O PAPEL DO PROPÓSITO COMUNICATIVO NA ANÁLISE DE GÊNEROS:
DIFERENTES VERSÕES
Bernardete BIASI-RODRIGUES
(Universidade Federal do Ceará)
ABSTRACT: Many researches currently developed in Brazil have shown the usability of communicative purpose as a
criterion for the identification of text genres. My goal is to present different perspectives where this criterion was
used as an instrument for genre analysis and to reflect on its functionality. My work inserts itself in the Genre
Analysis field as a socio-rhetorical approach, and takes the communicative purpose conception as a theoretical
framework, consisting in the idea that genres achieve purposes, as well as in a revision of this concept, where I
discuss the use of the communicative purpose not as an immediate criterion in the identification of genres, but in
function of re-analyses and the social settings, seeking for confirming the purpose as a more safe tool at the end of
the inquiry, while keeping its relevance as an analytical criterion.
KEYWORDS: genre analysis; communicative purpose; repurposing.
1. Introdução
Muitas das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas no Brasil têm mostrado a usabilidade
do propósito comunicativo como um critério importante na análise de gêneros, e o meu objetivo,
neste trabalho, é apresentar algumas dessas experiências que levam a refletir sobre a sua
funcionalidade.
O aporte teórico que utilizo se insere no campo da Análise de Gêneros na abordagem
sócio-retórica, e a discussão que proponho gira em torno da definição de propósito comunicativo
conforme concebida por Swales (1990), pontuada na idéia de que os gêneros realizam propósitos,
embora nem sempre de fácil identificação, e na revisão do conceito (cf. ASKEHAVE e
SWALES, 2001; SWALES, 2004), em que se discute o uso do propósito não como critério
imediato na identificação do gênero, mas, em função de re-análises e dos entornos sociais, como
“repropósito” (repurposing), neologismo que se pode interpretar como retomada e confirmação
do propósito. Este seria, então, segundo os autores, uma ferramenta mais segura para reconhecer
o status de um gênero, ao final da investigação, sem deixar de manter a relevância do propósito
comunicativo como critério de análise.
De fato, o que se tem verificado em vários experimentos de análise dos gêneros textuais é
que, muitas vezes, se reconhece à primeira vista um propósito do gênero, de caráter mais geral,
que permite reunir um conjunto de práticas desse gênero numa mesma classe. Depois, num olhar
mais atento, alguns propósitos específicos vão levando o pesquisador a fazer reagrupamentos e a
identificar modalidades/variantes do mesmo gênero ou, até mesmo, subversões do propósito e do
gênero, como acontece freqüentemente na esfera da publicidade, por exemplo.
Neste trabalho apresento, então, um resumo analítico das contribuições teóricas de Swales
para entender o papel do propósito comunicativo no reconhecimento dos gêneros, desde a sua
concepção inicial, como um critério bastante privilegiado na caracterização de um gênero,
passando pela sua reformulação, mais recentemente1, e ilustro a discussão teórica com resultados
de algumas pesquisas que demonstram a função do propósito comunicativo em diferentes
perspectivas.
1
Agradeço a participação da minha colega e amiga Barbara Hemais nessa discussão, a qual vem sendo construída
em parceria desde a elaboração de um capítulo sobre o tema, já publicado (HEMAIS e BIASI-RODRIGUES, 2005),
e de outro ainda no prelo (BIASI-RODRIGUES, HEMAIS e ARAÚJO, 2007).
729
2. A construção do conceito de propósito comunicativo
As contribuições do campo da retórica foram tomadas por Swales, entre outras, para
iluminar a sua proposta sócio-retórica de análise de gêneros. Uma delas vem da classificação dos
diversos tipos de discurso: expressivo, persuasivo, literário e referencial (cf. KINEAVY, 1971) e,
nessa perspectiva, um texto que preenche uma determinada função discursiva, tendo como alvo o
receptor, por exemplo, é categorizado como persuasivo. No entanto, Swales vai mais além,
alinhando-se a estudiosos que levam em consideração o contexto do discurso, como Miller
(1984) que propõe uma abordagem do gênero não pela sua forma, mas pela ação social que
realiza.
Na definição das características que podem identificar um gênero como uma classe de
eventos comunicativos, Swales (1990) concebe um evento como uma situação onde a linguagem
verbal tem um papel significativo e indispensável, a qual é constituída do discurso, dos
participantes, da função do discurso e do ambiente onde o discurso é produzido e recebido.
A característica mais importante, nessa concepção, é a de que os eventos comunicativos
partilham um ou mais propósitos comunicativos, embora possam não estar manifestados
explicitamente ou possam não ser facilmente identificados. Como há gêneros que atendem a
conjuntos de propósitos comunicativos, como, por exemplo, um programa de notícias, que pode
tanto informar e orientar como formar a opinião pública, a identificação do propósito do gênero
torna-se um ponto conceitual problemático. Porém, na sua versão inicial do conceito, Swales
(1990) sustenta a posição de que o propósito comunicativo é o critério de maior importância no
reconhecimento de gêneros e, ao definir gênero, fica evidente a relevância que dá ao propósito
comunicativo:
Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos exemplares
compartilham os mesmos propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos
pelos membros mais experientes da comunidade discursiva original e, portanto,
constituem a razão do gênero. A razão subjacente dá o contorno da estrutura
esquemática do discurso e influencia e restringe as escolhas de conteúdo e estilo. O
propósito comunicativo é o critério que é privilegiado e que faz com que o escopo do
gênero se mantenha estreitamente ligado a uma determinada ação retórica compatível
com o gênero. Além do propósito, os exemplares do gênero demonstram padrões
semelhantes mas com variações em termos de estrutura, estilo, conteúdo e público alvo.
