ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 ORALIDADE E CINEMA: O DITAME DA VOZ, NO DOCUMENTÁRIO DO CINEASTA OLNEY SÃO PAULO. Francisco Gabriel Rego(UNEB)1 1. INTRODUÇÃO Para Nelson Pereira dos Santos, o documentário O ditame do rude Almagesto: sinais de chuva (1976) é um dos pontos marcantes da obra do Cineasta Olney São Paulo. Em suas palavras, ao ver o curta metragem, “era capaz de imaginá-lo de chapéu de couro, no raso da caatinga, conversando com os ventos, para saber de onde vêm e para onde vão”. Nas palavras do cineasta paulista acerca do amigo feirense, encontra-se uma imagem interessante para o curta metragem, “uma conversa com o vento”, de modo a se tentar prever o que no sertão é mais imprevisível: a chuva. Nessa perspectiva, o “Almageto”, palavra árabe para designar “O maior” e uma possível referência ao tratado astronômico de Ptolomeu, é um modo de apresentar o “rude” ofício do sertanejo de vaticinar o tempo e de se relacionar com a natureza. Olney São Paulo teve como ponto inicial em sua carreira as publicações jornalísticas, assinando colunas de cinema, em periódicos feirense, como “O Coruja”, onde pode envolver-se nas principais discussões no Clube de Cinema da Bahia – CCB, liderado por Walter da Silveira, e integrada por jornalistas, intelectuais, artistas, professores, estudantes e outros profissionais entusiastas do cinema. O chamado Ciclo baiano de cinema, possibilitou a efervescência no cenário regional, com produções que possibilitariam a jovens cineastas a enveredarem em suas realizações. Não foi diferente com Olney São Paulo, que, após experiência em algumas produções, como Um crime da rua (1955), Mandacaru Vermelho (1961) e O caipora (filmado em 1962), lançar-se-ia, em 1963, na produção autoral, no filme Grito da terra - adaptação do livro do escritor feirense Ciro de Carvalho Leite. Centrada nos aspectos sociais que marcam a construção do sertanejo, a obra vincula-se claramente ao ideário do Mestrando em Crítica Cultural pelo Pós-Crítica (uneb). É pesquisador bolsista pela FAPESB - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia. 1 1 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 cinema novo, na busca por uma identidade nacional, buscando lançar um olhar sensível às questões fundamentais do espaço rural brasileiro, como o latifúndio, a luta pela terra, a reforma agrária e os movimentos sociais como as ligas camponesas. É dentro das características do Cinema Novo que se situa a “Voz” de Olney São Paulo, surgida diante das produções que, nos anos de 1963 e 1964, também trataram do sertão: Vidas Secas, produção de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na terra do sol, segundo longa-metragem de Glauber Rocha e Os fuzis, dirigido por Ruy Guerra. Assim como na obra de Olney, encontra-se nesses filmes a tentativa de apresentar um modo de vida específicos da comunidades, os hábitos e as contradições do povo nordestino, para o Brasil e para mundo: [os] traços antropológicos e sociológicos do sertão vão ressurgir nas bases das construções literárias e cinematográficas modernas, quando criam os novos tipos de tradição ‘regionalista’ com os personagens migrantes, a seca, a violência, o cangaço e o messianismo nas imagens motoras da invenção da identidade regional nordestina, como o único ‘regionalismo’ a ultrapassar as fronteiras e unir intelectuais e políticos de regiões diferentes. (NOVAES ,2005, p. 14) No curta metragem O ditame de Rude Almajesto: sinais de chuva (1976), Olney busca reconstituir por meio do documentário a memória popular sertaneja e saberes transmitidos entre gerações. No documentário, encontra-se alguns dos modos tradicionais narrados por alguns dos personagens que dispõem de artifícios para prever a chegada da chuva. Ao abordar o cotidiano da comunidade de Riachão do Jacuípe, o cineasta faz um recorte espacial e especifico, mostrando as características especais que fazem daquela comunidade uma parte do sertão. Outro aspecto fundamental, é a reconstrução do imaginário popular do sertanejo habitante de uma terra onde a superação dos “ditames” da natureza é a único caminho. Nesse sentido, o cineasta busca apresentar os aspectos orais que marcam o povo nordestino, se utilizando do “imaginário popular relacionados à chuva e preservados na oralidade, buscando reconstituir a crônica literária e o cancioneiro nordestino” (NOVAES, 2010, p.7). 