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A PESSOA COM EPILEPSIA E O MERCADO DE TRABALHO
THE PERSON WITH EPILEPSY AND THE LABOR MARKET
Adaliany Darly Fernandes Cardoso
Enfermeira. Graduada pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG.
Neila Maria de Morais Pinto
Enfermeira. Especialista em Saúde Pública. Especialista em Ativação de Processos de Ensino na
Formação Superior de Profissionais da Saúde. Docente do Curso de Enfermagem do Centro
Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG.
RESUMO
O trabalho ocupa lugar central na dinâmica da sociedade moderna. Dessa forma, os controles
culturais desfavoráveis ao ajustamento social do epiléptico dificultam-lhe o acesso ao mercado de
trabalho e, portanto, a estabilidade social, contribuindo para seu isolamento e favorecendo
consequentemente a existência de patologias psicossociais. A epilepsia ainda carrega grandes mitos,
tabus e preconceitos, dificultando assim a vida de pessoas que enfrentam esse problema de saúde.
O objetivo da pesquisa foi conhecer como ocorre a inserção de pessoas com epilepsia, na sociedade
em especial no âmbito do trabalho. Trata-se de um estudo do tipo descritivo com abordagem
qualitativa. A coleta de dados foi realizada com as pessoas com epilepsia que freqüentam a
Associação de Portadores de Epilepsia (AAPE) do município de Ipatinga/MG. Como instrumento foi
elaborado uma entrevista semiestruturada contendo perguntas que caracterizavam as dificuldades
enfrentadas pelas pessoas com epilepsia na tentativa de inserção no mercado de trabalho ou mesmo
no convívio social. Os resultados obtidos no presente estudo demonstram que grande parte dos
epilépticos sofre ou já sofreram algum tipo de exclusão social dificultando assim as condições de vida
dos mesmos é até de seus familiares.
PALAVRAS-CHAVE: Epilepsia. Trabalho.
ABSTRACT
The work plays a central role in the dynamics of modern society.Thus, cultural controls unfavorable
social adjustment of epileptic hinder him access to the labor market and thus social stability,
contributing to their isolation and thus favoring the existence of psychosocial dysfunctions.
Epilepsy still carries great myths, taboos and prejudices, thus hindering the lives of people who face
this health problem. The research objective was to learn through stories of people with epilepsy,
difficulties in integration into society especially in the work. This is a descriptive study with a qualitative
approach. Data collection was performed with epilepsy who attend the Association of People with
Epilepsy (EPAA) of Ipatinga / MG. Instrument was developed as a semistructured interview containing
questions that characterized the difficulties faced by epileptic in trying to insertion in the labor market
or in social life. The results of this study show that most epileptics suffering or have suffered some
kind of social exclusion, making it hard living conditions of those is up and their families.
KEY WORDS: Epilepsia. Work.
INTRODUÇÃO
A palavra epilepsia é de origem grega e significa “ser tomado”. Esse nome
surgiu devido à patologia ser vista pela sociedade daquela época como sendo de
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causa demoníaca ou espiritual, até antes de relatos definidos por Hipócrates,
afirmando que epilepsia se tratava de uma doença do cérebro e não estava
relacionada com espíritos (MIN, 2004). Somente no século XIX, pode-se estabelecer
que “epilepsia é uma descarga elétrica anormal do tecido nervoso”, conclusão
definida pelo médico John Huglins Jackson, e usada até hoje pela classe científica
(SCOTT, 1993).
A partir de então a epilepsia passou a ser vista como uma doença neurológica
grave, crônica, porém comum, não é considerada uma doença contagiosa nem
mental. Por um curto espaço de tempo, parte do cérebro deixa de funcionar de
maneira habitual e passa a enviar descarga elétrica incorreta ao restante do sistema
nervoso. Devido a essas modificações a Pessoa Com Epilepsia (PCE) apresenta
alterações comportamentais súbitas, as chamadas “crises epilépticas”, que tendem a
se repetir por toda sua vida (GOMES et al., 2006).
