IDENTIFICAÇÃO DOS RISCOS ENVOLVENDO O TRANSPORTE DE PRODUTOS PERIGOSOS NA BR-153/060, NO TRECHO DE TEREZÓPOLIS DE GOIÁS A GOIÂNIA Adriana Menezes Costa Bruna Craveiro de Sá e Mendonça Fernanda Queiroz Tristão Ricardo Fernandes Lopes Orientador: Prof. José Dafico Alves RESUMO No Brasil, o transporte de cargas com produtos perigosos é feito basicamente através de rodovias, envolvendo inúmeras situações de riscos para as comunidades e o meio ambiente. A BR 153/060 possui um intenso fluxo de veículos, entre eles os transportadores de produtos perigosos. O trecho entre Goiânia e Terezópolis de Goiás possui características bastante especificas, englobando uma área de unidade de conservação ambiental (Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco) e uma área que será inundada para garantir o futuro abastecimento da região metropolitana de Goiânia (Lago da Barragem do Ribeirão João Leite). Pretendeu-se, com este estudo, identificar os pontos críticos em relação ao transporte de produtos perigosos neste trecho capazes de ocasionar acidentes. Neste sentido, foi levantado o perfil do motorista que ali trafega, foram analisadas as condições gerais da rodovia e foram identificadas as cargas contendo produtos perigosos que freqüentemente passam pelo trecho. Acredita-se que a melhor forma de se fazer planejamento e gestão adequados para a região é torná-la uma Zona de Perigo Ambiental. Palavras-chave: Transporte, produtos perigosos, riscos, BR 153/060, Zona de Perigo Ambiental. ABSTRACT In Brasil, the transport of loads with dangerous products is made mainly through highways, involving countless risk situations for the communities and the environment. At BR 153/060, there is a lot of traffic, among them the transporters of dangerous products. The route between Goiânia and Terezópolis de Goiás has some specific characteristics, including an Unit of Environmental Conservation area (Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco) and an area that will be flooded to guarantee the future water proviosoning of the metropolitan region of Goiânia (Lago da Barragem do Ribeirão João Leite). With this study, we intended to identify the critical points in relation to the dangerous products transports in this route that was able to cause accidents. In this case, it was lifted up the driver’s profile. They were analyzed the general highway conditions and they were identified loads that conteined dangerous products that often surrounded by this route. We believe that the best way of doing planning and management for the area is to turn it on a Zone of Environmental Danger. Word-key: Transport, dangerous products, risks, BR 153/060, Zone of Environmental Danger. 1 1. INTRODUÇÃO O desenvolvimento tecnológico permitiu ao homem criar e controlar um volume impressionante de reações químicas, visando principalmente obter produtos para o seu desenvolvimento e bem estar. Muitas dessas substâncias são inofensivas ao homem e ao meio ambiente, outras são extremamente danosas. Estima-se que existam atualmente cerca de 20 milhões de formulações químicas, sendo que destas, aproximadamente, 1 milhão representam substâncias ou produtos perigosos (CETESB, 2004). Os acidentes com produtos perigosos estão entre os desastres humanos de natureza tecnológica, com magnitude significativa que, certamente, têm seu ponto frágil no setor de transporte (rodoviário, ferroviário, marítimo, fluvial ou lacustre), podendo acontecer ainda no deslocamento por dutos, em instalações fixas (portos, depósitos, indústrias produtoras e consumidoras de produtos perigosos, refinarias de petróleo, pólos petroquímicos, depósitos de resíduos, rejeitos ou restos), no consumo, uso ou manuseio destes produtos. A exemplo de outros países, no Brasil, os produtos perigosos são transportados em diversos modais: rodoviário, ferroviário, marítimo, fluvial e através de dutos. No entanto, a grande maioria é transportada por rodovias, em função do modelo de transporte adotado no país. Assim, esta pesquisa se justifica pela necessidade de se conhecer os riscos com o transporte de produtos perigosos a que estão sujeitos o Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco e o lago a ser formado pela Barragem do Ribeirão João Leite, na BR – 153/060, no percurso de Goiânia a Terezópolis de Goiás, Esta rodovia corta o país de norte a sul, ligando Goiânia a Brasília. Possui tráfego intenso de veículos leves e de transportadores de cargas, muitas delas com produtos perigosos, que conferem riscos potenciais ao meio ambiente em caso de acidentes. A preocupação acerca da qualidade ambiental do lago para captação de água para abastecimento público da região metropolitana de Goiânia e a preservação da unidade de conservação de proteção integral, Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco, levou ao estudo para a identificação dos possíveis riscos envolvendo acidentes com produtos perigosos, no trecho da BR – 153/060 (Km 123 a Km 137), de Terezópolis de Goiás a Goiânia. A ocorrência de acidentes com produtos perigosos neste trecho, além de provocar imensuráveis prejuízos à área do Parque, podem gerar expectativas de possibilidade de contaminação da água do lago, comprometendo o abastecimento público de água. 2 2. OBJETIVOS 2.1. OBJETIVO GERAL Fornecer subsídios aos órgãos com responsabilidade em gestão de riscos, do setor governamental e não governamental através de resultados de estudos e reflexões acerca dos riscos ambientais no transporte rodoviário de produtos perigosos. 2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS - Identificar os riscos de acidentes quanto ao desempenho dos motoristas; - Identificar os principais tipos de produtos perigosos e o risco no transporte dos mesmos na BR – 153/060, no trecho de Goiânia a Terezópolis de Goiás; - Identificar as condições de tráfego neste trecho. 