Estruturando o pensamento: por onde começar e como terminar Espero ter deixado claro que um texto coeso não é a garantia de coerência, unidade e clareza. Isso acontece porque outros elementos estão envolvidos na atividade de interação entre o texto e leitor. Mas certamente é possível determinar alguns princípios que servem de orientação para quem deseja escrever. Digo orientação porque, por mais cuidado e zelo que tenhamos na elaboração do nosso texto, não há como garantir que ele seja compreendido pelos leitores. Os princípios orientadores dizem respeito à maneira como as pessoas organizam o pensamento para se posicionar no mundo que é refletida na disposição dos elementos textuais. Não estou falando aqui de filosofia ou de verdades religiosas que norteiam a vida particular de cada um, mas de um método racional de compreender as coisas. Estou assumindo para o conceito de método um conjunto de meios ou processos empregados pelo espírito humano para “investigar, descobrir e comprovar a verdade”1. Já me reportei sobre o fato de que mais que saber sobre determinado conteúdo, o mais importante é aprender a pensar. Pensar no sentido ativo, reflexivo sobre determinado assunto. Claro que para podermos defender um ponto de vista, uma opinião sobre determinado tema, dar o conceito de um componente científico precisamos ter conhecimento de causa. Todavia, conhecer o assunto não é condição suficiente para se escrever sobre ele. Muitas pessoas lêem muito, conhecem bem determinado tema, mas na hora de escrever sentem dificuldades ou acabam criando textos que não passam de um amontoado de informações contidas em outros textos. Quando organizo o pensamento (quanto me proponho a pensar de forma organizada), o inverso é perfeitamente realizável: mesmo sem conhecer sobre um assunto ou determinado tema, posso escrever sobre ele. Veja como Jô Soares brinca com um tema sério - o massacre dos sem-terra - no texto “Papo Brabo” publicado pela revista Veja. A verdade é que não se escreve mais como antigamente, pois naquele tempo não havia computadores e, por incrível que pareça, nem mesmo canetas esferográficas. Porém, se fôssemos registrar em papel todos os absurdos do ser humano, não sobraria sequer uma resma para os cartões de Natal. Isso posto, não de gasolina nem de saúde, já que uma é cara e a outra é carente, vamos ao que interessa. Quando digo vamos ao que interessa, vem-me logo à mente a pergunta: interessa a quem? A mim, pensará o leitor desavisado. O leitor avisado perceberá facilmente que estou me referindo em geral a assuntos interessantes e, se não forem, também não interessa. Resolvida essa questão da maior importância para aqueles que assim pensam, passo a seguir ao tema central da discussão, por sinal uma discussão que se perpetua enquanto dura. A pergunta é a seguinte: como abordar um tema central quando se está fora do centro e, por isso mesmo, longe do efeito da força centrífuga? Como ficam nisso tudo o centro do poder, o centro espírita, o centro da cidade e o centro sempre discutido das pessoas autocentradas? Convenhamos, o que é centro para uns é esquerda para outros e direita no sentido de quem vem. Infelizmente, quando se entra em assunto tão polêmico, ninguém se atreve a responder. Mesmo porque, ainda nem foi perguntado. Se for e quando for, tenho certeza de que sempre haverá alguém para discordar e eu perdôo, pois essas contradições são inerentes à alma humana. 1 Othom M. Garcia. p. 296 Disse alma humana? Que dizer, então, das outras almas? Da desumana, da penada, da alma do negócio e, principalmente, da alma minha gentil que te partiste / tão cedo desta vida descontente / repousa lá no céu eternamente? Não quero parecer ilógico, mas seria de péssimo gosto trazer mais uma vez à baila essa intrigante questão. Aliás, pensando bem, ou mesmo pensando mal, por que trazer à baila e não levar ao baile? Ou mesmo trazer o baile à baila? Nunca tiveram a coragem de revelar essa incongruência histórica: no baile da Ilha Fiscal ninguém pagava imposto de renda. Digam o que disserem: a dura realidade é que nenhum intelectual que se preze pode desprezar-se. Tenho a mais absoluta convicção de ter sido claro e objetivo na colocação dessas idéias. Para finalizar, termino. Moral - Pode ser que esse texto seja incoerente, mas faz muito mais sentido do que o massacre dos sem-terra. Antes que eu me esqueça: a reforma agrária já começou. Criaram um Ministério. Mas como organizar a mente para pensar de uma maneira produtivamente textual? Bom, teoricamente parece simples, mas na prática, não. Também não é algo somente alguns podem aprender. Exige apenas um pouco de treino. Aprende-se, como aprende-se andar numa esteira; praticando. O primeiro passo é tomar conhecimento do aspecto formal. No universo da escrita ocidental, há muitos gêneros de texto. Uns mais conhecidos, outros menos. Alguns nem foram ainda batizadas com um nome. Outros poderão até serem criados por você. Contudo, o modelo ocidental de textos conceituais, aqueles que são responsáveis pela transmissão do conhecimento acumulado, apresenta três elementos: introdução, desenvolvimento e conclusão. Mesmo quando teoricamente recebem outros nomes como 1ª parte, 2ª parte e 3ª parte; prólogo, corpo e epílogo; começo, meio e fim; ou, ainda, introdução, miolo e final, temos três partes. É com base nesse esqueleto textual que a escrita ocidental se desenvolve. Mesmo quando tratamos de textos longos, como uma tese de doutorado, a divisão permanece a mesma. O que acontece nos textos maiores é que são incluídos alguns elementos estéticos restritos a padronização do gênero. Mas quanto ao assunto em si, vamos ter três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão. Quando o autor divide uma monografia em capítulos, opera com a mesma estrutura. O detalhe a ser considerado é que dentro de uma grande estrutura outras estruturas menores são formadas. Assim, um capítulo que faz parte do desenvolvimento na estrutura maior, também apresentará três elementos: início, meio e fim. Obviamente, isso não vira intitulado, mas o escritor precisa ter isso claro para não iniciar o assunto pelos argumentos ou dar por finalizado uma parte do texto deixando o assunto em aberto. 