UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE DEIVIS PEREZ BISPO DOS SANTOS FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA O TERCEIRO SETOR São Paulo 2004 DEIVIS PEREZ BISPO DOS SANTOS FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA O TERCEIRO SETOR Dissertação Presbiteriana apresentada Mackenzie à Universidade para obtenção parcial do título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Orientador: Prof. Dr. Marcos Tarciso Masetto São Paulo 2004 II Contato com o autor: [email protected] [email protected] fone: (11) 7658-8491 SANTOS, Deivis Perez Bispo dos. Formação de Educadores para o Terceiro Setor / Deivis Perez Bispo dos Santos. – São Paulo, 2004. Dissertação (Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2004. 1. Educação. Terceiro Setor. 2. Formação de Educadores. I. Título. CDD 370.71 III DEIVIS PEREZ BISPO DOS SANTOS FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA O TERCEIRO SETOR Dissertação apresentada à Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito para obtenção parcial do título de Mestre em Educação, Arte e História da Cultura. Aprovada em 09 de setembro de 2004. BANCA EXAMINADORA Prof. Dr. Marcos Tarciso Masetto Universidade Presbiteriana Mackenzie Prof. Dra. Elsa Garrido Universidade Presbiteriana Mackenzie Prof. Dr. Ladislau Dowbor Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP IV Dedico este trabalho aos meus pais, Manoel Bispo dos Santos e Lourdes Perez dos Santos. V AGRADECIMENTOS Aos professores do Mestrado em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie e, em especial, ao professor doutor Marcos Tarciso Masetto por todas as orientações e por compartilhar seus conhecimentos. À Maria Tânia Bueno e Marly Reis que souberam compreender as especificidades de trabalhar com um mestrando e ofereceram as ajudas necessárias. À Cristina Gonçalves e Rosana Baldichia do Núcleo de Comunicação e Informação do SENAC-SP pela apoio com os livros e gentileza com que sempre me atenderam. Ao SENAC-SP por ter permitido o estudo de um de seus cursos, sem a imposição de quaisquer limitações. A todos os profissionais que concordaram em oferecer as entrevistas para realização deste trabalho. À Cássia, Marina, Churcky e Lion (in memorian) pela alegria e companheirismo incondicional. À minha irmã, Vanessa Perez Bispo, com quem sempre posso contar. À Márcia Luciane Porto, amiga eterna, que me incentiva desde os tempos de Catalano e UNESP. À Luciane Soares, que acompanhou este trabalho, desde o projeto até o texto final, e que me ofereceu sua paciência e seu carinho. VI RESUMO A presente dissertação voltou-se para a análise e reflexão de questões pertinentes à formação de educadores para o Terceiro Setor. Especificamente, optou-se pela realização de um estudo de caso etnográfico sobre o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor oferecido pelo SENAC-SP. A partir de levantamento bibliográfico, foram indicadas as origens do conceito Terceiro Setor e as principais teorias e Abordagens que se relacionam ao Setor na atualidade. Procurou-se, ainda, explicitar as características centrais da Educação no Terceiro Setor, suas origens históricas e os principais processos de ensino-aprendizagem que permeiam essa modalidade educacional. Os referenciais teóricos identificados sobre Terceiro Setor e Educação orientaram a análise do curso estudado. Além de identificar as matrizes teóricas e metodológicas subjacentes ao curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, buscou-se apresentar, ao final deste estudo, sugestões e propostas que possam contribuir para a melhoria do próprio curso e oferecer dados sistematizados para o desenvolvimento de outros programas de formação de educadores para o Terceiro Setor. VII ABSTRACT The present dissertation focuses on the analysis and reflection of subjects that are pertinent to the preparation of educators for the Third Sector. Specifically, the choice was to perform an ethnographic case study on the course Formation of Formers for the Third Sector offered by SENAC-SP. Origins of the concept Third Sector, as well as the main theories and Approaches currently related to the Sector are indicated, based on a bibliographic survey. The work also clears the core characteristics of the Education in the Third Sector, its historical origins and the main processes of teaching-learning that permeate that educational modality. The identified theoretical references about Third Sector and Education oriented the analysis of the studied course. Besides identifying the theoretical and methodological matrixes, subjacent to the course Formation of Formers for the Third Sector , suggestions and proposals are introduced, at the end of the study, aiming to contribute to the improvement of the course itself and to provide systemized data for the development of other programs of preparation of educators for the Third Sector. VIII SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 1 Origem do Problema de Pesquisa 2 2 Definição do Problema de Pesquisa 4 3 Justificativa e Relevância do Tema 5 4 Metodologia de Pesquisa 10 5 Estrutura do Trabalho 12 CAPITULO 1 - TERCEIRO SETOR 13 1 Introdução 14 2 Surgimento do Conceito Terceiro Setor 14 3 O Debate Hoje 17 3.1 Abordagem Norte-Americana 18 3.2 Abordagem Crítica ao Terceiro Setor 22 3.3 Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo 27 3.4 Abordagem Desenvolvimento Social Local 32 4 Ongs: As principais formas de associação contemporânea CAPITULO 2 – EDUCAÇÃO E TERCEIRO SETOR 39 42 1 Contexto Atual 43 2 Educação no Terceiro Setor 45 2.1 46 Educação no Terceiro Setor, Educação Comunitária Popular e Educação Não Formal 3 4 Educação Comunitária Popular – ECP 51 3.1 51 Educação Comunitária Popular no Brasil: origens e características Processos de Ensino-aprendizagem 58 4.1 60 Educação Comunitária para a Contra-insurreição e a Abordagem Tradicional do Processo Ensino-aprendizagem 4.1.1 Características da Abordagem Tradicional 61 4.2 Educação Comunitária Enquanto Movimento de Libertação e 62 Abordagem Sociocultural IX 4.3 Educação Comunitária com Auto-ajuda e Pedagogias Centradas no 66 Aprender a Aprender 5 Concepção de Educação no Terceiro Setor CAPÍTULO 3 – FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA O TERCEIRO SETOR 69 73 1 Introdução 74 2 Contexto Institucional / Organizacional 75 2.1 O SENAC 75 2.1.1 O SENAC – São Paulo 77 2.2 O Centro de Gestão e Tecnologia do Terceiro Setor do SENAC-SP 82 2.3 O Contexto Organizacional e o Curso Formação de Formadores para 86 o Terceiro Setor 3 4 O Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor 89 3.1 Informações Gerais 90 3.2 Estrutura do Curso 92 3.3 Metodologia Adotada 96 3.4 A Questão da Elaboração e Desenvolvimento de Projetos 98 Análise do Curso 100 4.1 Abordagens de Terceiro Setor presentes no Curso 101 4.1.1 Implicações da Apresentação de uma única Abordagem de Terceiro 104 Setor no Curso 4.2 Abordagens Educacionais presentes no Curso 107 4.2.1 A Educação Comunitária Popular e o Curso Formação de Formadores 108 para o Terceiro Setor 5 4.3 As Abordagens do Processo Ensino-aprendizagem no Curso 111 4.4 Metodologia do Curso 113 Análise Final Sintética do Curso 114 CONSIDERAÇÕES FINAIS 117 BIBLIOGRAFIA 123 ANEXOS 132 X INTRODUÇÃO 1. Origem do Problema de Pesquisa A questão da Formação de Educadores para o Terceiro Setor enquanto problema de pesquisa, teve origem em minhas vivências acadêmicas e profissionais em organizações das áreas Social, Educacional e da Saúde Pública. Ao longo dos cinco anos de graduação em Psicologia na UNESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, realizei pesquisas de iniciação científica apoiadas pelo CNPq, cujo foco foram as populações empobrecidas e as organizações que as atendiam. Concomitantemente, atuava como educador de presos na Casa de Detenção de Assis-SP, ocasião em que pude observar a ação de organizações voltadas para a população carcerária e seus familiares. Ainda na graduação, entrei em contato, como educador e por meio de estágios, com as mais diversas organizações sociais: asilos, manicômios, orfanatos, instituições de atendimento a crianças em situação de risco pessoal e social. Em todas, a preocupação com os aspectos vinculados ao campo da Educação apresentava grande destaque. Já como psicólogo passei a trabalhar em um CAPS/DQ – Centro de Atenção Psicossocial a Dependentes Químicos – em equipe que atendia, preferencialmente, crianças e jovens usuários de drogas ilícitas, em sua maioria vivendo em situação de rua. A despeito de, à época, estar vinculado à Prefeitura Municipal de Santo André São Paulo havia grande proximidade com as organizações da sociedade civil e Ongs Organizações não Governamentais - que formavam a rede social de apoio a crianças e jovens. Nos últimos cinco anos, atuo no Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP, onde tenho a possibilidade de conviver com organizações, institutos e fundações do chamado Terceiro Setor, desde organizações de base comunitária até grandes institutos ligados a empresas privadas. Essas duas últimas experiências profissionais permitiram observar, de forma mais clara, o trabalho dos educadores de organizações da sociedade civil. Verifiquei que os profissionais do campo da Educação, nesse Setor, possuem formação 2 absolutamente variada. Por exemplo, são: sociólogos, psicólogos, administradores de empresas, nutricionistas, arquitetos, jornalistas, economistas, matemáticos, assistentes sociais, artistas plásticos, pedagogos, enfermeiros, dentistas, entre outros. De modo empírico, notei o desejo que eles apresentam de ter acesso a espaços de formação, particularmente, voltados para projetos socioeducativos e práticas educacionais realizadas especificamente em organizações do Terceiro Setor. Em função dessa percepção - como afirmei até então meramente empírica – iniciei, de forma exploratória, levantamento de cursos de formação de educadores para o Terceiro Setor realizados na cidade de São Paulo. Dei prioridade ao registro de cursos com duração superior a 150 (cento e cinqüenta) horas, os quais, provavelmente, permitem uma formação mais profunda e, também, o levantamento de cursos vinculados a organizações de ensino formalmente reconhecidas. Não foram localizados cursos de Pós-Graduação Stricto Sensu e Lato Sensu que atuariam para favorecer o desenvolvimento da pesquisa e a formação de profissionais no campo da Educação aplicada ao Terceiro Setor. Somente três cursos livres foram encontrados: 1. Curso oferecido pelo Centro Experimental Público de Formação Profissional de Vila Formosa, na cidade de São Paulo - teve uma única turma realizada em fins da década de 90, não sendo mais oferecido; 2. curso oferecido pela Ong Palas Atena, mas excessivamente ligado à Educação Formal e à Escola Pública; 3. curso denominado Formação de Formadores para o Terceiro Setor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC-SP, que já havia realizado cinco turmas e teve seu último grupo capacitado entre maio e dezembro de 2003. Esse levantamento pareceu confirmar a procedência das queixas dos educadores acerca da escassez de espaços de formação e reflexão que auxiliem o estudo de métodos, teorias, ações e experiências educativas no âmbito do Terceiro Setor. A existência de um único curso realizado em 2003, com foco específico na área em questão na cidade de São Paulo, enseja as mais variadas indagações: 3 • Dada a diversidade de áreas incluídas, no que se chama Terceiro Setor, qual seria o perfil do seu profissional de Educação? • A multiplicidade de áreas de atuação das organizações do Terceiro Setor não inviabilizaria a criação de programas de formação ou cursos de preparação de seus profissionais de Educação? • Quais matrizes conceituais e metodológicas devem nortear a formação desses educadores? Cada questionamento acima poderia resultar em uma pesquisa particular acerca da problemática que envolve os temas Educação e Terceiro Setor. No presente estudo, conforme veremos abaixo, serão considerados basicamente aspectos vinculados às matrizes conceituais e metodológicas, associados à formação de educadores para o Terceiro Setor. 2. Definição do Problema de Pesquisa O presente estudo sobre a Formação de Educadores para o Terceiro Setor insere-se e articula-se com os debates atuais acerca do papel das organizações da sociedade civil e das Ongs; da definição, delimitação e validade do conceito de Terceiro Setor; abrangência e possibilidades de ampliação de práticas associativas e cooperativistas que questionem a visão neoliberal de estruturação política e econômica das sociedades. Cumpre destacar que se trata ainda de esforço para organizar informações sobre a Educação no Terceiro Setor, área pouco pesquisada em âmbito acadêmico, que histórica e prioritariamente dedicou-se ao estudo da Educação escolar formal. Esta pesquisa voltou-se para a análise e reflexão de questões pertinentes à Formação de Educadores para o Terceiro Setor. Especificamente, como problema de pesquisa, apresenta: quais as matrizes conceituais e metodológicas que norteiam um curso de Formação de Educadores para o Terceiro Setor? 4 A opção por estudar o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor justifica-se por ser o único oferecido na cidade de São Paulo nos últimos cinco anos, já houve seis turmas, sendo a primeira no ano de 1999 e a última em novembro de 2003. Esse curso foi organizado, desenvolvido e realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo - SENAC-SP. É importante notar que, além de identificar as matrizes teóricas e metodológicas subjacentes ao curso analisado, buscou-se apresentar, ao final deste estudo, sugestões e propostas que contribuam para a melhoria do próprio curso e, quiçá, possa oferecer dados sistematizados para o desenvolvimento de outros programas análogos de formação de educadores para o Terceiro Setor. 3. Justificativa e Relevância do Tema Temos encontrado em diversos segmentos sociais, uma preocupação crescente com os direitos do cidadão, com o desenvolvimento de formas pacíficas de convivência e com a construção de uma sociedade democrática de fato. Não há dúvida que tal preocupação com a cidadania remete-nos à ampliação da relevância e visibilidade das organizações da sociedade civil, das formas de cooperativismo e associação de cidadãos e do que se convencionou denominar Terceiro Setor. O termo Terceiro Setor tem sido empregado com ênfase e abrangência crescentes nos últimos vinte e cinco anos por organismos internacionais (ONU – Organização das Nações Unidas e Banco Mundial), teóricos (SALAMON, L., 1997; LANDIM, L., 1993; HENDERSON, H., 1996; DOWBOR, L., 2001; entre outros), políticos (BRESSER PEREIRA, 1999) e pela mídia de modo geral. Pode-se afirmar que o conceito é utilizado para designar o conjunto de organizações criadas e mantidas por iniciativa da sociedade civil, hipoteticamente, para atuar na assistência a parcelas das populações empobrecidas, defesa dos direitos humanos, desenvolvimento sustentável de comunidades, preservação de sistemas ambientais e geração de renda para trabalhadores excluídos da economia formal. O Setor abrangeria organizações 5 relacionadas a campos tão diversos quanto Educação, cultura, saúde, assistência social, esporte, comunicação, pesquisa, lazer, religião, associações de profissionais, cooperativas e luta por distribuição mais igualitária de bens sociais. A atuação e influência social, política e econômica do Terceiro Setor expressam-se de diversas maneiras. No que diz respeito ao papel desempenhado pelas organizações desse Setor, Leilah Landim aponta que elas seriam substitutas... [...] governamentais na prestação de serviços sociais nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha (SALAMON E ABRANSON, 1982; TAYLOR, 1992); protagonistas no combate à exclusão dos pobres na França (KOUCHNER, 1990); promotoras de pluralismo na Suécia ou na recriação de uma ‘sociedade civil’ na ex-União Soviética e Europa do Leste; agentes na democratização latino-americana; canalizadoras de participação e organização populares em vários contextos do Terceiro Mundo [...]. (LANDIM, 1993, p. 06) Nos Estados Unidos da América, país com histórica tradição de valorização do associativismo civil, o Terceiro Setor faz circular cerca de setecentos bilhões de dólares ao ano. Na Grã-Bretanha, somente em doações individuais, o Setor recebe 22 bilhões de dólares (BAILEY, 2000). O Terceiro Setor movimenta cerca de 8% do Produto Interno Bruto nos demais países ricos do mundo. Tendo sua imagem muito ligada à questão do voluntariado, causa surpresa o fato de, segundo Ladislau Dowbor (2001), somente nos Estados Unidos, o Terceiro Setor oferecer emprego a cerca de quinze milhões de pessoas. Pesquisa realizada em vinte e dois países pelo Johns Hopkins Institute, sob coordenação de Salamon e Anheier (1995), aponta que, na Holanda, 12,6% da mão-de-obra ativa está inserida no Terceiro Setor. No conjunto de países estudados, a média é de 4,8% da População Economicamente Ativa - PEA. As informações sobre Terceiro Setor brasileiro encontram-se pouco sistematizadas. No entanto, sua emergência parece evidente também em nosso país. 6 Estima-se que possam existir no Brasil até 4001 mil organizações que fariam parte do Setor. Juntas, essas organizações, oferecem emprego a 2,2% da PEA. Em 1995, o Terceiro Setor teria movimentado cerca de 10,9 bilhões de reais. Em 2001, ano do Voluntariado, 22% dos adultos brasileiros doaram tempo para ajudar entidades ou indivíduos (MONTAÑO apud LANDIM; SCALON, 2002, p. 52). Em outros anos, a média de pessoas que atuavam como voluntárias era de, aproximadamente, 16% da PEA. O cenário de agravamento crescente da crise socioeconômica brasileira; a ampliação da ênfase dos meios de comunicação para ações de solidariedade e a necessidade que os cidadãos têm sentido de participar, mais ativamente da busca de soluções para os problemas sociais, parecem contribuir para o surgimento de organizações da sociedade civil e o engajamento de pessoas em ações vinculadas ao Terceiro Setor. Leilah Landim elaborou estudos referenciais com dados quantitativos do Setor na década de 1990 e, também, pesquisa sobre possível origem histórica das organizações sociais no país. A pesquisadora destaca, em seus trabalhos, a relevância da Educação no campo das ações sociais, desde atividades voluntárias, filantrópicas e caritativas ligadas à religião, no período colonial, até a atuação das atuais Organizações não-governamentais - Ongs. Segundo Landim, a Igreja Católica possuía papel central nas ações filantrópicas no período colonial. Sua atuação estendia-se desde a resolução de conflitos entre indivíduos à estruturação de espaços de mútua ajuda, assistência médica e social. A Igreja tinha, como uma de suas principais características filantrópicas, a criação de escolas e de espaços de ensino por todo o país. As ações, no campo da Educação, configuravam-se como característica seminal do trabalho social e filantrópico brasileiro. Nos dias de hoje, a Educação destaca-se como uma das principais áreas de atuação das organizações do Terceiro Setor. Cerca de 30% dos recursos humanos que trabalham no Setor estão vinculados à Educação. Nos demais países latinoamericanos, esse percentual é superior, em média 40% (LANDIM, L., 1999). 1 Número de Organizações baseado em dados disponíveis na Receita Federal – órgão ligado ao governo federal brasileiro. 7 Apesar de existir grande contingente de profissionais que atuam no Terceiro Setor brasileiro, há poucos espaços de formação e aperfeiçoamento. Nos Estados Unidos, indica Andrés Falconer (1999), há mais de cinqüenta programas de PósGraduação que contribuem para a formação de especialistas que trabalham em organizações do Terceiro Setor e, ainda, uma associação que reúne centros diversos de pesquisa sobre o Setor. No Brasil, a realidade é bastante distinta, havendo apenas alguns centros isolados de pesquisa, dentre os quais se destacam: Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Universidade de São Paulo; Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas e Estudos sobre o Terceiro Setor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Núcleo de Estudos Avançados do Terceiro Setor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Centro de Estudos do Terceiro Setor da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Os cursos de Pós-Graduação existentes no Brasil são pouco numerosos. Em pesquisa exploratória (REIS; SANTOS, 2003) realizada no ano de 2003, observa-se a existência de 10 cursos (em 2004 esse número subiu para 12 cursos) de PósGraduação Lato Sensu, especificamente em gestão do Terceiro Setor, na cidade de São Paulo - reconhecido centro de formação de profissionais no país. Porém, voltado para educadores do Terceiro Setor, não há cursos de Pós-Graduação, conforme afirmamos no início deste trabalho. Há registrada a existência de um curso livre desenvolvido no Centro Experimental Público de Formação Profissional de Vila Formosa, o qual somente realizou uma única turma em 1999, e o de Formação de Formadores para ao Terceiro Setor do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC-SP, previsto para acontecer novamente neste ano de 2004 com novo título: Gestão e Mediação de Projetos Socioeducacionais. A Educação e as áreas da saúde e assistência social, conforme Landim (1993), mantiveram-se quase na totalidade de suas ações ligadas a organizações filantrópicas, vinculadas à Igreja, até fins do século XIX. Apesar da relevância histórica e, da importância atual da Educação, saúde e assistência social, enquanto campos prioritários de atuação das organizações do Terceiro Setor junto à população brasileira, a pesquisadora aponta que são áreas pouco estudadas e pesquisadas. 8 Pode-se indicar, como aspecto que vem ao encontro das preocupações de Landim, os dados disponíveis na CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - sobre a produção de pesquisadores de Universidades brasileiras, que resultou na elaboração de dissertações e teses. A CAPES mantém aberto para consulta, em seu sítio (www.capes.gov.br) resumos de mais de 125 mil dissertações e teses. Em levantamento realizado em novembro de 2003, considerando esses dados da CAPES a partir de 1988, foi possível registrar a existência de sessenta trabalhos voltados para Ongs e Terceiro Setor. Destes, somente três abordavam, ainda que indiretamente, a questão da Educação: dois estudos registravam o processo histórico de organizações específicas, cuja atuação tinha como referência processos educativos (EGBERT, E., 1992; SILVA, F.D. da, 1997) e somente um estudo apresentou, como centro de suas análises, a Educação, em particular a prática pedagógica de Ongs (SANTANA, M.M., 1991). Pode-se encontrar na literatura um conjunto amplo de trabalhos que relacionam áreas como administração, contabilidade e gestão ao Terceiro Setor, como os elaborados por Paulo Arnaldo Olak (1999), Paulo Roberto Durigan (2000) e Andrés Falconer (1999). Há, ainda, estudos comparativos entre o Terceiro Setor do Brasil e de outros países, dentre os quais se destacam aqueles já citados, elaborados por Landim (1993) e o de Simone de Castro Tavares Coelho (1998). Observa-se a produção de pesquisas sobre Terceiro Setor e seu marco legal como o trabalho de Eduardo Szazi (2003). Já existem estudos acerca do uso de novas tecnologias no Terceiro Setor, como a dissertação de mestrado de Edson Sadao Iizuka (2003). No entanto, há falta de estudos dispostos a levantar, organizar, sistematizar e analisar dados especificamente sobre Educação e Terceiro Setor. Considerando os números apontados e o papel histórico que o campo da Educação e os educadores têm desempenhado, não se pode negar a relevância do papel desses profissionais no Terceiro Setor. É evidente, portanto, que se não houver um conhecimento adequado a respeito dos processos de formação e atuação desses educadores, certamente faltarão as condições básicas para uma análise crítica da 9 importância, abrangência e qualidade das ações das organizações do Terceiro Setor na área da Educação. O presente estudo foi elaborado para contribuir com a literatura especializada sobre o tema. Para tanto, foram reunidas informações que, acredita-se, poderão apoiar a ulterior formulação e implementação de programas de formação de educadores para o Terceiro Setor. É importante destacar que se trata de pesquisa cujo centro dos estudos é o único curso de Formação de Educadores para o Setor disponível na cidade de São Paulo até o ano de 2003 e que, até o presente momento, não voltou a ser realizado. Nos últimos dez anos, cresceram no Brasil os incentivos do Estado e de órgãos multilaterais de financiamento externo, como o Banco Mundial, à prestação de serviços educacionais por Ongs2. Nesse sentido, um estudo como este, que articula os temas Educação e Terceiro Setor, certamente oferecerá informações úteis para apoiar o necessário desenvolvimento de estudos posteriores e a criação de estratégias de formação de profissionais para esse campo por organizações da sociedade civil, Ongs, governo, órgãos de financiamento e agências de formação de profissionais. 4. Metodologia de Pesquisa A formulação do problema de pesquisa do presente trabalho articula dois temas: 1. a Formação de Educadores; 2. o Terceiro Setor. A união desses itens levou à questão proposta: coleta, sistematização e análise de dados sobre a Formação de Educadores para o Terceiro Setor. O adequado estudo da Formação de Educadores para o Terceiro Setor dependeu, em grande parte, da escolha da Metodologia de Pesquisa que foi adotada. A 2 Exemplo recente foi observado no final de 2003 quando, em meio a questionamentos e controvérsias, o Governo do Estado de São Paulo definiu que atividades educacionais, de lazer e profissionalizantes da Febem seriam repassadas a Ongs e entidades filantrópicas. Este projeto, denominado Gestão Compartilhada teve início em Unidade da Febem chamada Espaço Educacional do Hipódromo. Informações completas Cf. COSTA, Donizeti; GOUVEIA, Everaldo. Terceirização da Febem Provoca Dúvida e Temos. Diário de São Paulo, São Paulo. 16/11/2003. 10 partir do estudo do único programa existente na cidade de São Paulo e oferecido de forma contínua nos últimos anos, a metodologia deveria contribuir para a compreensão da: a) complexidade dos contextos institucionais, culturais e sociopolíticos em que o curso estava inserido; b) percepções dos profissionais envolvidos no processo de formação. Esses aspectos ensejaram a opção por uma abordagem de pesquisa qualitativa do tema e, especificamente, pela realização de um estudo de caso etnográfico. A abordagem de Pesquisa Qualitativa pareceu adequada em função de suas características básicas, que segundo Marli André (2003, p.52) são: • Ênfase na “interpretação dos significados contidos num texto (entendido num sentido amplo); • o foco da investigação deve se centrar na compreensão dos significados atribuídos pelos sujeitos às suas ações; • a postura do pesquisador não é considerada neutra; • visão holística dos fenômenos. Acerca da opção pela realização de um estudo de Caso Etnográfico, André afirma que esse tipo particular de Pesquisa Qualitativa deve ser realizado quando: 1) [...] se está interessado numa instância particular, isto é, numa determinada instituição, numa pessoa ou num específico programa ou currículo; 2) [...] se deseja conhecer profundamente essa instância particular em sua complexidade e em sua totalidade; 3) [ ] se estiver mais interessado naquilo que está ocorrendo e no como está ocorrendo do que nos seus resultados; 4) [...] se busca descobrir novas hipóteses teóricas, novas relações, novos conceitos sobre um determinado fenômeno [...] (ANDRÉ, 2003: p. 52) Os procedimentos de pesquisa utilizados foram: 11 a. pesquisa bibliográfica; b. análise de documentos; c. entrevistas de tipo semi-estruturada. 5. Estrutura do Trabalho Este trabalho encontra-se estruturado em três capítulos, além da Introdução e Considerações Finais. Nesta Introdução é apresentado o Problema de Pesquisa, Justificativa e Relevância do Tema estudado, assim como, Metodologia utilizada. O Capítulo 1 indica, a partir de levantamento bibliográfico, as origens do conceito Terceiro Setor e as principais teorias e Abordagens que se relacionam ao Setor na atualidade, a saber: a.) Norte-Americana; b.) Crítica ao Terceiro Setor; c.) Economia Solidária e Cooperativismo; d.) Desenvolvimento Social Local. Vale destacar que a exposição de cada uma das Abordagens inclui o modo como se expressam em nosso país. No Capítulo 2 foram abordadas as articulações entre Educação e Terceiro Setor, localizando as origens prováveis do que, contemporaneamente, denomina-se Educação no Terceiro Setor nas práticas e teorias da Educação Comunitária Popular ECP. Os principais processos de ensino-aprendizagem da Educação Comunitária Popular são apresentados e suas relações com a Educação no Terceiro Setor. Procurou-se, ainda, explicitar as características centrais da Educação no Terceiro Setor. O Capítulo 3 traz o relato do estudo de caso realizado que teve como objeto o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. Especificamente há a descrição e análise dos seguintes aspectos pertinentes ao Curso: a) Contexto organizacional; b) estrutura e informações gerais; c) metodologia de ensinoaprendizagem adotada; d) abordagens de Terceiro Setor e do processo ensinoaprendizagem. O trabalho é encerrado com a exposição das Considerações Finais. 12 CAPÍTULO 1 TERCEIRO SETOR 13 1. Introdução A questão da origem histórica do Terceiro Setor, seja do conceito ou das organizações que hoje estão inseridas em seu contexto, tem sido alvo de grande controvérsia entre os autores que discutem o tema. Em todo o mundo, pensar historicamente as organizações voltadas para ações sociais e o Terceiro Setor é extremamente complexo. No Brasil, é tarefa ainda mais difícil, em razão da pouca literatura disponível e da ausência de registros e sistematização de dados, tanto dos órgãos reguladores governamentais, como das próprias organizações da sociedade civil. Considerando as dificuldades citadas, foram levantadas informações que permitissem referenciar, o presente trabalho, no tocante ao surgimento do conceito de Terceiro Setor e suas principais abordagens teóricas e práticas na atualidade. Ao final do capítulo, apresentam-se as origens e características centrais das Organizações não Governamentais (Ongs) brasileiras que, em grande parte, representam o modo objetivo como o Terceiro Setor efetiva-se na realidade, ainda que se considere que as Ongs não são as únicas organizações existentes no Setor. Aliás, é oportuno ressaltar que, neste estudo, será utilizada preferencialmente, a terminologia Ongs como referência a todas as organizações do Terceiro Setor. 2. Surgimento do Conceito Terceiro Setor A noção de Terceiro Setor, enquanto conceito utilizado para explicar parte da realidade social contemporânea, parece ter origem nos Estados Unidos, conforme indicação de numerosos autores. A tradição de incentivo à associação de cidadãos, de acordo com seus interesses, presente na sociedade norte-americana, favoreceu o surgimento e ampliação do número de organizações da sociedade civil e Ongs que, posteriormente, viriam a constituir o Terceiro Setor naquele país. 14 As prováveis matrizes teóricas que contribuíram para o surgimento da noção de Terceiro Setor foram comentadas por diversos autores, dentre os quais cumpre citar Carlos Montaño (2002); Augusto de Franco (2001); Simone de Castro Tavares Coelho (1998) e Andrés Falconer (1999). Tradicionalmente, são mencionados como possíveis referências conceituais, que influenciaram a criação do termo Terceiro Setor, autores de tradições teóricas bastante distintas, como Habermas, Castells, Tocqueville, Stuart Mill e Gramsci. Autores que apresentam abordagens críticas e, também, abertamente favoráveis ao Terceiro Setor, costumam apontar o francês Charles Tocqueville como o pensador que mais influenciou a construção da noção de Terceiro Setor. Tocqueville viajou, na primeira metade do século XIX, pelos Estados Unidos observando e elaborando análises acerca da democracia daquele país. Para ele, a liberdade de os cidadãos norte-americanos formarem associações, seria sinônimo de liberdade política e base para a construção daquilo que denominou democracia ideal. O centro do pensamento tocquevilliano aponta que uma democracia sólida só poderia ser construída a partir de Estados, entendidos aqui como Governos, com menor poder tirânico (termos do próprio autor); livre iniciativa de mercado com defesa da propriedade privada e concentração de riquezas por parcela minoritária da população (Mercado) e, por fim, a ênfase absoluta na importância de os indivíduos associarem-se livremente para defender seus interesses. O direito de livre associação é que garantiria o fortalecimento e manutenção das democracias, pois, para Tocqueville, a pressão exercida pelas associações civis, em relação ao Estado, garantiria que este não se constituísse de forma autoritária e despótica. No que diz respeito à economia, o autor mostrou-se contra uma sociedade em que a igualdade econômica e justiça social fossem reinantes. Para ele, sociedades economicamente igualitárias poderiam ameaçar a democracia, dado o risco iminente de surgimento de uma tirania da maioria. O pensador francês afirmava que a manutenção da ordem social estaria garantida se as organizações de livre associação dos cidadãos defendessem interesses e direitos particulares de pequenos grupos. A associação de grandes grupos de cidadãos era vista de forma negativa dada a necessidade de evitar o surgimento de 15 insurreições da maioria da população ou o desenvolvimento de um Estado despótico. É relevante citar que para o autor, Estado despótico era sinônimo de Estado Socialista. Tocqueville opunha-se radicalmente a quaisquer formas socialistas de organização das massas, isto é, opunha-se à auto-organização ampla dos trabalhadores (maioria) para reivindicar justiça social e igualdade de distribuição das riquezas junto às elites dominantes (minoria). De qualquer modo, a relação entre as idéias do autor e a atual noção de Terceiro Setor não é direta e também não é aceita de forma absolutamente corrente. Comumente, aponta-se que os escritos de Tocqueville sobre o associativismo norte-americano é que teria relação mais próxima com o pensamento atual do Setor. Ao longo do século XX, teóricos como Robert Putnam (1993) e Fukuyama (1995) retomaram as proposições de Tocqueville para tentar justificar a percepção de que a sociedade, em seu conjunto e as organizações nascidas em seu interior não só se aproximariam, mas se constituiriam em um todo único e indissociável. De fato, mesmo nos Estados Unidos, é somente a partir de meados da década de 1970 que a noção de Terceiro Setor passa a ser mais amplamente utilizada para designar o conjunto de organizações da sociedade civil. Segundo Carlos Montaño (2002), Terceiro Setor seria um termo cunhado por autores com visão liberal ligados aos Estados Unidos, maior país capitalista do mundo, para designar o conjunto de organizações de cidadãos associados livremente de acordo com seus interesses particulares. Montaño (2002: p. 83), em seu estudo crítico acerca do Setor, chega a indicar a autoria do termo, que teria sido um “conceito cunhado nos E.U.A., em 1978, por John Rockfeller II, capitalista norte-americano”. Hoje, parece ser construído o consenso segundo o qual, independentemente das origens do Terceiro Setor enquanto conceito, o relevante é considerá-lo a expressão da busca empreendida pela sociedade civil, no sentido de “assumir diretamente a solução de alguns dos seus problemas, sem esperar que o faça o Estado, ou a mão invisível do setor empresarial” (DOWBOR, L., 2001: não paginado). 16 3. O Debate Hoje Para abordarmos as principais facetas do debate atual sobre Terceiro Setor, é preciso destacar que há um conjunto amplo de atores que participam das discussões: pensadores ligados a Universidades, empresários, políticos, lideranças da sociedade civil, gestores de Ongs, entre tantos outros. Portanto, a revisão das concepções e perspectivas do Setor aqui descritas, passará direta ou indiretamente pela apresentação das visões desses atores e não unicamente por apontamentos encontrados na literatura acadêmica pertinente ao tema, a qual é preciso considerar, apresenta-se limitada e pouco aprofundada. Ainda é preciso lembrar que as abordagens apresentadas estão relacionadas ao debate atual, mas não são necessariamente visões unicamente do Setor, podendo ser perspectivas mais amplas da sociedade e que têm sido apropriadas pelos atores sociais e pensadores do Terceiro Setor. Ainda assim, acreditamos que é preciso conhecer essas abordagens para compreender a expressão real do Terceiro Setor nos correntes dias. Em nossa análise, há hoje quatro abordagens dominantes relacionadas ao debate acerca do Terceiro Setor, a saber: a. Norte-Americana; b. Crítica ao Terceiro Setor; c. Economia Solidária e Cooperativismo; d. Desenvolvimento Social Local - DSL. As visões vinculadas ao Terceiro Setor comentadas, em alguns momentos, mostram-se absolutamente opostas, em outros apresentam-se permeáveis entre si. Apesar de admitirmos a existência de diferenças significativas entre algumas abordagens, parece adequado considerar que, em realidade, os atores sociais e pensadores que, de algum modo aproximam-se do Terceiro Setor, não estão separados de forma inconciliável. Pelo contrário, parece haver, em grande parte dos casos, uma complementaridade entre as abordagens, no momento em que se efetivam na prática 17 cotidiana. Os valores e conceitos que aproximam as abordagens do Setor estão associados à tentativa de construção de sociedades mais democráticas e participativas e à solução dos problemas surgidos nas últimas décadas, em especial, nos espaços urbanos. 