Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente IDENTIDADES, IMAGENS SOCIAIS E ORGANIZAÇAO DA CATEGORIA DOCENTE VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 1 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente SUMÁRIO COMUNICAÇÕES CIENTÍFICAS Página 12 A INFLUÊNCIA DE AGENTES ESCOLARES NA IDENTIDADE PROFISSIONAL DOCENTE. Eliane Paganini da Silva (FCL/UNESP/Araraquara) 3 A EXPERIÊNCIA DE RIBEIRÃO PRETO MA GESTÃO DA ESCOLA PÚBLICA: A ATUAÇÃO DA PROMOTORIA JUNTO AOS CONSELHOS DE ESCOLA. Adriana de Bortoli Gentil (FCL/UNESP/Araraquara). 20 AS RAZÕES DAS PRÁTICAS CONSOLIDADAS NA PROFISSÃO DOCENTE. Rosa Maria de Freitas Rogério (Faculdade de Educação – USP). 29 EDUCADORES CONTEMPORÂNEOS E O PROCESSO HISTÓRICO NA PRODUÇÃO DE SUA IDENTIDADE PROFISSIONAL. Conceição Aparecida Celegatto. (FE/USP). 39 ESCRITA, ESCOLA E NARRATIVAS: PROCESSO EMANCIPATÓRIO NA TRAJETÓRIA DOS EDUCANDOS ADULTOS. Daiana Cristina Caetano Lopes – Departamento de Didática (FFC/UNESP/Marília) Apoio: PEJA/ PROEX. 50 FORMAÇÃO PARA A DOCÊNCIA: AS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E REMEMORADAS PELO PROFESSOR. Luciana Barbosa Gerbasi; Sônia Maria Vicente Cardoso; Angelita Ibanhes de Oliveira Lima; Renata Sartor (UNOESTE). 55 IDENTIDADE CULTURAL DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA: ALGUNS INDÍCIOS RELACIONADOS COM AS LICENCIATURAS. Silvia Regina Vieira da Silva (UFMS) 62 IMAGENS DE ESCOLA, IMAGENS DE PROFESSORES: A ESCOLA E OS PROFESSORES NO DISCURSO DE PAIS DE ALUNOS. Prof. Luiz Carlos Novaes (Faculdades Integradas de CiênciasHumanas, Saúde e Educação de Guarulhos – SP). 73 O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL E AS ATIVIDADES DE MOVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL. Djinane Fernanda Vedovatto Iza, (PPGE/UFSCar/CAPES); Profa. Dra. Maria Aparecida Mello, (PPGE/DME/UFSCar). 84 O DISCURSO DOCENTE SOBRE OS MATERIAIS DIDÁTICOS. Rosilene Batista de Oliveira Fiscarelli – Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar (FCL/UNESP/Araraquara). Apoio: CAPES. 104 O PROFESSOR FORMADOR E SEU TRABALHO NA FORMAÇÃO INICIAL. Laurizete Ferragut Passos; Ana Lúcia Manrique (PUC-SP). 95 O REGIME DE PROGRESSÃO CONTINUADA NO ESPAÇO ESCOLAR: O OLHAR DOS PROFESSORES. Debora Cristina Jeffrey (IBILCE/UNESP/São José do Rio Preto), (UNIRP – Centro Universitário de Rio Preto). 112 REPRESENTAÇÕES DE PROFESSORAS: REFLETINDO SOBRE O PAPEL DA PROFESSORA DE EDUCAÇÃO INFANTIL. Muriane Sirlene Silva de Assis (UFSCar). 120 REPRESENTAÇÕES EXEMPLARES DO TRABALHO DOCENTE: OS “PROFESSORES DO ANO” DO CENTRO DO PROFESSORADO PAULISTA (CPP) (1970-1984). Rosario S. Genta Lugli (UNIBAN). Pesquisa financiada pela FAPESP. 134 TRABALHO DOCENTE NA ESCOLA PÚBLICA PAULISTA E PROLETARIZAÇÃO. Maria IzauraCação – Departamento de Didática (FFC/UNESP/Marília) . 143 VALORIZAÇÃO X IDENTIDADE: UM PARADOXO DA QUESTÃO MUNICIPAL NA VALORIZAÇÃO DOCENTE COM O FUNDEF. Géssica P. Ramos (UFSCar). 2 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A EXPERIÊNCIA DE RIBEIRÃO PRETO NA GESTÃO DA ESCOLA PÚBLICA: A ATUAÇÃO DA PROMOTORIA JUNTO AOS CONSELHOS DE ESCOLA GENTIL, Adriana de Bortoli (Universidade Paulista Júlio de Mesquita Filho/FCL-Araraquara) A partir dos anos 80, e de forma mais acentuada na década seguinte, inicia-se uma série de reformas educacionais no Brasil, um pacote de legislação educacional que vêem a atender as diretrizes educacionais impostas pelas agências internacionais, como o Banco Mundial. Neste período houve um processo de fragmentação política e também de descentralização da educação que se corporificaram em parte na lei 9394/96 e na lei 9324/96 que criou o Fundef, e que buscava, também, alinhar o Brasil no rol dos países emergentes que tinham metas a serem cumpridas e prazos a serem respeitados. No caso do estado de São Paulo as propostas de descentralização do setor educacional iniciada nos anos 80, passam a ter uma lógica de “mercado” político, ou seja, o processo colocado em curso pela Secretaria de Estado da Educação propõe aos municípios paulistas a assinatura de convênios de municipalização, celebrados entre as duas esferas, sob uma orientação mais política do que técnica. As preocupações neste contexto de reformas e de ajustes estruturais buscavam orientar o Brasil na condução de políticas públicas que garantissem a estabilidade do novo modelo econômico neoliberal. A mudança no perfil do estado brasileiro, vivenciado nas duas últimas décadas do século XX, vinculado as mudanças no cenário internacional, farão parte de minha análise quanto ao que entendemos por estado democrático e a concepção de democracia que se desenvolve nessa investigação. Inicialmente, devemos observar a presença de princípios constitucionais na organização e gestão da escola pública brasileira que é objeto dessa investigação, que sofreu mudanças de forma a atender o novo modelo de gestão, fincado na responsabilidade de todos e não só do estado, côo bem demonstra a Constituição Federal de 1988, que estabelecia em seu artigo 206, inciso VI: “(...) a gestão democrática do ensino público na forma da lei”. No mesmo documento, o artigo 29, inciso XI, passa a incorporar novos atores sociais de decisão nas instâncias públicas e legais: “Iniciativa popular de projetos de lei de interesse específico do município, da cidade ou de bairros, através de manifestação de, pelo menos, cinco por cento do eleitorado”. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 3 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Com esses novos mecanismos abriu-se espaço para a prática da democracia participativa e semidireta, reforçada anos depois pela LDB 9394/96 que em seu artigo 3o. inciso VIII estabelece a: “gestão democrática do ensino público (...)”. O processo de democratização vivenciado pela sociedade brasileira nos anos 80 em muito influenciou a C.F. promulgada em 1988, onde as forças sociais progressistas estavam mobilizadas, onde existia uma grande articulação social com a sociedade civil ocupando o Congresso Nacional, fazendo pressão e apresentando emendas populares, resultando disso uma constituição avançada, introjetando um modelo de estado social e uma democracia participativa, uma constituição que recepciona todas as conquistas, como, os direitos civis, individuais, os direitos políticos, sociais, econômicos e os direitos difusos, tudo o que a humanidade foi conquistando através dos últimos três séculos. No século XX houve a extensão, paulatinamente, dos direitos sociais, como os direitos à educação, à saúde, à previdência, essas conquistas seculares vieram aos poucos se incorporando a esfera do Ministério Público, que a partir de 1988, implementado por um projeto de ação democrática persegue uma sociedade livre, mais justa e democrática, sendo a educação prioridade na área social. Dessa forma o MP passa a agir na implementação de políticas públicas, e em especial na educação, voltada para uma gestão democrática, e, amparado constitucionalmente, enfatizado pelo ECA define sua esfera de ação. Delimitado pelo artigo 21, inciso VI que é de competência do M P: a) Expedir notificações para colher depoimentos ou esclarecimentos e, em caso de não comparecimento injustificado, requisitar condução coercitiva, inclusive pela polícia civil ou militar; b) Requisitar informações, exames, perícias e documentos de autoridades municipais, estaduais e federais da administração direta ou indireta, bem como promover inspeções e diligências investigatórias. E no artigo 129, inciso III da CF 88: São funções do Ministério Público: III-promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. Dentro desse princípio o M P de Ribeirão Preto inicia um trabalho junto à sociedade civil, através de audiências anuais, que acontecem no início de cada ano para discutir com a sociedade e definir as prioridades que o M P deverá observar durante sua atuação. Nos últimos três anos a educação apareceu como prioridade, levando o M P a elaborar um Plano Local de Atuação, onde a educação apareceu como a prioridade das prioridades da Promotoria de Justiça de Ribeirão Preto. 4 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Por outro lado, nos últimos dois anos a Procuradoria Geral de Estado, que é o órgão de cúpula do M P que também tem seu plano de atuação, que é chamado de Plano de Atuação Geral, elegeu na área de Infância a educação como prioridade. O M P de Ribeirão Preto entende que somente através de uma gestão democrática da escola pública com inclusão social, com a participação efetiva da população se garante uma escola de qualidade e que garanta os verdadeiros propósitos de seus usuários; “Na medida em que se conseguir a participação de todos os setores da escola-educadores, alunos, funcionários e pais-nas decisões sobre seus objetivos e seu funcionamento, haverá melhores condições para pressionar os escalões superiores a dotar a escola de autonomia e de recursos. A esse respeito, vejo no conselho de escola uma potencialidade a ser explorada” (PARO. 2003. P.12). Os Conselhos de Escola passaram a ser entendidos pelo M P como os verdadeiros agentes de mudanças no setor educacional, e passou-se a verificar, inicialmente, se os conselhos funcionavam, quais as suas dificuldades, e aos poucos se constatou que era fundamental o resgate dessa instância, enquanto poder de decisão na comunidade escolar. Devido ao aporte de problemas apresentados na área educacional do município, durante as audiências públicas coordenadas pelo M P, resolveu-se atuar na região que nos três últimos anos apresentavam maior demanda, que eram encaminhadas pelas famílias de alunos, mas principalmente pelo Conselho Tutelar III, responsável por essa região do município (Região Sudoeste). A ação da Promotoria da Infância e Juventude diante das demandas apresentadas pautou-se pelo princípio de construção democrática na solução dos problemas elencados, e optouse pela criação de um espaço público, onde todos os conselheiros são sujeitos da ação, enquanto participantes e responsáveis pela elaboração de propostas que dizem respeito à organização e gestão do trabalho escolar. No ano de 2004, foi criado pelo M P o Conselhão, um agrupamento de 14 Conselhos de Escola, onde foram escolhidos cinco (5) representantes de cada conselho escolar para a formação do Conselho regional de Escolas da Região Sudoeste. Cada Conselho de Escola indicou um representante de pais, de alunos, de professores, de especialista e de funcionário das escolas envolvidas. Optou-se por uma forma de organização que não trabalhasse as escolas isoladamente, ou cada conselho isoladamente, e sim, trabalhar pontualmente cada escola no contexto regional, potencializando o grupo. A criação desse novo mecanismo de atuação popular no setor educacional, legalmente concebido através da instauração de um processo administrativo por parte da Promotoria, tem por objetivo verificar e efetivar a participação da comunidade escolar desta região no que diz respeito aos problemas que foram diagnosticados pelo M Pm nos anos de 2002 e 2003. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 5 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A partir das diretrizes traçadas à nível estadual e local definiu-se na esfera municipal uma atuação que priorizasse a questão da gestão democrática da escola púbica, que vem se corporificando na articulação dos conselhos de escolas, e no agrupamento dos mesmos côo uma nova força política local em defesa da escola pública. A investigação está sendo realizada junto ao Conselhão Sudoeste, o primeiro núcleo de estudos e de atuação popular no setor educacional, que tem como regente o Promotor da Infância e Juventude de Ribeiro Preto. E, pensando na condução desta política de intervenção e de ação dos conselhos de escola, percebe-se que ocorre um; “( ) processo coletivo de avaliação continuada dos serviços escolares... articulado por uma estrutura que, em termos administrativos propicie uma efetiva utilização racional dos recursos disponíveis na concretização de fins educativos, e em termos políticos, conduza a uma democrática coordenação do esforço humano coletivo, apta a reivindicar do estado os recursos necessários e a estar em consonância com os interesses das majoritárias camadas trabalhadoras usuárias da escola pública” (PARO. 1997.P__ ). As reuniões do Conselhão, inicialmente foram para estudo e aprimoramento dos novos atores sociais, quanto à legislação pertinente e aos direitos da criança e do adolescente, já que neste caso, faz-se necessário instrumentalizar a população para que suas ações tenham base legal, pois socialmente já são legítimas. A aproximação do promotor com as escolas ocorreu nas próprias escolas, sendo a presença do mesmo um elemento extremamente importante, o que gerou vínculo entre as duas esferas públicas, a escola e o Ministério Público. O grupo sentiu necessidade de sistematizar as suas demandas no setor, e para isso foi elaborado no ano de 2004 um Plano de Ação Estratégico, de forma a organizar coletivamente os problemas que surgiam. Durante os trabalhos foram elencados cinco (5) problemas emergentes, e que mereciam ações a curto, médio e longo prazo, e sem ordem de prioridade, foram: 1. 2. A distância entre a casa do estudante e a escola O comportamento de alunos e educadores, inadequado ao ambiente escolar 3. 4. Baixa cultura de participação no ambiente escolar Excesso de aulas vagas nas Escolas Municipais 5. A inadequação de atendimento no Ensino Médio No transcorrer do ano, foram realizadas várias reuniões com representantes do poder público estadual, municipal, tribunal de contas e demais autoridades ligadas à educação, seja na área de estrutura e funcionamento das escolas, seja na de financiamento da educação, de forma a se realizar um estudo real das condições efetivas de atendimento na rede pública de educação, e a partir de então elaborar propostas para sanar ou mesmo minimizar os problemas enfrentados pelo Conselhão. A presença de representantes do poder estadual e municipal, e mesmo a ação do promotor, nos alerta quanto ao papel do estado como agente regulador da educação; 6 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente “(...) não podemos julgar que a transformação e desenvolvimento do sistema educativo passam, unicamente, pela iniciativa local, sem estado, ou com um Estado cuja função se resumiria a gerir de longe e a verificar a conformidade com as normas, através essencialmente da avaliação” (CARAPETO. _____P.189). Ou que; “(...) o reforço da autonomia das escolas não deve ser encarado como uma forma de o estado aligeirar as suas responsabilidades, mas sim, o reconhecimento de que, em determinadas situações e diante certas condições, os órgãos representativos das escolas (reunindo professores, funcionários, alunos, pais e outros elementos da comunidade) podem gerir melhor que a administração central ou regional, certos recursos” (CARAPETO. ____P.190). Em Malta Campos e em Paro, encontramos uma preocupação com a déia de participação, ambos defendem que a participação da comunidade não seja restrita à escola, que é necessário dinamizar a participação, fazendo com que outras forças sociais, mais organizadas e mais capacitadas atuem juntas, citando, por exemplo, as associações de professores e de funcionários, os sindicatos e os partidos políticos. Nesta pesquisa a articulação com uma ampla margem de participação se processa através de uma ação da promotoria, não vista mais desde a C.F. de 1988 como um apêndice do poder judiciário, mas como uma instituição autônoma em relação aos três poderes e em defesa dos interesses da sociedade civil. A participação, às vezes tão cara aos movimentos populares, enquanto conquista de espaço na elaboração de políticas públicas é entendida por Demo como um processo e como tendência histórica nas sociedades, e que ao longo do tempo foi se constituindo como uma forma de poder e de controle social; “(...) é preciso chegar a um tipo de sociedade marcada pela constituição democrática, tão bem tecida em suas malhas associativas, que a própria democracia se torne oxigênio diário e seja capazes de reagir às intervenções centralistas e autoritárias” (DEMO. 1996. P.34). E neste contexto de participação Demo aponta as conquistas de direitos, paulatinamente, como e enquanto um processo; “(...) a conquista do direito passa normalmente pelas fases do planejamento participativo: tomada de consciência, que descobre a discriminação com injustiça; proposta de enfrentamento prático da questão; necessidade de organização política” (DEMO. 1996. P.63). No Conselhão estão presentes as idéias da participação como conquista de direitos, de organização política democrática, já que o mesmo se propõe a influir na implantação de políticas públicas a nível local, como e enquanto poder de pressão; “(...) é sabido que os serviços públicos somente funcionam a contento se a população os urgir, sobretudo de modo organizado. A burocracia não se desburocratiza a si mesma. Isto é proposta vã, farsante e mesma perversa. A burocracia funciona se a sociedade organizada a fizer funcionar. E isto é um dos baluartes mais fundamentais da democracia, que se chama controle democrático do estado a partir da população” (DEMO. 1996. P.66). VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 7 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O planejamento participativo foi uma das primeiras e mais importantes intervenções da Promotoria no processo de conscientização política e de participação dos conselheiros no ano de 2004, como explicitado anteriormente, reforçando o eixo da gestão democrática na educação. A relevância do estudo da democracia neste cenário de mobilização da comunidade escolar e da Promotoria nos remete ao estudo da história política do Brasil, para podermos dialogar e entender o movimento pesquisado, que de certa forma é o reflexo das mudanças que foram introduzidas nas chamadas reformas educacionais dos anos 80 e 90 e de como a sociedade organizada tem dado respostas públicas para as carências que este novo modelo educacional aponta. No século XX discutiu-se muito sobre a democracia e os seus modelos alternativos, e sabemos que a hegemonia liberal acabou por ser determinante na consolidação dos estados europeus e, também, latino-americanos; “(...) com a globalização suscita-se uma nova ênfase na democracia local e nas variações da forma democrática no interior do estado nacional, permitindo a recuperação de tradições participativas em países como o Brasil” (SANTOS. 2002. P.42). A concepção contra-hegemônica de democracia tão bem desenvolvida por Santos propões um novo conceito de democracia, onde a participação deverá ser ampliada a novos atores sociais, com a inclusão de novas temáticas, redefinindo identidades e vínculos, com o aumento da participação, principalmente local. É um novo foco de participação e de construção do princípio democrático. Novos elementos foram incorporados nessa lógica da participação, onde influir diretamente nas decisões é controlar as mesmas. Santos denomina de terceira onda de democratização o processo de redemocratização e de experiências participativas vividas pelo Brasil nos anos 80 e 90, onde ocorreu uma; “(...) ampliação da democracia ou sua restauração, houve também um processo de redefinição do seu significado cultural ou da gramática social vigente... todos os casos de democracia participativa estudada iniciam-se com uma tentativa de disputa pelo significado de determinadas práticas políticas, por uma tentativa de ampliação da gramática social e de incorporação de novos atores ou de novos temas a política” (SANTOS. 2002. P.56). A demanda por participação da sociedade nos finais do século XX passa a incorporar as temáticas da inclusão, da diversidade cultural aproximando a discussão dos sujeitos e aprimorando a democracia local. Essas novas formas de democracia participativa contemplam a cultura local e mudanças práticas no conceito de democracia, valorizando os atores sociais; “(...) é uma proposta de emancipação social, a partir de práticas que ocorrem em contextos específicos para dar resposta a problemas concretos” (SANTOS. 2002. P.70). 8 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A nova composição de forças, Ministério Público e Comunidade Escolar, aponta para essa nova gramática social emergente, na luta pelos direitos dos cidadãos. A relação estado-sociedade civil, que é desenvolvida nessa pesquisa, sob o princípio democrático já foi objeto de vários estudos, tendo como referência a escola, seja do ponto de vista da descentralização administrativa ou da organização do trabalho escolar. Em Pinto (1994), aprofunda-se a discussão sobre o poder e a função do conselho de escola, entendida como órgão deliberativo e autônomo no ambiente escolar. Já em Militão (1989), propõe-se e entende-se a escola como e enquanto uma organização democraticamente concebida, sem depender do sistema escolar, para isso afirma a necessidade transformadora da educação, buscando recuperar sua pessoalidade das práticas desenvolvidas no interior da escola. Melo (1996) parte por sua vez do conceito de democracia presente na administração colegiada, esses três estudos revelam a importância da gestão democrática na vida escolar e de sua comunidade nos últimos anos, ocorrendo uma valoração da democracia, e a necessidade do exercício coletivo, onde se faz necessário inicialmente, superar a burocracia deste aparelho e efetuar transformações na organização do trabalho escolar e, conseqüentemente do poder na escola. Instrumentalizar os usuários da escola pública e os profissionais da educação para que os mesmos desempenhem os seus papéis, historicamente, dotando a escola de múltiplas possibilidades, transformando-a em um espaço de luta é o que tem se verificado no fortalecimento dos conselhos de escola, que reúnem a um só tempo todos os interessados, sejam pais, professores, alunos e funcionários. O que se tem demonstrado é que os chamados novos movimentos sociais acabam por mobilizar outros segmentos da sociedade, e não apenas os primeiros interessados, no caso, dessa pesquisa, há um envolvimento direto do sindicato do servidor público municipal, de associação de moradores, ocorrendo uma amplitude no movimento que está sendo estudado. O que alimenta essa investigação é o poder de participação, e a existência de um espaço público construído democraticamente, por cidadãos. Verificou-se que nas últimas duas décadas houve um grande processo de municipalização, e muitos municípios têm levado seus governos a operar a política a favor de pessoas, e não da coletividade, reinventando o coronelismo, através de práticas clientelísticas; situação favorecida, hoje, pelo empobrecimento da população, pela falta de educação e de cultura política da população. E, na contramão do momento histórico, um grupo de conselheiros se agrega em torno de questões comuns, organiza-se e institucionaliza-se enquanto grupo representativo de uma comunidade de escolas púbicas; “(...) os movimentos de reivindicação são aqueles que se organizam em torno de demandas por melhorias urbanas de um setor específico (educação, creche), ou em torno de demandas por melhorias urbanas que envolvem diversos setores, mas com organização circunscrita a um determinado território” (OLIVEIRA. 1998. P.108). VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 9 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O movimento ora estudado, não é apenas um movimento de reivindicação, mas, sim avança na co-participação da gestão da escola pública. E para isso, valoriza-se o conselho de escola, identificando os novos sujeitos participantes na elaboração de uma administração aberta à seu público.Assim, um dos objetivos deste estudo é identificar esses novos atores sociais, como, também desenvolver e ampliar no debate acadêmico o estudo de movimentos populares em prol da escola pública, principalmente no momento atual, onde se verifica a fragmentação da sociedade civil e da representatividade de classes, onde as Ongs acabam por assumir a representatividade de interesses de categorias profissionais ou de ações que dizem respeito ao estado. Neste sentido, a ação da Promotoria que se mobiliza para resguardar os direitos constitucionais dos cidadãos passa a ser objeto dessa investigação, já que a mesma enquanto agente da sociedade civil e imbuída de um poder legal desenvolve práticas de agremiação de caráter popular, dando poder de vazão à comunidade, de forma processual e não final. De maneira geral é objetivo, também, mostrar o aspecto formador e, portanto, democrático dessa ação cível proposta pela Promotoria, e construída coletivamente pela comunidade da região sudoeste de Ribeirão Preto. Delimitou-se nesta investigação um estudo de caso, de cunho qualitativo, o que exigiu um longo contato direto do pesquisador com o ambiente estudado. Um fenômeno social específico, que não pode ser analisado em suas partes, mas no seu todo, pois é um fenômeno representativo de interesses comunitários. O método de pesquisa qualitativo proporcionou a vivência e o exercício com o universo pesquisado, de maneira profunda e espontânea. E, por ser uma investigação singular, que tem um valor em si mesmo, devemos, portanto escolher um estudo de caso. Partindo do princípio de que a realidade social não é dada, mas construída socialmente, a pesquisa qualitativa oportuniza a interação e a subjetividade com os sujeitos da pesquisa, aqui, incluindo o próprio pesquisador. Valorizar o mundo empírico nesta investigação é entender que a construção da pesquisa não pode estar dissociada da prática, e sim, buscar sua lógica na teoria, senão é irreal, alienante; “Para as ciências sociais, uma teoria desligada da prática não chega a ser uma teoria. E é neste sentido que muitos diriam ser a prática o critério da verdade teórica” (DEMO. 1987. P.105). Em um ano e meio de pesquisa os dados preliminares evidenciaram que a comunidade escolar é participativa e consciente de seus direitos, iniciando sua ação no município junto ao poder público. O Conselhão passou a desenvolver em seus membros mais atuantes necessidades até então ignoradas pela comunidade, como, ter acesso e conhecimentos de leis, resoluções, que dizem respeito à estrutura e funcionamento da escola, para melhor instrumentalizar sua ação. Os dados revelam até o presente momento que o Conselho Regional de Escolas da Região Sudoeste de Ribeirão Preto ao ser criado possibilitou uma ampliação do debate 10 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente democrático a nível local, aproximando a discussão sobre a educação dos sujeitos. O tema oportunizou uma discussão sobre a ação do estado na defesa do bem comum, sendo a Promotoria, instância pública do estado de São Paulo, trabalhando em benefício da comunidade. A experiência participativa, vivenciada a nível prático e teórico, desenvolveu um refinamento na sua ação, o que tem legitimado a cada dia o movimento estudado. BIBLIOGRAFIA BOGDAN, Robert e BIKLEN, Sari. “Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto. Porto Editora. 1991. BRANDÃO, Carlos R. (Org.). “Repensando a Pesquisa Participante”. São Paulo. Brasiliense. 1984. DEMO, Pedro. “Introdução à metodologia da ciência”. São Paulo. Atlas. 1985. ______. “Participação é conquista”. São Paulo. Cortez. 3a. Edição. 1996. DE TOMMASI, Lívia; WARDE, Miriam Jorge e HADDAD, Sérgio (Org.). “O Banco Mundial e as políticas educacionais”. São Paulo. Cortez. 1996. DEWEY, John. “Democracia e Educação”. Trad. Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São Paulo. Nacional. 1959. FERREIRA, Naura S; AGUIAR, Márcia (Org.). “Gestão da Educação: Impasses, perspectivas e compromissos”. São Paulo. Cortez. 2001. OLIVEIRA, Dênia F; CASTRO, Ulda Eva F. “Estatuto da Criança e do Adolescente”. Brasília. 2004. PARO, Vítor Henrique. “Gestão democrática da Esc9ola Pública”. São Paulo. Ática. 1997. ______. “Administração Escolar: Introdução Crítica”. São Paulo. 12a. Edição. Cortez. 2003. PINTO, José Marcelino de Rezende. “Administração e Liberdade; Um estudo dos Conselhos de Escola à luz da ação comunicativa de Jürgen Habermas”. Tese. Unicamp. 1994. PRAIS, Maria de Lourdes. “Administração Colegiada na Escola Pública”. 4a. Edição. Papirus Editora. 1996. SILVA, Jair Militão. “Democracia e Educação: A alternativa da Participação Popular na Administração Escolar”. Tese. Feusp. 1989. SANTOS, Boaventura de Souza (Org.). “Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa”. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2002. ______. “Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade”. São Paulo. Cortez. 2000. SAVIANI, Demerval. “A nova lei da Educação – LDB”. Campinas. Autores Associados. 1999. THIOLLENT, Michel. “Crítica Metodológica, Investigação Social e Enquête Operária”. São Paulo. Editora Pólis. 1980. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 11 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A INFLUÊNCIA DE AGENTES ESCOLARES NA IDENTIDADE PROFISSIONAL DOCENTE SILVA, Eliane Paganini da (UNESP - Universidade Estadual Paulista Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara) INTRODUÇÃO O termo identidade tem origem latina (iden) que significa igualdade e continuidade. Somos levados a entender identidade profissional docente como um processo contínuo que se vincula à identidade pessoal, mas que está ligada ao vínculo e sentimento de pertença de um indivíduo a uma determinada categoria ou grupo social, a categoria docente, e tendo como possibilidade construir, desconstruir e reconstruir algo que permita dar sentido a seu trabalho. O professor necessita de uma definição mais precisa de sua identidade profissional para se afirmar perante o ensino e até mesmo perante a categoria docente propriamente dita. Assim, o presente trabalho buscou revelar até que ponto a parte administrativa da escola e seus agentes interferem no desenvolvimento dessa identidade. IDENTIDADE PESSOAL, COLETIVA E PROFISSIONAL • Identidade Pessoal Em linhas gerais, o processo de formação de identidade tem início na fase infantil, já que as crianças assimilam traços e características de pessoas e objetos externos. A história da vida de um indivíduo é marcada por uma sucessão de mudanças de identidade; estas mudanças envolvem, necessariamente, a substituição dos traços de identificações anteriores por novos, o que nos permite afirmar que a erradicação de alguma parte do eu interior é o ato pelo qual partimos. A questão da aquisição da identidade é amplamente discutida no domínio sociológico, psicológico, antropológico, dentre outros, sendo abordado por diferentes campos da ciência e podendo ter perspectivas diferentes, diferenciando-se em algumas questões, dependendo do autor que se toma como referência; por isso podem ser encontradas relações tênues e conflitantes quanto à definição do conceito, já que se trata de um conceito polissêmico. Iniciaremos tratando o conceito de identidade no que diz respeito ao indivíduo, em seguida ao coletivo e posteriormente ao profissional docente. Para Berger e Luckmann (1985), a identidade se configura como um elemento chave da subjetividade e da sociedade, formando-se e sendo remodelada através dos processos e relações sociais. As identidades são singulares ao sujeito e produzidas a partir de interações do indivíduo, da consciência e da estrutura social na qual este está inserido, sendo a “identidade um fenômeno que deriva da dialética entre um indivíduo e a sociedade” (p. 230). 12 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente De acordo com Vianna (1999), a identidade pode ser definida essencialmente como algo subjetivo, sendo a identidade “o conjunto de representações do eu pela qual o sujeito comprova que é sempre igual a si mesmo e diferente dos outros” (VIANNA, 1999, p. 51). Considerando esta definição, pode-se afirmar que a identidade individual não é algo estático, mas sim um processo em constante mudança, fornecendo relações entre a experiência individual e a vida social. É possível perceber que alguns autores concordam com a definição do termo identidade e com relação ao processo de sua construção. Segundo Mogone (2001, p.19), para autores como Goffman, Berger & Luckmann, Kaufmann, Dubar e Ciampa, a [...] identidade se caracteriza como um processo de mudança e alteridade, onde os papéis sociais assumidos vão sendo tecidos de acordo com os contextos sociais, podem ser negociados entre os atores envolvidos no processo de identificação, mas não são, de forma nenhuma, uma característica estática ou acabada. Considerando as afirmações acima, pode-se perceber que a identidade não se dá apenas no campo individual, mas também no coletivo. • Identidade Coletiva A identidade coletiva não é decorrência direta da individual, mas sim uma identidade que possui outro “sistema de relações ao qual os atores se referem e em relação ao qual tomam referimento” (VIANNA, 1999, p. 52). Entretanto, existem aspectos da identidade individual que influenciam na coletiva, sendo eles: “a subjetividade, a multiplicidade, a tensão entre mudança e permanência” (p. 53) Com base em diversos autores, Vianna (1999) entende a construção da identidade coletiva como um processo que se reforça através da identidade individual, onde o eu e o futuro é um tanto quanto diminuído e ressaltando apenas algumas preferências e certa continuidade individual. Obviamente que a personalidade influi no comportamento, mas, coletivamente, são as ações e não apenas o indivíduo em si o responsável pela identidade. A identidade coletiva tem como primeira característica a tensão entre permanência e mudança. Essa identidade é produzida por muitos indivíduos que interagem, constroem e negociam repetidamente as relações que ligam uns aos outros, estando em um conflito entre diferentes imagens, considerando que algumas dessas imagens sofrem ou sofreram mudanças e outras se mantêm como referência para a organização. Os condicionantes externos interferem de um modo ou de outro na construção da identidade coletiva, já que, como afirma Vianna (1999, p. 70), “ninguém, individualmente ou coletivamente, constrói sua identidade independentemente das definições sociais elaboradas a seu respeito”. • Identidade Profissional A identidade pessoal e a identidade construída coletivamente são essenciais para definir a identidade profissional do indivíduo. A esse respeito Pimenta (1997, p. 07) salienta que a identidade profissional VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 13 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente [..] se constrói a partir da significação social da profissão [...] constróise também, pelo significado que cada professor, enquanto ator e autor confere à atividade docente de situar-se no mundo, de sua história de vida, de suas representações, de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido que tem em sua vida: o ser professor. Assim, como a partir de sua rede de relações com outros professores, nas escolas, nos sindicatos, e em outros agrupamentos. A identidade profissional não deve ser confundida com a identidade social, mas ambas mantêm uma relação muito estreita. Diz Mogone (2001p. 24) a respeito de Dubar, um pesquisador francês que tem se debruçado sobre a questão da identidade profissional: O trabalho está no centro do processo de construção/desconstrução/ reconstrução das formas identitárias profissionais porque é pelo trabalho que os indivíduos, nas sociedades salariais, adquirem o reconhecimento financeiro e simbólico da sua atividade. (MOGONE, 2001, p.24). Pode-se afirmar que, seja na psicologia ou na sociologia, a identidade deve ser entendida como um processo que dá à constituição do sujeito maior importância, não devendo ser entendida como algo estático e definido (VIANNA,1999). Ou seja, a identidade profissional docente, pautada na identidade coletiva e pessoal, encontra-se na interface entre o psicológico e o sociológico. Nesse sentido, é que a identidade profissional do professor não pode ser tratada somente sob o aspecto psicológico, visto que a profissão docente se insere em um contexto institucionalmente regulado, possuindo elementos eminentemente sociais. As influências que contribuem para a construção da identidade docente seriam os antecedentes sócio-econômicos, o tamanho da cidade natal, as experiências com outros professores, os conselhos de amigos, professores e pais, as identificações com um adulto admirado, as experiências passadas, além de aspectos profissionais específicos, tais como: segurança, prestígio, salário e condições de trabalho. A escolha vocacional e, de um modo particular, a escolha da carreira docente, desenvolve-se com base em duas dimensões complementares: a individual, centrada no conceito do “eu”, e a gradual, centrada no coletivo. Considerando as idéias esboçadas acima, tentamos precisar melhor o conceito de identidade profissional docente, objeto da presente investigação, tomando-a como um processo com todas as características apontadas anteriormente (processo contínuo, subjetivo, que obedece às trajetórias individuais e sociais, que tem como possibilidade a construção/desconstrução/ reconstrução, atribuindo sentido ao trabalho e centrado na imagem e auto-imagem social que se tem da profissão) e também legitimado a partir da relação de pertencimento a uma determinada profissão, no caso, o magistério. 14 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente OBJETIVO O objetivo da presente pesquisa foi o de investigar se os agentes escolares (direção, coordenação, secretários e outros funcionários) de uma determinada Unidade Escolar influenciam na identidade profissional docente. METODOLOGIA: Instrumento de Pesquisa Os dados apresentados são resultados de uma entrevista realizada com 10 professores de 1ª a 4ª séries de uma escola municipal de uma cidade do interior paulista. O instrumento utilizado para a obtenção das informações foi um roteiro de entrevista individual semi-estruturado, guiado por quatro questões principais, quais sejam: a) Que tipos de exigências são feitos a você pela direção da Escola? b) além da Direção? c) Que outras exigências são feitas a você por outros funcionários da Escola, O que você acha que seja atribuição do professor numa escola? Qual sua função? d) O que você acha que o professor costuma fazer e que não é função dele? Por que isso acontece? Procedimento de Coleta e Análise de Dados As entrevistas com os professores foram marcadas previamente e realizadas individualmente após um “rapport” para que os entrevistados se sentissem mais à vontade. As entrevistas foram gravadas e transcritas de modo literal. A análise foi realizada qualitativamente e quantitativamente. Para cada questão, os dez professores emitiram diferentes tipos de respostas, que foram agrupadas em tipos diferentes de avaliações, ou seja, categorias diferentes. Usaremos nomes fictícios para apresentarmos os exemplos dos depoimentos. O que dizem os professores Apresentaremos as quatro questões da entrevista uma a uma com suas categorias e sempre que possível com um ou dois exemplos. É importante ressaltar que as categorias não são mutuamente exclusivas. a) Exigências da Direção Na primeira das questões, foi pedido para que os entrevistados relatassem o que a Direção da escola exigia diretamente do professor. Foi possível estabelecer 4 categorias distintas em que podemos perceber quais as exigências feitas pela direção aos professores e como se dá a interferência destes agentes escolares no trabalho docente. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 15 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente 1) Exigências burocráticas: - uma grande porcentagem (42,8%) relatou a exigência burocrática como sendo a principal exigência feita por parte da Direção da escola. Exemplos: Exigências burocráticas. Entrega de nota, preenchimento de formulários vindos da Secretaria ou da própria escola, e às vezes até de boletins. (Cláudia). - São afazeres de ordem burocrática creio eu, horário de entrada e saída, reuniões para interação dos conteúdos e avaliações dos trabalhos realizados, notas, faltas, etc. (Laura). 2) Festas comemorativas – cerca de 15,7% dos entrevistados mostraram respostas centradas na exigência de organizar ou ajudar a elaborar festas comemorativas ou até palestras oferecidas aos pais. Exemplo: - (...) participar e organizar festas comemorativas, palestras para os pais, coisas desse tipo (Joana). 3) Limpeza – o equivalente a 26% dos depoimentos giram em torno da limpeza da sala de aula. Exemplo: - Parece que tudo aqui é o professor que tem que fazer né, limpar a classe, carteira tem que ficar limpa, então, se não estiver limpa no fim da aula, você tem que pegar os alunos e limpar (Jandira). 4) Tarefas diversas: - 15,5% dos professores relatam que os funcionários cobram diferentes tarefas, como organizar biblioteca, recreio dirigido, não desperdiçar material, etc. Exemplo: - (...) o recreio dirigido, o professor tinha que ficar olhando o aluno no recreio, diretor pressiona o professor no intervalo porque ele também é cobrado da Coordenadora Pedagógica. O diretor é capacho da Secretaria... (Amanda). b) Exigências de outros funcionários Na segunda questão, o intuito foi descobrir se, além da Direção, outros funcionários faziam algum tipo de exigência aos professores e que exigências eram estas. Para esta questão obtivemos respostas de 2 tipos distintos. 1) Secretaria: - A maioria das respostas (80%) apontam a secretaria e seus funcionários como os que fazem exigências ao professor, podendo ser elas de ordem burocrática ou não. Exemplo: - A maioria das exigências chegam até nós por intermédio da secretaria da escola. Às vezes pedem para fazermos coisas como o enfeite para festas, outras como ajudar no trabalho da secretaria (Cláudia). 2) Faxineira/Cozinheira – Apenas 20% relatam a faxineira e a cozinheira como agentes escolares que cobram algo do professor. Exemplo: - Eu dou aula de Artes, e a funcionária da limpeza cobrava muito a limpeza da classe. (... ) as cozinheiras acusavam os alunos de mal educados e elas gritavam com alunos, falavam que a culpa era nossa, então professor ficava em cima par depois não levar bronca (Leliane). 16 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente c) Função do professor Pretendíamos saber qual era a idéia que o professor tinha de sua tarefa dentro da escola. O intuito era o de tentar perceber se o que os professores reconhecem como sendo seu papel, sua função, se referia às mesmas atividades exigidas pelos diversos agentes escolares. 1) Parte pedagógica, ensino - Os professores colocaram como eixo do trabalho docente o ensinar, o compromisso com o aluno. Nesta questão, houve apenas uma categoria estabelecida, já que os depoimentos dos professores foram unânimes, ou seja, todos os entrevistados apontaram como tarefa do professor o fazer pedagógico, o que se refere ao ensino das crianças, o que demonstra uma visão clara por parte desse professores quanto a sua função e sua identidade profissional. Exemplo: - Sinceramente, acho que muita coisa que fazem não devíamos fazer, nossa função é ensinar, atrapalha o rendimento da classe e do professor. Não é obrigação do professor fazer certas coisas, só o pedagógico (...) o pedagógico é dar aulas, corrigir provas, corrigir as atividades dos alunos, etc. (Claudia). - Ministrar aulas, dar recuperação, avaliações, notas, enfim, tudo o que diz respeito ao aluno (Leliane). - (...) ensinar, dar aula, passar noções, participar de reuniões de pais, etc. (Fátima). d) O que o professor faz e não é sua função Perguntamos a cada professor o que ele fazia dentro da Unidade Escolar e que achava que não era sua função. 1) Limpeza: - uma porcentagem de 37,5% apontaram tarefas referentes à limpeza da escola e da sala de aula ou da higiene pessoal do aluno. Exemplo: - Limpar a cabeça do aluno, limpar classe, etc. Não tem quem faça certas coisas, fica tudo para o professor. (...) eu faço mas sei que não devia fazer (Isabela). 2) Enfeite e festas comemorativas – 37,5% dos professores entrevistados reclamam de ter que arrumar a escola para festas comemorativas. Exemplo: Arrumar a escola para festas, mas eu não arrumava, mandava eles (alunos) fazerem, eu ajudava, orientava, mas a festa é par eles e assim eles aprendem a fazer algumas coisas. (Amanda). - O que me irrita muito é enfeitar escola par festa..., eu sei que tem um lado pedagógico às vezes, porque às vezes só visa lucro, mas não acho que eu deva vir em horário contrário a minha aula para arrumar escola, mas muitas vezes eu não vou, digo que não posso, já falei deveria ser estudado um outro jeito par se fazer isso (Fátima). 3) Outras tarefas: 25% dos relatos apontam desempenhar tarefas variadas, tais como levar aluno para casa, servir merenda, olhar aluno no recreio, etc. Exemplo: - Levar alunos para casa, porque ônibus escolar não levou o menino porque ele perdeu a carteirinha e eu levei o menino. Servir merenda, porque estava todo mundo apertado, falta de funcionário. Separar briga de aluno, etc. (Clara). VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 17 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Nesta última questão, é importante ressaltar que todos os professores entrevistados, quando questionados sobre por que isso acontecia, apontaram que a razão desse desvio de função se dava por faltar funcionários na escola para determinadas tarefas. A partir desses dados, podemos perceber que as exigências feitas pelos diversos agentes escolares influenciam no trabalho docente e no desempenho do que ele acredita ser sua função quando estas exigências não são de ordem burocrática, mas sim quando se trata de limpeza da escola, enfeites para festas comemorativas e até tarefas como olhar os alunos no horário do intervalo. Por decorrência disso, pensamos que a identidade desses professores pode estar sendo ameaçada se não estiver bem definida, já que a identidade se constrói aos poucos, gradativamente e continuamente. Esta construção depende da significação que o indivíduo encontra enquanto ator e autor de seu trabalho (PIMENTA, 1997). Se o professor entende que realiza tarefas que não fazem parte de seu trabalho, é porque não atribui significado para tais ações, o que mostra que esses profissionais afirmam a própria identidade profissional quando se recusam a realizar o que entendem ser desvio de função. Os dados mostram que a maioria das exigências feitas pelos agentes escolares não compactua com o desvio de função, considerando que as exigências mais freqüentes são as da direção e da secretaria e são de ordem burocrática, como atribuição de notas, reuniões, etc.; e muitos professores concordam que estas tarefas também se referem ao pedagógico. Apesar disso, há que se levar em conta que, por vezes, os agentes escolares requerem dos professores atividades que confundem a identidade da categoria docente. Isto fica evidente quando se exige que o professor fique cuidando dos alunos durante o intervalo, servindo a merenda, ou ainda limpando a sala de aula. Como afirma Vianna (1999), a identidade coletiva é reforçada através da identidade individual, o que não deixamos de considerar na profissão docente. Entretanto, a personalidade influi no comportamento, mas, coletivamente, são as ações e não apenas o indivíduo o responsável pela identidade profissional de uma categoria. Por isso, as tarefas realizadas pelos professores são tão significativas para investigar sua identidade. CONCLUSÕES Pudemos concluir com esta pesquisa que os diferentes agentes escolares podem interferir de algum modo na identidade profissional docente, mesmo que isto ocorra apenas de maneira sutil. Entretanto, essa interferência perde sua força quando os professores já possuem uma identidade relativamente firme, visto que, mesmo se os agentes escolares exigirem do professor determinadas atividades, eles não as executam quando as avaliam como desviante de sua função, como é o caso da professora Amanda, que não enfeita a escola para as festas, mas sim pede como atividade para seus alunos a confecção dos enfeites. E mesmo quando realizam tais tarefas, têm consciência de que não é sua função realizá-las. 18 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Não é tarefa nossa julgar quais atividades são mais ou menos próprias à identidade docente, mas é através de sua função que o professor cria uma imagem e uma auto-imagem de si para com o seu trabalho. Sabemos que, como afirmam Berger e Luckmann (1985), a identidade é remodelada através de processos sociais e da interação dos sujeitos com a sociedade e o contexto em que este está inserido. Este é um processo contínuo e que pode sofrer mudanças de acordo com as ações do indivíduo. Pensando nisso, entendemos que os agentes escolares com os quais convivem diariamente os professores podem contribuir para uma afirmação da identidade do professor quando não exigem do mesmo atividades que nada têm a ver com a sua função. Diante do processo de desvalorização profissional do professor e da eventual crise educacional que parece ser evidente nos dias atuais, afirmar a identidade profissional docente pode contribuir para mudar este quadro e buscar melhores condições de trabalho para essa categoria. Sem dúvida este é o nosso maior desejo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERGER, P. L. ; LUCKMANN, T. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 1985. MOGONE, J. A. De alunas a professoras: analisando o processo da construção inicial da docência. 2001. 155 f. Dissertação (Mestrado em educação Escolar) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Araraquara. PIMENTA, S. G. Formação de Professores – Saberes da Docência e Identidade do Professor. Nuances, vol III, Presidente Prudente, 1997, p.05 – 14. VIANNA, C. Os nós do “nós”: crise e perspectiva da ação coletiva docente em São Paulo. São Paulo: Xamã, 1999. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 19 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente AS RAZÕES DAS PRÁTICAS CONSOLIDADAS NA PROFISSÃO DOCENTE ROGÉRIO, Rosa Maria de Freitas (Faculdade de Educação – USP) Buscar analisar o que mudou e o que não mudou no modo de ser professor com a implantação dos ciclos nas escolas municipais de São Paulo é uma indagação de grande complexidade e não é nosso objetivo, neste texto, esgotar essa questão. Queremos refletir sobre as razões das práticas consolidadas na profissão docente e sobre as mudanças do modo de ser professor. A primeira questão que deve ser levada em conta é que, na década de 90, houve uma reorganização do sistema de ensino público municipal de São Paulo: passou-se do regime seriado para o regime de ciclos. Com essa reorganização, a concepção de ensino/aprendizagem mudou e essa mudança passou a afetar diretamente o trabalho do professor na escola. Esse professor teve que refletir sobre sua prática e sobre suas ações no campo da docência e precisou lançar mão de recursos que até então não usava. Um exemplo de recurso não muito utilizado no regime seriado é a avaliação diagnóstica do aluno. Essa avaliação possibilita saber que conhecimentos este aluno apresenta e possibilita traçar um caminho pedagógico a partir desses conhecimentos para que o aluno possa experimentar atividades cognitivas significativas para seu aprendizado. Este tipo de avaliação pode ser feito com todos os alunos da sala e pode servir de guia para as propostas de atividade por parte do professor. Outro recurso que passou a ser uma necessidade intrínseca ao regime de ciclos é o acompanhamento individual do aluno. A partir deste acompanhamento é possível oportunizar reais e fecundas atividades pedagógicas de acordo com as necessidades específicas de aprendizagem de cada aluno. A necessidade de mudança da prática docente é inerente à mudança da organização do sistema de ensino. Nessa direção Arroyo (2002: 19) coloca que quanto mais nos aproximamos do cotidiano escolar, mais nos convencemos de que ainda a escola gira em torno dos professores, de seu ofício, de sua qualificação (...). Por isso, as mudanças propostas pela Secretaria Municipal de Ensino de São Paulo vão reverberar na escola através da aceitação ou não por parte do professor, visto que é ele quem vai colocar em prática as propostas das Secretarias de acordo com seu repertório de saberes e experiências. Diante disso e antes de pensarmos um pouco sobre as práticas consolidadas nas escolas e sobre as possibilidades de mudança da ação docente, temos que ter em mente que o estatuto da profissão de professor perpassa por instâncias que vão além dos muros da escola, que são as instâncias institucionais como a Secretaria Municipal de Educação e o MEC, então concordamos com Arroyo (2002: 35) quando este diz que o ofício que carregamos [que os professores carregam] tem uma construção social, cultural e política que está amassada com materiais, com interesses que extrapolam a escola. 