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 3.1. TRANSPORTE DE PRODUTO PERIGOSO Por carga, entende-se tudo aquilo que é ou pode ser objeto de transporte. Quanto à forma de acondicionamento, a carga pode ser subdividida em carga a granel e carga embalada. Como explica ANDRADE (2004), transporte tem o significado de ato ou atividade de transportar, carregar, levar, conduzir. Entretanto, para efeito de estudo, são incluídas as operações de carga, transporte, descarga, transbordo, limpeza, descontaminação, estacionamento, paradas técnicas (por falha mecânica ou acidente) e a imobilização (involuntária ou em razão de emergência). Produto perigoso é aquele que, em certa quantidade, e fora de sua embalagem ou local de segurança, traz riscos para a saúde e a vida humana e de animais, bem como para o meio ambiente. Os produtos perigosos estão catalogados pela Organização das Nações Unidas - ONU ou pela Portaria 204 de 26/05/97 do Ministério dos Transportes. Segundo BRUNS (2002), carga com produtos perigosos é qualquer carga que contenha, parcial ou totalmente, produtos perigosos que representem riscos a seres humanos, causem prejuízos materiais e/ou danos ao meio ambiente. 3 Os produtos perigosos são armazenados e transportados freqüentemente em grandes quantidades. Podem apresentar-se nas formas sólida, líquida ou gasosa. Um vazamento acidental destes produtos representa um perigo potencial para o público e para o meio ambiente. Devido à necessidade imediata de informação concernente a um produto perigoso, foram desenvolvidos dois sistemas de identificação de perigos. Ambos ajudam aqueles que participam de medidas de reação, ante um acidente, a enfrentarem o problema com rapidez e segurança. É importante destacar que esses sistemas foram desenvolvidos por pessoas sem treinamento em química. O primeiro sistema é usado nos Estados Unidos para tanques de armazenagem e recipientes pequenos (instalações permanentes). O segundo é utilizado para depósitos, tanques, vagões ferroviários, tambores e outros tipos de embalagens transportadas no comércio normal, dentro de um estado ou entre estados. O Ministério dos Transportes é responsável por este sistema. Para seu uso são necessárias placas e etiquetas em conformidade com as Normas Técnicas Brasileiras (BATALHÃO DO CORPO DE BOMBEIROS, 2004). É estabelecido pela Norma Brasileira Registrada (NBR 7500) que os produtos embalados em recipientes pequenos sejam devidamente etiquetados ou rotulados, enquanto os caminhões tanque, vagões ferroviários e reboques devem portar placas de cor laranja com números pretos, que indicam a natureza do perigo que a carga representa. A classificação usada nas placas e rótulos de risco se baseia nas Classes de Risco das Nações Unidas: Classe 1: Explosivos Subclasse 1.1 – Substâncias e artigos com risco de explosão em massa; Subclasse 1.2 – Substâncias e artigos com risco de projeção, mas sem risco de explosão em massa; Subclasse 1.3 – Substâncias e artigos com risco predominante de fogo; Subclasse 1.4 – Substâncias e artigos que não apresentam risco significativo; Subclasse 1.5 – Substâncias muito insensíveis, mas com risco de explosão em massa; Subclasse 1.6 – Artigos extremamente insensíveis, sem risco de explosão em massa. Classe 2: Gases comprimidos - Liquefeitos - Dissolvidos sob pressão ou altamente refrigerados Subclasse 2.1 – Gases inflamáveis; Subclasse 2.2 – Gases não-inflamáveis, não-tóxicos; Subclasse 2.3 – Gases tóxicos. Classe 3: Líquidos inflamáveis 4 Classe 4: Sólidos inflamáveis - Substâncias sujeitas à combustão espontânea - Substâncias que, em contato com água, emitem gases inflamáveis Subclasse 4.1 – Sólidos inflamáveis; Subclasse 4.2 – Substâncias sujeitas à combustão espontânea; Subclasse 4.3 – Substâncias que, em contato com água, emitem gases inflamáveis. Classe 5: Substâncias oxidantes - Peróxidos orgânicos Subclasse 5.1 – Substâncias oxidantes; Subclasse 5.2 – Peróxidos orgânicos. Classe 6: Substâncias tóxicas - Substâncias infectantes Subclasse 6.1 – Substâncias tóxicas, venenosas; Subclasse 6.2 – Substâncias infectantes. Classe 7: Materiais radioativos Classe 8: Corrosivos Classe 9: Substâncias perigosas diversas De acordo com o Decreto nº 96.044/88, os veículos que transportam produtos perigosos ou os equipamentos relacionados com esta finalidade, somente podem circular em vias públicas portando os seguintes documentos: - Certificado de capacitação para o transporte de produtos perigosos, expedido pelo INMETRO (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) ou entidade por ele credenciada; - Documento fiscal do produto transportado; - Ficha de emergência e envelope para o transporte, emitidos pelo expedidor, de acordo com as NBR-7503, NBR-7504 e NBR-8285, preenchidos conforme instruções fornecidas pelo fabricante ou importador do produto transportado. A ficha de emergência (ANEXO 1), como define a NBR 7501, é um documento confeccionado, impresso e preenchido conforme as NBR 7503 e NBR 8285, que resume os principais riscos do produto e as providências essenciais a serem tomadas em caso de acidente. 3.2. RISCOS E DESASTRES AMBIENTAIS Os desastres podem ocorrer como conseqüência do impacto de um risco natural ou causado por atividades antrópicas. Os riscos naturais incluem fenômenos como terremotos, atividade vulcânica, deslizamentos de terra, maremotos, ciclones tropicais e outras tempestades 5 intensas, tornados e ventos fortes, inundações fluviais e costeiras, incêndios florestais e a névoa que formam, seca, tempestades de areia, de poeira e infestações. Os riscos causados por atividades antrópicas podem ser intencionais, como a descarga ilegal de petróleo, ou acidentais, como derramamentos tóxicos ou fusão nuclear. Todos esses riscos podem ameaçar as pessoas, os ecossistemas, a fauna e a flora. Vários acidentes de grande importância envolvendo produtos químicos e materiais radioativos chamaram a atenção mundial para os perigos da má administração, particularmente nos setores de transportes de produtos químicos e de energia nuclear (PNUMA, 2004). De acordo com a Doutrina Brasileira de Defesa Civil, desastre é o resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando danos humanos, materiais e ambientais, e conseqüentemente prejuízos econômicos e sociais. A intensidade de um desastre depende da interação entre a magnitude do evento adverso e a vulnerabilidade do sistema receptor, e é quantificada em função dos danos e prejuízos caracterizados (SANTOS e CÂMARA, 2002). Os acidentes envolvendo veículos transportando produtos perigosos não podem ser vistos como ocorrências rotineiras de trânsito e variam em função do tipo do produto químico, da quantidade e de suas características. Emissões acidentais de produtos químicos para o meio ambiente, dependendo