
apresentam-se, por sua vez, desorganizadas, pouco
instrumentadas e freqüentemente passam a agir ou a
ser consideradas como simples contestação.
Este conjunto de equívocos tornou o Brasil caudatário
do processo global, moldado por interesses e, em
conseqüência, feito de parâmetros contábeis
financeiros, condicionados ao câmbio, ao déficit, ao
juro; enquanto a produção da riqueza, o
aproveitamento das potencialidades próprias, a
geração de renda e a participação do homem
passaram a ser um insumo ou apenas em resultado
marginal do jogo, comandado pelos interesses
globais.
A submissão da economia nacional a esses
parâmetros ditados pela globalização, constitui
conseqüência desse equívoco, tanto mais grave,
porque, pela prioridade que lhe é conferida, ela – a
economia – condiciona as ações
nacionais, o
processo de desenvolvimento e os rumos da crise em
que se debate o país. Outro exemplo na inserção da
globalização sem a necessária crítica do processo,
refere-se à desagregação da cultura nacional,
substituída, cada vez mais fortemente e, sobretudo
pelos meios de comunicação, por gostos e marcas
exóticos, às vezes simples lixo cultural, exportado
pelos interesses comerciais do mundo desenvolvido, e
consumido sem crítica das pessoas, da sociedade, ou
das estruturas culturais que o consomem.
Tal
postura
despreza
ou
desconhece
as
características e potencialidades nacionais, capazes
de viabilizar um projeto próprio, embora articulado,
com base nas dimensões planetárias do país, projeto
com o qual poderia ingressar na globalização
como agente e não apenas como objeto ou vítima
do processo, submisso às regras que lhe são
ditadas, com as quais, à priori, concorda. É preciso
repetir que a globalização, para ser um processo
humano, não deve unificar sistemas, culturas, valores
e procedimentos. Ao contrário, a globalização, como
processo humano, deve respeitar e promover a
pluralidade, a complementação e a convivência do
múltiplo,
do
alternativo
e
do
diferenciado
harmonicamente. Isto é possível, e esta será,
também, parte da Revolução do terceiro milênio: a
sociedade humanizada, se houver opção por construí-
la, e disposição para assumir e vencer o desafio,
antes que ela se imponha como conseqüência da
ruptura.
A submissão aos modelos globalizados, no entanto,
não se restringe aos conceitos, às ideologias ou à
submissão cultural.
Faz parte do mesmo processo de submissão ao
monolitismo dos modelos, a invasão e a aceitação
passiva dos capitais especulativos, sem qualquer
compromisso com investimentos produtivos ou de
caráter distributivo, comprometidos com a sociedade
brasileira; também a invasão de produtos de toda
espécie, diminuindo os mercados para o produto
nacional, tudo somando-se à invasão do lixo cultural,
em detrimento aos valores e à capacidade criativa
brasileira, que não é pequena.
Como corolário dessas atitudes de submissão, o país
prima em honrar seus compromissos internacionais,
freqüentemente em condições éticas e juridicamente
discutíveis, sem que haja preocupação equivalente
em saldar os compromissos com a sociedade
nacional, compromissos não só financeiros, mas na
dimensão que caracterizaria as demandas de uma
sociedade efetivamente humana, onde o homem
tivesse lugar e fosse considerado.
Relegadas, dessa forma, ou ignoradas as
potencialidades nacionais, o processo de exclusão
cresce
perigosamente,
ameaçando
empurrar
rapidamente a realidade brasileira, da condição iníqua
das desigualdades para a condição desumana,
referência, mais uma vez, à denúncia do Relatório da
ONU Sobre o Desenvolvimento Humano. Como a
submissão não é apenas econômica, mas ética e
cultural, a exclusão também se transforma num
condicionamento ético e cultural, e dessa forma se
entende melhor a perda de valores – outro aspecto da
desumanização que ameaça a sociedade brasileira,
levando à desagregação da mesma sociedade.
•
O poder oculto por trás do poder
Porque o país chegou a essa situação, pode-se
explicar, ao menos em parte, considerando-se quem,
efetivamente, formulou as estratégias do processo de
desenvolvimento brasileiro, por trás dos vários
regimes ou das sucessivas etapas por que passou
esse processo, desde a República, manipulando as
informações, formulando estruturas de poder e
propostas de governo, estabelecendo metas e
prioridades, definindo investimentos ou gastos
públicos, enfim, exercendo o poder por trás do poder.
Uma breve síntese desse processo:
Na Velha República, que se estendeu desde sua
proclamação até a Revolução de 1930, chefiada por
Getúlio Vargas, os “ coronéis” , não os de farda, mas os
do poder sobre as terras, exerceram essa função,
especialmente por meio da produção e cultivo do café,
do leite ou da cana-de-açúcar, com a transferência de
seus resultados para o meio urbano e o
desenvolvimento desse meio.
Com o advento da era Vargas e sua Aliança Liberal,
inspirada num nacionalismo nativo, com um Estado
forte, ao modelo da época (Fascismo e Nazismo,
Franquismo e Salazarismo, na Europa), o poder de
bastidores passou a ser manipulado pelos bacharéis,
juristas prontos a gerar fórmulas e soluções, à luz do
direito, usado em favor do poder e de seus objetivos,
inspirados pelo nacionalismo de um Estado Novo (não
de uma nova sociedade), e pelo populismo. O Brasil,
nesse período, foi moldado por uma cornucópia de
leis, códigos, decretos-lei, consolidações legislativas,
freqüentemente auto proclamadas como das mais
avançadas do mundo. Do mundo da época, talvez, há
cinqüenta anos e pouco mais. Grande parte desses
institutos, ou derivados deles, ainda regem o País, e
continuam sendo considerados dos mais avançados
do mundo, embora o mundo já os tenha ultrapassado
e se situe anos-luz a sua frente.
Derrubado o Estado Novo de Vargas, no contexto da
vitória das ditas democracias, no mundo, nem sempre
a nova República desenvolvimentista, que alcançou
seu apogeu com o presidente Kubistcheck (19561960) conseguiu se libertar do bacharelismo.
