II Colóquio da Pós-Graduação em Letras UNESP – Campus de Assis ISSN: 2178-3683 www.assis.unesp.br/coloquioletras [email protected] LITERATURA DE MASSA DENTRO DA PERSPECTIVA DA FUNÇÃO DA LITERATURA E SUA INFLUÊNCIA NA VIDA SOCIAL DOS LEITORES Idalice Lima (Graduada – UNESP/Assis) RESUMO: O presente trabalho procura estabelecer e refletir a relação entre a Literatura de Massa e a Literatura Escolarizada, analisando textos de cunho massivo e popularescos e textos literários de obras de autores clássicos da Literatura brasileira e portuguesa, analisando a influência da Cultura de Massa nos meios sociais, bem como a influência da Literatura de Massa no quotidiano das pessoas, em sua vida social. A partir da análise e reflexão dos textos procuraremos estabelecer elementos dentro desses romances que nos distanciam dos clássicos literários e da literatura propriamente dita. Percebemos então o porquê do fenômeno da Literatura de massa crescer tanto, devido à necessidade de se criar uma literatura acessível, de fácil assimilação e entendimento à medida que prega ideologias e impõe modelos de sociedade capitalista. Por um lado percebemos a importância da literatura culta, a didática, utilizada em escolas e vestibulares, por outro o crescente aumento da leitura dos livros que exigem pouca ou nenhuma reflexão. A problematização deste trabalho se baseia no conflito que existe entre os tipos de literatura e de que forma uma literatura pode ou não auxiliar a outra em questões sociais, comunicativas e/ou didáticas. PALAVRAS-CHAVE: Literatura, cultura de massa, vida social. A questão da verdadeira função da literatura, bem como a função da obra de arte está na base dos estudos em literatura, sendo discutida desde o período grego, no entanto ainda hoje é motivo de divergências. A obra de arte também é vista como representação da realidade, a captação de algum momento por determinado pintor, ou escultor, mas que a partir do momento que esta obra passa a ser apresentada ao povo ela toma diferentes significados e interpretações, mas não perde a sua aura, ou seja, sua autenticidade. A forma como uma obra é cultuada depende também dos elementos que a levam a ser vista e experimentada, da mesma forma como ela foi cultuada na época de sua criação, seu hic et nunc.1 1 Hit et nunc significa o “aqui e agora”. Está relacionado à originalidade da obra, garantindo a unicidade da presença da obra de arte em seu ponto de origem. A autenticidade está compreendida entre sua duração material e seu testemunho histórico. Com a reprodução técnica não há duração material nem testemunho histórico comprometendo sua originalidade e autenticidade. A aura é composta pela originalidade, autenticidade e unicidade. Com a reprodução técnica a aura da obra de arte é atingida afastando o objeto reproduzido do domínio da tradição através da sua massificação. 554 Por exemplo, o quadro A Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, em uma igreja possui um significado religioso, mítico, que faz com que as pessoas, ao se depararem com a imagem, lembrem-se da passagem bíblica. O mesmo quadro colocado em um museu ainda carrega seu valor religioso, cultual, mas é visto especialmente neste lugar como obra de arte, sendo posta ao lado de outras obras do mesmo pintor para a apreciação de admiradores e estudiosos. Outra apreciação inaceitável é o mesmo quadro colocado em uma sala de jantar, onde todo o seu valor mítico, simbólico é quebrado, onde as pessoas só se lembram da imagem da “ceia” e não do seu valor sagrado. Neste último caso o seu hit et nunc é quebrado, e a obra passa a se tornar outra obra, e não mais aquela original, e sim um kitsh. Outro quadro muito conhecido é o Abaporu de Tarsila do Amaral, que teve sua aura quebrada quando foi reproduzida e colocada em copos de requeijão, passando essa obra a ter apenas valor comercial, deixando de ter o seu valor artístico. Mas é diferente quando falamos em reprodução hoje e reprodução ontem. Pensemos na época da Inquisição, onde os verdadeiros livros, os mais importantes, eram guardados em grandes bibliotecas a sete chaves. Os monges que tinham acesso às obras, que não