de suas características físicas, químicas e toxicológicas, podem originar diferentes impactos, causando danos à saúde pública, ao meio ambiente, à segurança da população e ao patrimônio público e privado (CETESB, 2004). Os cenários dos acidentes são diversos. Podem ocorrer durante cada uma das operações (inclusive estacionamento ou parada), e ao longo de todo o trajeto. Distintos, igualmente, podem ser os bens ambientais submetidos a risco ou efetivamente atingidos, alterados, descaracterizados, lesionados ou destruídos, em caráter parcial ou total, dentre os quais, os componentes dos meios físico (ar, solo, subsolo, águas superficiais, águas subterrâneas, recursos naturais não renováveis), biótico (flora e fauna), cultural (bens de natureza material ou imaterial de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, arquitetônico, estético, ecológico e científico), antrópico (relacionado às atividades normais da comunidade), artificial (equipamentos urbanos) e do trabalho (ANDRADE, 2004). 3.3. LEGISLAÇÃO ESPECÍFICA O regulamento para o transporte rodoviário de produtos perigosos é recente no Brasil. Somente após o acidente com pentaclorofenato de sódio (pó da china), no Rio de Janeiro, foram 6 estabelecidas regras de segurança, através dos Decretos nº 2063 de 06/10/1983, nº 96044 de 18/05/88 e o nº 1797 de 26/01/1996 – Mercosul, além da Portaria nº 204 de 20/05/1997, do Ministério dos Transportes (SEST – Serviço Social do Transporte, SENAT – Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte). O Decreto nº 96.044 de 18/05/1988 regulamenta o transporte de produtos perigosos no país. Em seu Artigo 9, está definido que o veículo transportador de produto perigoso deve evitar o uso de vias em áreas densamente povoadas ou de proteção de mananciais, reservatórios de água ou reservas florestais e ecológicas, ou que sejam próximas a essas áreas. Vale ressaltar que a área em estudo está próxima a zonas de alta densidade populacional (Goiânia e Terezópolis de Goiás), contém uma unidade de conservação ambiental (Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco) e abrigará o lago para captação de água para o abastecimento público da Grande Goiânia (Barragem do Ribeirão João Leite). De acordo com a Resolução 01/88 do CEMAm – Conselho Estadual de Meio Ambiente, o transporte de cargas ou produtos perigosos por vias públicas ou rodovias que cortam o Estado de Goiás deve ser precedido de comunicação prévia à Agência Ambiental de Goiás (sucessora da Superintendência Estadual do Meio Ambiente de Goiás – SEMAGO), por parte do transportador e do destinatário. A partir de 1985, o Conselho Nacional de Trânsito - CONTRAN regulamentou a obrigatoriedade do curso específico para condutores de veículos rodoviários transportadores de produtos perigosos, que dá condições ao motorista de aplicar comportamentos preventivos e uniformiza os procedimentos emergenciais para cada uma das classes de produtos perigosos em todo território nacional. Atualmente, a Resolução nº 91 de 4 de maio de 1999 regulamenta os currículos dos cursos de treinamento específico e complementar para condutores de veículos rodoviários e a Portaria nº 204 de 20 de maio de 1997 aprova as instruções complementares aos regulamentos dos transportes rodoviários e ferroviários de produtos perigosos. Pelo fato de surgirem inovações nas indústrias, no transporte e aumento da frota de veículos no Brasil, a legislação está em permanente aperfeiçoamento (SEST, SENAT). 4. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA ESTUDADA 4.1. RODOVIA BR - 153/060 Este trabalho compreende o trecho do Km 123 ao Km 137 da rodovia BR 153/060, onde está localizado o Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco e, em breve, abrigará o lago que 7 servirá para a captação de água para o abastecimento público da Região Metropolitana de Goiânia, formado pela barragem em construção do Ribeirão João Leite. Este trecho é formado por pista dupla com duas faixas de rolamento. De acordo com o DNIT – Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes, o trecho (Km 123 a Km 137) encontra-se em boas condições de trafegabilidade, com sinalizações horizontal (faixas na pista) e vertical (placas) regulares. 4.2. PARQUE ECOLÓGICO ALTAMIRO DE MOURA PACHECO De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Goiás – SEMARH (2004), o Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco (ANEXO 2) é uma unidade de conservação estadual de proteção integral criada com o objetivo de proteger um dos últimos vestígios da vegetação caracterizada como mata seca no Estado de Goiás (remanescente de Mata Atlântica). Criado em 3 de Julho de 1992, o Parque possui uma área de 4.123 hectares e está localizado às margens da BR - 153/060, a 22 Km de Goiânia e 25 Km de Anápolis englobando áreas dos municípios de Goianápolis, Goiânia, Nerópolis e Terezópolis de Goiás. O Parque possui uma grande diversidade de fauna e flora do Cerrado. Sua paisagem inclui, além da mata seca, outras fisionomias como cerrado típico, cerradão, mata ciliar e matas de galeria. Abriga também várias espécies da fauna, dentre elas estão alguns representantes da fauna brasileira ameaçados de extinção: tamanduá-bandeira, macaco-prego, lobo-guará, cachorro do mato e jaguatirica (SEMARH, 2004). Ainda segundo a SEMARH (2004), o principal curso d’água existente no Parque é o Ribeirão João Leite, que tem suas nascentes localizadas, no município de Ouro Verde. Além do João Leite, também são encontrados na área do Parque os Córregos Barreiro, Cana Brava, Carapina, Tamanduá e Macaúba. A rodovia BR – 153/060 incide sobre a área do Parque em uma extensão de 14 Km. 4.3. LAGO PARA CAPTAÇÃO DE ÁGUA PARA O ABASTECIMENTO PÚBLICO DA REGIÃO METROPOLITANA DE GOIÂNIA A Bacia Hidrográfica do Ribeirão João Leite possui uma área de 751,50 Km² e extensão aproximada de 130 quilômetros, contribuindo significativamente com o abastecimento público da população de Goiânia. O Ribeirão João Leite é afluente do Rio Meia Ponte, que se junta ao Rio Paranaíba, que se une com o Rio Grande e juntos formam o Rio Paraná, que por sua vez 8 recebe os rios Paraguai e Uruguai formando o Rio da Prata, cujas águas deságuam no Oceano Atlântico. A SANEAGO – SANEAMENTO DE GOIÁS S.A. explica que a barragem terá uma área inundada de 1.040 hm² (214,8 alqueires), uma altura de 50 metros, com comprimento total da crista de 451 m e vazão para abastecimento de 6,23 m³/s. A formação do reservatório irá provocar a inundação de trechos das margens da rodovia BR - 153/060, em suas partes mais baixas, nas imediações do Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco, totalizando 2.520 metros. 