DOI:10.5585/ConsSaude.v11n1.2669 Recebido em 14 mar. 2011. Aprovado em 17 fev. 2012 Impacto de 24 semanas de treinamento com pesos sobre a composição corporal de idosas Editorial Impact of 24-week resistance training on body composition of elderly women Matheus Amarante do Nascimento1; Renata Selvatici Borges Januário2; João Paulo de Aguiar Greca3; Aline Mendes Gerage 4; Arli Ramos de Oliveira5; Fábio Luiz Cheche Pina6 Ciências básicas ¹ Doutorando em Educação Física. Docente colaborador do curso de bacharelado em Educação Física da Universidade Estadual de Londrina. Londrina – PR, Brasil. 2 Mestre em Educação Física. Docente do curso de Educação Física da Universidade Norte do Paraná. Londrina – PR, Brasil. 3 Mestrando em Educação Física. Programa de Pós-Graduação em Educação Física UEM/UEL. Londrina – PR, Brasil. 4 Mestre em Educação Física. Docente colaboradora do curso de Educação Física da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis – SC, Brasil. 5 Doutor em Educação Física. Docente adjunto do Departamento de Ciências do Esporte da Universidade Estadual de Londrina. Bolsista de Produtividade em Pesquisa PQ2/CNPq. Londrina – PR, Brasil. 6 Mestre em Educação Física. Docente do curso de licenciatura/bacharelado em Educação Física da Faculdade de Ensino Superior Dom Bosco. Cornélio Procópio – PR, Brasil. Endereço para correspondência: Matheus Amarante do Nascimento Rua Antônio Amado Noivo, 299, Bairro Vila Ipiranga 86010-640 – Londrina – PR [Brasil] [email protected] Ciências aplicadas Resumo por levantamento de peso, Instruções para os autores Descritores: Programa de fortalecimento Envelhecimento, Composição corporal. Revisões de literatura Introdução: O envelhecimento está atrelado a modificações nos sistemas biológicos do organismo, como a redução da massa muscular e o aumento da gordura corporal, o que pode comprometer a qualidade de vida de idosos. Assim, a prática do treinamento com pesos (TP) tem sido recomendada como alternativa para atenuar tais reduções. Objetivo: investigar o impacto de 24 semanas de TP sobre a composição corporal (CC) de idosas. Métodos: Vinte e duas idosas foram divididas igualmente em grupos de treinamento (GT) e controle (GC). O GT realizou o TP três vezes por semana, e o GC, um programa de alongamento duas vezes por semana. A CC foi avaliada por bioimpedância elétrica. Resultados: Observou-se redução estatisticamente significativa na massa livre de gordura (-3%, P<0,05); água corporal total (-3%, P<0,05) e taxa metabólica basal (-2%, P<0,05) do GC. Não houve alterações significativas para o GT nessas variáveis. Conclusão: o TP pode contribuir para a manutenção dos componentes da CC em idosas. Abstract Introduction: Aging is related to alterations on the organism, such as a reduction on muscular mass and an increase of body fat, which can compromise the quality of life of old people. Thus, weight training has been recommended as an alternative to attenuate these reductions. Objective: To investigate the impact of a 24-week strength training program on body composition of elderly women. Methods: Twenty-two women were equally divided in training (TG) and control groups (CG). The TG was submitted to strength training, three times a week and the CG into stretching classes, two times a week. Body composition was evaluated by bioelectrical impedance. Results: CG presented a statistically significant reduction in the fat free mass, total body water and metabolic basal ratio. The TG did not present any changes in these variables (P>0.05). Conclusion: strength training can contribute to the maintenance of the body compositions components. Key words: Resistance training, Aging, Body composition. ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. 