UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE LINGUAGENS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM RUTE ALMEIDA E SILVA GESTAR II: DESAFIO DAS PRÁTICAS DE ESCRITA EM MATERIAL DE FORMAÇÃO CONTINUADA DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA CUIABÁ – MT 2011 RUTE ALMEIDA E SILVA GESTAR II: DESAFIO DAS PRÁTICAS DE ESCRITA EM MATERIAL DE FORMAÇÃO CONTINUADA DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Estudos de Linguagem, sob a orientação da Profª Drª Maria Rosa Petroni. CUIABÁ – MT Dedico este trabalho ao meu esposo Cristiano por ter sonhado junto comigo. Com certeza esta dissertação não existiria sem o seu amor e sua compreensão. AGRADEÇO À Deus por mais esta conquista. À professora Dra Maria Rosa Petroni, minha orientadora, por acreditar em meu potencial. Agradeço pela sua sensibilidade, paciência e pelas preciosas contribuições durante todo o trabalho. Suas orientações, sem dúvida, proporcionaram-me um novo olhar não só para a minha pesquisa como também para a vida. À Banca de Qualificação, aos professores doutores Wagner Rodrigues Silva e Simone de Jesus Padilha pelo olhar exotópico e pelas relevantes sugestões na presente dissertação. Aos professores do Programa de Mestrado em Estudos de Linguagem da UFMT, pela oportunidade de avançar no meu percurso teórico — Maria Rosa, Simone, Sérgio Flores, Maria Inês, Cláudia, Elias, Solange, Danie e Ana Antonia. Agradeço de modo especial à Professora Dra. Maria de Jesus das Dores Alves Carvalho Patatas por ter enxugado minhas lágrimas e me incentivado no primeiro momento deste projeto. Muito obrigada por ter me mostrado o caminho. À Lezinete, minha grande inspiração, por seu apoio permanente e incondicional nesta jornada. Obrigada por tudo! Aos amigos da Pós-Graduação: Shirlei, Soeli, Sônia Renata, Daniela, Jucelina, Jefferson, Ely, Elizangela, Eliana, Andréia, Gleice, Leila, Viviane, Iara, Sandra, Sebastiana, Anderson e Margareth, pelo diálogo sempre enriquecedor e pela amizade construída e reforçada neste processo. Aos funcionários do MeEL, Douglas, Rose e Andréia pelo carinho e atenção. Agradeço ao Cristiano pelo estímulo e trocas constantes. Seu excedente de visão tem me completado a cada dia. Ao Edilson, meu irmão, amigo, pai, camarada, pela alegria, admiração e pela força transmitida em todos os momentos. Mano, você fez e faz toda a diferença na minha vida! Serei eternamente grata. À Lirian, minha cunhada querida, pela torcida e pelo incentivo de sempre. Valeu! Agradeço a todos meus amigos — Marciléia, Julianne, Ardalla, Jô, Josane, Raimundo, Lidiane, entre outros — por fazerem parte da minha vida e de alguma forma terem contribuído com a realização deste trabalho. [...] em todas as coisas, ouço as vozes e sua relação dialógica Bakhtin RESUMO O presente estudo, inserido na área de Linguística Aplicada, discute assuntos relacionados à formação continuada de professores e ao material didático-pedagógico utilizado nesse processo, mais especificamente, no curso de formação do GESTAR II de Língua Portuguesa, projeto governamental, desenvolvido pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso. O GESTAR II é um Programa destinado aos docentes atuantes no Ensino Fundamental, mantendo seu foco na melhoria da aprendizagem dos alunos e no desenvolvimento de competências dos professores. Para a realização desta pesquisa, selecionamos as propostas de produção escrita da Unidade 22, no interior do Caderno TP6, com o objetivo de verificar se essas propostas estão fundamentadas no atual paradigma de ensino e se possibilitam aos professores o real desenvolvimento das capacidades de linguagem necessárias ao processo de produção de textos. Constitui-se, portanto, em um trabalho documental, de natureza qualitativa, em que assumimos o aporte teórico do Círculo de Bakhtin, da sociohistórica de Vygotsky e das capacidades de linguagem da escola de Genebra para análise e discussão dos dados. Os resultados obtidos evidenciaram que as orientações teórico-metodológicas do TP6, mesmo adotando as concepções de linguagem e de escrita veiculadas nos PCNLP (BRASIL, 1998), não dão suporte para o professor no ensino de escrita de textos. Além do mais, mostraram-se insuficientes para promover um ensino-aprendizagem baseado nos gêneros, adotados como objeto de ensino por esses documentos oficiais, bem como para desenvolver de fato as capacidades de linguagem implicadas no processo de escrita do professor-cursista. Esses resultados nos levam a refletir acerca da necessidade de reformulação, através de políticas públicas concretas, dos materiais didático-pedagógicos utilizados nesses cursos, com o intuito de contemplar um trabalho orgânico em relação à teoria enunciativo-discursiva, permitindo, em especial, o desenvolvimento das capacidades discursivas e contribuindo para a formação de um professor produtor/responsivo de textos vários. Palavras-chave: Formação docente, GESTAR II, ensino-aprendizagem da escrita. ABSTRACT This study, within the area of Applied Linguistics, discusses issues related to the teachers´ continuing education and teaching materials used in this process, more specifically, the training course GESTAR II Portuguese government project, developed by the Education Department of Mato Grosso State. GESTAR II is a Program designed for teachers working in the Elementary School, which maintains its focus on improving the student´s learning and the teachers´ skill development. To develop this research, we selected the proposals of the written production of Unit 22 within the notebook TP6 in order to verify whether these proposals are based on the current teaching paradigm and enables teachers to the actual development of language skills needed in the texts´ production. It is, therefore, a documentary work, based on a qualitative method that we assume the theoretical basis of the Bakhtin Circle, Vygotsky's socio historical and language abilities of Geneva school to review and discuss the data. The results showed that the theoretical and methodological approaches to TP6, even adopting the concepts of language and writing released in the PCNLP (BRAZIL, 1998) do not support the teacher in the teaching of written texts. Besides, were not sufficient to promote a teachinglearning based on gender, adopted as a teaching object, by these official documents, as well as to actually develop the language skills involved in the teacher-students written process. These results lead us to reflect on the need for reform, through concrete public policy, didactic and pedagogical materials for such courses, in order to include an organic work in relation to the discursive theory of enunciation, allowing, in particular the development discursive capacities and contributing to the formation of a teacher producer responsive to various texts. Keywords: Teacher education, GESTAR II, teaching and learning of writing. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AAA – Atividades de Apoio à Aprendizagem EAD – Educação à distância ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação FUNDESCOLA – Fundo de Fortalecimento da Escola GESTAR II – Gestão da Aprendizagem Escolar – Módulo II LD – Livro didático LDB – Lei de Diretrizes e Bases LP – Língua Portuguesa MEC – Ministério da Educação PCNLP – Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa PNLD – Programa Nacional do Livro Didático PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica SEDUC – Secretaria de Estado de Educação TP – Caderno de Teoria e Prática UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso ZPD – Zona Proximal de Desenvolvimento SUMÁRIO INTRODUÇÃO......................................................................................................... 11 CAPÍTULO I – FORMAÇÃO DOCENTE, PCNLP, MATERIAL DIDÁTICO E GESTAR II............................................................................................................. 15 1.1 O professor de Língua Portuguesa e os PCNLP.............................................. 16 1.2 Em foco: a formação continuada do professor de Língua Portuguesa............ 18 1.3 PCNLP: um novo direcionamento para o ensino........................................... 28 1.3.1 A prática de produção textual nos PCNLP...................................................... 29 1.4 Materiais didático-pedagógicos no ensino de Língua Portuguesa................... 37 1.5 GESTAR II: Programa de formação continuada............................................. 40 CAPÍTULO II – OS NOVOS PARADIGMAS E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA......................................................................................................... 42 2.1 Bakhtin e os gêneros do discurso..................................................................... 43 2.2 Características do enunciado concreto e compreensão ativa 53 2.3 Gêneros discursivos e gêneros textuais........................................................... 55 2.4 Letramento no ensino de Língua Portuguesa.................................................. 60 2.5 Capacidades de linguagem.............................................................................. 66 2.6 Algumas contribuições da teoria sociohistórica de Vygotsky para o ensino de Língua Portuguesa................................................................................................. 70 CAPÍTULO III – METODOLOGIA DA PESQUISA........................................... 76 3.1 Objetivos e perguntas de pesquisa................................................................... 76 3.2 A perspectiva enunciativo-discursiva de Bakhtin como fundamento teórico para a investigação científica...................................................................................... 77 3.3 Metodologia de geração de dados................................................................... 79 3.4 Critérios para a seleção do Caderno TP6 e da modalidade escrita.................. 82 3.5 O Guia Geral.................................................................................................... 84 3.5.1 Unidade 1 – O GESTAR II: Programa de Formação Continuada em Serviço......................................................................................................................... 86 3.5.2 Unidade 2 – A Proposta Pedagógica do GESTAR II...................................... 87 3.5.3 Unidade 3 – Implementação do GESTAR II................................................... 95 3.5.4 Unidade 4 – O GESTAR II, as expectativas de mudança e a especificidade do Programa em cada escola....................................................................................... 99 3.5.5 Unidade 5 – Procedimentos para utilização dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem do aluno................................................................................. 99 3.6 Categorias de análise....................................................................................... 101 CAPÍTULO IV – ANÁLISE DE DADOS............................................................... 104 4.1 Unidade 22 – Produção textual: planejamento e escrita.................................. 104 4.2 Seção I – O planejamento................................................................................ 112 4.2.1 Seção II – O planejamento: estratégias........................................................... 129 4.2.2 Seção III – A escrita........................................................................................ 135 4.3 Atividades direcionadas ao aluno.................................................................... 139 4.3.1 Seção I – O planejamento................................................................................ 140 4.3.2 Seção II – O planejamento: estratégias........................................................... 147 4.3.3 Seção III – A escrita........................................................................................ 161 4.4 Capacidades indicadas nas propostas de produção textual.............................. 170 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................... 174 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................... 179 11 INTRODUÇÃO Nos últimos anos, temos vivenciado grandes transformações políticas, econômicas, culturais e sociais. O século XX, com a evolução da mídia e das tecnologias da informação e da comunicação, por exemplo, trouxe novos interesses e necessidades para a sociedade. Os avanços nessas áreas do conhecimento, em boa medida, estão vinculados ao armazenamento e à transmissão de informação, o que requer do cidadão novas capacidades, no sentido de transformá-la em conhecimento. Sua participação efetiva, nesse processo de mudanças, é dependente, sobretudo, do domínio da escrita e este, por sua vez, de responsabilidade da escola. Entretanto esse domínio tem se mostrado insuficiente para os novos tempos. Considerando a escola como umas das responsáveis pelo ensino-aprendizagem de uma prática de produção de textos diversos, alguns órgãos competentes têm se mobilizado na busca de alternativas concretas para tal ensino, revendo, especialmente, métodos pedagógicos e conteúdos, definindo novas propostas curriculares para a educação escolar. Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, doravante PCNLP, (BRASIL, 1998) constituem-se em um bom exemplo do que dizemos, pois é uma proposta governamental de grande abrangência que visa, dentre outros fatores, melhorar a qualidade do ensino de Língua Portuguesa (doravante LP). Nos documentos oficiais, é admitido um ensinoaprendizagem mais significativo e contextualizado, cujos pressupostos centram-se no desenvolvimento de competências/capacidades linguístico-discursivas do aluno. Além disso, visam à formação de produtores de textos competentes, capazes de elaborar escritas coerentes, coesas, eficazes e adequadas a cada situação sociocomunicativa, pois esta é uma das condições que pode tornar o aluno cidadão politizado, consciente e ativo na sua comunidade. Nessas diretrizes, a escrita é concebida como prática discursiva, uma vez que não é uma atividade em si, mecânica, sem objetivos e propósitos, mas um ato interlocutivo, vinculado a seus usos e a suas funções sociais, um processo dialógico entre homem e mundo. A escola, assim, torna-se responsável por ensinar ao aluno tal prática, garantindo-lhe o acesso aos conhecimentos linguístico-discursivos que lhe permitam exercer de fato sua cidadania, já que é por meio da escrita que o sujeito se comunica, tem acesso à informação, defende seus direitos, seu ponto de vista, construindo, assim, saberes vários. Em vista dessa responsabilidade, alguns órgãos oficiais vêm demonstrando também preocupação com a formação docente. Por isso, têm buscado desenvolver alternativas práticas, teóricas e metodológicas para a melhor atuação desse profissional. O governo 12 Federal, juntamente com as Secretarias de Educação, tem proposto ao professor cursos e programas de atualização e capacitação, visando à (re)construção de conhecimentos diversos, coerentes com os parâmetros estabelecidos pelos referenciais de ensino. Dentre tais programas, destaca-se o Programa Gestão da Aprendizagem Escolar (doravante GESTAR II), cujo foco é a melhoria do aprendizado dos alunos e o desenvolvimento de competências dos educadores. O GESTAR II é um programa de formação continuada em serviço, destinado a professores de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental (5ª a 8ª séries), destacando-se tanto pela sua abrangência e aceitação quanto pelo seu caráter inovador, a saber, a modalidade semipresencial, o formador e os Cadernos de Teoria e Prática (TP). Considerando seu propósito, é pertinente verificarmos se o modelo GESTAR II apresenta orientações que realmente habilitam o professor para a prática efetiva do ensinoaprendizagem e se sua proposta vai ao encontro da atual tendência de ensino, possibilitando ao professor o desenvolvimento das capacidades de linguagem implicadas no processo de produção de textos. Isso se faz necessário, pois se o domínio dessas práticas não for efetivado pelos professores nos cursos de formação continuada, infelizmente, os alunos podem receber direcionamentos insuficientes para compreender a linguagem como interação humana e social na produção de conhecimentos. Nosso olhar está voltado para esse contexto de busca, de esforços realizados, especialmente, pelas Secretarias de Educação, no que se refere à formação de professor em processo contínuo, no sentido de oferecer a esse profissional o acesso aos novos paradigmas de ensino. Enquanto professora de Língua Portuguesa, somos motivadas a buscar, através da pesquisa, respostas para nossas ansiedades e a adequação necessária às práticas pedagógicas nesse momento de mudanças no ensino. Para nós, é importante a realização de trabalhos de análise de materiais didáticopedagógicos de formação, ainda mais se levarmos em conta não só a necessidade da população atual, como também os objetivos de ensino de LP, no que se refere à formação de um aluno crítico, capaz de viver ativamente neste novo tempo. Se o ensino-aprendizagem, hoje, é caracterizado por uma configuração inovadora, é pertinente pensar que o material didático, nos cursos, também acompanhe essa lógica, contribuindo de fato para a formação de professores. Acreditamos que o presente estudo possui relevância social para o meio educacional, no que diz respeito, principalmente, à contribuição com as discussões relacionadas à formação docente e materiais didático-pedagógicos utilizados na educação continuada de professores, de modo a provocar reflexões por parte dos órgãos responsáveis, a 13 saber, o Ministério da Educação (MEC) quanto às políticas adotadas na elaboração desses materiais. A pesquisa em questão tem como objeto de análise parte do material de formação continuada do Programa GESTAR II, a saber, o Caderno TP6 1 e o Guia Geral2. Assim, o objetivo geral desta dissertação é analisar as orientações teóricas, bem como as questões de produção escrita da Unidade 22, no interior do TP6, a fim de verificar se essas propostas possibilitam aos professores o real desenvolvimento das capacidades de linguagem necessárias no processo de produção de textos. Para darmos conta desse objetivo, lançamos mãos das seguintes perguntas de pesquisa: 1) Quais capacidades de linguagem são mobilizadas no tratamento didático dispensado às atividades de produção escrita para aluno e professor, no material selecionado? 2) As capacidades de linguagem identificadas em (1) atendem aos objetivos propostos no GESTAR II, mais precisamente no TP6, para a formação continuada do professor, considerando o atual paradigma de ensino de Língua Portuguesa? Com base nas questões de nossa pesquisa, elencamos os objetivos específicos: 1) Analisar como dialogam as orientações teóricas do Guia Geral e do TP6 na proposta de produção escrita para professores e alunos. 2) Comparar as atividades de produção escrita para os alunos no TP6 aos pressupostos teórico-metodológicos apresentados ao professor no TP6. 3) Identificar as capacidades de linguagem mobilizadas nas propostas de ensinoaprendizagem da escrita. Esta pesquisa está estruturada em quatro partes. 1 TP6 (BRASIL, 2008b) é um dos Cadernos de Teoria e Prática que compõem o material do GESTAR II. Sob o tema Leitura e processos de escrita II, esse caderno é disponibilizado ao professor-cursista do Programa no momento inicial do curso. 2 O Guia Geral (BRASIL, 2008a) é um dos cadernos que compõem o GESTAR II. Esse material oferece aos professores-cursista informações relativas à metodologia de trabalho, pressupostos teóricos, organização do curso para que todas suas propostas e objetivos sejam compreendidos pelos professores. 14 No capítulo I, discutimos as questões relacionadas à formação continuada do professor de LP, defendendo uma postura reflexiva e crítica nesse processo, com base em Nóvoa (1992, 2009), Schön (1992), Kleiman (2001), Magalhães (2004), Ferreira (2003), Brito (2006), entre outros. Depois, abordamos os PCNLP (BRASIL, 1998), tratando de alguns dos seus pressupostos teóricos, tais como a concepção de língua(gem) e o ensino-aprendizagem de escrita sob a abordagem enunciativo-discursiva, embasados, sobretudo, nesses documentos oficiais, em Dolz e Schneuwly (2004), Reinaldo (2005), Barros-Mendes (2005), entre outros. Ainda, neste capítulo, tratamos das mudanças ocorridas no ensino-aprendizagem de LP, assim como das adequações dos materiais didático-pedagógicos às novas proposições curriculares, dentro desse contexto. Para finalizar, apresentamos sucintamente, o Programa GESTAR II de Língua Portuguesa. No capítulo II, abordamos algumas das questões teóricas mais relevantes para nosso trabalho, iniciando por uma explanação acerca da teoria dos gêneros, a partir de Bakhtin e seu Círculo (2004[1929], 2003[1952-1953]), Fiorin (2006), Brait (2000, 2008), Sobral (2008, 2009), entre outros. Discorremos também acerca do conceito de letramento, baseando-nos em Soares (1998, 2000), Kleiman (1995, 1998, 2005), Barbosa (2001), Paes de Barros (2005), Rojo (2009b), entre outros; das capacidades de linguagem, a partir dos estudiosos da Universidade de Genebra, Dolz e Schneuwly (2004), e Barros-Mendes (2005). Na sequência, tratamos das contribuições da teoria sóciointeracionista, baseadas em Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]), Oliveira (1997), Paes de Barros (2005), Freitas (2006) e Rego (2008). No capítulo III, exibimos a metodologia utilizada para a realização da pesquisa e no capítulo IV apresentamos a análise dos dados da pesquisa, com base no referencial teórico abordado nos capítulos I, II e III. Nas Considerações Finais, realizamos uma síntese dos resultados obtidos, com intuito de responder às questões de pesquisa, apresentando algumas reflexões sobre os resultados. 15 CAPÍTULO I FORMAÇÃO DOCENTE, PCNLP, MATERIAL DIDÁTICO E GESTAR II Desde o final da década de 1990, a implantação dos PCNLP3 (BRASIL, 1998) tem causado variados reflexos na educação brasileira, sobretudo, no que se refere ao novo direcionamento dado ao ensino de Língua Portuguesa4. Essa diretriz curricular, que traz em seu bojo concepções e perspectivas teórico-metodológicas classificadas como inovadoras, representa, atualmente, o ideal de ensino no país, já que apontam para mudanças efetivas no sistema educacional. Todavia, acreditamos que, para sua efetivação no ensino-aprendizagem de língua materna, é preciso uma formação — inicial e continuada — eficiente e de qualidade, que contribua tanto para a reflexão sobre as propostas desse material quanto para a discussão dos problemas e das soluções, no que diz respeito à prática pedagógica do professor. Como pondera o próprio documento, a formação dos professores se coloca, portanto, como necessária para que a efetiva transformação do ensino se realize. Isso implica revisão e atualização dos currículos oferecidos na formação inicial do professor e a implementação de programas de formação continuada que cumpram não apenas a função de suprir as deficiências da formação inicial, mas que se constituam em espaços privilegiados de investigação didática, orientada para a produção de novos materiais, para a análise e reflexão sobre a prática docente, para a transposição didática dos resultados de pesquisas realizadas na linguística e na educação em geral (BRASIL, 1998, p. 67). Neste capítulo, apresentamos o que se constitui em um elemento fundamental na imensa discussão acerca do ensino de LP, prosseguindo em direção ao debate teórico sobre a formação (continuada) do professor, ligado aos atuais paradigmas de ensino, tais como o conceito de letramento, as concepções de língua(guem) e de escrita, veiculadas nos PCNLP (BRASIL, 1998). Considerando que a formação docente é tratada por diferentes tendências, no tocante à sua execução, pretendemos retomá-la, sem maiores aprofundamentos, sob o enfoque crítico-reflexivo. 3 O leitor deverá levar em conta que estaremos, salvo citação explícita, sempre nos referindo aos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa, de 3º e 4º Ciclos, do Ensino Fundamental (1998), haja vista que, além desse, outros documentos prefigurativos existem, tais como os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (1997); Parâmetros Curriculares do Ensino Médio de Língua Portuguesa (1999), PCN+ (2000), Orientações Curriculares do Ensino Médio (2006). 4 Neste trabalho, ao nos referirmos ao ensino de Língua Portuguesa, utilizaremos língua, língua materna, língua portuguesa , ou, simplesmente, LP. 16 Na seção seguinte, são abordados aspectos dos PCNLP (BRASIL, 1998), relacionados ao professor e sua prática. 1.1 O professor de Língua Portuguesa e os PCNLP Os PCNLP (BRASIL, 1998) constituem-se em uma proposta do MEC que tem como finalidade principal melhorar a qualidade da educação brasileira, garantindo às crianças e aos jovens o acesso aos conhecimentos necessários para sua integração na sociedade moderna como cidadãos ativos e responsáveis. A elaboração desse documento é resultado de um longo trabalho que contou com a participação de muitos educadores brasileiros, estudiosos e especialistas, e foi produzido no contexto das discussões pedagógicas daquele momento, passando por várias críticas, sugestões e revisões até chegar à versão final. Os pressupostos de tais diretrizes centram-se no desenvolvimento de competências/capacidades linguísticodiscursivas do aluno, no ensino contextualizado e significativo e, especialmente, na formação de um indivíduo crítico, consciente e participativo, capaz de intervir seguramente no meio social do qual participa. Esse documento, destinado a um público diversificado de professores, das diferentes regiões do país, se apresenta não só como um referencial, mas também como um conjunto de reflexões que objetivam alimentar a prática pedagógica do educador. Além disso, traz visões teórico-metodológicas recentes e diversas, visando ao ensino a partir do uso da linguagem contextualizada, privilegiando, de tal modo, o trabalho com os gêneros do discurso. Isso equivale a dizer que, na sala de aula, o ensino-aprendizagem da escrita, especificamente, deve partir do uso possível aos alunos, permitindo-lhes conquistar novas competências/capacidades. Aliás, bem sabemos que o trabalho com os gêneros veio à tona5, ou ganhou maior visibilidade, a partir da publicação desse material, pois os pesquisadores tomam-nos como objeto de estudo. A opção por esse ensino mais significativo, ocorrida no final do século XX, é resultado de um forte apelo, primeiro da Academia e depois de algumas ações governamentais, em prol da leitura e, necessariamente, da escrita de textos que fazem parte do universo extraescolar dos alunos, a fim de torná-los leitores e escritores proficientes e críticos, conforme nos relembra Paes de Barros (2008). Segundo a autora, é justamente nesse contexto 5 É válido lembrar que o debate acerca da noção de gêneros já existia no Brasil antes mesmo da elaboração dos PCNLP (BRASIL, 1998). Trata-se de uma discussão antiga travada, principalmente, no meio acadêmico, no campo da Linguística Aplicada (GOMES-SANTOS, 2004). 17 que gêneros pertencentes a diferentes esferas sociais (publicitária, artística, religiosa, entre outras) ganham espaço no meio escolar, como instrumento de ensino-aprendizagem dessas práticas. Por isso, é impossível não admitir que tal parâmetro representa um avanço nas políticas educacionais brasileiras, principalmente, em relação ao ensino-aprendizagem de escrita sob um enfoque enunciativo-discursivo. Mas também não se deve esquecer das variadas críticas que ele tem recebido, dentre as quais se encontra aquela acerca da sua autoria difusa e das concepções que são, por vezes, abordadas superficialmente, quando não, contraditoriamente. Na verdade, na opinião de Silva (2001, p. 102), essa diretriz oficial possui ―uma falha textual, pois, ao tentar simplificar os conceitos, o documento transforma-se num aglomerado de noções mal formuladas e incompreensíveis‖, o que só contribui para a perda da essência da proposta, ou seja, ela acaba se transformando em uma mera ―lista‖ de itens indicados para a prática pedagógica em sala. Considerando essas questões, reiteramos que as duras críticas a tal documento não podem ser desconsideradas, mas, antes de tudo, seu valor social deve ser reconhecido e enfatizado, como bem destacam vários autores (ROJO, 2000; BARBOSA, 2001; SILVA, ASSIS, MATENCIO, 2001; PETRONI, 2008). De qualquer modo, os Parâmetros têm sua atuação ―nas políticas linguísticas contra o iletrismo e em favor da cidadania crítica e consciente‖ (ROJO, 2000, p.27). Além disso, traz contribuições valiosas para o campo do conhecimento didático-pedagógico da atuação docente em sala de aula, bem como para o processo interlocutivo entre professor e aluno, evidenciando-se, sem dúvida, como subsídios e orientações que auxiliam o educador em seu cotidiano escolar. Em virtude disso, compreendemos que a efetivação, assim como a adoção da proposta veiculada nesse documento oficial, constitui-se em um desafio para o docente, sobretudo para aquele formado há mais tempo6, que não teve contato com os conceitos trazidos por tal diretriz. Aliás, para que um ensino por meio dos gêneros, por exemplo, conforme apontam os PCNLP (BRASIL, 1998), se torne exequível, é preciso um real domínio de teorias e métodos, algo que a maioria dos professores ainda não alcançou. Muitos (até) têm tentado realizar esse trabalho com gêneros do discurso, mas, na prática, ainda realizam mesmo o trabalho com tipologias textuais (BARBOSA, 2000). 6 As matrizes curriculares de muitos cursos de Letras, no Brasil, hoje, já incluíram esses conteúdos (gêneros) em suas grades de ensino. 18 Para um ensino de língua materna mais concreto, que forme sujeitos críticos e conscientes do seu papel social, é preciso que se oportunize ao educador não leituras simplificadas (às vezes, rasas), mas aprofundamentos teóricos, metodológicos, conhecimento amplo a respeito de teorias várias que embasam as orientações oficiais, com a devida atenção que um estudo como esse merece. Nas palavras de Pompílio, Mori-de-Angelis, Oliveira, Silva, Barbosa e Nunes (2000), um aprofundamento das teorias que compõem os PCNLP (BRASIL, 1998) demanda práticas mediadoras que permitam uma discussão, de fato, sobre o que neles se propõe. Isso compreende, sem dúvida, um trabalho de formação docente continuada, além da elaboração de textos de apoio, nos quais se esclareçam algumas de suas ideias, e da confecção de materiais didáticos que respondam às questões propostas por essa diretriz curricular. Só assim haverá uma efetiva transformação do espaço escolar, pois concordamos com Moita Lopes (2003, p. 31): ―não se pode transformar o que não se entende‖. Nessa mesma direção, fazendo coro às vozes, compartilhamos com a opinião de Barbosa (2000), que reconhece o valor de tal documento para a educação e destaca: ―para que seus efeitos possam ser potencializados a médio e a longo prazos, fazem-se necessárias outras modalidades de intervenção‖ (BARBOSA, 2000, p.149). Assim, afirmamos que é preciso uma real formação continuada de professores e demais educadores; sem isso, não haverá mudanças concretas na direção pretendida quanto ao ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa. Na seção seguinte, então, tecemos algumas considerações sobre a formação do professor. 1.2 Em foco: a formação continuada do professor de Língua Portuguesa Diante das questões expostas, envolvendo os PCNLP (BRASIL, 1998), compreendemos que, apesar das preocupações dos órgãos responsáveis em solucionar os problemas do ensino de LP, para uma transformação efetiva não basta, somente, mudar teorias e métodos ou, muito menos, definir propostas curriculares; é preciso investir maciçamente na formação e na qualificação (eficiente) do professor. A formação desse profissional é um assunto também frequente na pauta dos debates educacionais, não só na Academia — em teses, dissertações, artigos — como também nos diversos outros contextos sociopolíticos — escola, imprensa, instâncias governamentais etc. Em meio a essa discussão sobre a formação, como não poderia deixar de ser, encontra-se o professor, tido, muitas vezes, como mal preparado para a atuação docente. 19 Vivemos atualmente em uma nova era, na sociedade do conhecimento, da informação e do avanço tecnológico, em que se exige cada vez mais o domínio de variadas capacidades/competências de qualquer profissional. Nesse contexto, as severas críticas em relação ao educador têm se tornado constantes, sobretudo, no que diz respeito ao fato de ele não conseguir promover o desenvolvimento em seus aprendizes, através da leitura e da escrita, de capacidades reais que lhes permitam participar efetivamente da vida social. Isso parece estar comprovado nos resultados insatisfatórios de exames7 estudantis, que pretendem medir as capacidades e competências leitoras e escriturais dos alunos. Dizemos isso, pois, para muitos, os resultados desses testes, nos diversos níveis, têm servido (somente) para ―trazer a público a situação do ensino e da aprendizagem nas escolas e a precariedade na formação dos professores‖ (ANDRÉ, 2009, p. 247). Esses resultados não só refletem a qualidade da educação, como também direcionam a atenção para o educador e para sua formação — inicial e/ou continuada. O que se tem observado, portanto, é que, na maioria das vezes, a culpa do insucesso nas avaliações, assim como no ensino de língua, recai, especialmente, sobre o professor e sobre seu processo formativo, considerados insuficientes por não atenderem às necessidades da sociedade atual. Enfim, parece ser consenso, para grande parte da população, que a formação profissional de que dispõe o professor brasileiro não contribui eficientemente para que os alunos tenham sucesso na aprendizagem escolar e sejam transformados em cidadãos conscientes e reflexivos, capazes de viverem dignamente nesse novo tempo. Em relação à formação docente, Brito (2006) elucida que, antigamente, formar professores consistia em dotá-los de competência e habilidade instrumentais, e o processo formativo desse profissional apoiava-se em modelos tecnocratas (no predomínio de técnicas) que os preparavam para executar com eficiência o saber-fazer. Entretanto, os tempos mudaram, as necessidades da população são outras; por isso, nos dias atuais, há emergência de novas reflexões sobre a formação e a prática docente. Para a autora, essas reflexões dizem respeito ao delineamento de uma nova racionalidade formativa, cujo objetivo é formar um professor que, além de dominar os saberes específicos da sua profissão, constitua-se como um indivíduo capaz de responder às diversas situações que marcam a práxis docente. Dessa forma, impera a necessidade de um profissional extremamente qualificado, que exerça a docência de modo efetivo nessa sociedade tão complexa, o que demanda, inevitavelmente, uma educação docente continuada eficiente, diferente daquela transmissiva, 7 SAEB, ENEM, PISA, Prova Brasil, entre outros. 20 ligada ao praticismo pedagógico e à racionalidade técnica; necessita-se, portanto, de uma formação dotada de postura autônoma, crítica e reflexiva, capaz de trazer o professor para o centro do processo, fazendo-o refletir sobre sua própria prática, transformando-a. Hoje, impõese a necessidade de uma educação que valorize as ações pedagógicas do professor, preparando-o efetivamente para enfrentar as mudanças educacionais da sua época. Ressaltamos essa necessidade, apesar de reconhecermos que programas de capacitação profissional existem; no entanto, tem-se observado que muitos dos cursos oferecidos por esses programas nem sempre consideram o principal agente do processo de ensino: o professor. Além disso, não tratam, com o devido aprofundamento, as abordagens teórico-metodológicas, oferecendo, muitas vezes, materiais didáticos incoerentes com a proposta atual de ensinoaprendizagem de LP, contribuindo pouco para a formação desse profissional. Um exemplo dessa incoerência pôde ser observado por Magalhães (2004, p. 61), na sua lida com a formação contínua de educadores, no que se refere ao modo como as concepções de linguagem, de mundo, de ensino-aprendizagem, são enfocadas nesse contexto. Segundo a autora, a maneira como são concebidas essas práticas nem sempre possibilita ao cursista ―a desconstrução de representações tradicionais que têm uma sólida base em uma pedagogia que entende ensino-aprendizagem como transmissão e devolução de conhecimento e está apoiada em um conceito estruturalista de linguagem‖. Essa autora (2001) relembra ainda que muitos desses cursos oferecem ao participante um ―pacote‖ de novidades, com teorias inovadoras e receitas prontas que não alteram a práxis docente; parecem mesmo acreditar que somente o conteúdo é suficiente para preparar esse profissional, ou seja, acabam ignorando o fato de que o conhecimento é um processo, em que o educador, em curso, engajado na prática, também o produz. Em face dessas colocações — de teorias desatualizadas, de concepções incoerentes com o ensino atual — compreendemos que uma formação inadequada pode levar, de fato, o professor a reproduzir na sala de aula conteúdos teóricos antiquados e/ou descontextualizados. Por essa razão, entendemos que a formação continuada é [deveria ser] o espaço ideal não só para refletir sobre as práticas pedagógicas atuais e/ou antigas, a vida pessoal e profissional do professor, como também para desconstruir saberes cristalizados e/ou construir outros saberes, de preferência, partindo sempre do cotidiano escolar. Essa ideia parece aproximar-se da que vem sendo assumida, desde os anos 1990, sobre a formação de um professor reflexivo. Sabe-se que esse conceito de profissional reflexivo foi revitalizado pelo norte-americano Donald Schön (1992), que defende uma formação docente fora dos moldes normativos, isto é, aqueles que dão ênfase à transmissão do conhecimento e 21 em que se apresentam primeiro os princípios científicos e depois sua aplicação. Ao contrário, esse autor propõe uma educação reflexiva, desde a formação inicial (até a continuada), embasada no tripé conhecimento na ação (saber-fazer), reflexão na ação (pensar sobre o fazer), reflexão sobre a ação e sobre a reflexão na ação (analisar criticamente o saber fazer). Sem dúvida, esse modelo possibilita um olhar diferenciado para a educação atual, favorecendo uma formação docente mais concreta, adequada às novas exigências do mundo globalizado. Nessa perspectiva, o saber sobre o ensino não se antecipa ao fazer o ensino, não se dando mais antes do fazer pedagógico, como estabelecia o modelo tradicional. Ao contrário disso, parte-se da prática, do conhecimento na ação, refletindo sobre ela e questionando-a, embasado, é claro, pelo saber teórico; depois, compreendem-se os problemas e conflitos vivenciados na sala de aula, analisando-os criticamente, criando meios para solucioná-los. Tal postura reflexiva permite, de fato, ao aluno/professor a discussão, a comparação, a investigação, bem como a participação no seu processo de construção de conhecimento, visto que, nessa concepção, cada situação problemática, na escola, por exemplo, é entendida na sua peculiaridade, devendo ser tratada dentro do seu contexto imediato, sem, necessariamente, o rigor das aplicações técnicas. A esse respeito Schön (1990 apud PORTO, 2000, p. 20) tece algumas considerações: As zonas indeterminadas da prática — incerteza, singularidade e conflito de valores — escapam aos cânones da racionalidade técnica. Quando uma situação problemática é incerta, a solução técnica do problema depende da construção prévia de um modelo bem definido — o que em si mesmo não é uma tarefa técnica. Quando um prático reconhece uma situação como única, não pode tratá-la apenas através da aplicação de teorias e técnicas derivadas do seu conhecimento profissional. E, em situações de conflito de valores, não há metas claras e consistentes que guiem a seleção técnica dos meios. A partir das ideias de Schön (1992), Porto (2000) entende que as práticas críticoreflexiva, criativo-inovadora, autônomo-transformadora passam a se impor como condição construtiva da vida pessoal e profissional do educador, rompendo, evidentemente, com o conhecimento produzido fora da profissão docente, descontextualizado. Como não poderia deixar de ser, a formação continuada, que está associada ao processo qualitativo de práticas formativas e pedagógicas do professor, passa a adotar como referências as dimensões coletivas das práticas, contribuindo para a autonomia e para a consolidação da profissão docente (PORTO, 2000, p. 14-15). Nessa perspectiva, o professor é capaz de construir o 22 conhecimento pedagógico a partir do cotidiano escolar, desenvolvendo, assim, uma prática transformadora e um processo contínuo de reflexão na e sobre a ação. Para Brito (2006), a formação desse profissional se dá em um processo dinâmico de construção de significados, que deve ser de preferência articulado com a realidade socioeducacional. Isso equivale a dizer que tal percurso deve tomar como referência a prática concreta da escola, evitando-se, assim, o distanciamento entre o saber privilegiado da instituição (acadêmica) e os saberes que emergem na sala de aula, haja vista que o exercício da docência implica, necessariamente, a mobilização de diversos tipos de saberes. Tardif (1991 apud BRITO, 2006) elucida que os saberes pedagógicos — aqueles que possibilitam a reflexão sobre a prática educativa mais ampla, assim como os disciplinares — que envolvem variados campos do conhecimento, e os curriculares — que são selecionados no contexto da cultura erudita — devem estar relacionados ao saberes da experiência, aqueles construídos na prática escolar, porque é nesse espaço que não só afloram os problemas como também se produzem alternativas para solucioná-los. É nesse contexto que se (re)constroem métodos de ensino, plano, articulações etc. Sem dúvida, mobilizando esses diversos saberes o professor terá embasamento para responder às exigências específicas das situações de ensino. Advogando em nome da eficácia dos modelos de educação continuada que investem, em boa medida, na formação do professor enquanto profissional reflexivo, Kleiman e Signorini (2000 apud MAGALHÃES, 2001, p. 248) propõem uma (auto)formação via letramento, por meio de um processo reflexivo. Esse tipo de formação compreende ―a autonomia do professor através da transformação e do enriquecimento de suas práticas de leitura e escrita‖. Nesse molde, tal processo ocorre primeiramente na instância pessoal, para depois e/ou simultaneamente mostrar sinais na vida profissional, além de se considerar de fato as necessidades reais de conhecimento do educador e as dificuldades enfrentadas por ele na sala de aula. As autoras concebem que a formação docente é constituída de práticas letradas, voltadas não só para sua vida profissional como também individual. Partindo disso, compreendemos que, nas discussões educacionais, em qualquer espaço social, inclusive no escolar, não se pode (jamais) perder de vista o professor, suas particularidades e suas verdades. Afinal, vale dizer mais uma vez, que ele é a ―peça‖ chave nesse imenso ―quebracabeça‖ ou, melhor dizendo, não basta alterar métodos e teorias curriculares sem considerar, de fato, o principal agente do processo de ensino-aprendizagem: o professor. Somos a favor dessa postura, pois temos percebido que, nas várias discussões sobre educação escolar, especialmente aquelas veiculadas na mídia, o professor de LP parece não 23 participar, efetivamente, ficando às vezes no meio de ―um fogo cruzado‖. Na verdade, ele acaba sofrendo com tantas mudanças educacionais, com tantas críticas à sua prática docente, com os inúmeros questionamentos sobre seu processo formativo, sua profissão, seu letramento e sua vida. Aliás, ao longo da história, o educador vem enfrentando diversas críticas sobre sua práxis pedagógica, além do desprestígio da sua profissão, da falta de estrutura no espaço de trabalho, dos baixos salários, da sobrecarga de serviço, entre tantos outros fatores. Em meio a tudo isso, muitas vezes, ele (enquanto cidadão) é esquecido e ignorado, ou seja, reporta-se tanto à sua vida profissional, de forma crítica e severa, que se esquece de olhar o outro lado da ―moeda‖. Nesse sentido, entendemos que as inúmeras transformações na educação devem ser compreendidas dentro de um contexto sócio-histórico, porque, é sabido, a democratização do ensino, no início do século passado, trouxe um aumento significativo do número de alunos para a escola, implicando, obviamente, o aumento de professores. Entretanto, para atender à demanda, a formação desses profissionais ocorreu, muitas vezes, de modo indiscriminado e com a oferta de cursos rápidos, nem sempre de qualidade, contribuindo, assim, para a fragilidade do sistema, segundo Matencio (2000 apud STRIQUER, 2009). Na defesa de que essas mudanças educacionais sejam acompanhadas de reflexões concretas, tanto sobre a formação quanto sobre o perfil socioeconômico-cultural docente, Silva, Assis e Matencio (2001) relembram o fato de que ultimamente tem chegado às diversas universidades do país, por exemplo, um alunado de Letras com defasagem em leitura e escrita. Isso ocorre, certamente, porque a maioria desses alunos não teve acesso a tais práticas na sua infância ou ao longo de sua vida escolar e extraescolar. Infelizmente, o que se encontra, geralmente, nos espaços acadêmicos são alunos com pouca familiaridade com as novas tecnologias e, por trabalharem durante o dia e estudarem à noite, não têm condições de se dedicar ao estudo fora do seu horário de aula. Além do mais, muito desses graduandos provêm de famílias de baixa escolaridade, de grupos socialmente desfavorecidos, e sua entrada numa universidade, especialmente na pública, representa uma grande conquista, resultante do seu esforço e sacrifício em busca de ascensão social (SILVA; ASSIS; MATENCIO, 2001). Portanto, todas essas questões não devem, de modo algum, ser ignoradas, principalmente, nos espaços de formação continuada. Tendo em vista esses profissionais como atores humanos, prenhes de histórias, de ações e práticas (LATOUR, 2004 apud SILVA, 2006), é preciso considerar as possibilidades das quais usufruíram ao longo da sua vida, 24 as restrições pelas quais passaram, inventariar as situações vividas e as formas como as enfrentam, bem como os comportamentos advindos de sua ação no mundo social [...] é necessário debruçar-se sobre os fatores sociais, considerando as diversas esferas da atividade humana determinadas por sua inserção cultural, responsáveis pelo desenvolvimento psíquico dos sujeitos. É preciso considerar as elaborações, os procedimentos e as demandas a que os sujeitos devem responder em diferentes situações de seu cotidiano (VÓVIO; SOUZA, 2005, p. 46). Somente dessa maneira, conhecendo melhor os professores, trazendo suas múltiplas histórias para o espaço de formação (não só este como as demais esferas sociais), estabelecerse-á uma aproximação entre o professor e a academia8, o professor e a sociedade, construindo uma interlocução mais dialógica (GUEDES-PINTO; GOMES; SILVA, 2005, p. 66), capaz de mudanças efetivas na práxis pedagógica. Somente desse modo, será possível um outro ―olhar‖ da sociedade para essa profissão, haja vista o constante interesse público pelos assuntos educacionais. Em relação a isso, Nóvoa (2009) nos faz relembrar que, paradoxalmente a esse interesse público, tem-se notado, também, a ausência do professor em meio a essas discussões, nos dias atuais. Segundo o autor (2009, p. 22), ―fala-se muito das escolas e dos professores. Falam os jornalistas, os colunistas, os universitários, os especialistas. Não falam os professores‖. Parece que vem ocorrendo, sistematicamente, uma espécie de silenciamento da profissão, que, de certo modo, perdeu sua visibilidade nas relações sociais. Por isso, o pesquisador também defende a necessidade de se construírem, urgentemente, políticas públicas que reforcem o educador, seus saberes, seu campo de atuação, e que valorizem, efetivamente, a sua cultura. Vale ressaltar que o lugar de formação constitui-se em um espaço fundamental capaz de, efetivamente, reforçar essa presença pública do professor na sociedade. Em relação à educação escolar, na nova realidade social em que vivemos, educar na heterogeneidade das situações, sujeitos capazes de atuarem competentemente nas diferentes esferas de atividade humana constitui-se em grande desafio para qualquer profissional da educação (SOCORRO, 2009). Hoje, a sala de aula é concebida como um espaço complexo, onde o professor encontra dificuldades de toda ordem, onde várias coisas acontecem ao mesmo tempo, escapando, às vezes ao seu controle (SILVA, 2006). Acreditamos que é exatamente nesse contexto que o docente precisa mobilizar os mais variados saberes para solucionar problemas e para enfrentar determinadas situações que 8 Magalhães (2001, p. 249) destaca que a academia, na formação inicial, não tem conseguido realizar essa tarefa: investir no letramento do professor. Isso ocorre, certamente, ―por não se ter convencido ainda de que a clientela que hoje chega aos bancos universitários é consideravelmente diferente de três décadas atrás‖. 