Anais do IX Encontro do CELSUL
Palhoça, SC, out. 2010
Universidade do Sul de Santa Catarina
ADAPTAÇÃO DE DOM QUIXOTE DAS CRIANÇAS
NA CONTEMPORANEIDADE: DA PROSA LOBATIANA ÀS HQs
Fernanda Maccari GUOLLO*
ABSTRACT: In order to reflect on the genre: prose and comics in the contemporary to the encouragement of the
practice of literary reading which is fundamental to the intellectual development of children, we analyzed the
literature targeted to youth in the early decades of the twentieth century in particular the title Dom Quixote das
Crianças (1936), by Monteiro Lobato. By belling the adaptation of a classic of world literature represents to the
publishing of the time a reading project. Lobato, reorganize the most relevant facts and rewrites story in simple
language through translation and/or adaptation made by Dona Benta. At the beginning of the century, Andre
Simas, notices Lobato’s title and adapts to the comics giving a look more dynamic for the story because the
pictures. This communication analyzes the adaptation made by Lobato and that performed by Simas, with the
goal of checking how the adjustment consists of the aesthetic aspects (prose and comics) until the intrinsic
relationship between the written language, verbal and imagery.
KEYWORDS: Children’s books; Adaptation; Comics; Dom Quixote das crianças.
1. Introdução
Fazer uma adaptação não é trair uma obra: a adaptação não se propõe a substituir o original;
estabelece, isto sim, uma graduação de leitura que possa habilitar o leitor a lidar com as convenções propostas
pelo autor. Com isso, consegue repor a obra em circulação num dado contexto, que será sempre diferente, dada
a multiplicidade das construções sociais da humanidade e a complexidade que caracteriza as relações entre
essas múltiplas construções e o processo histórico em que estão envolvidas. Nesses termos, não pode ser
generalizada nenhuma prescrição ao contexto, exceto que cada situação demandará uma adaptação diferente
(AZEVEDO, 1999, p. 134)
A produção literária direcionada ao público infantil apresenta, na maioria das vezes,
um dos recursos comumente utilizados pelos escritores: a adaptação. Desta forma, por
considerar relevante para a formação de indivíduos críticos e atuantes na sociedade, os livros
de caráter universal ganham espaço nas mãos de Lobato, em particular, o título Dom Quixote
das crianças (1936), uma adaptação do livro de Miguel de Cervantes Saavedra, El Ingenioso
Hidalgo Don Quijote de la Mancha (1605-1615). O original de Cervantes foi escrito em prosa
e distribuído em dois tomos, no século XVII. Já Dom Quixote das crianças, foi publicado em
meados de 1936, destinado a leitura das crianças, com um enredo envolvente que traz para o
contexto literário infantil uma parcela significativa da alta literatura universal. Hoje este texto
de Lobato pode ser lido em outro gênero, como em histórias em quadrinhos (HQs), adaptada
pela editora Globo, na edição especial de Monteiro Lobato em quadrinhos, que traz à cena, a
(re)adaptação desse título realizada por André Simas (2009)1. E encontra-se, também, nessa
reformulação quadrinhística os títulos, Minotauro e As aventuras de Hans Staden. Desta,
forma, a presente comunicação visa refletir acerca de Dom Quixote das crianças no que se
refere as suas particularidades estéticas (da prosa às HQs), na (re)construção textual, no uso
*
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem: UNISUL (Universidade do Sul de
Santa Catarina) e bolsista da CAPES.
1
O ano de lançamento dessa edição quadrinhística é 2007, publicada pela Editora Globo, mas devido à reforma
ortográfica será utilizada a 2ª edição do livro em HQs de 2009.
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da linguagem icônica, dentre outros aspectos, que disseminam um projeto de leitura já
idealizado por Lobato em meados do século XX e que encontra-se em evidência na
contemporaneidade.
2. Dom Quixote das crianças: um entrelaçamento de gêneros textuais para a
disseminação da leitura literária entre o público infantil e juvenil
O legado literário de Monteiro Lobato rompe com a função apenas lúdica ou educativa
dos títulos direcionados à infância no início do século XX. O escritor faz a junção desses dois
aspectos e reelabora uma literatura engajada na proliferação e incentivo da leitura literária
entre as crianças brasileiras. Desta forma, desmistifica a concepção da literatura infantil da
época e a composição do perfil dos títulos que circulavam na primeira década do século XX,
como a dos autores Adelina Lopes Viera, Olavo Bilac e Júlia Lopes de Almeida.