1. A introdução de uma dissertação, de um capítulo, de um subtítulo, enfim, de um texto qualquer, para ser adequada, precisa cumprir duas funções: apresentar ao leitor o assunto (situando-o no tempo e no espaço) e provocar nele o interesse pela continuação da leitura. Se a introdução é de um texto pequeno poderá ser redigida em apenas um parágrafo ou até num único período. Se for de uma monografia ou qualquer espécie de textos maiores, a primeira parte poderá ter um ou mais capítulos com vários subtítulos. Lembrando sempre que para cada capítulo ou subtítulo o processo se repete: início, meio e fim. 2. O desenvolvimento é sempre a maior parte do texto. Nele o autor constrói os enunciados articuladoos entre o que foi apresentado na primeira parte e o que será escrito na última. Ou seja, o desenvolvimento será uma espécie de ponte entre a(s) idéia(s) inicias e as finais. Tem como objetivo conduzir e orientar o interlocutor uma determinada conclusão ou demonstrar e esclarecer, pois quais motivos ele autor chegou àquela conclusão. É nessa parte que a idéia principal ou central do texto vai ser justificada, esclarecida, interpretada ou comprovada através do desdobramento em idéias secundárias e pormenores. O desenvolvimento é responsável por fundamentar o ponto de vista que o autor está defendendo como verdade. É nesta parte do texto que se dá a fundamentação argumentativa da idéia principal. Precisamente em trabalhos científicos, o desenvolvimento segue o padrão de comprovar o que foi proposto na introdução através da articulação racional das idéias, da apresentação de dados, ou da enumeração de fatos. Para isso, três recursos básicos são empregados: a) A explicação que tem por finalidade esclarecer o que está ambíguo ou obscuro, descrever ou classificar fatos, ordenar ou apontar diferenças entre as partes. b) A discussão que procura comparar idéias, fatos, dados, opiniões, aceitando e refutando, confirmando ou negando aspectos relevantes em direção ao que deseja alcançar, ou seja, em função do objetivo daquele texto. Na discussão o autor faz sua interpretação dos dados, das idéias ou dos fatos na tentativa de eliminar todos os pontos frágeis passíveis de uma contra-argumentação. c) A demonstração que é empregada com o propósito de provar que a solução ou a opinião que o autor tem é verdadeira. Para realizar a demonstração o autor pode recorrer a exemplos recolhidos através de pesquisas próprias ou citar as de outras pessoas, fazer alusões históricas, comparações, citações de fontes que são tidas como verdade (a Bíblia, por exemplo) além de “jogar” com verdades e opiniões públicas. 3. A conclusão tem a função de finalizar o texto. Pode trazer uma conclusão do assunto ou não. O objetivo dessa terceira parte é fechar o assunto apresentado na introdução. Pode se realizar a través de um resumo do que foi exposto ou através da retomada seletiva do que foi desenvolvido. Mas não é somente isso: a parte final pode ser desenvolvida para envolver o leitor na conclusão das idéias. Em vez de concluir, o autor deixa em aberto permitindo o leitor supostamente dar uma opinião. A última parte do texto pode deixar o assunto sem uma conclusão oficial apresentando uma espécie de questionamento com o objetivo de provocar uma reflexão no leitor. O detalhe imprescindível à última parte é não apresentar idéias contrárias ao que foi desenvolvido e nem trazer um fato novo. A última parte do texto tem a função de fechar ao assunto discutido no desenvolvimento. Fechar não significa necessariamente concluir ou por fim no assunto, mas ao texto. Como os outros dois elementos textuais: introdução e desenvolvimento – a conclusão precisa ser pensada sempre como uma parte de um todo. Um texto para ser considerado bom, precisa trazer essas três partes numa relação harmônica entre si. Mas quantas linhas devem ter o início? Quantos parágrafos precisam ter o desenvolvimento? E a conclusão? A resposta pode ser simples: quantas o autor achar necessário. Mas isso pode variar em conformidade com suporte do texto ou de acordo com as regras de quem pede o texto. Para cada gênero textual (monografia, ensaio, artigo científico, resenha, relatório) as três partes, os três elementos estruturais do texto seguem uma padronização fixada por normas coletivas, normalmente desenvolvidas em livros de metodologia científica, veículos de publicação ou instituições de ensino. Quem vai desenvolver um texto precisa estar ciente sobre qual gênero deverá discorrer e quais são as regras que o rege naquele ambiente. O ideal em se tratando de trabalhos acadêmicos é buscar junto ao professor as orientações metodológicas que precisará seguir. Se for para uma publicação, antes de começar a escrever tome conhecimento das exigências estéticas e metodológicas daquele órgão. Se já fez o texto, vai precisar adequá-lo as exigências. Essas informações são de fundamental importância para determinar o tamanho do texto e a forma estética que ele precisará apresentar. Você precisa observar dois pontos: o primeiro é quanto à parte formal do texto; o segundo, o tamanho mínimo e máximo que o texto deve ter. Quando falo de aspecto formal estou me referindo aos elementos constitutivos de cada uma das partes da estrutura textual: introdução, desenvolvimento e conclusão. Por exemplo, estruturalmente a introdução de um texto dissertativo-argumentativo segundo Medeiros e Andrade (2001)2 deve conter: (a) objeto da pesquisa; (b) delimitação do assunto (c) objetivos gerais e específicos; (d) justificativas do trabalho realizado; (e) revisão da literatura; (f) anúncio das partes e divisões da obra; (g), metodologia empregada”. Esses elementos apresentados pelo autor fazem parte do aspecto formal do texto. Para cada gênero de texto, temos uma padronização formal básica definida através das normas técnicas. Todos os textos dissertativo-argumentativos deverão seguir o modelo apresentado por Medeiros e Andrade (2001) ? É claro que não. Se você pegar um outro autor certamente encontrará divergências quando a esses elementos. Todos evidentemente são apenas modelos teóricos a serem seguidos como forma de padronização. As instituições de ensino superior têm por hábito adotar um ou mais autores como modelos para os trabalhos científicos dos seus docentes e discentes. Outras acabam por elaborar um manual próprio. O importante é ter conhecimento prévio do modelo a seguir antes de começar a escrever. Daí você terá condições de iniciar o seu trabalho. Talvez você esteja dizendo, mas e daí? Daí que não basta saber as partes, os elementos, a forma estética se a você não dominar a técnica para expor assunto. Aí é que entra a necessidade da estruturação das idéias no texto num sentido mais amplo do que as simples partes. É na estrutura das idéias no texto que se manifesta a forma de pensar do autor. Ou melhor: é a estrutura das idéias que é responsável pela organização do pensamento do autor de maneira que o leitor possa interagir com ele. Investigando, pensando, refletindo... Segundo os especialistas, a mente humana opera com dois processos que se complementam e interagem entre si para investigar com objetividade o que está a sua volta: o método indutivo e o método dedutivo. 