(SWALES, 1990, p. 58, grifos meus).
Portanto, o conceito de propósito comunicativo, em sua concepção original, é o critério
privilegiado na definição de gênero, embasa o gênero e determina não somente a sua forma mas
também as escolhas relativas ao conteúdo e ao estilo. Isso quer dizer que o gênero se mantém
focalizado em uma determinada ação retórica graças ao propósito comunicativo.
Além disso, Swales (1990) elenca seis características que podem levar à identificação de
uma comunidade discursiva, e a primeira delas é o conjunto de objetivos públicos comuns. Para o
autor, o fato de os objetivos ou interesses da comunidade serem normalmente compartilhados por
seus membros é também o critério mais importante para identificar uma comunidade discursiva.
Depois do lançamento de Genre Analysis: English in academic and research settings
(SWALES, 1990), o autor foi modificando aos poucos a base de sua teoria e atualmente prioriza
o contexto, ou seja, os participantes e os elementos da situação que geram os textos pertencentes
a um gênero. Diante da dificuldade de precisar o conceito de propósito comunicativo e
730
especialmente da dificuldade de, muitas vezes, identificar claramente o propósito de um exemplar
de gênero, passa a discutir as limitações do conceito.
Na reavaliação do problema, num artigo em co-autoria (ASKEHAVE e SWALES, 2001),
os autores entendem que o propósito comunicativo é menos visível do que a forma e que,
portanto, dificilmente servirá como um critério básico e fundamental para o reconhecimento de
um gênero. Além disso, consideram que, embora os membros de uma comunidade discursiva
tenham grande conhecimento dos gêneros, eles podem não estar absolutamente de acordo com o
propósito de um determinado gênero e reorientar a sua finalidade. Assim, o propósito
comunicativo é mantido, não de forma predominante ou evidente, mas como um critério
privilegiado em função do resultado da investigação sobre o gênero.
A partir dessas reflexões, os autores propõem dois procedimentos para a identificação de
gêneros: um textual/lingüístico e um contextual (ASKEHAVE e SWALES, 2001). Na execução
do procedimento textual/lingüístico, o propósito comunicativo é examinado juntamente com a
forma do gênero, o estilo e o conteúdo. Em uma etapa posterior, o propósito é tomado como um
fator na redefinição do gênero (repurposing the genre). No procedimento contextual, portanto, o
propósito comunicativo mantém a sua relevância na identificação do gênero, mas as outras etapas
no processo de análise constituem-se da identificação da comunidade, seus valores, suas
expectativas e seu repertório de gêneros, além do levantamento dos traços peculiares desses
gêneros.
Esses dois procedimentos valorizam o dinamismo dos gêneros e caracteriza-se, assim, a
redefinição do papel do propósito na análise de gêneros. Por isso, os autores argumentam que, ao
invés de fazer um estudo centrado no texto, o analista precisa investigar extensivamente o texto
em seu contexto, com uma metodologia de modalidades múltiplas, conforme representam nas
figuras 1 e 2 a seguir, encontradas em Askehave e Swales (2001) e retomadas em Swales (2004).
Figura 1 – Análise de gêneros a partir do texto (Fonte: ASKEHAVE e SWALES, 2001, p. 207).
731
Figura 2 – Análise de gêneros a partir do contexto (Fonte: ASKEHAVE e SWALES, 2001, p.
208).
Ambos os procedimentos, textual e contextual, incluem a retomada ou confirmação do
propósito comunicativo do gênero e, por isso, Swales (2004) sugere que o “repropósito do
gênero” seja feito ao final do processo de análise, considerando que o reexame atento dessa
estratégia discursiva possibilitará completar o círculo hermenêutico desse processo (cf.
ASKEHAVE e SWALES, 2001).
Na figura 1, o propósito comunicativo está entre os aspectos a serem examinados em uma
primeira etapa da investigação e, posteriormente, deveria ser revisto para a confirmação ou
redefinição do gênero. Na figura 2, as etapas da investigação incluem, além do propósito, a
identificação da comunidade, seus valores, suas expectativas e seu repertório de gêneros.
Novamente o “repropósito” aparece como etapa final do processo de análise, antecedendo apenas
o exame das características dos gêneros do repertório.
No seu livro Research genres: explorations and applications (SWALES, 2004), Swales
retoma esse redimensionamento do papel do propósito comunicativo e, com base em sua própria
pesquisa sobre cartas de recomendação, conclui que é uma tarefa difícil identificar o propósito de
um gênero. Uma das razões dessa dificuldade é o fato de haver múltiplos propósitos
comunicativos que, em dadas circunstâncias de uso dos gêneros, não são evidentes à primeira
vista.
Em publicação anterior, Other floors, other voices: a textography of a small university
building, Swales (1998) realça os traços pouco comuns de alguns gêneros utilizados pelos
botânicos do Herbário da Universidade de Michigan. Na análise do trabalho de Bill, Swales
relaciona textos e contextos e descobre que a comunidade discursiva dos botânicos tem a prática
de usar o gênero “gabarito”2, escrito em letras com tamanho reduzido, como um auxílio para a
leitura na hora de comparar trechos diferentes em outros textos do repertório de gêneros
botânicos. Assim, por meio de um traço textual, foi possível identificar uma convenção
discursiva, a qual leva a compreender uma prática sócio-retórica e a razão subjacente a essa
prática.