3.1. • Abordagem Norte-Americana FUNDAMENTOS DA ABORDAGEM NORTE-AMERICANA O que se denomina Abordagem Norte-Americana do Terceiro Setor - em função de seus principais pensadores serem oriundos dos Estados Unidos - é amplamente dominante nos debates no Brasil. Possui, como centro de sua visão, as idéias originais de Tocqueville revisitadas, ao longo do século XX, por autores diversos. Os principais representantes dessa perspectiva estão ligados ao Johns Hopkins Institute for Policy Studies, dentre os quais Lester Salamon é o pesquisador de maior destaque. Salamon (1997, p. 92) afirma que, aquilo que define o Terceiro Setor, determina e confere Unidade ao conjunto das suas organizações é a incorporação de uma gama de valores como “altruísmo, compaixão, sensibilidade para com os necessitados e compromisso com o direito de livre expressão”. No entanto, destaca o autor, acima dos valores que incorpora, o Terceiro Setor tem como seus fundamentos: A iniciativa individual, em particular a iniciativa individual em prol do bem público, a idéia de que os seres humanos têm a capacidade e a obrigação de agir por autoridade própria a fim de melhorar suas vidas e as dos outros, assumindo as rédeas para fomentar o bem-estar geral (SALAMON, 1997, p. 92). A visão de Salamon parte do pressuposto de que todos os cidadãos e todas as Organizações da Sociedade Civil estariam ou deveriam estar em busca do bem 18 comum. Em função disso, ele aponta que as organizações do Terceiro Setor necessariamente não podem ter fins lucrativos. O autor compreende que uma sociedade cuja boa qualidade de vida e o bem comum sejam os interesses principais de todos, somente pode constituir-se a partir dos esforços colaborativos dos mais diferentes segmentos sociais, como o Estado, o setor empresarial e o Terceiro Setor. É relevante notar que Salamon rejeita quaisquer abordagens que ele denomina de “ideológicas” de Terceiro Setor, isto é, outros autores que visualizam no Setor algo além da busca do bem comum, estariam analisando incorretamente a realidade das Organizações da Sociedade Civil e das Ongs. Vincular o Terceiro Setor ao projeto neoliberal de sociedade, como costumam apontar os críticos do Setor é, portanto, considerado uma inadequada ideologização do debate, pelo autor. A Abordagem Norte-americana enfatiza que o Terceiro Setor tem como objetivo principal aperfeiçoar as formas de organização da sociedade civil, de modo que os cidadãos possam participar mais ativamente do cotidiano de suas comunidades: [...] um dos grandes desafios do Terceiro Setor, portanto, não é criar estruturas sociais inteiramente novas, mas aplicar novas formas de associação às estruturas tradicionais da vida comunitária (SALAMON, 1997, p. 101). No tocante especificamente às Organizações da Sociedade Civil, Salamon e seus colaboradores apresentam como os quatro principais desafios: 1. A obtenção da sustentabilidade funcional e financeira; 2. o alcance da legitimidade, tanto no tocante ao aspecto legal, ao reconhecimento das organizações, enquanto espaços relevantes de debates e ação por parte dos cidadãos, do empresariado e do poder público constituído; 3. o desenvolvimento de formas eficientes de realizar os serviços que as organizações costumam prestar; 19 4. o aperfeiçoamento da capacidade de colaboração com o governo, com o setor privado e entre as próprias organizações da sociedade civil. Alguns organismos multilaterais contemporâneos adotaram perspectivas presentes na Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor, o que levou alguns autores a realizarem fortes críticas às idéias de Salamon e dos estudiosos do Johns Hopkins Institute. Uma das críticas mais contundentes afirma que a Abordagem NorteAmericana seria abertamente favorável ao que se tem chamado de publicização, ou seja, o incentivo à substituição de órgãos estatais por organizações da sociedade civil na prestação de serviços em áreas fundamentais como saúde, Educação e assistência social; em uma tentativa de diminuir o chamado Estado do Bem-Estar Social. Salamon responde a essa questão negativamente, afirmando que, em verdade, há serviços que somente o Estado pode prestar e outros que organizações da sociedade civil podem atuar de modo mais eficiente. Segundo o autor, cada país deve avaliar a sua realidade social e definir o que deve ou não ser oferecido pelas organizações da sociedade civil com ganhos para os cidadãos. • A ABORDAGEM NORTE-AMERICANA NO BRASIL No Brasil, há um conjunto de atores e pensadores do Terceiro Setor que se aproximam dessa concepção. Curiosamente os autores brasileiros costumam fundir variadas concepções de sociedade, política, economia, classes sociais etc, muitas vezes antagônicas, para expor suas posições. A despeito disso, identifica-se claramente o alinhamento de grande parcela deles à Abordagem do Setor que agora apresentamos. Dentre os autores ou atores sociais nacionais que abordam o Terceiro Setor, destaca-se Rubem César Fernandes. Bastante influenciado por Salamon, costuma apontar para a relevância das organizações da sociedade civil como espaço legítimo para o exercício da cidadania. Questiona a ação de organizações críticas ao Governo e 20 ao modo capitalista de estruturação societal, preferindo reforçar o papel integrador do Terceiro Setor, enquanto espaço de práticas solidárias e caritativas. Há grande ênfase nesse pensamento na necessidade de colaboração entre as organizações do Terceiro Setor, empresas e governo. Leilah Landim é referência obrigatória quando se aborda a questão do Terceiro Setor em nosso país. Em suas obras, de mais ampla divulgação, apresenta textos sobre diversas posições acerca do Setor. A autora não está claramente ligada à Abordagem Norte-Americana se forem consideradas suas exposições mais recentes, mas dada sua vinculação em pesquisas organizadas por Salamon e posterior difusão das idéias do autor no Brasil, pode-se considerá-la a principal divulgadora da abordagem em tela. Nos últimos anos, conforme citado anteriormente, uma gama de produções acadêmicas foram produzidas, particularmente ligadas às áreas da administração, economia e contabilidade. Quanto à perspectiva de Terceiro Setor, os trabalhos apresentam uma tendência ao alinhamento com a Abordagem Norte-Americana. Dentre os estudos elaborados, podemos citar o de Falconer (1999), em que o autor realiza estudo exploratório sobre o Setor e aponta, como saída para seu desenvolvimento, a adoção de medidas que se aproximam das propostas de Salamon, tais como: • Postura, por parte das Organizações da Sociedade Civil, análoga a das empresas na competição por recursos públicos e privados; • percepção do público atendido pelas Organizações enquanto clientes – e não cidadãos de direito; • associação das organizações em Redes de mútua ajuda, objetivando a defesa de interesses de grupos particulares. Nesse aspecto, tanto a visão de Falconer como de Salamon tem recebido críticas, na medida em que sugerem não a defesa dos direitos de toda a coletividade de indivíduos, mas de grupos particulares. Paulo Roberto Durigan (2000), ao contrário de Falconer, não identifica como um fator relevante a competição entre as organizações do Terceiro Setor, exceto por 21 essa pequena distinção: o referencial conceitual e teórico de Durigan está bastante vinculado à proposta Norte-Americana, com a qual ele concorda ao longo das análises e conclusões de seu trabalho. O conjunto de autores, acima citados, costuma receber críticas freqüentes que indicam que a abordagem Norte-Americana seria um novo instrumento de negação da possibilidade de disputas políticas e econômicas entre classes sociais e, mais especificamente, entre grupos enriquecidos e as classes subalternas. Essa negação acabaria, segundo os críticos, por constituir-se em mais um instrumento de manutenção da ordem social, regida por interesses do capital visto que, “em uma sociedade tão marcantemente desigual, se o conflito não é parte constitutiva da política, as classes subalternas jamais terão a oportunidade de alterar as diferentes assimetrias existentes” (NAVARRO, 2002, 197). Por sua vez, os defensores das concepções de Salamon e da Abordagem Norte-Americana afirmam que o conflito entre classes com a vitória de um grupo social sobre outro, não resultaria em uma sociedade mais igualitária e com qualidade de vida para todos. Novamente, a questão da colaboração entre os diferentes atores e setores sociais surge, para esses autores, como possibilidade de superação dos enormes problemas enfrentados nas mais diferentes áreas (saúde, segurança, Educação, desemprego) pelas sociedades atuais. 3.2. • Abordagem Crítica ao Terceiro Setor FUNDAMENTOS DA ABORDAGEM CRÍTICA AO TERCEIRO SETOR O que neste capítulo, denomina-se Abordagem Crítica ao Terceiro Setor refere-se aos escritos de autores que se opõem frontalmente à própria noção de Terceiro Setor ou questionam, firmemente, as atuais formas de expressão de solidariedade que as organizações e ações do Setor representam. É relevante esclarecer que é bastante reduzido o número de trabalhos e autores ligados a essa 22 perspectiva. Entretanto, parece importante conhecer e compreender as principais críticas ao Terceiro Setor presentes nos debates atuais. Resumidamente, os autores críticos ao Terceiro Setor destacam em suas análises: • As fragilidades da construção do próprio conceito de Terceiro Setor; • aquilo que chamam de funcionalidade do Setor aos propósitos neoliberais; • o uso do Setor e de suas organizações no processo de desconstrução e sucateamento dos órgãos estatais que compõem o denominado Estado do Bem Estar Social. Esse processo chamado publicização atingiria, em particular, equipamentos e órgãos da saúde, Educação e assistência social; • para Montaño (2002), o discurso dos chamados autores do Terceiro Setor, esforça-se para despolitizar os conflitos sociais; • o Terceiro Setor favoreceria a difusão da idéia de que os males que atingem as populações empobrecidas são de auto-responsabilidade das próprias vítimas do processo de pauperização, e que devem buscar por elas próprias as soluções para sua condição. O autor norte-americano James Petras, no plano internacional, é o principal representante da Abordagem Crítica. Em seus estudos costuma apontar que a atuação das organizações do Terceiro Setor teriam como resultado um efeito favorável aos regimes neoliberais atuais. A preocupação das Ongs, com a resolução de problemas locais, é percebida por Petras como elemento que afasta os cidadãos do debate sobre as grandes questões da sociedade. O autor afirma que, se constitui em forte indicativo do engajamento do Terceiro Setor ao projeto neoliberal de sociedade, o fato de Ongs que se encontram inseridas “na luta contra o imperialismo, contra o capital, não receberem financiamento do Estado ou de instituições financeiras” (Petras, 2000: p. 88). 23 O afastamento gradual de grande parte das Ongs, em relação aos movimentos sociais, é outro aspecto de questionamentos por parte do autor. Segundo ele, essas organizações optaram por aproximar-se de mecanismos e órgãos de financiamento internacional ligados ao capital, em detrimento da relação com movimentos populares de base. Petras visualiza, no crescimento do número de Ongs, uma relação próxima com a diminuição de responsabilidade dos Estados pelos serviços sociais e de bem estar das populações. O fato de esta Abordagem estar claramente vinculada ao marxismo é o principal fator de questionamentos por parte de autores favoráveis ao Terceiro Setor. Segundo eles, Petras e os demais autores da mesma Abordagem apresentam uma baixa capacidade de perceber que as sociedades atuais diversificaram-se e tornaramse extremamente complexas, de modo que o paradigma clássico marxista não permite oferecer respostas adequadas ao conjunto de problemas vivenciados pelas múltiplas comunidades existentes nas grandes cidades. • A ABORDAGEM CRÍTICA AO TERCEIRO SETOR NO BRASIL No Brasil, Carlos Montaño é o principal representante desse segmento. Sua tese de doutorado, Terceiro Setor e a questão social, constitui-se em longo e vigoroso estudo crítico ao realizar levantamento e análise do que chamou de autores do Terceiro Setor que, segundo ele: a. Mostram-se incapazes de conferir contornos conceitualmente claros ao Setor; b. costumam ocultar (conforme termos do próprio autor), em seus escritos, a análise histórica dos processos que levaram à construção das organizações da sociedade civil e Ongs, hoje existentes. As percepções de Montaño aproximam-se das idéias de Petras. Suas análises e críticas estão centradas na Abordagem Norte-Americana, apresentada 24 anteriormente. O autor rejeita a aproximação da noção de movimento social e Ongs realizada, por exemplo, por Maria da Glória Gohn (2000). Os movimentos sociais estariam, na compreensão de Montaño, identificados com as lutas das comunidades de base e com a transformação social, ao contrário do que ele vê na ação e propostas das Ongs e do Terceiro Setor de modo global. Petras e Montaño, em síntese, entendem que o Terceiro Setor centra sua ação e discurso na auto-ajuda das comunidades pobres, o que as despolitiza e contribui para sua desmobilização. Atuam nos sintomas (fome, delinqüência, uso de drogas) e nunca no desvelamento e transformação das causas do empobrecimento e enfrentamento dos problemas sociais. Montaño admite a “necessidade de que, no âmbito da sociedade civil [...] as pessoas, os movimentos comunitários, os grupos de interesse ou categoriais, participem ativamente do processo de lutas sociais”. (MONTAÑO, 2002, p. 262) O autor percebe a atividade da sociedade civil, enquanto motor da história, de acordo com os pressupostos marxistas que adota. Assim Montaño pensa a sociedade enquanto uma “esfera, um espaço da totalidade social, portanto, necessariamente, articulada às outras esferas, particularidades do universal” (Montaño, 2002: p. 09). Sua negação ao Terceiro Setor está basicamente centrada nessa percepção de totalidade social que, para ele, opõe-se frontalmente à noção de setores sociais (primeiro setor = Estado, segundo setor = mercado, terceiro setor = sociedade civil organizada) que, acredita, o Terceiro Setor defende nos dias correntes. A sociedade civil, portanto, não poderia constituir-se, para o autor em estudo, em um sujeito único que atua em lutas pelo desenvolvimento social. Isto porque a própria sociedade é concebida por Montaño como arena de lutas dos diversos atores sociais. Esses embates não aconteceriam entre sociedade civil, Estado e mercado (os três setores), mas por “sujeitos individuais (homens e mulheres) e coletivos (grupos e organizações) em diversos espaços ou esferas da sociedade total, seja na sociedade civil, no Estado, na esfera produtiva, no espaço de consumo, na vida cotidiana” (MONTAÑO, 2002, p. 277). 25 Outro autor que se aproxima da Abordagem Crítica é o sociólogo Ricardo Antunes que se refere de forma breve à questão do Terceiro Setor em Os Sentidos do Trabalho. Preocupado com a problemática que envolve o mundo do trabalho, Antunes não se dedica a definir e delimitar o Terceiro Setor. De qualquer modo, apresenta crítica contundente, que merece nota, discordando daqueles que conferem relevância ao Terceiro Setor no cenário e na economia global. Ele aproxima as abordagens de Terceiro Setor e Economia Solidária enfatizando as relações de ambas com o mundo do trabalho. Antunes aponta que, tanto o Terceiro Setor quanto as expressões da Economia Solidária, seriam funcionais ao capital porque incorporam, ainda que de forma bastante limitada, parcelas de trabalhadores desempregados em particular devido ao desemprego estrutural. O autor não concebe as atividades do Terceiro Setor e da Economia Solidária como alternativas à lógica capitalista; ao contrário, vê proximidade dessas atividades em relação ao sistema capitalista, por considerar que ambas (mas mais enfaticamente o Terceiro Setor) assumiriam funções do Estado ao atuar de modo a reforçar a falta de interesse do sistema para com a questão social e com os desempregados. Antunes conclui suas reflexões sobre Terceiro Setor e Economia Solidária afirmando que: quando concebidas como um momento efetivo de transformação social em profundidade, elas acabam por converter-se em uma nova forma de mistificação que pretende, na hipótese mais generosa, ‘substituir’ as formas de transformação radical, profunda e totalizantes da lógica societal por mecanismos mais palatáveis e parciais, de algum modo assimiláveis pelo capital. E na sua versão mais branda e adequada à ordem pretendem em realidade evitar as transformações capazes de eliminar o capital. (ANTUNES, 2002, p. 114) 26 Em síntese, a análise dos críticos ao Terceiro Setor refere-se, de forma central, ao que chamam de funcionalidade do Setor aos interesses capitalistas. 3.3. • Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo FUNDAMENTOS DA ABORDAGEM ECONOMIA SOLIDÁRIA E COOPERATIVISMO Os autores da Economia Solidária, cujas raízes estão no socialismo utópico, não a consideram parte do Terceiro Setor. A despeito disso, não se pode negar a aproximação crescente entre os postulados e ações da Economia Solidária e as Ongs, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) e demais formas de associação de cidadãos que integram o Terceiro Setor, ainda que ocorra em meio a grande controvérsia. A opção de apresentar o que se denomina Economia Solidária deu-se pelo entendimento de que essa perspectiva da Economia e o Terceiro Setor têm-se aproximado em diversas situações, em especial, em função de as Organizações da Sociedade Civil estarem utilizando postulados do cooperativismo, na busca de geração de renda das populações com as quais atuam. Os fatores acima justificam a inserção da análise da Economia Solidária neste trabalho, por um lado se for considerada sua aproximação com os movimentos sociais e organizações de algum modo ligadas à noção de Terceiro Setor e, por outro, dada a forte presença e relevância da Educação na própria concepção da Economia Solidária. Os pressupostos da Economia Solidária foram forjados em meados do século XIX, por operários que lutavam contra o capitalismo industrial e suas conseqüências negativas para a classe dos que vivem do trabalho, bem como, por autores franceses e ingleses do chamado socialismo utópico como Robert Owen, Charles Fourier, Proudhon, Charles Gide, entre outros. Os autores militantes e entusiastas da Economia Solidária vêem-na como uma alternativa ao modo de produção capitalista. Na Economia Solidária, não há 27 distinção entre aqueles que possuem capital e os que trabalham. Cada empresa pertence ao conjunto de trabalhadores que dela fazem parte. O cooperativismo é, segundo Veiga e Fonseca (1999), a forma objetiva e central de expressão da Economia Solidária. Vejamos o que dizem os autores: O cooperativismo é um sistema de idéias, valores e forma de organização da produção de bens e serviços e do consumo que reconhece as cooperativas como forma ideal de organização das atividades socioeconômicas. (VEIGA; FONSECA, 1999, p. 22) Sendo o cooperativismo um sistema de idéias e valores e a cooperativa sua expressão maior, é importante notar que as organizações cooperativas de produção constituem-se na modalidade básica de agrupamento da Economia Solidária (Singer, 2002), mas não é a única. Há diversas espécies de cooperativas, sendo as mais difundidas: as cooperativas de consumo; as cooperativas de crédito; as cooperativas de trabalho. A Economia Solidária seria, para seus teóricos, composta exclusivamente de cooperativas que de fato adotem os princípios do cooperativismo. As organizações e cooperativas solidárias que, após alcançar relativo sucesso econômico e em sua gestão passam a adotar princípios típicos do capitalismo burguês, são denominadas degeneradas. • ECONOMIA SOLIDÁRIA E EDUCAÇÃO As cooperativas e empresas solidárias, desde os seus primórdios, apresentavam grande preocupação e interesse pela Educação, a construção e disseminação de conhecimentos que tivessem como base a solidariedade, a justiça e a fraternidade entre os trabalhadores. O inglês Robert Owen, criador das aldeias cooperativas e um dos pioneiros da Economia Solidária, entendia que, por meio de ações e estratégias educacionais, 28 poder-se-ia incentivar o desenvolvimento de uma cultura solidária em especial junto às crianças. A Sociedade dos Pioneiros de Rochdale (Manchester), importante cooperativa inglesa do século XIX, cujos membros influenciaram todo o pensamento da Economia Solidária, tinha, como um dos objetivos centrais de seu plano de emancipação dos trabalhadores, o desenvolvimento da Educação no seio das cooperativas. Veiga e Fonseca (1999) destacam que no Estatuto da Sociedade do Probos Pioneiros de Rochdale, que posteriormente constituiu-se na base dos princípios cooperativos universais, havia uma clausula que sugeria a reserva de porcentagem do capital da cooperativa para a Educação. No século XX, o principal exemplo de experiência positiva de cooperativa está na Espanha, o Complexo de Mondragón que pertence a trinta mil trabalhadores. Nela existe também grande interesse pela questão educacional. Há entre as mais de cem cooperativas que compõem o Mondragón, algumas ligadas ao campo da Educação, incluindo até mesmo Universidades (SANTOS, B.S., 2002). • A ECONOMIA SOLIDÁRIA HOJE A Economia Solidária tem vivido, ao longo de sua história, crises constantes em função do risco permanente de degeneração de suas organizações, as quais com freqüência, abrem mão dos valores cooperativos e tornam-se empresas capitalistas comuns. Ainda assim, nas últimas três décadas, tem se fortalecido, muito provavelmente em função do contexto econômico atual, por exemplo, indicado no relatório da United Nations Conference on Trade and Development (1997) que afirma ter havido drástica ampliação da concentração de renda no mundo, nos anos que o antecederam e um brutal crescimento do desemprego e conseqüente empobrecimento de amplas parcelas da população. Atualmente, segundo dados apresentados por Sandra Mayrink Veiga e Isaque Fonseca (1999), cerca de 1/6 da população mundial estaria de alguma maneira inserida no movimento cooperativista. Como exemplos da força do movimento 29 cooperativista na atualidade, os autores apresentam as seguintes informações: a.) um em cada três canadenses é membro de cooperativas; b.) quatro dos cinqüenta maiores sistemas bancários do mundo são cooperativos; c.) há mais de 70 milhões de membros de cooperativas nos Estados Unidos; entre outros. Os autores da Economia Solidária apresentam as diferenças entre suas propostas e o capitalismo burguês tradicional ao afirmar que neste a população empobrecida recebe auxílio de cunho assistencialista e localizado de organizações subordinadas ao capital, enquanto na Economia Solidária trabalhadores empobrecidos organizam-se solidariamente em cooperativas de produção, consumo, crédito etc. O capital, nesse caso, é o meio para melhoria da qualidade de vida das populações. A organização dos trabalhadores teria como objetivo questionar a atual estruturação capitalista burguesa de sociedade e, em longo prazo, transformá-la e superá-la. Os pressupostos da Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor e a proposta de Economia Solidária apresentam diferenças e, de modo contraditório, porém real, fortes aproximações. As mais destacadas distinções e semelhanças são: ambas propõem o associativismo de cidadãos, mas a Economia Solidária enfatiza a associação de trabalhadores, ainda que não se restrinja unicamente a eles. A abordagem Norte-Americana percebe o Terceiro Setor, enquanto esfera social, que busca a melhoria da qualidade de vida e empenha esforços em desenvolver formas cooperativas de convivência e gestão social entre governo, estado e sociedade civil, enquanto a Economia Solidária sugere a superação da organização societal atual. A despeito dessas diferenças centrais, é curioso notar que diversas Ongs, OSCs e entidades do chamado Terceiro Setor têm incentivado e adotado, como forma de geração de renda para as populações pobres com as quais trabalham, a criação e o desenvolvimento de cooperativas. Nesse aspecto, as duas abordagens voltam a encontrar-se, ainda que com controvérsias. No Brasil, esse tipo de aproximação é bastante comum. Devido à ausência de politização dos gestores de grande número de Ongs e organizações da sociedade civil, bem como, da ação localizada e emergencial dessas organizações, adota-se a criação de cooperativas como forma de unir a população pobre e gerar renda para os indivíduos da comunidade local. Segundo teóricos da Economia Solidária, essas ações, 30 desprovidas de conteúdo ideológico e distantes dos valores cooperativos, acabam por favorecer o surgimento de associações de trabalhadores empobrecidos funcionais ao sistema capitalista. Isso se deve ao fato de algumas Ongs criarem cooperativas de trabalho com membros que dispõem apenas da própria mão-de-obra para a venda, o que acaba por levá-los a prestar serviços a baixo custo a empresas capitalistas, que ficam liberadas de obrigações legais patronais para com os funcionários. Dessa forma, segundo pensamento de numerosos pensadores da Economia Solidária, essas cooperativas, incentivadas por Ongs, acabam por acentuar o processo de precarização do trabalho, o que se distancia dos ideais emancipatórios das populações pauperizadas próprios do Cooperativismo. Por outro lado, há iniciativas de algumas Ongs que adotam os princípios do cooperativismo e que de fato conferem um caráter emancipatório às ações ligadas a Economia Solidária que empreendem. Exemplos dessas Ongs foram registrados por Paul Singer3, dentre as quais mereceram destaque algumas cooperativas fomentadas pela Ong Ação Cidadania Contra a Fome, a Miséria pela Vida, ações do MST Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra. É importante reafirmar que, dada a definição inconsistente e difusa de Terceiro Setor, o conjunto de Abordagens identificadas aproximam-se ou afastam-se de acordo com o posicionamento do autor estudado ou com a postura e ação das Ongs e movimentos sociais analisados. Desse modo, não nos parece correto desprezar visões práticas ou teóricas que aproximam Terceiro Setor e Economia Solidária. Entretanto, como afirma Bava (2003: não paginado): para saber distinguir entre os que propõem produzir de uma maneira utilitarista ‘marca social’ para beneficiar seus negócios e as entidades que têm por objetivo a promoção da cidadania, é preciso avaliar as práticas e o impacto social do trabalho de cada um. 3 Cf. SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Perseu Abramo, 2002. 31 3.4. Abordagem Desenvolvimento Social Local – DSL A quarta e última Abordagem apresentada neste trabalho, que denominamos Desenvolvimento Social Local – DSL, possui fortes vinculações com o Terceiro Setor, apesar de não ter como foco único aspectos pertinentes às Ongs e demais Organizações da Sociedade Civil. A sua inclusão neste capítulo deve-se ao fato de as contribuições de seus pensadores para o debate sobre as questões sociais, apresentarem forte interesse no Terceiro Setor e também por estarem voltados para a construção de democracias mais participativas, para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e para o desenvolvimento sustentável das comunidades. • FUNDAMENTOS DA ABORDAGEM DESENVOLVIMENTO SOCIAL LOCAL - DSL Um número crescente de pensadores e atores sociais tem apresentado concepções que parecem estar relacionadas aos debates sobre a necessidade de valorizar e priorizar o desenvolvimento social local. Nos últimos anos, importantes trabalhos foram produzidos nesse campo, dentre os quais destacam-se os elaborados por Hazel Henderson (1996; 2003); David C. Korten (2001); Ladislau Dowbor (2001) e Augusto de Franco (2003). Merece nota, ainda, um conjunto de debates que envolveram representantes de mais de cem países publicadas por Aliança por um Mundo Responsável, Plural e Solidário. As publicações que resultaram daqueles debates apresentam propostas de ações no sentido de superar os principais desafios das sociedades contemporâneas. Dentre esses trabalhos, merece nota aquele organizado por Pierre Calame (2004) sobre Gestão Social, Governança e Cidadania, e o trabalho coordenado por Jorge Cardelli, Miguel Duhalde e Laura Maffei (2003) com propostas para a Educação no século XXI. Uma significativa parcela dos autores dessa Abordagem estão ligados à Economia e Administração e apresentam crítica ao paradigma vigente, segundo a qual 32 o desempenho econômico das sociedades seria a melhor forma de avaliar o desenvolvimento social, tanto de países inteiros quanto de localidades específicas. Segundo Hazel Henderson (1996), foi após o final da Guerra Fria que se exacerbou a difusão do capitalismo de mercado e a guerra econômica competitiva. Em síntese, segundo a autora, a ênfase no globalismo financeiro competitivo e a diminuição dos direitos e dos espaços de participação dos cidadãos observados nas últimas décadas, alarmou indivíduos e grupos sociais em todo o mundo, que procuram apresentar um novo paradigma de organização da sociedade baseado na cooperação, no aperfeiçoamento das ferramentas democráticas de participação de forma direta ou representativa e na preocupação com construção de formas de desenvolvimento que se mostrem sustentáveis4. De modo geral, esses autores apresentam vigorosas críticas ao capitalismo nos dias atuais. David C. Korten (2003, p. 13) afirma em seu livro O Mundo PósCorporativo que “[...] sob o capitalismo, a democracia é objeto de leilão e o mercado está sujeito ao planejamento centralizado de mega-corporações globais [...]”. A questão da busca de alternativas ao sistema capitalista atual é uma constante nessa abordagem. Entretanto, as sugestões apresentadas diferem das soluções indicadas por pensadores marxistas e da esquerda tradicional. A centralização ou ampliação do Estado tradicional não é visto como alternativa mais adequada. Em verdade o domínio do grande capital e da propriedade privada, enquanto solução para os problemas atuais, é tão criticado quanto a ampliação dos equipamentos de Estado tal como são conhecidos hoje. A crescente complexidade das sociedades, em grande parte vinculada à urbanização das populações, impediria a adoção de soluções simplificadas ou já testadas anteriormente e que se mostraram ineficientes. Sobre isso, Henderson apresenta, de forma bastante precisa, a visão dominante entre os autores dessa abordagem ao afirmar que: 4 Hazel Henderson adota a seguinte definição de Desenvolvimento Sustentável: “desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras para satisfazer suas próprias necessidades” (World Commission on Environment and Development, Our Common Future – New York / London:Oxford University Press, 1987). 33 À medida que as sociedades ocidentais têm se tornado mais tecnologicamente complexas e interdependentes, a simples polaridade ou isto/ou aquilo, conservador/liberal [...] é incapaz de canalizar a multiplicidade de questões e os debates multidimensionais que são necessários.” (HENDERSON, H., 1996, p. 276) De fato, o que esses pensadores e atores sociais sugerem é o fortalecimento dos espaços locais e o incentivo à participação dos cidadãos nos processos de governança local e global5. O fato de ser citada a questão da governança global como uma das preocupações desta abordagem, não se constitui em contradição. Isto porque os autores percebem como importante uma articulação cuidadosa entre os problemas e soluções empreendidas localmente e as políticas e debates realizados de modo global (seja no espaço dos governos federais ou dos grandes blocos econômicos). Acerca da questão da governança cumpre delimitar o que se compreende quando do uso do termo. Pierre Calame (2004, p. 20) o definiu como: [...] a capacidade das sociedades humanas para se dotarem de sistemas de representação, de instituições, de regras, de procedimentos, de meios de avaliação, de processos, de corpos sociais capazes de gerir as interdependências de maneira pacífica. Segundo o autor, na atualidade, faz-se necessário redefinir as relações entre público-privado e as relações entre os governos, empresas e sociedade civil. Essa redefinição, segundo afirma Calame, deve pautar-se pelos interesses e necessidades dos cidadãos e, desse modo, espera-se que as decisões econômicas e políticas passem a relacionar-se e a refletir os interesses das comunidades, em âmbito local, e do conjunto dos cidadãos de uma macro-região no tocante às políticas e decisões mais abrangentes. 5 O espaço local é compreendido enquanto comunidade na qual os cidadãos residem, trabalham e convivem em seus cotidianos. O espaço global diz respeito às macro-regiões nacionais e internacionais. 34 Nesse sentido, é preciso criar ou aperfeiçoar espaços de debate e de decisão locais, de modo a ampliar e fortalecer o Poder Local, definido por Ladislau Dowbor (2004), como a capacidade de uma localidade, município, bairro ou quarteirão de empreender autotransformações econômicas e sociais. Dito de outra forma, essa Abordagem sugere que se fortaleça a democracia participativa e que se aproximem os cidadãos dos debates e decisões sobre os problemas que suas comunidades enfrentam, ao invés de manter apenas formas representativas de democracia e a conseqüente manutenção das esferas decisórias distantes daqueles que vivenciam os problemas enfrentados no cotidiano comunitário. Para Dowbor (2001: p. 13), a grande questão que se impõe hoje vincula-se à necessidade de “reconstrução, ou estruturação da relação entre a sociedade civil e as diversas macro-organizações, estatais, privadas, que de fato nos dirigem”. Além do conceito de Poder Local, a noção de Capital Social também surge como central nessa abordagem. Capital Social assim como outros conceitos do campo sociais não têm delimitação que seja consensual. As definições mais correntes parecem indicar que: O capital social pode ser visto como um fenômeno subjetivo, composto de valores e atitudes que influenciam como as pessoas se relacionam entre si. Inclui confiança, normas de reciprocidade que auxiliam as pessoas a transcender relações conflituosas e competitivas para conformar relações de ajuda-mútua (KENETH, Newton apud KLIKSBERG, B., 2001, p. 117) Além dos conceitos acima, há particular interesse, por parte dos autores do DSL, pelo debate sobre a necessidade de superação do modelo competitivo presente em grande parte das sociedades atuais. A cultura da cooperação é parte importante das teorias e práticas dos atores sociais ligados às propostas de Desenvolvimento Social Local. Henderson (1996) levanta um conjunto de situações exemplares em que empresas, governo e sociedade civil atuaram de forma colaborativa por meio do desenvolvimento de atitudes que a autora denominou estratégias ganha-ganha. Korten, Henderson, Dowbor, Calame e outros compreendem que é fundamental que as “empresas e os governos, bem 35 como a sociedade civil, podem desempenhar os seus papéis de maneira mais efetiva. O desenvolvimento social é uma responsabilidade conjunta sem a qual não haverá estabilidade, paz e crescimento [...]” (HENDERSON, 1996, p. 332). As organizações do Terceiro Setor são vistas como parte importante desse processo, na medida em que atuam ou podem agir para mobilizar e articular pessoas, incentivar o debate de questões locais e globais, fiscalizar ações governamentais e do setor privado, participar da discussão e implementação de políticas públicas, oferecer serviços de forma eficiente a comunidades, entre outros. As principais críticas apresentadas a essa abordagem referem-se à dificuldade de construção efetiva de processos de Desenvolvimento Local, que não se constituam em casos isolados do contexto político, econômico e social mais amplo. A despeito da insistência dos autores do DSL em indicar a necessidade de fortalecer os processos que articulem a governança e a democracia ativa em âmbito local e também global, uma crítica bastante freqüente a essa abordagem é que as práticas próprias de incentivo ao DSL favoreceriam o afastamento dos cidadãos dos debates mais amplos da sociedade, isto é, as comunidades ficariam excessivamente preocupadas com questões relacionadas às localidades e pouco atentas aos debates de interesse de toda a sociedade. • A ABORDAGEM DESENVOLVIMENTO SOCIAL LOCAL - DSL NO BRASIL No Brasil alguns autores têm abordado a questão do DSL, dentre os quais é possível citar Augusto de Franco, Peter Spink e Ladislau Dowbor. Observa-se, entre diversos atores sociais que atuam no Terceiro Setor, um interesse bastante específico por metodologias específicas de incentivo ao desenvolvimento social local, tais como a Agenda 21 e o DLIS (Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável). Registra-se no país algumas iniciativas de organizações, agências educacionais e governos estaduais e federal de incentivo à questão do Desenvolvimento Social Local, por meio da utilização das metodologias citadas. Algumas experiências de DSL têm sido realizadas 36 pela Agência para o Desenvolvimento da Educação e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial de São Paulo - SENAC-SP. Muito provavelmente a metodologia de incentivo ao Desenvolvimento Social Local mais conhecida é o DLIS – Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável, que surgiu a partir dos esforços de diversas organizações e atores sociais e tornou-se mais difundida após ter sua utilização por municípios incentivada durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Augusto de Franco é o principal entusiasta e teórico do DLIS, que para ele é: [...] um modo de promover o desenvolvimento que possibilita o surgimento de comunidades mais sustentáveis, capazes de: suprir suas necessidades imediatas; descobrir ou despertar suas vocações locais e desenvolver suas potencialidades específicas; e fomentar o intercâmbio externo aproveitando-se de suas vantagens locais. (FRANCO, 1999, 176) O DLIS é um método de Desenvolvimento Local composto por um conjunto extenso de passos e sugestões de atores sociais que necessariamente devem estar envolvidos no processo, como prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, entre outros. Franco afirma, em sintonia com os autores apresentados na exposição inicial desta Abordagem, que o Desenvolvimento Social Local, de modo global e a metodologia DLIS em particular, são inovadores ao não terem o desenvolvimento econômico como centro de suas preocupações, e sim a melhoria da qualidade de vida e a conquista de formas sustentáveis de vida pelos cidadãos e comunidades. Ladislau Dowbor é outro autor radicado no Brasil que costuma abordar temas vinculados ao Desenvolvimento Social Local, Gestão Social e Poder Local. Analogamente a Henderson e Korten, o capitalismo é visto por Dowbor como um sistema de produção cuja hegemonia tem gerado: o êxodo rural e a explosão das populações urbanas, ataques aos direitos humanos, concentração das tecnologias, injustiças econômicas, entre outros. Para o autor, o capitalismo é um sistema eficiente para produzir, mas ineficiente para distribuir riquezas. O poder centralizado e rígido estatal, incapaz de apresentar respostas dinâmicas e específicas para os problemas das comunidades, também é alvo de críticas por Dowbor. Para ele a sociedade precisa 37 rearticular-se de modo a apropriar-se da gestão do seu desenvolvimento. O desenvolvimento de sistemas horizontais, interativos e mais participativos de gestão social é aspecto fundamental para o enfrentamento dos problemas que a sociedade complexa atual apresenta. O autor reconhece que essa percepção está longe de ser dominante, mas destaca que mesmo organismos multilaterais ligados ao capital já afirmam que a sociedade hoje não é sustentável, dado o nível de deterioração e exclusão sociais que o sistema criou. O autor sugere, como forma de incentivar e viabilizar de modo gradual e crescente as sociedades atuais, que seja ampliado o poder local, dotando os municípios de competência e possibilidades para autotransformação (DOWBOR, L., 1995). A descentralização do poder político, tornando-o cada vez mais local, assim como o incremento das economias nos municípios é, para Dowbor, um processo de que precisará efetivar-se amplamente para a melhoria da qualidade de vida das populações. As organizações da sociedade civil que compõem o Terceiro Setor são vistas pelo autor como importantes elementos de articulação com o Estado para participação cidadã (KILSZTAJN, S.; DOWBOR, L., 2001). Entretanto, o autor não confunde o Terceiro Setor com a sociedade civil, como ocorre na Abordagem Norte-Americana do Setor, e ressalta que o social não está a ele unicamente atrelado, pelo contrário, propõe que o social seja uma dimensão de todas as nossas atividades e, portanto, foco do Estado, das empresas e das Organizações Sociedade Civil. O papel do Terceiro Setor para Dowbor não é realizar ações próprias do Estado substituindo-o, mas agir como articulador e organizador das forças sociais. O Desenvolvimento Local é visto como um eixo fundante na renovação das políticas públicas. A urbanização permite articular o social, o político e o econômico em políticas integradas e coerentes, a partir de ações de escala local, viabilizando – mas não garantindo, e isso é importante para entender o embate político – a participação direta do cidadão e a articulação de parceiros. (DOWBOR, L., In: KILSZTAJN, S. E DOWBOR, L., 2001: p. 36) 38 4. Ongs: como as principais formas de associação contemporânea As Abordagens conceituais de Terceiro Setor, apresentadas ao longo deste capitulo, parecem encontrar nas denominadas Ongs - Organizações não governamentais – sua expressão efetiva nas práticas cotidianas. Analogamente ao que ocorre com o conceito de Terceiro Setor, as origens históricas, características de atuação e posicionamento político das atuais Ongs são extremamente difusas. O uso do termo Ong para definir a forma mais corrente de expressão real das formas de associação e Organizações existentes no Terceiro Setor, encontra adeptos e críticos igualmente ardorosos, conforme veremos adiante. O termo Ong parece ter surgido ligado de algum modo às Organizações das Nações Unidas – ONU – que o criaram para, provavelmente após a Segunda Grande Guerra, nomear e definir o papel de organismos que representavam setores da sociedade não ligados aos governos e ao mundo das empresas privadas. As organizações daquele período histórico, que a ONU passou a denominar Ongs, estavam relacionadas essencialmente: à área da saúde pública; ao apoio a reivindicações de paz ou campanhas contra Guerras, promovidas por países centrais do capitalismo contra os países ditos periféricos, e a lutas pela democracia, entre outros. No Brasil, provavelmente as primeiras Ongs - enquanto forma de associação de cidadãos próximas ao que conhecemos hoje – teriam surgido com o combate ao regime militar e apoiando movimentos sociais (Gohn, 2001). A partir de meados da década de 1980 e, essencialmente, a partir dos anos 90 do último século, as Ongs ganham força e passam a configurar de forma um pouco mais sistematizada seu campo de atuação. O papel e a identidade das Ongs atuais foram fortemente influenciados pelas alterações políticas e econômicas, vivenciadas em fins do século XX, sendo as principais transformações que acabaram por contribuir para o atual perfil geral das Ongs brasileiras: 39 a) O fenômeno que ficou conhecido como fim das ideologias e, em conseqüência, dos embates entre os diferentes setores (esquerda versus direita; capitalistas versus socialistas etc); b) o movimento neoliberal pela minimização e pela retirada do Estado não somente da economia, mas também de áreas relacionadas ao chamado Estado de Bem Estar Social. Nesse caso, áreas que interessavam ao capital, tais como ensino superior e saúde preventiva e reparativa (voltada para aqueles que dispõem de recursos para pagar mensalidades de planos de saúde) acabaram sendo absorvidas, em grande parte, pela iniciativa privada. Já áreas que não apresentam retorno financeiro, como alfabetização de adultos, prevenção e reparação de saúde das camadas empobrecidas da população (que não podem pagar planos de saúde) continuaram sob tutela do Estado ou passaram a ser transferidas para Ongs. Além dos aspectos acima, o perfil das Ongs é marcado em grande parte pelas origens de cada Organização ou de grupos delas. No Brasil, há Ongs que surgiram a partir da síntese de movimentos ligados à direita conservadora; dos movimentos sociais críticos e combativos ao Estado (em especial no período militar) e às camadas enriquecidas da sociedade; de igrejas e religiões – protestantes, católicas, espíritas etc; do interesse de empresas privadas em investir na área Social e, recentemente, do movimento denominado Responsabilidade Social que levou a iniciativa privada a criar Ongs, Institutos, Fundações e assemelhados, autônomos e ligados ao Terceiro Setor. Maria da Glória Gohn, estudiosa dos movimentos sociais e professora da UNICAMP – Universidade de Campinas, parece avaliar, hoje, de modo mais preciso a constituição do Terceiro Setor e das Ongs. Concordamos com a autora quando afirma que as Ongs não são a única expressão real do Terceiro Setor, mas certamente constituem-se em suas organizações mais significativas e representativas (GOHN, M.G., 2000). 