A libertação do país do bacharelismo tradicional veio
com a Revolução de 1964, quando os militares
apearam os civis do poder, e trocaram os bacharéis
(de direito) pelos economistas, novos bacharéis com
menos preocupações jurídicas e sociais e mais
preocupados com a eficácia dos modelos econômicos,
na busca de construir, ao gosto dos objetivos da
mesma Revolução, o Brasil grande potência – a 8ª
economia do mundo, o PIB alcançando o crescimento
de dois dígitos por ano.
O império dos economistas e o domínio dos números
e da análise macro-econômica foi, dessa forma,
tomando o lugar do bacharelismo jurídico, mesmo
porque a ordem jurídica passou a ser relativa. A
queda dos militares, 20 anos depois, não tirou do
poder a perspectiva econométrica da sociedade e das
políticas governamentais que, ao contrário, se
consolidaram e fortaleceram. Estava bem vendida à
sociedade e às instâncias do poder, a idéia de que o
país era uma economia e uma moeda a ser
governada e atrás do governo da economia, o país
encontraria seus caminhos, e de alguma forma,
construiria seu futuro.
É preciso ter em mente que, sob o regime militar a
disciplina, a capacidade de gestão dos altos comandos
e sua visão estratégica, transmitia certa disciplina ao
poder oculto dos formuladores da economia e do Brasil
grande potência, exigindo-lhes competência. Isto não
continuou ocorrendo com o retorno dos civis ao
poder, de capacidades diversificadas e de
disciplina relativa, ao gosto da cultura brasileira.
Daí para a adoção dos modelos externos, impostos
ou não, sem maior análise crítica e adequação à
realidade e aos interesses nacionais, foi um passo
só.
Com a redemocratização, ocorrida no início da década
de 80, e a econometria ditando a estratégia de
desenvolvimento, as crises herdadas dos desajustes
do período militar e robustecidas com a crise mundial
globalizaram, tomaram conta do país, gerando suas
conseqüências sobre a sociedade – excluída dessas
estratégias. Mesmo quando a chegada de um
sociólogo à Presidência da República* permitiu
esperar que o governo da Sociedade passasse a
prevalecer sobre o governo da Economia, e a visão
sociológica
prevalecesse
sobre
a
visão
econométrica, tal não ocorreu. Ao contrário, o
modelo
econométrico,
com
seu
alinhamento
automático às regras da economia global, tornou-se
absoluto, a partir do pressuposto de que não haveria
alternativa. Não havia, porque o Brasil foi entendido
apenas como uma economia, sem que o poder fosse
capaz de entendê-lo como uma sociedade, o que exige
* Presidente Fernando Henrique Cardoso, 1995.
uma visão maior que a dos números, da contabilidade,
ou do fechamento dos balanços.
•
O Governo da Economia, ou o Governo da
Sociedade
Centrar o governo e a consciência nacional, na
administração da economia, em vez de centrá-la no
governo da sociedade e na promoção de suas
potencialidades, constituiu a primeira conseqüência
desse equívoco de perspectiva, que se fortaleceu
através da visão imposta pela conjuntura mundial. Na
ânsia de participar da globalização, o país entrou
no circuito global, sem antes identificar seu
próprio poder, ou precaver-se, com seu próprio
projeto e uma adequada estratégia diante das
regras ditadas pelo circuito global.
Desta forma, o condicionamento do país aos interesses, ou às
regras globais, transformou o instrumento econômico, a moeda,
no novo deus, em cujo altar se sacrificou a identidade nacional,
seu projeto de sociedade, e a continuar o processo, a participação
e a solidariedade, ou seja, esqueceu-se do homem brasileiro e suas
aspirações por uma sociedade humanizada. A consciência social
permaneceu como política paralela, marginal ao processo
centrado na gestão da moeda e objeto de programas mais ou
menos caritativos, entregues ao desvelo materno das primeiras
damas.
Sendo assim, tornou-se absoluto o conceito de que
administrar o país significaria administrar a moeda,
invertendo-se os termos da equação, com os
resultados que se vê, e que agora é difícil reverter, na
medida em que se insiste em manter invertidos os
termos da equação. Este equívoco conduziu
rapidamente o governo a se transformar em mero
gerente financeiro, às custas do desgoverno ou da
desestruturação da sociedade. Este foi o primeiro
passo. O passo seguinte foi o equívoco de reduzir a
própria gestão financeira a simples exercício contábil,
feito no jogo das bolsas, nos saldos obtidos do
pagamento da dívida e seus encargos, do fechamento
dos balanços e dos resultados da especulação.
Primeiro, deixou-se de governar a sociedade, para
administrar a economia. Depois, foi se deixando
de administrar a economia para administrar as
finanças. Agora já não se administram as finanças,
mas a especulação, o paraíso da economia virtual,
na qual estamos, cegamente, ingressando.
Na raíz desses equívocos, está a crença cada vez
mais infiltrada na tecnoburocracia de um ser
humano reduzido apenas a um ser econômico –
homo-economicus, e de uma consciência humana
reduzida apenas a apetites, interesses ou ambição
e em conseqüência, dirigido apenas pelas regras
da economia, o que constitui um reducionismo
caricato sobre o homem, sua natureza e suas
motivações. A equação que existe, a ser retomada
e desenvolvida, é pois, a equação do homem em
sociedade, da qual a economia é apenas um termo,
como são outros termos, a cultura, a ética, a política,
os direitos e deveres dos cidadãos, as relações
sociais, o bem-estar, as aspirações e os sonhos
humanos, esses termos ignorados ou postos fora da
equação que, no entanto, sempre acabaram por
escrever a história. Na verdade, não há como salvar
o termo se, para salvá-lo, se desestrutura a
equação, ou seja, não há como salvar a moeda se
não se organiza a sociedade. Perdida a sociedade,
perde-se também a moeda e a economia, ou seja,
desestruturada a sociedade se desestrutura a
economia. O impasse social produz o impasse
econômico, apesar de todos os ajustes que se fizerem
na economia e dos enganosos resultados
contabilizados dia a dia, ou mês a mês.
