UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM LINGUÍSTICA Do texto ao discurso: aspectos linguísticos e discursivos na construção de sentidos de textos do gênero midiático JOÃO CARLOS PEDRO CUNHA Orientador: Prof. Dr. Manoel Francisco Guaranha Dissertação apresentada ao Mestrado em Linguística, da Universidade Cruzeiro do Sul, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Linguística. SÃO PAULO 2013 AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE. FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL C978t Cunha, João Carlos Pedro. Do texto ao discurso: aspectos linguísticos e discursivos na construção de sentidos de textos do gênero midiático / João Carlos Pedro Cunha. -- São Paulo; SP: [s.n], 2013. 76 p. : il. ; 30 cm. Orientador: Manoel Francisco Guaranha. Dissertação (mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Linguística, Universidade Cruzeiro do Sul. 1. Análise do discurso 2. Linguística aplicada 3. Linguística textual I. Guaranha, Manoel Francisco. II. Universidade Cruzeiro do Sul. Programa de Pós-Graduação em Linguística. III. Título. CDU: 82.085(043.3) UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO Do texto ao discurso: aspectos linguísticos e discursivos na construção de sentidos de textos do gênero midiático João Carlos Pedro Cunha Dissertação de mestrado defendida e aprovada pela Banca Examinadora em 01/11/2013. BANCA EXAMINADORA: Prof. Dr. Manoel Francisco Guaranha Universidade Cruzeiro do Sul Presidente Profa. Dra. Sonia Sueli Berti Santos Universidade Cruzeiro do Sul Profa. Dra. Maria Adélia Ferreira Mauro Universidade de São Paulo AGRADECIMENTOS Aos meus pais - Maria de Jesus Cunha, mãe, guerreira e mulher de fibra, pelo apoio e compreensão durante todos estes anos de estudo; e João Pedro da Cunha, pai, que mesmo tendo partido deste mundo, certamente continua ao meu lado. Aos professores da banca de qualificação, Doutor Manoel Francisco Guaranha, Professor e Orientador, que esteve ao meu lado durante toda a trajetória do Mestrado. À Professora Drª. Maria Valíria Vargas, cujo profissionalismo aprendi a admirar. À Professora Ana Lúcia Tinoco Cabral pelas aulas ministradas, pelo conhecimento transmitido e pela disposição para fazer parte de minha banca. À Professora Maria Adélia Ferreira Mauro por participar da minha banca e pela enorme colaboração no exame de qualificação. A minha esposa e companheira Rosângela da Neves Oliveira Cunha, pela paciência, apoio e horas de sono perdidas. A Deus, por estar sempre ao meu lado, principalmente nos momentos mais difíceis. A todos os professores do Mestrado, pelo conhecimento transmitido durante os anos de estudo e pesquisa. Aos funcionários da secretaria da Pós-Graduação, pela paciência e por terem sido prestativos. Aos meus familiares, amigos e colegas de classe, que sempre acreditaram em meu potencial. “Deus não podia estar em todos os lugares, então inventou as Mães." (Autor Desconhecido) CUNHA, João Carlos Pedro. Do texto ao discurso: aspectos linguísticos e discursivos na construção de sentidos de textos do gênero midiático. 2013. 76 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)-Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2013. RESUMO Esta pesquisa é fundamentada, sobretudo, no quadro epistemológico, desenvolvido pela Linguística Textual e pela Análise do Discurso de linha francesa e tem como objeto de estudo dois exemplares de gêneros do discurso da esfera jornalística: o artigo de opinião e a notícia. Foram escolhidos textos cuja temática é a educação, com recorte na qualidade do ensino público no Brasil, na figura do professor e nos processos avaliativos a que ele tem sido submetido pelas esferas da administração pública. Estabeleceu-se como problema de pesquisa a investigação sobre como os mecanismos de produção textual articulam-se na materialidade linguística do texto e são responsáveis pela produção dos sentidos manifestos no discurso e, a partir disso, foi estabelecido como objetivo geral da pesquisa desenvolver estratégias de leitura e compreensão de textos que pudessem ampliar as perspectivas de análise textual para aplicá-las no aprimoramento da prática docente. Sem procurar desenvolver um método de leitura e análise aplicável a quaisquer textos, porque se tem consciência de que nenhum método estanque daria conta de se adequar à variedade de textos e discursos já produzidos e a serem produzidos, a pesquisa propõe uma possibilidade de leitura segundo princípios de análise que visam a superar a descrição dos elementos gramaticais e incorporar a esses elementos alguns conceitos-chave de análise do discurso que possibilitem uma visão orgânica do fenômeno linguístico. Nesse sentido, a pesquisa percorre o trajeto do texto ao discurso e procura mostrar que esse caminho não é linear, nem separa os pontos de partida e de chegada, como se fossem situados em uma reta, mas os articula num movimento espiral, num processo ascendente, que ganha força à medida que avança. Palavras-chave: Texto, Discurso e ensino, Análise do discurso, Linguística textual, Linguística aplicada. CUNHA, João Carlos Pedro. From text to speech: linguistic and discursive aspects in the construction of meanings of texts of media genre. 2013. 76 f. Dissertação (Mestrado em Linguística)-Universidade Cruzeiro do Sul, São Paulo, 2013. ABSTRACT This research is mainly based on the epistemological framework developed by the Textual Linguistic and Discourse analysis on the French line and its object of study is two copies of the discourse genders of the journalistic sphere: opinion article and report. We chose texts whose theme is education, with clipping on the quality of the Brazilian public teaching, on the teacher´s figure and evaluative processes in which he has been submitted by the public administration spheres. It was established as research problem, an investigation how the mechanisms of text production join themselves on the linguistic materiality of the text and they are responsible for the production of senses manifested on the discourse, and from this, it was established as a research general aim to develop reading strategies and text comprehension which could extend the perspectives of text analysis to apply them on the teaching practice enrichment. Without trying to develop a method of reading and analysis applicable to any texts, because we are aware that any sealed method would be able to adjust itself to the variety of texts and discourses already produced and to be produced, the research proposes a possibility of reading based on principles of analysis which aims to overcome the grammar elements and incorporate to these elements some key concepts of discourse analysis which make possible, so to speak, an organic view of the linguistic phenomenon. Therefore, the research goes through the way from the text to the discourse and tries to show that this way is not linear, and do not separate the starting and arrival points as if they were situated on a straight line, but join them in a spiral movement, in an ascendant process, which gets power as soon as it goes up. Keywords: Text, Discourse and teaching, Discourse analysis, Textual linguistic, Applied linguistic. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 8 1 DO TEXTO AO DISCURSO ...................................................................... 11 2 GÊNEROS DA ESFERA MIDIÁTICA ........................................................ 26 2.1 Gêneros .................................................................................................... 26 2.2 Notícia ....................................................................................................... 32 2.3 Artigo de Opinião ..................................................................................... 33 3 ANÁLISE DO ARTIGO DE OPINIÃO “PROVA PARA PROFESSORES É MAIS UMA JABUTICABA”, PUBLICADO NO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO, EM 09/05/2011 ................................................................... 36 4 ANÁLISE DA NOTÍCIA “ALCKMIN CHAMA PROFESSORES REPROVADOS PARA DAR AULAS”, PUBLICADA NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO EM 25/02/2012. ............................................................. 52 5 CONFLUÊNCIAS ENTRE OS DOIS TEXTOS .......................................... 66 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 71 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 75 8 INTRODUÇÃO Vinculado ao Programa de Mestrado em Linguística da Universidade Cruzeiro do Sul e à linha de pesquisa Texto, discurso e ensino: processos de leitura e de produção do texto escrito e falado, este trabalho é fundamentado, sobretudo, no quadro epistemológico desenvolvido pela Linguística Textual e pela Análise do Discurso de linha francesa e tem como objeto de estudo o discurso jornalístico, analisando textos que abordam a temática da educação, mais precisamente, a temática da qualidade do ensino público no Brasil, a construção da figura do professor e os processos avaliativos a que ele tem sido submetido pelas esferas da administração pública. Ao longo de mais de vinte anos atuando como professor, tenho percebido que um dos grandes problemas é a dificuldade de leitura dos alunos e, além disso, a dificuldade que eles têm de desenvolver uma leitura crítica. Isso me levou a buscar ferramentas teóricas que dessem conta de entender os elementos do texto que são responsáveis pela produção dos sentidos veiculados, para que eu pudesse desenvolver, na minha prática docente, processos que me possibilitassem conscientizar os discentes sobre as inúmeras possibilidades que há além da decodificação pura e simples das palavras. Desse modo, meu problema de pesquisa constituiu-se em compreender como os mecanismos de produção textual articulam-se na materialidade linguística do texto e são responsáveis pela produção dos sentidos manifestos no discurso. A partir desse problema, estabeleci o objetivo geral da pesquisa: desenvolver estratégias de leitura e compreensão de textos que pudessem ampliar as minhas perspectivas de análise textual para aplicá-las no aprimoramento da prática docente. Este trabalho não procurou desenvolver um método de leitura e análise aplicável a quaisquer textos, mesmo porque nenhum método estanque daria conta de se adequar à variedade de textos e discursos já produzidos e a serem produzidos, mas a pesquisa busca propor uma possibilidade de leitura segundo princípios que visam a superar a descrição dos elementos gramaticais e a incorporar 9 a esses elementos alguns conceitos-chave de Análise do Discurso que possibilitam uma visão, por assim dizer, orgânica do fenômeno linguístico. Também a minha prática docente influiu na escolha do corpus, cujo tema é educação. Ao analisar essa temática, busquei na prática da leitura discursiva dos textos de comunicação selecionados flagrar as imagens construídas do objeto do discurso; as imagens e o posicionamento dos atores da enunciação; a construção da figura do professor nos objetos específicos analisados; a ideia das políticas públicas para o setor, problematizadas por meio do tom irônico dos enunciadores, do ethos e da corporalidade construídos na e pela linguagem. Acreditamos que, desse modo, num breve, porém intenso trabalho, cumprimos o percurso que vai do texto ao discurso, levando em conta a questão genérica de materiais linguísticos que circulam na esfera midiática e que tratam de temas afins. Entre os textos pesquisados, foram selecionados para análise nesta dissertação dois exemplares da esfera midiática, um deles pertencente ao gênero artigo de opinião: “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba”, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 09/05/2011; e outro pertencente ao gênero notícia: “Alckmin Chama Professores Reprovados para Dar Aulas”, publicado no jornal Folha de São Paulo, em 25/02/2012. Para que este trabalho fosse desenvolvido, foram elaborados cinco capítulos, além de uma introdução e das considerações finais. O primeiro capítulo, “Do texto ao Discurso”, discorre sobre os conceitos que permeiam a Linguística Textual e a Análise do Discurso, as funções dessas ideias na compreensão de fenômenos como argumentatividade no processo do desenvolvimento e da análise da produção textual. O segundo capítulo, “Gêneros da Esfera Midiática”, traz os conceitos de artigo de opinião e notícia, gêneros que foram utilizados nesta pesquisa. As considerações sobre a esfera em que circulam vinculam-se diretamente à forma como o discurso se materializará nos textos, já que a mídia e as suas condições de produção e recepção impõem uma série de modos de construção desses textos. 10 O terceiro capítulo analisa o artigo de opinião “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba”. Nele procuramos utilizar tanto os conceitos estudados na Linguística Textual quanto na Análise do Discurso para compreender a argumentatividade presente no artigo de opinião e como essa propriedade se constrói não só por meio da construção de uma tese apoiada em fatos, ações ou exemplos, mas também por meio da seleção lexical e do ethos do enunciador. O quarto capítulo analisa a notícia “Alckmin Chama Professores Reprovados para Dar Aulas”. Nele estudamos o gênero notícia e a tensão textual e discursiva que há entre o objetivo enunciativo primeiro desse gênero, informar, e os procedimentos discursivos que fazem do exemplar em questão um texto que forma opinião. O quinto capítulo trata da convergência entre os dois textos. Embora pertençam a gêneros diferentes, percebe-se que ambos, por diferentes vias, propõem uma leitura mais ampla de fatos pontuais. No caso do artigo de opinião, isso é justamente o objetivo enunciativo do gênero. No caso da notícia, essa visão transcende um pouco o objetivo primeiro do texto, que seria o de relatar um fato novo, e faz com que ela, ao combinar elementos textuais e discursivos, apresente-se como um texto de grande dimensão argumentativa. Para cumprir esse objetivo, foram considerados os seguintes aspectos teóricos: o texto como unidade discursiva: Koch (2004); a questão dos gêneros: Bakhtin (2003) e, mais especificamente, dos gêneros jornalísticos: Alves Filho (2011); os tipos textuais: Adam (2008); a noção de contexto: Maingueneau (2001); e os enunciadores e a construção do ethos: Brandão (1995), Orlandi (2001) e Maingueneau (2001). A partir dessa referência teórica, estabelecemos como categorias de análise as marcas linguístico-discursivas, que indiciam a presença de um enunciador e seu posicionamento face ao que diz; a seleção lexical empreendida; o uso dos tempos verbais; as formações ideológicas e discursivas; e a construção do ethos no sujeito. 11 1 DO TEXTO AO DISCURSO Pretende-se, neste capítulo, estudar os conceitos de texto e discurso e a relação entre eles partindo-se da concepção de que o discurso se materializa nos textos e que é possível identificar, na materialidade deles, aspectos ideológicos do discurso por meio de uma leitura interativa do corpus. Corrobora estas afirmações Guimarães, ao mencionar que: “Todo texto está ligado ao contexto, seu sentido organiza-se não só no jogo interno de dependências estruturais, mas ainda nas relações com aquilo que está fora dele”. (2012, p.77) A leitura é o momento crítico da unidade textual, de seu significado. É justamente nesse momento que os interlocutores se identificam como interlocutores, desencadeando assim o processo de significação do texto. Dessa forma, “sujeito e sentido se constituem simultaneamente, em um mesmo processo que se configura de formas muito diferentes, dependendo da relação que se estabelece entre o leitor virtual e o leitor real” (ORLANDI, 2008, p.8). Para compreendermos esse complexo processo de seleção e organização do material linguístico pelo sujeito produtor que se dirige a outros sujeitos, a Linguística Textual nos fornece valiosas ferramentas. Selecionando e sintetizando algumas posições de Kock (2012) sobre o texto, podemos afirmar que a produção textual consiste em uma atividade verbal, consciente, criativa e interacional, a serviço de fins sociais e, portanto, inserida em contextos mais complexos de atividades; compreende o desenvolvimento de estratégias concretas de ação e a escolha de meios adequados para isso; procura realizar objetivos comunicativos (p. 26) que consistem não apenas em transmitir informações, mas persuadir os interlocutores. Partindo para uma melhor explanação sobre o processo de leitura, à luz da Linguística Textual, buscaremos, com o auxílio de Koch, definições na intenção de facilitar o entendimento dessa atividade interativa envolvendo textos e sujeitos leitores. 