Numa retrospectiva histórica, ao se posicionar sobre a obra de Monteiro Lobato,
Fanny Abramovich (1982, p. 154), salienta que não há literatura infantil nem antes nem
depois de Lobato, mas sim, a partir dele, pois é considerado um autor fundante ao recrear um
mundo e uma linguagem que agrade ao público juvenil.
Lobato se posiciona como porta-voz das crianças e a mercê delas no ato da escrita de
suas histórias. Permanece a dizer que não são seus os méritos por agradar o público infantil,
mas sim, das próprias crianças, porque ouve delas o que querem ler. Lobato entrega-se à
literatura infantil e a faz perfeitamente, critica valores e recorre a “adaptações” na transcrição
da língua portuguesa para atrair o interesse do público infanto-juvenil, retratando a língua
como uma entidade viva e em constante transformação, partindo da necessidade dos falantes
de cada região.
O vocábulo “adaptar” designa “ajustar, acomodar, adequar” (FERREIRA, 1986, p. 43)
e se manifesta com a composição do objeto adaptado (livro), o sujeito alvo desta adaptação
(crianças) e o sujeito adaptador (Monteiro Lobato que faz uso de Dona Benta como contadora
da história)2.
Prado (2007) referencia o trabalho de adaptação de Lobato por se apropriar do texto
cervantino incluindo as personagens do Sítio no primeiro momento, envolvendo Dona Benta e
os netos por meio da apresentação da história em forma de serões, “quando a avó toma a
palavra para introduzir as experiências do herói em suas andanças pela Espanha” (PRADO,
2007, p. 58). Tal modo de elaborar a escrita da história ultrapassa o ato tradutório ou mesmo
adaptativo, “já que o texto mescla a narração das aventuras do herói com fatos ocorridos no
sítio, alterando duas instâncias narrativas” (PRADO, 2007, p. 57-58).
O diálogo proposto por Lobato ao escrever as adaptações, ajuda seus leitores a terem o
primeiro contato com o enredo de clássicos universais. Assim, pela voz de Dona Benta que é
a narradora, tradutora e adaptadora do enredo, o escritor, manifesta sua preocupação em
relação à leitura do enredo original. Para isso cativa os jovens leitores com o feito adaptativo
visando o incentivo da leitura na íntegra, ou seja, em sua vertente originária. Assim, Lobato
usa do recurso da adaptação e da intertextualidade ao recontar a história do cavaleiro andante
para a turma do Sítio.
Por esse viés, entende-se que a originalidade total de um texto, torna-se impossível,
pois só consegue-se escrever sobre um tema, com um conhecimento acerca do que se quer
escrever, ou seja, os textos nascem do diálogo intrínseco com outros textos, como destaca
Bakhtin, “o prosador utiliza-se de discursos já povoados pelas intenções sociais de outrem,
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Tríade que compõe a teoria da Estética da Recepção.
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obrigando-os a servir às suas novas intenções, a servir a seu segundo senhor” (BAKHTIN,
1993, p. 105).
É interessante compreender a feitura adaptativa e o seu benefício aos leitores, por isso,
a pesquisadora Böhm (2004, p. 59) contribui com suas pesquisas para que se entenda melhor
como ocorre o processo adaptativo de um enredo.
O processo de adaptação, para o público infantil, revela-se como algo passível de
questionamento devido à participação de dois sujeitos, no caso, uma criança
(destinatário) e um adulto (emissor), pela especificidade do destinatário e pelas
possíveis escolhas feitas pelo emissor. No entanto, o artifício pode configurar-se
como uma solução, à medida que faculta à criança o acesso a objetos ou artefatos
não destinados, inicialmente, a ela. O perfeito entrosamento entre prática do
adaptador e o emissor a que se destina ao objeto adaptado faz com que o processo
deixe de ser um problema para aparecer como uma solução (BÖHM, 2004, p. 59).
Por esse viés, recorre-se ao ato adaptativo para cativar os jovens leitores desde a
introdução da literatura infantil no século XX até os dias de hoje.
Com isso, é relevante salientar a necessária aproximação do linguajar oral que deve
migrar para a escrita, se a intenção for chamar o leitor para adentrar a história. Não
desconstruí-la, mas readaptá-la para o contexto da interação com o público leitor em que se
faz presente a reconstrução de um enredo direcionado a um público não tão letrado quanto o
infantil da época, mas que possui um conhecimento de mundo, às vezes, além de quem está a
escrever. Não no caso de Lobato que consegue obter essa aproximação com o imaginário
infantil por meio da linguagem simplificada e descritiva atendendo as expectativas da maioria
dos leitores.