2
Gabarito (key) é o gênero utilizado para a identificação de uma espécie de planta e constitui uma das partes de um
outro gênero botânico, o tratado (treatment), que tem um lugar de destaque no repertório de gêneros botânicos.
732
Reflexões feitas a partir dessa experiência levaram Swales a considerar que um gênero
regula uma determinada atividade social e que, se as comunidades discursivas mudam, os gêneros
também mudam. Em conseqüência disso,
os propósitos sociais evoluem, podendo se expandir ou se retrair [ou seja] os quadros de
atividade social e os padrões podem mudar [...] características mais prototípicas podem
ocupar posição mais central, atitudes institucionais podem se tornar mais ou menos
amigáveis para os de fora, e até mesmo os atos de fala podem dar espaço para diferentes
interpretações (SWALES, 2004, p. 73).
Acrescente-se a isso que o uso da ferramenta de análise, denominada de “repropósito do
gênero”, não deveria ser uma tarefa limitada à observação do analista, ou seja, a confirmação do
propósito comunicativo de um gênero será mais seguramente alcançada se o pesquisador criar
condições para, pessoalmente, colher informações dos sujeitos produtores e consumidores dos
gêneros, especialmente de membros experientes das comunidades discursivas de que participam.
Penso ter apresentado até aqui, de forma sucinta, como foi sendo definido o papel do
propósito comunicativo através de algumas reflexões teóricas que o próprio Swales provocou e
publicou em vários textos que produziu individualmente ou em parceria, preferindo manter uma
perspectiva teórica de cunho mais sociológico, mas sempre atento às críticas de seus pares e
testando pessoalmente essa ferramenta metodológica.
Os resultados de algumas pesquisas desenvolvidas no Brasil vão ilustrar, no próximo
item, a aplicação diversificada do propósito comunicativo no reconhecimento de gêneros
acadêmicos do ponto de vista de usuários-produtores experientes e iniciantes e também algumas
perspectivas curiosas que se revelaram na aplicação do propósito como ferramenta de análise,
dependendo do olhar do pesquisador e do objeto que resolveu investigar.
O meu objetivo não é colocar em cheque a questão teórica que foi já bastante discutida na
literatura aqui referida, e sim trazer a público experiências que podem trazer contribuições à
discussão em alguns aspectos, como também demonstrar que o papel do propósito comunicativo
na análise de gêneros continua polêmico e que a sua aplicabilidade pode ter muitas facetas ainda
não reveladas. Aliás, tratar de um objeto como a linguagem humana, ou ainda, associada a outras
linguagens não-verbais, não é, nem se pode esperar que seja, um trabalho simples e fácil. Mas o
desafio que essa tarefa impõe aos analistas de gêneros é que a torna, no mínimo, interessante e
instigante.
3. Diferentes versões do papel do propósito comunicativo
3.1 O resumo e a resenha em uso por escritores experientes e iniciantes
Algumas pesquisas no Brasil, baseadas na obra de Swales (1990), já evidenciaram que o
propósito comunicativo é não só muito importante para o pesquisador reconhecer um conjunto de
exemplares de textos como pertencentes a uma categoria genérica como também revelaram o
conhecimento do usuário em relação à finalidade que deveria alcançar junto a sua audiência.
Assim é, por exemplo, com a prática de um gênero bastante usual na academia, o resumo.
Em pesquisa que realizei sobre resumos de dissertações para a minha tese de doutorado
(BIASI-RODRIGUES, 1998; 2004), constatei que a organização das informações no resumo é
representada por uma estrutura cognitiva típica que cumpre propósitos particulares, mas que se
aproximam dos que são definidos para os textos acadêmicos longos, pertencentes a outros
gêneros, especialmente daqueles que lhes deram origem e que contêm as informações
expandidas.
733
A tarefa de produzir um resumo como parte do ritual de apresentação da versão final da
dissertação ou tese é realizada pelos membros da comunidade acadêmico-universitária e,
invariavelmente, os exemplares desse gênero passam a integrar os bancos de dados de
informação bibliográfica, como fontes primárias de consulta, e deveriam gerar, por parte do
autor, o compromisso de uma seleção de informações adequadas aos propósitos do gênero e às
exigências da comunidade discursiva a que se destina.
No entanto, o que percebemos entre os sujeitos/autores dos resumos de dissertações que
analisamos é que, apesar de os terem produzido a partir de sua própria experiência de pesquisa e
de seus próprios textos, nem sempre revelaram atender aos propósitos comunicativos do gênero,
ou, pelo menos, alguns resumos cumpriam também a função da introdução, como já constatou
Bhatia (1993). Um dado que dá suporte a essas considerações é a semelhança de certos resumos
que relatam pesquisas desenvolvidas numa mesma área e em torno de temática similar,
demonstrando que uns servem de modelo para outros. São exemplos disso os dois resumos a
seguir, em que se configura uma reprodução do esquema de distribuição das informações,
identificada pelas expressões sublinhadas em cada exemplar (BIASI-RODRIGUES, 1998, p.
153).
(1)[R23] A dissertação objetiva, com essência, o estudo das habilidades de expressão
escrita, com alunos da 1ª fase do Curso Básico da Universidade Federal de Santa
Catarina. A pesquisa visou aos aspectos de forma e conteúdo em redações, cujo tema
era "A Poluição". A meta foi detectar os tipos de erros, a fim de se constatar se há
ou não uma Diferença significativa de aprendizagem entre o I e II Graus e o nível
universitário em ternos de domínio da expressão escrita.
