Uma taxonomia para a Pesquisa em Design
A taxonomy for Design Research
van der Linden, Júlio Carlos de Souza; Dr.; Departamento de Design e Expressão Gráfica
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
[email protected]
Resumo
A Pesquisa em Design é um campo multidisciplinar e reflete as mudanças na idéia de design
ocorridas nas últimas décadas. Nos primeiros estudos, durante a década de 1960, os métodos
de projeto foram o principal interesse; a ênfase que este tema teve por muitos anos, levou a
confundir Pesquisa em Design com a pesquisa para a prática do design. Visando contribuir
com estudiosos e organismos científicos, quando é necessário classificar a produção
acadêmica na área de Design, este trabalho apresenta uma taxonomia para a Pesquisa em
Design.
Palavras Chave: Pesquisa em Design; Conhecimentos no Design; Taxonomia
Abstract
Design Research is a multidisciplinary field and reflects the changes occurring in the idea of
design in recent decades. In the first studies during the 1960s, the design methods were the
main interest, the emphasis that this issue had for many years, led to confuse Design
Research with research to practice design. Aiming to contribute with scholars and scientific
agencies when is necessary to classify academic production in Design field, this paper
presents a taxonomy for Research in Design.
Keywords: Design Research; Design Knowledge; Taxonomy
9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Uma taxonomia para a Pesquisa em Design
Introdução
As primeiras iniciativas sistemáticas e institucionalizadas de pesquisa em Design no
Brasil ocorreram no Instituto de Desenho Industrial do Museu de Arte Moderna do Rio de
Janeiro (IDI-MAM) e na Divisão de Desenho Industrial do Instituto Nacional de Tecnologia
(INT), por conta de ações que visavam o atendimento de demandas da sociedade nas décadas
de 1960 e 1970, O IDI-MAM foi fruto da proposta de uma Escola Técnica da Criação (ETC)
que poderia ter sido o primeiro curso de Design no Brasil. Com a decisão do governo do
Estado do Rio de Janeiro de implantar a Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), os
mentores da ETC optaram pela fundação da que foi a primeira instituição de pesquisa em
Design no Brasil. Durante a sua existência, de 1968 a 1989, o IDI-MAM desenvolveu
diversos estudos, com destaque para dois que geraram publicações de larga utilização por
indústrias e designers: o Manual para Planejamento de Embalagens (com incentivo do
Ministério da Indústria e Comércio) e as recomendações técnicas para projetos de mobiliário
escolar (por demanda do Ministério da Educação e Cultura, do Centro Brasileiro de
Construções e Equipamentos Escolares e da Companhia de Construções Escolares do Estado
de São Paulo). Já a Divisão de Desenho Industrial do INT foi criada em 1975 no contexto de
iniciativas governamentais para fomentar o desenvolvimento tecnológico e a substituição de
importações. Desde sua fundação, reune designers e engenheiros em projetos de pesquisa
aplicada voltada para resolver problemas de relevância social. Entre outras linhas de atuação,
desenvolveu equipamentos agrícolas destinados ao atendimento de programas de produção de
álcool com base em cana-de-açúcar e mandioca (LEON, 2005).
Mesmo com essas iniciativas e outras de menor repercussão, apenas na década de
1990 a pesquisa em Design foi institucionalizada no ambiente acadêmico da pós-graduação
stricto sensu. Nessa década surgiram o primeiro periódico científico (a revista Estudos em
Design), o primeiro congresso (o Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em
Design- P&D) e o primeiro curso de mestrado em Design (na Pontfícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro). Hoje existem doze programas de pós-graduação stricto sensu em Design,
sendo três com doutorado (CAPES, 2010) e 108 grupos de pesquisa cadastrados1 (CNPq,
2010).