A ênfase à oralidade representada pelo modo de Dona Benta transmitir as narrativas
atrai a atenção dos ouvintes/leitores, desde Peter Pan (1930) cuja literatura era recente para a
época e de destinatário o público infantil, do autor James Matthew Barrie a D. Quixote das
Crianças, pertencente aos cânones literatura universal, encontra-se a narração oral. Marisa
Lajolo ao estudar o livro Histórias de Tia Nastácia ressalta que
Nestes livros, porém, o recurso à oralidade constitui estratégia adotada por Dona
Benta [...] para facilitar o ingresso das crianças – ouvintes no mundo da leitura. Ou
seja, em D. Quixote das crianças e em Peter Pan, se a enunciação mimetiza o mundo
da oralidade, o enunciado vem do moderno mundo da escrita, ao qual se subordina o
da oralidade, mero instrumento deste para aquele. (LAJOLO, 2008, p. 71).
Em consonância com alguns projetos da Companhia Editora Nacional, agora de
Octales, Lobato lança, em 1936, Dom Quixote das crianças. A publicação deste aflora um
projeto de leitura, de tradução e de adaptação, que permite ao educador de hoje fazer reflexões
pertinentes de como trabalhar hipertextos (paradidáticos) em sala de aula, sem perder as
especificidades do enredo original, bem como, saber analisar quais os títulos a serem
escolhidos e quais os adequados a determinada faixa etária (LAJOLO, 1994, p. 97).
A primeira referência que se tem conhecimento sobre a vontade de adaptar Dom
Quixote encontra-se em uma carta de 1921 ao amigo Godofredo Rangel, onde pede que vá
traduzindo algumas obras de Shakespeare em linguagem bem simples, ordem direta e o
máximo de liberdade. E segue se colocando a disposição doa migo “Quanto a Dom Quixote,
vou ver se acho a edição do Jansen” (LOBATO, 1951, p. 232), indicando que está interessado
em atualizar a obra para ás crianças. No entanto, realiza esse feito somente em 1936. Este
livro “teve uma tiragem de 10.625 exemplares e a segunda edição, de 1940, contou com uma
tiragem de 5.025 exemplares” (PRADO, 2007, p. 57).
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Não é tarefa fácil escrever para um público tão exigente como as crianças. Tem que
haver um envolvimento contínuo entre o texto e o imaginário infantil é preciso jogar com
elas, e a solução é colocá-las num universo de viagens e, principalmente, de constantes
aventuras, juntamente com as personagens. Surge então, a questão da sedução para com o
leitor. É necessária uma adaptação lúdica, de cunho reflexivo, e para isso, o taubateano faz
uso do recurso adaptativo da obra consagrada de Cervantes, apropriando-se das peripécias de
D. Quixote e Sancho inserindo-as no Sítio.
Na adaptação de Dom Quixote das Crianças, Lobato não esmiúça todo o enredo
original, faz recortes sincrônicos que proliferam o tom aventureiro das personagens, bem
como, a loucura, a generosidade e as artimanhas do cavaleiro andante e seu fiel escudeiro
Sancho Pança, dando ênfase para a estética, para a cultura e para o desempenho intelectual
tanto das personagens quanto dos leitores infantis que para isso disponibiliza a linguagem
acessível..
A linguagem é um dos eixos norteadores para que haja uma boa recepção da obra por
parte dos leitores. O distanciamento temporal entre a escritura e a leitura pode gerar
dificuldades “A linguagem do texto original, já não é facilmente compreendida, assim como
as características culturais da época em que foi escrita a obra. Para que seja efetivamente lido
e compreendido será imprescindível uma adaptação” (PRADO, 2007, p. 24)
Ao ler Dom Quixote de la Mancha, traduzido pelos Viscondes de Castilho e Visconde
de Azevedo, percebe-se que a linguagem é rebuscada e requer um público adulto para
entendê-la. Sendo assim, quando Lobato faz a adaptação, a preocupação primordial é com a
linguagem mais objetiva, o que facilita e entretém o leitor mirim, pois somente as
particularidades essenciais vão ser usadas pelo adaptador, ou seja, o texto original sofre
adequações, cortes, dando ênfase para o conhecimento de mundo e dos aspectos culturais do
leitor, fazendo modificações necessárias para adentrar ao universo literário do público alvo.