Essas crises podem decorrer espontâneas ou secundárias a situações como:
alterações vasculares, distúrbio eletrolítico, intoxicação, doenças degenerativas,
febre. Seu início pode ser derivado ainda por um forte golpe na cabeça, abuso de
álcool, drogas, infecção no cérebro, a causa pode estar ligada ainda a circunstâncias
ocorridas antes do nascimento ou durante o parto. Na maioria dos casos tem
etiologia desconhecida. O diagnóstico de epilepsia é clínico. O médico deve avaliar
todos os aspectos de saúde do paciente, a procura de descobrir a natureza das
crises, informações a respeito do que antecede, durante e depois a crise são de
grande valia (JESUS; NOGUEIRA; OLIVEIRA , 2007).
Apesar das decorrentes crises serem transitórias, o indivíduo diante da
imprevisibilidade das mesmas, sente-se incapaz de administrar sua própria vida,
podendo apresentar alterações psíquicas e dificuldade de relacionamento consigo e
com a sociedade, além de tornar-se dependente de terceiros, fazendo assim com
que se sinta inseguro e com extremo medo da morte (FERNANDES et al., 2001).
Segundo estudos que retratam a epilepsia, constata-se que a decorrência de
crises leva a múltiplas formas de exclusão e controle social das pessoas que vivem
com epilepsia. Mitos, preconceitos, estigmas se fazem presente na sociedade, o que
afeta negativamente a qualidade de vida dessas pessoas e de seus familiares
(FERNANDES et al., 2004). O preconceito é a queixa principal de pessoas com
epilepsia perante a sociedade, que ainda se alimenta de estigmas, tornando a vida
desses mais difícil do que viver com as limitações físicas impostas pelas crises e
tratamentos. Assim, este fator contribui para baixa autoestima desses indivíduos os
levando a sentimentos de inferioridade e até mesmo, uma possível depressão
(GUERREIRO, 2004).
São escassas as publicações sobre as ações de enfermagem para os
indivíduos com epilepsia. No entanto, é de responsabilidade da equipe de saúde,
incluindo a enfermagem, oferecer esclarecimentos a população sobre a doença,
seus aspectos clínicos e cuidados com as pessoas que possuem essas
necessidades, colaborando na elaboração de políticas públicas de saúde mais
adequadas e que favoreçam a inserção de pessoas com epilepsia na sociedade
como um todo. A participação de enfermeiro treinado no atendimento das PCE é
atualmente estimulada com destaque principal em prover informações,
aconselhamento, suporte e coordenação da atenção entre os níveis primários e
secundários (KEDE; MULLER; GOMES, 2008).
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Assim, justificam-se o desenvolvimento de pesquisas com esta temática no
intuito de colaborar para diminuir mitos, tabus, preconceitos e discriminação, em
especial os encontrados no âmbito do ambiente de trabalho, contribuindo,
parcialmente, para o conhecimento das questões que envolvem pessoas com
epilepsia.
Deste modo, este estudo objetivou identificar a visão de pessoas com
epilepsia sobre sua inclusão na sociedade e os fatores que interferem na
inserção/participação no mercado de trabalho, contribuindo para o conhecimento
das questões que envolvem esta parcela da população.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo do tipo descritivo com abordagem qualitativa. Foram
considerados como critérios de inclusão pessoas com epilepsia que frequentam a
Associação de Apoio a Portadores de Epilepsia (AAPE), no município de IpatingaMG e que fossem maiores de 18 anos de idade.
Na AAPE os participantes recebem apoio psicológico, para direcionamento de
muitos que ainda estão em período de descoberta da doença. São realizadas
reuniões semanais com o grupo, onde se motiva os mesmos a procurarem por um
espaço na sociedade, além de capacitá-los para enfrentar a luta incessante do
cotidiano, que inclui a busca de inserção no mercado de trabalho. No período da
coleta de dados, maio a junho de 2010, a AAPE contava com cerca de 500 pessoas
cadastradas, porém 76 pessoas associados participavam freqüentemente das
reuniões divididos em grupos de aproximadamente 20 participantes por reunião.
