SENTIDO E IDENTIDADE NO DISCURSO LITERÁRIO DE PALHA DE ARROZ DE FONTES IBIAPINA ________________________________________________________________ Francisca Verônica Araújo Oliveira1 Rita Alves Vieira2 RESUMO O trabalho em foco procura analisar a estruturação do discurso literário na obra Palha de Arroz, do escritor piauiense Fontes Ibiapina, através do viés da análise do discurso francesa, como forma de perceber a construção discursiva da identidade por meio da linguagem, bem como as influências sociais, históricas, políticas e ideológicas na produção do discurso. Tomando a literatura como uma forma de representar o mundo através da linguagem, atribui-se ao signo linguístico características que irão além de concepções semânticas e/ou estruturais, uma vez que o campo do discurso nunca se esgota, travando inúmeros diálogos acerca das condições humanas. Logo, analisar-se-á as construções presentes na citada obra, como forma de representação da característica espacial, reconhecendo os falares típicos do cotidiano nordestino, notadamente do piauiense, considerando o homem como aquele que produz significação e, portanto, este decurso não pode ser entendido fora de uma estrutura social, sem considerar os processos sócio históricos que as determinam, visto que os sentidos do discurso são demarcados histórica e socialmente. Palavras–chave: Discurso literário. Sentido. Identidade. ABSTRACT Work in focus to analyze the structure of literary discourse in the work of Rice Straw, the writer piauiense Sources Ibiapina through the bias of French discourse analysis as a way to understand the discursive construction of identity through language, as well as the influences social, historical, political and ideological in speech production. Taking the literature as a way to represent the world through language, attaches itself to the linguistic sign features that go beyond conceptions of semantic and / or structural, since the field of discourse is never exhausted, catching numerous conversations about the human condition . Soon, it will analyze the constructions present in the aforementioned work, as a form of representation of the feature space, recognizing the typical everyday northeastern dialects, notably the Piauí, considering man as one who produces meaning and, therefore, this course can not be understood Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página Graduanda em Licenciatura plena em Letras/Português, pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI, pós-graduanda em Metodologia do ensino de língua portuguesa e literatura, pela Faculdade Internacional do Delta – FID/INTA. E-mail: [email protected] 2 Mestre em Linguística, pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, professora DE da Universidade Estadual do Piauí – UESPI, atuando no curso de Letras/Português em disciplinas da área de linguística e coordenadora do PAFOR na cidade de Parnaíba-PI. E-mail: [email protected] 13 1 outside of a social structure, without considering the socio historical processes that determine, since the senses of discourse are demarcated historically and socially. Keywords: Literary discourse. Sense. Identity. O texto literário é uma forma de representação artística, onde o belo, as formações políticas, intelectuais, sociais, culturais e linguísticas podem ser registradas. Assim, busca-se observar o caráter identitário da construção de sentidos presente na obra, visto que a heterogeneidade discursiva e linguística representam as formas de expressão características de determinada região, logo, analisar-se-á as construções presentes na citada obra, como forma de representação da característica espacial, reconhecendo as marcas de oralidade e ideologias existentes no entorno do discurso. A construção da identidade linguística na contemporaneidade é uma tônica que precisa ser abordada, conforme afirma Le Page: “(...) todo ato de fala é um ato de identidade” (1980 apud BORTONI-RICARDO, 2005, p. 176). Assim, procura-se através do discurso literário identificar características concernentes às representações dos atos de fala, observar nos escritos peculiaridades que denotem as circunstâncias de construção da linguagem, analisar-se-á também as influências e condições históricas que influenciaram o momento da enunciação, resgatando assim expressões utilizadas cotidianamente no discurso oral, e como elas foram representadas na prosa regionalista brasileira. Examinar a língua como forma de interação é analisar as situações reais de uso, sem rotulá-la padrão ou não, logo, “a identidade de um indivíduo se constrói na língua e através dela. Isso significa que o indivíduo não tem uma identidade fixa anterior e fora da língua” (RAJAGOPALAN, 1998, p. 41). Se os indivíduos são diversos em sua identidade, se eles passam por processos de evolução e vão somando suas vivências Língua e sociedade, portanto, estão relacionadas de forma direta, sendo assim, consoante a essa relação, Eni Orlandi explica: Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página linguagem. 