12 A Linguística Textual é o “ramo da linguística que toma o texto como objeto de estudo” (KOCH, 2004, p. 11) em contraponto a um tipo de Linguística que se preocupava com a descrição das estruturas que raramente transcendiam a frase. Desse modo, para este ramo da Linguística, passaram a ser importantes os estudos dos “mecanismos interfrásticos que são parte do sistema gramatical da língua, cujo uso garantiria a duas ou mais sequências o estatuto de texto” (KOCH, 2004, p. 3). Ao contrário das correntes estruturalistas, que procuram enfatizar os aspectos formais e estruturais do texto, a Linguística Textual procura concentrar suas atenções no processo comunicativo estabelecido entre o autor, o leitor e o texto dentro de um determinado contexto. Essa interação que há entre esses três elementos possibilita definir a textualidade presente em um texto e procura utilizar diversos conceitos da Linguística corrente, frequentemente presentes na produção de diferentes tipos de texto e responsáveis pela sua organização. A partir dessas afirmações, percebe-se a enorme utilidade da Linguística Textual no desenvolvimento e compreensão de um texto bem elaborado, pois o sujeito produtor procura utilizar de forma consciente e controlada as estratégias linguísticas de produção, o que exige que essas estratégias sejam identificadas pelo sujeito leitor para que possa transcender a mera informação e compreender os aspectos ideológicos discursivos que elas veiculam: A elaboração de um texto exige que o redator utilize simultaneamente um grande número de operações: tratar da pontuação, dos conectores, da organização temática local e global, dos tempos verbais, apenas para citar algumas. Mas, a produção de um texto requer também uma série de operações não-linguísticas: recuperar, analisar, selecionar e organizar as informações pertinentes, convocar os esquemas cognitivos; respeitar uma estrutura tipológica, entre outros. Isto supõe que se leve em conta o contexto enunciativo, considerando qual é o objetivo do produtor e qual é o objetivo do leitor. (KOCH 2004, p. 169) Compreendemos, a partir das palavras de Koch (2004) citadas que o processo de produção de um texto começa nas operações linguísticas no plano gramatical e se expande em operações discursivas ligadas ao uso da linguagem em ação, em contexto, o que nos remete à idéia de estudar esse percurso do texto ao discurso. Sendo assim, nosso processo de leitura dos textos, que é a contrapartida do processo de produção, procurou percorrer esse caminho, ou seja, analisar as 13 operações do enunciador, tais como a forma correta de como utilizar a pontuação, o uso dos conectores, a organização temática local e global, os tempos verbais etc., para verificar como elas produzem sentido e como essas operações, de caráter linguístico, num primeiro momento, revelam intenções discursivas. Compreender o texto como uma unidade de sentido que vai além das relações imediatas entre significante e significado é atentar para as dimensões constitutivas dele: coesão e coerência, elementos sobre os quais discorreremos logo a seguir. Não há como não evidenciar o importante papel da frase no processo de textualização, dada a imensa relevância que possui tanto para construir quanto para articular o texto, pois é necessário que sejam seguidas algumas regras gramaticais. Guimarães afirma que: As possibilidades expressivas da frase no texto, ou da frase ao texto, evidenciam-se nas relações sintáticas e seu funcionamento impõe padrões organizadores à superfície textual, modelando a organização patente das palavras. (2012, p.12) Não se pode formar uma estrutura tal como “jogar fui futebol eu menino com o”, visto que a forma usual, seguindo as normas gramaticais é “eu fui jogar futebol com o menino”. Por meio desse exemplo, “torna-se clara a função da sintaxe no processo da textualização, destacando a noção de coesão e coerência como dimensões constitutivas do texto” (GUIMARÃES, 2012, p.15). Guimarães (2012, p. 15) conceitua coesão como “todos os procedimentos que marcam relações entre os elementos superficiais de um texto”. Charaudeau e Maingueneau (2008, p. 98) em seu Dicionário de Análise do Discurso conceituam coesão, a partir do trabalho de Halliday e Hasan (1976) em Cohesion in English, como “o conjunto dos meios linguísticos que asseguram as ligações intra e interfrásticas que permitem um enunciado oral ou escrito aparecer como um texto.” Dessa forma, a coesão é responsável pela conexão e continuidade dos sentidos. À luz da afirmação de Charaudeau e Maingueneau, pode-se afirmar que, coesão, em gramática de texto, é inseparável da noção de progressão temática, que Guimarães (2012, p.67) afirma ser “traço indispensável no processo de textualização, sem o qual não se pode conceber textualidade ela própria”. Para 14 entender esse processo de progressão temática, é importante considerar as articulações tema/rema.Tema significa o que é posto pelo discurso e rema significa o que é dito do tema. Para um melhor entendimento da relação tema/rema, podemos afirmar que cada oração geralmente é dividida em duas partes: sujeito e predicado. Nesse caso, o sujeito é o tema e o predicado, o rema, ou seja, o início da oração, que traz uma informação dada é denominado tema e a outra parte da oração, ou tudo o que sobrar, é denominado rema, que é a informação nova. Na parte que corresponde ao tema, a informação dada tem a função de estabelecer um contexto para que haja uma melhor compreensão do que será dito, o rema. Charaudeau e Maingueneau (2008, p.463) ainda afirmam que “os lugares de início (tema), de meio (transição) e do fim da frase (rema) possuem diferentes graus de dinamismo comunicativo: do mais baixo grau para o tema (do que se fala) ao mais alto grau para o rema (o que se fala do tema)”. Adam reforça essa ideia: [...] o tema que fica à esquerda da oração é o ponto de vista do enunciador, o ponto de partida do enunciado e o grupo que fica à direita, o rema corresponde ao que é dito do tema, é o elemento frasal mais informativo e que faz avançar a comunicação. (2008, p. 87). Um estudo mais elaborado das estratégias de progressão temática de um texto pode nos revelar as intenções discursivas do sujeito, como nos sugere a tipificação do fenômeno. Há três tipos de progressão temática, as quais Charaudeau e Maingueneau definem como: Progressão de tema constante: um mesmo tema é retomado de uma frase à outra e associado a remas diferentes; progressão linear simples: o tema de uma frase é tirado do tema da frase precedente; o verbo da transição pode igualmente ser nominalizado em uma frase seguinte e progressão de temas derivados que se organiza a partir de um tema no qual são desenvolvidos diferentes subtemas.(2008, p.463) Da articulação tema/rema, do jogo entre a retomada de elementos e inserção de comentários, obtém-se em grande parte a coerência de um texto que Guimarães (2012, p.16) afirma ser “a unidade semântica do texto num contexto determinado que toma corpo em sequência de enunciados”, ou seja, um texto só pode ser constituído como tal porque apresenta coerência. Em consonância com isso, Charaudeau e Maingueneau afirmam que “no cerne da definição do texto, a 15 coerência é, em linguística textual inseparável da noção de coesão, com a qual é frequentemente confundida”. (2008, p.98) Dessa forma, é correto afirmar que a coerência está associada ao fato de estabelecer um sentido ao texto, ou seja, é ela que permite que o texto tenha sentido, seja interpretado pelo coenunciador. Esse processo também inclui conhecimento de mundo, ao que podemos denominar memória discursiva ou conhecimento enciclopédico. Koch, no intuito de melhor conceituar coerência afirma que: Para haver coerência, é preciso que haja possibilidade de estabelecer no texto alguma forma de unidade ou relação entre seus elementos. Isto ratifica a conceituação da coerência como um princípio de interpretabilidade e nos leva à posição de que não existe o texto incoerente em si, mas que o texto pode ser incoerente em/para determinada situação comunicativa. Assim, ao dizer que um texto é incoerente, temos que especificar as condições de incoerência. (2012, p.21) È possível observar que, em determinados textos, o desenvolvimento de subtemas a partir de um tema, às vezes, põe em evidência determinado subtema de modo que, em um gênero informativo como a notícia que parte de um acontecimento específico, que mais tarde trataremos como evento deflagrador, muitas vezes faz sobressair, por meio da ênfase em um subtema, a opinião do sujeito em detrimento da informação. Outro fator relevante para nossa análise é o conceito de intertextualidade de que se apropria a Linguística Textual: trata-se de um processo no qual um texto é incorporado a outros e que depende também do conhecimento dos outros textos por parte do interlocutor, o que podemos denominar memória discursiva ou conhecimento de mundo. Koch, Bentes e Cavalcante (2008, p.9) afirmam que “A Linguística Textual incorporou o postulado dialógico de Bakhtin de que um texto não existe e nem pode ser visto de forma isolada; está sempre em diálogo com outros textos”. Dessa forma, percebe-se que todo texto contém partes ou trechos de outros textos, ou seja, a intertextualidade está presente em toda atividade textual, seja por meio da intertextualidade stricto sensu, que engloba a intertextualidade temática, intertextualidade explícita, intertextualidade implícita, détournement, a 16 intertextualidade intergenérica e a intertextualidade tipológica, índices de polifonia, seja pela intertextualidade lato sensu, em um sentido mais amplo. Outro conceito que tangencia a intertextualidade é o de polifonia. Koch, Bentes e Cavalcante também discutem a diferença entre esses termos: Quando se incorporam textos anteriormente atestados, como é comum na paródia, na alusão, em certos casos de ironia etc., tem-se a intertextualidade implícita; quando tal não acontece, já não se trata de intertextualidade, mas, na verdade, de polifonia. (2008, p. 80). Essa intertextualidade, em sentido mais amplo, está relacionada ao fato de que “todo texto é um objeto heterogêneo e que dele fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga, que ele retoma, a que alude ou aos quais se opõe” (KOCK; BENTES; CAVALCANTE, 2008, p.9). Além disso, constitui um elemento próprio, de caráter dialógico de todos os textos e pode ser resgatado pela memória discursiva. Nosso trabalho procurou resgatar e analisar os efeitos de sentido que os diferentes modos de intertextualidade, bem como os aspectos polifônicos dos textos produzem no artigo de opinião e na notícia. Como se percebe por esta exposição, frequentemente transitamos, nos conceitos que abordamos, do texto como material linguístico aos domínios dos efeitos dele no sujeito leitor/ouvinte no ato de ler/ouvir na linguagem posta em ação, o que nos leva ao discurso. Compreendendo discurso como palavra em movimento, prática de linguagem, um conjunto de idéias que de forma organizada influi no raciocínio e até mesmo nos sentimentos do enunciador e do leitor, além de representar o ponto de junção entre processos ideológicos e fenômenos linguísticos, revelando, dessa forma, os efeitos das contradições ideológicas que há no interior da linguagem, acreditamos que se faz necessária a articulação entre os aspectos da Linguística Textual estudados até aqui e que foram aplicados à análise de corpus e os conceitos da Análise do Discurso. Sendo assim, com o estudo do discurso, percebe-se o homem falando. Por meio dessa percepção, Brandão afirma que: A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de 17 pensamento; a linguagem enquanto discurso é interação, é um modo de produção social; ela não é neutra, inocente (na medida em que está engajada em uma intencionalidade) e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação de ideologia. É lugar de conflito, de confronto ideológico, não podendo ser estudada fora da sociedade uma vez que as pessoas que a constituem são histórico-sociais. (1995, p.12). Etimologicamente, a palavra discurso tem a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimentar. Pode também ser conceituado como toda atividade comunicativa entre interlocutores, atividade produtora de sentidos que se dá na interação entre falantes. O termo pode também designar outros usos da língua, tais como o discurso político, o discurso argumentativo etc. Nesse emprego, “discurso tem sentido ambíguo, pois pode designar tanto o sistema que permite produzir um conjunto de textos, quanto o próprio conjunto de textos produzidos” (MAINGUENEAU, 2001, p.51). Sendo assim, podemos isolar aspectos que devem ser levados em consideração na análise do discurso: ação, interlocução, produção de sentido e interação. Esses elementos podem, portanto, ser articulados em busca das características do discurso. Ao comentar sobre texto e discurso, Guimarães afirma que: O sentido do texto não é único; ele admite uma pluralidade de leituras, mas não toda e qualquer interpretação, evidentemente. É preciso captar e analisar indícios para perceber as interpretações que são validadas no discurso. Lembre-se ainda: enquanto o discurso é limitado por coerções sociais, a liberdade de textualizar é grande. Em termos práticos, configurase isso no fato de não se poder dizer qualquer coisa, de qualquer modo, para qualquer pessoa. (2012, p. 128) Os discursos estão submetidos a algumas regras de utilização que fazem parte de um grupo social determinado, que se referem a uma narrativa, uma argumentação e a um diálogo. “O discurso não é um conjunto de textos, é uma prática. Para que seja encontrada sua regularidade seus produtos não são analisados, mas os processos de sua produção” (ORLANDI, 1988, p.55). O discurso, Brandão (1995, p.12) afirma ser “o ponto de articulação dos processos ideológicos e dos fenômenos linguísticos”, o que nos autoriza a analisar nosso corpus sob as perspectivas da Linguística Textual e da Análise do Discurso, articulando-as, já que o discurso não trata da língua nem da gramática isoladamente: ambos lhe interessam. Desse modo, a Análise do Discurso vê o discurso como a palavra em movimento, como prática de linguagem. O trabalho 18 simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. “O discurso é o lugar onde se pode observar a relação entre língua e ideologia” (ORLANDI, 2001. p.15). As palavras chegam até nós carregadas de sentidos e de definições que muitas vezes não sabemos como foram constituídas e, às vezes, nem ao menos temos noção do que vêm a ser. A análise do Discurso procura nos auxiliar no entendimento desses conceitos. Orlandi afirma que a Análise do Discurso se apresenta como: Uma disciplina não acabada, em constante construção, problematizante, em que o linguístico é o lugar, o espaço, o território que dá materialidade, espessura a idéias, conteúdos, temáticas de que o homem se faz sujeito. (1995, p.84). Por meio dessa afirmação, é possível perceber o importante papel que a Análise do Discurso teve em nosso trabalho, pois as propostas dessa forma de abordagem propõem uma problematização do texto no sentido de buscar nas escolhas linguísticas do sujeito e na forma de organizá-las a carga argumentativa e ideológica de que se revestem nos textos. Compreendendo a ligação entre texto e discurso e a importância da análise do discurso e do sentido do texto, Guimarães, ao comentar sobre a diferença entre texto e discurso, afirma que A diferença entre texto e discurso não está na materialidade, mas nos traços com que o processo da enunciação marca a materialidade textual. O conjunto de palavras deixa, pois, de ser texto e se transfigura em discurso, quando o leitor ou o ouvinte focaliza o objetivo de suas intenções. Desse modo, a análise do discurso inicia-se com a análise do texto. Apreende-se, então, o texto como repertório do discurso, não existindo o sentido sem a forma que o materializa. (2012, p. 119) A questão da ideologia veiculada pelo discurso é complexa. Para se fazer alguns apontamentos em relação à formação ideológica, podemos partir do conceito do termo ideologia. Brandão (1995, p.19) comenta que “Marx e Engels identificam ideologia como a separação que se faz entre a produção das idéias e as condições sociais e históricas em que são produzidas, porém, em suas obras é possível encontrar o temo repleto de uma carga semântica negativa. A ideologia está associada ao imaginário, que se caracteriza por ser o modo por meio do qual o 19 homem atua com as condições reais de vida, se materializa nos atos concretos, assumindo dessa forma um caráter moldador das ações”. Para um conceito mais amplo do fenômeno, Brandão afirma que: Ideologia é uma visão, uma concepção de mundo de uma determinada comunidade social numa determinada circunstância histórica. Isso vai acarretar uma compreensão dos fenômenos linguagem e ideologia como noções estreitamente vinculadas e mutuamente necessárias. Nesse sentido, não há um discurso ideológico, mas todos os discursos o são. (1995, p. 27). Por meio dessa afirmação, é possível perceber a estreita ligação entre ideologia e discurso, pois ambos fazem parte da visão da sociedade sobre vários aspectos. Orlandi, também afirma que: [...] a ideologia é a condição para constituição do sujeito e dos sentidos. Ela interpela o indivíduo em sujeito para que ele produza o dizer e tem como trabalho produzir evidências, colocando o homem na relação imaginária com suas condições materiais de existência. (1995, p. 46). “É no discurso que a materialidade ideológica se concretiza” (Brandão, 1995, p.37). Ao fazermos uma análise de uma junção entre ideologia e discurso, rapidamente virão à tona dois conceitos relacionados à Análise do Discurso: formação ideológica e formação discursiva, visto que os discursos são governados por formações ideológicas. Podemos também afirmar que essas duas definições estão totalmente relacionadas. É a formação discursiva que determina o que cada enunciado deve e pode falar. Orlandi afirma que: O sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam. (1994, p. 42-43) É a formação discursiva que, além de nos permitir compreender o processo de produção dos sentidos e a sua relação com os sentidos, permite também ao analista estabelecer regularidades no funcionamento do discurso (ORLANDI, 1995, p.42). Assim a formação discursiva, por meio de uma formação ideológica dada, determina o que pode e deve ser dito. A formação discursiva desempenha um papel tão importante na análise do discurso que uma mesma palavra pode possuir significados diferentes por fazer 20 parte de formações discursivas diferentes. Podemos destacar dessa forma o importante papel do analista do discurso, que: [...] deverá observar as condições de produção e verificar o funcionamento da memória, que também possui papel de grande destaque na análise do discurso. Dessa forma, o analista deve remeter o dizer a uma formação discursiva para que seja compreendido o que ali foi dito. (ORLANDI, 1995, p.45). Por meio dessas afirmações, podemos dizer que todos nós temos nossos papéis e os desenvolvemos na sociedade. É possível dizer que o professor em sala de aula desempenha o papel de ensinar, tirar dúvidas dos alunos, determinar o que deve e o que não deve ser desenvolvido em sala de aula etc. Porém, o fato de desenvolver o papel de professor em sala de aula, não significa que deva desenvolver o mesmo papel fora da sala, seja em um supermercado, seja praticando algum esporte junto com os amigos ou desenvolvendo outra atividade que não seja a de professor. Para melhor explicar essa passagem, Maingueneau afirma que: Falar de papel é insistir no fato de que cada gênero do discurso implica os parceiros sob a ótica de uma condição determinada e não de todas suas determinações possíveis. Nossa personalidade desenvolve-se de acordo com os papéis que desenvolvemos na sociedade. (2001, p. 70). Conforme o lugar, a situação ou o momento, é possível desenvolver diferentes papéis na sociedade; em um texto não é diferente, pois de acordo com Maingueneau (2001, p.95) “os enunciados são apresentados como sendo o produto de uma enunciação que implica uma cena e toda fala procede de um enunciador encarnado”. Um texto é sempre encarnado por uma voz, a de um sujeito situado para além do texto, ou seja, por meio da enunciação revela-se a personalidade do enunciador. Essa personalidade Maingueneau (2001) classifica como o ethos. A eficácia do ethos vai depender da forma com que o enunciador se envolve na enunciação, sem estar explícito no enunciado. Assim, cabe ao analista de discurso localizar e interpretar o ethos do enunciador no texto, pois conforme Maingueneau (2001, p.98) “todo texto escrito possui um tom que dá autoridade ao que é dito. Dessa forma, o leitor consegue construir uma representação do corpo do enunciador. Assim, a leitura faz emergir uma instância subjetiva que faz o papel de fiador do que é dito”. 