O projeto de pesquisa foi aprovado pela Associação de Apoio a Portadores de
Epilepsia do município de Ipatinga–MG através da assinatura do Termo de
Autorização para Realização da Pesquisa.
Para a coleta de dados a pesquisadora se dirigiu à AAPE no horário das
reuniões semanais, abordando as pessoas com epilepsia explicando-lhes o objetivo
da pesquisa, assim como sua participação voluntária na mesma. Após a assinatura
no termo de consentimento livre e esclarecido as entrevistas foram realizadas com
as pessoas que compreenderam os procedimentos do estudo e manifestaram
desejo de participar. Pelas características do método qualitativo de pesquisa, a
mostra foi sendo definida pelo grau de saturação teórica das categorias
estruturadas. Participaram do estudo 10 destes associados.
Como instrumento para a coleta de dados, aplicou-se um roteiro de entrevista
de autorelato estruturado contendo perguntas que revelam como ocorre a inserção
de pessoa com epilepsia ao buscar oportunidade no mercado de trabalho.
As entrevistas foram aplicadas em uma sala disponibilizada dentro do espaço
físico da própria Associação, com horário agendado e adequado ao tempo do
entrevistado, sendo gravadas em aparelho digital adequado a esta função. Cada
pessoa foi abordada uma única vez, com tempo aproximado de 10 minutos para
duração do encontro.
Para análise dos dados, inicialmente foi realizada a transcrição dos relatos,
leitura minuciosa e repetida das respostas obtidas, selecionadas as informações
relevantes para o estudo, destacadas as idéias centrais. A partir da análise e
interpretação dos dados, estabeleceu-se uma relação entre a visão dos pesquisados
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e o referencial teórico que geraram duas categorias de discussão: como a sociedade
me vê sendo epiléptico e a inserção do trabalhador com epilepsia no contexto de
trabalho. Como garantia de preservação do anonimato dos participantes, os mesmos
foram identificados através da letra “P” de Participante acrescido de um número
seqüencial. Esta pesquisa contemplou a Resolução 196/96 do Conselho Nacional
em Saúde que regulamenta pesquisa com seres humanos (BRASIL, 2006).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados de caracterização da amostra estão apresentados na TAB.1.
Verificou-se que 6 dos participantes eram do sexo masculino e 4 do sexo feminino.
Estes resultados, estão em concordância com Guerreiro et al. (2000) que referem
discreta predominância da epilepsia no sexo masculino em relação ao sexo
feminino.
TABELA 1 - Caracterização dos participantes da pesquisa. Ipatinga, MG, 2010.
Variáveis
Freqüência (n)
Percentual (%)
Sexo
Masculino
06
60
Feminino
04
40
Total
10
100
Faixa etária
30-39
40-49
50-59
Total
05
04
01
10
50
40
10
100
Estado civil
Solteiros
Casados
Total
03
07
10
30
70
100
Escolaridade
Fundamental Completo
Fundamental Incompleto
Ensino Médio Incompleto
Total
02
04
04
10
20
40
40
100
05
03
02
10
50
30
20
100
Renda Pessoal
Sem renda
1 a 2 salários mínimo
3 a mais salários mínimos
Total
FONTE: dados da pesquisa
Quanto à idade, a média foi de 40 anos, sendo 33 a menor e 51 a maior idade,
dos sujeitos, demonstrando que estão numa fase bastante produtiva da vida. No que
se refere à escolaridade, quatro participantes chegaram ao ensino médio, porém
sem concluí-lo. O nível de escolaridade baixo da amostra é preocupante, pois pode
ser fator desfavorável na qualidade do autocuidado, além de interferir negativamente
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na empregabilidade, pois empregadores poderão utilizá-lo como critério de exclusão
na contratação ou utilizá-lo para oferecer salários mais baixos.
A renda pessoal revela situação financeira delicada atingindo grande parte da
amostra. Muitas vezes os custos com o tratamento são onerosos e a renda salarial
torna-se insuficiente para atender todas as necessidades básicas do indivíduo,
apresentando-se como fator limitador de acesso a medicamentos, exames e outros
procedimentos que favoreçam o cuidado.