Lobato compreende e dribla a realidade da época frente ao acesso ao livro e ao ato de
ler. Na época, poucas pessoas tinham o privilégio de ter acesso ao livro, somente pessoas que
obtinham poder (status) faziam uso dos livros e da leitura, ocasionando uma fronteira entre o
objeto e o receptor. De acordo com Pina “a escrita detém o poder e o acesso ao livro implica a
partilha desse poder” (2008, p. 136). A leitura abre caminhos para a reflexão do tempo em que
se vive.
O criador do Sítio do Picapau Amarelo ao fazer as adaptações postulava-se dentro do
texto, por vezes, na voz de Dona Benta, da boneca Emília, assumindo as histórias dos outros
com pinceladas marcantes de seu estilo. Monteiro (2002) destaca em sua dissertação de
mestrado direcionada às adaptações de clássicos que:
Na capa, na folha de rosto e na lombada dos livros, era o nome de Monteiro Lobato
a chamar o leitor e a promover a venda. Ao contrário do que ocorre atualmente.
Hoje, no esquema das editoras de didáticos, quem detém o valor de grife para
promover a adoção escolar é o autor da obra original (MONTEIRO, 2002, p. 41).
Fica explícito a presença do capitalismo na atratividade do consumo dos livros, uma
massificação na venda dos clássicos literários em prol ao enriquecimento e não ao incentivo à
leitura tanto proclamada. O apego ao original para que a adaptação seja bem vendida e
recepcionada pelos leitores é frisado desde o primeiro contato visual com a edição impressa
de um livro adaptado.
Entretanto, no início do século XX não se tinha esse jogo de marketing ou “valor de
grife” como menciona Monteiro (2002, p. 41). A escolha do título dessa obra, Dom Quixote
das Crianças, é considerada ambiciosa por parte de Lobato, pois desencadeia uma nova
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apropriação da obra, pertencente ao seu público alvo: as crianças, bem como salienta Prado
“Dom Quixote passa a ser das crianças e não mais de Cervantes ou de Lobato. Nem mesmo
“de La Mancha”, já que virá a terras brasileiras, por ocasião da mudança das personagens do
mundo da fantasia para o Sítio [...]” (2008, p. 328).
Constata-se de imediato a intenção de Lobato em semear o gosto pela leitura literária e
de incentivar a apreciação pelos grandes clássicos da literatura. Desde o primeiro capítulo o
leitor já é envolvido pela biblioteca e pelo acervo ali presente. Observe na desenvoltura da
descrição lobatiana.
Emília estava na sala de dona Benta, mexendo nos livros. Seu gosto era descobrir
novidades ― livros de figura. Mas como fosse muito pequenina, só alcançava os da
prateleira de baixo. Para alcançar os da segunda, tinha de trepar numa cadeira. E os
da terceira e quarta, esses ela via com os olhos e lambia com a testa. Por isso mesmo
eram os que mais a interessavam. Sobretudo uns enormes.
Uma vez a pestinha fez o Visconde levar para lá uma escada ― certa vez em que
dona Benta e os netos haviam saído de visita ao compadre Teodorico.
Foi um trabalho enorme levar para lá a escadinha. O coitado do Visconde suou,
porque Emília, embora o ajudasse, ajudava-o cavorteiramente, fazendo que todo o
peso ficasse do lado dele. Afinal a escada foi posta junto à estante, e Emília trepou.
― Segure bem firme, Visconde ― disse ela ao chegar ao meio. ― Se a escada
escorregar e eu cair, vossa excelência me paga.
― Não tenha nenhum receio, senhora marquesa. Estou aqui agarrado nos pés da
bicha como uma verdadeira raiz de árvore. Suba sossegada. Emília subiu. Alcançou
os livrões e pôde ler o título. Era o D. QUIXOTE DE LA MANCHA, em dois volumes
enormíssimos e pesadíssimos. Por mais que ela fizesse não conseguiu nem movê-los
do lugar (...)
Brolorotachabum! ― despencou lá de cima, arrastando em sua queda a escada, a
Emília e o cabo de vassoura, tudo bem em cima do pobre Visconde. (LOBATO,
2004, p. 8)
Ao ler esse pequeno fragmento o leitor passa a se envolver com a escrita e com o
enredo do livro. Consegue imaginar a ambientação e em alguns momentos a leitura provoca
uma sensação até mesmo sinestésica no leitor: “ela via com os olhos e lambia com a testa”
(LOBATO, 2004, p. 07).