21 Partindo para uma definição um pouco mais abrangente de ethos na qual também se pode incluir o conjunto de determinações físicas e psíquicas, que envolvem ainda representações coletivas que estarão ligadas à personagem do enunciador, Maingueneau (2001 p. 98) afirma que “Enquanto que o caráter corresponde a uma gama de traços psicológicos, a corporalidade corresponde à compleição corporal e também a uma maneira de se vestir e de se movimentar no espaço social”. O ethos também pode agir sobre o coenunciador, modificando sua forma de agir em um procedimento definido como incorporação. Maingueneau afirma que: [...] essa incorporação opera em três registros indissociáveis: a enunciação leva o co-enunciador a conferir um ethos a seu fiador, dando-lhe corpo, o co-enunciador incorpora um conjunto de esquemas que definem uma forma específica de se inscrever no mundo, permitindo a essas duas incorporações a constituição de um corpo, o da comunidade imaginária dos que aderem a um mesmo discurso. (2001, p.99). Visto que trouxemos à tona a definição de ethos, julga-se necessário também comentar sobre as três cenas de enunciação: cena englobante, cena genérica e cenografia. Enquanto a cena englobante é aquela que corresponde ao tipo de discurso, que pode ser político, religioso, educacional etc, a cena genérica, conforme etimologicamente indica o próprio nome, refere-se ao gênero no qual o enunciador está envolvido. Essas duas cenas, Maingueneau (2001 p.87) define como “o quadro cênico do texto, visto que é ele que define o espaço estável no interior do qual o enunciado adquire sentido – o espaço instável do tipo e do gênero do discurso”. A cenografia, que está ligada ao ethos do sujeito, implica um processo de enlaçamento paradoxal. Logo de início, a fala supõe uma certa situação de enunciação que, na realidade, vai sendo validada progressivamente por meio da própria enunciação. Assim, “a cenografia é ao mesmo tempo a fonte do discurso e aquilo que ele engendra. Ela legitima um enunciado que também vai legitimá-la” (MAINGUENEAU, 2001, p.89). Uma cenografia também pode apoiar-se em cenas de fala que podemos chamar de cenas validadas, isto é, “já instaladas na memória coletiva, seja como 22 modelos que se rejeitam ou como modelos que se valorizam” (MAINGUENEAU, 2011 p. 92) Vários são os casos em que o enunciador apresenta-se de uma forma, porém ao decorrer do seu discurso mobiliza cenografias variadas, como forma de persuadir o coenunciador. Entretanto, muitas vezes não é possível, apenas por meio de uma primeira leitura, identificar realmente qual é a cena de enunciação presente no texto, pois, conforme Maingueneau (2001, p.87) “todo discurso, por sua manifestação mesma, pretende convencer, instituindo a cena de legitimação que o legitima”. Dessa forma, por meio dessa afirmação, é possível perceber que podemos ser confundidos pela cena de enunciação por falta de uma leitura mais minuciosa do texto. O gênero, às vezes, não permite que seja identificado logo em primeiro plano qual cenografia será utilizada. Conforme Maingueneau: [...] enquanto que alguns gêneros, considerados pouco numerosos, não permitem adotar cenografias variadas (lista telefônica), há outros que exigem a escolha de uma cenografia (publicitário), que não deixam prever qual cenografia será mobilizada. (2001, p.89). Dessa forma, é possível perceber que, ao falarmos de cena validada e não cenografia validada, destacamos o discurso utilizado pelo grupo que automaticamente resgata o que podemos chamar de memória discursiva. Maingueneau afirma que: O repertório das cenas disponíveis varia em função do grupo visado pelo discurso: uma comunidade de fortes convicções (seita religiosa, escola filosófica, etc.) possui sua memória própria; mas, de modo geral, podemos associar a qualquer público, por vasto e heterogêneo que seja, uma certa quantidade de cenas supostamente compartilhadas. (2001, p.92). Após o esclarecimento das definições de formação ideológica e formação discursiva associadas à definição de ethos, retomando além disso os conceitos de cenas de enunciação, não poderíamos deixar de comentar sobre “as regras que desempenham um papel crucial no processo de compreensão dos enunciados” (MAINGUENEAU, 2001, p.32), ou seja, as leis do discurso. Essas chamadas leis desempenham um papel fundamental na interpretação de enunciados e determinam que os interlocutores devem respeitar as normas de 23 um ato de comunicação verbal como se fizessem parte de um jogo. O simples fato de entrar em um processo de comunicação verbal indica que as regras do jogo devem ser respeitadas. Maingueneau (2001, p.32) afirma que “os parceiros devem compartilhar um certo quadro e colaborar para o sucesso dessa atividade comum que é a troca verbal, em que cada um reconhece seus próprios direitos e deveres, assim como os do outro”. Pelo fato de desempenharem um papel fundamental no processo de comunicação dos enunciados, as leis do discurso permitem que haja a transmissão de conteúdos implícitos. Nesse processo, denominado implicatura “o leitor é levado a inferir sobre o texto” (MAINGUENEAU, 2001, p.33). Esses implícitos subdividemse em subentendido e o outro que, em geral, opõe-se a ele, o pressuposto. O primeiro envolve o contexto de enunciação, ou seja, o enunciador quer que o coenunciador chegue a um raciocínio. Por exemplo, na frase “Vá embora”, o coenunciador pode entender que o enunciador não quer mais sua presença no local ou que sua presença ali já é suficiente e agora ele precisa ir embora. Esse caso envolve uma implicatura, ou seja, o coenunciador deve inferir o que o enunciador quer dizer. Nesse caso, o princípio de cooperação é respeitado, porém de forma indireta. Em outra frase: “Parei de fumar faz um ano”, fica subentendido que eu fumava há um ano e agora não fumo mais. “As leis do discurso e as relações mantidas entre si podem variar de um autor a outro”, conforme afirma Maingueneau (2001, p. 34). A lei da pertinência, assim como a lei da sinceridade, tem um alcance mais geral, porém deve ser totalmente adequada ao contexto em que acontece; deve interessar ao destinatário sendo pertinente ao local e ao contexto em que estão inseridas. Conforme Maingueneau (2001, p. 35) “toda enunciação implica sua pertinência, o que leva o destinatário a procurar essa pertinência”. A lei da sinceridade refere-se à forma com que o enunciador se compromete com o ato de fala que realiza e implica um determinado número de condições, como se o enunciador fizesse parte de um jogo, ou seja, ele é obrigado a cumprir as regras. Maingueneau afirma que “A lei da sinceridade não será respeitada se o enunciador enuncia um desejo que não quer ver realizado, se afirma algo que sabe 24 ser falso, etc. Para afirmar algo, deve estar em condições de garantir a verdade do que se diz”. (2001, p.35). A lei da informatividade estipula que não se deve falar simplesmente por falar, sem dizer nada, ou seja, o enunciado deve trazer informações novas ao destinatário: “se alguém proferiu um enunciado que aparentemente não fornece nenhuma informação, é para transmitir-me um outro conteúdo”. (MAINGUENEAU, 2001, p.36). A lei da exaustividade é muito parecida com a lei da informatividade, pois especifica que o enunciador deve dar o máximo de informações, não deixando de considerar a situação, com o máximo de precisão possível. Maingueneau (2001, p.36) afirma que a lei da exaustividade exige que não se esconda uma informação importante. Ao dirigir uma palavra a alguém, estamos automaticamente adentrando seu espaço. Para que, ao fazermos, não se transgrida nenhuma lei do discurso, é necessário que tenhamos polidez. Dessa forma, evita-se a exposição de ser chamado de mal-educado. Maingueneau afirma que “todo indivíduo possui duas faces: uma positiva, que corresponde ao território de cada um e uma negativa, que corresponde à nossa própria imagem que tentamos apresentar aos outros” (2001, p.38). Visto que todo ato de comunicação envolve no mínimo dois participantes, no mínimo quatro faces são envolvidas na comunicação, duas para cada um dos interlocutores. Visto que uma fala pode ameaçar uma face para que uma outra seja preservada, é necessário que os interlocutores busquem um acordo, negociar. Devem procurar um meio de preservar suas faces sem ameaçar a de seu parceiro. O corpus de análise de nossa pesquisa é constituído de dois textos da esfera jornalística, cujo tema é, em última instância, a educação. Eles pertencem a diferentes gêneros e têm diferentes objetivos enunciativos; um é uma notícia e o outro um artigo de opinião. Acreditamos que ambos, se analisados sob a perspectiva dos conceitos estudados neste capítulo, possibilitarão mostrarmos, na prática, a inter-relação entre texto e discurso. Antes disso, trataremos de uma noção que aqui 25 foi apenas tangenciada, a questão dos gêneros vinculados à esfera midiática, já que é a eles que pertencem os gêneros escolhidos como corpus de análise. 26 2 GÊNEROS DA ESFERA MIDIÁTICA Este capítulo tratará, de forma mais específica, dos gêneros da esfera midiática, discutindo as questões relativas a texto, discurso e mídia; as suas especificidades e dos dois gêneros que compõem o corpus selecionado: o artigo de opinião e a notícia. 2.1 Gêneros Como seu próprio nome indica, a Análise do Discurso não trata da língua nem da gramática, embora todas essas coisas lhe interessem. Ela trata do discurso atribuindo a essa palavra a idéia de curso, de percurso, de correr, de movimento. O discurso é assim, palavra em movimento, prática de linguagem: “O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana. O discurso é o lugar onde se pode observar a relação entre língua e ideologia” (ORLANDI, 2001. p.15) e: O discurso só é discurso enquanto remete a um sujeito, um eu que se coloca como fonte de referências pessoais, temporais, espaciais e ao mesmo tempo indica que atitude está tomando referente ao seu coenunciador. Ele indica quem é o responsável por aquilo que está dizendo. (MAINGUENEAU, 2001, p.51). Nesse aspecto, os gêneros discursivos foram considerados durante a análise do corpus, haja vista que quando falamos ou escrevemos, utilizamos gêneros, categorizados por Bakhtin (2003) como gêneros discursivos primários e secundários, que surgem na esfera da linguagem e incluem todos os tipos de linguagem, tais como enunciações públicas, institucionais, artísticas, científicas e filosóficas. “Os gêneros discursivos primários são aqueles definidos como comunicação cotidiana, já os secundários são aqueles que utilizam a comunicação produzida a partir de códigos culturais elaborados” (p.262). Na categoria de gêneros secundários incluemse os textos da esfera jornalística selecionados como corpus deste trabalho. Isso significa que o grau de elaboração que possuem é bem mais sofisticado, uma vez que ocupam um espaço de formadores de opinião, mais do que de mero instrumento cotidiano de transmissão de informações. 27 Sob essa perspectiva, a categorização dos gêneros feita por Bakhtin nos remete a um conceito mais antigo do fenômeno, proposto por Aristóteles (1997), para quem os gêneros retóricos eram formas de organização dos discursos com o objetivo de convencer as outras pessoas em situações públicas muito comuns na Grécia antiga. Aristóteles, por meio de uma ideia muito sugestiva, mas que foi deixada de lado pela visão tradicional de gêneros, às vezes muito prescritiva e taxionômica, afirmou que ”há uma fusão entre forma e conteúdo baseada na situação de cada discurso” (ALVES FILHO, 2011, p.17). Essa visão híbrida dos gêneros, proposta pelo filósofo há muito tempo, revela a adequação de nossa abordagem discursiva do fenômeno, já que, muitas vezes, o gênero foi associado à forma, procedimento que não se sustenta na contemporaneidade, uma vez que um gênero não é um recipiente vazio, nem é somente forma nem somente conteúdo, antes é uma espécie de mistura funcional que envolve forma e conteúdo. Alves Filho (2011, p.20) afirma que “os gêneros são como grupos sociais e os seres humanos que os usam: mutáveis, variáveis, dinâmicos, às vezes até mesmo contraditórios e irregulares, pois estão sempre em fase de mudança”, já que muitos deles têm surgido enquanto outros caíram em desuso. Contemporaneamente, principalmente por causa da tecnologia que não para de avançar, novos gêneros têm surgido, grande parte deles na esfera da internet, suporte que tem, ainda, absorvido outros gêneros tradicionais antes veiculados em meios impressos, como a notícia e o artigo de opinião, que são parte integrante do corpus deste trabalho. Nesse sentido, a pesquisa evidencia que os gêneros são dinâmicos e que se incorporam às situações vividas pelos sujeitos e que diversas vezes servem como respostas às necessidades de comunicação das pessoas. Assim, nos apoiamos em Alves Filho que afirma: Os gêneros deixaram de ser vistos como uma estrutura formal geralmente determinada a priori e passaram a ser vistos como estruturas semióticas dinâmicas e flexíveis. Ou seja, os gêneros passaram a ser vistos como formas de organizar dinamicamente a comunicação humana e de expressar diversos significados de forma recorrente. Dizer que os gêneros são estruturas dinâmicas implica que eles são maleáveis e se adéquam às situações e não que são modelos predeterminados a ser seguidos ( 2011, p.21). 28 Em relação à televisão, pode-se utilizar como exemplo os telejornais que têm um formato totalmente diferenciado dos telejornais de 20 ou 30 anos atrás. Raramente podia-se fazer um comentário pessoal sobre a notícia apresentada. Hoje em dia, a maioria dos apresentadores procura enfatizar a notícia por meio de comentários sobre o fato, muitas vezes utilizando vocabulário informal como estratégia de aproximação com o telespectador. Para empreender nosso percurso entre discurso e texto, ou vice-versa, devemos partir do pressuposto de que é impossível que haja comunicação verbal a não ser por meio de algum gênero e também, da mesma forma, torna-se impossível comunicar-se verbalmente a não ser por meio de algum texto. Nesse processo, ganha significação a ideia de tipos textuais e as implicações desses conceitos na pesquisa, já que Marcuschi os inclui na discussão sobre o gênero quando define gênero textual como: [...] uma noção propositalmente vaga para referir os textos materializados encontrados em nossa vida diária e que apresentam características sóciocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica e contrasta esse conceito com o de tipo textual. (2002, p.23) Os tipos textuais, que são escassos se comparados à quantidade de gêneros textuais, são categorizados por Marcuschi (2002) como a narração, a descrição, a exposição, a injunção e a argumentação e constituem a base formadora de todos os gêneros. Atentar para a organização e articulação dessas estruturas em função do gênero que constroem e dos objetivos enunciativos do texto que integram foi um ponto fundamental na análise de nosso corpus. O método de análise que empreendemos evidenciou que, ao dominarmos um gênero textual, não dominamos apenas uma forma linguística, mas também uma forma de realizar objetivos específicos em situações sociais particulares, pois, segundo Bakhtin (2003, p.285) “quanto melhor dominarmos os gêneros, mais livremente os empregamos, refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação, ou seja, realizamos de uma melhor forma nosso projeto de discurso”. 29 Nesse sentido, nossa análise considerou as especificidades de cada gênero do corpus para atingir o objetivo de refletir sobre estratégias de leitura por meio de aspectos discursivos dos textos, utilizando a categoria genérica e a tipologia textual que se apresenta no texto não apenas como rótulos, mas como instrumentos de produção e identificação de sentido, como partes de uma estratégia de leitura. Este trabalho de pesquisa reconhece que um “mesmo texto pode funcionar em gêneros diferentes, desde que utilizado em momentos diferentes; [e isso] vai depender dos propósitos comunicativos e dos contextos em que forem utilizados” (ALVES FILHO, 2011, p.23), o que torna a identificação dos gêneros mais frutífera caso seja feita em relação a situações em que os textos são utilizados. Cabe ainda ressaltar que, toda vez que, com base em seus estoques de conhecimento, as pessoas interpretam algo novo ou diferente como sendo algo parecido ou já conhecido por elas, ocorre a tipificação, ou seja, os leitores se utilizam de seus conhecimentos prévios. Nesse caso, a compreensão pelo enunciatário ou leitor da forma de apropriação do gênero pelo enunciador ou produtor, das subversões que ele eventualmente pode fazer na estrutura tradicional do gênero escolhido também geram efeitos de sentido. Recorremos novamente a Alves Filho que afirma: [...] haver um ponto marcante em muitas vertentes teóricas recentes em relação aos estudos sobre gêneros: eles destacam-se por duas forças contrárias e contraditórias: uma força regula, normatiza, estabiliza, generaliza e promove recorrência: a essa força denominamos força centrípeta. A outra força, denominada centrífuga, desestabiliza, relativiza, dinamiza, plasticiza e surpreende. (2011, p.20) Dessa tensão entre o que se espera de determinado gênero e o que se encontra nele nasce também o sentido. Como conhecer um gênero apropriadamente implica também saber escolher qual conteúdo é apropriado a determinados propósitos comunicativos, para que se obtenha sucesso na ação comunicativa. Percebe-se que “os gêneros, de alguma forma, orientam nossos comportamentos, mesmo que não façam isso de maneira determinística ou prescritiva” (ALVES FILHO, 2011 p.29). Percebe-se, igualmente, que a sistemática e consciente violação das normas de determinado gênero reflete um comportamento que é, em última instância, a reivindicação da liberdade de 30 comunicação ou o reconhecimento da flexibilidade e da precariedade da linguagem humana, sobretudo a verbal. É nesse sentido que o nosso método buscou observar em que medida os gêneros escolhidos como corpus de nossa pesquisa completam-se, chocam-se entre si e também são tidos como referência para que surjam novos gêneros, já que estes não existem isoladamente e não têm uma realidade separada dos outros. Ao utilizarmos um gênero, de alguma forma aceitamos os propósitos comunicativos que esse gênero culturalmente realiza, visto que os propósitos comunicativos são socialmente compartilhados. Alves Filho (2011, p.35) afirma que “os propósitos comunicativos podem não estar definitivamente marcados no texto, mas podem resultar dos modos como os textos são utilizados em determinadas situações”. Podemos citar, por exemplo, os artigos de opinião e as notícias, termos que serão discutidos posteriormente com mais profundidade. Esses propósitos comunicativos têm excelente dinamicidade e podem mudar de acordo com o passar do tempo, por isso é necessário compreendê-los de forma adequada, reconhecendo propósitos mais recorrentes e previsíveis, não deixando de perceber aqueles ainda raros ou potencialmente emergentes. Além disso, os propósitos comunicativos dos artigos de opinião e das notícias utilizam certas técnicas para atingirem seu público alvo. Alves Filho afirma que eles: [...] podem relatar fatos reais recentemente ocorridos na vida social, divulgar produtos e serviços de modo positivo, autopromover, utilizando sempre uma imagem positiva, criticar e avaliar atores sociais e instituições da vida pública e avaliar conhecimentos, porém, dependendo da decorrência da dinamicidade dos gêneros, novos propósitos podem emergir. (2011, p.37). Nosso método buscou esses propósitos implícitos, em consonância com as emergências do discurso midiático, que é formador de opinião por excelência e pouco isento. À luz da definição de gênero em sua totalidade, faz-se também necessário comentar sobre o evento deflagrador que tem a função de desencadear a produção de um texto que faz parte de um gênero. Alves Filho afirma que: [...] o evento deflagrador é a razão mais ou menos imediata que impulsiona alguém a tomar a palavra escrita ou oral e propor um ato de interação pela 31 linguagem e tem relevância social e cultural. Uma vez compreendida a função do evento deflagrador, entenderemos a relação entre os textos e os acontecimentos sociais que servem de causa ou motivação para eles. (2011, p.40). Nos gêneros que esta pesquisa se propõe a investigar, esse evento está mais ou menos próximo, de acordo com a natureza do texto: na notícia está perto, no artigo de opinião, nem tanto, porém nunca muito afastado, haja vista serem os gêneros escolhidos para nossa pesquisa pertencentes à esfera midiática que, por assim dizer, gravita em torno de evento deflagrador e dele se alimenta para conseguir a audiência de um público tão amplo quanto possível. Outro dado que o método procurou levar em conta em relação ao evento deflagrador é que tanto ele faz emergir diversos gêneros como um mesmo gênero pode ser deflagrado por eventos diferentes. Partindo de nosso corpus para exemplificar essa questão, o gênero artigo de opinião pode ter como efeito deflagrador um fato que ocorreu recentemente e é considerado de total relevância. O evento deflagrador das notícias, em geral precisa ter acontecido hoje ou na melhor das hipóteses, ontem. “Caso esses acontecimentos tenham acontecido anteontem, o acontecimento já corre o risco de não virar notícia” (ALVES FILHO, 2011 p.95). Também pode ocorrer que uma mesma notícia, geralmente alguma de alto caráter apelativo, que geralmente envolve pessoas muito conhecidas, seja renovada. Nesse caso, o meio de comunicação serve-se do mesmo fato, porém, acrescenta novos detalhes várias vezes durante o dia, no caso da internet, ou diariamente, no caso de jornais escritos ou revistas. Esse dado teve efeito relevante na construção do nosso método de análise dos textos, já que a possibilidade de requentar a notícia é cada vez mais frequente por conta da agilidade das mídias eletrônicas. Conforme Alves Filho (2011 p.65), podemos dizer que “toda vez que escolhemos um gênero, também optamos por um conjunto de valores, crenças e saberes associados a ele e trazemos à tona aspectos sociais, culturais e políticos, que estão todos, de uma certa forma, associados, ligados”. Daí a necessidade de nosso método empreender uma investigação criteriosa a respeito de cada um dos gêneros que compôs nosso corpus. Sendo assim, apresentamos a seguir uma visão dos gêneros escolhidos: o artigo de opinião e a notícia, que norteou nossa análise. 