Como a sociedade me vê tendo epilepsia
A trajetória histórica da epilepsia vem mostrar sua contribuição para os
conceitos errôneos da atualidade. No cotidiano, é possível observar na sociedade
em geral e em grande parte dos familiares que estes não sabem o que significa a
doença, surgindo causas das mais absurdas, reforçando o estigma e preconceito,
advindos dos tempos mais remotos.
Os entrevistados destacaram situações de exclusão social, muitas vezes
ocorridas no próprio lar, pelos familiares como sendo a visão que têm da sociedade
à respeito das pessoas com epilepsia, motivados pelo estigma e preconceito em
relação à doença.
A sociedade é o seguinte, eles não aceitam a epilepsia, dentro da própria
casa da gente, sempre tem aquele negócio de medo, insegurança, a gente
quer ter segurança, eu tenho segurança em tudo que eu faço, mas sempre
tem aquele negócio da gente ta demorando muito, e vão atrás vê porque
você está demorando muito. E isso é ruim porque a gente quer ter
liberdade. (P8)
Excluída, depois que eu adoeci achei que tinha amigos, mais eu só tinha
era clientes, as pessoas hoje tem medo da gente na maioria dos casos eles
acham que epilepsia pega é um contexto muito antigo que as pessoas
falavam que baba pega, então isso é uma discriminação muito grande, por
parte até de familiares eu senti que minha família se afastou de mim [...]
(P10)
À partir do momento que ocorre uma crise epiléptica e presença de salivação
excessiva (mais conhecida popularmente como “baba”) instala-se um olhar diferente,
um olhar estigmatizante sobre a pessoa com epilepsia, o que pode ser exemplificado
através da fala de P10 quando cita que a salivação é vista pela população, de
maneira errônea, como forma de contágio da epilepsia.
O que condiz com o estudo de Guerreiro (2004), que declara que a queixa mais
comum entre pessoas com epilepsia é o preconceito baseado em estigmas
apresentados pela doença, como a idéia de que a sialorréia (salivação abundante)
seria um meio de transmissão da doença. Situações do cotidiano confirmam a
discriminação com pessoas com epilepsia como relatado pelos pesquisados:
[...] a gente sente que as pessoas têm discriminação demais, por exemplo,
eu chego na casa das pessoas elas me servem em copos separados, com
medo de pegar epilepsia. (P10)
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Muito preconceito, na sociedade sobre epilepsia, abuso, discriminação já
me negaram água eu passando mal, me negaram socorro. (P1)
Os estigmas, preconceitos e medo, que esta doença ainda carrega por parte da
sociedade se dão muitas vezes por falta de informação correta sobre o que
desencadeia as crises, alimentando dessa forma condições inadequadas para
convivência ou tratamento cotidiano de uma pessoa com epilepsia, levando muitas
vezes essas pessoas a um isolamento social.
Como apoio social alguns entrevistados citaram a participação em igreja e na
associação AAPE, locais onde se sentem mais encorajados. Nesse sentido,
destacam-se as seguintes narrativas:
[...] amigos eu quase não tenho, hoje meus amigos são aqui na associação
e na minha igreja. (P2)
[...] hoje até que não é tanto depois que surgiu associação, porque eu me
sentia uma pessoa ruim, agora me sinto melhor. (P9)
O estigma e discriminação associados à epilepsia influenciam negativamente
na qualidade de vida da pessoa e de sua família, muitas vezes impedindo-as de
conduzir suas vidas dignamente, com interações significativas na sociedade. Assim,
a participação em associações que buscam defender os direitos das pessoas com
epilepsia, torna-se importante por oferecer mais segurança e diminuir a sensação de
inferioridade, o que vai de encontro ao estudo de Fernandes et al.(2004) que
ressaltam que a participação em grupos proporciona obtenção de melhores
informações sobre epilepsia e, conseqüentemente, diminuição do preconceito
associado.