25 surgem no interior dessa instituição. Segundo Brito (2006), para resolver questões escolares, o professor precisa mobilizar não só o conhecimento teórico como também o experiencial. Isso equivale a dizer que sua ação não pode se limitar à mera aplicação e transmissão de conhecimentos técnicos; ao contrário, ele precisa ser capaz de transformar esses saberes diante da situação complexa que é a sala de aula. Essa questão nos remete, como não poderia deixar de ser, a outro assunto bastante debatido no meio educacional. Trata-se da inter-relação entre teoria educacional e prática docente, ou da desarticulação que muitas vezes existe entre ambas. Sabemos que a grande crítica existente hoje é que muitos cursos de formação docente, tanto inicial como continuada, nem sempre conseguem relacionar essas duas ―modalidades‖. Ao contrário, reduzem-nas a uma dicotomia estanque, desarticulada, expondo o aluno (futuro professor) à disciplina teórica, mas não o levando a realizar a transposição dos saberes aprendidos para a situação prática na sala de aula. Muitos cursos ainda desenvolvem um currículo composto de conteúdos teórico-metodológicos, em que não há confrontos, reflexões e nem análises de seus elementos constitutivos; disso advém a grande dificuldade encontrada pelos alunos/professores em colocá-los em prática. Rafael (2001) assevera que esses cursos de formação, tantos os iniciais quanto os continuados, precisam dar conta dessa relação teoria/prática, o que não significa simplesmente expor aluno/professor às informações teóricas. Trata-se de articular as duas ―modalidades‖ permanentemente durante todo o ensino-aprendizagem, uma vez que uma depende da outra para terem real significado, pois, distanciadas, acabam gerando equívocos na ação docente. Nesse sentido, Pimenta (2005) igualmente esclarece que a atividade teórica por si só não leva à transformação da realidade, não se objetiva, assim como a própria prática também não responde por si mesma, não se concretiza. Embora muitos professores tenham como referência na sua formação inicial este tipo de ensino, às vezes, mediado por estruturas fragmentadas, a situação que se apresenta hoje requer desses profissionais um novo olhar e um novo pensar sobre a educação, isto é, educadores que reflitam diariamente sobre e durante as suas práticas pedagógicas. Nesse aspecto, a formação por meio dos moldes reflexivos representa um caminho promissor para mudanças efetivas na educação. O apoderamento efetivo dessa perspectiva possibilita ao educador compreender, entre vários fatores, os problemas constantes da falta de articulação entre teorias e práticas pedagógicas, visto que esse tipo de profissional se caracteriza, justamente, como um indivíduo criativo, capaz de significar e ressignificar o ensino, analisando e criticando a sua própria prática, a fim de agir sobre ela, modificando-a. Na 26 perspectiva crítico-reflexivo, o professor deixa de ser considerado um simples ―aplicador de teorias‖ e assume o papel de quem também produz e constrói conhecimentos, a partir dos seus saberes e experiências. Em relação a esse pensamento contemporâneo, que faz emergir as esferas do cotidiano e os letramentos dos professores, Oliveira (2006, p. 102) alerta para o risco de serem criados outros ―mitos para além daqueles que se pretende combater, como por exemplo, a ilusão de que a observação e a reflexão sobre a sala de aula, por si só trariam contribuições para a compreensão da prática docente‖. Compreendemos, sem dúvida, a preocupação da autora, mas recorremos às palavras de Nóvoa (2009, p. 33) para refletir que não se trata de adoptar uma qualquer deriva praticista e, muito menos, de acolher as tendências anti-intelectuais na formação de professores. Trata-se, sim, de abandonar a ideia de que a profissão docente se define, primordialmente, pela capacidade de transmitir um determinado saber. Tendo em vista o foco das discussões deslocar-se para a prática dos professores, compreendemos que, de modo algum, deve-se descartar o debate sobre o papel da teoria, dos conhecimentos científicos, em sala de aula, nos cursos de formação inicial ou continuada, ou seja, a reflexão sobre a prática, sobre a ação, não dispensa a reflexão sobre a teoria, as quais devem ser tratadas como uma unidade, indissociavelmente. Para um bom desempenho na práxis docente, faz-se necessário que o professor domine os conteúdos específicos de sua disciplina, tendo clareza de como esses se transformam em objetos de ensino, por meio da transposição didática. Para o aluno/professor conciliar melhor essas tarefas, é preciso haver mais reflexão sobre esses temas, não só nos cursos de licenciatura, como também nos continuados. Afinal, a falta de reflexão e de ensino da transposição didática não só prejudica o letramento do professor, como também ocasiona equívocos na sua ação pedagógica na sala de aula, acarretando sérias consequências ao ensino de LP, que não terá significado social para aluno; logo, não transformará sua realidade. Isso tudo se coloca como um grande desafio não só para os programas de formação continuada como também para o profissional da educação, pois, ao nosso ver, é preciso que ele, enquanto pessoa compromissada com os interesses educacionais, desafie-se, no sentido de acompanhar as mudanças atuais; como agente mediador, esteja engajado no ensino, tendo postura e atitude críticas e transformadoras diante da atual situação, mesmo que isso seja uma tarefa árdua. 27 Vale a pena lembrar ainda que, neste século, a realidade dos avanços tecnológicos e das mudanças socioculturais sublinha e exige cada vez mais da docência escolar constante (re)significação de papéis. Para discutir tais questões, a educação continuada se torna um espaço ideal de produção de saberes. Ferreira (2003), advogando em favor dessa formação, pontua que vivemos numa época de exigência de muita qualificação para todo tipo de profissional, de todas as áreas do conhecimento, o que torna as necessidades educacionais da população cada vez maiores. A autora ressalta também a necessidade de o profissional acompanhar as mudanças atuais, senão estará, de certa forma, inabilitado para o trabalho e para a vida social. Acreditamos, portanto, que juntamente às necessidades surgidas nessa nova era, exigindo diversas capacidades/competências de qualquer profissional, encontra-se a necessidade de um ensino de qualidade, que vá além do cumprimento de metas e de planos governamentais; um ensino contínuo que promova de fato a reflexão, o aperfeiçoamento das ações docentes, o letramento profissional, considerando o pessoal; um ensino que possibilite o diálogo crítico e reflexivo entre teoria e prática, além de estudos concretos, aprofundados e coerentes com as tendências atuais de ensino. Enunciando de outro modo, impera atualmente, na educação brasileira, a necessidade urgente da implantação de medidas públicas que possibilitem ao professor um estudo contínuo, efetivo, que vá além de um programa de educação inicial e continuada. É necessário atentarmos para a qualidade dos cursos de formação que, às vezes, trabalham com métodos desarticulados da prática docente, "vagos" e nem sempre aplicáveis. Resumindo, então, é preciso que se invista — maciçamente — na formação continuada, criando condições e capacitando os profissionais, formadores de professores, para que cumpram, realmente, sua função de mediador, colaborador, orientador e de agente, para que, no fim, contribuam, de fato, para o aperfeiçoamento da autonomia do professor de LP na sua prática pedagógica, permitindo-lhe o desenvolvimento de um trabalho baseado em competências/capacidades enunciativo-discursivas. Na seção seguinte, discutimos questões referentes aos PCNLP (BRASIL, 1998) e sua inserção no meio educacional. Essas questões dizem respeito não apenas ao redimensionamento do ensino-aprendizagem de LP, a partir da publicação das diretrizes oficiais, bem como à nova organização curricular no tocante às concepções de ensino. Sendo assim, fazemos uma breve menção a algumas dessas concepções (de língua e de escrita) que contribuíram para redirecionar o ensino de escrita, enfatizando também as competências propostas por tal diretriz. 28 1.3 PCNLP: Um novo direcionamento para o ensino Nas últimas décadas, temos assistido, no Brasil, a várias transformações no ensino de LP, conforme discutimos ao longo do texto. Grande parte dessas mudanças deve-se à elaboração e à publicação dos PCN de Língua Portuguesa (BRASIL, 1998), os quais representam um avanço nas políticas educacionais, pois apresentam propostas com o objetivo de ampliar e aprofundar um debate educacional, envolvendo escolas, pais, governos e sociedade. Além disso, pretendem se constituir como referência para as discussões curriculares no ensino, contribuindo com técnicos e professores no processo de revisão e elaboração de propostas didáticas, na formulação de projetos pedagógicos adequados às necessidades de cada região, materializando-se, assim, numa proposta aberta e flexível, capaz de incentivar os envolvidos à discussão, à reflexão e à elaboração contínua de currículos. As ideias básicas contidas nos PCNLP (BRASIL, 1998) refletem, muito mais do que uma mera mudança de conteúdos, uma mudança de filosofia de ensino-aprendizagem, como não poderia deixar de ser; por isso, propõem a organização dos conteúdos de língua materna em dois eixos: as práticas do uso e as práticas de reflexão sobre a língua e a linguagem. A primeira envolve aspectos que caracterizam o processo de interlocução, isto é, a historicidade da linguagem e da língua, a constituição do contexto de produção, o lugar e o momento de produção, o sujeito enunciador, a finalidade da interação, entre outros elementos. Essa orientação deve pautar tanto a prática de escuta e de leitura quanto a prática de produção de textos orais e escritos. Já a segunda — a prática de reflexão sobre a língua(gem) — abrange aspectos ligados à análise linguística, tais como a variação linguística, a organização estrutural dos enunciados, os processos de construção de significação, entre outros. Segundo os PCNLP (BRASIL, 1998, p. 36), [...] os conteúdos do eixo REFLEXÃO, desenvolvidos sobre os do eixo USO, referem-se à construção de instrumentos para análise do funcionamento da linguagem em situações de interlocução, na escuta, leitura e produção, privilegiando alguns aspectos linguísticos que possam ampliar a competência discursiva do sujeito. Nesse modo de organização do ensino, em que se articulam os conteúdos nos respectivos eixos, o ponto de partida, bem como o de chegada, do ensino de LP é a produção e recepção de discursos. Por isso, no processo de produção de textos, devem-se considerar os aspectos enunciativos, tais como: a historicidade da linguagem e da língua; a constituição do contexto de produção, representações de mundo e interações sociais; as implicações do 29 contexto de produção na organização dos discursos: restrições de conteúdo e forma decorrentes da escolha dos gêneros e suportes; as implicações do contexto de produção no processo de significação (BRASIL, 1998, p.35). Haja vista que o ensino de LP deve considerar a linguagem no seu funcionamento discursivo, os PCNLP (BRASIL, 1998) assinalam, aqui, a importância do seu domínio para a efetiva participação social: o domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade linguística, são condições de possibilidade de plena participação social. Pela linguagem os homens e as mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou constroem visões de mundo, produzem cultura (BRASIL, 1998, p. 19). Outrora, certamente, o que existia era um ensino prescritivo, que privilegiava a gramática normativa, descontextualizada, com frases soltas, e o trabalho restrito à variedade escrita culta da língua. Hoje, nota-se uma proposta, ou ao menos uma tentativa, de distanciamento dessa tradição gramatical, pois o ensino de língua materna visa a ultrapassar o nível da palavra e da frase, além de trazer novas orientações para o ensino de leitura e produção de textos. Atualmente, o que se vê nos PCNLP (BRASIL, 1998) é uma nova concepção de língua(gem), de base sociointeracionista, que a concebe como forma de interação, atividade discursiva, orientada por uma finalidade específica, como um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais, existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos distintos momentos de sua história. Na próxima seção, abordamos a prática de produção de escrita nesse material. 1.3.1 A prática de produção textual nos PCNLP Juntamente a concepção de linguagem como interação, as diretrizes oficiais trazem uma nova concepção de escrita, a qual vem sofrendo variações ao longo dos anos. Tais variações provocaram, sem dúvida, mudanças nas propostas de ensino-aprendizagem de produção de textos e influenciaram a elaboração desses documentos. Reinaldo (2005) explica que tais variações do conceito de escrita resultam dos diversos pontos de vistas dos estudiosos, no tratamento da produção de textos, dentre os quais se destacam dois: um que trata o texto como produto e outro como processo. Segundo a 30 linguista aplicada, antigamente, o texto era tomado como unidade de análise, como produto, em que eram enfatizados somente sua estrutura e os fatores de textualidade (formal, semântico-conceitual e pragmático). Na década de 1990, os estudos textuais passaram a explorar também o tópico da tipologia textual (narração, dissertação e descrição). Já a perspectiva que trata o texto como processo reúne contribuições das teorias textuais, cognitivas e, mais recentemente, sociocognitivas, com o objetivo de explicar o que acontece durante o processo de produção. Nesse sentido, no ato de escrever, a ordem de fatores sociais (representados pelas práticas reais do sujeito) e a ordem de fatores cognitivos (representados pelo conhecimento de mundo, linguístico e textual) ocorrem simultaneamente (REINALDO, 2005, p. 95). Além disso, nessa concepção, compreende-se o ato de escrever como um processo formado por dois estágios: o inicial, que antecede o próprio ato de escrever, em que há preocupação em favorecer as condições de realização da tarefa do aluno, como leitura e orientações, e o estágio seguinte, que é o momento da produção de texto propriamente dita. Aqui, a produção textual é concebida como uma atividade recursiva, isto é, aquela em que se volta constantemente ao estágio inicial, avança-se, revisa-se o texto várias vezes, para, então, encerrar a escrita. Dentre as perspectivas que influenciaram os documentos oficiais, destaca-se também a orientação teórica sociointeracionista, cujos pressupostos sócio-históricos partem da ideia de homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e social, participante de um processo cultural e histórico. Essa teoria, que teve em Vygotsky seu maior expoente, se instala com uma redefinição da noção de linguagem centrada na interlocução. Tal redefinição consolidou o ensino-aprendizagem de escrita, o qual ―passou a ser orientado pela idéia de que a apropriação da linguagem e das práticas sociais se dá a partir de um percurso do social para o individual, sempre mediado pelo signo e pelo outro‖ (REINALDO, 2005, p. 95). Como podemos ver nos PCNLP (BRASIL, 1998), a concepção de escrita está amparada na concepção de linguagem, ou seja, está atrelada ao seu aspecto sociocomunicativo. Isso equivale a dizer que a escrita pode ser compreendida como prática discursiva, como um processo enunciativo-discursivo, uma vez que não é uma atividade em si mesma, sem objetivos e propósitos. Essa atividade é considerada uma ação interindividual, orientada por uma finalidade específica, vinculada a seus usos e funções sociais, um processo dialógico entre homem e mundo, entre Eu e Outro. Vale enfatizar mais uma vez que esses documentos oficiais orientam para a produção de textos numa perspectiva discursiva, em que ―a razão de ser das propostas de uso da fala e da escrita é a interlocução efetiva, e não a produção de textos para serem objetos de correção‖ (BRASIL, 1998, p. 19). 31 Nesse sentido, assumindo essa concepção interacionista no processo de escrita de texto, jamais se pode desconsiderar o papel do outro como participante do diálogo, pois é pensando nele, a fim de responder à voz alheia, que cada pessoa formula seu dizer, seu discurso, sua escrita. Conforme podemos notar, a forma de trabalhar o texto, aqui, contrapõe-se ao modo tradicional de estudá-lo em sala de aula, em que se ignorava o processo de interlocução. Ao contrário disso, hoje, os PCNLP (BRASIL, 1998) apontam o texto como unidade de ensino e os gêneros como objeto de ensino, defendendo que, ao se pronunciar, o homem sempre utiliza a língua — oral ou escrita — concreta em uma situação de interação, com condições e finalidades específicas. Dito de outro modo: Todo texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos discursos, as quais geram usos sociais que os determinam. Os gêneros são, portanto, determinados historicamente, constituindo formas relativamente estáveis de enunciados, disponíveis na cultura (BRASIL, 1998, p. 21) [ênfase adicionada]. Os PCNLP (BRASIL, 1998, p. 23, grifo nosso) complementam ainda que: Os textos organizam-se sempre dentro de certas restrições de natureza temática, composicional e estilística, que os caracterizam como pertencentes a este ou aquele gênero. Desse modo, a noção de gênero, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de ensino. Essas diretrizes curriculares destacam que, no ensino-aprendizagem da escrita, além da definição desses elementos sociocomunicativos, estabeleçam-se também situações didáticas, tomando como objeto de reflexão os procedimentos de planejamento, de elaboração e de refacção de variados textos, haja vista que uma educação realmente comprometida com o exercício da cidadania precisa criar condições para que o aluno desenvolva sua capacidade discursiva. Vimos, então, que as concepções de escrita e de linguagem se inscrevem numa modalidade dialógica, que compreende a língua como enunciação e discurso e preocupa-se com o contexto sócio-histórico das relações humanas. Nesse sentido, podemos observar que tal modalidade faz referência tanto à perspectiva enunciativa como à teoria de gêneros discursivos de vezo bakhtiniana, ou melhor, dizendo, é visível que a ideia contida nos excertos supracitados se aproxima daquelas defendidas pelo círculo bakhtiniano, como veremos mais adiante. 32 Embora não haja citação explícita de Bakhtin e seu Círculo nos PCNLP (BRASIL, 1998), apresentando-os claramente apenas nas referências bibliográficas, são inegáveis as suas contribuições para os estudos linguísticos atuais, já que seus trabalhos permitiram uma nova abordagem, que faltava ao tratamento do texto na sala de aula. Mesmo não sendo pensada, especificamente, para esse fim, a teoria sociodiscursiva proposta pelo teórico russo possibilitou que se contemplasse o caráter dialógico nas unidades comunicativas dos textos. Além dessas influências, os PCNLP (BRASIL, 1998) possuem uma direta contribuição dos estudos da Escola de Genebra, a qual desenvolve atividades inserida na linha bakhtiniana de gênero, com foco no desenvolvimento de capacidades, em especial a noção de estudo dos gêneros orais e escritos no ensino de língua, através de sequência didática, proposta metodológica de Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly (2004). Tal sequência é pensada como um conjunto de atividades escolares organizadas em torno de um gênero oral ou escrito. Sua finalidade principal é a de ajudar o aluno a dominar melhor um gênero, possibilitando-lhe falar e escrever de forma mais apropriada nas mais diversas situações comunicativas (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004). Esses autores consideram a escola como um espaço ideal para o desenvolvimento das capacidades de linguagem, das funções psíquicas do sujeito, por isso apresentam a sequência didática como proposta metodológica privilegiada para esse desenvolvimento. Tal sequência é composta por quatro etapas: a) A apresentação da situação é o momento em que se descrevem, de forma detalhada e clara, a tarefa, o projeto de comunicação a ser realizado (o gênero abordado; o interlocutor do texto; a forma da produção; o(s) participante(s) da produção). Nessa fase, prepara-se o conteúdo do texto; os alunos podem realizar leituras variadas, discussões, pesquisas, conhecendo as características do gênero a ser produzido; b) A produção inicial tem o objetivo de permitir ao professor avaliar as capacidades e desenvolvimento dos alunos acerca da tarefa, identificando os problemas. Tal etapa possibilita também ao próprio aprendiz (re)conhecer suas dificuldades; c) Os módulos são constituídos por variadas atividades, no intuito de fornecer ferramentas necessárias para o aluno dominar melhor o gênero; d) A produção final é o momento em que o aluno poderá pôr em prática os conhecimentos adquiridos. Além disso, essa etapa permite ao professor bem como ao aluno, medir os progressos alcançados (DOLZ; NOVERRAZ; SCHNEUWLY, 2004). Portanto, dentre os vários aspectos dessa proposta, busca-se confrontar o aluno com um gênero existente na sociedade para possibilitar a sua reconstrução e a sua apropriação por parte do aprendiz. Tal reconstrução ocorre graças à interação das especificidades das práticas de linguagem, objeto de aprendizagem, das capacidades de linguagem dos alunos e das 33 estratégias de ensino propostas pela sequência. Logo, essas sequências de módulos de ensino constituem-se em instrumentos que podem conduzir o professor na sala de aula, propiciandolhe intervenções reais necessárias para a organização da aprendizagem dos alunos; além disso, podem permitir a transformação gradual de suas capacidades, pois o docente tem a oportunidade de avaliar as capacidades já adquiridas, ajustando as atividades às possibilidades concretas dos alunos nos diferentes níveis. Dolz e Bernard Schneuwly têm se destacado, sobretudo, por sua preocupação com a transposição desse conhecimento, o gênero discursivo na sala de aula. Esses autores genebrinos têm realizado muitas pesquisas no campo de ensino de língua materna, envolvendo o gênero, a partir dos estudos bakhtinianos. Schneuwly (2004), no sentido vygotskiano, define os gêneros discursivos como instrumento semiótico, socialmente construído, fruto da experiência de várias gerações, necessários para agir com eficácia numa dada situação comunicativa. Metaforicamente, os concebe como um megainstrumento, uma ferramenta complexa, composta de vários outros instrumentos, ou seja, composto por conteúdos internos específicos a serem ensinados, e apropriados pelos sujeitos. O autor ainda os considera como um organizador global que, naturalmente, estabelece os conteúdos a serem ditos, a saber, o conteúdo temático (o que se torna dizível através do gênero), a forma composicional (a estrutura particular do texto) e o estilo (as configurações específicas das unidades linguísticas). Sendo assim, o gênero é visto como mediador da ação discursiva do sujeito, no processo de interação verbal, dando forma e materializando a atividade de linguagem. Na voz de Dolz e Schneuwly (2004, p. 63, grifo dos autores) é ―através dos gêneros que as práticas de linguagem materializam-se”. Aliás, esse elemento funciona bem como um modelo comum para os membros de uma sociedade, possibilitando, naturalmente, a comunicação entre os falantes, pois Trata-se de formas relativamente estáveis tomadas pelos enunciados em situações habituais, entidades culturais intermediárias que permitem estabilizar os elementos formais e rituais das práticas de linguagem (DOLZ; SCHNEWULY, 2004, p. 64). Logo, por estarem em constante circulação no meio social, mediando as atividades de linguagem, os gêneros discursivos são concebidos pelos pesquisadores como importante instrumento de ensino-aprendizagem de língua materna, a ser utilizado nas escolas para desenvolver no aluno as capacidades necessárias que lhe permitam a participação social, nas variadas esferas, isto é, para desenvolver sua capacidade comunicativa, haja vista que ―aprender uma língua é aprender a se comunicar‖ (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 42). Em 34 relação a essa afirmação, inspirados na concepção interacionista, os estudiosos elucidam que priorizar o funcionamento comunicativo dos alunos significa prepará-los para dominar a língua em situações variadas, fornecendo-lhes instrumentos eficazes; desenvolver nos alunos uma relação com o comportamento discursivo consciente e voluntária, favorecendo estratégias de auto-regulação; ajudá-los a construir uma representação das atividades de escrita e de fala em situações complexas, como produto de um trabalho e de uma lenta elaboração (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 42). Para os autores, as situações de ensino são concebidas para permitir que os aprendizes ultrapassem, efetivamente, seus próprios limites, na direção definida por essas finalidades (supramencionadas). Diante desses objetivos, compreendemos que a adoção do gênero como objeto no ensino de língua constitui-se em um desafio para a escola brasileira, pois implica uma mudança não só de conteúdo, como também de perspectiva teórica, de objetivos e de metodologia de ensino. A didatização e a transposição didática podem ser consideradas alguns desses desafios, visto que ―os saberes teóricos precisam ser transformados para entrar na sala de aula e não simplesmente ‗resumidos‘ ou ‗simplificados‘, devendo estar sustentados por fundamentos epistemológicos claros e bem definidos‖, conforme salienta Barros-Mendes (2005, p. 19). Essa autora, baseada em Chevallard (1985), elucida que o conceito de transposição didática se define por um processo de transformação, de passagem de um conteúdo preciso a uma versão mais didática, passível de ser ensinado. Semelhantemente, para Schneuwly (2004), a transposição didática é entendida como processo criativo de transformação dos objetos sociais — os gêneros — em objetos ―ensináveis‖. Tal transposição ocorre justamente quando se desloca um gênero do seu contexto social de origem, recortando-o e/ou modificando-o, para o contexto escolar, como objeto de ensino-aprendizagem. Nesse processo, opera-se um desdobramento, visto que o gênero não é mais só instrumento de comunicação, tendo sido transformado em objeto de ensino-aprendizagem. Em linhas gerais, pensemos, por exemplo, no gênero reportagem, que compõe um jornal. Em tal contexto, esse gênero tem uma finalidade específica (comunicar um fato), é direcionado para um público-alvo, circula numa dada esfera (jornalística), possui uma linguagem específica (formal e objetiva). Porém, no instante em que tal gênero adentra o espaço escolar para ser ensinado e apre(e)ndido, ele se transforma em um gênero escolar ou escolarizado, pois ―ele não tem mais o mesmo sentido; ele é, principalmente, (...) gênero a aprender, embora permaneça gênero para comunicar‖ (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004, p. 69). É nessa 35 passagem, de uma esfera para a outra, nessa variação do gênero original, de referência, que ocorre o tal desdobramento, considerado o fator de complexificação principal, dos gêneros na escola e de sua relação individual com as práticas de linguagem. Diante disso, esses estudiosos ressaltam a necessidade de se compreender que o objeto trabalhado na escola é sempre uma variação do objeto — do gênero, do saber de referência — construída numa dinâmica de ensino-aprendizagem cujo objetivo principal é o ensino. Em relação à didatização, embora tal conceito esteja fortemente relacionado ao de transposição, não devem ser concebidos como sinônimos, conforme nos alerta Barros Mendes (2005), para quem a didatização se define como o modo de organizar o conteúdo curricular, o saber de referência, para a compreensão do aluno, na sala de aula. Para tentarmos exemplificar isso, pensemos no gênero poema. Tal gênero, que foi, de certo modo, escolarizado, é selecionado por um dado material didático-pedagógico — LD, apostila, ou até mesmo aquele usado na formação continuada de professores — utilizado no ensino de LP, de acordo com um objetivo a ser alcançado: produzir um poema acerca do amor materno, expressando-se sobre o mundo, sobre si, para apresentar aos pais, na festinha da escola. Para tanto, o material propõe a organização de um passeio no bosque, com o intuito de que os alunos percebam o encantamento da natureza; a realização de uma pesquisa sobre o amor no ambiente familiar, para que os aprendizes se inspirem, bem como de uma discussão coletiva sobre o assunto, para que troquem informações; o levantamento de uma coletânea de poemas, para que os alunos realizem intensas leituras e reconheçam as características desse gênero, em termos linguísticodiscursivos, entre outras possibilidades. Depois dessas atividades, o material solicita várias produções do gênero em questão, propondo ao professor algumas técnicas de correção, como socializar a leitura das produções em sala entre os alunos, corrigir os textos com a participação de todos etc., de modo a visar um aprendizado efetivo, semelhantemente ao que ocorre na proposta de sequência didática, a ser vista adiante. Essa exemplificação nos mostra que o conceito de didatização está relacionado à sistematização de um objeto de ensino, a fim de que ele possa ser compreendido em suas partes mínimas. Nesse sentido, os conceitos de transposição didática e didatização são fundamentais para que haja inserções adequadas dos objetos de ensino nos materiais didáticos. Entretanto, isso não pode ser feito de modo simplificado, direto, quer dizer, os gêneros não podem ser simples adaptações das teorias, mas devem ser pensados nas suas dimensões ensináveis, no intuito de uma apropriação consciente e reflexiva por parte dos alunos. Cabe ao sistema educacional também formar profissionais, preparando-os para 36 trabalhar tais objetos na sala de aula de modo efetivo, isto é, o professor precisa realmente saber ―o que‖ ensina para seus alunos, tendo clareza do objetivo que deseja atingir, além de consciência reflexiva do significado de ―ensinar‖. Se esses aspectos não forem considerados, no sistema de ensino-aprendizagem de LP, ―não existirá ensino, mas imitação ou iniciação no nível puramente prático”, conforme pontua Schneuwly (1995b apud BARROS-MENDES, 2005, p. 159) [grifo do autor]. Desse modo, compreendemos que os gêneros discursivos fornecem base para as atividades de linguagem em sala de aula, sendo uma referência para os alunos, ajudando-os a desenvolver suas capacidades de linguagem. Além do mais, constituem-se em elemento ideal para a elaboração de sequências de atividades contínuas e progressivas, para propostas de didatização, fornecendo, a partir de uma concepção enunciativo-discursiva, subsídios didático-pedagógicos que contribuem para a aprendizagem reflexiva e consciente dos aspectos linguístico-discursivos que compõem cada gênero estudado. Entendemos que, ao ampliar essa noção de gênero, esses estudiosos de Genebra a compreendem como uma proposta teórico-metodológica adequada para o ensino de leitura e produção de textos, sempre partindo das formas concretas do diálogo. Isso, certamente, já ultrapassa o caráter funcional da classificação de elementos linguísticos, situado na perspectiva formalista. Em relação aos PCNLP (BRASIL, 1998), as sugestões metodológicas que os perpassam se inspiram em teorias (cognitivas, discursivas, enunciativas, textuais, sociais), cujos enfoques dirigem o ensino de língua(gem) para seu uso e realização dialógica, pautados em práticas sociais reais, levando em consideração as verdades dos alunos, os quais ocupam uma posição na sociedade e estão situados em certo tempo e lugar. Além disso, tais sugestões visam a desenvolver nos alunos as capacidades necessárias ao exercício pleno da cidadania, pois, em uma sociedade como a atual, que vive constantes mudanças — econômicas, políticas, culturais, religiosas, entre outras — o domínio da linguagem é, realmente, indispensável. Tal domínio é considerado fundamental, pois dá condições ao sujeito para se impor, criticar, argumentar, defender seus ideais, contribuindo para a transformação de seu espaço social, visto que toda relação humana é mediada pela linguagem. De acordo com esse documento, é na interação, através da linguagem, que se constroem conhecimentos científicos, orientações ideológicas, teorias populares, mitos, entre tantos outros. Portanto, a partir dessas concepções, espera-se que no ensino de LP seja privilegiado o desenvolvimento de competências linguísticas e discursivas que visem à formação de um usuário proficiente na sua língua, capaz de ler, compreender e interpretar diferentes textos. Afinal, um ensino que possibilite ao aluno assumir uma posição social, apropriando-se da 37 palavra conscientemente e produzindo textos adequados às várias situações, especialmente aqueles que circulam na esfera pública, contribuirá para a formação de cidadãos críticos. Tendo em vista essa pretensão dos PCNLP (BRASIL, 1998) de formar cidadãos críticos e conscientes para a vida, compreendemos que o ensino, nessa direção, constitui um caminho promissor, capaz de oportunizar, realmente, uma aprendizagem mais significativa para o aluno, e de ultrapassar os limites da sala de aula. Na seção seguinte deste capítulo, apresentamos uma breve discussão concernente a outros documentos oficiais que, em boa medida, seguem as orientações dos PCNLP (BRASIL, 1998), porque acreditamos que nesse propósito de (trans)formar alunos em cidadãos ativos e participantes, os materiais pedagógicos — tais como o livro didático e outros cadernos de apoio ao aluno e ao professor — constituem-se em ferramentas importantes bem como em objetos de conhecimento cultural capazes de contribuir para a formação do ser humano. 1.4 Materiais didático-pedagógicos no ensino de Língua Portuguesa Conforme já mencionado, os PCNLP (BRASIL, 1988) apresentam uma multiplicidade teórica que embasa o ensino de Língua Portuguesa e, certamente, por conta disso, tem mantido um espaço bastante expressivo nas discussões no meio educacional. Isso pode ser percebido nas inúmeras pesquisas acadêmicas que retratam o assunto, nas temáticas em programas de formação (inicial e continuada) de professores, nos seus materiais de apoio 9, e até mesmo nas editoras (nos livros didáticos, doravante LD). As editoras, muitas vezes, influenciadas pelo discurso dos PCNLP (BRASIL, 1998), buscam se adequar às propostas dessa diretriz, especialmente, no que diz respeito ao ―como‖ levar os conteúdos de ensino, trazidos por tais documentos, para a sala de aula, e ao ―como‖ realizar os encaminhamentos/procedimentos necessários para ensino-aprendizagem de língua. Conforme nos lembra Bezerra (2005, p. 35), ―nesse contexto, por pressão ou por zelo, os autores vão alterando os LDP a cada versão, tentando, de acordo com suas afirmações, uma proposta eficaz de ensino‖. Diante disso, entendemos que esses materiais, tanto os de apoio para a formação continuada quanto os livros LD de Língua Portuguesa — compreendidos como elementos 9 Nesta dissertação, consideramos como material de apoio os Cadernos de Teoria e de Prática que subsidiam o trabalho docente na formação continuada do Programa GESTAR II. 38 fixos, como atores não-humanos — possuem grande influência sobre a práxis docente, já que, em boa medida, ―impõem‖ comportamentos e atitudes aos atores humanos, professor e aluno. Além disso, esses materiais trazem incorporados em si histórias de práticas escolares, geralmente tradicionais, exercendo forte domínio sobre o trabalho docente, ou seja, o educador, muitas vezes, é ―levado a organizar suas aulas de acordo com a rotina apresentada ou sugerida pelo material, como a explicitação de conteúdos programados seguida pela exercitação dos mesmos‖ (LATOUR, 2004 apud SILVA, 2006, p.10). Esses objetos (os materiais didáticos, por exemplo), tomados de modo isolado, possuem, obviamente, um valor concreto, como matéria, elucida Silva (2006). No entanto, na prática, na interação da sala de aula, assumem existência relacional, desempenhando ações (ativas) sobre o comportamento do professor e do aluno. Em outros termos, compreendemos que tanto o LD quanto o material oficial usado na formação do professor possui um papel relevante no trabalho docente, já que, muitas vezes, dão base para a prática pedagógica, facilitando o planejamento diário do professor. Bezerra (2005, p. 35) afirma que o LD é, ―se não o único material de ensino/aprendizagem, o mais importante, em grande parte das escolas brasileira‖, pois, de certo modo, constitui-se em ―um livro composto por unidades (lições ou módulos) com conteúdos e atividades preparados a serem seguidos por professores e alunos‖ (idem, ibidem). Desse mesmo modo, acreditamos que os Cadernos de Teoria e os de Atividades do GESTAR II10, utilizados nos cursos de formação continuada, também servem de apoio para o trabalho do professor na sala de aula. Aliás, ao observar esses Cadernos de estudo, mais especificamente o TP6, nosso objeto de pesquisa, percebemos, claramente, que se assemelha com os materiais didáticos convencionais utilizados na escola, a saber, o livro didático. Esse material, geralmente avaliado pelo Programa Nacional do Livro Didático11 (doravante, PNLD), tem buscado se adequar às novas proposições curriculares de ensino (BARROSMENDES 2005; REINALDO 2005; CONSTANTINO 2007). Semelhante a isso, temos 10 Esses cadernos teórico-práticos, a saber: os de teoria, denominados TP, os de Atividades de Apoio à Aprendizagem, denominados AAA, na versão do professor, e os de Atividades de Apoio à Aprendizagem (AAA) na versão aluno, dizem respeito ao material didático-pedagógico de apoio ao ensino-aprendizagem de LP, fornecido para os professores no curso de formação continuada do Programa Gestão da Aprendizagem Escolar (GESTAR II). 11 O Programa Nacional do Livro Didático, iniciativa do Ministério da Educação, é responsável por avaliar, adquirir e distribuir gratuitamente obras didáticas aos alunos do Ensino Fundamental das escolas públicas brasileiras, conforme informações contidas no site: <http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=668&id=12391&option=com_content&view=article > Acesso em 05 jun. 2010. 39 percebido que alguns materiais didáticos utilizados nos cursos de formação continuada também buscam tais adequações (SILVA, 2011, no prelo). Assim, é importante ressaltar, mais uma vez, que esse movimento de adequação de teorias e métodos, sobretudo, no ensino de língua(gem) se insere em um processo dialógico existente ―entre saberes e demandas de inovação que têm se estabelecido no cenário nacional de reformas educacionais, desde a década de 70‖ (BUNZEN, 2010, p. 06, grifo do autor), o que é totalmente aceitável, se feito de modo reflexivo, consciente e orientado. Esses ―ajustes‖ no ensino se fazem, de fato, necessários, ainda mais se se pretende acompanhar as mudanças sociais ocorridas no mundo todo. Aliás, nessa lógica, não se pode esquecer, portanto, de que a maioria dos professores de Língua Portuguesa, em exercício atualmente, teve uma formação inicial que não contemplou parte significativa das novas propostas e concepções sobre a abordagem pedagógica presentes nos PCNLP (BRASIL, 1998), por exemplo. Além disso, não devemos esquecer que a execução dessas novas propostas está diretamente atrelada ao processo de formação continuada, que se constitui em um dos meios capazes de fornecer a esses profissionais subsídios para o prosseguimento eficiente do seu trabalho pedagógico, ou melhor, para a inovação, constante e necessária, da sua práxis docente. Dito de outro modo, a formação docente constitui-se em um espaço ideal para discussão e adaptação das várias mudanças educacionais, haja vista que, sem uma formação continuada adequada do professor, as transformações se tornam, por vezes, ―vazias‖. É fato que, nesse contexto de adequação, alguns materiais oficiais, utilizados na formação continuada de professores, têm apresentado, por vezes, orientações e encaminhamentos metodológicos nem sempre claros e nem sempre afinados às novas perspectivas de ensino, colaborando insuficientemente para o processo de ensinoaprendizagem, especificamente, de escrita de textos diversos do professor e, consequentemente, do seu aluno. Assim como existe, atualmente, o PNLD, que avalia e distribui os LDs, ressaltamos a necessidade de políticas públicas de avaliação de materiais didático-pedagógicos destinados à formação continuada do professor de LP, como a criação de um programa (oficial) que acompanhe seu desenvolvimento e promova avaliações sistemáticas para analisar a proposta e o material utilizado. Conforme afirma Rojo, o MEC ―deveria supervisionar e levar em conta tudo aquilo que entra na escola: professor, aluno, livro, material etc.‖ (ROJO, 2009a, p. 05). Em relação à análise de material didático utilizado na formação continuada de professores, é válido lembrar que o Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, da Universidade Federal de Mato Grosso (doravante UFMT), tem desenvolvido um 40 importante estudo nessa direção, a saber, os trabalhos de Socorro (2009), Nunes (2009) e Santos (2011). As conclusões, a respeito desses materiais, não têm sido tão animadoras; mas, apesar disso, esses estudos têm colaborado com as discussões relacionadas ao assunto. Para a realização deste trabalho de análise de uma parte do material de formação GESTAR II, em que focalizaremos o direcionamento das práticas de ensino de produção escrita, buscando identificar as capacidades a serem desenvolvidas no processo de ensinoaprendizagem dessa prática, apresentamos, na seção seguinte, sucintamente, o Programa GESTAR II de Língua Portuguesa, a fim de retomá-lo no capítulo metodológico, com ênfase nos pressupostos teóricos que o embasam. 1.5 GESTAR II: Programa de formação continuada Como temos percebido, então, o ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa e a formação docente têm sido assunto frequente nas várias esferas sociais, alimentando discussões entre pesquisadores, professores e outros intelectuais; além disso, têm mantido um lugar privilegiado nos debates dos órgãos competentes, a saber, no MEC e na Secretaria de Estado de Educação do Estado de Mato Grosso (doravante, SEDUC/MT). Essa última instituição tem procurado, através de vários projetos, investir em modelos de formação que tentam suprir a grande demanda de professores no estado mato-grossense, uma vez que procura a melhoria do sistema público estadual de ensino e tem como objetivo principal o fortalecimento da escola e a valorização dos profissionais da educação. Sua função também é tentar garantir a qualidade da educação pública básica e o acesso de todos a ela, trabalhando sempre em parceria com a comunidade escolar e contribuindo para a construção da cidadania. Em vista disso, a SEDUC/MT vem desenvolvendo um trabalho de formação continuada de professores, através do GESTAR II, em parceria com o projeto Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FUNDESCOLA), e MEC. É importante destacar que aqui no Estado esse Programa12, criado pelo MEC/FUNDESCOLA, já funciona desde o ano 2000, atingindo um grande número de professores da rede pública. 12 Em Mato Grosso, o Programa Gestão da Aprendizagem Escolar foi marcado por duas fases: O GESTAR I, conjunto de ações articuladas desenvolvidas junto a professores habilitados para atuar da 1ª à 4ª série (2º ao 5º ano) do Ensino Fundamental, e o GESTAR II, destinado aos professores que lecionam da 5ª à 8ª série (6º ao 9º ano) do Ensino fundamental. Neste Estado, o GESTAR I funcionou de 2000 até meados de 2005 e, a partir do segundo semestre desse mesmo ano, iniciou-se o GESTAR II. Ambos os Programas foram criados para beneficiar os professores de Português e de Matemática da rede pública, segundo informações contidas no site da 41 O GESTAR II é um programa de formação continuada, destinado a docentes que atuam no ensino Fundamental e que estão em atividades nas escolas públicas brasileiras. Tal Programa se apresenta como um conjunto de ações articuladas a serem desenvolvidas junto aos professores de Matemática e de Língua Portuguesa. Seu principal objetivo é a melhoria do processo de ensino-aprendizagem, visto que mantém seu foco na atualização dos conhecimentos dos educadores; além do mais, tem a intenção de elevar a competência desses profissionais e de seus alunos, a fim de permitir a todos uma real compreensão e intervenção sobre a realidade sociocultural que os cercam. No capítulo seguinte, apresentamos a base teórica que sustenta esta pesquisa, a saber, a teoria de gênero discursivo do Círculo de Bakhtin. Tratamos também da concepção de letramento, veiculada nos documentos oficiais, das capacidades de linguagem necessárias no processo de escrita, além das contribuições da teoria sociointeracionista para o ensino de LP. SEDUC/MT <http://www.seduc.mt.gov.br/conteudo.php?sid=20&cid=3402&parent=0> Acesso em 07 maio 2009. 42 CAPÍTULO II OS NOVOS PARADIGMAS E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Os documentos oficiais — PCNLP (BRASIL, 1998) — assumem como referencial teórico, sobretudo, uma perspectiva social da linguagem no ensino-aprendizagem de LP. Tendo isso em vista, é pertinente pensar que, para uma incorporação real das teorias embasadoras desse ensino, faz-se necessário conhecê-las um pouco melhor. Sabemos que as diretrizes oficiais adotam o gênero como objeto de ensinoaprendizagem de língua materna, por isso, é importante apreender, de fato, o conceito de gênero e suas implicações teóricas e práticas, relacionando-o a outros conceitos, com o intuito de refiná-los cada vez mais, para evitar, assim, uma compreensão passiva ou uma aplicação mecânica da teoria, como bem salienta Fiorin (2006). Nesse sentido, ao se pensar em quaisquer conceitos bakhtinianos, é preciso compreender que eles são sempre regidos pelo princípio do dialogismo, que se destaca como um conceito central da teoria enunciativo-discursiva, constituindo-se na base do processo de produção dos discursos, dos sujeitos e da vida. Além disso, é considerado o modo de funcionamento real da linguagem, através do qual são formuladas as relações sociais. De acordo com Sobral (2009), esse conceito está intimamente ligado ao de interação verbal. Dessa forma, tais conceitos estão sempre articulados à concepção de linguagem como interação humana. Tais perspectivas são defendidas por Mikhail Bakhtin (2004[1929], 2003[1952-1953]), autor que, juntamente com outros intelectuais — como Medvedev e Volochinov — formavam o ―Círculo de Bakhtin‖, na primeira parte do século XX, na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e se dedicavam às variadas áreas das Ciências Humanas. Atualmente, as ideias e as reflexões desses estudiosos têm merecido grande atenção no campo educacional, principalmente pelo modo como concebem a língua(gem) e a vida humana. Isso pode ser constatado, como pontua Brait (2008), nas diversas traduções e na grande circulação de suas obras, nas quais são definidos noções, conceitos e categorias do pensamento bakhtiniano. Tal circulação se deve, em certa medida, à inserção dos conceitos bakhtinianos na esfera escolar, especialmente, nos projetos nacionais de educação. Neste capítulo, apresentamos a base teórica que sustenta esta pesquisa. Nosso olhar está sendo guiado pela concepção de língua e linguagem do Círculo de Mikhail Bakhtin (2004[1929], 2003[1952-1953]), perspectiva sob a qual articulamos as análises e discussões desta dissertação. 