40 Gohn aponta que as Ongs atuais têm um perfil pouco politizado, de baixa combatividade ao governo e classes dominantes. O grande interesse parece ser o estabelecimento de parcerias com o Estado e com a iniciativa privada. Realizam projetos pontuais e estão focadas em valores amplos como a solidariedade, igualdade e defesa da cidadania. Há, não se nega, no bojo do Terceiro Setor, Ongs e outras modalidades de organizações que se afastam e se opõem ao perfil acima. Registram-se a existência de organizações voltadas para o Desenvolvimento Social Local; a participação crítica da população na formulação e implementação de políticas públicas governamentais; associações de trabalhadores para a geração de renda de forma solidária. Os aspectos citados parecem justificar apontar as Ongs como sendo as organizações típicas do Terceiro Setor atual. Em resumo, as Ongs não apresentam uma origem única; possuem diferentes posições políticas e ideológicas; atuam em numerosos campos e junto a populações as mais diversas, a despeito de a ênfase ser nos grupos excluídos, marginalizados ou empobrecidos da população. Além disso, há Ongs que se caracterizam pelo trabalho assistencialista; há as que combatem o Capital, por vezes de formas agressivas. Existem Ongs bastante ligadas a movimentos sociais e comunidades de base, que procuram apoiar e canalizar as reivindicações populares. A complexidade e a amplitude das organizações do Terceiro Setor apresentam-se como um elemento complicador para seu estudo. Mas não se pode perder de vista que, também, temos aí uma oportunidade de, por meio de estudos e pesquisas, apoiar a definição de um campo de atuação e posicionamento políticoideológico menos difuso. 41 CAPÍTULO 2 EDUCAÇÃO E TERCEIRO SETOR 42 1. Contexto Atual Nos dias atuais, vivenciamos um conjunto de transformações em praticamente todos os campos da sociabilidade humana. O exacerbamento dos nacionalismos levaram ao surgimento de conflitos armados, principalmente, entre nações dominantes e países periféricos ao capitalismo de baixo poderio bélico. As disputas políticas e econômicas emergiram de forma violenta em vários países de todo o planeta. A globalização do capital e a hegemonia do projeto neoliberal de sociedade resultaram em drástico empobrecimento de grandes parcelas da população e, em contrapartida, na ampliação dos lucros das grandes corporações e enriquecimento de pequenos grupos das elites, tanto de países ricos quanto de países pobres. O desenvolvimento das Tecnologias do Conhecimento e da Informação – TCI – tem promovido mudanças no mundo do trabalho e nas formas de conectividade entre empresas, Estados, grupos da sociedade civil e indivíduos. No entanto, as mesmas TCI criaram uma nova modalidade de exclusão, a digital. Se por um lado as TCI favorecem o aumento de oportunidades de acesso e produção de conhecimentos, por outro, tornam mais dramática a diferença entre ricos e pobres; incluídos e excluídos digitalmente. As áreas de interesse deste estudo, Educação e Terceiro Setor, também estão passando por modificações significativas. O capítulo anterior apresentou o debate e controvérsias que envolvem o Terceiro Setor. No campo educacional, acompanhamos a crise da Educação formal escolar, em grande parte, devido ao surgimento de uma nova cultura da aprendizagem, impulsionada pelas TCI, pela multiplicação dos contextos de aprendizagem, pela necessidade de convivência com conhecimentos parciais, fragmentados e em constante reconstrução. As alterações no âmbito da Educação devem-se, segundo Juan Ignácio Pozo (2002: p. 30), à crise da concepção tradicional de aprendizagem que coincide com a: conjunção de diversas mudanças sociais, tecnológicas e culturais, a partir das quais esta imagem tradicional da aprendizagem sofre uma 43 deterioração progressiva, devido ao desajuste crescente entre o que a sociedade pretende que seus cidadãos aprendam e os processos que põem em marcha para consegui-lo. As novas expectativas da sociedade, em relação à Educação, estão associadas às modificações que as novas tecnologias promoveram na base de registro e armazenamento dos conhecimentos humanos (DOWBOR, L., 2001; POZO, J.I., 2002). Essa nova base permite que grandes quantidades de informações sejam rapidamente transmitidas para praticamente qualquer parte do globo. Este fluxo mundial de conhecimentos e informações, no século XX, fez crescer o processo de relativização dos saberes, em geral, e dos científicos em especial. O processo de ensino-aprendizagem cada vez mais encontrar-se-ia focado no que Jacques Delors (1999) denominou aprender a conhecer, ou seja, passa a ser cada vez mais importante que o homem tenha domínio dos instrumentos que podem auxiliá-lo a compreender o mundo que o cerca e a construir constantemente novos saberes. A mudança em relação ao paradigma tradicional de aprendizagem, segundo os teóricos do lema aprender a conhecer (ou aprender a aprender, termo que ficou mais conhecido no meio educacional brasileiro), seria radical. O ensino tradicional teria como base a memória – decorar informações e conhecimentos dados a priori – enquanto a nova cultura da aprendizagem estaria focada no aprender a conhecer que supõe o exercício constante da atenção, memória e pensamento. Segundo os autores das pedagogias centradas no aprender a conhecer ou aprender a aprender “a cultura da aprendizagem direcionada para reproduzir saberes previamente estabelecidos deve dar passagem a uma cultura da compreensão, da análise crítica, da reflexão sobre o que fazemos e acreditamos [...]” (POZO, 2002, p. 40) Nesse contexto atual de valorização da Educação permanente e do surgimento de uma nova cultura da aprendizagem, parece pertinente levantar como objeto de estudo a Educação no Terceiro Setor, a qual, muito provavelmente, não se constitui em um novo campo da Educação, mas em uma área em fase de delimitação. A seguir, apresentaremos elementos que, acreditamos, poderão 44 contribuir na definição desse campo de estudo, ou seja, a Educação no Terceiro Setor. 2. Educação no Terceiro Setor Relacionar a Educação ao Terceiro Setor e estudar a Formação de seus educadores implica assumir que a escola tradicional não se constitui no único locus em que se busca deliberada e intencionalmente desenvolver o processo de ensinoaprendizagem. Mais do que isso, significa apontar para a relevância de pensar para além da escola, os múltiplos espaços onde se realizam processos de ensinoaprendizagem, enquanto atividades socialmente organizadas. Não se trata de desconsiderar a importância da escola, mas trazer para o debate experiências pouco consideradas na literatura educacional. Portanto, não se nega e nem se coloca em segundo plano a Educação escolar formal, mas destaca-se o papel relevante que já possui na nova cultura da aprendizagem e no atual contexto sociocultural e político da Educação no Terceiro Setor. Conforme indicado anteriormente, acredita-se que não se trata de uma nova área de estudos, mas de um campo que se encontra em fase de elaboração, uma vez que ainda não está definido e nem delimitado. Observamos, nos trabalhos de Coomb e Ahmed (1975) e, mais recentemente nos escritos de Maria da Glória Gohn (2001), uma identificação entre o que se supõe ser a Educação no Terceiro Setor e o que aqueles autores denominaram Educação não formal. No caso de Coomb e Ahmed, suas posições aproximam-se da prática educativa atual de organizações do Terceiro Setor, de perspectiva mais tradicional, no tocante à práxis educacional, ao contrário de Gohn que apresenta reflexões que relacionamse, com maior ênfase, aos trabalhos educativos desenvolvidos por alguns movimentos sociais, Ongs e demais formas de associativismo civil de postura crítica. Há ainda na literatura registros de pensadores que trabalham com a chamada Educação Comunitária ou Educação Comunitária Popular. A área parece 45 ser a base histórica do que sugerimos ser a Educação no Terceiro Setor e, atualmente, ambas parecem se confundir em diversas situações, a despeito do entendimento que há diferenças entre ambas. Antes de quaisquer outras considerações, apresentaremos abaixo as semelhanças e diferenças que observamos entre Educação no Terceiro Setor e Educação Comunitária Popular em relação à chamada Educação não formal. Essas três perspectivas da Educação possuem aproximações e diferenças relevantes e cumpre aqui destacá-las em função de observarmos que, com freqüência, até mesmo profissionais da Educação encontram dificuldades em distingui-las. 2.1 Educação no Terceiro Setor, Educação Comunitária Popular e Educação Não Formal Os processos de ensino-aprendizagem realizam-se ao longo de toda a vida humana, ainda que não haja intenção de aprender ou de ensinar 6. Poder-se-ia afirmar que a aprendizagem não intencional é a Educação não formal. Neste estudo, compreendemos que a Educação não dirigida e não intencional, que ocorre no dia-adia, trata-se apenas do que Pozo classificou como aprendizagem incidental. A Educação não formal, bem como a Educação no Terceiro Setor e a Educação Comunitária Popular constituem-se em processos de ensino que resultam da ação intencional e estruturada promovida por indivíduos, grupos ou organizações voltados para pessoas e grupos que deliberadamente buscam construir aprendizagens que lhes sejam significativas. No livro Educação Não Formal e Cultura Política, Maria da Glória Gohn apresenta definição de Educação não formal que se identifica, com exceção de alguns aspectos, com o que entendemos que seja a Educação no Terceiro Setor. Para a autora a Educação não formal: 6 Sobre o tema aprendizagem incidental – aquela que ocorre sem que haja intenção de ensino por terceiros ou consciência do processo de aprendizagem por parte de quem aprende – Cf. POZO, Juan Ignácio. Aprendizes e Mestres: a nova cultura da aprendizagem. Trad. Ernani da Fonseca Rosa. Porto Alegre: ArtMed, 2002. p. 56. 46 aborda processos educativos que ocorrem fora das escolas, em processos organizativos da sociedade civil, ao redor de ações coletivas do chamado terceiro setor da sociedade, abrangendo movimentos sociais, organizações não governamentais e outras entidades sem fins lucrativos que atuam na área social [...] (GOHN, M.G., 2001, p. 07) O trecho acima define claramente o que consideramos ser a Educação no Terceiro Setor. No entanto, diferentemente de Gohn, não entendemos que essa definição possa designar a Educação não formal, uma vez que ela pode ocorrer em organizações as mais variadas, sejam vinculadas à iniciativa privada ou aos órgãos governamentais que se encontram fora do Terceiro Setor. Compreendemos que a Educação no Terceiro Setor caracteriza-se como um campo de ação e estudos mais restrito que a Educação não formal e que ambas diferenciam-se no tocante ao público-alvo e compromisso político e social. Acreditamos que, no Terceiro Setor, o público atendido deve ser proveniente das camadas empobrecidas da população, enquanto na Educação não formal não há essa restrição; o Terceiro Setor deve ter um compromisso com formas libertárias e democráticas de expressão que irão permear todas as suas atividades, em especial, no campo educacional. Já a Educação não formal não necessita ter um compromisso político. Assim sendo, à definição de Gohn acrescentaríamos, para caracterizar a Educação no Terceiro Setor, que ela deve ser voltada para as populações pauperizadas e ter, como compromissos centrais, o apoio aos processos de emancipação humana e superação das condições de exploração, às quais grandes parcelas sociais estão submetidas. Em seu texto, Gohn (2001, p. 07) sugere também que a Educação Não Formal incluiria “processos educacionais, frutos da articulação das escolas com a comunidade educativa, via conselhos, colegiados etc”. A autora está se referindo às aprendizagens que cidadãos e comunidades podem construir nos processos de participação em órgãos colegiados e instâncias democráticas das escolas. O texto acima foi excluído de nossa definição de Educação no Terceiro Setor por entendermos que indivíduos e comunidades aprendem, quando se inserem 47 ativamente no jogo democrático, em quaisquer espaços participativos de organizações públicas ou Conselhos assemelhados. Isso parece constituir-se, em grande parte das situações, em aprendizagem incidental: o indivíduo participa de um órgão colegiado ou conselho popular com o objetivo de influenciar ou acompanhar a gestão de um projeto ou de uma instituição pública e acaba por aprender com as situações que lá ocorrem mas, nessa situação não há intencionalidade de realizar processo de ensino-aprendizagem nestas situações. No que diz respeito aos aspectos acima levantados, consideramos que se constitui, em Educação no Terceiro Setor, processos educativos intencionais que tenham como objetivo a capacitação de atores sociais para atuação enquanto, por exemplo, gestores de organizações da sociedade civil, ou a qualificação de atores sociais para a mobilização comunitária e para a defesa dos interesses locais junto a órgãos estatais e empresas. Gohn procura diferenciar o que citamos acima, que ela denomina Educação para civilidade, da Educação incidental, afirmando que os processos contemporâneos de elaboração de políticas públicas locais devem pressupor momentos de sistematização das elaborações coletivas, os quais se configurariam em prática importante do campo da Educação não formal. Nesse aspecto, caso haja intencionalidade de ensino-aprendizagem por parte dos diferentes atores da coletividade e se esses espaços forem garantidos enquanto tal, podemos considerar que se trata de Educação no Terceiro Setor, com organizações ou atores sociais comunitários envolvidos de forma ativa nos processos intencionais de ensino-aprendizagem. Ainda é preciso lembrar que evitamos aproximar a Educação no Terceiro Setor daquela realizada em escolas ou mesmo em órgãos como a FEBEM paulista, exceto nos casos citados de processos participativos que envolvam atores sociais comunitários ou organizações da sociedade civil e que tenham como objetivo o desenvolvimento de processos de ensino-aprendizagem. Sugerimos que fundamentalmente a Educação no Terceiro Setor colabore com a escola: a) desenvolvendo e divulgando experiências, conteúdos e metodologias inovadoras que possam auxiliar o desenvolvimento da Educação formal; b) apoiando 48 processos democráticos de participação direta das comunidades na gestão e melhoria da escola pública. No atual momento histórico, incluir ou aproximar mais fortemente a escola e a Educação no Terceiro Setor pode acabar por contribuir com o projeto neoliberal de transferência das responsabilidades e serviços do governo para organizações da sociedade civil. As sociedades complexas e diferenciadas da atualidade demandam que os governos mantenham sua atuação e suas responsabilidades e que as empresas e a sociedade civil organizada assumam seus papéis, visando ao desenvolvimento social das localidades e comunidades e incentivando a participação dos cidadãos na gestão dos equipamentos públicos estatais disponíveis. Não podemos aqui negar que os educadores e gestores de escolas públicas de ensino formal devam caracterizar-se, cada vez mais, como atores sociais capazes de apoiar a mobilização e o desenvolvimento das comunidades em que estão inseridas as escolas, as quais, por sua vez, devem constituir-se em centros de apoio ao desenvolvimento comunitário. No entanto, esse seria um novo papel dos profissionais e da própria escola pública de Educação formal e não uma parte do que estamos considerando que seja a Educação no Terceiro Setor. Reafirmamos que, dada a existência de uma ampla gama de estudos voltados para a Educação formal produzidos nas universidades brasileiras, neste trabalho, daremos prioridade à Educação realizada claramente por Ongs e demais organizações da sociedade civil inseridas no Terceiro Setor. A despeito disso, destacamos que o novo papel dos profissionais e da escola pública de Educação formal demandam a realização de estudos específicos. A Educação no Terceiro Setor, como estamos configurando, muito provavelmente aproxima-se e confunde com as denominadas Educação Comunitária, Educação Popular ou Educação Comunitária Popular (ECP – termo que adoraremos neste estudo por ser mais abrangente, exceto quando estivermos nos referindo ao modo como alguns autores pensam essa modalidade educacional. Nesse caso, utilizaremos o termo adotado pelo autor que estiver sendo citado). Compreendemos que a Educação no Terceiro Setor amplia o campo de abrangência da ECP, em particular, no que diz respeito: 49 a) A incorporação das Tecnologias do Conhecimento e Informação (TCI) no processo de ensino aprendizagem; b) a multiplicação de aprendizagens para a prática da cidadania e articulação social, política e econômica comunitária; c) a Educação para o mundo do trabalho contemporâneo de forma crítica. No caso das TCI, trata-se de campo novo do conhecimento e prática humanas que não faziam parte das diferentes modalidades de ECP. Os outros dois itens, já eram foco de algumas modalidades de Educação Comunitária Popular. No entanto, parece-nos que algumas experiências de Educação para o mundo do trabalho e Educação para a cidadania, observadas no Terceiro Setor, apresentam avanços significativos em relação às metodologias e temas desenvolvidos quando comparadas às experiências registradas em períodos anteriores pela ECP. As demais áreas de abrangência da ECP parecem incorporadas à Educação no Terceiro Setor, em grande parte, porque os movimentos sociais, Ongs e organizações de base comunitária, que realizavam há algumas décadas a ECP, passaram a fazer parte do Terceiro Setor, levando de algum modo sua práxis educativa para o âmbito desse Setor. A ECP enquanto prática educativa tem se realizado de forma sistemática no Brasil, pelo menos, desde a década de 1950 e vinculadas a movimentos sociais, entidades filantrópicas e da sociedade civil de modo geral. Note-se que as organizações que realizavam a Educação Comunitária Popular hoje se inserem, em grande parte, no Terceiro Setor. Exatamente por essa razão e em função de, conforme afirmamos acima, atualmente a ECP e Educação no Terceiro Setor se interpenetrarem, é que entendemos que seja relevante conhecer a Educação Comunitária Popular, suas origens, abordagens e matrizes teóricas e metodológicas. Muito provavelmente poderemos, a partir da ECP, pensar a Educação no Terceiro Setor e elaborar propostas para a formação de seus educadores. 50 3. Educação Comunitária Popular - ECP A Educação Comunitária Popular e suas variantes próximas foram alvo de estudos e pesquisas de diversos autores. A educadora Maria Stela Graciani abordou em seu livro Pedagogia Social de Rua as referências teóricas do que denominou Educação Popular. Carlos Rodrigues Brandão, em trabalhos desenvolvidos nas últimas décadas, faz apontamentos críticos sobre a Educação Comunitária Popular voltada para adultos. As relações entre a Educação Comunitária e as estruturas de poder, no país, foram analisadas por João Pedro Fonseca (1996). Entretanto, para identificar em sua totalidade e complexidade as abordagens e particularidades da Educação Comunitária Popular, apresentaremos, no próximo tópico deste trabalho, denominado Educação Comunitária Popular no Brasil: origens e características, a análise do pensamento de dois autores referenciais, a saber: a) Jair Militão, educador e professor da Universidade de São Paulo. Definiu o campo do que ele prefere chamar simplesmente de Educação Comunitária. Em seus trabalhos, é possível identificar as origens e práxis dessa vertente educacional e, também, as características dos educadores dessa área; b) Moacir Gadotti, professor da Universidade de São Paulo, bastante vinculado ao pensamento de Paulo Freire, apresentou, em seus estudos indicações sobre o público-alvo da ECP, bem como, suas áreas de ação, os valores que a permeiam e os paradigmas que devem orientá-la. 3.1. Educação Comunitária Popular no Brasil: origens e características A Educação Comunitária Popular (ECP) ganhou força a partir da década de 1960, impulsionada pelos momentos de transformação que atravessavam vários países, em especial, na Europa, África e América Latina. 51 No Brasil, ficou bastante forte a percepção de que a ECP estaria ligada historicamente a práticas promovidas por setores vinculados à esquerda política. Entretanto, essa modalidade educacional foi utilizada, durante as ditaduras implantadas na década de 1960, por inúmeros governos e promovidas por elites dominantes, como forma de docilizar as populações pauperizadas e controlar o risco de contra-insurreição, em relação ao regime autoritário que se consolidava. Jair Militão (1996) afirma que houve diversos exemplos brasileiros dessa apropriação conservadora da Educação Comunitária, como: o Projeto Rondon e as Unidades de Educação e Ação Comunitária no Vale do Ribeira, em São Paulo. Segundo Gadotti (2001), a ECP foi sempre marcada pela diversidade e vista como uma prática em si mesma de modo descontextualizado e, por isso, não pode ser avaliada de modo global como positiva ou negativa. O autor destaca a multiplicidade de organismos envolvidos na promoção da ECP e as características de suas práticas: Em geral, as iniciativas chamadas comunitárias estão envolvidas com organismos ligados às igrejas, aos movimentos sociais e populares ou empresas e passaram por muitas transformações, indo da prática assistencial à prática revolucionária. (GADOTTI, M., 2001, p. 12) Alguns setores da Igreja Católica, vinculados principalmente à Teoria da Libertação, incentivaram o desenvolvimento de experiências ligadas à ECP, tendo como referencial teórico os pressupostos do educador Paulo Freire. Seguiram a mesma perspectiva, alguns sindicatos e associações de trabalhadores, movimentos sociais e comunidades de base que lutaram contra o regime militar. Essas iniciativas fizeram o contraponto às ações governamentais citadas anteriormente. Militão identificou três tipos principais de Educação Comunitária, conforme segue: 1. Educação Comunitária para a contra-insurreição – influenciada pela divisão global que se efetivou após a Segunda Guerra, entendia, como sendo o grande conflito das sociedades da época, a luta entre os blocos mundiais hegemônicos. Atuava no sentido de evitar o avanço da ameaça comunista e contra a organização de grandes contingentes 52 populares para questionar o status quo. Era amplamente apoiada por recursos financeiros e logísticos dos governos militares. Perdeu força com a queda do regime autoritário e com o fim da Guerra Fria, mas parece manter suas práticas até os dias atuais, bastante vinculadas a uma postura política e a uma prática educacional conservadoras. 2. Educação Comunitária enquanto movimento de libertação – compreendida como um instrumento de organização e luta das populações oprimidas contra o regime militar e suas arbitrariedades e ações que violavam os direitos humanos. A referência central aqui é o educador Paulo Freire e suas teorias. “Esse tipo de Educação Comunitária organizou-se, muitas vezes, em torno de movimentos especializados, tais como: reivindicação de creches, reivindicação de equipamentos de habitação e saúde, crianças abandonadas, mulheres etc.” (Militão, 1996: p. 16). A denúncia dos conflitos e diferenças entre ricos e pobres, trabalhadores e burguesia foi uma constante. O objetivo central era desenvolver processos educacionais que apoiassem a tomada de consciência das condições de subordinação e a transformação da forma de vida pelos trabalhadores e populações pauperizadas de modo geral. 3. Educação Comunitária como auto-ajuda – tem como objetivo a melhoria da qualidade de vida da comunidade. Tende a minimizar os conflitos entre diferentes segmentos sociais, em nome do trabalho de todos em prol do bem comum. Considera-se que todas as pessoas de uma comunidade devem lutar juntas para o desenvolvimento local sendo, portanto, co-responsáveis pelo sucesso ou fracasso das ações empreendidas pelos cidadãos locais. Os processos de identificação de problemas e dos recursos para sua resolução constitui-se no foco do processo de ensino. A Educação é percebida como elemento fundamental em todas as fases da vida do homem. 53 Militão acredita que há grande relação entre as práticas da Educação Comunitária que ele mapeou e as atividades educacionais observadas atualmente em Ongs, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, como resultado da permanência dos tipos de Educação Comunitária, identificadas por ele, ou pela síntese de perspectivas diversas que resultaram em novas formas de expressão dessa modalidade educacional. Aqui entendemos que, muito provavelmente, Militão refere-se à expressão atual da Educação no Terceiro Setor, pois, cita como centros promotores da Educação Comunitária, as organizações que atualmente compõem o Setor em questão e, também, porque percebemos que as perspectivas de ECP, que Militão elencou, identificam-se com as Abordagens de Terceiro Setor que apresentamos no capítulo anterior deste trabalho, a saber: • Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor –em sua expressão mais radical, defende a manutenção do status quo e, influenciada pelas concepções de Tocqueville, percebe a organização popular como um risco à manutenção da ordem e da democracia. Esta Abordagem parece encontrar seu correspondente na Educação Comunitária para a contrainsurreição que, conforme apontado acima, atua no campo educacional junto às populações para tentar garantir a manutenção da organização social vigente. • Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo – voltada para a organização e associação solidária dos trabalhadores, visando ao enfrentamento e à superação do sistema capitalista, baseado na concentração dos meios de produção nas mãos de pequenas parcelas privilegiadas. Essa Abordagem parece encontrar correspondência em correntes da Educação Comunitária para libertação, preocupada com questões vinculadas aos trabalhadores e sua luta por liberdade, igualdade e justiça social. • Abordagem de Terceiro Setor focada no Desenvolvimento Social Local – parece encontrar pontos de identificação com as três visões de Educação Comunitária de Militão. Isso porque o Desenvolvimento Social 54 Local pode apresentar, tanto orientação conservadora quanto voltada para a superação das condições de vida das populações, em especial, a partir da participação popular, influenciando as políticas públicas e o desenvolvimento local. Essas associações entre as Abordagens do Terceiro Setor com a Educação Comunitária podem causar estranheza em função de aproximarmos uma modalidade educacional de um campo, a qual se pretende um Setor abrangente da sociedade. No entanto, o que buscamos aqui é demonstrar que a Educação Comunitária Popular, com algumas modificações, muito provavelmente, constitui-se na raiz teórico-prática do que estamos chamando contemporaneamente de Educação no Terceiro Setor. Também, em função de Gadotti (2001, p. 13), um dos principais pensadores da ECP, apontar que a “Educação comunitária é aquela que associa o produtivo, o organizativo e o educativo”. O autor defende que a ECP não deve fechar-se em si mesma e sim articular a economia, práticas associativas, políticas e culturais. Também a Educação no Terceiro Setor necessita atuar no sentido de aproximar as dimensões produtiva, organizativa e educativa, na medida em que as Ongs e demais organizações, que estão inseridas neste campo, têm como papel fundamental desenvolver atividades educativas que favoreçam: a) a Educação para o mundo do trabalho e a associação solidária de trabalhadores para geração de renda (dimensão produtiva); b) a organização dos indivíduos e comunidades para participação cidadã nas políticas públicas (dimensão organizativa); c) o desenvolvimento de processos de ensino-aprendizagem em áreas como alfabetização, Tecnologias do Conhecimento e Informação etc (dimensão educativa). Ainda acerca da Educação Comunitária, Mlitão aponta que, para cada um dos tipos visualizados, há perfis característicos de educadores: 1. Educador comunitário voltado para a luta contra-insurreicional – contrário a quaisquer formas de organização popular que questionem o status quo. Militão (1996) destaca que a característica principal desse educador é uma tendência aristocrata, segundo a qual há pessoas que 55 devam ser governadas por outras. Grupos pequenos de privilegiados devem cuidar de pensar a vida coletiva das comunidades, cidades e, também, dos países. Por fim o autor alerta que esse tipo de educador continua atuante, de um modo ou de outro, ainda hoje, e que não percebê-lo constitui-se em erro grosseiro. 2. Educador comunitário voltado para a luta de libertação – também presente hoje, segundo Militão, está vinculado a movimentos sindicais, organizações de base comunitária, Ongs, universidades e organizações de prestação de serviços como o Instituto Paulo Freire. Esse tipo de educador possui perfil mais difuso, havendo aqueles que pensam a Educação Comunitária como meio de organização popular para a construção de uma sociedade futura melhor. Há um outro tipo de educador dentro dessa perspectiva que, segundo Militão, compreende que a Educação Comunitária estaria inserida no processo de libertação e constituição das pessoas, enquanto sujeitos de seus futuros. 3. Educador comunitário identificado com a Educação Comunitária como auto-ajuda – bastante presente ainda hoje, atua junto a comunidades e vinculado a Ongs ou a projetos socioeducacionais patrocinados pela iniciativa privada ou governo. Por vezes, sua atividade é voluntária e não remunerada. Normalmente essa categoria costuma incluir educadores dos perfis anteriores. A característica de auto-ajuda está muito mais ligada à organização promotora ou patrocinadora da atividade em que o educador atua. É comum uma visão assistencialista ou filantrópica permear a atuação desse profissional. Além do Educador, outro personagem fundamental da ECP é o participante/aluno. Para Gadotti (2001, p. 14), a Educação Comunitária à qual Militão refere-se, seria a expressão genuína da Educação Popular que deve se voltar, preferencialmente, para os setores excluídos socialmente. O autor aponta como valores fundamentais da ECP: “articulação, parceria, rede, co-manutenção, contrapartida, cogestão, diversidade cultural, identidade cultural”. Aliás, é conveniente lembrar, que são 56 valores muito próximos daqueles citados por diversos autores, de diferentes abordagens, como sendo norteadores do Terceiro Setor. Por fim, Gadotti acredita que o papel da ECP no mundo atual e futuro é o de configurar-se enquanto Educação de ponta, sintonizada com as novas Tecnologias do Conhecimento e Informação, bem como, com o saber localizar informações e processá-las. A ECP possui propostas metodológicas bastante definidas e claramente distintas da Educação formal. Segundo Gadotti, a ECT deve desenvolver-se por meio de metodologias em que predominem os aspectos organizativos, produtivos, lúdicos e relacionados à comunicação. Militão chegou a elaborar propostas para uma Pedagogia da Constituição de Sujeitos Coletivos que deveria orientar a Educação Comunitária, a qual procuraria, de acordo com o pensamento do autor, conduzir os participantes de um processo de Educação Comunitária a: a) Um momento de encontro onde predominassem sentimentos de simpatia e identificação; b) vivenciarem uma tarefa comum onde pudessem exercitar julgamentos comuns, de modo a construírem uma visão comum de mundo; c) comprometerem-se pessoal e grupalmente com objetivos e metas; d) assumirem ou acolherem identidade comum; e) atuarem publicamente com essa identidade, enfrentando os desafios do ambiente físico e social; f) conservarem a memória da criação e as experiências do grupo; g) interagirem com outros sujeitos em clima pluralista e democrático. (MILITÃO, J., 1996, p. 100) As propostas e conceitos até aqui apresentados acerca da ECT vêm ao encontro do que caracterizamos como Educação no Terceiro Setor. Os principais pontos de semelhança entre ambas seriam: valores presentes na proposta educativa; organizações promotoras, financiadoras e incentivadoras; características dos educadores; público-alvo; visão de futuro e características metodológicas educacionais. 57 O aspecto principal de diferenciação está no fato de Gadotti, Militão e outros autores defenderem que essa proposta deva acontecer também no âmbito da escola formal, indo além dos movimentos sociais, Ongs, entidades filantrópicas e demais organizações da sociedade civil. A despeito dessa importante diferença entre ECP e Educação no Terceiro Setor, acreditamos que as aproximações são bastante fortes e que, de fato, hoje as práticas educacionais do Terceiro Setor resultam, essencialmente, da incorporação dos pressupostos da ECP ou de sínteses e adaptações dos tipos de Educação Comunitária, identificados por Militão, somando-se a eles o desenvolvimento de novas dimensões de atuação vinculadas, principalmente às Tecnologias do Conhecimento e Informação. O educador do Terceiro Setor parece apresentar rigorosamente as mesmas características e viver os dilemas apontados por Militão7. Consideramos, portanto, que uma adequada compreensão das características da ECP e dos profissionais, que nela atuam, apontarão os aspectos centrais da Educação no Terceiro Setor. Em função disso, no próximo tópico do presente Capítulo, apresentaremos os processos de ensino e teorias da aprendizagem subjacentes aos tipos de Educação Comunitária indicados por Militão, os quais deverão nos apoiar para identificar quais são os principais processos de ensino e teorias da aprendizagem que embasam a Educação no Terceiro Setor. Acreditamos que, ao identificarmos esses processos e teorias, teremos maiores condições de pensar e elaborar sugestões voltadas para a questão da Formação de Educadores para o Terceiro Setor. 