eram todas, tinham que copiá-las para si, tendo assim, uma cópia dos manuscritos. Estas cópias eram feitas apenas pela necessidade de se ter a obra guardada para si, como referência e como pesquisa. Havia outras reproduções que eram vendidas, mas que mesmo assim não perdiam seu caráter de informação e conhecimento, fonte de sabedoria material e espiritual. Nos dias de hoje, essa reprodução se tornou desnecessária, existem máquinas de xerox, computadores, scanners que fazem esse serviço em milésimos de segundos, levando o homem, talvez por falta de vontade de criar novas “Obras de Arte”, a reproduzi-las em outros tipos de linguagem, como cinema, fotografia, teatro, etc. Temos o exemplo de várias obras literárias que foram reproduzidas na TV, em forma de novelas, filmes, minisséries. Quando uma obra passa de uma linguagem para outra ela perde muito de sua aura, de sua veracidade e originalidade. A obra de arte permite desdobramentos, permite que sua apreciação seja feita sob vários pontos de vista sem perder seu verdadeiro hit et nunc. Uma imagem colocada em forma de filme, representando a passagem de um livro influencia o telespectador quanto à imagem que possivelmente ele teria quando 555 lesse o livro, surgindo uma imagem diante da outra, imposta pelo diretor do filme, colocada através da câmera, impedindo o espectador de pensar e refletir sobre o que está sendo visualizado. Aspecto apontado por Duhamel (apud BENJAMIM, 1983, p. 25) em Scènes de la Vie Future: “Já não posso meditar no que vejo. As imagens em movimento substituem os meus próprios pensamentos”. Usando um exemplo literário, o livro Dom Casmurro, que já foi reproduzido várias vezes em diversas linguagens “artísticas”, perde muitas vezes sua veracidade, sua importância como obra literária, pois levam o espectador a formar facilmente uma opinião a cerca do enredo que talvez ele não tivesse ao ler o livro. Essa visão é construída pelo diretor, pelo roteirista, pelo foco da câmera, pela luz e todos os elementos presentes em cena que conduzem a uma interpretação menos aprofundada da obra. Assim, a obra Dom Casmurro deixa de ter sua importância como obra de arte, nesse caso sua aura é quebrada, todo o mistério colocado no livro é quebrado facilmente. Evidentemente que se a obra de Machado de Assis não envolvesse tanto mistério, tanta análise psicológica dos personagens, tantos indícios que às vezes confundem o leitor, o livro deixaria de ser um clássico e passaria a ser apenas mais um livro, com um enredo, um princípio, meio e fim. A obra nesse caso não teria utilidade nenhuma, não teria possibilidades de desdobramentos e interpretações que uma obra de arte deve ter. Ainda hoje estudiosos tentam delimitar a literatura em épocas e gêneros, mas devido a sua abrangência uma simples definição ou molde literário tornaria a própria literatura inútil, pois sua existência independe de conceitos, e suas funções são inúmeras e se modificam a cada leitura. Dentro da definição mais apropriada para a análise que faremos a seguir utilizaremos como base o fato de que para um texto ser literário ele não precisa ter uma linguagem bonita, não precisa ser acessível e de fácil entendimento. Um texto literário é aquele que como recriação ficcional da realidade faz o homem refletir sobre a sua condição humana, e traz elementos dentro do próprio texto que faz entendermos o mesmo. Num texto literário não precisaríamos buscar outros elementos para o entendimento da obra, ela neste caso explica-se por si só. Quando se pensa em conceito de literatura devemos pensar em elementos que transformam uma obra em literária ou não. Analisaremos então os elementos que fazem da obra literária um clássico ou não, ou seja, o que difere a literatura culta e didática da literatura de massa. 