14 sociais umas às outras, isto vai se refletir no processo de construção e reconstrução da Quando nos perguntamos pela natureza da relação entre linguagem e sociedade, seria, no entanto, banal presumir o isomorfismo: a um determinado tipo de estrutura social acompanharia determinado tipo de estrutura linguística. Poderia ser mais fecundo partir do condicionamento recíproco desses dois tipos de estrutura em duas direções: consideraríamos, então, o condicionamento linguístico da sociedade – a língua cria identidade – e o condicionamento social da língua – a estrutura da sociedade está “refletida” na estrutura linguística (2009, p. 98). Ao contrário do que se imagina, a fala e a escrita estão bem próximas, pois, ambas participam do processo de interação no meio social, são dinâmicas e utilizam-se da heterogeneidade discursiva, assim, procura-se fazer uma abordagem linguística utilizando como objeto de pesquisa a literatura, mais precisamente a obra Palha de Arroz, do escritor piauiense Fontes Ibiapina, analisando a construção do discurso literário como representação de sentido e identidade em determinado momento histórico, o qual as condições de produção determinarão a discursividade do texto. “Fontes Ibiapina cruzava os gêneros discursivos a que se dedicava, reiterando, na estrutura textual e na montagem das frases a partir de palavras e ditados populares, as relações temáticas, enunciativas e políticas entre a literatura regional e o discurso do folclore” (RABELO, 2008, p. 165). Portanto, busca-se um paradoxo linguístico referente à estrutura textual utilizada pelo autor e as formas de expressão linguística utilizadas na interação real entre indivíduo, língua e sociedade. Tomando o texto literário como um discurso carregado de sentidos, histórias e ideologias têm-se como base teórica discussões acerca da análise do discurso francesa, a partir das abordagens de Brandão (2004), Orlandi (2012), Maingueneau (2006), enquanto a questão da identidade está embasada emKanavillil (2003), Stuart Hall (2011), entre outros. Nas veredas da linguagem e do discurso desde os primeiros registros linguísticos observou-se a necessidade de nomear 15 (classificar), só assim as coisas passavam a existir realmente. Os estudiosos da língua, Página Tratar de linguagem permite ao homem o contato com a sua realidade simbólica, Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 até o século XIX, procuravam alcançar uma língua ideal, aparentemente homogênea, desvinculada das especificidades de produção, bem como das características de cada falante. Todavia, a partir desse período surgiu o interesse pelas línguas vivas e pelo estudo comparativo dos falares, momento em que desenvolveu-se um método históricocomparativo, contribuindo para o crescimento das gramáticas comparadas e da Linguística Histórica. O estudo comparado das línguas vai comprovar o fato de que elas se transformam com o decorrer do tempo, independentemente da vontade dos homens, seguindo uma necessidade própria e manifestando-se de forma moderna. Um dos maiores contribuintes para os estudos da linguística moderna foi Ferdinand de Saussure, no século XX, que definiu a língua como um sistema de signos, formados por elementos opositores que constituem significados. Portanto, buscava-se definir a língua como algo fechado, autossuficiente em si mesmo, no entanto, essa definição como processo cognitivo isolado do meio não conseguiu abordar uma explicação concreta, uma vez que a linguagem só possui significado quando utilizada de forma interacional pelo falante. Destarte, os estudos acerca da linguagem estão inteiramente relacionados com os fatos sociais, visto que não se produz enunciados fora de qualquer contexto social. A língua constitui um processo de interações, pelo qual seus usuários possuem os mais diversos contextos para