2 Comunicação em Língua Portuguesa: Para cursos de jornalismo, propaganda e letras. pp. 170-171 O método indutivo vai do particular para o geral. Dos fenômenos particulares para os gerais. Por este método, partimos da observação e análise dos fatos para chegarmos a uma conclusão. A verdade é perseguida pela mente a partir dos dados particulares conhecidos para os dados desconhecidos. Diante do efeito, buscamos a causa. Esse método exige que a pessoa observe os fatos, colha dados, classifique-os, descarte o que não presta, busque saber o que há, discuta, compare e por fim tire uma conclusão. Quando o médico interpela o paciente para dar o diagnóstico ou quando um aluno dedica tempo trabalhando operações para encontrar o resultado de um problema matemático está em operação o método indutivo. Quando diante de uma informação buscamos outras fontes, ouvir outras opiniões, vir o outro lado da moeda para depois tirar uma conclusão estamos operando com o método indutivo. O método dedutivo percorre o caminho inverso do indutivo: parte-se do geral para o particular, do desconhecido para o conhecido. Da causa, para o efeito. Na busca da verdade no nosso dia a dia, deveríamos operar com os dois métodos – indutivo e dedutivo – que interagem entre si. Na prática, as coisas não funcionam bem assim. Por preguiça, malícia ou decisão a maioria das nossas opiniões é resultado da ausência do raciocínio. Ou seja, respondemos ou agimos por impulso ou por sentimentos resultantes de preconceitos, dogmas, tabus, e não por ter chegado a uma conclusão através da razão. Ou seja, operamos com o senso comum, de repostas prontas. O senso comum (inclusive o senso comum douto) é parte constitutiva de nossa linguagem e responsável por regular nossa visão de mundo e nossas ações. Na verdade, é no senso comum que nos sentimos pessoa. Um exemplo bem prático foi apresentado na novela Belíssima exibida pela Rede Globo em 2006 numa cena em que a personagem Mônica se preparava para ir a igreja casar-se com Shemil. Minutos antes de sair de casa, já pronta para o casamento, ela recebe um envelope anônimo com fotos de Shemil, seu noivo, em situações comprometedoras: abraçando uma outra mulher, saindo de carro com ela, saindo de um motel etc. Diante das fotos, Mônica conclui que Shemil a traiu e desiste de se casar. Temos aí uma reação puramente emocional motivada pelo medo de ser traída. A personagem toma as fotos como verdadeira sem saber que as tirou e quem as enviou ou se eram reais ou fruto de uma montagem. É claro que era produto de fixação, mas no dia a dia, temos sempre a tendência de agir no mundo a partir dos sentimentos, sem passar por um processo mínimo de raciocínio. Não quer dizer agora que você vai ser só razão. Não se trata disso. O que estou mostrando é que se não há processo mental, se não há raciocínio, não há produção de idéias e sem idéias organizadas não dá para escrever. Mesmo que seja um poema, uma música, os sentimentos podem ser motivadores, mas o texto é sempre fruto de uma reflexão com a linguagem. Quando agimos por sentimento (isto é, a partir do senso comum) aquilo que temos por verdade não é fruto de uma busca da mente através de um dos métodos: indutivo ou dedutivo. É como se disséssemos: Isso é isso porque é, e pronto! Ou seja, não há como você provar a sua verdade para o outro. Isso vale para você! Mas não dá para provar a sua verdade para o seu leitor. Aí é que está o problema: você não escreve para si mesmo, mas para os outros. Mulher no volante, perigo constante” “Todo político é corrupto”, “Todo pastor é ladrão”. Essas “verdades” fazem parte do chamado senso comum que apesar de serem desprovidas de qualquer comprovação científica vivem sendo repetidas como sendo verdades universais. Calma! Não iremos nos aprofundar nessas questões de lógica argumentativa, pelo menos não nesse momento. Estou apenas mostrando a você mais uma vez, que para que escrever existe a necessidade de organizar o pensamento de maneira que você seja capaz superar a reação natural das respostas espontâneas, fruto dos sentimentos, dos preconceitos, dos dogmas, das verdades filosóficas etc. e vá adquirindo o hábito de pensar sistematicamente, através de um método. E depois, possa até usar a seu favor a falta de raciocínio da coletividade. Escrever implica atuar no mundo. Uma atitude perigosa sim, mas não dá para produzir textos tendo por base a reação impulsiva diante da realidade. Não é o senso comum em si que é o problema da escrita! A maioria das nossas ideias não é realmente nossa, a maioria das verdades em que acreditamos é nos ensinada no dia a dia. Em poucas coisas somos realmente originais. Estamos a todo o momento repetindo, como pouco ou nenhuma criação. O problema não está na “verdade” desprovida comprovação científica, mas nos argumentos que dão sustentabilidade a ela. Se você investigar a história ocidental encontrará muitas “verdades” que hoje são mentiras, mas que devido aos argumentos empregados em suas respectivas épocas grupos dominantes passaram a acreditar e a defender a aquela ideia. Por exemplo, o chamado “argumento de autoridade” serviu para sustentar muitas verdades que posteriormente foram consideradas mentiras. Na segunda guerra mundial, por exemplo, não foi somente Hitle que perseguiu os Judeus. Ele certamente deu a maior contribuição por ser o detentor do poder militar e bélico, mas diversas nações com base num argumento de autoridade passaram a considerar os Judeus como um grande ameaça a humanidade. Assim disse Adolfo Hitler ao ser perguntado sobre a sua atitude antissemita: “quanto aos Judeus, só estou dando continuidade a mesma política que a Igreja católica tem adotado por mil e quinhentos anos, que vê os judeus como um perigo e os tem acurralado em guetos, porque sabiam como eram os Judeus. Não coloco raça sobre religião, mas sim vejo o perigo desta raça – os judeus – para a igreja e o Estado, e quem sabe estou prestando um grande serviço ao cristianismo. Quanto mais versado no assunto for o interlocutor, melhores argumentos você precisará ter. Para persuadir, para convencer você precisa de argumentos que sejam frutos de uma atividade mental. Os seus argumentos precisam ser consistentes para que sejam reconhecidos pelo seu interlocutor como válidos, pelo menos em parte, já que não há verdades absolutas. Por que falar de métodos de investigação da verdade? Filosofia? Ser ou não ser eis a questão? Nada disso! (e talvez seja tudo isso junto)... O motivo de destacarmos a utilização de métodos de raciocínio tem aqui um fim prático: aplicá-los na estruturação das idéias no texto. Considerando os dois métodos de raciocínio podemos então chegar estruturas modelos que poderão ser utilizadas por qualquer pessoa que deseja escrever. Digo qualquer pessoa que esteja sob a influência da civilização greco-latina. Os textos greco-latinos seguem uma forma de redação cujo objetivo é levar o leitor a compreender o tema ou o assunto que está discutindo através de três recursos básicos: a exposição, a interpretação e a discussão de idéias. Partindo dos métodos de raciocínio – indutivo e dedutivo – apresentados podemos chegar a alguns modelos de estruturação de idéias que são empregadas nos textos classificados pela comunidade acadêmica como bons. 1) Estruturação linear simples O texto que emprega a estrutura linear simples opera com o método indutivo: das partes para o todo. Do simples para o composto. Do específico para o geral. Observe, porém, que o TODO não é a soma das partes. Um carro só será carro se cada elemento estiver no seu devido lugar. Assim é com o texto: cada parte precisa estar no seu devido lugar para que o leitor no final perceba o todo. A estrutura linear é a mais empregada na cultura ocidental. A maioria dos livros didáticos, dos textos