A despeito da evolução ao longo das últimas duas décadas, a pesquisa em Design no
Brasil ainda carece de um arcabouço teórico que permita o trânsito entre os diversos campos
em que está se desenvolvendo. A ausência de formalização do que é pesquisa em Design
resulta em uma área sempre aberta, sempre em construção. Embora a permeabilidade a novas
idéias seja uma característica importante e desejável, isso leva a ausência de uma identidade
necessária para o fortalecimento da área. A necessidade de fortalecer o Design como área de
conhecimento, se justifica com a fragmentação de sua representação nos órgãos federais: no
CNPq encontra-se vinculado às Engenharias; na CAPES está nas Ciências Sociais Aplicadas,
com a Arquitetura e Urbanismo; no INEP é classificado na área de Humanidades e Artes, na
subárea de Design e Estilismo (cabe observar que a Arquitetura e Urbanismo e as Engenharias
estão na área de Engenharia, Produção e Construção). Não cabe justificar isso com o
argumento de que em outros países o Design também é classificado em diferentes áreas. O
nosso problema está nas características do Estado brasileiro que por um lado é cartorial, e por
outro exerce uma importante função de organização do sistema de educação superior e de
pesquisa e pós-graduação, sem similares na América Latina. A demora do Design em se
tornar visível e claro diante dos órgãos de fomento e de agências reguladoras resulta em
grandes prejuízos para a nação e não apenas para a comunidade de designers. Para reforçar,
vale citar Gui Bonsiepe, quando argumenta que “(...) Em comparação com outros campos, o
design é escandalosamente pouco pesquisado” (BONSIEPE, 2000, p. 10).
9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Uma taxonomia para a Pesquisa em Design
Considerando a dimensão multifacetada da pesquisa em Design e a sua inserção
institucional em diferentes áreas, há a necessidade de classificá-la de um modo que reflita
essa diversidade. Para tanto, este artigo trás uma proposta de taxonomia para a pesquisa em
Design que permita incluir, além das vertentes de investigação que são próprias do cerne
desse campo, outras que têm relevância para o seu desenvolvimento. Entende que se trata de
um tema importante para pesquisadores e agências científicas quando da classificação da
produção de conhecimento no Design. O estudo foi parte de um projeto sobre a identidade da
pesquisa em diferentes áreas, entre as quais o design2.
Delimitando o(s) Design(s)
Para abordar a pesquisa em Design, é necessário delimitar o contexto em que se está
fazendo uso da palavra design, que apresenta muitos significados, como verbo (to design) e
como substantivo (the design). Embora a sua definição não seja objetivo deste trabalho, é
necessário passar por esse tema para tratar do que é pesquisa em Design.
No Ensino Superior brasileiro, a palavra Design substituiu nos anos 1990 a expressão
Desenho Industrial3. Esse processo de substituição não está completo, diversos cursos
mantêm o seu nome original e as classificações na CAPES e no CNPq ainda conservam o
nome Desenho Industrial. Além disso, o uso de Design como sinônimo de Desenho Industrial
não é geral, ja iniciativa dos desenhistas industriais em assumir a denominação genérica de
designers não limita suas possibilidades de uso. Essa palavra é utilizada internacionalmente
para atender aos amplos significados do projeto, desde a Moda (Fashion Design) à
Informática (Software Design). Nas Engenharias tem usos consolidados, como Mechanical
Design, Axiomatic Design, Design of Experiments. O termo design está associado a diferentes
níveis, desde o nível da área de atividade projetual (Mechanical Design) ao da ferramenta ou
técnica (Design of Experiments), passando pelo princípio projetual ou conjunto de práticas
(Axiomatic Design).
Esse uso tão diversificado leva a dúvidas e freqüentes confusões quando se fala em
design4. Portanto, é indispensável delimitar objeto de estudo e os pressupostos teóricos que
devem ser adotados para analisar a sua produção. Uma vertente apresenta o design como uma
habilidade humana, anterior à existência das sociedades. Essa visão está presente em autores
como Ricard (2000), que entende o design como resultante do que denomina de aventura
criativa, pela qual a humanidade, como parte integrante da natureza e fazendo uso de
mecanismos como os que atuam sobre a evolução das espécies, construiu o ambiente artificial
em que vivemos. Outra vertente associa o Design a um modo particular de abordar problemas,
chamado de design thinking, que permite conectar e integrar conhecimentos de artes e
ciências no sentido de atender aos propósitos e problemas do presente (BUCHANAN, 1995).
Cross (2004) vê o Design como uma das formas de conhecimento, a par das Ciências e das
Humanidades.