Acontece que o processo humano e, portanto, o
processo de governar os homens, é coisa bem
diferente desse reducionismo caricato.
É preciso, em conseqüência, combater o mal em sua
raiz, e construir o processo por sua essencialidade, se
não nenhuma medida que se adote pode vir a ser
minimamente sustentável. Não se estará construindo
uma nação, mas sobrevivendo por meio de
concessões à vida, até o desenlace.
A conseqüência deste processo construído sobre uma
raiz doente é que a estabilidade econômica, mantida à
custa da exclusão ou da desestruturação social, irá se
manter enquanto se conseguir manter a sociedade
com a consciência alienada pelo engodo do
marketing,
ou
amortecida
pelas
“ políticas
compensatórias” – o pão e circo, e isto já é antigo na
história dos homens. No entanto, acabará chegando o
dia em que a sociedade, despertando, rejeitará o
engodo e repelirá o blefe e, nesse dia, as forças
sociais vão sacudir a ordem existente e isto também
não é novo na história. Este é um processo perigoso,
que nunca se sabe onde vai terminar, se na
substituição do marketing pela repressão, ou na
explosão do processo, necessariamente deflagrada,
pois não há como prender elefante em gaiola de
passarinho, embora alguns imaginem que
possam.
•
Políticas sociais e políticas compensatórias
Centrada a ação do Governo em administrar a
economia, ou as finanças, as políticas de organização
e desenvolvimento da sociedade ou políticas sociais,
passaram a segundo plano, como políticas
compensatórias, isto é, práticas adotadas para
compensar as conseqüências do que as políticas
essenciais subtraem da sociedade, ou que não foram
capazes de promover em seu favor. As políticas
essenciais, neste contexto, passam a ser as políticas
econômicas, ou monetárias, como se viu.
O conceito de políticas sociais como políticas
compensatórias, tem sido expresso, inclusive, em
documentos oficiais, e não tem recebido crítica ou
contestação da sociedade, pouco afeita à percepção
do significado dos conceitos, orientada sempre para
ser prática, objetiva. Induzida e não pensar, inclusive,
pelo marketing e pelos sistemas de comunicação.
Desta forma, o homem deixou de ser centro do processo, seu
autor e seu beneficiário. No centro do processo passou a ser posta
a economia, ou mais especificamente, a moeda, o balanço da
moeda, a economia virtualizada, enfim, a contabilidade da
especulação sem compromisso com os processos produtivos e,
portanto, com o bem-estar, a participação e o desenvolvimento
humano.
Trata-se, pois, de rever a equação para reverter o
processo.
Trazer o homem para o centro do processo,
concebendo as políticas sociais como principal
agente do desenvolvimento, dando conteúdo e
objetivo
às
políticas
econômicas
como
instrumento das políticas sociais. Parece provável
que esta perspectiva seja incompreensível para os
que continuam confundindo políticas sociais com
políticas assistenciais ou, simplesmente concebendoas como políticas compensatórias.
A possibilidade de ajustar a sociedade por
conseqüência automática do simples ajuste da
economia é desmentida pela análise – inclusive
estatística – dos processos de desenvolvimento, tanto
no Brasil, quanto no mundo. Basta ver, como se viu,
para onde o mundo e o Brasil estão sendo
conduzidos, pela concentração da riqueza e pela
exclusão do homem, como resultado das políticas que
costumam ajustar a contabilidade às custas do
homem e de sua organização em da sociedade.
Por isso, os recursos disponíveis acabam, nessa
perspectiva, priorizando a cobertura dos déficits, o
pagamento de encargos, e até a assistência aos
desvalidos, sem atentar para o fato e suas
conseqüências, de que se vai abrindo um déficit cada
vez maior, que é também o grande déficit econômico
– chamado embora déficit social, constituído da
população que não produz, que não gera riqueza e de
um território rico de recursos que poderiam gerá-la,
mas que é ignorado, porque mais fácil é buscar
recursos externos na contabilidade virtual, sem
atentar para os resultados da submissão e dos
compromissos que a sociedade terá que pagar.
Mas não tem importância, raciocinam. Expurgamse os compromissos financeiros e cria-se o deficit
primário, causado pelas políticas sociais e tudo
bem.
Esta economia desumanizada interessa ao circuito
da economia globalizada que tem seus centros de
comando no primeiro mundo, porque o sustenta,
da mesma forma como sustenta, no terceiro
mundo, as minorias beneficiárias da especulação,
que funciona, dentro do país e lá fora, como ralo
de sucção do esforço e da riqueza ou da pobreza
nacional. Este processo de sucção, que concentra
cada vez mais fortemente a economia, exige repor as
questões: quando a economia estiver absorvida pelos
competidores mais fortes, países, blocos, grupos ou
pessoas, como fica o princípio da livre concorrência,
ou do livre mercado, se já não há concorrentes,
porque todos foram eliminados? Como será a própria
economia, e que sentido terá quando despida de sua
dimensão humana pela concentração nas mãos dos
mais fortes e pela prevalência de suas corporações,
excluída a absoluta maioria da população humana?
Ou se revezarão os mais fortes, na exploração do
mundo, hoje a América do Norte, amanhã o leste
Asiático, a China, ou a União Européia? Depois
quem? E quando o resto do mundo for excluído, quem
restará para ser sugado? Onde buscar os mercados?
Onde investir o dinheiro em excesso, com lucros
rápidos? Ou o mundo, submetido a um poder único,
ampliará os misteres assistenciais, dividindo-se,
então, os seres humanos em dois mundos – o que
domina, e o outro mundo submisso e tributário,
reinando o primeiro sobre os mortos, como reinava
Isis, dos Egípcios?