executá-la, assim, essas variedades podem contribuir para a formação de uma identidade linguística, uma vez que esta é constituída na interação social, portanto, “o desenvolvimento da linguagem e do pensamento humano tem base na interação entre os indivíduos” (VYGOTSKY, 1996 apud MARTELOTTA, 2008, p. 212). São inúmeras as vertentes que estudam a linguagem, temos então, a Análise do discurso – AD, que não trata da língua, nem da gramática, embora façam parte de seu interesse, mas sim do discurso, neste caso, “a palavra discurso etimologicamente, tem si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento, é portanto, a palavra em movimento, prática de linguagem” (ORLANDI, 2012, p. 15). Tomaremos o texto literário não somente como recurso lúdico, estrutura sintática da língua, mas como um discurso A AD não considera a língua como um sistema abstrato, mas como mecanismo de inter-relação do indivíduo com o mundo, dessa forma Orlandi diz quea AD não trabalha Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página procura-se compreender a língua como constituinte do homem e da sua história. 16 dotado de sentidos, ou seja, o texto juntamente com as suas condições de produção, como na linguística com a língua fechada, mas com o discurso, que é um objeto sócio histórico em que o linguístico intervém como pressuposto (2012). É pertinente considerar que a linguagem vislumbrada por esse viés se concretiza na ideologia e na forma que a ideologia se manifesta na língua, portanto, a exterioridade constitui o sentido. Assim Foucault afirma que: a linguagem parece sempre povoada pelo outro, pelo ausente, pelo distante, pelo longínquo, ela é atormentada pela ausência. (...) é preciso levar em consideração justamente essa existência; interrogar a linguagem, não na direção que ela remete, mas na dimensão que a produz; negligenciar o poder que ela tem de designar, de nomear, de mostrar, de fazer aparecer; de ser o lugar do sentido ou da verdade (2007 apud NASCIMENTO, 2008, p. 12). A partir dos anos 50 a Análise do discurso se constitui como uma disciplina, partindo do trabalho de Harris (Discourseanalysis, 1952), que apresenta a possibilidade de ultrapassar as análises frasais e, de outro lado, os trabalhos de Jakobson e Benveniste sobre a enunciação, tem-se então a presença de duas linhas do discurso, uma americana e outra europeia. Embora sendo o trabalho de Harris o percussor, ele apresenta o discurso como extensão da linguística, sem fazer considerações a respeito das condições sócio históricas de produção do discurso, sendo assim, Benveniste, em contrapartida considera o locutor como o responsável pela construção de sentidos no processo de enunciação, para Brandão ele considera a relação que se estabelece entre o locutor, seu enunciado e o mundo; relação esta que estará no centro das discussões da AD em que o enfoque da posição sócio histórica dos enunciadores ocupa lugar primordial (2004). A AD é regida por dois conceitos, o de ideologia e o de discurso, o último já foi esclarecido anteriormente, mas, enquanto a ideologia tomaremos a visão de Ricouerno que se refere à ideologia com a função geral de mediadora na integração social, na coesão do grupo, os ideais mesmos que norteiam determinada comunidade, por conseguinte observaremos como as questões ideológicas, históricas e políticas corroboraram para a construção do discurso literário na obra em foco, considerando o Página constituição de um padrão discursivo: 17 dialogismo existente nos textos (discursos) Maingueneau esclarece acerca da Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 [...] os textos só são completamente legíveis se já se tiverem lido outros textos, se encontrarmos neles convenções já encontradas alhures. Um texto literário funciona quando se reconhece nele a ação dos tipos de escrita que ele convocou. Em suma, uma descrição linguística pertinente de um texto romanesco não pode prescindir da história das codificações literárias, dado ser esta que justifica uma parte das características linguísticas observáveis. Ocorre de o autor de um texto ter plena consciência de que as marcas específicas que usa [...] para representar o discurso falado, são em parte construções da tradição literária e de que são, por conseguinte, convencionais e sujeitas a variações. Na maioria das vezes, o autor conserva sua saudável ingenuidade e avalia, em parte com razão, que é pela comparação direta com sua experiência pessoal