4. Processos de Ensino-Aprendizagem Dada a ausência de estudos acerca da Educação no Terceiro Setor, optamos por utilizar como referencial inicial para pensar a Formação de Educadores do Setor, os diferentes tipos de Educação Comunitária, anteriormente 58 mencionados, os quais parecem ser historicamente as formas de Educação que mais se aproximam da Educação no Terceiro Setor. Abaixo, apresentaremos as Abordagens do processo de ensino-aprendizagem que fundamentam as três diferentes modalidades de Educação Comunitária e que, muito provavelmente, mais se aproximam da Educação no Terceiro Setor. A identificação dos processos de ensino-aprendizagem presentes na Educação Comunitária para a luta contra a insurreição, apresentada por Militão, foi possível, utilizando-se como referencial os apontamentos registrados no livro Ensino: As abordagens do processo de Maria da Graça Mizukami, educadora e doutora em Ciências Humanas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em seu estudo, indica as cinco abordagens do processo ensinoaprendizagem veiculadas em cursos de Licenciatura, a saber: tradicional; cognitivista; comportamentalista; humanista e sociocultural. Em cada uma das abordagens, a autora analisou dez conceitos ou visões básicas: homem; sociedade/cultura; mundo; professor-aluno; metodologia; conhecimento; Educação; escola; ensino-aprendizagem e avaliação. O objetivo da pesquisa foi compreender o que fundamenta a ação docente. A partir da leitura do texto de Mizukami, procuramos identificar quais abordagens do processo ensino-aprendizagem estariam presentes na Educação Comunitária para a contra insurreição. No caso da Educação Comunitária para Libertação, Militão apresenta explicitamente a Abordagem do processo ensino-aprendizagem a qual ela está baseada, a saber: a Sociocultural. Utilizamos novamente os referenciais, acima citados, de Mizukami (2003) para análise dessa Abordagem. No tocante à Educação Comunitária como auto-ajuda, identificamos que a Abordagem do processo que lhe é subjacente está vinculada às chamadas pedagogias centradas no lema aprender a aprender. A análise desse tipo de Educação Comunitária foi feita a partir dos escritos de Jacques Delors, em seu 7 Para uma compreensão mais profunda do pensamento de Jair Militão sobre o tema, sugerimos a leitura dos capítulos 1 e 5 de livro organizado pelo próprio autor chamado Educação Comunitária: estudos e propostas que faz parte da bibliografia desta dissertação. 59 relatório Educação: um tesouro a descobrir e baseados em autores contemporâneos, os quais têm como foco de suas teorias o aprender a aprender. 4.1. Educação Comunitária para a Contra-Insurreição e a Abordagem Tradicional do Processo de Ensino-Aprendizagem As visões de homem, sociedade-cultura e conhecimento da Educação Comunitária contra a insurreição têm relação direta com essas mesmas visões presentes na Abordagem Tradicional do processo ensino-aprendizagem apresentada por Mizukami (2003), conforme veremos abaixo. • VISÃO DE HOMEM Educação Comunitária para a contra-insurreição O homem é visto como ser limitado, incapaz de decidir sobre os próprios destinos. O lema desse tipo de Educação Comunitária, segundo Militão (1996, p. 21), é “educar o povo para a ordem”. Essa ordem é algo meramente burocrático, não havendo participação dos cidadãos. Novos conceitos e teorias devem sempre ser apresentados por especialistas, seja pelos meios de comunicação de massa ou em espaços educacionais, que cuidariam de apontar aos cidadãos e aprendizes quais conteúdos têm caráter subversivo e quais são adequados à manutenção da sociedade. Abordagem Tradicional Analogamente à Educação Comunitária acima, nessa Abordagem do processo de ensino-aprendizagem, de acordo com Mizukami (2003, p. 08), “o homem é considerado como inserido num mundo que irá conhecer através de informações que lhe serão fornecidas e que se decidiu serem as mais importantes e úteis para ele”. O 60 aprendiz é um receptor passivo de informações e conhecimentos que deverão ser repetidos. • VISÃO DE SOCIEDADE – CULTURA Tanto na Abordagem Tradicional quanto na Educação Comunitária contra a insurreição, o objetivo do ensino é manter os valores vigentes e o status quo. A postura é conservadora e a Educação não objetiva a transformação social, mas a reprodução da cultura e práticas sociais já existentes. A cooperação é vista como pouco desejável, enfatizando-se os aspectos individuais em sala de aula. • VISÃO DE CONHECIMENTO Novamente, Abordagem Tradicional e Educação Comunitária contra a insurreição aproximam-se. Ambas pressupõem que o conhecimento é algo acumulado que deve ser transmitido a um aprendiz passivo. Há preocupação com modelos construídos no passado e que devem ser mantidos e reproduzidos. Há grande ênfase nos aspectos políticos, sociais e econômicos. Por fim, a aquisição dos conhecimentos é vista como resultado do esforço individual. 4.1.1. Características da Abordagem Tradicional Os aspectos mencionados parecem indicar que de fato a Abordagem Tradicional faz parte do cotidiano dos educadores, pois seria a que mais se aproxima da Educação Comunitária contra a Insurreição. A Abordagem Tradicional (Mizukami, 2003) não está fundamentada em teorias da aprendizagem, mas consagrada por um conjunto de práticas educativas. O ensino encontra-se focado na figura do professor, cabendo ao aluno receber, independentemente de seu desejo, as informações e conhecimentos que constam nos programas e currículos educacionais, ou seja, o aprendiz somente recebe informações 61 que são transmitidas pelo professor ou especialista. A Educação é concebida como “um produto, já que os modelos a serem alcançados estão pré-estabelecidos” (MIZUKAMI, M..G.N., 2003, p. 11). A escola é considerada, por essa Abordagem, como espaço ideal para a realização de transmissão de informações. A relação entre a organização e os participantes do processo de ensino-aprendizagem é vertical, isto é, professores e direção são autoridades máximas as quais os alunos devem obediência. O fato de a Escola ser o locus privilegiado da Educação, nessa Abordagem, parece explicar os motivos que levaram a Educação Comunitária contra insurreição a rejeitar a prática educacional em espaços que se afastem das características de uma sala de aula normal. Os programas desse tipo de Educação são rígidos e os diagnósticos acerca das necessidades do público-alvo são feitos aprioristicamente e sem participação dos futuros aprendizes. Mizukami (2003, p.14) acrescenta que na Abordagem Tradicional há: uma preocupação com a sistematização dos conhecimentos apresentados de forma acabada. As tarefas de aprendizagem quase sempre são padronizadas, o que implica poder recorrer-se à rotina para se conseguir a fixação de conhecimentos/conteúdos/informações. No tocante às metodologias, como se pode supor, aqui têm a utilização constante de formas expositivas de transmissão de conteúdo. O professor é o centro das atenções e deve trazer os conteúdos prontos para que o aluno execute passivamente suas orientações. 4.2. Educação Comunitária enquanto Movimento Libertação e a Abordagem Sociocultural de A Educação Comunitária enquanto Movimento de Libertação está vinculada, segundo Militão (1996) e Gadotti (2001), à Abordagem Sociocultural do processo ensino-aprendizagem. No Brasil, Paulo Freire é o autor que referencia de forma 62 bastante significativa essa Abordagem. Freire era recifense e, desde a juventude, já atuava no campo da Educação de jovens e adultos. Em 1963, no interior do Rio Grande do Norte, desenvolveu atividades educacionais bastante significativas junto a trabalhadores, que levaram o Governo João Goulart a convidá-lo para, de acordo com Gadotti (2001), repensar as teorias e práticas de alfabetização de adultos em todo país. As concepções de Freire eram fortemente influenciadas pelo marxismo, humanismo e fenomenologia. A postura crítica e politizadora do que ficou conhecido como Método Paulo Freire opunha-se à mera repetição de saberes pré-estabelecidos e incentivava uma alfabetização dita política das classes subalternas, com vistas à construção de uma sociedade igualitária, sem excluídos e explorados. Em função de sua posição política e de sua visão marxista de Educação, Freire foi expulso do país após o golpe militar de 1964. Transferiu-se para o Chile onde deu continuidade à construção de sua teoria. Entretanto, a direita conservadora opôs-se a seu projeto educacional e acabou por forçá-lo a se retirar daquele país em fins da década de 1960. Após, esteve nos Estados Unidos, Suíça e África. Em 1979, retornou ao Brasil e atuou na docência e orientação de teses na Universidade de Campinas e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sobre a teoria de Freire, a pesquisadora Mizukami (2003, p.86) afirma que: O homem é o sujeito da Educação e, apesar de uma grande ênfase no sujeito, evidencia-se uma tendência interacionista, já que a interação homem-mundo, sujeito-objeto é imprescindível para que o ser humano se desenvolva e se torne sujeito de sua práxis. Desse modo, o homem é visto como ser que deve refletir sobre o ambiente que o cerca e atuar de modo a transformar suas condições objetivas de vida. A Educação é concebida numa perspectiva emancipadora, libertária e democrática que irá contrapor-se às formas de Educação e pedagogias alienantes. O mero acúmulo de informações na Abordagem Sociocultural é substituído por uma visão de construção crítica e criadora do conhecimento que deverá favorecer o desenvolvimento contínuo de uma consciência problematizadora da realidade. 63 Aspecto importante da Abordagem Sociocultural é a definição de tipos de consciência que, segundo Freire, podem ser desenvolvidas pelo homem no processo educativo. Os tipos de consciência e suas características são (PINTO, A.V. apud MIZUKAMI, M.G.N.2003, p.91-92): • Consciência intransitiva É caracterizada pela quase centralização dos interesses do homem em torno das formas vegetativas de vida [...] é um tipo e consciência à qual falta historicidade e é característica das populações das regiões pouco desenvolvidas [...] esse tipo de consciência, no entanto, não corresponde a um fechamento absoluto e irreversível do homem [...] • Consciência transitiva ingênua Se caracteriza por forte inclinação ao gregarismo – pertinente à massificação – pela impermeabilidade à investigação, pelo gosto por explicações fabulosas e pela fragilidade de argumentação. [...] uma das modalidades deste tipo de consciência é a atitude reacionária, cujos elementos principais implicam: defender as regalias de grupos sociais ou de situações econômicas privilegiadas, em ser cega em relação a esses condicionamentos [...] • Consciência transitiva Caracteriza-se por manifestar consciência de sua dependência, indagando sobre os fatores de que depende [...] é uma forma crítica de pensar, pois busca identificar e compreender os motivos e procedimentos pelos quais a representação do real de um país é produzida [...] é sensível ao ritmo das transformações do mundo, à compreensão da queda e do aparecimento de valores que proponham modificar as condições de vida. Conseqüentemente é uma consciência anti-reacionária e antecipadora. A passagem da consciência intransitiva para a transitiva ocorreria de forma autônoma, acompanhada pela melhoria de padrões socioeconômicos dos indivíduos. Já 64 a consciência transitiva crítica somente seria alcançada, de acordo com Freire, por meio do trabalho Educativo (MIZUKAMI, M.G.N., 2003). As das relações da Abordagem Sociocultural com teorias da Aprendizagem podem indicar que há autores que vêem grande proximidade entre os tipos de consciência e o modo como elas evoluem citados por Paulo Freire e a Abordagem Cognitivista, em particular, com os pressupostos de Jean Piaget. Em síntese, nas teorias do educador suíço e líder da Escola de Genebra, o homem é percebido como um ser que progride de estágios ou fases mais primitivas para outras mais complexas, em que o pensamento mostra-se hipotético-dedutivo. A passagem de uma fase para outra mais avançada caracteriza-se a partir do surgimento de estruturas mais complexas. O indivíduo não está fechado em si mesmo e deve ser visto na sua interação com o mundo. Daí o conhecimento, para Piaget, ser construído em grande parte na relação de um sujeito com outros e ser o papel da escola e da Educação criar espaços de trocas, cooperação e experimentação para seus alunos. No tocante aos aspectos acima apresentados, as teorias de Freire estão bastante próximas dos pressupostos piagetianos. Entretanto, há autores que preferem ver maior aproximação entre o pensamento de Freire e a Psicologia Dialética do russo Lev Semenovich Vigotski*. Vera John-Steiner apresenta as principais semelhanças entre as teorias desses dois pensadores: Embora Vigotski e Freire tenham vivido em tempos e hemisférios diferentes, a abordagem de ambos enfatiza aspectos fundamentais, relativos a mudanças sociais e educacionais que se interpenetram. [...] Em épocas e lugares diferentes, ambos perceberam a necessidade de associar a conquista da palavra à conquista da história. (JOHNSTEINER, V. apud GADOTTI, M., 2001, p. 93, grifo do autor) * Não há entre os autores que estudam a Psicologia Soviética um consenso acerca da grafia do nome de Vigotski. Para Carl Ratner (2002), Luis Moll (2002) e Marta Kohl Oliveira (1997) a grafia correta do nome do autor é Vygotsky. Já para o autor brasileiro Newton Duarte (2001) a grafia correta é Vigotski. Neste trabalho adotamos a grafia “Vigotski” presente nas traduções para o português das obras do pensador russo. 65 Além das aproximações entre Piaget e Vigotski, há outros autores cujas teorias parecem estar associadas, de algum modo, às propostas de Freire. Segundo Gadotti, em escritos diversos sobre a obra de Paulo Freire, não se pode negar as afinidades entre as concepções do educador brasileiro com: a) o pensamento do francês Celestin Freinet; b) a psicologia humanista de Carl Rogers; c) a noção de cultura de John Dewey; d) a concepção de aprendizagem de Anton Makarenko. Gadotti destaca também as semelhanças entre os escritos de Vigotski e de Paulo Freire. A Educação Comunitária enquanto movimento de libertação acaba por mostrar-se influenciada pelas teorias de aprendizagem e Educação que estão presentes na obra de Paulo Freire. É relevante notar que, durante o regime militar quando Freire ficou exilado do país, esse tipo de Educação e seus educadores foram perseguidos em função de suas práticas educativas e posicionamento político. Atualmente, tende a estar mais vinculada a movimentos sociais, Ongs, organizações de base comunitária e da sociedade civil de visão e atuação críticas ao governo e ao capital. A tendência histórica de dificuldades para a obtenção de financiamento parece ser mantida ainda hoje, bem como, o empenho dos educadores e militantes dessa Abordagem Educacional. 4.3. Educação Comunitária como Auto-Ajuda Pedagogias Centradas no Aprender a Aprender e as Anteriormente citamos que a Educação Comunitária como auto-ajuda supõe, segundo Militão, que os indivíduos e a comunidade de modo global aprendam, por meio de processos educativos, a identificar problemas e a buscar os recursos que permitam sua solução adequada. Ainda, pressupõe-se a existência, no local de realização desse tipo de Educação Comunitária, de um clima favorável à busca de aperfeiçoamento pelos homens, das relações sociais, das condições de vida e a criação de cidadãos que de fato participem e influenciem os aspectos pertinentes a suas vidas e de suas comunidades. 66 As pedagogias centradas no lema aprender a aprender parecem ser a base da concepção acima de Educação Comunitária, pois supõem a necessidade de os indivíduos buscarem, constantemente, estratégias que lhes permitam construir saberes e conhecimentos que os auxiliem a solucionar os problemas impostos aos cidadãos e às comunidades. Comumente há ênfase nessas pedagogias na necessidade de, por meio da realização de tarefas comuns, os cidadãos melhorarem sua qualidade de vida e poderem construir um mundo mais harmônico. Em função das características acima sintetizadas, parece correto afirmar que a abordagem dominante na Educação Comunitária, para auto-ajuda, está relacionada às pedagogias baseadas no aprender a aprender. De modo semelhante, a vertente da Educação Comunitária e as pedagogias centradas no aprender a aprender não são recentes. No Brasil, o movimento escolanovista foi um dos primeiros a apresentar essas concepções de maneira mais enfática. Também teóricos ligados a abordagens cognitivistas e construtivistas centraram suas propostas no aprender a aprender. Piaget cita, abertamente no livro Problemas da Psicologia Genética, o lema aprender a aprender, destacando sua relevância e pertinência (DUARTE, N., 2001). Bloch (1951), sintonizado com o lema em estudo e baseado no pensamento de Dewey, defendeu a necessidade de o aluno desenvolver métodos que lhe permitissem conhecer autonomamente o mundo. No entanto, foi somente a partir da década de 1980, e principalmente na década de 1990, que o aprender a aprender ganhou força e divulgação ampla, estando presente, de modo direto ou indireto, nas teorias de autores amplamente influentes na atualidade, dentre os quais destacam-se: Pérez Gómez, César Coll e Philippe Perrenoud. Gómez (1998) afirma que é preciso valorizar os processos de busca permanente do conhecimento pelos alunos mais do que a transmissão de saberes acabados. Para ele, mesmo em sala de aula, os problemas não possuem repostas únicas e o modo como o aluno aprende a buscar conhecimentos é fundamental na aprendizagem humana. Esse processo deve acontecer preferencialmente em grupos, apesar de ocorrer também de forma individualizada. 67 Philippe Perrenoud (1999) defende, também, em concordância com o aprender a aprender, que os indivíduos devem mostrar-se capazes de agir eficazmente em situações diferenciadas, por meio da mobilização de conhecimentos, sem se limitar somente a eles. O aprender a fazer é bastante valorizado por Perrenoud, bem como o saber buscar informações e mobilizar esses conhecimentos para a solução de problemas. Para César Coll (1994, p. 136), o aprender a aprender seria, em verdade, o objetivo final da Educação. O autor afirma em Aprendizagem Escolar e Construção do Conhecimento que “a finalidade última da intervenção pedagógica é contribuir para que o aluno desenvolva a capacidade de realizar aprendizagens significativas por si mesmo”. Não se pode deixar de considerar que o grande instrumento de divulgação do lema aprender a aprender, na última década, foi o Relatório Educação: um tesouro a descobrir, elaborado por Jacques Delors, para a UNESCO, em colaboração com outros autores. Segundo Delors, a Educação no século XXI deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens que irão constituir-se nos pilares do conhecimento dos indivíduos para toda a vida. Os quatro pilares são: Aprender a conhecer, isto é, adquirir os instrumentos da compreensão; aprender a fazer, para poder agir sobre o meio envolvente; aprender a viver juntos, a fim de participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas; finalmente aprender a ser, via essencial que integra os três precedentes. (DELORS, J., 1990, p. 90) A abordagem é hoje bastante difundida e aceita, particularmente, nas correntes cognitivistas e construtivistas da Educação. Entretanto, apesar de sua hegemonia, há críticas. O principal crítico das pedagogias centradas no aprender a aprender no Brasil é Newton Duarte, pedagogo e doutor em Educação, que atua na Universidade Estadual Paulista / UNESP. Ele não percebe o lema aprender a aprender como símbolo de posições pedagógicas inovadoras e progressistas. Para o autor, essas pedagogias, em verdade, constituem-se em uma apropriação neoliberal conservadora da teoria de orientação marxista de Vigotski. 68 A presença de abordagens centradas no aprender a aprender faz-se sentir fortemente na Educação Comunitária como auto-ajuda e nas atividades educacionais realizadas pelas atuais organizações do Terceiro Setor. Uma consulta a sítios eletrônicos de algumas das principais organizações do Terceiro Setor, como Abrinq, SENAC, CIEE, Instituto Ayrton Senna, Instituto Pão de Açúcar de Desenvolvimento Humano etc. demonstra que todas essas Ongs ou organizações relacionadas ao Terceiro Setor, de algum modo, baseiam suas ações educacionais nessas pedagogias. 5. Concepção de Educação no Terceiro Setor Ao longo do presente capítulo, apresentamos algumas propostas e indicativos que compõem a nossa concepção do que seja a Educação no Terceiro Setor. Exatamente essa concepção é que será utilizada no terceiro Capítulo e nas Considerações Finais, deste trabalho, como referência para a análise do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. A despeito de considerar que, neste segundo Capítulo, foram apresentadas as principais concepções da Educação no Terceiro Setor tal como a compreendemos, parece relevante reunir esses apontamentos e descrever a modalidade educacional em tela de forma sistematizada. A Educação no Terceiro Setor tem como característica básica o fato de constituir-se em um processo intencional de ensino e aprendizagem realizado por indivíduos ou grupos. É desenvolvida pelas chamadas Organizações do Terceiro Setor, ou seja, Ongs, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, Organizações de Base Comunitária, entre outras, inseridas no contexto deste Setor. Sabemos que as características das organizações do Terceiro Setor são extremamente diversas, de modo que o tipo de Educação praticada, por exemplo, por uma Ong de alcance internacional, pode ser diferente dos processos educativos realizados por uma pequena organização comunitária. Entretanto, compreendemos que o tipo de população atendida, os compromissos políticos e as características conceituais e metodológicas 69 dessa Educação sistematizada podem conferir unidade às múltiplas ações desenvolvidas em seu campo educacional. A Educação no Terceiro Setor deve voltar-se de forma central para o atendimento a camadas empobrecidas da população e para a organização de cidadãos com vistas à gestão democrática participativa e ativa dos recursos comunitários. Seus compromissos políticos devem estar vinculados a: 1. emancipação humana; 2. melhoria da qualidade de vida de indivíduos e da coletividade; 3. busca ativa de solução de problemas das comunidades; 4. ampliação das possibilidades de participação democrática ativa (e não só representativa) nos processos decisórios e de gestão das localidades; 5. superação das condições de exploração de parcelas da população. Os campos de atuação da Educação no Terceiro Setor são: 1. Educação para a cidadania – aprendizagem dos direitos e deveres do cidadão, bem como, das possibilidades de intervenção dos indivíduos e grupos no sentido de garantir a efetiva implementação de direitos alcançados do ponto de vista legal, mas pouco ou ainda não respeitados objetivamente; 2. Educação para o mundo do trabalho – trata-se da Educação para a geração de renda, seja no mercado formal ou por meio de processos colaborativos e cooperativos de trabalho estruturados, no sentido de garantir o sustento e a melhoria da qualidade de vida de pessoas e comunidades; 3. Educação para a formação e desenvolvimento de atores sociais capacitação de indivíduos e grupos com o objetivo de prepará-los para apoiar a mobilização, organização e desenvolvimento das comunidades e, em particular, para atuação em processos de identificação de problemas das comunidades, onde os indivíduos estão inseridos, bem como, para a gestão democrática dos recursos comunitários, por meio da busca ativa ou exigência da criação de espaços de gestão coletiva dos recursos públicos; 4. Educação para o uso e construção de saberes apoiados pelas novas Tecnologias do Conhecimento e Informação (TCI) – dada a revolução em 70 desenvolvimento baseada nas TCI, é relevante que a Educação no Terceiro Setor volte-se para o uso de recursos disponíveis nas novas tecnologias, para a formação de redes de comunidades e organizações para a produção, troca e difusão de conhecimentos e informações de interesse dos indivíduos e dos grupos comunitários nos quais encontra-se inserido; Uma característica bastante relevante da Educação no Terceiro Setor é o fato de poder oferecer atividades, a partir da demanda apresentada pelas comunidades. Essa modalidade de Educação pode oferecer o que, de fato, as comunidades e indivíduos necessitam para o seu fortalecimento e desenvolvimento de forma muito mais ágil que a Educação formal. Além disso, é preciso considerar que todo o sistema educacional, tanto formal quanto não formal público e privado brasileiro, encontra-se hoje orientado pelo que podemos denominar sentido de oferta, ou seja, as escolas e organizações educacionais oferecem produtos independentemente do interesse e da demanda real das comunidades. O Terceiro Setor, dada a sua multiplicidade de organizações e maior flexibilidade de atuação, está em condições de passar a agir de forma oposta ao sistema atual vigente na Educação nacional, buscando identificar as demandas das comunidades e elaborando programas educacionais sintonizados com as necessidades observadas, de modo flexível o suficiente, para permitir que os programas educacionais criados sejam adaptados rapidamente a mudanças ou surgimento de novas demandas das localidades. Considerando o que foi exposto acima, é possível que, em alguns casos, a Educação no Terceiro Setor ofereça programas que complementem ou apóiem a Educação formal, tais como: alfabetização de jovens e adultos; reforço escolar para crianças e adolescentes, entre outros. A metodologia educacional adotada nos programas e atividades próprias da Educação no Terceiro Setor pode ter como referência as indicações de Militão 71 anteriormente citadas8. Acreditamos que, na Educação no Terceiro Setor, é mais adequada a utilização de metodologias educacionais ativas, que permitam aos participantes vivenciarem os temas estudados, além de conduzirem a sua aprendizagem individual e realizar a gestão coletiva das aprendizagens voltadas para o desenvolvimento e a convivência comunitários. Analogamente ao que ocorre na Educação Comunitária, os valores que devem orientar a Educação no Terceiro Setor são: “articulação, parceria, rede, co-manutenção, contrapartida, co-gestão, diversidade cultural [...]” (GADOTTI, M., 2001; p. 14). É importante, de modo complementar, reafirmar a proximidade que há entre o que definimos como Educação no Terceiro Setor e o que Gohn (2001) apresentou como Educação não formal. Em resumo, a autora afirma que a Educação não formal constitui-se em um processo com seis dimensões: 1. aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos; 2. capacitação de indivíduos para o trabalho; 3. capacitação de indivíduos para a organização comunitária e solução de problemas coletivos; 4. aprendizagem de conteúdos da escolarização formal; 5. Educação pela e para a mídia; 6. Educação para a arte do bem viver (que envolve a Educação para o auto-conhecimento, meditação, alongamento, anti-stress, etc). 8 Jair Militão (1996; p. 100) sugeriu que a metodologia adotada na Educação Comunitária deveria levar os participantes a: a) um momento de encontro onde predominem sentimentos de simpatia e identificação; b) vivenciarem uma tarefa comum onde possam exercitar julgamentos comuns, de modo a construírem uma visão comum de mundo; c) comprometerem-se pessoal e grupalmente com objetivos e metas; d) assumirem ou acolherem identidade comum; d) atuarem publicamente com essa identidade, enfrentando os desafios do ambiente físico e social; e) conservarem a memória da criação e as experiências do grupo; f) interagirem com outros sujeitos em clima pluralista e democrático. 72 CAPÍTULO 3 FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA O TERCEIRO SETOR - UM ESTUDO DE CASO 73 1. Introdução A pesquisa que agora relatamos consistiu em esforço para organizar, sistematizar e analisar informações sobre a Educação no Terceiro Setor. Especificamente, realizamos estudo de caso etnográfico de um programa particular de Formação de Educadores, denominado Formação de Formadores para o Terceiro Setor. Cumpre ressaltar que pretendemos registrar e estudar o único caso de curso de formação de educadores para o Terceiro Setor existente na cidade de São Paulo e, a partir desse estudo, elaborar propostas que contribuam para o aperfeiçoamento do curso estudado e para o desenvolvimento de outros programas de formação análogos ao pesquisado. Em 2004, o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor passou a ser nomeado Gestão e Mediação de Projetos Socioeducacionais. Neste estudo foi adotada a primeira denominação, pois o curso com o novo título não teve início e não há previsão de realização neste ano de 2004. Vale ressaltar que esse curso dedica-se a capacitar profissionais que atuam como formadores de outros educadores e também educadores que atuam diretamente nos projetos educacionais. Neste Capítulo, serão apresentados os dados coletados e a análise realizada. Buscou-se levantar informações que permitissem, conforme André (2003, p. 42), compreender o processo educativo do curso “em pelo menos três dimensões: a institucional ou organizacional; a instrucional ou pedagógica e a sociopolítica/cultural. Essas três dimensões não podem ser consideradas isoladamente, mas como uma unidade de múltiplas inter-relações [...]”. O capítulo subdivide-se em: a. Contexto institucional/organizacional – histórico e tendências atuais da organização que criou, desenvolveu e realiza o curso; b. descrição e análise do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor – realizada a partir de documentos e entrevista com representante da coordenação do curso, com a 74 apresentação de sua origem, propostas, objetivos e plano de curso. 2. Contexto Institucional / Organizacional O curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor foi criado, desenvolvido e realizado pelo SENAC-SP, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial do Estado de São Paulo, por meio de sua Unidade denominada Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor - CTG. A descrição e a análise do histórico e do contexto atual, tanto do SENAC-SP, quanto do CTG, fazem-se necessárias para alcançarmos uma adequada compreensão das influências e dos determinantes institucionais que incidiram sobre a elaboração e realização do Curso. 2.1. O SENAC O SENAC foi criado em janeiro de 1946, por meio do Decreto-Lei número 8.621, durante o Governo de José Linhares. Naquele momento histórico, as visões de trabalho, Educação e assistência social possuíam forte influência do pensamento próprio do Estado Novo e do ex-presidente Getúlio Vargas, o que acabou impregnando a Legislação que criou e normatizou o SENAC. Coube à Confederação do Comércio estruturar e administrar a Organização recém-criada. Segundo o “artigo terceiro do referido Decreto-Lei ao SENAC cabia colaborar na obra de difusão e aperfeiçoamento do ensino comercial de formação e do ensino superior imediato que com ele se relacionasse [...]” (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC, 1990, paginação irregular). Vale registrar que dois eventos antecederam à normatização do SENAC e contribuíram de forma decisiva para determinar o seu surgimento, suas características iniciais e alguns aspectos que permanecem, até hoje, na missão e atuação da organização: 75 1. A criação, em 1945, da Confederação Nacional do Comércio, órgão vinculado ao empresariado; 2. a realização, em meados de 1945, da primeira Conferência das Classes Produtoras do Brasil que reuniu grupos representativos de empresários da Agricultura, Indústria e Comércio do Brasil, ocasião em que foi elaborada a chamada Carta Econômica de Teresópolis que ficou mais conhecida como Carta da Paz Social, a qual delineava, a partir da visão das elites econômicas, “os direitos e deveres de empresários e trabalhadores, para que a sociedade pudesse fazer frente à nova ordem econômica decorrente do pós-guerra” (DURANTE. M., 2003, p. 36). Aspecto importante do documento dizia respeito à necessidade de criação de uma política educacional voltada para “a intensificação e aperfeiçoamento do ensino médio e superior do comércio, economia e administração [...]” (Carta da Paz Social apud SEHNEM, M. A., 1982, p.24). Esse e outros apontamentos da carta cristalizaram o interesse dos empresários do comércio, na criação de uma organização voltada para o comércio, análoga ao SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Associado a esses fatores, contribuiu para o surgimento do SENAC o fato de, naquele momento histórico, diversos setores sociais apontarem para a necessidade de criar uma política social para os trabalhadores, assim como programas e escolas que oferecessem oportunidade de capacitação aos trabalhadores brasileiros, em diversas áreas, dentre as quais incluía-se o comércio. O SENAC, desde a sua inauguração até os dias de hoje, possui o financiamento da contribuição compulsória de 1% sobre o valor da folha de pagamento das empresas vinculadas à Confederação Nacional do Comércio. Atualmente, no entanto, a chamada receita compulsória não se constitui na sua única fonte de financiamento, pois conta com valores provenientes da cobrança de taxas de cursos e serviços oferecidos pela organização. Apesar de ser subvencionado com dinheiro público, o SENAC possui caráter privado, sem fins lucrativos. No tocante à estrutura organizacional, o SENAC possui: órgãos de administração nacional, responsável pelas diretrizes políticas e estratégias de ação em âmbito nacional; órgãos e departamentos de Administração Regional, presentes nos 76 Estados do país que, a partir das diretrizes nacionais, elaboram estratégias e políticas que atendam à dinâmica e especificidades de cada Estado. Sua história e constituição, em cada Estado brasileiro, apresenta particularidades que demandam estudos específicos sobre o tema. Considerando porém, que o curso, que é objeto desse estudo, existe apenas em São Paulo, vale destacar, a partir deste momento, aspectos pertinentes ao SENAC – SP. 2.1.1. O SENAC – São Paulo O SENAC–SP foi criado em janeiro de 1946 e iniciou de fato suas atividades em julho do mesmo ano. No princípio de sua história, caracterizou-se pelo trabalho em conjunto com as Escolas de Comércio já existentes e atendimentos aos chamados menores aprendizes, jovens com 14 anos de idade encaminhados pelas empresas do comércio. Esses jovens eram contratados e deveriam trabalhar meio período na empresa e a outra metade da carga horária semanal, participar de atividades de aprendizagem no SENAC. As principais dificuldades vivenciadas pela organização, nessa fase inicial, foram a resistência dos empresários em aceitar pagar a contribuição compulsória que sustentaria o SENAC e aceitar que os aprendizes contratados permanecessem em atividades educacionais fora do espaço de trabalho. Nos dois primeiros anos de existência, os cursos eram realizados na capital e interior, em espaços cedidos por outras organizações ou salas alugadas. Somente em 1948, registra-se a compra do primeiro edifício, localizado na cidade de São Paulo. Para a administração, a aquisição de um prédio próprio era extremamente positiva ao adequado desenvolvimento e realização dos cursos. A partir de 1950, inicia-se uma expansão física gradual do SENAC-SP, que se estende até os dias atuais. Ainda, nessa fase inicial, surgiu a UNAR - Universidade do AR que se constituiu em uma das primeiras experiências de Educação a distância no país. Tratava-se da realização de cursos comerciais, via rádio. Por meio da UNAR, o SENAC atendeu a um número maior de trabalhadores e ganhou visibilidade no Estado. 