•
A economia virtual e a economia real no
Brasil
Para reverter essas tendências, é necessário
aprofundar a análise do equivoco de imaginar-se
como sustentável o modelo da economia virtual, ou
seja, da economia feita do jogo das bolsas, da
especulação
financeira,
da
informação
na
velocidade do pensamento∗, do jogo do mercado e
da contabilidade nacional, administrada em caixa
preta. A eficácia dessa gestão pode ser válida para
∗ Alusão ao livro-tese de Bill Gates – A Empresa na velocidade do pensamento.
os que a manipulam, mas ela não tem
sustentabilidade para o processo histórico de
construção de uma país, ou de uma sociedade.
Sobretudo não tem nada a ver com a construção
de uma sociedade humanizada, essa Revolução
necessária para o terceiro milênio.
Na verdade, a economia virtual constitui um novo
cancro da economia, uma espécie de inflação que
beneficia apenas os que têm capacidade de
manipulá-la, ou os próprios sistemas de
manipulação. No entanto, esta nova forma de
inflação não tem sido condenada. Condenável tem
sido apenas a inflação dos pobres, a tradicional
inflação dos subdesenvolvidos.
No entanto, não basta tomar consciência de que economia virtual
existe e lamentar sua existência. Urge iniciar a construção de um
processo alternativo de desenvolvimento, que supere e substitua esse
modelo alienante, a partir da capacidade da sociedade de produzir
bens e riqueza que revertam em seu próprio benefício, porque só
uma economia humana dá sentido à própria economia e a viabiliza.
A economia virtual, não proporcionando bens e
riqueza em favor da sociedade, ou das pessoas, se
constitui num engodo, o mesmo engodo que faz com
que o jogador inveterado espere ganhar amanhã,
imaginando então concentrar o suficiente para
ressarcir-se dos prejuízos havidos hoje. Ou, talvez, se
imagine substituir, em definitivo, o mundo real pelo
mundo virtual, e esta seria uma hipótese de evolução
da história – o fim do tempo, ou das coisas – a
atemporalidade e a imaterialidade. Se teria chegado
dessa forma ao campo de confundir ficção e
realidade, Física e Metafísica vida e morte. Mas tudo
indica que há pouca sustentabilidade nesta hipótese,
para que se jogue nela o futuro da humanidade. Ou
alguém imaginaria que já teríamos chegado a esse
mundo e que estamos prestes a viver no mundo
virtual, ou de ficção, que teria tomado o lugar da
realidade?
A perversidade do processo da economia virtual está
também na velocidade com que ela concentra a
riqueza (e o poder). Segundo análise dos dados do
Relatório da ONU sobre desenvolvimento humano –
1998, o processo de concentração é capaz de pôr nas
mãos de três potentados apenas∗, recursos de tal
ordem, que lhes permite acumular US$ 500 milhões
por segundo. Evidentemente que, não crescendo à
mesma velocidade a produção da riqueza, esses
milhões de US$ são retirados com a mesma
velocidade, dos que vão sendo excluídos do processo.
Os Tigres Asiáticos, a Indonésia, a Rússia, para citar
alguns casos, dentre outras tantas ameaças a pesar
como espada de Dâmocles sobre os mais fracos, já
experimentaram o poder dessa sucção e sabem o que
isto significa.* O Brasil também foi vítima dos mesmos
ataques e para salvar-se teve que pagar o preço de
comprometer sua dívida em outros US$ 40 bilhões e,
portanto, seus encargos e sua dependência da própria
economia virtual, às custas do crescimento sempre,
do processo de exclusão, ampliando o desemprego o
endividamento, os juros, o déficit real, a recessão.
Os
contabilistas
encontraram
uma
forma
engenhosa ou safada, de minimizar o déficit,
criando o registro do déficit primário, no qual se
contabilizam os insumos da produção, os gastos
da saúde, da educação, da previdência, da
assistência social, enfim, das políticas sociais,
∗ Bill Gates, Warren Buffet e Paul Allen.
* O autor refere-se aos assaltos especulativos havidos nesses países, em 19971998 e no México no começo da década.
mas ficam resguardados os interesses da
economia especulativa, não computada no déficit.
Resolveu-se, dessa forma, o problema da economia
virtual, já que a realidade dos homens não conta nesta
perversa perspectiva.
Fatos dessa natureza comprovam que não é sequer
pensável que neste tipo de economia possa
fundamentar-se um processo de desenvolvimento
sustentável, capaz de construir uma sociedade
humanizada para se ingressar no terceiro milênio,
inserindo-se, dessa forma, na globalização.
Essas características da economia virtual ocorrem mutatis
mutantis; em todo mundo. No Brasil, no entanto, este fenômeno
se reveste de algumas características específicas, internas, que
agravam a gestão econômica como instrumento perverso para a
sociedade. Algumas dessas características:
Primeira – o controle dos setores básicos da
economia por corporações nacionais e internacionais,
permitindo a exacerbação dos preços de produtos e
serviços mais ou menos cartelizados definidos pela
imagem ou pelas necessidades fabricadas da
demanda, sem que tenham qualquer relação com
sua necessidade real e seus custos efetivos. A
influência de um marketing selvagem, sustentado em
tecnologias sofisticadas e voltado para a
supervalorização do produto, com vistas à realização
de lucros, sem controles ou limites de ordem jurídica,
ética ou de qualquer espécie de compromisso social,
exacerba a tendência consumista da sociedade,
levada a consumir muito mais no supérfluo do que
permitiria sua capacidade de produção e renda,
mesmo para consumir o essencial. Esta perspectiva
reforça e introduz uma nova forma de economia
virtual, onde os valores efetivos são superestimados,
gerando a economia da especulação, ou
transformando o lucro em mais valia, dando razão
a Marx. Nem mesmo se pode dizer que, ampliando o
mercado se amplia o emprego, e portanto, a renda.
Isto é real em termos. Na verdade, essa eventual
ampliação da renda, ocorre a um nível muito inferior
ao crescimento da economia virtual, que se expande
muito mais rapidamente que o crescimento da renda,
aumentando os desequilíbrios.
Poucos percebem que a inflação virtual dos
ricos é um dos fatores da inflação dos pobres e
do seu processo de exclusão.