(2)[R28] Em essência a dissertação visa ao estudo da maturidade sintática na habilidade
de expressão escrita, em alunos de 3ª, 5ª, 8ª séries do 1° grau e 2ª série do 2° grau de
uma instituição educacional particular na cidade de Manaus. A pesquisa assuntou os
aspectos de forma e de conteúdo num corpus de 120 redações dentro das quais
trabalhou-se com 18.000 palavras, ou seja, 150 palavras por redação. O montante de
redações nas séries testadas foi o de 30 redações por série. A temática aplicada foi
diversificada, a fim de se obter um nível de produção de palavras satisfatório em cada
redação. A meta do trabalho foi a de graduar os aspectos de maturidade sintática,
apresentada através do índice de Subordinação, o Comprimento Médio das Orações e a
Unidade T (unidade mínima terminal) a fim de se constatar se há ou não um índice
graduado de maturidade ascendente nas séries analisadas.
Esse comportamento pode ser revelador de uma busca de modelo de resumo entre os
produzidos pelos próprios pares, para cumprir um ritual acadêmico, e também, muito
provavelmente, pelo fato de o autor não ter conhecimento de que o seu resumo ocuparia outro
espaço que não somente o do volume da dissertação e, como tal, cumpriria uma função sóciocomunicativa de maior alcance.
Ilustram, ainda, uma duplicidade funcional-comunicativa, os resumos que trazem
informações resumidas de seções do texto da dissertação, propósito atribuído por Bhatia (1993),
mais apropriadamente, à introdução de artigos de pesquisa e de outros gêneros acadêmicos, como
se pode conferir nos excertos seguintes (BIASI-RODRIGUES, 1998, p. 162).
(3)[R17] No capítulo 1 da dissertação, há a apresentação da teoria que seguimos.
No capítulo 2, fizemos uma recensão bibliográfica referente ao português e ao
francês, com as respectivas críticas. A Análise de Erros é apresentada no capítulo
3.
734
(4)[R118] Tematiza no primeiro capítulo algumas questões basilares da Análise
do Discurso que estruturam teoricamente o presente trabalho, expondo a seguir
reflexões sobre o riso e o risível – capítulo II e os diferentes processos
possivelmente causadores do riso – capítulo III.
Os exemplos selecionados mostram que a produção de resumos na comunidade
pesquisada se sustenta numa convencionalidade mais ou menos informal, e o propósito
comunicativo não é sempre o aspecto mais relevante a considerar na prática acadêmica desse
gênero. Nesse caso, foi o balanço das recorrências de vários aspectos formais e funcionais que
deram apoio ao analista para descrever o gênero, mas sempre com a atenção voltada aos entornos
do seu contexto de uso.
Outra experiência muito interessante com resenhas acadêmicas realça a importância do
propósito comunicativo para reconhecer as diferenças no uso desse gênero por escritores
experientes e iniciantes. A pesquisa de Bezerra (2001) reúne exemplares de resenhas publicadas
em periódicos da área de Teologia, todas com o propósito de avaliar as obras resenhadas, e
exemplares de resenhas produzidas por estudantes de um curso de graduação na mesma área.
Estas foram escritas como tarefa escolar, apoiada em material didático destinado a orientar os
alunos quanto a forma, conteúdo e propósito da resenha.
O que se constatou, no entanto, foi uma grande dificuldade por parte dos alunos-escritores
em produzir resenhas que evidenciassem sua capacidade de compreensão-avaliativa e que
revelassem procedimentos aceitos no contexto sócio-retórico desse gênero. Alguns estudantes até
demonstraram confundir resumo e resenha, provavelmente por falta de uma clara compreensão
dos propósitos comunicativos (cf. SWALES, 1990) de cada um desses gêneros.
Entre os dois grupos de escritores, se evidenciaram peculiaridades que permitiram
identificar um padrão de resenhas de especialistas (padrão RE) e um, menos complexo, de
resenhas de alunos (padrão RA). As do tipo RA contêm um número relativamente menor de
“subunidades” de informação, embora apresentem as mesmas “unidades” retóricas típicas
empregadas pelos especialistas (steps e moves cf. modelo CARS, SWALES, 1990): Unidade
retórica 1 – Introduzir a obra; Unidade retórica 2 – Sumariar a obra; Unidade retórica 3 – Criticar
a obra; Unidade retórica 4 – Concluir a análise da obra (BEZERRA, 2001, p.87)
No entanto, algumas subunidades que compõem o leque de opções usadas pelo escritor
proficiente simplesmente são ignoradas pelo estudante. A diferença consiste, concretamente, na
ausência, em RA, das seguintes estratégias de conduzir as informações: “Informando sobre a
origem do livro”; “Citando material extratextual”; “Apontando questões editoriais”; e
“Recomendando o livro apesar de indicar limitações”. Isto significa que as escolhas das unidades
temáticas em cada grupo de escritores foram determinadas por propósitos específicos diferentes,
certamente relacionados às expectativas da audiência de cada um.
Uma outra peculiaridade é a freqüência da informação “Argumentando sobre a
importância da obra” (Un1 – Sub2). Enquanto as resenhas dos escritores proficientes usam esta
estratégia informacional em 60% dos exemplares, os estudantes a empregam em apenas 16,6%
deles (cf. BEZERRA, 2001, p.84). Esse aspecto promocional do gênero, com o propósito de
ressaltar sua importância na área disciplinar, demonstra ser pouco relevante para o escritor-aluno.