2 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 2 APRESENTAÇÃO DAS VOZES São encontradas no filme quatro tipos de vozes que nos são apresentadas tendo em vista suas funções, são elas: um voz em off, a voz atribuídas ao três narradores que contam as técnicas utilizadas pelos moradores da região de Riachão do Jacuípe; o leterring inicial, que faz referência a obra do escritor feirense Eurico Alves Boaventura, e que é apresentada ao início do curta metragem; Uma voz apresentada na música cantada por Luís Gonzaga, música composta por Zé Dantas; e imagens que circunscrevem aquela história dentro do espaço Sertanejo. 2.1 Analise das vozes As vozes dos sertanejos são apresentadas em off, influenciado sobretudo por recursos sonoros da época que não permitiam uma capitação de alta qualidade. Podemos identificar uma falta de sincronia entre as vozes e as imagens, o que é superado pela opção de mostrar esses narradores dentro do seu espaço. É dessa forma que os personagens são sempre apresentados de modo a se fazerem presentes como personagens ativos, que buscam transformar o espaço adverso do sertão. Seus ofícios, como o da previsão da chuva, são apresentados como uma tentativa de transformar às adversidades proporcionadas pelo espaço. O homem é apresentado dentro da visão bastante utilizada pela literatura e pelo próprio cinema, como a do confronto entre a natureza, na luta do homem de adaptar e transformar seu espaço. Mais do que apenas sujeitos lançados ao “ditame” da natureza, o homem é aquele que, mesmo se utilizando de artifícios contestáveis, busca vencer as adversidades que lhe é imposta. Nos Planos Gerais, podemos sempre encontrar o homem imerso nessa paisagem, sendo raro as vezes em que o campo é apresentado sozinho. O homem é aquele que dá sentido ao espaço, e sem o homem nada daquilo faz sentido: o gado minguado é o objeto da labuta, bem como a terra plantada pelo 3 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 homem. As crianças ocupam os espaços da casa e a família é a melhor referência para obrigação de cuidar, persistir e vencer na terra que pertence ao homem desde sempre. As imagens apresentadas nos filmes dizem respeito ao que está sendo dito por esses narradores. Por vezes podemos observar as imagens como uma instância imaginativa dos desejos dos sertanejos em vaticinar acerca do tempo. A narração oral é ponto fundamental para a escolha das imagens. Parece que o autor se utiliza do cinema como meio de afirmação da oralidade, utilizando as imagens como uma representação da tradição. A luta entre o homem e a natureza é apresentada diante da prática de se prever a chuva pela voz desses personagens, sendo a voz a melhor explicação para as sucessões de imagens que descreve o espaço sertanejo. Os personagens são assim os porta-vozes de uma tradição centrada na voz, que tem, na adaptabilidade à realidade adversa, o espaço de construção simbólica que alimenta as mais diversas técnicas para se prever a chuva. Observo ainda que essa voz tradicional está expressa também no letering, referência a crônica do escritor feirense Eurico Alves Boaventura, bem como no título que nos é apresentado ao som de Luís Gonzaga. Nesse ponto, parece existir também uma busca por uma anterioridade, apresentando o filme com uma continuidade de um processo já iniciado, marcado pela escrita e pela literatura. Nesse quesito, é importante ressaltar a importância da literatura para obra de Olney São Paulo, que atuou tanto na literatura quanto com o jornalismo. Dentro da perspectiva da oralidade mediatizada exposta por Zumthor, não posso deixar de fazer referência ao caráter sintético dessa obra, ao buscar juntar as diferentes vozes, buscando uma expressão que desse conta tanto dos problemas inerentes à tradição sertaneja quanto do seu tempo. É nessa perspectiva que observo o uso a voz em off como solução aos problemas