43 De início, apresentamos alguns dos aspectos teóricos mais relevantes para nosso trabalho, iniciando por uma explanação acerca da teoria de gêneros. Depois, fazemos uma breve menção a duas das concepções que contribuíram para redirecionar o ensino de escrita e que são veiculadas nas diretrizes curriculares, a saber, o conceito de letramento e e o de capacidades de linguagem, da escola de Genebra. Para finalizar, abordamos as contribuições da teoria sociointeracionista de Vygotsky para o ensino de LP. 2.1 Bakhtin e os gêneros do discurso Sob a perspectiva bakhtiniana, uma abordagem acerca do conceito de gêneros no ensino de língua materna implica, de certa forma, situar tal conceito no emaranhado de obras de Bakhtin e do seu Círculo. Segundo Souza (1999), compreender os conceitos da teoria do Círculo é enxergar a extensão do todo, quer dizer, é possível observar que há entre eles uma inter-relação complexa e orgânica, refletindo e refratando a realidade social, constantemente. Em vista disso, pretendemos articular o conceito de gêneros do discurso com outras categorias, a fim de entendermos a constituição teórica acerca dos gêneros. Na obra Estética da Criação Verbal, no capítulo intitulado ―Os gêneros do discurso‖, Bakhtin (2003[1952-1953]) destaca a importância do estudo da natureza do enunciado e dos gêneros, mantendo sempre uma relação intrínseca entre esses dois conceitos. Para uma melhor compreensão da noção de gênero, é preciso que se perceba o uso da língua como um processo variado e heterogêneo, realizado de diferentes maneiras e em diversas situações. Nessa perspectiva, a utilização da língua sempre ocorrerá em forma de enunciados, produzidos nas diversas esferas enunciativas. É importante salientar que as considerações sobre os gêneros serão levadas a termo em sua relação direta com a concepção de linguagem que orienta o pensamento do Círculo. Tal concepção, baseada na interação verbal e caracterizada pelo seu caráter dialógico, é construída pelo Círculo bakhtiniano, principalmente, a partir das críticas ao objetivismo abstrato, já que tal corrente não levava em conta o aspecto sócio-histórico-ideológico da linguagem, fixando-se, apenas, no nível da estrutura formal da língua. Em virtude disso, Bakhtin/Volochinov (2004[1929]) consideram a necessidade de inserir a linguagem no uso prático, na enunciação efetiva, como atividade viva, em um movimento pleno e constante. Para os autores, a linguagem é um elemento real de aspecto ideológico; certamente por isso, possui o papel fundamental na construção do conhecimento e na formação dos indivíduos. 44 Ainda sobre a linguagem, Souza (1999, p. 75) acrescenta que ela ―vive apenas na comunicação dialógica daqueles que a usam. É precisamente essa comunicação dialógica que constitui o verdadeiro campo da vida da linguagem‖. Como vemos, não se pode pensar a linguagem destituída dessa relação que o sujeito/falante mantém com outros em diferentes circunstâncias e espaços sociais. Nessa direção, vale destacar, rapidamente, a noção de sujeito na perspectiva bakhtiniana, já que tal noção está necessariamente ligada à própria natureza dialógica da linguagem. Assim, nessa concepção, o sujeito está sempre numa relação entre o eu e o outro e é, justamente, nessa interação, que ele se torna um sujeito responsivo. Na lógica do Círculo, a ―proposta é a de conceber um sujeito que, sendo um eu para-si, condição de formação da identidade subjetiva, é também um eu para-o-outro, condição de inserção dessa identidade no plano relacional responsável/responsivo, que lhe dá sentido‖, conforme Sobral (2008, p. 22). Na perspectiva do Círculo, o sujeito não é só um ser biológico, mas também social e empírico, o que implica considerar sempre a situação social e histórica concreta do sujeito, tanto em termos de atos não discursivos quanto em sua construção em texto, complementa Sobral (2008). Assim, por estar devidamente contextualizado no mundo, o sujeito dialoga, respondendo com as variadas vozes sociais nele existentes, numa contínua interação social. Nessa relação, a linguagem, produto social, organiza o pensamento e a fala do sujeito, que se constitui pelo discurso do outro, na coletividade. Desse modo, para compreendermos o conceito de gênero, faz-se necessário falarmos de outros conceitos que estão relacionados diretamente a essa concepção de linguagem e aos gêneros do discurso. No livro Marxismo e Filosofia da Linguagem (doravante MFL), Bakhtin/Volochinov (2004[1929]) antecipam alguns conceitos, como enunciação, diálogo e interação, que favorecem a apreensão do conceito de gêneros do discurso. O primeiro conceito a ser considerado é o de enunciação. Essa noção, segundo os estudiosos russos, resulta da interação entre indivíduos socialmente organizados e é constituída de enunciados produzidos em contextos reais, isto é, nos diálogos. É a unidade concreta da cadeia verbal, a qual está sempre em evolução. Isso evidencia, portanto, que sua natureza é social, pois as relações humanas também estão em constante mudança. Para Bakhtin/Volochinov (2004[1929]), a enunciação é o puro produto da interação de dois ou mais sujeitos, numa determinada situação comunicativa, e o diálogo, por sua vez, uma das formas mais importantes dessa interação social. Aqui temos o segundo conceito, que se 45 encontra imbricado com esse primeiro, bem como com o terceiro. Não podemos pensar numa relação entre o eu e outro destituída de interação. É nessa dimensão que temos, conforme mencionado, o segundo conceito a ser considerado, um dos fundamentos do pensamento bakhtiniano, a noção de diálogo, através da qual são pensadas as relações humanas. Esse diálogo ininterrupto realiza-se diretamente na e pela linguagem, entre interlocutores, permitindo, assim, a evolução histórica da língua. Para essa concepção, o diálogo ocorre entre dois interlocutores, face a face ou não, em um momento único e constitui-se como toda forma de comunicação verbal, a qual envolve, além de signos e símbolos, posições sociais dos falantes, convicções, valores, emoções do momento e intenções dos participantes. Nessa comunicação, todos os enunciados são dialógicos, pois neles existe uma dialogização interna da palavra, isto é, uma palavra responde sempre a outras, dialogando entre si, conforme explica Fiorin (2006). Essas palavras são atravessadas por diversas vozes sociais, as quais debatem entre si, gerando questões e suscitando respostas. Como bem destaca Bakhtin (2003[1974/1979], p. 410), Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos do diálogo dos séculos passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subseqüente, futuro, do diálogo. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo, existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos, mas em determinado momento do sucessivo desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Sendo assim, compreendemos que o diálogo, como forma clássica da comunicação verbal, supõe a interação entre pelo menos dois enunciados plenos e acabados, envolvendo o eu e o outro. Parafraseando Fiorin (2006), o locutor, na constituição de um discurso, sempre leva em consideração a voz de outrem, já que todo discurso é ocupado e perpassado pela voz alheia. Para esse autor, o dialogismo é justamente essa relação de sentidos estabelecida entre os enunciados. Desse modo, destacamos, mais uma vez que, nessa concepção dialógica, ao interagirmos com alguém, estamos sempre replicando outras falas, refutando-as ou aceitandoas, reelaborando-as conforme a nossa ―apreciação valorativa‖. Por isso, concordamos com Sobral (2009, p. 40) ao afirmar que, na comunicação social, ―ainda ‗respondemos‘ aos gregos, e nossos discursos já estão ‗interrogando‘ gerações futuras que não vamos ver‖. 46 Vimos que, juntamente a essa noção de diálogo, podemos encontrar a de interação, o terceiro conceito, intrinsecamente vinculados, compreendida por Bakhtin como a realidade fundamental da língua. Tal noção é defendida em contraposição à enunciação monológica, que desconsidera, entre outros aspectos, os interlocutores e suas verdades. Conforme Sobral (2009), o conceito de interação, para o Círculo de Bakhtin, refere-se à base, ao fundamento do sentido, que é a relação entre sujeitos. O pesquisador brasileiro assevera que, para compreender tal concepção, é preciso considerar pelo menos quatro níveis: o nível do intercâmbio verbal, ou seja, as marcas que a enunciação deixa no enunciado sobre a situação concreta da interação; o nível do contexto imediato do intercâmbio social, a saber, os papéis sociais dos envolvidos no diálogo, a representação que cada um tem da situação, de si mesmo e do(s) outro(s); o nível do contexto social mediato, que envolve as esferas de atividades humanas e suas características; o nível do horizonte social e histórico mais amplo, isto é, o momento histórico e cultural dos envolvidos na comunicação. Pode-se pensar que, no momento exato da interação, esses níveis estão articulados entre si, propiciando a construção dos sentidos entre os falantes. Portanto, quando Bakhtin/Volochinov (2004[1929], p. 125, grifo nosso) dizem que ―a enunciação só se realiza no curso da comunicação verbal”, no discurso como atividade ininterrupta, podemos perceber que as noções de enunciação, de diálogo e de interação são indissociáveis e estão intimamente relacionadas à vida real, já que são entendidas como a própria execução do discurso entre dois falantes, por meio de enunciados plenos, numa situação concreta de linguagem, atendendo aos objetivos sociais de comunicação. Desse modo, entendemos que os conceitos aqui expostos não podem ser desconsiderados, pois estão vinculados uns aos outros por relações dialógicas concretas. Além disso, influenciam, dinamicamente, na construção do arcabouço teórico que apresentamos neste capítulo, a saber, sobre os gêneros do discurso. Tais gêneros, produzidos nas variadas esferas da atividade humana, são denominados pelo Círculo como tipos relativamente estáveis de enunciados (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 262). Os gêneros discursivos se definem como tipos relativamente estáveis de enunciados em consequência do momento histórico em que estão inseridos, já que vão sofrendo modificação, expansão ou aprimoramento ao longo dos tempos; podem, assim, evoluir ou, até mesmo, desaparecer, absorvidos por outro gênero. Essas alterações são inerentes ao gênero e podem ocorrer em função de desenvolvimento social, das necessidades de uma comunidade, de influências de outras culturas ou de fatores relacionados à própria língua. No entanto, por 47 mais ―mutáveis‖ que sejam, os gêneros possuem determinada estabilidade para que sejam reconhecidos e compartilhados socialmente pelos sujeitos falantes (locutor e interlocutor). Ao discutir a relação intrínseca entre gênero e enunciado, o pensador russo defende que todo enunciado é concreto e único, irrepetível — exclusivo do momento de interação — e pode materializar-se na forma oral ou escrita. Originando-se dos integrantes de uma determinada esfera, cada enunciado produzido é reflexo das condições específicas e das finalidades de cada área da vida social. É nas esferas da comunicação, tais como a escolar, a religiosa, a jurídica e a familiar, que se determinam as características de cada gênero. Isso dependerá da função, do contexto e da especificidade do campo em que é produzido. Nesse aspecto constitutivo do gênero, é pertinente salientar uma afirmação de Brait (2006, p. 20): ―não se pode falar de gêneros sem pensar na esfera de atividades em que eles se constituem e atuam, aí implicadas as condições de produção, de circulação e de recepção‖. Dito de outra maneira, por existirem inúmeras esferas (públicas ou privadas) e cada uma com enunciados diferentes, há uma variedade infinita de enunciados que se estruturam através dos gêneros discursivos. Tratando dessa infinidade, o pensador russo alarga ainda mais o conceito de gênero quando aborda sua tamanha heterogeneidade, a qual engloba desde uma simples conversa cotidiana até uma ordem militar padronizada, além de crônica, despedida, artigo de opinião, carta, editorial, fábula, notícia ou um romance, por exemplo. Por conta dessa extrema diversidade dos gêneros, o filósofo da linguagem classificou-os em dois tipos: gênero primário e gênero secundário. O primeiro é definido por tipos de enunciado espontâneos, simples e naturais, que ocorrem, geralmente, na imediatez da fala; já o segundo é definido por tipos de enunciados complexos, frutos de uma comunicação cultural mais evoluída, que ocorrem geralmente por meio da escrita. No entanto, os gêneros secundários, durante seu processo de formação, podem absorver e alterar os gêneros primários, que, ao se tornarem secundários, distanciamse, no tempo e no espaço, da realidade imediata, e transformam-se, adquirindo novas características e novas finalidades. Para ilustrar melhor esse assunto, destacamos, mais uma vez, uma das características fundamentais do gênero discursivo bakhtiniano: ser fixo e mutável ao mesmo tempo, conforme explica Sobral (2009, p. 115): ―é estável porque conserva traços que o identificam como tal e é mutável porque está em constante transformação, se altera cada vez que é empregado, havendo casos em que um gênero se transforma em outro‖. 48 Diante disso, podemos refletir sobre o exemplo dado por Bakhtin (2003[1952-1953]) quanto à réplica do diálogo cotidiano (gênero primário) inserida no romance (gênero secundário). O próprio autor explica que essa réplica, apesar de ser um gênero simples, fruto da comunicação espontânea, pertencente à esfera do cotidiano, ao ser absorvida e transformada em gênero complexo, adquire outras características, já que agora pertence a outra esfera, com outras finalidades, direcionada a outros interlocutores. Ainda a respeito dos gêneros discursivos, o filósofo da linguagem defende que eles são configurados através de três elementos básicos, indissociáveis e inter-relacionados na constituição do enunciado: o conteúdo temático, o estilo e a forma composicional. No tocante ao conteúdo temático, concordamos com Barbosa (2001), ao dizer que Bakhtin não fornece definições precisas e claras, o que nos obriga a certo trabalho interpretativo, obviamente, baseado nos indicativos deixados pelo autor em diferentes passagens em sua obra. Sobre esse conceito, por exemplo, a autora reconhece que, para defini-lo, é necessário diferenciá-lo de três elementos que, não raro, são confundidos com ele, a saber: assunto, tema e significação. Esses, juntamente com o conteúdo temático, fazem parte de um mesmo campo semântico, mas cada qual possui seu próprio sentido. Concernente ao tema, Barbosa (2001) assevera que, na primeira vez em que Bakhtin/Volochinov usaram tal termo, no MFL (1986[1929], p.128), eles inseriram uma nota de rodapé, buscando precisar o sentido que lhe conferiam, advertindo que o uso que fazem não deve ser confundido com o que eles chamam de ―tema de uma obra de arte‖, por exemplo. Portanto, como não há muito esclarecimento sobre o sentido dessa palavra nesse contexto, a autora infere que Bakhtin/Volochinov estivessem reportando-se à dimensão da referencialidade, o que comumente recebe o nome de assunto, o qual faz abstração da situação de uso, do enunciado concreto e do gênero. Para elucidar o uso do termo assunto — pensemos numa situação em que alguém, ao sair de uma longa reunião com seus superiores, é abordado por um colega de trabalho que lhe indaga sobre o assunto tratado na reunião. Para responder-lhe, o amigo não se preocupará em detalhar o contexto da enunciação (quem eram os participantes, suas crenças, suas vontades enunciativas, qual a relação entre eles, suas posições sociais e institucionais, o grau de familiaridade entre eles); simplesmente, responderá que o assunto principal tratado na reunião foi a redução do quadro de funcionários, por exemplo. Sobre tema e significação, em MFL (2004[1929]), Bakhtin/Volochinov discutem a diferença entre esses dois conceitos. O primeiro, considerado o sentido único da enunciação completa ligada a uma situação real, é determinado não só pelos fatores verbais (palavras, 49 estrutura sintática, entonação, ―a parte percebida13‖), mas também por fatores extraverbais (o locutor, o interlocutor, a situação no tempo-espaço, ―a parte presumida‖), exclusivos de um instante histórico; já o segundo, considerado o elemento da enunciação, é a própria forma linguística, o elemento abstrato, repetível e idêntico, a forma gramatical. A significação é absorvida pelo tema. Ela é apenas uma possibilidade de significar no interior de um contexto, no interior de um tema. Em seus escritos, Bakhtin/Volochinov (2004[1929], p. 45) asseveram que ―cada manifestação verbal tem seu tema‖ e que a distinção entre esses dois elementos — tema e significação — é algo abstrato, teórico no nível da análise, pois, na realidade linguística, ambos são inseparáveis, visto que o primeiro apóia-se na estabilidade do segundo para adquirir sentido. O autor pontua que ―é impossível traçar uma fronteira mecânica absoluta entre a significação e o tema. Não há tema sem significação e vice-versa‖ (idem, p. 129). Retornando ao conteúdo temático, podemos pensar, então, que ele pressupõe os dois últimos elementos (tema/significação); entretanto, refere-se a outro sentido. Tal conceito diz respeito àquilo que pode ser dizível em um determinado gênero, sendo que, numa enunciação, esse conteúdo, necessariamente, está vinculado a certa construção composicional e se realiza linguisticamente de acordo com o estilo próprio a tal construção. Para facilitar a compreensão, pensemos numa procuração: aquilo sobre o que se fala nesse gênero, a finalidade discursiva, o que pode ser dizível nela é bem diferente daquilo sobre o que se fala no gênero notícia, por exemplo. Outro elemento que recebeu muita atenção nos estudos bakhtinianos, na composição do gênero, intimamente ligado à forma composicional e ao tema, é o estilo, o qual diz respeito à escolha dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua. O estilo depende, entre outros elementos, da posição enunciativa do locutor e está relacionado à sua forma individual de escrever, ou seja, o gênero pode refletir a marca, o estilo do locutor. No entanto, vale lembrar que o uso das categorias gramaticais selecionadas pelo falante não estão desvinculadas de definições ideológicas, ou seja, o estilo pode ser definido a partir da reação que o locutor espera do seu interlocutor bem como das apreciações valorativas que ele tem a respeito do seu destinatário, como explica Bakhtin (2003[1952-1953], p. 301-306): ―cada 13 Em ―Discurso na vida e discurso na arte‖, Bakhtin/Volochinov (1926) discutem sobre a ―parte percebida‖ e a ―parte presumida‖. De acordo com os autores, o enunciado concreto, como um todo significativo, compreende essas duas partes. A primeira é aquela realizada em palavras, a materialidade linguística, está diretamente ligada ao texto. A segunda corresponde aos valores, às questões históricas, culturais e ideológicas, constituídas no social, sobre a base do ―nós‖. 50 gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem a sua concepção típica de destinatário...‖; assim ―a escolha de todos os recursos linguísticos é feita pelo falante sob maior ou menor influência do destinatário e da resposta antecipada‖. Entretanto, é importante salientar que, conforme o filósofo russo, nem todo gênero é aberto ao estilo individual do falante; portanto, nem todo gênero lhe permite expressar sua criatividade, uma vez que existem os padronizados — aqueles da esfera jurídica, por exemplo, os quais possuem um ―acabamento‖ específico, normatizado. Para Bakhtin (2003[1952-1953], p. 265), ―as condições menos propícias para o reflexo da individualidade na linguagem estão presentes naqueles gêneros do discurso que requerem uma forma padronizada‖. Assim, dizemos que isso configura o estilo do gênero, por não permitir ao falante expressar sua individualidade. Passemos, então, ao último elemento constitutivo do gênero: a construção composicional, compreendida como a estrutura formal do texto, sua organização. Essa estrutura deve considerar, entre outros fatores, os modelos das esferas de comunicação e a situação de produção. Por exemplo, no campo jornalístico, as características composicionais predominantes no gênero discursivo reportagem tendem a seguir o modelo informativo dessa esfera. No dizer de Lopes-Rossi (2009), o gênero reportagem é a cobertura detalhada e aprofundada de fatos recentes e de grande repercussão ou de temas atuais e de interesse do público-alvo. Baseia-se em fontes de informação e de pesquisa do repórter, o que lhe confere credibilidade. Tanto em jornais quanto em revistas, apresenta texto, fotos, ilustrações, informações em boxes e infográficos (LOPES-ROSSI, 2009, p. 04). Na escrita desse gênero, portanto, é necessário considerar, além das possibilidades de comunicação, a situação de produção, uma vez que o autor do texto, no processo de escrita, ao fazer as escolhas linguísticas e organizar seus conteúdos, dentro de uma estrutura formal, possui um intuito comunicativo. No gênero em questão, segundo essa autora, tal propósito constitui-se em trazer informações atualizadas e detalhadas sobre fatos (acontecimentos) ou temas de interesse do público-alvo da revista ou do jornal, podendo ser sobre saúde, comportamento, moda, educação, cultura, lazer, segurança, tecnologia, turismo, ecologia, entre muitas outras possibilidades (LOPESROSSI, 2009, p. 04). 51 Lopes-Rossi (2009) complementa ainda que a reportagem pode ter caráter investigativo e resultar em denúncias. No entanto, muitas vezes tem o propósito implícito de formar a opinião de seu público a respeito de determinado assunto, de causar indignação, de ironizar uma situação, de beneficiar ou desqualificar a imagem de uma figura pública, de fazer propaganda de um produto, entre outros possíveis (LOPESROSSI, 2009, p. 04). Nesse sentido, é pertinente pensar que a estrutura composicional permite tanto o reconhecimento do gênero como a assimilação das condições específicas e da finalidade de cada esfera da atividade humana (BAKHTIN, 2003[1952-1953]). Portanto, como dito, esses três elementos — conteúdo, estilo e forma — são indissociáveis, determinados em função do momento imediato, da finalidade discursiva, dos interlocutores, do meio social mais amplo e da esfera comunicativa. De acordo com essa concepção, temos um repertório de gêneros, construídos sociohistoricamente, e nós, enquanto sujeitos, não os criamos pela primeira vez, mas os repetimos, já que nos são dados, assim como nos é dada a nossa língua materna. Os gêneros discursivos estão disponíveis na memória linguístico-discursiva de um povo; logo, eles são inseparáveis dessa comunidade e só existem se relacionados a ela, que os utiliza. Sendo assim, falamos e escrevemos através deles, isto é, temos nosso discurso modelado pelos gêneros em uso, como bem destaca Bakhtin (2003[1952-1953], p. 283): Os gêneros do discurso organizam nosso discurso quase da mesma forma que o organizam as formas gramaticais (sintáticas). Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em formas de gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, adivinhamos um determinado volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso), uma determinada construção composicional, prevemos o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em seguida apenas se diferencia no processo da fala. Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir livremente e pela primeira vez cada enunciado, a comunicação discursiva seria quase impossível. Não são raros os casos de pessoas que, mesmo conhecendo a língua sobremaneira, não se desempenham satisfatoriamente quando precisam participar de alguma atividade que demande um gênero específico, como no caso de variadas atividades orais. Bom exemplo dessa situação é o seminário da esfera escolar, que exige, além de capacidade de oratória, o monitoramento dos tons da voz, dos gestos corporais, da respiração, das pausas, conhecimento do assunto a ser tratado, preparação do conteúdo, planejamento da escrita, entre 52 outros aspectos relevantes do gênero, conforme elucida Ferreira (2009). Nessa situação — apresentação de um seminário, na esfera escolar — muitas pessoas ficam totalmente inseguras por não dominarem tal prática social, por não estarem familiarizadas com o gênero em questão. Consequentemente, quanto maior número de diferentes formas de dizer forem dominadas por nós, maior facilidade teremos em empregá-las adequadamente nas diversas situações comunicativas e melhores condições teremos para interferir nos problemas da nossa comunidade, lutando por nossos direitos e cumprindo nossos deveres, participando efetivamente na vida social. Dessa forma, a apropriação de inúmeros gêneros, não só os orais como também os escritos, permitir-nos-á dominar o uso variado da linguagem em situações públicas. Em síntese, o próprio pensador russo (2003[1952-1953], p. 285) explica: Muitas pessoas que dominam magnificamente uma língua sentem amiúde total impotência em alguns campos da comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas de gênero de dadas esferas. Frequentemente, a pessoa que domina magnificamente o discurso em diferentes esferas da comunicação cultural, sabe ler o relatório, desenvolver uma discussão científica, fala magnificamente sobre questões sociais, cala ou intervém de forma muito desajeitada em uma conversa mundana. Aqui não se trata de pobreza vocabular nem de estilo tomado de maneira abstrata; tudo se resume a uma inabilidade para dominar o repertório dos gêneros da conversa mundana, a uma falta de acervo suficiente de noções sobre todo um enunciado que ajudem a moldar de forma rápida e descontraída o seu discurso nas formas estilístico-composicionais definidas, a uma inabilidade de tomar a palavra a tempo, de começar corretamente e terminar corretamente. Complementa ainda: Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (onde isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação; em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 285) [grifo nosso]. Sendo assim, o domínio do repertório de gêneros discursivos se faz necessário, uma vez que em todas as esferas da atividade humana, nas enunciações, a utilização da língua se realiza sempre em formas de enunciado típicos orais ou escritos, concretos e plenos. Na seção seguinte, abordamos as características do enunciado, unidade básica para a construção de um discurso, relacionadas com o conceito de compreensão responsiva e ativa, 53 visto que tais conceitos possuem grande relevância nos estudos de Bakhtin, pois possibilitam o tratamento da linguagem como um movimento de interlocução real e único. 2.2 Características do enunciado concreto e compreensão ativa Como vimos, no desenvolvimento teórico do Círculo de Bakhtin, é atribuída extrema importância não só ao estudo da natureza dos gêneros do discurso como também ao estudo da natureza do enunciado. Tais estudos visam a superar as noções simplificadas acerca da vida verbal, existentes na ciência da linguagem. Por outro lado, ―o estudo do enunciado como unidade da comunicação discursiva permitirá compreender de modo mais correto também a natureza das unidades da língua (enquanto sistema) — as palavras e orações‖, como bem destaca Bakhtin (2003[1952-1953], p. 269, grifo do autor). O enunciado é a unidade concreta da comunicação verbal, pois está em contato direto com a realidade humana e ocorre na relação entre os diferentes falantes. Para a concepção bakhtiniana, o enunciado concreto possui determinadas particularidades constitutivas — indissociáveis — que devem ser, adequadamente, consideradas numa interação orgânica. Constituem tais particularidades: a alternância dos sujeitos falantes; o acabamento específico do enunciado, o tratamento exaustivo do objeto de sentido, o intuito, o querer dizer do locutor, as formas típicas de estruturação do gênero do acabamento; a relação do enunciado com o próprio locutor (com o autor do enunciado), e com os outros parceiros da comunicação verbal (SOUZA, 1999, p. 94) [grifo do autor]. Dito de outro modo, o processo de interação é marcado pela alternância dos indivíduos no discurso, cuja troca ocorre ―porque o falante disse (ou escreveu) tudo o que quis dizer em dado momento ou sob dadas condições‖ (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 280, grifo do autor). Tal interação é marcada ainda pela conclusibilidade específica, a qual depende, entre outros fatores, do querer dizer do falante. Seu intuito discursivo é realizado a partir da seleção de um gênero. Essa escolha é determinada não só pela especificidade de uma dada esfera como também pela necessidade de uma temática, pela situação real da comunicação discursiva e pelo conjunto de participantes, dentre outros. Como vimos, a relação do enunciado com os parceiros/interlocutores da comunicação social constitui-se em outra 54 particularidade constitutiva do enunciado, já que sem essa parceria não poderia haver enunciados (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 305). Na comunicação discursiva, cada interlocutor assume uma posição valorativa em relação a algum discurso de algum participante de determinada esfera, o que equivale a dizer que todo enunciado é sempre heterogêneo, pois revela duas posições sociais e históricas. Nessa direção, Marchezan (2008) explica que o enunciado de um locutor apresenta-se de modo acabado e provoca, obviamente, como resposta, o enunciado do outro. Todavia, essa réplica ―é apenas relativamente acabada, parte que é de uma temporalidade mais extensa, de um diálogo social amplo e dinâmico‖ (idem, p. 117). Ainda nesse sentido, Bakhtin (2003[1952-1953], p. 271) elucida que, numa enunciação, ao receber e compreender a significação (linguística) de um enunciado, o interlocutor, simultaneamente, adotará em relação a esse discurso uma atitude responsiva, posicionando-se. Dessa forma, é importante percebermos a introdução de outro conceito presente na teoria bakhtiniana, o de compreensão ativa e responsiva. Para o autor, toda compreensão de um discurso, falado ou escrito, implica uma responsividade, uma compreensão ativa e responsiva e, consequentemente, um juízo de valor, pois ―toda compreensão é prenhe de resposta‖ (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 271) e, de uma forma ou de outra a produz. Nesse cenário, o locutor se torna interlocutor, obrigatoriamente. É o que acontece, por exemplo, numa conversa qualquer, em que o interlocutor, ao apreender o tema do discurso do seu locutor, além de conseguir perceber a conclusão, a finalização da fala do seu companheiro, assume uma atitude. Nesse instante, ocorre, então, a troca do turno, em que as posições de locutor e interlocutor se invertem. Isto posto, podemos constatar que o enunciado concreto pressupõe sempre uma alternância dos sujeitos envolvidos na comunicação verbal; é essa transferência da palavra ao outro que delimita tal enunciado. Conforme Bakhtin (2003[1952-1953], p. 275), é no diálogo real que ―se alternam as enunciações dos interlocutores (parceiros do diálogo)‖. O filósofo diz ainda que todo enunciado se constitui a partir de outros e é sempre uma réplica a eles, uma vez que não existe um enunciado adâmico, primeiro, que tenha se produzido sozinho. Segundo Bakhtin (2003[1952-1953], p.272), ―cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados‖, os quais estão sempre carregados de ideologia, de intenções e de valores, repletos de vozes sociais, determinadas e constituídas sócio-historicamente. Por isso, o autor defende que o enunciado não pode ser reduzido à mera abstração, já que está diretamente relacionado aos acontecimentos concretos entre pessoas, que utilizam a 55 palavra como uma ―ponte‖, num contexto preciso. Nessa relação dialógica, essa ponte une os sujeitos, cada qual ―povoado‖ de vozes sociais, construídas ao longo da história. Essas vozes promovem embates, polemizam, debatem, refutam, debocham, apoiam, questionam, concordam entre si. Nas duas seções precedentes, abordamos alguns conceitos que julgamos relevantes não apenas para nossa pesquisa como também para a compreensão do conceito de gênero do discurso. Ressaltamos que não basta ter o domínio da língua; é preciso, para além disso, dominar as formas discursivas dos diferentes gêneros. É partindo desse pressuposto — de que é preciso dominar os diversos gêneros para exercer efetivamente a cidadania — que defendemos o ensino de LP baseado nessa perspectiva enunciativo-discursiva. Mas, antes, devemos entender a diferença entre duas classificações comumente usadas na esfera acadêmica com ressonâncias para a esfera educacional, a saber, gênero textual e gênero discursivo. 2.3 Gêneros discursivos e gêneros textuais O conceito de gênero discursivo e/ou textual, no Brasil, tem tido grande destaque nas discussões atuais sobre o ensino de LP. Tais discussões têm se ampliado na Academia, em função das incontáveis pesquisas sobre o assunto, levantando aspectos relevantes que, certamente, contribuem para o avanço nos debates sobre ensino-aprendizagem de leitura e escrita a partir de gêneros. A adoção do conceito de gênero nas aulas de língua materna se insere no cruzamento de percursos históricos resultantes da crescente preocupação com questões relacionadas aos direitos humanos e à cidadania e advindos da necessidade de renovação do ensino, que tem por obrigação acompanhar as mudanças sociais, históricas e científicas, como bem explica Figueiredo (2005). Essa autora faz uma breve retrospectiva das transformações ocorridas no ensino de LP desde sua introdução no currículo escolar brasileiro, no século XIX, a fim de melhor situar a inserção dos gêneros no ensino. A pesquisadora brasileira esclarece que, nesse período, a única preocupação do ensino era alfabetizar, através da norma culta, alunos, filhos de fazendeiros, provindos da classe nobre. Só mais tarde, o ensino de LP foi estendido ―a toda série escolar‖, utilizando-se como modelo o mesmo utilizado na disciplina de latim, ou seja, um estudo baseado exclusivamente nos manuais de gramática normativa e nas ontologias literárias, permanecendo assim até os anos 1950, período de grande expansão industrial. Nos anos 1960 e 1970 houve outras 56 mudanças. As novas perspectivas de ensino, apesar de manterem o foco no estudo da gramática normativa, buscaram valorizar a criatividade dos alunos, com o intuito de desenvolver neles a eficiência da comunicação e da expressão. Nessa época, com a democratização do ensino, vários alunos, oriundos das mais diversas camadas sociais e culturais, tiveram acesso à escola. Isso implicou, certamente, no aumento de professores, que, para atender à demanda, tiveram uma formação rápida, nem sempre de qualidade. Independentemente disso, o ensino permanecia ―direcionado‖ àqueles de classe média e alta, uma vez que se priorizava a norma culta da língua. Isso fez com que o índice de evasão e repetência aumentasse, evidenciando, assim, a fragilidade dos métodos e dos conteúdos de ensino. A partir disso, no fim dos anos 1970 a 1990, embora apoiadas no ensino gramatical, as aulas de LP começaram a enfatizar a leitura e a produção textual, incorporando as teorias da linguística textual. Entretanto, por estarem presos aos antigos métodos, os professores passaram a se basear numa espécie de gramaticalização do texto, o que não propiciou à maioria dos alunos a performance esperada. Nesse momento, novas demandas sociais emergiram quanto ao uso da leitura e da escrita, passando a exigir do ensino de LP uma nova postura. Podemos perceber que é, exatamente, a partir da busca por um norte, por um redirecionamento do ensino de língua materna, que se chegou, através dos documentos oficiais, influenciados pela Constituição (1988), pelo Plano Decenal (1993), pela Lei de Diretrizes e Bases, doravante LDB, (1996), entre outros, à proposta dos gêneros como objetos de ensino-aprendizagem de LP, a fim de atender às múltiplas demandas sociais, respondendo, assim, a diferentes propósitos comunicativos. Diante do exposto, podemos pensar que a adoção do gênero surge como respostas às necessidades de novas compreensões sobre língua e linguagem, presentes numa sociedade moderna, competitiva, em constante mutação. Esse conteúdo emerge como uma nova proposta de trabalho pedagógico, totalmente dialógica, que assume a linguagem como interação social, orientada por uma finalidade específica, como um processo de interlocução que se realiza nas práticas sociais, existentes nos diferentes grupos de uma sociedade. Como consequência da adoção desse paradigma pelos documentos oficiais, hoje, nos estudos de língua e linguagem, temos encontrado diferentes abordagens sobre os gêneros. Comumente, deparamo-nos com duas expressões para se referirem a esse conceito, a saber, ―gêneros discursivos ou do discurso‖ e ―gêneros textuais ou de texto‖. Ambas as vertentes são tratadas, muitas vezes, como se fossem sinônimas, como se tivessem o mesmo objeto de 57 estudo, o mesmo referencial teórico, enquanto que, na verdade, o conceito de gênero é retomado por diversos autores, os quais o reelaboram dentro de suas próprias percepções, como bem ressaltam Barbosa (2001), Rojo (2005) e Figueiredo (2005). Sobral (2007, p. 2107) também discute tais objetos, argumentando em favor de uma definição mais precisa, pois a seu ver ―a expressão ‗gênero textual‘ tem permitido ou autorizado em alguns casos uma compreensão errônea do conceito de discurso e mesmo de gênero, o que prejudica a riqueza e virulência desses dois conceitos‖. Rojo, ao estudar tal questão, faz um apanhado sobre as distinções entre essas duas correntes, discutindo perspectivas teóricas relevantes que as embasam. A autora assevera que ambas as vertentes encontram-se enraizadas em diferentes releituras da herança bakhtiniana, sendo que a primeira — teoria dos gêneros do discurso — centrava-se sobretudo no estudo das situações de produção dos enunciados ou textos e em seus aspectos sócio-históricos e a segunda — teoria dos gêneros de texto —, na descrição da materialidade textual (ROJO, 2005, p.185) [grifo da autora]. De acordo com a linguista aplicada, Bakhtin e seu Círculo são referência para os gêneros discursivos, enquanto que para os gêneros textuais o são Bronckart e Adam. No Brasil, existem vários estudiosos que discutem, comentam e adotam a terminologia ―gêneros discursivos‖, entre eles, Brait, Castro e Faraco; já Marcuschi e Nascimento adotam ―gêneros textuais‖. Segundo Rojo (2005), os conceitos de gênero textual e de gênero discursivo não podem ser tomados como sinônimos, pois existe entre eles uma diferença fundamental: o primeiro privilegia o textual, os aspectos linguísticos, e o segundo considera o texto, sua estrutura, o projeto enunciativo e a esfera social em que surgem e circulam os gêneros. No processo de ensino-aprendizagem, na perspectiva teórica bakhtiniana, um estudo sobre determinado gênero não pode ser visto simplesmente como elaboração de uma ―descrição‖ desse gênero, pois essa postura implica um apagamento do caráter dialógico da linguagem e anula a dimensão social constitutiva do gênero. Além disso, dissipa sua rica contribuição como aspecto fundamental ao desenvolvimento da cidadania crítica e democrática. Portanto, é pertinente pensar que a compreensão das diferenças teóricas existentes entre essas duas correntes, bem como das consequências para o processo de ensinoaprendizagem de língua materna, é de grande importância, já que a escolha de uma em detrimento da outra pode refletir aspectos fundamentais na educação. 58 O ensino dos gêneros, certamente, só terá sentido garantido se for compreendido e trabalhado de forma clara, no que tange à perspectiva adotada, tanto para os professores quanto para os alunos. Essas questões precisam ser consideradas, uma vez que os PCNLP (BRASIL, 1998) adotam o gênero como objeto de ensino de LP para o trabalho docente. É visível nesses documentos a presença das mais variadas perspectivas teóricas, inclusive no que se refere a esse objeto, já que podemos observar, ao longo do texto, tal conceito, do pensamento bakhtiniano, mesclado a outro, proveniente de outra fonte teórica. Isso quer dizer que, nessas diretrizes curriculares, por vezes, as diversas teorias foram abordadas, indiscriminadamente, não sendo explicitadas e nem separadas, devidamente. No entanto, de acordo com Brait (2000), não haveria problema nisso caso não se estabelecessem confusões entre a concepção bakhtiniana de gênero discursivo e outras teorias sobre tipologias textuais, ―como se pode perceber no conjunto das sugestões do documento em contraste com um percurso, grosso modo, dos escritos bakhtinianos que constroem a concepção de gênero‖ (BRAIT, 2000, p. 18). Mesmo diante dessa constatação, é inegável que os documentos oficiais, resultantes de inúmeros estudos, impulsionaram as pesquisas sobre gêneros (textuais ou discursivos), assim como é inegável que tais tipologias estão presentes no ensino de Língua Portuguesa. Contudo, é preciso atentar para as distinções existentes entre os dois conceitos. Brait (2000) advoga em favor dos gêneros discursivos, de base bakhtiniana, já que esses, diferentemente das tipologias textuais, são pensados sempre a partir da esfera de atividade, implicadas aí as condições de produção, circulação e recepção. Sem dúvida, isso tudo [...] é muito mais importante e constitutivo do gênero discursivo, segundo Bakhtin, que as sequências de um texto, das quais as várias tipologias textuais dão conta, não tocando, entretanto, em esfera de atividades ou modos de circulação, o que descaracteriza a perspectiva sócio-histórica de gênero discursivo (BRAIT, 2000, p. 20) [grifo da autora]. Barbosa (2000) também defende a eleição dos gêneros discursivos no ensino de língua, conforme percepção bakhtiniana, já que essa noção [...] permite incorporar elementos da ordem do social e do histórico [...]; permite considerar a situação de produção de um dado discurso (quem fala, para quem, lugares sociais dos interlocutores, posicionamentos ideológicos, em que situação, em que momento histórico, em que veículo, com que objetivo, finalidade ou intenção, em que registro, etc.); abrange o conteúdo temático [...], a construção composicional [...] e seu estilo verbal (BARBOSA, 2000, p. 1542) [grifo da autora]. 59 Essa autora acrescenta ainda várias outras razões de ordem pedagógica para o trabalho com os gêneros do discurso — bakhtiniano — como objeto de ensino-aprendizagem de LP, como seguem: A consideração dos gêneros do discurso possibilita uma maior especificação da qual o termo letramento ou práticas letradas parece carecer; Através do trabalho com diferentes gêneros do discurso e da consideração dos gêneros primários e secundários e de suas interrelações é possível pensar numa solução de continuidade entre o desenvolvimento da oralidade e da escrita; A consideração dos gêneros do discurso permite um melhor tratamento da oralidade, que nessa perspectiva, passa a ser focada sempre em relação aos gêneros orais; Os gêneros seriam mega-instrumentos, que incluiriam outros instrumentos, consideração essa que fornece pistas a propósito do que ensinar e do como ensinar de forma contextualizada; O trabalho baseado em gêneros permite a integração contextualizada de atividades de compreensão, produção de textos e análise linguística; A escolha de gêneros do discurso fornece parâmetros e princípios que impediriam a construção de propostas curriculares demasiadamente abertas, desarticuladas, garantindo uma maior eficácia das mesmas; O trabalho com os gêneros do discurso, ao mesmo tempo em que supõe o uso de competências, favorecem seu desenvolvimento, na medida em que pressupõe relações de diferentes naturezas (linguísticas, textuais, discursivas etc.) (BARBOSA, 2001, p. 107). Estamos de acordo com o posicionamento da pesquisadora, por acreditarmos que, no trabalho escolar, o ensino-aprendizagem de escrita através dos gêneros contribui, de fato, para desenvolver no aluno as capacidades (linguísticas e discursivas) necessárias para a comunicação, para ajudá-lo a adaptar suas atividades linguísticas, com sucesso, aos eventos sociais, de letramento. Além do mais, esse trabalho lhe permite expandir as inúmeras possibilidades do uso da língua em qualquer forma de realização, nas mais variadas situações, uma vez que em todos os campos de atividades humanas são produzidos diversos gêneros. Aliás, sabemos que, no mundo atual, a plena cidadania exige o domínio do maior número deles, dos variados letramentos, e o sucesso do aluno tanto na escola como na vida social passa, sem dúvida, pelo domínio dos diferentes gêneros discursivos. Na seção seguinte, abordamos o conceito de letramento, advogando a favor da articulação de tal noção ao conceito de gênero discursivo, no processo de produção textual. 60 2.4 Letramento no ensino de Língua Portuguesa Sem a intenção de fazer aqui uma retrospectiva histórica, tecemos algumas considerações sobre o conceito de letramento14, por considerarmos sua inserção como um marco que redimensionou, ou ao menos influenciou, o ensino de LP e por concordamos, juntamente com vários pesquisadores, que essa acepção associada ao conceito de gênero discursivo pode contribuir para o desenvolvimento de capacidades e competências dos alunos, levando-os ao exercício pleno da cidadania. Tal conceito, também contido nos PCNLP (BRASIL, 1998), tornou-se ―moeda corrente‖ no debate pedagógico. Noutras palavras, esse conceito tem sido discurso frequente no meio educacional brasileiro e, apesar das várias óticas sob as quais é compreendido, o que parece comum, hoje, é a ideia de letramento a partir das situações cotidianas que envolvem a escrita. Esse termo está ligado às mudanças ocorridas ao longo dos anos, ou seja, à crescente complexidade existente em nossa sociedade, que a cada dia faz surgir novas exigências de práticas de leitura e escrita. Assim, percebemos os fortes apelos que o mundo letrado tem exercido sobre as pessoas, uma vez que já não basta saber desenhar letras ou decifrar códigos; hoje é preciso bem mais do que isso: entender os significados e usos das palavras nos diversos contextos, ser um indivíduo crítico, atuante e envolver-se nas diferentes atividades sociais. No intuito de situar melhor essa questão, isto é, o aparecimento15 desse conceito — letramento — em alguns países, Paes de Barros (2005), baseada nos estudos de Lahire (1999), explica que o termo illettrisme surgiu na França, em virtude da observação de que a maioria das pessoas, mesmo alfabetizadas, não dominavam suficientemente bem a escrita nas situações que a exigiam, seja no trabalho ou na vida pessoal. O mesmo problema ocorreu nos Estados Unidos, onde avaliações com alunos de escolas de Ensino Médio indicaram que esses jovens tinham grande dificuldade de leitura. Faltava-lhes, pois, o domínio das capacidades de uso de leitura e escrita nas práticas requeridas socialmente. Situação semelhante também ocorreu no Brasil, a partir dos anos 1980, em que essa falta de domínio das competências de leitura e escrita dos alunos intensificou a preocupação dos estudiosos, gerando inúmeros questionamentos sobre o assunto. A noção de letramento, 14 Kleiman (1995) e Soares (1998) sugerem que o termo ―letramento‖ teria sido usado, no Brasil, pela primeira vez, por Mary Kato, na obra ―No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística‖, em 1986. 