REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 38 O ENFERMEIRO(A) DA PÓS- MODERNIDADE NELLI, Eunice Maria Zangari1 KURAMOTO, Jaqueline Bergara2 Resumo: Este artigo, de caráter reflexivo, tem como objetivo chamar a atenção para os desafios na educação e formação dos profissionais de Enfermagem do século XXI, com base e conceitos de Schön, Tacla e Contreras, propõe novas perspectivas para repensar e reinventar o ensino da Enfermagem. Tem como ponto de partida reflexões que advêm de seus componentes históricos e científicos estendendo-se a um perfil profissional inserido na pós-modernidade. Palavra Chave: Enfermagem – Educação – Tecnologia - Racionalidade. Abstract: This article has a reflective nature, aims to draw attention to the challenges in education and training of nursing in the XXI century, based on concepts and Schön, Tacla and Contreras, offers new perspectives to rethink and reinvent the teaching of nursing . Its starting point reflections that come from their historical and scientific components spanning a professional profile inserted in post-modernity. Keywords: Nursing – Education – Technology - Rationality INTRODUÇÃO As diferentes concepções de saúde-doença como o modelo assistencial das práticas de enfermagem são históricas e culturais e com isso ainda permanece influenciando fortemente a formação e o perfil profissional do enfermeiro inclusive até os dias atuais. Desse modo, esse artigo discute a perspectiva para o ensino de graduação de enfermagem traçando uma breve retrospectiva histórica do enfermeiro e os desafios para a educação e formação de um profissional pós-modernidade, visando uma sintonia com dimensões locais, regionais e nacionais, em consonância com os desafios globais e os avanços tecnológicos que tanto tem influenciado o fazer e o pensar dos profissionais da saúde, e por conseqüência a enfermagem. SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 39 O PAPEL DO ENFERMEIRO NA LINHA DO TEMPO Considerando que historicamente o exercício profissional da enfermagem sempre foi visto como o de uma profissão de “gente que cuida de gente”, em que o comportamento e o agir do enfermeiro ainda trazem resquícios de um modelo de submissão às ordens médicas, e da religião, acaba reforçando a idéia do cuidar enquanto caridade, onde as ações estão fundamentadas somente na compaixão, na benevolência e na misericórdia para com aqueles que sofrem. Wilkinson & Leuven (2010), menciona que várias foram às imagens, os estereótipos que a enfermagem passou no decorrer da história. Nesse sentido, acreditase que compreendendo o passado possamos ter um auxílio para entender o presente. Visto que, ouve um tempo em que os enfermeiros exerceram o papel de “Anjo de Misericórdia”, ou seja, eram criaturas angelicais, serenas, felizes, mostrado com uma aura ou outros símbolos religiosos. Essa imagem é tão penetrante que até mesmo lojas de uniformes e de equipamentos médicos, vendem canecas, camisetas e broches com a imagem da enfermeira angelical. Outro papel segundo Wilkinson & Leuven (2010), foi o da “Serva” do médico, que traz a enfermeira como uma mulher que auxilia o homem médico ao lado do leito de um paciente. Dentro desse estereótipo o médico é mostrado no papel dominante, com a enfermeira aguardando as suas ordens, ou apoiando o paciente enquanto o médico cuida dele. Com o passar do tempo essa imagem sofreu algumas alterações agregando as funções anteriores, outras como a de banhar, de alimentar e de segurar o paciente, além de manter o ambiente do paciente limpo e organizado. Existiu também, outra imagem da enfermeira como “Algoz” ou “Torturadora”, aquelas que tratavam seus pacientes com crueldade e desdém. Esse papel foi representado por algumas personagens no filme “O estranho no ninho (1975)” e no romance de Martin Chuzzlewit em 1844, por intermédio da personagem de Sarry Gamp, mostrou a visão de uma enfermeira corrupta, áspera e freqüentemente alcoolizada. Imagem essa que trouxe uma visão muito negativa a enfermagem. Não menos significativo de acordo com Wilkinson & Leuven (2010), foi o papel da enfermeira “Maliciosa”, ou seja, a figura daquela mulher sensual, provocante, que SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 40 surgiu no início do século XX nos espetáculos teatrais e, persiste na cultura popular de hoje. Esse modelo trouxe para a profissão de enfermagem a imagem de a profissão ser composta apenas e tão somente por mulheres atraentes, porém, sem capacidade de pensar, eram tidas popularmente como, “desmioladas”. Eram elas as potenciais namoradas para os inteligentes e talentosos cirurgiões. Freqüentemente eram retratadas usando saias curtas, meia arrastão, saltos e corpetes, essa imagem ocorre em romances baratos, histórias em quadrinhos e até em discos. Para ver quão penetrante é essa imagem, basta