científicos, está organizada obedecendo à estrutura linear. Nela, a idéia mais importante está na conclusão. Por esse modelo o autor constrói o texto de colocando os dados, as idéias, os argumentos de maneira que o leitor seja conduzido à questão principal que aparecerá na conclusão; Esse é o chamado texto passo-apasso, onde o objetivo é dar ao leitor condições de acompanhar o raciocínio do autor e chegar a uma conclusão. Pela estruturação linear o assunto, o tema, as idéias são apresentadas em partes obedecendo a uma determinada ordem. Os argumentos são colocados um ao lado do outro numa seqüência que permita o interlocutor entender que só terá compreendido todo o texto se lê-lo até o fim. A ordem pode ser cronológica, do mais simples para o mais complexo, dos menores para os maiores etc. Por essa estruturação, a conclusão do tema, do assunto, da idéia coincide com a última parte do texto. Universidade Virtual Muitos autores já compararam a Internet à revolução da imprensa, no século 15, possibilitada pelos tipos móveis de Johannes Gutenberg. É sempre difícil, estando no meio de um processo, avaliar com propriedade o seu impacto futuro, mas a analogia parece proceder. Embora a máquina desenvolvida pelo inventor alemão não tenha alterado a escrita propriedade dita, permitiu-se uma difusão antes nem mesmo imaginada. Julgando a posteriori, é fácil afirmar que os tipos mudaram o curso da história. Da mesma forma que a imprensa dispensava o trabalho copista, a internet, aliada a outros avanços tecnológicos, elimina barreiras físicas e geográficas à divulgação do conhecimento. Uma das repercussões evidentes é sobre a educação. Assim, é correta a aposta do governo federal na educação à distância. O efeito multiplicador da rede não pode ser desprezado. È, portanto boa notícia a criação da universidade virtual, visando atingir 600 mil professores do ensino básico sem formação acadêmica. Parece exagerada a meta de matricular 100 mil nos próximos anos, mas o princípio é mais importante do que os números. Vale ressaltar que as novas tecnologias de comunicação não substituem as formas mais tradicionais de ensino. Da mesma forma que o livro pós-gutenberguiano não aposentou o mestre, a possibilidade de transferir aulas e informações a distância não torna de modo algum a presença local do professor dispensável. A iniciativa da universidade virtual é boa, mas, da mesma forma que um mau livro pode ter conseqüências desastrosas, erros na implantação desse projeto podem multiplicar problemas. Um dos riscos é acabar transformando a educação à distância, uma ferramenta de ensino, em um fim em si mesmo. O resultado seria a construção de uma universidade, virtual sim, mas em outro sentido: que eleva os índices da titulação do brasileiro, mantendo mais ou menos inalterada a sua formação.3 O assunto deste texto é apresentado forma linear, pois parte dos elementos para o todo. Opera com um método indutivo. Obedecendo as três partes constituintes, o autor utilizou três parágrafos para fazer a introdução onde apresentou a sua tese sobre o assunto. O desenvolvimento foi feito em dois parágrafos; o autor reúne argumentos com o objetivo de comprovar o que apresentou na introdução e no último parágrafo, apresenta a conclusão do assunto. 2) Estruturação cíclica Contrária à forma linear que traz a conclusão no final, a estrutura cíclica apresenta a conclusão do tema abordado na introdução do texto. Essa estruturação de idéias opera com o pensamento dedutível: do resultado para os elementos. No início, na parte denominada introdução, o autor apresenta a conclusão do assunto, do tema, do raciocínio. No desenvolvimento, ele argumenta com objetivo de dar ao leitor os elementos responsáveis por aquela conclusão. E na última parte, o autor retoma e sintetiza as idéias expressas na introdução. Daí o nome: cíclica. Objetivo do autor ao utilizar essa estruturação é manter o leitor com um alto índice de interesse desde o início ou de causar um impacto já que a conclusão é algo inesperado. Frutas e verduras em pleno deserto No mundo de hoje, é até possível cultivar frutas e verduras em pleno deserto. É o caso da ilha de Sadyat, no golfo da Arábia. Ali o cultivo de uma grande variedade de vegetais está sendo conseguido dentro de enormes estufas de plástico. Ventiladores e sistemas de condicionamento de ar mantêm a temperatura e a umidade adequadas, a água é retirada do mar através de usinas de dessalinização, e fertilizantes são usados para compensar o solo pobre. Os vegetais cultivados dessa maneira são demasiadamente caros para os padrões mundiais, mas constituem uma economia para países que importam quase todo o alimento que consomem, como os Emirados Árabes e a Arábia Saudita.4 Na primeira sentença, o autor colocou a conclusão do assunto, a idéia mais importante do texto. Depois foi argumentando, mostrando como chegou àquela conclusão. Na 3ª parte, a conclusão, o fim, retoma a idéia principal, sem, contudo, repeti-la na íntegra e sem acrescentar novos pontos de vista. 3 Folha de S. Paulo. Editorial, 25/8/2000. Citação. Anglo. Caderno de Exercícios. Português. 4 UEL -PR Além dessas duas estruturações – linear e cíclica – outras podem ser obtidas através da junção de um e outra. Assim temos: a estruturação cíclico-linear, a linear paralela e informativa. 3) Estruturação cíclico-linear Essa maneira de estruturar as idéias opera com os dois processos de raciocínio: indutivo e dedutivo. Ao mesmo tempo em que o autor vai colocando os argumentos progressivamente em função da idéia principal, recorre ao processo da repetição para marcar uma idéia através de uma palavra ou enunciado síntese. A técnica da repetição não se dá necessariamente em função da idéia principal. É muitas vezes apenas um recurso para manter a coesão ou o interesse do interlocutor pelo assunto, já que mexe com o emocional e a sensibilidade do leitor. Algumas vezes o que se repete no texto é até dispensável, funciona apenas como um recurso para enfatizar algo. A repetição também pode ser empregada para fixar uma idéia ou induzir a pessoa a uma atitude impensada. Pode ser também tão somente um meio para chamar atenção para determinado aspecto do assunto. Escrever, Humildade, Técnica Essa incapacidade de atingir, de entender, é que faz com que eu, por instinto de. . .de quê? procure um modo de falar que me leve mais depressa ao entendimento. Esse modo, esse “estilo”(!), já foi chamado de várias coisas, mas não do que realmente apenas é: uma procura humilde. Nunca tive um só problema de expressão, meu problema é muito mais grave: é o de concepção. Quando falo em “humildade”, refiro-me à humildade no sentido cristão (como ideal a poder ser alcançado ou não); refiro-me à humildade que vem da plena consciência de se ser realmente incapaz. E refirome à humildade como técnica. Virgem Maria, até eu mesma me assustei com minha falta de pudor; mas é que não é. Humildade como técnica é o seguinte: só se aproximando com humildade da coisa é que ela não escapa totalmente. Descobri este tipo de humildade, o que não deixa de ser uma forma engraçada de orgulho. Orgulho não é pecado, pelo menos não grave: orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, com todo o atraso que o erro dá à vida, faz perder muito tempo5. 