32 2.2 Notícia As notícias podem ser consideradas como um dos gêneros que mais expõem a vida das pessoas, principalmente por serem difundidas por meio de vários meios de comunicação, que podem ser visualizados em diferentes lugares e suportes. Elas são consideradas um produto de consumo, visto que, direta ou indiretamente são vendidas aos interlocutores. Essa venda pode ocorrer diretamente em uma banca ou por meio de assinatura, com recebimento na residência, quando se tratar de um jornal escrito. Em se tratando de televisão, rádio ou internet, essa venda acontece de forma indireta, ou seja, o anunciante paga ao veículo de comunicação e esse se encarrega de exibir a publicidade de seus produtos que, uma vez visualizados, podem fazer com que o público compre-os. Nesse caso, mais difícil é para o interlocutor identificar as implicaturas desses textos. Além de a notícia estar relacionada a fatos relativamente recentes ou relevantes, pois deve ser interessante a certo público alvo, ela possui funções sociais e retóricas que podem ser explícitas ou implícitas. Por trás da suposta referencialidade, há uma dimensão argumentativa, como de resto em qualquer texto, mas nesse caso essa dimensão argumentativa se traveste de informação, que é o objetivo enunciativo primordial do gênero. Conforme Alves Filho: [...] as notícias têm a função explícita de informar os leitores dos fatos atuais e considerados relevantes para os grupos sociais. Os leitores, com o propósito de se atualizarem em relação ao que tem acontecido recentemente, sentem-se de certa forma, satisfeitos com o fato de ficarem sabendo de um fato em primeira mão. Contudo, é certo que não são escritas de um modo impessoal, visto que o redator jamais pode deixar de imprimir marcas de seu estilo pessoal, bem como a instituição que veicula o texto. (2011, p. 93). Por exemplo, no Brasil sabe-se que os jornais de grande circulação possuem seus estilos próprios de redação que devem necessariamente ser seguidos por seus redatores. Também sabemos que muitas mídias estão interligadas, quer dizer, grandes grupos controlam, tanto jornais impressos, quanto revistas e sites. Nesse caso, nosso método também procurou investigar a abordagem do tema em função da mídia em que ele está. Isso faz parte das condições de produção e recepção e esses dados auxiliaram no processo de leitura. 33 Deve-se ressaltar também, nesse aspecto do discurso institucional, o contraponto, que é aquilo que a notícia deixa de falar a respeito do fato que veicula. Quer por pressão de tempo, de espaço, quer por estratégia argumentativa, as mídias, por meio das notícias, podem apenas mostrar o que for relevante para o veículo de comunicação, omitindo informações que julgarem desnecessárias ou acrescentando aquelas que julgarem necessárias. Diante dessas constatações, de que a mídia só informa o que quer, nem sempre o que deve, Charaudeau afirma que: As mídias constituem uma instância que não promulga nenhuma regra de comportamento, nenhuma norma, nenhuma sanção. Mais do que isso, as mídias e a figura do jornalista não têm nenhuma intenção de orientação ou de imposição, declarando-se, ao contrário, instância de denúncia do poder. As mídias manipulam tanto quanto manipulam a si mesmas. Para manipular é preciso um agente de manipulação que tenha um projeto e uma tática, mas é preciso também um manipulado. Como o manipulador não tem interesse em declarar sua intenção,é somente através da vítima do engodo que se pode concluir que existe uma manipulação. (2012, p. 17). Sendo assim, esse aspecto do recorte ou do preenchimento de lacunas que aparece nas notícias foi dado relevante para nosso método de análise do corpus, sobretudo da notícia, haja vista que esse processo também ocorre no artigo de opinião, mas nesse gênero essencialmente argumentativo esses processos são esperados, até mesmo desejados. Nosso método também não deixou de abordar o processo evenemencial, em que o acontecimento é construído. Trata-se do: [...] olhar do sujeito ao produzir o ato de linguagem que transforma o acontecimento bruto em acontecimento significante e o olhar do sujeito interpretante irá reestruturar o acontecimento, de acordo com sua própria competência de entendimento e interpretação. Dessa forma, percebe-se que, por meio do processo evenemencial, a mídia pode, utilizando-se de um fato aparentemente insignificante, formar uma grande notícia, devido ao forte poder que exerce sobre o público. (CHARAUDEAU, 2012, p.96). O processo evenemencial foi, portanto, um conceito balizador para o nosso método de análise das notícias, já que é por meio dele que se instaura algo novo, digno de ser chamado de notícia, nem sempre pelo valor intrínseco do fato, mas pelo valor econômico da oportunidade que a instituição veiculadora credita ao acontecimento. 2.3 Artigo de Opinião 34 O artigo de opinião é um gênero da esfera jornalística muito comum na mídia impressa, que tem por finalidade expor o ponto de vista acerca de um determinado assunto e que não tem como característica a objetividade e a imparcialidade. Pode ser estruturado da seguinte forma: situação problema, discussão e soluçãoavaliação. É composto de um título que geralmente é polêmico ou provocador, de um parágrafo introdutório, que tem a função de introdução e que procura, de forma geral, explicar o assunto que será discutido. Após essa introdução, o enunciador procura, de forma clara, sustentar suas argumentações por meio da exposição de uma idéia ou de um ponto de vista sobre o assunto discutido. Para essa explanação, o enunciador procura, em geral, utilizar verbos predominantemente no presente, utilizando linguagem objetiva, repleta de sinais de exclamações e interrogações, em 3ª pessoa, ou subjetiva, em 1ª pessoa, sempre procurando antecipar uma possível crítica do leitor, incitando a posição de reflexão favorável ao autor. O artigo de opinião é caracterizado por utilizar tanto especialistas que fazem parte do veículo de comunicação, em geral jornais escritos, ou de pessoas exteriores que fazem intervenções e procuram demonstrar sua própria opinião diante de um fato que geralmente causou ou causará muita polêmica. Conforme Charaudeau (2012, p.209) “por meio do editorial o enunciador manifesta mais ou menos sua própria opinião ou suas próprias apreciações na análise que propõe, ou na maneira de encenar o acontecimento”. Esses especialistas, muitas vezes, ao fazerem seus comentários provocam o leitor, fazendo com que, diversas vezes, haja carta de resposta, seja no editorial ou no artigo de opinião. Sendo um gênero essencialmente argumentativo, o artigo de opinião deve ser construído por um especialista que debate algum tema deflagrado recentemente. Via de regra, apresenta uma opinião bastante clara sobre o tema e a defende com argumentos que pretendem ser consistentes, visto que, para que esses comentários tenham credibilidade, quem escreve deve necessariamente expressar um ponto de vista pessoal que siga uma linha editorial, ou seja, por mais que seja um gênero eminentemente opinativo ou argumentativo, o enunciador não pode fugir totalmente da linha ideológica do jornal. Todo jornal possui uma determinada linha que define termos que podem ou não ser utilizados. 35 Patrick Charaudeau, ao se pronunciar sobre a encenação midiática do comentário, afirma que: [...] a credibilidade do comentador é imprescindível, mas afirma também que nenhuma análise ou argumentação terá impacto caso não desperte o interesse daquele que lê em relação à informação e que também deve tocar sua afetividade. Dessa forma, o jornalista preso entre a credibilidade e a captação, tenderá a produzir modos de raciocínio que julgará simples e motivadores. (2012 p. 181). Patrick Charaudeau esclarece que: [...] as mídias não têm de tomar posição, que devem mostrar neutralidade, mas sabe-se que essa neutralidade é ilusória. Entretanto, há gêneros redacionais que se prestam mais ou menos a uma avaliação. Nos editoriais e em algumas crônicas, por exemplo, espera-se que o jornalista nos esclareça sobre o debate de ideias, dando sua opinião e argumentando. (2012 p. 180). Outro ponto relevante na análise do artigo de opinião é a dimensão artística. Muitas vezes, por serem escritos por jornalistas experientes ou por profissionais que conhecem a fundo a matéria, trazem referências a outros textos, a fatos históricos e chegam, às vezes, a beirar a crônica literária quando ocorre o fato de o autor ser também escritor. Talvez, por esse motivo, os jornais em geral, mesmo aqueles com maior poder apelativo ou os mais populares, procuram contratar cronistas especializados que não necessariamente precisam ser jornalistas; podem ser personalidades convidadas para expressarem sua opinião pelo fato de possuírem um bom domínio sobre o tema a ser problematizado. Esses cronistas procuram utilizar-se de uma característica muito peculiar do artigo de opinião: a persuasão. Por meio dessa iniciativa, o enunciador procura convencer o coenunciador, aqui representado pelo leitor alvo, a aceitar a opinião apresentada. Para persuadir o leitor, é comum o enunciador utilizar-se de elementos que provocam emoções, descrições detalhadas, acusações, humor, ironia, misturadas a fontes de informações objetivas para que, dessa forma, o convencimento se dê tanto pela emoção quanto pela razão. Nesse aspecto, as escolhas lexicais, o arranjo sintático, a pontuação que imprime determinado ritmo ao texto, as figuras de linguagem, entre outros elementos, foram fundamentais para a construção de uma boa análise. 36 3 ANÁLISE DO ARTIGO DE OPINIÃO “PROVA PARA PROFESSORES É MAIS UMA JABUTICABA”, PUBLICADO NO JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO, EM 09/05/2011 Neste capítulo, serão feitas considerações sobre o gênero artigo de opinião e serão resgatados, ao longo da análise, elementos textuais e discursivos elencados nos capítulos precedentes. A análise desses elementos, que são os aspectos da seleção lexical, do tom irônico assumido pelo enunciador, do ethos e da corporalidade que o texto manifesta, tem como objetivo mostrar a construção da dimensão argumentativa do gênero e realizar uma prática de leitura interativa e crítica com base nos conceitos da Linguística Textual e da Análise do Discurso, especificamente no gênero artigo de opinião, conforme nos propusemos a fazer na introdução do trabalho. Para facilitar o acompanhamento da análise, vamos transcrevê-lo a seguir: Prova para Professores é mais uma Jabuticaba Sempre julguei que uma prova nacional para professores fosse uma boa solução. Selecionaria pessoas equipadas para o magistério e apontaria às instituições formadoras aspectos importantes na preparação dos recursos humanos. A recente iniciativa do Ministério da Educação (MEC) mostrou-me que meu repentino otimismo era infundado. Mais uma vez, venceram as corporações. O documento produzido pela comissão responsável reproduz a geleia geral característica dos cursos de Pedagogia, ancorados em teorias da moda, sem fundamentação nem compromisso com os graves problemas da formação do professor, em especial nas matérias básicas. As audiências públicas e os órgãos responsáveis pelos sistemas de ensino não trouxeram racionalidade ao debate. A menção de que experiências de outros países foram consideradas tampouco diz grande coisa, tendo em vista a seletiva capacidade de ouvir dos que conduzem tais questões. A modelagem do exame com base no famigerado Enem, o mais frágil e controvertido dos testes produzidos pelo MEC, aumenta o pessimismo. Falta racionalidade à proposta que foi apresentada para debate pelo MEC: uma matriz com três dimensões, dez "competências" e dez "eixos" do conhecimento. Inexiste diferenciação entre professores de creches, préescolas e séries iniciais. Os conteúdos das disciplinas centrais - elaborados por comissões formadas por vários especialistas - ocupam 3 a 4 linhas cada, num documento de 15 páginas. Não é possível que essa seja a única contribuição de tão selecionado grupo. 37 Alguns exemplos e contrastes: na matriz de referência não há referência ao fato de que um educador de pré-escola precisa conhecer as cantigas infantis, mas se afirma que necessita "atuar em situações do cotidiano escolar com base na legislação vigente". A palavra literatura aparece uma única vez, mas se espera que o professor "compreenda aspectos culturais, sociais, ambientais, políticos, econômicos e tecnológicos da sociedade e suas interfaces com a educação". Deu para perceber? 90% do documento trata dessas platitudes ou "competências". Vale comparar essa melíflua proposta com os concursos públicos para as carreiras sérias. Num concurso típico, os tópicos que vão cair na prova são explícitos - qualquer pessoa sabe o que precisa estudar e onde encontrar a informação. E sabemos que esses concursos têm conseguido recrutar os melhores candidatos. Na prova do MEC a maioria esmagadora das "competências" é do tipo genérico: "promover ações no âmbito da comunidade escolar, com vistas à inclusão e ao respeito às diversidades". Reproduz o viés do Enade, a prova de conclusão de curso superior aplicada aos professores e nada acrescenta que possa mudar os rumos da educação. Seria um enorme avanço se os professores de Língua Portuguesa dominassem e ensinassem o código alfabético, o código ortográfico e tivessem formação suficiente para ler e interpretar um texto com os alunos. No caso da matemática, o esperado era que tivessem condição de ensinar o sistema de numeração decimal, as quatro operações e soubessem explicar e representar as propriedades das operações, frações, decimais e porcentagens na reta numérica. Em ciências, que dominassem alguns conceitos básicos, como a noção de sistemas, evolução, ciclos e a teoria atômico-molecular, para apresentar os fenômenos e características associadas aos seres vivos e não vivos. Nada disso, parece, cairá na prova do MEC. Pouco se conhece sobre o que faz uma pessoa ser bom professor. Mas é certeza que não há correlação com titulação ou número de cursos superiores realizados. Há fortes evidências de que um professor bemsucedido é o que domina bem os conteúdos e sabe um pouco mais para entender as implicações do que ensina. As pedagogias eficazes são associadas a um profundo conhecimento da matéria e às formas adequadas de comunicá-la. Esse é o tipo de conhecimento pedagógico relevante. LipingMa, da Universidade Stanford, mostrou que professores chineses com apenas nove anos de escolaridade conseguem resultados muito melhores com seus alunos do que seus colegas norte-americanos, que, apesar de terem cursos de graduação e pós, não conhecem a fundo a matemática elementar e as maneiras de ensiná-la. O último relatório do National Councilon Teacher Quality, nos EUA, mostra a precariedade da formação dos professores de Matemática pelas faculdades de educação e analisa como são inadequados os livros didáticos usados nas faculdades daquele país. Aqui, nem sequer temos esses livros - mas queremos desenvolver "competências". Conteúdo da disciplina, parece, é questão secundária. Não existe receita para formar professores. A evidência científica é bastante limitada. A experiência dos países com melhores níveis de ensino varia em torno de alguns pontos centrais: atrair jovens com boa formação para a carreira, exigir prova de conhecimentos antes do ingresso, estabelecer rigorosos estágios probatórios nos anos iniciais. Em algumas áreas já sabemos quais conhecimentos são relevantes. Fugir disso é querer colher jabuticaba. Com a prova do MEC continuaremos a formar professores com 38 muitas competências no que é periférico e pouca competência no que é essencial. A qualidade do professor é o nó górdio da qualidade do ensino. Sabemos que a educação só terá chance de melhorar no País quando tivermos professores qualificados. Estamos diante de mais uma oportunidade perdida para avançar e de possibilidades de enorme retrocesso. O erro na condução do problema está na origem: para dar um salto da qualidade na educação brasileira é preciso libertar a discussão e o MEC do controle das corporações. Não basta ter audiências públicas, é preciso qualificar o debate com base em evidências e não ter como critério a busca de consenso entre parceiros pré-selecionados. O MEC tornou-se refém das corporações. Agora será a vez do País. Oliveira, João Batista Araujo e. Prova para professores é mais uma jabuticaba. O Estado de São Paulo, São Paulo. 