15 Soares (2000) elucida, porém, que não se trata exatamente do aparecimento de um novo conceito, mas, sim, do reconhecimento de um fenômeno, o qual permaneceu imerso, até então, já que não tinha, ainda, uma significação social, como agora. 61 no país, está associada à erradicação do analfabetismo, como explica Soares (1998, p. 45), uma das principais pesquisadoras do tema no país: à medida que o analfabetismo vai sendo superado, um número cada vez maior de pessoas aprende a ler e a escrever, e à medida que, concomitantemente, a sociedade vai se tornando cada vez mais centrada na escrita (cada vez mais grafocêntrica), um novo fenômeno se evidencia: não basta apenas aprender a ler e a escrever (SOARES, 1998, p. 45). De acordo com a pesquisadora, a partir daquela década, no contexto escolar, vários estudiosos chegaram à conclusão de que somente a alfabetização não era suficiente para que os alunos entendessem as situações de interação social envolvendo o texto escrito. A falta dessa compreensão favorecia a exclusão social. Kleiman (1995, p. 19), outra estudiosa do assunto, esclarece, em linhas gerais, que, naquele período, o letramento poderia ser conceituado ―como um conjunto de práticas sociais que usa a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos‖, salientando ainda que essa concepção não se limitava aos eventos mediados pelo texto escrito, mas abrangia também a oralidade. A pesquisadora (1998, p. 181-182) considera que ―uma atividade que envolve apenas a modalidade oral, como escutar uma notícia de rádio, é um evento de letramento, pois o texto ouvido tem as marcas de planejamento de lexicalização típicas da modalidade escrita‖. Para essa autora, os estudos sobre letramento analisam o desenvolvimento social que acompanhou a expansão dos usos da escrita desde o século XVI e, aos poucos, vêm se alargando, até os dias atuais, para descrever, sobretudo, as condições de uso dessa prática. Compreendendo tal conceito como prática e evento social relacionados com uso, função e impacto social da escrita, a estudiosa ainda reitera que o conceito de letramento foi inicialmente usado nos meios acadêmicos, justamente para fazer a separação entre alfabetização e impactos da escrita. Por isso, chama a atenção para os estudos sobre alfabetização, os quais tinham como destaque as competências individuais dos alunos, deixando de lado o desenvolvimento de um pensamento crítico e reflexivo. Sobre isso, Kleiman (2005) reforça mais uma vez que letramento não significa alfabetização, mas a inclui. Ambos os conceitos estão intimamente associados, pois se o letramento é o conjunto de atividades que envolvem a língua escrita, para alcançar certo objetivo em uma dada situação prática, tais como escrever carta, enviar um email e assistir a uma palestra, a alfabetização é uma prática de letramento! Afinal, em certa medida, ela faz 62 parte do conjunto de práticas sociais do uso da escrita da escola, denotando, um conjunto de conhecimento sobre o código escrito. Por conta disso, o domínio do sistema alfabético e ortográfico pode ser destacado como um dos fatores que tornam uma pessoa plenamente letrada (o que é quase impossível, naturalmente), ou seja, a autora advoga a favor da alfabetização como uma prática escolar essencial a todos, pois lhes permite a participação de forma autônoma nas variadas práticas de letramento. Antes disso, defende tal ensino como prática contextualizada, vinculada às situações sociais concretas. Isso equivale a dizer que, no ensino de língua escrita, mais do que ensinar as normas ortográficas, é preciso que se tenha uma especificidade, um ensino sistemático e sequencial, que considere a apropriação das práticas sociais de uso da linguagem. Para Rojo (2009b), é através das diferentes práticas sociais de letramento exercidas nos variados contextos que se constituem os níveis de alfabetismo de cada pessoa. A pesquisadora entende o alfabetismo como algo complexo, pois envolve um conjunto de competências e habilidades de leitura e escrita, ligeiramente diferentes, mas ligadas entre si. Conforme vimos, o termo letramento surgiu para nomear fenômenos mais abrangentes que a alfabetização, e a necessidade de se compreender tal concepção fez situar a alfabetização como um processo demarcado por duas vertentes, a saber, a aquisição da escrita e a possibilidade do seu uso nas situações sociais. Soares (1998) diferencia os termos: o primeiro refere-se ao fato de alguém saber ler e escrever, e o segundo se refere não só ao fato de saber ler e escrever, como também de usar tais recursos nas práticas sociais diárias. No processo de compreensão do termo letramento, Street (1984), citado por Kleiman (1995, 2005, 2007), Soares (1998), Paes de Barros (2005), Rojo (2009b), dentre outros, descreve dois modelos opostos de letramentos: o modelo autônomo — que entende a escrita como um produto acabado, desconsiderando o contexto sociohistórico — e o modelo ideológico — que considera o letramento como uma prática social e não como uma habilidade técnica e neutra. Como é uma prática social, está vinculada ao contexto histórico em que é construída, é influenciada pelas relações de poder, pelas condições socioeconômicas, culturais e políticas. Nessa perspectiva, o letramento acontece além do contexto escolar, proporcionando ao aluno a interação nas práticas sociais em busca de mudanças. É inevitável reconhecer que o letramento possui grande importância no ensino atual, já que enfatiza o conhecimento do aluno constituído no social, envolvendo as práticas de escritas valorizadas e as não valorizadas. Ao reconhecer a importância do letramento do aluno, a 63 escola deve considerar os aspectos sociodiscursivos, abandonando métodos de aprendizado descontextualizados, focados somente no individual. Sobre a importância dessa concepção, Barbosa (2001) não só ressalta sua relevância no âmbito educacional, como também pontua, sobretudo, um problema que se coloca para a área de ensino de LP, no que se refere à generalização e à indeterminação que o termo letramento encerra. Para tratar de tal generalização e indeterminação, essa estudiosa parte da seguinte suposição: será que uma pessoa mais letrada tem a oportunidade de se sobressair melhor em uma determinada situação comunicativa? Segundo a autora, isso dependerá do modo como se concebe pessoa letrada, pois, para o modelo ideológico, diferentemente do autônomo, se os eventos (sociais) comunicativos de que um sujeito participa forem variados e lhe permitirem a apropriação de diversos gêneros, ele — certamente — se sairá bem numa situação real. Deve-se atentar, porém, para o fato de que talvez não exista uma pessoa 100% letrada (que domine todos os gêneros e se destaque em todos os campos de atividades humanas). Poderá chegar um momento em que esse sujeito letrado precisará utilizar um gênero do qual ainda não se apropriou e terá uma performance insatisfatória, conforme vimos anteriormente. Desse modo, percebemos que Barbosa (2001) advoga a favor da relação direta entre os gêneros do discurso e os variados letramentos existentes na sociedade, pois afirma que tal conceito envolve, naturalmente, as diferentes formas de dizer. Por isso, assegura que o nível de letramento de um sujeito é determinado pela variedade de gêneros que ele reconhece e domina. Portanto, aceitando essa posição e concordando com ela, relacionamos aqui alguns exemplos de práticas de letramentos, trazidas por Rojo (2009b) — acesso à conta bancária pelo computador, realização de troco, escrita de bilhete, realização de depósito, exposição de aula, apreciação de novela e de telejornal — com outros exemplos de gêneros, propostos por Dolz e Schneuwly (2004, p. 142, grifo dos autores), quando dizem que cada um de nós, um dia ou outro, conta uma fábula a uma criança, assiste à exposição de um professor, a uma conferência pública, apresenta as regras de um jogo a um grupo de amigos, estabelece um diálogo para pedir informações num guichê, apresenta-se para uma entrevista profissional para obter um emprego, escuta conversas, entrevistas ou debates no rádio ou na televisão. Todos esses eventos concernem não apenas a práticas de letramentos bem como a práticas cotidianas envolvendo gêneros discursivos realizadas em diferentes esferas de 64 comunicação social. Ou, como nos lembra Silva (2009), as diferentes agências de letramento, tais como a família, a igreja, a escola e a rua, são organizadas por diferentes gêneros, cada qual responsável pelas singularidades dos funcionamentos das práticas de letramento que lhes são características: ―os gêneros conversa espontânea, telefonema, carta e bilhete, por exemplo, organizam o funcionamento da interação no espaço social da família‖ (SILVA, 2009, p. 145). Em relação aos estudos sobre letramentos associados aos gêneros discursivos, pensemos, então, que isso tudo traz para a escola uma maior responsabilidade de ―significar‖ o ensino de língua materna, a fim de possibilitar ao aluno a apropriação e o domínio dos diversos gêneros que transitam na sociedade, sobressaindo-se em todos os setores da vida social. Compreendemos, de tal modo, o domínio dessas práticas (o domínio de diferentes gêneros) como verdadeira condição para a inclusão e a inserção sociais e, especialmente, para o exercício real da cidadania, pois é preciso responder aos inevitáveis apelos de uma sociedade grafocêntrica altamente competitiva. É aqui que se coloca o papel essencial da escola. Nesse sentido, Barbosa (2001) prossegue defendendo que a noção de letramento, para ser mais proveitosa, também, seja acompanhada de certa especificação, já que existem vários letramentos, no plural, estritamente vinculados a seus diferentes contextos de ocorrência. Rojo (2009b) explica que tal conceito, agora, passa a ser plural, dividindo-se em letramentos institucionalizados/dominantes e letramentos locais/vernaculares, vinculados entre si. Esses últimos estão associados a organizações informais, não valorizadas, originadas nas culturas locais e no cotidiano; notadamente, tal ―modelo‖ de letramento é excluído pela cultura oficial. A gíria de internet, o ―internetês‖, e a língua tradicional e cotidiana do caipira, o ―caipirês‖, ilustram alguns exemplos desse letramento. Aqueles outros (letramentos institucionalizados/dominantes) estão associados às organizações formais e valorizadas, tais como igreja e escola. Essas, como as demais, pressupõem agentes culturalmente reconhecidos: pastores e professores (ROJO, 2009b). Reiterando, então essa proposta, Rojo (2009b) teoriza que as abordagens mais recentes, ou seja, os novos estudos do letramento têm apontado para outro rumo: para a heterogeneidade dos eventos sociais de leitura, escrita e uso de linguagem, para as características socioculturais dessas práticas nas diversas situações comunicativas. Por conta disso afirma que é preciso reconhecer na sociedade os múltiplos letramentos, os quais variam no tempo e no espaço e são, por vezes, contestados nas relações de poder (STREET, 2003 apud ROJO, 2009b, p. 102). Ao considerar os letramentos múltiplos, compreendemos que a 65 escola, como instituição ética e democrática, deve preservar os letramentos informais dos envolvidos, proporcionando-lhes o contato com novos letramentos institucionalizados e o acesso a espaços valorizados, tais como museu, teatro e bibliotecas. Portanto, sobre o letramento, vale destacar, ainda uma vez, o fato de, atualmente, vivermos numa época de profundas transformações sociais, alavancadas pelo processo de globalização, em que o domínio da escrita — dos letramentos — materializados em gêneros — é fundamental para a conquista da cidadania, a real participação crítica, reflexiva e consciente numa comunidade ultramoderna. Em linhas gerais, Kleiman (2005) compreende que o letramento envolve não só a imersão do aluno no mundo da escrita, sua participação em práticas sociais que usam tal modalidade, mas também a compreensão dos sentidos de um texto escrito, numa dada situação. Além disso, engloba ainda um conjunto de habilidade (rotina de como fazer) e de competência (capacidade concreta para fazer algo), que precisa ser desenvolvido em cada pessoa. Todas essas questões acerca do letramento trazem para a instituição escolar, principal agência de letramentos, a responsabilidade de ensinar ao aluno, portanto, as habilidades necessárias para participar de eventos de letramentos relevantes para a inserção e participação social; ensinar como se age nos eventos de instituições cujas práticas de letramento vale a pensa conhecer; criar e recriar situações que permitam aos alunos participar efetivamente de práticas letradas (KLEIMAN, 2005, p. 18). É valido reiterar que, no cenário atual, a escola precisa voltar sua atenção, de modo especial, para promoção e para o desenvolvimento das capacidades dos alunos, a fim de tornálos indivíduos aptos não só para a disputa de vagas num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, mas, prontos, para o enfrentamento de outras situações impostas pela sociedade. Esse mundo moderno tem exigido cada vez mais sujeitos proficientes, usuários eficazes de sua própria língua. As mídias tecnológicas têm disponibilizados diversos tipos de informações em segundos a todos que as acessam; no entanto, diante disso, o que podemos perceber é que, ultimamente, ―as pessoas estão obesas de informação e anoréxicas de reflexão, de conhecimentos16‖, pois, certamente, o conhecimento não consiste, somente, em 16 Citação feita por Geraldi (2009), durante o evento Círculo Rodas de Conversa Bakhtiniana, sobre o tema ―O humano e as subjetividades na contemporaneidade‖, em 08/11/2009, no prédio AT2, área Sul, da Universidade Federal de São Carlos. 66 guardar e acumular informações, mas em absorvê-las, filtrá-las e aplicá-las à prática, à vida cotidiana. Para tanto, é preciso, obviamente, transformar informações em conhecimento. Barbosa (2001), ao se referir à informação disponível nos ambientes comunicacionais, defende que é preciso não só saber buscar a informação, mas também saber descobrir se ela procede ou não. É necessário ter sensibilidade aguçada e ser crítico para selecioná-la e usá-la apropriadamente para um determinado fim. Enfim, para que o sujeito possa agir em uma situação real, na resolução de problemas, ele precisa ser competente em sua língua, dominando-a, mobilizando e relacionando os vários saberes, cujo domínio já tem, além dos recursos disponíveis. Afinada a esse discurso, Rojo (2009b) destaca que atualmente no ensino não se trata mais de acumular conhecimento, ao contrário: ―a formação do aluno deve ter como alvo principal a aquisição de conhecimentos básicos (...), a preparação científica e a capacidade para utilizar as diferentes tecnologias relativas às áreas de atuação‖ (idem, p. 89, grifo nosso). Em virtude disso, acreditamos que para trazer, de fato, a linguagem para o centro de atenção na vida escolar, é preciso focalizar no desenvolvimento das capacidades de linguagem dos alunos, sobretudo, no que tange ao processo de escrita, porque tal prática, naturalmente, envolve um conjunto de habilidades que vão além do simples codificar e grafar de acordo com a norma padrão culto da língua. É preciso mais que isso: ―textualizar, estabelecer relações e progressão de temas e ideias, providenciar coerência e coesão, articular o texto a partir de um ponto de vista levando em conta a situação e o leitor etc.‖ (ROJO, 2009b, p. 44-45). Nessa mesma direção, na seção seguinte, tratamos das capacidades de linguagem implicadas no ensino-aprendizagem de escrita, propostas por Dolz e Schneuwly (2004). 2.5 Capacidades de linguagem Nosso objetivo é fazer um breve esboço sobre as capacidades de linguagem envolvidas no processo de produção de textos, tomando como referência principal os escritos dos pesquisadores da Universidade de Genebra, os quais influenciaram a produção dos documentos oficiais de educação no Brasil. Conforme uma tendência mundial, temos percebido nos discursos dos PCNLP (BRASIL, 1998) a necessidade de centrar o ensino-aprendizagem de LP no desenvolvimento de competências/capacidades em lugar de centrá-lo no conteúdo conceitual, valorizando, desse modo, a linguagem, ou melhor, os gêneros discursivos, no seu uso social. Atualmente, 67 os gêneros são compreendidos não só como entidades culturais que possibilitam a comunicação humana, mas também como instrumentos de ensino escolar, porquanto possibilitam a comunicação humana, além de possuir características próprias, permitindo a um só tempo, a produção e a compreensão de textos. Sob tal lógica, para o domínio dessas práticas, faz-se necessário que o aluno mobilize as capacidades de linguagem, haja vista que elas evocam aptidões exigidas no momento de produção e/ou compreensão de um gênero, numa dada situação de interação social (DOLZ; SCHNEUWLY, 2004). Isso significa dizer que toda ação de linguagem implica diferentes capacidades por parte do indivíduo. Segundo Dolz e Schneuwly (2004), essas capacidades dizem respeito à capacidade de ação, que se refere à adaptação das características do contexto de produção de um texto; a capacidade discursiva, que corresponde à mobilização de modelos discursivos, da forma composicional de cada gênero, e a capacidade linguístico-discursiva, que se volta para o domínio das operações psicolinguísticas e das unidades linguísticas que tornam o texto coerente. Para esses estudiosos, as capacidades de linguagem se ligam a aspectos cognitivos, ao intelecto. Além do mais, são construídas, sobretudo, pela apropriação de instrumentos semióticos, no contexto social. Assim, a criança, desde cedo, em contato com sua cultura, nas conversas e brincadeiras, já constrói suas capacidades comunicativas. Nesse sentido, o indivíduo que age sobre o mundo por meio de instrumentos complexos disponíveis na sociedade (no caso, os gêneros) edifica novas funções psicológicas, novas capacidades, transformando seu próprio funcionamento psíquico. Por isso mesmo, tais funções não devem ser vistas como um dom inato, mas determinadas pelas condições sócio-históricas de cada sujeito. Em relação ao trabalho com a língua(gem) escrita, especialmente, Dolz e Schneuwly (2004) propõem que os gêneros devem ser explorados de maneira que essas capacidades possam se desenvolver no ambiente escolar. Nesse processo, em que o domínio do gênero, instrumento historicamente constituído, pressupõe funções psicológicas, a interferência educativa possui papel fundamental, uma vez que dá forma especial ao desenvolvimento, colocando à disposição do aluno ferramentas de comunicação socialmente elaboradas, que lhe permitem construir essas funções. Noutros termos, a intervenção escolar é condição indispensável para o aparecimento de certas formas cognitivas complexas, a saber, as capacidades de linguagem. Para Schneuwly (2004, p. 120), ―a aprendizagem em meio escolar participa grandemente da apropriação de uma cultura de comunicação‖, convencional (ou não), necessária para a participação cidadã. 68 Compreendendo a importância do trabalho escolar para o desenvolvimento das capacidades de linguagem, Barros-Mendes (2005), partindo dos estudos genebrinos, complementa que a capacidade de ação está diretamente relacionada ao projeto de comunicação a ser realizado. Por isso, no ensino-aprendizagem de escrita de um gênero, por exemplo, é necessário focalizar as seguintes dimensões: planejamento — em que se deverá propor ao aluno um plano da atividade de linguagem a ser realizada; conteúdo — em que se demonstrará a importância do conteúdo, do assunto geral a ser tratado no projeto de escrita; e objetivos da atividade — em que se delimitará um objetivo claro e significativo para a escrita do aluno. A transparência na definição dessas dimensões contribui para fixar não só os parâmetros necessários para o preparo do contexto de escrita, como também o objeto de ensino-aprendizagem, em outros termos, o gênero a ser estudado (BARROS-MENDES, 2005). Em relação às capacidades discursivas, que estão diretamente ligadas à estrutura formal do texto, a autora alerta para o fato de que o gênero é, ao mesmo tempo, composto de sequências textuais (narrativas, descritivas, argumentativas, explicativas, dialogais), não se reduzindo, no entanto, a esses aspectos estruturais. Conforme vimos, as capacidades linguístico–discursivas se referem precisamente às operações (estilísticas) implicadas na produção do texto. Essas operações dizem respeito a: operações de conexão e segmentação (aquelas que articulam, por exemplo, os enunciados e os períodos); operações de coesão nominal e verbal (trata-se, sobretudo, da gestão dos tempos verbais); tomada de posição enunciativa (é aquela que contribui para o estabelecimento da coerência do texto); operações de construção de enunciados (pode ser uma cláusula, ou melhor, ―uma unidade de comportamento que introduz uma mudança no estado corrente da memória discursiva dos interlocutores‖ (DOLZ; SCHNEUWLY, 1998 apud BARROS-MENDES, 2005, p. 99); e escolha dos itens lexicais (é o conjunto de operações que possuem uma estreita interação com os outros níveis supracitados) A partir dessas informações, para uma maior visibilidade, Barros-Mendes (2005) elabora o seguinte quadro17 sinóptico das capacidades apontadas por Dolz e Schneuwly (1998). 17 É válido dizer que Barros-Mendes (2005, p. 121) elaborou esse quadro baseada nas capacidades de linguagem de Dolz e Schneuwly (1998), para verificar quais capacidades (orais) estavam presentes na didatização de alguns gêneros orais de uso público em livros didáticos de LP. Diante disso, esclarecemos que adaptamos esse quadro para nossa análise sob um outro olhar, tendo em vista nosso objeto de estudo: propostas de escrita, dentro de um material didático destinado à formação continuada de professores. 69 Quadro 1 - Síntese das capacidades de linguagem 1. CAPACIDADES DE AÇÃO (definição clara sobre o objeto, ou seja, sobre o gênero) a) Gênero: O LDP informa o gênero a ser trabalhado? b) Participantes: O LDP locutores/interlocutores? orienta, em relação a cada gênero, sobre os possíveis c) Contexto de produção textual: o LDP permite entrever o contexto onde o gênero será construído ocorrerá? d) Finalidade: O aluno sabe por que desenvolve a atividade num determinado gênero? É orientado no sentido de estar consciente de um trabalho que vise ao domínio de algumas capacidades de linguagem como aprender a explicar, refutar, se posicionar etc.? e) Conteúdo: Informa o conteúdo a ser trabalhado? 2. CAPACIDADES DISCURSIVAS (o que pode ser dito através desse objeto e a organização desse dizer no objeto, auxiliando tanto para o tema quanto à forma de composição do gênero) Elaboração dos conteúdos do gênero: O LDP fornece informações para a construção/elaboração dos conteúdos do gênero? a) Plano do texto/organização textual: a organização sequencial é indicada de acordo com o gênero? 3. CAPACIDADES LINGÜÍSTICO-DISCURSIVAS (como pode ser dito, auxiliando no estilo do gênero) a) Operações de textualização: orientação sobre a conexão/coesão de acordo com gênero. Por exemplo, o debate requereria o uso de conectivos de justificação/explicação (pois, porque) e contraposição (no entanto, mas, porém). b) Escolha lexical: O LDP orienta sobre o vocabulário apropriado ao gênero e conforme a situação de comunicação? c) Tomada de posição enunciativa ou ponto de vista enunciativo:o LDP trata das relações entre as diferentes vozes que podem aparecer dentro de um texto? Orienta as modalizações, apreciações valorativas etc.? (BARROS-MENDES, 2005, p. 121). Desse modo, acreditamos que a escola precisa desenvolver nos alunos essas capacidades, no intuito de que eles alcancem de fato uma mestria tanto dos gêneros como das situações de comunicação a que estes pertencem, para que possam participar plenamente da vida social, comunicativa, enfim, das atividades de linguagens. 70 Vale lembrar, mais uma vez, que essas ideias se aproximam do propósito de ensino atual, haja vista que os PCNLP (BRASIL, 1998) sugerem que os conteúdos de LP sejam vistos a partir dos diversos gêneros, visando ao desenvolvimento de competências/capacidades, pois, assim, Os sujeitos se apropriam dos conteúdos, transformando-os em conhecimento próprio, por meio da ação sobre eles, mediada pela interação com o outro. Não é diferente no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem. É nas práticas sociais, em situações linguisticamente significativas, que se dá a expansão da capacidade de uso da linguagem e a construção ativa de novas capacidades que possibilitam o domínio cada vez maior de diferentes padrões de fala e de escrita (BRASIL, 1998, p. 33-34) [ênfase adicionada]. Essas questões sobre interação, aprendizagem, desenvolvimento humano, apropriação de conhecimentos, entre outros elementos, mediados pela linguagem, serão brevemente abordadas na seção posterior, nas considerações feitas pelo psicólogo bielo-russo Lev Semynovich Vygotsky, cujas ideias também influenciaram grandemente a educação brasileira, redimensionando o ensino-aprendizagem. 2.6 Algumas contribuições da teoria sociohistórica de Vygotsky para o ensinoaprendizagem de Língua Portuguesa Ao longo dos anos, temos percebido que as ideias de Vygotsky (2007[1984], 1996 [1987]) têm contribuindo, de modo significativo e decisivo, para a reflexão sobre o papel da escola. Seus estudos, baseados numa abordagem sociointeracionista, sem dúvida, têm ajudado na compreensão da relação existente entre indivíduos e sociedade, de modo amplo. A teoria desse autor ―se identifica com uma tendência educacional de caráter mais social, mais dialético‖, que vê o homem não só como um indivíduo influenciado pelo meio, mas também com capacidade de se voltar sobre ele para transformá-lo (FREITAS, 2006, p. 15-16). Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]) tem suas pesquisas voltadas para a demonstração do caráter histórico, cultural e social da mente humana e seus processos de desenvolvimento, o que amplia, ainda mais, o modo de compreender e interpretar o comportamento humano. Sua abordagem sociointeracionista tem como objetivo central: [...] caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formaram ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida de um indivíduo (VYGOTSKY, 2007[1984], p. 03). 71 De acordo com Cole e Scribner (2007[1984]), em seus estudos, Vygotsky (2007[1984]) procurou uma abordagem que possibilitasse a descrição e a explicação das funções psicológicas superiores em termos científicos, tomando como objeto de investigação a consciência e o comportamento, como já dito, uma vez que, para o pesquisador, esses dois fatores só podem ser entendidos em uma totalidade. Suas obras versam sobre diversos aspectos, dentre os quais se destacam a gênese social das funções superiores, as relações entre pensamento e linguagem, as relações entre desenvolvimento e aprendizagem e os processos de aprendizagem que ocorrem dentro e fora da escola. Em suas pesquisas, esse teórico tratou do desenvolvimento das funções psicológicas superiores, partindo do princípio de que a interação com o meio social vai proporcionar o desenvolvimento e a aprendizagem do sujeito, pois as relações homem-mundo não ocorrem diretamente, mas são mediadas por instrumentos ou por signos fornecidos pela cultura. É, portanto, nessa relação (eu e outro), no contexto sociocultural real, que se originam as funções psicológicas e a consciência humana. É aí que ocorre o processo de internalização, entendida como a reconstrução interna de uma operação externa ou como um processo interpessoal transformado em processo intrapessoal; afinal, ―todas as funções no desenvolvimento da criança aparecem duas vezes: primeiro, no nível social, e, depois, no nível individual; primeiro, entre pessoas (interpsicológica), e, depois, no interior da criança (intrapsicológica)‖ (VYGOTSKY, 2007[1984], p. 57-58, grifo do autor). Sendo assim, a cultura na qual o indivíduo nasce molda o psicológico, determinando o seu modo de pensar, pois ela fornece ao sujeito ferramentas, signos, historicamente construídos, símbolos, portadores de mensagens (a linguagem, por exemplo), que lhe permitem não só interpretar o mundo como também se constituir enquanto pessoa. Nessa teoria, a cultura é concebida não como algo pronto a que o sujeito se submete, mas como uma espécie de ―palco de negociações‖ em que seus participantes estão em constante recriação e ressignificação de informações, valores, conceitos etc. (OLIVEIRA, 1993 apud REGO, 2008, p. 55). Por isso, ela é considerada uma das principais influências no desenvolvimento mental humano. Ademais, tal desenvolvimento ―não é dado a priori, não é imutável e universal, não é passivo, nem tampouco independente do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana‖, conforme elucida Rego (2008, p. 42). Essa autora assevera ainda que 72 A cultura é, portanto, parte constitutiva da natureza humana, já que sua característica psicológica se dá através da internalização dos modos historicamente determinados e culturalmente organizados de operar com informações (REGO, 2008, p. 42). Como já vimos, nessa abordagem sociointeracionista, a cultura tem grande importância no desenvolvimento humano, visto que o grupo social fornece ao sujeito um espaço onde os elementos são/estão carregados de significado cultural e, na incorporação dessa cultura, por meio da linguagem, o indivíduo se comunica com os demais, construindo saberes, conceitos, autonomia, valores, regulando suas ações. Nesse processo, reiterando, os sistemas de comunicação e as funções mentais superiores neles envolvidas se efetivam primeiramente na atividade externa (no nível social, na relação entre pessoas) e, em seguida, são internalizados e apropriados pela atividade interna (individual), voltada para si, relação em que a pessoa se compreende, reconhece e controla suas próprias emoções, reguladas pela consciência. Para Vygotsky (2007[1984], p. 58), ―a internalização das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas constitui o aspecto característico da psicologia humana‖. Em seus estudos, esse autor tratou não só do desenvolvimento das funções psicológicas como também da mediação e da função social e psicológica da linguagem, que possui papel de destaque na teoria vygotskiana tanto pela sua função comunicativa como pela sua relevância no processo de apropriação de cultura. Nessa perspectiva, a linguagem é compreendida como uma forma representacional indispensável a todas as pessoas, uma vez que, sem ela, principalmente, ―não seria possível a internalização e a construções das funções superiores‖ (FREITAS, 2006, p. 91). De acordo com Oliveira (1997, p. 34), ―a linguagem é o sistema simbólico básico de todos os grupos humanos‖, pois é através dela que se nomeiam objetos e signos, elementos da cultura, fornecem-se os conceitos e as normas sociais, permitindo, assim, a comunicação entre os indivíduos. Além disso, ela se destaca pela sua função de mediadora, haja vista que na vida real a relação homem-mundo não acontece diretamente, mas mediada pela linguagem, por instrumentos ou por signos que auxiliam na atividade humana. Desse modo, mantendo uma relação direta com o desenvolvimento psicológico do ser humano, a linguagem é responsável pela sua interação social. Dentre os diversos temas tratados por Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]), destacamse ainda os processos de ensino-aprendizagem escolar. Suas considerações sobre o desenvolvimento humano e sua relação com a aprendizagem e sobre a importância das 73 interações na construção do conhecimento são temas centrais de sua teoria. São fundamentos que, conforme já dissemos, representam uma mudança no paradigma educacional, por distanciarem-se de um ensino tradicional, favorecendo o diálogo e as relações sociais. Para o psicólogo, a aprendizagem, vista como um processo de apropriação de conhecimentos, conduz ao desenvolvimento social, ambos se relacionando de maneira complexa e dinâmica. Isso se dá de tal forma, que a primeira, como processo constante, converte-se no segundo, no decorrer da vida social da criança, podendo ocorrer através da brincadeira, do jogo, do trabalho, por exemplo. Nesse contexto, para explicar a aprendizagem, Vygotsky (2007[1984], p. 97) apresenta o conceito de Zona Proximal de Desenvolvimento18 (doravante ZPD) que designa, apropriadamente, como A distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Em outras palavras, a ZPD é a distância entre aquilo que o sujeito já sabe, que já foi assimilado, que ele consegue fazer sozinho, e aquilo que o indivíduo pode vir a aprender ou a fazer com a ajuda de outras pessoas mais experientes, denominado desenvolvimento potencial: A ZPD define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentemente em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de ―brotos‖ ou ―flores‖ do desenvolvimento, em vez de ―frutos‖ do desenvolvimento (VYGOTSKY, 2007[1984], p. 98). Dito de outro modo, a ZPD pode ser considerada o caminho que uma pessoa vai percorrer a fim de desenvolver funções que estão em processos de ―aperfeiçoamento‖. Essas funções só se serão alcançadas depois da intervenção de um par mais avançado. Logo, ela delimita o que falta ser amadurecido para se poder avançar. Esse é um conceito, portanto, que 18 Neste trabalho, adotamos a terminologia Zona Proximal de Desenvolvimento (ZPD) em vez de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), de acordo com a relação semântica envolvida, pois, como pondera Rojo (2001a apud PAES DE BARROS, 2005, p. 41, grifo da autora), ―a força de adjetivação não recai sobre o desenvolvimento, mas sobre a zona de intercessão criada pelo ensino-aprendizagem‖; ou, como explica Barricelli (2007), não se trata da compreensão sobre o desenvolvimento proximal, e sim, sobre uma zona que trabalha com desenvolvimento, de acordo com a concepção dialética de Vygotsky. 74 obtém grande aplicação no campo educacional, pois é nessa zona que deve acontecer a intervenção pedagógica docente. Nesse sentido, um aspecto essencial do aprendizado é trabalhar com a ZPD do aluno, o qual pode, mediante a ajuda do outro, desenvolver capacidades, consideradas, às vezes, impossíveis, sem a colaboração externa. Sob tal lógica, o professor constitui-se como uma pessoa responsável por interferir nessa zona de desenvolvimento do aprendiz, no intuito de lhe propiciar avanços significativos na aprendizagem. Propostas de atividades grupais em que os alunos com maior domínio sobre um determinado conteúdo colaboram com os demais, podem ser um meio de fazer tal intervenção. Com isso, se estimulará, certamente, a interação contínua em sala de aula, possibilitando a todos o desenvolvimento cognitivo, pois, para Oliveira (1997, p. 61), ―é na zona de desenvolvimento proximal que a interferência de outros indivíduos é mais transformadora‖. Além disso, com a abertura da ZPD, o aprendiz terá um suporte a mais que o ajudará a construir, a modificar e a interpretar os sentidos de um texto, por exemplo. Nessa teoria, segundo Paes de Barros (2005), o aluno é considerado ator de seu próprio desenvolvimento, transformando a si mesmo, ou seja, é um sujeito ativo no processo de construção do saber. Não nos esqueçamos, portanto, de que o docente, também, assume uma função importante: como uma pessoa mais experiente e como um par mais avançado, é capaz de interagir com o aluno, ambos construindo juntos os conhecimentos. Nesse aspecto, tal concepção, sob o enfoque psicológico histórico-cultural, proporciona, sem dúvida, mudanças valiosas na organização do ensino, pois contribui para romper com práticas cristalizadas, como, por exemplo, aquela proposta de ensino centralizada na figura do professor, como se ele fosse o ―detentor absoluto do saber‖, encarregado de transmitir o conhecimento aos alunos, meros receptores e passivos. Nessa perspectiva, o professor é concebido como um mediador, aquele que colabora na (re)construção do conhecimento do aluno, favorecendo-lhe uma postura reflexiva e crítica. As ideias de Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]) vêm ao encontro de uma proposta centrada no processo de ensino-aprendizagem de cada aluno, isto é, centrada na forma como esse indivíduo aprende. Notadamente, aqui, o aluno e seus saberes são o ponto de partida para o ensino. Tendo em vista tudo isso, no ensino-aprendizagem, é preciso considerar o que os alunos já sabem, os conhecimentos que eles trazem de casa, pois, na perspectiva vigotskiana, professor e alunos formam um grupo, trocam experiências, medeiam e (re)elaboram os conceitos e os conhecimentos entre si. Haja vista que o conhecimento é acessado pelo 75 indivíduo por meio da linguagem e da interação, no contexto das situações imediatas, faz-se necessário reiterar que é exatamente nesse ambiente (escolar, especificamente) que o aluno se apropria das práticas acumuladas pela sociedade ao longo da história, construindo suas representações sociais, signos, mitos e transformando-os por meio da imitação e do pensamento reflexivo. Isso equivale a dizer que o conhecimento tem sua gênese nas relações sociais, na ação coletiva, sendo produzido na intersubjetividade e marcado por condições sócio-históricas. Portanto, essa tese sobre a ZPD esclarece a grande importância das relações interpessoais para a construção dos comportamentos superiores (processos voluntários, ações conscientes, capazes de serem aprendidas), já que o desenvolvimento da criança ocorre primeiro no nível social e depois no nível individual. Conforme vimos, a teoria social e histórica de Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]) muito pode contribuir com o ensino de LP, porquanto ressalta, entre outras questões, não apenas a relevância das trocas interpessoais na formação e na apropriação do conhecimento, dos conceitos e da cultura, mas também a importância da mediação do outro no processo de ensino-aprendizagem. Além disso, fornece ao professor ferramentas de análise do pensamento humano e permite-lhe, portanto, conhecer os processos psicológicos de seus alunos. Isso, sem dúvida, possibilita ao educador intervenções significativas no aprendizado da criança e do adolescente. Já vimos, também, que essas ideias ajudaram na composição dos PCNLP (BRASIL, 1998), os quais propõem que o docente assuma a função de mediador do conhecimento, mostrando ao aluno o papel do ―outro‖ numa relação dialógica. Logo, cabe ao professor dinamizar a interação e planejar situações enunciativas entre os estudantes, para que possa haver trocas de experiências e crescimento intelectual. Tendo em vistas essas questões, é válido pensar que o ensino de língua materna exige do professor, pelo menos, dois domínios no nível da teoria: um que diz respeito à teoria enunciativa de vezo bakhtiniano e outro que se refere à perspectiva sócio-histórica de ensinoaprendizagem, a saber, os estudos de Vygotsky sobre o desenvolvimento da mente, o aprendizado, a interação, entre tantos outros. No capítulo seguinte, tratamos da metodologia de pesquisa. 76 CAPÍTULO III METODOLOGIA DA PESQUISA Na investigação científica, a metodologia constitui-se em uma preocupação instrumental que trata das formas de se fazer ciência, isto é, cuida dos procedimentos, das ferramentas e dos caminhos para se chegar a um possível resultado (DEMO, 2001). Além do mais, ela é a base fundamental para qualquer tipo de pesquisa, pois norteia o desenvolvimento do estudo científico. Assim, a finalidade deste capítulo é apresentar a metodologia de pesquisa do nosso trabalho. Para a melhor compreensão do caminho percorrido, inicialmente, exibimos nossos objetivos e nossas questões de pesquisa. Em seguida, apresentamos a metodologia de coleta de dados (tipo de pesquisa, critérios de escolha, descrição do material) e, por fim, as categorias de análise. 3.1 Objetivos e perguntas de pesquisa A presente pesquisa tem como objeto de análise parte do material de formação continuada do Programa GESTAR II, a saber, o Caderno TP6 e o Guia Geral. Assim, o objetivo geral desta dissertação é analisar as orientações teóricas bem como as questões de produção escrita da Unidade 22, no interior do TP6, a fim de verificar se essas propostas possibilitam aos professores o real desenvolvimento das capacidades de linguagem no processo de produção de textos. Para darmos conta desse objetivo, lançamos mãos das seguintes perguntas de pesquisa: 1- Quais capacidades de linguagem são mobilizadas no tratamento didático dispensado às atividades de produção escrita para aluno e professor, no material selecionado? 2 - As capacidades de linguagem identificadas em (1) atendem aos objetivos propostos no GESTAR II, mais precisamente no TP6, para a formação continuada do professor, considerando o atual paradigma de ensino de Língua Portuguesa? Com base nas questões de nossa pesquisa, elencamos, abaixo, os objetivos específicos que nos possibilitam não só levantar dados a respeito das propostas de escrita, como também identificar como tais questões estão apresentadas no respectivo Caderno: 77 1) Analisar como dialogam as orientações teóricas do Guia Geral e do TP6 na proposta de produção escrita para professores e alunos. 2) Comparar as atividades de produção escrita para os alunos no TP6 aos pressupostos teórico-metodológicos apresentados ao professor no TP6. 3) Identificar as capacidades de linguagem mobilizadas nas propostas de ensinoaprendizagem da escrita. 3.2 A perspectiva enunciativo-discursiva de Bakhtin como fundamento teórico para a investigação científica Segundo Pinto (1979), a pesquisa científica constitui-se em um tema ao qual o investigador, em particular, precisa se dedicar constantemente, conhecendo a natureza teórica do seu trabalho e refletindo sobre ela, pois isso é constitutivo da sua própria realidade individual. Aliás, esse estudioso afirma que a ciência, quando compreendida por uma teoria filosófica, pode auxiliar a construção dos processos de autonomia do sujeito. No estudo científico, segundo esse autor, a reflexão teórica bem como a busca de princípios lógicos e de bases epistemológicas para a construção da teoria da pesquisa são fatores fundamentais. Compreendendo isso, ressaltamos, mais uma vez, a base teórica que sustenta nossa pesquisa, a saber, a teoria enunciativo-discursiva de Bakhtin e seu Círculo, cujo princípio norteador, ao nosso ver, é o dialogismo. No livro Estética da Criação Verbal, no texto sobre a ―Metodologia das Ciências Humanas‖19, Bakhtin (2003[1974/1979]) trata da distinção entre a ciência da humanidade e as ciências exatas. Segundo o autor, esta última representa uma forma monológica do conhecimento, porquanto seu objeto não fala sobre si; já a outra se caracteriza como uma forma de saber dialógico, pois seu sujeito (objeto de estudo) fala e expressa sobre si. Desse modo, é pertinente considerar que a característica dessa derradeira ciência pressupõe, então, a existência de pelo menos dois indivíduos envolvidos numa interação verbal, ambos produzindo enunciados concretos — orais e/ou escritos. De acordo com o princípio amplo do dialogismo de vezo bakhtiniano, já tratado nesta dissertação, cada enunciado é um elo na grande e ininterrupta cadeia de comunicação verbal. 19 Esse texto foi escrito por Bakhtin entre os fins dos anos 1930 e início dos anos 1940 do século XX, com o título Os fundamentos filosóficos das ciências humanas. Em 1974, esse texto foi publicado, como artigo, pela revista Kontekst, sob um novo título: Para uma metodologia dos estudos literários. No ano de 1979, recebeu o título Para uma metodologia das ciências humanas, e foi publicado na 1ª edição do livro Estética da Criação Verbal (1979), segundo o tradutor Paulo Bezerra (2003). 78 Além disso, se constitui como o produto da enunciação, a réplica do diálogo, tendo um acabamento específico que permite uma resposta do interlocutor. Nessa concepção, o enunciado é sempre heterogêneo, porque revela duas posições sociais e históricas em que existem, de fato, ao menos, duas instâncias enunciadoras que, embora não se manifestem no fio do discurso, nele se fazem presentes. Dessa maneira, compreendemos que o enunciador, ao se pronunciar, leva sempre em conta o discurso de outrem, que está presente no seu. Nesse pronunciamento, ―cada vez que se produz um enunciado o que se está fazendo é participar de um diálogo com outros discursos‖ (FIORIN, 2006, p. 21). Assim, o dialogismo constitui, justamente, as relações de sentido que se estabelecem entre dois enunciados. É partindo desses pressupostos que pretendemos olhar nosso objeto de estudo, a saber, as atividades de produção escrita da Unidade 22 do Caderno TP6, já que são compostas por enunciados dialógicos, os quais respondem a outros enunciados, inevitavelmente, atravessados por diversas vozes sociais. Essas vozes, no entanto, nem sempre se afinam entre si, discordando, gerando questões e suscitando outras respostas. Certamente, isso é o que ocorre no processo comunicativo da nossa investigação científica, pois, de fato, se estabelece aí uma relação dialógica plena entre o discurso que compõe o objeto de pesquisa, isto é, as orientações para as propostas/atividades de produção e o discurso do investigador — um discurso não neutro, atravessado de vozes, ideologias, expectativas, entre outros aspectos. Sob tal lógica, o pesquisador, ao compreender o enunciado do seu interlocutor — nos materiais de formação continuada — simultaneamente, adota, em relação a ele, uma atitude responsiva. Conforme pontua Bakhtin (2003[1952-1953], p. 272), o próprio locutor, no caso a autora da Unidade 22 do Caderno de Formação20, ―não espera uma compreensão passiva, por assim dizer, que apenas duble o seu pensamento em voz alheia, mas uma resposta, uma concordância, uma participação, uma objeção, uma execução‖. Aliás, toda compreensão de um discurso, falado ou escrito, implica uma compreensão ativa e responsiva, uma resposta por parte do interlocutor, neste caso, o investigador. Dessa forma, de acordo com Bakhtin/Volochinov (2004[1929], p. 405), para que haja compreensão ativa de um texto — impresso, manuscrito ou oral — é preciso remetê-lo a outros textos, a outros discursos, pois ―o texto só vive em contato com outro texto (contexto). Somente em seu ponto de contato é 20 É importante ressaltar que o TP6, bem como os demais Cadernos do GESTAR II, é resultado de um trabalho coletivo, desenvolvido por diferentes estudiosos e especialistas, de modo que cada Unidade é escrita por um autor. Considerando, então essa autoria coletiva, ao nos referirmos ao discurso da autora da Unidade 22, do TP6, adotaremos os seguintes nomes: TP6, TP, material e/ou Caderno. 79 que surge a luz que aclara para trás e para frente, fazendo que o texto participe de um diálogo‖. Além do mais, os autores (2004[1929], p. 343) salientam que ―o sentido se distribui entre as diversas vozes‖, quer dizer, o discurso de um texto só tem seu sentido revelado em relação com outros textos, com outras vozes, nas variadas situações dialógicas. Adotamos tal teoria, inclusive, para a análise do paradigma que informa as atividades didáticas ou das vozes/dialógicas nas orientações/enunciados apresentados, no material selecionado. Nesse sentido, acreditamos que, no amplo diálogo, à medida que tomamos a palavra como um produto que procede de alguém e dirige-se para alguém (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004[1929]), buscamos compreender o discurso atravessado, as vozes presentes, no respectivo Caderno do GESTAR II, no que tange ao ensino de escrita. Nosso objetivo aqui é investigar se as questões de produção escrita da Unidade 22 possibilitam aos professores o real desenvolvimento das capacidades de linguagem no processo de produção de textos. Isso permitirá testar nossa hipótese sobre a consonância entre as propostas de escrita de textos diversos, trazidas nas orientações teórico-metodológicas do GESTAR II (TP6) — publicadas pelo MEC, portanto assumidas e apoiadas pelo órgão máximo da educação brasileira — e a tendência atual de ensino, no que se refere aos pressupostos dos PCNLP (BRASIL, 1998). Dito de outra forma, e concordando integralmente com o pensamento bakhtiniano de que ―em todas as coisas, ouço as vozes e sua relação dialógica‖ (BAKHTIN, 2003[1974/1979], p. 409-410), nosso intuito é verificar se a voz do outro — perspectiva atual de ensino — se faz presente nos enunciados do TP6 — nas orientações teóricas fornecidas pela Unidade 22. Com base nos conceitos aqui apresentados, consideramos que ―toda palavra (todo signo) de um texto conduz para fora dos limites desse texto‖ e que ―[...] a compreensão é o cotejo [confronto] de um texto com os outros textos‖ (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 2004[1929], p. 405), ou seja, a palavra daquele que se busca pesquisar (objeto de estudo) é essencial na constituição da própria investigação científica. Na seção seguinte, apresentamos a metodologia de coleta de dados utilizada por nós para seleção do nosso objeto de estudo. 