4) Estruturação Linear paralela A Linear paralela é empregada como recurso para textos em que o autor quer confrontar duas ou mais opiniões ou desenvolver dois ou mais aspectos de um mesmo assunto para no final apresentar ou sugerir uma conclusão. As idéias podem ser contraditórias ou não, mas sempre apresentam características relevantes a ponto de merecer uma caracterização própria e significar dois pontos de vista. A diferença entre a linear simples e a linear paralela está na forma como as idéias se apresentam no texto. Na linear simples, o autor vai colocando alternadamente idéias de uma e de outra até chegar a uma conclusão. Na linear paralela, o autor desenvolve uma idéia ou conceito e depois desenvolve a outra para no fim apresentar uma conclusão. Neste caso, internamente em cada uma, mesmo que não seja explicitado, teremos início, meio e fim. Se tomado o texto como um todo, as duas idéias, ou dois aspectos ou mais do mesmo assunto, farão parte do desenvolvimento. Essa estruturação permite ao autor apresentar uma conclusão ou deixá-la para o leitor. Ou ainda apresentar mais de uma conclusão deixando ao leitor a opção de ficar com uma ou outra. 5 Clarice Lispector. Os melhores contos. Educação Sexual Se, por um lado, educadores e psicólogos pregam a educação sexual e campanhas adequadas como meios de combate a AIDS, há, por outro lado, os que são contrários a tudo isso e propõe a abstinência sexual. Para a professora Maria Lins da Faculdade de Educação da UFRJ, a proposta de educação sexual nos currículos da escola do ensino médio, uma idéia que surgiu mais fortemente no Brasil como solução para os problemas da gravidez indesejada e das doenças sexualmente transmissíveis, em especial a Aids, é um desastre. Para ela a educação sexual apresentada não toma como base valores morais, e se orienta para a informação restrita de contracepção e prevenção de doenças. Isso não é educação sexual, garante. Uma proposta de educação sexual encontra a sua essência na proposta de vida regida pela castidade. Não tenhamos medo desta palavra, diz ela. Educar para o amor é educar para a castidade, solução para a vida de amor pleno. Na concepção da professora, praticar sexo seguro é esperar até o casamento, e viver o casamento na fidelidade. Todo projeto de educação sexual deve ter como núcleo a castidade, enfatizada na sua relação com o amor e apresentada em seu significado mais profundo6. Já o psicólogo Alexandre do Valle, com base em pesquisas desenvolvidas na universidade da Califórnia em São Francisco, garante que a forma mais efetiva de prevenção do HIV, da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis é o uso constante do preservativo. Para ele, o estímulo à abstinência oferecida como única estratégia costuma afastar jovens e adultos das mensagens preventivas, aumentando ainda mais o risco de exposição às doenças sexualmente transmissíveis. Segundo Alexandre, uma estratégia de saúde pública não pode ser planejada a partir de julgamentos morais, sob pena de ser ineficiente e gerar um dispêndio inútil de recursos financeiros governamentais. A promoção do uso da camisinha é não apenas eficaz como também democrática, pois respeita a liberdade de escolha de cada um em relação às suas práticas e suas modalidades de parceria7. As últimas campanhas de prevenção do HIV produzidas e veiculadas pelo Ministério da Saúde têm forte tendência a uma flexibilização dos critérios de saúde pública em função de valores morais. Isto é: a redução do número de parceiros como um mecanismo de prevenção. Ainda que continue divulgando o uso do preservativo como sugere o psicólogo Alexandre, os filmes publicitários estão cedendo lentamente às pressões mais conservadoras como a da professora Maria Lins. Na prática, nem uma nem outra posição parece surtir enfeito, ou pelo menos não o esperado, porque o número de aidéticos continua a crescer a cada ano no Brasil. É hora do Ministério de Saúde parar para fazer uma avaliação e antes de investir milhões de reais na veiculação, descobrir através de experiências pilotos qual estratégia de comunicação realmente implica a redução de incidência do HIV. 5) A estruturação informativa A estrutura informativa de estruturar as ideias recebe esse nome porque segue o padrão de uma notícia de jornal ou revista respondendo a seis perguntas básicas: O quê? quem? quando? onde? como? e por quê? Este recurso tem menor aplicabilidade que os demais, normalmente sendo empregado em relatórios ou em textos que não exijam do autor exprimir sua opinião. Não quer dizer com isso que haverá imparcialidade, como 6 Idem 7 Adaptado. Jornal O Globo. alguns autores querem nos fazer acreditar. Imparcialidade é uma utopia. Há, porém, pelo menos, em tese a imposição de que a conclusão sobre o assunto fica a cargo do leitor. Por essa estruturação, os elementos constitutivos: introdução, desenvolvimento e conclusão - serão compostos pelas respostas dadas as seis perguntas guias, não necessariamente nesta ordem: O quê? quem? quando? onde? como? e por quê? e sem evidentemente a exigência de responder a todas elas afirmativamente. Relatório Final de Investigação Vilhena, 28 de março de 2006 Senhor Prefeito, Tendo sido designado para apurar a denúncia de irregularidades ocorridas na Secretaria Municipal de Educação, submeto à apreciação de V. Exª , para os devidos fins, o relatório das diligências que, nesse sentido, efetuei. Em 10 de dezembro de 2005, dirigi-me ao chefe do Almoxarifado para inquirir os funcionários, acusados de recebimento indevido de material escolar.. Ambos negaram a autoria do recebimento do material, conforme termos constantes das declarações anexas. No inquérito a que se procedeu, os servidores ressaltam a culpabilidade do setor de compras sobre quem recaem as mais fortes acusações. Apesar de não se poder considerar mancomunado com o setor de compras, os servidores apresentam parcela de responsabilidade, pois agiram por omissão, sendo negligentes no exercício de suas funções. Como servidores do almoxarifado, deviriam estar presentes, na ocasião do recebimento dos materiais – o que não ocorreu, conforme seus depoimentos. Do exposto conclui-se que somente o inquérito policial poderá esclarecer o crime perpetrado com o recebimento a menos do material. Impõe-se instauração imediata de processo administrativo. É o que me cumpre levar ao conhecimento de V.Exa . Aproveito a oportunidade para apresentar-lhe protestos de minha distinta consideração. A estrutura informativa pode recorrer ao método indutivo ou dedutivo, ou ainda operar com os dois ao mesmo tempo. Tudo depende do objetivo e da intenção do autor ou do texto. Certamente, existem outras formas de organizar as idéias dentro de um texto de maneira que o torne compreensivo. Julgo estas suficientes para ponto de partida. À medida que você for fazendo os seus textos, você irá se