5. METODOLOGIA Os estudos desenvolveram-se em quatro fases distintas, nas quais procurou-se diagnosticar o cenário estudado com coleta de dados através de levantamento de registros históricos, visita de campo, aplicação de questionário com abordagem direta e perguntas aos motoristas e, finalmente, com o rastreamento da rota de transporte de produtos perigosos no trecho em questão. Cada etapa está descrita a seguir: 1) Foi realizado um levantamento dos acidentes ocorridos no referido trecho. Através dos Boletins de Ocorrência da Polícia Rodoviária Federal, pôde-se quantificar e localizar os acidentes que envolveram produtos perigosos no período de janeiro de 2000 a setembro de 2004. 2) Com ajuda de técnicos do DNIT, foram avaliadas as condições de tráfego da rodovia, ou seja, verificou-se o estado de conservação da pavimentação e da sinalização, e foram identificados os pontos críticos no trecho (ocorrência de aquaplanagem e travessia de animais). 3) Esta etapa foi caracterizada pela aplicação dos questionários com os motoristas responsáveis pelo transporte de produtos perigosos. Foram realizados 146 questionários nos dias 13, 14, 15, 16 e 17 de setembro de 2004, no posto da Polícia Rodoviária Federal Leônidas Sisterolli, no Km 132 do trecho estudado, abordando questões como: origem e destino, idade, vícios, condições de saúde, escolaridade, renda, conhecimento da carga transportada, tempo de profissão dos motoristas e ficha de emergência. Os motoristas foram abordados apenas no sentido de Goiânia a Terezópolis de Goiás. Isto porque o acesso no Posto Policial é mais adequado e seguro neste sentido e o fluxo de veículos que transportam produtos perigosos é maior. Pelo outro sentido, muitos veículos retornam descarregados. Sabe-se que o principal produto que é transportado neste sentido da rodovia (Anápolis – Goiânia) é o amianto. 9 4) Foi realizado no Posto Fiscal Engenho das Lages, no Município de Santo Antônio do Descoberto, um levantamento das cargas com produtos perigosos, analisando os seguintes dados: tipo de produto, data, origem e destino. Devido à localização estratégica deste Posto Fiscal, na divisa do Estado de Goiás com o Distrito Federal, obtiveram-se informações de origem e destino dos veículos transportadores de produtos perigosos, verificando aqueles que passavam no trecho em estudo, contabilizando um total de 196 veículos, entre os dias 15 a 20 de setembro de 2004. Com a análise dos questionários aplicados no Posto da Polícia Rodoviária Federal e com os dados obtidos do levantamento no Posto Fiscal, foi possível identificar os tipos de produtos perigosos que trafegam neste trecho e conhecer seus respectivos riscos, o que dará subsídios para a posterior elaboração de planos de emergência. 6. RESULTADOS 6.1. LEVANTAMENTO DE PONTOS CRÍTICOS NO TRECHO ESTUDADO Em vistoria feita na rodovia para identificação dos pontos críticos, foram considerados os segmentos que apresentam maior probabilidade de ocorrência de acidentes. Salienta-se que todo o trecho em estudo (Km 123 – Km 137) atravessa uma área de proteção ambiental e, em breve, atravessará também o lago de abastecimento da Região Metropolitana de Goiânia. Nesse sentido, foram identificados os seguintes pontos críticos: - Trechos com traçado sinuoso (Figuras 1 e 2): nesses segmentos, as ultrapassagens imprudentes, os veículos parados e condições de pouca visibilidade podem levar a colisões que, no caso de produtos perigosos apresentam impactos ambientais além das conseqüências danosas de um acidente; - Trecho com possibilidade de formação de aquaplanagem (Figuras 3 e 4): nesse segmento, dependendo da intensidade de chuva, ocorre formação de aquaplanagem que, aliada à quantidade de óleos e graxas que vazam dos veículos, colabora para a pista ficar com pouca aderência, tornando-se fonte de possíveis acidentes, representados por: derrapagens, choques e capotagens; - Sinalização: pôde-se perceber que as sinalizações vertical e horizontal são suficientes para passar as informações necessárias quanto á trafegabilidade no trecho. No entanto, não há sinalização advertindo para o fato de se estar passando dentro de uma unidade de conservação ambiental de proteção integral. Notou-se, ainda, que algumas placas poderiam estar melhor conservadas; 10 - Desnível acentuado entre a pista e o acostamento (Figura 5): este desnível bastante acentuado pode ocasionar acidentes; - Estado de conservação da pista (Figura 6): o trecho apresenta segmentos com asfalto mal conservado ou com remendos mal feitos, podendo ser a causa de acidentes; - Trecho sujeito à ocorrência de queimadas: no período da seca, podem ocorrer queimadas na região do Parque Ecológico. A fumaça provocada pelas queimadas atrapalham a visibilidade dos motoristas, o fogo pode elevar a temperatura da via e produzir faíscas que podem atingir os caminhões e - Travessia de animais: neste trecho há circulação (travessia) de animais que habitam o Parque. 6.2. HISTÓRICO DE ACIDENTES Foram coletados, na 1ª Superintendência de Goiás da Polícia Rodoviária Federal, dados sobre os acidentes ocorridos nas rodovias federais deste Estado nos anos de 2000 a 2003. Estes dados são importantes para que se possa conhecer as principais causas de acidentes nestas vias, podendo, assim, estabelecer fatores de riscos para o trecho estudado (BR – 153/060, do Km 123 ao Km 137). TABELA 1 – Acidentes registrados nas Rodovias Federais do Estado de Goiás Causa Velocidade incompatível Ultrapassagem indevida Ingestão de álcool Desobediência à sinalização Falta de atenção Dormir ao volante Defeito mecânico Defeito na pista Outras causas Total ACIDENTES REGISTRADOS POR ANO 2000 2001 2002 900 678 523 262 180 180 88 38 34 229 216 141 829 750 627 98 126 113 206 183 114 123 118 107 867 767 693 3602 3056 2532 2003 445 122 27 156 586 77 119 115 660 2307 Total 2456 744 187 742 2792 414 622 463 2987 11497 Fonte: 1ª Superintendência de Goiás – Polícia Rodoviária Federal - PRF O Gráfico 1 detalha a relação das causas dos acidentes registrados pela Polícia Rodoviária Federal entre os anos de 2000 e 2003, nas rodovias federais de Goiás. 