556 A literatura no seu significado etimológico nesse caso não nos satisfaz quanto à análise literária, vejamos, pois, se fôssemos considerar assim o seu sentido “literal”, literatura - toda mensagem produzida através de letras ou de palavras- deveríamos considerar como literatura uma bula de remédio, um manual de instruções de algum aparelho doméstico. Estaríamos nesse caso nos referindo a tipologias textuais, e não à literatura. Pensemos então na literatura no seu sentido poético, no seu sentido artístico, ou seja, uma forma ficcional de recriação da realidade. O que nos interessa aqui – além do conceito etimológico - é o conceito de literatura como proposta de recriação do cosmo a partir de uma visão particular da realidade, ou seja, a recriação do macro cosmo num micro cosmo. A literatura é uma forma de reescrita da realidade a partir de um ponto de vista, consistindo na captação de um momento que não vai se repetir, mas que provoca uma sensação única em cada indivíduo, tornando possível assim cada um interpretar de uma maneira individual. Quando falamos em recriação do macro cosmo, não estamos falando aqui de conjuntos de valores presos à natureza e à realidade, pois como já dissemos a literatura não é “só” um conjunto de palavras. Estamos nos referindo em verdade a elementos do texto que permitam a interação homem vs sociedade, onde a literatura passa a ter uma função social e ética, a de fazer o homem refletir sobre a sua condição humana. Assim consideraremos a literatura e suas funções centrípetas e centrífugas. Essa relação ocorre quando os quatro elementos exteriores: mundo social, mundo mítico, mundo individual, mundo linguístico se unem como um conjunto material para a construção de uma obra literária e são também refletidos na obra como forma de recriação e reprodução da realidade. Quando estes quatro elementos interagem podemos dizer que temos um princípio literário, uma significação. Uma obra literária precisa ter todos estes elementos interrelacionados, que não devem ser dissociados, significando e indicando uma verossimilhança da obra literária. Essa verossimilhança não precisa necessariamente condizer com a realidade vivida, seja na sociedade, seja no mundo, no momento histórico dentro da obra, pois esta não tem caráter histórico. Ela deve possuir uma verossimilhança consigo mesma, dentro da obra. 557 A verossimilhança existe quando a obra possui elementos que povoam o fato, e que fazem dele verdadeiro ou não, seja ele um tema baseado em circunstâncias reais ou não. Tudo isso dependerá do modo como o tema é colocado. Se ele é colocado com uma possibilidade de realização, seja numa ficção ou numa história real, ele precisa ter veracidade. Quando possuímos a nossa frente uma imagem dentro de uma obra literária, percebemos uma sensação nova a cada leitura, como na apreciação de uma pintura: cada vez que passamos por ela e a observamos, podemos perceber figuras novas, e outras que vimos passam a ter outros significados, assim também é na literatura, quando lemos um clássico pela segunda, terceira ou quarta vez e percebemos elementos diferentes a cada leitura. Por isso os chamados Clássicos atravessam os séculos, pois se permitem renovar a cada leitura e a cada leitor, são obras que podem ser recriadas a partir de si mesmas, podendo ser relidas de várias formas diferentes, e além de tudo, fazendo o leitor refletir sobre sua condição humana. Podemos apontar a literariedade em um texto quando o mesmo chama atenção ao seu próprio aspecto, colocando em evidência a própria mensagem, sem que o leitor precise buscar meios para entender a obra. Nesse caso o leitor precisa usar os elementos interiores da mensagem para entender a mesma. Não se ignora que há outros conceitos vigentes, tais como a literatura de massas, ou mesmo a literatura popular, mas se investe no direito à leitura de qualidade, acessível ao leitor que é capaz de ler além das palavras, ou seja, problematizar o lido com uma possibilidade de atribuição de sentidos que ultrapassa a compreensão das palavras ou do enredo da história. O texto literário será ficcional ou não, conforme sua ocorrência interna. As leituras e interpretações da primeira tendem a ser convergentes, buscar uma unidade, possibilitando a existência de uma voz da verdade, que sobrepuja as demais. Quanto mais a obra possa permitir o cruzamento dos sentidos, a ampliação das significações, a recriação da complexa ambiguidade das situações de vida, mais ela se torna uma obra literária de qualidade. A