20 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Sobre a questão das práticas consolidadas, utilizaremos os dados colhidos em outubro de 2003 através de um questionário elaborado pela equipe do projeto A reconstrução da profissionalidade docente no contexto da organização do ensino em ciclos2, que buscava saber através do discurso escrito dos professores a Identificação de interesses, problemas e as aspirações vividas no trabalho educativo durante este [aquele] ano letivo. Neste questionário havia quatro questões direcionadas sobre o trabalho docente. Havia também a possibilidade do professor que estivesse respondendo ao questionário se identificar ou não. 12 professoras responderam ao questionário e 6 se identificaram. Para a análise destes dados resolvemos identificar as professoras por letras de A à L, para manter a identidade delas em sigilo. As questões presentes no questionário dizem respeito diretamente ao ‘ser professor’, uma vez que coloca em evidência a opinião dos professores sobre assuntos intrínsecos às suas práticas. A primeira pergunta era: quais os grandes desafios que você tem enfrentado ao dar aulas numa escola organizada em ciclos? A professora A respondeu que é ciclo apenas no nome, pois o trabalho desenvolvido é de série. Falta continuidade do trabalho desenvolvido a cada ano. Há um número excessivo de alunos por classe. A professora D respondeu que Há impossibilidade de acompanhamento individual [de alunos com necessidades específicas de aprendizagem]. Outro desafio apontado pela professora J é Conseguir romper com a seriação, mesmo quando a organização escolar é em ciclos e saber o que fazer e como fazer com aqueles alunos que apresentam dificuldades e não acompanham as atividades propostas. Com clareza em sua argumentação a professora K escreveu que O trabalho em ciclos requer uma formação, discussão coletiva, planejamento integrado e mudança de estrutura anteriores à sua implantação. O que aconteceu na rede pública (inversão dos fatos) provocou um considerável desastre de amplitude incalculável e, para milhares de alunos, irreparável. Tendo em vista as respostas das professoras é perceptível que elas ainda estão ‘se adaptando’ à organização da escola em ciclos. Isso nos preocupa bastante visto que o regime de ciclos (no ensino fundamental há dois ciclos de quatro anos) foi implantado na rede municipal de ensino de São Paulo em 1992. Portanto faz 13 anos que estas professoras estão se adaptando aos ciclos e elas ainda não sabem direito como lidar com este tipo de proposta educacional escolar. Quando se altera a proposta do sistema de ensino se altera o modo de ser professor. O professor que trabalhava com o regime de seriação, antes da implantação dos ciclos, lidava com questões, por exemplo, como: reprovar ou aprovar o aluno ao final de uma série para outra e avaliar exclusivamente ao final de cada bimestre. Na proposta dos ciclos o professor estaria constantemente avaliando o aluno, de forma a ‘compensar’ suas dificuldades no decorrer do ano letivo e não somente em épocas de recuperação. Além disso, não há reprovação ao final de um ano letivo para outro. Somente na passagem de um ciclo para outro é que há a possibilidade de VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 21 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente reprovação. Isso nos intriga bastante porque se no quarto ano do ciclo I do ensino fundamental o professor perceber que seu aluno não está alfabetizado, o que deve fazer? Reprová-lo, pois ele não tem condições mínimas de acompanhar o primeiro ano do ciclo II? Aprová-lo e permitir que este aluno chegue analfabeto ao ciclo II? Deixar o aluno no 4.º ano de novo ou mandá-lo para o 1.º ano? Esses nós da questão da avaliação e da reprovação são obstáculos ao trabalho do professor nessa escola organizada em ciclos. Como lidar com esses obstáculos segundo a ótica do ensino em ciclos? Talvez seja isso que as professoras necessitam saber para que o ciclo deixe de ser um desafio para elas e se torne uma realidade. Se existem esses desafios para o desenvolvimento do trabalho dos professores no sistema de ensino em ciclos podemos entender que o modo de ser professor mudou em relação ao regime em série. A segunda pergunta do questionário era: O que mais lhe incomoda no trabalho que você está realizando neste momento? A professora A disse que é Saber que no ano que vem ‘ele’ não terá continuidade. E a professora G também aponta este aspecto da não continuidade do trabalho realizado com o aluno. As professoras B, D, H, J e K colocaram que é a dificuldade em lidar com os diferentes ritmos de aprendizagem dos alunos numa sala superlotada. Como trabalhar com ritmos diferentes numa mesma classe com 40 alunos? Estas professoras têm como centro de suas preocupações as questões de como o aluno vai se apropriar do conhecimento e construí-lo, de como não romper com esse processo de apropriação e construção do conhecimento de um ano para o outro e de o que fazer com o aluno que não consegue se apropriar do conhecimento como deveria. Uma das características específicas da profissão docente – que é o trabalho com o conhecimento – está ainda no centro das preocupações das professoras. Tempo, falta de tempo para atender as necessidades dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem e processo avaliativo são preocupações presentes em várias falas das professoras. Pensamos que não há como avaliar o trabalho educativo com o aluno numa escola ciclada se o pensamento do professor estiver centrado na lógica seriada. Por isso há tantas dúvidas em como avaliar o aluno na lógica dos ciclos. Como diria Arroyo (Op. Cit: 177) Sem mexer nos valores, crenças, auto-imagens, na cultura profissional, não mudaremos a cultura política excludente e seletiva tão arraigadas em nossa sociedade. O que muda na velha lógica seriada e nos valores e crenças que a legitimaram por décadas? O que muda no papel social do professor, no seu universo cultural, nos seus valores e crenças? Isso nos leva a pensar que o modo como o professor desenvolve suas atividades na sala de aula com seus alunos precisa ser repensado, pois o papel do professor mudou porque mudou a forma como está organizado o sistema de ensino. Antes era série e um dos objetivos da avaliação era eliminar os que não tinham aptidão e prontidão para seguir adiante dos que tinham. 22 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Agora em ciclos, um dos objetivos da avaliação é fornecer subsídios para que o professor perceba onde o aluno tem dificuldade de aprendizagem a fim de saná-la com propostas alternativas de atividades pedagógicas para que este aluno não se separe dos seus pares de idade. Os ciclos trabalham com a lógica dos tempos do desenvolvimento humano: mesmo que o aluno não tenha adquirido alguma competência em certa idade, essa competência seria suprimida ao longo do trabalho educativo e não punindo o aluno com a reprovação. Qual será a diferença entre alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem dos alunos que não apresentam? Há situações de aprendizagem satisfatórias e outras insatisfatórias? O que as diferencia? Não seria o trabalho do professor? Concordamos com Libâneo (2001: 29) quando este coloca que há (...)novas atitudes docentes(...) [e que o professor precisa] assumir o ensino como mediação: aprendizagem ativa do aluno com a ajuda pedagógica do professor. Cada aluno tem um ritmo cognitivo próprio, não há como nivelar esse ritmo para que todos os alunos de uma classe aprendam da mesma forma. Por isso, o professor poderia propor situações diferenciadas de aprendizagem tendo em vista essa diversidade de ritmos. Analisando as respostas apresentadas pelas professoras que responderam ao questionário podemos corroborar a seguinte idéia de Almeida (1999: 15) que diz que a mudança educacional pressupõe nova maneira de planejar, ensinar, organizar o conhecimento, avaliar, etc. Daí o professor ter que aprender a fazê-lo segundo as novas bases propostas, o que significa que a mudança só se desenvolve dentro das escolas se for concretizada pelo professor. Por isso ela não pode ser imposta por decreto.Atenção especial precisa ser dada à dimensão pessoal pressuposta nesse processo, ou seja, o impacto que a nova proposta tem no modo de pensar e de agir dos professores. Além da ‘dimensão pessoal’, há a dimensão ‘temporal’: o tempo de aprendizagem da lógica do ensino em ciclos – onde um ciclo corresponde a quatro anos – é diferente do tempo da escola – que ainda é anual. O planejamento e a organização do currículo e do calendário da escola pesquisada é correspondente a um ano e não a um ciclo. A prática do ‘currículo’ anual ainda está bastante consolidada nesta escola. Isso nos leva a questionar se é possível dar continuidade ao trabalho pedagógico de um ano letivo para o outro dentro deste contexto do planejamento anual. A continuidade do trabalho pedagógico parece ser incoerente com o planejamento organizado de forma anual. De acordo com o que foi apresentado até agora, o professor não resiste às mudanças apenas para ‘ir contra’ a proposta da Secretaria Municipal de Educação, ele resiste porque há falhas estruturais na organização do ensino em ciclos, como, por exemplo, ter mais de 40 alunos por sala. Seguindo este raciocínio, as razões das práticas consolidadas estão presentes em todas as falas das professoras e demonstram que houve mudanças na concepção ensino/aprendizagem, mas outras mudanças seriam necessárias para que se pudesse fazer um trabalho coerente dentro desta nova perspectiva de ensino/aprendizagem proposta pelos ciclos, como por exemplo: redução do número de alunos por sala e cursos de formação para os professores sobre o funcionamento do regime de ensino em ciclos. Acreditamos que quando o professor tiver efetivamente os meios para trabalhar em regime de ciclos, as práticas consolidadas no regime seriado irão se transformar. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 23 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Retomando o questionário, a quarta pergunta diz respeito direto aos objetivos desta pesquisa: O que significa ser professor/a para você hoje? A professora F trás a questão da falta de limites para a atuação docente Um grande desafio, hoje o professor, muitas vezes, fazem o papel dos pais, assumindo várias funções ao mesmo tempo. A professora J diz que Professor de verdade é aquele que está a serviço do aluno, aquele que se preocupa com a qualidade do que ‘ensina’, que tem no centro de seu trabalho, o aluno. A professora K diz que Não existe teoria que dê conta da realidade, hoje. Mas se considerarmos a maior parte das escolas públicas, ser professor é ter que desenvolver a criatividade, a intuição, o conhecimento (é lógico) e aumentar o coração para fazer a pedagogia do ‘olhar no olhar’. São respostas amplas e vagas, mas que apresentam indícios do que é ‘ser professor’ hoje na realidade da escola pública organizada em ciclos. Estão presentes, nas repostas, a questão do aumento de ‘funções’ para o professor, a questão do ‘jogo de cintura’ necessário no dia-a-dia para que o professor possa articular sua experiência com o contexto cultural e tecnológico oferecido pela sociedade na qual ele está inserido e a questão de ter o aluno e o conhecimento no centro das preocupações docente. O que mudou no fazer docente com os ciclos não está posto diretamente nestas respostas, mas a questão de que o ‘ser professor’ mudou está claro na resposta da professora F. Ainda sobre essa questão da profissão docente e partindo, também, dos dados colhidos nos encontros ocorridos nos horários de trabalho pedagógico coletivo na escola pesquisada, a professora L coloca que o professor é o responsável quando o aluno não aprende L: Porque hoje se o aluno aprende lê é um ótimo aluno, se ele não aprende é o professor que não ensinou, né? Na fala de L há um desabafo sobre o grande desafio que é ensinar algo ao aluno. A função docente de levar o aluno ao conhecimento não pode acontecer se não houver uma relação estabelecida entre o aluno e o professor, portanto, não há culpados e nem heróis, há relações que alcançaram e relações que não alcançaram êxito em sua proposta de aquisição/transformação/ produção de conhecimento. Num dos encontros surgiu novamente a questão de reprovar ou não o aluno: G: eu tô sem dormir à noite, preocupada, inclusive em reprovar o aluno...que mostra pra mim o meu fracasso, certo? Porque eu me sinto fracassada por não ter conseguido. A professora G aponta que o aluno que não alcançou os resultados esperados por ela representa o seu fracasso. Ela diz se sentir fracassada por não ter conseguido com que todos os alunos alcançassem os objetivos propostos por ela. E essa questão de ter que decidir se aprova ou não tal aluno causa um mal-estar a essa professora porque ela afirma não conseguir dormir direito. Na direção do mal-estar dessa professora, lembramo-nos de Esteve (1995: 104) quando fala que grande parte da sociedade, alguns meios de comunicação e também alguns governantes chegaram à conclusão simplista e linear de que os professores, como responsáveis 24 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente diretos pelo sistema de ensino, são também os responsáveis diretos de todas as lacunas, fracassos, imperfeições e males que nele existem. Acreditamos que o professor pode evitar essa responsabilização excessiva a partir do momento que ele tiver clareza de sua função docente, que ele puder agir de acordo com essa clareza e, a partir do momento, que ele tiver condições materiais de trabalho para desenvolver uma proposta pedagógica de acordo com o que pede os ciclos. Tendo em vista todas essas transformações do modo de ser professor, advindas com o regime de ensino em ciclos, partimos do princípio que a profissionalidade3 docente se (re)constrói em cada experiência particular de atuação, visto que boa parte do trabalho no mundo escolar é realizada pela figura do professor. A professora K aponta alguns indícios sobre a profissionalidade docente em construção e seus elementos contemporâneos: K: Mas, eu acho assim, toda vez que se vai fazer algum curso, algum tipo de formação, qualquer coisa ligada ou à Secretaria ou se tem alguém da universidade, é sempre, mais ou menos, essa coisa. As pessoas, realmente, querem saber como os professores estão fazendo pra enfrentar a questão dos ciclos dentro da escola. Porque nunca houve uma teoria, porque sempre tem uma teoria que explica a maravilha dos ciclos, mas, nunca houve uma teoria que viesse falar algumas coisas que facilite no trabalho em ciclos e, também, nunca existiu uma teoria que dissesse quais condições em que o ciclo funciona e, em quais ele não funciona. Quais são os elementos contemporâneos da profissionalidade docente presentes nesta fala de K? Pensamos que a preocupação com o funcionamento do ciclo é uma questão importante e que ainda não está claro para os professores como desenvolver práticas pedagógicas propriamente em ciclos devido às condições materiais de trabalho que estes enfrentam: como fazer um acompanhamento individual de cada aluno numa classe com mais de 40 alunos? E o professor do segundo ciclo do ensino fundamental que tem mais de uma classe, e, por conseqüência, mais de 40 alunos, como pode acompanhar individualmente cada aluno? K comenta que o professor necessita de uma teoria que aponte os meios em que o ensino em ciclos funcione de fato e os meios em que ele não funciona. Outro elemento relevante dessa profissionalidade em construção é a questão da ‘sobrecarga’ de trabalho dos professores e das múltiplas incumbências que lhes são atribuídas: K: Os professores procuram dar conta de muitas incumbências com os alunos, de tudo o que significa essa produção de conhecimento, dos significados, o conteúdo, enfim, tudo o professor precisa estar ali, como se fosse uma galinha protegendo todos os seu pintinhos. E, hoje em dia, todos aqueles problemas que os pais não ficam em casa, os filhos ficam sozinhos e tem problemas emocionais, isso, que não tem aquilo e, que, socialmente. Então, todas essas questões, hoje em dia, quem responde é a escola e, a escola quem é? O professor! Não há como entender o que é específico da função docente sem ter em mente o que está sendo proposto como objetivos educacionais pelos órgãos que organizam os sistemas de educação do município, do estado e do país. Nesta direção, Sacristán (1995: 67) é muito claro ao se colocar sobre a questão da função do professor, afirmando que ela se define pelas necessidades sociais a que o sistema educativo deve dar resposta. A evolução da sociedade VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 25 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente tende a legar à escola um conjunto cada vez mais alargado de funções. Esta evolução da exigência social, especialmente projetada na educação pré-escolar e na escolaridade obrigatória em geral, conduz a uma indefinição de funções. Ainda sobre a questão da função docente, encontramos também uma citação de Isabel Escudero no livro organizado por Villa (1998: 43), em que ela diz que há (...) trinta e duas funções diferentes para o tutor [professor] , personagem que deve lidar como uma fada madrinha com os alunos, um a um (...) com os pais dos alunos (...), com os parentes próximos, com a questão do contexto psicológico e geográfico, com seus colegas professores e, inclusive, consigo mesmo (...). Por todas essas questões, os professores estão estabelecendo alternativas de atuação frente à demanda do ensino em ciclos e frente às demandas sociais que são colocadas à escola hoje: ser psicólogo, assistente social, mãe, pai, médico, terapeuta, sexólogo, consultor sentimental não são características intrínsecas à profissão docente, mas hoje o professor lida também com essas características porque os alunos trazem questionamentos, problemas, dilemas e enfrentamentos que dizem respeito à ordem sócio-emocional. Podemos pensar diante disto que a sociedade delega aos professores funções que não são necessariamente pedagógicas, mas que não deixam de ser educativas. Se a sociedade atribui essas novas dimensões ao trabalho do professor é porque ou ela superestima a capacidade do professor em lidar com essas dimensões, ou ela está tão fragmentada e desorientada que busca soluções/respostas com quem está mais perto e/ou mais disponível. A professora K continua seu relato dizendo que: Então, o que a gente vê, por exemplo, qual seria uma colaboração da universidade diante de todas essas questões, que todos os professores colocam em todas as reuniões. Porque todas as que eu vou os professores colocam, quais estão sendo, hoje, as dificuldades dos ciclos na escola, como vêem os ciclos, como a escola está estruturada e como não está encaixando, pois é como se fosse um quebra-cabeça, onde as peças são totalmente diferentes, não tão encaixando. Isso nos mostra que há uma dificuldade em pôr em prática a lógica do ensino organizado em ciclos porque a escola não oferece os meios necessários para esse tipo de proposta. Quando K fala que ‘as peças são totalmente diferentes, não tão encaixando’, ela aponta para uma questão fundamental da reorganização dos espaços e tempos dentro da escola: o professor continua com a mesma jornada de trabalho que acontecia no regime seriado - com o acréscimo de algumas horas de trabalho pedagógico coletivo; as salas de aulas comportam mais de 40 alunos; não há reprovação entre os anos de um mesmo ciclo, mas também não há um acompanhamento especial eficaz para os alunos que necessitam de atividades cognitivas diferenciadas como reforço paralelo e algumas salas de reforço apresentam 20 alunos com problemas/necessidades de aprendizagem diferentes. As peças não encaixam porque a proposta é de um ensino em ciclos, mas a realidade da escola pesquisada continua a ser a do regime seriado. 26 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente K fala do esforço que os professores – mesmo com todas as dificuldades existentes na escola – fazem para ‘dar conta do recado’ e para desenvolver um trabalho positivo com os inúmeros alunos que eles têm em cada sala: E, os professores estão virando verdadeiros heróis! Porque eles querem encaixar, porque eles recebem 40 e tantos alunos no começo do ano e eles querem entregar esses alunos pra outra série com a consciência limpa. Então, os professores estão virando heróis mesmo. Porque, realmente, tá difícil, não tá impossível, só porque eles se remexem na tumba e conseguem descobrir o que fazer e fazem. E, se você vier aqui, você vê professor xerocando, professor virando aquelas máquinas, professor recortando coisa. Outro dia, eu entrei 9 horas da noite numa sala, porque eu tinha ficado aqui até mais tarde, e uma professora lá, pondo pra secar os trabalhos dos alunos, porque no outro dia ela tinha que entregar pros alunos, pros alunos mandar pros pais. O que significa isso? Os alunos fizeram o trabalho e ele ficou pondo pra secar os trabalhos, pra no outro dia, está tudo pronto. E, no outro dia ele tinha que levantar cedo pra ir pra uma escola, pra depois vir pra cá, pra segunda escola. Então, os professores fazem milagres! Eles estão sendo, são heróis. K aponta algumas saídas possíveis para melhorar o trabalho do professor dentro da proposta do ensino em ciclos: Hoje em dia, o que se faz, ao invés de dizer - precisa de professor auxiliar pra ter ciclos, precisa de menos alunos na sala de aula, precisa de substituto pra quando o professor falta e pra quando o professor vai fazer curso - porque o professor não pode vim dá aula e fazer curso, porque ele não vai render. Como ele vai render no curso, saindo depois de dar aula em duas escolas? Então, precisa ter substituto, precisa ter professor auxiliar. Precisa essas coisas e não é reclamação, porque o professor não quer trabalhar, são coisas necessárias pra que o professor não ter que ficar fazendo milagres. Esse depoimento de K nos mostra claramente que os professores não estão resistindo às mudanças propostas pela Secretaria Municipal de Educação simplesmente porque eles não querem trabalhar de outra forma, eles necessitam de meios que possibilite um trabalho consciente e coerente dentro dessa nova proposta. A resistência por parte dos professores parece acontecer porque estes necessitam de subsídios para transformarem sua prática docente e para orientá-la de acordo com os pressupostos dos ciclos. K termina seu relato da seguinte forma: Os professores são os pilares da escola que segura tudo e, aí, a gente vê que a universidade não dá bola para esses professores. E, quando o professor consegue reclamar um pouco, ele é mal entendido nas suas angústias. Porque eu acho o seguinte, no que a universidade pode ajudar, não vai dar pistas não, pelo menos, ouve esse clamor e coloque no microfone, coloca pra todo mundo escutar. Está muito clara a afirmação de K sobre o professor ser o pilar da escola. Como dissemos anteriormente, o professor é um dos principais responsáveis – se não for o principal por ‘dar corpo’ às propostas educacionais formuladas pelos órgãos administrativos do sistema educativo. K também fala que o professor é mal entendido quando vai solicitar condições apropriadas VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 27 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente para desenvolver seu trabalho com qualidade, e ela pede à Universidade que leve seu apelo para ‘todo mundo escutar’. Que apelo é esse? Entendemos que é o apelo por: melhor organização estrutural da escola para que se possa desenvolver efetivamente um trabalho em ciclos e para que se possa oferecer uma educação formal de qualidade para os alunos; reestruturação da jornada de trabalho do professor; redução do número de alunos por sala; formação continuada para os professores; contratação de professores adjuntos/substitutos/auxiliares; etc. Depois de todo este percurso pela reorganização do sistema de ensino municipal da cidade de São Paulo – do regime seriado para o regime de ciclos – e pelo aumento de demandas sociais legadas à escola e à função docente, nos fica clara a questão de que o modo de ser professor mudou e que as razões das práticas consolidadas estão muito mais ligadas à forma como está organizado o ensino e às novas dimensões da função docente colocadas pela sociedade, do que à resistência – pura e simples – por parte dos professores. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Maria Isabel de. O sindicato como instância formadora dos professores: novas contribuições ao desenvolvimento profissional. São Paulo: FEUSP, 1999. (Tese de doutorado) ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 2002. DOMINGUES, Isaneide. O horário de trabalho coletivo e a (re)construção da profissionalidade docente. São Paulo: FEUSP, 2004. (dissertação de mestrado) ESTEVE, José Manuel. Mudanças sociais e função docente. In:NÓVOA, Antônio (org.). Profissão professor. Porto: Porto Editora, 1995. LIBÂNEO, J. C. Adeus professor, adeus professora?: novas exigências educacionais e profissão docente. São Paulo: Cortez, 2001. SACRISTÁN, J. G. Consciência e ação sobre a prática como libertação profissional dos professores. In: NÓVOA, Antonio (org.). Profissão professor. Porto: Porto Editora, 1995. VILLA, Fernando Gil. Crise do professorado: uma análise crítica. Campinas: Papirus, 1998. NOTA Este texto foi produzido a partir dos resultados de uma pesquisa de Iniciação Científica, sobre profissão docente, orientada pela Prof.ª Dr.ª Maria Isabel de Almeida, na Faculdade de Educação da USP, durante os anos de 2003 e 2004. 2 Projeto em andamento coordenado pela Prof.ª Dr.ª Maria Isabel de Almeida e que está sendo desenvolvido junto a um grupo de 16 professores de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental da cidade de São Paulo. 3 Utilizamos a definição de profissionalidade proposta por Domingues (2004: 60): a profissionalidade a que nos referimos constitui-se no conjunto dos saberes docentes, teóricos e práticos, sintetizados no exercício de ser professor, cujos requisitos, conhecimentos, habilidades e atitudes qualificam o profissional e sua ação. 28 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente EDUCADORES CONTEMPORÂNEOS E O PROCESSO HISTÓRICO NA PRODUÇÃO DE SUA IDENTIDADE PROFISSIONAL CELEGATTO, Conceição Aparecida (FEUSP) 1.- TEMA Quais foram as concepções sobre educação, que circularam entre 1990 e 2003, constituindo parte da identidade do professor contemporâneo? 2. - FONTE NUCLEAR FORMAÇÃO DOCENTE: um estudo nas Atas, Seminários, Anais de Congressos e Debates. 3. - APRESENTAÇÃO O presente estudo pretende investigar as apologias históricas, isto é, as concepções sobre educação balizadoras das ações docentes e, da constituição de parte da identidade do professor contemporâneo. A temática da aprendizagem profissional docente tem sido objeto de investigação de diversos pesquisadores. Nesse sentido, podemos encontrar diversos estudos voltados à compreensão do sistema educacional, bem como a forma pela qual esse sistema tem sido apreendido, reproduzido e modificado pelo professorado, num processo de inter-ação. O homem como ser sócio-histórico, apresenta-se potencialmente capaz de conhecer o passado do qual se apropriou, de analisar e de refletir sobre a trajetória, que tem norteado as suas ações. Possui, portanto, o suporte necessário para protagonizar a mudança de paradigmas e a dimensão relacional dos seus saberes. A afirmação contida em grande parte dos discursos dos professores, a respeito da distância entre formação e exercício da profissão, nos impulsiona a buscar causas históricas, que de alguma forma, justifiquem tais vazios e contradições inerentes ao processo de profissionalização. 4. - OBJETIVO O tema problematizado nesse estudo tem por objetivo investigar e fundamentar, as perspectivas históricas, que tem atuado e/ou influenciado a profissionalização do ator educacional, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 29 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente conferindo-lhe os contornos de sua identidade atual, contextualizados em decisões, escolhas e ações em sala de aula e no interior do cotidiano escolar. A formação profissional docente, com seus respectivos embates, nos remete a busca de fontes, capazes de ampliar a compreensão, sobre a construção e a legitimidade das ações que constituem o universo profissional do professor no decorrer dos anos. Com base na perspectiva de efetuarmos uma análise dinâmica e abrangente, capaz de abarcar diferentes reflexões sobre o tema e, de flexionar idéias, por meio de estudos diversificados, foi escolhida como fonte nuclear: as atas e anais de congressos, seminários e debates. Tais instrumentos constituídos por uma série de coletâneas de textos, histórias de vida de professores (oral e escrita), e artigos de pesquisadores do Brasil e do mundo, representam a possibilidade de estruturação e sistematização de um estudo sedimentado em território amplo e fértil, à germinação de novas percepções e, com isso, outras investigações. Gatti (1996) afirma que o professor como ser em movimento possui valores, estrutura, crenças, atitudes e age de modo pessoal, que é a parte de sua identidade. Mas essa identidade é fruto de interações sociais, de expressões sociopsicológicas adquiridas de aprendizagem e de formas cognitivas. A interpretação da realidade social vem sofrendo influência de novas tentativas para a sua re-criação ou ressignificação. Assim, de acordo com Ferrarotti, toda práxis humana é reveladora das apropriações que os indivíduos fazem das relações sociais e das próprias estruturas sociais, “interiorizando-as e voltando a traduzi-las em estruturas psicológicas, por meio da sua atividade desestruturante-reestruturante”.(Ferrarotti, 1988, p.26). Em última análise essa investigação pretende revelar dados significativos, e situar a ação docente no espaço e no tempo, isto é, como produto de um passado, produtora de um presente e de um futuro; capaz, portanto, de caminhar rumo ao desenvolvimento de contínuas competências extraídas do seu próprio repertório social, no qual atua e é, ao mesmo tempo, receptiva, influencia e é influenciada, constituindo a intersubjetividade que a configura. 5. - METODOLOGIA Os artigos integrantes do presente estudo foram selecionados a partir do levantamento de temas, que circularam no período determinado. Dessa forma, foram separados, inicialmente os títulos, que possuíam palavras como: formação de professores, educação, memória e história da educação, instituições escolares, cultura escolar, prática pedagógica, inovações e reformas educacionais, campo educacional. Após a seleção baseada nesses indicadores, foi realizada uma leitura exploratória, que possibilitou a separação de artigos pertinentes à investigação em questão. Os textos/artigos foram, então, distinguidos em três categorias, que tornaram possível a organização desta pesquisa. 30 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A categoria denominada Concepções sobre a educação, utilizada para compor o trabalho de investigação ora descrito, foi organizada por textos, artigos, debates, pesquisas e reflexões, cujos principais títulos referem-se à formação de professores, inovações e reformas educacionais, campo educacional, teorias de ensino-aprendizagem, memória e história da educação, saberes especializados, associativismo, legislação e formação docente, política educacional. As produções selecionadas para esse trabalho, constituem parte do material apresentado nos Congressos realizados no período de 1990 a 2003, por especialistas e profissionais ligados à educação, autoridades governamentais e pesquisadores do Brasil e do mundo. A segunda categoria denominada Exercício Profissional Docente ou Práticas Pedagógicas, foi organizada por artigos, textos, pesquisas e reflexões, cujos títulos descrevem a dinâmica profissional, o exercício da docência, as inovações na prática do professorado e a didática, presentes nos Congressos analisados. A terceira categoria integrante deste trabalho – Instituições Escolares – foi composta por textos, artigos, pesquisas e reflexões, cujos títulos descrevem estudos sobre as instituições de ensino, o cotidiano escolar, a institucionalização da escola pública,o regimento escolar, o projeto político pedagógico, a integração entre a Universidade e a Escola de 1º e 2º Graus. Os textos em questão foram categorizados em função do título, para efeito de classificação e de organização do trabalho, muito embora, possamos observar no conteúdo dos textos, a presença de mais de uma categoria. Além disso, o estudo efetuado permitiu que detectássemos as categorias Exercício Profissional Docente e Instituições Escolares, com maior freqüência no interior de textos com títulos diversificados. Na análise dos artigos foram considerados dois eixos principais. O primeiro referese ao estudo sobre a fonte nuclear utilizada, isto é, sobre o II Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação, e sobre o Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores (I, II, III, IV, V, VI, VII), evento realizado em 1990 – 1992 – 1994 – 1996 – 1998 – 2001 e 2003, respectivamente. O estudo da fonte principal tem por objetivo, facilitar a análise sobre o espaço ocupado pelos eventos em nível nacional, a reflexão sobre a abrangência e a circulação dos temas apresentados, bem como sobre as publicações realizadas e os respectivos autores. O segundo eixo considerado refere-se à análise de conteúdo dos textos/artigos, cuja natureza qualitativa, nos impulsionou a definir alguns critérios como: classificação dos textos (debate/ reflexão, experiência, pesquisa), ano de publicação, dados referentes aos autores, idéias centrais e argumentos utilizados pelos mesmos, breve descrição das pesquisas realizadas e das respectivas conclusões. O quadro I esboçado abaixo permite a visualização da primeira categorização realizada, e da quantidade de textos/artigos, sobre os quais incidiu uma nova seleção, que possibilitou a definição de uma amostragem menor, porém capaz de compor com legitimidade o objeto de estudo em questão. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 31 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente QUADRO I Categoria/período analisado 90 - 92 94 - 96 98 - 2001 2003 Total Concepções Sobre a educação 60 40 75 18 193 Exercício Profissional Docente 30 02 15 04 51 Instituições Escolares 10 05 30 08 53 Como podemos observar, os artigos correspondentes a categoria, Concepções sobre a Educação, aparecem em número significativamente maior, do que os artigos correspondentes as categorias Exercício Profissional Docente e Instituições Escolares, em todos os períodos/anos analisados. Para efeito de sistematização os artigos/textos foram agrupados e relacionados, de dois em dois anos, conforme demonstra o Quadro I. A categoria denominada Exercício Profissional Docente, aparece no ano de 1990, com uma freqüência relativamente grande, mas diminui significativamente nos anos subseqüentes. Os artigos cujos títulos tratam das Instituições Escolares, oscilam em relação à freqüência, aparecendo em número maior no período 1998 - 2001. Contudo, em 2003 o tema aparece em quantidade ainda maior, do que aquele que trata do exercício profissional ou da prática pedagógica. Convém ressaltar que, no período 1998 – 2001 foram considerados dois Congressos: II Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação e V Congresso Paulista sobre Formação de Educadores. Em relação à classificação podemos verificar abaixo nos Quadros II, III, IV e V, respectivamente, que a natureza dos artigos/textos foi analisada, no período de dois em dois anos, utilizando-se o mesmo procedimento considerado para a categorização. Quadro II Categoria/classificação Debates/reflexões Experiências Pesquisa Total período 90 - 92 90 - 92 90 - 92 90 - 92 Concepções sobre a educação 39 06 15 60 Exercício Profissional docente 11 02 27 40 Instituições Escolares 32 05 01 04 10 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Quadro III Categoria/classificação Debates/reflexões Experiências Pesquisa Total período 90 - 92 90 - 92 90 - 92 90 - 92 Concepções sobre a educação 39 06 15 60 Exercício Profissional docente 11 02 27 40 Instituições Escolares 05 01 04 10 Quadro IV Categoria/classificação período Concepções sobre educação Exercício profissional docente Instituições Escolares Debates/reflexões 98 - 2001 Experiências 98 - 2001 Pesquisa 98 - 2001 Total 41 02 32 75 04 - 01 05 17 03 10 30 Quadro V Categoria/classificação período Concepções sobre educação Exercício profissional docente Instituições Escolares Debates/reflexões 2003 Experiências 2003 Pesqui sa 2003 Total 2003 18 - - 18 04 - - 04 08 - - 08 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 33 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Os artigos estudados, também foram classificados de acordo com os profissionais, que os produziram. O resultado dessa primeira amostragem pode ser visualizado nos próximos quadros. Quadro VI Categoria/profissio nais 90 - 92 Concepções sobre educação Exercício Profissional Docente Profissionais da educação Autoridades governamentais Autores nacionais Autores internacio nais 53 07 60 - 30 - 30 - Instituições Escolares 10 - 10 - Quadro VII Categoria/profissio nais 1994 - 1996 Concepções sobre educação Exercício Profissional Docente Profissionais da educação Autoridades governamentais Autores nacionais Autores internacio nais 38 02 37 03 02 - 01 01 Instituições Escolares 05 - 04 01 Quadro VIII Categoria/profissio nais 1998 - 2001 Concepções sobre educação Exercício profissional docente Profissionais da educação Autoridades governamentais Autores nacionais Autores internacio nais 70 05 70 05 03 - 03 - Instituições Escolares 29 01 30 - 34 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Quadro IX Categoria/profissio nais 2003 Concepções sobre educação Exercício Profissional docente Profissionais da educação Autoridades governamentais Autores nacionais Autores internacio nais 17 01 17 01 04 - 02 02 Instituições Escolares 02 - 02 - A investigação feita nos permitiu verificar que a maior parte dos textos apresentados nos Congressos, corresponde à categoria debate/reflexão, isto é, 131 artigos ou 44% do total encontrado. Os textos classificados como Pesquisa, aparecem na seqüência, com 95 trabalhos apresentados, ou seja, aproximadamente 32%. Os textos classificados como Experiência, aparecem em 13 trabalhos, correspondendo a 4,37% do material selecionado. Em relação aos autores ou apresentadores dos referidos trabalhos, podemos visualizar na amostragem acima, que a maior parte deles, ou seja, 281 são profissionais ou pesquisadores voltados à área educacional, 16 representam autoridades governamentais. A maior parte dos pesquisadores é constituída por brasileiros, 284, enquanto os internacionais constituem um total de 13. 6. – UM ESTUDO SOBRE A FONTE NUCLEAR A construção da identidade docente como tema nos Congressos LusoBrasileiro de História da Educação e Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores. O II Congresso Luso Brasileiro de História da Educação reúne em dois volumes, textos e artigos que representam o intercâmbio eficaz de idéias e propostas, provenientes de pesquisadores do Brasil e de Portugal. Os textos apresentados acrescentam informações substanciais ao entendimento do processo histórico da profissão docente, fornecendo amplo repertório memorialístico, acerca das perspectivas sociais, econômicas, políticas e culturais, que sedimentaram o conjunto de ações adotadas pelos diversos agentes educacionais, com ênfase no professor contemporâneo. O Congresso aconteceu em fevereiro de 1998, na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, e esboçou diretrizes de possíveis investigações futuras sobre temas como: professor – formação – conhecimento – exercício profissional. O Congresso Estadual paulista sobre Formação de Educadores teve início em 1989, quando um grupo representado por Raquel Volpato Serbino, direcionou a organização do primeiro evento, mesmo num delicado momento político, caracterizado por ações radicais do VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 35 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente governo Collor de Mello, como bloqueio das contas correntes. O objetivo de ampliar o debate na área de educação escolar prevaleceu e o Congresso, realizado então bienalmente, cresceu, multiplicou o número de participantes, tornando-se um evento de referência. Os temas abordados têm privilegiado desafios e problemas ligados a área educacional no Estado de São Paulo, a formação docente, as Licenciaturas, a Pós-Graduação em Educação e a Formação Continuada. Os conteúdos dos artigos mostram-se capazes de sustentar as concepções, que têm circulado ao longo do tempo na área educacional, isto é, os elementos político-sociais, culturais e institucionais formadores da identidade do professor contemporâneo. 7. – A IDENTIDADE DOS PROFESSORES CONTEMPORÂNEOS VISTA DE ACORDO COM AS CATEGORIAS: CONCEPÇÕES SOBRE A EDUCAÇÃO; EXERCÍCIO PROFISSIONAL E INSTITUIÇÕES ESCOLARES. A leitura exploratória dos artigos nos possibilitou a delimitação de uma amostragem constituída por vinte e quatro textos distribuídos entre as categorias descritas, capazes de compor com legitimidade o objeto de estudo. A categoria - concepções sobre a educação - representa e reúne o maior número de trabalhos apresentados, conforme podemos conferir no quadro I. Os treze artigos sobre os quais nos debruçamos, para melhor compreendermos a constituição da identidade do professorado, tratam de assuntos bastante variados, embora possamos perceber que no transcorrer do tempo, os embates sobre o magistério, a qualidade da formação docente, a falta de conhecimento sobre a cultura institucional, são assuntos que continuam sem respostas e sem políticas públicas, compatíveis à realidade do ator educacional brasileiro. 8. - CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo sobre a constituição da identidade do professor contemporâneo, através da análise de textos e artigos integrantes dos Anais de Congressos, Seminários e Debates, no período de 1990 a 2003, nos levou a estabelecer três categorias que se articulam de alguma forma: concepções sobre a educação; exercício profissional docente; instituições escolares. Constatamos, então, que através delas os discursos pedagógicos circularam e caracterizaram o tecido pertinente ao sistema educacional, dando-lhe uma decoração própria. Os artigos analisados mostram que as concepções sobre a educação, categoria na qual se encontram inseridos temas como formação docente, teorias de ensino-aprendizagem ou inovações nas propostas pedagógicas, legislação, associativismo, educação à distância, educação inclusiva e tecnológica, correspondem a maior parte dos discursos, trabalhos e pesquisas apresentadas nos eventos, fonte dessa pesquisa. A leitura exploratória e a análise de conteúdo de tais textos revelam, também, que desde 1990 debates e discussões sobre as deficiências na formação dos educadores persistem e, sugestões são lançadas, documentos são emitidos sob a forma de propostas ou referências para a formação docente, como no caso do trabalho realizado 36 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente em 1998 no V Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores (V CEPFE). Tal documento apresentado durante esse evento procurava tratar de todos os pontos nodais referentes à formação inicial, continuada e em serviço dos profissionais do sistema de ensino. Apesar disso, as deficiências e a baixa qualidade dos cursos de formação de professores, continuam sendo discutidas e problematizadas, inclusive em evento realizado em 2003 (VII CEPFE) fato que demonstra a não superação das questões. As condições precárias de trabalho do professor, os baixos salários e a desvalorização do magistério, também, constituem temas tratados em todos os Congressos (1990 a 2003), sem que nenhum desfecho real seja apontado, para a reversão da situação. Em meio a tudo isso que se repete, aparecem os inúmeros textos, artigos sobre as tendências educacionais inovadoras, sobre as diversas competências esperadas para o exercício da docência, num movimento teórico crescente. Assim, educação inclusiva, ensino técnico, tecnologia e ensino a distância, educação de jovens e adultos, educação indígena são títulos que gradativamente compõem os discursos educacionais, principalmente a partir de 1994. Enquanto isso parece que as questões globais, os conflitos centrais que permeiam o sistema educacional, isto é, políticas públicas que pudessem tratar do cotidiano escolar com seus embates, da situação profissional do ator educacional vão ficando sem resposta, vão se tornando objetos de esquecimento. Em relação à segunda categoria denominada nessa investigação “exercício profissional docente”, percebemos que os artigos têm procurado tratar das dificuldades práticas vivenciadas pelos professores em sua formação inicial, bem como durante o processo de profissionalização, que acaba baseando-se na imitação e orientação dos pares ou, muitas vezes, fortalecida em bases empíricas e/ou provenientes do senso comum. A articulação entre formação e exercício profissional, a assessoria da Universidade pública junto ao ensino de 1º e 2º graus constitui alternativa levantada e abordada, especialmente no Congresso Paulista sobre Formação de Educadores (1994-1996), e no II Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação (1998). Todavia, o tema é tratado em pequena escala, constituindo uma categoria pouco trabalhada e, muitas vezes, inserida no conteúdo de outros textos, cuja ênfase é dada às novas concepções sobre a educação. A terceira e última categoria estudada Instituições escolares, embora não tenha uma representatividade tão grande quanto a primeira (concepções sobre a educação), torna-se discutível, principalmente em 1998, devido a avaliação educacional e as medidas legais direcionadas pelo governo FHC. O projeto pedagógico e o regimento escolar, também constituem questões problematizadas no evento em questão. A escola como instituição social, dotada de uma cultura própria, portanto como objeto de estudo a ser privilegiado, para o alcance da melhoria da qualidade do ensino público, é questão tratada nos Congressos, principalmente em 1994 (III CEPFE). Contudo, o assunto persiste, sem que possamos detectar ações pontuais voltadas ao entendimento e a intervenção no cotidiano escolar. O presente estudo, através da análise dos diversos trabalhos, bem como das produções acadêmicas realizadas no período determinado, nos permitiu verificar tendências conceituais e metodológicas, como referências direcionadas aos profissionais da educação, especialmente aos professores. A reflexão sobre tais tendências e sobre a influência das mesmas VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 37 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente na constituição da identidade do professor contemporâneo, mostrou-se importante, embora tenha sido apenas o início de uma investigação maior a ser realizada, para que o processo de “tornar-se” professor possa ser ampliado e visto além dos muros construídos, historicamente, pelos sistemas de dominação, cujas características democratizantes, parecem corresponder mais a uma roupagem nova, dada às relações assimétricas e hierarquizadoras. 9. - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, R.L.L. (Org.) Formação de educadores: desafios e perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 2003. 503p. ______. Formação de educadores: trajetórias e perspectivas. São Paulo: Editora UNESP, 2004. 582p. FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 20. ed. Trad. e org. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. Bibliografia ISBN 85-7038 – 019 – 4. CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 1, 1990, Águas de São Pedro. Rumo ao século XXI. Anais... São Paulo: UNESP, 1990. 118p. CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 2, 1992, Águas de São Pedro. Por um projeto nacional em favor da cidadania. Anais... São Paulo: UNESP, 1992. 108p. CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 3, 1994, Águas de São Pedro. Tempo de escola... tempo da sociedade.Anais... São Paulo: Vunesp, UNESP, 1994. 91p. CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 4, 1996, Águas de São Pedro. Formação do educador, dever do Estado, tarefa da universidade: textos geradores e resumos. São Paulo: UNESP, 1996. 103p. CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES, 5, 1998, Águas de São Pedro. Formação do educador e avaliação educacional. São Paulo: UNESP, 1998. 238p. 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São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999. 38 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente ESCRITA, ESCOLA E NARRATIVAS: PROCESSO EMANCIPATÓRIO NA TRAJETÓRIA DE EDUCANDOS ADULTOS LOPES, D. C. C. UNESP/ Campus de Marília – Departamento de Didática A escrita é um produto cultural, um resultado da atividade humana que nela encontrou uma maneira de se imortalizar e representar suas idéias e pensamentos. Dessa forma, a escrita é de fato, segundo Tfouni (2000, p. 10), o resultado tão exemplar da atividade humana sobre o mundo, que o livro, subproduto mais acabado da escrita é tomado como uma metáfora do corpo humano: fala-se nas “orelhas” do livro, na sua página de “rosto”, nas notas de roda-“pé”, e o capítulo nada mais é do que a “cabeça” em latim. O autor ao mesmo tempo em que organiza seu discurso, seja oral ou escrito, também garante que alguns sentimentos e idéias sejam enfatizadas ou descartadas na escrita de seu texto, e na sua fala. Nas narrativas dos educandos adultos pode ser claramente observado esses aspectos, uma vez que a temática adotada para ser trabalhada com eles trata sobre a questão da Migração brasileira, questões articuladas diretamente às suas lembranças de vida e às suas temporalidades. Sendo assim, o trabalho realizado a partir de narrativas tem como objetivo possibilitar aos educandos uma leitura, social e cultural da sua realidade, pois isso constitui um importante instrumento de luta e de resgate de suas identidades. Dessa forma, as questões que perpassam a alfabetização não são de natureza técnica, mas sim político-ideológica. Para tanto, fez-se necessário para a elaboração do presente trabalho a utilização do referencial teórico em abordagem qualitativa de pesquisa, a qual permite apreender a complexidade dos processos educativos propostos, e a subjetividade contida nesses processos. A pesquisa qualitativa se caracteriza pelo seu caráter dialógico e pela atenção despendida aos casos de maneira singular, considerando a presença dos processos subjetivos na educação do sujeito, influenciado tanto pelo individual quanto pelo social, considerando as experiências vividas. Dentro desses conjuntos de novos métodos, pode-se apontar a pesquisa qualitativa, em especial a pesquisa-ação, como uma alternativa, que se supõe o contato direto e constante entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, bem como aponta, nesse caso, os dados coletados dos trabalhos escritos dos sujeitos, que são de fundamental importância, uma vez que neles estão contidas ricas descrições e o contexto em que estes educandos estão inseridos. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 39 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Por ter como uma de suas características o diálogo, este aparece como momento essencial da pesquisa, pois os sujeitos expressam suas subjetividades conforme vão aparecendo sua próprias construções, formando-se assim uma ação-dialógica com o pesquisador e entre si. De todo o exposto, a opção eleita como abordagem de pesquisa foi, propriamente, a qualitativa, pois que aparece como alternativa adequada à natureza do trabalho investigativo realizado, e de acordo com o tipo de informação que se pretendeu obter, é utilizado um ou outro método para a coleta de dados. Nesse trabalho, foram utilizadas a observação e a entrevista. A confiança no pesquisador, a identificação com o trabalho permitiu que várias situações fossem observadas e analisadas, no contexto de sala de aula e na inclusão desses aspectos nas narrativas dos educandos, no entanto, para o desenvolvimento do trabalho, alguns fatos observados tiveram que ser priorizados em detrimento de outros por estarem mais direcionados à temática adotada. As entrevistas, nessa pesquisa, foram realizadas com duas alunas (escolhidas através de sorteio) com o objetivo de discorrer sobre temas relacionados diretamente com a narrativa de vida desses educandos e com a temática proposta para a pesquisa, no caso, a identificação com os problemas sociais da migração. Foram feitas através de gravação direta com um roteiro a ser seguido, e registradas através de transcrição integral, ou parcial quando for necessário, simultaneamente às anotações referentes às emoções manifestadas. Trabalhar com narrativas de vida permite, ao mesmo tempo, envolver a subjetividade dos sujeitos envolvidos, assim como as questões sócio-culturais, compreendendo suas trajetórias e seus porquês, no entanto, faz-se presente inúmeras dificuldades ao escrever, afinal, começar a escrever nunca foi tarefa fácil, em que se faz necessário compreender que existe um leitor imaginário, e que por esse motivo, deve-se organizar o que vai escrever com o intuito de que haja compreensão por parte desse leitor. A escolha do que será escrito também é um processo difícil, pois engloba toda a subjetividade do autor, sua experiência de vida e, principalmente, as dificuldades oriundas da expulsão escolar desses educandos ao colocarem suas idéias no papel, assim também como o medo de errar, ortográfico e semanticamente, os seus escritos. Segue abaixo, transcrição da fala das entrevistas realizadas com cinco educandos do PEJA (Programa de Educação de Jovens e Adultos) do Jd. Bandeirantes/ Marília-SP, que confirmam tais dificuldades supracitadas: É de pôr a letra no lugar certo e de ”falta“ letra também, eu esqueço. Dá um branco e eu “cabo” esquecendo qual letra que eu queria, né. É! A dificuldade é essa. Eu tenho vontade de fazer, mais quando eu “vo coloca”, foge aquela letra ou então eu não lembro. Tenho também dificuldade de pôr a idéia no papel, acho que de trocar as letras eu tenho mais, eu esqueço, esqueço mesmo da letra. (M. T. S.). Olha! Minha dificuldade é assim, eu ... eu vou escrever e eu tenho medo de ..., de errar, e aí eu vou fazendo, e no fim faço errado, “ce” entende? Mais vontade é muita de aprender, só que não tem ..., não tem jeito de aprender. Errar lá as letras, aí eu penso assim: Meus Deus, como é que eu “vo” fazer isso aqui errado e outra pessoa vai “ve” esse erro que eu fiz aqui, outra pessoa vai “ve”. Então eu 40 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente tenho aquele ... aquele medo assim, é mesmo de agir. Quando tem uma pessoa... eu “to” escrevendo, aí chega uma pessoa, aí eu paro. Esse medo não tem jeito “deu” mudar ele, “deu” expulsar ele, “vamo supô”. Não fica difícil para gente, né? Fica. Eu penso muito para escrever a história e não saí Ada, e não é assim. Queria provar pra mim mesmo que eu saí dessa, entende? (A. G. S.). Dessa forma, o que os educandos trouxeram na entrevista como sendo as maiores dificuldades com a escrita, pode-se observar claramente o receio manifestado por eles em errar, pois para o adulto a questão relacionada ao erro traz, dependendo de como as situações em sala de aula são estabelecidas, uma sensação de desconforto para si e perante os outros. Outra questão também presente quanto ao erro, apresenta-se quando entra em cena a preocupação em mostrar para a família os progressos e avanços alcançados em seu diaa-dia escolar, pois isto é cobrado desse educando de forma intensa, uma vez que é pressionado a provar seus avanços escolares, caso contrário, seria interpretado, nem sempre de forma sutil, pelos familiares, que a escola não está realizando um bom trabalho, ou que o educando não está freqüentando a escola, ou ainda, que este é incapaz, que seria melhor desistir das aulas. No entanto, é percebido no corpus dessas falas, que apesar dos medos que sentem em errar e/ou não fazer-se compreendido perante o outro, há nitidamente a presença de um sentimento de luta e motivação que os impulsiona a aprender, e aprender mais; e dentro das suas produções textuais estão presentes tais sentimentos de persistência, e trechos que relatam de uma certa forma a trajetória de vida desses educandos. Por isso, o autor ao mesmo tempo que organiza seu discurso, seja oral ou escrito, garante que algumas situações sejam enfatizadas, ou descartadas, na escrita de seu texto e na sua fala. Nas narrativas dos educandos pôde claramente ser observado esses aspectos, uma vez que a temática adotada trata da Migração brasileira, em especial a nordestina, questão articulada diretamente às suas lembranças. O trabalho realizado a partir de narrativas pretendeu, então, possibilitar aos educandos uma leitura crítica da sua realidade, pois isto constitui um importante instrumento de luta e de resgate de sua identidade. Nessa perspectiva, é possível afirmar que as questões que perpassam a alfabetização não são de natureza técnica, mas sim político-ideológica. Por esse motivo, saber ler e escrever é tornar-se mais “forte”, representar estar auto-confiante, portador de identidade, com auto-estima resgatada, detendo instrumentos de luta. Os adultos quando retornam para a escola, que no passado e ainda hoje os expulsa do direito de aprender, sabem disso, pois é através da escrita que mostram para o mundo, e para si mesmos, que venceram apesar das inúmeras barreiras postas em suas trajetórias de vida, e é por meio dessas escritas, também, que conquistaram, a ainda conquistam, sua autonomia, são emancipados das correntes que os prendem e denunciam o seu opressor. Tais aspectos podem ser observados nos relatos obtidos com os educandos: VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 41 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Torna mais forte de “prova” pra mim mesmo que eu consigo, né, fazer as coisas e sem “te” que “depende” dos outro. Antes eu dependia de todo para escrever, fazer um..., escrever nome porque daí eu ia fazer, eu fazia, esquecia das letras, daí eu tinha que “pedi” para alguém fazer pra mim. Conta, por exemplo, não sei nada, não sei nem “arma” a conta. Eu “tô” conseguindo um pouco, né? Eu acho que muito não, mais um pouquinho eu “tô”. É que eu acho que sou muito assim..., eu me apavoro na hora, né, de escrever; fico nervosa na hora de escrever e acabo esquecendo, né, do que tem que “pô” . (M. T. S.). Ah! Torna sim. Nossa Senhora!se eu soubesse “lê” e escrever eu já era outra. Eu acho que eu teria mais confiança “neu” mesmo. E se eu fosse fazer uma viagem num lugar, então eu tinha medo de me perder, de ficar assim, não ter uma localizar, um endereço, uma coisa, né. Então isso me deixa, me deixava..., se eu tivesse aprendido já era..., eu já “tava”, eu tenho certeza que eu “tava” bem mais forte que eu “tô” agora. Agora, eu não sei se eu “vo” chegar lá. (A. G. S.). De acordo com o que foi relatado na entrevista acima, referente a questão da “autoconfiança” que tem o sujeito quando se apropria do instrumento da escrita, várias questões importantes foram levantadas pelos educandos no que se refere a autonomia e independência que esta proporciona. Por muito tempo estes educandos consideraram-se desacreditados de si mesmos, da mesma forma como eram vistos pela sociedade altamente excludente como esta. Porém, não desistiram de buscar ferramentas para participarem dessa sociedade, ora perguntando para terceiros, ora tentando decifrar como percorrer determinado caminho. Cansados de intermediários, buscaram na escola uma maneira de reverter tal situação e mostrarem aos outros, e a si mesmos, que não assumirão o papel de desacreditados, e alcançar seus objetivos: saber ler e escrever; viver; sair, “usufruir o mundo”. Dessa forma, para os educandos, ler e escrever torna-os “mais fortes” na medida em que possuem maior liberdade de expressão daquilo em que possuem maior liberdade de expressão daquilo que escutam e falam maior autonomia nas decisões; independência de ir e vir pelos “caminhos da vida”. Foi, portanto, a insatisfação com essa situação de dependência que estimulou os educandos a procurar por algo mais, e esse “algo mais”, é reconhecer-se como sujeitos ativos de suas trajetórias, sabendo fazer delas uma leitura crítica e consciente da própria história de vida inseridos num contexto histórico, lendo-as e escrevendo-as. A busca pelo educar-se descarta o “depender dos outros”; apropriar-se da escrita significa não deixar a história morrer, mesmo quando o corpo deixa de ser matéria, a escrita representará a alma”. Afinal, a escrita imortaliza, distancia do esquecimento quando se deixa registrado os grandes e pequenos feitos, mas ela também mata e escraviza aqueles que a ela não tem acesso; condena, muitas vezes, à submissão, dependência e marginalização de uma das etapas do processo emancipatório do sujeito. Sendo assim, existem tantos os benefícios quanto os malefícios decorridos da escrita, pode esta ser utilizada como veneno ou como remédio, e para muitos, a escrita representa a autonomia desejada. 42 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente No processo de entrevistar os educandos procurou-se também identificar o significado de escrever por eles compreendidos: Ah, significa muito! Que aí eu tiro um pouco da cabeça, né, e coloco no papel, né. É! Significa que eu posso fazer alguma coisa, né. Fazer alguma coisa de mim mesmo, né, porque eu “to” provando pra mim mesmo que eu consigo fazer alguma coisa. Não posso fazer as coisas pensando em provar “pros outros”, tenho é que “prova” pra mim mesmo que eu quero e posso fazer. Mais do que “prova” pros outros porque eu..., eu tenho dificuldade até de “fala”. As “vez “ eu não tenho a palavra, que eu ao sei nem dizer, né, aquelas “palavra”, aí eu “cabo” engolindo, porque não falo. Tenho medo de “conversa”, “fala” alguma coisa errado, né? Pra mim mesmo quero “prova” isso. (M. T. S.). Gente! O que eu mais queria na vida era saber fazer isso aí. O que eu mais queria na vida era saber fazer isso aí para mim escrever pra fora, pra mim “manda” uma notícia lá pro meu filho que “ta” lá longe, e “chega” lá essa..., essa notícia acho que é, “óia”, isto que ele ia me responder e eu ia ficar muito satisfeito, de chegar essa notícia, que agora eu não consegui chegar a fazer isso. “Mai” é difícil. (A. G. S.). Pode-se observar que o ato de escrever, para a maioria dos entrevistados, é algo que por eles sempre foi desejado, mas devido às situações desiguais e adversas, como necessidade de trabalhar e/ou cuidar do irmão mais novos, não pôde concretizar-se. Escrever para os educandos adultos, é algo que nesse trabalho, transcende o processo mecanicista da mera decodificação e aplicação das letras, e passa a ser significativo no momento em que da escrita pode ser extraída as suas próprias histórias, e mais, quando se reconhecem como sujeitos ativos do seu processo de ensino e aprendizagem; que permite a eles escrever, denunciar e expressar suas angústias, insatisfações, alegrias, vitórias sem terem de se prender às convenções burguesas da escrita. Isto não quer dizer que não utilizam as normas da Língua, mas que os educandos, ao fazê-la, não se sufocam, ou sufoca aquilo que desejam expressar com seus escritos. Como já defendia Paulo Freire (1999, p. 46): É preciso, finalmente, que, ao aprender , por direito seu, o padrão culto, percebam que devem fazê-lo não porque sua linguagem é feia e inferior, mas porque, dominando o chamado padrão culto, se instrumentam para a sua luta pela necessária reinvenção do mundo. Portanto, escrever para os adultos, significa muito mais do que palavras no papel, significa não depender, não se intimidar, não se restringir a constante espera por ajuda. Escrever é fazer qualquer coisa, é poder mandar notícias para quem está longe, é provar para si mesmo a sua capacidade, antes de provar aos outros e, principalmente, poder realizar, agora, o que no passado lhes foi negado: a educação escolar. O processo que envolve a escrita está permeado por jogos de interesses marcados pelo ajustamento social, condição esta que unida à desigualdade social brasileira expulsou das escolas aqueles que hoje para ela estão retornando: os adultos. Principalmente os que são oriundos VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 43 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente das regiões mais pobres do país, como o Nordeste, interior de São Paulo e Minas Gerais, e que migram em busca de trabalho um pouco mais remunerado, assim consideram, e melhor qualidade de vida, o que pode ser demonstrado logo a seguir. Abaixo, o Quadro 1 contém os motivos que acarretaram a migração desses sujeitos e a data correspondente ao nascimento, para que se possa analisar o contexto histórico-político da época. Já no Quadro 2, estão as respectivas cidades e Estados de origem de cada educando, com a mesma finalidade da primeira tabela. B. L. P. “Eu vim buscar por melhora.” 17/03/1938 R. L. S. “Eu vim em busca de melhorar de vida.” 05/09/1952 M. T. S. “Melhorar na parte financeira.” 26/06/1945 L. B. S. “Vim em busca de uma vida melhor.” 25/04/1944 A. G. S. “Eu vim para São Paulo ganhá dinheiro para ajudá minha família.” 15/01/1933 Quadro 1 - Dados coletados a partir das escritas dos educandos na discussão e produção de texto sobre “Você veio em busca do quê?” B. L. P. São Pedro (Interior de São Paulo) R. L. S. Corair (Minas Gerais – Norte) M. T. S. Ciderópolis (Pernambuco) L. B. S. Novo Horizonte (Interior de São Paulo) A. G. S. União dos Palmares (Alagoas) Quadro 2 - Dados coletados a partir das escritas dos educandos na discussão e produção de texto sobre “Onde e como era o lugar onde você nasceu?” 44 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Antes de retomar o conceito de expulsão dos educandos do seu processo de educação escolar, faz-se necessário definir o conceito de Escola. Aurélio (2004, p.791), define escola como: “(s.f.) 1. Estabelecimento público ou privado onde ministra, sistematicamente, ensino coletivo: escola primária; escola de medicina; escola de corte e costura.” Já Paulo Freire (1980, p. 7), concebe de maneira mais política o conceito de escola: Enquanto categoria abstrata, instituição em si, portadora de uma natureza imutável da qual se diga é boa, é má, a escola não existe. Enquanto espaço social em que a educação formal, que não é toda a educação, se dá, a escola na verdade não é, a escola está sendo historicamente. A compreensão do seu estar sendo, porém, não pode ser lograda fora da compreensão de algo mais abrangente que ela – a sociedade mesma na qual se acha. Definido o conceito de Escola, retoma-se o próprio conceito de exclusão citado anteriormente. Considera-se aqui expulsão, e não evasão escolar, pois não acredita-se que estes sujeitos tenham saído da escola por escolha própria, mas sim por conta de inúmeras situações impossibilitadoras, de acesso ou permanência, na escola, tais como ajudar na complementação financeira da família, e principalmente, por contar com uma escola que não tem a mesma linguagem que a dos filhos da classe popular, e que atende somente aos interesses dos filhos da elite. Com isto concorda Harper et al. (1985, p. 35): A escola brasileira seleciona e exclui os mais pobres: a maioria das crianças que abandona os estudos antes de completar 8 anos de escolaridade obrigatória vem de famílias pobre, do meio rural e dos bairros populosos das periferias das grandes cidades. A escola pública é sem dúvida gratuita, mas há as taxas extras, as caixinhas, o material escolar cada vez mais caro, a condução caríssima, o uniforme obrigatório, entre outras coisas, que acabam tornando o gasto com a escola pesado demais para o bolso dos trabalhadores. E ainda como ressalta Paulo Freire (1999, p.51), essas pessoas na verdade, não ficam de fora da escola, como se ficar ou entrar fosse uma questão de opção. São proibidas de entrar, como mais adiante muitas das que conseguem entrar são expulsas e delas se fala como se tivessem evadido da escola. Não há evasão escolar. Há expulsão. “Hoje mostro que sou capaz, mas por que demorou tanto?” Disse a educanda, L. B. S. em sala de aula. A resposta para esta questão deve ser compreendida dentro de um contexto do sistema neoliberal, o qual incute no sujeito a idéia de que para ele foram dadas todas as condições para que pudesse se desenvolver, e se não “progrediu”, “avançou”, ou “venceu na vida”, foi porque utilizou mal as oportunidades “dadas” pelo Estado. Tal idéia parece ser amigável aos olhos daqueles que dela se beneficiam, mas muito perigosa para aqueles que sofrem interferência direta dela. Deve-se assim, compreender VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 45 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente que as relações de poder existentes na sociedade, e a sua manutenção, são dois dos fatores da sua expulsão e opressão constante. Com isso, “aí está a razão da demora cultural e da resistência à mudança, a resposta do porquê o Brasil Ter caído dentro das fronteiras do Terceiro Mundo.” (BUFFA; NOSELLA, 1991, p.10). E mais, a elite opressora ainda não conseguiu compreender que “somos todos uma imensa senzala das nações capitalistas centrais e de sua superpotência.” (BUFFA; NOSELLA,1991, p. 10). Assim se referiu Graciliano Ramos (1967, p. 40) ao personagem Fabiano na obra Vidas Secas: Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entravalhe na cabeça e saía. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com os bichos. Esse trecho retirado da obra retrata bem as submissões que o sujeito enfrenta devido às relações excludentes e de poder da sociedade. No entanto, não me refiro apenas ao grande número de miseráveis existentes no Brasil, cujo número aumenta de forma violenta e diretamente proporcional ao crescimento da desigualdade social, mas também aos filhos da classe popular cujas condições subumanas de vida os colocam à margem da margem, o que caracteriza e legitima as determinações dos papeis a serem assumidos na sociedade; e a escola, mais do que tudo, contribui para essa marginalização. Neste contexto, assim, a escrita não é neutra, ela perpassa por fatores políticoeconômicos e ideológicos, e novamente, determinando interesses e perpetuando a manutenção de poder de um grupo, como numa dinastia. Se se imagina que a escrita tem como finalidade a divulgação e o acesso às idéias, conhecimentos, isso não está acessível para todos. Pensando dessa forma, pode-se considerar, segundo Paulo Freire (1999, p.16), que as práticas educativas são as diversas formas de articulação que visam contribuir para a formação do sujeito popular, enquanto indivíduos críticos e conscientes de suas potencialidades de atuação no contexto social. E quanto aqueles que conseguem ficar na escola? Como esta vem efetuando um trabalho relacionado com a escrita/experiência de mundo? Provavelmente vem acontecendo de forma mecânica, desprovida de significados, o que eleva cada vez mais a quantidade de barreiras para que a classe popular não tenha acesso à escrita. A inacessibilidade da escola/escrita pode ser considerada sinônimo de escravidão de um povo pois os amarram à estagnação de desenvolvimento tecnológico e cultural da sociedade. A difusão da escrita, por sua vez, é um processo lento, que demanda esforço e luta diante de um tabuleiro de interesses daqueles que se sentem ameaçados quando o conhecimento é socializado e estendido à classe popular, mesmo que de forma completamente desproporcional. Segundo essa mentalidade, o desenvolvimento científico e tecnológico é para poucos, que 46 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente caminhando junto as relações de dominação do povo, põe à margem os herdeiros da classe popular. É importante que o educando experencie em seu processo de aquisição da escrita a utilidade e as diferentes funções que esta tem; o prazer proporcionado durante uma produção textual, e principalmente, o poder incutido no domínio da escrita, utilizado por muitos como instrumento de exclusão do povo, e para outros, como emancipação, denúncia e participação social. Em suma, o sujeito deve compreender-se como sujeito da sua própria história. É interessante que ele se enxergue como sujeito transformador, e que como tal, possa lutar por mudanças estruturais dessa sociedade excludente em que se encontra inserido. Tal aspecto foi muito bem explorado por Paulo Freire (1999, p. 70): O analfabeto, principalmente o que vive nas cidades grandes, sabe, mais do ninguém, qual a importância de saber ler e escrever, para a sua vida como um todo. No entanto, não podemos alimentar a ilusão de que o fato de saber ler e escrever, por si só, vai contribuir para alterar as condições de moradia, comida e mesmo de trabalho. Da mesma forma defende Ricco (1979, p. 25), nem a educação e nem particularmente a alfabetização, representariam, isoladamente, causas de transformações; ao contrário, é na dinâmica da relação de reciprocidade entre a sociedade e a escolarização que vamos encontrar um desenvolvimento social harmônico em todos os seus planos: político, econômico e cultural. Porém, é somente através de uma outra maneira de agir e pensar que é possível levar a viver uma outra educação, assim como defende Harper (1985, p.117): uma outra educação só será viável em larga escala quando a experiência quotidiana de cada cidadão, de cada comunidade ou de cada grupo social – em sua vida e em seu trabalho, em seu modo de comportamento e em suas relações com os outros – se transformar em fonte de questionamento de criatividade, de participação e, portanto, de conhecimento. No entanto, o sistema político-econômico vigente, tenta adequar socialmente o sujeito para que este não questione, não discuta, não critique, apenas aceite passivamente as condições que lhe são impostas. Assim, cotidianamente está presente em nossa sociedade que aqueles que “fogem” dos padrões estabelecidos a serem seguidos, também determinados pela classe dominante e transmitidos pela escola, recebem rótulos como os detentores de uma visão estreita de mundo e que possuem raciocínio elementar, viés este, preconceituoso atribuído à inteligência prática elaborada pelos educandos em suas experiências de vida. A inteligência prática do ponto de vista sociológico, sabiamente, inclui para Tfouni (1987, p.44), VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 47 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente tanto os indivíduos pertencentes as sociedades primitivas modernas, assim como todos os indivíduos ou grupos sociais que, apesar de viverem em sociedades modernas, são delas marginalizados, principalmente por motivos de ordem sócio-econômica. Tfouni (1987, p.50), defende a importância e necessidade de valorizar a cultura popular. Porém, isso não ocorre, uma vez que a escola, limita-se a desempenhar a função de reprodução das desigualdades, e de inculcar uma modalidade lingüística considerada institucionalmente correta, padrão, modelo e bem aceita. É sobejamente conhecido por todos que a escola, enquanto instituição que serve para manter, solidificar e disfarçar as contradições sociais, valoriza o verbalismo e o desembaraço no falar. Deste modo, a linguagem dos indivíduos de inteligência prática, com características antes expostas, fica, na escola, marginalizada, desrespeitada, e ganha conotação negativa. Trabalhar com a popular é “ “abrir-se a alma” da cultura e deixar-se “molhar”, “ensopar” das águas culturais e históricas dos indivíduos envolvidos na experiência.” (FREIRE, 1999, p.1). Com isso, não é possível pensar a escrita ou linguagem, sem considerar o contexto social em que o sujeito está inserido, e isto reflete profundamente na maneira de estar sendo dos educandos, nas suas discussões, nas produções textuais, nesse caso. Novamente, ressalta-se a questão de que a inteligência prática não pode ser desconsiderada, e que seja também considerado o constante estar sendo do educando, assim como suas linguagens, culturas e temporalidades. A escola precisa ser para estes educandos, como deveria ter sido antes, um espaço aberto para debates e reflexões, onde as situações são colocadas em xeque, constantemente questionadas e criticamente compreendidas. Devem encontrar nessa escola, mas não só nela, um meio de emancipação, afinal, a escola não é apenas um espaço físico, menos ainda neutro, mas sim onde as relações sociais se esbarram e as ideologias dominantes mostram suas caras. Contudo, “a questão fundamental é política. Tem que ver com: que conteúdos ensinar, a quem, a favor de quê, de quem, contra quê, contra quem, como ensinar.” (FREIRE, 1999, p.45). A defesa que se faz, segundo Gadotti ( 2000, p.33-34), não se trata de: Negar o acesso à cultura geral elaborada, que se constitui num importante instrumento de luta para as minorias. Trata-se de não matar a cultura primeira do aluno. Trata-se de incorporar uma abordagem do ensino/aprendizagem que se baseia em valores e crenças democráticas e procura fortalecer o pluralismo cultural num mundo cada vez mais interdependente. Por isso que a educação de adultos deve ser sempre uma educação multicultural, uma educação que desenvolve o conhecimento e a integração na diversidade cultural. 48 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente No entanto, há nesse caso, o controle daquilo que este sistema político-econômico considera importante ser transmitido, garantindo que as outras leituras de mundo não sejam feitas, e que o conteúdo trabalhado seja concebido como correto e indiscutível, um artifício carregado de “boas intenções”, mas que ganha dimensões catastróficas quando vem carregado de ideologias, havendo um adestramento da classe popular. Novamente faz-se necessário insistir com essa discussão: garantir o acesso de quem? As práticas educativas devem perpassar por aspectos de contribuição e incentivo à formação critica e consciente do sujeito, mas segundo Paulo Freire (1999, p.64), com quem encerro este capítulo, “nada disso se faz da noite para o dia, mas se fará um dia.” REFERÊNCIA TFOUNI, L. V. Letramento e alfabetização. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2000. ______. A inteligência prática e a prática da inteligência. Arquivos Brasileiros de Psicologia. V. 39, p. 44-56, jul/set. 1987. FREIRE, P. Educação na cidade. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1999. RAMOS, G. Vidas Secas. São Paulo: Martins, 1967. RICO, G. M. J. Educação de adultos: uma contribuição para seu estudo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1979. BUFFA, E.; NOSELLA, P. A educação negada: introdução ao estudo da educação brasileira contemporânea. São Paulo: Cortez, 1991. GADOTTI, M.; ROMÃO, J. E. Educação de jovens e adultos: teoria, prática e proposta. São Paulo: Cortez, 2000. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. Curitiba: Positivo, 2004. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 49 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente FORMAÇÃO PARA DOCÊNCIA: AS EXPERIÊNCIAS VIVIDAS E REMEMORADAS PELO PROFESSOR GERBASI, Luciana Barbosa ; CARDOSO, Sônia Maria Vicente; LIMA, Angelita Ibanhes de Oliveira -UNOESTE; Renata Sartor (UNOESTE) Nesta pesquisa propusemo-nos a investigar o seguinte : Quais são as influências que os sujeitos-professores julgam ter incorporado à sua constituição como estes professores em que hoje se tornaram? Assumindo a postura de que a identidade pessoal e profissional é construída histórica e socialmente, ocorrem – nos as palavras poéticas de Frei Beto proferidas em uma palestra: “ Nossa cabeça está onde os nossos pés pisam”. Fomos, então, colher na memória dos sujeitos, os indícios de como se deu a construção desses professores, o quanto e o que havia restado dentro deles dos velhos mestres do passado e, em que, esses mestres influenciavam nas suas práticas docentes. Arroyo, em seu livro Ofício de Mestre, afirma que “guardamos em nós o mestre que tantos foram. Podemos modernizá-lo, mas nunca deixamos de sê-lo” (2001, p.17). Releva justificar aqui, então, por qual motivo recorremos à memória, tendo em vista a formação e a qualificação do docente. Quanto à memória, deve – se observar: “Somos aquilo que lembramos”. Impossível falar dos percursos humanos sem lançar mão da matéria da memória. Impossível falar de formação e qualificação dos professores sem entrecruzar aspectos da sua vida pessoal e profissional. Uma consideração faz-se necessária. Embora neste trabalho centramos seu material de análise nas memórias dos sujeitos – professores, importaria ressaltar, ainda uma vez, que esta não é uma pesquisa sobre a memória, razão por que não nos dedicamos a um estudo mais profundo desta qualidade mental. Limitamo-nos, no caso, a estudar e a trabalhar apenas com os conceitos que nos oportunizaram o suporte para melhor compreensão do tema aqui enfocado, preservando – lhe sempre o sentido de reflexão e de reconstrução da prática, enfim, do seu teor educativo, em uma última análise, na medida em que o passado ensina. Objetivamos identificar e analisar, por meio dos depoimentos orais colhidos por meio de entrevistas semi – estruturadas sobre a história de vida profissional (tópica) dos sujeitos - professores, as marcas que estes acreditam ter recebido especificamente de seus professores desde os primórdios da escolaridade até o ensino superior. Além disso, tínhamos também por objetivo identificar e analisar quais outros mediadores os sujeitos professores apontam como igualmente importantes para a constituição do seu modelo de ser professor. Tomamos como referencial teórico as concepções apontadas por Vigotski, pela ênfase que sua teoria dá aos processos de constituição do sujeito e por considerar o desenvolvimento 50 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente humano como resultante das inúmeras e freqüentes interações sociais compartilhadas e mediadas por “outros sociais”, no interior da cultura. Esta pesquisa privilegiou a abordagem qualitativa usando, como recurso metodológico para a coleta de dados, a história de vida, através de entrevista-semi-estruturada, cujo conteúdo dos depoimentos foi analisado à luz dos estudos de Bardin, Trivinõs e Minayo. Os sujeitos da pesquisa foram sete professores que atuam na Educação Infantil e no Ensino Fundamental e trabalham na rede particular, municipal e estadual de ensino. A faixa etária dos professores participantes ( N= 7) varia entre 22 e 58 anos; contam com, pelo menos, três anos de experiência profissional e, destes, dois já trabalharam na rede pública e na rede particular, dois apenas em escolas públicas e três apenas na rede particular. A investigação foi realizada em uma cidade do interior do Estado de São Paulo que conta com uma população de aproximadamente 80.000 habitantes, sendo sua principal fonte de renda o comércio e as indústrias. O município conta, neste ano de 2005, com um total de 347 professores que atuam em onze ( 11) escolas estaduais; seis ( 06) escolas particulares e doze ( 12) escolas municipais, localizadas no perímetro urbano, das quais (06) seis atendem na área central, (22) vinte e duas em bairros diversos e uma em um distrito do município, contando, ao todo, com 17.681 alunos. A formação acadêmica mínima exigida, para o ingresso nas três redes de ensino: o particular, o municipal e o estadual, é a de professor do Ensino Infantil e de 1ª a 4ª séries, o Magistério; para o professor de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental, é exigida a graduação na disciplina em que o professor atua. Tanto a rede municipal quanto a rede estadual de ensino têm oferecido aos professores cursos de capacitação em serviço, tendo em vista a melhoria da formação continuada do profissional, visto ser esta uma maneira de melhorar a prática na sala de aula. Tratamos também, da discussão e resultados dos dados colhidos nas entrevistas, retomamos alguns pontos teóricos e descrevemos quatro categorias para a análise: 1- lembranças e referências na formação docente; 2- escola tradicional: sua eficiência em questão; 3 – Profissão professor; 4 – a formação universitária e a formação em serviço. Nas considerações finais, estão expostos os resultados da pesquisa e vai expressa uma proposta embasada na rememorização das experiências dos professores como oportuna motivação, tendo em vista sua formação didática. Ao propormo-nos a trabalhar a Formação para docência, as experiências vividas e rememoradas pelo professor, tínhamos em mente a ação de dar forma, no caso, ao professor. Dar forma a algo depende de mãos hábeis. Dar forma requer mais que mãos, olhos e ouvidos, na medida em que se busca um estado, uma condição do ser centrado no seu melhor desempenho intelectual. É a palavra, a voz, a fala, enfim, a história, a condutora da lição do educador na educação de educadores. Terminada a pesquisa, isto não significou, de modo algum, termos chegado a conclusões e certezas, até mesmo porque cremos serem as certezas impossíveis. Faz-se necessário, entretanto, indicar algumas respostas, confirmando a aposta. Vamos a elas: VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 51 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente De fato, os professores concordam que os mestres do passado são importantes referências para suas práticas docentes, referências que são modelos de ser, de fazer e também de não ser e não fazer. Apesar de ser esta uma constatação importante, não nos era suficiente. Sentimos a necessidade de aprofundar e compreender melhor a especificidade destas referências, e os professores nos ensinaram mais sobre elas. Aprendemos com eles que seus mestres são lembrados muito mais pelas suas qualidades humanas, traduzidas nas relações de afeto e respeito com seus alunos, do que pelas suas competências teóricas e técnico-pedagógicas. Os mestres também foram lembrados pela forma com que se relacionavam com o seu ofício: pelo compromisso, pela coerência, seriedade, honestidade e dedicação. Os professores afirmaram que no início da profissão remetiam – se com mais freqüência aos mestres que tiveram e, à medida que foram adquirindo experiência, no cotidiano de suas práticas, gradativamente foram se afastando dos antigos modelos. Diante do que disseram das análises e estudos feitos, observamos que, quanto mais precária a formação inicial do professor, mais espaço se abria para que a história pessoal do aluno que o professor fora, reverberasse em suas práticas. Às vezes, isto ocorria de forma consciente e intencional e outra vezes, nem tanto. Em relação ao segundo objetivo a que nos propusemos investigar, aprendemos que os colegas de trabalho, sejam eles outros professores, coordenadores ou diretores, representam uma importante forma de mediação. A nosso ver, porém, trata – se de uma mediação que nem sempre é feita de maneira crítica, restringindo-se, muitas vezes, a uma mera reprodução da prática do outro. Os professores entrevistados nesta pesquisa negaram a contribuição da Universidade na sua formação inicial, mas deram uma relativa importância aos cursos de formação em serviço. Nas suas histórias de vida profissional, a teoria exerceu uma frágil mediação na constituição de seu papel profissional. Não que os professores não reconheçam e não atribuam importância a uma fundamentação teórica de suas práticas, já que, ao contrário, eles se ressentem e se sentem inseguros por não poderem contar com sua mediação. Por um lado, é possível afirmar, pelo teor dos seus discursos, que tampouco buscam suprir estas carências, travando com esse mediador uma relação paradoxal de aproximação e afastamento. Por outro lado, os professores manifestam a dificuldade de sozinhos, darem conta de uma fundamentação teórica efetiva, considerado a imensa defasagem em que se encontram. Valendo-nos do explicitado anteriormente, pensamos ter cumprido o objetivo de indicar as respostas que nos foram possíveis. Uma pesquisa, contudo, é sempre uma aventura e como tal nos conduz a caminhos inusitados. Com esta não aconteceu diferente. Ao debruçarmonos sobre os depoimentos, deparamos com questões não previstas inicialmente, mas impossíveis de serem ignoradas, por estarem estreitamente relacionadas aos nossos propósitos. Por isso, a análise das categorias incluírem respostas de questões que não foram formuladas nos objetivos deste trabalho, como, por exemplo, a visão que os professores têm da escola tradicional, os meandros da escolha da profissão e o lócus de formação. Cremos não ser necessário retomá-las, pois estas discussões não faziam parte do cenário inicial desta investigação. 52 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Uma vez confirmada a nossa aposta e anunciadas algumas respostas, dedicamonos à última tarefa a que nos propusemos nestas considerações: fazer uma proposta. Os estudos que empreendemos durante esta pesquisa confirmaram que, indiscutivelmente, são muitos os caminhos possíveis para se formarem professores e muitos têm sido os caminhos propostos. Todos eles têm sua virtude e oportunidade... O que nos leva a fazer mais uma proposta quando já existe um considerável número de estudos e de publicações nesta área? Não pode parecer pouco relevante, à primeira vista, acrescentar mais uma proposta às existentes? Não. Estamos convictas da virtude da nossa proposta, por acreditarmos que ela traz um “facho de luz” ao obscuro fenômeno da formação do professor. É importante observar, então, que a maioria dos programas de formação, embora estejam fundamentados e justificados por razões várias não levam em consideração com freqüência que “é a partir do educador que temos que vamos caminhar para o educador que queremos” (RIOS, 1994, p.72). Esquecem que é baseando – se no conhecimento que está posto que se possam vislumbrar os possíveis, o desejado. Segundo Rios, o caminho para os possíveis está no único espaço onde ele já existe, no real. Sendo assim a nossa proposta segue nesta direção, ou seja, que os cursos de formação procurem conhecer “os professores que têm” na realidade de suas práticas, realidade esta atravessada por saberes e vivências múltiplas. Propomos que nos cursos de formação sejam construídos espaços individuais e coletivos para que os professores recuperem e reflitam sobre sua história de aluno, de modo a poder relacioná-la a aspectos da própria docência. Sugerimos que os formadores se esforcem por conhecer as concepções, posturas e teorias implícitas nas práticas dos professores, criando as condições para que este profissional tome consciência destas “forças” não reveladas que atuam e interferem na sua ação. Pensamos que cabe aos formadores fundamental tarefa de propiciar o diálogo, a interlocução do professor de hoje com o aluno que foi ontem. Diálogo este que deve estar permeado por teorias, pois para refletir e “avaliar precisamos ter teorias à nossa disposição. [...], porém, com a condição de que ela possa funcionar como ferramenta de análise para uma situação real”. (BARTH, 1993, p.28). Isto posto, queremos deixar registrada mais uma provisória certeza, isto é, a de que a recuperação das experiências vividas e rememoradas dos professores, seguida de reflexão tem, a nosso ver, valor de formação. Concluindo, pensamos que proporcionar aos professores reverem os seus construtos e conhecimentos prévios sobre docência apresenta – se como um dos caminhos mais prováveis para que, de fato, ocorram mudanças. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis: Vozes, 2001. BARTH, B-M. O saber em construção: para uma pedagogia da compreensão. Lisboa: Instituto VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 53 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Piaget, 1993. RIOS, Terezinha Azeredo. Ética E INTERDISCIPLINARIDADE. In: FAZENDA, Ivani (Org.). A pesquisa em educação e as transformações do conhecimento. Campinas: Papirus., 1995. Cap.9, p. 121-136. 54 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente IDENTIDADE CULTURAL DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA: ALGUNS INDÍCIOS RELACIONADOS COM AS LICENCIATURAS SILVA, Silvia Regina Vieira da (UFMS) INTRODUÇÃO Na nossa tese de Doutorado, Silva (2004), promovemos uma discussão a respeito da identidade cultural do professor de Matemática – aquela que surge da “pertença” à cultura escolar. Para isso, entrevistamos dez professores de Matemática da rede de ensino público de Rio Claro(SP) – dois professores em cada década, no período compreendido entre 1950-20001 – que, através de suas narrativas, permitiram a utilização da História Oral como um procedimento de pesquisa. A memória foi suscitada por entrevistas que, depois de transcritas, por nós, e validadas pelos entrevistados, serviram de base para a confecção das textualizações que motivaram a elaboração de quatro tendências históricas: Sociedade, Prática x Teoria, Fragmentação do Sujeito Professor e Identidade Magistério. Duas tendências – Fragmentação do Sujeito Professor e Identidade Magistério – foram divididas em sub-itens, dada a complexidade das mesmas. Neste texto apresentaremos, então, as nossas reflexões relacionadas com o compromisso das Licenciaturas em Matemática, um recorte do que foi desenvolvido em Silva (2004). Tais reflexões baseiam-se em duas das tendências encontradas, Prática x Teoria e Experiências com o Ensino(um sub-item de Identidade Magistério), que indicam a não-identificação com o magistério através da Licenciatura em Matemática. Identidade Cultural e tendências O termo identidade cultural foi fundamentado em Hall (2002), no qual encontramos uma discussão sobre concepções contemporâneas a respeito da “pessoa humana” e a sua identidade. A idéia geral, desenvolvida em Hall (2002), está baseada no fato de que as identidades eram tidas (tanto no discurso como na prática) como unificadas e, ao longo dos tempos, foram se descentrando e fragmentando. A opção por detectar tendências históricas a partir das entrevistas dialoga em sincronia com o movimento social apontado em Hall (2002). Entendemos tendência histórica como a variação, no tempo, de fenômenos históricos – observados no discurso de cada depoente – relevantes para a Educação Matemática. Para fundamentar tais tendências utilizamo-nos da teoria proposta por Ariès (1990), que nos indica conseqüências da utilização da abordagem histórica que privilegia a mudança e a diferença, com o que podemos falar de tendências históricas. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 55 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Das quatro tendências históricas, uma, Fragmentação do Sujeito Professor, é de mudança, pois inclui acontecimentos que apresentaram alguma alteração no período considerado As outras são de conservação, ou seja, apesar das mudanças ocorridas ao longo do período considerado, os entrevistados mantiveram a forma de identificação. Assim, a tendência Prática x Teoria é de conservação, pois os entrevistados, de uma forma geral, não se identificaram com o magistério através da universidade (teoria), mas através de situações práticas, como, por exemplo, aulas particulares, grupos de pesquisa (ou de estudo) e cotidiano escolar. A maioria dos entrevistados, inclusive, percebeu-se professor de Matemática mesmo sem ter terminado a Licenciatura. Alguns perceberam-se professores em situações peculiares, como foi o caso do professor Sérgio e da professora Maria Lígia, que sentiam-se preparados para dar aulas de Matemática desde o curso científico. O professor Clodoaldo sentiu-se professor de Matemática, “principalmente, depois de formado, quando foi para o ginásio vocacional de Americana(SP)”. A professora Maria Sílvia percebeu-se professora na faculdade, em “uma aula expositiva, em Prática de Ensino”. O professor Sidnei optou pela licenciatura, no segundo ano, depois de ter dado aula como substituto. O professor Carlos sentiu-se professor quando passou a fazer parte de um grupo de pesquisa, enquanto aluno da universidade; quando percebeu “que era mais, era diferente, não era simplesmente ficar na faculdade, assistindo às aulas até se formar, para depois ser um profissional”. Apesar da não-identificação, os entrevistados não menosprezaram o curso de Licenciatura em Matemática, apenas alegaram que, apesar do tipo de conteúdo trabalhado e a maneira como foi desenvolvido, o curso não era suficiente para o dia-a-dia na escola. A maioria dos entrevistados, inclusive, associou a universidade à capacidade de discernimento, aquisição de conteúdo. A professora Clara acha que “o que se aprende na universidade não” é passado no ensino fundamental; o professor “apenas adquire mais segurança para saber do que estava falando”. Mas ela acredita que o professor tenha que saber mais do que ensina. Já a professora Améris afirmou que teve “que estudar bastante para poder dar boas aulas, pois o que ela aprendeu na universidade era bem mais elevado do que o que ela tinha que dar”. Ela acha que “acaba adquirindo a capacidade de entender novas leituras”. O professor Clodoaldo, então, relaciona o curso universitário à aquisição de conteúdo; a parte pedagógica ele acredita ter desenvolvido no vocacional. Um comentário específico com relação às disciplinas foi feito pelo professor Sérgio: “a licenciatura tinha que ter outro enfoque”. Ele acredita que muitas das disciplinas que ele teve foram “desnecessárias” para a prática em sala de aula. Para ele, não adianta aprender conceitos relacionados, por exemplo, com o Rn, e não saber Geometria Euclidiana; “a maioria dos professores sai da faculdade com dificuldade em Geometria” (Sérgio). A professora Maria Lígia afirmou que, para ensinar, acabou se espelhando em seus ex-professores pois, na universidade, não aprendeu uma maneira de ensinar. Mas o discurso dos três últimos entrevistados muda; apesar de acharem que podiam 56 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente ter sofrido menos (Sidnei e Carlos) e que, no currículo, a prática estava muito longe (Carlos), mencionam a aquisição de conhecimento, conteúdo, como sendo positiva. Essa importância dada ao conteúdo teve como referencial as formações provenientes de outras universidades e que podem ser comparadas no dia-a-dia da escola. Patrícia completou a formação Matemática enquanto aluna do bacharelado e não fez menção às disciplinas matemáticas; fez comentários somente com relação às disciplinas pedagógicas; apesar de terem sido importantes, eram mais teóricas e não levavam à compreensão do que “estava acontecendo na sala de aula”, com exceção da matéria Prática de Ensino. Essa diferença no discurso pode ser associada às mudanças ocorridas no ensino. A universidade, desde a sua implantação, parece não ter passado por mudanças curriculares drásticas, mas os outros níveis de ensino (principalmente o público), ao longo dos anos, passaram por muitas reformas, levando a uma diminuição radical nos conteúdos. Além disso, houve uma proliferação de faculdades que, nem sempre, primaram pelo conteúdo. Assim, os alunos passam a valorizar a aquisição de conhecimento adquirido em universidade pública, tomando como referencial colegas que não tiveram essa mesma chance. É interessante notar que nem nas disciplinas pedagógicas os entrevistados se identificam como professores de Matemática – com exceção daqueles que tiveram Prática de Ensino diferenciada. Como já mencionamos, o professor Clodoaldo desenvolveu a parte pedagógica no vocacional. A professora Regina afirmou que estudou a parte pedagógica depois de formada, visando a um concurso “porque, na faculdade, essa parte era dada meio no chute, não era muito exigida, mas para o concurso você tinha que saber”. A professora Maria Lígia, para dar aula, se espelhou em ex-professores porque, na faculdade, apesar de ter psicologia, didática, “não aprendeu uma maneira de ensinar”. E a professora Patrícia, que tinha feito bacharelado antes da licenciatura, pensa “nessas disciplinas muito superficialmente; elas ficavam muito mais em questões estruturais da escola”. Um outro fator relaciona-se com à ênfase dada à pesquisa em Matemática, não ao ensino, num curso de licenciatura. Não que professores não pesquisem, mas parece que, desde o início, a licenciatura estava direcionada para formar pesquisadores que tivessem interesse em seguir a carreira acadêmica e não dar aulas no que equivaleria, hoje, ao ensino fundamental e médio. O professor Clodoaldo menciona, inclusive, que percebia “um certo preconceito contra quem ia dar aula no ginásio ou no colegial”. A professora Maria Sílvia mencionou não sentir “uma preocupação do professor da universidade do tipo: “Estou formando professores para escola de ensino fundamental ou ensino médio”; a preocupação era de passar aquele conteúdo”. Já a professora Patrícia afirmou que seus professores nunca “falaram sobre a licenciatura” com ela; “sempre com a influência para o bacharelado”. Numa tentativa de melhoria, a maioria dos entrevistados sugere uma maior aproximação com a sala de aula (prática) aliando, assim, teoria (universidade) e prática. O professor Clodoaldo acha que “deveria haver um plano de carreira para o Ensino VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 57 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Fundamental e Médio, pois o professor começa e acaba sempre no mesmo estágio: dando aula”. Ele sugere, então, um plano de carreira em que fosse incluída a possibilidade de o professor continuar estudando e que as funções fossem sendo alteradas “à medida que fosse evoluindo; ter objetivos a curto prazo para motivar”. Mas, “continuando com a aula, pois isso também é importante”. A professora Regina diz que “só a formação acadêmica não é o bastante”. Ela acha que o professor “tinha que ter condições de experimentar, porque só com a experiência se pode adquirir essa profissionalização. Tem que ter o diploma para poder exercer, mas não é o bastante, tem que ter experiência”. A professora Maria Lígia afirma que a faculdade que ela fez não a preparou para a realidade atual do ensino; então, sugere que o futuro professor inicie logo a prática (lecionar) para perceber se realmente é isso que ele quer fazer. Já a professora Maria Sílvia acha que “o professor teria que sair da universidade mais preparado para enfrentar uma sala de aula”, pois ele sai da universidade e só vai “aprender quando aparecerem os problemas”. A professora sugere, então, “um contato maior com a escola”. O professor Sidnei pensa que a universidade possibilita que o professor entre na sala de aula, dá o título; mas ele “vai ser um profissional da educação a partir do momento que começar a viver aquilo, sentir aquilo”. Para a professora Patrícia, o professor teria que estar na escola; “em uma escola, ou no máximo duas” para que, assim, ele “estivesse realmente de corpo e alma naquilo”, discutindo questões que envolvem o cotidiano escolar como, por exemplo, a burocracia; “que ela fosse conversada, discutida e aceita”. O professor Carlos sugere o engajamento de futuros professores em grupos de pesquisa, enquanto estiveram na universidade. Assim, os futuros professores poderão “descobrir mais sobre as coisas que vão enfrentar e poder compartilhar com os outros, nunca” sozinhos. Segundo o professor, “o olhar e o contato com a sala de aula têm que ser logo no início, porque isso ajuda demais na profissionalização”. Como já mencionamos, a tendência Identidade Magistério, é caracterizada como sendo de conservação, pois envolve características encontradas na maioria das textualizações: são aquelas que o sujeito professor de Matemática ainda mantém. Além disso, também foi dividida em sub-itens, a saber: Experiências com o Ensino, Prazer, Autonomia, Influência de Ex-professores e Professor x Funcionário Público. O sub-item Experiências com o Ensino explicita que a maioria dos entrevistados teve experiências associadas, de alguma forma, com o ensino, muito antes de iniciarem a licenciatura. Antes de ingressarem na universidade, alguns dos entrevistados, quando estavam cursando o atual ensino médio, tiveram experiências significativas com aulas particulares: Clara, Améris, Clodoaldo, Sérgio, Carlos. Já a professora Maria Lígia começou a dar aula particular quando estava na 7a série, aos treze anos. Os professores Clodoaldo (na época do científico) e Sidnei (na época do fundamental) se reuniam com seus colegas para estudar e eram eles que tiravam dúvidas relacionadas com 58 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Matemática. O professor Carlos, desde a 7a, 8a série, “gostava muito de poder explicar qualquer coisa para as pessoas, com essa visão da explicação”. Além disso, as professoras Clara, Améris, Regina, Maria Lígia e Patrícia, e os professores Clodoaldo, Sérgio e Sidnei iniciaram no magistério público, antes mesmo de concluir a licenciatura e desde o primeiro dia, já se sentiram professores - com exceção da professora Regina, que se sentiu profissional depois de formada. Portanto, as duas tendências descritas anteriormente indicam que as práticas foram decisivas na identificação do professor com o magistério. E a tendência Prática x Teoria, em particular, questiona o compromisso que envolve os cursos responsáveis pela formação do professor de Matemática. O que fazer se a maioria dos professores de Matemática não se identificou com o magistério através das licenciaturas quando estas foram criadas para habilitá-los? Identidades e monstros culturais As identidades precisam do diferente para poderem constituir-se; não são unificadas, estão em constante mudança, não são nunca constituídas a partir de práticas singulares, “mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que podem se cruzar ou ser antagônicos”. (HALL, p. 108, 2000) E, por serem construídas dentro do discurso, precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. Além disso, elas emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente constituída, de uma “identidade” em seu significado tradicional isto é, uma mesmice que tudo inclui, uma identidade sem costuras, inteiriça, sem diferenciação interna. Acima de tudo, e de forma diretamente contrária àquela pela qual são constantemente invocadas, as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o Outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de seu exterior constitutivo, que o significado “positivo” de qualquer termo – e, assim, sua identidade - pode ser construído.” (HALL, 2000, p. 109) Em Cohen (2000) encontramos uma proposta de estudo das diversas culturas através dos monstros que elas criam. Entre outras coisas, os monstros, criados nas diversas culturas, corporificam o diferente, o indesejável, aquilo que deve ser banido. Mas, ao mesmo tempo que transmitem medo, atraem, despertam fantasias e, apesar das constantes lutas, acabamos nos colocando ao lado deles: “O monstro é o fragmento abjeto que permite a formação de todos os tipos de identidade – pessoal, nacional, cultural, econômica, sexual, psicológica, universal, particular (...); como tal, ele revela sua parcialidade, sua contigüidade.” (COHEN, p. 53, 2000) VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 59 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Ou seja, os monstros possuem características fundamentais na constituição de identidades. Assim, as relações binárias homem/mulher, branco/negro, razão/emoção, verdadeiro/ falso, professor/aluno ou professor/sociedade acabam perdendo o sentido, porque o pensamento binário e dicotômico não consegue dar conta dessa trama [categorias binárias embaralhadas]. O “outro” não pode ser, sempre, facilmente identificado ou isolado. Participamos, todos, de muitos arranjos e ocupamos diferentes e múltiplas posições. O outro pode, portanto, estar muito próximo, pode nos cercar e conquistar. Podemos, enfim, nos transformar no “outro”. (LOURO, p. 127, 2000) REFLETINDO SOBRE O SUJEITO PROFESSOR DE MATEMÁTICA Na História Oral, cada entrevistado pode contribuir com alguma pesquisa e deixar registrada a sua história, o que possibilita uma nova versão dos acontecimentos. Foi justamente essa nova versão que nos possibilitou perceber que o sujeito professor de Matemática passou por vários descentramentos que levaram à fragmentação da sua identidade. Isso não significa que o sujeito professor de Matemática não seja oblíquo, transversal e parcial em suas crenças e verdades; essa identidade é constituída a partir disso. As tendências mostram que, apesar dos descentramentos, algumas características permaneceram, embora parcialmente. A identidade do professor de Matemática apenas deixou de ser una, estável, previsível; tornou-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às suas práticas docentes e posições sociais Assim, podemos considerar a identidade como “o ponto de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam” interpelar o professor de Matemática, falar-lhes ou convocá-los para que assumam seus lugares “como os sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, os processos que produzem subjetividades, que os constroem como sujeitos aos quais se pode falar”. (HALL, 2000) Portanto, perceber essa fragmentação e a impossibilidade de um dia vir a ter uma identidade estável – passível a qualquer alteração externa – é de fundamental importância para que os “monstros”, ao invés de terem conotação negativa, passem a ser nossos aliados. Caso contrário corremos o risco de “morrer” enquanto professores de Matemática, uma vez que as nossas “suturas” revelam que, assim como os “monstros”, somos compostos por fragmentos. Da mesma forma, os Centros de Matemática, os Centros de Educação, as Licenciaturas em Matemática, enfim, todos os cursos responsáveis pela formação do professor de Matemática, devem, também, estar dispostos a encarar a diferença como uma aliada. Além disso, devem promover mais reflexões a respeito de questões relacionadas com o dia-a-dia escolar, pois só o conteúdo, desprovido da prática, não é mais – e talvez nunca tenha sido – suficiente para que o professor de Matemática exerça o magistério. 