apropriando de uma e outra naturalmente. No começo, isso poderá até causar um certo desconforto, mas passará logo. E quando usar uma estruturação ou outra? Quando você achar necessário. Em textos pequenos, o normal é que seja utilizada apenas uma estrutura. Em textos maiores como monografias, artigos, relatórios de pesquisas a organização das idéias, desde que obedecida uma estrutura maior da obra, pode exigir mais de uma maneira de estruturar os elementos do texto, cada uma para uma cada parte do texto. Sempre a decisão de uma ou de outra forma é sua. Afinal você é o autor do texto. É você que deve saber quando e em que parte deverá utilizar uma ou outra estrutura. O importante é organizar as idéias de maneira que o leitor possa fazer as suas inferências tendo compreensão do que está lendo. O leitor No quesito organização do pensamento ainda existe um ponto importante que precisa estar presente na hora de escrever: o seu leitor. Você já deve ter por ouvido várias vezes falar que quando vamos escrever precisamos pensar no leitor do nosso texto. E isso é verdadeiro sim, mas o máximo que conseguimos fazer é nos inibir na hora de escrever pensando que o leitor não irá gostar do que iremos escrever. Como então fazer isso prática sem ser prejudicado pela antecipação mental do resultado? Pensar no leitor é estabelecer um diálogo entre o locutor do texto e a pessoa ou pessoas para quais está escrevendo. Ou seja, trata-se de procurar estabelecer uma relação adequada entre o locutor do texto (aquele que fala no texto) e o interlocutor (aquele com quem o locutor fala). Afinal, um texto só tem razão de ser quando existe um leitor. Ninguém escreve para sim mesmo. Escrevemos para alguém, mesmo que seja imaginário, mas todo texto precisa e exige um interlocutor. Escreve-se sempre sob uma perspectiva dialogal. Isto é, escrevemos como se estivéssemos diante de uma outra pessoa que nos interpela. Todo texto conceitual (todos os não literários) busca de certa forma responder a questionamentos do seu leitor. A presença virtual do leitor é que torna possível ao escritor antecipar os questionamentos do seu interlocutor transformando-os em argumentos que sustentem a sua opinião. Em textos antigos, vemos uma clara demonstração do que veria a ser esse processo de diálogo entre o escritor e o seu leitor. O filósofo Platão utilizou seu mestre Sócrates, na época morto, como personagem de seus Diálogos. Sigmund Freud também tinha o hábito de escrever dialogando com personagens que antecipavam os questionamentos do leitor. É nesse sentido que devemos pensar no leitor, para estabelecer com ele uma conversa inteligente onde a função principal é convencê-lo de que o que estamos defendo está certo. Mas o leitor não tem obrigação de ler o meu texto. Não há como fazê-lo terminar o que começou. Por isso, quem redige precisa, além de estabelecer um diálogo, encontrar técnicas e recursos que conquiste o interesse do leitor e o faça cativo do seu texto do início até o fim. É nesse sentindo que a terminologia de cada área específica assume papel fundamental. Por terminologia entende-se o conjunto palavras próprias de uma determinada área de conhecimento ou ramo de atividade humana empregado para expressar conceitos básicos e específicos. Dominar a terminologia da sua área específica é um recurso muito útil na hora da escrita. Principalmente, quando o texto vai ser lido por um professor ou por pessoas da mesma área. A terminologia própria também ajuda a produzir textos mais precisos e transmite uma imagem positiva do autor, pois ela é responsável pela “cara” do texto. Há, entretanto, um problema: quando se escreve para um público mais abrangente ou mais heterogêneo, as terminologias dificultam a compreensão do texto. É aí que entra a visão que escritor precisa ter do seu público leitor. Não dá para escrever da mesma maneira para uma platéia de doutores e um grupo de alunos calouros. Não se trata de ignorância, mas de adequação da linguagem ao público leitor. Caso isso não seja feito, o texto perderá a sua utilidade porque deixará de ser compreendido. Os termos técnicos podem servir sim para clareza e concisão de um texto, mas não quer dizer que somente quem os utiliza pode produzir um bom texto. Na verdade, tudo pode ser escrito de maneira simples sem o emprego da termologia específica. De positivo temos que quanto menos termos específicos abre-se o leque de público. Qualquer leitor que se interesse pelo assunto pode compreendê-lo, independente de dominar a terminologia daquela área específica. De negativo, temos que o texto provavelmente será maior e poderá perder a concisão. É por isso que o mais importante é a sua capacidade de pensar por escrito e a sua habilidade criar e organizar as idéias. O cuidado com a terminologia também inclui as questões dos chavões e dos clichês que nada mais são do que frases ou argumentos prontos de pouca expressividade. Mas isso deixa de ser problema quando você começa a produzir seus próprios textos seguindo uma determinada estruturação de idéias. RESUMO O texto conceitual tem três partes: início, meio e fim. Cada parte do texto, em cada tipo de gênero textual, obedece a uma padronização no que diz respeito aos elementos constitutivos, isto é, o aspecto formal. Antes de escrever é imprescindível conhecer o padrão estético a ser seguido para se poder determinar, por exemplo, o tamanho do texto. Diferente dos elementos textuais é a estruturação das idéias para desenvolver o tema ou o assunto. Elas são frutos da atividade mental a partir dos métodos de investigação: indutivo e dedutivo. Nem sempre a primeira parte do texto corresponde à introdução do assunto. A idéia principal, a conclusão do tema pode vir expressa na primeira parte do texto: a introdução. A maneira de estruturar as idéias é sempre de responsabilidade do autor. As terminologias especificas de cada área são úteis para escrever de forma concisa, mas podem prejudicar a compreensão quando o texto é para um público mais abrangente. Para se escrever bem é necessário resistir ao impulso das respostas sentimentais e desenvolver um processo racional de investigação da realidade e ir se apropriando de modelos de estruturação de idéias. Formas e modelos fazem parte de padronização das entidades. Não são para serem decorados, mas consultados no momento das adequações necessárias. MUNDANDO DE ATITUDE Tire alguns minutos por dia para pensar temas políticos, sociais ou religiosos, sexuais etc. Procure desenvolver a uma atividade racional sobre eles. Pergunte o porquê, tente compreender as razões, imagine uma pessoa e tente convencê-la de que a sua opinião. Aprenda a aceitar a opinião alheia. Não necessariamente como certa, mas como uma possibilidade. Quando discordar de uma pessoa aproveite o momento para sair do estágio da reação sentimental e esforce-se para criar argumento e provar que você está certo. Para que isso aconteça é muito importante manter-se calmo(a) para poder ouvir e responder racionalmente. Escreva e, se puder, mostre a alguém. Questões religiosas não passam pelo processo