3.3 Metodologia de geração de dados Nosso trabalho constitui-se em uma pesquisa qualitativa. Esse tipo de pesquisa possui, segundo Bogdan e Biklen (1994), cinco características básicas que a configuram como tal, a saber: ambiente natural como sua fonte direta de dados e pesquisador como seu principal 80 instrumento; dados predominantemente descritivos; mais preocupação com o processo do que com o produto/resultado; análise dos dados por meio de processo indutivo; e, por último, importância dos significados dados pelas pessoas às coisas e à sua vida. Tais características, indubitavelmente, servem de base para a nossa pesquisa, pois apontam para um estudo que se preocupa com o aprofundamento da compreensão do processo formativo docente, sem perder de vista seu contexto, no intuito de construir conhecimentos vários. Inserido na área de Linguística Aplicada, nosso estudo discute, especialmente, assuntos relacionados à formação continuada de professores e ao material didáticopedagógico utilizado nesse campo, caracterizando-se como qualitativo de cunho descritivo e interpretativo. Tais aspectos são fundamentais nesse tipo de investigação, porque a descrição funciona bem, por um lado, como método de recolha de dados, ainda mais quando se pretende que nenhum detalhe escape ao estudo e, por outro, como um meio através do qual se compreende o objeto de pesquisa. Na realização do presente estudo, recorremos à pesquisa documental. Para tanto, utilizamos documentos escritos como fonte de informações, em nosso caso, o Caderno TP6 do GESTAR II. Desse modo, é importante destacar que o uso de documentos na pesquisa científica favorece a observação e a compreensão do processo evolutivo da sociedade. Por isso, devem ser apreciados e valorizados. Além disso, eles têm uma riqueza de informações ―passível‖ de resgate e extração, como afirma Cellard (2008 apud SÁ-SILVA; ALMEIDA; GUINDANI, 2009, p. 02): [...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente a quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito frequentemente, ele permanece como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente. Em relação aos dados, Bogdan e Biklen (1994) registram que esse termo se refere ao material recolhido pelo pesquisador, constituindo-se como elementos que formam não só a base da análise, como também as pistas e as provas que permitem ao investigador chegar a um possível resultado. Além do mais, eles carregam em si o peso de qualquer interpretação, permitindo uma descrição detalhada dos acontecimentos. Logo, é nessa etapa de coleta [ou, de geração] que examinamos os respectivos documentos e registramos as informações e os dados encontrados, cuidadosamente. É válido lembrar que, em nossa pesquisa, constituem-se como dados as propostas/atividades de produção de textos presentes na Unidade 22 do Caderno TP6 81 do Programa de formação continuada GESTAR II, selecionados para nosso processo investigativo. Nessa direção, vale a pena salientar, mais uma vez, que os dados não falam por si, mas são interpretados, ou seja, é através da investigação desses elementos que captamos a realidade (DEMO, 2001). Diante disso, o investigador, sobretudo, aquele que faz pesquisa qualitativa, deve ―analisar os dados em toda a sua riqueza, respeitando, tanto quanto o possível, a forma em que estes foram registrados ou transcritos‖ (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 48), além de procurar sempre estratégias e procedimentos que lhes permitam levar em conta as experiências e o contexto do outro,do objeto pesquisado. O pesquisador qualitativo em linguística aplicada ao ensino, ao recolher os dados descritivos para sua pesquisa, precisa, naturalmente, abordar o mundo de forma minuciosa, isto é, deve considerar que nesse mundo nada é trivial e comum, mas que tudo tem potencial para construir uma pista capaz de estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do objeto de estudo (BOGDAN; BIKLEN, 1994). Haja vista isso, nós, enquanto pesquisadores, possuímos um papel fundamental no trabalho científico, pois temos, como objetivo principal, a construção de saberes, compreendendo e respeitando a experiência e o comportamento humano. Sem dúvida, nesse tipo de investigação é possível, de fato, alcançar um nível desejável de compreensão das coisas no mundo, como defendem Bogdan e Biklen (1994). No entanto, para isso, entendemos que a interpretação e a imaginação do investigador científico precisam estar embasadas numa teoria científica, o que significa dizer que, para o pesquisador qualitativo, não bastam somente os dados, a informação, é preciso mais que isso: um estudo teórico concreto que dê base para o seu trabalho. Nas palavras desses autores, os bons investigadores estão conscientes dos seus fundamentos teóricos, servindo-se deles para recolher e analisar os dados. A teoria ajuda na coerência dos dados e permite ao investigador ir para além de um amontoado pouco sistemático e arbitrário de acontecimentos (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 52). Para esses estudiosos, o processo de condução de investigação qualitativa reflete uma espécie de diálogo, realizado, não de modo neutro, entre o investigador e o respectivo sujeito de pesquisa, em nosso caso, os Cadernos do GESTAR II. Nessa direção, é pertinente revozear Fiorin (2006, p. 27), a fim de destacar que todos os fenômenos presentes na comunicação real, de modo escrito ou falado, podem ser analisados à luz das relações dialógicas que os constituem. Assim, em nosso processo investigativo, na educação escolar, a adoção da teoria 82 enunciativo-discursiva bakhtiniana se justifica, pois trata, com grande propriedade, de tais relações. Na seção seguinte, abordamos os critérios usados para a seleção do material. 3.4 Critérios para a seleção do Caderno TP6 e para a modalidade escrita Com o objetivo de obtermos informações que melhor descrevessem as propostas de produção de textos no material de apoio à formação docente continuada, buscamos, como fonte documental para a investigação, o Caderno TP6 do GESTAR II e, consequentemente, o Guia Geral, Caderno em que se encontram informações relativas aos pressupostos teóricometodológicos do Programa GESTAR II. Esses materiais, publicados no ano de 2008, estão em evidência em grande parte do país, sendo usados na capacitação dos profissionais da educação. Além disso, suas orientações teóricas buscam seguir os pressupostos dos PCNLP (BRASIL, 1998), o que confere, de fato, atualidade aos dados aqui estudados. A escolha do Caderno TP6 se deve não só à sua abrangência e aceitação como também ao caráter inovador (auto-)atribuído ao Programa: a modalidade semipresencial, que forma professores em serviço; o formador, que é um intermediário entre as Secretarias de Educação e as escolas, além de ser um mediador nos grupos de trabalhos com os professores, e os Cadernos de Teoria e Prática, material didático-pedagógico que serve para subsidiar a prática docente. Assim, tomaremos o TP6, uma vez que trata, sobretudo, do processo de produção de textos. Esse caderno, intitulado Leitura e processos de escrita II, dá continuidade à elaboração dos conceitos e práticas para o trabalho pedagógico do professor e ao trabalho com gêneros, com o estudo da argumentação. Nele se retoma a produção textual, tratando das fases de planejamento, escrita, revisão e edição; além de percorrer essas etapas de produção, reflete sobre as estratégias utilizadas nessas fases. Esse material, embora seja um caderno direcionado ao professor-cursista, contém sugestões de atividades práticas a serem aplicadas em sala de aula com o aluno. Em seu interior, analisaremos a Unidade 22, selecionada porque trata especificamente dos processos de produção, isto é, da prática de escrita de textos. No TP6, nosso olhar estará focado nas orientações de escrita direcionadas não só para o professor como também para o aluno, a fim de compará-las em termos da mobilização das capacidades de linguagem exigidas no processo de produção textual, conforme exposto no capítulo anterior. 83 Sabemos que o professor também precisa desenvolver suas capacidades de linguagem para poder ensinar seu aluno, posteriormente. Logo, o curso de formação continuada se constitui em um espaço ideal para isso. A escolha da modalidade escrita — visto que enfatizamos nesse material as propostas de produção textual — deve-se a um fato recorrente no ensino-aprendizagem de LP em várias partes do Brasil, a saber, o nível de desempenho dos alunos das redes públicas em relação a essa prática, que, apesar de ter-se tornado objeto de discussão e de pesquisa, desde a década de 1970, seu insucesso ainda continua na ordem do dia, conforme nos lembra Petroni (2006). A discussão sobre esse assunto tem ocupado um lugar significativo na educação e na mídia brasileiras. Já há alguns anos, o ensino de LP tem sido marcado pelos índices insatisfatórios de desempenho escolar, apresentados, sobretudo, em exames de rendimento estudantil, tanto os nacionais — tais como o ENEM e o SAEB — quanto os internacionais, como o PISA. Esses exames pretendem medir os resultados do ensino básico, em termos de construção de capacidades e competências, sobretudo, escriturais, dos alunos (ROJO; BATISTA, 2003). Como já dito, a culpa do insucesso nas avaliações recai, quase sempre, sobre o professor, sobre sua formação inicial e/ou continuada. Por conta disso, e das exigências impostas pelo mundo globalizado que prescrevem cada vez mais profissionais qualificados e preparados para atender aos requisitos contemporâneos, os órgãos responsáveis pela educação vêm demonstrando uma grande preocupação em torno da formação de professores. As propostas de programas de capacitação e de atualização, coerentes com os parâmetros estabelecidos pelos referenciais de ensino, é um exemplo do que dizemos. Conforme foi mencionado no primeiro capítulo, a respeito do movimento de adequação, sobretudo, das editoras às propostas dos PCNLP (BRASIL, 1998), entendemos que os autores de alguns materiais de apoio à formação continuada, bem como os do LD, têm buscado se adequar às novas proposições curriculares de ensino e aos critérios estabelecidos no edital do PNLD. Dizemos isso, pois percebemos, nitidamente, essa preocupação no material didático do GESTAR II, que é fornecido aos professores durante o curso. É exatamente no contexto dessas discussões que se insere nossa pesquisa, tendo como objeto central o trabalho com os gêneros discursivos proposto, em linhas gerais, por esse material de formação continuada do professor de LP. Nossa preocupação reside no fato de que alguns materiais de formação utilizados na educação continuada de professores têm apresentado, por vezes, orientações e encaminhamentos metodológicos nem sempre claros, nem sempre afinados com as 84 perspectivas atuais de ensino, colaborando insuficientemente para o processo de ensinoaprendizagem, especificamente, de escrita de textos diversos do professor e, consequentemente, do seu aluno. A partir dessas ideias, na seção subsequente, tencionamos pôr em foco esse Programa e parte do material que o compõe, o Caderno TP6, a fim de analisar as questões de produção escrita da Unidade 22. Pretendemos verificar também se as propostas contidas nesse documento são orientadas pela e para a tendência atual de ensino de escrita, possibilitando aos professores o concreto desenvolvimento das capacidades de linguagem requeridas no processo de produção de textos diversos. Em seguida, buscaremos comparar as orientações dirigidas ao docente no processo de escrita com o encaminhamento didático das atividades de produção feito ao aluno, com o intuito de identificar se as mesmas capacidades mobilizadas no ensinoaprendizagem do professor são contempladas nas propostas de produção textual do aluno. Isso se faz necessário, pois se o domínio dessas práticas não é efetivado pelos professores nos cursos de formação continuada, infelizmente, os alunos podem receber direcionamentos insuficientes para compreender a linguagem como interação na produção de conhecimentos. Na seção seguinte focalizamos o Guia Geral21 (BRASIL, 2008a), um dos materiais que compõem o GESTAR II. 3.5 O Guia Geral O Guia Geral (BRASIL, 2008a) constitui-se como o ―carro chefe‖, a ―base‖ do Programa GESTAR II, pois, através dele, os professores- cursistas têm o primeiro contato com o Projeto e, desde então, travam reflexões e discussões sobre questões de ensino. Nesse Guia, estão descritos os pressupostos teórico-metodológicos que embasam o trabalho docente assim como as propostas e objetivos que ajudarão o educador a compreender melhor o Programa. Por conta disso, achamos necessário fazer uma breve apresentação desse material, destacando alguns pontos que considerarmos pertinentes para nossa pesquisa. O principal objetivo do Guia Geral (BRASIL, 2008a) é construir uma proposta de trabalho participativa e interativa, capaz de conduzir o professor à inteira compreensão do Programa, ajudando-o a pensar coletivamente a proposta pedagógica desse Projeto, além de 21 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/gestar/guia_geral_g2.pdf 85 orientar o docente na implementação do GESTAR II e na definição dos papéis dos seus participantes. O GESTAR II é um programa de gestão pedagógica da escola que contém discussões sobre questões prático-teóricas e que busca contribuir para o aperfeiçoamento da autonomia do professor em sala de aula, conforme define o Guia Geral (BRASIL, 2008a). Ademais, tem se orientado para a criação de uma nova escola que contemple as exigências do mundo moderno. O trabalho desse Projeto está voltado para ―uma escola mais democrática e amorosa, que visa à autonomia e à auto-realização do aluno, tendo como horizonte a justiça social, a felicidade e a emancipação da sociedade‖ (BRASIL, 2008a, p. 07). O Guia Geral (BRASIL, 2008a, p. 07-08) está dividido em cinco unidades, com suas respectivas seções, conforme o quadro a seguir: Quadro 2 – A estrutura do Guia Geral Unidade Seção Unidade Seção Unidade Seção Unidade I O Gestar II como Programa de Formação Continuada em Serviço 1 Caracterização do Gestar II 2 Modalidade do Programa 3 Ações Integrantes do Gestar II A Proposta Pedagógica do Gestar II 1 Fundamentos da Proposta Pedagógica do Gestar II 2 Currículo do Gestar II – Matemática 3 Currículo do Gestar II – Língua Portuguesa III A Implementação do Gestar II 1 Sistema Instrucional de Aprendizagem 2 Sistema de Avaliação do Professor Cursista 1 O GESTAR II, as expectativas de mudança e a especificidade do Programa em cada escola. As Expectativas de Mudanças a partir do Gestar II Seção 2 Um Gestar II para cada Escola Unidade V 1 Procedimentos para a utilização dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem do Aluno Apresentação 2 Objetivos 3 Organização 4 Pressupostos Seção IV 86 5 Utilização 6 Etapas de implementação Nas seções seguintes, fazemos um breve esboço de cada uma dessas unidades para melhor compreensão do Programa. 3.5.1 Unidade 1 – O GESTAR II como Programa de Formação Continuada em Serviço A Unidade 1, intitulada ―O GESTAR II como Programa de Formação Continuada em Serviço‖, tem como objetivo identificar os fundamentos do GESTAR II e sua articulação como política de formação continuada em serviço para professores. Essa unidade está dividida em três seções. A seção I caracteriza o GESTAR II como um Programa de formação contínua semipresencial, destinado, sobretudo, à formação de professores de Língua Portuguesa. Seu foco é a atualização dos saberes desse profissional por meio de subsídios e do acompanhamento da sua ação em serviço. Além disso, encontra-se embasado nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa do 3º e 4º ciclos (BRASIL, 1998), tendo como propósito principal ―elevar a competência dos professores e de seus alunos e, conseqüentemente, melhorar a capacidade de compreensão e intervenção sobre a realidade sócio-cultural‖ (BRASIL, 2008a, 14). A seção II expõe a modalidade do Programa, que está fundamentado na teoria e nos pressupostos da educação à distância (EAD). Segundo o Guia, esse tipo de formação deve ser entendido como um instrumento de profissionalização capaz de proporcionar aos educadores espaços sistemáticos de reflexão coletiva e de investigação, no contexto escolar. Esta formação apóia-se nos cadernos teórico-práticos (TPs) para o estudo autônomo e independente, oportunizando também os encontros presenciais para realização de atividades. Esses encontros servem para ―troca de experiência e reflexão individual e em grupos; esclarecimentos de dúvidas e questionamentos; planejamento e elaboração de situações didáticas; análise crítica da prática em sala de aula e de atividades dos alunos‖ (BRASIL, 2008a, p. 15). A seção III trata das ações integrantes do GESTAR II, buscando garantir a qualidade do processo de ensino-aprendizagem por meio de ações estratégicas de estudos presenciais e individuais. A proposta é que, a partir dos encontros coletivos, o professor tenha a oportunidade de reformular conteúdos e descobrir e/ou propor formas diversas de trabalhá-los em sala de aula. 87 O Programa pretende que essa formação continuada seja desenvolvida ao longo de um ano, por meio de oficinas coletivas, do acompanhamento pedagógico e de estudo dos Cadernos de Teoria e Prática. Tal acompanhamento será feito por um formador, representante do GESTAR II, devidamente qualificado, que coordenará as atividades e avaliará o desenvolvimento do professor-cursista, discutindo formas de implementação dos trabalhos. A unidade seguinte trata da proposta pedagógica do Programa GESTAR II. 3.5.2 Unidade 2 – A Proposta Pedagógica do GESTAR II A Unidade 2, intitulada ―A Proposta Pedagógica do GESTAR II‖, discute os elementos fundamentais que compõem a proposta pedagógica do Programa e divide-se em três seções. A seção I expõe os vários aspectos que dão base à proposta pedagógica do Programa, apresentando as concepções que o fundamentam, tais como: a) ensino-aprendizagem; b) relação professor-aluno; c) papel do professor; d) sala de aula; e) avaliação; f) competência; g) relação entre comunidade e escola. a) O processo de ensino-aprendizagem O trabalho do GESTAR II se baseia na concepção socioconstrutivista do processo de ensino-aprendizagem, em que a aprendizagem é vista como um processo ativo pelo qual o indivíduo se apropria dos diversos saberes produzidos pela sociedade, transformando-se. Nesse sentido, na sala de aula, o professor, visto como mediador, constrói juntamente com os alunos o conhecimento por meio da interação, baseada necessariamente na participação ativa dos aprendizes. b) A relação professor-aluno A proposta do GESTAR II considera que, na relação professor e aluno ambos constroem juntos o conhecimento em sala de aula, num trabalho colaborativo, além de manterem sempre laços afetivos de lealdade e de compromisso ao longo do trabalho escolar. c) O papel do professor A proposta pedagógica do GESTAR II concebe o professor como um mediador do conhecimento do aluno na sala de aula. Assim, o papel do professor é colocar o aprendiz em contato com os saberes construídos historicamente na sociedade. Nessa proposta, o educador 88 não é tido mais como o detentor do saber nem o aluno como um mero expectador, mas os dois como co-construtores do conhecimento. Desse modo, a função do professor se caracteriza pela sua dupla face, isto é, ele é aquele que não só ensina como também aprende constantemente na interação com o outro. d) Sala de aula: espaço educativo Essa proposta pedagógica vê a sala de aula como um espaço educativo, constituindo-se como o ponto de referência do Programa, uma vez que todo o trabalho de formação alicerçase nela. e) Avaliação O quinto aspecto dessa proposta pedagógica trata da avaliação, cujo sistema, no GESTAR II, é processual e formativo. Nessa direção, o professor é estimulado a fazer uma primeira investigação, a fim de conhecer seus alunos e, a partir disso, buscar orientação para o planejamento de seu trabalho subsequente. f) Concepção de competência Em relação à concepção de competência, o Programa admite a complexidade que esse conceito encerra, adotando a definição defendida por Perrenoud (2000), que a entende como a capacidade que os indivíduos têm de atuar em situação complexa, mobilizando conhecimentos para resolver problemas. g) Relação entre comunidade e escola no papel educacional O sétimo e último aspecto dessa seção trata da relação entre comunidade e escola no papel educacional. Sob tal lógica, o GESTAR II está convencido de que a educação precisa ser feita, efetivamente, pela escola e pela família. Assim, ambas as instituições são responsáveis pela inserção de uma pessoa na sociedade, de modo consciente e político. Tal relação é considerada fundamental no ensino-aprendizagem, visto que a participação dos pais na comunidade escolar ―melhora o ambiente da escola, diminui o índice de ausência dos alunos e potencializa o seu desempenho‖ (BRASIL, 2008a, p. 24). A seção II trata do currículo do GESTAR II de Matemática, que não descreveremos por não fazer parte deste trabalho. A seção III trata do currículo geral do GESTAR II de Língua Portuguesa, em que se expõem: a) o objetivo do programa; b) a especificidade do GESTAR II; c) as competências 89 esperadas do professor no final do curso; d) a organização do currículo de Língua Portuguesa; e) a organização da proposta pedagógica do GESTAR II de Língua Portuguesa; f) a ementa do programa. a) Objetivo do programa O objetivo geral do GESTAR II de Língua Portuguesa é possibilitar ao professor ―um trabalho que propicie aos alunos o desenvolvimento de habilidades de compreensão, interpretação e produção dos mais diferentes textos‖ (BRASIL, 2008a, p. 34), além de primar pela inserção desses alunos na vida social, como cidadãos críticos e participativos. No que diz respeito ao desenvolvimento do professor, o GESTAR II aponta para sua valorização tanto pessoal como profissional, realçando sua particularidade, sua história de vida, enfim, sua relação sociocultural. b) A especificidade do programa Esse Programa se destaca ―pela busca de um caminho de mão dupla entre teoria e prática e pelo enfoque da linguagem como fenômeno cultural, no qual a língua é elemento constituinte, mas não único e isolado, na organização de nossas experiências‖ (BRASIL, 2008a, p. 34). Além do mais, a proposta do GESTAR II orienta para que toda discussão sobre a língua tenha o texto como ponto de partida, estudando-o na sua profundidade histórica e social. O GESTAR II busca também inserir o professor na apreciação da cultura letrada, mantendo sempre o diálogo desta com as várias outras linguagens. Isso equivale a dizer que, no trabalho com textos clássicos, é interessante que o professor consiga mesclá-los não só com textos de autores regionais, com a cultura popular, mas também com assuntos importantes no plano internacional. Enfim, a pretensão desse Projeto é de que a formação continuada docente consiga atingir um trabalho coletivo e interdisciplinar, envolvendo alunos, pais e profissionais da escola, a fim de que haja transformações positivas no processo de ensino-aprendizagem. Logo, por essas especificidades é que o Guia Geral (BRASIL, 2008a) apresenta o GESTAR II como revolucionário e inovador em relação aos outros programas de formação existentes. c) As competências esperadas do professor ao final do programa O Guia Geral (BRASIL, 2008a) remete ainda às competências esperadas do professor ao término do curso. Esse é um assunto de grande importância para nossa pesquisa, pois é 90 pertinente pensar que um educador competente contribuirá para que seu aluno incorpore novos saberes, desenvolvendo, assim, suas capacidades, sobretudo, de escrita. O GESTAR II pretende que, ao final do curso de formação, como usuário da língua, esse profissional seja capaz de Apresentar-se como locutor e interlocutor, com amplo domínio da linguagem, das suas várias modalidades e formas e nos seus diversos contextos; refletir sobre a linguagem e sobre a Língua Portuguesa; reconhecer os usos sociais da Língua, em todas as modalidades, até mesmo como participação política e cidadã; posicionar-se criticamente com relação aos diversos tipos de textos, até mesmo obras didáticas; interessar-se pelos diversos tipos de textos artísticos especialmente de literatura (BRASIL, 2008a, p. 35). Como profissional da educação, o professor deverá ser capaz de Atuar de forma consciente, produtiva e adequada à sua comunidade, valorizando as práticas democráticas; desenvolver projetos de aperfeiçoamento (formação profissional ampliação de novos horizontes); atuar coletivamente, partilhando experiências e projetos; refletir sobre a sua prática docente e sobre a sua atuação da escola e suas elações com a sociedade (BRASIL, 2008a, p. 35). E, por fim, como professor de LP, ao final do Programa, o cursista do GESTAR II deverá ser capaz de Orientar a sua prática como professor de Língua Portuguesa, observando, registrando, organizando e sistematizando os fatos da gramática interna, da gramática descritiva e da gramática normativa; selecionando e organizando os conteúdos e as matérias de ensino-aprendizagem em função das características dos seus alunos de 6º ao 9º anos; pesquisando, avaliando e adotando métodos e estratégias e materiais mais adequados e inovadores para sua atuação (BRASIL, 2008a, p. 35). d) A organização do currículo de Língua Portuguesa O Guia apresenta a organização do currículo de Língua Portuguesa do GESTAR II, cujo desenvolvimento é feito de forma espiral aberta, em torno de questões que fundamentam há algum tempo o ensino-aprendizagem de LP: ―Pelo seu alcance, tais questões têm uma função irradiadora, capacitando o professor para a abordagem autônoma de outros pontos do currículo‖ (BRASIL, 2008a, p. 35). Aqui, essas questões são recuperadas e ampliadas, permitindo novas relações com outras abordagens. 91 e) Organização da proposta pedagógica do GESTAR II de Língua Portuguesa A proposta do GESTAR II organiza-se para o desenvolvimento do letramento do professor, consequentemente do seu aluno; para isso, parte sempre de discussões e análises das situações sociocomunicativas, tendo o texto como base da resolução de problemas. Esse currículo busca também oferecer ao professor em formação continuada subsídios para que seus alunos apreendam habilidades relacionadas à compreensão e produção de diferentes textos, ou seja, visa a levar o aluno a assumir uma posição de cidadão consciente, capaz de analisar as mais variadas situações vividas em sociedade, manifestando-se criticamente perante elas. As concepções de linguagem e de texto que embasam o ensino de LP podem ser evidenciadas nas seguintes informações trazidas pelo Guia Geral (BRASIL, 2008a, p. 36): Nos TPs, o trabalho com a linguagem busca privilegiar a língua como atividade social e comunicativa, considerando sempre os interlocutores localizados em um espaço social e histórico. Essa postura aponta para uma perspectiva que vê o texto como a concretização das situações de interação e um produto de condições sócio-históricas, em que a significação é o ponto central. Os TPs, de acordo com o Guia, são construídos com base nos diversos temas transversais, propostos nos PCNLP (BRASIL, 1998), sendo que a escolha ―do tema de cada TP comanda, primeiramente, a seleção de textos nos mais diversos gêneros discursivos‖ (BRASIL, 2008a, p. 36). Partindo do pressuposto de que a significação se produz na cultura, a proposta pedagógica do GESTAR II pretende que o professor, no desenvolvimento das ações de ensino-aprendizagem, privilegie o processo de significação, levando em conta o texto e as relações intertextuais definidas sócio-historicamente, visto que o desenvolvimento da linguagem só pode ocorrer por meio de atividades significativas. Esse é o componente fundamental desse Projeto, pois sua pretensão é de que as atividades de aprendizagem ofereçam inúmeras possibilidades aos alunos, tornando-os progressivamente autônomos; além disso, espera-se que, mediante essas atividades, os aprendizes possam obter novas informações, exercitando diferentes estratégias e aprendendo diversas formas de produção de significação (BRASIL, 2008a, p. 37). 92 f) A ementa do programa de Língua Portuguesa A fim de possibilitar uma visão mais ampliada da proposta pedagógica do GESTAR II, achamos pertinente apresentar o quadro onde é descrita a ementa geral do Programa de Língua Portuguesa. Antes disso, ressaltamos, porém, que, nessa pesquisa, nosso olhar estará direcionado somente para o TP6, pelas razões expostas. Sendo assim, segue a ementa: Quadro 3 – Ementa dos Cadernos de Teoria e Prática 93 94 95 (BRASIL, 2008a, p. 37-40). A próxima seção trata da implementação do Programa GESTAR II. 3.5.3 Unidade 3 – Implementação do GESTAR II A Unidade 3, intitulada ―A implementação do GESTAR II‖, tem como objetivo mostrar como o GESTAR II funciona na prática. Para isso, são apresentados, na seção I, os sistemas instrucionais do Programa, a saber, a estrutura dos Cadernos de estudos (TP) e sua operacionalização. Na seção II, é discutida a avaliação do professor-cursista e sua certificação, a estrutura organizacional desse Projeto e os seus atores, conforme segue. a) Caderno de Teoria e Prática Conforme vimos, a área de Língua Portuguesa possui seis cadernos de Teoria e Prática, divididos nos seguintes temas: TP1 — Linguagem e cultura; TP2 — Análise linguística e análise literária; TP3 — Gêneros e tipos textuais; TP4 — Leitura e processos de escrita I; TP5 — Estilo, coerência e coesão e TP6 — Leitura e processos de escrita II. Todos esses Cadernos estão organizados em um volume que proporciona o desenvolvimento de determinadas competências em cada Módulo do GESTAR II. De acordo com o Guia Geral 96 (BRASIL, 2008a), as informações conteudísticas dos TPs são mais abrangentes e complexas do que aquelas do material que será utilizado para as atividades em sala de aula, a saber, os AAAs. Esse material de formação continuada se divide em dois módulos, cada qual formado por três TPs, concebidos não só como planos de aula do Programa, mas também como documentos autoinstrucionais, criados especialmente para subsidiar o processo de formação do professor. No Módulo I, serão abordados assuntos referentes à construção da base comunicativa do aluno: TP1, TP2 E TP3; no Módulo II, assuntos relativos à leitura e à produção de textos: TP4, TP5 E TP6. A seguir é apresentada a estrutura do Caderno de estudo (TP), com a ressalva de que todos os outros TPs respeitam a mesma organização. b) Apresentando a Estrutura do Caderno de Teoria e Prática O Caderno de Teoria e Prática possui quatro unidades, cada qual contendo três Seções, e se divide em três partes: Parte I: unidades; Parte II: Lição de Casa ou Socializando, e Parte III: Oficinas ou Sessão Coletiva. Vejamos, agora, como se organiza cada Unidade de um TP. Na parte I, encontra-se o Título da Unidade e o nome do autor; o Iniciando Nossa Conversa, em que se introduz a unidade ao professor; o Definindo Nosso Ponto de Chegada, em que se descrevem os objetivos de aprendizagem; e as Seções. Conforme já vimos, cada Unidade contém três Seções, apresentando título, objetivos de aprendizagem e o desenvolvimento do conteúdo. Para desenvolver o conteúdo da seção, são utilizados vários recursos de aprendizagem, tais como: Atividades: inseridas em momentos estratégicos do texto, possibilitam que o cursista mobilize os seus conhecimentos prévios e, a partir dos exercícios, construa o seu próprio conhecimento. Cada Seção conta com no mínimo duas e no máximo seis atividades de estudo, totalizando de seis a dezoito atividades por Unidade; Indo à sala de aula: sugere atividades que se referem à aplicação do conteúdo estudado em sala de aula ou lembra posturas importantes para o professor; Avançando na Prática: momento em que o professor é convidado a aplicar em sala o que estudou, por mais de um passo a passo; Importante: definições de conceitos e sínteses do tópico em estudo; Recordando: notas sobre conteúdos tratados anteriormente ou que o professor deveria saber; Resumindo: sintetiza o conteúdo da Seção (BRASIL, 2008a, p. 45). 97 No término de cada Unidade, existem: Bibliografia, na qual é apresentada toda a base teórica da Unidade; Leituras Sugeridas, em que são feitas propostas de leituras (de três a cinco por Unidade). Cada uma dessas sugestões possui, além de resenhas, referências bibliográficas. Dentro da Unidade, há ainda os itens: Ampliando nossas Referências, no qual se apresenta um Texto de Referência, relacionado a conteúdos vistos na Unidade, a fim de enriquecer a reflexão do professor cursista sobre sua prática; Correção das Atividades, em que o professor tem a oportunidade de conferir as respostas das questões distribuídas ao longo da Unidade. O quadro abaixo sintetiza o modo como é estruturada a unidade do Caderno de Teoria e Prática (TP). Quadro 4 – Estrutura da Unidade no Caderno de Teoria e Prática (TP) Unidade Título da Unidade e nome do autor Iniciando nossa Conversa Definindo nosso Ponto de Chegada Seção Atividades Indo à sala de aula Avançando na Prática Importante Recordando Resumindo Bibliografia Leituras Sugeridas Ampliando nossas Referências A parte II do Caderno de Teoria e Prática apresenta duas Lições de Casa. Essa etapa consiste no relato de um Avançando na Prática, produzido pelo professor-cursista, que deverá entregar ao formador uma Lição de Casa, a cada duas unidades estudadas. Já na parte III, encontram-se as Oficinas, que são os encontros presenciais, os quais podem ocorrem a cada três semanas ou quinzenalmente, com duração de 4h. Na sequência, ainda na Unidade 3 do Guia Geral (BRASIL, 2008a), é apresentado o modo de avaliação do professor em curso e os atores desse Projeto. 98 c) Avaliação do professor cursista, a estrutura organizacional do GESTAR II e seus atores No Guia Geral (BRASIL, 2008a), são evidenciados os direitos e deveres do professor em formação continuada, a fim de que assuma com responsabilidade suas ações nesse processo. Dentre os direitos que o docente possui, destacam-se: receber o material completo, participar das oficinas e seminários de formação, ter um formador que o oriente no decorrer do curso, receber certificado de conclusão do curso, entre outros; já como dever destacam-se: frequência obrigatória às atividades, realização e entrega de Lições de Casa e de Projeto no fim do curso, leitura dos TPs para respectivas discussões nos encontros, realização de autoavaliação, compromisso de fazer o planejamento das aulas com base nas orientações do GESTAR II etc. Nessa etapa, são apresentados também os atores desse Projeto de formação continuada, enfatizando-se as atribuições e as responsabilidades da equipe gestora, que é composta por formador e tutor, diretor e coordenador pedagógico. Dentre as obrigações do formador destacam-se: o planejamento dos encontros presenciais, dos planos de aulas e das avaliações, a apresentação e a divulgação do Programa, a execução de sessões presenciais, a orientação e o acompanhamento individual do professorcursista e também da ação do coordenador da escola ao acompanhar a prática cotidiana do professor, entre outras. Ao diretor e coordenador pedagógico cabe organizar os horários de estudos dos professores, apresentar local adequado para a realização das reuniões, acompanhar a prática pedagógica do professor-cursista, entre outras atribuições. Tendo em vista que o GESTAR II foi pensado sob a lógica de uma formação continuada em que o trabalho do professor deve se realizar através de estudos diários, de revisão e de reflexão, espera-se que cada escola envolvida nesse Projeto participe ativamente, a fim de que as propostas advindas dessa formação continuada possam ser efetivamente implantadas. Na seção seguinte serão abordadas questões de mudanças no trabalho escolar a partir do GESTAR II. 99 3.5.4 Unidade 4 – O GESTAR II, as expectativas de mudança e a especificidade do Programa em cada escola A Unidade 4, intitulada ―O GESTAR II, as expectativas de mudança e a especificidade do Programa em cada escola‖, tem como objetivo explorar as expectativas de mudança a partir do GESTAR II, traçando um prognóstico do programa e uma síntese de questões já enfatizadas, uma vez que trata da possibilidade de alcançar resultados positivos nas escolas participantes do projeto. Nesse momento, o Guia Geral (BRASIL, 2008a), mais uma vez, apresenta o GESTAR II como um Programa inovador de formação de professores em serviço, ao promover discussões que culminem sempre na ação, reflexão e ação do professor-cursista. Como vimos, o Guia confere ao GESTAR II um discurso revolucionário, de uma Proposta abrangente de formação continuada que sugere uma nova escola e aponta para intensas mudanças em toda a estrutura da comunidade escolar. Enfim, o discurso apresentado pelo Guia remete ainda a um convite a todas as pessoas (alunos, professores, coordenadores, diretores, pais, toda a comunidade) para a implementação desse Programa, com responsabilidade e comprometimento, introduzindo, assim, uma visão de escola como uma comunidade (BRASIL, 2008a, p. 62). Na última Unidade do documento, são abordados procedimentos que pretendem ajudar o professor cursista no uso dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem (AAA) dos Alunos, para melhor viabilização do trabalho pedagógico docente. 3.5.5 Unidade 5 – Procedimentos para utilização dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem do aluno A Unidade 5, intitulada ―Procedimentos para utilização dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem do aluno‖, tem como objetivo o tratamento dos Cadernos de atividade. Tais Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem (AAA) dos alunos seguem os pressupostos do ensino de Língua Portuguesa, apontados pelos PCNLP (BRASIL, 1998), os quais reconhecem como objetivo principal desse ensino o desenvolvimento da competência discursiva e textual dos alunos no processo de recepção, leitura e produção. Nesse sentido, a escola deve formar alunos reflexivos e críticos, além de desenvolver atividades e exercícios 100 que realmente os ensinem a adaptarem-se, tanto de modo oral como de modo escrito, às várias situações discursivas. Para o Guia, a linguagem não se realiza em palavras isoladas, mas se efetua em processos reais de comunicação, e a competência discursiva ―é adquirida pelo aluno na e pela atividade de linguagem, em atividades de leitura e de produção de textos inseridas em situações linguisticamente significativas‖ (BRASIL, 2008a, p. 69). Por isso, defende que a apropriação dos conhecimentos linguísticos ocorre no processo de reflexão sobre a linguagem, em práticas contextualizadas de leitura e escrita. Esse material de Apoio, elaborado a partir desses pressupostos de ensino, conforme o Guia Geral (BRASIL, 2008a), oferece situações didáticas que podem ser aplicadas em sala, pois é composto por aulas que sugerem a mobilização de conhecimentos prévios, esquemas cognitivos já construídos pelo aprendiz. Além disso, suas sequências didáticas propõem sempre um desafio a ser vencido, requerendo do aluno uma postura reflexiva e ativa. Nesse material, todas as atividades de uma aula estão interligadas, a fim de conduzir o aluno a um processo de finalização. Tudo isso lhe permite a apropriação de novos conhecimentos, conforme o Guia. De acordo com esse documento, os Cadernos de Apoio têm o objetivo de subsidiar as aulas com atividades individualizadas, quanto ao ritmo de cada estudante, além de promover exercícios para o ensino de conteúdos que ainda não aprendeu, sanando as deficiências detectadas na primeira avaliação. Para tanto, o professor precisará ficar atento às dificuldades apresentadas, a fim de identificar as deficiências de aprendizagem dos alunos e, quando necessário, refazer seu plano de aula, considerando as competências que ainda não foram alcançadas pelos aprendizes. Os AAAs contêm propostas de situações significativas de aprendizagem, com orientações metodológicas para o professor, e são ―complementares aos Cadernos de Teoria e Prática. Em outras palavras, os temas abordados nos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem do Aluno correspondem aos que são tratados nos Cadernos de Teoria e Prática‖ (BRASIL, 2008a, p. 67). Essas orientações visam a fornecer ao professor informações teórico-conceituais sobre os temas, a fim de ampliar sua compreensão, desenvolver sua autonomia e indicar procedimentos didáticos, para que possa engajar-se no trabalho (BRASIL, 2008a, p. 68). Aquele destinado ao aluno apresenta várias atividades cuja explicação (teórica) pode ser encontrada no caderno do professor. Como bem elucida o Guia (BRASIL, 2008a, p. 72), ―todas as aulas são devidamente explicadas nos Cadernos na versão do professor‖. 101 O Guia Geral (BRASIL, 2008a) traz ainda as etapas de implementação da proposta, mediante os Cadernos de Apoio, orientando o professor na elaboração do plano de aula, que deve ser pensado por meio de várias reflexões, tais como: A situação didática é coerente com as intenções educativas? A seleção dos conteúdos é adequada tendo em vista essas intenções educativas, presumidas em termos de habilidades a serem desenvolvidas pelos alunos? Como serão mobilizados os conhecimentos prévios dos alunos? As situações foram funcionais e significativas? Estão sendo propostos desafios acessíveis aos alunos? As respostas dos alunos são ouvidas e consideradas? Há uma preocupação com o estabelecimento de sínteses sistematizadas de aprendizagens que estão ocorrendo? (BRASIL, 2008a, p. 70-71). A partir da investigação desses aspectos, o educador deve, então, buscar alternativas para solucioná-los. Esse próximo excerto elucida o que dizemos: A seleção e a aplicação das aulas/atividades dos Cadernos de Atividades de Apoio à Aprendizagem pressupõem, portanto, que o professor acompanhe e avalie o processo de aprendizagem na sua totalidade, tomando como referência as metas e as expectativas quanto a esse processo, assim como considere e avalie o trabalho que ele próprio vem desenvolvendo com sua classe (BRASIL, 2008a, p. 71-72). Sem dúvida, uma análise adequada e fundamentada com procedimentos reais para resolução dos problemas encontrados exige um professor competente e treinado para tal. Por isso, nesta pesquisa, propomos verificar se esse material fornece orientações efetivas que dão suporte para a prática pedagógica do professor em sala de aula, no que diz respeito ao ensino de escrita. Na seção seguinte, apresentamos as categorias de análise que embasarão nossa análise. 3.6 Categorias de análise Com a finalidade de responder às nossas questões de pesquisa, analisamos parte do material de formação continuada do GESTAR II, a saber, as orientações teóricas no tratamento das propostas de produção de textos no Caderno TP6 e o Guia Geral. Para isso, definimos os conceitos teórico-metodológicos relevantes à construção dos argumentos do nosso estudo, isto é, as categorias de análise que balizarão nossa pesquisa. 102 Ao assumirmos a perspectiva discursivo-enunciativa do Círculo de Mikhail Bakhtin (2004[1929], 2003[1952-1953]), faremos usos de alguns conceitos durante nossas análises, a saber: gêneros do discurso, diálogo, interação e compreensão ativa e responsiva. A perspectiva dialógica da linguagem e o conceito de gênero discursivo, tal como postulados pelo Círculo de Bakhtin (2004[1929], 2003[1952-1953]), constituem os pilares da nossa pesquisa, pois norteiam não só a coleta de dados como sua análise. Sob tal perspectiva, o ensino da produção de textos procede (noutros moldes, diferentes daqueles tradicionais), sobretudo, pela adoção de um gênero do discurso, adequado à situação comunicativa em foco. Logo, numa atividade de escrita, a definição da esfera de atividade, bem como do interlocutor, do propósito comunicativo, das condições de produção, circulação e recepção, entre outros, precisam ser levados em conta, pois se constituem em aspectos fundamentais capazes de garantir, de fato, ao aluno, um entendimento profundo das situações sociais concretas em que a linguagem se realiza. Nesse sentido, a análise de propostas de produção textual, através da concepção enunciativo-discursiva, permite perceber a presença desses elementos que não podem, jamais, ser deixados em segundo plano, no processo de escrita. Aliás, um trabalho que se propõe a seguir os novos paradigmas teóricos de ensino de LP deve trazer claras essas características, considerando o processo de escrita como uma interlocução real, já que o ―discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso‖ (BAKHTIN, 2003[1952-1953], p. 274). Além dessa perspectiva bakhtiniana, buscaremos, também, para análise dos dados encontrados, apoio nas concepções de linguagem, de escrita e de letramento, veiculadas nos PCNLP (BRASIL, 1998), tendo em vista que essas concepções contribuíram para o redimensionamento do ensino-aprendizagem de produção de textos. Desse mesmo modo, ao inscrevermos nosso estudo nos referenciais teóricos de tais guias, é impossível não levarmos em conta a teoria sócio-histórica de Vygotsky (2007[1984], 1996[1987]), cuja teoria embasa a composição desses documentos oficias bem como o redirecionamento do ensino de LP. Dizemos isso, pois, segundo Freitas (2006), o princípio vygotskyano, além de possibilitar o conhecimento da evolução do desenvolvimento humano e do processo de apropriação do saber pelo indivíduo, apontou um caminho mais eficaz e comprometido para a prática pedagógica docente. Aliás, a teoria desse autor se identifica, claramente, com a atual tendência educacional, que tem um caráter mais social, mais dialético e que vê o homem não só como um indivíduo influenciado pelo meio, mas também com capacidade de se voltar sobre ele para transformá- 103 lo (FREITAS, 2006, p.15-16). Por isso, suas concepções acerca do desenvolvimento humano e da interação social também servirão de categorias de análises dos dados coletados. Outra categoria de análise de que faremos uso serão as capacidades de linguagem. Estas serão empregadas em virtude da nossa pré-análise dos materiais (TP6 e Guia Geral). Neles, observamos que os autores se propõem, no tratamento didático para a produção escrita, a levar em conta a situação sociocomunicativa, a saber, elementos da situação de produção, circulação e recepção. Dessa forma, na Unidade 22, do TP6, analisaremos as orientações dadas ao professor e ao aluno para a produção textual, buscando identificar as capacidades de linguagem mobilizadas nessas propostas de ensino-aprendizagem, pois acreditamos que, antes de desenvolver as capacidades do aluno, o professor precisa, naturalmente, ter desenvolvido as suas. Para tanto, aplicaremos as categorias de análise das capacidades de linguagem proposta por Dolz e Schneuwly (2004), a partir do quadro22 síntese elaborado por Barros-Mendes (2005). No capítulo seguinte, apresentamos a análise dos dados e seus resultados. 22 O quadro sinóptico, elaborado por Barros-Mendes (2005) e adaptado por nós a propósito do nosso objetivo de pesquisa, foi apresentado no capítulo II desta dissertação. 