103 Impacto de 24 semanas de treinamento com pesos sobre a composição corporal de idosas Introdução O processo de envelhecimento está associado a diversas modificações estruturais e funcionais nos diferentes sistemas orgânicos, destacando-se, entre elas, a redistribuição da gordura corporal, caracterizada pelo declínio do tecido adiposo apendicular e seu progressivo aumento na região central do corpo1, bem como pela perda significativa da massa corporal magra, a qual é considerada um dos principais fatores responsáveis pelo declínio da mobilidade funcional, dependência e aumento da fragilidade2,3. Nesse sentido, diversos estudos têm apontado que a realização de exercícios físicos, em especial, a prática de programas de treinamento com pesos (TP), tem sido uma alternativa interessante na atenuação dessas perdas decorrentes do processo de envelhecimento, uma vez que esse tipo de modalidade de exercício físico tem proporcionado incrementos na força muscular4-6, flexibilidade e autonomia funcional7-9, potência e resistência muscular10. Entretanto, no que se referem à magnitude das modificações nos diferentes componentes da composição corporal, provenientes da prática de programas de TP, tais como aumentos na massa muscular, manutenção ou incremento do conteúdo mineral ósseo e manutenção ou redução na quantidade de gordura corporal, os resultados disponíveis na literatura ainda não possuem devida consistência11,12. Em geral, aspectos relacionados aos procedimentos metodológicos dos estudos, como as diferentes formas de estruturação dos programas de TP (volume, intensidade, número de exercícios realizados, intervalo de recuperação, velocidade de execução dos exercícios, duração do programa e freqüência semanal), além de variáveis, como duração do estudo, nível de aptidão física inicial dos sujeitos investigados, experiência prévia com o TP, sexo, idade, etnia e hábitos nutricionais, podem influenciar, sobremaneira, as respostas produzidas no tocante às modificações da composição corporal. 104 Dessa forma, o objetivo do presente estudo foi investigar o efeito de 24 semanas de um programa de TP sobre a composição corporal de mulheres idosas. Métodos Amostra Vinte e duas mulheres, acima de 60 anos, aparentemente saudáveis, foram divididas em dois grupos: grupo treinamento (GT) e grupo controle (GC). Como critérios iniciais de inclusão, as idosas deveriam ser sedentárias e não terem participado regularmente de nenhum programa de TP ao longo dos últimos três meses antecedentes ao início do experimento. Todas as participantes, após serem informadas sobre a proposta do estudo e os procedimentos aos quais seriam submetidas, assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina, de acordo com as normas da Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa envolvendo seres humanos (processo nº. 274/2005). Antropometria A massa corporal (MC) foi mensurada em uma balança de leitura digital, da marca Filizola, modelo ID 110, com escala de 0,1 kg, e a estatura (EST) foi determinada em um estadiômetro de madeira com escala de 0,1 cm, de acordo com os procedimentos descritos por Gordon et al.13 Todas as idosas foram pesadas e medidas descalças, vestindo roupas leves somente. Composição corporal A composição corporal foi avaliada antes e após 24 semanas de estudo por meio da técnica de bioimpedância elétrica, utilizando-se um monitor Biodynamic Body Composition Analyzer, modelo 310 (Biodynamics Corporation, Seattle, USA) para a determinação da gordura corporal ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. Nascimento MA, Januário RSB, Greca JPA, Gerage AM, Oliveira AR, Pina FLC ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. Instruções para os autores As participantes foram orientadas por uma nutricionista previamente treinada para o preenchimento de registros alimentares de três dias nos diferentes momentos do estudo. Medidas caseiras padronizadas foram utilizadas para a estimativa da quantidade de alimentos e bebidas consumidas. O consumo energético total foi determinado por meio do programa para avaliação nutricional – Avanutri – versão 3.1.4. As idosas foram orientadas, ainda, a manter seus hábitos alimentares ao longo do estudo. Revisões de literatura Ingestão alimentar Ciências aplicadas Onde: MLG: Massa Livre de Gordura (kg); MC: Massa corporal (kg); EST: Estatura (m). R: Resistência; XC: Reactância; Ŧ = sexo (0 = mulher; 1 = homem). As idosas do GT foram submetidas a um programa de TP que foi realizado durante 24 semanas, em duas etapas, cada qual com a duração de 12 