31 out. 2011. Opinião, Notas e Informações, p. 3. O artigo em questão foi publicado no Jornal O Estado de São Paulo, na seção mais antiga do jornal. Em torno de 1890 o jornal se mostrava totalmente apolítico, abstendo-se de qualquer ligação com partidos políticos. Porém, nos anos 50, o jornal começou a demonstrar sua tendência política, fazendo oposição a todos os governos, principalmente ao de João Goulart. Com o passar dos anos, a troca de diretores tornou-se obrigatória, porém sempre nas mãos da mesma família e mantendo a postura de opor-se aos partidos políticos da situação, visto que, no ano da publicação desse artigo de opinião (2011), o jornal mostrava-se contrário à candidatura de uma representante da situação, publicando capas negativas, com críticas ao governo, nos meses de agosto e setembro, justamente aqueles que precediam as eleições nacionais. O artigo é assinado por João Batista Araujo e Oliveira, PhD em pesquisa educacional pela Florida State University, colaborador eventual de jornais e revistas publicadas no Brasil e no exterior e presidente do instituto Alfa e Beto, Organização não Governamental sem fins lucrativos. Ao se colocar como porta-voz desse instituto, o sujeito representa uma organização que, além de ajudar a promover um Brasil melhor, com educação de qualidade para todos, dedica-se a disseminar e promover políticas e práticas de educação, priorizando a alfabetização das crianças, por julgar ser esse o problema número um do Brasil. Além disso, salienta que, 39 enquanto essa questão básica não for resolvida definitivamente, todos os demais esforços relacionados à educação serão em vão. O autor assume uma posição contrária à prova de professores instituída pelo governo. Essa prova, que procura selecionar candidatos à carreira de professor em nível nacional, primeiramente foi chamada de Exame Nacional na Carreira de Docente e apelidada de Enem do magistério, pelo fato de seguir os moldes da Avaliação do Ensino Médio. A chamada para o exame com os conteúdos foi publicada no Diário Oficial da União em 03/03/2011 e a participação dos professores é voluntária. A prova tem como proposta inicial ajudar estados e municípios a fazerem uma seleção de profissionais de qualidade. O Ministério da Educação e Cultura tem como objetivo começar a aplicar a prova a partir de 2013 e terá como foco os professores das séries inicias do ensino fundamental, que atuam nos municípios. O exame analisará o profissional em três aspectos: profissão docente e cidadania, trabalho pedagógico e domínio dos componentes curriculares nas disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, História e Artes. O título do texto já instaura um tom irônico: “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba”. Propõe uma metáfora que chama a atenção por estabelecer uma relação de semelhança entre elementos completamente distintos: um processo avaliativo e uma fruta. Chama mais ainda a atenção pela escolha da fruta, a jabuticaba. O vocábulo jabuticaba refere-se a uma fruta exclusivamente brasileira, que dificilmente encontra-se em mercados. A jabuticabeira é uma planta que não tem pressa para dar frutos, oferece imenso grau de dificuldade em seu cultivo e nem sempre oferece garantia de sucesso nas primeiras colheitas. O fato de ser uma planta nativa do Brasil é que sustentará a relação analógica: o enunciador sugere que assim como a jabuticaba é uma especificidade nacional, a prova para professores também será um instrumento idiossincrático, que revelará não as competências e habilidades dos avaliados, mas será reflexo da forma como o governo tem lidado com as questões educacionais no Brasil. Dessa forma, transmite-se a idéia de mais um projeto entre vários outros. No texto, a tese defendida pelo enunciador é de que as avaliações deveriam ser feitas abordando conteúdos práticos de cada área do conhecimento. Segundo ele, as provas baseiam-se em questões genéricas as quais ele apontará no 40 desenvolvimento da argumentação: “As pedagogias eficazes são associadas a um profundo conhecimento da matéria e as formas adequadas de comunicá-la. Esse é o tipo de conhecimento pedagógico relevante”. Instaura-se aqui um ethos discursivo que privilegiará a prática em detrimento da teoria e essa prática só será produtiva caso o professor conheça os conteúdos que ensina. Como se trata de alguém pragmático, o enunciador não poderia colocar-se contra a avaliação, por isso diz ter sempre julgado esse procedimento avaliativo uma boa solução. Coloca-se, entretanto, contra a forma como esse instrumento avaliativo foi concebido. Para dar credibilidade à sua posição, a seleção lexical que empreende cria um ethos de um sujeito que pensa no problema há muito tempo. Para isso usa o advérbio de tempo “sempre”, impregnado pela ideia de amplitude temporal, bem como usa o verbo “julgar”, típico da atividade de alguém que possui autoridade. Desse modo, por meio da expressão “Sempre julguei”, o enunciador reforça a experiência e a autoridade que tem no assunto e reforça a convicção a respeito do ponto de vista que adota. Mais adiante, o uso do subjuntivo “fosse”, associado aos verbos no futuro do pretérito “selecionaria”, “apontaria”, põem em dúvida a eficácia da prova. O modo subjuntivo é aquele que expressa uma ação hipotética e até mesmo irreal. O uso dessa forma verbal confere um caráter dubitativo ao trecho. Essas escolhas lexicais do sujeito preparam o leitor para a expressão que vem a seguir, a quebra do “repentino otimismo” que teve quando soube que o Ministério da Educação aplicaria uma prova para avaliar o conhecimento dos professores. A expressão “repentino otimismo” estabelece um contraste com o termo “sempre julguei”, visto que o sujeito aqui se coloca como alguém que, embora tenha cedido à expectativa num primeiro momento, “otimismo”, agora volta à razão em face dos procedimentos do governo. Isso abre no texto a ideia de uma concessão feita por alguém autoritário, à iniciativa do Ministério da Educação e sugere a boa vontade desse sujeito experiente, ou seja, apresenta o ethos de alguém que não critica algo sem antes dar um crédito de confiança ao adversário. Nesse momento, 41 pratica aquilo que pregará ao longo do artigo: a racionalidade, palavra com que encerra o primeiro parágrafo. É como experiente, conhecedor da matéria, paciente e benevolente, posto que dá o benefício da dúvida ao adversário, que se constrói o ethos do enunciador no primeiro parágrafo, o que em certo sentido contrasta com o tom satírico apresentado no título pelo caráter esdrúxulo da analogia que estabelecera. Nesse sentido, o enunciador afirma-se como um sujeito racional que combaterá a irracionalidade. Para tanto, recorre à expressão “geleia geral” para desqualificar o documento que norteia a prova. Por meio desse termo, nos remete a letra de uma música de Caetano Veloso, composta e gravada na época do Tropicalismo, movimento de ruptura cultural, contestador e vanguardista, que procurou reinventar as artes brasileiras, sobretudo a música, nos anos de 1967 e 1968, quando o país estava recém dominado pela ditadura militar, em plena efervescência social e política. Movimento irreverente que durou pouco mais de um ano, modificou os critérios vigentes na época, transformando não apenas a música e a política, mas também a moral e o comportamento. Procurava sempre manifestarse contra o autoritarismo e a desigualdade social. Para os tropicalistas, entender a cultura de massa era tão importante quanto entender as massas revolucionárias. A expressão “geleia geral”, idealizadora da música de Caetano Veloso foi primeiramente utilizada pelo poeta Décio Pignatari juntamente com os irmãos Campos que, com sua poesia concreta, também tiveram influência fundamental no campo da crítica do tropicalismo. A expressão sugere um termo prosaico, geleia, matéria caracterizada pela falta de firmeza, pelo aspecto pastoso e cujo campo semântico a aproxima da inconstância, da falta de projeto e, portanto, de objetividade. Acrescida do adjetivo “geral”, caracteriza a coletividade e, de certo modo, as instâncias do poder. Em seguida, associa essa expressão ao termo “teorias da moda”, que afirma serem “sem fundamentação nem compromisso com os graves problemas da formação do professor”. As seleções lexicais que categorizam e avaliam o exame e os procedimentos adotados para realizá-lo apontam para um sujeito racional que se apresenta como 42 alguém que vê além do imediato e do midiático. A construção desse ethos confere à voz do enunciador uma autoridade que o coloca como fiador daquilo que apresenta e que se prolonga agora para desconstruir a contra-argumentação daqueles que aprovam os procedimentos avaliativos. Em seguida, o sujeito serve-se da estratégia argumentativa de incorporar um contra-argumento para desqualificá-lo, quando cita: “A menção de que experiências de outros países foram consideradas”. Além de não deixar claro o sujeito que teria feito a menção às experiências internacionais, a assertiva também se refere a “experiências” no plural, o que imprime um caráter mais vago ainda ao argumento dos que elaboraram a prova. Ao fazer isso, ressalta a falta de precisão, de objetividade daqueles a quem ataca, construindo assim um antiethos subjetivo, contrário ao do enunciador, pragmático e objetivo. Completa o período a oração introduzida por um advérbio que não apenas nega, mas reforça a negação: trata-se do termo “tampouco”, cujo sentido de negação reforçada, “também não”, advém da contração do advérbio de intensidade “tão” com o advérbio “pouco”: “[a menção a experiências internacionais] tampouco diz grande coisa, tendo em vista a seletiva capacidade de ouvir dos que conduzem tais questões”. Esse enunciado produz um efeito de sentido que não desqualifica de todo as experiências internacionais, mas aqueles que se baseiam nelas. Sabemos agora, no final do período, que a menção às experiências foi feita pelos “que conduzem tais questões”, cuja capacidade de ouvir “é seletiva”. Essa seletividade, obviamente, pelo contexto em que se apresenta, deve ser tomada como dado negativo, portanto é irônica. Todo o segundo parágrafo do texto constitui um convite ao leitor para esquecer ou desconsiderar as demais justificativas que nortearam a produção do documento, já que pelo antiethos que o sujeito constrói dos seus adversários, quaisquer outras justificativas devem ser tão descabidas quanto a que ele desconstruiu. Isso se comprova ainda no segundo parágrafo, quando o enunciador ataca outra característica do exame, não a inspiração dele em fontes internacionais, 43 mas a forma como foi concebido com inspiração nacional obtida no exame do ENEM. Para isso, a escolha lexical que faz é o adjetivo “famigerado”. O termo “famigerado” é amplamente ambíguo, significa aquele “que tem muita fama, célebre, notável, famígero e o pejorativo tristemente afamado”. Esse duplo sentido, aliás, foi explorado por Guimarães Rosa no conto “Famigerado”, em que, para escapar à sombra de um cangaceiro que havia sido chamado por um homem da cidade de famigerado no sentido pejorativo, o narrador diz primeiramente a ele que a palavra significa “inóxito, célebre, notável, notório” e logo após, utilizando-se de um vocábulo mais usado no dia a dia, informa que é importante, de louvor, que merece respeito. Dessa forma, devido a sua sagacidade, consegue ludibriar o cangaceiro por meio de seus conhecimentos lexicais, transformando uma situação, a priori complicada, em motivo de riso e diversão, visto que sorri após o feito. No terceiro parágrafo, o enunciador explicita o que considera os maiores problemas do documento, agora de um ponto de vista mais técnico: as dimensões, os eixos e as competências não prevêem diferenciação entre os diferentes níveis de aprendizagem, crítica que recupera a imagem irônica da geleia geral apontada anteriormente; e o caráter vago dos conteúdos específicos a serem cobrados nas provas, argumento que desenvolve por meio de um dado objetivo, a escassez de informações versus a quantidade de especialistas, desqualificados ironicamente como “tão selecionado grupo”, que foram necessários para elaborá-las: “Os conteúdos das disciplinas centrais - elaborados por comissões formadas por vários especialistas - ocupam 3 a 4 linhas cada, num documento de 15 páginas. Não é possível que essa seja a única contribuição de tão selecionado grupo.” Nesse momento, evidencia-se mais ainda a linha argumentativa do enunciador, a falta de racionalidade em todos os níveis. No terceiro parágrafo, ainda há o que observar a respeito da forma como desqualifica o grupo de especialistas. Apela para a ironia, mas a constrói por meio da apropriação do discurso alheio, uma vez que “tão selecionado grupo” não é outra coisa senão a voz daqueles mesmos defensores da prova que mencionaram as experiências internacionais como justificativa para a validade do procedimento. Ao utilizar o advérbio de intensidade “tão”, em conjunto com o adjetivo “selecionado” e aplicar essa locução ao substantivo “grupo”, o enunciador sugere, pela sonoridade 44 do sufixo “-ão”, marca de oralidade que confere ao texto um tom de eco, de duração, que reproduz as vozes alheias como se estivesse imitando-lhes o tom altissonante com que se gabam do produto de seu trabalho, visto como ruim pelo enunciador. No quarto parágrafo, o autor desenvolve uma análise mais específica do documento em dois momentos. Para isso, recorre a exemplos e a contrastes. No plano dos exemplos, elenca conhecimentos que julga técnicos, como “cantigas infantis” e “literatura”, os quais contrasta com “atuação no cotidiano escolar com base na legislação vigente” ou compreensão de “aspectos culturais, sociais, ambientais, políticos, econômicos e tecnológicos da sociedade e suas interfaces com a educação”. A apropriação das expressões entre aspas aponta para um tipo de heterogeneidade discursiva marcada que reafirma o distanciamento do enunciador em relação àqueles que critica e, ao mesmo tempo, o contraste que estabelece com eles. O segundo momento do parágrafo é marcado pelo tom de oralidade da oração que o introduz: “Deu para perceber?”. Nela o enunciador estabelece, por meio da função ao mesmo tempo fática da pergunta, cujo objetivo é chamar a atenção do enunciatário, e conativa apelativa, haja vista que impõe ao enunciatário a obrigação de perceber aquilo que se apresenta como óbvio, racional, que é, aliás, como o enunciador vem construindo seu ethos discursivo: o de um sujeito que se apoia em evidências. Essa pergunta feita ao enunciatário não é nem um pouco retórica, uma vez que agrega ao enunciador, ainda, a corporalidade da função de professor que durante a aula serve-se de interrogações fáticas para testar se as mensagens que produz chegam aos seus alunos. Outra função relevante dessa pergunta aparentemente retórica é a de tornar o coenunciador cúmplice do enunciador. Aquele, diante da obviedade da questão, não teria outra resposta senão um sim. Reforça-se o ethos didático do enunciador na continuidade do parágrafo, ao utilizar “platitudes” como sinônimo de “competências”, termos que nivela pelo uso da conjunção alternativa “ou”. O MEC já publicou uma portaria no Diário Oficial da União em 03/03/2011, dizendo que a prova exigirá conhecimentos em temas como políticas educacionais e 45 gestão do trabalho pedagógico e domínio dos conteúdos nas disciplinas que ele julga essenciais para o desenvolvimento das competências básicas da educação. Segundo o Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2004, P.173), competências é o conjunto de conhecimentos e habilidades, aptidão. Para o MEC, o conjunto de competências na educação passou a ser obrigatoriamente usado a partir da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996, a partir do princípio de que o currículo do Ensino Médio tem a função de orientar para a formação de cidadãos, para que, o aluno, ao término de sua educação básica, possa optar entre continuar estudando ou partir para o mercado de trabalho. Ao nivelar o conceito de competência com o de platitude (ainda por cima no plural, o que reforça ainda mais a inespecificidade do termo), o sujeito desqualifica um termo técnico da área de educação, que é considerado um termo atual, fruto de reflexões sobre o tema, com um arcaísmo, já que platitude significa algo “banal, trivial, medíocre” (www.aulete.uol.com.br). O contraste gerado entre o conceito moderno de competências e o arcaísmo de “platitudes”, ao mesmo tempo em que desqualifica os procedimentos pedagógicos com os quais ele não concorda, revela a erudição de um sujeito que se apresenta como produto da educação tradicional que defende. Com isso o enunciador constrói um ethos de alguém que possui um vocabulário sofisticado e ao mesmo tempo original, que é extraído da tradição, “Platitude”: trata-se de um termo arcaico, advindo do francês, redimensionado e adequado à exposição daquilo que o sujeito considera o maior defeito do exame: sua falta de vínculo com as questões práticas da educação ou, ainda, a falta de vinculação com a realidade, haja vista o contraste semântico entre “competências”, coisas práticas das esferas próximas à realidade, e “platitudes”, coisas contemplativas das esferas próximas à idealização. No quinto parágrafo, o enunciador estabelecerá uma relação entre a prova para professores e as dos “concursos públicos”, que chama de “carreiras sérias”. Pressupõe-se, desse modo, que a carreira de professor não é considerada séria pelas instituições governamentais, uma vez que a seleção de seus candidatos faz-se por meio do que qualifica de “melíflua proposta”. Assim como “platitudes”, o léxico 46 “melíflua” é pouco comum, arcaico, e significa algo que possui doçura (www.aulete.com.br). Ao contrastar seriedade com doçura, o adjetivo ganha um tom irônico que desqualifica ainda mais a ação do MEC e, por extensão, a carreira de professor que é avaliada pelo exame. Para separar os dois polos, o do sujeito e o das instâncias governamentais, mais uma vez o enunciador apela para o acumpliciamento do leitor/enunciatário, quando recorre à sua memória: “E sabemos que esses concursos [os públicos, para “carreiras sérias”] têm conseguido selecionar os melhores candidatos”. O efeito de cumplicidade constrói-se por meio do uso da primeira pessoa do plural que, embora elíptica “sabemos” e não “nós sabemos”, insere o leitor/interlocutor na fala do sujeito. Desse modo, o enunciador usa um recurso argumentativo que confere, como sendo também do interlocutor, uma postura ideológica que é dele, enunciador. Mais uma vez, apresenta a ideia de “explicitação” de conteúdos nos concursos públicos em confronto com o exame de professores, que é feito de forma genérica, como o do ENADE - “prova de conclusão de curso superior aplicada aos professores e nada acrescenta que possa mudar os rumos da educação”. Com isso, o viés generalista e formativo é condenado por um sujeito que faz questão de mostrar-se adepto a um viés especificista e informativo. Esse pragmatismo corporifica-se no sexto parágrafo do texto por meio de uma lista de conteúdos que o sujeito enumera para cada uma das disciplinas básicas: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências. Desse modo, apresenta-se como fiador daquilo que diz, cria um ethos de alguém que, efetivamente, conhece o tema de forma minuciosa, que domina o assunto com propriedade. Após enumerar uma série de conteúdos das diferentes áreas do conhecimento que afirma serem práticos, o enunciador os recupera cataforicamente por meio da expressão constituída pelo pronome indefinido com valor de negação mais o pronome demonstrativo “nada disso”. Essa expressão marca o contraste entre o enunciador, o instituto que representa e o MEC, de que faz questão de distanciar-se. 47 Em seguida o sujeito procura suavizar um pouco o tom forte que poderia soar como prepotente no discurso. Procura assim dar voz ao interlocutor, prever a contraargumentação que poderia advir deste sobre o grau de conhecimento que se tem sobre as variáveis que fazem um bom professor. Para tanto, o enunciador poderia usar a estrutura concessiva, que seria um elemento modalizador do discurso, mas prefere usar o operador “mas” ao invés do “embora”, reforçando assim a ideia de contrariedade. “Pouco se conhece sobre o que faz uma pessoa ser bom professor. Mas é certeza que não há correlação com titulação ou cursos superiores realizados. ”Enumera ainda as qualidades de um bom professor: “domínio de conteúdo, como são e, um pouco mais de conhecimento para entender as implicações do que ensinam”. Percebe-se ainda nesse ponto que, caso o sujeito tivesse a intenção de expor a conjunção concessiva de forma explícita, deveria levar o verbo para o modo subjuntivo, o que conferiria a este um caráter mais dubitativo do que se usado no modo indicativo. A assertiva ficaria desse modo: “embora pouco se conheça sobre o que faz uma pessoa ser bom professor...”