As associações ou os grupos de pacientes com epilepsia podem ser
considerados um encontro de pessoas que compartilham da mesma problemática e,
através dos mesmos, é criado um espaço que permite a troca de experiências e
vivências. Auxilia no conhecimento de informações, na discussão de medos,
ansiedades e confusões a respeito desta condição, sendo considerada uma
oportunidade para compartilhar idéias, expressar sentimentos e trocar experiências.
Além disso, as pessoas podem aumentar seus conhecimentos, discutir mágoas e
desconfortos relacionados à epilepsia (FERNANDES, 2004).
A TAB. 2 apresenta o perfil clínico dos participantes no que se refere ao uso de
medicamentos antiepilépticos e frequência das crises de epilepsia.
.
TABELA 2 - Perfil Clínico dos participantes. Ipatinga, MG, 2010.
Variáveis
Freqüência (n)
Freqüência das crises epilépticas
Diária
02
Semanais
02
Controlada
06
Total
10
Faz uso de medicação
Sim
Não
Total
FONTE: dados da pesquisa
10
00
10
Percentual (%)
20
20
60
100
100
00
100
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Um dos cuidados fundamentais que a pessoa com epilepsia deve ter com sua
saúde é o uso frequente e correto da medicação para controle das crises. A TAB. 2
demonstra que nesta pesquisa 100% dos participantes fazem uso de fármaco
controlado e que apesar deste uso 40% apresentam crises.
Sarmento e Minayo-Gomez (2000) ressaltam que, com o tratamento
medicamentoso, 75% dos pacientes ficam assintomáticos e cerca de 5% têm crises
eventuais. Assim, a enfermagem tem importante papel como mediadora da pessoa
com epilepsia e a sua inclusão social e no mercado de trabalho contribuindo com a
orientação no uso correto e regular da medicação, buscando favorecer na
estabilidade da saúde, colaborando para evitar problemas psicossociais
A inserção do trabalhador com epilepsia no contexto de trabalho
A TAB. 3 apresenta as características profissionais dos pesquisados. Somente
um participante alegou estar no mercado formal de trabalho, os demais ou estão no
mercado informal ou aposentados. Contrariamente, em relação a experiências
anteriores de trabalho, nove já trabalharam formalmente.
Segundo Cafer et al. (2005), a falta de trabalho ou impossibilidade de trabalhar
pode ser um evento estressor que acarreta prejuízos tanto na sociedade quanto
perdas de produtividade social e familiar.
A não admissão ou a demissão do trabalho devido ao fato de ter epilepsia foi
revelada pelos participantes o que pode ser característico de ausência de
informações corretas ou preconceito do empregador em relação à doença. Uma em
cada cinco pessoas com epilepsia é demitida do trabalho e a razão para isso é a
doença. Porém, o empregador nem sempre informa o motivo real da demissão.
Legalmente, a empresa não pode demitir por causa de um acometimento ou porque
o trabalhador é portador de uma doença. Assim, o motivo pode ser mascarado pelas
mais diversas razões, inclusive por “corte de gastos”, entre outros. Dessa forma, fica
o empregado sem recursos para argumentar ou questionar sua demissão (JESUS;
NOGUEIRA; OLIVEIRA, 2007).
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TABELA 3 - Distribuição da amostra segundo situação trabalhista. Ipatinga, MG, 2010.
Variáveis
Freqüência (n)
Percentual (%)
Situação trabalhista atual
Empregado
01
10
Desempregado
09
90
Total
10
100
Já teve emprego anteriormente
Sim
Não
Total
09
01
10
90
10
100
Número de empregos nos últimos
três anos
0-1
2-3
4-5
Total
06
01
03
10
60
10
30
100
Já deixou de ser admitido por
causa da epilepsia?
Sim
Não
Total
07
03
10
70
30
100
06
04
10
60
40
100
Já foi demitido de algum outro
emprego por causa da doença?
Sim
Não
Total
FONTE: dados da pesquisa
Segundo Guerreiro (2004), geralmente as pessoas com epilepsia escondem
sua condição ao procurarem emprego, no entanto as faltas por doença e os
acidentes de trabalho não são mais freqüentes em pessoas com epilepsia do que
nos demais empregados. Ansiedade, medo, insegurança, foram sentimentos citados
que geralmente são desencadeados e tornam-se prejudiciais quando pessoas com
epilepsia tentam entrar no mercado de trabalho.