semanas consecutivas, intercaladas por uma semana de intervalo, sem qualquer tipo de treinamento, para que fossem realizadas as reavaliações e reestruturações dos programas de treinamento. O programa de treinamento nessas duas etapas teve como finalidade o processo de resistência muscular e envolveu uma única programação de TP, executada em três sessões semanais, em dias alternados. A diferença entre essas etapas foi determinada pela forma de estruturação dos programas de treinamento (escolha e ordenação dos exercícios), sendo utilizada uma prescrição alternada por segmento, na primeira etapa, e outra localizada por articulação, na segunda. Esse procedimento proporcionou uma sobrecarga progressiva, além de uma quebra da homeostase ao treinamento. A primeira etapa foi composta por oito exercícios, executados na seguinte ordem: supino vertical, mesa extensora, puxada à frente, mesa flexora, rosca no banco Scott, panturrilha sentada, tríceps no pulley e flexão abdominal. Na segunda etapa, também foram efetuados oito exercícios, dispostos na seguinte ordem: supino vertical, remada convergente, rosca no banco Scott, tríceps no pulley, mesa extensora, mesa flexora, adução de coxa e flexão abdominal. Em ambas as etapas, cada exercício foi realizado em duas séries de 10 a 15 repetições máximas (RM), com exceção da flexão abdominal (20 a 30 repetições) e da panturrilha sentada (15 a 20 RM). As cargas utilizadas foram compatíveis com o número de repetições máximas estipuladas para cada exercício, sendo reajustadas sempre que esse número máximo preestabelecido fosse atingido em todas as séries, na tentativa de que a intensidade inicial fosse preservada, de acordo com as recomendações do Colégio Americano de Medicina do Esporte16. Vale ressaltar que, em ambas as etapas, o intervalo de recuperação estabelecido entre as séries, Ciências básicas MLG= – 4,104 + 0,518 (EST2/R) + 0,231 (MC) + 0,130 (Xc) + 4,229 (Ŧ) Protocolo de treinamento Editorial relativa (%G), massa de gordura (MG), massa livre (isenta) de gordura (MLG), taxa metabólica basal (TMB) e água corporal total (ACT). As participantes foram medidas em decúbito dorsal, deitadas em uma maca isolada de condutores elétricos, na posição supinada, com as pernas abduzidas em um ângulo de aproximadamente 45o. Após a limpeza da pele com álcool, quatro eletrodos foram fixados na superfície da mão e do pé direito, de acordo com os procedimentos descritos por Sardinha et al.14. Na tentativa de minimizar possíveis erros de estimativa, as idosas foram orientadas a manter-se em jejum de, pelo menos, quatro horas antecedentes à avaliação, evitar a prática de exercícios físicos vigorosos por, pelo menos, 24 h anteriores ao teste, abster-se do consumo de álcool e bebidas cafeinadas por, no mínimo, 48 h prévias à avaliação, além de evitar o uso de medicamentos diuréticos ao longo dos últimos sete dias. A predição da massa isenta de gordura foi realizada mediante informações apresentadas pela técnica de bioimpedância elétrica, por meio da equação de regressão de Kyle et al.15, para indivíduos idosos, apresentada a seguir: 105 Impacto de 24 semanas de treinamento com pesos sobre a composição corporal de idosas durante cada exercício, foi de 60 a 90 segundos e, entre os exercícios, de dois a três minutos. O GC, por sua vez, foi submetido a um programa de exercícios de alongamento, em grupo, durante 24 semanas, composto por duas sessões semanais, com duração de 30 minutos cada. As sessões eram ministradas por profissionais e acompanhadas por estagiários do curso de Educação Física. Três exercícios de alongamento para cada um dos principais grupamentos musculares – peitoral, costas, bíceps, tríceps, coxas e pernas – foram executados de forma ativa. Cada exercício foi realizado em uma única série, com duração de aproximadamente 20 segundos, sendo adotado o intervalo de 10, entre os exercícios. Vale ressaltar que as participantes de ambos os grupos foram, ainda, orientadas para que não realizassem nenhum outro tipo de atividade física regular e sistematizada durante todo o período de duração do estudo. Delineamento experimental As idosas selecionadas para participarem