Embora o material de orientação para a produção de resenhas, fornecido pela instituição de
ensino, estabeleça que o aluno deve tratar da “qualidade da contribuição”, a consciência, talvez
apenas intuitiva, que o estudante tem acerca do gênero o leva em outra direção. O aluno sabe que
deve mostrar compreensão e capacidade de avaliação do texto; por outro lado, sabe que não está
escrevendo para um público a quem deva convencer da importância da obra.
735
A seguir um exemplo da subunidade “Argumentando sobre a importância da obra”,
encontrada entre as resenhas de especialistas e uma única que, entre as produzidas por alunos,
aproxima-se do conteúdo informacional dessa subunidade (BEZERRA, 2001, p. 84-85). As
expressões em negrito são representativas da avaliação feita pelo resenhador.
(5) [RE7] [Sub2] Por esse motivo o lançamento de uma obra como o DTAT merece
aclamação. Trata-se de uma obra séria, sem paralelo no contexto teológico
conservador...
(6) [RA1] [Sub2] O artigo é de 1949, pouco tempo depois da criação do Estado de
Israel, pela ONU, e o teólogo junta a sua às reflexões múltiplas e obras de vulto que
surgem naquele momento histórico.
No entanto, segundo Bezerra (2001), o aspecto em que as duas modalidades de resenhas
mais se afastam está relacionado com o procedimento de avaliação final em forma de
recomendação, que evidencia, igualmente, o afastamento relativo aos diferentes propósitos
comunicativos das resenhas de alunos e de especialistas. Os escritores proficientes sabem que os
leitores de resenhas publicadas em periódicos acadêmicos esperam dos produtores dessas
resenhas, ao lado da avaliação da obra, a recomendação de sua leitura ou a indicação de por que
não o fazem. Ou seja, o propósito comunicativo de uma resenha especializada relaciona-se com a
idéia de descrever, avaliar e recomendar (ou desqualificar) uma nova publicação para um
determinado público leitor. Os estudantes, por sua vez,
ao produzirem uma resenha, nem sempre a encerram com a recomendação da obra
para um certo público. A razão para esse procedimento de alunos e alunas certamente
tem a ver com o propósito comunicativo da produção das resenhas solicitadas pelo
professor. Embora a orientação normativa imposta aos estudantes para guiá-los na
execução da tarefa estabelecesse que eles deviam indicar “a quem se destina” a obra,
como membros legítimos da comunidade de estudantes, eles sabiam que “recomendar”
fugia ao propósito comunicativo de um texto produzido para ser lido unicamente pelo
professor. (BEZERRA, 2001, p. 106)
Fica evidente, pelas descobertas desta pesquisa, que a distribuição das informações no
texto é orientada pelos propósitos comunicativos pertinentes ao gênero, mas também pela sua
adaptação à audiência ou, melhor dizendo, ao seu contexto de uso. E ainda é importante
acrescentar que as variedades do gênero não constituem outros gêneros. As diferenças verificadas
entre as duas modalidades de resenha, em virtude da maior complexidade das resenhas de
especialistas, não indicam uma relação hierarquizada (cf. BEZERRA, 2001).
3.2 Colônia e constelação: duas perspectivas diferentes de relação entre gêneros
A seguir, vou mostrar resultados de uma pesquisa em que o propósito comunicativo foi
usado para agrupar gêneros similares num mesmo lócus de publicação (BEZERRA, 2006) e de
outra em que ele serviu para diferenciar gêneros textuais também similares dentro de uma mesma
esfera de comunicação (ARAÚJO, 2006).
Bezerra (2006) trata de gêneros introdutórios em livros acadêmicos, que, segundo o autor,
“são gêneros textuais que usualmente se agregam ao gênero ou gêneros principais como uma
proposta de leitura prévia, em termos de orientação, síntese ou convite à leitura dos gêneros que
são introduzidos” (p. 80). Apoiado em Bhatia (1997 e 2004), admite que os gêneros introdutórios
identificam-se basicamente pelo propósito comunicativo comum de introduzir uma obra
736
acadêmica, formando uma colônia de gêneros relacionados, que podem incluir gêneros tais
como introduções, prefácios, prólogos e apresentações.
Em todo o percurso da investigação, Bezerra (2006) colocou a discussão dos propósitos
comunicativos manifestos pelos gêneros introdutórios como o ponto de chegada, e não como um
dado reconhecido a priori, seguindo os procedimentos de análise propostos por Askehave e
Swales (2001). No exercício de análise, a apresentação, tida como o gênero introdutório mais
prototípico, além de atender ao propósito comunicativo principal de introduzir/apresentar o livro,
revelou outros três propósitos mais específicos, que no modelo CARS (SWALES, 1990)
correspondem aos movimentos retóricos (moves), quais sejam: “Justificar a obra”; “Resumir a
obra”; e “Concluir a apresentação” (BEZERRA, 2006, p. 124).
Em torno desses propósitos específicos, os autores das apresentações analisadas utilizaram
13 estratégias retóricas diferentes, ou movimentos, para organizar as informações que, do ponto
de vista de Bezerra (2006, p. 124), “buscam atender a diferentes demandas relacionadas com as
práticas sociais implicadas pela produção, uso e recepção do gênero”.
Outro fato interessante que a pesquisa permitiu constatar foi a relação entre o propósito de
introduzir a obra e o de promovê-la junto a sua audiência potencial, ou seja, um duplo propósito
do gênero, segundo Bhatia (2004), que chama a atenção para a “intenção particular” que está por
trás do segundo propósito, embora não seja novidade que os gêneros acadêmicos não cumprem
apenas o propósito mais ou menos ingênuo de divulgar o saber científico, sem qualquer caráter
promocional/comercial.