obra de arte literária permite sua renovação ao possibilitar várias leituras, e é por essa multiplicidade que ela se permite atualizar. Na literatura de massa, é comum encontrarmos o uso de elementos e técnicas literárias de “produção” da literatura culta, tais como: intrigas, clímax, desfecho, quando não encontramos aqueles heróis da humanidade, na luta entre o 558 bem e o mal. Tais elementos literários podem ser parecidos, mas é evidente que não são usados com o mesmo objetivo e claramente o mesmo desempenho. A função claramente normativa da literatura de Massa é, portanto, ajustar a consciência do indivíduo ao mundo (confirmá-lo como sujeito das variadas formações ideológicas), mas divertindo-o como num jogo. Por isto, a narrativa trabalha com formas já conhecidas ou facilitadas de composição romanesca (SODRÉ, 1988, p. 35) Enquanto a literatura culta é produzida para um fim artístico, poético de livre expressão – pois o ato criativo do escritor é na verdade um sentimento extremamente egocêntrico, neste caso, o escritor escreve por sentir o prazer de escrever – a literatura de Massa, além do fato mais óbvio que é o de faturar à custa de uma sociedade alienada e massificada, encobre muitos outros objetivos, muitos deles ideológicos, impostos por uma classe social dominante na tentativa de criar um ser mediano, usando de elementos intermediários para fazer com que o leitor não atinja o ponto máximo de entendimento e compreensão da realidade que a literatura culta pode proporcionar. Um dos fatores ideológicos que implicam na má qualidade da literatura de massa é o fato de não deixar o leitor refletir sobre o que está sendo lido, pois é uma literatura que pode tornar um ser qualquer coisa, menos um sujeito crítico, na tentativa de criar um ser mediano, que não reflete sobre o que está a sua volta, tornando-se estático diante dos acontecimentos, alimentando informações, histórias, romances, tudo que de fato possamos imaginar, mas sem a menor carga de conhecimento e senso crítico. É evidente que a literatura culta não é só usada como forma de conhecimento, de aquisição de informações, mas também de levar ao leitor subsídios para que este reflita sobre sua condição humana, sobre o que está sendo lido. A literatura de massa geralmente apresenta um universo recriado, numa linguagem cheia de clichês, simples, acessível, com personagens previsíveis, com fins previsíveis, onde muitas vezes só percebemos diferença no nome dos personagens. É como se o escritor nesse caso encontrasse um modelo e a partir daí o recriasse em diversas situações, onde percebemos que não há rompimento de paradigmas. É uma literatura que não inova, tornando-se impotente. Na literatura existe sim uma recriação da realidade, só que esta recriação é multifacetada, diversificada, enquanto na literatura de massa ela parte de lugares comuns que não permitem ao leitor explorar novas visões de mundo, novas formas de interpretá-lo e interagir com ele. 559 Do ponto de vista da linguagem utilizada podemos perceber que há por parte do autor uma enorme preocupação, não com a forma, mas com o conteúdo que deve preencher os padrões médios de produções novelescas, às vezes com um triângulo amoroso, com um herói, uma vítima, ou seja, clichês. Há também a preocupação com a norma culta, de modo que o texto não deve ter uma linguagem tão rebuscada, pois tal atitude exigiria uma maior atenção do leitor, exigiria uma interpretação do que foi lido, o que não acontece dentro da literatura de massa. São textos que não apresentam qualquer complexidade, pois tratam de assuntos banais, que servem meramente como entretenimento e ilusoriamente como aquisição de cultura “culta”. Há quem diga que um best seller não pode ser taxado de literatura comercial, ou como lixo, como vários críticos dizem pelo simples fato de venderem muito, e em vários lugares do mundo, em nível internacional. Devemos, pois, lembrar, que a Bíblia (enquanto narração ficcional de fatos, e não como instrumento religioso) é o livro mais vendido de todos os tempos, escrita a milhares de anos, numa linguagem arcaica, puramente literária, recheada de figuras de