com a fala interior ou com o discurso falado que o leitor decifra as marcas propostas à sua interpretação. Em todos os casos, ele manipula o “horizonte de expectativa” linguístico que constitui o padrão discursivo (2006, p. 207). Abordaremos então a construção de sentidos e de uma identidade (linguística) através das representações do discurso literário. A identidade nesse caso pode ser abordada de diversas formas e em diferentes campos de estudo, nossa pretensão aqui é especificá-la como característica própria de determinado grupo social, bem como as de uso da linguagem. Assim, cultura, história e política corroborarão na elaboração de um perfil identitário. Logo, “relacionar língua(gem) e identidade implica em introduzir a questão da determinação cultural na questão da estrutura” (CHNAIDERMAN at al, 1998, p. 49), pois a identidade aqui discutida, a linguística no caso, dialoga com os valores culturais, sociais, os quais traçam o perfil dialético dos falantes. Assim, de acordo com Penna, “a identidade não está na condição de nordestino, de classe ou de mulher, mas sim no modo como estas condições são apreendidas e organizadas simbolicamente” (1998, p.93), ou seja, a relação que qualquer grupo social possui com o meio onde vivem e interagem. Portanto: Linguagem e identidade estão interligadas, uma vez que ao significar a língua o 18 falante atribui a ela características exclusivas da sua relação sociocultural, logo, falar de Página entende-se a identidade como o conjunto de elementos dinâmicos e múltiplos da realidade subjetiva e da realidade social, que são construídos na interação. Consideramos que a construção de identidades é constitutiva da realidade social das práticas discursivas, juntamente com outras construções, como a construção de relações sociais entre os falantes e a construção de conhecimento e crenças. (KLEIMAN et al, 1998, p. 280). identidade requer considerar a possibilidade de elaboração pessoal da realidade, a Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 linguagem. Assim, não será abordada do ponto de vista estrutural, mas como processo de interação entre indivíduo e sociedade. Palha de Arroz como enunciado discursivo Consideramos aqui a obra Palha de Arroz de João Nononde Moura Fontes Ibiapina não apenas como uma estrutura gramatical da língua, mas como enunciados discursivos que denotam as características históricas da década de 1940, bem como os incêndios criminosos ocorridos na cidade de Teresina, em plena ditadura Vargas, além de caracterizar através das marcas de oralidade do discurso das personagens representações próprias do cotidiano linguístico do piauiense, através de ditados populares, de uma linguagem simples e espontânea que recria o perfil humano a ser observado na obra. Palha de arroz, portanto, nos revela um Piauí esquecido pelas autoridades, onde a população vive a margem de “qualquer sorte”, tem-se a criação de um possível espaço urbano, assim, a obra aproxima literatura e história, haja vista que recria o real através da relação com o imaginário, o personagem Pau de fumo (Chico da Benta), um dos mais curiosos na trama, define história como o eterno começar (2004, p. 168), nesse caso, as relações do homem com o meio que nunca serão findadas, uma vez que a história esteve no passado,está no presente e estará no futuro. A obra nos permite tratardas relações sociais, com o espaço, o tempo, as ideologias que cercam as intenções do autor, ao recriar através da escrita literária fatos que emergem da história de um povo, visto que, nenhum discurso nasce de uma inocente solicitude, mas da relação entre sujeito e condições de produção. Dessa forma, “a cultura de um povo é a expressão mais forte de sua origem e deve ser espalhada como uma semente na terra, que fecundará e brotará no seio de gerações e gerações [...]