77 Gradativamente, o SENAC-SP passa a incorporar como seu cliente o adulto, trabalhador do comércio e pessoas interessadas em ingressar na área. Esse fator permitiu a ampliação do número de cursos oferecidos e a diversificação das características da programação, que passou a contar com programas voltados à atualização, qualificação e aperfeiçoamento profissionais. Ao longo da década de 1950 até 1965, houve aumento significativo do número de cursos oferecidos pela organização e, conseqüentemente, uma ampliação do número de pessoas atendidas9. A expansão do número de alunos e de cursos mantém-se como preocupação na década de 1970, marcada por uma aproximação do discurso da organização de propostas e metodologias educacionais consideradas mais avançadas. Os Centros de Formação Profissional atuavam regionalmente, particularmente no interior do Estado de São Paulo. Passaram a ter programação mais flexível, visando a atender número maior de alunos e a dar atendimento às empresas. Esse crescimento não foi acompanhado da evolução da qualidade dos cursos oferecidos e dos serviços prestados. No início dos anos 80, a crise de qualidade associada à recessão da economia nacional, que ameaçava as fontes de receita, levaram a organização a uma avaliação de toda a programação oferecida aos alunos, e do próprio SENAC, enquanto organização educacional. Há uma nova adequação administrativa. O processo avaliativo resultou na elaboração de uma Proposta Estratégica para os anos 80, que apresentou o reposicionamento da organização e teve como foco a construção e o aperfeiçoamento de ações que garantissem a geração de receitas significativas, além daquelas provenientes da contribuição compulsória. No documento SENAC anos 80, está explicitada a preocupação com a ampliação de fontes alternativas geradoras de recursos financeiros: [...] a proposta estratégica afirma a necessidade de se buscar e desenvolver instrumentos que viabilizem as condições para uma administração de cunho mais empresarial privado [...] Quanto aos recursos financeiros, destaca a importância da obtenção de receitas próprias, como forma de diminuir a dependência institucional em relação 9 No ano de 1950, o SENAC possuía 10 cursos e, em 1965, o número havia crescido para 40. O número de alunos saltou de 32.542, em 1954, para 53.522, em 1964, segundo dados oferecidos pelo próprio SENAC-SP. 78 às receitas de contribuição. (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC-SP, 1989, paginação irregular) Essa nova postura de cunho mais empresarial privado resultou em atendimento cada vez maior de público jovem e adulto em condições de pagar os valores sugeridos. Inicia-se, assim, um processo agressivo de elitização de seu público e uma incessante busca pela auto-sustentabilidade que o levaria, em fins da década de 1990, ao alcance da independência da contribuição compulsória. A organização deixa, assim, de depender da receita compulsória. A partir de fins do século passado, os valores provenientes da contribuição passaram a ser investidos, exclusivamente, na ampliação da Rede de Unidades. Foi a partir do final de década de 1980 que inicia expansão do número de Unidades. Nessa mesma época, a organização ingressa no ensino superior com a criação do primeiro curso universitário. A despeito de o Decreto-Lei que o criou já prever sua inserção no ensino superior, em São Paulo, isso só ocorre, com ênfase, a partir da década de 1990. Nos anos 90, a preocupação com a qualidade dos cursos livres, técnicos e superiores cresce. Realiza estudos e procura adotar posturas inovadoras, na metodologia e nos processos de ensino-aprendizagem, começando a evidenciar-se forte valorização do conhecimento didático-pedagógico. Em oposição a essa tendência, há dois fatores: 1. a tradição tecnicista da organização e das diversas áreas e dos profissionais, os quais com foco exclusivamente no mercado de trabalho, não conferem relevância aos processos de ensino-aprendizagem; 2. a busca incessante do lucro, em praticamente todas as áreas e cursos, que coloca, não raro, em segundo plano, as preocupações com a efetiva qualidade dos programas. É curioso observar que, desde a década de 1970, praticamente não há mais atendimentos aos chamados menores aprendizes, que caracterizou as primeiras décadas de sua existência. O século XXI tem início sob a orientação da Proposta Estratégica para a Década de 2001-2010. A missão é redefinida e passa a ser “proporcionar o desenvolvimento de pessoas e organizações para a sociedade do conhecimento, por 79 meio de ações educacionais comprometidas com a responsabilidade social”. (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC-SP, 2000: p. 01) O uso do termo responsabilidade social parece surgir com dois objetivos: 1. para alinhar o SENAC ao discurso contemporâneo adotado pelo empresariado, segundo o qual as empresas devem atuar de forma responsável socialmente; 2. para minimizar, junto à opinião pública, comerciários e comerciantes de modo geral, a elitização da organização. A organização passa, nesse momento de sua história, a caracterizar-se cada vez mais fortemente, em sua atuação, como organização privada que busca o lucro e não apenas a sua manutenção e sustentabilidade. Simultaneamente, SENAC-SP aponta como sendo seu desafio e visão de futuro: Até 2010 o SENAC - São Paulo será reconhecido como referência de organização educacional e do terceiro setor, diferenciada pela ação inovadora, diversificada e socialmente solidária. (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial/SENAC-SP, 2000: p. 01) No início do século XXI, é mantida a proposta de uma atuação empresarial e a busca constante de obtenção de superávit financeiro nas suas operações, no entanto, ganha grande força, com o advento da Proposta Pedagógica (2003), a busca de qualidade e a adoção de referenciais conceituais e metodológicos mais contemporâneos dos processos de ensino-aprendizagem. Essa Proposta aponta, ainda que de forma implícita, o histórico alinhamento da organização com propostas tecnicistas de Educação e apresenta claramente que a Educação, que será praticada por toda a organização, deverá basear-se, neste novo século, nos princípios e orientações apresentadas por Jacques Delors (1996), em particular no que o autor denominou de quatro pilares da Educação (saber conhecer, saber conviver, saber fazer e saber ser). O documento apresenta ainda orientação para que todo o SENAC-SP adote, na elaboração, desenvolvimento e avaliação de seus cursos: 1. a abordagem por competências – em que se percebe a forte influência de autores como Phillippe Perrenoud e César Coll; 2. adoção de metodologias “mais participativas, voltadas para a prática, baseadas em situações reais de trabalho, através de estudos de caso, 80 pesquisas e outras formas metodológicas apoiadas em recursos da moderna tecnologia educacional” (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial / SENAC-SP; 2003, p. 15). Quanto à metodologia, há forte incentivo para o uso das novas Tecnologias do Conhecimento e Informação como forma de apoiar a construção, mediação e difusão do conhecimento. Surge, na primeira década deste século, uma terceira tendência que é a ampliação do número de cursos de graduação e pós-graduação. No ano de 2004, a organização inaugura um grande campus universitário, na zona sul da cidade de São Paulo e amplia, de forma significativa, o número de cursos de ensino superior e pósgraduação. Em um primeiro momento, a ampliação de investimento de recursos e a expansão do número de cursos universitários fazem surgir quase que uma nova Organização dentro do SENAC-SP. Neste momento, há diversas áreas de atuação e unidades que poderão ser incorporadas pelo Centro Universitário SENAC, o que tem provocado debates constantes e incentivado a organização a reavaliar sua atuação em todo o Estado. Por fim, é curioso notar que, nesta primeira década do século XXI, o SENACSP volta a atender os chamados menores aprendizes. Isso não ocorreu de forma aleatória. Nos últimos anos, voltou a crescer no país a preocupação com a questão do trabalho e, em particular, com a ausência de oportunidades para os jovens de capacitação e posterior inserção no mercado de trabalho formal. Tais fatores levaram organizações da sociedade civil e setores do governo federal a retomar a denominada Lei do Menor Aprendiz, como forma de oferecer aos jovens oportunidade de contato com o mundo do trabalho. Assim, temos observado a ampliação da fiscalização, no sentido de fazer cumprir a legislação que determina a contratação de menores aprendizes. Com isso, as empresas, que contribuem compulsoriamente com o SENAC , devem encaminhar seus aprendizes para realização de aprendizagem na organização. O SENAC-SP viu, então, crescer o número de aprendizes atendidos de cerca de 800 em 2003 para aproximadamente 246010 no ano de 2004. A retomada do atendimento aos aprendizes é vista de formas diversas dentro da Organização. A tendência mais 10 Dado fornecido pela Gerência de Desenvolvimento Educacional (GDE) do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial / SENAC-SP 81 voltada para a questão administrativa e financeira, anteriormente citada, tem observado esse atendimento como um fator de ampliação das despesas financeiras, tendo em vista que esse atendimento não é pago pelo público atendido, mas um serviço prestado às empresas que realizam o pagamento da Contribuição Compulsória. Por outro lado, a tendência, preocupada com a melhoria da qualidade dos serviços educacionais prestados pela organização, nesse programa, a oportunidade de criação e generalização de outros cursos e programas educacionais pautados em metodologias e concepções de ensino-aprendizagem mais vinculados a pedagogias centradas no lema aprender a aprender na rede de Unidades do SENAC. 2.2. O Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP O Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP – CTG, foi criado no ano de 1973, com a proposta de atender cidades e comunidades do interior e da capital paulista que não possuíam Centros de Formação Profissional. No ano de sua criação, a Unidade era denominada UNIFORT, sigla para Unidade Móvel de Formação e Treinamento. A partir de 1983, essa Unidade especializada em ações sociais recebe diversas denominações e modificou inúmeras vezes sua missão e forma de atuação. O SENAC UNIFORT foi criado como uma resposta aos propósitos sociais mais específicos da Organização de atender a clientela economicamente carente e residente em locais onde a presença do SENAC não é sistemática, a periferia da Capital e dos municípios da Grande São Paulo.(Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial / SENAC-SP, 1989, não paginado) A UNIFORT surge, portanto, no mesmo momento histórico em que o SENACSP procurava adotar uma postura mais empresarial com ênfase na ampliação de atividades pagas pelos clientes da Organização, conforme citado anteriormente. Dessa forma, a Unidade é concebida inicialmente para compensar o processo de elitização de 82 seu público-alvo, ao voltar-se especificamente para o atendimento das populações pauperizadas. Durante praticamente a década de 1980, com pequenas variações, a UNIFORT apresentou três linhas básicas de atuação: 1. formação profissional básica, isto é, cursos com orientações básicas para jovens e adultos que desejavam inserir-se no mercado de trabalho; 2. organização de pequenos negócios; 3. atividades socioeducativas e culturais, ou seja, realização de cursos e eventos voltados para a difusão de informações de interesse das comunidades, em áreas como saúde, higiene e alimentação. As ações eram realizadas por equipes de quatro ou cinco profissionais que se deslocavam até as regiões empobrecidas da Capital, Grande São Paulo e Interior, a fim de oferecer aos moradores dessas localidades as atividades e serviços que dispunha. Os cursos eram gratuitos. Comumente a Unidade estabelecia parcerias com órgãos públicos, empresas e associações de classe para oferecer atividades de Educação e capacitação para jovens e adultos de ambos os sexos em busca de profissionalização e aperfeiçoamento de seus conhecimentos. A UNIFORT era vista, pela Organização, como o SENAC presente nas comunidades empobrecidas, segundo slogan difundido internamente à época. No princípio da década de 1990, sua proposta e denominação são modificadas. A Unidade passa a ser chamada CCT - Centro de Educação e Ação Comunitária para o Trabalho do SENAC-SP. O atendimento a populações de baixa renda é mantido; no entanto, o foco principal deixa de ser o indivíduo e passa a ser o estímulo ao desenvolvimento autônomo das comunidades (Referência Vídeo Produções; Vídeo Institucional do Centro de Educação e Ação Comunitária para o Trabalho, VHS, 1994). Nessa nova proposta, a Unidade recebia solicitações de organizações de comunidades empobrecidas e, a partir daí, deslocava uma equipe multiprofissional ao bairro ou localidade que, em parceria com órgãos públicos, privados, organizações sociais e indivíduos interessados no desenvolvimento comunitário, elaborava um projeto que o SENAC denominava “estímulo ao desenvolvimento autônomo da comunidade” comunidades (Referência Vídeo Produções; Vídeo Institucional do Centro de Educação e Ação Comunitária para o Trabalho, VHS, 1994). Havia grande preocupação em atender um grande contingente 83 de pessoas de forma direta ou indireta, de modo que o SENAC-SP pudesse manter o atendimento gratuito a um alto número de indivíduos e comunidades. Segundo registros do próprio SENAC, no ano de 1993, a Unidade atendeu dezenove mil pessoas. A mudança promovida no princípio da década de 1990 foi vista como insuficiente pelo SENAC-SP que apontava como principais problemas do CCT (Centro de Educação e Ação Comunitária para O Trabalho, 1995, não paginado): 1. Baixa diversificação de produtos e concentração de suas atividades em áreas reduzidas, que resultava no atendimento de um número de pessoas menor do que o pretendido pela Organização; 2. número limitado de cursos e atividades e, ainda, em áreas do mundo do trabalho em que o mercado apresentava-se saturado; 3. ação territorial restrita, em grande parte devido ao número reduzido de profissionais que compunham a equipe da Unidade; 4. parcerias realizadas somente com órgãos públicos; 5. isolamento em relação às demais Unidades do SENAC, que pouco conheciam dessas atividades comunitárias. A crise e o conjunto de críticas que recebeu do próprio SENAC-SP levaram a uma reorganização da Unidade, que teve sua denominação novamente alterada. A Unidade passou a ser conhecida como Centro de Educação Comunitária para o Trabalho/SENAC-SP. As atividades realizadas nas comunidades foram mantidas, mas com menor ênfase. Foi criado um curso intitulado Programa Educação para o Trabalho/SENAC-SP, voltado para a capacitação de jovens para o ingresso no mundo do trabalho, o qual passou a ser o principal curso oferecido. Complementarmente, foram desenvolvidos cursos de capacitação de profissionais que atuavam ou pretendiam atuar em projetos sociais e socioeducacionais. Estabeleceram-se parcerias com um grande número de empresas, as quais custeavam os cursos e programas, em especial o Programa Educação para o Trabalho/SENAC-SP, de modo que o aluno atendido não precisasse saldar as mensalidades. O público-alvo continuava a ser a população empobrecida. 84 Um fato relevante ocorreu no final da década de 1990, quando o SENAC, que até então subsidiava financeiramente todas as atividades dessa Unidade, passou a exigir que se buscassem parcerias com empresas e órgãos públicos que permitissem a sua manutenção autônoma. Em outras palavras, não deveria necessariamente ser uma Unidade lucrativa como as demais da rede SENAC-SP, mas também não deveria apresentar déficit financeiro. A ênfase em atender grande número de pessoas e comunidades pauperizadas, manteve-se. O Programa Educação para o Trabalho/SENAC-SP demonstrou capacidade crescente de captar recursos provenientes de empresas, o que verificou-se até o ano de 2002. No entanto, isso levou a uma ampliação excessiva de uma única área da Unidade e no enfraquecimento de outros setores importantes, voltados para o atendimento de profissionais da área social e de adultos que buscavam capacitação gratuita. No ano 2000, a Unidade foi contemplada com um prédio próprio no bairro da Penha, na cidade de São Paulo. Além da mudança de localização, passa a ser gradualmente influenciada pelas concepções da Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor11. A partir de meados de 2002, inicia-se um processo interno em que o Programa Educação para o Trabalho/SENAC-SP perde a centralidade e a Unidade passa a privilegiar atividades voltadas para a capacitação e atendimento de profissionais e atores sociais que atuam ou pretendem atuar no Terceiro Setor. Esse processo ocorre de forma bastante gradativa e culmina com um novo reposicionamento de objetivos e atuação da Unidade. A influência de concepções ligadas ao Terceiro Setor pode ser observada na nova denominação que adota: Centro de Gestão e Tecnologia do Terceiro Setor - CTG. Em princípio, a nova proposta dá prioridade, conforme tendência indicada acima, à capacitação e formação de atores sociais e profissionais que atuam no Terceiro Setor. São criados e desenvolvidos cursos e atividades diversas, como Fóruns e Seminários, para esse público específico. Ao longo do ano de 2003, a proposta 11 Sobre a Abordagem Norte Americana de Terceiro Setor Cf.: Capítulo 1 da presente Dissertação. 85 atualiza-se e sofre influências de outras Abordagens relacionadas ao Terceiro Setor, em particular daquela denominada Desenvolvimento Social Local-DSL. O objetivo passa a ser “fortalecer organizações do Terceiro Setor por meio da capacitação, integração e mobilização de pessoas e organizações” (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor, 2003a, não paginado). É curioso notar que a ênfase dada ao Desenvolvimento Local, nessa nova configuração, apresenta grandes semelhanças com a proposta que a Unidade possuía no princípio da década de 1990. Hoje a Unidade apresenta como principais atividades: 1. O fomento à criação e desenvolvimento de Redes de organizações da sociedade civil na cidade de São Paulo; 2. programa de Pós-Graduação Lato Sensu chamado Gestão no Terceiro Setor; 3. manutenção de sítio eletrônico conhecido como Setor 3 (www.setor3.com.br), que difunde informações sobre o Terceiro Setor. 2.3. Contexto Organizacional e o Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor Neste estudo, interessa identificar o Contexto Organizacional em que surgiu e foi desenvolvido o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor e suas influências ao longo do tempo na estrutura e na temática abordada. Em entrevista realizada com a coordenação do curso, foi possível identificar que a proposta de sua criação surgiu no ano de 1997. Nesse período, a Unidade estava em fase de reposicionamento de suas atividades que resultaram na criação de programas educacionais e eventos voltados para profissionais que atuavam em projetos sociais. É exatamente nessa proposta que se inseria a criação de um curso que capacitasse educadores para atuar especificamente em organizações do Terceiro Setor. No contexto interno do SENAC-SP, havia um grande incentivo ao desenvolvimento de programas que apresentassem propostas conceituais e metodológicas que estivessem mais vinculadas às pedagogias centradas no lema aprender a aprender, resultando em metodologias de ensino-aprendizagem mais 86 ativas e que incentivassem a participação do aluno na construção do conhecimento. Segundo a coordenação, a gerência buscou obter junto a diversas organizações, tais como a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, propostas de Cursos que se propusessem a capacitar profissionais para atuação em programas educacionais voltados para a área social. Entretanto, as propostas obtidas das várias instituições educacionais não apresentavam os elementos metodológicos e conceituais procurados pelo CCT: “...eles (gerência e grupo de Técnicos do Centro de Educação Comunitária para o Trabalho do SENAC-SP) não estavam muito satisfeitos [...] na medida em que acabavam por ser cursos muito mais acadêmicos do que cursos mais práticos, voltados para entidades” (Coordenação do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor; Entrevista semi-estruturada, 2004). O contexto organizacional do SENAC demandava a criação de cursos voltados para a prática efetiva de profissionais da área da Educação que atuavam em Ongs e outras organizações da sociedade civil. A proposta apresentada pela consultoria e discutida com o SENAC foi aceita. De acordo com o observado em documentos disponíveis e informações obtidas em entrevista, o curso passa a ser coordenado por técnicos do SENAC e pela consultoria que apresentou a proposta, que também ministrava quase que a totalidade das aulas. É importante lembrar que em 1997, a práxis da Unidade estava muito vinculada a duas vertentes próprias da Educação Comunitária, denominadas por Militão, como Educação Comunitária como Auto-Ajuda e Educação Comunitária enquanto movimento de libertação. A proposta do novo Curso estava em sintonia com as orientações adotadas, na medida em que encontrava-se totalmente fundamentada: a.) Nos pressupostos de Paulo Freire, um dos principais autores da Educação Comunitária enquanto movimento de libertação, conforme indicado no Capítulo anterior do presente trabalho; b.) nas orientações metodológicas e conceituais das Pedagogias centradas no aprender a aprender, próprias da Educação Comunitária como Auto-Ajuda. No tocante à questão da atuação voltada para o aprender a aprender, o SENAC-SP, no ano de 1997 voltava-se para a adoção dessa perspectiva educacional no conjunto de seus 87 cursos. Embora estivesse inserido no contexto do SENAC-SP, a primeira turma do curso somente teve início em novembro de 1998. Ao longo do processo de realização das seis turmas do curso, entre novembro de 1998 e novembro de 2003, não houve, segundo a percepção da coordenação, grande interferência no programa, uma vez que a sua elaboração já partiu dos objetivos da Unidade: não foi uma participação assim muito forte... assim marcante. A gente tinha sempre em sala de aula um integrante da equipe técnica como um participante normal, mas ele também fazia um acompanhamento. Eu descreveria assim: - Era o olho do SENAC no curso. E eu sempre tive possibilidade de trocar idéias com estas pessoas também e pedir feedbacks desta perspectiva do SENAC. Mas eu diria que não houve da parte destas pessoas que participaram uma contribuição que eu pudesse dizer hoje que contribuíram para a mudança de rumos. (Coordenação do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor; Entrevista; 2004) É possível afirmar que o SENAC-SP contratou um grupo de profissionais externo à organização que se responsabilizou pela criação e desenvolvimento do curso, cabendo à organização cuidar apenas do acompanhamento das turmas, de modo a garantir que as atividades fossem desenvolvidas de acordo com as propostas e planos de aula antecipadamente apresentados. A incorporação de influências conceituais ligadas ao Terceiro Setor resultou na modificação do curso, o qual, inicialmente denominava-se Formação de Formadores e depois viria a ter seu título alterado para Formação de Formadores para o Terceiro Setor. A mudança ficou restrita ao título e não foram efetuadas quaisquer mudanças estruturais. Quanto às alterações, o que se observam, após a realização de seis turmas, seriam a incorporação de referenciais teóricos e metodológicos relacionados às chamadas Pedagogias por Competências. Essas alterações são atribuídas pela coordenação do curso ao contato isolado e reflexões apresentadas por um único funcionário do SENAC-SP. Não 88 desconsideramos esta percepção, no entanto, levantamos como hipótese que a introdução da Pedagogia por Competências no curso Formação de Formadores ocorreu também por influência das orientações do SENAC-SP que, conforme já indicamos, a partir do início do século XXI, passou a definir como sendo de seu interesse a incorporação em todos os seus programas de propostas conceituais e metodológicas associadas às pedagogias por competências, em especial do pensador franco-suíço Phillipe Perrenoud, e centradas no aprender a aprender, conforme já definia a Proposta Estratégica para a década de 90 do SENAC-SP. Essa orientação institucional encontrase registrada em diversos documentos de circulação interna e, em 2003, foi inserida na Proposta Pedagógica da Organização, em que se afirma textualmente que deve ser conferida “ênfase na aprendizagem voltada para o desenvolvimento de competências [...]” (Serviço Nacional de Apredizagem Comercial / SENAC-SP, 2003, p. 09). Dessa forma, não parece que a influência institucional na incorporação das modalidades de pedagogia citadas não tenha existido ou tenha sido resultado de diálogos com um único profissional do SENAC-SP. Muito provavelmente, os diálogos da coordenação com o funcionário, que resultaram na mais significativa alteração observada no curso, somente foi possível a partir de uma orientação institucional. Em síntese, pode-se indicar que o contexto organizacional teve influência na adoção desta e não de outra proposta de criação do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. Ao longo da realização das turmas, não houve interferência ou influência da Organização no modo como o curso era estruturado. A única alteração significativa que ocorreu por influência do SENAC-SP foi a inserção de teorias sobre Competências como um dos temas abordados ao longo do Curso. 3. O Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor Apresentaremos, neste tópico, a descrição do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, a qual foi baseada em registros e documentos, tais como: Planos de curso, material didático e descrição dos módulos do Curso. Utilizamos, 89 também, os dados coletados em entrevista com a coordenação. Serão descritos os seguintes elementos principais: a. Informações gerais: público alvo; pré-requisitos sugeridos para ingresso no Programa; carga horária; objetivos; b. estrutura: incluindo a descrição de cada um dos seus Módulos; c. temas abordados; d. metodologia de ensino-aprendizagem adotada. Destacamos que a descrição tem como referência o material didático, documentos de circulação interna do SENAC-SP e depoimentos referentes principalmente à sexta turma realizada em 2003. Isto porque consideramos que, como houve um reduzido número de modificações na estrutura do curso ao longo do período em que foi realizado, seria mais adequado apresentar a versão mais recente. 3.1. Informações Gerais O curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor apresenta, como foco central, a capacitação de profissionais para a gestão e mediação de programas educacionais, realizados por organizações do Terceiro Setor, tais como Ongs, Fundações, Institutos, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público e áreas de responsabilidade social de empresas e órgãos governamentais. Encontra-se voltado tanto para profissionais que pretendem atuar diretamente como Educadores quanto para gestores, coordenadores ou supervisores de programas socioeducacionais. A carga horária total era de 259 horas, sendo 219 horas de atividades realizadas em sala de aula e 40 horas de atividades em campo, utilizadas para pesquisa e definição de projeto desenvolvido pelos alunos, preferencialmente, durante o período de aulas. Abordaremos de modo mais detalhado o projeto elaborado pelos alunos nos tópicos seguintes deste Capítulo. 90 O único pré-requisito de ingresso era que o candidato à vaga estivesse cursando a graduação. Os documentos de divulgação apontavam que era desejável que o participante tivesse experiência de trabalho formal ou voluntário no Terceiro Setor, mas, profissionais com pouca experiência ou que estavam interessados em ingressar no Setor eram aceitos sem maiores restrições. O processo seletivo dos candidatos consistiu de: análise de curriculum vitae; carta com justificativa sobre o desejo de participar de suas atividades; realização de entrevista individual; entrega de comprovante de ingresso na graduação. Objetivamente, é preciso destacar que, normalmente, não se excluíam candidatos. Segundo a coordenação do curso, em todas as turmas realizadas, o número de inscritos jamais superou 36 candidatos o que resultou no ingresso de todo o grupo. Isso ocorreu devido à probabilidade de evasão que um curso com duração de 8 meses letivos apresentava. Para a certificação aos participantes foram necessários freqüência mínima de 75% e aproveitamento considerado, no mínimo, satisfatório. O aluno recebeu um certificado na modalidade Aperfeiçoamento Profissional. Em documentos consultados os objetivos gerais do curso são apresentados da seguinte forma: Que o curso possa: • favorecer condições para o exercício da cidadania e a melhoria das condições de vida das populações de baixa renda; • apoiar o processo de profissionalização e o fortalecimento do Terceiro Setor no atendimento crescente e eficaz das populações de baixa renda; • contribuir para a ampliação das possibilidades de inserção e manutenção no mercado de trabalho da população de baixa renda; • desencadear um efeito multiplicador, não só quantitativo, mas sobretudo qualitativo, na formação de educadores comunitários, de acordo com um modelo que procura salvaguardar valores humanos e sociais, princípios psicopedagógicos atualizados, competência profissional e comprometimento com a ação. (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor, 2003b: p. 03) 91 Ao término do Programa, os alunos deveriam apresentar o perfil de conclusão abaixo indicado, conforme documento descritivo do Programa (2003b. p. 03): [...] demonstrar minimamente as seguintes competências fundamentais: • fundamentar suas ações na análise crítica do contexto sociopolítico e econômico do Terceiro Setor, em especial das questões relacionadas à Educação ou formação; • exercer o papel de formador de opinião, elaborando e difundindo pontos de vista sobre a e Educação no Terceiro Setor; • planejar, executar, coordenar e avaliar situações de aprendizagem eficazes no ensino não formal e informal, em entidades ou em programas sociais, tanto na formação de educadores ou agentes sociais, quanto na formação da sua clientela-fim: crianças, jovens, mulheres, adultos em geral, em situação de risco e vulnerabilidade social. 3.2. Estrutura do Curso O curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor é composto por um Módulo Introdutório e outros cinco Módulos específicos. Cada um deles possui um tema central que é abordado em carga horária previamente determinada. Abaixo segue a apresentação do tema e carga horária de cada Módulo. • Módulo Introdutório – 14 horas – apresentação do Curso e integração dos alunos. • Módulo 1 – 49 horas - Análise de contexto: o Terceiro Setor e as ações educacionais. • Módulo 2 – 70 horas - A dimensão técnico-didática do papel do formador. • Módulo 3 – 70 horas - A elaboração e a gestão de projetos de formação. 92 • Módulo 4 – 42 horas - Aplicação: implantação e execução monitoradas dos projetos elaborados pelos participantes no Módulo 3. • Módulo 5 – 14 horas - Avaliação dos projetos elaborados e executados ou em execução pelos alunos do Curso. Ao longo do curso, o aluno recebe um conjunto de materiais didáticos e apostilas, dentre as quais podemos citar como mais relevantes: 1. uma Apostila de Textos do Módulo 1 (2003c) e um Roteiro para Apoiar a Transferência da Aprendizagem (2003f), ambos entregues no início do Módulo 1. A Apostila apresenta textos e informações consideradas relevantes pela coordenação do Curso e pertinentes às questões Educacionais, as quais são o centro dos debates no Módulo 1. O Roteiro citado trata-SE de um caderno de questões e atividades utilizado para, segundo a coordenação do Curso, favorecer a transferência das aprendizagens construídas durante as aulas. 2. Uma Apostila de Textos do Módulo 2 (2003d) – com textos sobre contexto sociocultural e econômico atual, abordagem sobre Terceiro Setor e sobre as relações entre a Educação Comunitária e possibilidades de intervenção na realidade social atual. 3. Um Caderno de Técnicas Didáticas - consiste no registro de todas as técnicas (jogos, dinâmicas, vivências) utilizadas e indicações metodológicas aos alunos que pretendem orientar a sua aplicação em outros contextos. Destacamos que as Apostilas dos Módulos 1 e 2 apresentam as bases conceituais norteadoras de todo o Curso, uma vez que, no Módulo 1, é apresentada toda a base conceitual de Terceiro Setor e, no Módulo 2, a sua base conceitual educacional. É importante notar que numerosos textos, instrumentais de avaliação e outros são entregues aos alunos durante o Curso. No entanto, as Apostilas dos Módulos 1 e 2, o chamado Roteiro para Apoiar a Transferência da Aprendizagem e o 93 Caderno de Técnicas Didáticas são os materiais didáticos que consideramos mais significativos, exatamente, porque apresentam as bases conceituais e metodológicas do Programa de forma sistematizada Para uma compreensão mais detalhada sobre o curso estudado, segue descrição sucinta dos temas abordados em cada um dos módulos. Complementarmente, apresentamos, no Anexo 1, quadro com resumo explicativo do Curso realizado no ano de 2003, incluindo: temas abordados, número de aulas em cada módulo e carga horária e cronograma de 2003. • MÓDULO INTRODUTÓRIO Módulo de curta duração (14 horas) voltado para a apresentação e integração dos participantes, levantamento de expectativas em relação ao Curso e apresentação da proposta de trabalho e dos projetos que deverão ser elaborados e desenvolvidos em Ongs e Organizações da Sociedade Civil nos Módulos 3, 4 e 5. MÓDULO 1 – ANÁLISE DE CONTEXTO: O TERCEIRO SETOR E AS AÇÕES EDUCACIONAIS O Módulo 1 destina-se à reflexão sobre o atual cenário sociocultural, político e econômico da sociedade brasileira. O Terceiro Setor é apresentado no contexto social mais amplo, que aborda algumas de suas características e desafios. Ao final do Módulo, são estudadas as relações entre a Educação Comunitária e as possibilidades de intervenção social, em particular no campo educacional. • MÓDULO 2 - A DIMENSÃO TÉCNICO-DIDÁTICA DO PAPEL DO FORMADOR Este Módulo é considerado o mais relevante do Curso pela coordenação. Pois, é nele que os alunos irão entrar em contato com o conjunto de teorias do 94 processo ensino-aprendizagem e com as diferentes Abordagens do processo educacional que o Curso propõe-se a apresentar. Na entrevista, a coordenação afirmou que um grande número de participantes era proveniente de áreas pouco relacionadas à Educação e, comumente, não possuíam formação acadêmica específica nesse campo. Em função disso, o Módulo acabava por constituir-se em um momento central no curso, na medida em que iria referenciar toda a formação do grupo de participantes. No Módulo são apresentadas as seguintes Abordagens do processo ensinoaprendizagem, de acordo com a Apostila do próprio Curso (Centro De Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP; 2003c, p. 12): Tradicional, Comportamentalista, Humanista, Sociocultural, Construtivista e Abordagem por Competências. Vale notar que a Abordagem Construtivista é apresentada de modo mais detalhado e com maior ênfase. Na última turma do curso, mereceu destaque também a Abordagem por Competências. MÓDULO 3 - A ELABORAÇÃO E A GESTÃO DE PROJETOS DE FORMAÇÃO O Módulo 3 encontra-se voltado para o estudo das etapas de elaboração, organização, desenvolvimento, gestão e avaliação de um projeto social, em especial, projetos educacionais voltados para o Terceiro Setor. Neste Módulo, o processo prático tem início por meio de: a.) escolha de uma localidade ou Organização da Sociedade Civil onde o projeto será realizado; b.) diagnóstico de necessidades locais, com participação da comunidade junto à qual o projeto será desenvolvido; c.) elaboração do projeto, incluindo a definição de situações de ensino-aprendizagem, a formulação de objetivos educacionais e indicadores de monitoramento e avaliação, delimitação dos conteúdos do processo de ensinoaprendizagem e, se possível, o início da implantação do Projeto. (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP, 2003b: não paginado). 95 MÓDULO 4 - APLICAÇÃO: IMPLANTAÇÃO E EXECUÇÃO MONITORADAS DOS PROJETOS ELABORADOS PELOS PARTICIPANTES Neste Módulo, os alunos iniciam a implantação dos projetos elaborados no Módulo 3. Vale citar que esses projetos necessariamente devem ser: 1.) voltados para o campo da Educação no Terceiro Setor, 2.) desenvolvidos e realizados com a participação da comunidade e organização, onde será aplicado e deve, ter como base os referencias conceituais e metodológicos apresentados nos Módulos 1 e 2 do referido curso. Neste momento, o horário das aulas é quase totalmente utilizado para orientação aos alunos, pelos docentes do Curso, de modo a adequar, aperfeiçoar e avaliar a implantação do Projeto. MÓDULO 5 - AVALIAÇÃO: DOS PROJETOS ELABORADOS E EXECUTADOS OU EM EXECUÇÃO E DO CONJUNTO DOS TRABALHOS DO CURSO Neste último Módulo, é realizada a Avaliação dos Projetos que foram ou estão sendo implantados em Ongs e Organizações do Terceiro Setor. Ao final, é realizado um Fórum em que os alunos têm a oportunidade de apresentar os resultados finais ou parciais da implantação de seus projetos e submetê-los à apreciação dos colegas de curso e de grupos de pessoas interessadas no tema de cada projeto. 3.3. Metodologia Adotada Apresentaremos, neste tópico, o conjunto de informações que, segundo a coordenação do curso e os registros disponíveis, melhor identificam a metodologia adotada. O curso encontra-se fortemente pautado em conceitos, princípios e propostas que a coordenação do curso considera que seja uma Abordagem Construtivista do processo de ensino-aprendizagem. Essa Abordagem é apresentada como sendo baseada essencialmente nas concepções de Paulo Freire e Vigotski. 96 Aparentemente, por essa razão, o método adotado é o denominado Método Dialético da Construção do Conhecimento, sobre o qual, em texto inserido na apostila do Módulo 1, são feitas as seguintes considerações: Uma metodologia na perspectiva dialética baseia-se numa concepção de homem e de conhecimento, onde se entende o homem como um ser ativo e de relações. Assim, compreende-se que o conhecimento não é ‘transferido’ ou ‘depositado’ pelo outro (conforme a concepção tradicional), nem é ‘inventado’ pelo sujeito (concepção espontaneísta), mas sim construído pelo sujeito na sua relação com os outros e com o mundo. Isto significa que o conteúdo que o professor apresenta precisa ser trabalhado, refletido, re-elaborado, pelo aluno, para se constituir em conhecimento dele. (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP, 2003, p. 31) A partir das propostas do Método Dialético, todas as atividades do curso, sejam em sala de aula ou durante o processo de elaboração e realização dos projetos, é valorizada a participação, interação, solução de problemas e a dialética entre teoria e prática no processo de ensino-aprendizagem, conforme indicado no Projeto do Sexto Curso realizado. (2003b) Dentro da proposta metodológica, são utilizadas em aulas estratégias como: jogos cooperativos, dramatizações, simulações, dinâmicas de grupo, estudos de caso, exercícios individuais e coletivos, debates, seminários, workshops, produção e apresentação de textos e projetos. Há uma tentativa de fazer com que o Curso tenha atividades vivenciais constantemente, de modo que, nos momentos em que não for possível contato direto com a realidade das organizações do Terceiro Setor e dos projetos socioeducacionais, as estratégias adotadas, em sala de aula, simulem situações reais que, hipoteticamente, favoreçam o aprender a conhecer. Segundo a coordenação, a metodologia adotada é eminentemente vivencial. É importante notar que toda a metodologia utilizada é apresentada como sendo um dos principais diferenciais do curso por sua Coordenadora (ver entrevista Anexo 2). No entanto, consideramos que se trata de metodologia de aulas já 97 apresentada em literatura pertinente ao tema12 e que não se constitui em inovação no campo educacional. Apesar de a coordenação não destacar com ênfase, parece-nos que o método de elaboração e desenvolvimento de projetos é que de fato apresenta-se como metodologia exemplar a ser adotada, não somente em programas de Formação de Educadores para o Terceiro Setor, mas em quaisquer cursos ou programas educacionais que pretendam capacitar profissionais ou atores sociais para atuação no Terceiro Setor. Em função dessa percepção, analisaremos com maior detalhamento, a metodologia de elaboração e desenvolvimento de projetos no tópico que segue. No tocante às teorias adotadas no curso, segundo a coordenação, parece haver forte contradição entre os princípios educacionais e a Abordagem de Terceiro Setor que o curso adota, conforme observaremos adiante. 3.4. A Questão da Elaboração e Desenvolvimento de Projetos A elaboração e desenvolvimento de Projetos, no curso em estudo, merecem atenção e destaque em nossa análise por diversos fatores: 1. devido ao fato de três, dos cinco Módulos, serem dedicados aos projetos; 2. a metodologia de criação e realização dos Projetos elaborados pelos alunos apresentar grande interesse para o Terceiro Setor de modo geral. Os documentos, registros e apostilas do Curso não possuem uma descrição clara e sistematizada acerca de como esses projetos são trabalhados, o que torna necessário o detalhamento, nesse trabalho, da metodologia de projetos adotada. Para compreendermos este curso, é preciso considerar que, conforme já indicado, praticamente, todo o referencial conceitual e metodológico relativo à Educação e ao Terceiro Setor são apresentados nos dois primeiros módulos. Esse 12 Sobre o Método Dialético da Construção do Conhecimento Cf.: Vasconcellos, Celso do Santos. Construção do Conhecimento em Sala de Aula. In: CENTRO DE TECNOLOGIA E GESTÃO DO TERCEIRO SETOR DO SENAC-SP. A Dimensão Técnico-Didática do Papel do Mediador. São Paulo, 2003c. 83p. Apostila do Módulo 1 do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor do SENAC-SP. p. 31. 98 referencial teórico deverá ser utilizado na elaboração e realização dos Projetos presentes nos demais Módulos do Curso, o qual poderá ser descrito da seguinte forma: 1. Desde o princípio, os alunos são informados que deverão observar na Ong, no setor social do local da empresa ou órgão público em que trabalham ou atuam como voluntários, aspectos que possam transformar-se em projeto a ser realizado como parte das atividades do Curso. Deverão estar vinculados ao campo educacional, podendo ser um Programa a ser oferecido à comunidade atendida pela Ong, como crianças, idosos etc, ou atividades voltadas para a formação e aprimoramento de grupos de pessoas da comunidade ou de profissionais que atuam nas próprias Ongs. 2. No Módulo 3, são estudados temas diversos ligados à elaboração e gestão de projetos socioeducacionais, tais como – elaboração de projetos de formação de pessoas; gestão de projetos socioeducacionais; diagnóstico participativo de necessidades comunitárias para elaboração de projetos; a implementação, execução e avaliação de programas e projetos de formação; elaboração de planos de situações de ensino-aprendizagem; simulações de algumas das situações planejadas; preparação de material didático. 3. Ao mesmo tempo em que o aluno estuda as questões acima mencionadas, é iniciado um processo de diagnóstico dos problemas ou dificuldades da Ong ou comunidade onde se pretende aplicar o projeto. Nesse momento, muitas vezes, o aluno tem uma idéia ou sugestão de projeto que deseja realizar. No entanto, somente a partir da identificação participativa com o públicoalvo do projeto (Ong ou comunidade local), das dificuldades no campo educacional sentidas por aqueles que participarão do projeto, é que o aluno poderá definir as características do projeto. Assim, é possível que a comunidade ou Ong, em um processo de debate democrático, modifique a sugestão inicial do aluno e proponha um outro projeto, diferente ao inicialmente pensado. É importante lembrar que a única exigência é que o projeto deva ser voltado para a área da Educação. 