11 7% 7% Velocidade incompatível Ultrapassagem indevida Desobediência à sinalização Dormindo Ingestão de álcool 4% 2% 24% 22% 25% 4% Falta de atenção Defeito mecânico Defeito na pista Outras causas 5% GRÁFICO 1 – Relação dos acidentes registrados nas rodovias federais do estado de Goiás Fonte: 1ª Superintendência de Goiás – Polícia Rodoviária Federal A Tabela 2 mostra os acidentes com veículos de carga registrados no trecho em estudo (Km 123 a Km 137) do ano de 2000 a setembro de 2004. TABELA 2 – Acidentes com veículos de carga registrados nos anos de 2000 a setembro de 2004, no trecho do Km 123 ao Km 137 ANO 2000 2001 2002 2003 até setembro de2004 Total ACIDENTES REGISTRADOS 15 38 29 37 17 136 Fonte: 1ª Superintendência de Goiás – Polícia Rodoviária Federal - PRF 6.3. DADOS OBTIDOS A PARTIR DOS QUESTIONÁRIOS 6.3.1. Perfil dos Motoristas Foram entrevistados 146 motoristas. A primeira questão analisada foi a idade. Verificou-se que 61 motoristas possuíam mais de 45 anos (42%), 14 tinham entre 41 a 45 anos (10%), 25 tinham de 36 a 40 anos (17%), 17 motoristas possuíam entre 31 a 35 anos (12%), 27 tinham de 25 a 30 anos (18%) e apenas 2 motoristas tinham menos que 25 anos de idade (1%). Estes resultados são apresentados no gráfico abaixo. 12 1% 18% menos de 25 anos de 25 - 30 anos de 31 - 35 anos de 36 - 40 anos de 41 a 45 anos mais de 45 anos 42% 12% 17% 10% GRÁFICO 2 – Idade dos motoristas entrevistados O consumo de bebida alcoólica eleva sobremaneira o risco de acidentes de trânsito. Somente no último ano, foram registrados 27 acidentes (em geral) que tiveram como presumível causa a embriaguez do motorista (PRF, 2004). Por isso, é importante analisar o hábito dos motoristas que transportam substâncias perigosas quanto ao consumo de bebida alcoólica. Dos motoristas entrevistados, 98 afirmaram não fazer uso desse tipo de bebida (67%), nem mesmo quando não estão em serviço. Portanto, apenas 48 motoristas assumiram que têm este hábito (33%). 33% sim não 67% GRÁFICO 3 – Motoristas que consomem bebida alcoólica No gráfico 4, tem-se a relação dos motoristas que fumam. Dos 146 entrevistados, apenas 24 admitiram que fumavam (16%). 16% sim não 84% GRÁFICO 4 – Motoristas que fumam Quanto aos cuidados com a saúde, foi perguntado aos motoristas há quanto tempo tinham feito o último exame médico. 103 responderam que haviam feito a última avaliação médica há menos de 1 ano (71%), como revela o Gráfico 5. 13 29% menos de 1 ano mais de 1 ano 71% GRÁFICO 5 – Tempo decorrido desde o último exame médico Outra questão abordada foi o grau de escolaridade dos motoristas. O gráfico 5 revela que 75 deles cursaram até o primário (52%), 40 estudaram até o ginásio (27%), 29 fizeram o 2º grau (20%) e 2 motoristas tinham curso superior (1%). 27% 52% 1% 20% primário ginásio 2º grau superior GRÁFICO 6 – Grau de escolaridade dos motoristas No Gráfico 7, está relacionada a renda dos motoristas. Dos 146 motoristas, 31 (21%) têm renda de até 3 salários mínimos (SM), 91 ganham entre 3 e 6 SM (63%), 13 possuem renda entre 6 e 9 SM (9%), 7 motoristas têm renda entre 9 e 12 SM (5%) e apenas 3 possuem renda acima de 12 SM (2%). 63% 21% 2% 5% 9% até 3 sm de 3 - 6 sm de 6 - 9 sm de 9 -12 sm acima de 12 sm GRÁFICO 7 – Renda dos motoristas, em salários mínimos (SM) Quanto ao tempo de profissão (GRÁFICO 8), constatou-se que 12 motoristas trabalham há menos de um ano (8%), 67 trabalham com transporte de produtos perigosos de 1 a 5 anos (46%), 16 motoristas lidam com esse tipo de transporte de 6 a 10 anos (11%), 21 transportam substâncias perigosas de 11 a 15 anos (14%), 16 motoristas, de 16 a 20 anos (11%) e 14 deles têm esta profissão a mais de 20 anos (10%). 14 10% 11% 8% 14% menos de 1 ano de 1 - 5 anos de 6 - 10 anos de 11 - 15 anos de 16 - 20 anos acima de 20 anos 46% 11% GRÁFICO 8 – Tempo de profissão dos motoristas Gráfico 9 demonstra que, dos 146 motoristas, apenas 7 afirmaram não estarem levando a ficha de emergência (5%). 5% sim não 95% GRÁFICO 9 – Motoristas que possuíam ficha de emergência Na ocasião da aplicação dos questionários, foi perguntado sobre o tipo de carga que estava sendo transportada. Dos 146 motoristas entrevistados, 45 transportavam produtos de classe 2 (31%), 79 levavam produtos de classe 3 (54%), apenas 1 motorista transportava substância de classe 5 (1%), 9 caminhões trafegavam contendo produtos de classe 8 (6%) e 11 levavam substâncias de classe 9 (8%). Estes resultados estão apresentados no Gráfico 10. 31% 54% 8% classe 2 classe 3 classe 5 classe 8 classe 9 6% 1% GRÁFICO 10 – Quantidade de veículos transportadores de produtos perigosos, quanto às classes de risco, amostrados na aplicação dos questionários 15 6.4. DADOS OBTIDOS NO LEVANTAMENTO REALIZADO NO POSTO FISCAL ENGENHO DAS LAGES Os Gráficos 11 e 12 mostram a relação das cargas com produtos perigosos amostradas no posto fiscal no período de 15 a 20 de setembro de 2004. 100 80 classe 3 classe 2 classe 4 classe 8 60 40 20 0 15/9/2004 16/9/2004 17/9/2004 18/9/2004 19/9/2004 20/9/2004 GRÁFICO 11 – Produtos perigosos amostrados no Posto Fiscal entre 15 a 20/09/2004, separados por dia 17% 1% classe 8 classe 3 classe 4 classe 2 1% 81% GRÁFICO 12 – Produtos perigosos amostrados no Posto Fiscal entre os dias 15 e 20/09/2004, em porcentagem 7. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 7.1. ANÁLISE DAS CONDIÇÕES DE TRÁFEGO DA RODOVIA As condições de tráfego no trecho do Km 123 ao Km 137 da Rodovia BR - 153/060 apresentam algumas falhas, tais como: má conservação da pista, pontos com aquaplanagem, trechos com curvas seguidas, enfim, aspectos que aumentam o risco de ocorrência de acidentes. 16 As queimadas, freqüentes no período da seca, também exercem influência negativa sobre a trafegabilidade no trecho. Dificultam a visibilidade, além de serem por si mesmas riscos relevantes para o transporte de cargas com produtos perigosos. No último ano, foram contabilizados três focos de incêndios na área do Parque. Todos tiveram seu início às margens da rodovia e duraram vários dias, mesmo com todas as medidas de proteção tomadas pelos responsáveis pela unidade de conservação para evitar as queimadas. Outro ponto importante capaz de ocasionar acidentes corresponde ao fluxo de animais silvestres na rodovia devido ao Parque. Somente no ano de 2003, foram registrados pela Polícia Rodoviária Federal - PRF, nas rodovias federais do estado de Goiás, 108 acidentes envolvendo atropelamento de animais. Uma medida que ajudaria na prevenção de acidentes neste trecho seria a colocação de placas advertindo os motoristas sobre a entrada e saída de uma unidade de conservação de proteção integral, de modo que eles fossem obrigados a reduzir a velocidade no trecho. 