Segunda – a soberania dos mercados marketizados,
dessa forma, acaba se impondo sobre as
necessidades efetivas das pessoas, massificadas,
alienadas pela mídia, e vítimas de um modelo de
consumo muito acima do permitido por seus níveis de
renda e desviado, pela mesma razão, de suas
necessidades básicas. Tal distorção decorre,
novamente, dos níveis de sofisticação dos
instrumentos de marketing, enquanto apenas pequena
parcela da sociedade é capaz de decodificar
adequadamente a mensagem, (analfabetismo da
mídia) tornando-se a maioria da sociedade facilmente
manipulável, por um sistema que não tem qualquer
compromisso com o real ou com a verdade, uma vez
que há pouco compromisso social, dentro da
visão de mercado, nos meios da comunicação e
do marketing.
Terceira – a manipulação das análises estatísticas
que distorcem os indicadores da real situação das
pessoas, oferecendo índices contabilmente aceitáveis,
mas enganosos, porque são sustentados em
médias que produzem superficiais equilíbrios, sem
considerar, porém, que como os especuladores
não comem dólares, também o povo não come
índices, nem se veste com eles. Parcelas
significativas de recursos públicos e das economias
privadas se investem na manutenção desses sistemas
sofisticados de marketing, que condicionam a
sociedade e representam um alto custo de produção,
pago pelo consumidor.
Esta “ virtualização” da economia subdesenvolvida
constitui a parcela internalizada da virtualização
decorrente
dos
processos
informatizados,
estabelecidos pela imagem virtual ou pela velocidade
da informação, que ocorre no mundo globalizado.* É
preciso entender que essa economia “ virtualizada”
introduzida no Brasil, não vai permitir ao Brasil
apropriar-se da economia virtual, manipulada pelos
que têm o domínio dos mercados, da tecnologia e da
velocidade da informação e o controle dos processos
da globalização, porque esses estão léguas na frente
em função dos instrumentos de que dispõem, e se
deslocam a uma velocidade muito superior a que o
país pode alcançar. O que se está introduzindo no
Brasil é, consequentemente, uma forma de
virtualização subdesenvolvida, ou seja, a nova
forma de inflação real – a inflação dos pobres.
Esse sistema artificial só será superado com o desenvolvimento
de uma nova economia, consistente, sustentável, produtiva. O lastro
ou a âncora dessa nova economia, para utilizar uma palavra
introduzida no contexto, deveria ser constituída a partir do
aproveitamento das potencialidades efetivas do país, na sua
capacidade real de produzir, de seus imensos recursos naturais,
para transformar esses recursos de valor potencial em valor de uso
– portanto em produção ou riqueza, em favor do Brasil e do
planeta.
* GATES, Bill. A Empresa na Velocidade da Informação.
Também pelo investimento na capacidade humana de
produzir – mais de 100 milhões de brasileiros que
poderiam estar produzindo, gerando renda e riqueza,
ao invés de estar, grande parte, esmolando, sendo
assistida – os excluídos do sistema.
Esta seria a alternativa do País para ingressar na globalização,
com suas próprias armas, em vez de fazê-lo por meio de seu
referido calcanhar de Aquiles: a economia virtual e a especulação
financeira embasada numa moeda frágil e sem qualquer
representatividade para sentar-se à mesa do debate, senão das
decisões impostas pela globalização.
Esta concepção parecerá heterodoxa demais para os
ortodoxos, que preferem conduzir o País de acordo
com as estratégias geradas pela globalização de fora
para dentro. O que se há de dizer, se a ortodoxia
imposta nos está levando por e para onde
estamos indo? De toda forma, não sendo a
alternativa proposta uma política conjuntural, que se
possa começar a discutir, ou que possa ser posta em
prática em 24 horas, ou no momento em que a crise
comece explodir, é necessário começar a discussão
agora, porque o processo de exclusão avança e
ameaça chegar a um ponto de onde a reversão já não
será possível, a não ser pagando-se preços extremos.
•
O Estado imperial e o Estado de serviço (ao)
público
É neste contexto que é necessário discutir novas
alternativas e buscar outros caminhos, para a ação do
Estado e para o encaminhamento do processo
brasileiro, embora o poder por trás do poder resista
em aceitar novas alternativas, em sua tendência a
uma visão monolítica e em seu afã em inserir-se
nas fórmulas impostas pela economia virtual, ou
pela globalização. A tecnoburocracia custa entender
que a globalização não consiste na unanimidade de
pensamentos, de métodos de análise ou de
estratégias
de
desenvolvimento.
Esta
visão
equivocada não é aceitável não só por razões éticas
ou em função do espaço devido ao pluralismo e ao
homem, mas por razões práticas, de viabilidade, ou
sustentabilidade dessa concepção que contradiz a
natureza do homem e da organização social. Assim, a
burocracia fortalecida pelas expectativas de grandes
parcelas da sociedade, induzidas e prontas a entregar
nas mãos do Estado suas próprias responsabilidades,
ou por filosofia ou por interesse em recolher frutos e
benefícios imediatos, gera um Estado com sua
estrutura de governo onipresente, onipotente e
auto-suficiente, mas equivocada.
Por conseqüência, o espaço do cidadão e da
cidadania se reduz tolhido por um Estado que tudo
sabe, tudo define, tudo controla e de quem tudo se
espera.
Essa onipresença do Estado tecnoburocrata, aparece
de forma equivalente nas menores coisas do dia-adia, como nas grandes decisões de interesse
nacional.
Existem
aspectos
quase
hilariantes
da
tecnoburocracia, não importantes em si, mas
importantes como reveladores da concepção do
Estado Imperial. Assim é que, por exemplo, quem
entra em qualquer gabinete ou casa da burocracia,
não há como não perceber a importância que se
atribui aos serviços de segurança, implantados em
verdadeiros bunkers, com que se defendem as
portarias de cada Palácio Ministerial, ou simples
repartição pública, por mais humilde, descendo do
exemplo federal, trazido para os Paços Estaduais, ou
os Paços Municipais que, desde o Paço Imperial de D.