Atualmente, o design, como modo de pensar e intervir na realidade, ultrapassa os
limites classicamente delimitados para as profissões. Buchanan (1995) demonstra isso com a
descrição do impacto do Design na vida contemporânea, por meio de designers e por outros
profissionais que não se consideram designers, em quatro grandes áreas: comunicação visual
e simbólica; objetos materiais; atividades e serviços; e sistemas complexos ou ambientes para
moradia, trabalho, diversão e aprendizado. A idéia tradicional do papel do design está
presente na primeira, a comunicação visual e simbólica, com o Design Gráfico, e na segunda,
relativa aos objetos materiais, com o Design de Produto. Também a última área, que
corresponde ao campo de ação da Arquitetura e Urbanismo, encontra-se no limite clássico do
design. Contudo, essas profissões não dão conta de toda a complexidade de cada uma dessas
áreas, que vêm crescendo em função da evolução das tecnologias e das sociedades
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(BUCHANAN, 1995). A terceira área, voltada para atividades e serviços, sequer era
entendida como um campo de intervenção do design, posto que é tradicionalmente
relacionada com a Administração. Essa concepção de design extrapola os limites do design
como um campo que integra conhecimentos das artes e das ciências para a concepção dos
bens materiais e das comunicações. Vai além do objeto de intervenção, e centra-se no modo
de intervenção, o chamado design thinking.
A dificuldade permanece quando se trata de definir seus desmembramentos
(habilitações ou especialidades). O Desenho Industrial brasileiro se estabeleceu a partir de
dois eixos: o de projetos de objetos e artefatos a serem produzidos industrialmente e o de
projeto de objetos de comunicação visual. Esses eixos, por vezes definidos a partir da
natureza tri ou bidimensional de seus objetos, deram origem às denominações dos cursos de
Desenho Industrial (Projeto de Produto ou Desenho de Produto; Comunicação Visual ou
Programação Visual), presentes nos projetos de regulamentação da profissão de desenhista
industrial e no Currículo Mínimo. Foram mantidos na mudança para Design (Design de
Produto; Design Gráfico), na década de 1990, quando surgiram novos desdobramentos
(Design de Moda, Design de Interiores, Design Digital, etc.).
No cenário mundial, a International Graphic Designers Association recentemente
atualizou as suas definições para a profissão e o profissional. Isso decorreu das mudanças que
ocorreram no papel do designer gráfico, cujo foco passou do produto gráfico para o processo
de comunicação em formato visual (ICOGRADA, 2008). A atual definição para a profissão
enfatiza a natureza de processo criativo de resolução de problemas. Já o International Council
of Societies of Industrial Design enfatiza o papel do Design como responsável pela concepção
de objetos, processos, serviços e sistemas, a partir de uma perspectiva sistêmica. Atribui ao
Design o papel de atuar de forma inovadora na humanização das tecnologias contribuindo
para trocas econômicas e culturais, cobrindo um amplo espectro de profissões, “entre as quais
[design de] produto, serviço, gráfico, interiores e arquitetura” ICSID (2008).
Um dos problemas da delimitação dos campos de atuação do Design e da definição de
suas especialidades ou habilitações é a falta de reflexão por parte dos profissionais que
construíram a sua história (FRASCARA, 1995). A Pesquisa em Design tem uma contribuição
importante nessa reflexão. Há uma relação de interdependência entre a Pesquisa em Design e
o Design: delimitam-se mutuamente.
Delimitando a(s) pesquisa(s) em Design(s)
A Pesquisa em Design é um campo relativamente novo, considerando tanto a prática
profissional e, principalmente, o estabelecimento do pensamento científico e a produção
científica em geral (MARGOLIN, 1998; JONAS, 2006). Os primeiros esforços sistemáticos
com vistas a compreender a natureza do Design foram voltados para questões de metodologia
projetual, em um cenário de pós-guerra e de corrida espacial que abrigou diferentes
experimentações, principalmente na Hochschule für Gestaltung Ulm e na NASA. Esses
esforços, caracterizados como um movimento, o Design Research Movement (DRM), deram
origem a congressos sobre métodos de Design que culminaram na fundação da Design
Research Society, em 1966, com o objetivo de promover ao estudo e a pesquisa em todos os
campos do Design.
As questões que cercavam o tema da metodologia projetual estavam relacionadas com
a preocupação com a cientificidade do Design e com a criatividade (JONES; THORNLEY,
1963). Esse movimento incluiu o desenvolvimento de métodos sistemáticos para resolução de
problemas e o estabelecimento das bases para uma “ciência do design”. Na década de 1980, o
Design se estabeleceu como disciplina com a definição de que possui os seus próprios temas
de conhecimento e os seus próprios meios de produção de conhecimento, presentes programas
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de pesquisa como Doctoral Education in Design e Design Thinking (CROSS, 2006, p. 1-2).
Recentemente, a declaração final da Conferência de Milão definiu pesquisa em design como
“um compromisso de construir uma cultura de pesquisa que possa contribuir para uma
compreensão mais profunda do próprio design” (CALVERA, 2006, p. 115).