do estudo foram, inicialmente, divididas em dois grupos (GT e GC). A partir daí, todas foram submetidas, antes do início do experimento, a avaliações antropométricas, nutricionais e de composição corporal. Em seguida, as participantes do GT realizaram um programa de TP durante 24 semanas, ao passo que as do GC integraram um programa de exercícios de alongamento durante o mesmo período. Ao término das 24 semanas de treinamento, uma semana foi destinada às reavaliações antropométricas, nutricionais e de composição corporal. Análise Estatística Inicialmente, o teste de Shapiro Wilk foi utilizado para a análise da distribuição dos dados. A partir daí, foi realizada estatística descritiva, com as variáveis sendo expressas em valores de média e desvio-padrão. Posteriormente, foi aplicado o teste “t” de Student para amostras 106 independentes, para a comparação dos valores iniciais entre os grupos. A análise de variância (ANOVA) two-way para medidas repetidas foi efetuada para verificar as comparações intra e intergrupos nos diferentes momentos do estudo, quando o pressuposto de homogeneidade (Levene) foi assumido. O teste post hoc de Tukey foi empregado para a identificação das diferenças específicas nas variáveis em que os valores de F encontrados foram superiores ao critério de significância estatística estabelecido (P < 0,05). Os dados foram tratados no programa SPSS versão 13.0. Resultados As características físicas iniciais dos grupos GT e GC são apresentadas na Tabela 1. Tabela 1: Características físicas iniciais das participantes (médias ± DP). Idade (anos) Massa corporal (kg) Estatura (cm) GT (n = 11) 67 ± 6 GC (n = 11) 67 ± 5 59,4 ± 9,2 61,0 ± 7,4 155,7 ± 6,9 156,4 ± 6,5 Nota: Nenhuma diferença estatisticamente significativa. Não foram identificadas diferenças significativas entre os grupos (P > 0,05) nas características físicas iniciais. Em relação ao consumo energético, nenhum efeito isolado do grupo (F=0,00; P=0,92), tempo (F=1,39; P=0,25) ou interação grupo x tempo (F=0,16; P=0,69) foi encontrado na comparação inter ou intragrupos nos diferentes momentos do estudo (Figura 1). As informações sobre o comportamento dos diferentes componentes da composição corporal, nos momentos pré e pós-treinamento, são apresentadas na Tabela 2. Foi observada interação significativa para o %G, MLG, TMB e ACT (P < 0,05), sendo identificado um aumento estatisticamente significativo para o %G (+5%, P<0,05) e redução para as demais variáveis apenas no GC ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. Nascimento MA, Januário RSB, Greca JPA, Gerage AM, Oliveira AR, Pina FLC Tabela 2: Componentes da composição corporal nos momentos pré e pósexperimento (médias ± DP). GT (n = 11) GC (n = 11) Efeito F P MC (kg) 59,4 ± 9,2 61,0 ± 7,4 Grupo 0,15 0,69 59,3 ± 9,1 60,5 ± 7,9 Tempo 0,67 0,42 Interação 0,32 0,57 Grupo 0,04 0,84 Editorial Figura 1: Consumo energético total no momento inicial (pré) e após (pós) a intervenção com treinamento com pesos. As barras de erro indicam o desvio-padrão. Pré Pós % G (%) Pré 31,7 ± 4,0 30,6 ± 5,6 Pós 30,4 ± 3,9 32,2 ± 4,1* Tempo 0,10 0,75 Interação 7,08 0,01 MG (kg) Discussão 18,9 ± 4,8 Grupo 0,21 0,65 18,1 ± 4,0 19,6 ± 4,1 Tempo 0,00 0,98 Interação 3,36 0,08 Grupo 0,04 0,83 MLG (kg) Pré 40,9 ± 7,3 42,2 ± 5,0 Pós 41,2 ± 6,2 40,9 ± 5,2* Tempo 2,36 0,13 Interação 6,14 0,02 TMB (kcal) Pré 1235 ± 208 1283 ± 151 Grupo 0,07 0,79 Pós 1253 ± 190 1244 ± 159* Tempo 1,74 0,20 Interação 11,42 0,00 ACT (L) Pré 30,7 ± 3,9 31,4 ± 3,1 Grupo 0,04 0,82 Pós 30,8 ± 3,8 30,7 ± 3,1* Tempo 2,83 0,10 Interação 7,87 0,01 Revisões de literatura * P < 0,05 pré versus pós-treinamento. Nota: MC = massa corporal; % G = percentual de gordura; MG = massa gorda; MLG = massa livre de gordura; TMB = taxa metabólica basal; ACT = água corporal total. Tsuzuku et al.19, por sua vez, apontaram uma redução significativa de 0,7 a 1,2% na gordura corporal analisada por ultra-sonografia em 32 homens e mulheres idosas que realizaram 12 semanas de TP, na frequência de três vezes em 7 dias. Entretanto, outros estudos disponíveis na literatura, mesmo com intervenções de duração superior a 12 semanas, não obtiveram modificações positivas sobre os componentes da composição corporal 20-22. Ades et al.23, por exemplo, constataram nenhuma alteração na quantidade de gordura corporal em mulheres idosas cardio- Instruções para os autores ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. 