de capitação e sincronização do áudio comum no período. Olney São Paulo faz uso de uma capitação que privilegia as vozes dos entrevistados, construindo um mosaico de imagens tendo a voz como elemento prevalente. A voz relaciona-se com as 4 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 cenas, construindo sequências costurada pelas vozes dos narradores. As imagens seguem a ordenação dessas vozes. O documentário de Olney São Paulo traz características da tipologia observativa definida por Bill Nicholls (2005), sobretudo pelas vozes masculinas que compõem a apresentação, que servem de base para a construção das imagens. A sensação de credibilidade das vozes é alcançada pela aproximação dessas com a voz tradicional, síntese da memória coletiva dos sertanejos. Podemos aproximar ainda o curta metragem com as características do documentário poético, já que o filme busca abordar tipos sociais, despersonalizados como sujeitos possuidores de uma identidade específica. Isso ocorre, pois, os personagens abordados pelo cineasta, mais do que seres possuidores de uma subjetividade, são representantes de um saber que extrapolam a si, porta vozes de um saber tradicional que encontra na oralidade as possibilidades de transmissão das técnicas para se prever a chuva. 3. A voz da tradição Nesse aspecto, tanto a voz tradicional quanto a constituída por imagens constroem a ideia de um personagem ou de uma paisagem, que estariam sempre presentes como elemento interno ou externo à obra. Por suscitar um corpo, um sujeito enunciador, a voz relaciona-se de imediato com a forma do corpo, nos possibilitando percebê-las como elemento trabalhado na relação entre o corpo, ambiente e cinema. Assim sendo, associar a fala dos personagens com o ato de falar é, de certa maneira, voltar-se para a “vocalidade”, demonstrando que, não só da voz, o sujeito é constituído, mas buscando relacioná-lo com o espaço onde a fala se desenvolve, ligando o que é dito com o que é falado. Por exemplo, no curta metragem são poucas as vezes em que ocorre uma ligação entre quem fala e o que está sendo visto. Parece existir nesse caso uma predileção pela voz em detrimento as imagens do ambiente bem como ao corpo enunciador do discurso. A paisagem é apresentada tanto como fala, de modo a indicar que as vozes estão mais relacionadas com o espaço do que com os 5 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 personagens. Quando os personagens são apresentados são colocados juntos da paisagem, e é a voz o elemento que liga cada daqueles personagens com o seu ambiente. Os personagens são apresentados como figuras gerais, personagens comuns ligado a um espaço. Pode-se dizer de um esvaziamento dessas personalidades para construírem sujeitos sociais preponderantemente ligados ao espaço, suas práticas, suas características, sabedoria e tradição. A voz ganha então uma conotação importante, o de ser porta voz de um modo de vida típico e de um conhecimento dito tradicional. Assim as imagens apresentadas são evocadas através das explicações dadas pelos narradores acerca das técnicas para se prever a chuva, reforçando o papel criador das vozes na construção visual do filme. Dessa forma, a voz expressa no filme duas dimensões temporais, o passado tradicional, marcado pelo saber das comunidades sertanejas, e a voz do filme, expressada na forma de falar do filme. Duas vozes estariam em jogo: “as vozes de dentro do filme”, do dizer dos sertanejos, apresentadas juntamente com a descrição do sertão, e a voz ligada ao discurso do filme. A Oralidade escrita em mídias, como o cinema, guarda semelhança com outras oralidades onde ocorre a reprodução da voz de autoridade que nas palavras de Zumthor (2005) “não difere da antiga, a não ser por algumas de suas modalidades” (p.28). As vozes mediatizadas são vistas como disfarce de uma estrutura primeira, referência de um passado vivo na oralidade poética. Nessa voz mediatizada, estaria expresso nos pressupostos que fazem da oralidade portadora de uma poética centrado na voz com uma forte ligação com o contemporâneo, por meio da atuação dos seus interpretes. Uma das características conservadas na oralidade mediatizada é a presença da voz de autoridade, como nos casos de documentários ou mesmo das narrativas ficcionais. Para tanto, deve-se observar que a voz de autoridade é representada, sendo fundamental que essa seja em uma relação com o seu tempo, tendo sua autoridade também afirmada por meio dos aparatos tecnológicos o seu “status de poder”. 