Mesmo consolidada a Pesquisa em Design, a sua natureza, assim como a própria
natureza do Design, continua em discussão. O Design Research Movement, a partir dos anos
1980, focou duas questões: internamente, “como o design pode se tornar um campo
acadêmico respeitável?” e externamente “como o design pode contribuir para a inovação
centrada no homem?” (JONAS, 2006, p. 1). De acordo com Jonas, “a adoção de parâmetros
científicos imediatamente contribuiu para a respeitabilidade acadêmica do design”, mas para
tanto pagou o preço de falhar no atendimento a questões como a inovação social e econômica
e o bem-estar humano. Isso traz a necessidade de discutir uma epistemologia do Design:
(...) como pode o design estabelecer seu genuíno paradigma de pesquisa
(independente das ciências, das humanidades e das artes) que seja apropriado para
lidar com as mudanças em situações mal-definidas (a partir de agora chamadas
“complexas”) de situações do mundo real? (JONAS, 2006, p. 2)
Preocupação semelhante quanto a uma epistemologia do Design é encontrada em
Calvera (2006), que descreve diferentes abordagens para a pesquisa nesse campo. A primeira,
que denomina de “antigo caminho da pesquisa em design: projeto baseado em
conhecimento”, refere-se ao tipo de pesquisa que está vinculado à prática profissional desde
os primeiros tempos de formalização dos procedimentos. Nesse momento, “(...) a pesquisa
em Design tinha claramente uma definição de assunto como sendo a relação entre ciência
pura e técnicas aplicadas” (CALVERA, 2006, p. 103). O papel da Teoria do Design era
oferecer dados científicos para a prática profissional e, nesse sentido, “(...) foi o primeiro
passo para proporcionar ao design uma estrutura acadêmica e, enquanto explicação dos
modos de pensar e trabalhar o design, tentou-se construir um corpo sistemático de
conhecimento” (CALVERA, 2006, p. 103). A segunda, “A pesquisa através do design: o
conhecimento necessário para o design” (CALVERA, 2006, p. 104), implica na produção dos
conhecimentos acadêmicos necessários para a prática profissional. A terceira abordagem para
a pesquisa em design corresponde a construir conhecimento sobre o design, com o foco da
pesquisa no design e nos modos de sua prática. Nesse modo de pesquisa, “o design se torna
um fenômeno que pode ser estudado, e a pesquisa, uma fenomenologia do design.”
(CALVERA, 2006, p. 106). Esse tipo de pesquisa envolve diferentes métodos e pressupostos
que podem ser questionados quando o Design é estudado por disciplinas como História,
Sociologia, Antropologia, Filosofia, entre outras. Tais disciplinas obedecem a tradições
próprias e as suas contribuições para a compreensão da natureza e para as necessidades do
Design têm que ser consideradas, questionando-se se o Design enquanto disciplina “tem que
adotar todos esses métodos e abordagens para ajudar na pesquisa sobre uma fenomenologia
com base no design?” (CALVERA, 2006, p. 107). A quarta abordagem trata da pesquisa sob
o ponto de vista do próprio Design:
o design poderia ser considerado como um tipo de entendimento (...), mas, por
conseguinte, o trabalho de entendimento do design é produzir ferramentas teóricas –
palavras, conceitos e explicações, teorias – que sejam mãos apropriadas para
descrever a sua própria realidade, uma realidade que pode ser fixa e tomar forma
aplicada ao seu funcionamento (CALVERA, 2006, p. 108).
A Epistemologia do Design é proposta como “o design enquanto pesquisa ou a
pesquisa pelo design”, que levaria a formulação de “de uma teoria satisfatória para as
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atividades produtivas e estéticas” (CALVERA, 2006, p. 110). Para tanto, teriam que ser
respondidas questões fundamentais: “Que tipo de conhecimento o surge durante o processo de
design?”; “Que tipo de conhecimento só poderia ser alcançado pelo processo de design?”; e
“O que se aprende enquanto se está projetando?” (CALVERA, 2006, p. 110).
Cross (2004, 2007) considera que a preocupação da pesquisa no campo do Design
deve estar no desenvolvimento, na articulação e na comunicação do conhecimento projetual.