. É apresentado um reflexo da geografia física e humana que traduz as condições miseráveis 19 nas quais viviam os menos favorecidos, onde as políticas públicas não passavam de algo Página preciso ecos de memória para perpetuá-la” (NASCIMENTO, 2008, p. 14). Portanto é ilusório, como podemos comprovar no trecho: Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 [...] Tanta gente por aí afora falando em fim de Ditadura!... Pra quê?!...Tanta gente falando em Democracia!... Liberdade... Pra que também?... se os homens na certa seriam os mesmos cachorros. A democracia que devia haver era a Democracia de Pão, Liberdade de Vida, Direito de Viver (IBIAPINA, 2004, p. 14). O discurso de Fontes Ibiapina constrói uma identidade relacionada à posição assumida pelo sujeito enunciador, que retrata os estereótipos de determinado espaço, neste caso com o ar de denúncia, inquietação. Assim a identidade não é fixa, mas está relacionada aos processos interdiscursivos presentes nos enunciados, na obra observamos estes reflexos nas característicos dos habitantes do Palha de arroz. Em outras palavras Castells diz que: [...] as pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a agrupar-se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural, comunal. Apresento a hipótese de que, para que isso aconteça, faz-se necessário um processo de mobilização social, isto é, as pessoas precisam participar de movimentos urbanos (não exatamente revolucionários), pelos quais são revelados e defendidos interesses em comum, e a vida é, de algum modo, compartilhada, e um novo significado pode ser produzido (1942, p. 79). É representado na narrativa o dia-a-dia das classes menos favorecidas, os próprios nomes dos personagens nos remetem a tal concepção, são signos caricaturados, com cargas de sentido muitas vezes negativas e até estigmatizadas, como em Pau de fumo, Maria Preá, Maria gorda, Zé remador, entre outros. Assim considerando a AD como recurso teórico temos a integração do literário a lugares sociais, históricos e ideológicos, o qual todo o cenário da época retratada, bem como seus conflitos, são evidenciados no choque entre as ideologias dominantes e a ideologia que cerca o grupo marginalizado que constitui o centro da obra.Portanto, o poder aqui representado permanece nas mãos da minoria, enquanto a população vive de insuficiências. Chico da benta (tem-se dois homens em um só, primeiro o ladrão que rouba para alimentar a família, e segundo um pai, esposo, conhecedor da literatura, sociologia, Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página de arroz), existe um paradoxo ideológico na figura do personagem Pau de fumo, ou 20 É interessante ressaltar que no contexto formador do grupo marginalizado (Palha filosofia, que embora com um certo estudo, vive em condições degradantes), com o demais personagens, visto que o mesmo opinava criticamente diante das condições de exclusão, miséria e abandono social em que viviam, como podemos observar nos seguintes trechos: [...] Quando me lembro que fui o primeiro aluno do Diocesano...! E hoje viver nesta miséria...! (IBIAPINA, 2004, p. 47). [...] Diacho!... Até de grego entendia alguma coisa sem ter ao menos o ginásio completo. E viver naquela miséria que vivia! (IBIAPINA, 2004, p. 56). [...] E, para mim, a família é o esteio social. Cada família é uma cidade, um Estado em miniatura. Estudei Spinoza que, partindo de definições e postulados fundamentais (baseado em Descartes), chega a construir um verdadeiro edifício de deduções sociológicas, intelectuais e científicas. Li Comte, Eça de Queirós, Vítor Hugo e tantos outros; só de literatura, eu comia era com farinha. Só na Bíblia e no Os Lusíadas não consegui penetrar com segurança (IBIAPINA, 2004, p. 75-76). [...] toda folgazinha que tem vai ler na Biblioteca. Parece que deixa até de trabalhar para ler. E o que é que ele faz com tanta leitura? [...] (IBIAPINA, 2004, p. 119) Na obra percebemos uma mistura de expressões regionais, e de textos mais eruditos, com referências a inúmeros campos do conhecimento e teóricos conhecidos, como, por exemplo, referências feitas a Sócrates. Assim o personagem ora abordado (Pau de fumo/ Chico da benta), é dotado de uma competência comunicativa, pois embora conhecedor singular das concepções que norteiam a sociedade, adequa seu discurso ao contexto situacional do qual fazia parte, diante disso podemos considerá-lo um indivíduo letrado, haja vista que possuía uma relação concreta com as práticas de linguagem. sociais e ideológicas do falante, assim relacionando linguagem e identidade tem-se o Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página A língua real, utilizada cotidianamente, representa as características culturais, 21 Considerações finais código como mecanismo identificador das especificidades de produção, como também evidencia-se o pluralismo linguístico, visto que o texto/discurso constroem a realidade. Portanto, através da linguagem é que o mundo constrói significação, conforme afirma Mey: A língua se relaciona com a sociedade porque