Lobato faz conexões entre o enredo original e a turma do Sítio, principalmente no
envolvimento dos personagens com a história de Cervantes. Dessa forma, os feitos de Lobato
impressos ganharam espaço em outros gêneros textuais, com nas histórias em quadrinhos
(HQs). Talvez, observa Quella-Guyot (1990, p. 7), a aceitação desse gênero na
contemporaneidade esteja ligada pelas tendências midiáticas dessa nova era. Afinal, “essa
produção abundante dirige-se aos mais jovens e aos mais adultos por meio de séries bastante
diferenciadas em termos de concepção e de tratamento”.
Desta forma, ao refletir sobre Dom Quixote das Crianças em prosa, deve-se entender
que é uma adaptação plausível da original cervantina e ao (re)adaptá-la para outro gênero,
como para as HQs o cuidado com os detalhes que a constituem devem ser redobrados, já que
se refere a um dos clássicos da literatura universal. Para Calvino (2007, p.14) “um clássico é
um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele
reconhece logo o seu lugar na genealogia”.
Por esse viés, a concepção e o poder da imagem dialogam constantemente com os
aspectos culturais de cada indivíduo como salienta Radhe (2002):
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É assim que as imagens estabelecem um diálogo, uma linguagem entre o criador e o
receptor e, diz Huyghe, “na medida em que se atribui a missão de comunicar, o
artista precisa se servir de alusões ao que os outros podem conhecer ou reconhecer”
(1986, p. 24). Enquanto, a linguagem oral ou escrita busca a comunicação nas
palavras ou nos dicionários, prossegue o autor, a fala da imagem vai buscar gráfica
ou plasticamente para se comunicar. Nesta perspectiva, a linguagem das imagens
certamente, terá como base a experiência visual da realidade uma alusão, uma
lembrança, uma estrutura, que pode ser criar a beleza harmônica e que a submete a
uma função essencial, que é a de estabelecer comunicação entre os homens
(HUYGHE apud RAHDE, 2000, p. 30)
Assim, para aguçar o gosto pela leitura literária e levar ao conhecimento das crianças
dessa nova era midiática, André Simas3 (2009), publica o livro Dom Quixote das Crianças,
em forma de história em quadrinhos. É interessante mencionar que “as histórias em
quadrinhos não são fáceis nem miraculosas. A arte da narrativa não se torna da noite para o
dia didática” (QUELLA-GUYOT, 1990, p. 43). Assim como, se tem que entender o universo
infantil para escrever às crianças, esta adaptação (re)adaptada para HQs deve ser reconstruída
cuidadosamente atendendo a todas as necessidades ilustrativas para chamar a atenção do leitor
sem perder o tom clássico, mas ao mesmo tempo cômico, principalmente nas atitudes da
astuta Emília. Aspectos esses que se entrelaçam nas histórias em quadrinhos (HQs) já que as
personagens cervantinas não são apenas apresentadas às crianças e aos integrantes do Sítio,
mas sim, são incorporadas por eles: Visconde é Dom Quixote, Rabicó é Sancho Pança, a
criada é Tia Nastácia, Narizinho é a sobrinha, Sansão Carrasco é Pedrinho, que também
interpreta o Cavaleiro dos Espelhos e o Cavaleiro da Branca Lua, dentre outros.
Fica por conta de Emília a introdução da história em HQs. Neste momento de
apresentação, Emília contextualiza as aventuras já vividas em outros títulos escritos por
Lobato e introduz as aventuras de Dom Quixote convidando o leitor a adentrar esse universo
ficcional que para ela, em meados da história, se torna real. Isto porque incorpora a loucura
quixotesca de tal forma que já vem trajada com espada na mão, escudo (uma tampa de aço) e
o elmo (vasilha) na cabeça desde a apresentação.
A cena inicial do livro em história em quadrinhos reproduz a passagem em que Emília
convence o sabugo de milho “Visconde”, a ajudá-la a retirar o livro, o maior dos volumes
dispostos naquela prateleira e por sinal o mais alto. Repare no poder da imagem, nos traços e
nas cores ali predispostas, o alvo das personagens: última prateleira, deixando os demais
livros esquecidos, as frases sintetizadas e o formato dos balões. Todos os desenhos
conseguem englobar as lacunas deixadas na fala, exposta em balões, reduzida da adaptação
lobatiana, mas de característica própria das HQs por meio das particularidades da imagem.
