CORRELAÇÃO ENTRE O ÍNDICE DE MASSA CORPORAL MÉDIO DA POPULAÇÃO E A PREVALÊNCIA DE OBESIDADE NAS CAPITAIS BRASILEIRAS - 2002/2003, SEGUNDO SEXO E IDADE* LOBATO, JACKELINE**; COSTA, ANTONIO JOSÉ*** Palavras-Chave: Obesidade; Estratégia de Prevenção; Estudo Ecológico. Introdução: A prevenção e o controle da obesidade devem enfocar os ambientes sociais, culturais, políticos, físicos e estruturais que influenciam o estado nutricional da população. Objetivo: Investigar a correlação entre o Índice de Massa Corporal (IMC) médio e a prevalência de obesidade da população adulta residente nas capitais brasileiras, segundo sexo e idade. Método: Os dados foram obtidos a partir da Pesquisa de Orçamento Familiar realizada entre julho de 2002 a junho de 2003. Foram estimados o IMC médio e a prevalência de obesidade (IMC≥30,0kg/m2) da população adulta para cada capital do Brasil, segundo sexo e faixa etária (20-39 anos e 40-59 anos). Foi calculado o coeficiente de correlação de Pearson, além de ajustado um modelo de regressão linear simples com a prevalência da obesidade como variável resposta. Resultados: A correlação observada para as mulheres (r=0,855; p<0,001) foi mais expressiva em relação aos homens (r=0,595; p<0,001). Para os homens, a diminuição de 1 unidade de IMC médio reduziria a prevalência de obesidade em 3,99 % (IC:1,72–6,27) e, para as mulheres, 3,44 % (IC:2,56–4,32). Na análise estratificada por faixa etária, constatou-se uma correlação positiva alta entre o IMC médio e a prevalência de obesidade, nas duas faixas, em ambos os sexos, sempre maior entre as mulheres. Para ambos os gêneros, as correlações observadas na segunda faixa etária (40-59 anos) foram maiores em relação à primeira faixa de idade (20-39 anos). Conclusão: Os resultados mostraram uma correlação positiva entre a prevalência de obesidade na população adulta e o IMC médio desta nas capitais brasileiras, especialmente entre as mulheres. Dessa forma, devem ser enfatizadas medidas de controle e prevenção da obesidade que focalizem a população como um todo, e não somente os indivíduos que já se encontram com o IMC elevado. *Trabalho apresentado no XV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, ABEP, realizado em Caxambú- MG – Brasil, de 18 a 22 de setembro de 2006 ** NESC - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO; FACULDADE DE NUTRIÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE *** NESC - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 1 CORRELAÇÃO ENTRE O ÍNDICE DE MASSA CORPORAL MÉDIO DA POPULAÇÃO E A PREVALÊNCIA DE OBESIDADE NAS CAPITAIS BRASILEIRAS - 2002/2003, SEGUNDO SEXO E IDADE LOBATO, JACKELINE; COSTA, ANTONIO JOSÉ 1. INTRODUÇÃO As modificações ocorridas no perfil nutricional da população têm colocado a obesidade em papel de destaque no quadro epidemiológico mundial, de tal forma que a Organização Mundial de Saúde (OMS) a tem considerado uma epidemia global. Por ser um importante problema de saúde pública, que atinge todas as classes sociais, idades e etnias, a obesidade deve ser prevenida e tratada o mais precocemente possível (CORONELLI & MOURA, 2003; GERBER & ZIELINSKY, 1997; MONTEIRO, CONDE & POPKIN, 2001a; RAMAN, 2002; STEIN & COLDITZ, 2004; JEFFERY & UTTER, 2003). Muito ainda precisa ser estudado para que haja o entendimento sobre como as modificações nos âmbitos populacional e individual irão influenciar na gênese da obesidade e na sua crescente incidência em todo o mundo. Porém, sabe-se que os padrões alimentares e de atividade física são os principais fatores modificáveis que podem servir para prevenção e tratamento da obesidade (OMS, 2004). Uma vez que o ganho de peso pode ser considerado uma resposta fisiológica normal a um ambiente “obesogênico”, ou seja, indutor de hábitos alimentares não saudáveis e do sedentarismo, muito se tem falado sobre estratégias de prevenção, relacionadas, principalmente, a intervenções no nível populacional, dado que ações focalizadas somente nos indivíduos sob risco podem ser insuficientes (EGGER & SWINBURN, 1997; OMS, 2004). Assim, a prevenção e o controle da obesidade devem enfocar os