é a expressão das necessidades humanas de se congregar socialmente, de construir e desenvolver o mundo. A língua não é somente a expressão da ‘alma’ ou do ‘íntimo’, ou do que quer que seja, do indivíduo: é, acima de tudo, a maneira pela qual a sociedade se expressa como se seus membros fossem a sua boca (et al, 1998, p. 77). Dessa forma, a construção da identidade através da linguagem obedece inúmeros fatores que delimitam as representações linguísticas no tempo e no espaço. Definir identidade linguística seria, então, caracterizar a relação entre indivíduo e sociedade, que acarretaria uma representação específica em determinado contexto espacial e temporal, também é importante ressaltar como as ideologias dominantes constituem valor aos enunciados, e como os falantes as utilizam no processo comunicativo. As palavras não possuem sentido absoluto, podem ser moldadas, assim, adquirindo o significado necessário àquela situação comunicativa, no dia a dia utilizamos de inúmeras sentenças que expressam a relação com o meio, produzindo um discurso mais despreocupado em algumas ocasiões, e um mais monitorado em outras, segundo as exigências sociais. Neste caso, o sentido não existe em si, mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio histórico em que as palavras são produzidas (ORLANDI, 2012). A produção de sentidos não é, portanto, uma prática individual, predeterminada, ou mera repetição, mas sim, um processo dialógico de interação entre indivíduo e sociedade, ou seja, a língua em uso, multifacetada e heterogênea. Bakhtin define que os discursos são peculiares a um estrato específico da sociedade – uma profissão, um grupo social, em um determinado contexto ou momento histórico (1929/1995). real manifestado em linguagem. Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página sentido e identidade através da construção discursiva, logo, temos a representação do 22 Dessa forma, a obra Palha de arroz dialoga com a história do Piauí, e (re) cria REFERÊNCIAS BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 6. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011. BARROS, Eneas. Nonon: o menino da Lagoa Grande. Teresina: Nova Aliança, 2012. BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Nós cheguemu na escola, e agora?:Sociolinguística & educação. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. BRANDÃO, Helena Nagamine. Introdução à análise do discurso. 2. ed. São Paulo: Editora da Unicamp, 2004. CALVET, Louis-Jean. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo: Parábola, 2002. CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. 3. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1942. CHAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso. São Paulo: Contexto, 2009. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 21. ed. São Paulo: Loyola, 2011. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011. IBIAPINA, Fontes. Palha de Arroz. 4. ed. Teresina: Oficina da palavra, 2004. MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). Manual de linguística. São Paulo: Contexto, 2008. MAINGUENEAU, Dominique. Discurso literário. São Paulo: Contexto, 2006. NASCIMENTO, Maria E. Freitas do. Sentido, memória e identidade no discurso poético de Patativa do Assaré. 2008. 134 f. Dissertação (Mestrado em Linguística). Universidade Federal de Pernambuco, Recife. ORLANDI, Eni Puccinelli. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 5. ed. Campinas, SP: Pontes, 2009. RABELO, Elson de Assis. A História entre Tempos e Contratempos: Fontes Ibiapina e a obscura invenção do Pìauí. 2008. 200f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013 Página PENNA, Maura Lúcia Fernandes. Identidade social, linguagem e discurso. 1997. 279 f. Tese (Doutorado em Letras e Linguística). Universidade Federal de Pernambuco, Recife. 23 _________. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 10. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2012. RAJAGOPALAN, Kanavillil. Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e a questão ética. São Paulo: Parábola Editorial, 2003. SIGNORINI, Inês (org.). Língua(gem) e identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1998. SPINK, M. J. P. (org.). Práticas discursivas e produção de sentidos no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas . São Paulo: Cortez, 1999. Página 24 Artigo aceito em julho/2013 Revista de Letras Dom Alberto, v. 1, n. 3, jan./jul. 2013