Quanto a sua natureza, a pesquisa em design não difere das demais áreas, devendo ser
propositiva, inquisitiva, informada, metódica e comunicável. A sua especificidade está na
natureza do seu objeto que é o pensamento projetual, que deve ser investigado em pessoas
(que projetam), em processos (táticas e estratégias de projeto) e em produtos (formas,
materiais e acabamentos). A partir desses elementos, propõe uma taxonomia da pesquisa no
campo do Design, com três principais categorias: Epistemologia do Design, Praxiologia do
Design e Fenomenologia do Design. Por Epistemologia do Design, entende os estudos dos
seus modos de saber, ou seja como as pessoas projetam, como aprendem a projetar, e como
essa habilidade pode ser desenvolvida pela educação. A Praxiologia do Design é definida
como o estudo dos processos de projeto, envolvendo investigações no campo da metodologia
projetual, que incluem o “desenvolvimento e a aplicação de técnicas que assessorem o
desenhador” (CROSS, 2004, p. 159). A Fenomenologia do Design corresponde ao estudo dos
conhecimentos presentes nos produtos, industriais e artesanais. Envolve estudos de
morfologia, com implicações para a semântica e para a sintaxe da forma.
Classificando a(s) pesquisa(s) em Design(s)
Neste trabalho, o Design é considerado como uma atividade projetual que intervém na
realidade, afetando a vida em sociedade e o meio-ambiente, voltada para a construção do
futuro, articuladora de saberes científicos, tecnológicos e artísticos. A ênfase do Design está
na concepção da interface entre um sistema técnico e as pessoas para as quais se destina. Os
limites de materialidade, dimensionalidade e funcionalidade, perdem sua relevância no nível
estratégico da ação do designer, embora mantenham a importância em um nível operacional.
Para desenvolver a estrutura conceitual necessária para classificar a Pesquisa em
Design foram adaptadas idéias de Calvera (2006) e de Cross (2004, 2007), consideradas
complementares e passíveis de articulação. A despeito de diferenças decorrentes de seus
fundamentos teóricos, as semelhanças e afinidades são exploradas neste trabalho. Com essa
perspectiva, pode-se definir a pesquisa no campo do Design como uma investigação
sistemática relativa aos modos próprios de pensar (Epistemologia do Design, segundo Cross)
e de agir (Praxiologia do Design, segundo Cross); sobre insumos necessários para a sua
prática (Pesquisa através do Design, segundo Calvera); sobre os seus resultados em produtos
(Fenomenologia do Design, de Cross) e cultura material e ideacional (Pesquisa sobre Design
ou Fenomenologia do Design, segundo Calvera).
Considerando esses tipos possíveis de pesquisa na área do Design, e tendo em vista
que o Design é, ou pode ser, objeto de pesquisa de outras áreas, é cabível sugerir uma
classificação dos conhecimentos relativos ao Design que permita analisar a pesquisa na área,
respeitando a sua complexidade (Figura 1). O primeiro tipo de conhecimento refere-se ao
conhecimento necessário para a prática, já buscado pela Hochschule für Gestaltung Ulm, ao
estabelecer bases científicas para o seu ensino. Esse tipo de conhecimento, para o design, é
proveniente de outras áreas, não necessariamente interessadas com o Design, na sua origem.
O segundo tipo, conhecimento sobre o design, é produzido no interior e no exterior da área do
Design e refere-se aos aspectos históricos e à crítica (em todas as suas dimensões: estética,
filosófica, econômica, ambiental, etc). O terceiro tipo de conhecimento é o específico do
Design e decorre da reflexão e de estudos sobre a sua prática, nos níveis dos indivíduos e dos
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processos. O quarto tipo, proposto como possibilidade, refere-se às contribuições do Design
para a compreensão da realidade. A Figura 1 apresenta a proposta de classificação, com as
referências de suas fontes.
Tipos de
conhecimento
Conhecimento para o
Design
Descrição
Contribuições de
outras áreas para a
prática do Design
Conhecimento sobre o
Design
História e crítica do
Design
Conhecimento de
Design
Conhecimento
específico do Design
(teorias, modos de
pensar e de produzir)
Conhecimento pelo
Design
Conhecimento a partir
do Design
Fontes
Calvera (2006)
Cross (2004, 2007)
Pesquisa através do
Design
Pesquisa sobre Design
ou Fenomenologia do
Design
Fenomenologia do
Design
Epistemologia do
Design
Praxiologia do Design
Epistemologia do
Design
Figura 1 Tipos de conhecimento na pesquisa em Design
Essa taxonomia permite classificar a produção de diferentes áreas em função da
contribuição que pode ter para a construção do corpus teórico do Design. Pode-se classificar
como pesquisa para o Design toda a produção de conhecimento externa que é destinada a
problemas de projeto. Na pesquisa sobre Design encontram-se as vertentes internas e
externas de investigação sobre o campo, tanto na dimensão dos produtos de sua ação, como
nas visões de Fenomenologia do Design de Cross e de Calvera, como nos estudos sobre os
efeitos sociais, culturais e econômicos desse campo. Na pesquisa de Design se concentram as
investigações de natureza autóctone sobre as suas práticas e teorias com fins de enriquecer sua
Teoria e suas práticas; é o espaço de design do design, um processo contínuo e iterativo de
alimentação do corpus do Design. A pesquisa pelo Design está colocada como uma
possibilidade de constituição do Design em um campo de explicação e reflexão da realidade,
tal como as Ciências e as Artes. A representação em círculos e coroas circulares na Figura 2 é
uma tentativa de descrever a relação entre os tipos de pesquisa; provavelmente um modelo
tridimensional e dinâmico seria mais adequado.