ambientes sociais, culturais, políticos, físicos e estruturais que influenciam o estado nutricional da população (OMS, 2004). Em situações em que o número de pessoas expostas aos riscos é elevado, os benefícios conjuntos provenientes de intervenções no âmbito populacional são bastante expressivos, embora o ganho individual não seja tão significativo (ROSE, 1985; ROSE, 2000). Uma limitação da 2 estratégia populacional está relacionada à motivação de um indivíduo saudável a adotar novos estilos de vida que beneficiariam, a curto prazo, apenas o grupo acometido pela doença ou exposto a riscos mais elevados de adoecimento (ROSE, 1985; ROSE, 2000; OMS, 2004). Contudo, foi observado por Rose & Day (1990) que há uma relação entre os valores médios do índice de massa corporal (IMC) e a prevalência de obesidade na população, de forma que a prevenção eficaz da obesidade deve enfatizar a redução do IMC médio da população, e não somente o controle da obesidade nos indivíduos já obesos (OMS, 2004). Assim, o objetivo do presente trabalho é estudar a relação entre as variações no IMC médio e a prevalência de obesidade na população adulta, residente nas capitais brasileiras. 2. METODOLOGIA Os dados foram obtidos a partir da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de julho de 2002 a junho de 2003. Trata-se de uma pesquisa realizada por amostragem, na qual são investigados domicílios particulares permanentes. No domicílio, por sua vez, é identificada a unidade básica da pesquisa – Unidade de Consumo - que compreende um único morador ou conjunto de moradores que compartilham da mesma fonte de alimentação ou compartilham as despesas com moradia, conforme as recomendações e práticas internacionais referentes a pesquisas similares (IBGE, 2004). Foram utilizados seis questionários, dirigidos para a coleta de dados de cada indivíduo, tais como peso, estatura e escolaridade; e para toda a unidade de consumo, por exemplo, as despesas com alimentação e as características gerais do domicílio (IBGE, 2004). No presente estudo utilizou-se dados de peso e estatura dos indivíduos de ambos os gêneros, com idade entre 20 e 59 anos, excluídas as gestantes e lactantes. As unidades de análise foram constituídas pelas capitais brasileiras, excluindo Palmas-To, em virtude de um comportamento atípico da prevalência de obesidade na população masculina em relação às demais capitais. Foram excluídos os registros com valores de IMC muito discrepantes, uma vez que estes podem ter sido devidos a erros de mensuração, processamento dos dados, ou situações adversas extremas que não estão contempladas neste estudo, tais como transtornos alimentares ou algumas síndromes genéticas. Estipulou-se o valor máximo de IMC de 50,0 kg/m2 e mínimo 3 de 13,0 kg/m2, sendo aproximadamente 20% abaixo ou acima dos limites propostos pela OMS, 16,0 kg/m2 (Magreza) e 40,0 kg/m2 (Obesidade Grau III), respectivamente (WHO, 1995). Foram calculados o IMC (peso/estatura2) médio e a prevalência de obesidade (IMC ≥ 30,0 kg/m2) para cada capital do Brasil, separadas por gênero. A prevalência de obesidade foi padronizada pelo método direto, utilizando-se como padrão a estimativa da população adulta brasileira em 2003, subdividida em faixas etárias decenais (10/10 anos). Foram utilizados procedimentos de análise exploratória de dados, tais como gráficos de dispersão e curvas de distribuição, medidas de tendência central e de dispersão. A associação entre o IMC médio e prevalência de obesidade foi investigada por meio do coeficiente correlação de Pearson. Também foi ajustado um modelo de regressão linear simples, o qual forneceu a informação sobre a variação média da prevalência de obesidade (em percentuais) em função da redução de cada unidade de IMC médio da população. As análises foram realizadas separadamente por gênero e estratificadas por faixa etária (20 a 39 anos e 40 a 59 anos). As associações também foram investigadas utilizando-se o IMC médio calculado após a exclusão dos indivíduos obesos (IMC médio parcial). Dessa forma, buscou-se avaliar a associação do IMC médio com a prevalência da obesidade, eliminando-se a influência dos valores mais elevados de IMC utilizados na definição de obesidade. As análises foram realizadas utilizando-se o programa estatístico SPSS versão 13.0 O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva – UFRJ, sob o número 22/2005. 