7.2. ANÁLISE DO HISTÓRICO DE ACIDENTES Considerando velocidade incompatível, ultrapassagem indevida, desobediência à sinalização, dormir ao volante, ingestão de álcool e falta de atenção como falhas humanas, temse que cerca de 64% dos acidentes tem sua origem no motorista (Gráfico 1). Nos quatro anos analisados, houve um total de 11.497 acidentes registrados (Tabela 1). Destes, 6.033 envolveram veículos que transportavam carga. Sabe-se que dos 6.033, 126 veículos carregavam produtos perigosos. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal – PRF (2004), somente foram identificadas nos boletins de ocorrência as cargas que sofreram perdas, assim, é possível que mais caminhões com produtos perigosos estiveram envolvidos em acidentes, mas não foram contabilizados como tal porque não houve perda da carga (explosão, derramamento, vazamento, e outros). No trecho de Goiânia a Terezópolis de Goiás (Km 123 a Km 137), foram registrados 136 acidentes com veículos de carga de janeiro de 2000 a setembro de 2004 (Tabela 2), revelando uma média de 2,4 acidentes que envolvem transporte de cargas por mês neste trecho. Destes 136 acidentes, 3 envolveram transportes de produtos perigosos. Possivelmente, houve mais acidentes com esse tipo de transporte, que, no entanto, não foram registrados nos boletins de ocorrência por não ter ocorrido perda da carga. 17 7.3. ANÁLISE DOS QUESTIONÁRIOS APLICADOS Como revelam os resultados, 42% dos motoristas entrevistados têm idade superior a 45 anos e apenas 1% possui menos de 25 anos (Gráfico 2). Este fato relacionado com o considerável tempo de profissão, que é, em média, de 9 anos (Gráfico 8), mostra que os motoristas que transportam produtos perigosos são pessoas com certo grau de experiência. No entanto, dados da PRF revelam que em cerca de 26% dos acidentes, em geral, os motoristas possuem mais de 45 anos de idade e que em 38% dos casos têm habilitação há mais de 15 anos. De acordo com o Gráfico 3, 33% dos motoristas consomem bebida alcoólica e somente o fazem quando não estão em serviço. Dirigir sob a influência de álcool, em nível superior a seis decigramas por litro de sangue, ou de qualquer substância entorpecente ou que determine dependência física ou psíquica é considerado infração gravíssima pelo Código Brasileiro de Trânsito. No ano de 2003, foram registrados pela PRF 27 acidentes causados pela ingestão de álcool, envolvendo todos os tipos de veículos, nas rodovias federais do Estado de Goiás. Como pode ser observado no Gráfico 4, 16% dos motoristas fumam. Além de acarretar sérios danos à saúde, este hábito pode trazer prejuízos ambientais maiores, uma vez que podem causar ou aumentar as dimensões de um acidente (causando uma explosão, por exemplo). Segundo a Portaria 204/97 é proibido fumar, durante o manuseio, próximo às embalagens, aos veículos parados ou dentro destes. A preocupação com a saúde deve ser constante para qualquer pessoa, em especial para os motoristas, que, normalmente, trabalham em condições não muito favoráveis. Eles dirigem por longas distâncias, permanecendo muitas horas na mesma posição e estão sujeitos a várias condições adversas: vias mal conservadas, riscos de assaltos, variações atmosféricas, dentre outras. Tudo isso, leva o motorista a dirigir sob tensão e estresse, o que diminui sua capacidade de concentração, e aumenta a vulnerabilidade a acidentes. Visando minimizar estes riscos, muitas empresas estão exigindo exames médicos cada vez mais freqüentes aos seus motoristas. Como revela o Gráfico 5, 71% dos entrevistados haviam realizado a última avaliação médica a menos de um ano. Quanto ao grau de instrução dos motoristas entrevistados (Gráfico 6), percebe-se que 52% deles fizeram até o primário ou nem chegaram a concluí-lo. Este dado pode ser alarmante, já que os motoristas que transportam produtos perigosos devem passar por cursos periódicos e devem estar aptos a seguir os procedimentos contidos na ficha de emergência e este baixo nível de instrução pode prejudicar o desempenho destas atividades. 18 Dados do IBGE (2001) revelam que cerca de 26% da população brasileira economicamente ativa têm renda entre 1 e 2 salários mínimos e cerca de 10% recebem de 3 a 5 salários mínimos. Entre os motoristas questionados (Gráfico 7), 63% deles disseram ter renda entre 3 e 6 salários mínimos, ficando, portanto, acima da média nacional. Outro ponto importante com relação ao motorista diz respeito à ficha de emergência. Como está demonstrado no Gráfico 9, apenas 5% dos motoristas afirmaram não estarem com a ficha de emergência. Apesar deste baixo índice, a situação é preocupante, uma vez que a ficha de emergência é documento de porte obrigatório e contém informações essenciais quanto aos primeiros procedimentos a serem tomados em caso de acidente. Para que o motorista seja habilitado a transportar produtos perigosos, ele deve fazer um curso sobre movimentação desse tipo de carga e, se aprovado, ele recebe o certificado de capacitação. A partir daí, ele deve ter sempre, em suas viagens, uma carteira que comprova a realização deste curso, que deve ser revalidada de 5 em 5 anos. No entanto, pôde-se perceber, em conversas com os motoristas que alguns deles sabiam que estavam levando a ficha de emergência, mas não sabiam qual era a sua utilidade. Assim, o fato de 95% dos motoristas estarem com este documento, não quer dizer que estejam aptos para o transporte de produtos perigosos. Com aplicação dos questionários, foi possível pegar uma amostragem de 146 produtos perigosos que passaram pelo trecho em estudo no período de 13 a 17 de setembro de 2004. No Gráfico 10, nota-se uma predominância de produtos de classe 3 e 2, determinando 85% do total de cargas observadas. Foi verificado na pesquisa que os produtos da classe 2 (31%) foram representados pelos gases GLP (gás liquefeito de petróleo), medicinais e industriais. Enquanto os combustíveis representaram a grande maioria da classe 3 (54%). 