99 4. Após o diagnóstico participativo, o aluno passa a redigir o projeto. À medida que o projeto é elaborado, deve ser submetido ao seu público alvo13, onde poderá sugerir alterações. O projeto somente será finalizado no momento em que os futuros participantes (comunidade) aprovarem-no. 5. Assim que o projeto é aprovado pela comunidade, o aluno passa a redigir o plano do curso ou o projeto de formação de profissionais que irá orientar seu trabalho. Em seguida são elaboradas as situações de ensino-aprendizagem, incluindo material didático, processos de avaliação etc. O projeto e todo o plano de curso ou projeto de formação, conforme explicitado anteriormente, deverão necessariamente refletir os conceitos de Educação e Terceiro Setor estudados ao longo do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. 4. Análise do Curso A análise do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor* foi realizada, tendo como base a entrevista com a coordenação do curso (Anexo 2) que, também, ministra aulas, acompanha e orienta os projetos elaborados e implantados. Foi também realizada nos principais documentos e apostilas disponíveis sobre o Curso, conforme segue: a.) Projeto da Sexta Turma do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor – documento que apresenta a estrutura do curso e principais eixos temáticos, conceituais e metodológicos; b.) apostila do Módulo 1 A Dimensão Técnico-Didática do Papel do Mediador; 13 Por exemplo, se o aluno projeto do aluno do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor for uma capacitação para educadores de uma Ong, estes educadores deverão participar dos debates sobre o projeto e aprova-lo; se o Projeto elaborado pelo aluno for um curso voltado para adolescentes de uma comunidade, estes adolescentes, seus pais e profissionais da Ong envolvida no processo deverão debater o projeto e aprovar sua estrutura final. * Cf.: estrutura e cargas horárias do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor – Anexo 1. 100 c.) apostila do Módulo 2 Cidadania, Trabalho, Terceiro Setor e Educação Comunitária; d.) Caderno de Técnicas Didáticas Usadas em Formação; e.) Roteiros para Apoiar a Transferência da Aprendizagem É relevante ressaltar que, na entrevista com a coordenação, foram coletadas as informações gerais, conceitos e metodologia dos módulos 3, 4 e 5, os quais são dedicados à elaboração e desenvolvimento de projetos pelos alunos. Esses Módulos apresentam, como principal aspecto, a metodologia de elaboração e desenvolvimento dos projetos, adotada em parceria com as Ongs e comunidades que serão beneficiárias ou que participarão do projeto apresentado. Não há apostilas nesses Módulos. O curso foi analisado, a partir dos referenciais de Terceiro Setor e Educação apresentados nos dois primeiros Capítulos deste trabalho. O relato dos dados coletados e das análises realizadas foram subdivididas em três tópicos: 1. Abordagens de Terceiro Setor presentes no Curso; 2. Abordagens do Processo Ensino-Aprendizagem presentes no Curso; 3. Metodologia Adotada no Curso. A análise crítica dos dados encontra-se acompanhada, sempre que considerarmos conveniente, de sugestões e propostas que possam reverter na melhoria do Curso e, quiçá, sejam capazes de contribuir para a construção de referências para a formação de educadores para o Terceiro Setor e a criação e desenvolvimento de outros Programas análogos ao que estudamos. Vale notar, ainda, que as contribuições e propostas, que serão apresentadas, não serão necessariamente inseridas no curso por sua coordenação. O SENAC-SP permitiu o acesso total aos documentos e a realização de entrevistas necessárias ao desenvolvimento desta pesquisa, mas não ficou estabelecido qualquer compromisso, no sentido de alterar o curso a partir dos dados e informações deste estudo. 101 4.1. Abordagens de Terceiro Setor Presentes no Curso O Módulo 1, denominado Análise de Contexto: o Terceiro Setor e as ações educacionais, apresenta a base conceitual acerca de Terceiro Setor e que permeia todo o Curso, de algum modo, está presente nos projetos que são elaborados e realizados pelos alunos nos Módulos 3, 4 e 5. Por essa razão, as análises sobre a perspectiva de Terceiro Setor presente no Curso estarão, em grande parte, baseadas nos documentos relativos a esse primeiro Módulo e nas informações obtidas em entrevista com a coordenação do curso. Neste primeiro Módulo, há um conjunto de informações sobre o contexto sociocultural e econômico de modo global, alguns debates específicos sobre o Terceiro Setor. É encerrado com a proposta de uma discussão sobre as possibilidades de intervenção na realidade das comunidades, a partir de uma perspectiva específica da Educação Comunitária, muito vinculada ao pensamento de Paulo Freire, que neste trabalho, temos denominado Educação Comunitária enquanto movimento de libertação. Os debates especificamente sobre o Terceiro Setor estão divididos em cinco tópicos centrais: 1. O contexto da globalização e a Reestruturação do Estado – neste item foram feitas considerações gerais sobre o processo de globalização em desenvolvimento no cenário mundial; 2. Relação Estado, sociedade civil e o exercício da cidadania e Ongs e o Terceiro Setor – de fato, este segundo tópico foi subdividido em dois itens. Aqui surge um debate sobre a divisão hipotética da sociedade em três diferentes setores, bem como, indicações acerca do papel atual das Ongs, um breve histórico do Terceiro Setor e introdução ao debate atual a partir da Abordagem Norte-Americana; 3. Educação e trabalho no contexto de reestruturação produtiva – são abordados aspectos como emprego, trabalho e empregabilidade. Os debates versam sobre as relações entre Educação e Trabalho; 102 4. Investimento social privado – são apresentadas as tendências atuais de investimento do setor privado em projetos sociais e socioeducacionais. De forma complementar, é abordada a questão da captação de recursos para o Terceiro Setor junto a empresas, órgãos governamentais, entre outros; 5. A intervenção na realidade social – a partir de referências da Educação Comunitária, enquanto movimento de libertação, são discutidos temas ligados à importância do desenvolvimento de projetos educacionais nas comunidades empobrecidas. Sobre os elementos que determinaram a escolha desses cinco tópicos acima, a coordenação afirma que priorizada a inserção de temas atuais, presentes nos debates e na literatura contemporâneas, na mídia, entre outros. Sobre a opção por uma ou mais Abordagens específicas de Terceiro Setor, a coordenação acredita que não houve esse tipo de preocupação por parte daqueles que elaboraram e ministram as aulas do Módulo. A análise dos documentos e apostilas do curso apontam que, dentre as Abordagens de Terceiro Setor apresentadas no primeiro Capítulo deste trabalho, aquela que permeia com maior ênfase o Curso é a denominada Abordagem NorteAmericana. Na apostila do Módulo 1, o Curso assume a visão de Léster Salamon, principal pensador da Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor, acerca da divisão da sociedade em três setores distintos e complementares: Estado, Setor das empresas privadas e sociedade civil. A definição de Terceiro Setor adotada pela Abordagem norte-americana é apresentada de modo explícito na apostila do curso14, cabendo pequena citação a Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo. A Abordagem Crítica ao Terceiro Setor não é apresentada, bem como, aquela voltada para o Desenvolvimento Social Local. 14 Sobre a definição de Terceiro Setor adotada no Curso Cf.: CENTRO TECNOLOGIA E GESTÃO DO TERCEIRO SETOR DO SENAC-SP . Cidadania, Trabalho, Terceiro Setor e Educação Comunitária. São Paulo, 2003d. 44p. Apostila do Módulo 1 do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor do SENAC-SP. p. 20 a 22. 103 Constatada a vinculação do curso a uma única Abordagem de Terceiro Setor, consideraremos, no tópico seguinte deste Capítulo, as implicações que a apresentação de uma única Abordagem apresenta para a formação dos educadores que participam do curso e, durante a sua realização, as prováveis implicações que acarretam para a compreensão do que seja a Educação no Terceiro Setor e, também, na elaboração dos projetos realizados. 4.1.1. Implicações da Apresentação de uma única Abordagem de Terceiro Setor no Curso Conforme apresentamos no Capítulo 1 desta dissertação, consideramos que há quatro Abordagens vinculadas ao Terceiro Setor na atualidade: Norte-Americana; Crítica ao Terceiro Setor; Economia Solidária e Cooperativismo e Desenvolvimento Social Local-DSL. Vale mencionar novamente que não se trata de Abordagens somente de Terceiro Setor, mas de perspectivas relevantes para a reflexão sobre as formas de expressão e práticas atuais no Setor. A apresentação de forma mais sistematizada de uma única Abordagem apresenta diversas implicações no âmbito da formação dos educadores, as quais devem ser mencionadas. Primeiramente, consideramos que um programa ou curso que pretende capacitar profissionais para uma determinada área deve oferecer aos alunos a oportunidade de conhecer e refletir sobre as diferentes perspectivas que estão presentes ou influenciam seu campo de atuação. Dessa forma, parece adequado que um programa desse porte, necessariamente, ofereça aos participantes a oportunidade de análise e reflexão crítica acerca das diferentes Abordagens existentes. O curso parece subestimar a relevância, para a capacitação de seus alunos, do debate acerca das diferentes Abordagens de Terceiro Setor. Há dois fatores que, muito provavelmente, parecem corroborar a afirmação: 1) a carga horária destinada ao debate sobre Terceiro Setor é aproximadamente 40% menor do que aquela destinada à Educação (Módulo 2), outro grande tema do curso; 2) a coordenação do curso, em entrevista, apresentou com grande ênfase, a metodologia de trabalho em sala de aula 104 adotada no Módulo 1 e as principais estratégias de ensino-aprendizagem utilizadas, mas não indicou com clareza as perspectivas de Terceiro Setor que norteiam o Curso. Isso ocorre, provavelmente, por haver maior destaque aos aspectos ligados à Educação e à elaboração de projetos pelos alunos. A coordenação também informou que os alunos comumente apresentam dificuldades de compreender a razão de inclusão de um módulo exclusivamente destinado ao tema Terceiro Setor, uma vez que estão em busca de uma formação para a área educacional. Entretanto, o fato de, em princípio, eles não conferirem relevância ao tema Abordagens do Terceiro Setor não parece justificar que o curso tenha uma estrutura que minimize sua relevância. Consideramos, ainda, que a ausência de um adequado incentivo ao debate sobre as Abordagens de Terceiro Setor torna insuficiente a formação dos alunos. Abaixo indicamos outros aspectos relevantes sobre as implicações da apresentação de uma única Abordagem de Terceiro Setor: 1. Parece relevante que o profissional, que está se capacitando para atuar no Terceiro Setor, seja capaz de identificar, por meio da observação da prática cotidiana das Ongs e demais Organizações que compõem o Setor, a Abordagem que orienta essas organizações. Isso permite ao profissional optar com maior clareza pelo local em que pretende atuar e, ainda elaborar projetos e apresentar propostas compatíveis com a visão de Terceiro Setor da organização em que está inserido, como funcionário ou voluntário; 2. a legislação atual brasileira voltada para o Terceiro Setor, o denominado marco legal do Terceiro Setor, está fortemente vinculado à Abordagem norte-americana. Ao desconhecer outras Abordagens, o aluno deixa de analisar a pertinência da atual legislação brasileira sobre a área em que atua ou pretende atuar; 3. os projetos elaborados e realizados tendem a apresentar características muito próximas da Abordagem norte-americana, a qual incentiva as Ongs e Organizações da Sociedade Civil a prestarem serviços específicos às populações que atendem. Desse modo, propostas 105 oportunas vinculadas, por exemplo, à Abordagem de Desenvolvimento Social Local-DSL ficam inibidas; 4. sobre os projetos, obtivemos informações que há trabalhos voltados para o estimulo ao desenvolvimento de atividades de geração de renda, em sistema cooperativo, por grupos atendidos por Ongs. Esse tipo de iniciativa, realizada sem o adequado referencial conceitual vinculado à Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo pode redundar, conforme apontado no Capítulo 1 desta dissertação, na criação de associações de trabalhadores empobrecidos que acabam por levar os seus participantes a oferecer mão-de-obra barata a empresas que ficam liberadas das obrigações patronais para com funcionários, substituídos pela cooperativa, hipoteticamente, criada por incentivo de alunos do curso para favorecer a geração de renda para a população alvo de seus projetos; 5. a ênfase na Abordagem norte-americana acaba, muito provavelmente, por inibir a formação, no âmbito do curso, de atores sociais capazes de mobilizar e articular grupos e comunidades, pois ,na Abordagem adotada no Curso, há incentivo à profissionalização do Terceiro Setor no tocante, principalmente, aos processos de gestão das Ongs. Porém, pouco destaque é dado à formação efetiva de pessoas que protagonizem o desenvolvimento comunitário; 6. os alunos não são incentivados a pensar que as organizações, nas quais atuam, podem tornar-se elementos articuladores do desenvolvimento social da localidade; 7. conforme apresentado no Capítulo 2, é possível que sejam estabelecidas relações entre as diferentes Perspectivas de Terceiro Setor e as Abordagens diversas do processo de ensino-aprendizagem. Novamente, ao centrar suas atenções numa única visão de Terceiro Setor, o curso acaba por não incentivar o aluno a estabelecer as relações possíveis entre o Setor e a Educação praticada nas suas organizações. 106 Acreditamos que um programa de formação de educadores para o Terceiro Setor deva apresentar com destaque as Abordagens pertinentes ao Setor. No caso específico do curso Formação de Formadores, sugerimos que a carga horária do Módulo 1 seja, de preferência, igual à carga horária do Módulo 2, voltado para Educação, de modo que seja conferida ênfase análoga aos temas principais do programa – duração e Terceiro Setor. Propomos, também, que se incorporem ao curso situações de aprendizagem, textos e debates que permitam ao aluno construir uma visão ampla do Terceiro Setor, que contemple suas diversas Abordagens teóricas e práticas. O desenvolvimento de temas como o contexto da globalização e a Reestruturação do Estado, relação Estado, sociedade civil e o exercício da cidadania parece correto. Não se pode negar que é relevante para a formação de educadores de Ongs a abordagem de assuntos que os auxiliem a compreender, de forma ampla, os contextos cultural, político e econômico que influenciam o Terceiro Setor, de modo que o profissional torne-se capaz de construir uma práxis relativa ao cenário social que envolve o Setor. Os demais temas trabalhados no Módulo 1 parecem ter sido inseridos nesse momento do curso, em função de estarem muito presentes na literatura atual sobre Terceiro Setor. No entanto, pouco contribuem para a construção, pelos alunos, de uma percepção crítica e profunda acerca das teorias e práticas relacionadas ao Terceiro Setor. Por fim, as características da Abordagem Norte-Americana de Terceiro Setor predominante no curso apresenta orientações e valores, anteriormente mencionados, que se opõem frontalmente às propostas de Paulo Freire e Vigotski adotatas no curso, segundo a coordenação, a partir do Módulo 2. 4.2. Abordagens Educacionais presentes no Curso O curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor apresenta diversas Abordagens Educacionais, termo que adotamos para designar as duas grandes áreas 107 educacionais passíveis de análise no Curso, a saber: concepções diversas de Educação Comunitária Popular (ECP) e Abordagens do processo de ensinoaprendizagem. O curso está centrado, segundo sua Coordenação, na Abordagem Sociocultural do processo de ensino-aprendizagem, com destaque para as idéias do educador Paulo Freire. O pensamento do autor russo Vigotski, também, constitui-se em forte referencial, sendo enfatizadas as possíveis aproximações entre as idéias de Vigotski e de Paulo Freire. Na sexta turma do curso, desenvolvida em 2003, pela primeira vez, incluiu-se com destaque o debate voltado para as pedagogias centradas no aprender a aprender. São as três vertentes conceituais acima que compõem o eixo norteador, no campo Educacional, do Curso. É preciso destacar que está subjacente, em todo discurso educacional presente no curso, perspectivas ligadas aos diferentes tipos de Educação Comunitária. Deve-se notar que acima mencionamos os eixos que norteiam o curso. Entretanto, há um amplo conjunto de Abordagens do processo de ensinoaprendizagem e de teorias educacionais que estão presentes, ainda que de forma apenas ilustrativa, isto é, apresentadas de forma breve, sem a pretensão de que haja aprofundamento maior. Na apostila do Módulo 2, encontramos a descrição sucinta das seguintes Abordagens de ensino-aprendizagem: tradicional, comportamentalista, humanista e sociocultural. Essas descrições são bastante próximas daquela elaborada por Mizukami (2003) que apresentamos nesta dissertação (cf.: Capítulo 2). A apostila do curso apresenta ainda as perspectivas educacionais: construtivista e por competências. 4.2.1. A Educação Comunitária Popular (ECP) e o Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor O curso possui forte vinculação com as concepções da Educação Comunitária Popular que, segundo sua coordenadora, são a base histórica da Educação no Terceiro Setor. Isso parece corroborar a hipótese, que levantamos no 108 Capítulo 2 deste trabalho, segundo a qual a Educação no Terceiro Setor origina-se historicamente na Educação Comunitária Popular - ECP. Em entrevista, a coordenação explicitou a influência das idéias de Paulo Freire no curso. De fato, ao analisar os documentos e apostilas disponíveis, pudemos observar que permeia todo o curso, o que Militão denominou Educação Comunitária enquanto Movimento de Libertação. A relevância nos dias atuais dessa modalidade de Educação Comunitária, chamada no Curso de Educação Popular, é explicitada em apostila do Módulo 1 com a seguinte indicação: A questão da Educação Popular e o significado das iniciativas e alternativas propostas pelos próprios segmentos oprimidos interessa nesse momento a todos os agentes sociais envolvidos na tarefa de transformação da realidade social. (Centro de Gestão e Tecnologia do Terceiro Setor do SENAC-SP, 2003d, p. 360) O Módulo 1, termina exatamente com um texto sobre as origens históricas e expressão atual da Educação Comunitária enquanto Movimento de Libertação. Nesse texto é apontada a vinculação do curso a essa modalidade de ECP. Ao longo dos Módulos estudados, as concepções dessa modalidade de Educação Comunitária estão presentes, também, na metodologia de aula, que dá prioridade à construção do conhecimento de forma dialética. Segundo Mizukami (2003), o educador Paulo Freire, principal autor da Educação Comunitária enquanto Movimento de Libertação, apresentava as seguintes orientações: que o método seja ativo e crítico, que incentive o diálogo de forma horizontal entre os educandos e o professor; que os educandos participem ativamente da exploração das temáticas que serão abordadas no processo de ensino-aprendizagem, de modo que seja construída uma consciência crítica e profunda da sua própria realidade. A orientação metodológica do curso aproxima-se da modalidade específica de ECP acima e do ideário de Paulo Freire, na medida em sugere que: “o educando seja sujeito de seu processo de apropriação do saber; a aproximação e inserção na realidade, com a oportunidade de vivências de situações concretas, com vistas a sua compreensão, análise crítica e 109 levantamento de possíveis soluções para os problemas identificados”. (Centro de Gestão e Tecnologia do Terceiro Setor do SENAC-SP, 2003d, p. 04) A introdução no curso de Abordagens ligadas às pedagogias centradas no aprender a aprender tornaram bastante forte a presença de uma outra modalidade de ECP, a chamada Educação Comunitária como Auto-Ajuda (MILITÃO, J., 1996). No entanto, é preciso destacar que isso não se fez de modo explícito como ocorreu com a primeira modalidade de ECP, citada anteriormente. São apresentados textos e informações que procuram demonstrar a relevância e a pertinência de inserir práticas das pedagogias centradas no aprender a aprender, no cotidiano das atividades que os alunos irão desenvolver em suas Ongs e Organizações da Sociedade Civil. De fato, não há uma discussão mais profunda que relacione a Educação Comunitária como Auto-Ajuda e as pedagogias por competências ou centradas no aprender a aprender. Situação análoga é observada com a chamada Educação Comunitária para a Contra-Insurreição (MILITÃO, J., 1996). Conforme indicamos no Capítulo 2 do presente trabalho, essa modalidade de ECP está bastante vinculada a práticas próprias da Abordagem Tradicional do processo ensino-aprendizagem, é fortemente criticada no curso e utilizada como parâmetro daquilo que não deve ser realizado na práxis educativa. No entanto, não há menção direta no curso a esse tipo de Educação Comunitária conforme é identificada por Militão. Neste trabalho, consideramos que foi a partir da ECP e suas diferentes modalidades que se originou a Educação no Terceiro Setor, posição compartilhada pela coordenação do curso estudado. Em função disso, parece que seria pertinente analisar, no âmbito do curso, de forma detida, os escritos de Militão sobre a Educação Comunitária, seus tipos, características dos profissionais que nela atuam, entre outros. Essa referência, acreditamos, permitiria ao aluno perceber que a Educação no Terceiro Setor possui raízes históricas e matrizes conceituais relevantes. 110 4.3. As Abordagens do Processo Ensino-Aprendizagem no Curso O Curso apresenta, de forma central, as seguintes Abordagens do processo de ensino qendizagem: a.) tradicional; b.) sociocultural; c.) pedagogias centradas no aprender a aprender. A Abordagem Tradicional do Processo Ensino-Aprendizagem é indicada como um velho paradigma que deverá ser superado e substituído pelo, que o curso denomina, novo paradigma da aprendizagem. A descrição da Abordagem Tradicional presente nas apostilas é análoga àquela que adotamos neste trabalho e que foi elaborada por Mizukami (2003). Em síntese, o curso destaca que, nessa Abordagem (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP, 2003c), o professor é o centro do processo educacional; o educando é visto como ser passivo, receptor de informações e conhecimentos; há grande preocupação com a transmissão de conteúdos; entre outros. Os novos paradigmas da Aprendizagem mencionados são: Abordagem sociocultural do processo ensino-aprendizagem; as pedagogias centradas no aprender a aprender; as teorias de Vigotski. Conforme citamos, anteriormente, a Abordagem sociocultural e o pensamento de Paulo Freire permeiam grande parte do curso, mas no Módulo 2, dedicado à Educação, essa Abordagem não é apresentada com grande destaque. Nesse Módulo a coordenação optou por enfatizar: a.) A teoria de Vigotski – são apresentados os principais aspectos e conceitos da teoria do autor, tais como Zona de Desenvolvimento Proximal, Mediação, bases biológicas do funcionamento psicológico, entre outros; b.) pedagogias por competências e centradas no aprender a aprender – com ênfase nos escritos de Philippe Perrenoud e Jacques Delors. É curioso notar que há forte tentativa de aproximar o pensamento de Vigotski das teorias voltadas para as competências e vinculadas ao aprender a aprender. Muito 111 provavelmente tal fato ocorre em função do que Newton Duarte (2001) denominou de apropriação das teorias vigotskianas pelas pedagogias centradas no lema aprender a aprender, ou seja, uma aproximação e atualização do pensamento de Vigotski, a partir da perspectiva de autores vinculados às pedagogias do aprender a aprender. Ainda, ao longo de todo o curso, Vigotski é apontado como um autor vinculado às propostas construtivistas de Educação. Não podemos negar que está crescendo o número de profissionais que relacionam a teoria de Vigotski ao Construtivismo. No entanto, parece que seria relevante para a formação dos alunos, que fosse apresentada, também, a visão de autores que negam a vinculação entre o autor russo e o Construtivismo. De fato, no curso, Vigotski é apresentado como um pensador construtivista e sua teoria é aproximada daquelas baseadas no aprender a aprender. No entanto, não se pode afirmar que seja uma posição consensual nos debates educacionais de hoje. Assim, cumpriria relativizar, no processo de formação dos participantes, as aproximações entre Vigotski, construtivismo e as pedagogias por competências e as centradas no aprender a aprender. No curso, as pedagogias centradas no aprender a aprender ficam reduzidas aos escritos de Jacques Delors e Philippe Perrenoud. São descritas as concepções e definições básicas relativas aos quatro pilares da Educação (saber conhecer, saber fazer, saber conviver e saber ser) e aspectos centrais da teoria de Perrenoud sobre Competências e Pedagogia Diferenciada. A inserção, nesta modalidade de curso, da Abordagem sociocultural parece ser justificada quando são consideradas suas vinculações com a Educação Comunitária Popular (base histórica da Educação no Terceiro Setor). O mesmo pode ser afirmado das concepções de Vigotski, principalmente, se observarmos que o Curso adota preferencialmente um tipo particular de Educação Comunitária, a Educação Comunitária enquanto movimento para a Libertação. Os pressupostos marxistas de Vigotski aproximam-se do pensamento de Paulo Freire, no qual se fundamenta a modalidade particular de Educação Comunitária que o Curso adota. As Pedagogias centradas no aprender a aprender encontram-se em pleno processo de difusão e tem, segundo a coordenadora do curso, ampla aceitação entre 112 os profissionais do Terceiro Setor. De qualquer modo, parece que poderiam ser apresentadas, não como um paradigma a ser seguido, conforme observado nas apostilas do curso analisadas, mas como uma das possíveis Abordagens que poderão ser adotadas pelos profissionais que participam do Curso. 4.4. Metodologia do Curso A metodologia, já apresentada neste Capítulo, propõe fundamentalmente que se privilegie: o educando como sujeito de seu processo de apropriação do saber; a aproximação e inserção na realidade, com a oportunidade de vivências de situações concretas, com vistas a sua compreensão, análise crítica e levantamento de possíveis soluções para problemas identificados; a interação com os sujeitos envolvidos na realidade em estudo, na perspectiva de um processo conjunto de ação-reflexão-ação [...] (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor, 2003d: p. 04) A metodologia deve, segundo a coordenação do curso, oferecer ao indivíduo a possibilidade de reflexão acerca do seu papel “como cidadão solidário e partícipe do processo de mudança social” (Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor, 2003d, p. 04) Essa afirmação parece estar em sintonia com a nossa proposta, apresentada no final do Capítulo 2 desta dissertação, que enfatiza a utilização na Educação no Terceiro Setor, de metodologias ativas, que permitam aos participantes vivência dos temas estudados e o incentivo à aprendizagem e sistematização coletiva dos saberes, bem como o desenvolvimento da convivência solidária entre os educandos. Merece destaque a metodologia de elaboração e desenvolvimento dos projetos. Segundo a coordenação do curso, os alunos, ao elaborarem seus projetos, dirigem-se às comunidades e, em cada Ong ou localidade, iniciam um processo de mobilização da população ou de grupos de pessoas para o debate democrático de 113 propostas, no campo educacional, que revertam na melhoria da qualidade de vida da comunidade local. No tópico deste Capítulo, denominado A Questão da Elaboração e Desenvolvimento de Projetos no Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, a metodologia de elaboração de projetos foi descrita, em detalhe, de modo que, neste momento, torna-se importante destacar que poderá ser, não só uma forma de os alunos elaborarem seus projetos em parceria com a comunidade, mas também uma metodologia exemplar para o Terceiro Setor na formação de atores sociais, entendidos como aqueles indivíduos que mobilizam, articulam e encontram, em parceria com a comunidade, soluções para os problemas vivenciados na localidade. Ainda, a partir do debate com a comunidade, os alunos podem elaborar programas educacionais, a partir da demanda e necessidades das comunidades e não apenas baseados na oferta que as Ongs estão dispostas a apresentar à população atendida. 5. Análise Final Sintética do Curso Ao término deste último Capítulo, integralmente dedicado ao estudo do curso, parece pertinente apresentar uma síntese das análises realizadas. O curso encontra-se fortemente vinculado aos pressupostos da Educação Comunitária Popular - ECP. A análise das apostilas permite afirmar que os diversos tipos de Educação Comunitária, estudadas por Militão (1996), estão presentes no curso, ainda que apenas a chamada Educação enquanto movimento de Libertação seja apresentada de forma explícita. Nesse sentido, o curso parece corroborar com a nossa hipótese de que a ECP seria a raiz histórica do que denominamos Educação no Terceiro Setor. O curso adota uma única Abordagem de Terceiro Setor, a Norte-Americana. A ausência de um debate mais profundo sobre as demais Abordagens, descritas no Capítulo inicial desta dissertação, muito provavelmente, representa um prejuízo importante para a formação dos educadores. Por essa razão, sugerimos a incorporação de situações de aprendizagem, textos, atividades extra-sala, entre outros, que permitam aos alunos conhecer e refletir criticamente sobre as Abordagens hoje 114 presentes nos debates sobre o Terceiro Setor e suas expressões efetivas na realidade. Cumpre ainda ressaltar que a Abordagem de Terceiro Setor adotada se opõe às teorias e princípios educacionais que são indicados pela coordenação como aqueles priorizados no curso. Há numerosas Abordagens do processo de ensino-aprendizagem que são alvo de estudo pelos alunos ao longo do curso. Devemos destacar as seguintes Abordagens: a.) Tradicional – apresentada como paradigma antigo que deve ser superado, b.) Sociocultural – permeia todo o curso e é apresentada como a mais adequada para ser adotada no Terceiro Setor; c.) Pedagogias Centradas no aprender a aprender – é apresentada de forma positiva e como bastante próxima das práticas já desenvolvidas no Terceiro Setor. A metodologia de elaboração e realização de projetos adotada no curso apresenta-se como principal contribuição para a construção de referências para a Formação de Educadores para o Terceiro Setor, pois sugere o estabelecimento de um diálogo democrático com a comunidade, Ongs e demais organizações da sociedade civil. O processo que o aluno vivencia, provavelmente, contribui para ampliar sua visão sobre o papel do Educador no Terceiro Setor, favorecendo a formação não somente de educadores, mas de atores sociais, capazes de atuar na articulação e mobilização de comunidades locais para a identificação e resolução de seus problemas, em particular aqueles vinculados ao campo da Educação. No tocante às aulas propriamente ditas, o curso possui uma metodologia ativa, que permite aos participantes a vivência dos temas estudados e incentiva fortemente a aprendizagem individual e a sistematização coletiva dos saberes, bem como o desenvolvimento da convivência solidária entre os educandos. Tais fatores, estão em sintonia com as propostas de metodologia de aulas no Terceiro Setor, apresentadas no Capítulo 2 deste trabalho. A Educação no Terceiro Setor possui, conforme indicamos anteriormente15, quatro campos preferenciais de atuação, a saber: Educação para a cidadania; Educação para o mundo do trabalho; Educação para a formação e desenvolvimento de atores sociais; Educação para o uso e construção de saberes apoiadas pelas novas 15 Cf.: Capítulo 2 desta Dissertação, o tópico 5 – Concepção de Educação no Terceiro Setor. 115 Tecnologias do Conhecimento e Informação, embora apresente, com maior clareza, aos seus alunos, somente a chamada Educação para o mundo do trabalho e, de forma indireta, a Educação para a cidadania. Acreditamos que esses campos da Educação no Terceiro Setor deveriam ser explicitados de modo detalhado, criando oportunidades para que o aluno possa refletir sobre cada um deles e, quiçá, visualizar outros campos para a Educação no Setor o qual, cumpre novamente citar, encontra-se ainda em configuração. O uso das Tecnologias da Informação e Conhecimento está praticamente ausente. A revolução que as TCI estão gerando nas mais diversas áreas do saber e da própria sociabilidade humana demandam que o seu uso pelos educadores, enquanto ferramenta de organização e difusão dos saberes junto às populações e organizações com as quais atuam. As TCI fizeram surgir novos contextos de aprendizagem e ampliaram as possibilidades de formação de redes de trocas de conhecimentos. Essas e outras questões, apresentadas no Capítulo 2 deste trabalho, parecem justificar a necessidade de inserção no Curso de questões vinculadas ao uso e debate sobre as TCI. 116 CONSIDERAÇÕES FINAIS 117 Considerações Finais A Formação de Educadores para o Terceiro Setor Nestas Considerações Finais, pretendemos resgatar algumas questões levantadas ao longo deste estudo, de forma a delinear o que consideramos que deve constituir-se nos fundamentos da Formação de Educadores para o Terceiro Setor. Cumpre relembrar o problema de pesquisa que originou este trabalho: quais as matrizes conceituais e metodológicas que devem nortear um curso de formação de educadores para o Terceiro Setor? É possível indicar que no curso estudado, Formação de Formadores para o Terceiro Setor, as matrizes conceituais e metodológicas que se constituem em seus eixos norteadores são: • Uma visão de Terceiro Setor essencialmente vinculada à Abordagem norte-americana, segundo a qual o conjunto de indivíduos e organizações da sociedade civil devem ter como aspecto motivador de suas ações o bem estar comum. O foco central é o desenvolvimento de Organizações que – a) deva ser capazes de se auto-sustentar; b) ofereçam serviços aos mais diferentes segmentos sociais de modo eficiente e eficaz; c) sejam capazes de cooperar com outras Ongs e os demais setores sociais (Estado e setor privado); • as abordagens educacionais presentes no curso estão fortemente relacionadas a um tipo específico de Educação Comunitária descrito por Jair Militão (1996), a Educação Comunitária enquanto movimento de libertação. Como conseqüência disso, o curso é altamente influenciado pelas teorias do educador Paulo Freire e, de forma complementar, pelas concepções de Vigotski. Por influência do SENAC-SP foram inseridas abordagens ligadas à Educação Comunitária como Auto-ajuda, tais como as pedagogias por competências e centradas aprender a aprender; • a metodologia adotada em sala de aula está baseada no Método Dialético da construção do conhecimento. Em síntese, pode-se afirmar 118 que se trata de método ativo, que incentiva a participação dos alunos, a vivência, o debate e a sistematização coletiva das aprendizagens; • os alunos do curso elaboram projetos que são colocados em prática. A metodologia de elaboração, desenvolvimento e realização de projetos pelos alunos, junto a Ongs e às comunidades empobrecidas, constitui-se em diferencial relevante. Trata-se de metodologia que permite a elaboração de programas educacionais, a partir das necessidades das comunidades e indivíduos que participarão das atividades. O debate amplo e democrático com os atores sociais envolvidos e futuros participantes é aspecto que poderá ser seguido por outras iniciativas semelhantes, quando consideramos as características que o Terceiro Setor deve, idealisticamente, apresentar. Sobre a metodologia de aulas e de projetos é importante considerar algumas observações pertinentes. Durante o processo de estudo do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor do SENAC-SP, levantamos informações de outro curso, denominado FORMATOS - Formação de Atores Sociais (Cf.: descrição do Curso no Anexo 3) - realizado pela mesma organização, SENAC-SP. Procuramos observar, principalmente, se um curso recentemente elaborado e realizado teria avançado nos aspectos metodológicos que contribuem para a formação de profissionais e atores sociais inseridos no Terceiro Setor. Foi possível notar, em entrevista realizada com docentes do FORMATOS (Anexo 4), que este novo curso apresenta metodologia de trabalho docente em sala de aula semelhante àquela utilizada no curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. Também no curso FORMATOS havia a elaboração e desenvolvimento de projetos por alunos. No entanto, a metodologia de projetos adotada era bastante diversa daquela utilizada no curso estudado neste trabalho. No FORMATOS, não há incentivos ao debate democrático dos Projetos dos alunos com Ongs e comunidades que serão atendidas. É desconsiderada a demanda das comunidades e das Ongs. Nesse sentido, a metodologia de projetos do curso Formação de Formadores acabou por confirmar seu caráter exemplar. O fato de não ter sido adotada, em um curso mais recente oferecido 119 pelo mesmo SENAC-SP, indica que as agências formadoras de profissionais para o Terceiro Setor necessitam identificar de fato as ações, teorias e metodologias que melhor se adaptem às propostas de participação ativa, democrática e intensiva das comunidades empobrecidas atendidas pelas organizações do Terceiro Setor. Não se nega que a realização de projetos, utilizando a metodologia adotada no curso Formação de Formadores, apresenta-se como algo complexo e de difícil operacionalização. No entanto, deveria configurar-se como desafio aos alunos, docentes e coordenadores de programas de capacitação de profissionais para o Terceiro Setor e não como aspecto negativo a ser desconsiderado. A partir do estudo do Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, pudemos identificar os aspectos conceituais e metodológicos que devem nortear a Formação de Educadores para o Terceiro Setor de modo global. Apresentaremos a seguir as principais teorias e metodologias que, segundo consideramos, devem estar presentes nos processos de formação de educadores para o Terceiro Setor: a) A oportunidade de conhecer e refletir criticamente sobre as diferentes Abordagens relacionadas ao Terceiro Setor existentes – Abordagem Norte-Americana, Abordagem Crítica ao Terceiro Setor, Abordagem Economia Solidária e Cooperativismo, Abordagem Desenvolvimento Social Local; b) indicações sobre as origens históricas da Educação no Terceiro Setor, vinculadas à Educação Comunitária Popular, bem como, suas diferentes modalidades estudadas e sistematizadas por Militão (1996); c) no que diz respeito às Abordagens do processo de ensinoaprendizagem que devem ser trabalhadas em um programa de formação de educadores para o Terceiro Setor, é importante que o aluno possa conhecer em particular as três perspectivas que, historicamente, estão associadas aos três tipos de Educação Comunitária Popular, conforme indicado no Capítulo 2 deste trabalho: Abordagem Tradicional relacionada à Educação 120 Comunitária para a contra-insurreição; Abordagem Sociocultural vinculada à Educação Comunitária enquanto movimento de libertação e Abordagem relacionada as Pedagogias centradas no aprender a aprender vinculadas à Educação Comunitária como auto-ajuda. Desse modo, o profissional poderá identificar as práticas presentes hoje no campo educacional no Terceiro Setor e posicionar-se criticamente; d) a possibilidade de vivenciar em sala de aula metodologias de ensino-aprendizagem participativas, que permitam ao aluno construir e sistematizar suas aprendizagens por meio de um processo que articule a gestão individual e coletiva do processo de aprendizagem; e) elaborar, desenvolver e realizar projetos junto a Ongs e comunidades empobrecidas, a partir da metodologia observada no Curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, em que a comunidade é convidada a discutir o projeto em todas as suas fases, podendo alterá-lo de acordo com suas reais necessidades; f) necessariamente deverão ser abordados os quatro campos que compõem a Educação no Terceiro Setor - Educação para a cidadania; Educação para o mundo do trabalho; Educação para a formação e desenvolvimento de atores sociais; Educação para o uso e construção de saberes apoiados por novas Tecnologias do Conhecimento e Informação – TCI; g) as Tecnologias do Conhecimento e Informação devem fazer parte da formação dos Educadores, enquanto ferramentas importantes para a produção e difusão de conhecimentos, bem como para uso no trabalho com a população a ser atendida nas Ongs e comunidades. Reafirmamos o que havia sido exposto ao longo desta dissertação: a Educação no Terceiro Setor e a formação de educadores que atuam na área deve 121 voltar-se, de forma central, para as demandas e para o atendimento das camadas empobrecidas da população e para a organização de cidadãos com vistas à gestão democrática participativa dos recursos comunitários. Por fim, acreditamos que um Programa voltado para Educadores que atuam no Terceiro Setor deve ter como objetivo central a Formação de Profissionais comprometidos com: a emancipação humana; a melhoria da qualidade de vida de indivíduos e da coletividade; a mobilização e articulação das comunidades para a busca ativa de soluções de seus problemas; a ampliação das possibilidades de indivíduos e comunidades participarem de forma democrática ativa nos processos decisórios e de gestão das localidades; a superação das condições de exploração das parcelas empobrecidas da população. 