18,8 ± 3,6 Ciências aplicadas De acordo com os resultados obtidos, verificou-se que um programa de 24 semanas de TP pode auxiliar na manutenção da MLG, TMB, %G e ACT de mulheres idosas aparentemente saudáveis, tendo em vista que não houve diferença significativa nesses componentes, ao se comparar os valores nos diferentes momentos do estudo (pré e pós-treinamento). O grupo controle, por sua vez, apresentou aumento significativo da gordura corporal e uma importante redução na massa magra. Provavelmente, esses achados expliquem parte das diferentes respostas observadas por pesquisadores no comportamento dos componentes da composição corporal com o avançar da idade17,18. Nesse sentido, algumas pesquisas têm mostrado, não somente manutenção, mas também modificações positivas nos componentes da composição corporal, tais como o estudo de Trevisan e Burini18, o qual apontou que, após 16 semanas de um programa de TP, 15 mulheres (45-70 anos de idade) apresentaram aumentos de aproximadamente 10% na massa muscular, avaliada pela mesma técnica do presente estudo. Pré Pós Ciências básicas (MLG= –3%, P<0,05; TMB= –3%, P<0,05; e ACT= –2%, P<0,05). No GT, por sua vez, as alterações identificadas não foram estatisticamente significativas (P > 0,05). 107 Impacto de 24 semanas de treinamento com pesos sobre a composição corporal de idosas patas, mesmo após serem submetidas a seis meses de um programa de TP. Possíveis explicações para as divergências nos resultados encontrados poderiam estar atreladas ao fato de que, no estudo de Trevisan e Burini18, a amostra não era composta somente por mulheres idosas e, acima de tudo, as participantes idosas foram classificadas como sarcopênicas, o que poderia comprometer os resultados. Além disso, a maior parte dos estudos envolvendo programas de TP e populações idosas, como as pesquisas citadas anteriormente21-23, não monitorou os hábitos alimentares dos sujeitos investigados. No tocante à TMB, o presente estudo apontou que o GT apresentou manutenção nos valores da TMB após as 24 semanas de TP. Em contrapartida, o GC apresentou redução de 3% neste componente (P<0,05). Trevisan e Burini18 apresentaram comportamento semelhante em sua investigação, evidenciado por um aumento de 8,4% e redução de 4,9% na TMB nos GT e GC, respectivamente. Por outro lado, apesar da controvérsia acerca dos possíveis benefícios do TP sobre os componentes da composição corporal, este trabalho mostrou que as idosas submetidas ao GC, o qual realizou um programa de exercícios de alongamento, apresentaram reduções significativas na ordem de 3%, tanto para a TMB, quanto para a MLG, bem como um aumento de 5% na MG, o que traz à tona o fato de que, possivelmente, indivíduos idosos que não praticam algum tipo de exercício físico com potencial de modificação na composição corporal tendem a sofrer um impacto maior decorrente do processo natural de envelhecimento. Goodpaster et al.24, por exemplo, demonstraram que homens e mulheres idosos, participantes do GC, que não realizaram exercícios físicos durante todo o período de intervenção (12 meses), apresentaram aumentos significativos de 18% na quantidade de gordura corporal intramuscular e redução de 4% na massa muscular. 108 Nesse sentido, a literatura apresenta que, dentre as modificações morfológicas e estruturais observadas com o avançar da idade, o aumento do %G e a perda de massa muscular, conhecida como sarcopenia, podem ser considerados algumas das mais importantes modificações, sobretudo, pelo impacto desses processos na força muscular, na realização de atividades da vida diária e no surgimento de doenças crônico-degenerativas25. Outro aspecto importante é o fato de que, além das reduções na MLG e ACT acompanhadas pelo aumento na MG serem as modificações mais relevantes para a alteração na TMB26 e o fato de pessoas idosas serem geralmente menos ativas fisicamente, a