9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Uma taxonomia para a Pesquisa em Design
Figura 2 Tipos de pesquisa em Design
Considerações finais: pesquisa para/sobre/de/pelo Design
A relação entre pesquisa e Design sempre foi muito estreita, considerando-se pesquisa
como “investigação sistemática cuja meta é o conhecimento” (ARCHER, 1980, apud CROSS,
2004). A pesquisa como parte do processo de Design, esteve presente no currículo da
Hochschule für Gestaltung Ulm e além de “permitir ao design trabalhar com base em dados
seguros” também “permitiu ao design a chance de ir além do conhecimento da manufatura”
(CALVERA, 2006, p. 102). Contudo esse tipo de pesquisa tem um caráter aplicado,
destinado à solução de problemas, mas não à compreensão dos fundamentos de uma
disciplina. O Design evoluiu de uma profissão especializada a uma área de conhecimento por
meio da reflexão sobre a sua prática e da abertura de novos nichos e níveis. A redução da
pesquisa em Design à pesquisa realizada no projeto é hoje uma simplificação inaceitável. Por
outro lado, não reconhecer a contribuição do conhecimento gerado no desenvolvimento de
projetos que mudam a realidade, constroem novas visões do mundo, oferecem novas
experiências às pessoas e soluções para problemas sociais, pode ser uma simplificação
equivocada do que é produção de conhecimento.
A opção de usar em subtítulos deste artigo “design(s)” e “pesquisa(s) em design(s)”
reflete uma concepção múltipla e dinâmica do que é o Design. A ampliação do seu escopo
não permite uma visão restrita aos domínios profissionais classicamente definidos; embora
esses subsistam e sejam ampliados pela delimitação de novos domínios, existem espaços
difusos onde a aventura criativa da espécie humana reconstrói continuamente o mundo natural
e cultural em que vivemos. É necessário entender o Design a partir de sua natureza, ligada a
problemas instáveis e mal estruturados e à produção de sentidos (BUCHANAN, 1995
KRIPPENDORFF, 2005).
Sob alguns aspectos, a taxonomia proposta apresenta fragilidades que indicam a
necessidade de um avanço e aprofundamento. No caso da pesquisa para o Design, existem
conhecimentos que são utilizados pelo Design e cuja origem não tem qualquer relação direta
ou indireta com possíveis aplicações no projeto, isso vale para muitos casos. Outras
possibilidades como pesquisa aplicável ao Design ou pesquisa de interesse para o Design
são também inadequadas, por motivos semelhantes, e têm da desvantagem de quebrar a idéia
a um tempo simplificadora e mnemônica de poder falar de pesquisa para/sobre/de/pelo
Design, que é uma forma de sintetizar a idéia de sua complexidade.
9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
Uma taxonomia para a Pesquisa em Design
Notas
1
Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil: busca por Design, na Grande Área Ciências
Sociais Aplicadas e Área Desenho Industrial (CNPq, 2010)
2
CAREGNATO, C. E.; OLIVEIRA, R. P. de (Org.). Pesquisa e conhecimento em
instituições universitárias do Rio Grande do Sul: literatura, educação, direito e design.
Porto Alegre: UniRitter, 2009.
3
Adotada para nomear a profissão definida por Redig (1977, p. 32) como o “equacionamento
simultâneo de fatores ergonômicos, perceptivos, antropológicos, tecnológicos, econômicos e
ecológicos no projeto dos elementos e estruturas físicas necessárias à vida, ao bem-estar e/ou
à cultura do homem”.
4
O uso de Design (com D maiúsculo) ou design (com d minúsculo) visa distinguir a área de
conhecimento, no primeiro caso, de outros sentidos, no segundo.
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9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design
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