Iniciando a investigação das fontes
de pesquisa. Como usar a Internet
Valéria Brandini
A investigação das fontes de pesquisa
pode ser o inferno ou o paraíso...
Essa é a melhor sensação da pesquisa: a descoberta mesmo quando ela diga
respeito a um objeto ou fato que já conhecemos. Os antropólogos costumam utilizar, como
exemplo do que é a atividade de investigação das fontes de pesquisa, a situação do indivíduo
que nasceu cego e passou a conhecer o mundo real por meio do tato, da audição, por um
sistema de percepção e de códigos diferentes das pessoas que enxergam. Portanto, cada
coisa faz sentido para este indivíduo, segundo a forma como ele pôde conhecê-la, no caso,
sem o sentido da visão, que nos faz perceber o mundo segundo uma forma específica.
Suponhamos que este indivíduo seja submetido a uma cirurgia quando adulto (como no
filme À primeira vista), em que todo seu entendimento do mundo já esteja constituído, e
passa a enxergar. Assim, como no filme, as coisas vistas não fazem sentido, pois uma flor
tornou-se cognoscível a este indivíduo pelo toque, pelo aroma e, agora, quando vista com
os olhos, sua imagem não parece se associar ao que ele conhece como flor. Existe, então,
um sentimento de estranhamento, de "ver" uma coisa conhecida de uma forma
completamente diferente do que ela parecia até então, um misto de susto e esplendor.
Assim é o processo de investigação. Rompendo com o senso comum, o pesquisador
passa a observar a fonte de pesquisa com um outro olhar e a perceber em um fato, situação
ou objeto, elementos que nunca havia percebido, conexões completamente novas, o famoso
"estranhamento" em relação ao objeto de pesquisa, que leva a descobertas importantes e
a novos conceitos.
Conhecemos e vivemos a moda desde pequenos, quando vestidos por nossas
mães, até podermos escolher nosso próprio traje segundo valores e objetivos próprios.
Temos, portanto, uma familiaridade (mesmo quando não seguimos tendências de moda)
com esse universo e um tipo de conhecimento específico sobre ele. O conhecimento do
senso comum, das vitrines, das revistas, das modelos, ou mesmo quando trabalhamos
nesse universo, a idéia que temos de moda tende a ser estereotipada (alguém que trabalha
em um departamento de marketing de uma grife, por exemplo, tem a moda como uma idéia
de produto a ser gerenciado e vendido, independentemente da proximidade que temos de
seu universo de produção.
Iniciando a investigação das fontes de pesquisa - Anhembi Morumbi
Tudo depende da disposição do
pesquisador! O físico Marcelo Gleiser, que escreve
na coluna Cosmos da Folha de São Paulo tem
como login de e-mail o nome Peter Pan. Quando
interrogado sobre o porquê do nome, argumentou:
"É porque os pesquisadores são como as
verdadeiras crianças do universo científico,
sempre fascinados com as coisas, como a criança
quando começa a descobrir o mundo!"
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O início do processo de pesquisa deve dar-se, portanto, na forma de uma ruptura
epistemológica (rompimento com as noções do senso comum) acerca da idéia de moda.
Enxergarmos a forma moda de uma forma diferente, com o estranhamento necessário ao
processo de descoberta - o que só pode ser realizado a partir do estudo das fontes
secundárias de pesquisa, no qual conseguimos adquirir um alicerce conceitual para a
investigação.
Início da investigação das fontes de pesquisa:
Por que primeiro estudamos as fontes secundárias?
Iniciando a investigação das fontes de pesquisa - Anhembi Morumbi
Se o embasamento teórico é o primeiro passo para que possamos isolar o tema
moda conceitualmente, antes de chegarmos às fontes primárias de pesquisa (os
documentos em primeira mão, as entrevistas, imagens e fatos), devemos nos "munir" do
conhecimento teórico para que nosso olhar sobre o objeto de pesquisa seja científico,
rompendo com o senso comum; isto é, propondo um modelo conceitual para observamos
o tema moda, de forma que o objeto constituído possa seguir uma linha metodológica de
investigação. Caso contrário, a análise de uma fonte primária, como um documento, pode
cair no "achismo", uma opinião pessoal, de senso comum, sem base teórica para reflexão
conceitual, e não é isso que queremos, não é verdade?