Bezerra (2006, p. 127) ressalta que:
Esse aspecto constitutivo das apresentações parece ser mais visível nos movimentos
retóricos relacionados com a parte conclusiva do gênero. Os próprios termos
escolhidos para designar os movimentos (“convite à leitura”, “felicitações ao
autor/editora”, por exemplo) indicam uma certa subjetividade e um afastamento do
registro mais acadêmico que marca as discussões anteriores sobre o tópico e o
conteúdo específico do livro.
Em alguns exemplares do gênero introdutório apresentação, no parágrafo final do texto,
identifica-se “uma apreciação positiva do livro que ultrapassa uma possível neutralidade ou
sobriedade acadêmica e se torna uma tentativa de promover o livro para o potencial leitor”
(BEZERRA, 2006, p. 127). Em outros, o caráter promocional se revela em vários pontos do
texto, identificável por certos adjetivos e expressões empregadas pelo autor, como se pode
constatar no trecho da apresentação de um livro da área de Lingüística, reproduzido a seguir
(BEZERRA, 2006, p. 128, grifos do autor).
(7)[LI03] APRESENTAÇÃO
[...] Certamente este livro trará ao leitor um horizonte mais amplo quanto ao sentido da
linguagem. Será um instrumento valioso e indispensável capaz de construir um novo
conhecimento quanto ao saber e saber-agir, quanto ao comunicar e ao comunicar-se com
amor.
Agradecemos e parabenizamos ao professor [...] pela pesquisa constante e meticulosa da
nossa lingüística e por apresentar aos leitores este educativo livro que vem positiva e
cristãmente contribuir com a cultura da paz.
O autor desta apresentação combina elogios feitos ao livro com os dirigidos ao autor,
construindo uma imagem muito positiva que está direcionada principalmente a convencer o leitor
sobre o valor do livro. Bezerra (2006) observou que isso também acontece com os demais
737
gêneros introdutórios que analisou. Eles podem se concentrar mais na descrição do conteúdo das
respectivas obras que introduzem, mas também podem evidenciar o discurso promocional, de
maneira explícita ou velada, tanto que se torna difícil, segundo o autor, “delimitar uma fronteira
entre o que seria uma avaliação acadêmica e uma apreciação propriamente comercial
(promocional) da obra em questão” (p. 129).
O importante a realçar aqui é a relevância de descobertas como esta em que o aparente e
despretensioso propósito de introduzir/apresentar a obra é associado claramente a outro, o de
promover as suas qualidades e as do autor e, eu diria, pelo fato de serem gêneros em geral
encomendados, são escritos para atender um outro propósito bem evidente, o de agradar o autor.
De qualquer forma, os gêneros vão se delineando e se acomodando às situações de uso,
em função do propósito ou de propósitos comunicativos, e a pesquisa de Bezerra (2006)
demonstra relações entre gêneros assemelhados, que se distribuem no espaço de um mesmo
suporte, o livro acadêmico, tendo o propósito um papel centralizador na formação de uma colônia
de gêneros.
A outra pesquisa a que me referi no início deste item, de Araújo (2006), se apóia na tese
central de que o conjunto dos variados chats praticados na Internet se configura como uma
constelação de gêneros, e o autor se vale de três categorias de análise, entre as quais está o
propósito comunicativo, usado como uma ferramenta importante para melhor compreender a
tendência constelar dos chats e, principalmente, para identificar diferenças genéricas entre eles.
Segundo o autor:
a complexidade do evento “bater-papo na Internet” parece consistir no fato de ele
enfeixar variados propósitos comunicativos, o que o faz se desdobrar em muitos
gêneros. Se há uma variedade de objetivos que se tornaram complexos, então surgirão
novos gêneros cuja base estará em outros que lhes preexistem. (ARAÚJO, 2006, p. 116)
Por esta razão, esse foi o caminho usado pelo autor para chegar à caracterização de uma
constelação de gêneros chats. E, com apoio na concepção sociológica de propósito comunicativo,
defendida por Swales (1990; 1998; 2004) e Askehave e Swlaes (2001), a pesquisa foi
desenvolvida levando em conta que “os gêneros se realizam sempre no seio de uma comunidade
discursiva qualquer e que seus propósitos comunicativos são compartilhados pelos membros
dessa comunidade” (ARAÚJO, 2006, p. 120).
A identificação dos sete chats selecionados por Araújo (2006) foi orientada
metodologicamente no procedimento de “repropósito do gênero”, conforme propõem Askehave e
Swales (2001) (v. figuras 1 e 2, acima) e também Swales (2004), como parte de um processo de
identificação do texto dentro do seu contexto de uso, enfatizando as vantagens desse
procedimento para evitar conclusões precipitadas.
Assim, Araújo pôde constatar que vários gêneros, aos quais se atribui o nome geral ou
pré-nome de chat, se aproximam por características hipertextuais comuns da esfera em que se
realizam e pelo mesmo fenômeno formativo da transmutação, mas atendem a propósitos
comunicativos distintos e é exatamente neste critério de identificação que o autor se apóia para
justificar a formação de uma constelação de gêneros chats.
Alguns trechos de entrevistas com usuários dos chats são bastante ilustrativos de como os
propósitos comunicativos são reconhecidos no seu contexto de uso, ou seja, de como os
internautas se guiam pelos muitos propósitos comunicativos das diversas situações de bate-papo
de que participam no ambiente virtual. No exemplo (8), fica bem claro o contrato social que rege
as diferentes práticas discursivas identificadas como chats (ARAÚJO, 2006, p. 266, grifos do
autor).