procurar na internet a palavra “enfermeira” e observarem as imagens que estão a ela atreladas. Teve ainda a “Imagem Militar” na história da enfermagem, que eram retratadas usando uniforme de guerra, prestando auxílio em campos de batalha. Com freqüência, elas ainda eram representadas como guerreiros lutando contra doenças. Um ponto importante dentro desse contexto, é a contratação até então que todas essas imagens/papeis descritos até então, são predominantemente de mulheres sendo todas de cor branca. Assim, mulheres negras e homem de qualquer raça raramente são mostrados como enfermeiros. Os homens ainda atualmente, constituem uma minoria do total da população mundial da profissão enfermagem, mesmo assim as antigas ordens (mando, comando) de enfermagem exclusivamente masculina. Atualmente as funções dos homens na enfermagem são tão variadas quanto as das mulheres, e as oportunidades para satisfação pessoal e profissional são igualmente grandes. Como demonstrado até agora pelas autoras Wilkinson & Leuven (2010), os profissionais da enfermagem são mostrados cuidando ativamente do paciente, fazendo curativos, dando banho, administrando medicamentos, mas o lado intelectual ou pensante quase nunca aparece. Assim, os estereótipos de “anjos de misericórdia” e “militar” reforçam a idéia de que a enfermagem é um dever e de que os enfermeiros estão cumprindo ordens. As imagens das enfermeiras maliciosas, algoz e severa sugerem uma mulher propensa a ação, mas que pode não avaliar suas ações com cautela. SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 41 A enfermagem exige um pensar cuidadoso e criterioso sobre a saúde e o bemestar do paciente. Isso para ter subsídios para traçar um plano de cuidados/tratamento, um sistema de apoio ao paciente, para tanto se faz necessário os enfermeiros recorrerem ao julgamento clinico, pensamento critico e a solução de conflitos enquanto sistematizam cuidados necessários aos seus pacientes. Em síntese, o enfermeiro atual deve manter alguns papéis positivos histórico, de suas funções que muito se vincula ao FAZER, sem se esquecer de agregar a esse fazer o PENSAR. Esse pensar estruturado em três raciocínios, a saber: o julgamento clinico, o pensamento critico e a capacidade para administrar problemas. Embora a trajetória histórica da enfermagem apresente uma forte interferência na prática profissional do enfermeiro (a), Tacla (2002, p. 15) menciona que já é tempo de se romper com a formação profissional modelada pelo discurso religioso e médico que acaba por construir uma imagem estereotipada do comportamento do enfermeiro dentre elas: “o silêncio, a cortesia, a obediência e o espírito de servir ao próximo sem esperar recompensa”. As constantes mudanças no cenário do trabalho em saúde, especialmente em enfermagem, revelam a necessidade da inserção do Enfermeiro(a) na evolução do mundo globalizado, passando a repensar e redefinir suas funções, desenvolvendo um saber e fazer crítico, conduzindo-o para uma formação que seja capaz de resolver desafios do seu cotidiano, de maneira que possa assegurar seu compromisso com a sociedade que nesse momento, aspira por maior qualidade na prestação da assistência à saúde. (SIMÕES & FÁVERO, 2000). Para mudar essa realidade, Tacla (2002) afirma ser necessário construir uma enfermagem ancorada na ciência do conhecimento, um ensino que deixe de lado esse modelo histórico de educação submissa, tecnicista e mecanicista, em favor de um novo modelo de aparelho formador que através do Projeto Político Pedagógico (PPP), tenha como meta um enfermeiro que além dessas características históricas mencionadas, agregue o paradigma do profissional crítico, reflexivo, e que seja capaz de fazer no exercício profissional uma análise e compreender as necessidades tanto individual como coletiva dos problemas que afligem o indivíduo saudável, a pessoa portadora de uma SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 42 doença e o processo saúde-doença da comunidade, dentro do contexto social que se encontra inserido. Principalmente, considerando que o conceito atual de saúde segundo a Organização Mundial da Saúde-OMS é o de completo bem estar físico, mental, social e espiritual e não a mera ausência de doença. O enfermeiro da atualidade será aquele capaz de se inserir como promotor de saúde, e, ao mesmo tempo, quando necessário combater os processos patológicos, juntamente com o auxílio de uma equipe multiprofissional, e ter habilidade e destreza manual para utilizar os mais sofisticados aparelhos e equipamentos advindos da moderna tecnologia aplicada ao ser humano, ou seja, a tecnologia para manter a vida. A INTERFERÊNCIA DA BIOTECNOLOGIA NA FORMAÇÃO ATUAL DO ENFERMEIRO O desenvolvimento científico e tecnológico provocou modificações nas tradicionais ações de cuidar que, até então, no