Pedro, não há cidade, que se preze, que não o tenha.
A burocracia encastelada nos seus palácios se
compraz em montar baterias eletrônicas, sistemas de
identificação de toda espécie, controles de
documentos, como se a ela, à burocracia ou ao
Estado, coubesse defender-se da sociedade, e a
sociedade constituísse uma ameaça contra quem
precaver-se. Quem sabe se poderia imaginar o
contrário: de como a sociedade devesse, ou
pudesse, se defender da burocracia?
Há em Brasília e no Rio de Janeiro, saudoso de sua
corte, dois inacreditáveis exemplos desses bunkers
imperiais. O primeiro defendendo o já extinto
Ministério de Modernização Administrativa e Reforma
do Estado com seu nome imponente e inútil. Caso
fosse útil, não teria sido extinto pela segunda ou
terceira vez; sem que a Nação o percebesse o
segundo, na FINEP – Financiadora de Estudos e
Projetos, o órgão que financia a Inteligência brasileira,
com seus modernos sistemas de fotografar o cidadão
de frente e de perfil para autorizá-lo a ingressar nos
seus 10 ou 25 andares onde a burocracia trabalha,
trabalha, trabalha.... e com os resultados produzidos
em termos de desenvolvimento da capacidade de
pesquisa e da tecnologia nacional que aí estão.
Apesar de toda a parafernália, nem se fez a reforma
do Estado, e modesta continua a ser a capacidade de
pesquisa do país. Mas o cidadão brasileiro estará
sendo individualmente identificado, em seus códigos
genéticos, ou de frente e de perfil, por câmeras
ocultas e outros milagres da tecnologia, apoderada
pelo Estado, para defender seu paraíso burocrático e
se impor sobre a sociedade.
No entanto, dentre os burocratas, como entre os
cidadãos, poucos percebem o surrealismo dos
sistemas, o que permite dizer que o merecem, não
fossem novos personagens de Charles Chaplin ou de
Jacques Tati.∗
Os casos citados constituem bons exemplos do
Estado imperial, por se situarem nos órgãos em que
se situam a modernização da gestão do Estado um, e
o financiamento da inteligência nacional outro. No
entanto, os exemplos proliferam, também, nas
esferas dos Estados e nos Municípios, e como isto
revela uma cultura, começam a aparecer também na
iniciativa particular. Na realidade, são sinais que
correspondem à idéia ou à cultura da hierarquia
imperial de que o Estado Federal manda nos Estados
federados, que mandam nos municípios, e onde
todos mandam na sociedade e no cidadão, em vez
de servirem à sociedade e ao cidadão.*
No fundo dessas distorções, falta a consciência do
compromisso social – que inspire estruturas, funções
e competências próprias, diversificadas em sua
natureza, mas iguais nas respectivas competências e
na complementaridade dos serviços que todas devem
à sociedade. Há também, provavelmente, um
sentimento inconsciente de ilegitimidade do poder, de
raízes freudianas.
Enquanto isto, o Estado imperial se desdobra em
inúmeros palácios, os palácios do legislativo, os
palácios do judiciário, os palácios de contas, os
paços municipais, os paços estaduais, o império
∗ De Charles Chaplin – Tempos Modernos; de Jacques Tati – Meu Tio, entre
outros.
* Sobre o poder da tenoburocracia o autor publicou um clássico romance: Cícero
Dias e seu longo Processo de Morrer; “a peça mais contundente já escrita no
Brasil sobre o poder anônimo da burocracia” no dizer de crítica especializada.
federal, de onde segue em revoada a
tecnoburocracia para controlar, fiscalizar e dizer,
enfim, ao Brasil e à sociedade o que ele deve
ser, como deve ser e o que deve fazer de acordo
com o que pensa a corte em seus coroados
gabinetes.*
•
A deteriorização da representação popular
O poder corrompe – o poder absoluto corrompe
absolutamente. O princípio atribuído ao inglês Lord
Ascot foi adotado como princípio de sabedoria
popular, e a prática da sabedoria popular, mesmo sem
o rigor científico, lhe dá foro de uma verdade política.
Ninguém há de negar no General Castelo Branco, o
primeiro chefe de Estado do Regime militar brasileiro
de 1964, as qualidades de liderança e a correta visão
que teve sobre o Brasil e sobre o que deveria ter sido
a revolução brasileira de 1964, feita, na intenção de
alguns, para extirpar vícios e reorganizar o país, e não
simplesmente para liberar o país do caos e da
ameaça real ou imaginária do comunismo, na visão de
outros.
Superando as divergências internas dos grupos que
assumiram o poder e usando com moderação os
instrumentos de exceção do Estado revolucionário,
aquele presidente saneou as finanças e a vida
pública, deixou legados como o Estatuto da Terra, e
em três anos reinstitucionalizou o país com a
Constituição de 1967, considerada por alguns juristas
como das mais consistentes e democráticas que o
* Bom exemplo é a nova cidade do judiciário, construída em Brasília, de
mármores e cristais, cidade que consegue parecer faraônica, mesmo em Brasília,
para distribuir a justiça, bem diferente da forma como a distribuíam os archontes
de Athenas, debaixo de uma árvore.
país já possuiu, mesmo abstraindo da tradição da
outorga, ou semi-outorga, ou de origem mais
legislativa que plebiscitária, o que lhe dá conteúdos e
forma, literalmente, mais de lei maior, do que de
Constituição Nacional.
No entanto, nesta análise de equívocos deve ser
atribuído, também, àquele presidente a introdução de
um dos instrumentos a que se pode debitar boa parte
da deteriorização das instituições políticas do país, na
medida em que profissionalizou a vida política nas
comunidades, isto é, em seu nascedouro ou em sua
base.
Quando
a
Lei
transformou
indiscriminadamente, o exercício da vereança em
emprego público, cortou pela raiz o conceito de
participação
política
como
representação
comunitária, serviço prestado à comunidade, para
fazer da base política uma arena onde passaram a
se degladiar pequenos interesses, alheios à
responsabilidades e às dimensões do interesse
público.