122 BIBLIOGRAFIA 123 ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. 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Realizada em 2004 por Deivis Perez Bispo dos Santos. Docentes do curso FORMATOS – Formação de Atores Sociais do SENAC-SP. Entrevista Semi-Estruturada. Realizada em 2004 por Deivis Perez Bispo dos Santos. 131 ANEXOS 132 ANEXOS ANEXO 1 Estrutura do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor 134 ANEXO 2 Transcrição de entrevista com coordenação do curso Formação de 137 Formadores para o Terceiro Setor ANEXO 3 Apresentação do curso FORMATOS – Formação de Atores Sociais 153 ANEXO 4 Transcrição de entrevista com docentes do curso FORMATOS – 157 Formação de Atores Sociais 133 ANEXO 1 ESTRUTURA DO CURSO - TURMA 2003 Módulo TEMA Introdutório Introdução: Apresentação e contextualização do curso de Formação de Sessões* 2 Carga horária 14h º Formadores para o 3 Setor Período 24 e 31 de março Discussão e aprovação da proposta do Curso. Organização e preparação dos grupos de trabalho Elaboração do contrato coletivo de trabalho Distribuição e análise de instrumentais de avaliação (auto e heteroavaliação) I ANÁLISE DE CONTEXTO: O 3º SETOR E AS AÇÕES EDUCACIONAIS 7 49h 7 de abril a 2 de junho II A DIMENSÃO TÉCNICO-DIDÁTICA DO PAPEL DO FORMADOR 10 70h 9 de junho a 11 de agosto III A ELABORAÇÃO E GESTÃO DE PROJETOS DE FORMAÇÃO 10 70h 18 de agosto a 20 de outubro SIMULAÇÕES - simultaneamente em 2 salas 3 21h 27 de outubro a 10 de novembro IV APLICAÇÃO: (trabalho de campo) implantação e execução dos projetos elaborados, com monitoramento simultâneo para grupos de trabalho, em 3 21h 11 de novembro a 5 de dezembro sala de aula, às 2as.-feiras. * Sessões – equivale ao número de dias de aula de cada Módulo. 134 V AVALIAÇÃO dos projetos executados e em execução e do curso Formação 2 14h 8 e 9 de dezembro 37 259 horas 24 de março a 9 de de Formadores para o Terceiro Setor(Seminário) TOTAL dezembro de 2003. 135 ANEXO 2 CURSO FORMAÇÃO DE FORMADORES PARA O TERCEIRO SETOR TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA Entrevista realizada com a coordenação do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor. Foram excluídas da entrevista informações que possam identificar o profissional que aceitou ser entrevistado. ENTREVISTA Entrevistador – Como surgiu a proposta de criação deste curso (Formação de Formadores para o Terceiro Setor) no SENAC-SP? A – Acho que a idéia surgiu em 1997... será que foi em 97? Provavelmente... foi em 97 que, ainda na gestão do José Luiz Paixão (ex-gerente do Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC) que tinha como assistentes então a Neusa (Neusa Goys – gerente do Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do Senac a partir de 1998) e a Cleo Pisani (Técnica do SENAC-SP). E eles estavam preocupados com um curso de Formação de Formadores... eu sei que uma proposta era da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)... e de outros grupos, mas eles não estavam muito satisfeitos com o encaminhamento, na medida em que acabavam por ser cursos muito mais acadêmicos, do que cursos mais práticos, voltados para entidades. Daí me pediram para fazer uma proposta e eu fiz. E daí eles gostaram da proposta ... “olha o caminho é este mesmo”... porque eles não tinham me pedido para ter uma parte de aplicação ou de um projeto que tivesse que ser necessariamente implantado ou pelo menos tivesse a implantação iniciada. Daí quando viram a proposta disseram “olha era isto que a gente estava querendo, um curso mais prático e com esta metodologia”. Se eu.... pode ser que eu, depois de muito tempo já não me lembre de todas as questões, mas se eu não me engano uma crítica que eles faziam às outras propostas é que eram cursos com muita exposição, exercícios e tal... e a minha proposta era trabalhar com vivências... a partir de vivências, e eles gostaram desta proposta. Mas o curso, desde a aprovação da proposta até ele ser iniciado levou muito tempo, por isso que eu não me lembro muito bem. 137 Entrevistador – A primeira turma foi em 1999, não? A – Pois é... porque se eu não me engano eu comecei a escrever isso em 97 e parece que ele só saiu em 98... em novembro de 98. Entrevistador – A primeira não foi em 1999? A – É acho que 99. Acho que começou em novembro de 98 e ele terminou depois em 99... ele começou em novembro, teve só dois meses, depois férias e depois ele foi até acho que agosto do ano seguinte. Entrevistador – Os profissionais do SENAC participaram desta formatação ou só apresentaram a proposta e não construíram juntos? A – Não... não.... porque eu não sei se foi em função da conversa que a gente tinha tido e de algumas expectativas, eles acabaram aceitando a proposta do modo como ela estava escrita. Depois a gente fez, inclusive, um levantamento de expectativas de pessoas interessadas. Houve uma divulgação do curso e um convite para os interessados participarem de um encontro... tinha bem umas 90 pessoas num auditório da Dr. Vila Nova (local da Sede do SENAC em São Paulo). A idéia era fazer uma apresentação do curso e depois tentar identificar os dias e horários que o pessoal preferiria para o desenvolvimento. Essa reunião foi um caos, porque nunca se poderia chegar a um acordo... depois eu sei que se foi pela maioria... e era uma maioria pequena, digamos, não era maioria absoluta... mas havia um grupo maior que preferiu o curso na terça-feira e então o curso começou às terças-feiras. Teve muita gente aí que não pôde participar porque não tinha esta disponibilidade. Entrevistador – Neste princípio, quais foram os aspectos norteadores.... que pressupostos do ponto de vista conceitual e metodológico nortearam a elaboração do Curso? A – A proposta era trabalhar com vivências e aí eu vou falar um pouquinho de como se pretendia trabalhar, não é... com vivências... a partir das vivências trazer a experiência do grupo sobre um determinado tema... então as vivências necessariamente conduziam 138 o grupo a refletir sobre um determinado tema ou uma série de temas correlatos e tal... e a partir desta vivência trazer um referencial teórico, costurar estas contribuições e trazer um referencial teórico que pudesse complementar e fazer sentido etc. então era por aí. Mas a gente já estava com a preocupação de trabalhar numa linha construtivista e nós percebemos que o método dialético... aquele Método Dialético da construção do conhecimento... ele se encaixava nesta forma de trabalho que a gente estava exatamente propondo. Então a partir do segundo curso (segunda turma) a gente já trouxe um referencial mais voltado para o construtivismo...a fundamentação era o construtivismo e o Método Dialético da construção do conhecimento. Então a gente começou a trabalhar com estas referências. Antes disso, a gente trabalhava com muitos dos temas que até hoje a gente continua trabalhando que é a questão dos paradigmas da Educação... dos novos paradigmas, os paradigmas emergentes, o papel do educador... então da ótica de Paulo Freire, de Rogers e outros, e do construtivismo.... a questão da didática.. métodos e técnicas que favorecessem este tipo de abordagem pedagógica e tal...a questão da avaliação. Entrevistador – Ao longo do tempo o SENAC enquanto organização teve influência? Ou, me diga, em que sentido ele influenciou as alterações que o curso foi sofrendo ao longo das seis turmas? Como era a participação do Senac? A – Não foi uma participação assim muito forte, assim marcante. A gente tinha sempre em sala de aula um integrante da equipe técnica que participava... como um participante normal, mas ele também fazia um acompanhamento. Eu descreveria assim: era o olho do SENAC no curso. E eu sempre tive possibilidade de trocar idéias com estas pessoas também e pedir feedbacks desta perspectiva do SENAC. Mas eu diria que não houve da parte destas pessoas que participaram uma contribuição que eu pudesse dizer hoje que contribuíram para a mudança de rumos... não... agora o que eu acho que no ano passado o que me ajudou a trazer a pedagogia por competências... Phillipe Perrenoud e Cia... foi eu ter trabalhado com a Marly (técnica do SENAC e coordenadora da Pós graduação Lato Sensu do Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP) na elaboração dos dois cursos de Pós. Porque daí a gente fez um trabalho assim... eu preparei o curso de Educação... pós em Educação... 139 e a Marly mais especificamente o de Gestão... mas daí a gente trocava, porque a grande preocupação era compatibilizar um pouco estas visões e a própria formatação dos dois cursos... que eles tivessem uma certa unicidade, eu diria assim. Então com base nas leituras que eu fui fazendo, eu fui vendo que era importante trazer a pedagogia por competências. Então nesse sentido acho que houve... que eu acho que foi muito rico... daí eu inclui, no ano passado, na sexta turma a pedagogia por competências. Entrevistador – A estrutura do curso se modificou ao longo do tempo ou não? A – Os módulos não. A gente foi modificando um pouco o conteúdo e a forma de desenvolver o trabalho também, mas a estrutura não. A única coisa que aconteceu de variação de um ano para outro, foi a colocação do módulo Contextualização para lá ou para cá... em alguns casos eu achava que deveria ser inicial, em outras achava que era meio desmobilizador para quem estava a fim de trabalhar com Educação. Entrevistador – Aproveitando que você tocou nesse assunto, do módulo de Contextualização, existe no curso uma abordagem de Terceiro Setor, ou vocês trabalhavam várias Abordagens do Setor? A – Ah....eu não saberia não... te.... (silêncio) ... te dizer que existe uma determinada linha... porque quem trabalhava este módulo era a Alaís e a Maria Luiza (docentes do Curso), e elas montavam juntas esta programação muito em função de discussões e livros e textos etc... que estavam mais em voga. E elas aprontaram, elaboraram aquela apostila com este referencial. Mas eu não saberia te dizer... Entrevistador – O módulo chamava-se Análise de contexto: o Terceiro Setor e as ações educacionais, foi o titulo do ano passado. E o que está na apostila deste módulo, que eu tive oportunidade de ler, é de fato o que permeava o curso? A – Era... é... você lembra que também eles fizeram visitas? Ah.... esta foi uma modificação que a gente introduziu também, porque nós achamos que era importante considerando que algumas pessoas nem eram do Terceiro Setor... chegavam para conhecer porque tinham esta preocupação, este interesse e tal...a gente introduziu 140 tanto neste módulo algumas visitas a entidades de diferentes naturezas que trabalhavam com diferentes clientelas e depois a gente tinha uma discussão em cima daquilo e também retomando o referencial teórico que eles já tinham trabalhado ou estavam trabalhando. E a gente percebeu que era muito importante este contato com a realidade...e no ano passado foi a primeira vez que a gente fez para este módulo. Entrevistador –Qual era para vocês ou quais eram os requisitos mais importantes para entrada do aluno neste curso? A – Olha, a prática mostrou durante todo este tempo que esta heterogeneidade, nestes grupos, era bastante salutar. O fato de uma ou outra pessoa não ter experiência, no começo era mais difícil para ela, mas depois esta pessoa se entrosava... em função das visitas acabava conhecendo e se entusiasmando, nós tivemos vários casos de pessoas que não tinham conhecimento e que hoje estão engajadíssimas, quer dizer, estas pessoas tem uma dificuldade maior, digamos, no arranque... de perceber afinal onde eu estou e o que se pretende com este programa. Mas eu acho que elas são muito facilmente absorvidas pelas que tem mais experiências. Entrevistador – Agora, dentro do curso quais vocês consideravam que eram os objetivos e mais recentemente as competências principais trabalhadas? A – Acho que cada módulo tinha lá suas competências e no meu entender todas elas eram muito importantes. No módulo Dimensão Didática por exemplo, que é o centro da questão pedagógica mesmo... eu acho que perceber o papel do educador numa abordagem construtivista e por competências etc, e perceber este papel, o tipo de relação... o vínculo que ele tem que estabelecer com o educando e vivenciar isso é que eu acho que é uma competência... são várias competências ligadas a isso que de fato eles tem oportunidade de desenvolver ao longo deste módulo.... quer dizer, primeiro vivenciando e depois praticando... eu acho que para a maioria das pessoas é uma surpresa que se possa aprender desta forma... porque todos tem uma história de formação escolar em que se fala sobre isso, mas se vive isso diferentemente. Mesmo o pessoal que vem da pedagogia. Neste caso (do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor) você tem muita gente que vem de Direito, Ciências Sociais, Serviço 141 Social, tem gente da área de publicidade, tivemos um engenheiro químico, administrador de empresas, que nem ouviram ainda falar de abordagens de Educação, nunca tiveram possibilidade de se preocupar muito nesta questão. E então, primeiro perceber que é possível e, depois, desenvolver as competências necessárias para coordenar um trabalho dessa forma. Isso leva algum tempo também, mas eu acho que eles conseguem desenvolver estas competências. Entrevistador – Depois do módulo 3 é que surge uma parte importante.... que são os projetos. A questão do projetos é mais forte nestes módulos (3, 4 e 5). Me diga, com o que essencialmente vocês estavam preocupados ao utilizarem o trabalho por projetos? A – Então, a primeira coisa era assim: um projeto não poderia ser desenvolvido sem a participação dos próprios sujeitos do processo.... um projeto de formação, aqui no caso, então a preocupação era que eles aprendessem a fazer um diagnóstico participativo e, para isso, a gente usou aquele método do esquema lógico em que eles reuniam todos os agentes de alguma maneira envolvidos... os eventuais possíveis participantes do programa de formação, como pessoas da própria entidade para elaborar um diagnóstico da situação, das necessidades e daí serem extraídos os temas que deveriam ser trabalhados e os objetivos. Entrevistador – Então neste método já estava definido que o aluno deveria, ao elaborar o seu projeto, discutir com a Ong e com o público que seria beneficiado por este projeto. Já discutir a própria formatação dele? A – Eu estou pensando em talvez te dar alguns exemplos. Por exemplo, nós tínhamos um projeto em que duas de nossas participantes numa entidade que trabalha com deficientes mentais e, as mães acompanhavam as crianças e para não terem que voltar para casa várias vezes de condução etc e tal. Elas ficavam lá durante todo o tempo absolutamente ociosas, conversando. Então, esta pessoa teve contato com estas mulheres e perguntou se elas não gostariam de aproveitar este tempo diferentemente e de fazerem um curso ou pensarem num projeto ou em alguma coisa de interesse comum. Então, elas começaram a conversar e a marcar reuniões... organizaram de uma forma mais sistematizada alguns encontros. 142 Entrevistador – Isto a partir dos debates do curso formação de formadores para o Terceiro Setor? A – Isso. Como elas (alunas do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor) sabiam que teriam que fazer um projeto, começaram a ficar atentas a eventuais necessidades de formação e com isso acabaram chegando a conclusão com elas (as mães da Ong) e montaram uma pequena empresa. Porque todas tinham interesse em.... e já tinham alguma experiência, algum know how na elaboração de bolos e doces. Uma e outra que não tinha muita habilidade nesta área, por outro lado tinha mais habilidade para fazer o marketing, para fazer a pesquisa de mercado lá na comunidade, eventuais concorrentes e possíveis compradores dos produtos que elas possam criar... mas, enfim fizeram lá...começaram a se organizar e fazer uma divisão de tarefas. E então estas reuniões foram sendo conduzidas de tal forma que elas elaboraram um projeto sobre empreendedorismo, passando por todas as etapas... então enfim... este é ume exemplo... eu lembrei de outro....da Fundação Dom Duarte... como era? Entrevistador – Educandário Dom Duarte A – Educandário Dom Duarte... tinha duas pessoas coordenadoras de programas do Educandário. Então uma questão que elas percebiam lá e diziam que era extremamente complicada é que todos os chamados agentes educacionais que .. ia desde a faxineira até os responsáveis aí pelas diferentes áreas... eles tem um pouco de tudo... tem marcenaria... tem.... Entrevistador – Tem escola lá dentro... A – Tem escola. Enfim, mas que eles não tinham uma... digamos... não tinham um universo conceitual e.... tinham visões bastante diferentes sobre Educação e a forma de conduzir o trabalho e as relações com os educandos etc. Então, eles tiveram a idéia de propiciar um curso de formação para todos nesta mesma... quase que na estrutura do nosso curso.... que tivesse uma dimensão técnica, depois eles deveriam elaborar pequenos projetos em função daquilo que já vinham fazendo, mas justamente para 143 sistematizar coisas que eles faziam sem saber muito bem porque e como. Quer dizer, claro que ninguém tinha um projeto escrito, mas eles estavam desenvolvendo projetos... então, eles fizeram este trabalho. Mas para chegar a isso, também, reuniram todos os educadores e solicitaram que eles falassem um pouco das dificuldades e facilidades que estavam encontrando no seu trabalho e daí apareceu muita coisa... daí acabaram seguindo toda a metodologia de um diagnóstico deste tipo, quer dizer, eles... depois de levantarem os problemas... identificaram lá os problemas-chave... e depois foram trabalhando com causas e conseqüências... fizeram lá a árvore de problemas... isso foi construído junto... numa seção que... Entrevistador – Junto com o pessoal do Educandário?... funcionários, educadores... todos? A – Tudo... todas estas pessoas que são chamadas como agentes... Entrevistador – Os alunos do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor vão coordenando o processo e vocês docentes vão orientando? A – Isso, em alguns casos nós fomos até o local porque as pessoas tinham muita dificuldade... pediram ajuda. Por exemplo, nós fomos até Botucatu, no Centro Flora, até mesmo para colocar para o grupo qual era a proposta de trabalho. Entrevistador – Então a elaboração deste projeto era participativo, a comunidade poderia até sugerir outro projeto? A – A idéia era esta mesma... que trabalhando junto com o público-alvo se fosse construindo mesmo o projeto. Entrevistador – Você me falou num método chamado Esquema Lógico. Existia para vocês, coordenadores do curso, um referencial de elaboração de projetos e um método de abordagem das comunidades? A – O foco era sempre a formação, quer dizer, o produto deste trabalho teria que ser um projeto de formação e o referencial era que este projeto fosse realizado participativamente, a partir de discussões, a partir de necessidades sentidas pelo 144 próprio grupo. O próprio projeto elaborado deveria ter a aprovação do grupo, quer dizer, depois do projeto escrito, a partir da construção da árvore de problemas com os problemas focais, causas e conseqüências etc. O tratamento destas informações davam origem ao projeto, que era depois discutido com todas as pessoas, que propunham algumas alterações e sugestões até ele ser aprovado. Esta forma de trabalhar é uma forma participativa, este método do sistema lógico... E depois da própria elaboração do projeto, da estrutura do projeto... todo aquele referencial teórico que tinha sido trabalhado na Dimensão Técnico-Didático (Módulo 2 do curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor) ele era apropriado, digamos, e deveria estar expresso na própria proposta. Entrevistador – Do ponto de vista conceitual deveria aparecer no projeto as referências conceituais trabalhadas no curso Formação de Formadores, ou seja, o plano de curso que os alunos do curso elaboravam para o trabalho com a comunidade deveria refletir aquilo que foi abordado no curso? A – exato. Entrevistador – E como vocês trabalhavam nos módulos, principalmente 1 e 2, em sala de aula com os alunos? Como vocês trabalhavam em sala... como era uma aula? A – Dentro do Método Dialético... eu trabalhava sempre com o método dialético.. existe um momento que é o momento de mobilização. Essa mobilização em geral era feita com uma vivência, que permitia o, digamos, interesse e a mobilização mesmo das pessoas para aqueles temas ou para um conjunto de temas e, na seqüência, se fazia o processamento. O que as pessoas tinham percebido, os insights que tinham tido durante a vivência e este processamento tinha muito a ver com o aqui e o agora, isto é, não era para fazer extrapolações para a vida pessoal e profissional e sim o que tinham percebido naquele momento, para depois se fazer a extrapolação para situações reais da vida profissional ou então relacionados aos temas que a gente tivesse trabalhando. Então com isso, não sei se você está lembrado que o Método Dialético tem aquela fase da mobilização, o momento da sincrese... a síncrese ocorria mesmo nesta expressão livre sobre as percepções iniciais dos participantes e depois tinha sempre um momento 145 de análise neste mesmo processamento, porque isso aconteceu... como é que isso se relaciona com uma outra questão e assim sucessivamente. Depois se chegava na generalização que era o momento da sincrese, em que todas aquelas idéias trazidas e já analisadas eram costuradas e de alguma maneira eram relacionadas com o tema. Daí então que a exposição, a parte do professor... do facilitador da situação mais ativo, vinha nesta costura destas questões e na complementação da teoria mostrando a lógica de tudo aquilo. E na última etapa é a aplicação, que é aquela pergunta clássica: O que tudo isso tem a ver conosco? O que tudo isso tem a ver com a nossa realidade profissional e com o nosso papel profissional? E daí era um trabalho que era feito em subgrupos e, depois, tinha uma forma coletiva de se expressar e fechar a questão. Então via de regra esta seqüência era observada, quer dizer, não necessariamente precisava começar por uma vivência porque esta mobilização, às vezes... uma frase controversa poderia suscitar uma discussão, etc e tal, e mobilizava... depois o pessoal partia para a sincrese, depois para a análise. Há várias formas de realizar isso, mas o que se procurava observar era esta seqüência do Método. Entrevistador – Então havia muita discussão em subgrupos. Os participantes debatiam entre eles e, aí o docente, a partir do diálogo com os subgrupos e, depois com o grupo de forma geral, elaborava uma sistematização do que os alunos pensaram e discutiram nos subgrupos. A – Era isso mesmo. Em alguns casos, por exemplo, há algumas vivências ou alguns jogos em que todos participam. Eventualmente, alguém que não queira... era sempre muito livre esta participação... quem não quer, não participa... mas ficava como um observador... já outras vivências você tem uma parte do grupo participando e uma parte observando... e estes observadores têm um papel importante porque eles têm um outro olhar sobre aquele processo e trazem contribuições interessantes e diferentes de quem participa. Mas nem sempre se fazia assim uma vivência mais corporal ou um jogo, muitas vezes é um desafio, uma questão desafiante, controversa. A tônica é assim, você sempre pôr o aluno em atividade. Então, um principio fundamental, era assim, o facilitador não iniciava, a menos excepcionalmente, com uma exposição.... a exposição era sempre a última parte deste processo. O importante era que os 146 educandos trabalhassem ativamente sobre aquelas questões e construíssem uma determinada teoria que depois era complementada e ajustada, sistematizada pelo facilitador. Entrevistador – E você acredita que o modo como vocês trabalhavam em sala nos primeiros dois módulos influenciava o modo como depois eles (alunos) iriam elaborar seus projetos com a comunidade? A – Sem dúvida. Porque eles todos relatam este esforço. É um esforço, não é? No começo é uma dificuldade muito grande de fazer isso, até porque é a primeira vez que eles irão fazer, mas quando começam a fazer e a perceber que a coisa funciona e caminha bem, eles ficam realmente muito entusiasmados. Porque todos eles na sua prática... e eu fui acompanhando várias... porque são cursos, nem era possível acompanhar as aulas de todos os cursos, mas eu assisti as aulas de um e de outro e tal... e todos eles tinham esta preocupação de seguir esta mesma forma de trabalhar. Entrevistador – Os projetos, então, já nasciam não como um projeto a ser elaborado e eventualmente posto em prática, e sim já nasciam como algo aplicado, que deveria ser discutido com uma comunidade desde o princípio. A – Isso mesmo, era isso. Entrevistador – E houve projetos que a organização ou a Ong disse “não queremos” apesar de a comunidade local desejar, ou até situações em que a Ong, seus gestores, se incomodaram com este nível de participação da comunidade? A – A gente teve muito problema nesse sentido na fase inicial, na fase da definição do projeto, porque muitas vezes os alunos tinham uma idéia, eles percebiam uma situaçãoproblema qualquer que mereceria um projeto deste tipo, mas daí os responsáveis pela entidade não estavam muito interessados por este tipo de trabalho. Mas, definido o tema com a administração ou com a coordenação das entidades, daí o projeto ia em frente. 147 Entrevistador – O debate era amplo, entre gestores da organização, a comunidade, todos os interessados, incluindo eventuais patrocinadores? A – Era. Mas dificilmente estes projetos tiveram patrocinador. Eram projetos que eles tinham condições de realizar, até para não complicar. Eram projetos que exigiam materiais assim como cartolina, tinta, folhas de papel, daí as entidades se encarregavam de oferecer. Entrevistador – E você tem uma visão de qual era a avaliação do curso Formação de Formadores pelos alunos? A – A gente fazia muitas avaliações ao longo do processo. Avaliações ao final dos módulos, avaliações muitas vezes ao final de um dia de trabalho ou de algumas etapas, depois das visitas, se avaliava as visitas... depois de algumas simulações... a avaliação era contínua. Quanto a criticas, eu creio que eram críticas, assim, muito construtivas e pertinentes em relação ao processo e sugestões legais para superar algumas dificuldades. Agora no final do curso, eu não sei. Porque, às vezes a gente fica com uma percepção um pouco enviesada, em função das pessoas com as quais a gente tem mais contato... porque eu mantenho contato com muita gente... tem muita gente que vai me procurar em casa... muita gente... do último curso também... porque eles começam a elaborar outros projetos ou então querem elaborar seu próprio projeto, mas precisam de ajustes, e vão lá pedir socorro... estas pessoas valorizam muito esta experiência. Já com outras pessoas a gente perde contato. Eu não sei... eu não saberia dizer. Entrevistador – Qual é a sua avaliação então? Ou do grupo de docentes em relação ao curso? A – Eu pessoalmente acredito neste programa. Eu acho que ele tem uma seqüência, até aquela parte da Contextualização (Módulo 1 do curso Formação de Formadores) que vinha no início e que era fator de frustração segundo alguns, porque eles vinham muito mobilizados para questões de formação e perdiam um tempo razoável com esta temática da Contextualização, mas eu acho que isso também é importante. Mas, eles só vão se dar conta disso mais tarde. Mas, enfim, eu acho que este programa tem uma 148 lógica e que a lógica é a seguinte: eles precisam conhecer um pouco o terreno que eles estão pisando, que é a Contextualização, o que é Terceiro Setor... como são estas entidades que eles trabalham ou pretendem trabalhar... depois a questão educacional que é a grande questão... o que é educar, como se aprende, quais são as teorias de aprendizagem que estão aí? Depois por que construtivismo? O que é isso? Também as pessoas têm visões bastante equivocadas acerca do que seja Construtivismo. Também, mais recentemente a gente frisou a pedagogia por competências. Introduzimos também o pensamento complexo. Entrevistador – Edgard Morin... A – Sim, Morin. Então muitas das reflexões que eram feitas tinham como linha de análise a complexidade e, enfim, por conta disso tudo... como é que é a didática? Uma didática coerente com esta abordagem, métodos, técnicas, e como é que você avalia? Avaliação sempre foi um grande problema para a gente... a gente nunca conseguiu equacionar muito bem, mas pelo menos a gente conseguiu mostrar que esta avaliação classificatória, que premia ou pune, era absolutamente furada, tendo em vista todos os pressupostos com que se trabalhal. Mas, enfim, eu acho que isso era importante. Era uma reflexão mesmo sobre o processo educativo e o papel do educador neste processo. Então, eu acho que isto colocado as pessoas tinham condições para dizer “bom, e agora como é que eu elaboro um projeto de formação tendo em conta todas estas questões?” e depois a aplicação, que para mim é fundamental, que é neste momento que as pessoas realmente aprendem. Então assim, se eu tivesse que refazer este curso eu poderia mexer aqui e acolá, tirar alguma coisa e introduzir outras, mas me parece que esta estrutura é a estrutura ideal, entende? Afinal, onde é que estamos... qual é o nosso... que chão é este? O papel do educador...como eu planejo, como eu elaboro o projeto, como eu implanto e como avalio? Entrevistador – Vocês elegeram o Construtivismo como eixo do curso. Houve uma solicitação do SENAC-SP para que fosse assim? Ou isso veio ligado às propostas de Educação comunitária do próprio Paulo Freire, associado ‘a sua vivência profissional, ‘a 149 sua experiência... é destes aspectos que surge com tanta força, segundo você está me informando, o Construtivismo neste curso? A – Não houve uma solicitação do SENAC. Até porque o SENAC quando fez a solicitação não indicou nenhuma linha. eu acho que vem em função da minha experiência, das minhas crenças. Entrevistador – Você vê uma ligação direta entre a Educação no Terceiro Setor que começa a surgir e a pedagogia de Paulo Freire, que Gadotti vem dando continuidade. A – Sim, é exatamente assim que eu vejo. É o processo histórico que acabou por levar à situação atual... eu acho que é uma continuidade... agora uma questão que eu ... a propósito disso, que eu constato tranqüilamente é que o Terceiro Setor é muito mais receptivo a Abordagens pedagógicas mais abertas, participativas em que o aprender a aprender é um dos princípios. Muito mais que a escola formal ou qualquer outro tipo de instituição de ensino... eu trabalho também na área pública com formação de formadores para a área pública e lá eu encontro menos resistência que na escola formal, mas ainda existe uma resistência. Eu não vejo em nenhum outro local tanta receptividade a estas idéias... Assim, há sintonia... é uma linguagem que eles facilmente entendem... no Terceiro Setor... pessoas que já têm qualquer experiência, mesmo de trabalho voluntário em entidades, já têm outra mentalidade, conseguem perceber melhor esta proposta e se adequar. Entrevistador – E há alguma questão, para quem vai conhecer o curso Formação de Formadores para o Terceiro Setor, e que não abordamos aqui ou que você acha relevante destacar? A - Eu não sei. Eu acho que uma das coisas importantes deste curso é o aprender fazendo. Diferentemente das escolas de educação formal... eu tenho trabalhado com educadores de uma instituição, quase todos passaram pelo curso de pedagogia, mas o curso de pedagogia em que todas estas abordagens pedagógicas mais recentes e a forma de conduzir o processo educativo foram trabalhadas, foi feito de modo expositivo e depois a avaliação da aprendizagem ocorria da forma mais tradicional possível. Então eles conhecem estes princípios teoricamente, mas nunca vivenciaram então neste lugar 150 em que eu tenho trabalhado com uma equipe técnica, de orientadores, supervisores... eu tenho dado... é quase que um curso na verdade eu estava dando uma assessoria, mas virou um curso em que eu trabalho com vivências com este grupo, ao invés de ficar numa mesa de reuniões fazendo discurso sobre isso... porque eles já ouviram, mas como é que se faz? Como é que vivenciam? E para eles é uma grande surpresa... dizem “puxa, então é isso, não sabia que era possível”... é um ponto que eu acho positivo neste curso ... que a gente procura usar estas abordagens na prática... a gente não faz o discurso sobre... a gente vive o processo dessa forma. 151 ANEXO 3 FORMATOS 500 – FORMAÇÃO DE ATORES SOCIAIS Novo nome, nova missão e um novo programa de formação de gestores do Terceiro Setor. O maior do Brasil. O SENAC São Paulo lança, por meio de sua unidade especializada em Terceiro Setor, o Programa FORMATOS 500. O nome FORMATOS 500 carrega em si um objetivo e uma meta: formar atores sociais, tornando-lhes acessível o conhecimento em gestão no Terceiro Setor, e atender 500 organizações de base comunitária, distribuídas nas cinco regiões da cidade de São Paulo – Norte, Sul, Centro, Leste e Oeste. O programa reforça, na prática, um dos propósitos do SENAC Terceiro Setor: alcançar o maior número possível de pessoas e organizações, especialmente aquelas que não têm acesso aos programas de formação oferecidos pelas universidades. Este é o mais amplo programa brasileiro de desenvolvimento de gestores sociais do Terceiro Setor, e as organizações não pagam para participar, integrando uma atividade de natureza sociocomunitária do SENAC. Mas, além do número expressivo de beneficiários, o FORMATOS 500 apresenta novidades conceituais. A idéia básica é que o participante construa a sua própria formação, interagindo em rede com os seus pares e adequando os conhecimentos adquiridos à sua organização e à sua comunidade. Assim como o corpo docente formado por especialistas da Universidade Aberta do Terceiro Setor, os conteúdos do Programa FORMATOS 500 foram cuidadosamente selecionados para proporcionar o desenvolvimento de competências básicas para a gestão de uma organização do Terceiro Setor. PÚBLICO-ALVO Gestores, lideranças e profissionais representantes de 500 Organizações de Base Comunitária da cidade de São Paulo. 153 ESTRUTURA Etapa 1 SENSIBILIZAÇÃO – OS DESAFIOS DO TERCEIRO SETOR Cinco seminários, com um total de 35 horas, abordando os desafios propostos pelo pesquisador Lester Salamon, da Johns Hopkins University (EUA): Legitimidade Eficiência Parceria Sustentabilidade Justiça Etapa 2 CAPACITAÇÃO EM GESTÃO NO TERCEIRO SETOR Curso com duração de 40 horas que compreende as cinco principais ferramentas de gestão para organizações do Terceiro Setor: - - PLANEJAMANETO ESTRATÉGICO - Conceituação de Cenários (ambiente externo e interno) Valores, Missão e Visão de Futuro Definição de estratégias e planos de ação. ELABORAÇÃO E GERENCIAMENTO DE PROJETOS SOCIAIS - Concepção, desenvolvimento e gerenciamento de projetos COMUNICAÇÃO E MARKETING Planejamento das relações de trocas Identificação de públicos de interesse Criação e posicionamento de valor Elaboração de plano de comunicação CAPTAÇÃO DE RECURSOS Contexto e requisitos para a captação de recursos 154 Conhecimento do sistema local de filantropia e investimento social de uma comunidade - Ferramentas para a sustentabilidade Mobilização de ativos sociais de uma comunidade Plano de captação de recursos. AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS E PROJETOS SOCIAIS Conceito de avaliação na área social Definição de indicadores de avaliação para programas sociais Metodologias participativas de avaliação Etapa 3 O objetivo é desenvolver as competências dos empreendedores sociais das organizações participantes. Serão selecionados 250 organizações que participarão de um programa específico de 64 horas. - EMPREEDEDORISMO SOCIAL – 32 horas Perfil do líder empreendedor Competências básicas esperadas do dirigente da Ong para exercer uma liderança eficaz, tendo em vista: - A dimensão organizacional - A dimensão interpessoal - As características sociais Empreendedorismo: Conceito Inovação e processo empreendedor Idéias e oportunidades Especificidades do empreendedorismo no Terceiro Setor Plano de negócios: análise de um instrumento par o planejamento e a gestão de um processo empreendedor. 155 ELABORAÇÃO DE PROJETOS – 32 horas Capacitar organizações desenvolverem Projetos que atuam com Educacionais, crianças tomando e por jovens para referência o Protagonismo Juvenil. Etapa 4 INCUBADORA DE PROJETOS SOCIAIS Nesta etapa, serão escolhidas por uma comissão composta por especialistas e parceiros, 25 organizações que atuam com crianças e jovens, para desenvolver e implantar, em regime de incubadora, seus projetos educacionais, com assessoria e apoio técnico do SENAC. PRÊMIO FORMATOS 500 Os melhores projetos serão premiados com uma visita monitorada de seu representante a instituições sociais norte-americanas, financiada pelo SENAC e pelo Consulado Geral dos Estados Unidos da América em São Paulo. 