3. RESULTADOS Observou-se, para a população masculina, um IMC médio de 24,93 kg/m2 com variação entre 23,76 kg/m2 (Salvador – BA) e 25,74 kg/m2 (Cuiabá – MT) Nas mulheres, o IMC médio constatado foi de 24,13 kg/m2, sendo 22,61 kg/m2 o valor mínimo (Florianópolis – SC) e 25,15 kg/m2 o máximo (Recife – PE). A figura 1 mostra a distribuição do IMC das capitais com os menores e maiores IMC médios, agrupados no 1º e 5º quintis, respectivamente, para ambos os sexos. Observa-se que as distribuições de IMC na população masculina apresentam-se mais simétricas em relação às da 4 feminina. Entre as mulheres, verifica-se um deslocamento à direita da curva do último quintil, além de um achatamento da mesma em relação à do 1o quintil. Figura 1 Distribuição do IMC das populações adultas residentes nas capitais com menor IMC médio (1º quintil) e maior IMC médio (5º quintil), para o sexo masculino e feminino. 12 14 10 12 8 10 8 6 Quintil 1 Quintil 1 Quintil 5 4 Quintil 5 6 4 2 2 49 49 46 43 40 37 34 31 28 25 22 19 -2 16 0 13 46 43 40 37 34 31 28 25 22 19 16 13 0 As figuras 2 a 5 descrevem a variação conjunta da prevalência de obesidade e os IMC médio e médio parcial, para ambos os gêneros. Pode-se observar que, para as mulheres, os gráficos de dispersão caracterizam uma boa correlação positiva, embora na análise com o IMC parcial, essa correlação seja menos evidente. Para os homens, somente é observada uma boa correlação positiva quando são avaliadas as populações adultas completas. Figura 2 Correlação entre o IMC médio e a prevalência de obesidade em 26 capitais brasileiras (mulheres – 20 a 59 anos). 5 14,00 Prevalência (%) obesidade $ $ Linear Regression $ OB-FEM10POND = -72,75 + 3,44 * MÉDIAFEMT$ R-Square = 0,73 $ $ 12,00 $ $ $ $ $ $ $ $ $ 10,00 $ $ $ $ 8,00 $ 6,00 $ $ $ $ $ $ 23,00 23,50 24,00 24,50 25,00 IMC médio (kg/m2) Figura 3 Correlação entre o IMC médio parcial e a prevalência de obesidade em 26 capitais brasileiras (mulheres – 20 a 59 anos). 6 $ $ $ Linear Regression $ Prevalência (%) obesidade $ $ $ 12,00 OB-FEM10POND =$-66,33 + 3,33 * MÉDIAFEMP $ R-Square = 0,35 $ $ $ $ $ $ 10,00 $ $ $ $ $ 8,00 $ $ 6,00 $ $ $ $ 22,00 22,50 23,00 23,50 IMC médio (kg/m2) Figura 4 Correlação entre o IMC médio e a prevalência de obesidade em 26 capitais brasileiras (homens – 20 a 59 anos). Prevalência (%) obesidade $ Linear Regression $ 15,00 $ $ $$ OB-MASC10POND = -89,52 + 3,99 * MÉDIAMASCT $ R-Square = 0,35 $ $ $ $ $ 10,00 $ $ $$ $ $ $ $ $ $ $ $ 5,00 $ $ 24,00 24,50 25,00 25,50 IMC médio (kg/m2) 7 Figura 5 Correlação entre o IMC médio parcial e a prevalência de obesidade em 26 capitais brasileiras (homens – 20 a 59 anos) Prevalência (%) obesidade $ Linear Regression $ 15,00 $ $ $$ $ $ $$ $ $ 10,00 $ $ $ $ OB-MASC10POND = 1,08 + 0,37 * MÉDIAMASCP $ R-Square = 0,00 $ $$ $ $ $ $ 5,00 $ $ 23,50 24,00 24,50 25,00 IMC médio (kg/m2) Na tabela 1 constam os coeficientes de correlação de Pearson, com os respectivos valores de p, para ambos os gêneros e por faixa etária. Verifica-se que os valores encontrados para as mulheres são superiores aos encontrados para os homens, em todas as análises. Nas análises não estratificadas por faixa etária (20 a 59 anos), observou-se, entre as mulheres, uma correlação positiva forte entre a prevalência de obesidade e o IMC médio total. Já para a população masculina, tal correlação mostrou-se moderada. Esses resultados foram estatisticamente significativos para ambos os gêneros. Com relação ao IMC médio parcial, somente para o gênero feminino evidenciou-se uma correlação positiva, ainda que moderada. Quando realizada a estratificação por faixa etária, constatou-se uma forte correlação positiva entre o IMC médio total e a prevalência de obesidade, nas duas faixas e em ambos os sexos, exceto entre os homens na faixa dos 20 aos 39 anos, para os quais tal correlação mostrouse fraca. Já nas análises realizadas com o IMC parcial, não foi encontrada uma boa correlação, independente do sexo e da idade. Para ambos os gêneros, as correlações observadas na segunda faixa etária (40-59 anos) foram maiores em relação à primeira faixa de idade (20-39 anos). 