O exercício pago da função de vereador, até aceitável
nas grandes cidades ou metrópoles, não faz sentido
quando adotado, indiscriminadamente, distorcendo a
natureza da representação. A escolha dos
componentes das Câmaras Municipais se transformou
em disputa de cargos remunerados, em geral a níveis
bem superiores, a qualquer outra função, disponível
na comunidade. O exercício da política foi, dessa
forma, profissionalizado, subordinando as estruturas
partidárias e as lideranças representativas da
comunidade, aos interesses pequenos de militantes
pagos, caros para serem mantidos, pouco
representativos das reais aspirações comunitárias, às
vezes simples intermediários de compra e venda da
vontade popular, “ cabos eleitorais” .
Tornaram-se exceções pessoais os cidadãos íntegros
e capazes, que apesar disto, dedicam-se à
representação desinteressada de suas comunidades.
Este fato, além de seus aspectos éticos e políticos
discutíveis, passou a contribuir de forma significativa
para o enfraquecimento das comunidades municipais
e falência de suas finanças. É freqüente, nos
municípios, sobretudo nos menores, que a
manutenção das máquinas políticas, a acumulação de
salários
e
mordomias,
consumam
parcelas
expressivas dos orçamentos municipais, à conta da
comunidade e dos cofres que deveriam financiar seu
bem-estar e desenvolvimento.
São quase cem mil empregos de vereadores no
Brasil, número que é ultrapassado de longe se se
considerar o freqüente séquito de servidores,
assessores e serviçais. O peso somado de salários e
mordomias constitue um fardo insuportável para as
fracas finanças municipais, e viciam o poder político
pela base.
Porém, o equívoco maior desse sistema está na
perda do conceito de exercício político, como
serviço à comunidade e na conseqüente
deteriorização da representação popular e da
função pública, nessa dimensão.
Introduzida tal cultura na base, na raiz das instituições
políticas, ela se transfere por osmose, para toda a
árvore, e aí se entende melhor o retrato da
deteriorização da função pública brasileira em sua
representação política, com os escândalos, o
descrédito e a rejeição dos políticos que pode
facilmente ser manipulada para transformar-se em
descrédito da
democracia.
•
representação,
ou
da
própria
A questão ética e os valores
Este processo de deteriorização da vida política se
insere num contexto mais amplo de perda das noções
éticas e dos valores, que vêm tomando conta da
sociedade e do Estado, como mais um fator de
desumanização.
Inicialmente, há que se distinguir a ética e os valores,
do moralismo e do conservadorismo imobilista que, ao
contrário da ética, e dos valores, existe e se manifesta
de múltiplas formas e abundantemente no país.
A questão ética e de valores na vida pública
abrange o conjunto de conceitos e práticas
adequados ao bem comum e o compromisso dos
indivíduos, ou dos cidadãos, com o exercício
desses conceitos e com sua prática.
A ética e os valores, neste sentido, estão muito além das leis,
dos controles, ou da repressão. A ética e os valores constituem um
compromisso pessoal, uma opção livre que independe dos
condicionamentos externos, dos modismos ou das circunstâncias.
Aliás, a própria lei deveria subordinar-se à ética e aos valores, e
não simplesmente à vontade do poder, como acontece no país
com freqüência cada vez mais preocupante. Se legisla, se decreta,
se baixam portarias, resoluções e normas ditadas pelas
circunstâncias, ou pelas necessidades eventuais, como se não
existissem exigências éticas no exercício do poder.
Aparentemente, vários fatores tem concorrido para a
perda do compromisso ético e dos valores da
sociedade brasileira, e sua substituição pelo
moralismo ou pelo conservadorismo imobilista, pondo
em contraste os compromissos com a mudança.
Existem fatores de ordem geral e de ordem específica.
Entre os fatores de ordem geral deve ser considerada,
inicialmente, a própria disritmia do processo de
mudanças, onde os avanços da tecnologia ocorrem a
um ritmo muito mais veloz que as mudanças
comportamentais, comprovando a tese.
Também deve-se considerar a contestação e a
derrubada dos valores e dos comportamentos
tradicionais, sem que se tenham gerado novos valores
e procedimentos alternativos, capazes de estabelecer
pontos de referência e compromissos sociais para
toda uma geração perplexa, diante do processo.
Especificamente, no caso brasileiro, este fenômeno
chegou elevado a extremos pela influência da mídia,
em geral descomprometida dos correspondentes
compromissos éticos e valores efetivos, os quais,
quando assumidos, o são em geral sob a referida
forma de um moralismo explícito ou de um
conservadorismo imobilista.
Esta postura da mídia e o despreparo da sociedade,
de suas instituições, e do homem brasileiro para
entender a mudança e criar novas formas de
convivência ética, levou, e continua levando, às vezes
de forma inconsciente e por isto irresponsável, outras
vezes por interesses diversos, à deteriorização das
instituições sociais – especialmente das instituições
educativas, e das consciências humanas.
Ao falar em instituições educativas e consciências
humanas, há que referir de um modo específico, a
família e as escolas, onde os pais e os educadores
perplexos diante da mudança, e sob o fogo
cerrado dos meios tecnológicos, abdicaram de
sua função educativa, ou por medo, ou por não
encontrarem métodos, conteúdos e instrumentos
para exercê-la.
Resulta que se chegou a uma situação que nem pode
ser
caracterizada,
propriamente,
como
de
transgressão à ética ou de negação dos valores
inerentes à condição humana.
Na verdade, chegou-se a uma situação muito mais
grave, que é o simples desconhecimento da existência
da ética e dos valores, e esta é a tragédia.