738
(8) Uso eles [os chats] faz um baita tempaum. mas cada um para cada coisa daqueleas q
te falei neh. num vo kerer trepar c a professora num chat educativo heheheheh desukpa
a sinceridade :))) (Entrevistado 7).
A seguir, vou mostrar excertos de entrevistas com participantes dos diferentes chats
analisados, em que se evidencia o propósito (ou propósitos) de cada um, reconhecido pelos
próprios usuários. O primeiro é o “chat aberto” que tem como “propósito comunicativo
socialmente mais saliente o de conquistar parceiros para namoros virtuais, o que não invalida a
hipótese de que as intenções pessoais dos produtores/consumidores estejam intrincadas naquele
propósito, como evidencia um dos entrevistados” (ARAÚJO, 2006, p. 273-274), no exemplo (9).
(9) Gosto de testar meus parceiros de bate-papo aberto, convidado-os p o reservado.
E se eu ver q é uma pessoa boa, convido para as suítes. Já tve de irmos logo pro msn...
e aí já viu neh” (Entrevistado 2).
O segundo é o “chat educacional”, cujos propósitos comunicativos vão além da simples
tarefa de ensinar/aprender em ambiente digital. No exemplo (10) é possível inferir que o referido
gênero assume o propósito comunicativo de promover a autonomia e, de certa forma, também a
auto-estima de seus participantes (ARAÚJO, 2006, p. 276, grifos do autor).
(10) O chat educ. ajuda muito a gente a crescer em leituras importantes pq pra
particopar bem de um vc tem que ter lido sobre o q será discutido no bate-papo.
Agente perceebe os colegas q leram ou não pelo desempenho no chat. Agente não
fica tão presa ao professor, sabe? Todo mundo é meio q professor tb. Isto eh muito
bacana no chat educ.
educ (Entrevistado 4).
O terceiro tipo é o “chat com convidado”, e o exemplo seguinte revela que o propósito
comunicativo mais saliente desse gênero é aproximar os fãs de seus ídolos (ARAÚJO, 2006, p.
280, grigos do autor).
(11) Me sinto mais perto do artista. Falo c ele, coisa q fora do chat seria quase
impossível. Este chat é muito legal pq aproxima o fa de seus ídolos e lá todos são
iguais e podem trocar palavras carainhosas. (Entrevistado 2).
Esse propósito, no entanto, como constatou Araújo (2006, p. 283), “dadas as condições de
produção do gênero, tem sofrido alterações, confirmando o que diz Swales (2004) acerca da
evolução dos propósitos comunicativos de um gênero”. Exemplo disso é o trecho da entrevista a
seguir.
(12)...no bate-papo c convidado além de falar com os artistas, agente pode fazer
amigos, conhecer fãclub e acabar partiicpando deles. Serve para trocar endereços dos
faclubes dos artistas preferidos, até pra namorar. Conheço um amigo q ate hj namora
com uma garota q participava de um faclub q ele entrou pra participar depois do
chat. (Entrevistado 2)
Conforme o autor, “pelo menos seis outros propósitos podem ser identificados nesse
exemplo: 1) falar com os artistas; 2) fazer amigos; 3) conhecer fã-clubes; 4) participar de fãclubes; 5) trocar endereços dos sites dos fã-clubes e 6) namorar” (ARAÙJO, 2006, p. 283),
que podem revelar a complexificação das práticas discursivas na Internet, pois esse ambiente
739
permite que os participantes, enquanto aguardam que suas perguntas sejam selecionadas por um
moderador, aproveitem para teclar com outros fãs.
Em relação ao “chat com convidado”, ainda é importante acrescentar que a igualdade
percebida pelos usuários é ilusória, pois existe a figura do moderador, que interfere na
participação de um grande número de participantes, em torno de 5.000, muitas vezes. Assim, o
que torna esse gênero bastante peculiar no interior da constelação e que o distancia do gênero
entrevista face-a-face, por ele transmutado, é o seu propósito comunicativo de “aproximar” não
só fãs e ídolos, mas também fãs e fãs, e o de propiciar a divulgação de fãs-clubes.
Os outros chats – “chat reservado”, “chat personalisado”, “chat privado” e “chat de
atendimento”, são chats que o autor chama de duais, porque são praticados com a participação de
dois interlocutores em torno de propósitos específicos que permitem identificar cada uma dessas
práticas discursivas do meio digital.
Nas palavras de Araújo (2006, p. 288), o “chat reservado parece servir aos propósitos de
iniciar interações mais íntimas, podendo ser abandonado pelos internautas em detrimento de
outros chats duais, como o privado ou o chat personalizado,, caso a intimidade entre os usuários
evolua reclamando outros propósitos comunicativos, portanto outros gêneros da constelação dos
chats”.
O “chat personalisado”, por sua vez, se mostrou o “gênero mais utilizado e mais querido
pelos usuários dos bate-papos virtuais. Segundo os internautas que produzem e consomem esse
gênero, o seu propósito comunicativo mais imediato é o de falar com os amigos” (ARAÚJO,
2006, p. 289). Quer dizer, mais epecificamente, estreitar relações entre pessoas conhecidas, de
modo personalizado, propósito que diferencia esse chat dos outros gêneros da constelação.