necessidade de ingestão energética acaba por se tornar menor, embora a necessidade de micronutrientes não tenha sido reduzida. Dessa forma, a ingestão inadequada de algumas vitaminas e minerais, como cálcio, por exemplo, pode acarretar deficiências, contribuindo para um maior declínio da densidade mineral óssea e, consequentemente, o surgimento da osteoporose27. Em relação à ACT, alguns pesquisadores sugerem que programas de exercícios físicos sistematizados podem promover aumento significativo em seus valores, uma vez que proporcionam incrementos na MLG28. Em contrapartida, o declínio na massa livre de gordura, evidenciado com o envelhecimento, acarreta mudanças hídricas associadas ao desequilíbrio de fluídos corporais, que se fazem determinantes para o estado de hipohidratação, frequentemente observado nessa população29. Além disso, outros pesquisadores afirmam que o aumento da massa muscular parece estar estreitamente associado ao comportamento de alguns hormônios durante o esforço. Para Hakkinen et al.30, os principais hormônios envolvidos nesse processo são a testosterona e o hormônio do crescimento, sobretudo em indivíduos do sexo masculino, visto que, em seu estudo, os maiores valores foram encontrados em homens quando comparados a mulheres idosas. ConScientiae Saúde, 2012;11(1):103-110. Nascimento MA, Januário RSB, Greca JPA, Gerage AM, Oliveira AR, Pina FLC 3. E, Alen M, Volek JS et al. Serum basal hormone concentrations and muscle mass in aging women: effects of strength training and diet. 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Efeitos do treinamento resistido na força máxima, na flexibilidade e na autonomia funcional de mulheres idosas. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum. 2006;8(4):52-58. 9. Revisões de literatura Kalapotharakos VI, Michalopoulos M, Tokmakidis SP, Godolias G, Gourgoulis V. Effects of a heavy and a moderate resistance training on functional performance in older adults. J Strength Cond Res. 2005;19(3):652-7. 10. Kryger AI, Andersen JL. Resistance training in the oldest old: consequences for muscle strength, fiber Instruções para os autores Com base nestes achados, conclui-se que 24 semanas de um programa de TP parecem ser efetivas para a manutenção de variáveis da composição corporal de mulheres idosas aparentemente saudáveis, sugerindo que os efeitos deletérios do envelhecimento, especificamente no componente da aptidão física relacionada à saúde, podem ser minimizados pela prática desse tipo de treinamento. Entretanto, faz-se necessário o desenvolvimento de novas investigações, com delineamentos semelhantes, suprindo as limitações do presente estudo. Sallinen J, Pakarinen A, Fogelholm M, Sillanpää Editorial Além de desempenhar um papel fundamental no aumento da massa muscular, o TP pode auxiliar no balanço energético, tendo em vista que homens e mulheres geralmente aumentam seu gasto calórico diário em torno de 9% após 24 semanas de TP, o que, por sua vez, parece ser resultado da elevação da TMB (4%), do gasto de energia proveniente do exercício e do aumento do nível de atividade física habitual23. Ainda que o método escolhido para avaliação da composição corporal no presente estudo tenha, entre suas qualificações, boa reprodutibilidade e relativo conforto, a atenção sobre os procedimentos prévios ao teste deve ser compartilhada com a população estudada, uma vez que, para a avaliação da composição corporal, por meio da bioimpedância elétrica, o avaliado deve obedecer àqueles procedimentos, sem os quais, o resultado poderá ser comprometido. types, fiber size and MHC isoforms. Scand J Med Sci Referências 1. Sampaio LR, Figueiredo VC. Correlação entre o índice de massa corporal e os indicadores antropométricos de gordura corporal em adultos e idosos. Rev Nutr. 2005;18(1):53-61. 2. Krause MP, Buzzachera CF, Hallage T, Santos ECR, Sports. 2007;17(4):422-30. 11. Vos NJ, Singh NA, Ross DA, Stavrinos TM, Orr R, Singh MAF. Effect of power-training intensity on the contribution of force and velocity to peak power in older adults. J Aging Phys Act. 2008;16(4):393-407. 12. 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