104 CAPÍTULO IV ANÁLISE DE DADOS Com o intuito de observar de que forma as atividades trazidas pelo GESTAR II favorecem a formação em serviço, este capítulo tem como foco a análise dos dados contidos no Caderno de Teoria e Prática (TP6), componente do Programa. Primeiramente, apresentamos a análise da Unidade 22 do TP6, referente aos pressupostos teóricometodológicos, que embasam a prática pedagógica do professor de Língua Portuguesa para o ensino de escrita, e ao diálogo existente entre as suas orientações teóricas e as do Guia Geral para tal ensino. Nessa análise, buscamos identificar as capacidades de linguagem presentes nas propostas de ensino-aprendizagem da escrita direcionadas ao professor-cursista. Posteriormente, exibimos a análise das propostas de produção textual direcionadas ao aluno, no intuito de comparar tais atividades aos pressupostos metodológicos apresentados no TP6, buscando também reconhecer as capacidades mobilizadas para o exercício da escrita do aluno. Por fim, fazemos um levantamento dessas capacidades, procurando confirmar se aquelas apresentadas nas propostas de produção do professor foram também mobilizadas nas atividades do aluno. 4.1 Unidade 22 – Produção textual: planejamento e escrita A Unidade 22 do TP6, intitulada ―Produção textual: planejamento e escrita‖, está organizada de acordo com a estrutura do Caderno já apresentada no capítulo anterior.Durante a análise, conforme já dito, ao referirmos ao discurso da autora da Unidade 22, do TP6, adotaremos os seguintes nomes: TP6, TP, material e/ou Caderno. Assumiremos também a palavra ícone junto ao nome de cada etapa presente na Unidade 22, e a palavra seção será empregada quando fizermos a análise das seções 1, 2 e 3. Assim, nosso olhar lança-se para o ícone Iniciando Nossa Conversa, inserido nas primeiras páginas. Tal ícone é um material disponibilizado ao professor, em que se retoma o conteúdo estudado nas seções anteriores e se introduz o tema a ser enfocado na Unidade. Além disso, apresentam-se os pressupostos teórico-metodológicos que embasarão o trabalho docente, informações não presentes no Caderno do aluno, o conteúdo de cada seção e o objetivo principal da Unidade, conforme segue: 105 106 (BRASIL, 2008b, p. 73-74). Nesse primeiro momento, na introdução da Unidade 22 do TP6, embora não faça nenhuma referência aos PCNLP (BRASIL, 1998), podemos ver que a o Caderno busca marcar seu posicionamento sobre sua adequação a tal documento, pois notamos um discurso aproximado daquele abordado na diretriz curricular, como o ensino a partir do desenvolvimento da competência comunicativa do aluno; a definição dos elementos da 107 situação sociocomunicativa como ponto inicial da produção textual; as denominações uso, reflexão, competência, habilidade e gênero, entre outros. No primeiro capítulo desta dissertação, falamos da influência e do reflexo que os PCNLP (BRASIL, 1998) têm tido no ensino atual, em virtude de havermos percebido que alguns materiais pedagógicos — tais como os livros didáticos e os materiais de formação continuada de professores — têm buscado se adequar às propostas desse documento. Em outros termos, esses materiais, considerados elementos fixos, atores não-humanos (SILVA, 2006), em boa medida, vêm se esforçando no sentido de contextualizar as propostas de produção textual com base na teoria de gênero discursivo que hoje fundamenta o ensino de Língua Portuguesa. Na verdade, o Programa GESTAR II caracteriza-se, justamente, como uma tentativa oficial de efetiva operacionalização das orientações curriculares vigentes nas escolas brasileiras, como pontua Silva (2011, no prelo). Segundo o Guia Geral (BRASIL, 2008a), o objetivo do GESTAR II é o de possibilitar ao professor um trabalho que propicie ao aluno o desenvolvimento de habilidades de produção de diferentes textos, de modo consciente e crítico. Provavelmente, no intuito de seguir tal pressuposto, na Unidade 22, o ensino de escrita é tratado a partir de uma perspectiva do desenvolvimento da competência comunicativa do aluno. Segundo o TP6, o trabalho de produção de textos está fundamentado [...] na reflexão sobre os usos comunicativos da escrita e sua relação com o conhecimento linguístico e o desenvolvimento de habilidades de reflexão sobre as etapas do processo de produção textual [ênfase adicionada] (BRASIL, 2008b, p. 73). A partir desse discurso, podemos pensar que as propostas de produção textual buscarão ser feitas numa perspectiva inovadora, pois serão articuladas no eixo uso e no eixo reflexão, com o intuito de desenvolver a competência discursiva do aluno, como apontam os PCN de Língua Portuguesa (BRASIL, 1998). É pertinente notar que essas denominações uso, reflexão, competência, habilidade são influências das discussões ocorridas ultimamente sobre o ensino de LP, especialmente no que diz respeito à leitura e escrita, conforme vimos nos capítulos I e II. Sabemos que esse documento centra suas propostas no desenvolvimento de capacidades/competências e habilidades, partindo do pressuposto de que a língua se realiza no uso das práticas sociais e na reflexão sobre esse uso; por isso, devem-se oportunizar na sala de aula, a articulação dos conteúdos nesses dois eixos básicos, além de eventos significativos 108 de interação social, a fim de que o aluno possa exercitar, sobretudo, a escrita em situações de usos reais, tornando-se um usuário competente de sua língua. Para a aprendizagem real dessa prática, então, é preciso não só definir os elementos da situação sociocomunicativa (gêneros, interlocutores, intenção, suporte etc.) como também estabelecer situações didáticas, tomando como objeto de reflexão os procedimentos de planejamento, de elaboração e de refacção dos variados textos, uma vez que ―toda educação comprometida com o exercício da cidadania precisa criar condições para que o aluno possa desenvolver sua competência discursiva‖ (BRASIL, 1998, p. 23) [ênfase adicionada]. Com base nessas diretrizes curriculares, o TP6 mostra-se favorável a uma renovação do ensino de produção de texto, segundo o excerto a seguir. [...]continuamos a expandir a noção do trabalho de ensino-aprendizado da [...] escrita, fundamentando nossos argumentos na reflexão [...] o desenvolvimento de habilidades de reflexão sobre as etapas do processo de produção textual: planejamento, escrita, revisão e edição (BRASIL, 2008b, p. 73) [ênfase adicionada]. Logo, partindo do pressuposto bakhtiniano de que todo enunciado é dialógico, posto ser sempre uma réplica e se constituir a partir de outros enunciados, podemos constatar a dialogização nesse excerto introdutório, porque se percebe, mesmo implicitamente, o embate entre duas vozes, ou seja, o discurso atual sobressaindo-se ao discurso obsoleto, do ensino formal. Nas palavras de Bakhtin/Volochinov (2004[1929], p. 98): ―toda a enunciação [...] é uma resposta a alguma coisa e é construída como tal [...] Toda inscrição prolonga aquelas que a precederam, trava uma polêmica com elas, conta com as reações ativas da compreensão, antecipa-as‖. Podemos pensar, então, que tal posicionamento de ―adequação‖ aos PCNLP (BRASIL, 1998) se insere nesse movimento dialógico que soa como uma resposta ativa aos inúmeros questionamentos pelos quais vêm passando o ensino de LP, nas últimas décadas. Sabemos que tais críticas são representadas, geralmente, pelo discurso do fracasso escolar, referente ao desempenho insatisfatório dos alunos em relação à leitura e escrita, especificamente. Em outras palavras, essas críticas recaem sobre um ensino ―tradicional‖ que, sempre, se preocupou com a aquisição de códigos e com sua decodificação, práticas necessárias para o sucesso na escola, deixando-se de lado os variados letramentos e as práticas sociais, que nada mais são do que lugar de manifestação tanto do individual como do social na linguagem, como nos lembram Schneuwly e Dolz (2004). 109 Nessa introdução, sob a mesma lógica dos PCNLP (BRASIL, 1998), o TP6 destaca, superficialmente, seu embasamento teórico na perspectiva de produção textual que considera os elementos da situação sociocomunicativa, incorporando as noções de planejamento, revisão e rescrita de textos. Implicitamente, ao anunciar essa adesão à ―nova‖ abordagem, parece que o Caderno, escrito por um sujeito, necessariamente dialógico e responsivo, busca um caminho adequado para aplicação do ―novo‖ conteúdo de ensino de LP (por exemplo, os gêneros). Pretende, assim, criar no seu interlocutor um sentimento nobre de superação das práticas antiquadas de ensino, ou seja, tem o intuito de causar uma boa impressão sobre o curso, que também se apresenta como revolucionário e inovador em relação aos outros programas de formação existentes. Em toda enunciação, a escolha de cada enunciado não é feita de maneira aleatória, mas balizada por parâmetros sociais, valores, crenças, ideologias, conforme o pensamento bakhtiniano. Dito isso, podemos pensar, então, que esse texto introdutório tem o objetivo de despertar a credibilidade dos professores acerca dos conteúdos e atividades subsequentes da Unidade, já que mostra uma interação com as atuais discussões em relação ao ensino da língua materna; consequentemente, cria-se uma expectativa positiva na abordagem, que será feita de forma diferenciada dos conteúdos previstos. Essa Unidade divide-se em três Seções: na primeira, o professor-cursista refletirá sobre o planejamento pessoal relacionando-o com o processo de criação e o trabalho do aluno; na segunda, serão apresentadas estratégias ao cursista para o planejamento e outras atividades de produção; na última seção, serão organizadas atividades de produção, considerando as etapas estudadas anteriormente. Para tanto, conforme o TP6, quanto mais claras forem as orientações referentes ao aspecto sociocomunicativo de uso e função, mais o aluno conseguirá construir um texto significativo e também aprender sobre os elementos da escrita. Ao final da Unidade 22, espera-se que o professor-cursista seja capaz de Planejar atividade de escrita baseada na perspectiva da produção textual: no tocante às etapas de planejamento e escrita, relacionado-a às diversas situações sócio-comunicativas, incluindo os gêneros de textos requisitados, também, em outras disciplinas da escola (BRASIL, 2008b, p. 74) [ênfase adicionada]. A respeito da produção de gêneros textuais requisitados em outras disciplinas, nos questionamos: A que gêneros o TP6 se refere? Seriam aqueles essencialmente escolares, como o resumo, a resenha e o relatório? Sobre esse assunto, sabemos que as diretrizes oficiais 110 indicam para as atividades de escrita alguns gêneros, cujo critério de seleção baseia-se na sua circulação social, isto é, aqueles que, além de transitarem nas instâncias públicas, são considerados de domínio fundamental para a efetiva participação do aluno na sociedade. Segundo os Parâmetros os textos a serem selecionados para o ensino de produção de texto [...] são aqueles que, por suas características e usos, podem favorecer a reflexão crítica, o exercício de formas de pensamento mais elaboradas e abstratas, bem como a fruição estética dos usos artísticos da linguagem, ou seja, os mais vitais para a plena participação numa sociedade letrada (BRASIL, 1998, p.24). De qualquer modo, o excerto supracitado do TP6 acerca dos gêneros de textos requisitados em outras disciplinas da escola, por um instante, nos fez crer que não se incluía, aqui, o ensino dos gêneros visando, de fato, ao bom desempenho do aluno nas práticas sociais (extraescola) e sim o ―desfrute‖ da própria instituição, certamente, para a promoção escolar; ensinam-se os gêneros textuais cogitando — somente — o seu uso interno, a fim de que o aluno se ―saia bem‖ nas demais disciplinas? Se for, tal postura, além de estar em desacordo com os discursos oficiais, parece remeter a um ensino reducionista, isto é, àquele que constrói ―nas atividades de produção escrita, modelos de gêneros que não encontram referência nas práticas de linguagem escrita fora da sala de aula‖, não visando, portanto, ao letramento do aluno (RODRIGUES, 2000, p. 207). Tendo em vista que a diversidade de letramentos corresponde às várias formas de se relacionar com os textos e está intimamente ligada às diversas situações de uso da linguagem escrita, compreendemos que um projeto de produção textual deve ser orientado para aqueles gêneros cujo domínio é necessário, de fato, para o bom desempenho escolar (resumo, esquema, fichamento). Porém, não se deve se esquecer de outros, também essenciais para a plena participação na vida social pública, extrassala, pertencentes a outras esferas da comunicação verbal (curriculum vitae, carta aberta, carta de leitor, preenchimento de formulários diversos), pois o nível de letramento de um sujeito é determinado pelo conjunto de gêneros que ele reconhece e domina. Sem dúvida, um ensino de escrita intermediado pelos eventos de letramento reais, inclui atividades com características heterogêneas de outras atividades da vida social, envolvendo, assim, mais de um participante. Esses indivíduos possuem diversos conhecimentos, que são mobilizados na medida adequada, no momento necessário, em prol de interesses, intenções e objetivos particulares bem como de metas comuns, como destaca Kleiman (2005). 111 Inegavelmente, uma pessoa precisa dominar as variadas formas de dizer para que possa empregá-las mais livremente nas diversas esferas enunciativas, de forma consciente e autônoma. Por isso, qualquer projeto pedagógico que tome o gênero como objeto de ensino, precisa ter, antes de tudo, clareza do tipo de indivíduos que se pretende prioritariamente formar e dos objetivos que se pretendem alcançar, pois, como defendem Schneuwly e Dolz (2004, p.69), Toda introdução de um gênero na escola é o resultado de uma decisão didática que visa a objetivos precisos de aprendizagem que são sempre de dois tipos: trata-se de aprender a dominar o gênero, primeiramente, para melhor conhecê-lo ou apreciá-lo, para melhor saber compreendê-lo, para melhor produzi-lo na escola e fora dela; e, em segundo lugar, para desenvolver capacidades que ultrapassam o gênero e que são transferíveis para outros gêneros [ênfase adicionada]. Ainda sobre a produção de gêneros requisitados em outras disciplinas escolares, podemos depreender talvez um discurso velado23 existente no meio educacional, acerca do ensino de leitura e escrita. Afinal, não raras vezes nos deparamos com questionamentos sobre a obrigação do professor de língua de ensinar tais práticas. Muitas vezes, parece recair sobre esse profissional uma responsabilidade maior em relação aos docentes de outras disciplinas no tocante à produção textual, especificamente. Todavia, essa pode ser uma ideia equivocada, pois de acordo com os documentos oficiais, a tarefa de formar leitores e usuários competentes na escrita não se restringe à disciplina Língua Portuguesa, visto que os professores de outras disciplinas também dependem da linguagem para desenvolver os aspectos conceituais de sua matéria: Não é possível esperar que os textos que subsidiam o trabalho das diversas disciplinas sejam auto-explicativos. Sua compreensão depende necessariamente do conhecimento prévio que o leitor tiver sobre o tema e da familiaridade que tiver construído com a leitura de textos do gênero [...] É tarefa de todo professor, portanto, independentemente da área, ensinar, também, os procedimentos de que o aluno precisa dispor para acessar os conteúdos da disciplina que estuda [...] Produzir esquemas, resumos que orientem o processo de compreensão dos textos, bem como apresentar 23 Sobre discurso velado, ler Fiorin (2006). Esse autor afirma que, na construção discursiva, a polêmica velada pode ser percebida na oposição de duas vozes. 112 roteiros que indiquem os objetivos e expectativas que cercam o texto que se espera ver analisado ou produzido não pode ser tarefa delegada a outro professor que não o da própria área (BRASIL, 1998, p. 32) [ênfase adicionada]. Assim, conforme pontuado pelos documentos oficiais, os professores, independentemente da área de atuação, não devem ficar omissos quanto ao ensino da escrita de gêneros diversos; portanto, devem contribuir para a ampliação do conhecimento do aluno, a fim que ele alcance, de fato, sua condição cidadã, tendo em vista que muito do fracasso dos objetivos relacionados à formação de usuários competentes da escrita é atribuído à omissão da escola e da sociedade diante de questão tão sensível à cidadania. Nas próximas seções, exploraremos a organização dos conteúdos e das atividades nas respectivas seções destinadas ao professor: Seção 1 – O planejamento; Seção 2 – O planejamento: estratégias; Seção 3 – A escrita. 4.2 Seção I – O planejamento A seção I, intitulada “O planejamento”, pretende que o professor reflita sobre seu planejamento pessoal, relacionando-o com o processo de criação e o trabalho do aluno. Para isso, são utilizados vários recursos de aprendizagem, como as atividades preparatórias que visam a possibilitar a construção do conhecimento do cursista para o trabalho em sala de aula. A Unidade 22 apresenta oito dessas propostas. A primeira atividade parte de três textos: Poesia, de Carlos Drummond de Andrade, retirado do livro ―Alguma poesia‖, Ah, sim, a velha poesia..., de Mário Quintana, retirado do livro ―Nova Antologia‖, e uma poesia sem título de Arnaldo Antunes, retirado do livro ―As coisas‖. Os dois últimos textos são seguidos da biografia do autor, composta por duas linhas, conforme segue: 113 114 115 ( BRASIL, 2008b, p. 76-78). Essa atividade propõe ao professor responder sobre: a) Quais os prováveis leitores desses textos? A partir das informações oferecidas, onde foram publicados? b) Qual a função do texto poético? c) Qual o objetivo possível de poemas como esses? Justifique sua resposta, considerando a função do poema. d) Vamos refletir sobre a sua experiência pessoal como poeta? Você escreve poesia? Quando escreve? Já teve que escrever poesia, mesmo não acreditando-se poeta? Em que ocasião? 116 e) Na sua opinião, como se planeja um texto poético? Quais as possibilidades planejamento? Quais os passos que consideraria ou mesmo estratégias que utiliza(ria)? f) Escreva um poema, mesmo que curto, seguindo os elementos da etapa de planejamento descritos na resposta ao item anterior. Anote novos elementos que não havia considerado na resposta anterior e que surgem quando tenta escrever um texto. g) Anote novos elementos que não havia considerado nas respostas anteriores à escrita do poema e que surgiram quando tentou escrever nesse gênero. h) Você notou alguma diferença quanto às duas respostas? Se sim, a que atribui a diferença? i) Você desenvolve atividade de produção de poemas com seus alunos? Como os ensina a produzir utilizando esse gênero? A seguir, descreva, brevemente, que atividades de leitura e escrita desenvolve com eles nessas ocasiões. (BRASIL, 2008b, p.78-80). Em relação às questões e, f, g e h, que abordam o planejamento textual, compreendemos ser essa visão inspirada numa perspectiva que entende o texto como processo, conforme vimos no primeiro capítulo. Nessa perspectiva, tal planejamento pode ser considerado o estágio inicial, ou seja, aquele que antecede o próprio ato de escrever, envolvendo processos cognitivos profundamente influenciados pela vivência do escritor, isto é, pela experiência do professor (REINALDO, 2005). Consideramos esse aspecto do planejamento positivo, nessa atividade, haja vista que o educador é levado a refletir sobre seu processo de escrita, sistematizando-a, com base no levantamento de ideias, na organização e na retomada de outras ideias pensadas anteriormente etc. Nessa atividade preliminar destinada ao professor-cursista, vimos ainda que existe uma solicitação de escrita, na letra f, embora não haja nenhuma instrução para isso. Em tal proposta, há indicação — apenas — do gênero poema a ser produzido, porém não se vê reflexão que contribua para a elaboração temática, nem para a construção da forma composicional. O encaminhamento do material da formação continuada do professor não traz informações sobre as dimensões ensináveis desse gênero. Em relação a isso, Schneuwly e Dolz (2004, p. 76) alertam: quanto mais precisa a definição das dimensões ensináveis de um gênero, mais ela facilitará a apropriação deste como instrumento e possibilitará o desenvolvimento de capacidades de linguagem diversas que a ele estão associadas. O objeto de trabalho sendo, pelo menos em parte, descrito e explicitado, torna-se acessível a todos nas práticas de aprendizagem de linguagem. 117 A escrita desse poema, conforme propõe o TP6, parece estar mais associada ao desafio, à aventura, de modo que se tem a expectativa de que num passe mágica o redator, no caso o professor, terá o germe da escrita do texto literário (REINALDO, 2005). Padilha (2005), em seu estudo sobre o tratamento dado aos gêneros poéticos nos livros didáticos de LP, constatou a existência de diferentes abordagens nesse tratamento, como aquela subjetivista, que prioriza o imaginário do sujeito. Semelhantemente ao que ocorre nesse exercício, em que o aluno/professor-cursista é colocado em contato com três textos em gêneros poéticos, numa imersão, como se, de repente, sem quaisquer ações de ensino, ele aprendesse fazer fazendo, “por osmose” (idem, 2005). Esse tipo de atividade, fornecida pelo Caderno, destinada ao docente, nos leva a pensar que não há a necessidade de se explorar, no ensino-aprendizagem, os parâmetros da situação de ação de linguagem que estão envolvidos no uso desse gênero. Sabemos que uma atividade de produção de gênero requer um trabalho sistemático e aprofundado de reflexão, de reconhecimento do gênero, de comparação com outros gêneros, de leitura, entre outros, para que seja realmente compreendido pelo professor, posteriormente, pelo seu aluno, o que não ocorre em tal proposta. Observa-se que o TP6 se preocupa com a inclusão do gênero no material de formação continuada, de acordo com o Guia Geral (BRASIL, 2008a) e conforme os pressupostos dos PCNLP (BRASIL, 1998), mas a condição de apropriação desse modelo, oferecida ao professor-cursista é bastante limitada, dado o caráter superficial da instrução, isto é, não são fornecidos parâmetros para a produção do poema. Infere-se que o Caderno pressupõe um saber a priori por parte do educador, não considerando, muitas vezes, que o professor não está familiarizado, de fato, com esse novo saber/conteúdo. Nesse momento, é importante ressaltar que, embora em algum TP já se tenha abordado algo sobre tal gênero, cabe ao Caderno explicitar os aspectos constitutivos desse gênero ou, ao menos, (re)lembrá-los ao professor, colocando uma nota para retomada. Em todo caso, vale lembrar a afirmação do Guia Geral (BRASIL, 2008a) de que nos TPs o trabalho com a linguagem privilegiará o uso da língua como atividade social. Nesse trabalho, os interlocutores atuam em um espaço cultural e histórico. Isso quer dizer que o texto será ―visto como a concretização das situações de interação e um produto de condições sócio-históricas, em que a significação é o ponto central‖ (idem, p. 36). Essa proposição parece condizer com o TP6 quanto à afirmação de que todas as atividades de produção textual desenvolvidas nas Unidades buscam evidenciar tal escrita como um ato social e comunicativo e, sendo um ato comunicativo, 118 insere-se numa determinada situação que tem uma função, interlocutor(es), objetivo, versa sobre um tema, de acordo com uma intenção, é expressa em relação com um gênero, utiliza um determinado nível de linguagem, e como material de leitura é escrito em um determinado suporte (BRASIL, 2008b, p. 83) [ênfase adicionada]. Nesse excerto, os pressupostos teóricos do Caderno, que dialogam com os do Guia, geram a expectativa de que suas orientações favorecerão a construção das diversas capacidades de linguagem, que o professor precisa adquirir para o ensino-aprendizagem da escrita. Entretanto, apesar de enfatizar tais questões, não é isso o que ocorre na proposta anterior, a qual se resume em uma sugestão de produção de texto de caráter indefinido, com comando vago, dependente mais da imaginação e da inspiração do professor do que de um trabalho, de fato, deliberado, consciente e orientado. Em relação às capacidades de linguagem, elaboradas por Dolz e Schneuwly (2004), implicadas, necessariamente, na apropriação do gênero discursivo, percebemos que esse tipo de exercício proposto pelo TP6 não parece ter o objetivo primeiro de provocar sua aprendizagem, já que apenas uma das capacidades é mobilizada, superficialmente, a capacidade de ação, em que se indica o gênero (poema), sem explorá-lo, nem conceituá-lo. Compreendemos o espaço de formação continuada como um lugar propício para a ―atualização‖ dos saberes do professor, que precisa, de fato, desenvolver suas capacidades de escrita para, posteriormente, ensinar seu aluno. Sendo assim, nessa primeira proposta de produção, destacamos, mais uma vez, a etapa de planejamento como uma operação extremamente importante no processo de escrita, pois contribui para um texto bem organizado. Nesse sentido, o TP6 parece considerar os processos sociocognitivos envolvidos em tal prática. Mas numa elaboração escrita, há outros elementos a serem enfatizados. Definitivamente, consideramos que, no contexto escolar, o encaminhamento para a produção textual (tanto do professor quanto do aluno) deve inserir-se em um processo de interlocução ativa, a fim de possibilitar mais significado e de exercitar a escrita como prática cidadã. Depois dessas questões, o ícone Importante traz informações sobre as funções básicas da linguagem (expressiva, apelativa, metalinguística, poética, referencial), descritas por Roman Jakobson, certamente, no intuito de lembrar ao cursista a função predominante nos poemas. Parece que essa breve explicação corresponde ao ensino da linguagem, ou é a parte mais importante, pois se destaca apenas a função predominante do texto, a função mais imediata. 119 (BRASIL, 2008b, p. 81) Esse posicionamento do Caderno TP6, certamente, não auxilia o professor-cursista quanto à compreensão das funções da linguagem, pois nos demais exercícios dessa Unidade nem sempre fica clara a concepção de linguagem adotada. Não se sabe, muitas vezes, se há alguma preocupação com a função social da linguagem ou se são considerados somente os recursos de ênfase dos diferentes elementos da comunicação: a função da linguagem. O quadro das funções destacado pelo TP nos remete à Teoria da Comunicação, a saber, uma abordagem teórica que concebe a língua(gem) como código (verbal e não verbal), como um instrumento de comunicação, capaz de transmitir ao recebedor uma dada mensagem. Foi inspirado nessa concepção que o russo Roman Jakobson caracterizou as seis funções da linguagem, cada uma delas estreitamente ligada a um dos seis elementos — emissor, receptor, código, referente, canal, mensagem — que compõem o ato comunicativo (MAGNANTI, 2001). Em relação a essa teoria, Barros-Mendes (2005) salienta que ela realmente influenciou o ensino de LP, na década de 1970 e 1980, porém, tem perdido espaço no meio educacional, nos dias atuais, sendo vista hoje com ressalvas, por reduzir a comunicação humana a uma forma vazia e ritualizada. Essa concepção corresponde 120 a um arcabouço pobre, considerando a complexidade das relações humanas. Com efeito, os termos ‗falante-emissor‘, ‗ouvinte receptor‘ pressupõem um papel ativo para o primeiro e passivo para segundo (recepção/compreensão). Embora tal esquema corresponda a um aspecto real, é falho quando se pretende que represente o todo da comunicação (FURLANETTO, 1995 apud MAGNANTI, 2001, p. 02) [ênfase adicionada]. Essa teoria centra-se na informatividade da mensagem, na funcionalidade e não no ato de linguagem, acrescenta Magnanti (2001). Parece mesmo que a preocupação é mostrar como funciona a comunicação e não estabelecer interações, ouvir o outro e dar-lhe voz, no processo enunciativo. A nosso ver, esse posicionamento teórico vai contra ao paradigma atual de ensino, pois representa uma visão estreita e reducionista do emprego efetivo da linguagem. Acreditando que o sujeito apenas produz e repassa a mensagem. Ademais, não considera o outro no processo comunicativo real, na enunciação. Afirmamos isso, porque a concepção de linguagem oficialmente assumida no ensino de LP hoje é a de interação social, levando em conta o sujeito, no seu processo interlocutivo, no seu contexto sócio-histórico, conforme as diretrizes curriculares de LP. Diante disso, podemos inferir que, ao enfatizar pressupostos da Teoria da Comunicação, o TP6 se distancia da concepção de linguagem veiculada no Guia Geral (BRASIL, 2008a, p. 36-37): ―a concepção central no Gestar II da linguagem como interação já esclarece a importância do trabalho com Língua Portuguesa‖[ênfase adicionada]. Nesse momento, parece haver uma contradição, um diálogo incoerente, entre o Guia e o TP6. Nas páginas que seguintes, ainda na seção I, o Caderno apresenta algumas orientações teóricas sobre o tratamento didático dos procedimentos metacognitivos (as etapas de planejamento, revisão e reescrita de textos). O TP6 apresenta mais uma vez um discurso a respeito do planejamento, orientando o professor sobre como pensar o planejamento do texto poético, por exemplo. Aliás, recorda-lhe que este texto também requer um planejamento, variando muito de poeta para poeta, uns esperam um certo impulso..., focam interpretações..., tecem esboços...; outros planejam na própria cabeça e colocam a primeira versão imediatamente sobre o papel etc. No trecho a seguir, observamos essas considerações: 121 (BRASIL, 2008b, p. 81). O enunciado do Caderno esclarece que o processo de revisão pode ser acompanhado pelo professor ou pelos colegas, dependendo da situação: (BRASIL, 2008b, p. 82). Além disso, destaca que, nesse processo, os próprios objetivos e etapas podem ser modificados, pois elementos considerados importantes acabam sendo retirados, ou trocados, outros acrescentados e, assim sucessivamente. Para o TP, tais técnicas precisam chegar até a sala de aula para serem desenvolvidas com os alunos: (BRASIL, 2008b, p. 83). Essas orientações teórico-metodológicas sobre os procedimentos de planejamento, revisão e reescrita de texto se aproximam dos pressupostos veiculados nos PCNLP (BRASIL, 1998), de forma indireta, haja vista defender que um texto será sempre produto de diversas versões. Acreditamos, porém, que esse seria um espaço oportuno para se enfatizar, por exemplo, a importância da presença do outro, no processo de revisão e reescrita, destacando a dinâmica positiva que se processa nessa relação, em que o leitor trabalha em parceria com o autor do texto, exercendo seu papel de co-enunciador, co-produtor do texto lido. Tal relação é 122 a condição sob a qual se articula no texto a interação constitutiva do processo de interlocução, ou seja, é nesse processo que autor e leitor se fazem enunciadores do discurso, emitindo pontos de vistas, apreciação valorativa, representado e re-apresentando uma visão de mundo, com bem ressalta Jesus (1995). O momento dessa orientação constitui-se numa boa ocasião para o TP6 destacar ainda mais o significado do ―outro‖, porque, nessa situação (de escrita, revisão e reescrita) compreendemos que tanto o professor como o colega de sala, trabalhando juntos, constituemse como verdadeiros mediadores do processo. Esses parceiros podem ser considerados, na visão vygotskiana, o par mais avançado que emite um ―outro olhar‖ para a escrita do aluno. Nesse ―olhar‖, não precisam ser levantados, somente, os problemas gráficos, lexicais, de concordância e pontuação, mas devem receber especial atenção os elementos de ordem enunciativo-discursiva, que dizem respeito à construção e/ou à enunciação do texto, seu caráter sócio-histórico. Na verdade, os critérios de ―avaliação‖ e de revisão dependem do objetivo da escrita, do parâmetro disponibilizado pelo professor para a correção do texto. É pertinente pensar que tal situação de revisão e reescrita propicia um momento ideal para se trabalhar o desenvolvimento da ZPD do aluno, conforme discutido no segundo capítulo, promovendo, mediante a ajuda do companheiro, o desenvolvimento ou aperfeiçoamento de suas capacidades de escrita. Sob tal lógica, o professor constitui-se em uma pessoa responsável por interferir nessa zona de desenvolvimento do aprendiz, com o intuito de lhe propiciar avanços significativos no ensino-aprendizagem de escrita, pois é na ZPD que a interferência de outros indivíduos é mais transformadora e significativa. Logo, haja vista a pertinência desse assunto, compreendemos que esse seria o momento ideal para elucidá-lo ao professor, direcionando mais a orientação sobre a importância do outro no processo e apresentando, até mesmo uma indicação, em nota, uma referência bibliográfica sobre o assunto para consultas futuras. Na sequência, o Caderno analisado apresenta uma atividade com o texto Cavalos e Crianças, retirado de um jornal, com questões que giram em torno de planejamento e da importância de se promover nos aprendizes a releitura de seus textos. 123 Leia a seguir as respostas que um aluno construiu na atividade planejada por sua professora: Vamos ao texto: 1) Relacione o texto ―Cavalos e Crianças‖ com a Campanha da Fraternidade de 2005 ―Solidariedade e Paz‖. 124 R: Que temos que ter solidariedade com as crianças que não tem o que comer e nem moradia, isso tem a ver com a ―Campanha da Fraternidade‖ porque eles pedem a colaboração de todos para que esas famìlhas nessesitados tenham moradia e comida. 2) Descreva a moral da história. R: Moral – Todos temos que ter fé que um dia vamos ter um mundo melhor a todos. Na situação que originou o texto que você acabou de ler, de acordo com o relato do aluno, a professora estava trabalhando com sua turma de quinta série relacionando uma história sobre os tratamentos dispensados a cavalos e a crianças com a Campanha da Fraternidade de 2005. a) Compare o texto do jornal e o resultado da construção do conhecimento pelo aluno. Comente primeiramente as respostas aos dois comandos iniciais. Como o aluno redige as suas respostas? Ele compreendeu o sentido do texto? Na situação anterior, você notou que analisamos o texto inicial e o produto do processo de construção do conhecimento por meio de atividades de leitura e escrita de textos, nos baseando na contextualização por meio do relato de um aluno. b) Se você fosse utilizar o texto em sala para a leitura de seus alunos, como poderia desenvolver a atividade de compreensão do texto incluindo a discussão das respostas para a construção de uma visão crítica? Planeje brevemente a seqüência didática. c) Imagine que você tenha planejado em seguida à leitura e discussão do texto uma atividade como a elaborada pela professora da 5ª série e um dos seus alunos tivesse respondido às perguntas como o menino fez. Planeje uma atividade de escrita que inclua a produção de um texto sobre a moral da história e uma atividade que motive seus alunos a relerem seus textos. (BRASIL, 2008b, p. 84-86). A atividade seguinte, destinada ao docente, traz um trecho do texto A primeira cartilha, de Moacyr Scliar, que conta como se deu a introdução do personagem do texto às letras. As atividades que decorrem desse último texto sugerem duas produções escritas para o professor: uma, sobre uma experiência engraçada da sua vida estudantil; outra, sobre sua história como educador. No entanto, antes de escrever essa derradeira, o TP sugere que o cursista planeje seu texto. Seguem as propostas elaboradas pelo material: Agora é a sua vez de escrever sobre uma experiência pessoal. 1) Escreva sobre uma experiência engraçada da sua vida de estudante; 2) Escreva um texto sobre a sua história como educador(a), como surgiu a motivação, como se sentiu e argumentou, justificando as suas escolhas. Vamos, porém, antes de escrever o texto em si, planejá-lo. 125 a) Leia atentamente o que está sendo pedido. Quais os itens que estão sendo requisitados pelo comando? b) Considere a função e o objetivo do texto. c) Liste dois ou três eventos e tópicos que poderiam ser parte desse texto. d) Defina alguns elementos essenciais (época, ou idade que tinha, onde aconteceu, quem estava envolvido, como começou, etc.) para narrar cada um dos eventos e tópicos listados. e) Adicione idéias que possam justificar os eventos e tópicos que escolheu. f) Revise o que escreveu até agora e veja se há novas informações. Adicione-as. g) Escolha os eventos e tópicos que vai utilizar e numere as informações, construindo uma primeira versão da seqüência do texto. h) Faça os esboços do texto em folhas à parte. Depois da revisão final, transcreva o texto no espaço abaixo. Grampeie as folhas com os diversos rascunhos ou imprima a versão original, nesta folha do seu livro. (BRASIL, 2008b, p. 87-90). Na atividade de número um, acerca da escrita de uma experiência engraçada da vida estudantil do professor, podemos notar, mais uma vez, apesar de ser uma atividade de escrita, a ausência da perspectiva comunicativa, conforme propõe o material, que parece não considerar a dimensão enunciativo-discursiva da linguagem, configurada nos processos interativos. O TP não explica os parâmetros de produção (escrever para quem, para quê, com qual objetivo, para circular em qual esfera, em qual suporte), além de não considerar as práticas comunicativas da sociedade, as quais ocorrem, sempre, mediadas por um gênero discursivo. Nessa direção, compreendemos que a ausência do gênero na proposta (para o professor) prejudica o foco enunciativo-discursivo envolvido no processo de ensinoaprendizagem de escrita (do/para o aluno). Em relação às capacidades de linguagem, nesse exercício, há preocupação — apenas — com o assunto/conteúdo do texto (experiência engraçada da vida estudantil), que diz respeito à capacidade de ação. De resto, não parece favorecer a construção das outras capacidades de linguagem requeridas no ensino-aprendizagem dos gêneros, circunscrevendose à proposta de uma escrita mecânica, vazia, com um fim em si mesma. Logo, por não ter um objetivo claro nem privilegiar o processo interlocutivo, tal proposta, em boa medida, sinaliza uma contradição com os pressupostos veiculados tanto no Guia Geral (BRASIL, 2008a) quanto no próprio TP6. Na atividade de número dois, enfatiza-se o planejamento da escrita, como não poderia deixar de ser, haja vista o objetivo principal da Unidade. Sem dúvida, tal procedimento — levantamento, organização, adição e retirada de ideias, revisão e reescrita do texto — possui grande relevância em qualquer realização de escrita, ou seja, o desenvolvimento de procedimentos metacognitivos (etapas de revisão e reescrita) se faz extremamente necessário. 126 No processo de produção textual, é importante que o escritor desenvolva estratégias metacognitivas, que dizem respeito ao conhecimento, à consciência, ou seja, à monitoração consciente das ações intelectuais e o controle dos processos cognitivos. Esses aspectos (procedimentais), de certo modo, são pontuados também pelos documentos oficiais, que sugerem: ―durante a elaboração de um texto, se relêem trechos para prosseguir a redação, se reformulam passagens. Um texto pronto será quase sempre produto de sucessivas versões‖ (BRASIL, 1998, p. 77). É claro que pensar antes de escrever, fazer um esboço, um rascunho, reler o texto são práticas necessárias envolvidas no processo de escrita. Mas acreditamos que uma produção textual somente é possível, ou só se efetiva, se o escritor tiver em mente o perfil do seu interlocutor, o que não ocorre nessa proposta de escrita. Na letra b, o Caderno orienta o professor para que considere a função e o objetivo do texto a ser produzido. Mas, a nosso ver, essa questão não contribui para a formação do professor, pois não há pistas suficientes e claras que levem o cursista a tais considerações. Será que ele precisa construir o objetivo e a função do texto? Será que se trata da função da linguagem, conforme se discutiu há pouco? Não se sabe. Entendemos, com certeza, que escrever um texto é um processo complexo, porque exige a mobilização de várias capacidades; por isso mesmo se requer clareza nos parâmetros da situação de produção, recepção e circulação do texto. Isso equivale a dizer que toda escrita pressupõe um para quê, para quem, por que, com qual objetivo, como e onde. A falta dessa orientação complexifica ainda mais o processo, podendo acarretar a não efetivação do ensinoaprendizagem de escrita. Em relação às capacidades de linguagem implicadas no processo de escrita, podemos depreender a mobilização superficial de algumas delas nessa proposta. Na questão de número dois, por exemplo, inferimos que é contemplado um elemento relativo à dimensão da capacidade de ação, no que tange ao conteúdo a ser trabalhado, ao assunto do texto (história individual sobre a vida como professor). Dois elementos da capacidade linguísticodiscursiva, apesar de não serem claramente indicados, são tangenciados pelo TP. O primeiro diz respeito à tomada de posição enunciativa, já que é sugerida ao professor participante a justificativa da sua escolha pela profissão, o que requer apreciação valorativa (julgamento, opiniões, sentimentos). O segundo refere-e à operação de textualização, visto que é sugerida ao cursista a definição de época, lugar onde aconteceu etc., o que certamente exige o uso de elementos de coesão (advérbios, por exemplo). Observa-se a indicação implícita de apenas 127 um elemento da capacidade discursiva, que auxilia na organização sequencial, pois o professor é orientado a narrar os eventos listados. Na capacidade de ação, os outros elementos próprios para desenvolvê-la, tais como a sugestão do gênero discursivo, a orientação sobre locutores/participantes, o contexto de produção, a finalidade da escrita, não são apresentados. Na capacidade linguístico-discursiva, contemplada apenas parcialmente, não se mobilizam claramente as dimensões que se referem à seleção lexical. Na capacidade discursiva, que não foi apresentada de modo efetivo, podemos depreender ainda que o material fez alguma referência acerca do plano do texto, além da narração, tal como segue: ―pode-se iniciar um texto argumentativo [...] você pode introduzir na justificativa de suas escolhas: [...] uma introdução breve...‖ (BRASIL, 2008b, p. 90). Todavia, o subtópico que contempla de modo indireto tal questão veio após a orientação principal para a produção de texto. Nota-se que essa ―dica‖, desvinculada da sugestão de escrita, está localizada no item Importante, quase duas páginas à frente da proposta. Lá o TP6 recorda: Importante: [...] pode-se iniciar um texto argumentativo apresentando sentenças que capturem a atenção do leitor. Assim, você pode introduzir na justificativa de suas escolhas: a) um objetivo; b) uma série de questões relacionadas ao objetivo e ao evento; c) uma introdução breve, mas engraçada, anedótica; d) uma enunciação controversa; e) um trecho com uma opinião contrária à que quer defender (BRASIL, 2008b, p. 90). Diante disso, inferimos que o discurso do material não sinaliza objetivamente para a organização sequencial do texto, o que pode ocasionar certa dúvida na execução dessa atividade de escrita. Vale dizer ainda que esse ícone Importante também apresenta elementos que contemplam a capacidade linguístico-discursiva, a saber, as operações de textualização que orientam sobre a coerência do texto. Por exemplo, o uso de um trecho com uma opinião contrária à que quer defender remete a aspectos da informatividade, fator que interfere, em boa medida, na construção da coerência, conforme Koch e Travaglia (2006, p. 86). Isso porque o leitor desse texto vai necessitar de um conhecimento anterior da temática para que consiga fazer as devidas relações e, assim, o texto torne-se coerente para ele. Em face das questões levantadas, podemos notar, mais uma vez, que essa, apesar de ser uma atividade de escrita, não se realiza, totalmente, dentro da perspectiva comunicativa, considerando o aspecto dialógico da linguagem, que se configura nos processos interativos, conforme propõe o TP6. Como já dissemos, o Caderno não explica os parâmetros de 128 produção, além de não considerar as práticas de letramento da sociedade as quais ocorrem sempre mediadas por um gênero discursivo. Aliás, não devemos nos esquecer de que produzir um texto, escrito ou oral, implica, necessariamente, a escolha de um gênero, e tal escolha se faz em função de um para que e para quem se escreve, para que suporte e para que contexto de circulação, em que esfera e em que variedade o texto será escrito, como bem afirma Costa Val (2003). Não devemos nos esquecer também de que a escola, como agência de letramento, desempenha um papel essencial na formação para a cidadania; por isso, o acesso às práticas de letramento, que envolvem a escrita de gêneros, deve estar em foco no trabalho em sala de aula. A consideração desses aspectos na proposta de escrita, sem dúvida, seria interessante e significativa para a formação efetiva do professor, porque possibilita o fornecimento de ferramentas para desenvolver as variadas capacidades de linguagem requeridas nesse processo. Consequentemente, ao desenvolver tais capacidades, o professor-cursista poderá estender esses saberes não só para a sala de aula, na lida com seus alunos, mas também para sua própria vida social, como cidadão que é/deve ser. Defendemos o trabalho na perspectiva do gênero, intimamente articulado com o conceito de letramento, pois acreditamos que, ao apropriarem-se devidamente de um repertório de gêneros discursivos, socialmente utilizados, o aprendiz e também o professor poderão adentrar as variadas esferas de interação, nas práticas de letramentos, percebendo o exercício da linguagem como lugar de constituição humana, participando efetivamente como cidadãos na sua comunidade. Esse trabalho com gêneros, dentre outros fatores, torna possível estimular a postura crítica do aluno, ao desvelar as relações de força presente em diferentes esferas enunciativas, condicionantes do processo interlocutivo real, como bem salienta Petroni (2008). Ainda nessa Seção I, logo à frente, existe outro ícone Importante lembrando o participante de que um bom planejamento possibilita o desenvolvimento e o aprendizado do aluno. 129 (BRASIL, 2008b, p. 91). Assim, quando o professor lhe fornece exemplo a partir de sua experiência pessoal, espera-se que isso alavanque ainda mais a criatividade do aprendiz, em direção à sua autonomia. Sobre isso, questionamos: Essa experiência de escrita do professor, tal como foi sugerida pelo TP6, é suficiente para desenvolver, efetivamente, sua autonomia e posteriormente a autonomia do seu aluno, no que diz respeito à concepção de escrita que hoje fundamenta o ensino de LP? Pensamos que não, visto que, mesmo sendo uma atividade para o professor, o Caderno parece considerar somente o procedimento (planejamento, revisão e rescrita), não levando em conta todos os outros elementos enunciativo-discursivos, por ele mesmo elencados, ao longo da Unidade. Isso se constitui, a nosso ver, em uma falha, pois há contradição entre o que é proposto na teoria e o que é materializado na prática para o professor-cursista. Na seção seguinte, analisamos a segunda seção do caderno TP6. 4.2.1 Seção II – O planejamento: estratégias A Seção II, intitulada ―O planejamento: estratégias”, tem como objetivo identificar estratégias que podem ser utilizadas para o planejamento e a escrita de textos diversos. Segue parte do texto que compõe a primeira página da Seção: Por muito tempo, a pesquisa relacionada à produção textual ficou restrita aos processos psicológicos [...]. Nessa perspectiva, tratava-se de diferenciar os planos que estão relacionados ao conteúdo do texto a ser produzido dos planos relacionados aos procedimentos que devemos utilizar para produzir o texto. Mais recentemente, com o desenvolvimento da escrita na perspectiva social, passou a se considerar de forma mais ampla o contexto e as condições de produção de um texto (BRASIL, 2008b, p.93) [ênfase adicionada]. 