8 Tabela 1 Correlação linear (Pearson) entre a o IMC médio total e parcial e a prevalência de obesidade na população adulta (20 a 59 anos) residente em 26 capitais do Brasil, em 20022003, segundo sexo e faixa etária. IMC MÉDIA TOTAL FAIXA ETÁRIA 20-39 ANOS MÉDIA PARCIAL MÉDIA TOTAL 40-59 ANOS MÉDIA PARCIAL MÉDIA TOTAL MÉDIA PARCIAL 20-59 ANOS MASCULINO FEMININO r p-valor r p-valor 0,405 0,040 0,849 0,000 -0,107 0,604 0,159 0,439 0,763 0,000 0,892 0,000 -0,157 0,445 0,248 0,222 0,595 0,001 0,855 0,000 0 045 0 827 0 589 0 002 Os resultados encontrados a partir da análise de regressão linear bivariada são apresentados na tabela 2. Para os homens, sem estratificação, uma diminuição de uma unidade de IMC médio da população, reduziria, em média, 4,0% (IC 95%: 1,7 - 6,3) a prevalência de obesidade. Entre as mulheres, essa redução seria, em média, de 3,4% (IC 95%: 2,6 - 4,3). Quando utilizou-se o IMC médio parcial, não se observou uma associação estatisticamente significativa para os homens, ao contrário do observado para as mulheres, cujo coeficiente de regressão pouco variou em relação ao IMC médio total. Ao se estratificar por faixa etária, somente os resultados dos modelos realizados com o IMC médio total apresentaram significância estatística. Na faixa de 20 a 39 anos, os coeficientes de regressão encontrados foram maiores para as mulheres (3,4 vs. 2,3), enquanto na faixa subseqüente, os homens apresentaram valores superiores (5,7 vs. 5,5%). Independente do sexo, As reduções médias potenciais da prevalência de obesidade associadas à diminuição de uma unidade de IMC médio mostraram-se mais elevadas nas idades mais avançadas quando comparadas às jovens. Os coeficientes de explicação (R2) foram, via de regra, mais elevados nas análises envolvendo o IMC médio total, a população feminina e a faixa dos 40 aos 59 anos. Destacam-se 9 os modelos relativos às mulheres, nos quais o IMC médio total foi capaz de explicar cerca de 70% a 80% da variabilidade da prevalência de obesidade observada entre a população adulta feminina residente nas capitais do Brasil em 2002 e 2003. Tabela 2 Análise de regressão linear bivariada da prevalência de obesidade em função do IMC médio (total e parcial), segundo gênero e faixa etária nas 26 capitais do Brasil, 2002-2003. FAIXA ETÁRIA SEXO MASCULI NO FEMININO MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA PARCIAL MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA MÉDIA PARCIAL 20-39 ANOS 40-59 ANOS 20-59 ANOS 20-39 ANOS 40-59 ANOS 20-59 ANOS ß0 - 47,115 23,358 - 135,212 61,059 -89,524 ß1 2,253 - 0,658 5,741 - 1,955 3,994 p-valor 0,040 0,604 0,000 0,445 0,001 IC 95% 0,110 ; 4,396 - 3,240 ; 1,925 3,691;- 7,792 - 7,148 ; 3,238 1,723 ; 6,266 R2 0,164 0,011 0,582 0,025 0,354 1,080 - 72,067 - 12,218 - 123,962 44,671 -72,751 0,372 3,405 0,865 5,470 2,515 3,439 0,827 0,000 0,439 0,000 0,222 0,000 - 3,109 ; 3,854 2,510 ; 4,299 - 1,403 ; 3,134 4,305 ; 6,634 - 1,621 ; 6,650 2,558 ; 4,319 0,002 0,720 0,025 0,796 0,062 0,730 -66,327 3,329 0,002 1,407 ; 5,251 0,347 4. DISCUSSÃO & CONCLUSÃO No presente estudo, verificou-se que o IMC médio da população adulta residente em 26 capitais do Brasil está positivamente correlacionado com a prevalência de obesidade, em ambos os sexos. Tal associação mostrou-se mais forte entre as mulheres e na faixa dos 40 aos 59 anos. Apenas entre os homens na faixa dos 20 aos 39 anos a correlação observada entre o IMC médio e a prevalência de obesidade foi fraca. Adicionalmente, estimou-se a correlação entre a prevalência de obesidade e o IMC médio parcial, calculado após a exclusão dos valores extremos de IMC, iguais ou superiores a 30,0 kg/m2, ponto de corte utilizado na definição de obesidade. Com isso, buscou-se estimar o componente independente da associação entre o IMC médio e a prevalência de obesidade, tendo