3
Iniciou sua carreira em 1988, nos estúdios Maurício de Sousa, desenvolve roteiros para diversas revistas
infanto-juvenis como Sítio do Picapau Amarelo, Menino Maluquinho, Cocoricó, Senninha, e trabalha também
com sites de humor (SIMAS, André. 2009, p. 2)
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Figura 1 - SIMAS, André. Dom Quixote das crianças, em quadrinhos (2009, p. 5)
Observe que o desenho proporciona a imagem “pronta” para o leitor e com detalhes
acentuados como as cores dos livros, que Pina descreve brevemente neste fragmento:
Vários recursos gráficos são usados para direcionar o olhar da criança para os pontos
importantes da página: as prateleiras mais baixas trazem livros de cores frias: cinza,
bege, marrom, amarelo. Na última prateleira, explode um grosso livro vermelho,
com letras amarelas enormes. Na mesma, prateleira, dando início à carreira de
livros, em azul, também com letras amarelas, Urupês, numa referência à relevância
do criador da bonequinha de macela (PINA, 2008, p. 138)..
Outro fator relevante é a adaptação lobatiana ter como cenário no primeiro capítulo a
biblioteca. Lugar este, em que o Cavaleiro Andante passava horas e horas a construir seus
conhecimentos entretidos nas páginas dos livros de sua biblioteca particular, conseguindo
Lobato fazer o entrelaçamento do lido originalmente e com o vivido por suas personagens já
que constantemente estão entre as leituras por meio dos serões de Dona Benta. Está cena
como pode ser observada na figura 1 foi reproduzida de forma exemplar nas HQs, desde a
ordem dos livros (títulos) dispostos na prateira que destaca o volume pesado de Dom Quixote
de La Mancha na última fileira, no lugar mais alto. Isso, porque não é uma literatura que
obtivesse linguagem acessível às crianças, então, não havia necessidade de estar ao alcance
delas.
A força da imagem e o poder de repassar o todo com o código lingüístico exposto em
partes, por meio dos balões metricamente encaixados nas ilustrações, fica ressaltado nas
palavras de Huyghe (2000). Quantos significantes e significados podem ser percebidos por
meio dessas duas páginas aqui ilustradas? O signo iconográfico das personagens (Emília,
Visconde, Tia Nastácia), signo analógico (a ação das personagens, principalmente de Emília),
o significante (dentre outros, a queda da boneca) ocasionando o esmagamento do Visconde,
que vem a ser o significado da ação da travessura da boneca, ou seja, o resultante da ação.
Em carta ao amigo Godofredo Rangel datada de 08/12/1921 afirma que “nosso sistema
não é esperar que o leitor venha; vamos onde ele está como o caçador. Perseguimos a caça.
Fazemos o livro cair no nariz de todos os possíveis leitores desta terra (LOBATO, 1951. p.
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239)”. Ou seja, produzir possibilidades que levem ao encontro o rio e seus afluentes, o livro e
seus leitores. Não apenas o livro em sua materialidade, mas principalmente, a disposição
estilística de seu enredo e as HQs torna-se uma opção interessante.
Após a cena da queda de Emília e do esmagamento do Visconde a história é iniciada
por Dona Benta que propõe a “tradução da tradução”, percebendo que ao ler as primeiras
linhas do texto original a sua platéia não conseguiu situar-se principalmente no quesito língua
portuguesa, ou “português perfeito”, fala Emília. Dona Benta explica quem foram os dois
Viscondes que fizeram a tradução do título original cervantino que representado por Visconde
é literalmente deixada de lado pelo esmagamento do sabugo de milho, pois a presença deste
remetia aos tradutores brasileiros (cena também retratada nas HQs). Com isso, toda a
linguagem é remodelada e ajustada por conta da adaptação de Dona Benta, porque ao iniciar a
leitura do enredo original se depara com a aversão das personagens por não compreenderem
nem o linguajar muito menos o contexto histórico da cavalaria andante.
E dona Benta começou a ler:
― “Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há
muito, um fidalgo dos de lança em cabido, adarga antiga e galgo corredor.”
― Ché! ― exclamou Emília. ― Se o livro inteiro é nessa perfeição de língua, até
logo! Vou brincar de esconder com o Quindim. “Lança em cabido, adarga antiga,
galgo corredor”... Não entendo essas viscondadas, não...
― Pois eu entendo ― disse Pedrinho. ― Lança em cabido quer dizer lança
pendurada em cabido; galgo corredor é cachorro magro que corre e adarga antiga é...
é...
― Engasgou! ― disse Emília. ― Eu confesso que não entendo nada. Lança em
cabido! Pois se lança é um pedaço de pau com um chuço na ponta, pode ser “lança
atrás da porta”, “lança no canto”, mas “no cabido”, uma ova! Cabido é de pendurar
coisas, e pedaço de pau a gente encosta, não pendura. Sabem que mais, meus
queridos amigos? Vou brincar de esconder com o Quindim... (LOBATO, 2004, p.
10).