60 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÉS, P. Uma nova educação no olhar. In: ARIÈS, P.; DUBY, G.; LE GOFF, J. História e Nova História. Lisboa: Editorial Teorema, 1990. p. 24 - 35. COHEN, J. J. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, T. T. da. Pedagogia dos monstros: os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 24 - 60. HALL, S. A identidade cultural da pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. ______. Quem precisa da identidade? In: SILVA, T. T.(org.). Identidade e Diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes: 2000. LOURO, G. L. Por que estudar gênero na era dos cyborgs? In: FONSECA, T. M.; FRANSCISCO, D. J. (Org.). Formas de ser e habitar a contemporaneidade. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 2000. p. 121 - 128. SILVA, S. R. V. da. Identidade cultural do professor de matemática a partir de depoimentos (1950-2000). 2004. 259f. Tese (Doutorado em Educação Matemática) – Instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade do Estado de São Paulo, Rio Claro, SP, 2004. Notas 1 Década de 50: Clara Betanho Leite e Améris De Lourdes Viti Betti. Década de 60: Clodoaldo Pereira Leite, Regina (codinome). Década de 70: Sérgio Pedroso e Maria Lígia Venturi Giannotti. Década de 80: Maria Silvia Isler e Sidnei Luís Riani Seneme. Década de 90: Patrícia Rosana Linardi e Carlos Alberto Francisco. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 61 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente IMAGENS DE ESCOLA, IMAGENS DE PROFESSORES: A ESCOLA E OS PROFESSORES NO DISCURSO DE PAIS DE ALUNOS NOVAES, Luiz Carlos (Faculdades Integradas de Ciências Humanas, Saúde e Educação de Guarulhos/SP) Como os pais dos alunos matriculados na rede pública vêem a escola e os professores? Ao falarem da escola e daqueles que nela atuam, particularmente dos professores, o que consideram mais importante? Quais suas queixas? Quais suas expectativas? Para responder a essas perguntas foi realizada uma pesquisa com pais e alunos de uma escola da rede pública estadual, localizada na grande São Paulo, aqui denominada Escola Brasil, a fim de conhecer o que pensam acerca da escola e do trabalho desenvolvido por ela1. A Escola Brasil, localizada em uma bairro de classe média, abriga uma clientela bastante heterogênea, com alunos residentes no seu entorno, bem como com alunos residentes na periferia da cidade, que a procura por julgá-la uma escola de melhor qualidade. Além desta escola estadual, também existem no bairro outras duas escolas que oferecem os ensinos fundamental e médio; uma escola municipal, que atende ao ensino fundamental de 1ª a 8ª séries e uma escola particular, que atende a todas séries dos ensinos fundamental e médio. A existência de tal situação acaba dividindo o atendimento da demanda específica do bairro, fazendo com que a escola estadual complete suas vagas com alunos de outras regiões da cidade. Na Escola Brasil é consenso entre os professores que os pais pouco participam da vida escolar, que não atendem às solicitações da coordenação ou direção e não se interessam pela aprendizagem dos filhos. Apesar disso, é possível observar a freqüente presença de pais transitando no interior da escola, bem como no portão, nos horários de entrada e saída dos filhos. Durante as reuniões bimestrais a presença também é significativa, embora motivada pela entrega da carteirinha escolar, contendo as notas bimestrais, sem a qual o aluno fica impedido de entrar na escola. De qualquer forma, a presença dos pais na escola, muitas vezes fora do horário de aula do filho, parece ser um indício de que eles não são tão ausentes como os professores apontam. Indagadas acerca desta participação, a direção da escola e a coordenação pedagógica alegam que os pais vistos freqüentemente na escola são dos bons alunos e que, os que mais precisam comparecer – os pais dos alunos problemáticos – , não aparecem nunca. Na Escola Brasil existe uma prática interessante adotada pela supervisão de ensino de encaminhar à escola todas as reclamações protocoladas na diretoria de ensino, para que a direção da escola tome conhecimento e adote as medidas necessárias para sanar os eventuais problemas apontados nas reclamações. Tais reclamações são repassadas à coordenação pedagógica para que adote as atitudes que julgar pertinentes. Raramente a direção da escola envolve-se com tais queixas, fazendo-o, somente, quando solicitado pela coordenadora pedagógica. 62 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Todas as reclamações são cuidadosamente arquivadas, com registro das providências tomadas. Foram encontrados trinta e dois relatos e reclamações de situações vividas por pais e alunos no interior da escola no período de dois anos, solicitando intervenção da diretoria de ensino para a solução de tais problemas. Em um dos registros a mãe de um aluno afirma: Hoje fui levar meu filho na escola. Ele estuda na Escola Brasil e quando ele entrou uma funcionária falou que não teria aula, pois todos os professores daquela turma tinham faltado e não tinha eventual para todas salas. Falou então que, como eu morava longe, poderia levar meu filho embora, mas tinha que falar com a diretora primeiro. Como a diretora não estava, aliás, ela nunca está na escola, procurei a vice-diretora e ela me falou, gritando, que primeiro ia dispensar todas as salas do andar de cima, ligar para algumas mães de alunos do bairro e, só depois, ia liberar meu filho. “Quem mandou ele entrar, quem mora longe tem que estudar perto de casa”, disse ela. A gente faz o maior sacrifício para trazer as crianças todo dia na escola, só porque dizem que esta escola é melhor que a de perto de casa e, ainda por cima, tem que passar por isso. Eu queria saber até quando as mães vão continuar a ser maltratadas? Por favor, consigam vaga para meu filho em outro lugar, estou cansada de ser tão humilhada nesta escola. (N.L.S). A senhora N.L.S. transmite em sua queixa a ambigüidade de acreditar na superioridade da Escola Brasil, em detrimento da existente nas proximidades de sua casa e, ao mesmo tempo, reconhecer alguns problemas existentes na escola, como a falta de professores, a ausência constante da diretora e o tratamento dispensado aos pais dos alunos. O depoimento desta mãe demonstra como a direção da escola, aí representada na vice-diretora, dividem os alunos e, conseqüentemente os seus pais, em dois grupos: os que moram no bairro e, por isso, merecem uma atendimento mais rápido, e aqueles que moram em bairro distante, que podem esperar; afinal, “estão ali porque querem”. A fala da vice-diretora parece incitar o aluno para o descumprimento das regras escolares ao afirmar “quem mandou ele entrar”; assim, o desejável que se pode inferir é que o aluno, sabendo que seus professores havia faltado, o melhor a fazer era ir embora, ainda que não soubesse se existiria professores para substituí-los. Em outros casos, alunos que adotaram o procedimento recomendado pela vice-diretora, foram advertidos. Esse episodio, além de mostrar o claro tratamento diferenciado praticado por funcionários da Escola Brasil em relação a pais e alunos, também evidencia que as regras estabelecidas pela escola não são muito claras. Uma outra mãe assim relata: Tenho um filho no segundo ano do ensino médio da Escola Brasil e quero fazer uma reclamação sobre uma medida drástica que a direção da escola tomou em relação ao meu filho, dando-lhe uma suspensão de seis dias, só porque estava próximo de um outro aluno que estava arrastando uma carteira. A escola obrigou meu filho e outros nove colegas a limpar toda a sala de aula, já que é habito da sala fazer guerrinha de giz, papel e qualquer coisa que tiverem às mãos na aula da professora de Física. A professora tem o hábito de levar sua filha, de sete anos, para a sala de aula, não dando a mínima atenção aos demais alunos, não dando matéria nenhuma e ficando as únicas duas aulas semanais corrigindo exercícios que sequer explicou aos alunos (é só a supervisão ir a sala e olhar os cadernos dos alunos) e, o pior de tudo, é que quando fica irritada, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 63 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente joga apagador nos alunos e, ainda por cima, zomba de alguns que têm defeito físico. Caso a diretoria de ensino ou a escola não tomar nenhuma providência irei ao Conselho Tutelar e também à ouvidoria da Secretaria de Educação reivindicar meus direitos. (M.F.S, mãe) A queixa da senhora M.F.S. expõe os problemas enfrentados por outros pais na Escola Brasil, qual seja, a forma pela qual os alunos são tratados pelos professores e também a rigidez disciplinar a que são submetidos, além disso, demonstra que está atenta ao trabalho e à rotina escolar, pois sabe do hábito da professora em levar a filha pequena a escola, deixando-a na sala de aula com alunos maiores, bem como a quantidade de aulas de Física que o filho têm semanalmente e como são utilizadas tais aulas pela professora. A mãe demonstrou que acompanha o trabalho dos professores, mediante verificação do caderno do filho, afirmando a negligência da professora de Física por não encontrar registro do conteúdo ministrado, além disso, demonstra conhecer os canais para efetuar suas reclamações (Diretoria de Ensino, Conselho Tutelar, Ouvidoria da Secretaria da Educação), conforme os problemas apontados. Outras queixas de pais podem ser encontradas arquivadas na escola. As reclamações dos pais abordam questões variadas do cotidiano escolar; contudo, a maioria trata da relação professor-aluno. Entre os depoimentos, encontra-se: Eu, mãe de um aluno da Escola Brasil, matriculado na 8ª série D, venho solicitar da direção providências urgentes em relação á professora de Português. Ela maltrata meu filho com gritos e, quando eu a procurei, ela disse que talvez eu fosse melhor do que ela na sala de aula e que, depois de quinze anos de profissão, ela deve ter desaprendido dar aulas. Quando meu filho chegou para a aula, no dia seguinte, ela disse para toda a sala “tomem cuidado e não falem alto perto do R., pois ele é de vidro e pode se quebrar e a mãe dele, além de ficar uma fera, vai ter um trabalhão pra colar todos os pedacinhos”. Olha que absurdo! Tem cabimento isso? Isso é jeito de professor falar em sala de aula? Meu filho não quer mais ir à escola, com vergonha dos colegas. Peço à supervisão da escola que tome uma atitude diante disso, pois com a diretora da escola não adianta conversar, ela nunca resolve nada. (M.C.P.) Esta mãe reclama da maneira como foi tratada na Escola Brasil pela professora de português e revela neste depoimento duas questões importantes: a primeira, sua perplexidade diante da forma como a professora trata os alunos, da linguagem que utiliza, bem como a forma como se relaciona com eles, julgando que o “jeito de falar e de agir” não é apropriado a um professor; a segunda, a convicção de que não adianta falar com a diretora, colocando sob suspeita a capacidade da diretora resolver os problemas apontados, evidenciando, assim, uma descrença na equipe escolar em administrar seus problemas internos e, por isso, a necessidade de recorrer a instâncias externas à escola. Eu quero fazer uma reclamação da professora de português, da 7ª série E. Ela chamou o meu sobrinho de mendigo e, quando fui falar com ela, ela me destratou e disse que já estava cansada do meu sobrinho e que se dependesse só dela ele não sairia da 7ª série. Falei para ela que viria aqui reclamar de tudo aquilo e ela disse que não tinha problema, que eu que corresse atrás dos meus direitos e que essa reclamação não daria em nada mesmo. Fui falar com a diretora 64 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente do que tinha acontecido e ela me disse que o moleque não era nenhum santo, que não era “flor que se cheire”. Eu só queria desabafar. Obrigada. (B.C.M., tia do aluno) “Eu só queria desabafar”. É assim que a senhora B.C.M. encara a reclamação que registrou: um desabafo. Não acredita que algo aconteça ou que alguma medida venha ser tomada. Da mesma forma que a senhora M.C.P., esta mãe reclama da mesma professora de português, em um relato em que algumas questões precisam ser destacadas: a primeira, e talvez a mais triste, é que a reclamante não acredita em soluções possíveis e, assim, a professora passa a ter razão ao afirmar que “a reclamação não dará em nada mesmo”, é como se a impunidade, ou ainda, a razão inquestionável da professora, já estivesse decretada, não restando muito o que fazer; a segunda, é a afirmação da professora de que se dependesse dela o aluno ficaria retido, evidenciando o caráter punitivo e seletivo da retenção escolar para a professora e, a terceira, que tanto a professora como a diretora da escola discriminam o aluno usando, para tanto, palavras e expressões estigmatizantes, como “mendigo”, “moleque”, “não é flor que se cheire”, “não é nenhum santo”; neste caso, a linguagem utilizada por estes agentes passa a ter uma importância enorme para o aluno e para sua tia, incutindo e reforçando sentimentos de fracasso e inferioridade. Além das reclamações enviadas pela Diretoria de Ensino, quatro mães foram entrevistadas. Para a realização das entrevistas foi solicitada a colaboração da diretora da escola que não se opôs à chamada de alguns pais para entrevista, sendo que a escolha dos pais se deu a partir das reclamações enviadas pela diretoria à escola e pelas existentes no livro de reclamações da unidade escolar. Foram escolhidas quatro mães, das quais duas eram residentes no bairro e, as outras duas, na periferia da cidade. As mães foram identificadas apenas como mãe 1, mãe 2, mãe 3 e mãe 4. As mães 1 e 2 são de alunos residentes no bairro próximo à escola e, as mães 3 e 4, são de alunos residentes na periferia da cidade. Dizem as mães: Minha filha estuda aqui porque é mais perto de casa. Não acho que essa escola seja tão melhor do que as outras, é tudo igual, falta professor do mesmo jeito. Minha filha todo dia diz que teve uma aula ou outra com professores substitutos; sei lá, eu penso que com tanta falta de professor a escola não pode ser muito boa; se bem que esses professores de hoje não são como antigamente, são mais fraquinhos, e tem muito professor formado que é pior do que estes substitutos que, na maioria das vezes, ainda são alunos de faculdade; de qualquer forma, ela vai ter que fazer cursinho mesmo quando acabar o colegial. Pensei em colocá-la em uma escola particular, mas além de ser cara também é longe de casa. A diretora e a coordenadora desta escola são bravas, falam alto de vez em quando com os alunos, mas estão procurando, tentando fazer o que pode; são rígidas com a disciplina e não dão moleza – põe todo mundo na linha. Para a escola ficar boa eu acho que tinha que mudar uma porção de coisas, principalmente os professores que não têm muito jeito com os alunos e fazer um treinamento com os funcionários, para eles aprenderem a tratar o público decentemente; às vezes, professores e funcionários falam e fazem coisas que não são comuns em casa; coisas que prefiro nem comentar Tem professor que só sabe gritar com aluno, gosta de fazer chacota e humilha as crianças. Que educação é essa em que muitos professores parecem que sentem prazer em humilhar as crianças? (Mãe 1) VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 65 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Esta mãe esclarece que a principal razão de matricular sua filha na Escola Brasil foi a proximidade de casa e afirma que não considera a Escola Brasil melhor do que as outras. Talvez a expressão “é tudo igual” signifique para esta mãe que todas escolas públicas sejam parecidas, neste caso, ruins, impressão confirmada adiante quando diz que “se não fosse cara e longe de casa teria matriculado sua filha numa escola particular”. Aparentemente, a percepção da mãe de boa escola está relacionada, em primeiro lugar, com a presença de professores pois, segundo ela, “com tanta falta de professor como uma escola pode ser boa”, contudo, pondera afirmando que “os professores de hoje são fraquinhos” e, em seguida, afirma que existe muito “professor formado que é pior do que os substitutos”, o que agrava ainda mais a situação, ou seja, para esta mãe os professores da Escola Brasil não são bons, sejam os titulares ou substitutos, daí, é indiferente se eles comparecem ou faltam, já que sua filha não terá boa aula com nenhum dos dois, além disso, afirma que a filha fará cursinho preparatório para vestibular de qualquer jeito. A rigidez disciplinar é encarada por esta mãe como uma tentativa bem sucedida de organizar a escola, “de por todo mundo na linha”, expressão que revela disciplinamento e ordem, o que a leva aprovar as ações da diretora da escola; por outro lado, denuncia a humilhação a que os alunos são submetidos pelos professores. É interessante como atitudes do tipo “falar alto” ou “gritar”, por exemplo, quando partem da direção, revelam uma tentativa de “por todo mundo na linha” mas, quando partem dos professores, são indicativas de humilhação e constrangimento. Parece que as mesmas atitudes, quando tomadas por pessoas em posições diferentes, também são encaradas diferentemente. Além destas questões, o relato desta mãe demonstra que não confia no trabalho da escola e nos professores, considera a escola particular superior à pública, sugere treinamento aos funcionários para que aprendam a lidar com o público e diz que não entende como os professores podem gostar de humilhar as crianças. Tinha duas opções de escola para meu filho: essa e a que minha sobrinha estuda. Optei por essa porque fica mais fácil controlar os horários do meu filho; afinal, nessa idade a gente tem de ficar de olho aberto, um descuido e já viu! Meu filho poderia até estudar durante o dia, porque o horário de aula é maior, e é melhor, vai de cabeça fresca para a escola, mas acho melhor ele aproveitar a parte da manhã para o inglês e a informática e na parte da tarde ele ajuda um pouco o pai dele na loja; depois, a gente vê um reforço ou um cursinho pra ele recuperar, se bem que não tem muita diferença o ensino diurno e noturno, os professores são praticamente os mesmos, muda um ou outro. Até a 6ª série meu filho estudou em uma escola particular; lá, era melhor, um pessoal mais educado, mais respeitoso com os pais; afinal, a gente estava pagando. Tinha aula todo dia e, qualquer coisa, eles telefonavam para casa. A gente ficava despreocupada. Nesta escola, se bem que eu acho que é em todas as escolas do Estado, não existe esta atenção. Pra você ser atendido é uma burocracia – telefona, agenda horário e, muitas vezes, apesar de agendado, nem diretora, nem coordenadora estão. Eu não sou contra a organização, tanto é que nem reclamo da disciplina que a diretora impôs – se bem que, de vez em quando, ela extrapola – mas se combinou, tem que cumprir. (Mãe 2) O relato desta mãe revela a sua concepção de boa escola. Para esta mãe ter o filho matriculado em uma escola próximo de casa ajuda a controlar seus horários e ficar atenta ao que 66 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente faz; assim, o critério para escolha da escola foi a proximidade da residência e não um critério de qualidade, por julgar a Escola Brasil melhor do que as demais. Embora admita que estudar no período da manhã seja mais produtivo, não vê diferença no ensino oferecido nos períodos, diurno e noturno, da Escola Brasil, mesmo sabendo que o período noturno tem uma carga horária menor quando comparado ao curso diurno; para esta mãe, os professores são praticamente os mesmos e, por isso, não existem diferenças significativas entre os dois períodos. Na avaliação desta mãe, é mais produtivo o filho utilizar o período da manhã para aprender inglês e informática e, depois, fazer um cursinho preparatório para vestibular. Em relação ao modelo de boa escola, o relato demonstra a crença desta mãe na superioridade da escola privada, já freqüentada por seu filho. Para ela, a escola particular era melhor pois tinha um pessoal bem educado, havia aula todo dia e não existia tanta burocracia para ser atendido pela escola. Essas qualidades da escola particular é justificada pela mãe com uma expressão exemplar: “afinal, a gente estava pagando”. A idéia de que qualidade de ensino seja uma característica adstrita às escolas particulares é comum nos depoimentos de vários pais, alunos e professores; assim, como afirma Brandão (1989), o próprio qualificativo de particular às escolas pode, até por reforço verbal inconsciente, ter permitido a assimilação com facilidade, e pouca crítica, da crença que as escolas “particulares” são melhores do que as públicas; para a autora, nestes casos o “desempenho escolar é interpretado indevidamente como rendimento escolar, sem que para esse resultado tenha sido estudado a efetiva contribuição da escola, enquanto instância pedagógica”(p.96) As mães 1 e 2 foram selecionadas a partir de dois registros lavrados no livro de ocorrências disciplinares em que ambas reclamavam da forma como professores tratavam seus filhos e do atendimento dispensado pelo pessoal da secretaria em ocasiões que estiveram na escola à procura da diretora ou da coordenadora. Nos dois relatos das mães residentes no bairro, fica explícito seu descontentamento com o atendimento e com o tratamento que a escola dá aos alunos e seus familiares. Aprovam a exigência da instituição escolar por mais disciplina, confiam no trabalho da diretora e acreditam na melhor eficiência da escola privada e no provável déficit que os filhos estão tendo ao freqüentar a escola pública; contudo, acreditam que tais deficiências podem ser sanadas freqüentando aulas particulares ou, posteriormente, freqüentando cursinhos preparatórios para ingresso na universidade. Apenas uma mãe reclama das ausências dos professores; contudo, não dá maior ênfase ao problema e nem vê nele um fator de maior preocupação. As mães 3 e 4, residentes em bairros distantes da escola, foram selecionadas a partir de duas queixas: uma lavrada no livro de ocorrências disciplinares e a outra encaminhada pela diretoria de ensino. As mães 3 e 4 queixam-se das constantes suspensões de aulas. Elas afirmam: Quase todo dia é a mesma coisa. Aula com eventual. Falta professor de tudo: de português, de matemática, de geografia, de tudo. Não sei o que acontece, eles não aparecem na escola. A gente fala com a inspetora de alunos, com a coordenadora, e é sempre a mesma coisa – um dia, o professor foi ao médico, no outro, está em curso, no outro tem reunião, e assim vai... VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 67 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Eu fico pensando no que aconteceria se eu ou o meu marido faltássemos tanto assim no serviço. Isso atrapalha muito, o aluno vai ficando atrasado; depois, todo mundo fala mal da escola do Estado e dizem que a escola particular é melhor – vai ver se o mesmo professor que falta aqui falta na escola particular! Já tenho filhos formados e que sempre estudaram na escola do Estado; um fez SENAI, tem um bom emprego; o outro, trabalha num banco e está começando a fazer faculdade de geografia e diz que quer ser professor – e os dois fizeram escola do Estado. Minha filha estuda aqui, um pouco longe de casa, porque apesar de todos os problemas aqui ainda é melhor, a escola é melhor – é limpinha, tem computador, laboratório, tem mais recursos; pra melhorar os professores tinham que faltar menos. Não é a primeira vez que eu reclamo da falta de aulas, mas como a diretora mesmo já disse, isso não tem jeito, a lei protege o professor. (Mãe 3) A principal reclamação desta mãe é a falta de aulas em virtude das constantes faltas dos professores e, por isso, o excessivo número de aulas com professor eventual. As faltas dos professores na Escola Brasil não é um fenômeno isolado já que em outros depoimentos muitos pais e alunos tenham relatado a ocorrência do problema em outras escolas; além disso, Esteve (1999) relata esta mesma situação de absentismo trabalhista por parte dos professores em diferentes países; segundo Bueno (2003), em um estudo acerca do desencanto com a profissão e o abandono da profissão entre os professores da rede estadual paulista, o absentismo muitas vezes é a etapa inicial do abandono da profissão, um abandono que não significa apenas simples renúncia ou desistência de algo, mas o desfecho de um processo para o qual concorrem insatisfações, fadigas, descuidos e desprezos com o objeto abandonado; significa o cancelamento das obrigações assumidas com a instituição escolar, quando o professor pede exoneração do cargo ou, de maneira mais abrangente, o cancelamento das obrigações profissionais, quando deixa de ser professor. Esse cancelamento, visto como a ruptura total dos vínculos necessários ao desempenho do trabalho, pode ser decorrente da ausência parcial e/ou do enfraquecimento anterior desses vínculos. (Bueno : 2003, p.76) As constantes faltas dos professores tem sido um problema real para as escolas públicas estaduais. A cada dia as escolas admitem um maior número de professores eventuais e, por diversas vezes, a Escola Brasil teve todo o período noturno sob a responsabilidade destes professores, o que significa que, neste dia, nenhuma das aulas ministradas tinham sido devidamente preparada pelos professores eventuais, que desconheciam a turma com a qual trabalhariam, bem como o professor que seria substituído. A falta do professor é percebida pela mãe como um problema grave e julga não existir na escola particular; apesar disso, considera a Escola Brasil melhor do que a situada próximo à sua casa, já que os professores faltam menos e a escola tem mais recursos. Freqüentar uma escola considerada melhor, em um bairro considerado melhor, dá à mãe a impressão de estar oferecendo ao filho também uma educação diferenciada, de melhor qualidade. Esta semana meu filho voltou pra casa no horário certo, todos os dias. Fiquei admirada; afinal, ele nunca tem todas as aulas. A alegria durou pouco pois ele me disse que, mesmo quando tem todas aulas, muitas são com professores eventuais. Eu ficava contente quando via ele chegando no horário certo, mas agora sei que isso não significa que ele teve aulas. Meu 68 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente filho fala em casa que as aulas com esses eventuais é uma piada; a maioria não dá nada. O que adianta, então, ter professor substituto na escola se eles mesmos dizem que não podem dar a matéria do professor que faltou? Não entendo isso. Substituir pra que, então? Também não entendo porque professor falta tanto e, veja bem, só coloquei meu filho aqui porque a situação não é tão calamitosa igual na escola perto de casa – lá a coisa é pior, professor falta sem dó. Tem matéria, como história, por exemplo, que meu filho diz que nem conhece a professora, ou professor, sei lá – até hoje tiveram um pingo de aulas e, olha, estamos quase no fim do ano. Isso não está certo, em casa fazemos o maior esforço para todos, os três filhos, freqüentarem a escola. Fazemos tudo o que podemos. Mesmo sendo escola pública, a gente gasta – com material, com ônibus, com um monte de coisa. O mínimo que a gente espera é que tenha aula, que tenha professor, que a gente possa ser bem tratado quando vai á escola. Todo mundo quer isso. (Mãe 4) O depoimento desta mãe demonstra como já aprendeu a captar as sutilezas do ambiente escolar. Afirma que ficava contente quando o filho chegava no horário certo, mas agora já descobriu que isso não significa muita coisa, já que quando substituídos por professores eventuais os alunos cumprem, inevitavelmente, o horário normal de aulas; assim, chegar no horário em casa não significa dizer que teve realmente todas as aulas previstas; atenta ao trabalho da escola, a mãe questiona o que significa “substituir”, se o substituto não aborda o conteúdo relativo à matéria do professor substituído. O que a mãe parece desconhecer é que os professores eventuais têm formação diversa, por isso, cobrem aleatoriamente a falta de qualquer professor, obviamente, algumas escolas tentam, quando possível, fazer com que o substituto e o substituído sejam da mesma área; contudo, em virtude do excessivo número de faltas docentes, essa compatibilização raramente ocorre. Neste depoimento, a mãe entrevistada deixa clara sua percepção de “público”; para ela, mesmo a escola sendo pública, existem gastos e, por isso, o mínimo que espera como retribuição é que tenha aula todos os dias e que as pessoas sejam bem tratadas quando a ela se dirigirem. Apesar de todos os problemas detectados, a exemplo de outros depoimentos, esta mãe considera a Escola Brasil ainda melhor do que a existente próximo à sua casa. A principal queixa das mães 3 e 4 é com a falta de aulas na escola. Segundo elas, os professores faltam demais e, nas suas ausências, são substituídos por professores eventuais que não nada fazem. Em levantamento realizado a partir das anotações de faltas de professores e aulas dadas por professores eventuais, realizado pela inspetora de aluno, que é quem controla as faltas dos professores e distribuem os professores eventuais nas turmas sem professores, foi detectado um percentual alto de aulas previstas que foram efetivamente ministradas pelos professores admitidos em caráter eventual, além das aulas não ministradas em virtude da falta de professor e de substituto. Para algumas turmas, especialmente nas do curso noturno, o índice de aulas ministradas por professores eventuais está acima da média da escola. Segundo a coordenadora, as faltas constantes dos professores afetam muito o trabalho e a organização da escola; contudo, a direção da escola tem se preocupado, todos os anos, em admitir um grande número de professores eventuais para suprir essas ausências; o problema é que nem sempre os alunos aceitam a presença do professor eventual, não fazem as atividades que eles solicitam e não os respeitam, o que dificulta ainda mais o trabalho pedagógico. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 69 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Durante a pesquisa, nos momentos de HTP, não foi presenciada nenhuma discussão com o coletivo de professores acerca da atuação dos professores eventuais ou das constantes faltas docentes. Os professores eventuais não são convidados nem estimulados a participar destes momentos destinados ao horário de trabalho pedagógico. Segundo Nogueira (1991), ao julgarem a escola, as queixas dos pais recaem, com freqüência, sobre fatores externos ao processo pedagógico, como, por exemplo, o absenteísmo docente. Para a autora, o que os pais lamentam não é a ausência do próprio professor titular, mas sim de um substituto que preencha sua ausência momentânea (p.92). Essa investigação demonstra que os pais continuam a queixar-se das ausências dos professores, contudo, já não se queixam mais, como no passado, da falta de um professor substituto, contentando-se com esta alternativa; queixam-se, agora, também da existência do professor substituto, na rede estadual paulista denominado, genericamente, como professor eventual, pois vêem nele a imagem de um professor despreparado e mal formado, cujas atividades por ele desenvolvidas com os alunos não são consideradas importantes, além de ser a evidência do desrespeito e descaso que os professores faltosos manifestam por seus filhos. De forma geral, os pais de alunos, tanto daqueles residentes no bairro como na periferia, reclamam da falta de aulas e do tratamento dispensado aos filhos pelos professores e funcionários da escola. É possível perceber, a partir da análise dos registros lavrados na escola ou encaminhados pela diretoria de ensino, que os pais dos alunos residentes próximos à escola reclamam, com mais freqüência, do tratamento que os professores dispensam aos seus filhos; já os pais dos alunos residentes na periferia, embora também reclamem da forma como eles e seus filhos são tratados pela escola, queixam-se com mais freqüência da falta de aulas e das constantes dispensas dos alunos, em virtude da falta de professor. Nesse sentido, os pais dos alunos oriundos dos bairros mais pobres parecem revelar maior preocupação com a excessiva falta dos professores do que os pais dos alunos residentes próximos à escola; para os primeiros, os alunos estão sendo prejudicados duplamente pois, além de não terem aulas, acabam gastando recursos com transportes. Diante dos dados coletados nas entrevistas, não é verdadeira a alegação de que os pais dos alunos, de modo geral, e dos mais pobres, particularmente, não valorizem a escola ou o trabalho que os professores realizam; pelo contrário, estão atentos ao funcionamento da escola e trabalho dos professores. O que parece diferir um pouco, quando comparamos a atuação dos pais segundo a origem social do aluno, é a forma utilizada pelos pais para expressar seu descontentamento com a escola e com os professores. Os pais dos alunos residentes na periferia, por não terem o tratamento que julgam adequado por parte dos funcionários da escola e por não conseguirem adaptar-se às regras da instituição (horário da secretaria, horário de atendimento da diretora, horário de atendimento da coordenadora, horários diferenciados dos professores), acabam procurando a diretoria de ensino, que atende todos os dias, a qualquer horário; assim, procurar a diretoria de ensino para fazer suas reclamações e não propriamente a unidade escolar não significa que tais pais estejam contestando a autoridade da equipe escolar ou a autonomia da escola; significa, apenas, que estão respondendo 70 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente a uma inadequação da escola à suas demandas. Por outro lado, os pais dos alunos que residem no bairro, próximo à escola, na maioria das vezes, registram suas queixas diretamente na escola, recorrendo à diretoria de ensino apenas quando não ficam satisfeitos com os encaminhamentos dados pela escola. Esses pais conhecem bem as regras da escola e não revelam dificuldades de adaptar-se a elas; pelo contrário, nas entrevistas revelaram que a organização e a disciplina da escola foram fatores considerados na matrícula do filho na instituição. Outro aspecto a considerar é a forma diferenciada como a coordenação pedagógica e a direção tratam os pais dos alunos e suas queixas. As reclamações encaminhadas pela diretoria de ensino, geralmente de pais de alunos dos bairros periféricos, não são bem acolhidas pela direção da escola e são vistas como uma forma de intromissão na organização escolar; assim, apenas uma pequena parcela destas reclamações são verificadas; geralmente, as que dizem respeito a brigas entre alunos ou outros eventos ligados à questão disciplinar. De forma geral, reclamações envolvendo falta de professores, relacionamento professor-aluno ou descontentamento com as regras e organização da escola não são consideradas. Das reclamações registradas na escola, a maioria por pais de alunos residentes no bairro, referem-se à forma com que os professores tratam os alunos; para tais reclamações, o encaminhamento adotado pela escola é cientificar o professor envolvido na reclamação, agendando horário para que pais e professores possam conversar; geralmente, no horário destinado ao Horário de Trabalho Pedagógico (HTP). Ausência dos professores ou o tratamento dos professores em relação aos alunos? Essas são as duas principais queixas dos pais de alunos da Escola Brasil e, embora possam ser verificadas nos dois grupos de pais, a primeira queixa é mais comum entre os pais dos alunos que residem na periferia, enquanto a forma pela qual os alunos são tratados pelos professores é preocupação mais comum entre os pais dos alunos residentes próximos à escola. Embora existam queixas registradas dos pais de alunos residentes na periferia acerca do tratamento dispensado pelos professores aos seus filhos, acusando-os de tratamento desigual, a principal preocupação destes pais é com a falta de aulas e com as constantes ausências dos professores o que, segundo eles, “prejudica os alunos e acaba tirando a oportunidade dos filhos de conseguirem melhores empregos.” Entrevistas com pais de alunos residentes no bairro revelaram que escolheram a instituição escolar em virtude da proximidade da residência, escolha esta motivada por preocupações relacionadas à segurança do filho. Os pais dos alunos residentes na periferia apontaram que a opção pela escola se deu a partir de uma referencial de qualidade, pois a julgavam melhor do que a escola existente próximo às suas residências. Trata-se de indicadores de famílias atentas e cuidadosas com o atendimento escolar dos filhos, o que parece não confirmar a opinião dos professores sobre as famílias dos alunos. Para Nogueira (1998), em razão das políticas educacionais e, conseqüentemente, da crescente heterogeneização das redes escolares, as famílias sentem hoje a necessidade de formular seu projeto educativo, o que inclui a escolha dos estabelecimentos escolares, comparando e confrontando os estabelecimentos escolares desejados. Embora tal atitude seja mais comum entre as famílias das camadas médias e em relação às escolas privadas, também nas camadas populares essa comparação ocorre, restringindo, contudo, o universo de comparação às escolas VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 71 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente públicas; assim, as famílias dos diferentes meios sociais adotam diferentes formas de conceber, avaliar e confrontar os estabelecimentos escolares ao efetuarem o julgamento de boa escola. Em relação à escola e aos professores, os pais tendem acreditar na superioridade de uma escola pretérita, uma escola “com cara de escola”, com um “ensino mais forte” e com professores “com tipo de professor”. Ainda que se trate de uma escola jamais freqüentada por muitos pais dos alunos matriculados na escola pesquisada, a imagem desta escola pretérita parece constituir o modelo ideal de escola, desejada para educação de seus filhos. BIBLIOGRAFIA BRANDÃO, Z. Qualidade de ensino: características adstritas às escolas particulares? In: CUNHA, L.A. (Org.) Escola pública, escola particular e a democratização do ensino. 3ª ed., São Paulo : Cortez, 1989. BUENO, B.O. & LAPO, F.R. Professores, desencanto com a profissão e abandono do magistério.Cadernos de Pesquisa, nº. 118, março / 2003, p. 65-88, ESTEVE, J.M. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores. Tradução : Durley de Carvalho Cavicchia. Bauru : Edusc, 1999. NOGUEIRA, M.A. Trajetórias escolares, estratégias culturais e classes sociais: notas em vista da construção do objeto de pesquisa. Teoria & Educação, vol. 3, 1991. pp.89-112. ______. A escolha dos estabelecimentos de ensino pelas famílias. Revista Brasileira de Educação, nº 7, 1998, pp. 42-56. NOTA 1 - Trata-se da pesquisa de doutorado realizada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade que resultou na tese “ A escola perdida: a boa escola e o bom aluno no discurso de pais e professores”. 72 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA NA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL E AS ATIVIDADES DE MOVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL IZA, Dijnane Fernanda Vedovatto; MELLO, Maria Aparecida (PPGE/DME/UFSCar) Logo após o nascimento o ser humano apresenta as formas mais instintivas de comportamento que têm o objetivo de satisfazer as suas necessidades de respirar, se alimentar, entre outras, que garantem a sua sobrevivência. No entanto, não formam a estrutura do seu desenvolvimento psíquico (Mukhina, 1996). Embora a criança tenha reflexos que colaboram para a sua sobrevivência, ela nasce desprovida dos conhecimentos e condutas que caracterizam uma sociedade, por isso há a necessidade de aprender o comportamento humano. Para isso o estabelecimento de comunicação com o adulto é imprescindível, pois ele apresenta os objetos e orienta os movimentos da criança para manipulá-los, de maneira que quando a criança não consegue realizar alguma ação, busca a ajuda. Nessa relação, a criança vai assimilando as formas de se comportar, pois o adulto pode sorrir, incentivando-a ou, demonstrando expressão de desagrado quando não gostou de algo que ela fez. A criança aprende o comportamento e a linguagem. (Mukhina 1996). A relação entre o objeto e a palavra dita produz na criança um início da compreensão da linguagem. A criança busca conhecer os nomes dos objetos e para isso recorre ao adulto. Assim sendo, desde o seu nascimento, a criança é cercada de experiências sociais, inicialmente com os familiares, depois com adultos “estranhos”, com outras crianças, e na medida em que ela interage com o mundo que a cerca apreende como é o seu funcionamento, compreende os comportamentos que caracterizam a sociedade em que vive. “A experiência social é a fonte do desenvolvimento psíquico da criança; é daí, com o adulto como mediador, que a criança recebe o material com que serão construídas as qualidades psíquicas e as propriedades de sua personalidade” (Mukhina, 1996, p.43). Nessa perspectiva, as profissionais da Educação Infantil são de extrema importância no processo de desenvolvimento das crianças e na qualidade das relações que estabelecem com elas. O desenvolvimento da criança deve ser considerado pelas educadoras para que ela possa aprender situações mais complexas. A zona de desenvolvimento1 próximo da criança, é discutida por Vigotski (2001) como o aprender algo novo em função da colaboração de alguém, mas esse aprender está diretamente ligado às possibilidades da criança. Vigotski (2001, p.328) coloca que a zona de desenvolvimento próximo tem mais importância do que o atual nível de desenvolvimento da criança, segundo o autor “criança orientada, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 73 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente ajudada e em colaboração sempre pode fazer mais e resolver tarefas mais difíceis do que quando sozinha”. A colaboração apontada pelo autor tem como finalidade contribuir para que a criança mobilize os seus conhecimentos para que compreenda um novo. Para aprender algo novo a criança mobiliza o que já conhece, desta forma Vigotski (2001, p. 328) coloca que a imitação é de grande importância para o aprendizado, pois “para imitar, é preciso ter alguma possibilidade de passar do que eu sei fazer para o que eu não sei”. “Afirmamos que em colaboração a criança sempre pode fazer mais que sozinha. No entanto, cabe acrescentar: não infinitamente mais, porém só em determinados limites, rigorosamente determinados pelo estado do seu desenvolvimento”.(Vigotski, 2001 p. 329). A criança quando recebe ajuda de outra pessoa tem a possibilidade de ampliar seu aprendizado, mas é importante considerar o seu desenvolvimento, pois a criança aprende com maior facilidade quando as tarefas exigidas estão mais próximas de seu nível de desenvolvimento. Para Vigotski (2001, p. 331) o foco da psicologia da aprendizagem é a “possibilidade de que a colaboração se eleve a um grau superior de possibilidades intelectuais, a possibilidade de passar daquilo que a criança consegue fazer para aquilo que ela não consegue por meio da imitação”, e de acordo com o autor é o que constitui o conceito de zona de desenvolvimento próximo. Há necessidade de se conhecer como a criança se desenvolve para que o ensino seja fecundo. A aprendizagem acontece quando a imitação é possível para a criança, ou seja, quando ela não está muito além das suas capacidades. Um exemplo sobre isso é que a criança não aprende a pular antes de saber andar e controlar bem o seu equilíbrio, assim ela pode tentar imitar o pulo flexionando e estendendo os joelhos, mas sem ainda sair do chão, pois o pular saindo do chão é uma ação que, no momento, está além da capacidade da criança. A aprendizagem está sempre à frente do desenvolvimento, pois ela instiga o amadurecimento do desenvolvimento que se encontrava na zona de desenvolvimento próximo. O educador tem que reconhecer na criança essas possibilidades de aprendizagem para auxiliá-la na apropriação dos conhecimentos. A IMPORTÂNCIA DO MOVIMENTO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA PEQUENA A criança com o passar do tempo, aprende a sustentar a cabeça, a sentar, engatinhar, andar, enfim adquire conhecimento das formas de comportamento do ser humano. Mas isso só é alcançado porque há a contribuição do adulto que a incentiva a realizar movimentos. A interferência do adulto é muito importante para o desenvolvimento da criança, no sentido de oferecer a ela os objetos, de incentivá-la a deslocar-se, de instigar-lhe a curiosidade e o interesse em explorar o que o adulto lhe apresenta. 74 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O adulto faz a mediação entre a criança e o conhecimento, assim ela se desenvolve de acordo com as mediações, segundo Mello (2001, p.19): “O Homem apropria-se de conhecimentos pela via das mediações, as quais podem ser infinitas. Essas mediações modificamse à medida que o indivíduo se desenvolve e cria novas necessidades para si”. A criança apreende o mundo por meio das mediações com os adultos, com objetos, com outras crianças. Mukhina (1996, p.102), discute a importância da interação adulto-criança, para que ela possa participar das experiências sociais. “No final do primeiro ano, formam-se as primeiras impressões sobre o mundo circundante e as formas elementares de percepção e reflexão, que permitem à criança se orientar neste mundo”, e isso ocorre por meio das interações sociais. As experiências sociais que a criança vivencia proporcionam a compreensão do funcionamento da sociedade, que será mais tarde, no terceiro ano de vida, reproduzida por meio de jogos dramáticos, que nascem para satisfazer a necessidade de convivência social, com os adultos, das crianças. Mukhina (1996, p. 114) compara estas experiências sociais atuais com as sociedades primitivas. Nas etapas mais primitivas de desenvolvimento da sociedade, o homem extraía seu principal sustento desenterrando raízes comestíveis com um pau escavador. A criança, desde seus primeiros anos de vida, incorporava-se às atividades do adulto, assimilando na pratica forma de obter o sustento ao manejar os instrumentos primitivos. Naquela época não existia o jogo separado do trabalho. Com as mudanças ocorridas na sociedade, em que as formas de trabalho se tornaram mais complexas, as crianças foram distanciadas do convívio de seus pais, pois a era industrial trouxe um tipo de trabalho inacessível à participação das crianças. Antes as crianças permaneciam todo o tempo com os pais, iam para a roça com a mãe; no caso das sociedades indígenas, as crianças ficam todo o tempo com os pais e aprendem os rituais da cultura, pescar, caçar, etc. Isso ainda ocorre nos dias atuais, pois a estrutura social indígena é diferente em muitos aspectos. Com a era industrial houve uma separação entre a criança e a sociedade adulta, é nesse momento que acontece o jogo dramático. A criança não participa da sociedade como no exemplo de tribos indígenas acima, mas tem a necessidade de compreendê-la e para isso representa as diversas situações inerentes à sociedade em que vive, realiza um jogo dramático no qual as crianças reproduzem as situações em que não podem ainda atuar, como, por exemplo, dirigir um carro, a criança não pode dirigir um carro dos adultos, em função de vários impedimentos inerentes às regras sociais, mas pode recriá-lo e dirigi-lo no jogo dramático. Segundo Mukhina (1996, p. 115): Restritas ao seu próprio meio, as crianças formam comunidades infantis e organizam uma vida lúdica especial que reproduz em seus traços fundamentais as relações sociais e a atividade de trabalho dos adultos e na qual interpretam o papel de adultos. Assim, por causa do lugar específico que a criança ocupa na sociedade devido a uma maior complexidade do trabalho e das relações de produção, surge o jogo dramático como forma especial de convivência da criança com o adulto. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 75 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A criança representa as ações dos adultos, reproduzindo as regras dos comportamentos sociais, e, como complemento do jogo dramático a criança utiliza objetos que não possui. “Dessa forma, um bloco de madeira, um carretel ou uma pedra podem servir de sabão para lavar a boneca” (Mukhina, 1996, p.116). Inicialmente, a criança utiliza o objeto no jogo dramático chamando-o pelo nome verdadeiro. Em um segundo momento ela chama o objeto de acordo com o papel que ele desempenha no jogo. Para Mukhina (1996, grifo da autora, p.117): “A criança na primeira infância age inicialmente com o objeto e mais tarde compreende o significado do objeto no jogo”. Para a representação dos papéis sociais no jogo dramático, a criança articula, entre outras coisas, a linguagem e os movimentos, “A criança reage corporalmente aos estímulos exteriores, adotando posturas ou expressões isto é, atitudes, de acordo com as sensações experimentadas em cada situação”. (Galvão 2000, p.72). A criança representa com gestos e posturas a situação imaginária, por exemplo; Em uma situação de interação entre mãe e filha, Satie diz para sua mãe que irá fazer um bolo, pega um objeto similar a uma fôrma e alguns blocos de montar. Os arruma dentro da “fôrma” e leva ao “forno” aguarda por algum tempo e o retira. Ao fazer isso ela usa panos para pegar a fôrma que está quente e coloca no chão. Chama a sua mãe de filhinha, e diz que irá assoprar o bolo para ela comer, pega um objeto (um pequeno dardo de plástico) e diz que é a faca para cortar, entrega para sua mãe um pedaço do bolo, representado por uma peça dos blocos que estão na forma, e pede para que ela coma, dizendo para tomar cuidado porque está quente e alerta que tem que assoprar (Observações de D.F.V. Iza). Quando Satie diz que irá fazer um bolo, ela imita o adulto nas ações que caracterizam essa cena, substitui o bolo “verdadeiro” por algum outro objeto, faz o gesto de abrir o forno, colocar o bolo, e fechá-lo, gesticula abrindo novamente o forno para retirar o bolo, espera que esfrie, assoprando para comê-lo. Há todo um ritual de movimentos, gestos, posturas, condutas, palavras que simbolizam essa situação. Satie, como toda criança, necessita coordená-los para que a situação imaginária aconteça. O Movimento é importante para o desenvolvimento da criança, sobre isso Mello (2001, p. 76) afirma que: A Educação Infantil requer um componente curricular – Movimento – que tenha como pressuposto o desenvolvimento da criança por inteiro, não a dicotomização em corpo e pensamento, em capacidades físicas e cognição. Além disso, as crianças necessitam de um trabalho com Movimento direcionado às suas vidas, engajado no trabalho dos demais componentes curriculares da Educação Infantil, para que ela possa ver a relação da Educação Física com a sua vida, com a aquisição de conhecimentos e não apenas a relação com o esporte e a saúde. No desenvolvimento de atividades de Movimento para as crianças de 0 a 6 anos, deve se levar em consideração que a criança é um ser global, não pode se limitar apenas a padrões motores pré-estabelecidos. 