decorrer dos anos, foram de competência exclusiva dos profissionais da Enfermagem. Assim, da biotecnologia antiga podem ser identificados os hábito familiares decorrentes da cultura popular, como o uso de chás, escalda-pés, dentre outros; da moderna, a utilização de vacinas, de antibióticos e técnicas na área do pré-natal; e da de ponta ou atual, a manipulação e o controle de material hospitalar de alta complexidade, como o balão intra-aórtico e a bomba de infusão, entre outros. (VIEIRA; ROSA, 2006, p. 216). É relevante pensar na realidade de um mundo globalizado, onde tantas descobertas tecnológicas e científicas passam a fazer parte do cotidiano dos profissionais de saúde, principalmente dos enfermeiros, que a todo o momento se deparam com equipamentos e máquinas de última geração, usadas tanto no diagnóstico cada vez mais preciso de uma doença, como no tratamento de enfermidades consideradas intratáveis e incuráveis. Todo esse contexto tecnológico acabou por provocar várias modificações no processo de profissionalização do enfermeiro, cuja SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 43 ação passou de uma simples prestação de cuidados, ligada à caridade e solidariedade, para se tornar uma profissão remunerada e embasada na ciência do conhecimento. Logo, esses avanços tecnológicos e científicos, que, na atualidade, impregnam a prestação do cuidado ao enfermo, têm incorporado novas funções ao profissional da enfermagem. No século XXI, com os avanços da tecnologia, o enfermeiro deixou de ser visto como simples prestador de cuidados e começou a ser tido como um profissional que integra uma equipe multidisciplinar. Para tanto, faz-se necessário incorporar novos conhecimentos na sua formação, uma vez que não basta que esse enfermeiro saiba tão somente cuidar ou simplesmente administrar medicações, nem tão pouco ser exímio conhecedor da fisiologia de uma doença; de fato, é necessário que, além de todos esses requisitos, o profissional de enfermagem seja também um intelectual consciente da necessidade de ter incorporado, em suas ações valores éticos fundamentados no respeito aos outros. A EDUCAÇÃO NA FORMAÇÃO CRÍTICA E REFLEXIVA DOS PROFISSIONAIS DA ENFERMAGEM O ensino da prática de Enfermagem atravessou vários momentos, no decorrer da história, porém nenhum deles provocou mudanças tão drásticas como a que está acontecendo atualmente, ou seja, a necessidade legal de se formar enfermeiros com perfil crítico e refletivo. Assim, transformar uma profissão, que historicamente sempre foi tida como submissa cordata e subordinada às ordens superiores, em uma profissão autônoma e liberal, será com certeza o grande desafio para os docentes deste século. Como salienta Tacla (2002, p. 18), “[...] a realidade nos mostra que avançar nessa direção não será de fácil execução. Passar de um modelo educacional tradicional para outro, críticoreflexivo, exige um longo processo de descobertas e conquistas, avanços e paralisações”. Nesse sentido, Sudan (2005, p. 124), acrescenta que na Enfermagem as atividades educativas não podem apresentar um condicionamento limitante, mas que SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 44 deva sim, “[...] desenvolver conhecimento contextualizado, no qual esteja presente a reflexão crítica sobre as situações, o trabalho em equipe, constituindo-se realmente como processo educativo, construtor de caráter, de valores, de reflexão crítica, essenciais ao exercício da cidadania e de uma prática de saúde com qualidade”. Como a função dos enfermeiros sempre esteve ligada à execução de técnicas e procedimentos, isso traz algumas consequências: Muitas atividades na Enfermagem têm enfoque predominantemente mecanicista: a execução de técnicas, o cumprimento de normas e rotinas. Esta visão limitada de seu papel profissional faz com que o enfermeiro tenha uma percepção simplista de suas atribuições, transforma-o em mero executor de tarefas, dificultando a construção de um profissional crítico e refletivo. (TACLA, 2002, p. 43). Para se atingir a formação de um enfermeiro crítico e reflexivo, num primeiro momento deve ocorrer algumas adequações quanto ao desenho curricular, isto é, no entender de Tacla (2002), é imperioso que a formação profissional do enfermeiro não mais aconteça de forma fragmentada, devido à forte ligação com o modelo pedagógico da racionalidade técnica, pois o futuro enfermeiro precisa ser estimulado a refletir, analisar e não apenas a cumprir ordens e agir segundo normas e rotinas; que ele tenha um amplo conhecimento de base para mobilizar recursos, coordenar ações e avaliar resultados, na busca de um novo ensinar. Outro ponto a se considerar para a formação do enfermeiro crítico e reflexivo está centrado na função do docente como mediador entre o conhecimento teórico e o prático. Por essa razão, Contreras (2002) critica o modelo da racionalidade técnica como concepção da atuação profissional, porque revela a incapacidade para se resolver e tratar questões cotidianas imprevisíveis, ou seja, tudo aquilo que não possa ser resolvido e tratado de maneira lógica, como num raciocínio matemático. Dessa forma, um enfermeiro com formação puramente tecnicista muito provavelmente não estará preparado para enfrentar e desenvolver sua prática com segurança e responsabilidade. Por formação tecnicista entende-se aquela recebida segundo modelo da racionalidade técnica, no qual SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 45 [...] os profissionais são aqueles que solucionam problemas instrumentais, selecionando os meios técnicos mais apropriados para propósitos específicos. Profissionais rigorosos solucionam problemas instrumentais claros, através da aplicação da teoria e da técnica derivadas de conhecimento sistemático, de preferência científico. A medicina, o direito e a administração – as profissões principais de Nathan Glazer (Glazer, 1974), figuram nessa visão, como exemplares de prática profissional. (SCHÖN, 2000, p. 15). Nesse sentido, provavelmente, a formação profissional do enfermeiro sempre esteve centrada no modelo da racionalidade técnica, quer dizer, no cumprimento de normas e rotinas. No entender de Contreras (2002), o modelo da racionalidade técnica é incapaz de lidar com situações imprevisíveis, já que é razão pura. Portanto, para determinadas situações não existem regras ou, se elas existem, não contemplam a solução do problema, o que normalmente ocorre quando nos deparamos com situações as quais envolvem conflitos de valores. Para que tal fato não se perpetue, é fundamental propor que os profissionais da Enfermagem passem a ter uma formação não apenas fundada na racionalidade técnica, mas num modelo que Contreras (2002) chamou de Prática Reflexiva. Por isso é necessário resgatar a base reflexiva da atuação profissional, com objetivo de entender a forma em que realmente se abordam as situações problemáticas da prática. Deste modo será possível recuperar como elemento legítimo e necessário da prática de ensino aquelas competências que, a partir da racionalidade técnica, ficavam ou subordinadas ao conhecimento científico e técnico, ou excluídas de sua análise e consideração. (CONTRERAS, 2002, p. 105-106). Assim, questionamos se, para se conseguir formar um enfermeiro com perfil crítico e reflexivo, não seria indicado seguir o modelo estudado por Schön. Trata-se de um modelo em que, de acordo com Contreras (2002, p.114), coloca-se “[...] a prática reflexiva como oposição à idéia do profissional como especialista técnico”, ou seja, a tese defendida por Schön pressupõe que, para ser um profissional reflexivo, é necessário que, desde a formação acadêmica, a ele seja ensinado fazer uma interação dos conteúdos teóricos com os práticos de maneira que consiga distinguir, em suas atividades diárias, desenvolvidas muitas vezes através do conhecimento-na-ação, para uma prática caracterizada por uma reflexão-na-ação. SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 46 Explica ainda Contreras (2002, p. 107) que conhecer-na-ação, implica ações que realizamos, porém “[...] muitas vezes nem sequer somos consciente de tê-las aprendido, simplesmente nos descobrimos fazendo-as. Nesse tipo de situação, o conhecimento não precede a ação, mas sim, está na ação”. Nesse sentido, fica claro que muito das ações da Enfermagem apenas passaram pelo “conhecimento-na-ação”, mantendo uma abordagem tecnicista. Por conseguinte, refletimos se, para atingir o perfil do enfermeiro crítico reflexivo, não seria indicado partir das considerações de Schön (2000), que propõe uma nova epistemologia da prática, o qual define como sendo a reflexão-na-ação, isto é, para se atingir, no futuro, um profissional da Enfermagem com um raciocínio crítico e reflexivo, seria preciso surgir uma nova maneira de trabalhar o pensamento dos alunos, estimulando-os “a pensar o que fazem, enquanto o fazem, e que os profissionais desenvolvam em situações de incerteza, singularidade e conflito” (SCHÖN, 2000, p.vii, grifos nossos). Desse modo, o desafio de pensar a formação do enfermeiro dentro da determinação legal atual nos remete, em primeiro lugar, à estrutura do Projeto PolíticoPedagógico (PPP) e do currículo, posteriormente a uma reflexão sobre a ação do educador em Enfermagem. Entende Tacla (2002, p.52) que a função do docente vai além do direcionamento do saber, da disposição para ouvir e da tolerância com a diversidade. Para a autora, cabe ao docente “desmistificar a prática da Enfermagem pelo contínuo contato com a atuação do enfermeiro”, de maneira que ele consiga despertar no aluno atitudes, habilidades e conhecimento, que conduzam o futuro profissional a ser além de