linguagem, metáforas e poesia, e que nem por isso deixou de ser lida e compreendida. Muitos estudiosos até hoje procuram compreendê-la, dando novos significados e interpretações a ela. Podemos assim perceber o quanto uma obra de arte, um verdadeiro clássico, permite-se renovar e interpretar de diversas maneiras e diversas formas, por diversas pessoas, em qualquer época ou momento histórico. Aqui então descartamos a ideia de que um livro é bom por que é o mais vendido, porque todos leem, e sim porque o livro nos permite várias interpretações e conclusões sobre o que está sendo lido. Mas nem sempre a maioria está certa quando diz que tal livro é bom só porque é o mais vendido, assim como programas de TV, músicas disparadas nas “mais mais dos sucessos”; todas essas informações não surgem do nada; elas são impostas, são criadas especialmente para iludir, entreter, quando na verdade acabam tornando as pessoas mais vazias do que são. Iludindo-as com um mundo imaginário, com novelas, programas de humor, livros feitos para adolescentes que mais parecem contos de fadas, onde na maioria das vezes os leitores tornam aquela história sem fundamento, sem objetivos, sem profundidade, sua própria religião, fazendo-se assim uma espécie de lavagem cerebral 560 em cada leitor ou espectador. Está conquistado mais um consumidor compulsivo e os livros disparam em livrarias. Quando não são feitas de pequenas histórias previsíveis, numa linguagem cheia de clichês, não trabalhada artisticamente, tentam cativar o leitor com palavras bonitas, tantas vezes já ditas e repetidas por sábios ao longo dos séculos, e saltam das páginas como se fossem originalidades, e sempre com uma linguagem bem simples, onde o leitor se torna estático em seu desenvolvimento intelectual, diante de uma literatura que não rompe paradigmas, não inova. O leitor nesse caso é um ser mediano em estruturas culturais, nas quais a literatura de massa, feita somente para ele, não o ajudará a se elevar, a subir um degrau acima da média, e sim a ler cada vez mais todas aquelas lindas e sábias palavras em busca de algo que jamais estará em algumas páginas de um livro: sua individualidade, a sua capacidade única de pensar e refletir sobre sua condição humana, e pior do que isso, é ter a certeza de que não é apenas através de livros que o homem conhecerá a si mesmo. Desde os tempos antigos até hoje o homem vem tentando se encontrar, se conhecer verdadeiramente, e tenta a todo momento se tornar um ser único e que sozinho conseguirá resolver seus problemas. Só que naquela época, bem ancestral, as pessoas procuravam livros de auto-ajuda como uma forma de ter o domínio de si mesmas, onde elas se vissem como sujeitos na sociedade. Uma sociedade política que naquela época vivia sobre a base dos homens, onde estes expressavam sua inteligência, equilíbrio e sabedoria quando estavam diante da luta travada entre razão e emoção, onde o saber dominar a si mesmo, saber se autogovernar era um fator social dominante. O que é muito diferente nos dias atuais, enquanto na antiguidade a leitura desses livros era feita com o intuito de conhecer a si mesmo, hoje se tornou uma válvula de escape para todo o qualquer problema ou adversidade que o homem encontre na vida. Refletir sobre essas diferentes utilidades nos faz pensar em todo o processo histórico que está por trás dessas transformações. Até o período da Reforma Protestante Deus representava o centro do Universo, e todos tinham a crença de que essa era a referência e orientação para a vida do homem. Com o apogeu da modernidade e os meios de comunicação, o homem substitui aquele espaço que era preenchidido por Deus e começa a fazer uso da 561 razão, tentando compreender e explicar o mundo de uma outra forma que não seja aquela que ele viu nos escritos religiosos, cultuados em igrejas por diversos anos, e até hoje, ou seja, fora da concepção religiosa de mundo. A partir de todo esse processo histórico, cheio de mudanças e reflexões, novos dogmas e novas concepções, começa a surgir o sujeito individual, diferente daquele anterior, singular, único, que é independente, toma decisões, realiza escolhas e