em vista os variados graus de assimetria presentes nas distribuições de IMC analisadas, e 10 sabendo-se também que a média é influenciada pelos valores extremos de uma distribuição. De maneira geral, as correlações relacionadas com o IMC médio parcial foram fracas ou inexistentes, além de não apresentarem significância estatística. A exceção foi o resultado relativo às mulheres com idades entre 20 e 59 anos, para as quais observou-se uma correlação moderada – coeficiente de Pearson (r) próximo de 0,60 -, com probabilidade igual a 0,002 de se rejeitar indevidamente a hipótese nula (ausência de associação). A correlação positiva observada entre o IMC médio e a prevalência de obesidade das populações adultas brasileiras por ora analisadas é indicativa de que a obesidade deve ser entendida não como um problema restrito a grupos populacionais específicos, mas sim de toda uma população. Em outras palavras, pode-se esperar que a obesidade seja tão mais prevalente quanto mais deslocada for a distribuição do IMC de toda a população, no sentido dos valores mais elevados. Tais evidências empíricas sustentam o entendimento da obesidade como uma resposta a um ambiente “obesogênico”, cujo controle requer intervenções no âmbito coletivo, direcionadas a toda população. As estimativas da queda esperada da prevalência de obesidade em decorrência da redução de uma unidade do IMC médio de uma população – variando de 2,3% a 5,7% entre homens nas faixas de 20 a 39 e 40 a 59 anos, respectivamente – explicitam, quantitativamente, tais argumentos. Por outro lado, as correlações fracas observadas após a exclusão dos valores extremos de IMC indicam que as variações da prevalência de obesidade nas populações adultas das capitais brasileiras estariam relacionadas não só ao deslocamento das distribuições de IMC como um todo, mas também a variações nos seus respectivos graus de assimetria, sempre no sentido de valores mais elevados. Nesse sentido, poderia se especular sobre até que ponto o montante de indivíduos obesos seria ou não determinado pelos padrões de IMC vigentes numa população como um todo (ROSE & DAY, 1990). Assim sendo, as correlações mais fortes entre o IMC médio (total) e a prevalência de obesidade observada entre as mulheres podem ser devidas aos padrões assimétricos mais acentuados das respectivas distribuições de IMC em relação às da população masculina. Por outro lado, apenas na população feminina com idades entre 20 e 59 anos se observou uma correlação positiva – ainda que moderada - entre o IMC médio parcial e a prevalência de obesidade, com significância estatística. Análises futuras das relações entre o IMC médio e a 11 prevalência da obesidade devem, portanto, incorporar outros aspectos relativos à distribuição de valores de IMC, tal como o grau de assimetria. Em uma análise realizada a partir dos dados do estudo INTERSALT, baseado em observações de 52 grupos populacionais com idades entre 20 e 59 anos, distribuídos por todas as regiões do mundo, Rose & Day (1990) verificaram a existência de correlações positivas entre a média de pressão arterial, de IMC, de consumo de álcool e de sódio e as prevalências de hipertensão arterial sistêmica, de sobrepeso, alcoolistas e de elevado consumo de sódio, respectivamente. As correlações entre o IMC médio e a prevalência de sobrepeso foram particularmente elevadas, com os coeficientes de correlação de Pearson próximos de 1,0. Após a exclusão dos valores extremos no cômputo do IMC médio, os coeficientes de correlação mantiveram-se em torno de 0,80, ainda indicativos, portanto, de correlações elevadas. Entretanto, no INTERSALT os espectros de variação dos IMC médios – 21,2 kg/m2 a 31,2 kg/m2 - e das prevalências de obesidade – 0% a 51% - foram mais amplos do que o observado no nosso estudo. As relações lineares observadas entre tais medidas foram mais evidentes a partir de valores de IMC médio superiores a 23,0 kg/m2. O fato de os valores médios de IMC variarem dentro de intervalo menor, alcançando valores máximos mais baixos, poderia explicar os coeficientes de correlação mais baixos observados