um técnico propriamente, um profissional com o perfil que prevê a Resolução CNE/CES nº. 1133, de 07 de agosto de 2001 – um enfermeiro “generalista, humanista, crítico e reflexivo” (grifo nosso). SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 47 CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabemos que o século XX foi palco de mudanças profundas, na área social, política e científica. Várias descobertas científicas vêm alterando significativamente o agir tradicional dos profissionais da saúde e os valores quanto à saúde das pessoas. Vários foram os papéis que a enfermagem assumiu no decorrer da história da humanidade, sempre procurando se ajustar a realidade cultural e histórica segundo o contexto social estava vivendo. Por exemplo, nos momentos de guerra, os pacientes necessitavam terem ao seu lado, profissionais de enfermagem com o perfil da enfermeira militar, que não mediam esforços para combater as doenças e socorrer os feridos de guerra. Com isso, foi se desenvolvendo ao longo dos tempos, sempre procurando construir seu perfil profissional segundo as necessidades de seus pacientes. Fato esse que permanece até os dias atuais, pois, imensa é a influência da tecnologia na saúde humana. A cada minuto novas pesquisas e novos equipamentos estão sendo ofertados à população em geral com a finalidade de auxiliar no restabelecimento da saúde e bem-estar do ser humano. Com isso surge a necessidade da enfermagem acompanhar esse novo papel que a sociedade contemporânea esta desenhando. Para tanto, as Faculdades e Universidades estão se mobilizando através dos Projetos Políticos Pedagógicos do Curso para formarem enfermeiros que agreguem além do perfil histórico um novo papel, ou seja, o de um profissional acima de tudo, humano, capaz de tomar decisões quando em situações de conflito, criativo, comprometido com a saúde do paciente e da comunidade, envolvido no compromisso social, e principalmente, ser capaz de refletir sobre suas atitudes, habilidades de competências profissionais. No momento atual, a formação profissional do enfermeiro encontra-se centrada no modelo da racionalidade técnica, quer dizer, no cumprimento de normas e rotinas. Modelo esse denominado por Contreras (2002), de racionalidade técnica, o qual torna o profissional incapaz de lidar com situações imprevisíveis, já que é razão pura. Portanto, para determinadas situações não existem regras ou, se elas existem, não contemplam a solução do problema, o que normalmente ocorre quando nos deparamos com situações as quais envolvem conflitos de valores. SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950 REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 48 Para que tal fato não se perpetue, é fundamental propor que os profissionais da Enfermagem passem a ter uma formação não apenas fundada na racionalidade técnica, mas num modelo que Contreras (2002) chamou de Prática Reflexiva, o paradigma da pós-modernidade. Em um país como o Brasil, em que o serviço público de saúde funciona de forma precária, a visão empresarial tem marcado fortemente a prática da saúde, de sorte que é imperioso colocar em questão a formação dos profissionais da enfermagem, sobretudo numa época em que a saúde se tornou, para muitos, um negócio lucrativo. Esse é um ponto importante, que só vem a reforçar a necessidade de se pensar, no âmbito dos processos formativos a formação do enfermeiro, que esse não seja um técnico agindo de forma mecânica, sendo simplesmente um mero assistente da doença. Assim, demonstra-se que, além da formação técnica do enfermeiro, existe a necessidade da formação de profissionais reflexivos, aptos a lidarem com situações práticas, ou seja, um profissional formado nos moldes da Prática reflexiva, segundo preconiza Contreras (2000). O enfermeiro(a) da pós-modernidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CES n. 3/2001. Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação de Enfermagem. Brasília: Diário Oficial da União, 9 nov. 2001, Seção 1, p.37. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne. Acesso em: 28 nov. 2007. CONTRERAS, J. A autonomia de professores. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002. COREN/SP – Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo. 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São Paulo: Roca, 2010. 1 Enfermeira, Especialista em Obstetrícia e Bioética, Mestre em Educação pela FCT- UNESP de Presidente Prudente, Docente da Faculdade de Enfermagem de Presidente Prudente – UNIESP. 2 Enfermeira, Advogada, Especialista em Bioética, Mestre em Educação pela FCT-UNESP de Presidente Prudente, Coordenadora da Faculdade de Enfermagem de Presidente Prudente – UNIESP Texto Recebido em 23 de novembro de 2010. Aprovado em 10 de dezembro de 2010. SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950