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Uma boa repertorização histórica é sempre um bom começo para um trabalho de
pesquisa de moda, pois como a bibliografia específica é escassa, é necessário se expor,
descrever o objeto de pesquisa em sua cosmologia e historicidade, pois, muitas vezes,
para um profissional de moda, a idéia de Mercado Mundo Mix parece muito óbvia, mas para
um argüidor de teoria literária, isso pode ser um evento completamente desconhecido.
Portanto, expor o objeto detalhadamente é sempre uma necessidade quando o tema tratado
for moda.
Se existe a possibilidade de repertorização histórica do objeto por meio de fontes
secundárias de pesquisa, obras de autores que se dedicaram ao estudo desse assunto,
esse deve sempre ser o passo inicial, antes de se expor historicamente o objeto por meio
das fontes primárias (como releases de eventos, matérias de revistas de moda sobre
esses eventos), pois a parte conceitual deve sempre preceder a exposição das fontes
primárias.
Após a investigação das fontes secundárias (nosso alicerce conceitual), o trabalho
com as fontes primárias deve sempre obedecer a um processo de catalogação (datação
referências), em que fatos e documentos são transformados em dados de pesquisa a
serem expostos conceitualmente, de forma que uma foto de uma vitrine da grife Thierry
Mugler deixa de representar roupas de uma coleção do designer para representar a utilização
do conceito de luxo como valor agregado de moda. Assim, a imagem torna-se documento,
que por sua vez torna-se dado de pesquisa a expor conceitualmente o problema de pesquisa
em argumentação.
Uma antiga peça de vestuário vintage pode deixar de ser um "objeto de brechó" e
tornar-se uma fonte primária - o passo inicial, antes de se expor historicamente o objeto por
meio das fontes primárias (como releases de eventos, matérias de revistas de moda sobre
estes eventos), pois a parte conceitual deve sempre preceder a exposição das fontes
primárias.
Após a investigação das fontes secundárias (nosso alicerce conceitual), o trabalho
com as fontes primárias deve sempre obedecer a um processo de catalogação (datação
referências), em que fatos e documentos são transformados em dados de pesquisa a
serem expostos conceitualmente, de investigação apenas, e quando seu valor como objeto
tornar-se documental, como um vestido de seda feito nos anos 1940 que, de fato, foi
confeccionado com o material proveniente de um pára-quedas deixado em uma cidadezinha
do norte da Alemanha por um soldado norte-americano e pego por uma dona-de-casa
tornou-se o vestido de casamento de sua filha nos tempos da Segunda Guerra Mundial. O
valor objeto, como peça de roupa, cede lugar à representação do contexto sociocultural e
histórico vivido pelos cidadãos civis durante a guerra, expondo as restrições de consumo,
o intercâmbio cultural e, até mesmo, a expressão desses eventos, pois a parte conceitual
deve sempre preceder a exposição das fontes primárias.
Dick Hebdige, autor do livro Subculture, The Meaning of Style, dá-nos um exemplo de
como fontes primárias de pesquisa podem assumir contextos e representações
impressionantes, dependendo do "olhar do observador" quando faz alusão a um simples
pote de vaselina, produto comum nas prateleiras das farmácias e nos armários de
banheiro.Entretanto, no início do século XX, quando foi encontrado no quarto do autor Jean
Genet, um simples pote de vaselina significou a condenação de um homem por pederastia
e a execração desse indivíduo da sociedade da época.
Como saber se as fontes investigadas possuem relevância científica para
pesquisa?
Esta uma questão sempre em pauta nos trabalhos de investigação. Certos
documentos, fontes primárias de pesquisa, como artigos de revista não-científicas, citações
de profissionais do mundo da moda, entrevistas realizadas pelo pesquisador com emissão
de opiniões pessoais por parte dos entrevistados, são muitas vezes tomadas como "fatos",
isto é, são consideradas "verdades" a serem assumidas pelo pesquisador, quando de fato
devem ser consideradas apenas como dados a serem analisados em relação ao contexto
investigado.