racional, mas pela fé. São temas muito bons para provocar o raciocínio. Aprenda, porém, que uma argumentação só vale a pena quando saem do campo da fé. Fé por fé não prova nada, cada um tem a sua e pronto. Reúna argumentos que fundamente uma determinada visão e crie argumentos para defendê-la diante de um interlocutor imaginário. Escreva a seus argumentos. Imagine possíveis contradições, confrontos de ideias. Escolha algo que ache errado, por exemplo, corrupção de policiais, sexo sem camisinha, sexo somente no casamento, cotas para negros, cotas para estudantes da escola pública etc. Depois, tente elaborar argumentos que justifiquem o fato ou a atitude. Vá além das repostas óbvias do senso comum, tais como questão salarial, falta de informação, preconceito etc. Pense e escreva. Cuide do quanto você está sendo conduzido pelo senso comum. Se a opinião que você tem muito gente tem, significa que ela não é fruto do raciocínio, mas é senso comum. Não serve como argumento. Desconfie das respostas prontas que você tem. Julgue-se e amplie suas informações, busque, questione e encontre respostas ainda não pensadas por você. PRATICANDO 1) O texto abaixo, publicado em http://conjur.estadao.com.br8 aborda a tecnicidade da linguagem em textos jurídicos. Leia-o com atenção! Depois, leia os comentários publicados também no mesmo site e depois responda as questões. Hermetismo jurídico Tecnicidade da linguagem pode afastar sociedade da Justiça 1 -Estudos atuais da lingüística, da filosofia da linguagem e de diversos ramos do Direito apontam a existência de uma linguagem jurídica dotada de características que a investem de juridicidade, diferenciando-a de outras linguagens técnicas. 2 -O Direito nos é dado a conhecer por meio de palavras, manifestadas em todos os sentidos: nas leis, nos atos judiciais e em outras formas diversas que não dispensam a ferramenta da linguagem para o conhecimento da matéria jurídica. 3 -Resta evidente, pois, que o Direito é ciência dotada de linguagem técnica e específica, com espaço de sentido e espaço estrutural autônomos (gramática e dicionário jurídicos próprios). 4- Seguramente observa-se que tantas outras ciências possuem vocabulário próprio, tais como a medicina, a informática e a economia, não diferentemente do Direito. Entretanto, o tecnicismo deste último tem sido alvo de antigas preocupações, no que diz respeito à própria razão de existir do Direito, em função da garantira do bem-estar da coletividade: o Direito possui um léxico e um campo semântico peculiares e a cientifização descontrolada da linguagem jurídica pode ser fator de distanciamento, inclusive ideológico, daqueles que do Direito precisam se servir. 5- Miguel Reale, em antiga e prudente preocupação com a introdução dos iniciantes na linguagem do Direito, já estabelecia recomendações propedêuticas ao estudo do Direito, pois, “às vezes, expressões correntes, de uso comum do povo, adquirem, no mundo jurídico, um sentido técnico especial”. 6- O hermetismo da linguagem jurídica é sintomático pois o Direito, por ser uma ciência, é investido de um método próprio que requer a configuração de um vocabulário técnico, não facilmente apreendido pelo homem comum. 8 por Vivianne Rodrigues de Melo . Os números dos parágrafos não pertencem ao texto original. 7- Em acertada crítica, o lingüista Adalberto J. Kaspary estabelece abordagem categórica a respeito da questão do hermetismo da linguagem jurídica: “O desenvolvimento da técnica jurídica fez com que surgissem termos não-usuais para os leigos. A linguagem jurídica, no entanto, não é mais hermética para o leigo que qualquer outra linguagem científica ou técnica. Aí estão, apenas para exemplificar, a medicina, a matemática e a informática com seus termos tão peculiares e tão esotéricos quanto os do Direito. Ocorre que o desenvolvimento da ciência jurídica se cristalizou em instrumentos e instituições cujo uso reiterado e cuja precisão exigiam termos próprios: servidão, novação, sub-rogação, enfiteuse, fideicomisso, retrovenda, evicção, distrato, curatela, concussão, litispendência, aqüestros (esta a forma oficial), etc. são termos sintéticos que traduzem um amplo conteúdo jurídico, de emprego forçado para um entendimento rápido e uniforme. O que se critica, e com razão, é o rebuscamento gratuito, oco, balofo, expediente muitas vezes providencial para disfarçar a pobreza das idéias e a inconsistência dos argumentos. O Direito deve sempre ser expresso num idioma bem-feito; conceitualmente preciso, formalmente elegante, discreto e funcional. A arte do jurista é declarar cristalinamente o Direito”. (grifo nosso) 8- Tem-se observado que a linguagem jurídica recorrentemente praticada com excessivo preciosismo, arcaísmo, latinismo e polissemia contribui para o afastamento da própria sociedade em relação ao Direito, sendo que do fundamento ontológico deste ramo do conhecimento, infere-se que a linguagem jurídica deveria apresentar-se mais diáfana aos olhos dos cidadãos, como verdadeiro instrumento a serviço da sociedade e de busca pela excelência da prestação jurisdicional. Relevante é a ressalva de que o acesso ao conhecimento do Direito constitui uma das modalidades de acesso à Justiça, na lição clássica de Cappelletti. 9 -A propalada indissociabiliade entre linguagem e Direito nos indica que os aplicadores do Direito devem investir em uma melhor comunicação jurídica e primar pela depuração da linguagem jurídica e pelo controle do rigor técnico formal excessivo, por vezes frutos de egoística afeição ao vernáculo, todavia tão prejudicial aos jurisdicionados e à sociedade de forma geral, que quedam alijados de conhecimentos sequer rudimentares do Direito. 10- Observa-se muitas vezes sentenças cujo teor não é possível que as partes conheçam sem a interferência de seu advogado, porque a leitura da peça é de total incompreensão, haja vista o abuso de termos jurídicos obsoletos, em manifesta exacerbação estilística. Assim sendo, a liberdade das partes litigarem em sede de Juizado Especial sem constituir advogado, respeitando o limite legal do valor da causa, pode restar frustrada no campo da efetividade, diante do alheamento dos cidadãos em relação às especificidades da linguagem jurídica. 11- Variegadas e insurgentes são as possíveis soluções práticas para a maior afinidade da população com informações basilares sobre cidadania e direito, dentre as quais a realização de cursos de capacitação promovidos pelos tribunais e pelos diversos órgãos públicos, no sentido de qualificar os integrantes de seus quadros a destinarem tratamento condigno aos cidadãos. Por exemplo, em prol de melhor atendimento sobre os direitos e informação nos Juizados Especiais, Procons, etc., todos quantos atestadores do primado da ética e da igualdade material nas atribuições do serviço público. 