76 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Ao considerar apenas o aspecto motor, o desenvolvimento da criança pode ser limitado. O trabalho com atividades de Movimento pode ser ampliado de uma maneira que não desconsidere o aspecto motor, mas também não se restringe a ele. Sobre isso Mello (2001, p. 76, 77) aponta que: (...) O foco é sempre a criança por inteiro, com emoções, com sentimentos, com expressões, com dificuldades, com facilidades, com expectativas, ávida em dar sua opinião, com sugestões e vontades, com medos, com limites, sem limites, com timidez, com agressividade, etc. As crianças têm a característica de explorar, de buscar conhecer e compreender os objetos, as brincadeiras e os jogos. Elas são abertas para conhecer o mundo em que vivem. Cabe ao educador proporcionar à criança uma grande variedade de atividades, de modo que ela possa vivenciar diferentes situações, com materiais diversos, espaços diferenciados, etc, mas é importante salientar que não basta apenas a diversidade das atividades, dos materiais, ou dos espaços, é essencial que a qualidade das relações entre crianças e adultos seja harmoniosa. É importante que o professor tenha muita criatividade para atender às motivações das crianças que são muito dinâmicas e desejosas de brincadeiras e jogos variados. Mais do que apenas apresentar as atividades, é interessante que o adulto coloque para as crianças situações nas quais elas sejam incitadas a resolver problemas durante a execução dos movimentos, apropriando-se da melhor maneira para realizar as atividades. É importante sempre respeitar o ritmo e a descoberta individual de cada criança. O aprendizado, deste modo, se torna significativo na medida em que a criança explora as suas possibilidades de raciocínio, de movimentos, de controle motor, enfim, de todos os aspectos coordenados que ela necessita para resolver a situação em questão. Direcionar os movimentos das crianças, tentando aperfeiçoá-los pode ser um trabalho perdido, por não terem sentidos para elas, as quais irão executá-los mecanicamente, e assim dificilmente serão apreendidos. Desta forma, a contextualização das atividades é fundamental para que a criança lhes atribua algum sentido. Para isso, pode-se utilizar histórias, músicas, desenhos, etc. A importância do/a educador/a como mediador no processo de desenvolvimento das crianças é incontestável, por isso há a necessidade de ter conhecimentos claros e específicos para a realização do trabalho educativo junto às crianças pequenas. (Mello, 2001). Essa mediação acontece diariamente com as crianças pequenas, assim, tendo como pressuposto que esta fase da vida da criança é de fundamental importância para a aquisição de diferentes aprendizagens, o objetivo deste trabalho foi identificar atividades de Movimento e de Não-Movimento desenvolvidas com as crianças na instituição pesquisada; como elas são realizadas; quem as desenvolve e em que momento da rotina diária da creche elas ocorrem. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 77 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente AS ATIVIDADES DE MOVIMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Concebemos o Movimento como uma ação educativa utilizada pelo profissional que realiza a mediação entre o conhecimento e a criança. Nesta perspectiva o Movimento é intencional, abrangendo e enfatizando as relações e valores sociais. Sobre o Movimento na Educação Infantil, Mello (2001, p. 67, 68) aponta que: As pessoas engajadas na Educação Infantil percebem a necessidade das atividades de Movimento para as crianças. Essas atividades de Movimento, quando são desenvolvidas nas escolas infantis, na prática, restringem-se a brincadeiras nos aparelhos do parque, jogos de correr, brincadeiras livres nos espaços internos e externos da escola e brincadeiras de rua, todas elas permeando o objetivo de recreação. O lúdico – a brincadeira na idade pré-escolar – é a atividade principal, portanto, desencadeadora do desenvolvimento da criança. Por isso, os objetivos do componente curricular “Movimento” para a Educação Infantil não podem resumir-se à visão de recreação. A brincadeira é a atividade principal que promove o desenvolvimento da criança, nas relações sociais ela aprende por meio da mediação do adulto ou de outra criança. O Movimento, aqui explicitado, não é apenas motor e se relaciona com atividades de resolução de problemas, de questionamentos, de criatividade, de compreensão e respeito a regras, de companheirismo, enfim de elementos e valores sociais importantes para a vida da criança. Para que tais valores sejam trabalhados com as crianças é necessário que o profissional tenha clareza do seu trabalho Na atividade de pular corda, por exemplo, a criança pode ser instigada a vários questionamentos e valores como: em que momento ela deve pular a corda, compreender o movimento da corda em relação ao seu corpo, tomar consciência que pode obter sucesso ou não na atividade, respeitar o erro ou acerto do colega, compreender que na vida podemos ter vitórias e derrotas, respeitar honestamente as regras inerentes à atividade, enfim essas são algumas, dentre muitas, questões importantes de serem trabalhadas com a criança pequena e que não está única e exclusivamente restrita ao trabalho de movimentar o corpo, no sentido estrito do ato motor, Mello (2001). A mediação dos profissionais, no desenvolvimento das atividades de Movimento na Educação Infantil, é de extrema importância e por isso devem ser planejadas, visando o desenvolvimento das crianças pequenas, de maneira que tragam efetivamente benefícios à vida das crianças em sociedade. Ao propor atividades de Movimento não as defendemos de forma isolada, mas afirmamos a importância que têm no trabalho com as crianças pequenas. Não vemos a atividade física apenas como promotora de atividades que visam o desenvolvimento motor, ela pode e vai, além disso, alcançando uma amplitude maior a fim de proporcionar às crianças questionamentos e valores sobre a sociedade na qual estão inseridas, e isso depende, em grande parte, da mediação que o profissional exerce com as crianças. 78 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS Desenvolvemos um protocolo de observação das atividades da rotina diária da creche pesquisada, para investigar como as atividades de Movimento eram trabalhadas com as crianças de 0 a 6 anos, para isso utilizamos a abordagem histórico-cultural cujo pressuposto é a mediação entre as crianças e destas com a professora. Utilizamos vídeo-gravações, efetuadas no período da manhã e tarde, três vezes por semana, durante dois meses, em diferentes horários, situações e faixas etárias das crianças, de maneira que pudessem garantir grande variedade de informações. As filmagens referem-se a oito pajens/professoras responsáveis pelas seguintes faixas etárias: 0 a 2 anos (berçário), 2 a 3 anos (infantil I), 4, 5 e 6 anos (infantil II). No total foram gravadas doze fitas de vídeo de trinta minutos. A creche pesquisada foi criada na década de 802 e atende o total de 1223 crianças, são 62 crianças em período integral e 60 em meio período, sendo que 57 crianças tem idade de 4 a 6 anos e permanecem o período vespertino na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) e o outro período nesta creche. São nove educadoras distribuídas da seguinte forma: três profissionais para o berçário, três para o grupo de crianças de 2 a 3 anos (infantil I), e três para o grupo de 4, 5 e 6 anos (infantil II), cada uma destas se responsabiliza por crianças de uma idade. Para organizar os dados gravados em doze fitas de vídeo, foi necessário identificar as atividades desenvolvidas pelas professoras, tais como: alimentação, descanso, atividade dirigida, etc. Elaboramos um Protocolo para as filmagens, no qual foram registrados aspectos relativos à organização da creche. Para tal consideramos os seguintes aspectos: o tipo de atividade desenvolvida; o tempo de duração da atividade, o espaço utilizado, a seqüência dos acontecimentos em que a professora realizou a atividade e o envolvimento das crianças; ações que retratam como a professora desenvolveu a atividade e organizou o espaço. Esses elementos nortearam a análise das fitas de vídeo. Dentro da rotina diária, o foco central de investigação deste trabalho foi discutir o desenvolvimento das atividades de Movimento e de limitação do Movimento, que chamamos de Não-Movimento, promovidas pelas professoras para as crianças pequenas. Assim identificamos, nos protocolos, as informações acerca da questão Movimento e Não-Movimento na rotina da creche. ATIVIDADES DE MOVIMENTO As atividades de incentivo ao Movimento, são aqui consideradas como as promovidas pelas professoras com a intenção de oferecer oportunidades das crianças se movimentarem de diversas maneiras por meio de brincadeiras dirigidas, danças, dramatização, etc. Essa intencionalidade pressupõe a sistematização das atividades, cujos conteúdos privilegiem elementos que contribuam para o desenvolvimento da criança, como por exemplo: lateralidade, equilíbrio, coordenação motora, noções de espaço e tempo, noções que a criança tem sobre a sua imagem VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 79 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente do corpo, da expressão corporal, de controle tônico, entre outros; Além da intencionalidade e sistematização das atividades é imprescindível levar em consideração as peculiaridades das crianças pequenas, abordando esses elementos de forma lúdica. A seleção dos episódios de Movimento foi realizada em função das professoras demonstrarem intenção em promover atividades com Movimentos, a seguir apresentamos e analisamos os dados com episódios da rotina da creche que indicam essas atividades. Movimentos das crianças em função da música (crianças de 2 a 3 anos). Depois do almoço as professoras levaram as crianças em uma sala e colocaram uma música. Tentaram desenvolver uma atividade de roda com elas, mas, algumas não se interessaram pela atividade e foram mexer no rádio. A professora saiu da roda para tirar as crianças de perto dele, quando retornou, a atividade não teve continuidade, pois as crianças estavam dispersas com os brinquedos, a bola e a música que tocava na sala.Algumas crianças fizeram uma roda, sozinhas, na qual cantavam e dançavam, realizavam movimentos diversos girando, andando, correndo, saltando, dançando, marchando, batendo palmas, etc. As professoras ficavam tirando as crianças que estavam mexendo ou querendo mexer no rádio. Podemos perceber no episódio relatado acima que a música incentivou as crianças a se organizarem e realizarem uma roda sem a orientação da professora, talvez com base em experiências anteriores, nas quais as músicas eram trabalhadas em roda. Este tipo de atividade livre é importante para as crianças, entretanto, ela precisa ser mesclada, no plano de aula, com atividades mais intencionais, as quais a professora pode utilizar-se da música para ajudar a criança a desenvolver movimentos e habilidades que ainda não estão desenvolvidos nela. O fato das professoras não utilizarem estratégias que instigassem nas crianças a motivação em realizar a atividade de roda resultou na desistência das crianças pela atividade. As crianças perderam, portanto, a oportunidade de explorar melhor seus movimentos, desenvolver outras habilidades, fazer relações entre objetos, pessoas, acontecimentos, etc. A falta dessas estratégias limitou as crianças a realizarem movimentos já conhecidos. O episódio a seguir retrata as professoras com a intenção de trabalhar as atividades de Movimento: Corre Cutia (crianças de 2 a 3 anos) A professora pediu que todas as crianças se sentassem em roda e perguntou quem sabia brincar de corre cutia. Em seguida, começou a caminhar em volta da roda, cantando a música “corre cutia na casa da tia, corre cipó na casa da vó, chupa cana com um dente só”. Algumas crianças começaram a correr atrás da professora, quando outra professora interveio, dizendo que era apenas uma criança que deveria correr. A atividade não teve continuidade. Nessa atividade as crianças não entenderam a brincadeira, uma vez que as professoras não ensinaram a elas. As crianças observavam as professoras, meio apáticas, sem motivação pela atividade. Embora essas professoras tenham tido a boa intenção em desenvolver 80 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente alguma atividade com as crianças, não obtiveram êxito na sua realização, provavelmente, em função de não terem adequado a atividade às possibilidades das crianças naquele momento. É importante que a criança seja incentivada a realizar movimentos diversos, e cabe à professora, como mediadora no processo educativo, ajudá-la a apreender novos conhecimentos. ATIVIDADES DE NÃO-MOVIMENTO As atividades de Não-Movimento, que nos referimos, não significa a falta de movimento ou o ato de ficar parado sem se mexer, mas sim, as situações em que as crianças se encontram em determinados momentos de limitação de movimentos, impostos pelo tipo de atividade que as professoras propõem. Apesar dessa restrição, as crianças extrapolam e criam outras maneiras de se movimentar dentro daquela atividade. Os critérios que utilizamos para classificar os dados referentes às atividades de Não-Movimento foram os momentos em que as crianças tiveram que ficar presas a uma determinada situação, quietas e caladas a pedido da professora. Vejamos no seguinte episódio: O brinquedo tênis (crianças de 2 a 3 anos). As crianças estavam brincando com algumas bolinhas de argila dentro da sala de aula. Elas ficavam sentadas nas cadeiras. Não podiam se levantar porque a professora pediu que fosse assim. Havia nesse grupo uma criança que estava utilizando o próprio tênis como brinquedo, colocando as bolinhas dentro. Quando a professora viu a criança brincando, tirou o tênis das mãos dela e colocou-o no pé. Parece haver uma intensa e cansativa luta contra o Não-Movimento por parte das crianças que são ativas, ansiosas por brincar, pular, gritar, conversar, cantar, etc. A professora parece querer contê-las, tentando, na maioria das vezes, fazer com que fiquem quietas, de preferência caladas, realizando as atividades de uma única maneira, estabelecida pela professora. Assim, a professora perde a chance de conhecer o pensamento e a brincadeira da criança no momento em que retira o tênis com que ela estava brincando, impedindo-a de continuar a testar, analisar, comparar, etc; habilidades importantes para o seu desenvolvimento. As professoras acabam tendo grande desgaste em fazer com que as crianças fiquem quietas e caladas, além disso, acarreta um prejuízo para a criança, pois a creche passa a ter o significado de um lugar onde ela deve conter-se sempre, ficar em silêncio, obedecer sempre sem questionar, sem valer as suas idéias, gostos, reflexões, Perdem a professora em se desgastar e as crianças em não terem oportunidades de aprender novos conhecimentos de maneira prazerosa, como podemos observar no episódio abaixo: A longa espera pelos pais (crianças de 2 a 3 anos). Terminando o jantar as crianças voltam para a sala para aguardar os pais. As professoras entregam as chupetas e pedem para que todas as crianças fiquem sentadas encostadas no paredão (nome dado pelas professoras). As professoras ficam sentadas, cada uma em uma VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 81 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente extremidade, vigiando as crianças. Essa é a hora de esperar a chegada dos pais que começa aproximadamente às 16:00h e termina às 17:00h. As crianças se movimentam, tentando sair da posição encostada na parede, mas as professoras voltam a pedir para que não se levantem. Uma das professoras estava com uma bola no colo e ao jogá-la para cima caiu em frente de uma criança que a pegou para brincar, imediatamente, a professora tirou-a da criança e guardou-a.Quando as crianças saíam do paredão, uma das professoras dizia que iria contar até três para que encostassem novamente na parede. As crianças obedeciam contrariadas e aborrecidas com a situação. Este episódio revela a pobreza de interação e mediação da professora com as crianças. Qual o significado para as crianças de ficarem encostadas na parede, enquanto a professora tem uma bola em suas mãos? Nesse momento de espera, mais uma vez as crianças têm que se conter e obedecer às ordens da professora, que não aparentou nenhuma preocupação em oferecer qualquer atividade ou brinquedos para as crianças, enquanto aguardavam a chegada dos pais. As professoras poderiam deixar as crianças brincando no parque, ou oferecer brinquedos para que elas brincassem livremente, mas parece que a preocupação é controlá-las com atividades paradas. Esperar encostadas na parede é algo que parece representar esse domínio das professoras sobre as crianças. Mesmo que as crianças permanecessem em sala para aguardar a chegada dos pais, as professoras poderiam oferecer um espaço diferenciado com maiores possibilidades de interação, e também permitir que as crianças se movimentassem e falassem para que essa interação pudesse ocorrer. Não podemos desconsiderar, neste episódio, o fato das professoras de creche terem uma jornada diária de trabalho muito longa, o que pode justificar o cansaço delas no final do dia e a necessidade de controlar as crianças. Entretanto, a forma de controle que utilizam é mais estafante do que se deixassem as crianças livres para brincar entre si neste longo tempo de espera dos pais. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados identificados e analisados, nesta pesquisa, apontam que as professoras da creche têm experiência de trabalho com as crianças, mas falta-lhes o conhecimento de como trabalhar atividades educativas, como as de Movimento. Também, é muito forte a idéia de manter nas crianças o Não-Movimento. Parece haver a idéia de que o aprendizado dá-se a partir do controle sobre as crianças. O Não-Movimento, ou seja, a idéia que as educadoras têm em manter as crianças quietas e caladas poderia ser discutido de maneira mais ampla, pois revela como as professoras vêem a educação das crianças pequenas. É necessário (in)formar as profissionais da Educação Infantil sobre o desenvolvimento da criança pequena de modo que haja um encadeamento da sua prática com seus conhecimentos sobre a criança, considerando suas características e instigando suas potencialidades. Para que as educadoras realizem seu trabalho é importante que aprendam mais sobre a sua função na Educação Infantil, que investiguem quais os recursos disponíveis e de que 82 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente forma eles podem ser utilizados, quais os objetivos das atividades que serão realizadas, assim como, observem se são adequadas à faixa etária das crianças em questão, enfim, elas necessitam ter momentos de reflexão sobre a sua prática. Um problema nos trabalhos desenvolvidos com crianças de 0 a 6 anos é a especificidade que muitas vezes não é levada em consideração, a particularidade em desenvolver um trabalho educativo junto às crianças pequenas, exige uma formação abrangente e pormenorizada nas questões referentes à Educação Infantil. O papel das profissionais que atuam na Educação Infantil é de extrema importância, pois têm que responder às exigências das crianças pequenas sem cair no extremo assistencialista ou escolarizante. Neste momento, é fundamental que as profissionais percebam a importância do seu trabalho, que possam ter formação (inicial e continuada) específica para a Educação Infantil, de forma a contribuir para o trabalho com crianças pequenas, refletindo sempre sobre sua prática, de modo a garantir maior qualidade na Educação Infantil. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS IZA, Dijnane Fernanda Vedovatto. Quietas e Caladas: Reflexões sobre as atividades de Movimento com crianças na Educação Infantil. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, 2003. GALVÃO, Izabel, Henri Wallon uma concepção dialética do desenvolvimento infantil, Editora Vozes. 7a edição. Petrópolis, 2000. GALVÃO, Izabel, A Questão do Movimento no cotidiano de uma pré-escola. In: Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n.98, p. 37 -49, ago.1996. MELLO, Maria Aparecida, A Atividade Mediadora Nos Processos Colaborativos De Educação Continuada de Professores: Educação Infantil e Educação Física. Tese de Doutorado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, 2001. MUKHINA, Valeria. Psicologia da Idade Pré-escolar. Martins Fontes, São Paulo, 1996. VIGOTSKI, L. S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. Martins Fontes, São Paulo, 2001. Notas 1 O Professor Paulo Bezerra que traduziu o livro “A Construção do Pensamento e da Linguagem” de Vigotski, justifica o termo zona de Desenvolvimento Imediato como: “a própria noção implícita no conceito vigotskiano de que, no desempenho do aluno que resolve problemas sem a mediação do professor, pode-se aferir incontinenti o nível de seu desenvolvimento mental imediato, fator de mensuração da dinâmica do seu desenvolvimento intelectual e do aproveitamento da aprendizagem”.(Prólogo do tradutor, p. XI). Por outro lado o Prof. Newton Duarte (2001), no prefácio de seu livro “Vigostki e o Aprender a Aprender” argumenta que o tradutor se equivocou quando se refere ao conceito de Vigotski e faz as seguintes considerações: “(...) o Professor Paulo Bezerra interpreta que o conceito de zona de desenvolvimento próximo (ou imediato) focalizaria processos que a criança realiza sozinha, sem ajuda do professor, isto é, o tradutor confunde a zona de desenvolvimento próximo (ou imediato) com o nível de desenvolvimento atual. (...) Mesmo assim não posso deixar de enfatizar que, ao contrário do que entende o professor Paulo Bezerra, a zona de desenvolvimento próximo é constituída por aquilo que a criança, num determinado momento, não faz sozinha, mas o faz com a ajuda de outros, inclusive e principalmente do professor. É por isso que para Vigotski o único bom ensino é o que atua no âmbito da zona de desenvolvimento próximo. Aquilo que hoje a criança faz sozinha, mas no passado só fazia com ajuda, já foi interiorizado e foi incorporado ao nível de desenvolvimento atual”. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 83 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O DISCURSO DOCENTE SOBRE OS MATERIAIS DIDÁTICOS FISCARELLI, Rosilene Batista de Oliveira (UNESP - Universidade Estadual Paulista - FCLAR) INTRODUÇÃO Fazer uso de um material em sala de aula, de forma a tornar o processo de ensino aprendizagem mais concreto, menos verbalístico, mais eficaz e eficiente, é uma preocupação que tem acompanhado a educação brasileira ao longo de sua história. Valdemarim (1998), em seu trabalho sobre o método intuitivo, reforça a importância que os materiais didáticos assumem na efetivação deste método, no ensino de meados do século XIX, sendo concebidos como instrumentos possibilitadores de inovações das práticas educativas, ao criarem situações de aprendizagem em que o aluno participa ativamente, de maneira racional e concreta, interagindo com os objetos e construindo o conhecimento a partir desta interação.A utilização dos chamados materiais didáticos também foi fortemente incentivada na renovação da escola primária paulista, no século XIX, conforme assinala Souza (1998), quando esses materiais começam a fazer parte das grandes questões tematizadas acerca da organização pedagógica no ensino, associadas às novas teorias de aprendizagem que repercutiam na época. Assim, historicamente, o uso de materiais diversificados nas salas de aula, alicerçado por um discurso de reforma educacional, passou a ser sinônimo de renovação pedagógica, progresso e mudança, criando uma expectativa quanto à prática docente, já que os professores ganharam o papel de efetivadores da utilização desses materiais, de maneira a conseguir bons resultados na aprendizagem de seus alunos. Nesta perspectiva, o bom professor passa a ser considerado como aquele que é capaz de diversificar as suas aulas com o uso de materiais que possam torná-las mais estimulantes e interessantes aos alunos, e muitas vezes acredita-se que as possibilidades de renovação pedagógica podem aumentar com a utilização de materiais didáticos mais modernos e sofisticados. No entanto, embora haja uma concepção pedagógica predominantemente positiva em relação à utilização de materiais e recursos didáticos no ensino, bem como uma mobilização e motivação feita pelas políticas educacionais, sua efetiva utilização hoje, nas escolas da rede pública de ensino fundamental do Estado de São Paulo, depende de muitos fatores que cercam as práticas escolares, principalmente a prática docente. Conhecer esses fatores de efetivação do uso dos materiais didáticos se faz também importante na constituição do conjunto de saberes que se forma em torno deles. Os professores, como efetivadores desta utilização, podem contribuir, por meio de seus discursos, no conhecimento dessas dificuldades. Muitas vezes, esta efetivação não ocorre da maneira como as políticas educacionais esperam, tanto no que diz respeito à utilização desses materiais quanto a sua real eficiência no 84 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente processo de ensino-aprendizagem. É a partir dessas considerações que nos propomos, durante o mestrado, a conhecer qual o discurso dos professores sobre a utilização de materiais didáticos. Algumas questões iniciais nos impulsionaram para a análise do discurso docente: o que os professores têm a falar sobre os materiais didáticos? Qual o lugar do material didático na realização de sua prática docente em sala de aula? Como os professores conceituam o material didático? Quais objetos identificam como importantes para a sua prática docente? Quais as dificuldades e facilidades implicadas na utilização de materiais didáticos, na opinião do professor? Quais os significados e valores que os professores constroem em torno do material didático? Optamos por utilizar durante a pesquisa o termo material didático, por este parecer ser o mais usado no dia-a-dia da escola, sugerindo também uma abordagem ampla de utilização de vários tipos de objetos. Entende-se aqui por material didático todo ou qualquer material que o professor possa utilizar em sala de aula; desde os mais simples como o giz, a lousa, o livro didático, os textos impressos, até os materiais mais sofisticados e modernos. UM DISCURSO CONSTRUÍDO O termo discurso, aqui utilizado, parte de uma conceituação apoiada nas idéias de Michel Foucault sobre análise discursiva. O discurso, a partir deste referencial teórico, ultrapassa a mera utilização de letras, palavras e frases que expressam “algo” na linguagem humana. Não ignorando, no entanto, que os discursos são feitos de signos, mas olhando-os como construções históricas (FOUCAULT, 2000). Consideramos que o conjunto de saberes, valores e significados construídos em torno de um objeto é que o faz tornar-se útil ao processo de ensino-aprendizagem, transformandoo em um material didático, e que esses saberes criam “regimes de verdade” dominantes, capazes de orientar nossa visão e pensamento sobre “como” ensinar. Assim, em torno dos materiais didáticos tem se construído, ao longo da história da educação brasileira, um discurso que legitima sua utilização em sala de aula, salientando as suas potencialidades rumo a um ensino moderno, renovador, eficiente e eficaz. O termo “regimes de verdade” é utilizado por Foucault para conceituar as normas, regras, padrões que interferem e formam as práticas sociais. Para Foucault (2001), cada sociedade, em uma determinada época, cria seus regimes de verdade; isto é, os tipos de discursos que são tomados como verdadeiros e que são valorizados por esta sociedade. Desta forma, as práticas escolares atuais, relacionadas à utilização dos materiais didáticos, estão imersas nas “verdades” que foram construídas e que estruturaram e ainda estruturam os saberes sobre esses materiais, e nos significados que os mesmos adquiriram ao longo da história da educação. Os materiais didáticos, antes simples objetos, passam a adquirir significados importantes na concretização e efetivação de novas propostas educacionais, direcionando e definindo nossas visões sobre o que é ser um “bom professor”, o que “é dar uma boa aula”, o que é ser uma boa escola e o que é melhor ser utilizado em sala de aula. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 85 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente São vários os enunciadores do discurso sobre o material didático. Entre eles, podemos citar, o discurso da política educacional, o discurso pedagógico e o discurso dos professores. Cada um desses enunciadores participa e contribua para a construção de um saber sobre os materiais no ensino, para a construção de um discurso que paira e rodeia esses objetos. Porém, é importante considerarmos que há especificidades nas práticas discursivas desses enunciadores, relacionadas ao lugar que ocupam no campo educacional e ao contexto nos quais estão inseridos. Assim, neste trabalho discutiremos os resultados obtidos a partir da análise das práticas discursivas dos professores, considerando que o saber que o professor traz, em si mesmo é formado por outros saberes, mas também são as marcas de seu trabalho e das condições, situações e recursos ligados a este trabalho (TARDIF, 2002). OS PROFESSORES No intuito de conhecermos os significados e valores que os professores constroem em torno dos materiais didáticos, bem como encontrarmos possibilidades de respostas para nossas questões iniciais, realizamos entrevistas semi-estruturadas com 9 professores que lecionam numa mesma escola pública de ensino fundamental - ciclo II, em Araraquara- SP, as disciplinas de português, matemática, geografia, história, ciências, artes e inglês. Os professores entrevistados lecionavam numa escola localizada em um bairro residencial, próximo a um dos distritos industriais de Araraquara. No período de coleta de dados, a escola recebia alunos de outros bairros próximos, atendendo uma clientela de aproximadamente 1.400 alunos. Possuia um corpo docente formado por 45 professores, entre efetivos, substitutos e contratados temporariamente. No início do ano letivo de 2003, a escola implantou as salas-ambiente; e no momento em que as entrevistas foram realizadas (1º semestre de 2003), os professores estavam organizando as suas salas, preocupados com a seleção e utilização dos materiais didáticos disponíveis na escola. Acreditamos que este momento foi propício e enriquecedor para a realização das entrevistas, pois os professores estavam vivenciando a questão da utilização dos materiais didáticos na sua prática docente. A entrevista foi escolhida como instrumento de coleta de dados por possibilitar o conhecimento das práticas discursivas de seus participantes formadas por “sistemas de valores, de condições, normas e símbolos e ao mesmo tempo ter a magia de transmitir as representações de grupos determinados em condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas” (MINAYO, 2000, p.110). Para a realização das entrevistas foi elaborado um roteiro que pudesse levar os professores a dizerem o que sabem e o que pensam sobre os materiais didáticos. Este roteiro foi testado, analisado e posteriormente demos continuidade às entrevistas. Nossa preocupação, no momento de elaboração do roteiro, consistia em não estabelecer e nem trazer significados cristalizados sobre os materiais didáticos aos professores, mas sim levá-los a falarem e mostrarem quais os saberes e significados que constroem em torno desses materiais, a partir de 86 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente perguntas relacionadas às situações e relações que os mesmos estabelecem no interior e exterior do ambiente escolar. Portanto, trabalhamos os temas de forma mais ampla e genérica, no intuito de identificar nas “entrelinhas” do discurso docente os significados estabelecidos aos materiais didáticos, evitando ao máximo a indução de concepções. Apresentamos, neste momento, a análise dos dados coletados a partir das entrevistas realizadas com os 9 professores participantes. Com o objetivo de orientar nosso “olhar” para as respostas dadas pelos professores, buscamos encontrar nelas significados que foram recorrentes no discurso pedagógico, também analisado no decorrer da pesquisa a partir dos dados coletados em manuais de Didática, e no discurso da política educacional paulista.1 Desta forma, primeiramente procuramos definir a conceituação que os professores dão aos materiais didáticos, bem como identificar o que reconhecem como material didático e as vantagens que vêem na sua utilização em sala de aula. Posteriormente, buscamos verificar se no discurso dos professores reapareciam significados cristalizados sobre os materiais didáticos, tais como: concretizadores do conhecimento, motivadores, facilitadores da aprendizagem, eficientes e eficazes, organizadores e estruturadores do conteúdo a ser ensinado. Ampliando a análise para a questão da prática docente, destacamos a importância que os materiais didáticos assumem nesta prática e o papel que desempenham na conquista da autonomia docente. Ainda referindo-nos a prática docente, procuramos nas práticas discursivas docentes as dificuldades apresentadas na utilização de um material, no que diz respeito ao processo de apropriação dos mesmos pelos professores e pelos alunos. A existência de uma relação entre material didático e conteúdo a ser ensinado também foi analisada no discurso dos professores entrevistados, de maneira que conhecêssemos como esta relação é estabelecida na prática docente. Desta forma, não nos prendemos a categorias pré-estabelecidas, mas fomos construindo nossos focos de análise no decorrer do desenvolvimento da mesma, seguindo as pistas que os professores iam deixando em suas práticas discursivas e relacionando-as com a forma como os manuais de Didática e a publicação “A escola de cara nova:sala-ambiente” concebiam os materiais didáticos em seus discursos. Na busca de novas “verdades” sobre o material didático, relacionamos o discurso já legitimado sobre ele e o discurso construído pelos professores, num contexto voltado ao cotidiano das salas de aulas. O QUE DIZEM OS PROFESSORES Os materiais didáticos são considerados pelos professores como instrumentos importantes à prática docente, vendo-o como material auxiliar desta prática. Em vários trechos das entrevistas verificamos isto, principalmente quando os professores conceituam o material didático. É o material que vai me ajudar na sala de aula, auxiliar na tarefa de transmitir para o aluno o que eu quero (PROFESSOR A). Os professores entrevistados reconhecem como materiais didáticos vários objetos, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 87 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente desde os mais tradicionais como o giz, a lousa e o livro didático, até os mais modernos como os computadores. O retroprojetor, o episcópio, o microscópio, a televisão, o vídeo, o jornal, as revistas, os livros paradidáticos, os dicionários, os mapas, os atlas, os textos xerocados, a música, os jogos, a sucata, os papéis coloridos, a cola, a tesoura, os lápis e canetas, o caderno, as folhas de papel, os slides, as lâminas, os aparelhos multimídias, todos esses objetos têm suas potencialidades reconhecidas pelos professores para o uso em sala de aula, independente de serem disponibilizados na escola em que lecionam. A música, os exercícios escritos também foram reconhecidos pelos professores como materiais didáticos, mostrando que os mesmos possuem uma concepção ampliada sobre o que podemos chamar de material didático. Os materiais didáticos dinamizam a aula, facilitam a aprendizagem, atraem a atenção, mantêm os alunos ocupados, motiva-os, despertando o interesse pela aula, conforme as seguintes palavras de alguns professores, essas são algumas das vantagens que uso do material didático oferece. Os professores vêem no uso do material didático oportunidades de proporcionar uma participação mais ativa dos alunos durante as aulas. Somente a fala dos professores, muitas vezes, não desperta a atenção do aluno, cansando tanto aluno quanto professor. Os materiais didáticos quebram o excesso de verbalismo e concretizam o assunto abordado pelo professor, facilitando a aprendizagem do aluno, diminuindo os esforços do professor. Enfim, tornam a aula mais interessante e prazerosa para ambos. [...] porque, prá começar, só a nossa figura humana, quanto educador, não atrai. O material didático ele enriquece e o aluno gosta de manusear, de ver. Então a visão das coisas, o manuseio enriquece a aprendizagem” (PROFESSOR D). Porém, apesar de todas as vantagens e a importância que os professores destacam na utilização dos materiais didáticos, eles não ocupam um lugar central no bom desempenho da prática docente, segundo as falas da maioria dos professores entrevistados. Frente a um professor competente, o material didático é irrelevante, quase supérfluo, pois nada substitui a presença do professor. O bom professor pode motivar e incentivar seus alunos, despertando-os para o conhecimento e obtendo resultados positivos de aprendizagem somente com a sua vontade e competência profissional, além de seu carisma e a maneira como interage com seus alunos. Mas ainda o melhor material didático é o professor conversar com o aluno sobre o conteúdo. O professor ainda tem um papel importantíssimo. Não existe assim nada que substitui o professor, nada. Eu não vejo o material melhor do que o professor (PROFESSOR E). O caráter de objetividade e materialidade dos materiais didáticos não é dispersado nas práticas discursivas docentes, pois os professores reconhecem esses materiais como simples objetos, incapazes de por si só mudarem as práticas, inovando-as dentro da sala de aula. Somente a presença dos materiais didáticos na sala de aula não é capaz de transformar positivamente o processo de ensino-aprendizagem. Para os professores, o professor deve saber utilizá-lo, saber incorporá-lo em sua prática cotidiana, de acordo com as condições estruturais de sua escola e as necessidades de seus alunos. Conforme esses trechos, para os professores, a prática docente é auxiliada pelos 88 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente materiais didáticos, mas não depende estritamente deles para realizar-se de maneira satisfatória. Há uma essência que a estrutura, norteando todas as ações docentes na sala de aula em relação ao uso de materiais didáticos: a experiência. É a partir da experimentação, do acerto e erro que os professores utilizam-se de um material didático em sala de aula, concebendo esta experimentação como uma oportunidade de crescimento, amadurecimento profissional e conquista de sua autonomia. A seleção e elaboração do próprio material didático a ser usado em aula é um momento importante para o exercício desta autonomia. Os materiais didáticos selecionados e escolhidos pelos professores são aqueles que, primeiramente, dão segurança a eles quanto à maneira de usá-los e à receptibilidade dos alunos. Os professores “confiam” nos materiais que acostumaram a utilizar durante sua experiência profissional. No entanto, também estão sempre atentos à adequação deste material ao grau de maturidade de seus alunos, ao grau de interesse e atenção que podem despertar neles e às possibilidades de relações que podem estabelecer entre o assunto da aula e o material didático utilizado. Nas práticas discursivas dos professores, percebemos que o domínio da atenção dos alunos, a aquisição de práticas de leitura e escrita e a fixação da matéria são aspectos positivos que o uso do giz e da lousa podem trazer ao ensino. Principalmente na minha área, de matemática, eu tenho que estar indo para a lousa. Tenho que estar fazendo exercício, mas tem a sala de informática. Mas eu não estou apta para estar indo lá, elaborando exercícios com os alunos. Eu tenho um pouco de dificuldade com esta nova tecnologia. Eu uso muito a lousa (PROFESSOR C). Em relação ao uso do livro didático, os professores têm opiniões diferenciadas. Alguns consideram importante o uso deste material e queixam-se de não o terem disponível para o ensino da sua disciplina, como inglês e artes. Outros professores acreditam que o uso do livro didático torna a aula cansativa, monótona. É preciso inovar com materiais diferentes, que estimulem o aluno e também o professor, pois alguns professores sentem-se presos quando usam o livro didático, preferindo utilizarem textos pré-selecionados e organizados por eles mesmos. Sentemse mais seguros, mais satisfeitos com o seu trabalho em sala de aula. Para outros professores, o livro didático é essencial para a organização do conteúdo, direcionando o aluno para o estudo de determinada disciplina. Também o seu uso diminui a utilização da lousa, poupando o aluno da cópia do assunto colocado nela. Neste sentido, o livro didático é concebido como um material básico, necessário para nortear o professor e o aluno. Em relação à disponibilidade de materiais didáticos na escola, a sala-ambiente é vista pelos professores como um lugar eficiente, dinamizador de sua prática e principalmente motivador da aprendizagem do aluno. A eficiência da sala-ambiente, para os professores, consiste na disponibilização de todos os materiais didáticos necessários ao ensino de uma determinada disciplina, estando sempre a mão, fazendo com que o professor gaste menos tempo para procurálos pelas dependências da escola e organizá-los para o ensino em sala de aula. Na sala-ambiente, a exposição dos trabalhos realizados pelos próprios alunos, em casa ou no momento da aula, é considerada pelos professores um fator importante para a VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 89 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente aprendizagem, já que os alunos sentem-se estimulados ao ver seus trabalhos expostos nas paredes da sala de aula. No entanto, ambientalizar não é somente expor objetos e trabalhos dos alunos, mas sim transformar a sala de aula num espaço propício para o ensino, num cenário onde a aula irá acontecer de maneira mais fácil e prazerosa. Os objetos, transformados em materiais didáticos, é que comporão este cenário. Observamos que a não utilização de determinados materiais didáticos na sala de aula não está ligada aos significados que os mesmos adquirem na prática docente, pois esses são positivos e reiteram a importância desses objetos para o ensino. Além do sentimento de despreparo, os professores apontam outros aspectos dificultadores desta utilização, relacionados a fatores internos e externos ao ambiente escolar, os quais influenciam no efetivo uso de alguns materiais didáticos. Dentre estes aspectos, os mais relevantes são: a quantidade insuficiente de materiais didáticos ao grande número de alunos por turma; a falta de pré-requisitos dos alunos, o pouco interesse dos alunos; o excesso de “burocracia” na escola para a disponibilização dos materiais didáticos no momento em que são solicitados pelos professores ou alunos; a falta de tempo para a reflexão sobre a prática docente, bem como sobre os critérios e objetivos relacionados ao uso de determinado material didático. Observamos também a dificuldade que os professores apresentam na utilização de materiais didáticos provenientes das novas tecnologias, como o computador, a Internet e o uso de softwares. A não apropriação dos mecanismos de utilização desses materiais e da forma de aplicação ao ensino da disciplina que o professor leciona, impedem a utilização dos mesmos na sala de aula. Os objetos que fazem parte do dia-a-dia do professor, usados também em atividades sociais externas à vida escolar; ou seja, os objetos sociais que já foram apropriados pelos professores, como a TV, o vídeo e o rádio, são utilizados com mais freqüência e com mais facilidade na sala de aula. A disciplina que o professor leciona e o conteúdo a ser ensinado na sala de aula exercem uma grande influência na escolha e utilização dos materiais didáticos. Alguns professores encontram facilidades na utilização de materiais didáticos em sua disciplina, outros revelam que muitas vezes não conseguem encontrar uma aplicabilidade. Notamos que a sala-ambiente onde é ensinada a disciplina de ciências está equipada com vários tipos de materiais didáticos, conforme o discurso do professor. Para o professor de ciências, a sala-ambiente tem propriciado bons resultados de aprendizagem e facilitado muito sua prática docente. Já os outros professores, apesar de destacarem a importância dos materiais didáticos no ensino e se mostrarem bem receptivos à utilização dos mesmos, apontam, em seus discursos, dificuldades nesta utilização e principalmente na organização da sala-ambiente como um espaço produtivo para o processo de ensino-aprendizagem. Retornando a questão sobre autonomia docente e sua relação com os materiais didáticos, é válido também considerarmos que em algumas entrevistas os professores vêem o material didático como um elemento comprometedor da sua autonomia docente, não no que diz respeito ao material didático em si, mas sim quanto a forma como são levados a utilizarem o material didático em sala de aula. Se a política educacional está investindo na aquisição desses 90 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente materiais, se os materiais didáticos são tomados como objetos importantes para a realização de um ensino de qualidade, a partir de um discurso também presente no ideário pedagógico, então os professores, como efetivadores das propostas educacionais, devem introduzir esses materiais em suas aulas. Os professores, muitas vezes, sentem-se pressionados por este discurso dominante a utilizar-se de um determinado material didático, pois sua postura frente a esta utilização poderá influenciar a maneira como seus superiores avaliam sua competência profissional ou mesmo os seus colegas de trabalho. Nestas falas, podemos exemplificar as opiniões docentes sobre isso. Eu acho que ela dá e ao mesmo tempo ela tira. Porque se ela está dando, oferecendo e mandando os recursos é para que você use os recursos. Então, eu acho que tira um pouco a sua autonomia, a sua forma de trabalhar com os alunos. Se tem material na escola você tem que usar. Então, eu acho que ao mesmo tempo que dá ele tira esta autonomia. Você é cobrado a trabalhar com aquilo que eles estão oferecendo (PROFESSOR H). No entanto, os professores entrevistados parecem não se preocupar com esses “olhares” e colocam o material didático num lugar subalterno a sua competência profissional, procurando maneiras de preservar e exercer esta autonomia, de forma a realizar um bom trabalho com seus alunos em sala de aula; como as seguintes palavras de alguns professores podem mostrar. Ser um bom professor não tem nenhuma dependência com a utilização ou não de um material didático. Não é o uso do material didático que faz o professor ser competente em sala de aula. Para a maioria dos professores entrevistados, o professor é o próprio material, o próprio instrumento capaz de ensinar de maneira satisfatória seus alunos através de sua competência profissional que engloba o conhecimento que possui sobre a disciplina que leciona, a sua postura frente ao ensino e o seu relacionamento com os alunos. Ao perguntarmos aos professores sobre os cursos de capacitação organizados pela SEE, e realizados pela Diretoria de Ensino, observamos em suas práticas discursivas que a formação continuada proposta pela política educacional não é vista de maneira positiva para o desenvolvimento da prática docente com o uso de materiais didáticos. Muitos professores, seis dos entrevistados, disseram não gostar das capacitações por essas não abordarem questões e dificuldades surgidas no cotidiano da sala de aula, estando afastadas da realidade vivida pelos professores e pelos alunos. Quanto ao uso do material didático, os professores revelaram que pouco tem se falado sobre a efetiva utilização desses materiais no ensino, quanto a forma de adaptá-los ao conteúdo ensinado em sala de aula, especificamente para cada disciplina. Já três dos professores entrevistados afirmaram que as capacitações têm auxiliado muito a sua prática docente na utilização de materiais didáticos no ensino das disciplinas que lecionam. Apesar de todos os professores opinarem ser de extrema importância a atualização do professor e a reflexão sobre a sua prática, procurando maneiras de aprimorá-la, seus discursos distinguem-se quanto o papel que os materiais didáticos desempenham no caminho desta mudança. Para alguns professores, os materiais didáticos introduzidos na escola exerceram grande influência sobre sua maneira de ensinar e de preparar as suas aulas. Entre outros fatores, como a vontade de mudar e o questionamento sobre sua própria competência profissional, os VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 91 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente materiais didáticos também foram apontados como elementos importantes nesta mudança. Do outro lado estão os professores que acreditam que a mudança ocorrida em sua prática pedagógica não sofreu influência direta do investimento em materiais didáticos pela política educacional, mas sim que esta mudança se deu pelo próprio questionamento do professor sobre a sua maneira de ver o ensino e sua prática pedagógica. Com a existência ou não do material didático na sala de aula, esses professores sentem que mudaram suas concepções quanto a sua profissão e o seu papel no ensino. Ao perguntarmos aos professores se a não utilização de materiais didáticos e a resistência ao uso de alguns deles podem comprometer o ensino, muitos responderam que esta resistência pode influenciar negativamente a aprendizagem dos alunos. Na opinião desses professores, os motivos desta resistência, principalmente quanto ao uso do computador, residem na falta de domínio para a manipulação e uso didático deste material, na falta de interesse e vontade de usar, na preferência por materiais didáticos que induzem a pouca movimentação e conversa dos alunos em sala de aula, já que as classes são numerosas. Outros professores revelaram que é necessário que o professor resista se perceber que o uso não facilitará sua prática docente, pois a utilização ou não de um material didático é irrelevante para o desenvolvimento de uma prática docente de sucesso. CONSIDERAÇÕES FINAIS É importante compreendermos que os professores são produtores de um discurso sobre os materiais didáticos, mas que suas práticas discursivas, suas concepções e sua prática docente refletem também outros discursos já ditos sobre esses materiais. Assim, os professores são sujeitos e objetos de discursos, contribuindo para a construção de um “regime de verdade”, mas também gerando novas formas de se olhar para os materiais didáticos, no contexto do cotidiano escolar. No decorrer da análise, observamos que o lugar e o papel que o material didático ocupa na prática docente diferem daqueles que a política educacional e os manuais estabelecem para o mesmo. As práticas discursivas docentes também destacam a importância que os materiais didáticos assumem na construção do conhecimento, facilitando a aprendizagem. Reiteram que esses objetos são capazes de deixar a aula mais estimulante, mais envolvente, aproximando o aluno do conhecimento; por esta razão os professores selecionam com cuidado os materiais didáticos que serão utilizados durante a aula. Contudo, a maioria dos professores entrevistados coloca, a priori, a figura do professor como o principal elemento capaz de ensinar os alunos, estando os materiais didáticos a serviço de sua prática pedagógica. A utilização ou não dos materiais didáticos não interferirá no alcance dos objetivos de aprendizagem, a competência docente é que será responsável por isto. Os sentidos de eficiência e eficácia, no discurso docente deslocam-se do foco material didático e recaem sobre o professor. O professor preocupa-se com a sua eficiência e eficácia em relação aos resultados de aprendizagem de seus alunos; eficiência e eficácia baseadas em 92 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente seu esforço e competência profissional que nascem bem mais de sua experiência como professor, nas ações docentes de tentativa e erro em sala de aula e nas trocas de experiência com seus colegas de trabalho, do que do uso que fazem de materiais didáticos. Concluímos que é extremamente perigoso afirmarmos que os professores são resistentes aos materiais didáticos, principalmente aos mais modernos. Nossa pesquisa possibilitou compreender que discursivamente os professores não são resistentes aos materiais didáticos, pois suas práticas discursivas estão repletas de concepções e saberes historicamente construídos sobre os materiais didáticos que reafirmam a importância de sua utilização na aprendizagem do aluno e na melhoria do ensino em geral.Talvez o que chamamos de resistência são apenas caminhos diferentes que os professores encontram para sanar as dificuldades que surgem na introdução de qualquer tipo de material novo em suas aulas, diferente daqueles que já parecem ser inerentes ao ato de ensinar: o giz, a lousa e o livro didático. No contexto vivido pelos professores, usar um material didático significa também exigir mais da prática docente, ter cuidado com o exercício da autonomia docente, apropriar-se de práticas escolares novas. São nesses caminhos alternativos e nos significados que os materiais didáticos assumem para os professores, e são tomados por esses como verdadeiros no cotidiano escolar, que o discurso docente, muitas vezes, entra em conflito com o discurso da política educacional; ao mesmo tempo que, também como esse, revela em suas práticas discursivas concepções do discurso pedagógico. Acreditamos que muitas das questões iniciais de pesquisas foram respondidas no decorrer do estudo que realizamos. No entanto, sabemos que ainda há muito que se discutir e analisar sobre os materiais didáticos no ensino e esperamos ter instigado essas discussões nas lacunas que não conseguimos preencher no desenvolvimento desse trabalho. Contudo, os resultados das análises realizadas conduzem-nos a pensar um pouco mais sobre esses materiais no cotidiano escolar; na maneira como os professores concebem esses materiais e apropriam-se deles em sua prática docente; nas implicações que surgem ao introduzir-se materiais no ensino, no que concerne a estrutura do sistema escolar e a prática docente; nas maneiras e possibilidades de preparar os professores para essas implicações, de forma os mesmos possam olhar tanto as potencialidades dos objetos para o ensino quanto o exercício de sua autonomia docente na utilização desses objetos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2000. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2001. MINAYO, M.C.S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: Abrasco, 2000, p.99-104/107-134. SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de civilização: a implantação da escola primária graduada no Estado de São Paulo (1890-1910). São Paulo: Editora Unesp, 1998. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 93 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. VALDEMARIN, Vera Teresa. Método intuitivo: os sentidos como janelas e portas que se abrem para um mundo interpretado. In: SOUZA, Rosa.Fátima; VALDEMARIN, Vera.Tereza; ALMEIDA, Jane Soares. O legado educacional do século XIX. Araraquara: UNESP- Faculdade de ciências e Letras, 1998. p.63-106. NOTAS 1 Além do discurso docente, também analisamos o discurso pedagógico presente em 3 manuais de Didática: Introdução a Didática Geral de Imídeo Giuseppe Nérici, Sumário de Didática Geral de Luiz Alves de Mattos e Planejamento de Ensino e Avaliação de Clódia Maria Godoy Turra e autoras. Analisamos o discurso da política educacional paulista, presente na publicação A Escola de Cara Nova: sala ambiente, da SEE- SP, 1997. 94 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O REGIME DE PROGRESSÃO CONTINUADA NO ESPAÇO ESCOLAR: O OLHAR DOS PROFESSORES JEFFREY, Debora Cristina (UNESP -São José do Rio Preto e UNIRP - Centro Universitário de Rio Preto) Tema central de debates políticos, de reuniões pedagógicas no interior das escolas públicas estaduais de São Paulo, da comunidade em geral, ou até mesmo dos meios de comunicação, entre os anos de 1998 e 2002, o regime de progressão continuada tem levado a público a discussão sobre o papel social da escola, a qualidade e concepções de ensino, o impacto de sua introdução nos processos de ensino-aprendizagem e, em particular, da avaliação escolar, ao colocar em questão a possibilidade de ruptura com uma cultura escolar seletiva. Romper com essa cultura escolar seletiva representa, não somente, a introdução de novos questionamentos acerca da viabilidade de uma organização escolar em ciclos, como também possibilita uma oportunidade para democratizar o ensino, garantindo o acesso e a permanência na escola por oito anos, daqueles que nela adentraram. No Estado de São Paulo, segundo dados do Censo Escolar 2003 (INEP), há predomínio de matrículas do Ensino Fundamental na rede estadual organizado em ciclos de progressão continuada, sendo contabilizado 2.749.981 alunos, o que representou 88,5% das matrículas. O predomínio do percentual de matrículas do Ensino Fundamental organizadas em ciclos de progressão continuada no Estado de São Paulo é conseqüência da implantação do regime de progressão continuada, instituído pela Deliberação do Conselho Estadual de Educação de São Paulo (CEE-SP) número 9/97, que normatiza os ciclos na rede pública estadual de ensino. A partir do ano letivo de 1998, as escolas estaduais do Ensino Fundamental encontram-se organizadas em dois ciclos: I (séries iniciais) e II (5ª a 8ª séries), representando, de acordo com Neubauer (1999), a execução de mais uma medida prevista na proposta da política educacional estabelecida em 1995, com o objetivo de garantir a correção do fluxo escolar. O regime de progressão continuada, valorizado pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (SEE-SP) como uma iniciativa fundamental à correção do fluxo escolar e economia dos recursos, é destacada pelo órgão como uma ação necessária à melhoria da qualidade de ensino e eqüidade educacional, ao possibilitar a correção de algumas disfuncionalidades educacionais existentes na rede, como a reprovação, que em 1994, apresentava um percentual1 de 14,1%. Entre as medidas de suporte ao regime de progressão continuada destacam-se os projetos de recuperação paralela e intensiva, além das classes de aceleração, que inicialmente tiveram o propósito de oferecer oportunidades educacionais aos alunos com problemas de aprendizagem, baixo desempenho escolar ou com trajetórias escolares caracterizadas por sucessivas reprovações. Estes projetos, no entanto, são regulamentados, entre os anos de 1996 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 95 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente a 2002, por Resoluções, que sofreram várias alterações, com relação a sua normatização e operacionalização nas escolas da rede. A avaliação, no entanto, transformou-se no principal elemento de discussões e controvérsias no interior de muitas escolas da rede estadual, na opinião de pais, aluno, além de acadêmicos, pois, para alguns, ao retirar o seu poder de servir à aprovação ou reprovação do aluno, o regime de progressão continuada comprometeu, ainda mais, qualquer possibilidade de melhoria da qualidade de ensino; enquanto, para outros, representou um processo essencial para a inclusão, democratização e criação de oportunidades educacionais. Diante de um contexto educacional impulsionado por reformas nos modelos de gestão educacional, com o intuito de corrigir as disfuncionalidades existentes na rede pública estadual paulista, o regime de progressão continuada é implantado no espaço escolar com o propósito de favorecer o processo de democratização, ao propiciar o cumprimento do direito à educação, particularmente, do Ensino Fundamental, fortalecendo a luta contra uma escola pública excludente e discriminatória; e propiciar a economia de recursos, a partir da melhora dos indicadores de qualidade, redução dos custos educacionais e desperdícios causados pela repetência, evasão e distorção idade-série. 1. O regime de progressão continuada na rede pública estadual paulista: propósito e implicações. O regime de progressão continuada é adotado na rede pública estadual de ensino, a partir do ano letivo de 1998, em consonância com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), número 9394/96, que no artigo 32, parágrafos 1º e 2º, possibilita aos sistemas o desdobramento do Ensino Fundamental em ciclos com progressão continuada. Para o CEE-SP, este artigo da LDB viabiliza a opção realizada pela SEE-SP pelos ciclos e a progressão continuada, pois segundo a Indicação número 08/97, a medida favoreceria o estabelecimento de uma relação direta entre a avaliação do rendimento escolar com a produtividade do sistema de ensino, considerando que: Trata-se, na verdade, de uma estratégia que contribui para a viabilização da universalização da educação básica, da garantia de acesso e permanência das crianças em idade própria na escola, da regularização do fluxo dos alunos no que se refere à relação idadesérie e da melhoria da qualidade de ensino (Indicação CEE-SP 08/ 97- Relatório - p.7). Apresentada na rede estadual de ensino como uma medida estratégica para viabilizar a universalização do Ensino Fundamental, garantindo o acesso e a permanência dos alunos na escola, o regime de progressão continuada centra-se na avaliação progressiva do processo de aprendizagem, permitindo a recuperação contínua, quando os resultados alcançados durante o ano letivo não forem satisfatórios, porque ao contrário da promoção automática, de acordo com a SEE-SP (2000): 96 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente No primeiro caso, a criança avança em seu percurso escolar em razão de ter se apropriado, pela ação da escola, de novas formas de pensar, sentir e agir; no segundo, ela meramente permanece na unidade escolar, independentemente de progressos terem sido alcançados (SEE-SP, 2000, p. 8). A Indicação número 08/97, também já apontava as possibilidades de benefício deste processo de mudança, que se por um lado, evidenciaria novos desafios, por outro, contribuiria na resolução de antigos problemas existentes na rede pública estadual paulista, ao destacar que: Uma mudança dessa natureza deve trazer, sem dúvida alguma, benefícios tanto do ponto de vista pedagógico como econômico. Por um lado, o sistema escolar deixará de contribuir para o rebaixamento da auto-estima de elevado contingente de alunos reprovados. Reprovações muitas vezes reincidentes na mesma criança ou jovem, com graves conseqüências para a formação da pessoa, do trabalhador e do cidadão. Por outro lado, a eliminação da retenção escolar e decorrente redução da evasão deve representar uma sensível otimização dos recursos para um maior e melhor atendimento de toda a população. A repetência constitui um pernicioso “ralo” por onde são desperdiçados preciosos recursos financeiros da educação. O custo correspondente a um ano de escolaridade de um aluno reprovado é simplesmente um dinheiro perdido. Desperdício financeiro que, sem dúvida, afeta os investimentos em educação, seja na base física (prédios, salas de aula e equipamentos), seja, principalmente, nos salários dos trabalhadores do ensino. Sem falar do custo material e psicológico por parte do próprio aluno e de sua família (Indicação do CEE-SP, número 8/97). Este Registro, apresentado pelo Conselho Estadual de Educação de São Paulo, destaca as principais justificativas apresentadas para a adoção do regime de progressão continuada na rede estadual paulista: a economia de recursos e a melhoria da auto-estima do aluno. Porém, embora a justificativa psicológica, a respeito da auto-estima do aluno, ofereça elementos relevantes capazes de contribuir na ampliação das oportunidades educacionais com eqüidade; o fator econômico torna-se um dos elementos centrais que orientam a implementação da proposta na rede de ensino. Rose Neubauer, Secretária de Educação do Estado de São Paulo, entre os anos de 1995 e 2002, divulgou, amplamente, a importância do regime de progressão continuada como um fator relevante à auto-estima do aluno e para a economia de recursos, ao considerar que esta medida, além de possibilitar a resolução do problema da repetência e evasão nas escolas, auxiliaria na produtividade dos recursos, garantindo uma melhoria na qualidade de ensino e maior eqüidade no serviço prestado, ao compreender que: a perda por repetência e evasão da ordem de 30%: inexplicável, do ponto de vista pedagógico; inaceitável, do ponto de vista do interesse social; e improdutiva, do ponto de vista econômico (Neubauer, 1999, p.182). VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 97 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Assim, o regime de progressão continuada, enquanto uma medida voltada para a correção do fluxo escolar, tem cumprido com o propósito governamental de corrigir as disfuncionalidades do sistema, permitindo a economia de recursos e a ampliação das oportunidades da população escolar. No entanto, a medida acaba por apresentar outros propósitos com impacto direto no espaço escolar como: a exigência de alterações profundas nas concepções de ensinoaprendizagem, avaliação, além de mudanças organizacionais capazes de trazer benefícios tanto do ponto de vista pedagógico como econômico. 2.2 O olhar dos professores sobre os propósitos e implicações do regime de progressão continuada no espaço escolar. A Escola Estadual Esperança2, localizada na periferia do município de Campinas, SP, atende o ensino fundamental, ciclo II (5ª a 8ª séries), e o ensino médio, foi escolhida para a análise devido a sua valorização na comunidade como uma unidade escolar modelo na região e pelos projetos educacionais desenvolvidos como Amigos da Escola. A unidade escolar possui 16 salas de aula, uma biblioteca, um laboratório de ciências e informática, uma quadra de esportes coberta, e oferece atendimento em três períodos (matutino, vespertino e noturno). No ano letivo de 2004 estavam matriculados na escola 1757 alunos nos níveis Fundamental e Médio, contando com 50 docentes, no ensino fundamental, e 40 no ensino médio, todos com formação em nível superior (licenciaturas); um vice-diretor, dois coordenadores pedagógicos (matutino/ vespertino; vespertino/ noturno), quatro inspetores de aluno, duas faxineiras. O serviço de fornecimento de merenda escolar é terceirizado. Diante das peculiaridades da Escola Esperança, o estudo de caso visa focalizar o olhar de professores efetivos, ou seja, aqueles que possuem pelo menos seis anos de trabalho na Escola Esperança, e coordenador pedagógico acerca dos propósitos e implicações do regime de progressão continuada no espaço escolar após seis anos de implantação da proposta na rede pública estadual. Entre os docentes efetivos entrevistados, destaca-se o de Geografia (Professor 1) e Português (Professor 2), que juntamente, com o coordenador pedagógico concentraram suas falas nos propósitos e implicações do regime de progressão continuada no espaço escolar, contribuindo para uma análise da proposta a partir da subjetividade dos sujeitos que se encontram envolvidos com o processo de ensino e aprendizagem. Assim, antes de destacar o olhar dos professores entrevistados é preciso compreender que para a SEE-SP (1998), o regime de progressão continuada é uma medida que altera “radicalmente” o percurso escolar dos alunos, fazendo com que a Escola encontre maneiras diversificadas de ensinar assegurando a aprendizagem de sua clientela e seu progresso intra e inter ciclos. Pedagogicamente, a proposta, segundo a SEE-SP (1998), deverá contribuir para a elevação da auto-estima do aluno, a partir do reconhecimento de que toda criança é capaz de aprender, desde que sejam oferecidas as condições necessárias para fazê-la, como: o respeito pelo ritmo de aprendizagem, estilo cognitivo, além de recursos essenciais para o desenvolvimento do conhecimento. 98 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente No entanto, para o Professor 1, a concepção pedagógica que envolve o regime de progressão continuada nem sempre é possível ser constituída no interior da sala de aula. “Ao longo do ano o aproveitamento, falando de aproveitamento e de rendimento, dá pra observar é que você não consegue fazer o que você espera. Então, o aluno também não consegue um aproveitamento maior,(...), até mesmo o aluno que, veja bem, ele é reprovado por insuficiência de nota, muitas das vezes, até por ausência, né, em sala de aula. Então ele, o Estado viu através da progressão uma forma do aluno burlar várias coisas como a questão do aproveitamento, do conteúdo, da realização das atividades que são desenvolvidas, não é? Parece que o regime de progressão continuada veio pra realmente fazer com que o aluno, ou que muitos alunos, deixassem realmente de ter um rendimento bom em função das brechas que o projeto deixa” – Professor 1 (Geografia), 39 anos. As “brechas” deixadas pelo regime de progressão e que têm facilitado a vida do aluno, apontadas pelo Professor 1, evidenciam o seu olhar sobre o sentido pedagógico da medida. Frehse (2001), em seu estudo etnográfico compreende que este sentido pedagógico interpretado no interior da Escola centra-se não no aprendizado do aluno, mas na realização da tarefa ou de uma ocupação no dia-a-dia escolar, pois: Ocupar-se significa fazer aquilo que foi ordenado. Entra em cena a questão da autoridade e da disciplina. Esta não é pautada pelo conhecimento que se transmite, (...), mas sim, pelo fato de o aluno obedecer e fazer o que lhe foi solicitado (Frehse, 2001, p.140). O ritmo do aluno, nesta concepção, acaba sendo desvalorizado, porém, o regime de progressão continuada introduz esta problemática: o trabalho com a heterogeneidade do aluno, independentemente, do rendimento apresentado por este ao longo do ano letivo. Deste modo, a facilitação do percurso escolar retratado pelo Professor 1, pode ser compreendido como uma estratégia, que Freitas (2002, p. 306) denomina de “trilhas de progressão continuada diferenciadas” capazes de alterar o “metabolismo escolar”, ao reforçar práticas de “interiorização da exclusão”. As trilhas de progressão continuada diferenciada constituída no interior da Escola podem ser observadas pelos diferentes encaminhamentos dos alunos com dificuldades de aprendizagem, que dependem da avaliação do professor para a continuidade na sala de aula regular ou inclusão destes nos grupos de reforço, como descreve o Professor 2. “A princípio a gente faz um levantamento junto com os professores nas salas de aula. Quais são os alunos que apresentam maiores dificuldades, quais são as dificuldades que eles apresentam, e a partir daí junto com a coordenação a gente monta os grupos, cada um com o seu trabalho específico, é assim, grupinhos, é assim que a gente vai formando né os grupos, a partir das dificuldades comuns entre eles, e sempre em trabalho conjunto com o professor em sala de aula, o que eles precisam que a professora de reforço esteja reforçando né!, O quê que a gente precisa tá trabalhando com eles, o quê que já é relevante trabalhar mais” - Professor 2 (Português), 30 anos. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 99 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Embora seja realizado um levantamento “junto com os professores” da sala de aula, apontado pelo Professor 2, a definição dos alunos com problemas de aprendizagem e suas dificuldades indica ser um processo complicado, pois diante da rotatividade docente, que muitas vezes acontece ao longo do ano letivo com a troca constante de professores; e da superlotação das salas, especificar quem está apto a ser mantido na classe regular ou para o reforço, dependeria da utilização de diferentes critérios ou de um acompanhamento mais efetivo dos alunos. Arcas (2003), ao analisar a fala dos alunos sobre a avaliação da aprendizagem no regime de progressão continuada, destaca que o problema da aprendizagem é transferido como uma responsabilidade do aluno e da família, pois no interior da Escola há a negação da prática de uma avaliação contínua que considere todo o processo de ensino-aprendizagem, sendo o foco principal da avaliação o próprio aluno. Sendo assim, Arcas (2003), pôde observar através da fala dos alunos, que a avaliação diagnóstica e contínua é traduzida no cotidiano escolar, após a introdução do regime de progressão continuada, pelo aumento dos instrumentos de avaliação e na atribuição de valores às ações realizadas pelos alunos em sala, influenciados, diretamente, pelo comportamento e disciplina destes. O ritmo do aluno, portanto, deixa de ser considerado com a valorização do comportamento, da disciplina e realização das tarefas por este. Pavan (1998), ao retratar a produção do sucesso escolar, a partir de um estudo de caso, compreende que embora muitos alunos possam apresentar problemas de aprendizagem, serão sempre considerados “bem-sucedidos” somente aqueles que souberam participar do “jogo escolar e familiar”, ou seja, foram bem comportados, tiveram bom relacionamento com professores e colegas, além de realizarem todas as atividades escolares. Portanto, a partir destes estudos (Arcas, 2003 e Pavan, 1998), é possível considerar que nem sempre os alunos com dificuldades de aprendizagem são encaminhados ao reforço, pois o comportamento e o cumprimento das tarefas escolares, em muitos momentos podem ser decisivos na trilha de progressão destes. Apesar da dificuldade existente para o critério de definição dos alunos e suas dificuldades, a Escola Esperança desenvolve o Projeto reforço com o objetivo, segundo o Coordenador Pedagógico, de “tentar” trabalhar com as dificuldades de aprendizagem dos alunos, ao reconhecer que este trabalho não tem sido fácil devido a alguns problemas como: a falta de interesse dos alunos, a baixa assiduidade destes, desinteresse dos pais. “Tem alunos nossos que ficam no reforço de português e matemática, tem ano que nós temos ciência também, então, aonde tá o maior número de defasagem é aonde a gente criou grupos de reforço. Nós tivemos treze grupos de reforço no primeiro semestre (...). A gente tá querendo fazer um de alfabetização. Esses alunos que estão chegando, tem muita gente que não sabe escrever, eu não sei como chegou até agora, esse é o grande problema, porque tem o aluno que chega na oitava série sem te conversar” - Coordenador Pedagógico, 41 anos. 100 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O reforço, de acordo com a fala do Coordenador Pedagógico, representa o principal mecanismo criado na Escola Esperança para o acompanhamento dos alunos com dificuldades, fato que não tem acontecido nas classes regulares em virtude da superlotação e da necessidade de cumprimento da transmissão de todo conteúdo curricular planejado, durante o ano letivo, independentemente, do ritmo de cada um. O Professor 6, ressalta a importância do Projeto ao considerar que durante essas aulas, além da oportunidade de trabalhar com turmas pequenas, o atendimento aos alunos tem a possibilidade de ocorrer quase, individualmente, situação que é inversa nas classes regulares. “A gente trabalha com turmas pequenas, de no máximo vinte alunos, assim, eu consigo dar uma atenção quase que individual, o que não acontece em sala de aula com turmas enormes, com aquele conteúdo todo de gramática a ser cumprido, então, no reforço eu consigo dar uma atenção maior pra esse aluno” – Professor 2 (Português), 30 anos. O trabalho com turmas pequenas no reforço, de acordo com o Professor 2 facilita o trabalho com o aluno, mas as condições de funcionamento do Projeto na Escola Esperança não tem permitido com que muitos o freqüentem, pois existem somente 4 professores para ministrar estas aulas, gerando uma grande fila de espera, sendo, portanto, a procura maior que a demanda. Essa situação tem feito com que a passagem pelo reforço dos alunos ocorra rapidamente, de acordo com o Professor 2. “Eu tenho um aluno assim, avançaram ele muito, então não há porque manter um aluno desse no reforço segurando a vaga de outro que tá precisando, e como a turma é pequena, não pode colocar muita gente, senão, vira sala de aula e aí, muitos trazem todos os problemas pra gente, e não é isso, temos que trazer soluções e não problemas, então, tem alunos que nossa, deslancharam, (...), e tem aluno que ainda não podiam tá indo embora, as suas melhoras são ainda insignificantes em virtude de todos os probleminhas que ele apresenta, então esse vai continuar, ele continua de repente esse ano, acaba a quinta série, ano que vem ele vai fazer de novo, quinta série, vai continuar no reforço, porque sabe, cada um tem seu ritmo, eu não posso acelerar (...)” – Professor 2 (Português), 30 anos. Apesar do trabalho com o reforço dependa do ritmo do aluno, como retratou o Professor 2, este Projeto nem sempre é bem visto pelos docentes. Frehse (2001), ao longo do seu estudo, constatou que muitos professores olham com desconfiança para a o reforço, ao alegarem que este serve para “incutir responsabilidade nos alunos do que, propriamente, conhecimento” (p.74), sem surtir nenhum efeito sobre a aprendizagem daqueles que apresentam problemas escolares. Porém, apesar das controversas existentes sobre o reforço, para o Professor 2, este Projeto deve ser entendido como um complemento do regime de progressão continuada, diante da impossibilidade de retenção do aluno durante o ciclo por dificuldades escolares. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 101 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente “Eu acho que ele tá complementando, porque a partir do momento que você não pode reter o aluno, ele tem dificuldades, mas ele tem que passar. Você tem que criar meios pra que ele nas dificuldades dele consiga progredir, como? Fazendo reforço, numa sala menor, com menos alunos, com aluno que tem o mesmo problema que ele. (...) Então, eu acho que o reforço serve muito pra complementar essa história de progressão continuada, (...) porque você tá criando mecanismos pra que ele aprenda escrever” – Professor 2 (Português), 30 anos. O reconhecimento do Professor 2, de que o reforço é um “mecanismo” para auxiliar o aluno no desenvolvimento da escrita, indica que entre os principais problemas de aprendizagem se encontra o processo de alfabetização. Por isso, o Coordenador Pedagógico da Escola Esperança empenha-se na formação de uma classe de alfabetização, apesar das dificuldades encontradas. “A grande complicação é que os nossos professores PEB II eles não sabem alfabetizar, e a gente precisa de um professor PEB I, ele tem, sim, essa qualidade, mas eles não podem trabalhar aqui na escola. Então, pra gente é muito complicado, porque a gente tem que tá, assim, correndo atrás para saber quem entre os PEB1 II faz tudo isso, sabe alfabetizar, porque é muito difícil. Você conta, assim, com a doação do próprio professor” – Coordenador Pedagógico – 41 anos. A utilização do termo “você conta, assim, com a doação do próprio professor”, pelo Coordenador Pedagógico, evidencia que o trabalho com o ritmo escolar de cada aluno depende do comprometimento e responsabilidade docente, mesmo que este não tenha uma formação apropriada para fazê-lo. Assim, se entre as principais dificuldades de aprendizagem encontramse no processo de alfabetização, o reforço conta com uma estrutura precária: poucos professores e somente dois encontros semanais de quarenta minutos cada um. Por isso, os mecanismos criados para sanar os problemas, acabam por comprometer, de fato, aprendizagem da maioria, criando diferentes trilhas de progressão continuada. Para Freitas (2002), a criação de diferentes trilhas de progressão contribui para a internalização da exclusão, pois muitos alunos encaminhados ou não para o reforço escolar acabam permanecendo na escola “mesmo sem aprender” (p.308). Deste modo, o respeito ao ritmo do aluno, o trabalho com a heterogeneidade, tão anunciado como grandes conquistas proporcionadas pelo regime de progressão continuada, de acordo com a fala dos Professores e do Coordenador, continua representando um grande desafio que ainda depende da boa vontade docente, já que os problemas se restringem ao aluno e sua família, e não nos mecanismos de apoio existentes. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ARCAS, P. Avaliação da aprendizagem no regime de progressão continuada: o que dizem os alunos. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2003. 102 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente BARRETTO, E. S. S. A avaliação na educação básica: entre dois modelos. Educação e Sociedade, n.75, p.48-66, ago.2001. FREHESE, E. Democratização em xeque? Vicissitudes da progressão continuada no ensino paulista em 1999. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação, USP. São Paulo, 2001. FREITAS, L.C. A internalização da exclusão. Educação e Sociedade, v.23, n.80, p. 301-327, set. 2002. HUTMACHER, W. A escola em todos os seus estados das políticas de sistemas às estratégias de estabelecimento. In: NÓVOA, A. As Organizações Escolares em Análise. 2ª ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995. NEUBAUER, R. Descentralização da educação no Estado de São Paulo. In: COSTA, V. L. C (Org.). Descentralização da Educação: novas formas de coordenação e financiamento. São Paulo: FUNDAP: Cortez, 1999, p. 168-187. OLIVEIRA, S. R. F. Formulação de Políticas Educacionais: um estudo sobre a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (1995-1998). 1999. Dissertação (Mestrado em Educação) Faculdade de Educação. Universidade Estadual de Campinas. Campinas. PARO, V. H. Porque os professores reprovam: resultados preliminares de uma pesquisa. Ensaio: aval. pol. públ. educ., Rio de Janeiro, v. 8, n. 28, p. 273-282, jul./set. 2000. PAVAN, D. O. A produção do sucesso escolar: família, escola e classes populares. Pró-Posições, v. 9, nº 1 (25), p. 45-71, mar. 1998. SÃO PAULO. Deliberação CEE – 9/97 de 5/08/1997. SÃO PAULO. Indicação CEE – 8/97 de 5/08/1997. SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO. Escola de Cara Nova: Planejamento 98 (Progressão continuada). São Paulo: SEE, 1998. ______. A Construção da Proposta Pedagógica da Escola: A Escola de Cara Nova/ Planejamento 2000. São Paulo: SEE, 2000. NOTAS 1 Fonte: Documento Desempenho da Escolar da Rede Estadual de São Paulo. São Paulo: Centro de Informações Educacionais – Secretaria de Estado da Educação, 2003. Na rede estadual de ensino os professores são classificados em dois níveis Professor de Educação Básica I - PEBI (1ª a 4ª série do Ensino Fundamental) e Professor de Educação Básica II – PEBII (5ª a 8ª série do Ensino Fundamental e Médio). Com a reorganização das escolas estaduais em 1996, as unidades que oferecem somente as séries iniciais não podem contratar professores do nível II e vice-versa. 2 O nome da Escola analisada e dos professores entrevistados foram preservados, a fim de evitar possíveis represálias. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 103 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O PROFESSOR FORMADOR E SEU TRABALHO NA FORMAÇÃO INICIAL PASSOS, Laurizete Ferragut ; MANRIQUE, Ana Lúcia (PUC-SP) INTRODUÇÃO Remonta aos anos 20 e 30 do século XX as primeiras discussões a respeito da formação do professor em nível superior. Dos anos 50 aos 70, devido ao enorme crescimento do acesso da população ao ensino primário e pressões para acessar os Ensino Médio e Superior, houve um segundo momento nacional de discussões sobre a formação de professores. Atualmente, estamos vivenciando um terceiro momento com debates a respeito da Reforma do Ensino Universitário, tanto em relação aos cursos de bacharelado como aos cursos de licenciatura. O Conselho Nacional de Educação, por meio da Resolução CNE/CP n0 1 (18/02/ 2002), resolve que toda formação de professores deverá observar alguns princípios norteadores, tais como: a concepção nuclear será pela competência; existência de coerência entre a formação oferecida e a prática esperada do futuro professor; e o foco no processo de ensino e de aprendizagem será a pesquisa. Os conhecimentos exigidos para a formação dos professores deverão contemplar: a cultura geral e profissional; conhecimentos a respeito da criança, do adolescente, de jovens e adultos; conhecimentos sobre dimensão cultural, social, política e econômica da educação; conteúdos das áreas de conhecimento que serão objeto de ensino; conhecimentos pedagógicos; e conhecimentos advindos da experiência. Considerando que os cursos de Licenciatura destinam-se a formar os professores para atuarem no Ensino Fundamental e Médio, Gatti (1991) já no início da década de 1990 chamava a atenção sobre o papel desses cursos e para o reforço a ser dado na articulação adequada das disciplinas específicas e formativas com a realidade concreta das escolas, com as experiências e com o conhecimento de que dispõe o professor a partir de sua prática. Importante destacar que apesar de um contexto de exigências e expectativas, o aumento do número de cursos de Licencitura e do conseqüente e significativo crescimento do número de alunos foi vertiginoso. Dados do MEC/INEP indicam que o aumento do número dos cursos de Graduação que oferecem Licenciatura passou de 2.512 em 2001 para 5.880 em 2002. Já a matrícula para os cursos de Licenciatura para a função docente cresceu 90% no período 1991/2002 e chegou a um contingente de 1.059.385 alunos.. As exigências legais somadas às circunstâncias atuais do crescimento dos cursos de Licenciatura não têm alterado o contexto de valorização dos professores que nele atuam e, como apontou Cunha (2000), a lógica de estruturação desses cursos traz preocupações em relação às repercussões para o trabalho que realizam. 104 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Há que se considerar ainda, as múltiplas possibilidades de formação expressas nas diferentes modalidades de cursos hoje propostos para formar o professor e que têm trazido uma variedade das próprias condições de formação. Nesse sentido, cada vez mais se impõe a necessidade de estudos mais aprofundados sobre o trabalho do professor formador junto aos futuros professores. Este trabalho pretende trazer contribuições para essa discussão, pois insere-se nas atividades do grupo de pesquisa “Processos psico-sociais da formação de professores” da PUC-SP, sob responsabilidade da profa. Marli André, que tem por objetivo investigar questões relacionadas aos processos de constituição da identidade profissional dos professores e suas representações sobre a profissão e sobre sua ação docente. Nesse sentido, nossa investigação está centrada no trabalho do professor formador que atua em cursos de Licenciatura. O TRABALHO DO PROFESSOR FORMADOR Quando se aborda o trabalho do professor que atua nos cursos de Licenciatura, inúmeras questões surgem e que ainda não foram respondidas. Esse professor é um formador de professores? Como e em que condições os professores das Licenciaturas têm exercido seu papel de formador? Por que centrar uma pesquisa nos professores que formam outros professores? Conhecer mais de perto quem é esse docente e quais as condições que dispõe para desenvolver seu trabalho, parece-nos essencial, pois como afirma Imbernón (2002, p.63): Essa formação, que confere o conhecimento profissional básico, deve permitir trabalhar em uma educação do futuro, o que torna necessário repensar tanto os conteúdos da formação como a metodologia com que estes são transmitidos, já que o modelo aplicado (planejamento, estratégias, recursos, hábitos e atitudes ...) pelos formadores dos professores atua como uma espécie de “currículo oculto” da metodologia. A formação inicial como um começo da socialização profissional é um período muito importante porque é quando o futuro docente pode formar uma imagem cristalizada do magistério, um “modelo assistencial e voluntarista” da docência ou ao contrário, pode adquirir uma bagagem de conhecimentos, de práticas e de atitudes que lhe permita exercer a profissão com a responsabilidade social e política que todo ato educativo implica. A formação inicial deve dotar o futuro docente “de uma bagagem sólida nos âmbitos científico, cultural, contextual, psicopedagógico e pessoal que deve capacitá-lo a assumir a tarefa educativa em toda sua complexidade, atuando reflexivamente com a flexibilidade e o rigor necessários, isto é, apoiando suas ações numa fundamentação válida” (Imbernón, 2002, p.60). Se a formação inicial é um momento decisivo porque fornece as bases do conhecimento profissional (que envolve uma pluralidade de saberes, um repertório de atitudes, um conjunto de sentimentos e valores em relação à docência), se é o momento em que se constroem esquemas, imagens, metáforas sobre a educação, torna-se relevante investigar quem será o profissional que dará conta dessa tarefa e em que condições realiza seu trabalho. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 105 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Há ainda um traço que caracteriza o trabalho do formador e que o diferencia de outras profissões que também têm seres humanos como objeto: é o aspecto formativo. Cabe ao professor formador uma ação intencional de ensinar algo a alguém e ao mesmo tempo formar esse alguém para o exercício de sua profissão. PROFESSOR FORMADOR E O TRABALHO DOCENTE O contexto de trabalho do professor, como aponta Imbernón (2004), tornou-se complexo e diversificado. O trabalho do docente não se reduz à transmissão de um conhecimento acadêmico ou a transformação do conhecimento comum do aluno em um conhecimento acadêmico. Para o autor, o trabalho do profissional professor requer dele outras funções, como a luta contra exclusão social, participação, relação com as estruturas sociais e com a comunidade, motivação, a capacidade reflexiva em grupo, a convivência com as incertezas, divergências e as rápidas decisões sobre o ensino. Sabe-se, porém, que não é possível discutir o trabalho docente sem penetrar, de fato, nas formas concretas de sua materialização no interior da escola e da sala de aula, ou seja, penetrar nas práticas de sala de aula e nas relações estabelecidas com e no contexto escolar. Ao abordar as condições que estruturam o trabalho do professor, Tardif (2002) defende um postulado que diz que os saberes do professor devem ser compreendidos numa relação direta com tais condições. E explica: “Esse postulado significa que o trabalho docente, como todo trabalho humano especializado, requer certos saberes específicos que não são partilhados por todo mundo e que permitem que o grupo de professores assente sua atividade num certo repertório de saberes típicos desse ofício” (p.217). Isso significa que não é qualquer pessoa que pode ser professor, pois há conhecimentos específicos a serem adquiridos por aqueles que pretendem exercer a docência. Tardif (2002) afirma que “a questão dos saberes está intimamente ligada à questão do trabalho docente no ambiente escolar, à sua organização, à sua diferenciação, à sua especialização, aos condicionantes objetivos e subjetivos com os quais os professores têm que lidar. Ela também está ligada a todo contexto social no qual a profissão docente está inserida e que determina, de diversas maneiras, os saberes exigidos e adquiridos no exercício da profissão”(p.218). Isso significa que as investigações sobre o trabalho docente devem considerar o contexto institucional em que esse se desenvolve, assim como os determinantes macro-estruturais que o afetam. Destas considerações, pode-se apreender que o professor necessita de novas formas de trabalho nos cursos de Licenciatura e de novas aprendizagens para exercer sua profissão de professor. Quem irá desenvolver esse trabalho com os futuros professores? Será que todo professor que atua em cursos de Licenciatura está apto para realizar essa tarefa? 106 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente IDENTIDADE PROFISSIONAL DE PROFESSORES Um dos questionamentos deste texto relaciona-se aos processos de formação dos formadores de professores e do significado de ser formador de professores hoje. Isso remete à questão da identidade profissional e à crise dessa identidade que acompanha a transformação da noção de trabalho hoje (Dubar (2002) apud Ludke e Boing (2004)) e, em paralelo, o crescimento da precarização do trabalho do professor (Sampaio & Marin, 2004), aí incluídos a intensificação do trabalho docente, a atuação e ação ampliadas, a exigência de mais estudo, a obrigatoriedade de certificação, o salário prejudicado, dentre outras. Sabe-se que, como pano de fundo dos estudos e debates sobre a profissionalização do professor, encontra-se a reivindicação do reconhecimento de seu profissionalismo (ENGUITA,1991) e a busca das marcas de sua identidade profissional (PÉREZ GOMES, 2001). O reconhecimento do profissionalismo dos docentes tem se destacado numa perspectiva de mudança no modo de encarar a profissão, ou seja, diferentemente de períodos anteriores em que se reivindicava a identidade com outras categorias profissionais ou outros trabalhadores, hoje se defende a diferença, ou como Enguita (1991) chama a atenção – “agora se trata de sublinhar e reforçar a diferença” (p.51). Garcia, Hypólito & Vieira (2005) reforçam essa idéia e destacam que as pesquisas voltadas para a questão da identidade profissional e profissionalização docentes focaram, até o momento presente, aspectos unificadores e fundantes dessa identidade. Classe social, natureza do processo de trabalho, gênero, história de vida, formação profissional, dentre outros, têm sido tratados e problematizados pelas pesquisas a partir desses aspectos unificadores. Esses mesmos autores trazem uma contribuição para nossa investigação sobre professores formadores que atuam em cursos de Licenciatura, quando apontam como um caminho produtivo para as pesquisas, um olhar para “as diferenças, as descontinuidades, as divisões dessa categoria, privilegiando as narrativas dos professores e das professoras a cerca de si mesmos e de seus contextos de trabalho. Não para reificar seus próprios pontos de vista ou tomá-los como a medida mais justa do que de fato acontece, mas talvez para nos aproximarmos da dinâmica contraditória e fragmentada em que estão mergulhados” (p.54). Tomando esses caminhos apontados, nos propusemos a investigar professores de vários cursos de Licenciatura e tentando, nessa fase inicial da pesquisa, ouvi-los a partir de suas demandas reais, distintas e, muitas vezes contraditórias, como apontada pelos autores acima. Assim, aspectos de caráter moral, burocrático, pessoal, profissional ou técnico são trazidos pelos professores formadores e estão orientando nossas análises. Para esse trabalho, apresentaremos dados relativos à entrevista realizada com uma professora de Prática de Ensino de Letras que atua em um Centro Universitário no interior do Estado de São Paulo. Foi uma entrevista que explorou demoradamente aspectos de sua formação, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 107 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente suas concepções sobre profissão docente e identidade profissional, seu trabalho em sala de aula, as condições de trabalho e de carreira, além de envolver questões relativas às atividades culturais, esportivas, sociais e religiosas. IDENTIDADE DOCENTE EM CONSTRUÇÃO E PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO COM O TRABALHO Formada pela primeira turma do curso de Licenciatura da Faculdade em que hoje atua como professora formadora e com Mestrado finalizado em 2004, nossa entrevistada ocupava na época, final dos anos 1970, cargo num departamento de vendas em uma multinacional. Ao mesmo tempo, lecionava no período noturno num curso de Contabilidade e Secretariado, de nível médio. A aproximação com algumas professoras que lecionavam no Curso de Magistério levoua a participar da Conferência Brasileira de Educação (CBE) em Niterói, em 1985. Mesmo sem saber a importância e o que representava essa conferência para a área de Educação, a professora destaca esse momento como definidor de suas escolhas profissionais futuras: foi num passeio pela praia durante a CBE que decidi deixar meu alto salário e cargo na multinacional e mergulhar de vez no trabalho como professora. Começa curso de Mestrado na PUC/SP na área de Língua Portuguesa em 1986 e não consegue finalizar por falta de tempo. Na mesma época, é convidada para substituir uma de suas melhores professoras do Curso de Letras e isso se constituiu num de seus maiores desafios profissionais: eu tremia cada vez que entrava na sala de aula. Porém, aponta como trabalho mais difícil e que tremeu mais que seu início na Licenciatura, o começo do seu trabalho com 5ªs séries, quando do seu ingresso como efetiva na rede pública estadual de ensino no ano seguinte: eu não tinha idéia do tamanho dos alunos de 5ª série. Só tinha experiência com adulto e logo no primeiro dia acaba a energia. A realidade assustou e também não sabia qual era a forma para me aproximar das crianças nessa idade. O trabalho da professora junto ao curso de Licenciatura provocou e acelerou, segundo ela, a necessidade de um vínculo com a realidade das escolas e hoje, mais intensamente, este vínculo vem se mostrando fundamental no seu atual trabalho com a disciplina Prática de Ensino de Língua Portuguesa. A análise que hoje faz de sua experiência profissional inicial nas classes de 5ªs séries mostra clareza e avanço em suas reflexões sobre sua atuação e desempenho: ...eu não sabia ensinar a formar conceitos, os adultos com os quais trabalhava na Licenciatura já vinham com conceitos formados. Mas logo nas primeiras semanas fui descobrindo que teria que começar fazendo os alunos despertarem gosto pela leitura. Ia estimulando a ida à biblioteca e incentivando a “leitura vagabunda”, a que não precisa prestar conta com fichas. Contavam suas histórias lidas pra a classe. Aprendi isso com uma colega num curso de capacitação para professores da escola pública. 108 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A professora destaca que tem freqüentado cursos destinados aos professores da rede pública e que, para ela, tem se constituído numa fonte de aproximação com as necessidades, temas, formas de organização do trabalho na sala de aula, maneiras de lidar com as diversidades e diferenças nela presentes. Enfim, suas considerações sobre os cursos de formação continuada indicam um aproveitamento para sua prática enquanto professora do Ensino Fundamental e aponta como têm ajudado na disciplina Prática de Ensino na Licenciatura: Considero importantíssima a disciplina Prática de Ensino porque o que interessa para eles é o que acontece na escola pública e as capacitações têm permitido discutir com eles e utilizar experiências lá trabalhadas. Isso tem ajudado meus alunos, futuros professores em seus projetos com Prática de Ensino. Eles só trabalham com projetos na escola pública. Conta sobre as experiências com peças de teatro desenvolvidas pelos alunos da Licenciatura nas escolas da periferia e como sua formação em Psicodrama tem permitido um olhar diferente sobre a prática e possibilitado esse trabalho. Revela também que, nos últimos três anos, tem tido uma vida cultural mais intensa e freqüentado concertos de óperas e peças de teatro e cinema em São Paulo. No decorrer da entrevista, pode-se perceber que a complexidade de sua trajetória vai compondo um caminho de construção de sua identidade profissional. A formação em Psicodrama Pedagógico tem, segundo ela, fortalecido não só sua identidade pessoal como mudado sua maneira de analisar a realidade. Tomou também a questão da produção de texto mediada pelo Psicodrama na sua pesquisa de dissertação de Mestrado. Os diversos fatores que têm marcado a construção da identidade profissional dessa professora parecem interagir entre si e apontam numa direção que toma o conhecimento pedagógico do professor e seu ensino para os futuros professores no curso de Licenciatura, a partir do conhecimento de si mesmo e do seu aluno. Embora não saiba dizer como seus colegas da faculdade a vêem, ela tem clareza de como os alunos a vêem: Os alunos daqui me vêem com muito carinho porque o tratamento que dou é de me envolver com os problemas deles. Primeiro me coloco como pessoa e depois como profissional e dou chance dele também se colocar como pessoa. Sinto que preciso ajudar a resgatar a dignidade do ser humano. Não tenho alunos na sala, eu tenho gente na sala.Os alunos do Estado trato com respeito profissional e carinho. A minha palavra é ordem para eles. Sou severa, mas nunca destrato ou humilho. Muitas vezes levo-os à diretoria com minha mão no ombro dele, como ato de amor, não jogo a toalha. A vivência do Estado, o carinho, trago aqui para os alunos da Licenciatura. Sem vínculos não se faz nada. Um dado trazido pela entrevista refere-se à posição da professora em relação ao professor visto como profissional. Para ela, o professor não tem sido profissional, pois não trata a VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 109 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente profissão com carinho e com perspectivas de mudanças: o verdadeiro profissional pensaria – qual é o meu papel aqui? É transformar, é levar o aluno a ver o mundo com maiores possibilidades. Profissional tem que ter compromisso. Comenta ainda, em relação à questão, que quando pegou uma classe em que os alunos tinham sérios problemas de aprendizagem, chamou os pais e disse que se sentia um fracasso como educadora, pois não havia conseguido recuperar grande parte deles. Um dado já trazido por outras pesquisas sobre professores do Ensino Fundamental e Médio vem se repetir com os professores da Licenciatura. O trabalho comprometido da professora, sua atuação e trabalho junto às escolas, sua dedicação aos alunos mostraram-se isolados dos demais professores do curso de Licenciatura e do quadro de professores. Da mesma forma, a professora trouxe poucas considerações sobre suas condições de trabalho. É professora horista contratada pela CLT e mostra-se satisfeita com seu contrato. Apesar de utilizar as madrugadas para o preparo e planejamento das aulas, não aparentou discordância ou reivindicação de mudança desse quadro e com o plano de carreira ainda restrito que possui a instituição. Os dados sobre condições de trabalho serão retomados numa segunda entrevista, pois revelam um aspecto importante do profissionalismo do professor e traz implicações sobre a identidade profissional do docente. Outros pontos servirão de análise para as entrevistas, notadamente as referentes à complexidade do trabalho docente do professor formador em razão das reformas instauradas no país. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este texto apresenta uma análise inicial de uma das entrevistas realizadas com professores formadores que atuam em cursos de Licenciatura. Mostra uma interdependência e uma identificação entre as ações de formadora e as de professora de Ensino Fundamental, caracterizando seu trabalho com os futuros professores. Além disso, pode-se notar a importância da participação em um evento da área da Educação como um dos determinantes para sua escolha para o magistério, configurando uma marca na construção da identidade docente. Os dados deixaram transparecer que as dificuldades enfrentadas diariamente em seu trabalho como professora do Ensino Fundamental formam as bases de seu trabalho como formadora de novos professores nos cursos de Licenciatura. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES GARCIA, M. M., HYPÓLITO A. M., VIEIRA, J. S. As identidades docentes como fabricação da docência. Educação e Pesquisa, São Paulo, vol 31, n. 1, p. 46-56, 2005. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP n0 1 (18/02/2002). Disponível: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CP012002.pdf. 110 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente CUNHA, M.I. Ensino como mediação da formação do professor universitário In MOROSINI, M.C. Professor do Ensino Superior: Identidade, Docência e Formação. Brasília, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais- MEC/INEP, 2000. ENGUITA. M.F. A ambigüidade da docência: entre o profissionalismo e a proletarização. Teoria & Educação, Porto Alegre, n. 4, p.41-61, 1991. GATTI, B A formação dos docentes: o confronto necessário professor x academia. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 81, p. 70-74, 1991. IMBERNÓN, Francisco. Formação docente e profissional. Forma-se para a mudança e a incerteza. São Paulo: Cortez, 2000. (Coleção Questões da Nossa Época, v.77) LUDKE, M. & BOING, L.A. Caminhos da profissão e da profissionalidade docentes. Educação e Sociedade. Campinas, vol. 25, n.89, p.1159-1180, 2004. PÉREZ GÓMEZ, A.I. A cultura escolar na sociedade neoliberal. Porto Alegre:Artmed, 2001. SAMPAIO,M.M.F. & MARIN,A.J. Precarização do trabalho docente e seus efeitos sobre as práticas curriculares. Educação e Sociedade, Campinas, vol. 25, n.89, p.1203-1226, 2004. TARDIF, M. Saberes Docentes e Formação Profissional. Petrópolis:Vozes, 2002. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 111 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente REPRESENTAÇÕES DE PROFESSORAS: REFLETINDO SOBRE O PAPEL DA PROFESSORA DE EDUCAÇÃO INFANTIL Muriane Sirlene Silva de Assis (Universidade Federal de São Carlos - UFSCar) O presente trabalho foi extraído de nossa dissertação de mestrado na qual buscamos caracterizar as representações das professoras sobre a função da instituição de Educação Infantil e sobre o papel da professora dessa etapa da educação. Com o objetivo de contribuir para o fortalecimento da identidade profissional da professora de Educação Infantil, este trabalho busca refletir sobre o papel da professora a partir das representações que as próprias professoras elaboram no cotidiano de seu trabalho. Nosso interesse por este estudo se deve ao fato da Educação Infantil ser uma importante etapa da educação na qual funções fundamentais do psiquismo humano são formadas nas crianças. Diante da importância dessa etapa da educação para o desenvolvimento das crianças, entendemos que a Educação Infantil é um interessante campo de pesquisa, principalmente nesse período de sistematização e de configuração de sua identidade. A Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional promulgada em 1996 e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil editado em 1998 são exemplos significativos do reconhecimento que a Educação Infantil vem adquirindo no cenário educacional nos últimos anos. A Constituição Federal prescreve que a Educação Infantil é um dever do Estado e um direito da criança, conforme podemos observar em seu Cap. III, Art. 208, inciso IV em que se afirma “a garantia do atendimento em creches e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade”. Analisando a concepção de creche e pré-escola da Constituição, Zilma de Moraes Oliveira et all (1992, p. 22) afirmam que: “tal concepção opõe-se à visão tradicional da creche como uma dádiva, como um favor prestado à criança, no caso à criança pobre e com funções apenas assistencialistas e de substituição da família.” A função educativa da Educação Infantil anunciada pela Constituição Federal de 1988 é consolidada pela Lei de Diretrizes e Bases Nacional nº 9394/96, conforme demonstra o artigo 29 desta lei: A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. 