6 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 “As mídias restituíram, à língua das mensagens que transmitem, sua plena função impressiva através das mensagens que transmitem, sua plena função impressiva através da qual o discurso crítico, ordena ou proíbe, oprime com todo o peso a intenção do outro, a sua própria situação, para ativar nele as molas de uma ação” (Zumthor,1997, p.28) As mídias criam um discurso unívoco, cuja criação coletiva é, de certa forma, menor do que na oralidade tradicional. O cinema como uma voz mediatizada, não possibilita respostas imediatas de quem ver ou ouve, diferenciando-se, por completo, do conceito de performance presente nos textos da oralidade tradicional. Assim como as vozes tradicionais, as mediatizadas são “despersonalizadas”, inserindo-se dentro de outra ideia de coletividade diferente da voz tradicional. É assim que Zumthor trata de uma “hipersosialidade” ao falar de uma sociedade mediatizada profundamente sintética: (...) a socialidade que, no cotidiano da existência, alimenta a voz viva, transmuta-se em hipersocialidade circulando nas redes de telecomunicação, constitutivas de um vínculo coletivo: sociabilidade de síntese, agindo sobre elementos separados e fragmentados dos grupos estruturados tradicionais. ” (Zumthor,1997, p.29) Outra diferença entre a oralidade tradicional e a mediatizada é a forma como essas novas oralidades se relacionam com o tempo e com o espaço na performance. Se na Oralidade tradicional, a performance ocorre por meio de variáveis influenciadas pelo tempo e espaço de execução, na oralidade mediatizada, podemos encontrar outros valores capazes de construir sua expressividade, que se assentam no tempo e no espaço, porém referenciando-se a uma outra temporalidade e espacialidade, incorporando outras variáveis, tais quais: o investimento financeiro no projeto, o espaço onde será veiculado, as tecnologias disponíveis para realização, bem como as novas formas de produção e roteirização. Nesse aspecto, Zumthor diferencia a oralidade primaria daquela decorrente da expressão da voz tradicional, marcada pela performance e por uma 7 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 ideia de “impermanência”, de uma oralidade secundaria, “escritura dissimulada”, marcada um certo sentido de permanência. O cinema se enquadraria dentro do conceito de oralidade secundária apresentado por Zumthor: “Em regime de oralidade secundária, a escritura dissimula, sem muito sucesso, essas franquezas. A oralidade mediatizada assegura a exatidão e a permanência, à custa de uma submissão à quantidade e aos cálculos dos engenheiros” (Zumthor,1997, p.30) A voz da mídia, a voz do cinema, assim como outras vozes produzem também o efeito de agregação de pessoas. Muito embora, esse poder de agregação pareça diferente, quando comparado às performances orais tradicionais, nessas oralidades secundárias, esse poder de agregação é também determinante para a expressão e construção de um texto oral ligado às mídias, criando comunidades orais diferentes das tradicionais. 5. CONCLUSÃO Observar o texto fílmico pela ótica da oralidade não é diminuir o aspecto visual da obra, mas compreender que o filme, como um texto dotado de vários outros elementos, carrega um traço de oralidade. Pensar a oralidade no cinema não é restringir-se somente a percepção da banda sonora do filme, mas perceber que, em seu conjunto de elementos, o filme expressa uma oralidade. Dessa maneira, não somente “pela” oralidade o filme se apresenta, mas “por causa” da oralidade que o filme constrói. A oralidade no filme, como em qualquer texto, parece transpor a simples relação de som, marcado pela presença da voz, mas se expressa no mesmo espaço onde o silêncio se faz presente, sendo, por