130 Assim como notamos na introdução dessa Unidade 22, aqui também podemos perceber uma dialogização neste discurso, ou seja, a existência de duas vozes — discurso atual versus discurso obsoleto — em que uma busca aproximar-se da ―nova‖ perspectiva de ensino; para isso, se apoia no discurso antigo (por muito tempo...), penetrando, então, em um enunciado já disseminado no meio educacional (desenvolvimento de estudos na perspectiva social), a fim de mostrar aos participantes do curso a superação das antigas práticas de escrita. Nesse instante, lembramos a teoria bakhtiniana, pois temos aqui um enunciado concreto, constituído no discurso do TP6, que, por sua vez, veicula concepções internalizadas, resultantes da apropriação de variados discursos alheios, difundidos na sociedade. De acordo com essa teoria, o enunciado nasce exatamente na inter-relação discursiva, não podendo ser o primeiro nem o último, porque representa, necessariamente, uma réplica a outros enunciados, a outros discursos, estando, portanto, orientado para um dado interlocutor, do qual espera uma compreensão ativa e responsiva. Sendo assim, o discurso do TP6 é, fundamentalmente, constituído de outros enunciados, ao mesmo tempo. Numa relação dialógica, suas palavras se instauram através das diferentes vozes. Em relação ao excerto supramencionado, sobre a produção textual restrita aos processos psicológicos, é sabido que na década de 1980, através das teorias de procedimentos cognitivos de produção de textos, os programas curriculares de língua se caracterizavam por centrar o ensino de LP nos procedimentos (eixo procedimental) ao invés de centrar em conteúdos (gramaticais). A ênfase dos currículos era dada às estratégias de produção (planejamento, organização das ideias, revisão, editoração, narração, descrição, dissertação), com o objetivo de desenvolver capacidades relativas à escrita (BARBOSA, 2001; BONINI, 2002; FIGUEIREDO, 2005; ROJO, 2009b). Sabemos que, há mais de uma década, o ensino de produção textual vem passando por mudanças de perspectivas, de objetivos, de conteúdos e de metodologia, consequências da adoção de conceito como o de letramento, por exemplo, e da eleição dos gêneros como objeto de ensino-aprendizagem, e o Caderno TP6 mostra-se ciente das transformações ocorridas acerca do ensino de produção textual. Embasado na noção de letramento, o ensino se amplia, passando a ser pensado em prol do uso da linguagem escrita, especificamente, nas práticas sociais, nas práticas de letramento, ou seja, ―passa-se a valorizar o ‗saber sobre’ as situações de produção de linguagem e os gêneros que nelas circulam, além do ‗como‘ ler e produzir textos (‗saber fazer’)‖ (FIGUEIREDO, 2005, p. 126, ênfase da autora). Não se trata mais de trabalhar no ensino de LP — apenas — conteúdos procedimentais, mas também conteúdos conceituais, isto é, 131 Ao invés do estabelecimento de práticas e de objetivos gerais que visem a construção de capacidades, competências ou o uso de estratégias, como de costume nos programas curriculares de Língua Portuguesa, tem-se, agora, conteúdos propriamente ditos a ensinar — os gêneros do discurso, em torno dos quais se organizariam as práticas de compreensão e produção de textos (BARBOSA, 2001, p.91). Como vimos no início desta seção, o TP afirma que, na recente perspectiva social de produção textual, é preciso considerar o contexto e as condições de produção de cada texto; por isso, os professores devem promover situações de atividades que trabalhem tais questões, com o intuito de desenvolver a autonomia do aluno. Reitera ainda a necessidade do planejamento, lembrando ao professor participante que não há regras nesse processo, há sim ―um desenvolvimento de alternativas que podem ajudar as pessoas a criarem, planejarem, escreverem revisarem seus textos‖ (BRASIL, 2008b, p. 93). Além disso, afirma existirem várias formas de atividade de planejamento, que variam de acordo com o objetivo da atividade escolar e da própria escrita, ou seja, toda atividade de escrita requer objetivo claro, capaz de possibilitar um determinado planejamento. Depois desse discurso, deparamo-nos com a primeira atividade dessa seção destinada ao professor (Atividade 4), composta por um trecho do livro ―O tesouro de Olinda‖, chamado Na terra do frevo, de Rogério Andrade Barbosa, em que é apresentado um encaminhamento das respectivas questões destinadas ao educador: 132 133 O texto traz, além das informações sobre o Carnaval em Pernambuco, informações sobre as diferenças culturais entre o rapaz e a moça que o atende na pousada. Liste algumas delas abaixo. Esta é uma parte de um capítulo do livro. É uma narrativa ficcional em que o narrador é personagem que acabou de ganhar uma passagem para Olinda de seu pai como presente por ter passado no vestibular. Vamos planejar a escrita de uma continuidade desse texto? b1) Imagine que você tem que escrever um texto, dando continuidade ao trecho lido. Para o planejamento, utilize a estratégia do brainstorming, isto é, aquela em que as idéias sobre o tema são escritas na medida que ―vêm à cabeça.‖ b2) Compare as idéias que surgiram com o texto ao qual deverá dar continuidade, relembre o objetivo, se necessário corte algumas idéias e adicione outras. Abaixo, ordene numa possível seqüência as idéias que serão desenvolvidas no capítulo seguinte. Você pode optar por escrever palavraschave ou frases isoladas. b3) Como o texto pode ficar mais longo, inicie escrevendo-o abaixo ou termine em folha à parte que você pode grampear ao livro para não perdê-la (BRASIL, 2008b, p. 93-95). Nessa atividade, acerca da continuação da história lida, encontramos pontos positivos, porque o TP6 sugere que o professor faça uma leitura do texto ―Na terra do frevo‖, com uma compreensão ativa responsiva, pois, em seguida, ele deverá se colocar como autor de sua escrita, imprimindo sua voz. Isso implica, necessariamente, a mobilização de conhecimentos vários adquiridos no dia-a-dia, na interação social. Aqui, podemos notar também um trabalho sobre planejamento e estratégia de escrita, tendo em vista as diversas maneiras de se planejar um texto: resumo das ideias principais; anotações de frases isoladas, soltas; brainstorming; escrita em bloco de anotação; escrita de palavras-chave, ordenação, comparação, corte e adição de ideias etc. Nessa tarefa, o TP indica claramente a estratégia a ser utilizada (brainstorming) e fornece vários caminhos ao professor para um melhor planejamento, para uma monitoração do processo de produção de texto. Apesar de tudo, observamos que as orientações fornecidas para a produção são trazidas superficialmente, de modo que um escritor pouco experiente poderá ter dificuldade em entender a proposta, no que se refere aos parâmetros da situação comunicativa e ao objetivo real da escrita. Nesse caso, seria importante a transparência na solicitação. Haja vista que a história de ficção exige muita criatividade e imaginação do produtor, acreditamos que, nessa tarefa, além de indicar o contexto de produção e de circulação, o material de formação poderia ter enfatizado mais o processo de interlocução discursiva, bem 134 como ter chamado a atenção do professor no tocante à conservação do sentido do texto. Para defender esse ponto de vista, recorremos às palavras de Costa Val (2003), ao salientar que a realização adequada de uma produção textual envolvendo a continuação de história lida ―requer atenção deliberada da construção da coerência semântica, composicional e estilística com o texto original, tomando como pressuposto a manutenção do mesmo público leitor, do mesmo suporte e do mesmo contexto de circulação‖ (idem, p. 143). Em relação às capacidades de linguagem necessárias à produção textual, buscamos depreender os saberes explorados nesse ensino-aprendizagem de escrita, tendo em vista que, segundo Dolz e Schneuwly (2004), num trabalho de escrita, o aluno/professor-cursista tem a oportunidade de desenvolvê-las. Nessa proposta, percebemos o favorecimento de algumas delas, porém, de modo não muito claro. Percebemos que alguns dos elementos próprios para o desenvolvimento das capacidades de ação são apresentados, como a orientação sobre locutor (narrador é o personagem) do texto e sobre o gênero (narrativa ficcional); embora não explore suas características, ao menos as indica. Na capacidade de ação, observamos, ainda, a indicação, superficial, do contexto de produção, que permite prever o lugar onde o texto do aluno será construído (Esta é uma parte de um capítulo do livro), e o conteúdo a ser trabalhado (o personagem ganha, de seu pai, uma passagem para Olinda, por ter passado no vestibular). A partir das informações apresentadas pelo Caderno TP6, depreendemos a mobilização da capacidade discursiva, a saber, o plano do texto. No momento em que é apresentado o gênero (narrativa ficcional24), fica subentendido em qual sequência tipológica se organizará o texto (sequência narrativa). Desse modo, nesse trabalho de escrita, é apontado não só o gênero a ser trabalhado como também se define o possível escritor/locutor do texto, o que, de fato, é muito importante e necessário. Mas e o interlocutor? Este não é contemplado de modo claro. Na verdade, podemos até deduzir que o interlocutor seja o leitor de tal livro. Entretanto, o TP não traz esse aspecto claro para o produtor de texto, o que certamente limita as possibilidades para a realização efetiva da proposta. O material não indica o outro elemento, não menos importante no processo, da capacidade discursiva (elaboração do conteúdo), nem os da capacidade 24 A ―narrativa ficcional‖ pode ser considerada como um gênero, se levarmos em conta as ideias de Dolz e Schneuwly (2004, p. 51), quando propõem o agrupamento dos gêneros, no que se refere ao domínio social de comunicação (cultura literária ficcional), ao aspecto tipológico (narrar), às capacidades de linguagem dominantes (mimesis da ação através da criação da intriga no domínio do verossímil), tendo como exemplos de gêneros orais e escritos: narrativa de aventura, narrativa de ficção científica etc. 135 linguístico-discursiva (operação de textualização, escolha lexical e tomada de posição enunciativa), realizando, assim, um trabalho restrito. Esse trabalho de escrita proposto pelo TP6, na Unidade 22, parece estar embasado numa perspectiva transmissiva, isto é, aquela em que se transmitem alguns elementos envolvidos na construção de um determinado gênero, mas nem todas as capacidades de linguagem necessárias para sua apropriação são mostradas (BARROS-MENDES, 2005). Partindo do pressuposto de que ―escrever é se apropriar de um conjunto de capacidades linguísticas e psicológicas com o objetivo de transmitir significado a um leitor, de forma adequada‖ (COSTA, 2000, p. 68), compreendemos que, independentemente de ser para o professor participante, um projeto de escrita precisar ter um significado real, um contexto de produção, circulação e recepção claro, um objetivo, que o motive a escrever. São esses elementos que lhe permitirão se apropriar dos instrumentos essenciais ao desenvolvimento de suas capacidades de escrita. Sem isso, certamente, qualquer atividade acaba caindo no vazio, transformando-se num mero objeto de ensino. Com certeza, tal proposta poderia ser bem mais proveitosa se o TP6 atentasse para a mobilização real e clara de todas as capacidades de linguagem requeridas nesse gênero, pois, à medida que os professores as desenvolvem, estão consequentemente se armando de saberes vários, tanto para ensinar seu aluno na sala de aula como para uma prática mais participativa na sociedade em que vive. A respeito do trabalho enunciativo com a linguagem, as lacunas recorrentes na proposta evidenciam que o conceito de gênero discursivo, embora tenha sido, em algum momento, assumido pelo material, não se configura nas atividades, de modo efetivo, pois, percebemos que em cada exercício é priorizado um aspecto, uma parte do gênero, desconsiderando-o, na maioria das vezes, como um conjunto indissociável — conteúdo temático, estilo forma composicional. Isso nos faz pensar que o conceito de gênero textual que perpassa o material seja uma abordagem mais voltada para os aspectos tipológicos em detrimento das condições de produção. Na seção seguinte, analisamos a terceira e última seção do Caderno TP6. 4.2.2 Seção III – A escrita A seção III, intitulada ―A escrita”, apresenta como objetivo principal o desenvolvimento de ―atividades de planejamento e escrita, considerando a construção e a revisão textual‖ (BRASIL, 2008b, p. 102). 136 Na sequência, a atividade de número cinco dedica-se às questões sobre a prática pedagógica do professor e seu processo de escrita. Tais questões são acompanhadas de textos que abordam o processo de planejamento e revisão e a importância de se refletir sobre o processo de escrita do professor e do aluno. a) Faça um exercício para lembrar o que ocorreu durante a escrita do texto da atividade 4. Houve planejamento durante a escrita? Houve revisão, durante a escrita? Descreva lembranças sobre o que ocorreu. b) Observe seus alunos durante a escrita de um texto. O que seus movimentos, olhares, silêncios, sussurros e perguntas lhe dizem sobre seus processos de escrita? (BRASIL, 2008b, p. 102). (BRASIL, 2008b, p. 102-103). Em relação ao planejamento, o TP reitera o que vem dizendo nas seções anteriores: que podemos trabalhá-lo de várias maneiras, utilizando diversas estratégias, que durante a escrita esse processo é diferente, pois requer objetivos claros etc. Em relação à revisão, o material elucida que tal processo ocorre de forma superficial, sobretudo, quando voltamos 137 para corrigir uma ideia ou um problema de coesão. Lembra ainda o professor da importância de chamar a atenção do aluno para essas possibilidades e de criar oportunidade para o estabelecimento de diálogos dos autores com seu próprio texto e com o texto do colega. Após essas orientações teóricas, o TP6 fornece a atividade de número seis, com o seguinte encaminhamento: a) Considere a sua experiência pessoal com a escrita de diferentes textos. Como você escreve e que estratégias usa para iniciar, desenvolver e finalizar os seguintes textos: a1) Uma carta: a2) Um relatório para a escola: a3) Uma prova de português (BRASIL, 2008b, p. 103). Perguntamo-nos: Qual o objetivo desse exercício? Que capacidades se pretendem mobilizar? Não ficam claros. Os dados dessa questão nos levam a pensar que, talvez a proposta seja apenas uma forma de fazer referência às atuais orientações para o ensino, sem maiores consequências. Essa atividade acaba gerando certa expectativa, porque podemos imaginar que, depois de realizar tal tarefa, certamente, o professor receberá alguma orientação mais concreta sobre o modo de esquematizar e de escrever tais gêneros. Mas não é o que ocorre. Ou, talvez, em algum outro TP o professor-cursista já tenha sido orientado para tais construções; nesse caso, o material deveria, no mínimo, lembrá-lo disso, trazendo alguma referência. Sabemos que tal escrita se configura com um desafio para o produtor, porque ele deve dialogar com outros discursos, replicando-os. Isso requer obviamente a mobilização das capacidades de linguagem envolvidas no processo. Embasados na visão bakhtiniana, entendemos que toda produção textual, como um ato interlocutivo, implica sempre uma compreensão responsiva ativa e criadora para a construção dos sentidos de um texto. Em seguida, o TP6 fornece mais um pequeno texto tratando da necessidade de o educador refletir sobre seu processo de escrita, para mais tarde discutir também o processo do aprendiz. Destaca a possibilidade de se ensinar ao aluno algumas estratégias durante a escrita, como, por exemplo, a de deixar espaços em branco para depois ir ao dicionário consultar o termo mais adequando. 138 (BRASIL, 2008b, p. 104). Em seguida, após essas orientações, o Caderno TP6 apresenta as seguintes questões: a) Como foi (e é) o desenvolvimento de sua competência escrita? Como você faz para escrever melhor? b) Como você acha que os seus alunos desenvolvem e desenvolverão a escrita? O que pode fazer para melhorar esse desempenho? (BRASIL, 2008b, p, 104). Embaixo de tal encaminhamento, o material traz mais orientação para o professorcursista, lembrando-o de que, a cada nova situação comunicativa, a escrita se torna um desafio; por isso, é desenvolvida a partir de avanços e retrocessos. No intuito de norteá-lo ainda, no processo, o Caderno lhe fornece algumas sugestões, elaboradas por Calkins (2003). • O que eu disse até agora? O que estou tentando dizer? • Será que eu gosto do que escrevi? O que é tão bom aqui, que eu possa entender? O que não é bom que eu possa arrumar? • Como meu texto soa? Como parece? • O que meu leitor ou leitora pensará, quando ler isto? Que indagações poderão fazer? O que observarão? Sentirão? Pensarão? • E o que farei a seguir? (CALKINS, 2003 apud BRASIL, 2008b, p. 104-105) A nosso ver, as orientações teórico-metodológicas supracitadas revelam, primordialmente, uma preocupação por parte do TP em capacitar o professor, e posteriormente seu aluno, para que produza textos coesos e coerentes, porque podemos observar aqui algumas ―dicas‖ mais concretas, que contribuem, de fato, no direcionamento, tanto do professor como do aluno, acerca do processo de planejamento, releitura e reescrita de textos vários. Nessas dicas, percebe-se um tom voltado para a discursividade. Entretanto, na 139 prática, isto é, nas propostas, o material não apresenta suporte necessário para tal. Isso com certeza ajudaria em muito no processo de escritura de um texto. Assim, os professores, bem como os alunos, poderiam tornar-se autores ativos de suas produções. Em relação às dicas acima oferecidas pelo TP, sem dúvida, tais procedimentos e estratégias utilizados pelo produtor de texto de maneira consciente lhe permitem controlar e assumir a sua própria aprendizagem. Mas ressaltamos que tudo isso só terá significado concreto se acompanhado de um projeto definido de escrita, ou melhor, se o escritor tiver clareza quanto ao seu papel de locutor, do interlocutor, enfim, das condições de produção do texto. Como bem destaca Morles (2000 apud MENEGASSI, 2005, p. 02) [ênfase adicionada], rascunhar uma frase, ou um parágrafo, para melhorar o texto é uma experiência suficientemente conhecida por todos; no entanto, é possível que a muitos não tenha ocorrido pensar que não poderiam realizar a operação de escrever/revisar/reescrever se não tiverem desenvolvida, de alguma maneira, a operacionalização da metaescrita25; isto é, se o aluno não tiver desenvolvida a capacidade consciente de que seu texto não está adequado às condições de produção. Na seção seguinte, analisamos as sugestões de propostas de produção textual desta Unidade 22 direcionadas ao aluno. 4.3 Atividades direcionadas ao aluno No primeiro momento, apresentamos a análise da Unidade 22 do TP6, referente aos pressupostos teórico-metodológicos que embasam a prática pedagógica do professor de Língua Portuguesa para o ensino de escrita e referente ao diálogo existente entre orientações teóricas do Guia Geral e as do TP6 para tal ensino. Buscamos identificar as capacidades de linguagem que são mobilizadas nas propostas de ensino-aprendizagem da escrita direcionadas ao professor-cursista. Nesse segundo momento, apresentamos a análise das respectivas propostas de produção textual direcionadas ao aluno, no intuito de comparar tais atividades aos pressupostos metodológicos apresentados no TP6 para o professor. Verificando como foi conduzido o encaminhamento didático para o aluno, buscamos reconhecer as capacidades mobilizadas para a prática da escrita. Posteriormente, faremos um levantamento procurando 25 Metaescrita é a utilização consciente de estratégias de produção textual (MENEGASSI, 2005, p. 02). 140 confirmar se as mesmas capacidades apresentadas nas propostas de produção do professor foram também mobilizadas nas atividades do aluno. 4.3.1 Seção I – O planejamento Na Unidade 22 do TP626, após apresentar algumas orientações teórico-metodológicas para o professor-cursista e propor-lhe algumas atividades preparatórias (de reflexão, de planejamento e de escrita), o material, certamente supondo que o participante já esteja pronto para o ensino-aprendizagem, apresenta, então, algumas sugestões de exercícios para serem aplicados com seus alunos na prática de sala de aula. Sendo assim, a primeira proposta de atividade destinada ao aprendiz é apresentada no ícone Avançando na prática, localizado na Seção I ―O planejamento‖. Conforme dissemos, esse ícone corresponde ao momento em que o professor é convidado a aplicar em sala o que estudou anteriormente, na Unidade. Aqui, é sugerida aos alunos uma atividade de escrita antecedida por uma atividade de planejamento, conforme segue: 26 É preciso relembrar que cada uma das Seções que compõe a Unidade 22 possui a mesma estrutura, no que diz respeito à organização dos ícones: atividades, indo à sala de aula, avançando na prática, importante, recordando e resumindo. 141 (BRASIL, 2008b, p. 91-92). Depois de trazer essas instruções, o TP6 sugere ao educador que, ao avaliar o texto do aluno, focalize a construção da coerência e da coesão textual. Em termos bem gerais, o Caderno orienta o professor também para a questão da revisão: Ao avaliar os textos, focalize na construção da coerência e coesão textuais, de acordo com o que foi trabalhado em sala. No retorno dos textos aos alunos, explique como revisar e dê sugestões concretas para a revisão. Deixe-os tomar as decisões quanto à reformulação; o texto é deles, portanto, espere que eles respondam antes de intervir novamente. Lembre-se: eles estão construindo o conhecimento e cabe a você lidar com os diferentes textos produzidos. Os alunos estarão experimentando escrever de formas diferentes daquelas a que estavam acostumados. A introdução de novas práticas de ensinar gera novas formas de aprender e de avaliar. (BRASIL, 2008b, p. 92) [ênfase adicionada]. Na proposta de produção textual, podemos destacar, mais uma vez, aspectos significativos acerca do planejamento, da organização das ideias no texto. Além de ressaltar, como ponto positivo, a possibilidade de se incluir no texto mais de uma sequência composicional (narrativa e dissertativa), já que isso é característica comum das nossas interações sociais reais, que são intermediadas pelos gêneros discursivos. Essa possibilidade de justapor duas, ou mais, sequências pode contribuir efetivamente para a autonomia do aluno no processo de escrita, fornecendo-lhe maior liberdade criativa para a produção de textos em gêneros, conforme nos lembra Silva (2009). Isso equivale a dizer que, nesse tipo de produção escrita, ―diferentes tipologias ou sequências textuais se mesclarão, aproximando mais a produção escolar dos inúmeros gêneros que circulam fora desse espaço de formação, contribuindo, portanto, para um letramento mais amplo‖ (idem, p. 152). 142 No entanto, apesar dos fatores positivos da sugestão de escrita, parece que o material fornecido pelo GESTAR II não está (tão) preocupado em trazer uma proposta fundamentada de fato na perspectiva atual de ensino, já que não menciona, por exemplo, os parâmetros da situação comunicativa, desconsiderando que toda a escrita se constitui no interior de um gênero discursivo, conforme sugerem os PCNLP: ―ao produzir um texto, o autor precisa coordenar uma série de aspectos: o que dizer, a quem dizer, como dizer‖ (BRASIL, 1998, 75), pois são esses elementos que lhe permitirão construir um texto dotado de significado. Ora, a ausência da indicação do gênero tem um reflexo concreto na percepção do interlocutor presumido, consequentemente, nas estratégias discursivas a serem adotadas (MARCUSCHI; CAVALCANTE, 2005). Em relação ao tratamento dispensado ao trabalho com os gêneros, percebemos, nas orientações do TP, uma mistura de abordagem, ora um olhar discursivo (pensando no outro, no interlocutor, conforme as dicas supramencionadas), ora textual (focado na tipologia), em virtude do formato das atividades. Nesta última atividade, parece que a proposta está presa a uma concepção mais textual, tendo em vista que as orientações levam os alunos a seguir determinadas estruturas, conforme as orientações 3 e 4 acima. Parece que tal escrita não é pensada a partir das esferas de atividade humana, das condições de produção, circulação e recepção, aspectos constitutivos do gênero discursivo. No que diz respeito ao processo de planejamento enfatizado pelo TP, vale trazer, mais uma vez, a voz de Menegassi (2005), que elucida a necessidade da produção textual estar envolvida em tal procedimento. Nesse processo, o aluno tem a possibilidade de executar a releitura, a revisão e a reescrita do texto, o que, de fato, é muito importante. A prática de revisão e reescrita, por exemplo, tende a despertar no escritor a consciência de que as mudanças na escrita não se dão apenas no aspecto superficial, linguístico, mas também na sua estrutura interna e discursiva. Para tanto, as condições de produção do texto precisam estar claramente descritas e delineadas. Diante disso, inferimos que a orientação do TP6, para a proposta de escrita supracitada, segue o enfoque da tipologia clássica da narração, que dentro do contexto das discussões atuais, representa simples característica estrutural de sequência de texto. Esse formato de tarefa leva o aluno a elaborar ―redação escolar‖, a qual se configura como um simples exercício de escrita, mecânica e vazia de significação, como já têm apontado diversos autores (COSTA VAL, 2003; MARCUSCHI, CAVALCANTE, 2005; REINALDO, 2005, SILVA, 2009). 143 Também não encontramos nessa atividade nenhum propósito interacional, que pudesse, efetivamente, ter algum significado para o aluno, como propõe o Caderno, ao longo da Unidade, e como também veicula no Guia Geral (BRASIL, 2008a). Este último enfatiza que a escrita, como atividade de linguagem, não se realiza no vazio, de modo isolado, mas em processos reais de comunicação, e que a competência discursiva é adquirida pelo aluno, sobretudo, nas ―atividades de produção de textos inseridas em situações lingüisticamente significativas, nas quais é considerada a dimensão discursivo-pragmática da linguagem‖ (idem, p. 69). A ausência desse propósito, nessa atividade de produção textual sugerida pelo TP, não condiz com o enfoque enunciativo-discursivo das diretrizes oficiais, que sugerem que a produção textual seja concebida como uma atividade que requer, de fato, a participação do outro, de modo significativo, como um processo interlocutivo, realizado nas práticas sociais, já que interagir pela linguagem significa dizer alguma coisa a alguém, de uma determinada forma, num contexto histórico e em determinadas circunstâncias de interlocução, segundo as diretrizes curriculares. Sendo assim, nesse aspecto (interlocutivo), mesmo havendo um diálogo entre os pressupostos teóricos do Guia Geral (BRASIL, 2008a) e as orientações do material, os mesmos parecem não atender às sugestões dos documentos oficiais. Em relação às capacidades de linguagem necessárias para o domínio da escrita de textos em gêneros discursivos, constatamos que essa proposta de produção textual apresenta, de modo indireto e generalizado, algumas delas. Observa-se que, para desenvolver as capacidades de ação, é apresentado apenas um elemento: o conteúdo (experiência inesquecível), deixando-se de lado outros, não menos importantes: definição clara sobre o gênero, orientação sobre os possíveis locutores, contexto de produção em que o gênero será construído e finalidade da escrita. A capacidade discursiva pode ser depreendida a partir da dimensão acerca do plano do texto, em que se orienta o aluno a narrar, defendendo um ponto de vista. Sob tal lógica, podemos inferir que o texto será feito a partir de duas sequência (narração e dissertaçãoargumentativa). Nessa atividade, a orientação para as capacidades linguístico-discursivas não é claramente abordada, apenas tangenciada. Por exemplo, quando o TP6 orienta o aluno para a defesa de um ponto de vista, infere-se aí a tomada de posição enunciativa (ponto de vista enunciativo), que pode ser depreendida pelo encaminhamento do aluno para apreciações valorativas (como você se sentiu e por que o evento é inesquecível). 144 Entendemos tal proposta de escrita como um bom momento para se desenvolver no aprendiz as capacidades de linguagem. Na capacidade linguístico-discursiva, que auxilia a construção do estilo do gênero, por exemplo, ao fazer o encaminhamento para o aluno sobre a defesa de um ponto de vista, o Caderno TP6 poderia ressaltar a operação de textualização (coesão), uma vez que, para o escritor defender seu ponto de vista, obviamente, recorrerá ao uso de conectivos de justificação, de explicação, tais como pois e porque. Esses aspectos poderiam ser enfatizados com mais clareza. A capacidade linguístico-discursiva poderia ser ainda mobilizada, mais efetivamente, no momento em que se orienta o aluno para a utilização de recursos na introdução do texto (Para defender a importância do evento, explique que precisam iniciar a parte tentando chamar a atenção do leitor...); aqui caberia lembrar-lhe que esse é um aspecto necessariamente ligado à textualidade. Nesta atividade, constatamos que não houve, por parte do material, preocupação em apresentar de modo claro as dimensões das variadas capacidades de escrita, visto que nenhuma delas foi abordada completamente. Sua orientação certamente não fornece subsídios efetivos para que o aluno se aproprie dessas capacidades, deixando transparecer que esse não é um dos seus objetivos, o que, sem dúvida, traz sérias consequências para o ensinoaprendizagem de texto. Destacamos, novamente, na proposta de escrita do Avançando na prática, como ponto importante, a orientação trazida pelo Caderno, na Unidade 22, no tocante aos recursos que poderão ser utilizados pelos alunos para chamar a atenção do leitor. Porém, mais do que isso, esse poderia ser um momento oportuno para se destacar, de modo esclarecedor, tanto para o professor quanto para o aluno, os aspectos relevantes que fazem parte da coerência textual. Poderia abordar essa questão, dizendo que a coerência se dá — também — pela combinação de elementos inesperados, os quais podem criar humor, suspense e ironia, explorando mais essa construção do texto. Ou, tratar da questão linguística, do estilo que pode ser individual ou do gênero. Nesse sentido, ao trazer uma pequena observação ao professor para focalizar a coerência somente no momento avaliativo do texto do aluno, o TP6 deixa de dar um cuidado especial ao assunto, não o trabalhando de modo sistemático, sendo que uma orientação mais reflexiva poderia contribuir para a construção da textualidade como também para compreensão dos sentidos pretendidos ao usar determinado recurso linguístico em um dado gênero. Além disso, tal proposta deixa de orientar o aprendiz no sentido da informatividade, a qual diz respeito ao grau de expectabilidade da informação contida no texto, concebida como um fator que interfere na construção da coerência, conforme ressaltam Koch e Travaglia 145 (2006, p. 86). Aliás, toda informação, inesperada ou imprevisível (conforme a proposta: trecho engraçado, declaração inquietante, contrária a que será defendida), tem seu grau máximo de informatividade. É certo que à primeira vista tal informação pareça até incoerente, pois exige do interlocutor um grande esforço de interpretação. Mas, reiterando, essa informação está relacionada a um dos aspectos relevantes na construção de um texto, sobretudo, com seu propósito comunicativo-discursivo. Portanto, aqui vale retomar algumas questões acerca do ensino de LP, pois sabemos que seu enfoque atual, representado nos PCNLP (BRASIL, 1998), mostra a importância da produção escrita na escola. Tal enfoque, diga-se de passagem promissor, permite que se coloque em prática importantes conhecimentos advindos de perspectivas outras, inclusive, da Linguística Textual, a qual desenvolve o estudo de coesão e coerência. Todavia, compreendemos, junto com Lopes-Rossi (2003), que esse estudo precisa ser contextualizado, em um trabalho de base enunciativo-discursiva, considerando, obviamente, os aspectos sociohistóricos e culturais das produções de linguagem, o que não se vê, também, nessa última proposta de escrita. Ainda sobre esse momento em que o TP6 orienta o aluno a chamar a atenção do leitor (com uma declaração engraçada etc.), compreendemos que esse se configura como uma boa oportunidade de esclarecimento sobre a definição do tom (irônico, cômico, ilógico) do texto, pois tal definição se dá em função das características do seu interlocutor. Sem dúvida, nessa atividade, a escrita do aluno teria mais significado se incluísse alguma reflexão sobre o leitor do seu texto, porque uma demarcação clara desse interlocutor lhe permitiria a construção de uma imagem adequada de leitor para sua escrita, em um processo dialógico, além de oportunizar sua compreensão acerca dos recursos linguístico-discursivos a serem usados na produção. Para fundamentar essas ideias, trazemos novamente a voz de Bakhtin (2003[19521953]), quando defende que as escolhas de todos os recursos linguísticos, textuais, não são feitas de maneira aleatória, mas sob influência do destinatário. Vale destacar, mais uma vez, que a abordagem de ensino das diretrizes curriculares visa à contemplação da linguagem revestida de sua função social e sugere que a produção escrita se dê num processo de planejamento, de reelaboração e, sobretudo, de circulação do texto (CARVALHO, 2008). Dessa maneira, essa proposta de escrita do Avançando na prática pode ser considerada ―vazia‖, desprovida de interlocutores, sem funcionalidade social, sem uma finalidade específica e desvinculada de um contexto de circulação real. Compreendemos que, mesmo enfatizando o planejamento e a organização das ideias, esses outros aspectos 146 enunciativo-discursivos de modo algum podem ser relegados a segundo plano, sob o risco de se negar ao aluno o seu desenvolvimento enquanto cidadão, objetivo principal de ensino hoje. É valido ressaltar também que essa atividade destinada ao aluno se assemelha bastante àquelas últimas destinadas ao professor; parece apresentar as mesmas falhas: não é mencionada a produção a partir de um gênero discursivo, sequer se especifica qual o objetivo da atividade de escrita, muito menos se enfatiza o desenvolvimento das capacidades de linguagem do professor ou do aluno, tratando-as eventualmente. Sendo assim, essa atividade de ensino-aprendizagem de escrita, proposta pelo TP6, parece embasada numa abordagem puramente representacional, balizada por sequências estereotipadas, produtos culturais da escola que não têm função comunicativa real, servindo apenas para a reprodução de modelos, conforme enfatizam os estudiosos de Genebra, Dolz e Schneuwly (2004). Acreditamos que um material didático-pedagógico que se propõe a ―seguir‖ determinadas orientações e pressupostos, deve atentar para não incorrer em generalizações, pois, segundo Reinaldo (2005), a representação da sequência como se fossem gêneros é responsável pelo surgimento de um gênero específico, de existência restrita ao âmbito da escola — a redação escolar — desvinculada das práticas sociais de linguagem. A nosso ver, o ensino de escrita por meio do aspecto discursivo — abordando o gênero, a esfera, as condições de produção, circulação e recepção — parece ser a forma mais adequada para ensinar o aluno a compreender a função social da linguagem na sua dimensão comunicativa. Sem dúvida, essa questão enunciativa [...] é muito mais importante e constitutivo do gênero discursivo, segundo Bakhtin, que as sequências de um texto, das quais as várias tipologias textuais dão conta, não tocando, entretanto, em esfera de atividades ou modos de circulação, o que descaracteriza a perspectiva sócio-histórica de gênero discursivo (BRAIT, 2000, p. 20) [grifo da autora]. Defendemos que essa atividade poderia ser mais rica se incluísse a indicação do gênero a ser trabalhado, vinculado a uma situação próxima da realidade, dotada de significado para o aluno, com o intuito de melhor dominá-las como realmente são, pois, à medida que o TP6 não propicia a esse aprendiz momentos reais de interlocução, de uso público da linguagem, deixa de promover seu letramento, sua condição como ser humano ativo e consciente com capacidade de intervenção na sua própria realidade. Retomando a proposta de escrita apresentada pelo material, quanto ao encaminhamento para a revisão do texto do aluno, o TP orienta o professor a explicar ao aprendiz como revisar a escrita, dando-lhe sugestões concretas para isso. Podemos ver que, 147 embora remeta ao assunto, o Caderno não apresenta um parâmetro concreto para esse procedimento. Não indica nenhum instrumento, nem critério que ajude o aluno a revisar seu próprio texto, e que direcione o professor para tal atividade, limitando a orientação. Essa limitação está no fato de que, em virtude de a tradição escolar centrar-se na frase, no ensino puramente gramatical, na correção, a revisão tende a restringir-se apenas à higienização da escrita. Com certeza, o trabalho de revisão e reescrita de texto constitui-se em aspecto fundamental, porque o aprendiz tem a oportunidade de compreender o ato de escrever como um processo de monitoração que envolve várias revisões e versões do seu texto. Entretanto, tais revisões só serão produtivas para o aluno/escritor se esse tiver orientação precisa e parâmetros claros. Nessa tarefa de revisão, imaginamos ainda outra dificuldade do aluno, pois em tal processo um dos primeiros aspectos a ser considerado é o leitor do texto. De fato, sua escrita precisa ser ajustada de acordo com seu interlocutor presumido. O escritor, diante do texto criado, deve se colocar na posição dos leitor, avaliando se o que foi escrito está compreensivo, ou seja, ―é nessa hora que o aluno se coloca no lugar de leitor, distanciando-se do texto e tendo mais condições de enxergar fragilidades no que foi produzido‖ (COÊLHO, 2009, p. 14). Enfim, essa etapa de revisão e rescrita pressupõe que os alunos tenham critérios de avaliação bem definidos e saibam o que querem dizer, para quem dizem e como dizem. Sem esses elementos é difícil revisar e reescrever um texto, efetivamente. A seguir, analisamos a segunda seção do caderno TP6, no que se refere às sugestões de atividades de produção escrita direcionadas ao aluno. 4.3.2 Seção II – O planejamento: estratégias Na Seção II, intitulada ―O planejamento: estratégias”, analisamos as sugestões de propostas de produção textual destinadas ao aluno. Indo à sala de aula é um ícone que também traz proposta de exercícios para o aluno. Nesse ícone, são sugeridas atividades que se referem à aplicação do conteúdo estudado em sala, além de lembrar posturas importantes para o educador. Nesse momento, o material sugere uma atividade de escrita coletiva, em que o professor escreverá o início do texto, deixando apenas alguns conectivos, e depois os alunos o preencherão coerentemente. Segue a proposta: 148 (BRASIL, 2008b, p. 96-97). Esse tipo de trabalho está de acordo com os pressupostos dos PCNLP (BRASIL, 1998) que destacam a importância da interação social. Por essa razão, consideramos que tal exercício é relevante, ainda mais se acompanhado de verdadeiras reflexões, não só sobre a 149 linguagem como também sobre as questões da vida social, como saúde, meio ambiente, política etc. Além disso, tal atividade oportuniza, de fato, a participação de todos os alunos, promove o trabalho em equipe, tornando-o mais motivante do que um trabalho individual e competitivo. Uma tarefa tal como esta acaba descentralizando, inclusive, as ações no momento de aprendizagem, pois o professor não ―entrega‖ ao aluno o conhecimento pronto, mas provoca nele o desejo de busca. Nesse exercício, todos têm a oportunidade de construir juntos os efeitos de sentido do texto a ser produzido. Sem dúvida, uma rica interação em sala, entre docentes e discentes, ―é uma excelente estratégia de construção do conhecimento, pois permite a troca de informações, o confronto de opiniões, a negociação dos sentidos, a avaliação dos processos pedagógicos em que estão envolvidos‖ (BRASIL, 1998, p. 24). Dessa maneira, encontramos aqui um importante diálogo entre os pressupostos teóricos do Guia Geral e a proposta do TP6, no que se refere ao papel do educador na sala de aula. Para esse Guia, a função do professor consiste, sobretudo, em ―mediar a criação de situações mais diversas de interação de seus alunos e de estimular os processos de elaboração e reflexão sobre os diversos usos da linguagem nas diferentes situações sócio-comunicativas‖ (BRASIL, 2008a, p. 34). Acreditamos que o espaço interacional é um lugar ideal de construção de conhecimento bem como de formação do sujeito, visto que ―a verdadeira substância da língua não é constituída [...] pela enunciação monológica isolada [...], mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações‖ (BAKHTIN/VOLOCHINOV (2004[1929], p. 123). Nesse sentido, é possível dizer que essa atividade de escrita coletiva, proposta pelo material, permitirá a alternância efetiva dos indivíduos no diálogo, oportunizando-lhes a palavra. Além do mais, possibilitará a constituição mútua dos participantes da comunicação, visto que é aqui que o discurso do eu penetra e/ou transforma o discurso do outro, através dos variados enunciados. Pela natureza dialógica da tarefa, exigir-se-á dos alunos — que não são fantoches, mas sujeitos pensantes, responsáveis — uma atitude responsiva ativa, porque a compreensão de um discurso falado ou escrito, de um diálogo vivo, implica uma responsividade. Haja vista que toda compreensão é prenhe de resposta, conforme o pensamento bakhtiniano, compreendemos, então, que é na interação que o aluno se torna um sujeito responsivo. Em relação a essa escrita coletiva, Geraldi (2010, p. 182) ainda enfatiza: 150 O professor se faz, na mediação pedagógica, co-autor dos textos dos alunos. Escrever não é uma tarefa fácil e certamente o fazer juntos é um caminho que permite construir autonomia de ambos: do aluno e do professor, que também ele é chamado a escrever seus próprios textos, deixando de ser somente um agente de conservação de herança cultural, deixando nestas as marcas de seu tempo e de sua história. Todavia, defendemos que uma atividade tal como esta necessita, indubitavelmente, ter um objetivo de escrita bem delimitado, o que não foi percebido nessa proposta. Dizemos isso, pois a produção textual requer, além de estudo, dedicação, leitura e pesquisa, adesão dos alunos, os quais exercem papel indispensável e precisam, a todo momento, saber quais são os objetivos que devem atingir, o que deles está sendo esperado, pois assim podem construir sua aprendizagem (JESUS; PETRONI, 2008, p. 89). Ou, como diz Geraldi (2010, p. 173, grifo nosso), ―se efetivamente levarmos em conta a teoria de gênero discursivo que hoje fundamenta o ensino de língua materna, precisaremos ter clareza sobre os objetivos — os propósitos — que estarão por traz da proposta de produção textual.‖ Afinal, é através dessas atividades [de produção escrita] que o aluno construirá o conhecimento para distinguir as características relativamente estáveis (Bakhtin,1952-53/1979) de um, dentre os diversos gêneros que circulam na vida social; que tomará para si a compreensão de que alguns gêneros têm características muito semelhantes e se interpenetram nos usos refletidos nas práticas de textos orais e escritos que a vida exige (BARROS-MENDES, 2005, p. 159). Além de um objetivo claro, compreendemos que tal atividade necessita também de reflexões sobre o processo dialógico do texto (gênero, interlocutores, esfera, finalidade etc.), pois o conhecimento desses aspectos discursivos lhe permitirá entender melhor a forma de organização característica do gênero em estudo, a saber, a escolha vocabular, os recursos linguísticos, entre outros, esperados ou exigidos social e culturalmente naquele gênero. Retomando o material de nossa análise, mais à frente, direcionada ao professorcursista, deparamo-nos com uma declaração, que, certamente, explica por que tais questões envolvidas no processo dialógico não são levadas em conta nessa atividade de produção escrita, considerada uma escrita despreocupada, conforme segue: Lembre-se de que é importante alternar atividades relacionadas ao percurso da produção textual, isto é, com o trabalho mais extenso com o texto, com a escrita despreocupada de texto em sala, como essas que apresentamos nesta seção (BRASIL, 2008b, p. 97) [ênfase adicionada]. 151 Essa ―despreocupação‖ do TP6 parece não condizer com alguns pressupostos vistos ao longo da Unidade sobre a produção textual: A produção de um texto tem como ponto de partida, e de monitoração da escrita, a definição dos elementos da situação sócio-comunicativa, estabelecendo-se um objetivo de escrita e considerando-se leitores possíveis [...] a função, o tema, o gênero, o nível de linguagem, o suporte (ou portador) do texto (BRASIL, 2008b, p. 73) [ênfase adicionada]. Na sequência, ainda na Seção II, ―O planejamento: estratégias‖, encontramos o ícone Avançando na prática, no qual se formula uma proposta de planejamento de escrita para o aluno, provavelmente, tida como um trabalho mais extenso com o texto, conforme se mencionou anteriormente. Segue a proposta de atividade: 152 (BRASIL, 2008b, p. 98). Em relação às instruções que introduzem a proposta de produção de texto, podemos depreender que o TP, ao caracterizar tal atividade com adjetivos negativos — cansativa, longa, extensa — acaba construindo um efeito de sentido nada animador para a prática docente. Além disso, é possível pensar que a própria introdução da proposta acaba desmotivando o trabalho de produção escrita e, por mais que o material tente ―incentivar‖ tal 153 prática — mas pode ser muito interessante — parece haver pouca preocupação em estimular de fato o professor. Acreditamos que o TP6 poderia evidenciar, mais enfaticamente, os aspectos positivos dessa atividade, a fim de levar o professor-cursista a pensar, realmente, numa nova prática, criativa e diferenciada, embasada na atual perspectiva de ensino, que encara a produção de textos como uma verdadeira interlocução, capaz de desenvolver no aluno sua capacidade discursiva. Se não faz isso, acaba desvalorizando o tratamento enunciativo da linguagem na aprendizagem, prezando, talvez, um ensino insignificante fixo e imutável, arraigado em práticas repetitivas, que, geralmente, não demandam tanto tempo nem tanto trabalho, pois dependem — mais — de ―decorebas‖ do que de um processo concreto, demorado, de reflexão. Dizemos isso, pois acreditamos que um trabalho como este foge da prática descontextualizada das redações escolares e favorece o compromisso do aluno com sua própria aprendizagem, contribuindo para seu engajamento nas tarefas, fato que pode ser comprovado em diversas pesquisas realizadas27. Além do mais, embora tenha um período alongado, possui o tempo necessário para conquistar o objetivo, como se pode ler nos PCNLP (BRASIL, 1998, p. 87): Quando são de longa duração, [os projetos] têm a vantagem adicional de permitir que os alunos se envolvam no planejamento das atividades, aprendendo a controlar o tempo, dividir e redimensionar as tarefas, avaliar os resultados em função do plano inicial [ênfase adicionada]. Por isso, é extremamente importante o professor compreender que um trabalho com os gêneros discursivos requer tempo de pesquisa, já que envolve vários aspectos linguísticos, enunciativo-discursivos. Segundo Paes de Barros (2008), esse tipo de atividade demanda tempo para planejamento, escolha criteriosa dos textos, estudo sobre os gêneros, além de requerer muitas aulas, dedicação, pois cada gênero traz em si muitas possibilidades de ensino. Após as informações apresentadas no início, o material traz outras orientações referentes à produção textual, composta por oito momentos. Apresentamos o primeiro momento: 27 Sobre o resultado de pesquisas linguísticas acerca do ensino de escrita na sala de aula, consultar Petroni (2008). 