. Ao usar a ideia de contrariedade, o sujeito ganha um tom de autoridade porque pode utilizar o verbo “faz” no modo indicativo, mais assertivo do que o subjuntivo, ao mesmo tempo que cria um ethos argumentativo que não despreza a contra-argumentação ou a voz dos interlocutores, antes a incorpora em seu discurso para depois desqualificá-la. Para reforçar sua argumentação, o sujeito serve-se de exemplos concretos, extraídos de uma pesquisa da Universidade Stanfford. A leitura que faz do estudo reforça a ideia de que não é necessário que o professor tenha vários anos de escolaridade para desempenhar sua função, basta que ele estude o suficiente, visto que, no exemplo utilizado pelo sujeito, os professores na China possuem apenas nove anos de escolaridade, menos que os americanos que possuem cursos de pósgraduação. Além disso, a exposição de um relatório produzido por uma instituição norteamericana, National Councilon Teacher Quality, que critica a educação no próprio país, reforça o poder do argumento. O demonstrativo “aqui”, por sua vez, estabelece 48 um contraste bastante significativo entre EUA e Brasil e entre Brasil e China, o que afasta nosso país do ideal chinês: se os Estados Unidos têm problemas, pelo menos lá instituições sérias reconhecem o problema, coisa que não fazemos aqui. Em nenhum momento, porém, o enunciador faz qualquer referência à situação política da China. É questionável o uso do exemplo Chinês, pois as condições daquela sociedade não são as mais democráticas ou humanizadoras e, portanto, quando evoca aquele país como paradigma, o sujeito leva ao paroxismo sua perspectiva pragmática para confrontá-la e contrastá-la com o que seria nossa perspectiva contemplativa baseada nas competências. Neste ponto, é preciso perceber que o poder argumentativo não reside apenas naquilo que se diz, mas grande parte da força dos argumentos é a capacidade de seleção de aspectos específicos daquilo que se deseja eleger como exemplo e certo escamoteamento daquilo que se deseja encobrir. Esse salvoconduto para eleger como exemplo de algo positivo um elemento da realidade que apresenta uma série de elementos negativos foi conseguido pelo enunciador ao longo do texto pela autoridade que construiu em torno de si em vários momentos, conforme analisamos. Isso significa que, ao se colocar como autoridade no tema e apresentar-se como fiador daquilo que diz, o sujeito acaba outorgando a si próprio o direito de lançar mão de argumentos questionáveis sem mencionar aspectos deles que são inconvenientes e até incompatíveis com as ideias que defende. Vale dizer: o enunciador pede no texto que as instâncias governamentais que elaboram a prova do MEC ouçam a voz de alguém experiente, bem intencionado e conhecedor do tema, mas ao mesmo tempo cita como exemplo de política educacional bem sucedida um país cuja liberdade de expressão inexiste e o espírito prático e pragmático não considera o indivíduo, mas sim o Estado como prioridade. Essa imagem autoritária que evoca neste último argumento é parcialmente desconstruída pelo sujeito quando admite que “não existe receita para formar professores”. Ainda assim, o enunciador enumera o que chama de pontos centrais para isso: “atrair jovens com boa formação para a carreira, exigir prova de conhecimentos antes do ingresso, estabelecer rigorosos estágios probatórios nos anos iniciais”. 49 Essa diluição do tom autoritário dura pouco, uma vez que, a partir daí, retoma a metáfora da jabuticaba, que agora adquire o sentido de elemento “periférico”, assim como os conceitos que norteiam a elaboração da prova para professores. O décimo parágrafo intertextualiza um conto mitológico quando o enunciador compara a qualidade do professor à qualidade do ensino. “A qualidade do professor é o nó górdio da qualidade do ensino.” O léxico a ser destacado nesse trecho, “nó górdio”, remete o interlocutor ao século VIII, quando um camponês de nome Górdio amarrou sua carroça ao templo de Zeus para não se esquecer de seu passado humilde, utilizando um nó impossível de desatar, que só foi cortado por Alexandre, o Grande, muitos anos depois, fazendo com que ele, coincidentemente ou não, se tornasse senhor de toda a Ásia poucos anos depois. A lenda aponta para dois aspectos: o mítico, relacionado a Zeus, e o histórico, relacionado a Alexandre. Desatar um nó górdio significa resolver um problema complexo, mas significa também a capacidade de enfrentar mitos, assim como fez Alexandre, ao ter coragem de desfazer o nó. Reafirma-se neste último exemplo o caráter pragmático que sustenta a argumentação. No último parágrafo, o sujeito elucida o sentido da metáfora “nó górdio”, sugerindo que se trata “dos controles das corporações”, dos quais se deve libertar o MEC, já que delas teria se tornado refém. Ao afirmar que “é preciso qualificar o debate com base em evidências e não ter como critério a busca de consenso entre parceiros pré-selecionados” aponta para o alvo, “corporações” e “parceiros préselecionados” que não especifica, mas desqualifica. Neste ponto, o ataque às corporações sugere um tratamento econômico que é dado à educação em contraste com o perfil social do instituto que o sujeito representa. Com base na análise dos argumentos, pretendemos mostrar neste capítulo quão sofisticadas são as estratégias argumentativas de que lança mão o sujeito. Essas estratégias estão centradas na construção de um ethos que corporifica a figura de um enunciador que se torna fiador daquilo que diz. Esse aspecto não surge de outro lugar senão do próprio texto, das seleções lexicais, da organização das ideias, do uso ou não de modalizadores, da apropriação que faz das vozes alheias, 50 das estratégias de aliciamento do interlocutor como cúmplice daquilo que ele, o enunciador, afirma como bom. Esse processo, é bom esclarecer, recorre, às vezes, a expedientes questionáveis, a argumentos que são apenas em parte aceitáveis. Isso é próprio do jogo argumentativo que tem como finalidade enredar o leitor/enunciatário para que possa aderir às ideias do sujeito/enunciador do artigo de opinião. Temos de ter em mente que a análise em profundidade das estruturas linguísticas utilizadas para veicular as posições ideológicas do enunciador constitui elemento poderoso para um exercício de leitura crítica de enunciados. É certo que há muitos pontos positivos nas propostas do sujeito acerca da prova para professores. É possível aceitar que a formação técnica de professores faz a diferença, caso contrário, não conseguiríamos fazer uma análise crítica do texto em questão, muito menos ensinar isso a nossos alunos. Temos de ter conhecimentos técnicos que incluem saber o que são metáforas, substantivos, adjetivos, advérbios, temos de ter noção de gêneros textuais e de todos os conceitos que são instrumentos de análise, tanto textual como discursiva. Esta última perspectiva inclui os conceitos que mostramos aqui de ethos, corporalidade, o caráter de fiador daquilo que diz construído pela forma como seleciona e articula os diversos elementos argumentativos. É necessário entender, contudo, que o jogo argumentativo nem sempre segue as regras que propõe. Em nome da melhoria da qualidade da educação no Brasil, o sujeito do texto “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba” propõe como modelo nada mais, nada menos do que a sociedade Chinesa, notadamente autoritária e que impõe a seus cidadãos uma maneira de ver o mundo que deve ser aceita independente da vontade individual de cada um, exatamente o contrário do que significa o ato de educar compreendido não como transmissão de informações, mas como desenvolvimento do senso crítico. Sem entrar no mérito da questão ou querer contra-argumentar com o enunciador do artigo de opinião, é necessário entrever certa ideologia autoritária que perpassa todo o processo argumentativo que ele constrói e que se materializa no argumento apontado no parágrafo anterior. É perfeitamente possível aderir a certas 51 ideias que ele apresenta, mas é altamente recomendável compreender que alguns argumentos são problemáticos e não devem ser aceitos sem uma reflexão crítica. Além disso, o sujeito desqualifica a ideia, por sinal prática, do trabalho com as competências do avaliado. Em nenhum ponto do texto deixa claro que não se opõe ao conceito, mas à forma como ele é aplicado no exame. Isso parece contraditório, pois desenvolver as competências ou testá-las é desenvolver ou testar a capacidade de se aplicar os conteúdos na prática. Prova disso é que o argumentador em questão encerra o seu texto em um tom panfletário, irônico, com os dizeres: “O MEC tornou-se refém das corporações. Agora será a vez do país.”. Esse tom panfletário não combina com a racionalidade proposta pelo enunciador ao longo de todo o texto e configura-se como uma contradição intrínseca à estrutura argumentativa bem articulada que até então vinha construindo. Isso de modo algum desmerece o texto, mas é um aspecto que precisa ser levado em consideração ao se avaliar a qualidade da argumentação. Queremos mostrar com isso que, por mais bem construído do ponto de vista linguístico que um texto esteja, ele sempre apresenta os problemas próprios de toda representação linguística da realidade, espaços vazios, ambiguidades e contradições intrínsecas que só podem ser adequadamente preenchidos por meio de uma leitura que nos conduza do texto ao discurso, objetivo deste nosso trabalho ao tratar de textos que veiculam o tema da educação. 52 4 ANÁLISE DA NOTÍCIA “ALCKMIN CHAMA PROFESSORES REPROVADOS PARA DAR AULAS”, PUBLICADA NO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO EM 25/02/2012. Neste capítulo será analisado um texto pertencente ao gênero notícia, publicado no jornal Folha de São Paulo, em 25/02/2012, que tem como tema a educação, mais especificamente a falta de professores e o ato do Governo do Estado de São Paulo de convocar docentes para atuarem na rede pública, mesmo sem eles terem sido aprovados em uma avaliação feita pelo próprio Estado. O objetivo de nossa análise é destacar como um gênero que deveria ser essencialmente narrativo adquire uma dimensão argumentativa que supera o objetivo enunciativo primeiro do gênero e que transforma o texto em um convite à reflexão sobre as políticas públicas educacionais. Para sustentar a proposição desta análise, retomemos a afirmação de Koch: O uso da linguagem é essencialmente argumentativo: pretendemos orientar os enunciados que produzimos no sentido de determinadas conclusões, ou seja, procuramos dotar nossos enunciados de determinada força argumentativa. (2012 p.29) Dado que o uso da linguagem é essencialmente argumentativo, mesmo um texto como uma notícia, que deveria ser um relato, pode ser visto como uma produção que apresenta uma forte dimensão argumentativa. Nesse sentido, essa análise pretende mostrar como as escolhas lexicais, a organização do texto e os mecanismos de coesão orientam os enunciados para que o coenunciador chegue a determinadas conclusões a respeito do tema. Em síntese, pretende-se mostrar como se materializa linguisticamente na notícia escolhida a “força argumentativa”. Neste caso, analisar a adequação do texto ao gênero, ou seja, em que medida um exemplar do gênero informativo realmente informa ou presta-se a veicular opiniões do sujeito ou da instituição a que ele se vincula, não significa emitir juízo de valor quanto à qualidade da produção, mas interessa mostrar que a noção de gêneros textuais deve ser usada como elemento produtor de sentido não somente a partir das especificidades da categoria genérica, mas, e talvez 53 principalmente, a partir da leitura dessas especificidades em função do contexto em que elas se encontram. Para identificar e ressaltar essa dimensão argumentativa serão analisados as sequências textuais que compõem a produção em busca de verificar em que momentos ela é essencialmente narrativa e em que momentos os segmentos argumentativos superam a narrativa. O fenômeno da intertextualidade também contribui para a argumentatividade do texto e promove a ativação da memória discursiva tanto por parte do enunciador quanto do coenunciador. O quadro cênico do texto: cena englobante, que corresponde ao tipo de discurso, nesse caso o discurso jornalístico; a cena genérica, o gênero, a notícia, cujo objetivo é informar; e a cenografia, que tem a função de configurar a fonte do discurso e, ao mesmo tempo, aquilo que ele produz, também fazem parte desta análise, pois Maingueneau (2001, p. 85), ao comentar sobre a importância das cenas de enunciação, afirma ser um texto “o rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada, não apenas um conjunto de signos inertes”. Destaca-se ainda a formação do ethos discursivo que o sujeito desenvolve durante a notícia, bem como o entrelaçamento entre os conceitos de cena e ethos, discutidos na página 16 deste trabalho. Para facilitar o acompanhamento da análise, transcreveremos o texto a seguir: Alckmin chama professores reprovados para dar aulas Governo autoriza também contratação até de quem não passou por avaliação Secretaria da Educação não informou quantos docentes reprovados ou sem avaliação atuarão nas escolas neste ano O governo paulista autorizou, pela terceira vez seguida, a contratação de professores reprovados em uma prova de seleção aplicada pelo próprio Estado ou que nem se submeteram ao teste. A gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB) alega que a medida é necessária por conta da insuficiência de professores concursados ou aprovados no exame da rede estadual paulista. E para suprir afastamentos de efetivos. 54 Além de chamar docentes que não conseguiram atingir metade dos 80 pontos possíveis na prova, aplicada em novembro passado, a Secretaria da Educação permitiu, por meio de uma resolução publicada ontem no "Diário Oficial", que lecionem professores temporários que nem fizeram a prova. O exame visou selecionar professores não concursados, categoria que historicamente conta com cerca de 100 mil docentes, o que representa quase a metade dos docentes da rede, onde estudam mais de 80% dos alunos paulistas. A Secretariada Educação não informou quantos professores reprovados ou sem avaliação atuarão em 2012. Disse, porém, que aqueles que não fizeram o exame serão classificados a partir da titulação (diplomas) e tempo de serviço na rede. O governo recorre a esses profissionais mesmo após tomar duas medidas para atenuar a falta de professores. A primeira foi a realização de concurso público, com nomeação de 14 mil novos efetivos. Houve ainda redução do período em que o temporário deve ficar fora da rede. Em 2010, lei do então governador José Serra (PSDB) exigia que o professor temporário ficasse 200 dias fora da rede após um ano de trabalho. Agora, a "quarentena" caiu para 45 dias. "As medidas são insuficientes", disse a coordenadora da pedagogia da Unicamp, Maria Marcia Malavazi. "Para haver mudança profunda na educação, o governo tem de dar condições de trabalho aos docentes semelhantes à de um executivo, não migalhas. Senão, quem vai querer lecionar?". Em 2011, o governo aprovou lei que prevê reajuste de 42% no salário base dos professores, em quatro anos. O salário inicial de um docente hoje é de R$ 1.989. Na última avaliação nacional, 70% dos formandos nas escolas estaduais de SP tiveram desempenho considerado insuficiente em português. Deficit em área nobre Tradicionalmente, o deficit de docentes é maior em bairros mais carentes da capital paulista, mas atinge também as áreas centrais. Na próxima segunda-feira, quase um mês após o início das aulas, serão convocados professores para 35 dos cerca de 75 colégios da diretoria Centro-Oeste da capital, que engloba bairros como Moema, Pinheiros e Morumbi. Segunda melhor escola da capital, a Rui Bloem (na Saúde) chamará docentes de sociologia, geografia, física, educação física e arte. O tema educação deverá ser um dos pontos centrais da eleição deste ano na capital, na qual poderá haver dois candidatos ligados à área: Fernando Haddad, pelo PT, e Gabriel Chalita, pelo PMDB. Há critério técnico para escolha de docente, diz governo 55 A Secretaria da Educação afirmou que haverá critérios pedagógicos para selecionar os docentes que não participaram da seleção. Serão considerados a titulação, qualificação e seu tempo de serviço na rede. Por meio de nota oficial, a pasta disse trabalhar para diminuir o número de docentes temporários na rede, mas afirma que sempre haverá esse perfil de professores. Eles são chamados, diz a secretaria, para cobrir ausências de efetivos, afastados por conta de aposentadorias, licenças-saúde e exonerações. A pasta afirma ainda que as aulas "eventualmente" não dadas por falta de professores serão repostas. Em ocasiões anteriores, o secretário de Estado da Educação, Herman Voorwald, afirmou que o governo paulista trabalha para oferecer melhores condições ao magistério, o que pode atrair mais pessoas à carreira. Ele tem citado como fato positivo a aprovação de lei no ano passado que prevê reajuste de 42% no salário base docente até o final da gestão Alckmin (PSDB), em 2014. A pasta afirma ainda que discute com os sindicatos a adoção de uma carreira no magistério, na qual os professores poderão ganhar reajustes e benefícios a partir de sua experiência e avaliações. Sobre o excesso de temporários na rede estadual, a secretaria afirma que, neste ano, já nomeou 14 mil novos docentes efetivos e há previsão para outros 9 mil em 2013. Entenda o caso SELEÇÃO Na rede estadual, os docentes concursados escolhem as preenchidas. PROBLEMA Mesmo com os temporários, não havia professores suficientes para preencher todas as aulas na rede. ALTERNATIVA Para preencher as vagas, o governo decidiu chamar professores temporários com notas baixas e até aqueles que não participaram do exame. JUSTIFICATIVA O governo afirma que esses profissionais só serão chamados em casos de emergência. Cronologia do problema 2009 Governo Serra cria prova para selecionar professores temporários. A ideia é chamar aqueles que acertarem ao menos metade das questões do exame de seleção. 56 2010 Com falta de professores, governo é obrigado a chamar temporários reprovados e até os que não prestaram a prova. 