em nosso estudo. Segundo Rose (2000), existem dois tipos de estratégias de prevenção de doenças: a de alto risco e a populacional. Na estratégia de alto risco, as ações preventivas são direcionadas aos indivíduos expostos a um maior risco de adoecimento, ou seja, no caso da obesidade, somente os indivíduos com IMC elevado seriam alvo de alguma intervenção. Uma vantagem de tal estratégia seria a motivação individual, visto que os riscos de adoecimento são mais elevados e, portanto, mais facilmente percebidos. Porém, uma desvantagem é o fato dos indivíduos alvo se sentirem excluídos da sociedade, a partir do momento que deveriam apresentar comportamentos diferentes do restante da população. No caso da obesidade, baseando-se na estratégia de alto risco, somente os obesos deveriam modificar seus hábitos de vida. Em contrapartida, encontra-se a estratégia populacional, a qual se baseia em ações que alcancem a população como um todo, modificando seus hábitos de vida, e, assim, reduzindo a proporção de indivíduos sob um maior risco. Dessa forma, supõe-se que os indivíduos denominados “normais” também seriam responsáveis pela prevalência de determinada doença na população (ROSE & DAY, 1990). 12 A estratégia populacional, no caso da obesidade, tem como objetivo deslocar a distribuição do IMC de uma população em direção a valores mais baixos. Tal objetivo, entretanto, deve ser interpretado com cautela, tendo em vista o padrão das relações entre os valores de IMC e o risco de adoecimento por diferentes problemas, representado por uma curva em formato de J. Assim, num extremo, a obesidade estaria associada a risco mais elevados de desenvolvimento de problemas articulares, hipertensão, doença isquêmica do coração, acidente vascular cerebral, intolerância à glicose e hiperlipidemia (KUMAR, 2002 apud ADAMS & WHITE, 2005). Por outro lado, valores baixos de IMC concorrem com riscos mais elevados para o desenvolvimento de osteoporose, amenorréia, anemias, arritmias e depressão, desordens estas particularmente freqüentes entre aqueles portadores de transtornos alimentares (AUSTIN, 2001). O simples deslocamento da distribuição de valores de IMC para a esquerda implicaria na redução dos segmentos populacionais expostos a níveis mais elevados de IMC – com óbvios benefícios potenciais -, porém, simultaneamente implicaria em um aumento da parcela de indivíduos com baixos valores de IMC, resultando numa indesejável elevação dos riscos à saúde. Assim, o estudo das distribuições de IMC de uma população se faz importante não só para identificar o seu perfil, mas, também, para subsidiar a formulação das propostas de intervenção mais adequadas e o monitoramento dos resultados obtidos. Como já mencionado, espera-se que os resultados do nosso estudo sirvam como evidências empíricas, de natureza quantitativa, para uma abordagem populacional da obesidade. Dentre as suas limitações, destaca-se a premissa de que estruturas epidemiológicas semelhantes estariam presentes, junto às populações adultas das capitais brasileiras por ora investigadas. Ressalta-se, assim, a necessidade da realização de outros estudos, voltados para a caracterização e a compreensão de tais estruturas, responsáveis pela ocorrência e perpetuação da obesidade em populações distintas. Dessa forma, a discussão acerca das vantagens e desvantagens das estratégias de prevenção propostas por Rose (2000) poderia se desenvolver de forma mais apropriada às diferentes realidades sanitárias existentes em nosso país. 13 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADAMS, J. & WHITE, M.. When the population approach to prevention puts the health of individuals at risk. International Journal of Epidemiology, v.34, p.40-43, 2005. AUSTIN, S. B.. Population-based prevention of eating disorders: An application of the Rose prevention model. v.32 (3), p. 268-283, 2001. Preventive medicine, CORONELLI, C.L.S. & MOURA, E.C.. Hipercolesterolemia em escolares e seus fatores de risco. Revista de Saúde Pública, São Paulo, 37(1):24-31, 2003. EGGER, G. & SWINBURN, B.. 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