112 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Diante da complexidade e da importância da Educação Infantil para o desenvolvimento das crianças, torna-se necessário pensarmos nas profissionais que atuam com essa modalidade da educação. Sinalizando o papel do adulto para o desenvolvimento das crianças Mukhina (1996, p. 40) afirma que: Sem dúvida, a criança não pode se integrar na cultura humana de forma espontânea. Consegue-o com a ajuda contínua e a orientação do adulto - no processo de educação e de ensino. (destaque no original) Sem desconsiderarmos o papel do espaço físico, dos recursos materiais e das próprias crianças, o entendimento sobre o ato educativo que compartilhamos com os autores do referencial histórico-cultural e histórico-crítico evidencia a valorização do papel do professor na condução do processo de ensino-aprendizagem-desenvolvimento. Nesse sentido estudar o professor, ou melhor, dizendo, a professora de Educação Infantil, uma vez que as mulheres são maioria nessa profissão, é bastante relevante neste período de consolidação de identidade da educação das crianças menores de 7 anos. Devido ao fato das professoras de Educação Infantil trabalharem com crianças pequenas e por serem as mulheres as maiorias dessas profissionais é comum observarmos uma tendência à naturalização do fazer docente que culmina na desvalorização. Educar crianças pequenas muitas vezes não é entendido como uma função profissional tendo em vista que, para muitos, basta ser mulher para exercer esse papel. Sobre este assunto, convém citar Arce (2002, p. 87) para demonstrar as origens históricas das interpretações que atribuíam a mulher a exclusividade na tarefa de educar crianças pequenas: A maternidade surge como a bandeira principal, e a nova imagem da infância como detentora da inocência e bondades humanas reforça a defesa de que a mulher, este ser angelical escolhido por Deus para gerar a vida, deva viver em um ambiente harmonioso e virtuoso, tomando para si a educação desta semente abençoada que perpetuará a vida humana: a criança. Importante ressaltar que esta mulher/mãe já estaria naturalmente dotada de tudo o que se necessita para a educação das crianças pelo simples fato de ter nascido mulher e poder gerar a vida. (grifo nosso). A idéia de que a mulher é uma educadora nata ainda povoa o imaginário de muitas pessoas e dificulta a construção da profissionalidade da professora de Educação Infantil. Acreditar que a própria condição de mulher já “habilita” uma pessoa para ser professora de crianças pequenas dá margem para justificar a precariedade dos cursos de formação inicial de professores e a falta de investimentos na formação continuada das professoras de Educação Infantil. De acordo com Optiz in Arce (2002, p. 80-81): (...), a educação de crianças pequenas também se estabeleceu como função feminina, o fato de as crianças também serem presas ao VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 113 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente âmbito privado e a necessidade de cuidado do corpo colocavamnas como mais um trabalho doméstico dentro dos afazeres que a mulher deveria assumir. Essa citação demonstra que o fato da educação de crianças pequenas ter sido concebida no âmbito do privado, do doméstico pode propiciar entendimentos que desvalorizam a necessidade de aperfeiçoamento, de especialização e de profisisonalização das pessoas que se dedicam a desempenhar essa função. Em razão de a Educação Infantil ter como alunos crianças muito pequenas exige que algumas das práticas pedagógicas desenvolvidas em suas instituições sejam bem próximas de determinadas práticas de cuidados com crianças realizadas na esfera doméstica. Devido à coexistência de aspectos públicos e privados e de práticas maternas e docentes nas atividades desenvolvidas pelas professoras de Educação Infantil é possível que apreendamos princípios da ‘maternagem’ nas representações das professoras de nossa pesquisa. Para Kishimoto (2002, p. 7): Princípios como a maternagem, que acompanhou a história da educação infantil desde seus primórdios, segundo a qual bastava ser mulher para assumir a educação da criança pequena, e a socialização, apenas no âmbito doméstico, impediram a profissionalização da área. Assim, vale afirmar a importância da superação desses princípios no interior das instituições de Educação Infantil. Ongari e Molina (2003, p. 115) afirmam que: Paradoxalmente, a diferenciação entre papéis paternos e educativos institucionais não foi objeto de explorações sistemáticas: uma afirmação da diferença é acompanhada por uma certa indeterminação e incapacidade para especificar esta diferença (pelo menos em termos de uma atribuição genérica de funções mais ‘afetivas’ aos pais, e de competências mais ‘educativas’, entendidas talvez no sentido escolar de instrução, às educadoras: cf. Cocever, 1977; Giacomini, 1977), bem como de pouca reflexão sobre este aspecto na própria definição profissional. Desse modo, nós entendemos que é por meio de estudos, de pesquisas, da reflexão e da discussão coletiva sobre a formação e atuação da professora de Educação Infantil que essa superação pode ser iniciada. Kishimoto (2000), em estudo que traz dados e discussões referentes à formação dos profissionais de creches no Estado de São Paulo nos anos de 1997-1998, demonstra a existência de uma grande diversidade e inconsistência no perfil desses educadores no Brasil. Estudos como os coordenados por Kishimoto ainda são poucos. Os educadores e as professoras de Educação Infantil não têm sido suficientemente pesquisados, muitas questões referentes à formação e constituição profissional deles precisam ser analisadas. 114 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente A necessidade de reflexão sobre a função social das instituições e dos profissionais desse nível de ensino é enfatizada por Arce (1997) ao afirmar que “(...), a falta de definição clara do papel desse nível de ensino tem prejudicado e rebaixado mais ainda este profissional dentro do quadro da carreira docente.” Rocha (1999), realizando um balanço da produção acadêmica sobre Educação Infantil, destaca que embora essa produção venha aumentando em quantidade ela ainda é pequena diante da amplitude e complexidade da temática. Os argumentos dessas autoras sobre a questão do profissional de Educação Infantil são por nós compartilhados e justificam nosso interesse pela constituição profissional da professora dessa modalidade da educação. A bibliografia nos aponta a existência de um terreno fértil para a pesquisa na área da Educação Infantil face às novas exigências trazidas pela LDB (1996), às próprias características dos alunos e das professoras dessa modalidade da Educação Básica e os vários pontos abertos por investigações já realizadas que necessitam continuidade e aprofundamento. No interior desse vasto e fértil terreno de pesquisa e num momento de efervescência política e teórica em que se busca sistematizar e democratizar um atendimento educacional de qualidade na Educação Infantil, centraremos nossas preocupações nas professoras de Educação Infantil trazendo as representações como categoria de análise a partir de conceitos da Psicologia Histórico Cultural de Vygotsky e sua escola. Tomando a Psicologia Histórico-Cultural como embasamento teórico, entendemos que as representações se formam a partir do “‘locus’ de su existencia y su ‘modus vivendi’: la existencia real de la psiquis ‘se ubica’ en el espacio-tiempo de la interrelación del hombre com el mundo, en el espacio-tiempo de su actividad” (Shuare, 1990, p. 62). O conceito de representação que adotamos se embasa em Leontiev (1978a), nesse sentido, representação pode ser entendida como uma produção construída pelas pessoas cujo significado é constituído no contexto de vivência num grupo social. Através desse processo a realidade exterior é apropriada pelo homem e se torna interior. Portanto, estamos considerando a representação como uma forma de apropriação da realidade pelo indivíduo em um processo de elaboração de significado e sentido a partir de sua atividade na sociedade. Assim, estruturamos este trabalho a partir da seguinte questão: Quais são as representações que as professoras de ensino infantil têm sobre sua própria atividade profissional? Com base no relato das professoras objetivamos compreender como essas representações podem estar influenciando as práticas educativas no interior de uma instituição educativa, tendo em vista as conseqüências dessas influências para a constituição profissional da professora desse nível de ensino. Desse modo, temos como objetivos: · Apreender as representações que as professoras em exercício têm sobre a função da professora de Educação Infantil; VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 115 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente · Verificar como essas representações contribuem ou não para a constituição profissional das professoras. De modo geral, esperamos que este trabalho possa contribuir para a reflexão sobre o trabalho da professora e sobre sua constituição profissional e, ainda, para favorecer e estimular discussões sobre os rumos que a Educação Infantil vem tomando a partir do momento em que legalmente é reconhecida como educativa. Trabalhamos numa abordagem qualitativa com os depoimentos de dez professoras de uma mesma instituição pública municipal de Educação Infantil (Centro de Educação e Recreação – CER) da cidade de Araraquara/SP. Coletamos os dados por meio de entrevistas semi-estruturadas com o uso do gravador. As professoras entrevistadas apresentam características que ora as assemelham e ora as diferenciam. A grande maioria não possui curso superior, mas todas possuem Habilitação Específica para o Magistério e atuam com crianças de 03 a 06 anos de idade. Quase todas são casadas, apenas duas possuem menos de 30 anos de idade. Talvez a diferença maior entre elas esteja no tempo de exercício do magistério, uma vez que esse tempo varia de 5 a 19 anos. A análise das representações das professoras apreendidas por meio das entrevistas nos permitiu elaborar algumas considerações. Pudemos verificar que as variáveis pessoais (idade, estado civil) e as variáveis profissionais (formação inicial e experiência profissional no magistério) não determinaram diferenças significativas nas representações das professoras. No decorrer do trabalho identificamos, também, muitas semelhanças entre nossos dados e os dados apresentados na pesquisa sobre educadoras de creches italianas por Ongari e Molina (2003). Identificamos que o papel de professora predominante nas representações que apreendemos consiste no que as professoras classificam como a atuação na “parte pedagógica” (desenvolvimento intelectual e aquisição da leitura e da escrita). No que diz respeito especificamente a função da professora de Educação Infantil as professoras citam o gostar de criança e da profissão como aspectos essenciais para o exercício da profissão docente. Fazer a mediação entre a criança e o conhecimento escolar; preparar para a alfabetização; direcionar a curiosidade e o conhecimento das crianças; atender a necessidade intelectual e emocional da criança; ensinar valores são alguns dos papéis apontados pelas professoras que pesquisamos. Todavia, por meio dos dados coletados observamos que algumas professoras enfatizam que seu papel é exclusivamente transmitir conhecimentos, com base em afirmações desse tipo constatamos que o cuidar-educar-brincar, tríade que caracteriza o trabalho da professora de Educação Infantil, ainda não foi incorporado pelas professoras da instituição que estudamos bem como por tantas outras professoras, conforme pudemos verificar em estudo bibliográfico sobre o tema. 116 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Verificamos que as professoras representam a instituição de Educação Infantil como um local que deve desenvolver novos conhecimentos, hábitos e atitudes nas crianças. Com relação à forma de trabalhar essas aprendizagem as professoras valorizam certos tipos de atividades produtivas, treinos caligráficos, exercícios de auto-controle e disciplinamento. Por causa da maneira como as professoras descreviam qual seria a função da instituição de Educação Infantil para elas denominamos essa função de “escolarizante”. Pudemos constatar, ainda, que as professoras se reconhecem como profissionais e que possuem clareza sobre o significado e sentido da ação que desenvolvem. Ao descreverem o que é e o que faz a professora de Educação Infantil elas fazem distinção entre as ações de cuidados desempenhados na instituição e os cuidados oferecidos no âmbito doméstico demonstrando que o princípio da “maternagem” comumente identificado entre professoras de Educação Infantil, de acordo com a literatura, não faz parte do perfil da maioria das professoras com as quais trabalhamos. Embora tenhamos verificado que as professoras compreendem a especificidade das ações de cuidado desenvolvidas na instituição, grande parte das professoras atribui a essas ações uma importância inferior às atividades entendidas como de educação. Com o intuito de se firmarem como profissionais da educação perante a sociedade as professoras omitem as atividades de cuidado em seus depoimentos. Elas se esforçam para se diferenciar das demais educadoras da instituição na qual trabalham (berçaristas e recreacionistas) na crença de que é preciso que todos saibam que elas são professoras tal como as professoras de Ensino Fundamental e não sejam, portanto, confundidas com as demais educadoras que cuidam de crianças de 0 a 6 anos sem possuir formação específica para o magistério. Observamos que as professoras de nossa pesquisa ao descreverem o seu próprio dia-a-dia consideram que os exercícios gráficos e as atividades dirigidas são mais importantes do que as atividades de alimentação, higiene e também que as brincadeiras livres reforçando a histórica dicotomia entre cuidar e educar e demonstrando que compartilham uma representação parcial de Educação Infantil, por priorizar o educar. A separação entre cuidar, educar e brincar permeou todo nosso trabalho enfatizando o quanto é necessário debruçarmos sobre essa temática com vistas superá-la. Vários estudiosos têm se preocupado com essa superação e entre eles destacamos Haddad (2003) que tece esclarecimentos sobre a polêmica dicotomia entre cuidados e educação, afirmando a necessidade de se profissionalizar o cuidado e de se ampliar o conceito de educação. Consideramos muito pertinentes as colocações dessa autora na medida em que as mudanças que propõe são essenciais para a definição da função social da Educação Infantil e de suas professoras, pois a partir da profissionalização dos cuidados estaríamos extinguindo os resquícios da maternagem que acompanha ações de cuidado e com a ampliação do conceito de educação poderíamos superar práticas “escolarizantes” que geralmente caracterizam o trabalho educacional na Educação Infantil. As revisões propostas por Haddad (2003) podem contribuir para dar aos fazeres da Educação Infantil um status público que lhe é próprio a partir do momento em que é legalmente reconhecido como a primeira etapa da Educação Básica sem que para isso VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 117 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente seja necessário escolarizar a educação de crianças de 0 a 6 anos ou abrir mão da dúbia função cuidar/educar. Tornar concretas as conquistas que a Educação Infantil já adquiriu em termos legais é o desafio proposto às crianças, professoras, pais, comunidade, administração pública, pesquisadores e a todos aqueles que se preocupam com esse assunto. Devido a isso esperamos que nosso trabalho possa contribuir para a reflexão sobre a especificidade de atuação da professora de Educação Infantil a partir da tríade cuidar-educarbrincar e para o reconhecimento social e a valorização profissional dessa professora. BIBLIOGRAFIA ANGOTTI, M. Semeando o trabalho docente in OLIVEIRA, Z. M. R. (org.) Educação Infantil: muitos olhares. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 1996. ______. Aprendizagem Profissional: os primeiros passos no magistério pré-escolar. Tese de Doutorado. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos,1998. ASSIS, M. S. S. Representações de professoras: elementos para refletir sobre a função da instituição escolar e da professoras de Educação Infantil. Dissertação de Mestrado. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 2004. ARCE, A. Jardineira, tia e professorinha: a realidade dos mitos. Dissertação de Mestrado. Campo Grande, MS: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 1997. ______. A Pedagogia na “Era das Revoluções”. 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(orgs.) Educação Infantil Pós-LDB: Rumos e Desafios. Capinas: Autores Associados, 1999. 118 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente FÓRUM PERMANTE DE EDUCAÇÃO INFANTIL DO ESPÍRITO SANTO. Educação Infantil: identidade em construção in MOVIMENTO INTERFÓRUNS DE EDUCAÇÃO INFANTIL DO BRASIL. Educação infantil: construindo o presente. Campo Grande: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, 2002. GUARESCHI, P., JOVCHELOVITCH, S. (orgs.) Textos em Representações Sociais. Petrópolis: Vozes, 1998, 4ª ed. HADDAD, L. Um novo paradigma na integração do cuidar e do educar. Pátio Educação Infantil nº 1. Porto Alegre: Artmed Editora, 2003. KISHIMOTO, T. M. (coord.). Formação dos Profissionais de Creches no Estado de São Paulo 1997-1998. Carapicuíba: Fundação Orsa, 2000. ______. 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Genta Lugli (UNIBAN) O Centro do Professorado Paulista, tradicional associação de professores de São Paulo, instituiu em 1970 o prêmio ao “Professor do Ano”, como parte das comemorações dos 40 anos da entidade. Pretendia-se, a cada “Dia do Professor”, colocar em evidência um associado, que se tornaria então um “símbolo das virtudes da classe”; conforme o periódico do Centro explicitava: “Decidiu o CPP conferir essa honraria a um professor que, por seu trabalho, inteligência e cultura, mais tenha contribuído no ano, a critério dos associados do Centro do Professorado Paulista, em favor da educação e do ensino, da escola, do aluno, do magistério e da união de sua classe”.(O Professor, n. (16) 22 fev./71 p. 12). Tal premiação foi quase sempre noticiada com destaque pelo jornal da associação, constituindo um conjunto de textos e fotografias que sintetiza as representações sobre a profissão que circularam entre os associados do CPP durante o período analisado (1970-1984). A relevância do estudo de tais representações evidencia-se quando se considera que o CPP, fundado em 1930 como associação de professores primários, tem constituído uma das maiores entidades docentes do Brasil 1. O conceito de representação utilizado no presente texto é tomado da obra de Roger Chartier (1990), pois sua formulação permite ver múltiplos níveis de significado em textos tais como os analisados aqui. Em primeiro lugar, trata-se do estabelecimento, pelo grupo social, de seus valores significativos – no caso, aquilo que constitui um professor admirável. Esse processo de seleção das características exemplares, que servirão de referência para os gestos de aprovação social e para o sentimento de pertença à categoria não ocorre sem conflitos – na verdade, trata-se de assinalar uma disputa para estabelecer legitimidades antes que uma uniformidade de crenças entre os professores. Verifica-se, por meio dessas construções, uma base comum de significados que permite a interação entre os professores envolvidos pela atuação da entidade, na medida que se apresentam, no jornal do CPP, imagens variadas sobre a docência, tanto em momentos de comemoração como em textos cotidianos, que se transformam em função das diferentes condições de formação e trabalho que vão se instaurar durante as décadas de 60 e 70. Um outro sentido dessas representações diz respeito ao reconhecimento social do grupo, que faz visível para a opinião pública as características que elege para si por meio da VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 121 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente homenagem. Associa-se a este sentido a identidade entre a imagem que se apresenta do homenageado e os valores exemplares com relação ao trabalho docente, tornando esses professores, que são representantes da categoria, no símbolo do professor ideal – vale observar que, para o caso analisado aqui, esta identificação nunca ocorre de forma completa, exceto quando a homenagem recai sobre o presidente da associação, Sólon Borges dos Reis. Na medida que estes discursos apresentam os valores ideias da docência para os associados do CPP, possibilitam a identificação de elementos relevantes quanto ao habitus professoral, permitindo vislumbrar as formas pelas quais estes profissionais conferem sentido ao seu trabalho cotidiano e, em conseqüência, dão forma a suas práticas associativas. OS LÍDERES DO PROFESSORADO PRIMÁRIO O primeiro “Professor do Ano” (em 1970) foi o presidente do CPP, Sólon Borges dos Reis, o qual ocupava o cargo desde 1958 por meio de reeleições sucessivas. Sua imagem, freqüentemente apresentada no periódico do CPP, constituía um paradigma com relação às qualidades que um professor deveria apresentar em termos intelectuais, morais e profissionais. Assim sendo, era lógico que o presidente da entidade fosse o primeiro homenageado, estabelecendo os padrões que a premiação deveria seguir – as qualidades de sua atuação como líder do magistério foram ressaltadas na justificativa que acompanhava o anúncio da homenagem: “O prof. Sólon Borges dos Reis foi distinguido principalmente como expressão dos educadores no país e no campo internacional, através de uma atuação exponencial na abordagem dos problemas da educação, seja do ponto de vista técnico, filosófico ou social, e também por cultivar e promover no CPP o trabalho em equipe como a melhor maneira de atuação da entidade que deve ter, por preocupações básicas, segundo entende, a organização e a união da classe, para a promoção de seus legítimos interesses em benefício da infância e da juventude, através do ensino”. (O Professor, n. (16) 22 fev./71 p. 12) Os “Professores do Ano” que se seguiram a Sólon Borges dos Reis poderiam ser divididos em duas categorias que representam, de modo geral, as principais qualidades apresentadas como ideais para o magistério, no periódico. A primeira categoria é a dos professores que participam das atividades de direção do CPP ou que se encontram muito próximos destes: são elogiados por seu “espírito de luta”, por suas qualidades de liderança ou ainda por suas sempre admiráveis contribuições intelectuais. Desse modo, temos: Em 1971, Antonio d’Ávila, cuja biografia, que incluía a autoria de diversas obras didáticas, justificou a nomeação. Os valores intelectuais são ressaltados nesta homenagem, dado que este conselheiro do CPP foi colaborador assíduo do periódico da associação desde seu primeiro ano até 1989, com seções regulares, tais como “Escola Pitoresca” (contendo crônicas escolares) e “Galeria de Patronos de Escola” (biografias de educadores destacados), além de um grande número de artigos esparsos sobre os mais diversos temas relativos à educação. 122 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Em 1974, Oguiomar Ruggeri, conselheiro do CPP a partir de 1960. Escolhido em homenagem aos seus cinqüenta anos dedicados ao ensino, o “Leão da 3ª” [Delegacia de Ensino] é longamente elogiado: “Sobejamente conhecido por seu dinamismo, atitudes firmes e desassombradas, idealismo e companheirismo, eficiência no serviço, disciplinado e disciplinador, é um líder que goza de prestígio como poucos têm no seio da classe onde é muito estimado” (O Professor, n. 78, out/74, p. 3). Em 1976 - Luiz Damasco Penna, sócio fundador do CPP em 1930. Aos 80 anos de idade, traduzia o Tratado das Ciências Pedagógicas para o português, merecendo destaque em sua biografia a atuação como delegado de ensino no litoral paulista: “De pequenina estatura física, palmilhou naquela época os piores caminhos do litoral paulista, do Sul e do Norte, para não deixar sem inspecionar e orientar professores ilhados nos mais remotos núcleos escolares daquela época, como um pequeno gigante com suas botas de 7 léguas (...) Exemplar como educador, rigoroso e exigente como administrador o professor Penna é conhecido em todo o magistério paulista pelo senso de responsabilidade com que sempre cumpriu os seus deveres. Enérgico como autoridade no ensino, fez escola no magistério porque sempre soube conciliar com calor humano o interesse público, que defendeu intransigentemente, com a necessidade de estimular os colegas de trabalho, tratando com dignidade os companheiros e subordinados no serviço.”. (Jornal dos Professores, n.117, out/76, p. 1) Em 1983, Loretana Paolieri Pancera, à época 3ª vice-presidente do CPP. As razões para sua escolha foram também relativas à liderança no CPP, sendo ela descrita como “uma das líderes mais atuantes na luta pelos direitos dos professores, participando ativamente de todas as campanhas pela melhoria do ensino e atendimento das reivindicações do magistério” (Jornal dos Professores, n. 195, p. 2) O discurso de agradecimento da Profa. Loretana Paolieri Pancera, também transcrito na íntegra, confirmava a imagem de líder dinâmica e atuante, retomando na comemoração o tom reivindicatório que vinha marcando, desde 1977, os pronunciamentos do CPP no Dia do Professor: “Após tantos anos de magistério, ao receber o título de ‘Professora do Ano’, se disser que não me sinto realizada não estou mentindo. Esse reconhecimento me honra muito, mas, apesar da festa, dessa alegria, da presença de entes queridos e amigos, o momento, a realidade é triste, pois a luta do professor é árdua, não pelo trabalho desgastante, mas pela falta de compreensão e reconhecimento dos homens públicos. O professor vive de esperanças, de promessas e só não esmorece porque tem o espírito forte e porque ‘como o sacerdote que se curva diante do cálice sagrado’, ele se curva diante do educando, esquecendo-se de si mesmo. Mas isto não justifica que ele seja esquecido.” (Jornal dos Professores, n. 196, out/83, p. 3). VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 123 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O elogio destes Professores do Ano, que é também a justificativa para sua escolha, os aproxima da imagem do líder ideal (a de Sólon Borges dos Reis). Todos têm em comum a longa experiência nos quadros do ensino, demonstrada de modo simples pela relação dos cargos ocupados desde o início de suas carreiras que acompanha a notícia da homenagem no periódico do CPP. A partir dessa base comum, as qualidades enumeradas convergem na maior parte das vezes para características como o dinamismo, a energia, disciplina, rigor e a dedicação idealista ao bem comum, em especial sob a forma do trabalho na associação (cujos resultados beneficiam a todos os professores, e não só aos associados, como é freqüentemente lembrado). Tais características descrevem um padrão identificado ao modo masculino de comando, que reflete a situação existente no sistema de ensino durante boa parte da existência do CPP, qual seja, a baixa presença feminina nos níveis hierárquicos mais altos da rede escolar. Vale lembrar que a maioria dos conselheiros do CPP exerce ou exerceu cargos administrativos. Nesse sentido, a Profa. Loretana Paolieri Pancera destaca-se duplamente: nunca deixou de lecionar como Professora I, aposentando-se nessa condição, segundo contou em sua entrevista e além disso é a figura feminina que surge com maior destaque dentre as ocupantes de cargos na diretoria. Os adjetivos utilizados para descrever sua atuação são os mesmos utilizados para os demais conselheiros homenageados: líder atuante, ativa, dedicada ao bem comum, nas lutas cotidianas da entidade pelo magistério; a única particularidade que poderia ser associada mais diretamente com uma descrição tradicionalmente feminina, qual seja, o trabalho caritativo da professora pelos desfavorecidos, pode também ser incluída na categoria “dedicação ao bem comum”.2 Para que fosse perceptível, de modo eficaz, um padrão de excelência que garantisse a legitimidade aos líderes do CPP, não bastaria, evidentemente, essa comemoração anual, que além disso, nem sempre tinha por objeto um dos conselheiros. Um trabalho mais constante de explicitação e perpetuação dos fatores que garantiam a autoridade moral era feito por meio de seções regulares tanto em O Professor, com “Nossos Conselheiros”, como no Jornal dos Professores, sob o título menos explícito de “Figuras do Magistério”. Repetem-se, nestas seções, o elogio às qualidades de liderança já assinaladas, sendo possível a um olhar atento perceber as diferenças de ênfase que separam os mais dos menos influentes. De qualquer modo, estas seções sublinham fortemente a condição de funcionário público dos professores, no sentido de que estes se dedicam ao bem comum por meio do magistério. Também vinculada a essa condição de funcionário, encontra-se em todos os perfis analisados a afirmação de honestidade e de competência que o ingresso e a promoção por concurso representam – tais provas pretendiam selecionar os mais aptos segundo um conhecimento específico do campo que os agentes deveriam possuir. AS PROFESSORAS HEROÍNAS O segundo gênero de “Professores do Ano” não pertence ao Conselho Superior e sua escolha se dava inicialmente por razões de caráter moral, como se vê nos perfis eleitos até o ano de 1977. A partir desse ano, pode-se perceber, para além dos elementos moralizantes, o 124 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente caráter exemplar das histórias dessas professoras com respeito às reivindicações do CPP, o que leva a homenagem a retratar os diversos estágios da carreira docente e seus desafios. Após 1981, como se verá, o prêmio perde expressão no periódico do CPP, tendo o seu espaço diminuído consideravelmente, reduzindo-se de uma página inteira a uma nota numa coluna. Algumas das “Professoras do Ano” (esta segunda categoria de homenageada é constituída exclusivamente por mulheres) são protagonistas de histórias comoventes, que fazem ressaltar suas qualidades morais no confronto com a adversidade. Assim é que, em 1972, Adarcy Monteiro Bardin Cesar, foi escolhida pelo heroísmo demonstrado ao salvar seus alunos. O relato pormenorizado do feito acompanha a notícia desta homenagem prestada à professora do 4º ano primário, que retirou seus alunos da sala de aula minutos antes que o teto da mesma desabasse. No ano seguinte, novamente uma professora envolvida numa catástrofe recebeu o título de Professora do Ano. O Professor ressaltou o heroísmo de Maria Aparecida Vargas, bem como sua solidariedade para com as vítimas da chuva: “a jovem professora demonstrou bravura pessoal e amor aos seus alunos, quando os conduziu do bairro de Vila Albertina ao Grupo Escolar de Vila Jaguaribe logo que se iniciava o deslizamento de morro que resultou numa catástrofe.” (n. 57, out/73, p. 1). Um dos mais longos perfis de “Professora do Ano” foi o de 1975, quando a história das dificuldades superadas por Zaida Regina Rossler Pereira ocupou grande espaço no periódico. Esta professora, paralítica desde a 5ª série, conseguiu formar-se com dificuldade e trabalhava como substituta efetiva, tendo que complementar o orçamento doméstico com uma série de outras atividades: aulas particulares de alfabetização, francês e reforço para o primeiro grau, trabalhos manuais (crochê) e venda de cosméticos. Com relação à necessidade de múltiplas atividades para garantir um certo nível de rendimentos, Zaida não se distanciava da rotina a que estavam submetidas as demais substitutas, o que a tornava, além de um exemplo de comportamento, um exemplo de como o CPP beneficiava seus associados, dado que em 1975 o CPP esteve empenhado numa campanha para conseguir direitos trabalhistas mínimos para os professores substitutos. “Como substituta efetiva, ela encarna bem o espírito indômito da professora que não se deixa vencer pelas dificuldades.” (O Professor, n.95, p.3) De fato, a Diretoria da entidade tomou conhecimento da existência de Zaida e de suas dificuldades por meio de uma comovida carta que esta enviou à presidência do CPP, agradecendo a campanha pelos direitos trabalhistas mínimos para as substitutas: “Tomara que Deus leve em conta meu esforço; e eu, na verdade, tenho oferecido todas as horas que passo na cadeira de rodas, os dias em que, debaixo de chuva, saio e vou rodando para chegar ao Grupo, assinar o ponto e, depois de lá passar duas horas ou mais, volto para casa, muitas vezes, sabendo que durante o mês todo não rodou a escala de substituições e eu nada tenho para receber. (...) Mas, quem nasce para professor, vem para lutar. E, diga-se de passagem, entramos na luta certos de sairmos triunfantes”. (Idem, p.3) VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 125 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente O tom comovido dessa carta, reafirmando as qualidades de persistência, coragem e idealismo necessárias a quem abraça o magistério, ecoa apoteoticamente na exposição das razões pelas quais a Professora do Ano foi escolhida: “Pelo que Zaida é, pelo que ela sente, pensa e faz, firmando na sua cadeira de rodas o primado do espírito sobre a precariedade da matéria e a vitória do ideal sobre as dificuldades da vida, o Centro do Professorado Paulista aponta-a como a “Professora do Ano” de 1975. Ela é uma educadora que , pelas suas virtudes profissionais, morais e cívicas, e especialmente em decorrência de sua atuação, merece esse título. Ela é bem um símbolo das virtudes da classe”. (Idem, p.1) Em 1977, o vínculo da Professora do Ano, Maria Paulina Nunes Pagotto, com as reivindicações do CPP tomou o primeiro plano: “Ao escolhê-la, o Centro do Professorado Paulista quis também por em evidência as dificuldades por que passa um professor, quando se candidata a cargo efetivo no magistério, trabalhando sem estabilidade durante muito tempo e tendo que passar por uma verdadeira gincana de estudos, estágios, cursos e concursos, até conseguir a efetivação”. (O Professor, n.137, p.1) A história da Professora do Ano de 77 é exemplar, segundo o CPP, pois ela classificou-se em 1° lugar no concurso de títulos e provas para ingresso no magistério público estadual realizado em 1971 e somente no segundo semestre de 1977 conseguiu tomar posse do cargo para o qual prestara concurso. O periódico descreve o longo processo de efetivação dessa professora, semelhante ao de todos os que prestaram esse concurso, que só chegou a termo em 1977, com a intervenção do CPP, por meio de Sólon Borges dos Reis, que conseguiu a aprovação, na Assembléia, de uma lei que dispensava de exame médico os professores que exercessem a função há mais de cinco anos. Em 1978 Therezinha Nilda Machado foi a Professora do Ano do CPP, sendo que a mesma havia sido escolhida anteriormente professora do ano na cidade de Piracicaba, pela Sede Regional. Tendo exercido o magistério em zona rural durante toda sua carreira, suas qualidades como docente eram exaltadas ao lado de sua atuação na assistência social, simbolizando assim a “persistência no trabalho”, segundo o CPP. Cabe observar que a Sede Regional de Piracicaba vinha elegendo sua própria Professora do Ano desde 1973, o que, se por um lado leva a supor que nem todos os associados se identificavam com as escolhas da diretoria, por outro evidencia as enormes semelhanças existentes quanto aos ideais profissionais, de vez que a escolha regional se pautava pelos mesmos critérios, (o que equivale a dizer que procurava exaltar as mesmas características), da Sede Central. Em 1979, a escolha recaiu excepcionalmente sobre uma professora III (atuante no segundo grau), Odila Marina Wingeter, que simbolizava os esforços dos professores para ascender na carreira por meio do estudo e que enfrentavam toda sorte de dificuldades. “Uma das razões que contribuíram para a votação em Odila, (...) além de suas virtudes morais, profissionais e cívicas, foi sua atuação 126 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente como professora concursada para o cargo de Diretor de Escola, desenvolvendo um trabalho intenso e objetivo pelo aproveitamento de todos os aprovados, nas vagas decorrentes do concurso de remoção cuja realização este ano foi conseguida pelo CPP.” (p. 1, n. 163) Em 1980 novamente a Professora do Ano tem grande destaque nas páginas do Jornal dos Professores, sendo a história de Josely de Castro, professora de deficientes visuais numa escola estadual de 1° grau, contada em tom emocionado. O jornal exalta o modo como essa professora superou as dificuldades da falta de estrutura e material de trabalho para educar os jovens deficientes, bem como sua extraordinária dedicação: “Além de trabalhar com sua própria classe, atendia com a maior boa vontade alunos de outras escolas com problemas de visão (...) sem esperar por isso nenhuma recompensa financeira” (n. 173, p.4) No ano seguinte o relato não conservou nem o espaço nem o tom emocionado, só constando a observação de que Nakaoka Ioshie foi eleita em homenagem ao Ano Internacional do Deficiente e solidariedade às APAEs. A última homenagem a Professor do Ano que se faz acompanhar de justificativa no período estudado é a de 1984, que revela claramente o desgaste dessa fórmula consagradora de exemplos: o CPP anunciou que todos os professores do estado haviam sido considerados merecedores do título, “pela mobilização total e vitoriosa do magistério, com sua vigorosa afirmação coletiva perante a opinião pública e os poderes do Estado” (Jornal dos Professores, n. 203, out/84) As qualidades evidenciadas por meio desses “professores-símbolo” referem-se todas ao trabalho cotidiano em sala de aula e às dificuldades, também cotidianas, com o Estado. Essas dificuldades constantes, os obstáculos quase intransponíveis, representam um papel central nessas histórias exemplares, pois o heroísmo, a coragem, o amor pelos alunos, a persistência no trabalho bem intencionado, o “espírito indômito” e a dedicação, levam, na maior parte dos casos, ao “triunfo”, à “vitória do ideal sobre as dificuldades”. O CPP apresenta-se de duas formas nesses pequenos épicos magisteriais: quando se trata da relação que a professora-heroína estabelece com seus alunos, de sua dedicação extraordinária e desinteressada à missão educativa, o papel da entidade é recompensar a mestra simbolicamente por meio da homenagem; por outro lado, quando o episódio se refere ao obstáculo representado pela burocracia e pelo caos administrativo da Secretaria da Educação, o CPP é apresentado como a instância que providencia a solução, a vitória da justiça, o prêmio ao trabalho honesto e bem intencionado das professoras. A CELEBRAÇÃO COTIDIANA Da mesma forma que as representações a respeito dos líderes da entidade, as representações sobre a profissão docente e sobre as formas associativas adequadas às características desta não se limitam a essas celebrações anuais, aparecendo em todos os números do periódico oficial da entidade. As imagens ideais não se encontram numa seção específica, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 127 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente antes permeiam todo o texto do periódico, explicitando-se em determinadas seções, como por exemplo, o “Suplemento Lítero-Pedagógico”, presente em 5 edições de O Professor (n.8 ao 12). Esta seção destinava-se, como seu nome indica, a conter a produção literária (poesias e contos) dos associados. Os elementos idealizados já apontados com relação ao Professor do Ano colocamse aqui mais claramente como atributos pessoais, decorrentes de uma vocação do indivíduo, como pode-se ver em “Nasce-se professor, não se faz”, transcrição de trechos do livro “A Escola Secundária Moderna”, de Lauro de Oliveira, leitura recomendada pelos editores: “a escola foi instituída para o aluno aprender, e não para o professor ganhar dinheiro. Magistério não é bico; não é meio de vida. Magistério é luta, é desprendimento, é sacrifício, é dedicação, é apostolado. (...) Quando bons mestres, os traços de seus edificantes ensinamentos ficam gravados profundamente em seus discípulos. Suas aulas continuam vivas; sua lembrança provoca saudade. E, como a gratidão é a memória do coração, confia-se em que Deus lhes dê a recompensa prometida. Sem terem sido calculistas, multiplicaram entre os alunos talentos de que nos falam os Evangelhos.” (Suplemento Lítero-Pedagógico, n.1, out/65, O Professor, n. 8) A influência de aspectos religiosos sobre a caracterização do magistério se encontra muitas outras vezes no periódico do CPP, inclusive a partir da menção a Cristo, que teria sido “o maior dos mestres”. Vincula-se inegavelmente a esse exemplo religioso a “mística do sacrifício” que cerca a docência com a garantia de pureza e de desinteresse. Os lucros simbólicos prometidos (haja vista a falta de outros) são, dessa forma, enormes e incontestáveis – vão desde a “saudade” nos corações dos alunos (que, afinal, só chegam a ser “algo na vida” graças aos professores) à recompensa impalpável, mas assim mesmo tentadora, garantida por Deus. Entrelaçam-se, nesse discurso, os aspectos psicológicos da profissão docente, geralmente identificados na relação professor-aluno, a sua função social (contribuir para o progresso do país) e o caráter simbólico da função docente, numa formulação muito complexa, que evidencia os efeitos potencializadores da “vocação” sobre os elementos mais propriamente técnicos da profissão: “O conhecimento da matéria por si só é insuficiente para o bom desempenho da função docente. É necessário que o professor possua também preparação didático-pedagógica; é preciso que goste de ensinar e saiba despertar o interesse do aluno pela aprendizagem. (...) por causa dos maus concursos seletivos e das nomeações feitas pela politicalha, havemos de tolerar os pseudo-educadores, didatas de cultura latitudinal, mestres-escolas fossilizados que caminham de costas.” (Suplemento Lítero-Pedagógico, n.1, out/65, O Professor, n. 8) Inúmeras vezes são exaltadas as virtudes do trabalho contínuo e devotado, sempre retomando uma figura idealizada de professora que supera todos os obstáculos para conseguir o aprendizado de seus alunos, como aparece por exemplo em “Sublime Revelação”, de Darci Barioni (Suplemento Lítero-Pedagógico, n.12, ago/66, p.1). Nesse conto, o narrador conversa com “uma senhora idosa, traços nobres, um olhar luminoso inteiramente despido de malícia ou maldade” 128 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente enquanto viajam numa jardineira, de uma cidade a outra do interior paulista. Esta senhora revelase professora primária e comenta: “ainda há quem diga que a vida de professor é boa. Há momentos em que sentimos vontade de abandonar tudo e dedicar nossas preocupações exclusivamente aos nossos filhos. Sim, porque nós nos preocupamos com nossos alunos. Não nos limitamos a ensinálos a ler e a escrever. Temos que compreendê-los como crianças, ajudá-los nos seus problemas”. Fala ainda do cansaço que sente por seus longos anos de árduo trabalho, ao que o narrador pergunta: “-Que faria a senhora se pudesse começar tudo outra vez? Ela me encarou atônita como se a pergunta representasse algo novo para si. Demorou-se a responder e quando o fez, um sorriso de desculpa brincava nos seus lábios. -Bem... acho que... acho que seria professora primária mesmo.” Mesmo os artigos que se pretendem mais “técnicos”, com recomendações a respeito da prática em sala de aula incorporam essas formulações, como pode-se ver em “Expulsão de aluno da sala de aula é contraproducente”, de Nelson de Sousa, associado de Atibaia: “Não importa que ele esteja cheio de problemas particulares, que seu ordenado não corresponda, que o número de aulas seja grande e o cansaço o atinja. Tudo isso, de maneira alguma, deverá influir na sua maneira de educar. (...) Que se mantenha na verdadeira posição de professor: um verdadeiro professor não se rebela, procura antes construir um bom cidadão, um bom pai de família, tentando recuperar o aluno indisciplinado”. (Suplemento Lítero-Pedagógico, n.1, out/ 65, O Professor, n. 8) Pode-se dizer, com Pereira (1963), que essa concepção tem um importante papel na socialização de novos professores, na medida que dá sentido a uma escolha profissional que, em termos objetivos, se afigura menos atraente a cada dia desde a década de 60. Ao mesmo tempo em que dota a opção profissional dos novos mestres de sentido, esse discurso parece contribuir para os investimentos contínuos em direção à melhor qualidade da prática em sala de aula, de vez que esta é fruto do devotamento do professor, de sua responsabilidade, como se lê em “Autonomia Didática”, de Antônio de Almeida Rosa, associado de Tatuí: “O professor deverá ensinar como achar melhor, dentro das normas técnicas modernas, respeitando os ensinamentos da Psicologia Infantil, obedecendo às leis da Pedagogia aceitas como verdades incontestáveis e como seguras bases para um ensino eficaz. (...) Não podemos esquecer, ainda, que a responsabilidade pelo trabalho em classe cabe ao professor, e o mestre deve ter liberdade de ação para poder responder por seu trabalho e por esta responsabilidade. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 129 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Dando maior ênfase, reafirmamos que o professor é o único responsável pelo resultado de seu trabalho educativo”. (Suplemento Lítero-Pedagógico, n.1, out/65, O Professor, n. 8) Como pode-se ver, os elementos relativos a um domínio técnico de um campo do saber, a “pedagogia”, articulam-se nestes escritos à imagem clássica do sacerdócio, compondo um modelo que retrata bem um momento em que aqueles a ocuparem os cargos mais altos na hierarquia do ensino primário ainda não eram necessariamente os “especialistas” em educação, embora fossem profissionais do ensino. Algumas modificações aparecerão neste discurso sobre a profissão à medida que as características do sistema de ensino forem se alterando, com a proletarização do magistério, a criação do primeiro grau de 8 anos e as conseqüências da lei 5.692 para a estrutura administrativa do ensino. Isso já é visível em 1973, quando surge uma concepção mais realista do cotidiano docente, utilizada para a constituição de um discurso em defesa dos associados: “A preocupação fundamental do CPP é o professor, aquele que dá aulas, que não pode interromper seu trabalho para fumar um cigarro, manter uma prosa, enfim, fazer uma pausa para descansar. Aquele que, enfrentando classes numerosas e heterogêneas, com crianças ou jovens irrequietos, de condições sociais, econômicas e mentais as mais diversas, precisa manter a disciplina, ensinar, educar, preencher modelos impressos, preparar lições, corrigir cadernos e ultimamente ouvir exortações, com elogios sem atendimento, críticas aos seus métodos de trabalho, sem qualquer sugestão de outro método melhor, obrigado a ler pela enésima vez a mesma repetida legislação, para cuja aplicação prática nem sempre lhe dão condições”.(Jornal dos Professores, junho/73, n.49, p.1) Esses argumentos aparecem reiteradamente na publicação, justificando os pedidos de aumento salarial, compreendido não como retribuição pelo trabalho realizado, mas como reconhecimento social da importância da função docente, reconhecimento que se afigura como ainda mais justo quando as dificuldades do cotidiano são consideradas: “O professor não pode sequer interromper o trabalho na sala de aula, encher tempo ou ir tomar café, pois a natureza da função docente não permite. Classes numerosas e heterogêneas, com dezenas de crianças na idade mais difícil, consomem-lhe energias físicas e o sistema nervoso, o que explica o enorme número de professores primários extenuados pela docência, procurando clínicas e o Departamento Médico do Serviço Civil do Estado.” (O Professor, n.25, mai/71, p. 12) Ressalta-se, além disso, o trabalho extra a que o professor é obrigado fora da sala de aula, com o preparo das lições e a correção das mesmas “O único obrigado a comprar as próprias ferramentas de trabalho, além de material para as crianças, contribuindo para a Caixa Escolar e, às vezes, para as despesas da própria escola, quando não as da Delegacia de Ensino, é também o professor primário o único obrigado a ir à repartição e a trabalhar nos feriados, como fez ainda agora, no dia 21 de abril”. (O Professor, n.25, mai/71, p. 12) 130 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Permanece, apesar das mudanças observadas, o discurso que considera todos os professores como iguais, independentemente das diferenças hierárquicas entre os associados, num discurso marcadamente corporativista. Esse aspecto também contribui para eludir as diferenças de gênero, pois raríssimas vezes questões atinentes à condição feminina aparecem no periódico do CPP. Em um período de aproximadamente 30 anos, localizei apenas três ocasiões em que se tratou especificamente das mulheres professoras. Em primeiro lugar, temos uma seção especialmente dedicada às professoras - a “Feminina” (presente do n.46 ao 53) cujos objetivos assim se expressaram: “Professora sempre atarefada com o preparo das aulas, correção de provas, enfim, com todos os problemas inerentes ao exercício do magistério. A partir deste número procuraremos levar até vocês um pouco de descontração, e também de quitutes gostosos.”. A “descontração”, além das receitas, são modelos de roupas, que a professora poderia confeccionar ela mesma utilizando os “moldes Singer” – tudo indica que a seção tenha sido fruto de um acordo publicitário com a fábrica de máquinas de costura. Na seção de correspondência, temos duas cartas, aparentemente não vinculadas entre si, de associadas que sugeriam ao presidente do CPP que encetasse campanha por creches nas escolas, para os filhos das professoras que não tinham quem cuidasse deles enquanto trabalhavam. O DIA DO PROFESSOR NA VISÃO DO CPP Também contribui para formar uma imagem mais clara das alterações do discurso do CPP a respeito da profissão docente os pronunciamentos da entidade no Dia do Professor a partir do ano de 1977. Esta comemoração sempre teve grande destaque no noticiário da entidade, sendo muitas vezes a ocasião em que o Estado acenava com aumentos ou com medidas que beneficiariam o magistério; no que tange à entidade, esse dia representou sempre uma trégua e um momento de festa. No entanto, a partir de 1980 os pronunciamentos do CPP passam a reclamar todas as vezes a valorização do magistério, fundamental para a solução dos problemas do ensino. “A valorização do professor depende do próprio professor, na medida em que dele se deve esperar um esforço pessoal e coletivo de autosuperação, a fim de que o processo de proletarização a que vem sendo submetido não lhe apague a dignidade na personalidade profissional. A fim de que a insensibilidade oficial pelas suas dificuldades não afogue, na sua conduta de mestre, o sentido social e a preocupação humana”. (Jornal dos Professores, n. 173, out/80, p.1) Em seguida os efeitos da “auto-superação” do magistério são relativizados: “Mas não se deve esquecer que o professor vive inserido num contexto sócio-econômico que ele não inventou e ao qual não pode escapar.”. Desse modo, a valorização do professor depende em grande parte “dos responsáveis pela situação conflitiva a que está relegada uma VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 131 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente classe, adulada mas não ajudada e que, exaltada pela tarefa social fora de série que desempenha, como criadora de condições para o progresso de todos, não tem para si mesma nem as condições de vida e de trabalho que merece, precisa e vem reivindicando, sem resultado”. (idem) No ano seguinte, o Dia do Professor foi marcado pelo protesto da entidade contra o arrocho salarial, sendo que a sua declaração oficial, lida durante a comemoração na Sede Central, tratou das péssimas condições de trabalho impostas ao professor: precariedade das escolas, insegurança, falta de material e de funcionários, falhas essas que comprometem o resultado do trabalho escolar. Em 1983, a manifestação do CPP referia-se diretamente à questão salarial, de vez que o governo não levou em consideração as sugestões das entidades do magistério na preparação da proposta orçamentária para o ano seguinte: “Jamais o salário do professor foi tão aviltante (...) Os professores estão alarmados, desencantados, revoltados”. No ano seguinte, o pronunciamento do CPP a propósito do Dia do Professor enfatizou a necessidade de um maior investimento estatal na área da educação – “é preciso gastar mais no ensino e gastar melhor aquilo que já se gasta” (Jornal dos Professores, n. 203, out/84) e tornou a reafirmar a necessidade da união do magistério para a obtenção de melhores condições educacionais. As mudanças observadas nas representações a respeito da profissão docente presentes no jornal do CPP permitem indicar um declínio, a partir de 1977, quando a idealização dos professores perde espaço. A partir desse momento não se observam mais os “pequenos épicos magisteriais” divulgados nas homenagens às Professoras do Ano. Pode-se assinalar como causa dessa mudança uma variedade de fatores, que atuaram em conjunto para produzir uma nova configuração do campo educacional: as dificuldades econômicas crescentes do grupo profissional, evidenciadas por greves quase que anuais durante a década de 80; as precárias condições de trabalho das escolas estaduais, o predomínio de uma concepção sobre a docência no campo educacional que identificava professores a trabalhadores, ou seja, a atuação na escola significava apenas a venda da força de trabalho (para um sistema desigual que se reproduzia a si mesmo). Além disso, pode-se apontar o caráter subalterno que as trajetórias de formação calcadas na experiência adquiriram face à progressiva complexidade do conhecimento pedagógico de base científica. O periódico do CPP constitui o veículo de representações sobre a profissão docente coletivamente construídas, as quais provavelmente funcionaram, entre outras coisas, como modelos em direção aos quais algumas práticas docentes são orientadas. Diferentes “tradições de trabalho” podem ser entrevistas na ambígua valorização do modelo do sacerdócio, que se confunde às vezes com uma idéia de profissão liberal – imagens essas que parecem ser suplantadas tanto pelas novas tecnologias científicas educacionais como pela idéia da educação como engajamento político, que toma o lugar da “vocação”. O periódico então registra o desejo frustrado de fazer ouvir aquilo que os professores (ou melhor, seus líderes) têm a dizer sobre o sistema de ensino, 132 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente ou seja, suas condições de trabalho, expressando discordâncias cotidianas que poucas vezes aparecem nos estudos sobre ensino – especialmente por serem discordâncias identificadas a modelos “superados”, ou politicamente “desengajados”. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, M. I. de Perfil dos professores da escola pública paulista, São Paulo, Faculdade de Educação, USP, mestrado, 1991 AZANHA, J. M. P. “Escola de oito anos (a incompreensão pedagógica)” in: CATANI, D. B. et al. (org.) Universidade, escola e formação de professores. São Paulo, Brasiliense, 1986, p.153-160. BOURDIEU, P. Razões práticas: Sobre a teoria da ação. São Paulo, Papirus, 1996. 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Deve-se considerar que o número total de professores públicos em São Paulo, em 1997, era de 105.682. 2 Segundo dados extraídos do expediente do jornal do CPP, o número de mulheres na diretoria da entidade durante o período estudado sempre foi baixo, mantendo-se em torno de 5% do total de diretores, até o início da década de 70, quando começou a crescer, de forma inconstante, oscilando entre 20 e 30% na década de 80 e chegando a quase 50% no final do período. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 133 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente TRABALHO DOCENTE NA ESCOLA PÚBLICA PAULISTA E PROLETARIZAÇÃO CAÇÃO, Maria Izaura - Faculdade de Filosofia e Ciências -UNESP - Campus de Marília Trata-se de investigação sobre a constituição da jornada de trabalho docente do Professor III, denominação dada ao antigo professor de ensino secundário e normal, visando resgatar a construção histórica do processo de organização do trabalho docente na escola pública do Estado de São Paulo. Para alcançar os objetivos propostos, reconstituiu-se o processo de organização do trabalho na escola pública estadual de ensino fundamental e médio, de constituição das diferentes jornadas de trabalho docente (JTD) e a atuação das entidades representativas do magistério paulista: Centro do Professorado Paulista – CPP - e Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo – APEOESP, desde as primeiras formulações legais da carreira (década de 1930), percorrendo as décadas seguintes, marcadas pela expansão da rede de ensino e acompanhadas pelo aumento do limite máximo de aulas permitido ao docente ministrar. Enfocaram-se os embates entre a categoria do magistério e o governo, mormente nos anos 1970, o autoritarismo, o achatamento salarial sem precedentes e a reestruturação da APEOESP em bases democráticas. Analisou-se o processo de redemocratização do país e seus reflexos nas instituições educacionais e na organização do trabalho docente, durante a década de 1980 até 1990. Buscou-se contemplar, como objetivos: resgatar o processo de organização do trabalho docente do magistério público paulista no período de 1933 – instituição do Código de Educação do Estado de São Paulo – até 1990, data da sindicalização da APEOESP; verificar em que medida a atuação das entidades do magistério paulista exerceu influência sobre as políticas organizativas do trabalho docente e a elaboração das JTD e, finalmente, analisar o processo de organização do trabalho docente na escola pública paulista à luz da literatura referente ao desenvolvimento do conceito de proletarização do magistério. Mediante a consecução destes objetivos pretendeu-se contemplar a seguinte problemática: como constituiu-se, ao longo do tempo, a configuração atual das jornadas de trabalho docente do professorado das escolas públicas estaduais do estado de São Paulo? Quando e como ocorreu o processo de dissociação entre JTD e local de trabalho? É possível configurar este processo como de proletarização da categoria docente? Nessa perspectiva e com base em certas especificidades relativas à organização do processo de trabalho docente no ensino público paulista: trabalho pautado pela atribuição de aulas a serem ministradas e não pelo posto de trabalho; contratação mediante regras próprias, fora dos ditames da CLT e pela não delimitação e não unificação do local de trabalho, o que impede a reunião dos docentes em uma única escola, distanciando esse processo do modo como o mesmo se configura em outros estados da federação, a resposta a essas questões conduziria à 134 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente possível solução do desafio teórico-conceitual constitutivo do problema central em estudo: poderse-ia caracterizar a construção histórica da categoria do magistério público estadual paulista como um processo acabado de proletarização do professorado, tendo em vista a organização do trabalho docente no interior da escola? A hipótese norteadora da pesquisa foi a de que, historicamente, a categoria de professorado lutou pela ampliação de sua jornada de trabalho, num movimento oposto ao encetado pelas demais categorias de trabalhadores na sociedade capitalista, o que poderia levar à tese de que a organização do processo de trabalho dessa categoria encontra-se em um estágio précapitalista, partilhando de análise de Silva Junior (1993), ainda que se considere que o local de trabalho não se constitui na condição única e imprescindível para a questão da organização do trabalho docente. Dessa maneira, utilizaram-se como procedimentos metodológicos: o mapeamento do processo organizador do trabalho docente na escola pública paulista, no período considerado, levantamento e análise da legislação norteadora da questão, bem como da atuação das entidades representativas do professorado no que se referiu à organização do trabalho na escola e, finalizando, procedeu-se à análise desse processo de organização do trabalho docente tendo como pressuposto o referencial teórico relativo ao processo de proletarização pelo qual passaria o magistério. Além da consulta à legislação trabalhista e educacional, foram de relevante importância documentos que revelassem o contexto sócio-político e econômico dos momentos enfocados, sem desconsiderar os atores: os próprios docentes. Assim, a atuação do CPP e da APEOESP, no que tange à temática, configurou-se em foco privilegiado de análise. Por esta razão, optou-se pelo corte histórico no ano de 1990, data em que a APEOESP obtém registro de entidade sindical, no Ministério do Trabalho. Desde as primeiras formulações legais da carreira do magistério no Estado de São Paulo em 1933, até a década de 1950, não ocorreram grandes alterações quanto à forma organizadora dos ginásios e escolas normais, assim como no que se refere à organização do trabalho docente e ao número máximo de aulas permitidas ao professor ministrar. Obedecendo à mesma concepção de instituição escolar, a organização dos ginásios do Estado pautava-se pela estrutura do ensino superior. Organizavam-se por cadeiras (cátedras) e aulas, ambas constituídas pelas disciplinas fundamentais do currículo, em número de onze e duas, respectivamente. Compunham seu corpo docente professores catedráticos e de aulas, nomeados por concurso, por um período de três anos, ao final dos quais poderiam ser efetivados, desde que o processo de efetivação fosse aprovado por dois terços da Congregação. No que tange à carga horária semanal, o tempo de trabalho obrigatório dos professores catedráticos era de doze aulas, enquanto para os professores de aulas, o máximo permitido era de dezoito aulas. Nos Institutos de Educação a similitude com o ensino superior estava mais presente e sua estrutura organizacional previa uma Escola Secundária e uma Primária. Seu corpo docente compunha-se por professores catedráticos, professores assistentes e auxiliares de ensino, havendo um professor catedrático para cada um das cadeiras. O limite máximo de aulas permitido a cada um dos professores, somando-se às aulas obrigatórias semanais – dezoito – mais seis por cadeira, VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 135 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente mediante gratificação, não poderia ultrapassar vinte e quatro horas. Número que será mantido, com poucas alterações, até o início da década de 1960. Garantia-se, desse modo, sobretudo aos professores catedráticos, de aulas e assistentes, além de uma jornada semanal de vinte e quatro horas, um único local de trabalho, ainda que estes não se apercebessem como trabalhadores, pois, até a Constituição de 1967, o professor efetivo concursado era catedrático, dono de uma cadeira, com as mesmas prerrogativas dos magistrados, de vitaliciedade e inamobilidade, dentre outras. Entretanto, já em 1950, amplia-se para trinta e seis o limite total do número de aulas semanais permitido aos docentes ministrarem. Além das vinte e quatro – doze obrigatórias mais doze extraordinárias -, poderiam, facultativamente, ministrar mais doze aulas extraordinárias. Com a expansão do ensino secundário estadual, deflagrada a partir de 1954, alteramse as regras de trabalho para o professor. Na tentativa de conciliar os legítimos interesses das camadas sociais emergentes e os interesses eleitorais, esta ocorreu, entre aspectos paradoxais, imediatistas e clientelistas, ignorando a problemática de ausência de infra-estrutura, sem a necessária dotação orçamentária, não se configurando como resultado de uma política educacional planejada. (Cação, 2001) Quando os movimentos populares pressionam o Estado, ao reivindicar mais escolas, extingue-se a distinção entre aulas ordinárias (diurnas) e aulas extraordinárias (noturnas) de quaisquer disciplinas, permanecendo, contudo, a diferenciação na forma de pagamento entre ambas. No bojo desse processo de expansão ocorre o aumento progressivo do número máximo de aulas permitido aos docentes ministrarem: de dezoito, chega-se ao limite de quarenta e quatro, somando-se horas-aula e horas-atividade, na década de 1970. Frente à acelerada deterioração das condições de trabalho, dos salários e da situação funcional da maioria dos professores da rede pública de ensino paulista, denominados precários – ACTs: Admitidos em Caráter Temporário -, os docentes reagem através do movimento organizado e obtém ganhos considerados insuficientes. Com a redemocratização do país e a ascensão da oposição no Estado São Paulo, as reivindicações do magistério público, por redução da jornada de trabalho, respeito aos direitos trabalhistas e salários dignos não se concretizam. Extinta a cadeira, a lotação de cargo transforma-se em mera função na rede de ensino, não mais ocorrendo a subsunção do cargo a uma determinada escola, porém às aulas que compõem a jornada de trabalho, na qual o docente é incluído, o que apenas fez aumentar a instabilidade profissional, inclusive entre os professore efetivos. Apesar dos avanços obtidos pelo Estatuto do Magistério (L. C. nº 444/1985), mediante o estabelecimento da carreira do magistério, da redução das JTD, certa valorização salarial e democratização das relações de trabalho no interior da escola pública, a década de 1990 iniciouse sob forte mobilização do magistério, que não veria atendidas, àquela década, suas reivindicações históricas por jornada único e salário compatível. Ao longo do processo de tecnoburocratização por que passou o sistema estadual de ensino, no bojo do processo maior de industrialização, urbanização e constituição do Estado intervencionista, no Brasil, o docente, detentor de certa autonomia didático-pedagógica, exercendo 136 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente controle sobre a concepção e execução do trabalho, através de uma profissão merecedora de reconhecimento e prestígio social, foi-se tornando um assalariado mais barato, sua força de trabalho passa a ser vendida por menor preço. Progressivamente, o docente foi sendo expropriado do controle e da autonomia sobre o processo de trabalho, que se torna cada vez mais fragmentado. Vai-se, de acordo com o senso comum, proletarizando, graças, entre outros fatores, à queda dos seus níveis salariais, cada vez mais aviltados, e à progressiva perda de prestígio ocupacional. Diante dessas constatações, não consensuais, mas polêmicas e controversas, cabe o questionamento: É o professor um trabalhador? Pode ser caracterizado como integrante da classe trabalhadora? Como proletário? A polêmica instaura-se na literatura recente e perpassa a produção teórica sobre o trabalho docente e sua organização. Assim, às perguntas anteriores, Hypolito (1991), por exemplo, responde sim, pelo fato de os docentes estarem “submetidos a um processo de proletarização que, se não perfeitamente configurado, está em pleno desenvolvimento” (p. 12), e não, considerando que apenas o assalariamento não caracteriza um membro da classe trabalhadora. Por ora, considera-se esta uma possível resposta, tendo em vista a não existência de um conceito unívoco para classe trabalhadora, mas ser esta a expressão “para um processo social em curso” (Braverman 1987, p.31). Hypolito (1991) e Enguita (1990) acreditam que uma possível resposta à indagação inicial deve considerar a situação contraditória entre o profissionalismo e a proletarização, pela qual passa o professorado. Consideram que um grupo profissional é um grupo de pessoas, autoregulado, que trabalha diretamente para o mercado, oferecendo determinado tipo de bens ou serviços, exercendo controle sobre o seu trabalho, tendo seu campo de trabalho e conhecimento regulamentados por lei. Mesmo assalariado, conserva um certo grau de poder sobre seu trabalho e sobre a formação da profissão, gozando de certo prestígio social. Já a proletarização caracteriza-se como o oposto ao profissionalismo. O trabalhador, além de vender sua força de trabalho, não exerce qualquer controle sobre os meios de produção, sobre o produto e o próprio processo de trabalho. Constitui-se em um trabalhador coletivo, não porque o trabalho se socializou, mas porque, ao perder o controle sobre o mesmo, perdeu sua autonomia. Com a apropriação do seu saber pelo capital e incorporação do mesmo ao processo de produção, o trabalhador passa por um processo de desqualificação. Não é a natureza dos bens ou serviços oferecidos por um grupo ocupacional nem a maior ou menor complexidade envolvida no processo de sua produção que o tornam profissional ou integrante do operariado, mas a decomposição desse processo por meio da divisão do trabalho e da mecanização. Ora, no Estado de São Paulo, o professorado apresenta alguns traços que podem situá-lo mais como classe trabalhadora, do que uma categoria profissional, apesar da ambivalência apontada. Trabalha em condições materiais precárias; na maioria das vezes, é um trabalhador horista; não tem o local de trabalho delimitado; recebe salários aviltados e luta contra a fragmentação do seu processo de trabalho e contra a perda de prestígio, o que o distancia do profissionalismo. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 137 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Para o CPP, em posição assumida na década de 1970, a proletarização da categoria resumia-se ao rebaixamento salarial, não a identificando com o processo de expropriação do processo de trabalho pelo qual o professor já estaria passando, segundo alguns autores, ou de fragmentação do processo pedagógico, já em curso, via educação tecnicista, e dos quais o aviltamento salarial é um dos reflexos. Às reivindicações concretas apresentadas pelo professorado, de dedicação plena, mas não exclusiva, de contratação docente pelo regime da CLT e por melhores salários, o Estado respondeu, dentre outros mecanismos, com o aumento do número de aulas semanais permitido, o que, de certa forma, parece ter sido incorporado pela categoria, ao propiciar aumento de salários. Porém, ao não aceitar a ingerência do Estado patrão sobre o tempo livre do professor, a entidade defende a liberdade que o trabalhador teoricamente possui, no capitalismo, de vender sua força de trabalho a quem e quando quiser. Àquele momento, contrariando as tendências apresentadas pelo movimento do conjunto dos trabalhadores, os professores do ensino secundário e normal do Estado de São Paulo lutavam para poder ministrar quarenta e quatro aulas e pela possibilidade de trabalhar em mais de um local. Isto, no entender da categoria, significava aumento salarial, em curto prazo. Estavam, pois, estabelecendo-se as condições para que o profissional da educação, nas décadas seguintes, fosse constituindo-se num trabalhador horista. Condições que se aprofundariam nas décadas de 1980 - 1990. Entretanto, essa situação o faz caminhar no processo de unificação da categoria e de regulamentação da profissão, através do Estatuto do Magistério, de um plano de carreira, que prevê a qualificação para o exercício profissional e de algumas conquistas funcionais e salariais. Esse caminho dá-se por lutas sucessivas do sindicato. No entanto, a APEOESP, apesar de estar organizada segundo os moldes dos sindicatos de trabalhadores, de estar filiada à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação - CNTE - e à Central Única dos Trabalhadores - CUT, guarda, ainda, à semelhança dos outros sindicatos, características corporativas próprias das categorias profissionais. No momento em que há o predomínio da influência tecnicista, ao ver-se em condições muito próximas do conjunto da classe trabalhadora, as entidades representativas do professorado passam a assumir um caráter mais nitidamente sindical, espelhando-se nos sindicatos representativos dos trabalhadores da produção material. Mediante a ambivalência apontada, é possível avaliar que o magistério paulista realmente estar-se-ia constituindo em parte da classe trabalhadora ao considerar-se que a constituição de uma classe social se forja na própria luta de classes, no embate entre elas. Para Braverman (1987), a quase totalidade da população havia se transformado em empregada do capital. O autor explora a questão do emprego assalariado e da gama de categorias intermediárias, que vão das características do trabalhador às da administração, e entre estas, grupamentos intermediários partilhando elementos de ambas. Nos estabelecimentos educacionais, essas gradações se reproduziriam de maneiras “peculiares aos processos de trabalho executados” em cada uma das áreas. (Braverman, 1987, p. 344). Esses grupamentos intermediários ocupariam posição intermediária não por estar fora do processo de acumulação do capital, mas por assumir 138 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente características de ambas. No entanto, críticos a estas idéias trabalham com o pressuposto de que o chamado processo proletarizador adquire formas específicas no interior dos diversos trabalhos ditos profissionais, que nem sempre permitem totalmente a assimilação destes atores pela classe operária. É o caso, por exemplo, de Derber (1982); Lawn e Ozga (1991), Saviani (1986); Paro (1987) e Jiménez (1991), dentre outros. Mas, se a atividade docente não pode ser classificada como essencialmente capitalista, poder-se-ia argumentar que ela vem apresentando, cada vez mais, características do processo de trabalho diretamente produtivo. Ou seja, independentemente do fato de o trabalho docente ser ou não capitalista, ele vem configurando-se com menos autonomia, com maior divisão do trabalho e maior fragmentação. Desse modo, embora Apple (1982;1989), Lawn e Ozga (1981), entre outros, numa perspectiva marxista, tenham considerado o professorado como uma categoria profissional em processo de proletarização, com tendência a ser assimilada pela classe operária, há controvérsia com relação à tese. Considera-se a proletarização técnica quando a perda do controle sobre o processo de trabalho em si tornou-se efetiva e quando a direção subordinou os trabalhadores a um plano técnico de produção sem a intervenção dos mesmos. Já na proletarização ideológica, há a perda do controle sobre os fins e os propósitos sociais aos quais se dirige o trabalho. A distinção entre ambas as formas de proletarização mostra-se relevante para a análise dos profissionais, uma vez que a forma predominante entre estes tem sido a perda do controle sobre os fins do seu trabalho. Para os teóricos da proletarização, a racionalização do trabalho docente conduz à proletarização técnica dos educadores, uma vez que o cerne das análises situa-se nos efeitos da desqualificação, na separação entre concepção e execução e na perda do controle sobre o trabalho. Por sua vez, as transformações das tarefas de ensino obrigam o docente a qualificarse para a sua realização. Pode-se, então, concluir que a desqualificação sofrida pelos docentes não é idêntica àquela pelo qual passaram os trabalhadores industriais, sobretudo, às formas avançadas. O modelo de divisão do trabalho introduzido no ensino é diferente do desenvolvido na produção. Em muitos casos, as especializações criadas no seu interior surgem da criação de novos campos de conhecimento, tais como a Orientação Educacional, e da qualificação de aspectos do trabalho docente que anteriormente não exigiam habilidades específicas adquiridas em curso próprio de formação. Contudo, a separação dessa função e sua atribuição aos chamados especialistas não impedem que o docente continue realizando orientação individual ao aluno. Enquanto, na produção, a divisão do trabalho conduz à impossibilidade de o operário colocar em ação sua força de trabalho de modo independente, este não é o caso do professor, que, mesmo após o surgimento dos especialistas, pode realizar autonomamente seu trabalho. No que se refere à relação do docente com as funções conceituais de seu trabalho, é necessário analisar se ele é realmente alijado do planejamento de seu trabalho e de que tipo de VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 139 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente decisões é excluído de modo irreversível. Por suas características e natureza, o trabalho pedagógico exige certa autonomia do professor no que se refere à metodologia, conteúdos, materiais. Por numerosas sejam as normas curriculares, os parâmetros, diretrizes e que as decisões dos docentes pouco afetem a adoção e realização de uma política educacional, não é possível, à escola, planejarse e construir seu projeto político-pedagógico sem a participação efetiva de seus professores. A tarefa do planejamento é uma das competências inalienáveis do docente, mesmo na educação tecnocrática. Ainda não lhe foi usurpada a capacidade de pensar de forma relativamente global sobre o seu trabalho. A proletarização técnica do docente tem-se submetido a inúmeras limitações e, desse modo, não é possível afirmar que tenha alcançado as formas avançadas sofridas pelos operários. O próprio processo de constituição da categoria do magistério ocorreu de modo contraditório, não havendo concordância entre os estudiosos. Parte destes opta pela inserção dos professores na classe trabalhadora e tornou-se senso comum classificá-los como proletários ou em processo de proletarização. Alguns, entretanto, consideram os professores como semiprofissionais, o que nada esclarece, e outros, ainda, vêem traços de profissionalismo na categoria. Em 1985, Abramo pergunta: ”Quem é o professor [...], particularmente, de São Paulo, em termos de estrutura de classes sociais?” (1987, p.77). Historicamente, considera-se que, até meados da década de 1950, 60, o magistério paulista tem como origem de classe as camadas médias e altas da população, com elas se identificando. Goza de prestígio profissional e recebe reconhecimento social pelo trabalho desenvolvido. Com a expansão da rede pública de ensino, ligada, sobretudo, ao processo de expansão do capitalismo, segue o aumento da demanda social por educação, em que a distribuição das oportunidades educacionais ocorreu mais em virtude de pressões sociais locais, como uma resposta desordenada do Estado, do que por ação deliberada deste no bojo de uma política educacional. Assim, com a expansão do ensino fundamental público, além do novo alunado que adentra as escolas estaduais, crianças e jovens das camadas populares, cresce a oferta de postos de trabalho nas escolas. O governo, então, utiliza estratégias visando o não aumento substancial da verba destinada à educação e ao pagamento do pessoal docente: a contratação de professores em caráter temporário, para ministrarem aulas consideradas extraordinárias, cujo valor pago era inferior às aulas ordinárias. Esses novos professores, devido à própria expansão das oportunidades de estudo, advinham não mais das camadas médias e altas, mas, em grande parte, das camadas populares, pois a profissão passa a ser vista como um canal de ascensão social. Ao se incorporar ao magistério público, identificam-se com os valores hegemônicos das classes médias e não mais com os de sua classe de origem. No nível da representação, é essa escola anterior à chamada democratização do ensino que permanece como modelo ideal de instituição educacional, o que parece impedir que a categoria visualize outras formas de organização e luta. Diante das contradições apontadas, da impossibilidade de consenso quanto às formas organizatórias do trabalho docente, da dificuldade de análise que o professorado possui de suas condições de trabalho e do seu significado, da polêmica teórica quanto à situação trabalhista e de 140 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente classe dos professores e reconhecendo que, neste estágio avançado do sistema capitalista, não se pode fugir ao fato de as instituições serem moldadas pela forma sob a qual se organiza esse modo de produção, postula-se que, na organização do trabalho docente nas escolas públicas paulistas, há elementos do processo de trabalho de modos de produção diversos à produção capitalista, coexistindo com outros específicos desse modo de produção. O fato desse modo de produção ter-se generalizado, determinando as relações sociais e sendo por elas determinado, no entanto, não significa sua absoluta generalização. No sentido dessa argumentação, na perspectiva de que ao trabalho docente, por sua natureza e especificidade, não se aplicaria senão de forma limitada o modo de produção capitalista, sendo-lhe impossível sofrer completo processo de objetivação, controle e parcelarização, considera-se a subsunção formal do trabalho docente ao capital, no sentido específico que Marx confere ao conceito, uma categoria profícua de análise. No sentido restrito, importa considerar a situação que o processo de trabalho, mesmo inserido no modo de produção capitalista, conserva, do ponto de vista técnico. Assim, considerando a forma de organização do trabalho docente nas escolas estaduais, é possível serem encontrados, concomitantemente: 1. elementos tributários ao modo de produção capitalista: a) assalariamento; b) certa parcelarização do trabalho; c) aumento de produtividade via composição de classes superlotadas; d) rotatividade de mão-de-obra - mobilidade do corpo docente - que resultaria em achatamento salarial; e 2. elementos que a organização do trabalho ainda guarda de outros modos de produção anteriores: a) propriedade dos meios - saber intelectual, conhecimento; b) autonomia didático-pedagógica e controle sobre o processo ensinoaprendizagem; c) não separação entre concepção e execução; d) a não reunião, a não delimitação do local de trabalho e a não fixação do professor nesse local impede que se desenvolva, nas escolas públicas, um trabalho coletivo; e) os professores ainda são trabalhadores individuais; f) diferentemente da fábrica, na escola reúnem-se e atuam professores de diferentes áreas de formações e ramos do conhecimento, o que também não permite a formação do coletivo que a fábrica agrupa. Além desses aspectos, o fato de o trabalho docente conservar grande parcela de individualidade, caracterizando-se, muitas vezes, pelo fazer solitário, não demandando a reunião de um coletivo, e pelo fato de a admissão do professor ocorrer pela atribuição de aulas, no início do ano letivo, o que, no limite, torna-o um trabalhador horista, acredita-se que este trabalhador conserva elementos próprios de etapas intermediárias, de transição, ao modo de produção capitalista, ou pré-capitalistas, como se denominou. Quanto à proletarização, não se pode concluir pela inserção da categoria docente no proletariado apenas sob o ponto de vista econômico, pois apenas o assalariamento e o achatamento salarial são fenômenos que não caracterizam a classe proletária. Assim, pela situação ambígua e contraditória do professorado público paulista, pela natureza do processo de produção pedagógica e do papel desempenhado pelo saber neste processo, pela dificuldade de percepção que os próprios docentes possuem de suas condições de trabalho e diante da polêmica teórica quanto à situação trabalhista e de classe dessa categoria, parece VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 141 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente temerário e inadequado, sem outras investigações sobre a temática, concluir-se pela proletarização do professorado. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, P. O professor, a organização corporativa e ação política. In CATANI, Denice Bárbara (org.) Universidade, escola e formação de professores. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. APPLE, M. W. Educação e poder. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. APPLE, M. W. (ed.). 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São Paulo: Cortez, 1993. 142 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente VALORIZAÇÃO X IDENTIDADE: UM PARADOXO DA QUESTÃO MUNICIPAL NA VALORIZAÇÃO DOCENTE COM O FUNDEF RAMOS, Géssica P. (UFSCar) INTRODUÇÃO Durante as últimas décadas, o pressuposto de que existiria uma relação muito estreita entre educação escolar e desenvolvimento econômico-social e entre valorização docente e qualidade do ensino tornou-se latente nos discursos das agências multilaterias e dos governos nacionais. Isso possibilitou que estes, ora perante a um magistério mobilizado, ora frente a um magistério desmotivado, passassem a abrir espaços em suas agendas para que o problema da desvalorização docente fosse discutido, fundamentalmente, do ponto de vista de projetos político-econômicos. No Brasil, uma das iniciativas mais marcantes da década de 90 nesse sentido foi a criação do “Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério” (FUNDEF) pelo governo federal. Esse Fundo foi sancionado em 1996 pela Emenda Constitucional nº 14 (EC 14) e regulamentado pela lei nº 9.424/96, tendo natureza contábil e composição de recursos extraídos de fontes de verbas estaduais -e do Distrito Federal- e municipais, com possível complementação da União nos locais que não alcançassem o mínimo obrigatório de investimentos. Ele funcionaria pela redistribuição de seus recursos entre os Estados e seus Municípios, conforme o número de alunos efetivamente matriculados anualmente nas escolas cadastradas das redes estaduais e municipais de ensino. Na prática, de acordo com Callegari e Callegari (1997), esse seu mecanismo redistributivo impulsionou que vários Municípios -inclusive os do Estado de São Paulo-, na tentativa de reaverem o máximo possível ou até mais das verbas que destinaram ao Fundo, acabassem assumindo alunos estaduais e ou criassem escolas municipais, aderindo à política de municipalização do ensino. Foi dessa forma que a implementação de uma política de valorização do magistério acabou associando-se a uma política de municipalização do ensino, para vários professores do país. Entretanto, ao que tudo indica, os efeitos reais que essa associação trouxe à vida cotidiana de dezena de milhares de docentes, no quesito valorização, ainda não foram suficientemente discutidos ou questionados nos meios políticos e acadêmicos. Questões triviais como se “a municipalização do ensino é de fato um instrumento positivo para se associar a uma política de valorização do magistério?”, se “existem impeditivos advindos da política de municipalização do ensino para a valorização do professor?”, se “são percebidas lacunas na lei federal de regulamentação do Fundo para sua implementação local?”, se “o FUNDEF, os docentes (ou cada membro do magistério), o Poder Público Municipal e o Poder Público Estadual possuem a mesma concepção de valorização do magistério e quais as implicações práticas disso?”, “que efeitos tem a proximidade local para a (des)valorização do professor?” etc, foram deixadas para VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 143 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente trás ou não foram ainda devidamente discutidas, possibilitando o avanço das atuais políticas de valorização docente e financiamento da educação sobre páginas em branco da pesquisa sobre a história recente da educação brasileira. Iniciar o desbravamento dessa temática foi o objetivo da pesquisa “O outro lado da valorização no FUNDEF”, realizada entre os anos de 2001 e 2003, cuja questão central buscava verificar qual a análise que os professores faziam sobre a associação municipalização do ensino– valorização do magistério, possibilitada pelo FUNDEF, para a valorização docente. Fundada em um estudo de caso com professores do ensino fundamental (1ª à 4ª série) do município de Américo Brasiliense/SP, ela utilizou-se metodologicamente de análise bibliográfica, de análise documental e de entrevistas semi-estruturadas com professores. Pela amplitude do tema, a exposição a seguir objetiva apresentar e discutir apenas os resultados dessa pesquisa referentes ao processo de fragmentação da categoria e da identidade docente, com o FUNDEF, no caso estudado. OS DIFERENTES VÍNCULOS PROFISSIONAIS A associação entre valorização do magistério e municipalização do ensino, no Município pesquisado, possibilitou que professores de diferentes vínculos profissionais trabalhassem nas mesmas escolas municipais de 1ª a 4ª série do ensino fundamental da localidade: conviviam em iguais escolas professores contratados pelo Município e professores cedidos pelo Estado ao Município por meio do “Convênio de Parceria de Ação Educacional” paulista. Na prática, o que poderia ter significado um acréscimo na união e na troca de experiências entre esses profissionais, acabou tornando-se um espaço para a fragmentação da categoria e da identidade docente em diferentes vivências da municipalização e da “valorização” -do FUNDEF- pelos professores. As diferenças entre as vivências por esses grupos iniciaram-se desde seus ingressos na referida localidade. Os docentes do Estado já trabalhavam nas escolas estaduais de Américo Brasiliense e interpretaram a possibilidade de continuidade no Município, após a municipalização do ensino fundamental de 1ª a 4ª série, como um aspecto positivo permitido pelo Convênio EstadoMunicípio. Caso contrário, a maior parte deles teria que retornar às suas sedes localizadas em Municípios mais distantes, o que geraria mais gastos com transportes e deslocamentos. Além disso, mesmo na hipótese deles serem dispensados pelo Município -por qualquer que fosse o motivo-, eles continuariam vinculados ao Estado e dessa forma se manteriam empregados. Vale lembrar que o “Convênio de Parceria de Ação Educacional” havia estipulado que a suspensão ou cessação do afastamento desses profissionais dependeria da “solicitação expressa do Chefe do Poder Executivo do Município”, que seria “responsável pela sua reposição, a fim de garantir a execução das ações do Plano de Trabalho que integra este convênio” (SÃO PAULO, 2002, s/p). Isso na prática implicaria ao Município assumir mais funcionários dentro do quadro municipal, apesar das incertezas de condições financeiras de manutenção do quadro após o término do FUNDEF -previsto para ocorrer em 31 de dezembro de 2006. 144 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente Os professores municipais, diferentemente dos professores estaduais, tinham ingressado na rede de ensino municipal de Américo Brasiliense por intermédio de um concurso público realizado na localidade, no final do ano de 1998 e, a partir desse momento, passariam por três anos de experiência em serviço. Segundo os entrevistados municipais, esse período de experiência havia sido associado ao reforço constante da idéia de instabilidade profissional do docente municipal, que estaria sendo constantemente observado. Isso havia ocasionado entre eles a existência do medo constante da perda do emprego e, por conseqüência, teria tornado-os mais vulneráveis à proximidade local. Assim, as diferentes condições de ingresso que se colocaram para os distintos grupos de docentes possibilitou que cada qual vivenciasse diferentemente a municipalização do ensino, bem como a política de valorização do FUNDEF, implementada na cidade. OS DESCOMPASSOS ENTRE AS VIVÊNCIAS DA PROXIMIDADE LOCAL Em razão de estarem vulneráveis à proximidade local, os professores municipais avaliaram-na negativamente para o objetivo de implementar uma política de valorização do magistério. Foram destacadas por eles questões como a: - da facilitação da interferência local na prática pedagógica do professor; - da permissão do uso de práticas oficiais punitivas (redução na porcentagem de participação no “rateio” das verbas do FUNDEF, a baixa classificação na atribuição de aulas, a baixa avaliação de desempenho etc) pelo poder local; - da possibilitação da supervisão do trabalho docente, sob uma vertente controladora, invasiva e manipuladora; - da facilitação da pessoalidade nas relações com a proximidade gerada. Vários desses aspectos já haviam sido apontados pela literatura específica sobre municipalização do ensino (DINON, 1987; NASCIMENTO, 1989; FONSECA, 1995; BORDIGNON, OLIVEIRA, 1989) como sendo alguns de seus riscos. Eles também se constituíam, historicamente, em motivos pelos quais as entidades do magistério paulista colocavam-se contra essa política. Embora os professores estaduais quase não tenham compartilhado dessas mesmas experiências assinaladas pelos docentes municipais, eles diziam-se frustrados com a proximidade, pois ela não tinha gerado um maior diálogo entre os membros da administração educacional local e os professores. Além disso, eles também avaliaram que essa política acabou trazendo várias situações negativas para seu grupo como: a perda do acompanhamento das normatizações realizadas pelo Estado e a sobreposição de algumas regras estaduais por regras municipais. O único fator coincidente na fala dos professores estaduais e dos professores municipais foi o problema do uso da avaliação de desempenho no Município. O professor do Estado dizia que, apesar da avaliação de desempenho realizada na cidade não ser utilizada para contagem de pontos na carreira do professor estadual -servindo apenas para somatória de pontos para a lista geral de classificação para a atribuição de classe-, ela era negativa, já que dava mais ênfase à questão da participação docente nos cursos oferecidos pelo Município e das faltas abonadas VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 145 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente utilizadas pelos professores estaduais, do que, efetivamente, ao desempenho global docente no exercício de sua profissão. Já na visão do professor municipal, essa avaliação também não era bem vista, pois, conforme eles, ela era utilizada como um instrumento coercitivo do profissional. Os professores municipais interpretavam ainda que a proximidade local não possibilitava o aprimoramento pedagógico docente, já que, conforme eles, ela facilitava o tolhimento de suas práticas educacionais consolidadas e os desmotivavam profissionalmente. Segundo esses professores isso era resultado do modo como as relações de poder na área educacional do Município eram conduzidas: dava-se grande dimensão àquilo que o docente não tinha conseguido alcançar com os alunos, em detrimento do que ele havia alcançado. Esse reforço de uma imagem negativa sobre o professor municipal e sobre suas ações abalou profundamente sua autocredibilidade profissional e pessoal, parecendo anular de suas aspirações o otimismo quanto à possibilidade de sua valorização e de sua atuação profissional positiva. Nesse contexto, somente os entrevistados estaduais destacaram as contribuições pedagógicas materiais possibilitadas pela municipalização do ensino (coordenador pedagógico por escola, aula de inglês para alunos, materiais disponíveis, conservação do prédio escolar etc), o que representaria para eles um acréscimo ao trabalho pedagógico docente. Mediante ao turbilhão de emoções e experiências negativas vividas pelos professores municipais, eles sequer remeteramse a esse assunto, mesmo aqueles que já haviam trabalhado em escolas estaduais. Ao que tudo indica, no referido caso, a municipalização do ensino parece ter permitido que os diferentes vínculos de trabalho existentes entre os docentes (estadual e municipal) tomassem o formato de isonomias salariais, de distinções sindicais (o professor do Estado mantinha-se vinculado à APEOESP e o do município não tinha entidade sindical), de diferenciações de carreira e de variações no tratamento do professor. Contudo, mais do que isso, ela possibilitou a ocorrência de uma grande distinção inclusive entre as auto-imagens e as vivências pessoais e profissionais da docência pelos diferentes grupos. Essa fragmentação docente era outro medo histórico das entidades dos professores paulistas em relação à municipalização do ensino, que temiam o próprio esfacelamento da profissão inclusive em termos de cumplicidade nas vivências e lutas docentes. OS DESCOMPASSOS DAS VIVÊNCIAS DOS ITENS DE VALORIZAÇÃO DO FUNDEF Apesar das divergentes percepções sobre o contexto da municipalização do ensino entre os dois grupos, todos os entrevistados acreditavam que no Município pesquisado havia um movimento da administração educacional local para implementação dos itens da valorização do magistério trazidos pelo FUNDEF. Segundo eles, no tocante à remuneração, era investida parte das verbas do FUNDEF para o pagamento do magistério; sobre o Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEF, ele já estava em funcionamento na cidade; na questão da capacitaçãoformação do professor, eram oferecidos freqüentemente cursos para o grupo; sobre o Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, ele já estava em processo de elaboração -sendo aprovado somente no final de 2002. Todavia, novamente, professores de distintos vínculos demonstraram 146 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente vivenciar diferentemente sua implementação, bem como seus efeitos. No que se refere à questão salarial, o salário do professor estadual (cedido à prefeitura) continuava sendo proveniente do Estado, variando seu valor básico de R$ 597,00 mensais para um regime de 30 horas semanais de acordo com as gratificações e orientações do Plano de Carreira estadual –embora o Município ressarcisse para o Estado o seu valor. Já o salário do professor municipal era de R$ 665,00 mensais para uma jornada de 32 horas, tal como fixado pela localidade, não sofrendo variações –salvo pelas horas-extras-, uma vez que a localidade ainda não possuía um Plano de Carreira para seu magistério. Por essa razão, ambos os grupos de professores (estadual e municipal) discordavam dessa diferenciação salarial, pois ela ocorria entre profissionais de igual função, atividade e local de trabalho. Isso ocasionou que cada grupo pesquisado percebesse o outro como financeiramente mais valorizado: o grupo do Estado, com vistas ao fato de que o salário base do professor municipal era mais alto que o deles e o grupo do Município, pautado no fato de que o salário base do professor estadual acrescia-se dos benefícios da evolução na carreira, presentes em seu Plano. Tanto os docentes cedidos pelo Estado quanto os do Município (e os outros profissionais do magistério do ensino fundamental de 1ª a 4ª série de Américo Brasiliense) dividiam no final do ano -conforme a proporção das horas trabalhadas e do cargo/função-, os resíduos das verbas que sobravam do FUNDEF, sendo esse evento conhecido na cidade como “rateio”. Segundo o professor municipal, essa prática local era negativa para a valorização do profissional do Município, uma vez que ela descaracterizava o caráter salarial de seus pagamentos, não garantindo as verbas como salário em suas carreiras e contribuindo para o estacionamento de seus valores. Diferentemente disso, para a maioria dos professores estaduais entrevistados, a distribuição das sobras das verbas do Fundo via rateio acabou sendo positiva, já que, conforme eles, ela teria sido o único meio pelo qual os docentes estaduais (cedidos) acabaram beneficiando-se da política de remuneração no Município, possibilitada pelo FUNDEF. Apesar dessas diferentes avaliações entre os grupos, todos os entrevistados ressaltaram que a isonomia salarial existente entre eles -associada à prática do “rateio” municipalcontribuiu para o estabelecimento de discórdias entre os grupos, afetando inclusive suas relações pessoais e profissionais (até em termos de trocas de experiências pedagógicas), incidindo negativamente para a união e identidade entre os professores. Na questão da formação-capacitação do professor, ambos os grupos participavam conjuntamente dos cursos oferecidos pelo Município. Entretanto, uma das principais diferenças de análise entre os entrevistados reflete-se pelo alto grau crítico expresso pelos professores municipais, por conta de suas vivências sobre o processo. Foi destacada por eles a negatividade do caráter impositivo de suas participações nessas atividades, da cobrança da utilização prática de seus conteúdos, da não participação do professor na escolha dos temas e da tendência desses cursos seguirem modismos educacionais. Esses professores demonstraram também insatisfação quanto ao fato de que o Município considerava para a contagem na atribuição de aulas somente os cursos que ele próprio oferecia. Sobre esse assunto, os professores estaduais não fizeram menção. Contudo, eles destacavam sentir-se prejudicados pelo próprio Convênio Estado-Município, em razão de VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 147 Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente que, com a municipalização do ensino, os cursos oferecidos pelo Município não serviam para evolução na carreira do Estado, pois não somavam pontos aos seus prontuários estaduais. Aqui, um aspecto interessante comum aos dois grupos foi o da negatividade dos horários em que os cursos eram oferecidos. De acordo com os professores, os horários dos cursos promovidos pelo Município geralmente não respeitavam os horários de folga do docente, intensificando seus trabalhos. Em relação à formação inicial, aproximadamente 70% dos docentes municipais de Américo Brasiliense tinham formação em nível superior. Dos professores estaduais cedidos, os 100% possuíam formação em nível superior, tendo em vista o “Programa de Educação Continuada– Formação Universitária” (PEC-Formação Universitária) oferecido pelo Estado, no período de 2001/ 2002. Cabe lembrar que, com o Convênio Estado- Município, a Secretaria de Educação do Estado deveria ainda “co-responsabilizar-se pela capacitação do pessoal colocado à disposição do Município, pela Secretaria” (SÃO PAULO, 2002). Assim, os professores estaduais mostraram-se bastante satisfeitos nesse aspecto. Já no caso dos professores municipais, foi avaliado que o Município havia demorado muito tempo para tocar nesse assunto. Além disso, segundo acreditavam esses entrevistados, o Departamento de Educação apenas realizaria um convênio com uma faculdade privada, que cobraria preços mais reduzidos dos docentes que freqüentassem seus cursos, sem que fossem considerados aí o aspecto financeiro dos professores e a questão qualitativa dos cursos. No que diz respeito ao tema do Plano de Carreira e Remuneração do Magistério, ele foi um dos itens mais contrastantes entre os diferentes grupos. Os professores estaduais possuíam um Plano de Carreira e Remuneração Estadual, enquanto que os professores municipais ainda estavam com seu Plano em processo de elaboração. Esses fatos ocasionaram que os professores estaduais se colocassem completamente à margem do processo de elaboração do Plano de Carreira municipal. Eles consideravam que essa era uma luta dos docentes municipais, visto que já haviam lutado por seu Plano na esfera estadual. Já os professores municipais, ao contrário, mostravam-se altamente preocupados com esse tema, despendendo algumas preocupações sobre o referido item. Destacaram sentir no Município um movimento contrário à valorização docente por esse veículo durante seu próprio processo de implementação. Conforme eles, os professores haviam sido inicialmente excluídos de sua elaboração e, posteriormente, incluídos nela, mas sem sucesso no objetivo de garantir suas aspirações no documento. Tudo isso, para eles, contribuía para que esse item não se efetivasse em sua esfera valorizadora na cidade. Desse modo, o que se percebe é que apesar do FUNDEF trazer como um de seus principais objetivos a valorização do magistério e, mais especificamente, do professor, ele deixou várias lacunas possíveis para sua implementação local, fundamentalmente, no que se refere à união e à identidade do grupo, pela possibilidade de existir profissionais em uma mesma rede com diferentes “pesos” e “medidas” para sua valorização. 148 VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO Identidades, imagens sociais e organizaçao da categoria docente REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORDIGNON, Genuíno; OLIVEIRA, Luiz S. Macedo de. A escola cidadã: uma utopia municipalista. Revista Educação Municipal. São Paulo v. 2, n.4, p.05-13, maio/1989. BRASIL, EMENDA CONSTITUCIONAL nº 14 de 12 de setembro de 1996. [ Modifica os art. 34, 208, 211 e 212 da Constituição Federal e dá nova redação ao art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias]. Publicada no DOU de 13.09.96. BRASIL, LEI nº 9.424 de 24 de dezembro de 1996. [Dispõe sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério]. Publicada no DOU de 26.12.96. CALLEGARI, César; CALLEGARI, Newton. Ensino fundamental: a municipalização induzida. São Paulo: Ed.SENAC, 1997. DINON, Luiz Lorenzi. Descentralização e educação nos municípios: potencialidades e limitações. Rio Grande do Sul, 1987. (Dissertação de Mestrado) . Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. FONSECA, JOÃO Pedro da. Poder local e municipalização: em busca da utopia- um estudo no Município de Jacui. São Paulo, 1995. (Tese de livre docência). Faculdade de Educação: Universidade de São Paulo. NASCIMENTO, Jorge Carvalho do. Municipalização do Ensino, debate e conjuntura. Revista Educação Municipal. São Paulo v. 2, n.5, p.97-100, nov/1989. RAMOS, Géssica P (2003). O outro lado da valorização no FUNDEF. Araraquara, 2003. (Dissertação de Mestrado). Faculdade de Ciências e Letras: Universidade Estadual Paulista. SÃO PAULO (2002). Modelo do Termo de Convênio que entre si celebram o Estado de São Paulo, por intermédio da Secretaria da Educação, e o Município, objetivando a implantação e o desenvolvimento do Programa de Ação de Parceria Educacional Estado-Município para o atendimento ao ensino fundamental. [Disponível na Internet: http://www.imesp.com.br/cgi]. Acessado em 22 de dezembro de 2002. NOTA Dentro do contexto apresentado, pode se perceber que os professores estaduais pareceram vivenciar a municipalização do ensino e suas adversidades como uma nova condição do professor do Estado, mas com a ciência de seus vínculos estaduais e de suas conquistas. Nesse sentido, ela pareceu ser para eles uma continuidade da realidade estadual, ou seja, uma extensão de suas vivências e relações com Estado –inclusive em suas adversidades e “distâncias”. No caso do professor do Município, o seu vínculo municipal permitiu que ele vivenciasse a municipalização do ensino de forma exposta, fragilizada e desprotegida de sua condição profissional. Por essa razão, professores do Estado e professores do Município experimentaram diferentemente a municipalização do ensino, a implementação dos itens de valorização do FUNDEF e os seus efeitos. Com isso, para além da efetivação de um sentimento de valorização entre a categoria, reforçou-se entre eles a sensação de um mal-estar generalizado, resultado do desequilíbrio entre suas experiências docentes. Contudo, do que pode se concluir pela pesquisa é que, toda política educacional que se preocupe com a valorização do professor, precisa considerar, como aspecto primordial para o seu funcionamento, a questão da unidade e da identidade da categoria docente. A valorização passa necessariamente pela proteção do professorado enquanto um grupo profissional, em que se é focada e ou construída a identidade da profissão docente, a partir da cumplicidade na vivência, nos benefícios e na resolução dos mesmos problemas. VIII CONGRESSO ESTADUAL PAULISTA SOBRE FORMAÇÃO DE EDUCADORES - 2005 UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - PRO-REITORIA DE GRADUAÇÃO 149