Por exemplo: Não basta uma personalidade da moda, como Constança Pascolato,
dizer que a moda brasileira possui identidade para o pesquisador assumir isso como fato.
A informação deve ser exposta no corpo do trabalho de pesquisa, mas analisada com
distanciamento, afinal é a informação de um profissional de moda, mas não possui validade
científica, já que, para o mundo acadêmico, seu valor documental é de apenas um dado de
investigação, mas não um fato comprovado.
Se após a análise por parte do pesquisador, este comprovar, pela análise de várias
outras fontes, que a idéia defendida pela profissional de moda possui relevância científica
(pode ser uma foto e não uma opinião), esta fonte de pesquisa primária passa a assumir
um outro valor documental.
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Após a investigação das fontes secundárias (nosso alicerce conceitual), o trabalho
com as fontes primárias deve sempre obedecer a um processo de catalogação (datação
referências), em que fatos e documentos são transformados em dados de pesquisa a
serem expostos conceitualmente humana e romantismo em tempos de guerra, onde o
valor das instituições sociais (como o casamento) sobrevivem ao suplício do conflito
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A internet como fonte de pesquisa
A internet pode ser usada como uma boa fonte de pesquisa quando seu valor não é
superestimado pelo aluno e seu conteúdo passa por um "filtro analítico", isto é, qualquer
idéia, fato ou argumento pode ser lançado na net, desde o trabalho de história de um aluno
do ginásio até opiniões de pessoas entusiastas da moda, portanto, para que uma informação
possa ser utilizada como fonte de pesquisa, seu conteúdo deve ser avaliado. Quem (pessoa,
site ou periódico online) está emitindo a informação, se existe comprovação do conteúdo
da informação, qual a representatividade do veículo informante para o universo pesquisado
ou para o campo científico, se a informação está atualizada, se é possível comprovar o
emissor da informação.
Uma boa opção é buscar fontes que tenham legitimidade na exposição de fatos e
dados, como:
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Na Inglaterra, diferentemente do que ocorre no Brasil, os jornalistas de moda são
pesquisadores (historiadores, sociólogos, intelectuais de peso) e as informações de certos
jornais estão disponíveis em arquivo para que todo e qualquer internauta (diferentemente
do Brasil, onde apenas assinantes de um jornal podem ter acesso aos arquivos deste)
possa pesquisar artigos e fatos ocorridos. Um deles é o jornal londrino The Observer, cujas
críticas a respeito do universo da moda têm tanto valor quanto certos artigos acadêmicos,
com abordagens conceituais interessantes que passam a agregar valor documental à
fonte de pesquisa.
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Você sabia?
Na edição de 14 de outubro de 2001 do jornal inglês The Observer, a seção Review mostrava
duas fotos de meia página dos designers Giorgio Armani e Jean Paul Gaultier, com os dizeres:
"Is the future of art in their hands?"
A manchete do jornalista Deyan Sudjic, certamente reflexo do suntes que tenham
legitimidade na exposição de fatos e dados, como: Na Inglaterra, diferentemente do que
ocorre no Brasil, os jornalistas de moda são pesquicesso alcançado pela exibição Radical
Fashion no V&A Museum, argumentava que a moda sempre emprestou elementos da arte
para sua inspiração, todavia, agora são os designers de moda que dominam as galerias e
museus. Segundo Sudjic, a moda é parasitária, depende de outras formas de arte para seu
imaginário e identidade e tem sido tão bem sucedida com isso que começou a substituí-la.
De Claire Wilcox, curadora do evento Radical
Fashion a Yohji Yamamoto, um dos expositores,
envolvidos com moda declaram que esta não é e não
tenta ser arte.De fato, nem precisa, são os críticos de
arte que trouxeram a moda para os museus. Os
arquitetos e designers da Royal School of Art, em
Londres, sentem-se indignados pelo termo "fashion
designer" ser atribuído aos couturiers, dado que um
designer de "roupa" não pode ser considerado um
designer de fato. Irônico é o número de arquitetos e
designers que procuram o MA in Fashion Design na
Central Saint Martin's School of Fashion, buscando a
moda como novo meio de experimentação em
arquitetura, ou mesmo as relações entre a produção de
roupa e design de interiores desenvolvidas por Hussein
Chalayan, em que uma mesa pode tornar-se uma saia
e os revestimento de sofás tornam-se vestidos.