154 1-Você pode definir seu planejamento a partir das habilidades: Produzir um texto informativo. Relacionar informações sobre o carnaval a partir da utilização de diferentes textos verbais e não-verbais de reportagens. Tema: carnaval, fantasias e máscaras Leitores: professor e alunos da sala; Objetivo: escrever texto informativo sobre o uso de fantasias e máscaras no carnaval Função: referencial Gênero: reportagem Nível de linguagem: formal Suporte: escrever como se fosse uma reportagem em revista semanal ou jornal Materiais: reportagens, imagens, textos sobre fantasias e máscaras retirados da internet, por exemplo (acrescente outras) (BRASIL, 2008b, p. 99, grifo da autora). Esse primeiro momento, o TP traz sugestões importantes para a produção textual do aluno, ou melhor, indica alguns parâmetros da situação comunicativa, tais como tema (carnaval, fantasias e máscaras); leitores (professores e alunos da sala); objetivo (escrever texto informativo sobre uso de fantasias e máscaras no carnaval); função (referencial); gênero (reportagem); nível de linguagem (formal); suporte (como se fosse uma revista semanal ou jornal). Fazemos tal afirmação acerca do importante encaminhamento de escrita feito pelo Caderno, considerando os documentos oficiais, ao defenderem que o escritor precisa ter claros os parâmetros da situação comunicativa — o espaço, o tempo, os interlocutores e seu lugar social, os objetivos, o gênero — e, concomitantemente, levando-se em conta as reações do interlocutor, ajustando sua escrita no próprio momento de produção escrita. Outro aspecto positivo dessa atividade é o gênero discursivo a ser trabalhado, a saber, a reportagem, pertencente à esfera jornalística, pois esse é um gênero [...] bastante apropriado a práticas de leitura em sala de aula se o professor selecionar textos de publicações e temáticas adequadas à faixa etária e aos interesses dos alunos. A iniciação do aluno à discussão sobre o discurso jornalístico e sua forma de ação social, sem contar as informações que cada texto apresenta, certamente contribui para a formação de cidadãos críticos (LOPES-ROSSI, 2008, p. 60) [ênfase adicionada]. Defendemos também que um trabalho como esse, sugerido pelo TP6, deve ser acompanhado de uma intervenção pedagógica consciente e orientada. Para tanto, cabe ao docente explorar juntamente com seus alunos alguns aspectos relativos ao funcionamento do gênero a ser trabalhado na sala de aula. Como bem afirma Paes de Barros (2008), é preciso 155 que o professor tenha um banco de textos do gênero a ser ensinado, observando atentamente vários aspectos, tais como os interlocutores dos textos, seu lugar de produção e de circulação, tendo em vista que muitos gêneros discursivos trazem consigo diferentes aspectos de estilo e construção composicional em função dos diversos participantes. Parece que, nesta proposta de exercício, o TP busca uma inter-relação entre todas as atividades, divididas em oito momentos; certamente, numa tentativa de se aproximar da perspectiva atual de ensino de LP em relação aos gêneros, o que consideramos importante, haja vista que um trabalho com gêneros requer variados momentos não só de leituras como de reflexões, de comparação, entre tantos outros. Em relação às capacidades de linguagem implicadas na produção textual, essa proposta é a que melhor as contempla, de modo mais claro, mobilizando alguns dos mecanismos necessários para a escrita do gênero reportagem. Nessa proposta, o TP6 não conceitua nem explora o gênero a ser produzido, mas parece incumbir o educador de tal responsabilidade, certamente, no intuito de que professor e aluno construam juntos o conhecimento das respectivas características, através de pesquisas e leituras de textos. Aqui, é indicado somente em que gênero o texto deve ser produzido — reportagem — explorando, parcialmente, as dimensões da capacidade de ação. Ainda nessa capacidade de ação, apesar de informar sobre os interlocutores/leitores (professor e alunos da sala), o material não caracteriza, de fato, o locutor. Além disso, apresenta, em linhas gerais, a operação que diz respeito ao objetivo da escrita de tal gênero (escrever texto informativo sobre o uso de fantasias e máscaras no carnaval), ou seja, fica subentendido que o objetivo desse texto é de informar sobre tais questões. São também fornecidos elementos que definem o conteúdo (tema: carnaval, fantasias e máscaras) e o contexto de produção (o aluno deve escrever como se fosse uma reportagem em revista semanal ou jornal). A capacidade linguístico-discursiva pode ser depreendida quando o TP indica o nível de linguagem (formal). Nesse momento, se contempla a dimensão da elaboração da escolha lexical. Todavia, alguns elementos de ordem enunciativo-discursivos que auxiliam na construção do estilo do gênero não foram indicados nesse trabalho, a saber, as operações de textualização (coesão/coerência) e a tomada de posição enunciativa (ponto de vista enunciativo). Podemos afirmar que, nessa atividade, no primeiro momento, o Caderno TP6 remete, mais uma vez, certamente, de modo mais claro, à função de linguagem, isto é, indica para o aluno qual delas deve ser privilegiada no seu texto — função referencial. No entanto, vale 156 lembrar que essa instrução se enquadra, sobretudo, no enfoque da Teoria da Comunicação, que dentro do panorama das discussões atuais de ensino representa uma forma esvaziada e reduzida da linguagem, conforme vimos. Dessa forma, percebemos uma ―mistura teórica‖ de abordagens que tratam de um aspecto importante da produção textual, o que, provavelmente, não contribui de modo positivo para a compreensão do aluno, nem do professor. Depois, no segundo momento da tarefa, é sugerida a seguinte atividade: 2-Atividade de pré-escrita: Leitura de textos do gênero reportagem em grupo de quatro ou seis alunos. Depois, discuta no grupo e no coletivo da sala a respeito do tema. Faça perguntas sobre o assunto, questionamentos sobre o processo, dê exemplos. Discuta sobre fantasias e máscaras. Você pode combinar com a professora de artes para que trabalhe o tema também. (BRASIL, 2008b, p. 99) [ênfase adicionada]. Destacamos como ponto relevante nessa tarefa a sugestão de trabalho integrado com outra disciplina da Área de Linguagens. É claro que um trabalho tal como o proposto não deve se restringir a tal disciplina, mas envolver todas as outras, dentro de um projeto maior, promovendo a interdisciplinaridade. Esse pode ser um excelente momento de troca de experiências entre todos os envolvidos. Os documentos oficiais estimulam essa ideia de um trabalho integrado de várias áreas, organizado em torno de um projeto28. Em tal projeto, é preciso que professores/escola assumam, de fato, a tarefa de formar produtores de textos proficientes e críticos, mesmo que isso seja uma tarefa árdua, porque a sala de aula hoje é considerada um espaço complexo, onde diversas coisas acontecem ao mesmo tempo, muitas vezes, escapando ao controle do professor (TARRDIF; LESSARD, 2005 apud SILVA, 2006). Atualmente, a sala de aula é composta por uma diversidade de alunos de todas as raças, gêneros, credos e opção sexual, de níveis de conhecimento e de domínio da leitura e escrita, o que traz para a escola, sem dúvida, uma grande responsabilidade. Nesse cenário, o desafio do professor constitui-se em educar, na heterogeneidade, sujeitos capazes de atuarem competentemente nas diferentes esferas sociais, como recorda Socorro (2009). Em relação à elaboração de projeto escolar, vale reportar as palavras de Kleiman (2007) que defende essa questão. Para a autora, um projeto integrado 28 O Estado de Mato Grosso lançou, em 2010, as Orientações Curriculares do Estado de Mato Grosso, preceituando o trabalho por área de conhecimento. 157 [...] pode proporcionar a alunos heterogêneos quanto ao domínio da escrita, com trajetórias de leitura e de produção textual diferentes, pelas diferentes experiências com que chegam à escola, uma oportunidade de participação diferenciada e, por isso, é (...) uma prática didática ideal para organizar o trabalho escolar que leva a sério a heterogeneidade dos alunos e que abre mão de pré-requisitos e progressões rígidas em relação à apresentação de conteúdos curriculares (KLEIMAN, 2007, p. 16). Ainda nesse segundo momento da atividade, podemos inferir que a capacidade discursiva foi contemplada. A dimensão que se refere à elaboração do conteúdo do gênero pode ser inferida na orientação para a atividade de pré-escrita, em que o aluno deverá ler textos do gênero reportagem em grupo, discutir no coletivo sobre o tema e questionar sobre o assunto. Nesse trabalho, o TP6 sugere ainda a discussão coletiva na sala de aula, possibilitando ao aprendiz não só trocar e obter (novas) informações com seus colegas como também construir conhecimentos, necessários para a elaboração do texto. Esse se constitui em mais um aspecto positivo desse exercício, além do fato de propor o contato dos alunos com uma variedade de textos do mesmo gênero, no caso a reportagem. Afirmamos isso, pois o trabalho de leitura de uma coletânea de textos, se bem orientado, pode contribuir para que o aluno consiga transcender os limites da estrutura formal do texto, passando a compreendê-lo como um ato discursivo e social. Além do mais, esse tipo de leitura, certamente, favorece o reconhecimento das particularidades do gênero a ser trabalhado, permitindo ao aluno a familiarizar-se com ele, já que ―a apropriação das características do gênero não se dá de imediato, com um único exemplo‖ (LOPES-ROSSI, 2008, p. 56). Em termos bakhtiniano, pensamos que a leitura reflexiva dos textos pode de fato levar o aluno a uma compreensão ativa e responsiva, pois, na articulação dos discursos, ele construirá paulatinamente o sentido, compreendendo o significado do texto. Nesse processo de compreensão, o aprendiz, enquanto leitor, se posiciona, produzindo, assim, novos enunciados, constituindo-se em mais um elo na imensa cadeia da comunicação verbal. No terceiro e quarto momentos, o Caderno TP6 sugere que se utilize o tema como se fosse uma manchete e o olho da reportagem e que o professor faça uma explanação aos alunos sobre esse assunto e sobre como produzir uma reportagem mais curta, mostrando-lhes exemplos de reportagens sobre o carnaval. 3- Utilize o tema como se fosse uma manchete e o olho da reportagem: É tempo de brincar Cada cidade tem seu carnaval. Saiba mais sobre o uso de fantasias e máscaras no carnaval desta cidade. 158 4- Mostre para eles exemplos de reportagens sobre o carnaval, explique sobre a manchete e o olho e sobre como produzir uma reportagem mais curta, como um informativo. (BRASIL, 2008b, p. 99) Na sequência, temos o quinto momento: 5- Leia novamente a manchete. Defina que é uma matéria de um jornal local e que devem decidir sobre qual cidade vão escrever. Comente sobre o formato de uma folha de jornal, com informações como o nome da cidade, data, nome do caderno e página no canto à direita. Peça que façam uma margem como se fosse uma matéria no jornal. Sempre mostrando exemplos concretos em jornais e deixando um exemplar para que cada grupo possa comparar com sua produção. Se tiver possibilidade, utilize folhas A3 para o trabalho. (BRASIL, 2008b, p. 99) Podemos dizer que a capacidade discursiva também foi contemplada, não de modo direto, na orientação que diz respeito aos três últimos momentos supracitados (3, 4 e 5). Os elementos que auxiliam na construção da forma composicional podem ser depreendidos quando o TP orienta o professor a mostrar para o aluno exemplos concretos de reportagens, explicando sobre a manchete e o olho e a comentar sobre o formato de uma folha de jornal, com informações como o nome da cidade, data, nome do caderno e página no canto à direita. No sexto momento, segue a atividade de planejamento, que deve ser feita depois das discussões. O planejamento é constituído de reunião em grupo para decidir elementos e assuntos a serem tratados por meio da manchete; escolha da imagem para ilustrar a matéria; releitura dos textos sobre carnaval, se necessário; definição do espaço para a matéria; nova reunião para que cada grupo mostre seu plano. Para esse último, pede ao professor que incentive seus alunos a participar do planejamento dos seus colegas. 6- Atividade de planejamento 6.1- Após a discussão, peça para que os alunos voltem a se reunir em grupo e que decidam sobre elementos e assuntos que podem ser tratados a partir desta manchete. Peça para que escolham imagens que possam ilustrar a matéria. Se necessário, ajude-os a fazer uma releitura de um dos textos que forneceu sobre o carnaval da cidade e as imagens que poderiam utilizar ou mesmo alargar suas pesquisas sobre outros carnavais. Pode ser mesmo o carnaval da sua cidade ou de uma cidade da região. Defina quanto espaço terão para a matéria (de 20 a 30 linhas para os de 7ª e 8ª séries, de 15 a 20 linhas para os de 5ª e 6ª séries). 159 6.2- Reúna então todos novamente para que cada grupo mostre seu plano. Incentive a participação de todos no planejamento de seus colegas, com perguntas e sugestões. Incentive-os dizendo: ―– Vocês têm alguma sugestão em relação ao planejamento do grupo? Alguma questão não ficou clara e gostariam de perguntar como vão fazer?‖ (BRASIL, 2008b, p. 99-100) Em relação à escrita em si, não temos dúvida de que em uma atividade de produção textual, o planejamento, a organização das ideias, o contato com uma coletânea de texto, as discussões sobre o assunto, sobre os aspectos constitutivos do gênero, concretizam-se em etapas fundamentais, já que oportunizam ao aluno pensar bastante antes de escrever, formular ideias, construir novos conhecimentos etc. E isso é um fator louvável nessa proposta. No sétimo momento, solicita-se a escrita da reportagem em grupo. 7- Finalmente, peça para que redijam, em duplas ou trios, o texto da reportagem. A redação em grupo é uma boa experiência, pois os meninos e as meninas trocam informações, sugestões e fazem releituras que são muito produtivas. (BRASIL, 2008b, p. 100, grifo nosso) Os PCNLP (BRASIL, 1998, p. 88) sugerem que a produção textual se dê também em ―duplas ou em pequenos grupos, para permitir que a troca entre os alunos facilite a apropriação dos conteúdos‖. Esse é mais um aspecto louvável dessa proposta do TP6. Apesar disso, é importante lembrar que a escrita de um texto não ocorre, assim, de imediato, numa primeira e única versão, mas depois de sucessivas versões, o que parece não ocorrer nesse trabalho. Nota-se que, após, todo o planejamento, o TP6 já solicita o texto, sem mencionar uma possível revisão e refacção; parece mesmo acreditar que uma única produção seja suficiente para que o aluno apreenda as características do gênero e desenvolva, de fato, suas capacidades de linguagem. O planejamento da atividade não desemboca necessariamente numa produção inicial completa e única, ao contrário, é preciso diversas produções. Para Dolz e Schneuwly (2004), a primeira produção tem um papel importante, pois permite circunscrever quais as capacidades reais de que o aluno já dispõe e quais as suas potencialidades. Na primeira escrita, quando se trabalha por meio da sequência didática29, o professor tem a oportunidade de analisar o que seu aluno sabe sobre tal gênero e o que ele ainda pode aprender, quais os aspectos do gênero 29 Assunto já tratado por nós no primeiro capítulo. 160 em questão precisam ser aperfeiçoados e, mais, permite ao próprio aluno medir suas capacidades. Sobre esse assunto, os documentos oficiais destacam que, nessas situações de aprendizagem, o aprendiz deve pôr em jogo tudo o que sabe para descobrir o que não sabe. Mas isso só poderá ocorrer com a intervenção concreta do professor, que deverá colocar-se na situação de principal parceiro, favorecendo a circulação de informações bem como a construção de conhecimentos. Esse ainda pode ser um bom momento de intervenção na ZPD do aluno, pois indica a atividade que ele consegue realizar sozinho e a que ele poderá realizar a partir da mediação, da ajuda do outro, um colega mais experiente ou o próprio professor. Nota-se que esse conceito vygotskyano permite pensar em um ensino que atua não só sobre o que o aluno sabe como também nas potencialidades de seu aprendizado, como bem nos lembra Paes de Barros (2005). Depois, no momento da avaliação, oitavo e último momento, o material propõe que o professor dê prioridade ao desenvolvimento da coerência, da relação entre a reportagem e a imagem não-verbal das informações escolhidas. Nos textos lidos, pede que o educador tente avaliar os próximos pontos a serem enfocados no processo de ensino da escrita. 8- Na sua leitura para avaliação, dê prioridade ao desenvolvimento da coerência, da relação entre reportagem e imagem não-verbal das informações escolhidas. Leia cada texto também tentando avaliar os próximos pontos a serem enfatizados no processo de ensino-aprendizado da leitura e da escrita. (BRASIL, 2008b, p. 100) Nesse sentido, embora não oriente para a realização de variadas produções antes da versão final, o TP traz uma orientação ao professor, considerada importante: ―leia cada texto tentando avaliar os próximos pontos a serem enfatizados no processo de ensino aprendizagem de (...) escrita‖. O ideal é que isso ocorra durante todo o processo de escrita, que é complexo e exige um trabalho de idas e vindas, identificando problemas e retornando para resolvê-los. Acreditarmos que, para um ensino-aprendizagem mais significativo, outras escritas e reescritas do texto, acompanhadas, obviamente, de reflexões e de orientações pedagógicas do professor seriam bem vindas. Na seção seguinte, analisamos a terceira seção do caderno TP6, em relação às sugestões de atividades de produção escrita direcionadas ao aluno. 161 4.3.3 Seção III – A escrita Na seção III, ―A escrita‖, analisamos as sugestões de propostas de produção de textos destinadas ao aluno. O TP6 apresenta um texto, ―Dançar para não dançar, a história do Brasil negro‖, retirado de uma revista, e uma foto com objetos de percussão, acompanhados de uma questão para o professor, conforme segue: 162 163 a) Faça um planejamento para uma seqüência de aulas de produção textual sobre uma tradição cultural de sua região e/ou cidade. Considere a situação sócio-comunicativa e as atividades que auxiliarão seus alunos na atividade de pré-escrita, no planejamento e escrita de um texto informativo. Se o espaço abaixo for curto, utilize uma folha de seu caderno de apoio. (BRASIL, 2008b, p.106-107). A respeito desse exercício, podemos inferir que o Caderno TP6 subentende que o participante, a essa altura do curso, já esteja capacitado para preparar uma produção de texto que seja significativa para o aluno e que contribua, efetivamente, para desenvolver seu aprendizado e suas capacidades de escrita. Por isso, solicita-lhe o planejamento de uma sequência de aulas de produção textual, destacando a necessidade de considerar as atividades de pré-escrita (certamente, leitura de vários textos em gêneros, discussão em grupo etc.), de planejamento (talvez, organização das ideias, rascunhos, esboços) e de escrita (provavelmente, revisão, releitura, reescrita). Com certeza, essas etapas são fundamentais para qualquer processo de produção de textos, pois permitem ao escritor a construção de conhecimentos bem como a monitoração do processo de produção de texto. Nesse planejamento, o cursista deve levar em conta a situação sociocomunicativa, isto é, o gênero, o locutor, o interlocutor, o espaço, a intenção etc. Mas é difícil imaginar que o professor irá considerar tais aspectos se, nessa Unidade 22, a maioria das atividades propostas pelo TP6 não os contemplou efetivamente. A nosso ver, o participante não foi instigado e nem treinado para desenvolver e aplicar tal conteúdo. Para a atividade, o TP fornece apenas o assunto a ser abordado (tradição cultural da região) e a característica do texto (informativo), mas não apresenta uma finalidade específica de tal escrita. É necessário considerar, porém, que uma atividade como essa, precisa ter, além de um objetivo bem delimitado, um motivo claro que faça algum sentido para o 164 aluno/escritor, que o envolva em um contexto próximo de sua realidade, despertando nele a motivação para escrever. O TP deixa de indicar também o gênero no qual a escrita se realizará, o que, a nosso ver, é uma falha, já que toda a escrita se constitui no interior de um gênero do discurso. Diante disso, o material parece, mais uma vez, ignorar que todo texto se organiza dentro de determinado gênero em função das intenções comunicativas do locutor, como parte das condições de produção dos discursos, assim como propõem as diretrizes oficiais, nos quais o Guia Geral (BRASIL, 2008a) se diz balizar. Em relação às capacidades de linguagem a serem mobilizadas para a construção textual, notamos que, na solicitação de tal planejamento, não há preocupação em apresentálas, o que, certamente, contribui negativamente para o ensino-aprendizagem do aluno. No Avançando na prática dessa Seção III é apresentado um texto sobre a origem do carnaval, cujo título é ―Origem do carnaval‖, de Cláudia M. A. R. Lima, retirado de um site da internet, acompanhado de duas figuras as quais remetem a foliões fantasiados: 165 166 (BRASIL, 2008b, p. 109). 167 Esses dados permitem inferir a tentativa de uma proposta direcionada para o planejamento da escrita, confirmando o objetivo principal da Unidade, tendo em vista que enfatiza aqui o procedimento de pré-escrita. A sugestão para esse trabalho de pré-escrita pode ser vista ao longo da proposta supracitada quando o TP6, por exemplo, sugere que o professor pesquise com seus alunos sobre variadas histórias de carnaval; conte-lhes alguma dessas histórias; converse sobre elas; leia-as para eles; traga uma pessoa idosa para contar histórias para a turma; oportunize a consulta de variados materiais; visite a biblioteca ou o arquivo público com os alunos; trabalhe com vários textos verbais e não verbais. Esses são atributos relevantes, ou melhor, fundamentais para o processo de produção textual, pois se mobilizam aí as capacidades discursivas que ajudam na construção do conteúdo do gênero. A proposta fornecida pelo Caderno apresenta ricas situações de aprendizagem (visitar a biblioteca, ir ao arquivo público), visto que contribuem tanto para despertar a atenção e o interesse do aprendiz como para tornar a aula diferente, menos monótona, por vezes, repetitiva e cansativa. Ademais, o contato com a diversidade de textos, acompanhado de uma orientação adequada ao objetivo de ensino, também pode ser uma atividade produtiva, pois o aluno acaba aprendendo a buscar, nos aspectos verbais e não verbais do texto, os índices que lhe possibilitem o uso de seu conhecimento prévio e de seu conhecimento linguístico, também necessários para a compreensão textual. Reiteramos, porém, que, para isso, é preciso ter metas bem definidas, que deem condições para o aluno decidir quais os conhecimentos necessários para a construção do significado do texto que lê (KATO, 1985 apud PAES DE BARROS, 2005, p. 22). As atividades grupais mais uma vez merecem destaque nesse exercício, pois favorecem a interação entre o eu e o outro. É, justamente, nessa relação, que o aluno, um ser social e empírico, torna-se um sujeito responsivo, pois a enunciação possibilita ao aprendiz dialogar com os outros discursos, tomando-os para si, imprimindo sua voz, numa compreensão ativa responsiva, permitindo também um posicionamento, uma apreciação valorativa sobre tal discurso. De resto, o trabalho de pré-escrita pode fornecer informações que auxiliam, de fato, na elaboração temática, ajudando o aluno a determinar o tema, o assunto do gênero a ser produzido, conforme Barros-Mendes (2005). Mas deve-se lembrar que, para isso ocorrer de modo efetivo, o aprendiz precisa ter claro o objetivo desse trabalho, o que não parece ocorrer nessa proposta. Como podemos ver na orientação, é somente no quarto momento — em que 168 certamente já tenham se passado algumas aulas — que o TP anuncia a produção: a narração de uma história contada em festas de carnaval. A partir desses dados, podemos depreender uma tentativa, por parte do Caderno, de propor uma sequência de atividades que culminasse na produção de alguns gêneros jornalísticos (um quadro informativo em um jornal; uma chamada para a matéria na primeira folha, ou uma breve reportagem no caderno de cultura do jornal, acompanhada por uma imagem e pelo quadro). Nota-se que o TP6 se refere a alguns gêneros de modo impreciso. Isso nos permite inferir que age dessa maneira no intuito de cumprir com os pressupostos teóricos veiculados no Guia Geral (BRASIL, 2008a, p. 37): as atividades devem também oferecer muitas possibilidades para que os alunos tornem-se progressivamente autônomos e possam obter novas informações, exercitar estratégias diversificadas e com graus de complexidade crescente de interação e aprender diferentes formas de produção de significação. Como se observa, esses pressupostos do Guia parecem não se materializar na proposta do material. Portanto, falta um diálogo entre o TP6 e o Guia Geral. Dizemos isso, porque, a nosso ver, não houve aqui uma real preocupação em explorar os elementos constitutivos de cada um dos gêneros do discurso, haja vista que cada um deles possui uma característica específica, que precisa ser ensinada, por meio de um trabalho didático sistematizado. É pertinente dizer que o TP não demonstra, nessa proposta de ensino-aprendizagem de escrita, a necessidade de se definir o gênero, explorando as estratégias implicadas no seu uso. Parece mesmo apostar na mera visitação ou na imersão do aluno no gênero, o que nos remete, novamente, à perspectiva da imersão cuja ideia principal é a de que se aprende a fazer fazendo. Nessa abordagem imersiva, embora se proponha um trabalho com os gêneros, acredita-se que, para o aprendiz dominá-los, basta inserir o aluno num processo de imersão nos gêneros, ou seja, somente o contato com uma diversidade de gêneros já é suficiente para que ele obtenha seu domínio, pela simples circunstância do fazer (BARROS-MENDES, 2005; PADILHA, 2005). Agindo de acordo com essa perspectiva, compreendemos que seja impossível desenvolver a autonomia dos alunos, conforme propõe o Guia Geral (BRASIL, 2008a). Afinal, a autonomia — palavra de ordem dos documentos oficiais — é dependente da apropriação consciente e reflexiva não só de informações como também de estratégias diversas que permitem a construção e o domínio das diferentes formas de dizer, nas mais diversas situações de comunicação humana. 169 No ensino-aprendizagem de escrita, concordamos com Dolz, Schneuwly e Noverraz (2004) que advogam em favor da criação de um contexto de produção preciso, com objetivo claro, e da realização de atividades múltiplas e variadas. São essas ações que permitirão ao aluno se apropriar dos instrumentos e das técnicas necessárias ao desenvolvimento de suas capacidades de escrita. Tendo isso em vista, acreditamos que a proposta sugerida pelo TP seria mais significativa, com resultados mais promissores, se fosse pensada semelhantemente à sequência didática, elaborada por esses três pesquisadores. Em relação, às capacidades de linguagem requeridas no processo de escrita, nessa proposta são mobilizados — tangenciadamente — alguns elementos da capacidade de ação, a saber, os gêneros (quadro informativo; chamada para a matéria; reportagem), indicados, mas não definidos nem explorados; os interlocutores (alunos da sala); o suporte (jornal); e a finalidade (leitura na sala e exposição no varal de texto da sala). Fornecem-se também informações que dizem respeito às capacidades discursivas, sobretudo, acerca da construção do conteúdo/assunto a ser tratado. O momento de pré-escrita constitui-se em um bom exemplo de mobilização desse aspecto, já que possibilita ao aluno não só a leitura de vários gêneros como também o debate sobre o assunto. Nessa capacidade, contempla-se ainda a dimensão da organização textual, que ocorre quando se informa a sequência (narrativa) na qual se realizará um dos gêneros (quadro informativo). Na capacidade linguístico-discursiva, as dimensões como operação de textualização, tomada de posição enunciativa e seleção lexical não se apresentam, isto é, a proposta não oferece elementos que contribuem para a construção do estilo do gênero ou dos gêneros. Consequentemente, a falta de assimilação dessas capacidades de escrita limita a participação do professor e do aluno não só nas atividades escolares, como também nos variados contextos sociais. No último momento da atividade, depois da produção textual, é proposta ao aluno a leitura do seu texto para os colegas de classe e, em seguida, a exposição no varal de textos da sala. Notemos que, assim como na última atividade direcionada ao aluno (no Avançando na prática da seção anterior), os leitores dos textos produzidos são exclusivamente o professor e os próprios os alunos. Nesse sentido, acreditamos que, mesmo definindo o público alvo, essa proposta, assim como a precedente, poderia ser mais significativa, quando não atrativa, para os alunos, se extrapolasse os ―muros da escola‖, algo que lhes possibilitasse uma experiência real com o uso social da escrita. Parece que a maioria dos encaminhamentos de produção feitos pelo TP não teve um propósito mais concreto, social, pois acabaram ―morrendo‖ dentro da própria escola; em 170 algum caso, o mural da sala de aula foi o suporte mais lembrado. A ausência de um propósito comunicativo real, sem dúvida, limita o uso da escrita e o aprendizado de sua dimensão pública, interativa e dialogada. Costa Val (2003, p.36) alerta que, ―quando a única possibilidade de socialização da escrita se limita, invariavelmente, à sala de aula, esse procedimento pode perder o caráter de promoção de interlocução para assumir o de ritual obrigatório e sem sentido‖. Apesar de tudo, reconhecemos juntamente com essa autora que já houve grande avanço nesse aspecto no ensino-aprendizagem de LP, pois os textos dos alunos, hoje, têm um destino bem mais interessante do que somente ser corrigido pelo professor, como era antigamente. Conforme vimos, um trabalho — sistematizado — de revisão e de reescrita, que envolve várias avaliações, correções e versões do texto, constitui-se como etapas inerentes ao processo de escrita. Tendo isso em vista, notamos que nessa proposta elaborada pelo TP6 houve a falta de uma orientação teórica mais focada nesse aspecto. O papel do professor e do aluno como principais colaboradores da escrita poderia ter sido mais ressaltado, além de parâmetros e critérios reais de correção/revisão. Na seção seguinte, faremos um levantamento das capacidades de linguagem indicadas nas propostas de produção textual do professor e do aluno, da Unidade 22 do TP6. 4.4 Capacidades indicadas nas propostas de produção textual Neste terceiro momento, fizemos um levantamento, através de um quadro resumitivo, das capacidades de linguagem, a fim de comparar que capacidades foram mobilizadas nos exercícios de produção textual para o professor e para o aluno. 171 Quadro 5 – Síntese das capacidades indicadas nas propostas de escrita para o professor Capacidades de linguagem indicadas Capacidades de ação Proposta de escrita Seção I (p. 79) Proposta de escrita Seção II (p. 87) Proposta de escrita Seção II (p. 88) Proposta de escrita Seção II (p.95) Gênero Participantes Poema Não há indicação de locutor/interlocutor Não há indicação Locutor: o professor Não há indicação de interlocutor Texto Locutor: o professor Não há indicação interlocutor Narrativa ficcional Há indicação implícita do de locutor/interlocutor Contexto de produção textual Finalidade Conteúdo Não há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Experiência engraça da vida de estudante Não há indicação Não há indicação História como educador Parte de um capítulo de um livro. Não há indicação Personagem passa no vestibular e ganha passagem para Olinda Elaboração do conteúdo do Não há indicação gênero Plano do texto Não há indicação Capacidades linguístico-discursivas Não há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Há indicação implícita Há indicação implícita Operação de textualização Escolha lexical Tomada de posição enunciativa Não há indicação Não há indicação Não há indicação Há indicação implícita Não há indicação Há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Capacidades discursivas Não há indicação Não há indicação Não há indicação 172 Quadro 6 – Síntese das capacidades indicadas nas propostas de escrita para o aluno Capacidades de linguagem indicadas Proposta de escrita Seção I (p.91-92) Proposta de escrita Seção II (p.96-97) Proposta de escrita Seção II (p. 98-99-100) Proposta de escrita Seção III (p.107) Proposta de escrita Seção III (p.108-109) Capacidades de ação Gênero Participantes Texto Texto Locutor: o aluno Não há indicação Não há indicação de interlocutor Contexto de produção Não há indicação textual Finalidade Não há indicação Não há indicação Conteúdo Não há indicação Experiência inesquecível Não há indicação Reportagem Texto informativo Não há indicação de locutor. Há Não há indicação indicação dos interlocutores: professor e alunos da sala Quadro informativo Não há indicação do locutor. Há indicação implícita dos interlocutores: Alunos da sala Escrever como se fosse uma revista Não há indicação semanal ou jornal Escrever texto informativo sobre Não há indicação uso de fantasias e máscaras no carnaval Carnaval, fantasias e máscaras Sobre tradição cultural da região e/ou cidade Há indicação implícita (jornal) Atividade de pré-escrita: leituras de Não há indicação textos do gênero reportagem e discussão em sala sobre o tema Há indicação implícita Não há indicação Atividade de pré-escrita: leituras variadas e discussão sobre o assunto Não há indicação Não há indicação Não há indicação Linguagem formal Não há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Não há indicação Há indicação implícita (leitura na sala e exposição no varal de texto da sala) Histórias contadas em festas de carnaval Capacidades discursivas Elaboração do conteúdo Não há indicação do gênero Não há indicação Plano do texto Há indicação Capacidades linguístico-discursivas Não há indicação Operação de Não há indicação Não há indicação textualização Escolha lexical Não há indicação Não há indicação Tomada de posição Há indicação Não há indicação enunciativa implícita Há indicação implícita 173 Nas propostas de escrita, destinadas ao professor e ao aluno, há destaque maior para as capacidades de ação, no que diz respeito à indicação do gênero, dos participantes e do conteúdo sugerido. Observa-se que a capacidade discursiva é parcialmente contemplada, já que se indica, superficialmente, o plano do texto, em algumas das atividades. Dessa maneira, percebemos que, de certo modo, as mesmas capacidades indicadas para a prática da escrita nas atividades do professor também são indicadas nas sugestões de propostas de produção textual para o aluno. Percebemos que essas capacidades de linguagem, em boa medida, indicam que o trabalho com o gênero é limitado. Isso deixa transparecer que o material segue mais uma perspectiva textual do que discursiva. O quadro supracitado evidencia que a unidade de ensino são os textos, tomados para operacionalização de algumas categorias voltadas para a textualização, e os gêneros, enquanto objetos de ensino, não se configuram como tais em virtude do tratamento recebido no Caderno. A análise dos dados nos permite dizer que a orientação teórico-metodológica do Caderno TP6 está parcialmente afinada com o Guia Geral (BRASIL, 2008a), parecendo haver, na teoria, alguma preocupação em se propor atividades de produção textual no plano dialógico, atrelado ao aspecto sociocomunicativo da linguagem, de acordo com a atual perspectiva de ensino. Mas no encaminhamento das propostas de produção textual, para a prática, elaboradas pelo TP, notamos um comportamento ainda distante da promoção da escrita como uma prática enunciativo-discursiva, como uma prática social concreta, conforme pressupõem os documentos oficiais. 174 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho de pesquisa, realizado à luz da abordagem enunciativo-discursiva do Círculo de Bakhtin, analisamos as orientações teóricas, bem como as questões de produção escrita da Unidade 22 do Caderno TP6, pertencente ao Programa Gestar II, com o objetivo de verificar se essas propostas possibilitam aos professores o real desenvolvimento das capacidades de linguagem implicadas no processo de produção de textos. Para darmos conta desse objetivo, lançamos mão de duas perguntas de pesquisa que dizem respeito às capacidades de linguagem. Retomamos aqui tais questões, indiretamente, no intuito de respondê-las, bem como de tecer algumas considerações sobre o resultado obtido ao longo da análise. Nosso intento foi de verificar quais das capacidades eram mobilizadas no tratamento didático dispensado às atividades de produção escrita para aluno e professor e se elas atendiam aos objetivos propostos na Unidade 22, do TP6, para a formação docente continuada, considerando, é claro, o paradigma atual de ensino de LP. Para tanto, analisamos o diálogo entre as orientações teóricas do Guia Geral e do TP6, em relação à proposta de ensino-aprendizagem de escrita para professores e alunos. Além disso, identificamos as capacidades de linguagem recorrentes mobilizadas nessas propostas, comparando-as em termos teórico-práticos aos pressupostos apresentados ao professor no TP6, do GESTAR II. Em nossa análise, no que se refere às operações de planejamento, revisão e rescrita de textos, constatamos a presença desses procedimentos, ao longo da Unidade 22, na forma de encaminhamento didático e de orientação, em que o TP6 instrui ora professor, ora aluno, a organizar, enumerar e adicionar ideias, a rascunhar, reler e rever seu texto. Diante disso, podemos dizer que, na maioria das tarefas, o Caderno cumpriu satisfatoriamente seu objetivo principal, o planejamento. Entretanto, no que tange à revisão, embora tenha enfatizado bastante tal questão, a nosso ver, faltou uma orientação teórica mais precisa que culminasse no estabelecimento de parâmetros reais para execução dessa prática. Enunciando de outra forma, observamos que, mesmo ressaltando a revisão textual, o tratamento dado a ela é lacunar, pois não fornece, em momento algum, critérios de correção tanto para as propostas de produção textual do professor como para a do aluno, o que dificulta a realização efetiva dessa prática. Em relação ao diálogo estabelecido entre as orientações teóricas do Guia Geral (BRASIL, 2008a) e as do TP6, verificamos que isso ocorreu em grande parte da Unidade; mas, em alguns momentos, constatamos incoerências entre os dois Cadernos, no que diz 175 respeito à orientação teórica do Guia e sua materialização no TP6, sobretudo, no encaminhamento didático das atividades de produção textual destinadas ao professor e aluno. Além do mais, percebemos, às vezes, uma certa distância entre as sugestões de ensinoaprendizagem de escrita, especialmente, do aluno, e alguns dos pressupostos veiculados no PCNLP (BRASIL, 1998). Quanto ao encaminhamento das atividades de escrita para o aluno, comparado aos pressupostos teóricos apresentados ao professor, principalmente, percebemos que, mesmo buscando um trabalho diferenciado na Unidade, no que diz respeito ao processo de escrita, destacando os procedimentos de pré-escrita, planejamento, revisão e rescrita, o TP6 deixa a desejar nas propostas de elaboração textual, porque, em muitos momentos, parece esvaziar a atividade de escrita do seu significado dialógico, de seus aspectos discursivos. Embora o Caderno TP6 tenha afirmado nas orientações teóricas fornecidas ao professor que nas atividades de escrita consideraria os aspectos da situação sociocomunicativa (gênero, interlocutores, objetivo, suporte etc.), a análise dos dados permitiu observar que não foi dispensado um tratamento efetivo nessa direção. Isso equivale a dizer que, apesar de o Guia Geral (BRASIL, 2008a) e o TP6, na Unidade 22, assegurarem trabalhar o texto na perspectiva do gênero, conforme indicação dos PCNLP (BRASIL, 1998), percebemos uma confusão no encaminhamento teórico das propostas de produção, haja vista que ora o TP6 se refere aos gêneros (reportagem, poema), ora se refere a texto, ou à sequência textual, narração e dissertação, por exemplo. Portanto, o modo como é sugerido o trabalho de produção escrita não se assemelha, verdadeiramente, nem com a perspectiva dos gêneros discursivos nem com a de gênero textual. A ausência de encaminhamento didático de produção textual que contemple efetivamente o objeto (gênero) discursivo, bem como as condições de produção, recepção e circulação de textos, acaba reduzindo significativamente a experiência do aluno e do professor como escritores, transformando a atividade em um mero exercício mecânico, o que não afastando-se da atual proposta de ensino. Sabemos que hoje o ensino-aprendizagem de LP está fundamentado na perspectiva enunciativo-discursiva, e o TP6 juntamente com o Guia Geral (BRASIL, 2008a) parecem admitir isso, já que se embasam nos PCNLP (BRASIL, 1998) que veiculam tais pressupostos, sem entretanto, assumi-la integralmente. Em relação às mudanças no ensino, o próprio TP, no início da Seção II, destaca que o currículo antigo, enfatizando somente os processos psicológicos, cognitivos, os procedimentos (certamente o planejamento, organização das ideias, revisão, editoração, 176 narração, descrição e dissertação) e as estratégias de produção, já foi superado30 ou ampliado, e que atualmente estabelecem-se novos conteúdos e métodos. Nesse sentido, o material do GESTAR II parece reconhecer que o ensino atual passa a ser pensado em prol do uso da linguagem escrita como processo sociocomunicativo, em que se consideram os contextos e das condições de produção. No entanto, na Unidade 22, ao fixar seu objetivo nas atividades de planejamento, o TP6 não leva em consideração tais pontuações, buscando ―solucionar‖, de certa forma, apenas um problema, também inerente ao processo de produção: as operações cognitivas de planejamento, revisão e reelaboração textual. Afirmamos isso, pois a análise das propostas de escrita, principalmente, aquelas direcionadas ao aluno, demonstrou que os outros elementos envolvidos no processo de produção de textos, tais como as dimensões das capacidades de linguagem, a escrita como processo dialógico, realizada dentro de um gênero discursivo, não são enfatizados, fato que materializa um encaminhamento lacunar. Ou, as orientações teóricas dadas ao professor ao longo da Unidade não foram concretizadas, de fato, nas sugestões e propostas de produção textual destinadas ao aluno. Isso é grave, pois a função do material/Programa é atualizar o docente sobre os conceitos atuais necessários ao ensino de língua materna, prescritos pelas diretrizes oficiais. Em relação às capacidades de linguagem necessárias para o desenvolvimento da escrita, identificamos algumas delas, por vezes, diluídas, nas propostas de ensinoaprendizagem de produção textual, como a capacidade de ação (gênero, participantes e o conteúdo) e a capacidade discursiva (plano do texto). Constatamos que a maioria das orientações, direcionadas tanto ao professor como ao aluno, para a escrita de textos não as apresentava claramente, apenas as tangenciava. O tratamento dado não foi efetivo, já que a indicação dessas capacidades de escrita foi feita de maneira esporádica, imprecisa e implícita, favorecendo pouco sua construção real. Essas constatações feitas na análise, certamente, nos ajudam a responder nossas questões da pesquisa, no que tange às capacidades mobilizadas no tratamento didático dispensado às atividades de produção escrita para aluno e professor e em que medidas elas atendem aos propósitos do GESTAR II, no TP6, para a formação docente continuada. É indiscutível que, nesse espaço de formação, há necessidade de o professor de LP desenvolver 30 Outros autores também enfatizam a superação de um ensino de escrita centrado, sobretudo, nos processos cognitivos (ROJO, 2009b; REINALDO, 2005; FIGUEIREDO, 2005; BONINI, 2002; BARBOSA, 2001). 177 a consciência de uma nova perspectiva de ensino, conhecer novos conteúdos e novas metodologias, assumir o texto/gênero como instrumento de trabalho, aprender a ensinar, desenvolvendo suas capacidades de escrita, apropriando-se de ferramentas que lhe possibilitem a produção textual concreta, para posteriormente ensinar seu aluno na sala de aula. A nosso ver, isso só ocorrerá de fato se o ensino dessa prática, no curso de formação continuada, levar em conta, especificamente, a dimensão sociodiscursiva e enunciativa da linguagem; do contrário, tal procedimento poderá se limitar a um ritual obrigatório de sala de aula — ou a uma mera atualização profissional — perdendo seu caráter interlocutivo real, capaz de permitir não só a prática escolar como também a prática cidadã. Os resultados obtidos revelam que as orientações teórico-metodológicas do TP6, embora afirmem adotar as concepções de linguagem e de escrita veiculadas nos documentos oficiais, não dão suporte para o professor no ensino de escrita de textos. Além disso, mostraram-se insuficientes para promover um ensino-aprendizagem baseado nos gêneros, adotados como objeto de ensino por esses documentos oficiais, bem como para desenvolver de fato as capacidades de linguagem implicadas no processo de escrita do professor-cursista. Além dos aspectos analisados até aqui, a leitura do material revelou alguma falta de cuidado no tratamento da norma padrão culta da língua, problema considerado sério em uma coleção produzida sob a responsabilidade do MEC. A respeito de material didático destinado à formação em serviço, conforme já dizemos, o Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, da UFMT, tem desenvolvido um trabalho de análise e os resultados têm mostrado limitações importantes na concepção teórico-prática veiculada nesses guias, sejam eles oficiais ou não. Assim, nossa análise confirma o que foi comprovado em estudos anteriores, nos trabalhos de Socorro (2009), Nunes (2009) e Santos (2011). Por essa razão, acreditamos que a nossa pesquisa tem grande relevância social para o meio educacional, já que pode contribuir com as discussões relacionadas à formação docente e à adequação de materiais didático-pedagógicos utilizados na educação continuada de professores. Ao destacarmos os aspectos positivos do material analisado, também somos levadas a alertar para as inadequações identificadas, visando a provocar reflexões, por parte dos órgãos responsáveis pelas políticas de formação continuada, quanto à seriedade desse processo formativo e à necessidade de adoção de critérios coerentes com a própria legislação na elaboração desses materiais. Ademais, cabe aqui reiterar a significativa exigência, sobre o professor da educação básica e sobre seu processo formativo, 178 realizada por diferentes instâncias sociais quando, muitas vezes, a qualidade dos materiais oferecidos nos cursos formação é desconsiderada. Para além desse aspecto, é preciso ressaltar que todo o processo envolvido na produção, impressão e divulgação desse material demanda um investimento de alto custo aos cofres públicos. Nada mais justo, portanto, que esse material formativo seja de qualidade inquestionável e cumpra suas finalidades formativas. Esses resultados, e essas últimas observações, nos levam a refletir acerca da necessidade de reformulação dos materiais didático-pedagógicos utilizados nos cursos de formação continuada, com o intuito de contemplar um trabalho orgânico em relação à teoria enunciativo-discursiva, levando em conta, efetivamente, o caráter interlocutivo da língua(gem), aspecto fundamental no ensino-aprendizagem de produção de textos, além do respeito às normas vigentes, bem como aos paradigmas atuais de ensino. Tal conclusão demonstra a necessidade de mais pesquisas sobre esse assunto, na área de Linguística Aplicada, e de políticas públicas sérias de avaliação desses materiais. Trata-se da criação de um programa oficial que não só elabore o material, como também o supervisione, acompanhando seu desenvolvimento, promovendo avaliações sistemáticas para analisar a proposta e os pressupostos utilizados. 179 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, C. M. 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