O não entendimento dos vocábulos deixa as crianças e a boneca irritadas. Dessa
forma, Lobato (re) cria simplificadamente à linguagem por meio da voz da mediadora da
leitura Dona Benta e reconstrói os fatos por meio da adaptação. Para propiciar o
entendimento, Dona Benta não vê outra solução a não ser recontar a história de Miguel de
Cervantes com suas próprias palavras, numa linguagem acessível, tudo para facilitar o
entendimento de seu público: Pedrinho, Narizinho, Visconde, Tia Nastácia e Emília. Então,
profere:
- Meus Filhos – disse Dona Benta – esta obra (Dom Quixote) está escrita em alto
estilo, rico de todas as perfeições e sutilezas de forma, razão pela qual se tornou
clássica. Mas como vocês ainda não têm a necessária cultura para compreender as
belezas da forma literária, em vez de ler vou contar a história com palavras minhas
(LOBATO, 2004, p. 10).
Devido a esta adaptação adotada por Dona Benta, muitos leitores além das
personagens do Sítio, tiveram a oportunidade de desfrutarem do contato com a essência da
obra de Miguel de Cervantes Saavedra, em linguajar simples, mas denso de significados, com
remanejo vocabular ora realista ora irônico dos recortes que se fizeram uso da obra original
para ser apresentada a turma do Sítio. Desde a concepção da língua portuguesa proferida pela
voz da boneca, da necessária adequação, principalmente na parte escrita das palavras para o
público leitor. A busca pela simplificação lingüística no momento de contar a história (na
oralidade) e o uso relevante dos grafemas considerados necessários para a composição
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vocabular estão em consonância com a acepções quadrinhísticas. A preocupação com a
composição lingüística é ressaltada logo no início do primeiro capítulo por Lobato, com a
atitude de Emília ao riscar com o lápis um dos dois “aa” do sobrenome do escritor espanhol,
justificando sua ação por considerar que na oralidade um “a” faz o mesmo efeito. (LOBATO,
2004, p. 8) e de Dona Benta em “traduzir a tradução”. Fato este, retratado fielmente na
(re)adaptação para as HQs.
Nestas também encontram-se aspectos lingüísticos, nas falas de Emília, que são
convergentes com as tendências enunciativas atuais, como “tá vendo”, em vez de “está(s)
vendo”, “eu vivo falando pro Visconde [...]”, em vez de “eu vivo falando para o Visconde
[...]”. Além da presença de neologismos como: cavaleiro pocotante, em vez de “andante”,
aspectos prototípicos da escrita lobatiana que veio remodelada por Simas.
Entretanto, Lobato permeia seu enredo não só com a adaptação do clássico literário,
mas faz uso de alguns temas de alta complexibilidade, como: a feitura do livro, desde a
composição material: sua forma, papel utilizado, tamanho, ilustrações, diagramação; seus
protocolos, até o reflexo que pode alcançar essa leitura na modificação do pensamento do
leitor frente aos acontecimentos presentes no enredo. Aspectos esses que não são levados em
consideração no enredo das HQs.
Lobato na composição de seu texto já utiliza cortes no enredo cervantino, fazendo uso
somente dos temas que interessassem o público infantil e juvenil (aventura, amor, loucura,
coragem, dentre outros) utilizados para se adequar ao gênero em questão, prosa. Essa
adaptação da obra de Cervantes por Dona Benta, com recortes considerados por Lobato mais
relevantes, reproduz passagens atrativas proporcionando interesse pela leitura, a aproximação
dos leitores com a literatura ao trazer para o Sítio a loucura de D. Quixote na pele de Emília e,
principalmente, com as colocações de Pedrinho sobre o que aprecia no personagem D.
Quixote. Feitos esses que não estão presentes nas HQs. Por exemplo, nas HQs não há a
menção do livro Doze Pares de França, de Carlos Magno por parte de Pedrinho, que
evidenciam no texto em prosa a presença da intertextualidade que aflora das paradas
reflexivas que Lobato faz para que todas as personagens falassem o que pensavam a respeito
das ações quixotescas
- O que gosto em D. Quixote – observou Pedrinho – é que ele não respeita cara.
Medo não é com ele. Seja clérico, seja moinho de vento, seja arrieiro, ele vai de
lança e espada em cima, como se fossem carneiros.
- Valente ele é – concordou Narizinho – Pena que não vença todas às vezes. O tal
Cervantes era mau. Judia muito desse personagem.
-Isso é para equilibrar outras histórias de cavaleiros andantes – explicou Dona Benta
– nas quais os heróis venciam sempre. Havemos mais tarde de ler algumas.