É difícil dizer que a moda tomará espaço entre nichos deixados pela arte, ou que o
próximo Niemayer fará corselletes de haute couture, mesmo porque, converter moda em
arte ou arquitetura não é o objetivo dos designers, mas o ponto que marca a grande diferença
da moda dos últimos vinte anos é o que lhe permite "atravessar" instâncias como a arte, o
mercado e a arquitetura: as roupas passaram a falar.
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A moda pode, como ressalta Sudjic, em sua matéria para The Observer, unir uma
estrela de futebol com um rapper, um artista de teatro, um pintor e um grande diretor de
cinema na mesma fileira de assentos de um desfile de moda, além de atrair a atenção de
banqueiros, industriais e artistas.O jornalista conclui: a moda tornou-se ao mesmo tempo
indústria dominante e força cultural dominante: faz força capital como nenhuma outra indústria
e produz cultura como só as grandes vanguardas podem produzir.
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É a partir da evolução do evento moda, como forma de comunicação, que ele tornouse fenômeno contemporâneo, pós-industrial, que
passou a agregar valores e significados. Alexander
McQueen caracteriza suas criações como "formas
de dizer seu pensamento sobre a realidade",
Vivienne Westwood recria, em seus vestidos de
tafetá, suas abstrações referentes à Revolução
Francesa, ou releituras sobre a história do Império
Britânico, Dolce & Gabbana falam sobre a
feminilidade mediterrânea com cores quentes e
decotes ousados.
Iniciando a investigação das fontes de pesquisa - Anhembi Morumbi
Todos esses designers de moda têm suas
coleções nas manchetes de jornal entre: as alusões
de filósofos, as interpretações de literatos, as
prospecções de economistas, as manchetes de
esporte, a seção de fofocas, o suplemento feminino
e os anúncios de página inteira. Circulando pela
alta cultura, pelo grande mercado, pela vida de
celebridades, pelo universo feminino (e hoje
também o masculino) e pela cultura marginal, a
entidade moda "encarna" aspectos dos mais
importantes e antagônicos setores da vida urbana
moderna.
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Dicas de pesquisa
Vemos hoje, que muitos pesquisadores equivocam-se, considerando que uma investigação
quantitativa é a forma mais segura, 'exata', de se desenvolver a pesquisa. De fato, os dados
quantitativos não falam por si, se pegarmos as tabelas de números de importação e exportação
de têxteis da ABIT, muitas vezes o decréscimo de número observado de um ano para o outro
não significa necessariamente uma 'queda', talvez o esforço tenha se deslocado de uma
atividade para outra (como, talvez, algumas empresas estivessem empenhando suas atividades
na fabricação de tecidos para um novo nicho de mercado interno), portanto uma queda nos
gráficos pode significar uma elevação, se o pesquisador analisar os dados quantitativos pela
ótica de uma investigação qualitativa.
O bom pesquisador é aquele que realiza sua pesquisa de uma forma 'holística', com base em
uma pesquisa transdisciplinar, lançando mão de várias fontes de aquisição de conhecimento e
estando aberto a novas formas de análise e até mesmo, de fontes inusitadas de informação.
A informação não é prontamente um dado concreto, ela deve ser contextualizada - no caso,
como no relativismo cultural e interpretativismo semiológico - de acordo com a situação sóciohistórica, econômica, política e cultural do momento e do espaço onde ela está sendo desenvolvida.
Como no caso citado, da análise de uma tabela estatística da ABIT, quanto mais informação
especializada o pesquisador tiver para interpretar os dados, maior a possibilidade de resolução
de seu problema de pesquisa e maior a certeza da prospecção de tendências.
BRANDINI, Valéria. Vestindo a Rua: Moda, Cultura & Metrópole. Tese de
doutorado defendida na ECA - USP. Mimeo. São Paulo, 2003.
Iniciando a investigação das fontes de pesquisa - Anhembi Morumbi
HEBDIGE, Dick. Subculture; the meaning of style. London: Methuen & Co.,
1979.
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