12 -Também de premente importância é o exercício do direito social da educação, com a confecção de cartilhas a serem elaboradas pelos tribunais e órgãos públicos, inclusive em parcerias com a pesquisa e a extensão das universidades, e depois distribuídas à população, juntamente com a realização de campanhas com o apoio da mídia bem como a implantação obrigatória de disciplina de noções elementares de cidadania e direito nos currículos escolares, para fomentar a educação cidadã. Trata-se, ao que se depreende, de modestos exemplos de iniciativas simples a serem tomadas para a inclusão dos cidadãos ao conhecimento do Direito a partir da integração com a linguagem jurídica. 13 -Os aplicadores do Direito, em seu múnus, enfim, devem dignificar a humanização das leis, tornando-as socialmente mais úteis e apreensíveis, ao conhecimento primário da população como um todo. 14 -A educação se apresenta como direito social da cidadania ou direito público subjetivo que, incorporado nas cartas políticas atuais, revela o caminhar dos direitos humanos para a necessidade natural de evolução do ser humano e de sua integração à instrução e ao conhecimento, devendo o Estado equiparar-se com políticas públicas adequadas para a institucionalização e desenvolvimento da educação como forma de inclusão às vicissitudes do Direito por meio da linguagem jurídica, mitigando o seu hermetismo sem fronteiras. 15 -Nalini, na esteira de tantos outros juristas, manifesta oportunamente sobre o dever ético do juiz na divulgação do Direito e na facilitação do discurso jurídico veiculado na linguagem jurídica: “Além dessa divulgação operacional, as entidades promoveriam a divulgação institucional, propiciadora de informações sobre o funcionamento do Judiciário no Brasil. Não se pode nutrir afeição por aquilo que não se conhece. Isso explica os índices de comprometimento afetivo demonstrado pela população brasileira a seu Judiciário, em qualquer pesquisa realizada nesta década (...) a assessoria de mídia, anexa a cada organismo, deve desempenhar sua parte e fazer a aproximação entre mediática e Justiça, decodificando o hermetismo da linguagem e o distanciamento que o Judiciário só nutrir em relação aos mass media”. 16 -Em tempo, mais producente seria se os juristas se aliassem ao poeta Manuel Bandeira ( in Azevedo, 1996: 86)2, cuja maturidade e inspiração compreendeu a importância social de se evitar o hermetismo no fazer versos: com maior simplicidade e clareza das palavras deverá ser o fazer justiça, para a segurança dos cidadãos e sua real participação no modus vivendi do Estado Democrático de Direito. 17 - Ante o exposto, sem a pretensão de exaurir o rico tema posto em discussão, forçoso concluir que o hermetismo da linguagem jurídica justifica-se pela tecnicismo desta, sendo necessário um engajamento dos aplicadores do Direito para em diversas e criativas medidas tornar mais acessível a linguagem jurídica ao conhecimento da sociedade, tendo em vista o conhecimento do Direito como acesso à Justiça e direito fundamental dos cidadãos. Comentários: A Excelente a ponderação da Dra. Viviane, os pontos suscitados são extremamente válidos, o artigo 45 de ‘nosso’ (ainda sou estagiário) Código de Ética prediz que a linguagem utilizada pelos advogados deve ser escorreita e polida, prediz resumidamente a idéia central sustentada pela dileta estudiosa, que o advogado deve primar pela utilização de argumentação objetiva, concisa, civilizada e hermeticamente correta, o que em nenhum momento, e isso é fato, ampara o emprego desmedido de preciosismos, arcaísmos e latinismos conforme já brilhantemente abordado. Desde que técnica hermenêutica não seja perpassada, e isso em benefício amplo e objetivo da JUSTIÇA e do ESTADO DE DIREITO, com razão o discurso deve ser direcionado e condicionado a um entendimento geral e comum, não rótulo para exposição de discursos, idéias enrijecidas e juridicamente anacrônicas cujos sentidos podem ser absolutamente melhor contextualizados 9. B 9 por Felipe Boaventura (Comercial - - ) 10/03/2006 - 09:21 Muito bom o hermetismo. Exceto o Beto (assim fica claro?) Todos os comentadores não conseguem se livrar do próprio (hermetismo). Lê-se nos comentários: "pontos suscitados"; "prediz"; "perpassada"; "sine qua non". E por aí vai. Ocorre que a maioria dos advogados e juristas usam idéias, conceitos e categorias gramaticais e jurídicas sem qualquer noção do que representam. Aliás, poucos têm ideia do que seja um conceito. Na pós-modernidade não há tempo para estudar "bobagens". O prático, rápido e urgente é repeti-las. Li numa petição: "para dizer que o autor não é iuris tantum". É isso aí. A questão é "abstrusa" ! Tanto que no próprio texto da Viviane consta "Variegadas e insurgentes são as possíveis soluções ...Putz. Finalizando: o Direito não é ciência. Usa, quando muito, alguns métodos da. Só isso 10. QUESTÕES 1) Em sua opinião, a articulação das idéias obedeceu a um critério satisfatório de organização? Por quê? 2) Você seria capaz de apontar algum problema na articulação das idéias do texto? Quais? 3) Você acha que os argumentos da autora foram suficientes para sustentar que Tecnicidade da linguagem pode afastar sociedade da Justiça? Por quê? 4) Releia o texto e tente distribuir os parágrafos de introdução, desenvolvimento e conclusão. Qual a sua opinião sobre a forma que a autora construiu o texto? A Articulação dos parágrafos foi satisfatória? Por quê? 2) Explique: a) o sentido (se é que tem) da palavra “juridicidade” empregada pela autora no primeiro parágrafo. b) o quê o autor do comentário ‘B” quis dizer ao afirmar “Ocorre que a maioria dos advogados e juristas usam idéias, conceitos e categorias gramaticais e jurídicas sem qualquer noção do que representam.” c) O sentindo do parágrafo 13. 3) Escolha um modelo de estruturação de idéias e reescreva o texto Hermetismo jurídico:Tecnicidade da linguagem pode afastar sociedade da Justiça acima eliminando as incoerências, os parágrafos redundantes e as citações desnecessárias. Mantenha-se fiel ao título do texto. 4) (ILARI, 2001, p. 69-70) Uma das mais antigas e mais bonitas reflexões sobre a liberdade está contida na fábula do cão e do lobo, que remonta no mínimo ao escritor romano Fedro, que nasceu escravo. Contada por um “narrador onisciente”, a história é esta: Um lobo faminto e esfomeado encontra-se com um cão forte e valente. Animais da mesma família, os dois entabulam um diálogo em que o lobo elogia o vigor e a forma do cão, e o cão, por sua vez, tenta convencer o lobo trocar sua vida selvagem e errante por uma boa casa em que nada lhe faltará. O lobo fica tentado, e pergunta quais são as condições para ganhar comida de graça. “Quase nada”, responde o cão, “é só espantar os mendigos e fazer festas para o dono”. Quando o lobo já está caminhando para dentro da casa, ao lado de seu parente, observa no pescoço deste algumas cicatrizes. “Que é isso?” pergunta ele. “Nada, são as marcas da corrente com que me prendem”. O lobo reflete que o conforto do cão não vale a liberdade e vai-se embora. 10 por Antonio Bonifacio da Silva (Civil - - ) 10/03/2006 - 14:43 Tome o lobo e o cão como representantes de dois pontos de vista diferenciados. Reescreva duas vezes a história: a) contada a partir do ponto de vista do cão; b) contada a partir do ponto de vista do lobo.