Outro chat dual é o “chat privado” que, como o próprio nome sugere, tem um caráter de
intimidade, e as conversas geradas na prática desse gênero veiculam, em geral, conteúdos de
natureza erótica. Segundo Araújo (2006, p. 290), “o chat privado pode ser visto mais como a
depuração do chat reservado, pois ele atende ao propósito comunicativo de permitir conversas
bem mais íntimas (...) entre dois internautas”, ou seja, é nos bate-papos reservados que se faz a
seleção dos parceiros para o “chat privado”.
O último dos chats analisados, também de natureza dual, mas bastante difernte dos
demais com relação ao conteúdo veiculado, ao tom de seriedade da conversa e ao propósito
comunicativo é o “chat de atendimento”. Seu propósito, conforme declara um entrevistado na
pesquisa de Araújo (2006, p. 293), é a “terapêutica da reclamação e do consumo”. Em outras
palavras, esse gênero tem a função de possibilitar ao cliente fazer reclamações e tirar dúvidas
quando não se sentir satisfeito com os serviços que compra de um determinado provedor. Do
outro lado está o interlocutor no papel de atendente, que usa um registro formal-culto da língua, o
que mostra, entre outras coisas, a imagem de uma empresa séria, preocupada com os seus
clientes.
Esta pesquisa, diferentenmente da de Bezerra (2006), vale-se dos propósitos
comunicativos específicos para garantir o estatus de gênero a cada um dos chats analisados, os
quais se aproximam para constituir uma constelação por outros critérios, o da intertextualidade e
o da transmutação. São gêneros que comungam traços da esfera virtual onde são praticados e
passsaram por um processo de modificação do gênero que lhes deu origem, mas se diferenciam
pelos propósitos que cumprem na situação comunicativa.
740
4. Considerações finais
Com esta amostragem de algumas pesquisas que envolvem a análise de gêneros,
desenvolvidas na perspectiva sócio-retórica, com enfoque no papel do propósito comunicativo,
procurei ilustrar, mais do que a polêmica discussão em torno da maior ou menor importância
desse critério como procedimento metodológico, as várias estratégias que os pesquisadores vêm
usando a fim de alcançar as sua metas de investigação e de poder oferecer as suas contribuições
para ampliar o conhecimento que temos atualmente sobre as práticas de inúmeros gêneros e seus
entornos sociais.
Conforme tentei demonstrar, algumas pesquisas no Brasil foram desenvolvidas com apoio
no privilégio atribuído ao propósito comunicativo (ou propósitos) do gênero, que ora apareceu
como funcionalmente determinante ora como um critério secundário, mas sem ser descartado em
qualquer exercício investigativo de gêneros textuais e das comunidades discursivas em que se
realizam.
Os gêneros funcionam como espaço verbal da interação das comunidades discursivas e
revelam os propósitos comunicativos dessas comunidades, mas o conceito de comunidade
discursiva, elaborado e redimensionado por Swales (1990 e 1992), ainda é bastante fechado para
dar conta da heterogeneidade de seus membros, como é o caso do que se vem chamando de
‘comunidade acadêmica’. A questão seria: até que ponto a prática escolar de certos gêneros
incluiria os estudantes iniciantes nessa comunidade? Mas esta é uma outra discussão.
Nos dois estudos sobre gêneros praticados no âmbito acadêmico que apresentei aqui
resumidamente, o papel do propósito comunicativo foi fundamental para verificar
comportamentos diversos em relação ao gênero na sua instância de uso. Em decorrência disso, é
preciso concordar com Askehave e Swales (2001) e Swales (2004) que, no percurso analítico, as
variações do gênero, em diferentes aspectos, podem ser resultantes de mudança ou desvio do
propósito comunicativo, ou, ainda, de propósitos específicos que não são reconhecidos nos
momentos iniciais do processo de análise.
Com relação aos agrupamentos de gêneros em uma colônia ou constelação,
independentemente do enfoque teórico, ficou evidente que o propósito do gênero não reina
absoluto sobre s os outros critérios de análise e que são os propósitos específicos, relacionados a
outros critérios, que dão conta de definir os contornos de cada peça genérica e de possibilitar o
estabelecimento de relações intergenéricas.
De qualquer forma, o papel do(s) propósito(s) comunicativo(s) continua ocupando um
lugar de fundamental importância nas investigações que tratam de gêneros textuais e
comunidades discursivas, dando realce às funções sociais dos gêneros, sejam eles
tradicionalmente praticados ou em processo de transmutação, emergindo em novos meios ou
suportes.
Não resta dúvida de que, conforme muito bem expressa Araújo (2006, p. 83), “a categoria
propósito comunicativo [...] já é uma espécie de ‘patrimônio teórico’ da emergente área da
Análise de Gêneros [...] e ainda se mostra como um critério relativamente seguro para atestar a
funcionalidade social de um gênero do discurso”. De fato, desde as reflexões teóricas que Swales
(1990) faz em Genre Analysis, ele vem trabalhando em torno da idéia de que um gênero pode não
responder a um único propósito, pois já considerava o fato de se poder identificar em um único
gênero um conjunto de propósitos, todos gerados e reconhecidos socialmente. No seu trabalho
mais recente (SWALES, 2004), o autor acrescenta que os propósitos podem sofrer alterações e
também podem provocar alterações nos gêneros, ao longo da sua história de uso. As
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modificações que ocorrem nos gêneros, portanto, são decorrentes de novos propósitos que
surgem para dar conta da eficácia comunicativa.
Referências
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742
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28 Bernardete Biasi Rodrigues - Programa de Pós