- Como a dos Doze Pares de França – observou Pedrinho. – Aquilo é que é dar
pancada. [...]
- Comecei a ler e fui me esquentando, me esquentando, me esquentando até que não
pude mais. Minha cabeça virou – ficou assim como a de D. Quixote. Convenci-me
de que eu era o próprio Roldão (LOBATO, 2004, p. 43-44)
O ato da adaptação desenvolvido por Lobato evidencia que a atividade é exercida com
acréscimo de informações pertinentes ao enredo original, mesmo fazendo uso da síntese,
quando mescla as reflexões de suas personagens no embalo da disposição oral da história e
faz com que a diversão tome conta do início ao fim, das atitudes bisbilhoteiras de Emília. Esta
que acaba incorporando a loucura de Dom Quixote levando até Rabicó para ser o seu
Rocinante. Cena esta, que está reproduzida nas HQs de forma atrativa e que estimula o
imaginário infantil dos leitores.
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Anais do IX Encontro do CELSUL
Palhoça, SC, out. 2010
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Assim, nas HQs, a boneca de pano comovida pelos acontecimentos que ocorrera com
Dom Quixote passa a vê-lo com outros olhos e quando Dona Benta conta o seu fim (a morte
do cavaleiro andante), Emilia se revolta e não quer acreditar neste acontecimento, porque
acredita que um cavaleiro como Dom Quixote nunca morrerá. Talvez, porque em Diversas
Histórias, a boneca de macela pede a Dona Benta para lhe explicar qual a diferença entre
gente e personagem e a avó responde.
- Gente é gente, você sabe, não preciso explicar. E personagem é uma coisa muito
mais que gente, porque gente morre e os personagens não morrem, são imortais,
eternos. D. Quixote, por exemplo. Existe desde o tempo de Cervantes e existirá
enquanto houver humanidade. Se fosse gente, já teria morrido há muito tempo e
ninguém mais se lembrava dele. Quem lembra dos fidalgos-gente do tempo de
Cervantes? Todos morreram, desapareceram da memória dos homens. Mas D.
Quixote e Sancho, que são dessa mesma era, continuam perfeitamente vivos, são
citados a toda hora, não morreram nem morrerão nunca (LOBATO s/d, p. 76).
Então, nas HQs, Emília redefine o final da história lobatiana e faz com que Dom
Quixote se recupere e saia cavalgando e se aventurando não somente com seu fiel escudeiro,
Sancho Pança, mas também, com o Cavaleiro da Branca Lua, com sua sobrinha e com a
criada. Uma comitiva que parte em busca de aventuras aguçando o imaginário infantil e
juvenil4.
É relevante ressaltar que os cortes feitos do enredo lobatiano para a composição das
HQs é compreensível, visto que, esse gênero requer o trabalho intrínseco entre palavras e
imagens, não comportando todas as especificidades do enredo que as derivou. Por isso, o
incentivo pela leitura do texto original que nesta instância indica a leitura do livro do próprio
Lobato, e posteriormente, na fase adulta, a do enredo cervantino consta nas páginas das HQs.
Assim, pode-se compreender o legado cultural deixado por Monteiro Lobato em prol
ao desenvolvimento da interação humana por meio da linguagem e do incentivo da prática
leitora e de uma escrita que abarque as necessidades do intelecto humano reconhecido por
meio das leituras literárias universais em forma de adaptações permitindo o acesso a textos
complexos e de extrema relevância no que diz respeito aos quesitos intelectuais, culturais e
estéticos de cada leitor que se proponha a adentrar o universo literário. Bem como, a
relevância desta adaptação para as histórias em quadrinhos, que vai ao encontro das
tendências educativas da contemporaneidade, sendo composto pela presença da imagem como
um veículo de comunicação direto com o imaginário do jovem leitor contextualizando épocas
literárias diferenciadas. Tais aspectos demonstram que novos olhares devem ser lançados por
parte dos educadores para que as crianças de hoje busquem leituras prazerosas e educativas
que as tornem indivíduos críticos e atuantes na sociedade. Afinal, recursos adaptativos não
faltam; basta apenas professores e/ou pais/responsáveis oportunizarem aos jovens leitores a
descoberta e o acesso a essa variedade de gêneros textuais existentes.
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Outros aspectos sobre esses dois títulos ainda estão sendo pesquisados e constarão na dissertação da autora.
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Anais do IX Encontro do CELSUL
Palhoça, SC, out. 2010
Universidade do Sul de Santa Catarina
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