submete-se a crenças. Os valores que a religião e a sociedade ofereciam naquela época são perdidos; o homem perde os quadros de referência que possuía, dando espaço à modernidade, ao mundo racional, à valorização do sujeito e à própria valorização de si mesmo. O homem moderno perde a orientação característica das sociedades tradicionais, deste modo, com o desenvolvimento do individualismo, cada qual buscou sua própria orientação. Uma das condições incorporadas pela autonomia do sujeito é a busca em si mesmo (de forças interiores), para auto-ajudar-se. Isto quer dizer que o sujeito deve buscar em si mesmo os recursos necessários para conduzir-se na vida, de tal modo, que possa conseguir pelas suas forças interiores e vontades individuais, alcançar seus objetivos, a realização pessoal, a felicidade. (RÜDIGER, 1996, p. 35) Com a perda desses valores a indústria cultural volta-se para seus consumidores não com o intuito de ajudá-los em suas dificuldades mas sim para a especulação financeira, lucrativa, pela exploração, manipulação comunicativa que procura exercer sobre as pessoas. Apoderando-se de ideais que não existem, valores criados e impostos por essa nova sociedade, onde o que vale mais é o “ter”, o adquirir e não o “ser”, o viver. Meios de comunicação onde a informação é imposta, o lirismo provocado apenas para adquirir leitores compulsivos, cenas de televisão onde o drama parece ser mais uma vez repetido, sem mudanças, nem variações, apenas para ocupar o tempo escasso da população, que não tem mais nada o que fazer além de “engolir” tudo o que lhe é oferecido pelas mídias em geral. Desde enlatados, selos de propaganda, modas, até ideologias, valores, conceitos, religiões. Um texto literário deve ter o poder de produzir questionamento sobre o mundo, o indivíduo a sua historia, a sociedade e a própria literatura. A literatura não traz respostas às dificuldades do mundo, aos sofrimentos; ela não é apaziguadora, muito pelo contrário, provoca no ser humano novos questionamentos e novas perguntas acerca da sua existência e de vários outros temas propostos. 562 Textos como os de massa não buscam problematizar a leitura, tornar complexos os sentidos da mensagem. Estes textos adotam uma técnica narrativa de uma linguagem simples, sem rebuscamento estético e de fácil assimilação e tradução para outras línguas. Assim, os autores de textos de literatura de massa, em geral os de cunho narrativo, utilizam-se de técnicas textuais e narrativas que foram ao longo do tempo desenvolvidas e aprimoradas pela ficção, pela dramaturgia e textos jornalísticos. Os personagens dos textos narrativos de massa seguem uma linha de personalidade, que nunca muda apresentando universos recriados, recriação esta que parte de lugares-comuns. Percebemos assim claramente uma falta de originalidade, pois o mesmo autor tenta recriar o mesmo universo, com os mesmos temas e personagens parecidos, como se quisesse infiltrar na massa leitora de pouco conhecimento, um tipo de leitura padrão, ou seja, uma leitura de fácil assimilação e acepção pelas classes médias. Esses tipos de narrativas em textos de literatura de massa são lineares, procurando sempre envolver o leitor em uma história trivial, partindo de lugarescomuns, com parágrafos curtos e linguagem simples e acessível. Textos estes que são escritos geralmente para um grande público que não está habituado à leitura, que se concentra em outros meios de comunicação abandonando os livros. Com o abandono do hábito as pessoas passam a preferir coisas mais práticas, soluções práticas para os seus problemas. Daí podermos perceber que nos textos de auto-ajuda é comum o uso de frases feitas com soluções imediatas para os problemas, narrativas curtas que partem de lugares conhecidos e com problemáticas comuns aos seres humanos. O texto de massa não é um texto “maçante” e não exige muito de sua interpretação, além de sempre apresentar um universo previsível, com soluções previsíveis, ao contrário de outros escritores como Machado de Assis que sempre surpreendem o leitor, muitas vezes dando-lhe o contrário do que este esperava ao folhear as páginas do livro: Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer... e, além do mais, expedir alguns magros capítulos para esse mundo é tarefa que sempre distrai um pouco da eternidade; mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica... Vício grave e, aliás, ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor... Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios: guinam à direita e à esquerda, escorregam e caem... (ASSIS, 1994) 563 Os textos de massa utilizam uma linguagem de forma estereotipada, padrão, para que todos possam ler e entender sem dificuldade nenhuma, possibilitando ainda uma melhor tradução para outros idiomas. As histórias geralmente partem de um mesmo tema, dentro de um mesmo contexto: “A reiteração ad infinitum das mesmas histórias, sob o disfarce de serem diferentes, cultiva a alienação vigente, e ao mesmo tempo a exacerba, fazendo com que os receptores não queiram mais sair dela.” (KOTHE, 1994, p. 141) Assim o autor toma para a produção de seus livros um tema padrão, com personagens padrões, sem o rompimento de paradigmas, sem inovação, com uma linguagem bela. Eco (1989) define este tipo de processo de “retomada” quando algum autor retorna ao conteúdo, criando uma narrativa parecida, ou continua a mesma narrativa quando a anterior foi bem sucedida e aceita pela população. Segundo ele: Na série, o leitor acredita que desfruta da novidade da história enquanto, de fato, distrai-se seguindo um esquema narrativo constante e fica satisfeito ao encontrar um personagem conhecido, com seus tiques, suas frases feitas, suas técnicas para solucionar problemas. (ECO, 1989) Encontramos esse tipo de comportamento também em outros meios de cultura de massa, como filmes, novelas, produções musicais, onde o produtor percebe quando um produto foi bem vendido e aceito pela população, daí passa a recriá-lo de diversas formas, em trilogias, em diversos volumes. Essas retomadas de conteúdos ou de modelos que deram certo impedem o leitor de buscar novas formas de recriação da realidade, pois está habituado a esta leitura estereotipada, feita para uma classe mediana, com personagens medianos, uma narrativa que não evolui significativamente, apresentando sempre os mesmos moldes, mesmas soluções. A literatura de massa possui em relação a muitos leitores a função de entretenimento, muito parecida com os folhetins literários, com histórias românticas, feitas para consolar as mulheres que ficavam enfastiadas de tardes ensolaradas e monótonas. Luísa vestia-se para ir à casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse não havia de gostar não. Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se tanto! De manhã ainda tinha os arranjos, a costura, a toalete, algum romance... Mas de tarde! (QUEIRÓZ, 1997) As pessoas buscam hoje novas formas de entretenimento devido à modernização dos meios de comunicação. Hoje, mulheres como Luísa trabalham, 564 estudam, não são tão dependentes dos maridos. Enquanto antigamente essas mulheres se preocupavam com o jantar e os afazeres domésticos, hoje já se tornaram mais independentes economicamente, se preocupam com seu próprio sucesso profissional e pessoal. No entanto os “folhetins” viraram clássicos, e hoje são lidos com outros objetivos e não só o da distração, mas de adquirir cultura e conhecimento, já que a literatura reflete o mundo a sua volta, sendo a reescrita da realidade, mesmo que dentro de um ato ficcional. São clássicos, pois atravessaram a linha do tempo nos dando várias dimensões de interpretações e leituras, várias visões de mundo. Referências bibliográficas ADORNO, T. W. A Indústria Cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002. ASSIS, Machado. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Editora Globo, 1997. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992. BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Marcus Penchel (trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. BENJAMIM, Walter. A obra de arte. In: Textos escolhidos. José Lino Grünnewald (trad.) [et al]. 2. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os Pensadores). 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