2011 Governo Alckmin faz concurso público e contrata 14 mil professores para a rede. 2012 Mesmo com as medidas do ano anterior, governo é obrigado a recorrer a temporários reprovados ou que não prestaram a prova.” FÁBIO TAKAHASHI DE SÃO PAULO Notícia publicada no jornal Folha de São Paulo em 25/02/2012 A notícia analisada é composta de uma manchete, que é o título; um lide, relato sucinto dos aspectos essenciais, responsável por motivar o leitor a continuar a leitura e um corpo, ou seja, o texto dividido em 5 seções que descrevem a situação da prova por etapas. Essas seções foram divididas em subtítulos. A primeira seção descreve o problema de uma forma mais detalhada, explicando como e por que houve o processo seletivo, inclusive utiliza a palavra de uma especialista para que o caso seja mais bem entendido por parte do coenunciador. A segunda parte descreve as áreas mais deficitárias em relação à falta de professores e os critérios para a escolha dos docentes. A terceira parte relata quais critérios técnicos serão utilizados para a escolha dos docentes. A quarta parte elenca fatos tais como o processo de seleção, o problema, as alternativas e a justificativa utilizada pelo governo. A quinta e última parte relata a cronologia do problema ano a ano, iniciado em 2009. Estes subtítulos descrevem de uma forma mais concisa, ou seja, passo a passo, como aconteceu todo o processo avaliatório. Por meio da manchete: “Alckmin chama professores reprovados para dar aulas”, que é a parte mais destacada da notícia, é possível perceber que o enunciador cita o sobrenome do governador. Desse modo, apaga o cargo do ente público, sugerindo ao coenunciador que deve centrar-se na figura do homem, não no cargo que ele ocupa. É importante destacar também a ambiguidade em referência ao sobrenome, pois ao mesmo tempo em que nos referimos a pessoas próximas dessa forma, quando fazemos isso em relação a uma autoridade, o apelativo soa um tanto inadequado, pois pode denotar certa proximidade. 57 Essa primeira referência ao sobrenome também nos permite inferir que há um certo posicionamento do sujeito que escreve a notícia, pois ao chamar o governador de Alckmin, ele coloca-se no mesmo nível da autoridade e, dessa forma, parece que ganha autoridade para falar com o político de igual para igual. Ao se utilizar desse tipo de remissão, o sujeito exerce não apenas o papel de repórter, mas assume a voz da instituição que ele representa: a Folha de São Paulo. Maingueneau, ao comentar sobre os diferentes papéis assumidos pelo sujeito no discurso, afirma que: “De um certo modo, nossa personalidade é tecida com os papéis em que atuamos”. (p. 70, 2001) É possível que o repórter esteja alicerçado no poder dessa instituição, o que lhe daria a liberdade de chamar o Governador de São Paulo apenas de Alckmin. Na manchete é possível perceber também que, ao mencionar “professores reprovados”, há falta de complemento, ou seja, reprovados em quê? Nesse caso, o termo reprovados, associado ao substantivo professores, põe uma contradição que faz com que o coenunciador infira que os professores sejam incompetentes ou não aprovados para dar aulas, uma vez que professores para se formarem têm que fazer cursos de graduação que têm provas. O termo “professores reprovados” soa como algo inusitado, contraditório, também porque é o professor quem reprova. Por meio dessa expressão, o sujeito apresenta certa sugestão do mundo às avessas. Trata-se de uma expressão que chama a atenção pelo exagero que contribui para que o enunciador, no papel de formador de opinião, transmita uma ideia negativa do poder público, metonimizado na figura de Alckmin. Somente ao iniciar o texto, mais especificamente no primeiro parágrafo, existe a informação de que os professores foram reprovados em uma prova específica, aplicada pelo próprio Governo. Esse tom apelativo presente na expressão “professores reprovados”, utilizado para aguçar a curiosidade do leitor, para que ele se interesse pela notícia, é uma característica comum das manchetes. O lide, além de possuir função próxima à da manchete, ou seja, prender a atenção do leitor, deve trazer informações essenciais sobre o fato. No caso deste texto, o lide informa que: “Governo autoriza contratação até de quem não passou por 58 avaliação” e que “Secretaria da Educação não informou quantos docentes reprovados ou sem avaliação atuarão nas escolas neste ano.” Este lide aproxima-se e até amplia o tom apelativo já destacado na manchete, pois dá algumas informações essenciais sobre o fato mas, mais que isso, contribui muito para que o enunciatário tenha uma opinião já formada antes mesmo de conhecer os fatos. Nesse sentido, cabe destacar o uso do advérbio “até” e o efeito que ele produz: é inclusivo, porém inclui aquilo que não deveria estar incluso, “os professores reprovados”. Esse “até”, reforçado pelo operador “também”, é uma espécie de comentário do sujeito carregado de sentido avaliativo: avalia negativamente a ação do governo. Além disso, a segunda parte do lide reforça o descontrole sobre a situação, uma vez que o órgão responsável pelo processo, a Secretaria da Educação, desconhece a quantidade de professores chamados. O advérbio “até” será novamente utilizado no final da notícia quando o enunciador afirmará que: “Para preencher as vagas, o governo decidiu chamar professores temporários com notas baixas e até aqueles que não participaram do exame.” Percebe-se que agora o advérbio “até” encontra-se na seção denominada cronologia do problema, na qual deveria prevalecer a objetividade, porque a cronologia pressupõe uma enumeração dos fatos no tempo. No entanto o advérbio funciona como operador argumentativo. Koch (p. 31, 2004) afirma que esses operadores argumentativos têm a função de “assinalar o argumento mais forte de uma escala orientada no sentido de determinada conclusão” Neste caso, tanto no lide quanto na cronologia, o “até” direciona a uma conclusão que sugere certo descontrole da situação por parte do governo, reforçando a ideia do descontrole da Secretaria que desconhece o número de professores, com desempenho insatisfatório nas avaliações, que foram convocados. Destaca-se ainda que o governo, na busca de uma solução para o problema apresentado, a falta de docentes, além de chamar aqueles professores que tiveram notas baixas, terá que chamar também aqueles que nem ao menos fizeram a prova. 59 O lide possui outro operador argumentativo “ou”, também chamado de modalizador. Segundo Koch (2012), modalizadores são “marcas linguísticas da enunciação ou da argumentação que também têm a função de determinar o modo como aquilo que se diz é dito” (p.29). Esse tipo de operador tem o intuito de convencer o coenunciador sobre aquilo que está sendo noticiado. O operador argumentativo “ou”, conforme Koch (2012, p.35), “introduz argumentos alternativos que levam a conclusões diferentes ou opostas.” No caso específico do lide em estudo, a alternativa “ou” introduz a expressão “sem avaliação”, referindo-se a uma segunda categoria de docentes, o que direciona o coenunciador à conclusão de que os professores aprovados formam um grupo ainda mais precário do ponto de vista da qualificação do que o grupo dos “reprovados”. Esses mecanismos que vão “auxiliar no processo de tecitura do texto” (KOCH p.15, 2012) também têm a finalidade de assimilar relações de sentido entre enunciados ou partes de enunciados e são responsáveis para dar uma dimensão argumentativa maior ao texto. No lide também se caracteriza uma necessidade de captar a atenção do interlocutor. No segundo parágrafo da notícia, ao mencionar que “A gestão do governador Geraldo Alckmin (PSDB) alega que a medida é necessária...” o enunciador, por meio de mecanismo de coesão referencial, aproveitando-se do processo de remissão anafórico, reativa o referente, dessa vez de uma forma mais objetiva, evocando a ideia de uma equipe gestora: “a gestão”, do cargo do ente público ”governador”, do nome completo do agente “Geraldo Alckmin” e até do partido a que ele pertence, PSDB. A responsabilidade de convocar “professores reprovados” ou que não foram avaliados agora é atribuída a um grupo, não apenas ao homem. A notícia trata de um assunto de interesse coletivo, mesmo que sob a perspectiva do sujeito ou da instituição que ele representa e surge de um evento deflagrador, aqui, o fato de os professores da rede estadual paulista terem sido reprovados em uma prova preparada especialmente pelo Governo do Estado de São Paulo para docentes. 60 Esse evento deflagrador, que “tem a função de fazer a intermediação entre a realidade e o texto” (ALVES FILHO, 2011 p.40), motivou o sujeito a produzir o gênero aqui analisado. Visto que esse sujeito dispunha de uma série de outros eventos ligados à educação e escolheu este, a convocação de professores que foram reprovados em uma avaliação, essa escolha já implica uma tomada de decisão. Essa tomada de decisão amplia-se quando o sujeito reorienta o tema e progride para colocar em foco outros aspectos do problema, a saber: a falta de incentivo à carreira docente e outras questões estruturais que irão encaminhar o enunciatário a considerar que o fulcro do problema não está nos professores, mas nas políticas públicas educacionais do Governo que estão provocando a falência do sistema. No terceiro parágrafo temos a comprovação disso: Além de chamar docentes que não conseguiram atingir metade dos 80 pontos possíveis na prova, aplicada em novembro passado, a Secretaria da Educação permitiu, por meio de uma resolução publicada ontem no “Diário Oficial” que lecionem professores temporários que nem fizeram a prova. Neste fragmento, o conjunto de operadores argumentativos “além de” e “nem” realçam essa tomada de posição, pois somam argumentos a favor da conclusão de que o governo reitera erros na condução do processo administrativo que lhe foi conferido. Caracteriza-se daqui, a ênfase no aspecto remático, o que desloca o tema evento deflagrador para um segundo plano. À luz da afirmação de Charaudeau, ao mencionar que “O acontecimento nasce, vive e morre numa dialética permanente da ordem e da desordem, dialética que pode estar na natureza, mas cuja percepção e significância dependem de um sujeito que interpreta o mundo” (p.99, 2012), podemos refletir sobre o processo evenemencial que o enunciador utiliza no intuito de instaurar algo novo a partir de um fato da realidade. No caso específico desta notícia, o acontecimento que serve como tema é reapresentado sob outra perspectiva que, pelos comentários do sujeito, é redimensionado pelos operadores argumentativos e ganha uma dimensão maior. 61 Isso se evidencia durante esse processo de desenvolvimento quando o enunciador menciona que ”o exame visou selecionar professores não concursados, categoria que historicamente conta com cerca de 100 mil docentes.” O intuito desse número é enfatizar a enorme quantidade de professores não concursados na rede, para, dessa forma, chamar a atenção para a dimensão do problema. Outro recurso usado para reforçar a orientação argumentativa do enunciador é o testemunho de autoridade, estratégia comum no gênero notícia. No caso deste texto, as questões relativas à política educacional de São Paulo, que também envolvem as questões salariais, são reiteradas pela Coordenadora do curso de Pedagogia da Unicamp, Maria Marcia Malavazi: “Para haver mudança profunda na educação o governador tem de dar condição de trabalho aos docentes semelhantes à de um executivo, não migalhas. Senão, quem vai lecionar?” É possível perceber, neste trecho, a heterogeneidade discursiva que é destacada pelo uso de aspas e que serve como argumento tanto para desqualificar a ação governamental que o sujeito considera equivocada quanto para reapresentar o governador como pessoa e não como ente público. Essa referência não é do sujeito, mas de uma pessoa que é qualificada como especialista do assunto. Nesta passagem, destaca-se a subjetividade da entrevistada que se utiliza do adjetivo “profunda” para se referir à necessidade de mudança na educação. Esse adjetivo, um tanto vago, é explicitado quando a especialista apresenta o que se entende por profundidade: dar condições de trabalho ao professor. Nessa parte, ganha especial relevo o termo “migalhas”, de caráter pejorativo e que sugere o contraste entre o executivo e o professor. Considerando-se que o governador é o chefe do Executivo, estas escolhas lexicais não só sugerem a distância entre a remuneração das empresas privadas com seus executivos e a que o Estado destina ao professores, mas também sugere a distância entre o salário dos altos cargos governamentais e dos professores. Articulando a questão da heterogeneidade discursiva às leis do discurso, percebe-se que a introdução da voz da especialista atende à lei da pertinência, pois reforça a ideia de que “uma enunciação deve ser maximamente adequada ao contexto em que acontece: deve interessar ao destinatário, fornecendo-lhe 62 informações que modifiquem a situação.” (MAINGUENEAU 2001, p. 34) Nesse caso esse enunciado contribui para reforçar aquilo que o sujeito que produz a notícia sustenta. Destaca-se o trecho “A Secretaria da Educação não informou quantos professores reprovados ou sem avaliação atuarão em 2012. Disse, porém, que aqueles que não fizeram o exame serão classificados a partir da titulação e tempo de serviço na rede.” Nesse trecho é possível perceber que o enunciador volta a mencionar a questão do evento deflagrador, “professores reprovados ou sem avaliação que atuarão em 2012”, para assim enfatizar a participação da Secretaria da Educação, utilizando-se da elipse como mecanismo de coesão para evitar a repetição, sem deixar de mencionar o causador do evento deflagrador, visto que a notícia, em geral, gira em torno desse assunto, procurando sempre destacar o fato de professores serem reprovados em prova classificatória e, mesmo assim, lecionarão no ano seguinte, sendo o conteúdo dessas provas aquilo que o docente deverá ensinar em sala de aula. Quando o sujeito afirma que: “Tradicionalmente, o déficit de docentes é maior em bairros mais carentes da capital paulista, mas atinge também as áreas mais centrais”, os operadores argumentativos “mas” e “também” atuam de modo conjunto para a orientação argumentativa dessa informação. O “mas” tem a função de “produzir dois enunciados distintos, encadeando-se o segundo sobre o primeiro, que é tomado como tema. Eles opõem argumentos enunciados de perspectivas diferentes, que orientam, portanto para conclusões contrárias” (KOCH, 2012 p.37). Neste caso, o tradicional déficit de docentes em bairros carentes apontaria para a conclusão de que o fenômeno não ocorre em bairros não carentes. O uso do “mas” direciona o enunciador a uma conclusão oposta, o fenômeno agora atinge as áreas centrais também, ou seja, inclusive. Isso contribui para o argumento de que a má gestão na área da educação vem se ampliando. Além disso, o “mas” contrapõe o adjetivo “carentes” ao adjetivo “centrais”, o que leva o coenunciador à conclusão de que a carência é um atributo da periferia da cidade, enquanto as áreas centrais são mais ricas, o que nem sempre corresponde à realidade. 63 Percebe-se também que, em relação ao contexto em que essa afirmação se insere, é possível notar a necessidade do enunciador em ressaltar ainda mais a incompetência do atual governo em gerir o sistema educacional. A impressão geral que se tem é que o texto nos transmite a idéia de que o atual governo é incapaz de compreender os verdadeiros problemas do sistema educacional e procura remediar o problema com ações emergenciais como a veiculada pela notícia: a convocação de professores que foram reprovados em um exame. Assim o evento deflagrador torna-se uma tese em seu favor. A esse argumento, somam-se outros: testemunho de especialista, observação de que o problema atinge bairros mais privilegiados e não apenas os periféricos. Percebe-se também que há uma mudança de foco no texto quando o enunciador afirma que: “O tema educação deverá ser um dos pontos centrais da eleição deste ano na capital, na qual poderá haver dois candidatos ligados à área: Fernando Haddad, pelo PT, e Gabriel Chalita, pelo PMDB”. A notícia procura enfatizar a reprovação de professores na rede estadual de ensino de São Paulo, da competência do Governo do Estado, mas no interior do texto o enunciador menciona candidatos à prefeitura de São Paulo. Menciona ainda o nome dos candidatos à prefeitura do município e seus respectivos partidos políticos, como se as duas secretarias, ou as duas pastas (termo utilizado pelo enunciador por meio de processo anafórico), estivessem no mesmo nível. Percebe-se nessa afirmação, além disso, que o enunciador procura citar o município de São Paulo e as promessas de campanha dos candidatos a prefeito com o intuito de relembrar o coenunciador de que o tema educação é frequente em tempos de eleição, mas que as promessas nessa área não se traduzem em ações políticas. É possível também que o enunciador queira se apresentar como alguém que vê o problema da educação de forma mais ampla e menos imediata do que os políticos, quer os estaduais, quer os municipais. Nesse caso, cabe ressaltar que o adjetivo “profunda”, já mencionado pela especialista, ganha uma dimensão maior. O sujeito, ao trazer a informação que: “A pasta afirma ainda que as aulas ‘eventualmente’ não dadas por falta de professores serão repostas.” chama a atenção do coenunciador para a distância que assume em relação ao que está 64 sendo dito quando grafa o advérbio “eventualmente” entre aspas. A responsabilidade sobre esse modificador que relativiza ou atenua o problema não é do sujeito, mas de representantes do Governo. Destaca-se também o fato de o enunciador, por meio desse processo polifônico, ironicamente utilizar o advérbio “eventualmente” para levar o coenunciador a inferir que o governo quebra a lei da sinceridade. Na contextualização da notícia, última parte do texto, o enunciador explica mais detalhadamente as partes do processo que culminou no evento deflagrador: seleção de docentes; problema; alternativa; justificativa; e cronologia do problema. Ao mencionar a alternativa encontrada pelo executivo, ele afirma que: “Para preencher as vagas, o governo decidiu chamar professores temporários com notas baixas e até aqueles que não participaram do exame.” Nessa contextualização pode-se destacar o termo “notas baixas” utilizado pelo enunciador para enfatizar alguns pontos considerados negativos da pasta educação no Governo do Estado de São Paulo tais como: a falência da política educacional e as suas contradições; a falta de pessoas qualificadas para preencherem as vagas ou até mesmo a falta de políticas adequadas. Ao elencar cronologicamente a sequência dos fatos, o sujeito assume um ethos discursivo de narrador objetivo, visto que procura informar sobre as etapas do problema. Com a aparente intenção de suprir a falta de memória do leitor, o sujeito ao reavivar o caso, ressalta as ações ineficazes do governo no passado. Assim, ao assumir o ethos de narrador objetivo, valida a cena genérica como uma notícia, gênero da esfera jornalística. A posição do enunciador sobre o tema “professores reprovados” é bastante destacada durante toda a notícia ao perceber que o enunciador utiliza-se dos operadores argumentativos para indicar a direção para qual apontam. 65 Termos como “mas, ainda, embora, talvez, até, e, só”, confirmam a força argumentativa da notícia, visto que, toda argumentação é caracterizada por ser o índice de uma dúvida. Por se tratar de um meio de comunicação que pode ser visto em diferentes suportes e lugares, o gênero em questão, a notícia, além de informar, apresenta uma dimensão argumentativa que problematiza as políticas públicas educacionais do Governo do Estado de São Paulo, sendo que o fato, “o evento deflagrador” do texto, a convocação dos professores que não passaram no teste é colocada em segundo plano e em dados momentos é apresentada como um argumento em favor de uma “tese” que o texto desenvolve: a solução para a falta de profissionais docentes qualificados passa, necessariamente, pela valorização da carreira, fato que o governo parece negligenciar de longa data. Essas afirmações podem ser verificadas no texto por meio de expressões tais como ”professores reprovados e contratação até de quem não passou na avaliação”. O enunciador procura, durante a composição da notícia, utilizar-se do discurso de oposição, ou seja, ele desvaloriza a face positiva do governo e valoriza a face positiva da instituição “jornal”. 