vezes, uma forma de “voz” muito mais audível do que qualquer ruído. Nessa perspectiva, o filme carregaria uma oralidade de cujo “rumor” guarda relação com “a própria voz que carrega”, e que, segundo Zumthor, é fundamental uma escuta específica para o que o autor chamaria de Índice de Oralidade: 8 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 Por índice de Oralidade entendo tudo o que, no interior de um texto, informa-nos sobre a intervenção da voz humana em sua publicação – quer dizer, na mutação pela qual o texto passou, uma ou mais vezes, de um estado virtual à atualidade e existiu na atenção e na memória de certo número de indivíduos” (Zumthor, 2001, p.35). Na ideia de texto dito por Zumthor, estaria expresso as diversas transformações vividas pela voz dentro da oralidade, no transito para a escrita e, por conseguinte, para o audiovisual. No texto, encontramos os traços das transformações vividas pela oralidade em diversos momentos, marcas de transformações das formas de contar, de dizer e de narrar. A voz no filme pode ser percebida em vários aspectos, podendo ser vinculada à expressão de um corpo na voz de um personagem, no seu gestual, no seu olhar; podendo ser compreendida, inclusive, na paisagem, diante da “voz” descritiva que mesmo silenciosa expressaria o espaço (ZUMTHOR IN DÖPPENSCHMITT, 2005). O cineasta, no curta metragem, optou pela construção de uma narrativa fílmica tendo por base à oralidade, construindo um documentário que buscasse expressar os desejos inerentes às vozes tradicionais. Em vários momentos o filme constrói sequências de imagens que dialogam com o que está sendo dito pelos narradores, se colocando, por vezes, como uma instância imagética dos desejos e alentos dessas comunidades. Nesse ponto, acredito que o cineasta tenha feito uma clara opção pela voz ao construir uma narrativa que tenha como prevalente a oralidade sertaneja como porta voz de um saber tradicional. Na obra de Olney São Paulo, situo o filme como uma tentativa de expressão das vozes que permanecem à margem, apontando o cinema como um instrumento construção indenitária, capaz de dialogar com o passado e o futuro. Dentro das ideias básicas do cinema novo, o cineasta evidencia o poder de registro que o cinema pode ter., Contudo, mais do que um registro de pesquisa, o cineasta constrói um “mosaico poético” dos desejos dos sertanejos, uma espécie de alento ante os ditames da natureza. Ao narrar seu conhecimento, “somos” apresentados aos limites dos sertanejos diante do jogo diário de prever o 9 ANAIS DO VI SENALIC – TEXTOS COMPLETOS | ISSN – 2175-4128 Organizadores: Carlos Magno Gomes; Ana Maria Leal Cardoso; Maria Lúcia Dal Farra São Cristóvão: GELIC, Volume 06, 2015 imprevisível, de se criar por meio daquilo que se conta, de se narrar por meio de seus dilemas e limitações. Assim como todos os falantes, os viventes e os sertanejos, o cineasta pensa o cinema como resultado de uma articulação entre o tradicional e o moderno, buscando afirmar o tradicional como elemento próprio do cotidiano, pressentes em temas como o espaço urbano, o papel do artista no seu tempo, o próprio limite da arte de representar seu tempo, seu espaço, e a construção de um cinema que centrasse sua voz no sertão e para além dele. REFERÊNCIAS ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997. ______. A letra e a voz. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Primeira Reimpressão, 2001. NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papiros editoras, 2005. DÖPPENSCHMITT, M. S. K. V.; SILVA. Um estudo da performance da oralidade no cinema: registros da voz na linguagem documental. São Paulo: PUC-SP, 2005 NOVAES, Claudio Cledson. Aspectos Críticos da Literatura e do Cinema na obra de Olney São Paulo. Salvador: Quarteto, 2011. ______. Jean Rouch, Pierre Perrault, Olney São Paulo discursos em diálogo no documentário cinematográfico. Revista Litteris, Número 6, Novembro de 2010 RIOS, Dinameire Oliveira. Olney São Paulo e a produção nacional-popular em 1950/1960. Revista Letrando, v. 2 jul./dez. 2012 ROCHA, Glauber. Revolução do cinema novo. São Paulo: Cosac & Naify: 2004 10