7.4. ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS NO POSTO FISCAL No levantamento realizado no Posto Fiscal Engenho das Lages, foram amostrados 196 veículos transportadores de produtos perigosos do dia 15/09/04 ao dia 20/09/04 (Gráfico 11). No primeiro dia, 42 veículos transportavam substâncias de classe 3 e outros 7 levavam produtos de classe 2. No dia 16/09/04, obteve-se a seguinte amostragem: 8 caminhões com produtos perigosos de classe 2, 39 veículos com substância de classe 3 e 1 caminhão com substância de classe 4. No terceiro dia, foram abordados 10 veículos transportadores de produtos da classe 2, 31 caminhões que levavam substância de classe 3 e 1 veículo transportava produtos de classe 8. No dia 18/09/04, foram abordados 34 caminhões transportando produtos perigosos, sendo 8 com 19 produtos de classe 2 e 26 motoristas com substâncias de classe 3. No dia 19/09/04, foram amostrados apenas 4 caminhões que transportavam produtos de classe 3. No último dia, foram identificados 19 veículos. Destes, 1 levava substância de classe 2, os outros transportavam produtos de classe 3. Das amostras coletadas no Posto Fiscal uma que chama atenção é a do dia 19/09/04 (domingo). Neste dia foram abordados apenas quatro caminhões trafegando com produtos perigosos de classe 3 (combustíveis). Isso é explicado porque no fim de semana o fluxo de transporte é, normalmente, reduzido. Os dados totais coletados no Posto Fiscal ficaram caracterizados da seguinte forma: 81% de produtos de classe 3, 17% de classe 2, 1% de substâncias de classe 4 e 1% de produtos de classe 8, o que demonstra, novamente, a predominância das classes 2 e 3 (Gráfico 12). Desta vez, essas duas classes juntas contabilizaram 98% do fluxo total de cargas contendo produtos perigosos. Os produtos de classe 3 costumam ser transportados em caminhões-tanque, fato que geralmente implica em grande quantidade de produto envolvida, enquanto os da classe 2 normalmente vão em invólucros metálicos, como os cilindros, envolvendo quantidades menores, porém de disseminação mais rápida pelo ambiente. De acordo com o Manual de Emergências (1994), as substâncias da classe 2 são extremamente inflamáveis com o calor, fagulhas ou chamas. Já os produtos da classe 3, além de serem inflamáveis com o calor, fagulhas ou chamas, podem deslocar-se até uma fonte de ignição e provocar retrocesso de chamas. 8. CONCLUSÕES O transporte de produtos perigosos no trecho estudado é realizado por motorista com mais de 45 anos, que estudou até o primário ou nem chegou a concluí-lo, possui uma renda entre 3 e 6 salários mínimos e tem esta profissão, em média, a há 9 anos. Em geral, os motoristas preocupam-se com a saúde, não têm o hábito de consumir bebidas alcoólicas, nem de fumar e portam a ficha de emergência. São, portanto, pessoas com plenas condições de manter uma vida saudável, o que não pode ser refletido na redução dos riscos de acidentes, uma vez que 64% deles são causados por falha humana. Das cargas perigosas que trafegam na via em estudo, cerca de 93% são caracterizadas como produtos de classes 2 ou 3. Portanto, os principais riscos, em caso de acidente, são de incêndio e explosão. 20 O trecho estudado apresenta como principais pontos críticos capazes de ocasionar algum incidente relacionado com o transporte de produto perigoso: traçado sinuoso, trechos com defeitos na pista, travessia de animais e queimadas. O estudo realizado mostra que ocorrem, em média, dois acidentes com veículos transportadores de cargas por mês no trecho do Km 123 ao Km 137 da BR – 153/060. Neste trecho, o índice de acidentes com vazamento de produtos perigosos foi de 2,20%, ficando acima do índice registrado em todas as rodovias federais do Estado, que foi 2,08%. Portanto, há que se adotar providências para prevenir a ocorrência de acidentes no trecho. Algumas medidas sugeridas estão elencadas abaixo: - Melhoria na sinalização, advertindo quanto à entrada e saída do veículo de uma unidade de conservação de proteção integral; - Fiscalização eletrônica para reduzir a velocidade no trecho; - Fiscalização rigorosa quanto à veracidade e validade da carteira de habilitação para o transporte de produtos perigosos; - Registro do tipo de carga transportada pelos veículos envolvidos em acidentes, independente de ter ocorrido perda da carga ou não. Acredita-se que a melhor forma de gerenciar este problema é fazer desta área uma Zona de Perigo Ambiental com os dispositivos pertinentes dispostos na Lei Estadual n.14.941 de setembro de 2004. De acordo com esta lei, são considerados Zonas de Perigo Ambiental os locais onde exista a possibilidade de ocorrência de acidentes que possam causar dano ambiental capaz de comprometer a população ou o ecossistema. Define ainda que as áreas de cruzamento de rodovias com os rios utilizados para abastecimento público são Zonas de Perigo Ambiental ZPA. A ZPA deve conter os seguintes elementos: - Sinalização adequada; - Pintura de faixas no leito da rodovia; - Redutor de velocidade; - Sonorizador; - Postos telefônicos, com equipamento mínimo que facilite o aviso de ocorrências; entre outros recursos julgados necessários. Sugere-se ainda a elaboração de planos de resposta às emergências químicas em conjunto com as várias entidades envolvidas. Transformar esta área em uma Zona de Perigo Ambiental implica estabelecer padrões de planejamento e gerenciamento diferenciados, atentando para o fato de que acidentes com 21 produtos perigosos podem comprometer, além da qualidade ambiental de uma unidade de conservação, o abastecimento público de água de mais de 1 milhão de pessoas. 