66 5 CONFLUÊNCIAS ENTRE OS DOIS TEXTOS Este capítulo tem como finalidade estabelecer as confluências entre as análises dos dois textos que fazem parte do corpus de nossa pesquisa: “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba”, publicado em 09/05/2011 no jornal O Estado de São Paulo e “Alckmin Chama Professores Reprovados para Dar Aulas”, publicada no jornal Folha de São Paulo em 25/02/2012. Os dois textos têm o mesmo tema, educação, mais especificamente a avaliação docente, um centrado no processo de avaliação docente realizado na esfera federal e o outro na esfera estadual. Cada um pertence a um gênero: artigo de opinião e notícia. Enquanto o artigo de opinião tem como objetivo principal argumentar, defender uma idéia, a notícia tem como objetivo principal informar, apresentar um fato, via de regra novo. No caso de nosso corpus, percebemos que na notícia analisada a dimensão argumentativa amplia-se significantemente, quase tomando o fato novo que a gerou, evento evenemencial, como um pretexto para problematizar as ações do gestor público. Em relação aos textos analisados, já é perceptível a orientação temática a partir do título, no caso do artigo de opinião, e da manchete, no caso da notícia. No artigo de opinião, o título está centrado no substantivo “prova”, enquanto a notícia tem a manchete centrada no verbo “chamar”. De fato, o primeiro discutirá o produto, por assim dizer, a avaliação docente e seus aspectos negativos na visão do enunciador. Já o segundo, centrar-se-á no processo, mais precisamente no final de um processo que, segundo o enunciador, é falho, haja vista que foram chamados professores reprovados. Em ambos os casos, o tom crítico aos entes públicos será marcado pela ironia, a saber: o uso do termo “jabuticaba” como metáfora no processo de avaliação no artigo de opinião; e a contradição “professores reprovados” na notícia, elemento que interpretamos como recurso expressivo que confere ao texto uma dimensão 67 argumentativa que se impõe ante o objetivo informativo que se espera desse gênero. Mesmo pertencendo à mesma cena englobante, ou seja, o discurso jornalístico, a cena genérica não é a mesma em ambas as produções. Além disso, a cenografia será também diferenciada pelo fato de os enunciadores possuírem diferentes papéis na enunciação dos gêneros. No artigo de opinião, o enunciador assume um papel didático, um tom professoral, de especialista no assunto, de alguém que tem muita experiência no campo de atuação e que está desanimado com as políticas públicas para a educação. Essa cenografia não difere muito da que já traz o gênero, exceto talvez pelo tom de ironia já evidenciado na metáfora da jabuticaba, que pode ser conferido na página 37 deste trabalho: uma fruta exclusivamente brasileira, que não tem pressa em dar frutos, que oferece um imenso grau de dificuldade em seu cultivo e nem sempre é garantia de sucesso em suas primeiras colheitas. No caso da notícia, a cenografia difere, em parte, do modelo convencional do gênero, pois, ao invés de procurar centrar-se na narração, traz também duas seções que ampliam o fato: “Entenda o caso” e “Cronologia do problema”, indício de que o enunciador pressupõe um leitor que desconhece o problema ou que tem memória curta. Não só no título ou na manchete, os exemplares analisados têm tom irônico. Essa atitude permeia todo o texto, em ambos os casos. Segundo Maingueneau: A ironia é por essência ambígua, pois se mantém na fronteira entre o que é assumido e o que é rejeitado. É próprio da natureza da ironia ser muitas vezes insolúvel, impedindo que o coenunciador determine se o enunciador está ou não sendo irônico. (2001, p.175) Esse tom irônico é perceptível por meio da seleção lexical no artigo de opinião. Destacam-se termos tais como: geleia geral, famigerado, melíflua e, principalmente, jabuticaba. Na notícia, esse tom irônico pode ser percebido pela referência a “até quem não passou na avaliação” e “docentes reprovados” ou “que nem se submeteram aos testes”, tanto no lide quanto no corpo, e também por meio de vocábulos tais como, “migalhas” e pelo uso do advérbio “eventualmente”, para reproduzir a voz do ente público. Quando recorta o advérbio “eventualmente” da fala 68 do ente público e o reproduz cercado por aspas, o enunciador sugere que prestemos atenção nele e, em certo sentido, polemiza a declaração. Maingueneau (2001) afirma que as aspas “indicam uma espécie de lacuna, um vazio a ser preenchido interpretativamente” e que “para descobrir a razão do emprego das aspas e interpretá-las, o leitor deve levar em consideração o contexto.” (p.161-162). A cenografia de cada um dos textos evidencia a construção de um ethos discursivo em ambos os casos, críticos, mas com diferentes nuances em cada produção. O enunciador do artigo de opinião assume o ethos de um especialista em educação, um professor, mas um mestre irritado com seus alunos, os outros professores responsáveis pela elaboração da prova nacional. Assume, pelo tom irônico e irritado, o ethos de um supramestre, repreendendo seus alunos na frente dos coenunciadores, os leitores. O enunciador da notícia, por outro lado, ao se dirigir ao Governador como “Alckmin” usa um tom que se aproxima da oralidade, destituindo a referência ao governador de qualquer tom solene. Como representante da instituição para a qual escreve, coloca-se em confronto com o político, pois, esse rebaixamento da figura do chefe máximo do poder executivo estadual soa como uma espécie de repreensão ao homem que ocupa o cargo. Além disso, o enunciador da notícia também assume um tom didático, notadamente na seção “Entenda o caso”, sendo que a palavra “caso”, aqui, soa também um tanto irônica, sugerindo, pelo sentido primeiro do termo, algo circunstancial, mas sabemos que o fato gerador da notícia não se trata de um acontecimento fortuito, mas de um processo cuja cronologia ele mesmo resgata a seguir. Assim, o enunciador assume o ethos retórico de um quase historiador ao reproduzir a cronologia do problema educacional paulista, ao elencar a sequência apresentada no texto reativando, assim, a memória discursiva do interlocutor. Brandão, em conformidade, afirma que: A toda formação discursiva se vê associar uma memória discursiva. È a memória discursiva que torna possível a toda formação discursiva fazer circular formulações anteriores, já enunciadas. È ela que permite, na rede de formulações que constitui o intradiscurso de uma formação discursiva, o aparecimento, a rejeição ou a transformação de enunciados pertencentes a 69 formações discursivas historicamente contíguas. Não se trata, portanto, de uma memória psicológica, mas de uma memória que supõe o enunciado inscrito na história. (1995, p.76-77) Esse procedimento, também, como no caso do artigo de opinião em que tínhamos o professor não satisfeito com o desempenho de seus “alunos”, sugere ao coenunciador certa perda de paciência com os erros do passado da administração e certo pessimismo com relação ao futuro. Esse tom o coloca na posição de alguém cuja visão é mais ampla do que a dos administradores públicos. Desse modo, ambas as visões dos enunciadores são legitimadas pela construção desse ethos que, de diferentes modos, corporificam sujeitos que buscam transcender os fatos imediatos de que se valem como tema para validar visões imediatas, pois conforme afirmam Charaudeau e Maingueneau: O enunciador deve legitimar seu dizer: em seu discurso, ele se atribui uma posição institucional e marca sua relação a um saber. No entanto, ele não se manifesta somente como um papel e um estatuto, ele se deixa apreender também como uma voz e um corpo. (2008, p. 220) Ambos os textos analisados têm indícios de polifonia, pois “veiculam muitos pontos de vista diferentes e, dessa forma o autor pode fazer falar várias vozes ao longo de seu texto” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU 2008, p. 388). Ambos usam uma marca do processo polifônico, as aspas, que são, segundo Kock, Bentes e Cavalcante (p. 82, 2008) “marcas de distanciamento, de não concordância com o termo ou o segmento do texto que se aspeia, segmento esse produzido por ou atribuído a outro enunciador, real ou virtual.” No caso do artigo de opinião, as aspas reproduzem a voz dos especialistas do MEC, de forma irônica, já que são dizeres daqueles alunos repreendidos pelo enunciador que, já mostramos, apresenta-se como um supramestre. Do mesmo modo, são reproduzidos trechos dos documentos elaborados por eles. Assim, percebe-se que há um rebaixamento de categoria de especialistas competentes para incompetentes, ou seja, desqualificando-lhes. No caso da notícia, as aspas reproduzem o advérbio “eventualmente” e também reproduzem da voz da especialista, mas só no momento em que ela fala das condições de trabalho dos professores, da carreira docente referindo-se a medidas de longo prazo necessárias para a resolução do problema que gerou a notícia, ou seja, o recorte da fala da especialista entre aspas apresenta-se como 70 mais um argumento em favor da tese, por assim dizer, que permeia a notícia: o Governo do Estado de São Paulo recorre a expedientes precários para sanar as consequências nefastas de um “erro histórico” de gestão na área educacional. Esse recorte do discurso da especialista está em consonância com o do enunciador que propõe medidas a longo prazo e critica as medidas emergenciais tomadas pelo governo. Evidencia-se, aqui, a mesma tensão já evidenciada na construção da cenografia, quando confrontamos o caráter atual, novo, do gênero notícia com o caráter perene do resgate cronológico do problema da educação, proposto na seção “Cronologia do problema”. Aliás, quando fala da convocação de professores, o enunciador fala de “caso” e quando resgata as origens, fala de “problema”. Novamente a tensão entre o que é remediar o problema e o que é tentar solucioná-lo com um projeto de longo prazo. Neste sentido, a notícia, em que pese o objetivo enunciativo de gênero, informar, ganha uma dimensão argumentativa muito próxima do artigo de opinião. Em conformidade com essa afirmação, Cabral (p.140, 2011) menciona que “há textos que têm maior concentração de marcas de argumentação e, por isso, são mais argumentativos”. Neste confronto, podemos dizer que, independente do gênero, as estratégias enunciativas dos enunciadores tornam-se perceptíveis à medida que são colocadas a serviço de um discurso que problematiza o objeto que tematizam. Essas estratégias discursivas são vinculadas tanto ao texto quanto ao discurso, o que nos autoriza a dizer que essas duas instâncias são faces de uma mesma moeda. Nesse sentido é que recordamos da citação de Guimarães (2012) na página cinco deste trabalho em que a escritora nos fala do jogo interno de dependências estruturais relacionadas ao que está fora da materialidade textual como condição para compreender o percurso que vai do texto ao discurso. 71 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do tema educação, mais especificamente avaliação docente, que é um tema que diz respeito a minha profissão, às inquietações e aos problemas do dia a dia da docência, procurei refletir sobre os conceitos, ainda em construção, de texto e discurso e sobre a aplicabilidade deles no processo de compreensão de enunciados. Dessa forma, compreendi que há uma via de mão dupla que une ambos os fenômenos. Há uma interdependência entre os fatos textuais e os fatos discursivos, que se imbricam, o que torna difícil estabelecer uma fronteira entre texto e discurso e este trabalho sugere que talvez não seja necessária uma distinção rígida entre eles, mas a pesquisa acentua a percepção de que ambos os domínios, o da Linguística Textual e o da Análise do Discurso, devem ser postos a serviço de uma leitura crítica e interativa. Mas, se não há uma necessidade de categorizar texto e discurso tão rigidamente, o trabalho mostra que é preciso ir além do texto e ir além dessa materialidade linguística é compreender que os enunciados não são apenas grupos de palavras ou termos que correspondem a um significado. São, antes de tudo, elementos que ganham novos sentidos e sentidos que transcendem a significação primeira que propõem à medida que se articulam com aspectos discursivos, ou seja, à medida que são postos em ação pelo coenunciador. Pôr em ação os elementos textuais dá-se por meio da escolha de um gênero, da construção da cenografia e do ethos, da análise da ideologia dos enunciadores, dos aspectos discursivos materializados no texto por meio do processo de escolhas lexicais, de mecanismos de coesão, organização sintática, recursos como ironia e polifonia. As atividades de pesquisa e de leitura proporcionaram-me a abertura de novos horizontes quanto aos processos de interpretação de textos, que serão ferramentas indispensáveis na minha prática profissional de agora em diante. 72 A partir deste trabalho, passei a agregar, sistematicamente, aos estudos textuais desenvolvidos em classe com meus alunos a visão discursiva que em muitos casos falta no processo de ensino e aprendizagem. A escolha do corpus, por sua vez, priorizou textos da esfera jornalística e que têm o tema relacionado à educação. Os dois exemplares selecionados para análise foram produzidos por sujeitos que assumem uma postura crítica quanto a tema e foram publicados em veículos de comunicação de grande circulação, o que lhes confere especial dimensão argumentativa independente do gênero a que pertencem. Esse material permitiu ressaltar os aspectos dessa argumentatividade no texto e no discurso de modo significativo. Para tanto, o capítulo “Do texto ao discurso” procurou destacar aspectos que permeiam a produção textual como uma atividade verbal, criativa e dinâmica. O intuito foi mostrar que o texto pode e deve ser visto como um objeto de estudo que transcende sua materialidade e que os recursos linguísticos vão além de formas ritualizadas e configuram-se como estratégias que possibilitam ao coenunciador transcendê-las em direção ao discurso, a linguagem posta em ação. Como o discurso se produz por meio de textos que pertencem a um gênero, o capítulo: “Gêneros da esfera midiática” discorre sobre as especificidades dos textos da esfera em que circulam os textos que fazem parte do corpus deste trabalho, artigo de opinião e notícia, destacando neles aspectos como: persuasão, alto teor de argumentatividade, estes bastante pertinentes ao artigo de opinião, pelo fato de o enunciador procurar convencer o coenunciador, bem como evento deflagrador, gênese da notícia. Com base na consciência das imbricações conceituais de texto e discurso e nos aspectos fundamentais dos gêneros escolhidos, o capítulo seguinte foi dedicado à análise do artigo de opinião: “Prova para Professores é mais uma Jabuticaba”. Nele, elementos textuais e discursivos foram resgatados para que nossa análise ressaltasse os elementos textuais produtores de sentido que vão desde a seleção lexical, o tom irônico assumido pelo enunciador, o ethos discursivo, que se constrói e sustenta a argumentação do enunciador. 73 Percebe-se que, por ser um especialista na área educacional e diretor de uma instituição preocupada em melhorar a educação no país, o enunciador constrói o ethos discursivo de alguém que possui profundo conhecimento sobre educação e por isso se torna fiador daquilo que enuncia (MAINGUENEAU, p. 98, 2001). O capítulo seguinte, por meio do mesmo aparato teórico, analisou a notícia “Alckmin chama professores reprovados para dar aulas”. Nele, procurou-se destacar como um gênero que, a priori, destina-se a informar adquire uma dimensão argumentativa, permitindo que o enunciador assuma, durante o decorrer do texto um ethos discursivo que revela o modo como ele se envolve na enunciação, adquirindo, assim, corporalidade. Essa argumentatividade presente no texto é analisada por meio da observação dos elementos lexicais e dos operadores argumentativos que permeiam a manchete, o lide e o texto e também por meio de observações sobre a estrutura dessa notícia específica que se apresenta fragmentada em seções pouco comuns em notícias tradicionais. Uma delas, “Entenda o caso”, cuja função seria a de resgatar para o leitor o histórico de evento deflagrador que a gerou, mostra-se a serviço da formação de opinião pelo modo com que dispõe os fatos e os apresenta. O enunciador, por meio desse recurso, confere uma maior dimensão argumentativa à enunciação e critica a forma como o governo trata a educação no Estado de São Paulo, desmascarando o que considera um paradoxo: a proposta de uma prova para avaliar professores e, em seguida, a contratação até aqueles que não foram aprovados no exame, o que faz o coenunciador refletir sobre a incompetência do ente público para gerenciar o sistema educacional. Finalmente, o último capítulo procurou fazer a confluência entre os dois exemplares analisados. Constatou-se que em ambos há uma dimensão argumentativa que vai além do próprio texto ou da finalidade enunciativa primeira de cada gênero e que essa argumentatividade está no texto e também apresenta-se no discurso. Isso nos leva à conclusão de que categorias textuais estanques só têm sentido se forem vistas em função da posição que possuem ou adquirem ao longo do discurso que produzem. Em outras palavras, defende-se a funcionalidade dos termos e não a visão taxonômica deles. 74 Ao construir esta dissertação, também penso que ela possa contribuir de algum modo para a compreensão da importância do estudo tanto da Linguística Textual como da Análise do Discurso e do estabelecimento de conexão íntima entre os conceitos de ambas as áreas para compreender os efeitos de produção de sentido de forma crítica. Além disso, é necessário substituir, nas práticas pedagógicas de leitura, uma visão estreita das questões gramaticais por uma visão mais ampla que envolva a construção e a compreensão do sujeito por meio da apropriação que ele faz da língua tanto quando escreve quanto quando lê. Nesse sentido, a pesquisa percorreu o trajeto do texto ao discurso e procurou mostrar que este caminho não é linear nem separa os pontos de partida e de chegada como se fossem situados em uma reta, mas os articula num movimento espiral, num processo ascendente, que ganha força à medida que avança. 75 REFERÊNCIAS ADAM, J. M. A linguística textual: introdução à análise textual dos discursos. São Paulo: Cortez, 2008. ALVES FILHO, F. Gêneros jornalísticos: notícias e cartas de leitor no ensino fundamental. São Paulo: Cortez, 2011. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BRANDÃO, H. H. N. Introdução à análise do discurso. 7. ed. Campinas, SP: Editora UNICAMP, 1995. CABRAL, A. L. T. A força das palavras: dizer e argumentar. São Paulo: Contexto, 2011. CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. Tradução Ângela S. M. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006. ______; MAINGUENEAU, P. Dicionário de análise do discurso. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2008. FERREIRA, A. 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