Aliás, há cinqüenta anos, na linguagem da Igreja, o
papa Pio XII já alertava para este fato, que se
delineava como a grande ameaça do século XX,
quando ensinava que, mais grave do que o pecado
era a perda da consciência ou do sentimento do
pecado.∗
Por esta razão, se entende a desfaçatez com que são
praticados comportamentos desajustados, na vida
privada e na vida pública. Na vida privada, os desvios
são de natureza individual. Os desvios na vida pública
se abatem sobre a sociedade, desestruturando-a, e
em relação a eles, portanto, cabe à sociedade
instrumentar-se
para
evitar
sua
própria
desestruturação. Há necessidade de que se defina e
se pratique o limite exato entre a liberdade individual e
o interesse público.
Dessa perspectiva, a ameaça paira sobre parcela da
sociedade brasileira conduzindo à perda da
consciência ética, de que a ética e os valores existem.
É neste vácuo que há necessidade de desenvolver um
imenso esforço para reconstrução de padrões éticos e
para reintrodução de valores comprometidos com as
exigências da nova sociedade, que se há de construir,
humanizada, solidária e participativa. A preservação
da ética pública é também um compromisso do
∗ Pio XII, papa – Radiomensagem aos Bispos Americanos, por ocasião do
Congresso Catequético Nacional, havido em Boston em 1946.
Estado, e contra ela não há como se alegar a
liberdade, intocável enquanto individual, mas
condicionada ao bem público, enquanto pública.
•
Ufanismo e consciência nacional.
Para concluir esta análise, ainda que curta e superficial, de
alguns equívocos nacionais que se põem como obstáculo a uma
proposta alternativa de desenvolvimento da sociedade ou a
promoção da necessária Revolução do Terceiro Milênio vale
considerar o sentimento ou a consciência de auto-satisfação
nacional, que, às vezes, acaba se resumindo à euforia das
eventuais vitórias esportivas, o futebol ponteando, as meninas do
volei, e outros eventos.
No entanto, haveria razões mais substantivas para satisfação
nacional.
Quando, há quase 100 anos, Conde de Afonso Celso
escreveu o livro Porque me Ufano do meu país,
surgiu a expressão ufanismo, ao qual foi atribuído um
sentido pejorativo. Isto pode ter ocorrido em função do
pouco embasamento técnico do livro ou da
incapacidade de tornar concretas, mesmo porque não
teria sido o objetivo do livro, as formas de atuar sobre
estas potencialidades de que se ufanava o Conde,
para transformá-las em riqueza efetiva.
Na impossibilidade de tornar reais esses recursos,
melhor seria levá-los menos a sério, repetindo a
história da raposa incapaz de colher uvas maduras,
bem de acordo com certa cultura nacional.
Na verdade, quase 100 anos depois do livro de
Afonso Celso, o Brasil continua tendo uma idéia
mítica, romântica ou não muito séria de suas
potencialidades, incapaz de identifica-las, quantificálas, conhecê-las, e transformá-las em riqueza ou
lastro-âncora como poderia ser para seu processo de
desenvolvimento e sua inserção na globalização.
Continua prevalecendo a estratégia de promover o
desenvolvimento brasileiro ignorando-as, e alinhar o
país aos processos, ou âncoras externas, o dólar,
o câmbio, as reservas monetárias, instrumentos
que os outros possuem, dominam ou manipulam,
subordinando a eles, ou ao processo de
globalização dirigido de fora , a economia nacional
e, através dela, o país.
Os
recursos
naturais
efetivos
continuam
desconhecidos, ignorados pelas políticas oficiais,
como instrumentos estratégicos, objeto das semiaventuras da iniciativa particular, postos num plano
longínquo pelas grandes Universidades (e pelas
pequenas também), por isso tudo, imensamente
distantes da consciência nacional.*
Alguns dados e considerações nos introduzem a
refletir sobre essas potencialidades e seu significado
para um novo projeto nacional. Elas deveriam
constituir, no entanto, parte essencial na concepção
de qualquer projeto nacional, por causa de sua
dimensão e do processo de desconcentração
econômica, política e territorial que podem viabilizar.
Se se aproveitassem, por exemplo, as potencialidades
dos solos dessa regiões, cerca de 150 milhões de
hectares, ocupando apenas 20% da Amazônia e dos
Cerrados, por exemplo, com investimentos menores
do que os recursos investidos em salvar massas
falidas, ou no pagamento de encargos e
* Quando o Reitor da Universidade do Tocantins, no contexto da preparação das
comemorações dos 500 anos, o autor propunha uma campanha nacional, tendo
como slogan: – Nos 500 anos, faça como Pedro Álvares Cabral: descubra o
Brasil.
compromissos externos, o País poderia dominar
os mercados de alimentos no mundo ou,
simplesmente, abastecer o mundo de alimentos.
Uma estratégia para viabilizar um projeto nessa
direção, não preconizaria necessariamente o nãopagamento dos compromissos externos, ou o
abandono de outras prioridades, e sim a adoção de
estratégias diferentes como alternativa, para
ingressar na globalização utilizando o que o país
dispõe de significado e interesse global e base
material para formular seu próprio projeto. Como no
exemplo dado do aproveitamento dos solos, a mesma
estratégia poderia ser aplicada no aproveitamento de
outros recursos de dimensão planetária, existentes
nessas regiões e que o país precisa descobrir.
− a biodiversidade,
− as reservas de águas,
− os recursos minerais,
− as florestas,
− os imensos vazios demográficos.
A demanda mundial desses recursos permitiria ao Brasil a
realização de seu próprio projeto, e com ele, assumir uma nova
postura no processo de globalização.
Esta correção de estratégia é essencial para se
entender os delineamentos do projeto nacional
proposto como alternativa estratégia de superação da
crise em que se debate o país. Na citada superação e
nesse novo projeto nacional, esta perspectiva
viabilizaria em grande escala os pressupostos que
deverão embasar a proposta de uma nova
organização
social
para
o
Brasil:
a
descentralização participativa e a cooperação
solidária, como fundamentos e âncora do
desenvolvimento de um país viável, capaz de
superar sua própria crise, apesar da crise global e
de construir, no mundo globalizado, seu próprio
projeto de nação e de sociedade.
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Tudo o que foi analisado nos induz a concluir que a crise