9. RECOMENDAÇÕES Os riscos que envolvem o transporte de produtos perigosos não devem ser desprezados. Ao contrário, devem ser dirigidas ações para identificação e qualificação desses riscos de modo a se antecipar de maneira responsável a uma situação de perigo. Os riscos tornam-se ainda maiores quando o transporte desses produtos é realizado em uma área de características muito específicas como a que foi analisada. Esta área engloba uma importante unidade de conservação ambiental e, em breve, abrigará o lago que contribuirá para o abastecimento público de água da região metropolitana de Goiânia. Em julho de 2002, a Lei nº 14.247 instituiu o Sistema Estadual de Unidades de Conservação no Estado de Goiás (SEUC), ficando definido que o plano de manejo deve considerar a zona de amortecimento do parque, que é a área entorno de uma unidade de conservação onde as atividades humanas estão sujeitas a normas e restrições específicas, com o propósito de minimizar os impactos negativos sobre a unidade. Não foram encontrados registros sobre a delimitação e o plano de manejo da zona de amortecimento do Parque Ecológico Altamiro de Moura Pacheco. Assim, sugere-se que a zona de amortecimento do Parque seja instituída, efetivando o propósito da criação desta unidade de conservação. Recomenda-se que a empresa responsável pela qualidade ambiental do lago que será formado pela barragem do Ribeirão João Leite elabore planos de resposta às emergências químicas de maneira integrada aos órgãos envolvidos: Agência Ambiental de Goiás, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Estado de Goiás. Recomenda-se ainda que, em todas as ocorrências de acidentes, as cargas envolvidas sejam identificadas, mesmo não tendo acontecido vazamento. Isso é de extrema importância para que seja feito controle por parte da Polícia Rodoviária Federal e sirva de base de dados para estudos afins. Sugere-se também tornar obrigatório o monitoramento via satélite dos caminhões transportadores de cargas com produtos perigosos, para agilizar as providências de possíveis ocorrências. 22 Este trabalho não esgota de forma alguma o tema abordado. Apenas servirá como fonte de pesquisa para o planejamento e tomada de decisões que devem se concentrar em: - minimizar as probabilidades de acidentes, - implementar um sistema de treinamento de pessoas diretamente envolvidas no transporte de produtos perigosos, - estruturar um sistema coordenado de resposta a acidente e - conscientizar a população, através de programas de educação ambiental, dos riscos envolvidos nesta atividade, de modo a prepará-la para agir preventivamente. AGRADECIMENTOS Agradecemos ao Professor José Dafico Alves pela confiança depositada no grupo de pesquisa e pela constante colaboração. Agradecemos aos Professores José Augusto Cruz, em especial, aos Professores Osmar Mendes e Roberto Freire pela paciência e preciosa ajuda. Agradecemos também: ao Superintendente de Biodiversidade e Florestas da Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos Emiliano Lôbo de Godoi; ao Sr. José Geraldo Nóbrega de Mendonça pelo empenho em ajudar sempre; ao Superintendente de Administração e Atendimento Antônio Fernando Vieira Maia e aos colaboradores do Posto Fiscal Engenho das Lages; ao Superintendente da Polícia Rodoviária Federal Clodoaldo José da Silva Júnior, ao Inspetor Álvaro de Resende Filho e a todos os inspetores do Posto Policial Leônidas Sisterolli, que foram essenciais para o sucesso desta pesquisa. Aos colegas Rafael Iannaconi Borges, Helaine da Mota Resplandes, e Lucileide Maria dos Santos, nossos sinceros agradecimentos. A todos aqueles que acreditaram na importância desta pesquisa, o nosso muito obrigado. CONTATO Acadêmico Ricardo Fernandes Lopes – [email protected] Acadêmica Bruna Craveiro de Sá e Mendonça – [email protected] Acadêmica Fernanda Queiroz Tristão – [email protected] Acadêmica Adriana Menezes Costa – [email protected] 23 BIBLIOGRAFIA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA QUÍMICA E DE PRODUTOS DERIVADOS – ABIQUIM. Manual de emergências: para atendimento com produtos perigosos. 1994. ANDRADE, F. A. V. Transporte rodoviário de cargas perigosas: a imperiosa necessidade de medidas restritivas para a salvaguarda do meio ambiente. Disponível em: <http://www.transportes.gov.br/Pare/D_Estat2003.htm>. Acessado em: 22/09/2004. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7500: Símbolos de riscos e manuseio para o transporte e armazenamento de materiais. Rio de Janeiro, 2000. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 7501: transporte de produtos perigosos. Rio de Janeiro, 1989. BATALHÃO DO CORPO DE BOMBEIROS. Fontes de informações de assistência para as ações emergenciais, 2004. BRASIL. Código Brasileiro de Trânsito. BRASIL, Decreto-lei n.96044, de 18 de maio de 1988. Aprova o regulamento para o transporte rodoviário de produtos perigosos, e dá outras providências. Diário Oficial da União, 19 mai.1988. BRUNS, C. B. Movimentação e operação de produtos perigosos: MOPP, livro do aluno. Curitiba.: TECNODATA, 2002. CETEBS - COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL. Emergências químicas. São Paulo, 2004. Disponível em: < http://www.cetesb.sp.gov.br/Emergencia>. Acessado em: 27/09/04. CEMAm - CONSELHO ESTADUAL DO MEIO AMBIENTE. Resolução n. 01, de 29 de março de1988. Estabelece critérios para o transporte rodoviário de produtos perigosos no Estado de Goiás. DNIT - DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRA-ESTRUTURA DE TRANPORTES, 2003. Disponível em: < http://www.dnit.gov.br>. Acessado em: 20/10/04. FUNASA – FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Funasa garante qualidade da água em Ibiá (MG) após acidente ambiental. Disponível em: <www.funasa.gov.br>. Acessado em: 07/11/04. GOIÁS. Lei n. 14.247 de 29 de julho de 2002. Institui o Sistema Estadual de Unidades de Conservação no Estado de Goiás. Diário Oficial da União, 5 ago. 2002. GOIÁS. Lei n.14.941 de 16 de setembro de 2004. Dispõe sobre a criação de Zonas de perigo Ambiental. Diário Oficial da União, 23 set. 2004. 24 IBGE. Brasil em síntese. 2001. Disponível em: <www.ibge.gov.br>.Acessado em: 21/09/04. MINISTÉRIO DOS TRANSPORTES. Portaria n. 204, de 20 de maio de 1997. Aprova as instruções complementares aos regulamentos dos transportes rodoviários e ferroviários de produtos perigosos. Diário Oficial da União, 26 mai. 1997. PRF - POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL. Relatórios anuais: 2000, 2001, 2002, 2003. 1ª Superintendência de Goiás. Goiânia, 2004. PNUMA - PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE. GEO mundo 2003: presente, passado e futuro. Brasília: Edições IBAMA, 2004. SANEAGO – SANEAMENTO DE GOIÁS S/A. Disponível em: <www.saneago.com.br>. Acessado em: 15/10/1980. SANTOS, T.C.C. (Org.) e CÂMARA, J.B.D. 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