Eu me questiono no caso, eu não tenho condições, porque o fato da
ansiedade que eu sofro às vezes limita eu mesma de procurar um trabalho
diferente do que eu fazia, eu já me sinto insegura. (P2)
Depois que fui demitido eu fico um pouco inseguro, porque eu vou ter que
mentir, eu tenho medo de fichar e acontecer outra crise. Inclusive eu estou
afastado há 8 anos, a companhia me mandou embora, e hoje tentando lutar
na justiça federal. (P5)
Os entrevistados foram unânimes ao relatarem que, as condições não são
favoráveis, as portas encontram-se fechadas, para entrar no mercado de trabalho. E
que a discriminação por serem pessoas com epilepsia influencia no momento da
entrevista.
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Fechado, porque as pessoas que eu conheço que tem epilepsia não
conseguem nenhum emprego começando pela na triagem pra fazer
entrevista de emprego, a primeira coisa que eles perguntam se faz uso de
algum medicamento controlado e se tem algum tipo de doença, se a pessoa
fala que tem epilepsia nenhuma empresa contrata. (P2)
Eu acho muito difícil, pra pessoa conseguir fichar hoje, ela tem que mentir,
porque se a pessoa fala que sofre as crises e que toma remédio controlado,
nenhuma firma concede essa oportunidade de trabalho. (P7)
A dificuldade em falar as verdadeiras condições de saúde, o uso de
medicamentos controlados, durante a entrevista de emprego foram as questões
mais alegadas pelos entrevistados, pois muitas vezes é necessário esconder as
mesmas para garantir uma oportunidade de trabalho. Nessa perspectiva, Salgado e
Souza (2002) identificaram o desemprego como um dos problemas que mais afeta
uma pessoa com epilepsia na fase adulta. Diante da possibilidade de emprego os
pacientes, geralmente, escolhem não informar aos empregadores sobre sua
condição de saúde, por medo de exclusão.
Uma vez inserida no mercado de trabalho a discriminação aparece
novamente como problema rotineiro enfrentado por quem tem epilepsia. Além disso,
certos efeitos da medicação como alterações cognitivas, podem reduzir a habilidade
no trabalho. Levando o paciente a desenvolver uma autoavaliação negativa de si
mesmo e do ambiente, e limitando sua tentativa de procurar um emprego melhor e
suas relações de trabalho (SALGADO; SOUZA, 2002).
CONCLUSÃO
Com base nos dados encontrados foi possível evidenciar existência de
estigmas e preconceitos da sociedade segundo a visão das pessoas com epilepsia
pesquisadas. Os resultados mostraram que já passaram por algum tipo de
transtorno para inserção na sociedade, o que os levam a se oprimirem devido a
condições conflitantes que existem na relação entre sociedade e a patologia. Devido
a essa relação conflitante até mesmo com o mundo do trabalho, frequentemente a
pessoa com epilepsia é levada a renunciar a seus direitos o que lhe traz
repercussões adversas na vida cotidiana, afetando sua saúde física e mental.
Diante de tais condições, o enfermeiro por ter um contato mais próximo com a
população, pode usar dessa proximidade para esclarecer dúvidas sobre a patologia;
assim como promover a conscientização do indivíduo com epilepsia garantindo-lhe
autoconfiança. Pois, como visto a epilepsia alimenta estigmas por falta de
conhecimento correto de suas causas. Observa-se a necessidade de orientação da
sociedade em geral visando a desmistificação de tabus e mitos, garantindo a
qualidade de vida de pessoas com epilepsia, favorecendo para a implementação de
políticas públicas sociais e de saúde voltadas para este segmento da população,
influenciando na preparação para inserção e permanência do indivíduo com
epilepsia no mercado de trabalho.
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Revista Enfermagem Integrada – Ipatinga: Unileste-MG - V.4 - N.1 - Jul./Ago. 2011.
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A PESSOA COM EPILEPSIA E O MERCADO DE