156 ANEXO 4 CURSO: FORMATOS - FORMAÇÃO DE ATORES SOCIAIS TRANSCRIÇÃO DE ENTREVISTA A transcrição desta entrevista exclui dados que possam identificar os profissionais que se disponibilizaram a realizar a entrevista. Grupo Entrevistado Três docentes que atuaram no curso FORMATOS – Formação de Atores Sociais, que serão denominados A, B e C. ENTREVISTA Entrevistador - Como surgiu o curso FORMATOS? Quais eram suas propostas iniciais? (silêncio) B – Não me lembro como surgiu. Acho que, na verdade, a gente estava trabalhando em outro setor (do Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP - CTG), no Programa Educação para o Trabalho/SENAC-SP, e aí precisava ampliar a equipe do FORMATOS. C – A gente foi para lá (atuar no curso FORMATOS) porque o projeto tinha uma demanda grande de trabalho e a gente foi chamado. A – Acho que para trazer à tona discussões sobre o Terceiro Setor.... preocupação com ... ter um caráter... trazer um caráter mais profissional para as organizações (do Terceiro Setor). B – Eu acho que também teve uma outra coisa, o Centro de Tecnologia e Gestão do Terceiro Setor do SENAC-SP deu uma revisada na questão da missão. O foco da missão está voltado para o fortalecimento de organizações do Terceiro Setor. Eu acho que o FORMATOS aparece justamente neste momento. Além de dar visibilidade... um Programa na verdade que vá ao encontro da missão do CTG. Eu vejo desta forma. 157 Entrevistador – Então há várias dimensões. A criação dele (curso FORMATOS) deve ter uma questão que é de visibilidade para o SENAC, uma outra que deve ter a ver com a criação de um curso alinhado à missão do CTG. E vocês chegaram a participar do curso Formatos, da elaboração de suas apostilas, etc. Ou quando chegaram à equipe já estava tudo pronto para o lançamento do curso? C – Na última fase... na parte de Empreendedorismo e algumas coisas a gente chegou a montar algum material. Entrevistador – Vocês elaboraram o módulo de Planejamento Estratégico e contribuíram na construção do material sobre Empreendedorismo que fez parte do curso? C – No caso de Empreendedorismo, todos nós. Entrevistador para A e B – E houve algum módulo que vocês elaboraram especificamente? A e B – Não. Entrevistador – E como foi este processo de elaboração, nos momentos em que vocês participaram? Como vocês pensavam a coleta de material, depois a forma de trabalhar em sala? B – A gente colaborou mais na parte de Empreendedorismo e mesmo este material, a gente trabalhou em cima de material que dois consultores já tinham estruturado, não foi? O SENAC contratou dois consultores para pensar os conteúdos do Módulo Empreendedorismo e aí a gente percebeu que este material tinha algumas divergências e precisava dar uma olhada, fazer uma adequação... aí a gente se reunia e discutia o material dos dois consultores e nós fizemos algumas alterações. A – Acho que é interessante localizar todas as fases... você tem estas informações (pergunta para o entrevistador)? Entrevistador – Isso eu tenho em documentação... por escrito. 158 C – Porque o que aconteceu foi o seguinte: estes consultores vieram para preparar este conteúdo. Mas, aí na verdade a gente ficou somente com um monte de transparências. E aí em cima disso a gente pensou... as técnicas que poderiam ser utilizadas e inserimos alguns textos complementares... porque o material que foi preparado não atendiam as nossas necessidades. A gente foi definindo as técnicas que seriam utilizadas. Entrevistador – Então os consultores deixaram apenas os temas gerais a serem abordados... o tipo de conteúdo a ser trabalhado, mas não aprofundaram a pesquisa de materiais e não elaboraram uma proposta metodológica para o curso FORMATOS. C – Isso meio que se perdeu no processo porque eles fizeram o curso (FORMATOS) aqui na região leste (da cidade de São Paulo), mas aí o que a gente percebeu é que os dois desenvolveram materiais e os materiais estavam desalinhados, e a gente não conseguia entrar num acordo em relação... aí a gente fez um terceiro (material didático e apostilas). Entrevistador – E quem elaborou este primeiro material? A – Eram consultores de fora. B – Não eram pessoas conhecidas. Entrevistador – O curso FORMATOS tinha objetivos ou competências a serem desenvolvidas? Existia este tipo de distinção? B – Acho que tinha por objetivos. C – Era uma capacitação básica. Era um programa para sensibilizar, você despertava interesse para aquele tema. B – Ele trabalha focado em objetivos mesmo... não em competências. Entrevistador – E qual a Abordagem de Terceiro Setor que foi adotada? Vocês tinham uma abordagem específica ou apresentaram várias Abordagens....? C – Era a Abordagem.... o modelo da Johns Hopkins.... A e B – Lester Salamon. 159 Entrevistador – E quais os aspectos do Lester Salamon vocês abordaram com maior ênfase no Programa? B – Eu acho que mais os cinco desafios do Terceiro Setor na primeira fase: sustentabilidade, legitimidade, justiça, parceria, eficiência. Entrevistador – E depois na fase 2? C – Ferramentas de Gestão: planejamento estratégico, elaboração de projetos, captação de recursos e avaliação de projetos. Entrevistador – E continuavam com o foco nos cinco desafios para o Terceiro Setor propostos por Léster Salamon? C – Eles eram trazidos, mas aí a gente trabalhava mais numa concepção de gestão não muito preso àquele modelo. C – Mas, eu acho que a discussão ainda ficou mais presa àquele modelo do Lester. Eu não percebi em nenhum momento a gente trabalhando outra concepção do Terceiro Setor como... uma organização que está voltada mais a questão da reivindicação.... num papel mais de protesto... a gente trabalhou mesmo o Terceiro Setor atuando no cumprimento daquilo que o governo não faz.... nessa linha. C – Nessa linha... a gente não entrou nestes outros modelos... de postura de Terceiro Setor. Entrevistador – Chegaram a pensar em inserir no FORMATOS propostas de Desenvolvimento Local.... quer dizer.... pensar com eles (os alunos) propostas de desenvolvimento da localidade onde as Ongs estavam inseridas? A, B e C – Não... não. B – A questão do Desenvolvimento Local está surgindo mais neste momento... que o SENAC está olhando mais para isso. A – Mesmo esta questão do referencial que se discutia.... era mesmo do Lester Salamon. Depois é que surgiu esta questão do Augusto de Franco (DLIS – 160 Desenvolvimento Local Integrado Sustetável), o da Economia Solidária, com a ida de pessoas do SENAC para Portugal. Entrevistador – Como o curso era realizado em sala de aula? Já que a proposta era Formação de Atores Sociais, como vocês realizavam esta formação em sala... do ponto de vista da metodologia de trabalho em sala de aula e, também, nas atividades fora de sala? B – Acho que são dois momentos, a primeira fase (do curso FORMATOS), que são os desafios do Terceiro Setor, nós tínhamos uma palestra no período da manhã... sempre de um profissional considerado especialista naquele tema... então no período da manhã... quatro horas.... três horas... o profissional falava sobre determinado tema... e no período da tarde a gente fazia... e aí era comandado por nós... docentes do SENAC... a gente dividia em grupos e discutia aqueles temas em subgrupos... através de dinâmicas, exercícios.... para solidificar um pouco mais o conceito.... os desafios. A – O grupo era maior. C- Neste momento havia a palestra, colocando os desafios (do Terceiro Setor propostos por Lester Salamon) e eram colocadas questões... o quanto a organização atuava ou o que precisava fazer para atuar dentro daquela proposta....do desafio... quando se falava em questão dos stakehoulder... a gente pensava quais eram os pilares de sustentação da sua organização. B – A tarde o objetivo era solidificar conceito. A tarde a gente trabalhava, por exemplo, o que o grupo entendia por legitimidade... e também a gente fazia uma reflexão de como a organização avaliava sua prática em relação a aquele determinado tema trabalhado. Entrevistador – E os alunos construíam uma proposta de modificação da sua organização? Todos – Não...não. Entrevistador – Que resultado vocês alcançaram nesta primeira fase do curso FORAMATOS? 161 B – Eu acho que a gente ouvia muito em todo este processo da primeira fase do quanto as pessoas...os representantes das organizações estavam podendo rever o seu papel, olhar para isso. Não sei nem se é rever, mas olhar para a sua ação, para a sua prática em relação a estes temas que estavam sendo trabalhados. Então a gente tinha muitas falas neste sentido... que estava mexendo... o quanto eles estavam olhando para determinadas coisas, mas o quanto era difícil mudar... havia pessoas que conseguiam levar para sua organização um pouco mais de algumas reflexões... tinha pessoas que não... tinha pessoas que se sentiam angustiadas porque queriam estar compartilhando isso na organização....eu particularmente avalio isso.... não sei o que o pessoal acha.... mas eu avalio que as pessoas se sentiram olhando para isso.... para a sua organização com uma necessidade de estar repensando algumas coisas. C – Eu vejo que as pessoas colocavam bastante assim: o quanto estava ficando claro para elas uma necessidade de profissionalizar mais a atuação, que vinha de uma atuação muito amadora... aí eles começam a entender porque não conseguiam captar recursos...porque eles não conseguiam elaborar projetos... acho que estavam caindo as fichas neste sentido. A – no final inclusive, assim, teve vários depoimentos... que eles mudaram algumas coisas dentro da estrutura das organizações... os que tinham um poder maior de decisão....de convencimento... alguns ainda tiveram problemas... tinha gente que estava quase saindo da organização porque o que ela tinha visto (no curso FORMATOS) não batia com o que estava acontecendo com a organização... e eles queriam de acordo com o que tinham visto no processo (do FORMATOS), colocar algumas coisas, mas acho que tinham algumas dificuldades... não era uma maioria não, mas era um número considerável. Entrevistador – Quando você falou em Planejamento Estratégico, isso já era fase 2 (do curso FORMATOS)... o que foi a fase 2? Na fase 1 eu sei que havia quinhentas organizações da sociedade civil de São Paulo. E na fase 2, passaram a ser quantas organizações? C – Elas permaneciam.... na fase 2 este grupo de cem (por região de São Paulo) foi dividido em três grupos.... que aí no módulo de Planejamento e Gestão (cf.: estrutura do 162 curso FORMATOS – Anexo 3)... eles trabalhavam com grupos de aproximadamente trinta e três... trinta e cinco pessoas. Entrevistador – Então na primeira fase a diferença é que eram cem pessoas, de cem diferentes Ongs, numa aula... numa grande palestra... e na segunda fase aquela grande turma se dividiu em 3? C – Na primeira fase eles permaneciam os cem no período da manhã na palestra... aí na atividade... vamos chamar de reforço, eles eram divididos em subgrupos, preparavam suas atividades, mas depois voltavam para uma plenária onde eles socializavam o que foi discutido em cada um dos grupos. Na fase 2, de Ferramentas de Gestão, eles já eram divididos em 3 grupos e cada grupo passava a freqüentar um dia da semana...eles já deixavam de se encontrar os cem. Passaram a ser grupos de mais ou menos trinta Ongs por encontro. Entrevistador – Foi neste momento que vocês tiveram os módulos de captação de recursos, planejamento estratégico, elaboração de projetos? Vocês lembram? C – Isso... captação de recursos, elaboração de projetos, planejamento estratégico, plano de marketing e comunicação e avaliação de projetos sociais. Entrevistador – Nesta fase os alunos começaram a elaborar projetos para as organizações? Estou me referindo àqueles projetos que estavam na proposta do Formatos... e que depois houve um concurso, uma seleção de projetos. B – Não... não. C – Não. Depois (em outra fase do curso FORMATOS) restam cinqüenta organizações por região, que foram para outro módulo e, estes cinqüenta, é que começam a elaborar projetos. Entrevistador – Neste módulo 2, como é que vocês trabalhavam em sala? No primeiro, “Entrevistado B”, estava nos dizendo que era um grupo grande de manhã numa palestra com um especialista e à tarde subgrupos... debate... amadurecia, vamos dizer 163 assim, o tema... e aí trazia para uma plenária para todo o grupo discutir... me digam, na fase dois, como era em sala de aula? Silêncio. C – Eu acho que na fase dois a gente trabalhava um pouco num formato aí de grupo operativo. B – Eram oito horas, né? C – Era assim... eram oito horas por módulo. Entrevistador – Cada tema vocês ficaram oito horas com cada grupo? C – Isso. Uma questão que a gente se deparava eram assim grupos extremamente heterogêneos e você tinha na mesma turma um cara que era pós-graduado e um outro que mal sabia escrever. Era uma dificuldade porque você não podia nivelar nem muito por baixo, nem muito por cima, senão você não contemplava os grupos... então as atividades....elas envolviam ...a gente trabalhava os conceitos, mas sempre envolvendo os conteúdos das organizações .... então assim... durante todo o processo de aprendizagem...no passar do dia eles trabalhavam praticamente o tempo inteiro em grupo e subgrupos onde você inseria o conteúdo teórico e depois nos remetia a uma discussão sobre a própria atuação das organizações dentro daquele contexto .... que era uma forma...porque aí, mesmo que a abordagem teórica fosse simples para alguns, mas a questão da discussão dos problemas, das dificuldades, das facilidades, eles viviam também...então não era aquela coisa que.... facilitava... e aí variou um pouco de docente para docente, mas em alguns módulos foi trabalhado assim de forma que eles meio que construíssem um produto...construíssem um esquema de planejamento estratégico, que pensassem num plano de captação de recursos, que pensassem num plano de marketing. Entrevistador – Que fosse mais aplicável à realidade deles? C – É. 164 Entrevistador – Mas não individual, cada subgrupo construía um plano considerando os debates realizados naquele momento de aula em um pequeno grupo de quatro ou cinco pessoas, representantes de quatro ou cinco Ongs. C – É... isso não era individual. Entrevistador – Não era possível que fosse individual? C – Isso .... você não consegue nivelar as informações posteriormente. Entrevistador – E começava de manhã... às 9h e se estendia até as 18h? C – Isso, era das 9h às 18h B – Era assim. Entrevistador – E todos os participantes nos grupos... a maioria tinha isso ....elaborava... fazia as discussões do ponto de vista conceitual, depois via a prática das organizações, a realidade... aí elaborava um material que refletisse esta realidade para apresentar no grande grupo.... C – É ... porque a idéia é que eles trabalhassem com um produto equivalente ao deles e depois fizessem as devidas adaptações em suas organizações, mas que exercitassem um pouco como era colocar aquela teoria em prática. Entrevistador – E vocês sabem se os alunos chegaram a ir para as organizações e realmente colocar em prática, por exemplo, o plano de captação de recursos ou o plano de avaliação? Vocês tiveram algum retorno em relação a isso? B – Não... eu não tive. A – Acho que mais informalmente... nada assim mensurável... que a gente tivesse um questionário formulado que pudesse contemplar estas questões... tabular... eu falo cientificamente. Entrevistador –Mas, o que vocês perceberam que eles levavam para a discussão com as organizações e com a comunidade também? Ou não havia tanto esta preocupação (discussão com a comunidade atendida)? 165 B – Eu não consigo ter uma avaliação em relação a isso...eu consigo mais falar de um forma bem genérica... alguns casos que a gente percebia que levava para a organização, outros casos que ficavam parados na própria pessoa que estava lá (no FORMATOS) ou porque ela não tinha espaço na organização ou porque ela era um voluntário...que isso acabou acontecendo também... o critério é que fosse o gestor da organização e a gente não conseguiu bancar este critério em todo o Formatos... o critério é que (o participante) fosse o diretor... o gestor da organização.... tinha pessoas que eram voluntárias...e estas pessoas acabavam ficando com o conhecimento para elas...acabavam não levando para as organizações. Entrevistador – O que reflete o que é o próprio Terceiro Setor: difuso, com muitos voluntários. C – É... e tinha pessoas que mudavam de organizações...aí você tinha um registro dela como sendo de uma organização e quando se ia ver... a pessoa estava em outra organização... eu acho que aqueles que levaram o debate para adiante, levaram a discussão mais para as organizações mesmo... eu não vejo muito eles levando esta discussão para a comunidade... eu acho que não...e o que a gente tem é mesmo esta coisa meio informal... às vezes você encontra na rua... outro dia fomos comer pizza... aí encontramos um policial de uma organização e ele falou... olha, depois do FORMATOS a nossa organização mudou... a gente já está com projetos... a gente está captando recursos...então a gente tem coisas nesta linha. B – Lá no Centro (região da cidade de São Paulo) tinha umas propostas da polícia de estar focando o trabalho com jovens numa perspectiva mais preventiva....tinha isso... A – O “entrevistado C” colocou que, por exemplo, a gente pegou o trabalho de empreendedorismo social da fase 3... e um (consultor) tratava de um jeito a questão; o outro ( consultor) tratava de outro jeito e a gente teve que juntar tudo e fazer um outro (programa) para que ficasse mais próximo da realidade das organizações, da realidade da metodologia que a gente acredita... acho que teve vários momentos.... 166 Entrevistador – A fase 3 do curso FORMATOS, vocês estavam me dizendo, que foi Empreendedorismo e Elaboração de Projetos. então basicamente vocês trabalharam com estes dois temas somente? B – Aí na verdade... o projeto.... esta fase de elaboração de projetos era construção de projetos mesmo... era ele (o aluno) elaborar o projeto da organização que foi aquela ultima fase... para depois poder avaliar se o projeto estaria dentro. Entrevistador – E como foi apresentado isso para eles? Era um projeto específico, por exemplo, vamos elaborar um projeto social específico dentro de um Centro de Juventude que tem muitas outras atividades ou era um projeto de gestão da Ong como um todo? A – Acho que antes disso é bom localizar... na fase 3, nós tivemos dois momentos distintos... a gente trabalhava inicialmente plano de negócio e estilo de negociação como uma forma de organizar a própria entidade...a própria organização... e aí depois é que.... aí depois nós fizemos a parte de projetos... nós tivemos que resgatar o que tinha sido visto... lá na segunda fase... nós tivemos que fazer assim... nós trabalhamos de que forma? Nós levantávamos a discussão do que era o projeto, os itens do projeto Tudo isso em 32 horas... objetivo geral por exemplo... objetivo específico, meta.... nós estávamos retomando de forma mais aprofundada, mas não dava para retomar todos num dia só. Aí eles voltavam para suas organizações, escreviam ... alguns já tinham iniciado... já tinham uma vaga idéia... aí eles escreviam...faziam um desenho do seu projeto com base nestes itens...voltavam para o encontro seguinte e discutiam em subgrupos e depois abríamos para a plenária... depois a gente viu que era legal mesmo fazer só em subgrupos e nós íamos tentando passar nos subgrupos.... Entrevistador – Isso é interessante... nesta fase 3 continuavam as 500 Ongs? C – Não. Entrevistador – Aí teve uma seleção? C – Aí caiu pela metade. B – Duzentos e cinqüenta. 167 Entrevistador – E que critério teve para esta seleção que levou de 500 para 250 Ongs? C – Aí...era considerada a questão...se era organização de base comunitária... e se o participante era o gestor. B – Basicamente é isso. Entrevistador – Necessidade de melhorar suas práticas de gestão, também? B – Isso...de gestão. C – Mas foi uma dificuldade terrível para fazer a seleção e aí todo mundo que não ficou reclamou...todo mundo queria continuar...acho que era um mérito (nosso)... porque as pessoas estavam gostando, mas a gente teve muita dificuldade. C – É... porque acho que foi considerado um pouco assim...a questão da atuação (no FORMATOS) da pessoa que era representante... porque desde o princípio o prérequisito era que fosse uma pessoa que interferisse na gestão da organização... só que como eles sabiam que este era um critério... risos.... eles colocaram lá ( na ficha) que eram... depois durante o curso a gente percebia que a pessoa não apitava nada lá na organização... então para esta outra fase isto foi considerado. Não sei...eu tenho a sensação que para esta ultima fase a gente acabou de certa forma criando um grupo de elite... porque quando a gente observou...em mais de uma região (de São Paulo), mais de 50% das pessoas eram pós-graduadas. B – Eu não tenho muita certeza disso... acho que o perfil do gestor mesmo que o SENAC procurou talvez não tenha sido... não tenha vindo participar muita gente com este perfil: organização de base comunitária, mesmo! Então a gente recebia muitas organizações... a grande maioria... que não era de base comunitária...e se não é uma organização de base comunitária... conseqüentemente você tem pessoas na equipe com melhor nível de formação... hoje eu faço este entendimento...eu não acho que seja um grupo de elite... acho que era um perfil diferenciado porque a gente não deu conta de atender as de base comunitária. C – Acho que a região leste (de São Paulo) tinha este perfil mais de base comunitária pois a divulgação alcançou estes grupos, tanto que para mim foi mais difícil de trabalhar... eram pessoas com dificuldade de raciocínio lógico enorme... você falava “a” 168 eles respondiam “c” ....era uma coisa assim meio impressionante e outros docentes que passaram comentaram também que foi bastante difícil... porque eu acho que a forma... as organizações que atenderam ao chamado... eu participei da seleção inicial do centro... quando eu vi as pessoas que chegaram... e eu já tinha feito atividade aqui na zona leste...eu levei um susto....eu falei, não ... são outras pessoas que estão aqui... você tinha a sensação de que estava olhando para uma turma de faculdade...era o perfil...e não tinha muito o que escolher lá... B – no centro, acho que 90% do pessoal (alunos) era graduado e pós-graduado... C – – É... mas tinham outras regiões com esta característica. A – Eu não percebi que na (região) sul era tão assim... não... C – É que na sul e na oeste era menos... B – É... o Portal (sítio eletrônico portal Setor 3 – www.setor3.com.br) fez uma pesquisa em relação a isso. Entrevistador – Eu queria que vocês falassem como foi este processo no terceiro módulo chamado Elaboração de Projetos que “entrevistado A” começou a nos falar. Eu queria que vocês explicassem melhor... o passo a passo... como é que surgiu a proposta para o pessoal das organizações (de Elaboração de Projetos) e como vocês trabalharam? C – Desde o início do FORMATOS, ele já é um programa que se apresentava... que no final haveria... que as cinqüenta organizações que restariam de cada região de São Paulo, elas construiriam um projeto para sua organização com foco no protagonismo juvenil... então não era um projeto de gestão da organização, mas era um projeto com foco na questão do protagonismo juvenil... e havia um concurso destes projetos... em que de cada região haveria cinco projetos vencedores que seriam incubados... que seriam viabilizados pelo Senac... então desde que o programa foi apresentado já havia isso Entrevistador – Então no final o SENAC funcionaria como uma incubadora social? C – isso... tinha um estímulo forte nesta linha... durante a elaboração dos projetos... então eles passaram pelo empreendedorismo social e na seqüência vinha elaboração 169 de projetos... que era o último módulo porque a idéia era que no último dia eles entregariam os projetos... então além disso que o “entrevistado A” falou... normalmente a gente dividia o tempo da seguinte maneira: no período da manhã... no período inicial da manhã, nós trabalhávamos a introdução de alguns conceitos ou revisão... estava lá... definição de problema, objetivo geral, objetivos específicos... então tentávamos alinhar este conceito com todo o grupo e aí o restante do tempo eles tinham para a construção do projeto, então o que acabou acontecendo... a partir do segundo encontro... a gente fazia o seguinte... no segundo dia eles teriam que trazer aquele... por exemplo, o objetivo geral ou específico já definido... que foi trabalhado na semana anterior, eles parte trabalhavam em sala... mas ... você prefere trabalhar na sua organização? Então vamos lá... aí ele ia...então eles não ficavam o dia inteiro lá... no encontro seguinte nós trazíamos no momento inicial a introdução...as novas etapas do projeto e num segundo momento.... um momento de consultoria... então eles trabalhavam em grupo e ao mesmo tempo a gente se disponibilizava e eles iam se inscrevendo e sentavam com a gente para avaliar e levantar dúvidas do que eles já haviam produzido. Entrevistador – O que eles tinham produzido dos outros temas fora de sala de aula e do que havia sido discutido no mesmo dia em sala de aula. C – Era isso. Entrevistador – E quando os alunos do curso FORMATOS levavam para as organizações... como era a proposta de vocês para que eles escrevessem... era que eles deveriam levar e discutir lá (na organização) o que seria elaborado ou era uma proposta de pesquisa em que ele deveria levantar dados da sua Ong? Eles tinham que fazer uma pesquisa para montar um projeto que fosse documental, bibliográfico etc, ou deveriam, na verdade, discutir com os pares e com a comunidade para aí trazer um material escrito, a partir de um diagnóstico das necessidades da localidade? B – Eu acho que o que a gente procurava fazer era... eu acho que levar o projeto para discutir com a comunidade, acho que isso não aconteceu em nenhum momento...a 170 gente não teve pernas para isso... porque talvez não tenha muito dessa cultura de estar discutindo tudo com a comunidade. Entrevistador – Faltava a prática da parte deles de discutir as questões com a comunidade ou do SENAC também, de favorecer este tipo de processo? B – Não, faltava cultura das organizações... mas não dá para dizer que isso era geral... mas eu acho que assim... discutir com a comunidade um projeto como é que é...entendeu? a gente percebia...eu pelo menos percebia que muitos deles não conseguiam nem direito conseguir com a própria equipe da organização... e já tinha que levar na semana seguinte... e tinha gente que fez o projeto no penúltimo dia para o último porque nunca produziu nada... não levava... teve de tudo... Entrevistador – E como vocês trabalhavam a questão de quem fazia e quem não fazia o projeto? B – Eu particularmente deixei muito à vontade, entendeu? Porque eu acho, se a organização quer fazer... é um compromisso dela com ela mesma... não dava para a gente ficar entrando neste nível de discussão com as organizações...olha você não está fazendo... por que não está fazendo? Você tem que produzir... se produzisse e marcasse o horário daquela consultoria tudo bem... se não produzisse também tudo bem... eu deixava mais tranqüilo. A – E às vezes... eu sentia assim que ele não estava, não se sentia totalmente seguro e, ao participar de novo, na semana seguinte com os subgrupos... ficava um pouco mais claro para ele...então eles faziam depois... em alguns casos Entrevistador – entendo... pela própria dificuldade de compreender o que era um projeto... A – É...mas teve de tudo, entendeu? Nestes momentos de troca nos subgrupos, nestes momentos de troca com a gente, eles iam se apropriando um pouco mais do conhecimento... alguns deles... não dá para dizer que foram todos. Entrevistador – sempre focado no protagonismo juvenil A – Sempre focado no protagonismo juvenil, sim. 171 Entrevistador – Como vocês trabalharam com a Ong que não atuava com o jovem? B – Sempre focado nisso a organização que trabalhasse com jovens... o projeto... tinha que ser coerente com a missão da organização... então, por exemplo, se a organização trabalhasse com terceira idade, o projeto dela iria ser alguma coisa focada no públicoalvo dela e na missão dela. Entrevistador – O protagonismo juvenil foi uma sugestão inicial, mas não necessariamente teve que ser assim? B – É... o foco do SENAC... que o SENAC colocou, desde o início, era que os projetos que fossem selecionados teriam que estar contemplando a questão do protagonismo juvenil... Entrevistador – Entendi... então para efeito do Concurso... era só protagonismo juvenil, mas para efeito de desenvolvimento da organização... faça dentro da sua missão B – Isso mesmo... da sua missão...do seu público-alvo...foi isso mesmo C – Tanto que várias organizações fizeram os projetos mas já sabiam...tinham clareza que não participariam do concurso A – Fizeram e discutiram com a gente... foi um processo bem democrático neste sentido. C – Para algumas pessoas até que... mais capacitadas... que aí foram convidadas para participar da banca... para escolher os projetos, porque o projeto dele não estaria participando do concurso. Entrevistador – Em sala de aula havia um processo de debate coletivo dos projetos que eram elaborados por cada organização? C – Havia. Entrevistador – E como isso era feito? A – A – Havia uma proposta que a gente fizesse uma retomada dos itens de um projeto. Na seqüência os subgrupos e discutiam com os outros o que eles tinham feito... a gente 172 propiciava isso...e ainda de manhã a gente passava nos grupos para estimular esta discussão. C – O que foi interessante, acredito que tenha acontecido em todas as regiões, é que mesmo estando em um concurso, havia muita contribuição de uns para com o projeto dos outros... e isso eles até ressaltaram depois que durante todo o curso... pela metodologia... construiu-se um clima de cooperação nos grupos. Então, até houve casos... parece que em algumas regiões um pouco mais...de pessoas que escondiam os seus projetos... algumas... onde eu estava... era um pessoal muito disponível mesmo... se ajudando mesmo. E assim, uma coisa que também.... eu pelo menos coloquei para o grupo... que, dentro da questão de captação de recursos, eles poderiam pensar também às vezes em captar pessoas que os ajudassem escrever aquele projeto. Porque havia pessoas que não conseguiam redigir duas frases com coerência... então a gente chegava e falava assim “olha a sua idéia é interessante, mas você precisa encontrar ajuda para redigir seu projeto”, mas isso fazia parte do que foi trabalhado durante o curso ...”você não tem competência para trabalhar com todas as questões”, então... não é que a pessoa vai pegar e fazer o seu projeto, mas vai trabalhar em cima da sua idéia, sistematizando... isso foi colocado e alguns conseguiram e outros não conseguiram. Eu percebia que alguns... não... este texto não é dele... outros não conseguiram A – Foi interessante que até neste processo eles mesmos começaram a se mapear, vamos dizer assim... quem tinha um especialista em... arte e Educação de outra organização...eles até começaram a colocar este profissional no projeto deles... achei bem interessante... a troca de recursos... B – Deivis, já que a gente está falando da metodologia... acho que esta metodologia de elaborar projetos foi muito interessante... claro que com milhões de atropelos, mas assim: a gente tinha dois grupos, cada grupo com 25 organizações projetos... são vinte e cinco projetos diferentes, então você imagina como era isso.... para um docente... o que a gente fazia? Era um docente com duas turmas, uma de manhã e outra à tarde, com vinte e cinco projetos diferentes por turma e tendo que dar um feedback, um suporte, uma consultoria... eu acho legal estar registrando isso... do ponto de vista metodológico, a gente trabalhava, por exemplo, o conceito... o que é um objetivo 173 geral.... como eu construo isso, entendeu? Aí eles iam e produziam isso... aí, na semana seguinte, a gente pegava dois ou três exemplos de objetivo geral que eles tinham construído e fazíamos uma análise no grupão... até que ponto era coerente ou que não era, o que era correto, o que não era, onde que não estava legal... onde precisaria estar sendo trabalhado...isso no grupão Entrevistador – Os grupos e cada aluno submetia seus projetos à análise dos demais participantes do curso FORMATOS, como forma de favorecer a troca de informações? B – Exatamente... depois disso aí então a gente ía para o subgrupo e trabalhava um outro conceito... assim: Ah! Objetivo geral está claro para todo mundo? Está!! Tinha gente que corria atrás porque não tinha feito, não tinha nem começado, enfim... Aí passava para objetivo específico... trabalhava um conceito e ia para subgrupo... na semana seguinte submetia a uma análise... Acho que é legal colocar isso, porque é uma metodologia que nós tivemos que desenvolver por conta da demanda individual e do grupo como um todo. Era uma demanda muito grande, então a gente teve que construir esta metodologia para dar conta. Entrevistador – Então intercalava-se momentos de reflexão coletiva, em subgrupos, momentos individuais e depois, de novo submetia-se o que o indivíduo produziu à apreciação do grupo? B – É... porque aí você trabalhava no grupão e a idéia era fortalecer o conceito e deixar mais claro para todo mundo, a partir de um exemplo de um determinado projeto. Entrevistador – Entendi... você (para “entrevistado A”) falou a certa altura que é “a metodologia que a gente acredita”. Eu queria que vocês falassem o que consideram... ou como resumiriam esta metodologia de trabalho social utilizada no FORMATOS? B – Olha eu posso dizer o seguinte.... eu pensava isso na época e penso isso até hoje.... que eu acho que você ter numa sala de aula vinte e cinco projetos diferentes e às vezes num esquema de competição....acho que a gente teve que dar uma rebolada....e a gente conseguiu eu acho, por conta da metodologia, fazer com que o esquema de colaboração entre as pessoas ficasse muito tranqüilo, entendeu? Então 174 tinha gente que tinha que estar produzindo seu projeto, mas como ela tinha uma capacidade maior desenvolvida em elaboração de projetos, ela deixava o seu para auxiliar os outros. Teve gente que deixou de fazer o seu para colaborar com os outros...acho que isso é muito interessante.... é uma metodologia de participação. A – Acho que além disso tem a questão de que não era só no grupo, mas que eles tinham que buscar os pares deles fora do grupo, lá na organização, senão eles escreviam da cabeça deles também e não tinha este momento de ficar próximo da realidade, da necessidade daquela localidade, daquela organização. Entrevistador – Então vocês respeitaram a característica deles... se a pessoa tinha possibilidade de discutir com a comunidade, tudo bem... se não era possível este debate, vocês respeitavam o processo dela e da organização. A – É. Acho que alguns casos chegou-se a discutir com a comunidade.... mais mesmo...foi concentrado na organização. C – acho que a gente trabalhou a questão de ser um projeto que fosse representativo, que tivesse sentido dentro da sua comunidade....mas acho que faltava pra gente ter clareza sobre esta questão de Desenvolvimento Local.. B – Não... isso a gente nem cogitava na época... não é que faltava.... a gente nem cogitava. C – Então...talvez se a gente tivesse...a gente teria reforçado, durante toda a capacitação um pouco mais estas questões... outra coisa... que eu acho que a gente conseguiu.... e o grupo comprou bem esta idéia... é que assim, tudo bem que havia um concurso em que cinco iriam ganhar, mas que se a gente tivesse 50 bons projetos na comunidade, este seria o ganho principal... isso valia mais que qualquer concurso e acho que as pessoas, a grande maioria, conseguiu enxergar isso. Tanto que quando sairam os resultados do concurso, teve assim pessoas que diziam ... eles mereceram... foi justo.... Entrevistador – Havia na época a concepção, ou foi inserido, no FORMATOS, o incentivo a um sistema de trabalho em Rede Social entre as Ongs que participaram do curso.... já que eram grupos regionais. 175 A – Acho que teve assim... não foi algo que tenha sido discutido aqui de forma mais consistente... acho que teve pela própria prática dos docentes... de incentivarem eles a trabalharem em grupos, mas não teve esta coisa mais redondinha.... Entrevistador – Nesse sentido não houve uma metodologia de formação de Redes Sociais trabalhada em sala de aula? B – Eu entendo assim... não teve uma proposta, porque se a gente tivesse tido uma proposta, acho que a coisa teria se desenvolvido de uma forma muito mais interessante, mas se comentou de no final trabalhar... fazer Redes, mas não foi uma coisa sistematizada... não sei...acho que as organizações tinham interesse, mas não teve algo pensado assim. C – Acho que sempre que as atividades eram pensadas sempre se pensava de forma que eles se conhecessem.... você estimulava esta troca.... então surgiram parcerias, surgiram projetos conjuntos ... então teve alguns benefícios nesta história... tinhamos a intenção de que se formasse... na verdade a Capacitação chamava a atenção e, como pano de fundo, teve alguns casos em que se formaram parcerias... Entrevistador – E qual avaliação que vocês têm do Programa FORMATOS e, em particular, da metodologia de formação de atores sociais utilizada? B – Olha... eu acho que o FORMATOS contribuiu mesmo...apesar de todos os atropelos... ele contribuiu para dar uma “chacoalhada” nas organizações do ponto de vista da sua gestão. A gente não tem avaliação sistemática, mas a gente teve muito feedback pessoal, por escrito, muito, muito, muito...e eu acho que contribuiu muito. Eu acho que a metodologia foi interessante... não vejo um programa deste que não esteja pautado nesta metodologia.... agora acho que uma coisa que teve e muita gente reclamou foi a questão do tempo... como é que você pode trabalhar Elaboração de Projetos em oito horas, entendeu? É complicado. Agora do ponto de vista metodológico, atendeu... vivencial, participativa. C – Eu acho que a gente acertou neste projeto... acho que trouxe ganhos sim para as organizações. Do ponto de vista metodológico, de modo geral foi bom. 176 A - Falar do programa como um todo...acho que foi bem legal... foi interessante quando as pessoas começaram a trazer mesmo as mudanças... do que se propôs...ver este aspecto da profissionalização... Foi um processo muito democrático, dentro de uma metodologia bastante participativa, onde todos (Senac com seus profissionais e as Organizações Sociais) contribuíram de alguma forma. Entrevistador - Há material (documentos, apostilas, plano de curso) organizado e sistematizado do curso? Ficou registrado? C – Parte disso... C – Olha, estes dias estávamos resgatando isso... uma boa parte a gente achou, mas muita coisa ficou perdida. Assim, plano de aula, quando eram consultores... a gente não tinha. Entrevistador – Vocês gostariam de acrescentar algo? A, B e C – Não. Entrevistador – Gostariam de perguntar algo? Seguiram-se perguntas sobre a dissertação e conversas sobre o trabalho atual dos entrevistados no SENAC. 177